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a elevação da antiga colônia à categoria de reino. 
A mudança para o Brasil não era de resto uma questão nova. Ao longo 
de três séculos, essa hipótese já fora aventada, tendo em vista os constan-
tes atritos com a Espanha. Sempre que se avizinhava o perigo de uma 
guerra e da perda da autonomia portuguesa, a coroa considerava a alterna-
tiva de transferir-se para sua principal colônia, ficando assim longe dos 
azares da política européia. Além disso, com a transferência da sede do 
governo para o Brasil, a ameaça como que mudava de mão: imperador em 
um vasto território, o soberano português teria maiores condições de amea-
çar o império colonial espanhol e encher de inquietação as potências euro-
péias. 
Inicialmente pensou-se em uma solução intermediária: D. João, prínci-
pe regente desde a interdição da mãe, D. Maria I, em 1792, ficaria em 
Portugal, e enviaria para o Brasil o príncipe herdeiro D. Pedro, em compa-
nhia das infantas, com o título de Condestável do Brasil. Esse projeto 
entretanto não foi do agrado de D. João, que não queria abrir mão da 
coroa, herdada por morte do irmão mais velho e pela doença da mãe. A 
solução acabou sendo imposta pelos acontecimentos: diante das vacila-
ções de D. João, Napoleão assinou com a Espanha, em 1807, o Tratado de 
Fontainebleau, que dividia Portugal em dois reinos -- o da Lusitânia e o dos 
Algarves. O rei da Espanha, Carlos IV investia-se assim do título de protetor 
da Lusitânia e imperador das duas Américas, sob o domínio luso-espanhol. 
Diante da alternativa de enfrentar a França ou atrelar-se ao Reino Uni-
do, D. João preferiu a segunda hipótese, que lhe dava a esperança de 
salvar, ainda que na aparência, a soberania real, e manter a integridade da 
colônia sul-americana. Além de combater mais diretamente as ambições 
napoleônicas em relação ao Brasil, a coroa portuguesa abrigava-se em um 
refúgio inexpugnável, com apoio do Reino Unido. De fato, tão logo a família 
real embarcou para o Brasil, o marechal inglês William Carr Beresford ficou 
em Portugal, como Lord Protector, com poderes de soberano, e com a 
ajuda dos patriotas portugueses, enfrentou e expulsou os invasores france-
ses, comandados pelo general Jean Andoche Junot. Enquanto isso, o 
governo português instalou-se no Brasil, e não tardou em vingar-se de 
franceses e espanhóis pelas humilhações impostas pelo Tratado de Fontai-
nebleau: ocupou Caiena, na Guiana Francesa, em 1809, e Montevidéu, em 
1810. 
Chegada de D. João. A família real era composta pela rainha D. Maria 
I, o príncipe-regente D. João, sua esposa, D. Carlota Joaquina, o príncipe 
herdeiro D. Pedro, que acabava de completar nove anos de idade, o prínci-
pe D. Miguel, com apenas cinco, as cinco princesas filhas do casal, as 
princesas irmãs da rainha e o infante espanhol D. Pedro Carlos, irmão 
menor de D. Carlota Joaquina. A 22 de janeiro de 1808, o príncipe-regente 
aportava na Bahia, de onde, como primeiro ato, assinou a carta-régia de 28 
de janeiro de 1808, conhecida como Abertura dos portos às nações ami-
gas. Estipulava o documento, em suas duas cláusulas, que as alfândegas 
poderiam receber "todos e quaisquer gêneros, fazendas e mercadorias 
transportadas em navios das potências que se conservam em paz e har-
monia com a minha coroa, ou em navios dos meus vassalos"; e que não só 
os vassalos, mas os sobreditos estrangeiros poderiam exportar para os 
portos que quisessem todos os gêneros e produções coloniais, à exceção 
do pau-brasil e de outros notoriamente estancados, "a benefício do comér-
cio e da agricultura." 
Embora tendo aportado na Bahia, o príncipe-regente, por questões de 
segurança, decidiu fixar-se no Rio de Janeiro, cidade dotada de maior 
número de fortificações e onde ficaria menos exposto ao perigo francês. 
Mas não foi pacífica essa decisão. Era evidente a superioridade econômica 
da Bahia, onde floresciam prósperos engenhos de açúcar, lavouras de 
algodão, arroz, fumo e cacau, e uma promissora pesca da baleia. Assim, D. 
João teve de resistir aos apelos dos comerciantes baianos, que se propu-
nham até mesmo construir um palácio para abrigar condignamente a família 
real. 
O desembarque da família real no Rio de Janeiro, em 8 de março, foi 
realizado com pompa nunca vista. A cidade, que contava à época com 
apenas cinqüenta mil habitantes, engalanou-se como pôde, sob as ordens 
do vice-rei, o conde dos Arcos. As festas duraram nove dias. De todas as 
capitanias e até dos pontos mais afastados do interior, vieram governado-
res, bispos e outras autoridades. Imediatamente D. João tratou de instalar a 
alta administração: nomeou os titulares dos Ministérios do Reino, da Mari-
nha e Ultramar, da Guerra e Estrangeiros, criou o Real Erário, depois 
transformado em Ministério da Fazenda, e os conselhos de Estado, Militar e 
da Justiça, a Intendência Geral da Polícia, a Casa da Suplicação, o De-
sembargo do Paço, a Mesa da Consciência e Ordens, o Conselho da 
Fazenda, a Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação, o 
Juízo dos Privilégios, as chancelarias, as superintendências e outras repar-
tições de menor importância. Ficava assim montado o aparelho governa-
mental e ao mesmo tempo criavam-se empregos para o grande número de 
fidalgos que acompanharam a comitiva real na fuga para o Brasil. 
Estrutura do governo imperial. Ao lado dessa vasta e em muitos casos 
desnecessária rede burocrática, fundaram-se também estabelecimentos 
verdadeiramente importantes para a formação de uma elite civil e militar, 
como a Escola de Marinha, a Escola de Artilharia e Fortificações, a fábrica 
de pólvora, o hospital do exército, o arquivo militar, o Jardim Botânico, a 
Biblioteca Pública, a Academia de Belas- Artes, o Banco do Brasil (que 
estabeleceu a circulação fiduciária no Brasil), a Escola Médico-Cirúrgica da 
Bahia e a Imprensa Régia -- cujas máquinas tinham vindo em uma das 
naus da comitiva, e que inaugurou a primeira tipografia brasileira, já que as 
tentativas anteriores haviam sido destruídas à força, "para não propagar 
idéias que poderiam ser contrárias aos interesses do estado". 
Em setembro do mesmo ano começou a ser impressa a Gazeta do Rio 
de Janeiro, mera relação semanal de atos oficiais e anúncios. A verdadeira 
imprensa brasileira nascera um pouco antes, com o Correio Brasiliense, de 
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos 
Conhecimentos Gerais A Opção Certa Para a Sua Realização 16 
Hipólito José da Costa, impresso em Londres, e que foi a primeira grande 
trincheira contra o obscurantismo em Portugal e no Brasil. 
Para se ter uma idéia dos prejuízos que tal vezo obscurantista produziu 
no Brasil e o quanto impôs um descompasso em relação a outras partes do 
continente, basta ver que na América inglesa a primeira universidade, a de 
Harvard, foi fundada em 1636, pelos puritanos ingleses, para "estimular o 
ensino e perpetuá-lo para a posteridade". As primeiras universidades da 
América espanhola -- Lima, México, e Santo Domingo -- foram criadas no 
século XVI, segundo a ordem real de Carlos V, "para que os nossos vassa-
los, súditos e naturais tenham Universidades e Estudos Gerais em que 
sejam instruídos e titulados em todas as ciências e faculdades... para 
desterrar as trevas da ignorância". Da mesma forma, na América espanho-
la, os primeiros jornais datam do século anterior. 
 
O atraso cultural da colônia ao tempo da chegada da família real en-
contra seu equivalente no atraso material. Assim, por exemplo, a indústria 
de tecidos, que começara a se desenvolver com êxito na região sudeste, foi 
estrangulada por decisão da rainha D. Maria I, que em 1785 declarou 
extintas e abolidas todas as fábricas de têxteis na colônia. Esse decreto foi 
revogado por D. João em 1808, a par com outras medidas tendentes ao 
desenvolvimento