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PRATICA DA
TT7P A PT A
COMPORTAMENTAL
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Steiner, Gary
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Severo, José Camargo
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Roazen, Paul — Freud: Pensamento Político e Social
— Irmão Animal — A História de Freud e Tausk
Wolpe, Joseph - Prática da Terapia Comportamental
joseph wolpe
Professor de Psiquiatria da Escola de Medicina da
Universidade de Temple e do Instituto Psiquiátrico da
Pensilvânia
PRATICA DA
T T hT? à d t a
COMPORTAMENTAL
1? edição: 1976
2 a EDIÇÃO
editora brasiliense
1978
para ALLAN e DAVID
T ítu lo do original em inglês:
The Practice of Behavior Therapy (Second Edition)
Copyright ( c ) 19 73 by Pergamon Press Limited, England
Tradução:
WILLIAM GRAHAM CLARK Jr.
Revisão Técnica:
MARINA TSCHIPTSCHIN
Revisão Ortográfica:
WALDIR RODRIGUES CARRASCO
JOSÉ GENARO URSO
Capa:
MOEMA CAVALCANTI
PRE FÁCI O DA P R I M E I R A E D I Ç Ã O ........................................................ 9
P REF ÁCI O D A S E G U N D A E D I Ç Ã O ........................................................ 13
Capítulo 1 - In tro d u ção ............................ ................................................... 15
Perspectiva Histórica, 15. O Desenvolvimento da Terapia Comporta-
mental, 18. Por que a Terapia Comportamental?, 23.
Capítulo 2 — Fundamentos e Finalidades............................................... 29
Estímulos e Respostas, 29. Princípios Básicos da Aprendizagem, 31.
A Finalidade da Terapia Comportamental, 35.
Capítulo 3 — Investigando o Caso: Relações Estímulo-Resposta . . . 38
/ As Relações Estímulo-Resposta da Apresentação de Queixas, 38.
Histórico, de Fundo, 43. Alguns Exemplos de Entrevistas Iniciais, 45
Capítulo 4 — Orientação e Correção de Concepções Errôneas. . . . . 70
/
Capítulo 5 — Treino A firm a tiv o ........................................................ 97
Medidas Preliminares, 100. Instigando o Comportamento Afirm ativo,
101. Relacionamento (Lifemanship), 107. Ensaio Comportamental,
107.
Capítulo 6 — Dessensibilização S iste m á tica ............................................ 1 1 2
Introdução, 112. A Base Formal da Dessensibilização Sistemática,
113. Exposição Geral do Paradigma da Dessensibilização, 116. A
Técnica da Dessensibilização Sistemática, 121. Resultados da Dessen
sibilização Sistemática, 158.
Capítulo 7 — As Variações da Dessensibilização Sistemática.............. 163
Variações Técnicas do Procedimento-Padrão da Dessensibilização, 164.
Respostas Alternativas de Contra-Ansiedade para a Utilização com
Estímulos Imaginários, 169. Dessensibilização com o Uso de Estí
mulos Exteroceptivos à Ansiedade, 181.
Capítulo 8 — 0 Tratamento de Respostas Sexuais In ib id a s .............. 188
O Tratamento da Impotência, 189. O Tratamento da Frigidez, 198.
Capítulo 9 - 0 Uso de Drogas na Terapia Comportamental.............. 206
Usos Sintomáticos, 206. Usos Coadjuvantes de Drogas, 209. O Uso
de Drogas para o Descondicionamento Específico, 215.
Capítulo 10 — Procedimentos Envolvendo uma Forte Eliciação de
A n sie d ad e ................................................................................................. 220
"Inundação" Emocional, 221. Abreação, 230.
Capítulo 1 1 - Métodos Operantes de Condicionam ento.................... 234
Reforço Positivo, 235. Reforço Negativo, 243. Extinção, 244.
Capítulo 12 — Terapia de Aversão ........................................................... 246
Descrição das Técnicas, 250.
Capítulo 13 — Algumas Síndromes Especiais.......................................... 261
Agorafobia, 261. Medo de Sintomas, 263. Gagueira, 264. Depressão
Reativa, 266. Desvios Sexuais, 269. Neuroses de Caráter, 273.
Neuroses Obsessivas, 274. Obesidade, 276.
Capítulo 14 — Alguns Casos Com plexos................................................... 278
Medo de Sintomas, 279. Fobia por Automóveis, 283. Homossexua
lidade, 292. Pedofilia Homossexual, 296. Compulsão de se Lavar, 300.
Capítulo 15 - A Avaliação da Terapia Com portam ental................... 303
Estudos Clínicos, 304. Os Critérios da Mudança Terapêutica, 310.
Respostas a Algumas Objeções, 311.
Apêndices 1. Tabela de Personalidade de W illoughby.......................... 3 15
2. Questionário Revisado de Willoughby para a Auto-
-A dm inistração ....................................................................... 3 17
3. Inventário de Temores . . ' ................................................ 3 19
4. Escala S-S e Chave para Avaliação de Bernreuter . . . 323
A terapia comportamental, ou terapia de condicionamento, consiste
no uso de princípios experimentalmente estabelecidos de aprendizagem,
com o propósito de modificar um comportamento impróprio. Os hábitos
impróprios são enfraquecidos e eliminados; os hábitos adequados são
introduzidos e fortalecidos. O termo terapia comportamental, agora
popular, introduzido por Skinner e Lindsley (1954), deve a sua ampla
promulgação e aceitação a Eysenck (1959, 1960, 1965).
Antes do advento da terapia comportamental, a medicina psico
lógica era uma miscelânia de sistemas especulativos e métodos intuitivos
A terapia comportamental é uma ciência aplicada, de todas as maneiras
paralela a outras tecnologias modernas, e principalmente àquelas que
constituem a moderna terapêutica médica. As possibilidades terapêuticas
iiiiicliam da descoberta de relações legítimas de processos do organismo.
Uma vez que a aprendizagem é o processo mais relevante para a medicina
psicológica, o estabelecimento de relações legítimas para o processo de
nprondizagem é o principal caminho para a força terapêutica neste campo,
Contudo, o terapeuta comportamental não necessita confinar-se
ii mrttodos derivados de princípios. Para o bem de seus pacientes, emprega,
quando necessário, métodos que foram empiricamente constatados cdmo
fificiontes. O cólquico foi um remédio bem autenticado e amplamente
usado para ataques de gota bem antes da colquicina ter sido isolada,
ou do metabolismo da gota ter sido compreendido (Stetten, 1968). Da
10 P R Á T IC A DA T E R A P IA C O M P O R T A M E N T A L
mesma forma, na terapia comportamental atual, usamos uma mistura de
dióxido de carbono e oxigênio para aliviar a ansiedade difusa, sem conhe
cermos o mecanismo de sua ação. O critério é a existência de fortes evi
dências de uma relação entre a administração do agente e a mudança
clín ica. A menos que vá de encontro a este critério, nenhuma técnica
é clinicamente aceita. Mas, ao passo que em outros campos da medicina
a eficácia empírica é bastante fácil de ser estabelecida como, por exemplo,
quando um medicamento efetivamente cura uma infecção cutânea crônica
em poucos dias — na psicoterapia o problema é mais complexo. É neces
sário um grande cuidado para assegurar a especificação inequívoca da
técnica. Por exemplo, se interpretação for alegada como sendo uma
técnica eficaz, a natureza e as condições das interpretações devem ser
especificadas de modo exato. Uma dificuldade muito especial em avaliar
o quanto uma técnica psicoterápica contribui para a mudança, reside
no fato de que qualquerforma de psicoterapia produz um benefício subs
tancial em cerca de cinqüenta por cento dos casos, aparentemente devido
às reações emocionais inibidoras de ansiedade que os terapeutas evocam
nos pacientes. Portanto, uma determinada teoria deve ser, pelo menos
à primeira vista, eficaz além desse nível, para que possa ser ao menos
provisoriamente recomendada em bases empíricas. A ausência de
observação quanto a esta regra poderá levar à aceitação crédula de
qualquer coisa que seja sugerida, e de volta ao caos pré-científico de
prescrições, do qual os princípios tecnológicos modernos nos libertaram.
Dois temas têm sido recentemente proeminentes entre as críticas
proclamadas pelos oponentes da terapia comportamental. Um consiste
em que ela é "mecânica e não-humanista". Os dois adjetivos são geral
mente combinados como se pertencessem um ao outro, como o rosto
e a barba. Até o ponto em que a terapia comportamental depende de
mecanismos, ela é de fato mecânica. Mas ninguém pode com razão chamá-
-la de não-humanista. Não há nenhuma base para a idéia de que outros
tenham mais compaixão do que o psicoterapeuta comportamental.
A medicina interna não foi desumanizada quando a penicilina substituiu
a sangria como tratamento para as infecções; e não mais o é a psicote
rapia quando o condicionamento substitui a associação irrestrita. A preo
cupação do terapeuta com seus pacientes, e sua simpatia quanto a seus
sofrimentos não são dim inuídas pelo fato de ter sob o seu comando
métodos baseados no conhecimento de mecanismos.
A outra crítica é que há uma estreiteza de visão envolvida na ten
tativa de aplicar um “simples" modelo às complexidades da personalidade
humana (vide, por exemplo, Breger e McGaugh, 1965). Existem diversas
P R E F Á C IO 11
respostas. Primeiramente, o modelo estímulo-resposta não é simples.
Segundo, os métodos que este modelo gerou são evidentemente mais
eficazes na modificação da personalidade neurótica que as estruturas
mais complicadas que essas mesmas críticas favorecem. Como podem ser
"melhores” essas outras estruturas sem a validação dos testes experi
mentais, que nenhuma delas possui?
Este volume, A Prática da Terapia Comportamental, derivou de
minha contribuição pessoal a um livro anterior, Behavior Therapy
Techniques, por J. Wolpe e A. A. Lazarus, Pergamon Press (1966). Neste
novo livro, inclu í algum material adicional anteriormente não disponível.
A principal fonte de novas técnicas continuam sendo os paradigmas
experimentais descritos em minha monografia original, Psychotherapy
by Reciproca! Inhibition (Stanford University Press, 1958). A ênfase
recai muito sobre o tratamento das neuroses. Há relatos acrescentados
sobre as variações da dessensibilização sistemática, o tratamento da
frigidez, a terapia de aversão, técnicas de "inundação”, o uso de drogas,
e um capítulo sobre o condicionamento operante. Os diversos casos
ilustrativos incluem quatro de caráter complexo dados na íntegra.
Sou grato àquelas que ajudaram na parte literária da produção
do livro — Sra. Barbara Srinivasan, Sra. Aviva Wanderer, e minha
esposa; e também ao meu velho amigo e colega, Dr. L. J. Reyna, o qual,
como tantas vezes no passado, tem sido uma fonte de informações e
de idéias.
Prefácio
da 2 ª edicão
✓
Nos três anos passados desde a publicação da primeira edição deste
livro, a terapia comportamental continuou avançando impressionante
mente em todas as frentes. A atividade de pesquisa multiplicou-se, de
modo que dois novos jornais surgiram para contê-la — o Journal of
Behavior Therapy and Experimental Psychiatry e o Behavior Therapy)
e tem havido um aumento considerável nos oferecimentos educacionais
de departamentos psiquiátricos de universidades e divisões de psicologia
clín ica. Todavia, a quantidade de treino sistemático prático disponível
está muito aquém da demanda e os livros continuam a ter um papel
pedagógico incomumente grande.
O empenho nas pesquisas tem sido intenso. Ao preparar um retros
pecto da terapia comportamental, Krasner (19 7 1) encontrou 4.000 títulos
para trabalhar. As descobertas desta pesquisa, de modo geral, continuaram
;i confirmar a eficácia das práticas da terapia comportamental, demons
trando cada vez mais, tanto direta como indiretamente, a relevância
0 força de seus princípios básicos, originalmente relatados no Science and
Human Behavior de B. F. Skinner, e no meu Psychotherapy by Reciprocai
Inhibition. Têm havido importantes análises dos componentes dos proce
dimentos terapêuticos (como Paul, 1966; Lang, Melamed e Hart, 1970)
(! dos mecanismos pelos quais se supõe que a mudança ocorre (como
1 ader e Mathews, 1969; Van Egeren, Feather e Hein, 19 7 1).
14 P R Á T IC A DA T E R A P IA C O M PO R T A M EN T A L
Esta edição é bastante diferente da primeira. As partes do texto
que permaneceram foram intensamente revisadas. Algumas seções dos
primeiros capítulos foram reajustadas para melhorar sua ordem lógica,
e outras foram remodeladas e aumentadas para maior clareza. Novos
materiais de casos foram acrescentados a capítulos clínicos. Muitas
técnicas novas são descritas, e algumas antigas foram substituídas.
As mudanças que merecem uma menção especial são: uma completa
exposição do treino afirmativo, um relato modernizado da dessensibili
zação sistemática, a adição de diversas variantes da dessensibilização, uma
descrição de recente pesquisa em inundação e novas indicações para ela,
um tratamento prolongado de métodos operantes de condicionamento,
uma descrição grandemente esclarecida da terapia de aversão, e um novo
capítulo dando consideração a síndromes especiais como a homossexua
lidade, neuroses de caráter, e depressão reativa.
Agradeço ao Dr. David A. Soskis pelos seus comentários incisivos
que levaram a muitas mudanças benéficas desta edição, à Sra. Barbara
Srinivasan, por sua habilidade ao lidar com o "quebra-cabeças" das peças
novas e antigas, e à minha secretária, Sra. Betty Jean Srnith, por sua
datilografia sempre correta e bonita.
J. W O LPE, Doutor em Medicina
capítulo 1
Introdução
Um hábito é uma forma compatível de resposta à condições esti
muladoras definidas. Normalmente um hábito declina — é extinto —
quando as suas conseqüências se tornam impróprias, isto é, quando deixa
de servir às necessidades do organismo ou de evitar ferimentos, dor ou
fadiga. Alguns hábitos impróprios, por diversos motivos, deixam de se
extingüir; e são estes que se tornam problemas terapêuticos. A terapia
comportamental consiste em aplicar princípios experimentalmente esta
belecidos para superar estes hábitos impróprios persistentes, considerando
todo o alcance das ciências comportamentais, se necessário for, para se
obter princípios relevantes.
PERSPECTIVA HISTÓRICA
Embora o terapeuta comportamental moderno aplique delibera
damente os princípios de aprendizagem em suas operações terapêuticas,
as prescrições terapêuticas envolvendo o comportamento são provavel
mente tão antigas quanto a civilização — se considerarmos a civilização
como tendo sido iniciada quando o homem pela primeira vez fez coisas
para promover o bem-estar de outros homens. Desde o tempo em que
isso se tornou um aspecto da vida humana, devem ter existido ocasiões
16 P R Á T IC A DA T E R A P IA C O M P O R T A M E N T A L
em que um homem se queixou de seus males a outro, que o aconselhou
e persuadiu quanto a um determinado procedimento. Isto poderia ser
considerado como uma terapia comportamental na medida em que o
próprio comportamento fosse concebido como o agente terapêutico.
Os documentos antigos contêm inúmeros relatos de conselhos
terapêuticos que constituem a terapia comportamental neste sentido,
mesmo que fossem ineficazes. Mas, dificilm ente podemos duvidar que,
não raramente, algo da terapia de fato funcionou, mesmoque nem sempre
da maneira que o conselheiro acreditava. Muitas vezes, certamente, houve
efeitos de "sugestão” ou efeitos de "placebo", em virtude de respostas às
quais as palavras ou coisas foram previamente condicionadas; e às vezes,
as mudanças instigadas no comportamento teriam levado ao recondicio-
namento, com conseqüências benéficas para os estados emocionalmente
perturbados.
Apesar da depreciação que sofre geralmente, Mesmer (1779) merece
a nossa saudação como certamente o primeiro terapeuta a basear os seus
esforços e mudança de comportamentos num princípio comportamental
geral. Embora esse princípio não tenha resistido aos testes científicos,
ele gerou procedimentos que foram freqüentemente bem sucedidos.
Seus elementos essenciais foram posteriormente elucidados pelas pesquisas
de Puysegur, Bernheim e outros investigadores recentes, e foram a fonte
de origem de técnicas posteriores de sugestão e hipnose (e outras formas
de controle verbal do comportamento) que continuaram a tomar parte
na terapia comportamental — e que provavelmente sempre continuarão.
As formas clássicas de sugestão são concebidas para substituir o
comportamento indesejável pelo desejável, por prescrição verbal direta.
Como agora parece, quando isto funciona é porque a nova resposta
compete com a antiga e, se predominar, ela inibe a última. Quando, ime
diatamente ou após a repetição, isto é seguido da diminuição (ou elim i
nação) da velha resposta, nós temos um exemplo de inibição condicionada
baseada na inibição recíproca. Se as práticas padronizadas de hipnoterapia
não foram impressivas em seus resultados a longo prazo, é provavelmente
porque não trouxeram as respostas sugeridas em oposição efetiva com
àquelas que deviam ser eliminadas.
Um exemplo antigo de um uso menos direto de respostas compe
titivas que se aproxima admiravelmente de algumas práticas modernas,
foi recentemente desenterrado por Stewart (19 61) de um velho livro de
Leuret (1846). O paciente fora um comerciante de vinhos de trinta anos
de idade com um histórico de dez anos de pensamentos obsessivos que se
tornaram tão insistentes que deixara de ser capaz de prosseguir com seus
IN TR O D U Ç Ã O 17
negócios. Tendo enviado o paciente ao hospital, Leuret ordenou-lhe que
lusse e aprendesse canções que pudesse apresentar no próximo dia. A ração
de comida do paciente dependeria do quanto ele aprendera. Este regime
prosseguiu por cerca de seis meses durante os quais os recitais do paciente
progrediram continuamente. Entrementes, seus pensamentos obsessivos
interferiam cada vez menos e ao final de seis semanas ele disse a Leuret
que não tivera os pensamentos por diversos dias e que se sentia muito
melhor. Leuret arranjou-lhe um trabalho como enfermeiro, e um ano
mais tarde notou'que ele ainda estava bem e que era um ótimo enfermeiro.
Outros exemplos de operações clínicas deste precursor da terapia
comportamental moderna foram recentemente publicados (Gourevitch,
1968; Wolpe e Theriault, 19 7 1).
O terapeuta do século X IX teve algumas linhas de orientação
ompírica para suas técnicas, mas cada incursão terapêutica fora uma
«xperiência cujo resultado não poderia ser previsto. As obras de Sigmund
I teud introduziram um novo sistema de métodos terapêuticos baseados
em princípios teóricos detalhados e coerentes. Por estranho que pareça
para alguns no presente contexto, este sistema foi verdadeiramente o
lipo mais compreensivo de’ terapia comportamental que jamais esteve
anteriormente disponível; pois, não importa o que se diga da teoria,
foi através do comportamento, e apenas dele, que Freud partiu para
tiazer a mudança terapêutica. Novamente, foi através do comportamento
que as suas técnicas foram destinadas a atingir as suas metas terapêuticas.
Na verdade, elas não obtiveram o aumento esperado em resultados
lavoráveis e previsíveis, mas a estrutura teórica admiravelmente engenhosa
e colorida sobre a qual Freud as baseou, e sua estranha persuasão na
«xposição de seus pontos de vista trouxeram um excitamento ao campo,
que tornou o tópico muito mais atraente do que jamais parecera antes.
Não obstante, durante a primeira metade do século vinte, em termos
de avanço científico, nenhum outro campo de conhecimento permaneceu
nuiis estagnado do que a terapia comportamental. Nenhuma hipótese
tinha sido apresentada para ser testada; nenhuma relação legítima foi
Rstabelecida; e não existiam quaisquer regras seguras na busca da mudança
Imapêutica. A explicação para isto é que a terapia moderna é uma
ciência aplicada; e a terapia comportamental não poderia entrar no
mundo da ciência antes que tivesse embasamento suficiente nos estudos
brtíicos de laboratório experimental.
18 P R Á T IC A DA T E R A P IA CO M PO R T A M EN T A L
O DESENVOLVIMENTO DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
CIENTÍFICA
Eventualmente, à medida que os estudos do comportamento normal,
principalmente no laboratório, revelavam mais e mais sobre os fatores
determinantes da aquisição, eliciação, manutenção, e declínio de hábitos,
alguns desses conhecimentos prestaram-se à construção de hipóteses
para explicar características especiais de certos tipos de comportamentos
anormais. Algumas dessas hipóteses resistiram posteriormente a testes
de observação, e adquiriram portanto caráter científico.
A terapia comportamental teve a sua origem conceituai em 1920,
na famosa experiência de Watson e Rayner com o Pequeno Albert.
Quando a criança tinha sido condicionada para temer um rato branco
e, por generalização, outros objetos peludos, eles sugeriram que o condi
cionamento poderia ser superado de quatro maneiras possíveis: pela
extinção experimental, por atividades “construtivas em tórno do objeto
temido, pelo "recondicionamento” dando doces à criança na presença
do objeto temido, ou provocando uma competição com o temor, esti
mulando-se as zonas erógenas na presença do objeto temido. As últimas
três dessas sugestões estão todas num modelo de contracondiciona-
mento, mas nenhuma delas foi tentada, porque Albert deixou o
hospital.
Alguns anos depois, uma das sugestões de Watson e Rayner foi
adotada por Mary Cover Jones (1924), associada a fobias de crianças.
Ela descreveu o método que empregou da seguinte maneira:
Durante um período de desejo por comida, a criança é colocada
numa cadeira alta e recebe algo para comer. O objeto temido é
trazido, iniciando-se assim uma reação negativa. Ele é afastado
gradualmente até que esteja a uma distância suficiente para não
interferir na alimentação da criança. A força relativa do impulso
do temor e o impulso da fome poderá ser medida pela distância
necessária para remover o objeto. Enquanto a criança está comendo,
o objeto é lentamente aproximado da mesa, colocado sobre ela
e finalmente, à medida que a tolerância aumenta, ele é trazido
o bastante próximo para ser tocado. Uma vez que não poderíamos
interferir na escala regular de refeições, escolhemos a hora do lanche
do meio da manhã para a experiência. Isto, de modo geral, assegurou
um certo grau de interesse pela comida e o sucesso correspondente
em nosso tratamento.
INTRODUÇÃO 19
Os detalhes da utilização deste método são ilustrados (Jones, 1924b)
pulo caso de um menino, Peter — "um de nossos casos problemáticos
mais sérios" que se recuperou depois de um tratamento diário durante
um período de dois meses. Jones esteve claramente ciente do papel da
fome para superar o hábito do temor, observando que a eficácia do
mótodo aumentava quando a fome era maior, e que "a apresentação
mputida do objeto temido, sem qualquer tentativa auxiliar de eliminar
n lemor, seria provavelmente mais capaz de produzir um efeito de
snmação que uma adaptação."
T a is observações, indicando as relações legítimas entre os fenômenos
em questão, dão a seu trabalho um lugar honroso na história do desenvolvimento de técnicas deste tipo. Mais ou menos na mesma época,
Hurnham (1924), partindo de uma orientação diversa, também propunha
ii uso de um comportamento neutralizante como agente de mudança de
hábito. A consciência de fatores relevantes não foi compartilhada anos
tlipois por Herzberg (19 4 1) e Terhune (1948) que também fizeram uso
(Ir t i iK ífa s gradativas na terapia de pacientes neuróticos.
Nesse meio tempo, o mais estudado processo de eliminação de
hábitos foi — e continua sendo — a extinção experimental: o decréscimo
ui mi lu,il de força e freqüência das respostas que se seguem à sua eliciação
não reforçada. Dunlap (1932) investigou as possibilidades terapêuticas
i IhsH' processo e desenvolveu a técnica chamada "prática negativa", em
que os hábitos motores indesejáveis são superados garantindo-se sua
elii iflçfío repetida. Quase ao mesmo tempo, Guthrie (1935) observou
a aplicabilidade terapêutica geral do método de contracondicionamento
t|UB Jones demonstrou, afirmando que a regra mais simples para romper
t?om um hábito é "descobrir os sinais que iniciam a ação e aplicar uma
mitra resposta a esses sinais" (Guthrie, 19 35 , p. 138). Ele salientou a
uBt BNsidflde de controlar a situação de maneira tal que o "sinal" da res-
jhisiéi oii(|inal esteja presente enquanto "outro comportamento prevalece".
() pagso seguinte ocorreu quando o princípio de Guthrie foi aplicado
a neumsos experimentais inicialmente produzidas nos laboratórios de
^gylnv no começo do século X X , e muitas vêzes posteriormente.
I m virtude do comportamento de animais neuróticos ser marcada-
mente diferente do normal e, além disso, excessivamente persistente,
fedoi os antigos experimentalistas compartilhavam da opinião de que
aiyuni tipo de lesão ou fisiopatologia era a base dessas neuroses. Os pesqui-
lldores russos acreditavam que essa opinião fosse apoiada verificando-se
(jU9 em certos exemplos as neuroses eram superadas administrando-se
an§ animais drogas calmantes ou estimulantes. Contudo, em 1943,
20 PRÁ TICA DA TER A P IA COM PORTAMENTAL
bases para discordar deste ponto-de-vista surgiram. Masserman, no decurso
de uma série fascinante de experiências em gatos tornados neuróticos
tomando choques elétricos numa pequena gaiola, observou que as neuroses
poderiam ser superadas se os animais pudessem ser induzidos a alimen
tarem-se naquela gaiola. O fato de que a simples evocação do padrão de
comportamento de comer poderia 'curar' as neuroses forneceu evidências
contra a teoria de lesão, e o fato de que para obter a mudança de compor
tamento esta teria de ser feita dentro da gaiola experimental (em contraste
com a gaiola em que viviam) sugeriu que se tratava de aprendizagem
em ação. Devemos dizer que essas não foram as conclusões de Masserman
que, profundamente imerso no pensamento "psicodinâmico'', interpretou
o fato em termos de ''abrir caminho através do conflito motivacional''.
— um ponto de vista cuja inadequação foi apontada diversos anos mais
tarde (Wolpe, 1956).
O outro requisito foi o de testes de planejamento para a hipótese
da aprendizagem. Para começar, foi necessário definir a aprendizagem
com certa exatidão. Foi adotada a seguinte definição:
Podemos dizer que a aprendizagem ocorreu se uma resposta tiver
sido eliciada numa contigüidade temporal com um estímulo senso
rial dado, e é posteriormente verificado que o estímulo pode eliciar
a resposta embora não pudesse tê-lo feito anteriormente. Se o
estímulo pudesse ter eliciado a resposta anteriormente mas, subse
qüentemente, o eliciasse mais fortemente, então, também, pode-se
dizer que ocorreu a aprendizagem (Wolpe, 1952a).
Foram feitos então diversos prognósticos a serem necessariamente
cumpridos se o comportamento neurótico fosse realmente aprendido.
Se estes não fossem cumpridos, a hipótese da aprendizagem deveria ser
abandonada. Eles foram:
(1) 0 comportamento manifestado numa neurose experimental
deve ser essencialmente idêntico àquele eliciado pela situação estimu
ladora que precipita a neurose.
(2) O comportamento neurótico deve estar em seu ponto mais
intenso quando o animal é exposto a estímulos muito semelhantes àqueles
em cuja presença a neurose foi precipitada e a intensidade deve decrescer
em função direta da semelhança decrescente (conforme o princípio da
generalização do estímulo primário).
(3) A desaprendizagem de um hábito neurótico deve ocorrer em
circunstâncias como aquelas que produzem a desaprendizagem em outros
contextos, isto é, a extinção e/ou contracondicionamento.
INTRODUÇÃO 21
Cada um desses prognósticos foi submetido a testes experimentais1
mu 1947 (Wolpe, 19 5 2 , 1958) em neuroses de gatos produzidas por
ohoques de alta voltagem e baixa amperagem numa gaiola experimental
semelhante àquela usada por Masserman, e cada prognóstico foi confir
mado. Em todos os animais os aspectos das respostas foram duplicados
nas respostas das neuroses; a intensidade da resposta neurótica decrescia
â medida que o ambiente a que o animal neurótico foi exposto era menos
semelhante àquele da gaiola experimental e, enquanto as reações não
podiam ser superadas pelo processo de extinção (parcialmente, parece,
iInvido à pequena quantidade de inibição reativa eliciada pelas respostas
autônomas — Wolpe, 1958), foi possível eliminá-las através da inibição
recíproca de respostas de ansiedade fracas, pela alimentação. Os animais
sei iam primeiramente alimentados num lugar onde apenas uma ligeira
ansiedade surgisse — por estímulos remotos num contínuo de genera
lização — e quando a ansiedade desaparecia avançava-se no contínuo.
Tendo o acima exposto fornecido alguma certeza de que as neuroses
experimentais eram aprendidas, a próxima proposição a ser testada foi
a de que as neuroses humanas eram paralelas em relação aos três aspectos
em questão: a aquisição pela aprendizagem, a generalização de estímulos
primários, e a eliminação pela desaprendizagem.
A respeito do primeiro, foi feito um estudo sobre os antecedentes
históricos dos 'sintomas' nos casos clínicos de neuroses. Numa grande
prnporçffo foi obtido um histórico claro da época do aparecimento de
respostas específicas. Nesses casos, o paciente se recordou de uma deter
minada ocasião de grande aflição, ou do surgimento repetido de ansiedade
numa situação periódica envolvendo, por exemplo, um pai ameaçador
mi um professor hostil. Foi invariavelmente constatado que as reações
neuiótlcas cujas origens poderiam ser datadas de tais experiências, passa-
lani ,1 sor eliciáveis por estímulos semelhantes àqueles que foram a vanguar
da nas situações precipitantes [embora outros estímulos posteriormente
§# tornassem eficazes em muitos casos, através do condicionamento de
iegunda ordem (vide Wolpe, 1958)].
Tornou-se também evidente que as reações neuróticas humanas
niiHtlicem ao princípio da generalização do estímulo primário (Wolpe,
1961a). Como nas neuroses de animais, a sua intensidade é deter
minada pelo grau de semelhança do estímulo eliciador a um estímulo
itn itfll que é muitas vezes correspondente ao estímulo condicionado
utiginal. Num caso em particular, poderão existir diversas classes, não
leia. ionmlas fisicamente, de estímulos eliciadores de ansiedade, tendo
• mia um dos quais, verificando-se no exame, um zénite e um gradiente
22 PR Á TICA DA TER A P IA COMPORTAMENTAL
de generalização. Os elementos graduados de um gradiente constituem
uma hierarquia. No homem há geralmente hierarquias baseadas nas seme
lhanças de efeitos interiores (generalização secundária) — "Generalização
mediada" de Osgood. Por exemplo, situações fisicamente dessemelhantes
poderão ter um tema de rejeição em comum, e até o ponto em que o
paciente é perturbado pela rejeição, as situações poderão ser colocadas
numa ordem hierárquica determinada pela força relativa das respostasque elas eliciam. Tomando um exemplo em particular, em outra área
(Wolpe, 19 61), uma paciente com claustrofobia teve também reações
claustrofóbicas em situações em que tinha uma simples "sensação" de
estar envolvida, por exemplo, um "zipper" apertado, ou o desejo de
remover o esmalte da unha sem ter acesso a algum removedor (Ver
Capítulo V II).
No que concerne à terceira questão — o papel da aprendizagem
na recuperação de neuroses humanas — pode-se dizer o seguinte: como
as neuroses de animais, as neuroses humanas não são facilmente extin-
guíveis pela eliciação repetida das reações neuróticas. A primeira evidência
de que elas podem ser superadas pelo contracondicionamento gradativo
foi o tratamento por Mary Cover Jones de fobias em crianças já citado
(pag. 18) cuja técnica foi quase idêntica àquela usada para superar as
neuroses de animais. Em anos recentes, as neuroses humanas de adultos
têm sido tratadas por métodos que empregam outras respostas, além
da alimentação, pàra a inibição recíproca e o contracondicionamento
da ansiedade (Wolpe, 1958; Eysenck, 1960); e esses são os principais
temas deste livro.
Os fatores invocados para responder as perguntas sobre as neuroses
humanas têm sido essencialmente 'clínicos', mas até o ponto em que as
observações têm sido consistentes, e têm sido confirmadas por observa
dores independentes, podemos dizer que a hipótese de aprendizagem
de neuroses esclareceu as suas primeiras barreiras, e que pode ser quali
ficada como uma hipótese científica.
Mas as observações experimentais adequadamente controladas
são necessárias. Embora haja muito a fazer, alguns dados já estão dispo
níveis, e todos eles estão de acordo com as descobertas clínicas. As expe
riências de produção de neuroses humanas são, naturalmente, consideradas
com hesitação, senão com temor e, portanto, não é de surpreender que
apenas três possam ser citadas. Uma foi a, anteriormente mencionada
experiência de Watson Rayner (1920). A segunda foi a inundação de
neuroses experimentais, por Krasnogorski (1925), em crianças, expondo-as
a estímulos ambivalentes em relação ao condicionamento de reações
INTRODUÇÃO 2 3
alimentares — um procedimento muito semelhante a uma técnica comum
para produzir neuroses experimentais nos laboratórios de Pavlov (Pavlov,
1927). Finalmente, Campbell, Sanderson e Laverty (1964) demonstraram
(embora não num contexto de produção de neuroses) que as respostas
de ansiedade marcantes podem ser condicionadas por uma única pressão
severa devida à paralisação respiratória e ademais que a eliciação posterior
da resposta condicionada na ausência da tensão é associada com a força
aumentada, ao invés do enfraquecimento que é geralmente encontrado
om tais circunstâncias. A observação deles está de acordo com uma expe-’
riência clínica comum com as neuroses (Wolpe, 1958, pag. 99). i
É muito mais apropriado executar experimentos terapêuticos, e
um rendimento crescente de estudos de processos está agora em evidência.
Por exemplo, Lang e Lazovik (1963), Lang (1964), e Lang, Lazovik e
Reynolds (1965) em estudos controlados sobre a dessensibilização de
fobias de cobras, verificaram que a mudança terapêutica é aparentemente
divida ao procedimento do condicionamento, e não pode ser atribuída
à sugestão, "rapport" ('transferência'), ou relaxamento muscular; e
Hitchman (1965) e Davison (1965) demonstraram ambos que o procedi-
mnnto da dessensibilização é significativamente mais eficaz que a apresen-
lação de cenas, ou o relaxamento apenas. No campo da terapia, que
emprega o concionamento operante, os estudos de processos já são nume-
mios. Um número considerável deles foi reunido por Krasner e Ullman
(1965), Franks (1965), Eysenck (1964), e Ulrich, Stachnik e Mabry
(1006, 1970).
PORQUE TERAPIA COMPORTAMENTAL?
O aspecto mais distinto da terapia comportamental é o comando
* 1*ir ola dá ao terapeuta tanto no planejamento da estratégia geral da
terapia quanto no controle de seus detalhes à medida que prossegue.
•Hiando um tipo de manobra falha em obter a mudança, outro é tentado,
*Ib acordo com indicações apropriadas, cada variação sendo uma aplicação
He um princípio experimentalmente estabelecido. Quando há sinais de
■|hb a manobra está inibindo as respostas de ansiedade a estímulos dados,
es§n niiinobra é usada sistematicamente para derrubar o potencial eliciador
cie anilodade desses estímulos. A especificidade do efeito é muitas vezes
eMiemiimente clara, como demonstrado, por exemplo, num estudo
■ le um cíiso experimental envolvendo uma fobia de automóveis multi-
fa< rim l,i (reproduzida no Capítulo 14). Também foi demonstrado (Wolpe,
2 4 PRÁ TICA DA TER A P IA COM PORTAMENTAL
1963) que nos casos de fobias clássicas tratadas pela terapia de dessensi
bilização, há uma conexão matemática entre o número de apresentações
de cenas e o grau de recuperação obtido (vide Capítulo 6).
O poder de intervir racional e previsivelmente faz um grande con
traste com a incerteza da posição convencional do terapeuta. Uma vez
que o último dirige seus procedimentos num "processo interior" que
ele considera como responsável pelo comportamento impróprio, ao invés
de trabalhar no próprio comportamento, ele só pode permanecer ao lado,
passivamente, e esperar que efeitos comportamentais favoráveis resultem
de seus esforços.
Portanto, na literatura convencional sobre a psicoterapia, muito
foi atribuído ao relacionamento paciente-terapeuta. Uma crença ampla
mente predominante é a de que a qualidade do relacionamento terapêu
tico é mais básico ao resultado terapêutico que os métodos e técnicas
específicas do terapeuta, e isto é provavelmente verdadeiro nas terapias
convencionais. Como Frank (19 61) demonstrou, um relacionamento,
no qual o terapeuta é capaz de mobilizar a expectativa de ajuda e o desejo
de alívio do paciente é por si mesmo, um poderoso instrumento tera
pêutico. É provavelmente porque as terapias convencionais dependem
praticamente todas do relacionamento, que todas elas atingem os mesmos
resultados (Eysenck, 1952). Os procedimentos da terapia comportamental
têm efeitos adicionais àqueles efeitos relacionais que são comuns a todas
as formas de psicoterapia.
A prática da terapia comportamental pode ser, portanto, encarada
como um meio de "duplo efeito" para aliviar a aflição neurótica (ver
Capítulo 15).
Os estudos estatísticos dos efeitos da terapia comportamental
por terapeutas competentes demonstraram que quase 90 por cento de
recuperação ou progressos marcantes poderão ser esperados entre pacientes
que foram expostos em medida razoável aos métodos comportamentais.
Esses estudos são resumidos no Capítulo 15 , onde são também compa
rados com estatísticas de outras terapias. As comparações são claramente
favoráveis à terapia comportamental, mas vulneráveis à crítica quanto
à falta de controle. Os resultados de alguns estudos bem controlados dos
efeitos, entretanto, rendem também decisivamente para o lado da terapia
comportamental. Um ponto que deve ser enfatizadó é o de que a terapia
comportamental é eficaz em todas as neuroses e não apenas em fobias
esporádicas.
No conjunto, há motivos para a confiança na prática da terapia
comportamental. Ela é baseada na biologia e seus princípios e práticas
INTRODUÇÃO 2 5
§üo determinados pelas regras da ciência. Seus resultados clínicos são
encorajadores. E ela ainda está em seu início. Os métodos utilizados
hojo em dia parecerão muito toscos daqui a uma ou duas décadas.
ISidomos antecipar a realização da expectativa de Reyna (1964) de que
a-, aplicações mais rigorosas das leis de aprendizagem tornarão as terapias
tlp condicionamento inclusive mais eficazes e ampliarão sua utilização
a um raio maior de problemas comportamentais."
A razão de ser da psicoterapia é a suposição de que ela pode superar
* Mitostipos de sofrimentos humanos. Os sintomas neuróticos e as inabili-
ilaili", relacionadas são a origem mais comum do sofrimento pelo qual
us p.icientes procuram o auxílio psiquiátrico. A aflição que o paciente
hemrttico traz ao terapeuta, para a resolução é tão real e pungente quanto
sei la se fosse devida a um mal orgânico. O critério mais importante do
lucpsfb terapêutico é o alívio duradouro de sua perturbação. É de pouco
euntolo dizer a um paciente cujas ansiedades neuróticas permanecem
nifi diminuídas após o tratamento, que ele está curado porque sua perso-
naliil.ide amadureceu.
Uma conseqüência da percepção de que o comportamento neurótico
i apiundido, é que ela coloca a responsabilidade da recuperação do
nai ifiute inequivocamente nas mãos do terapeuta, em contraste com o
de vista que emana da mística psicanalítica, de que o paciente é
fi8|ionsável pelos fracassos de seu tratamento (a presunção sendo de que
B isiapeuta não falharia senão pela resistência hostil do paciente!). O fato
ê que, se o paciente deixar de progredir apesar de sua cooperação diligente
fins |Mogramas de tratamento nele aplicados, devem existir razões técnicas
B § f i isto. Talvez tenha havido uma análise imperfeita do caso, ou as
Èéenirãs tenham sido aplicadas inadequadamente, ou nenhuma das técnicas
dfS|inníveis possa oferecer uma solução a seu caso em particular.
(iuando um terapeuta comportamental se encontra sem uma estra
tégia eficaz, deve admiti-lo francamente ao paciente, embora possa muitas
I f f i i continuar '.'sustentando" que espera que o tempo e novos conheci-
r*teni. i =, possam trazer uma solução. Tem havido diversos casos com os
f|Uflji jonho mantido contato após ter queimado meu cartuchos, e aos
i p i i l fiosteriormente apliquei novos métodos, à medida que surgiam, geral
mente com bons resultados mais cedo ou mais tarde.
Algumas conseqüências importantes fluem da aceitação da respon-
fS tiilif J id e pelo terapeuta comportamental , quando o tratamento falha.
i !u livr.i o paciente da agonia de ser culpado por "resistir” à recuperação,
flãs «livlersas maneiras que o psicanalista popularizou. Outra conseqüência
I fjUs é) terapeuta comportamental não utiliza insistentemente uma deter-
26 PR Á TICA DA TER A P IA COM PORTAM ENTAL
minada técnica porque ele "sabe" que é certa e que "deve" ser bem
sucedida, se o paciente assirn o permitir. Só quando há evidência de
mudanças, o terapeuta comportamental se sente justificado a utilizar
a mesma técnica.
Alguns problemas morais são trazidos por pacientes. Uma boa parte
deles questiona quanto à moralidade do comportamento afirmativo,
quando este é necessário. Eles poderão ser tranqüilizados de diversas
maneiras. Uma aproximação útil tem sido a de indicar que existem três
aproximações diretas possíveis para a condução das relações interpessoais.
A primeira é considerar a si mesmo apenas, e não ter consideração para
com os demais, se necessário, para se conseguir o que deseja. A personali
dade psicopática é a expressão extrema dessa atitude básica e muitas
vezes, é claro, colide com a sociedade. Ele se comporta de maneira anti-
-social porque, aparentemente, não foi condicionado para sentir culpa
ou ansiedade em situações em que a maioria das pessoas sente. O resul
tado é que ele muitas vezes se lança sobre a sociedade. A segunda aproxi
mação possível nas relações interpessoais é a de sempre colocar as outras
pessoas antes de si. Tal altruísmo é o extremo oposto da personalidade
psicopática. As pessoas que seguem esta política ficam freqüentemente-
emocionalmente perturbadas, seus .sentimentos oscilando entre a culpa de
deixar de cumprir seus padrões de abnegação, e a falta de realização que
resulta da auto-abnegação. Não menos que aquele do psicopata, embora
de forma diferente, o seu comportamento tem resultados infelizes. O dizer
talmúdico, "Se eu não me valer, quem me valerá?" reconhece a verdade
biológica de que o bem-estar do organismo inicia com sua própria integri
dade. A terceira aproximação é o meio termo, dramaticamente transmi
tido nesta citação mais ampla do Talmude: "Se eu não me valer, quem
me valerá? Mas se eu valer a mim apenas, então o que sou eu?" O indi
víduo se coloca em primeiro plano, mas leva os demais em consideração.
Ele age de acordo com as exigências da vida social, enquanto aquiesce
ao princípio biológico de que os ajustamentos do organismo individual
servem principalmente às necessidades e ao indivíduo, e não àquelas
dos demais. Ele cumpre as suas obrigações para com o grupo, mas reivin
dica e está preparado para defender aquilo que crê serem seus direitos
razoáveis.
Com base nesta filosofia prática, decidir qual comportamento é
adequado a circunstâncias especiais é geralmente uma questão simples.
Apesar de que a maior parte do comportamento resultante seria aceitável
para pessoas de diversas formações e crenças religiosas, há ocasiões em
que surgiriam discordâncias. Por exemplo, se uma infelicidade crônica
INTRODUÇÃO 27
resultar de um casamento insatisfatório e todos os esforços para retificar
a situação tiverem falhado, é razoável e humano aconselhar o paciente
ao divórcio, uma vez que o valor de um matrimônio deve ser medido
somente em termos de felicidade humana. O casamento não é uma enti
dade sagrada a ser preservada apenas pelo seu próprio bem. Da mesma
forma, é justificável atacar com elementos racionais as crenças religiosas
do paciente, se estas forem uma origem de sofrimentos. Por exemplo,
ao descobrir que um paciente (Caso 12 , Capítulo IV) era muito afligido
por um ponto-de-vista severo de sua igreja relativamente a uma parte de
seu comportamento, os fundamentos do julgamento da igreja foram
questionados, e foi dado ao paciente uma cópia do esplêndido livro de
Wilwood Reade, The Martyrdom of Man (18 72). Embora ter sido de
in ício perturbado por.suas críticas à religião, ele posteriormente teve
um sentimento de alívio. Sua perspectiva mais racional não foi apenas
uma boa coisa em si, mas também facilitou procedimentos psicoterapêu-
ticos que eventualmente encontraram sucesso abçoluto.
Adotando esta linha de ação positiva, é vital que o terapeuta não
confunda os diferentes aspectos. Ele deve ser capaz de distingüir as
decisões técnicas das morais, e superar os dogmas de seu próprio código
moral das necessidades morais do paciente. London (1964) resume as
questões como se segue, no decurso de uma discussão de amplo
alcance:
No mesmo nível de abstração, é provavelmente correto declarar
que cada aspecto da psicoterapia pressupõe alguma doutrina moral
implícita; mas não é necessário procurar este nível de forma a dizer
porque é importante aos terapeutas reconhecerem as concomitâncias
morais dos problemas do paciente e a posição moral subentendida
em algumas de suas soluções. Alguns problemas são inevitavelmente
morais, tanto do ponto-de-vista do cliente como do terapeuta,
e alguns podem ser encarados como estratégicas ou técnicos, e
tratados sem referência a sistemas particulares de valores. Num
caso, o terapeuta deve cumprir uma ação moral para poder operar,
ao passo que em outro ele poderá se limitar à ajuda imparcial ou à
função contratual a que ele é geralmente identificado. Mas se ele
não souber a diferença, então os seus próprios compromissos morais
poderão influenciar de forma que tente, quer queira quer não,
moldar os homens pela sua própria imagem, ou as suas ações técnicas
poderão conter posições morais que ele próprio poderá abo
minar. 2
28 PR Á TICA DA TER A P IA COM PORTAMENTAL
As nossas discussões sobre os aspectos morais da psicoterapia não
podem ser concluídas sem uma referência de uma objeção à terapia com-
portamental freqüentemente trazida à baila em conferências e seminários.
A queixa é a de que o terapeuta comportamental assume umaespécie
de onipotência, exigindo do seu paciente a completa aquiescência aos seus
métodos que, se sentidos, despojam o paciente de sua dignidade humana.
A verdade é que o grau de aquiescência necessário é igual ao de qualquer
outro ramo da medicina. Os pacientes com pneumonia estão sempre
dispostos a fazer aquilo que o médico prescreve, porque ele é um perito.
É o mesmo caso quando a psicoterapia é o tratamento necessário.
NOTAS
(1) Generosas facilidades de laboratório e assistência técnica foram fornecidas pelo
Dr. James M. Watt, Professor de Farmacologia da Escola de Medicina da
Universidade de Witwatersrand. Felizmente, naquela época o Dr. Leo J. Reyna
fora nomeado para o Departamento de Psicologia da Universidade. Ele foi
extremamente útil resolvendo os problemas conceituais e práticos envolvidos
nos experimentos.
(2) London, P. (1964) The Modes and Morals o f Psychotherapy. New York:
Holt, Rinehart and Winston.
Fundamentos
e Finalidades
capítulo 2
ESTÍMULOS E RESPOSTAS
O complexo comportamento humano, cujas desordens e improprie-
dades concernem ao psiquiatra, é uma questão de seqüências de estímulo-
-resposta mediadas pelo sistema nervoso. Uma resposta é um evento
comportamental. Um estímulo é um antecedente de um ^ resposta. Um
estímulo sensorial é uma fonte de energia extrínseca que produz a ativação
de um nervo aferente. Cada membro de uma seqüência de respostas é um
estímulo em relação às respostas que o seguem. Um movimento é, por
tanto, uma resposta em relação aos impulsos nervosos que levaram a ele
e ao estímulo sensorial que poderá ter sido o estímulo deles. (Para mais
detalhes, vide Wolpe, 1958, pags. 3-6).
Para clareza de expressão, é freqüentemente útil descrever as seqüên
cias comportamentais em termos de cadeias de neurônios avulsas, e de
estímulos e respostas distintos. Mas, até o mais simples reflexo envolve
a ativação de milhares de neurônios. Cada estímulo sensorial leva a uma
multiplicidade de conseqüências neurônicas que culminam em várias
combinações de respostas motoras, autônomas e perceptivas, e cada
resposta tem por sua vez caráteres estimuladores que produzem outras
respostas — os estímulos produzidos pelas respostas de Hull (1943).
A figura 1 tem fim de fornecer uma impressão geral da rede relações de
estímulo-resposta simultâneas e sucessivas, que ocorrem incessantemente
30 PR Á TICA DA TER A P IA COMPORTAM ENTAL
Estímulos Respostas Respostas produzidos
pelas respostas Respostas
X X
EXTE ROCEPTI VOS
(estímulos visuais,,
sonoros, olfativos
e táteis
ENDÖGENO
VISCERAL
(e.g. estímulos
produzidos pelas
respostas
autônomas).
IMAGI-
NAL
MOTORAS -
AUTÔNOMAS-
PROPRIACEPTI VOS
VISCERAL
— e outros possíveis
elementos da emoção
IMAGINAL- IMAGI-NAL
Fig. 1. Diagrama das relações sucessivas e simultâneas entre estímulos e respostas.
(Cortesia de Graphic Communications, Eastern Pennsylvania Psychiatric Institute,
Philadelphia.)
durante a vida ativa do organismo. No ser humano, um estímulo extero-
ceptivo, seja um simples jacto de luz ou a visão de uma mulher bonita,
produz um complexo de respostas perceptivas, autônomas e motoras.
A resposta motora não apenas produz estímulos proprioceptivos como
poderá, através da mudança da posição da pessoa no espaço, levar à apre
sentação de um aspecto diferente do objeto de onde o estímulo visual
veio originalmente. A resposta autônoma também tem efeitos que
produzem novos estímulos interoceptivos. Da mesma forma, a imagem
do objeto estimulador leva a outras imagens e respostas autônomas e
motoras, todas’de acordo com o que foi ligado pela aprendizagem prévia.
Todas as respostas que acontecem simultaneamente interagem entre si
e são mutuamente modificadas.
Apesar de sua complexidade, há uma grande repetição do compor
tamento de um organismo a uma determinada situação estimuladora
dentro de um certo alcance de condições fisiológicas. A constância em pí
rica de um relacionamento de estí mu lo-resposta é o que nós chamamos
de um hábito. Os hábitos são de diversos tipos, abrangendo desde aqueles
consistentes de simples movimentos em resposta .a um estímulo, àqueles
que resultam da aprendizagem de estruturas (por exemplo, uma estrutura
para ouvir ou olhar, ou uma estrutura para imitar). Bandura (1969) for-
FUNDAMENTOS E FIN A LID A D ES 3 1
neceu uma excelente exposição das complexidades envolvidas no desenvol
vimento de muitos hábitos sociais. Nós procuramos mudar esses hábitos
quando verificamos que eles não promovem o bem-estar do organismo.
P R IN C ÍP IO S B Á SIC O S D A A P R E N D IZ A G E M
Uma vez que a terapia comportamental consiste em aplicações de
princípios de aprendizagem experimentalmente estabelecidos, com o
propósito de superar os hábitos impróprios, procuraremos examinar os
princípios essenciais utilizados: contracondicionamento, reforço e
extinção.
1. Contracondicionamento
Contracondicionamento é o princípio mais amplamente usado no
tratamento de neuroses humanas. Suas potencialidades tornaram-se evi
dentes por seu sucesso no tratamento de neuroses experimentais em
animais.
Uma neurose experimental pode ser produzida eliciando-se1 ansie
dade em grande intensidade num animal, num ambiente restrito. Quando
eliciada repetidamente, a ansiedade passa a ser fortemente condicionada
aos estímulos desse ambiente. A restrição de espaço permite que o condi
cionamento seja confinado a um número relativamente pequeno de estí
mulos, ao invés destes serem difusos. Para eliciar a ansiedade elevada
necessária, pode-se usar uma forte estimulação desagradável, ou então,
uma estimulação ambivalente — a excitação de poderosas tendências
de ação opostas, cõmo comer e não comer (Pavlov, 1927). Nas experiên
cias citadas no Capítulo 1 (Wolpe, 19 52, 1958) utilizou-se uma gaiola de
100 cm de comprimento por 50 cm de largura e 50 cm de altura. Para
se produzir neuroses experimentais em gatos, permitia-se a um animal
em particular que se acostumasse à gaiola e, então, um choque elétrico
altamente perturbador, embora fisicamente inofensivo, de dois segundos
de duração, era transmitido aos seus pés, através de uma grade no soalho
da gaiola. O animal arrastou-se com dificuldade pela gaiola, bramiu,
e apresentou respostas autônomas como dilatação das pupilas, erecção
dos pelos, e respiração acelerada. Porém, quando o choque foi repetido
/.diversas vezes, o complexo de respostas persistiu, numa força crescente,
entre os choques. Os estímulos do ambiente tinham adquirido o poder
de eliciar as respostas do choque. Daí em diante, o mesmo comportamento
3 2 PRÁ TICA DA TER A P IA COM PORTAMENTAL
agitado aparecia sempre que o animal era colocado na gaiola experimental.
Isto não demonstrou nenhuma tendência à extinção, fosse o gato posto
na gaiola dia após dia, ou fosse ele afastado dela durante semanas ou
meses. Ao mesmo tempo, houve inibições notáveis da função adaptativa.
Se o gato ficasse sem comer durante 48 horas e fosse colocado na gaiola
experimental, em cujo soalho eram atirados pedaços de carne fresca,
ele não comeria essa carne, mesmo que permanecesse ali durante muitas
horas. Houve também uma generalização de estímulo. O animal ficava
bastante ansioso no chão do laboratório experimental e menos nas outras
salas, conforme sua semelhança com o laboratório.
Podemos notar, de passagem, algumas semelhanças entre as neuroses
experimentais e as humanas. As últimas, também, são persistentes e
exibem generalização; ao passo que uma severa inibição de comer é apenas
ocasiónalmente encontrada, as interferências com outras funções adapta-
tivas são bastante comuns. Uma pessoa será incapaz de trabalhar se uma
agorafobia a mantiver em casa, ou se uma claustrofobia tornar seu escri
tório intolerável. Os temores às pessoas poderão prejudicarsua vida social;
e as ansiedades relacionadas com os estímulos sexuais poderão causar
inadaptações sexuais: impotência ou frigidez.
Em virtude da ansiedade ter inibido a alimentação tão decisivamente
nos gatos neuróticos, pareceu razoável pensar que se a comida fosse
oferecida em circunstâncias em que a ansiedade fosse muito mais fraca,
a alimentação poderia ocorrer e a ansiedade seria inibida. Foi possível
experimentar esta idéia nas diversas salas mencionadas acima, às quais
a ansiedade se tinha generalizado. Ofereceu-se comida ao animal nessas
salas, em ordem decrescente de semelhança com o laboratório experi
mental. Poder-se-ia sempre encontrar uma sala onde o animal comeria
apesar de demonstrar alguma ansiedade. Ao ali comer um certo número
de pedaços de carne, sua ansiedade naquela sala desapareceria completa
mente, e então aceitaria comida numa sala mais semelhante ao laboratório
experimental. Procedendo sistematicamente de sala para sala, tornou-se
possível conseguif que o animal comesse na gaiola experimental e, even
tualmente, superar inteiramente as respostas de ansiedade que ali tinham
sido anteriormente tão fortemente eliciadas.
Esses experimentos levaram à formulação do princípio da inibição
recíproca: Se uma resposta inibidora de ansiedade puder ser produzida
na presença de estímulos eliciadores de ansiedade, ela enfraquecerá o
vínculo entre esses estímulos e a ansiedade.
Nas neuroses humanas, um considerável número de respostas inibi-
doras de ansiedade tem sido usado com sucesso para superar os hábitos
FUNDAMENTOS E FIN A LID A D ES 3 3
neuróticos de respostas de ansiedade. Por exemplo, as respostas afirmativas
(Capítulo 5) são usadas para superar as ansiedades neuróticas que inibem
a ação efetiva em direção àquelas pessoas com as quais o paciente deve
interagir. A essência do papel do terapeuta é a de encorajar a expressão
exterior, sob todas as circunstâncias razoáveis, de tendências de sentimento
e ação, anteriormente inibidas pela ansiedade. Cada ato de asserção até
certo ponto inibe reciprocanente a ansiedade concorrente e enfraquece
ligeiramente o hábito de resposta de ansiedade. As respostas do relaxa
mento podem trazer igualnente decréscimos sistemáticos de padrões
de respostas de ansiedade a muitas classes de estímulos (Capítulo 7).
Há um número de maneiras de produzir a inibição da ansiedade,
em que não é óbvio que a atividade em questão seja reciprocamente
inibidora de ansiedade. Num desses processos, usa-se o reforço consistente
de respostas motoras para conseguir uma inibição recíproca de resposta
de ansiedade secundária. Outra possibilidade é a de empregar um estímulo
elétrico brando como inibidor de ansiedade — aparentemente em função
de uma inibição externa (Pavlov, 19 27). Então, é possível condicionar
ym estímulo neutro à atividade de contra-ansiedade, apresentando-se
repetidamentç esse estímulo no momento da cessação de um forte estí
mulo elétrico; e, subseqüen:emente, o efeito de contra-ansiedade desse
estímulo pode ser usado para inibir a ansiedade de diversas origens.
Finalmente, parece possível que a ansiedade possa ser às vezes
inibida com uma espécie de reação "protetora” à sua eliciação forte e
sustentada: inibição transmarginal (Pavlov, 19 27 ; Teplov, 1959). Este
processo poderá ser muito bem a base dos efeitos da "inundação”.
O princípio de inibição recíproca também aparece para superar
outras respostas além da ansiedade. Ele tem uma importância vital na
reaprendizagem verbal e conceptual (cognitiva). A inibição recíproca
de uma resposta verbal previamente aprendida por uma nova eliciada
é a base da inibição "retroativa” : o enfraquecimento da resposta original
(Osgood, 1946). A inibição recíproca é também a base da inibição condi
cionada de hábitos obsessivos e compulsivos, pela terapia de aversão
(Capítulo 11) . Um doloroso choque farádico, ou outro estímulo forte,
inibe o comportamento indesejável, com o resultado de que uma medida
de inibição condicionada do último é estabelecida. Novamente, no pro
cesso de substituir um hábito motor estabelecido por um novo, a obtenção
de uma nova resposta motora envolve uma inibição da antiga. Por exem
plo, quando o comportamento afirmativo está sendo instigado, ao mesmo
tempo que a expressão de sentimentos "positivos’" inibe reciprocamente
í\ ansiedade, a nova ação motora inibe a tendência da resposta motora
34 PRÁTICA DA TER A P IA COMPORTAM ENTAL
preexistente. Para tomarmos um exemplo mais simples, se uma pessoa está
aprendendo a dar uma jogada de "back" em tênis, girando sobre o pé
direito, ela certamente inibe sua tendência de agir com o pé esquerdo.
2. Recondicionamento Positivo
O condicionamento de novos hábitos motores, ou da maneira de
pensar, pode acompanhar a superação de respostas autônomas impróprias,
como no exemplo dado há pouco. Mas, freqüentemente, os novos hábitos
de ação ou de pensamento são necessários em contextos que não envolvem
a ansiedade. Um exemplo disto é o tratamento de condicionamento
da enurese noturna. Providenciando que o paciente seja despertado por
um alarme, tão logo a primeira gota de urina seja excretada durante
o sono, a reação do despertar é condicionada à iminência de urinar, e isto
subseqüentemente leva ao desenvolvimento de uma inibição da tendência
de urinar em resposta ao estímulo da bexiga durante o sono (Gwynne
Jones, 1960, Lovibond, 1963). Um outro exemplo é o condicionamento
de hábitos de estudo efetivos em indivíduos que têm hábitos improdutivos
e gastam à toa o seu tempo quando deveriam estar trabalhando.
O condicionamento bem sucedido de novos hábitos sempre envolve
o uso de 'recompensas' de uma forma ou de outra. Às vezes é suficiente
o seu fornecimento numa base acI hoc, mas em anos recentes tem havido
um crescente uso formal dos princípios de condicionamento operantes
de Skinner (1953) para remover e substituir os hábitos indesejáveis.
De forma a estabelecer um novo padrão de comportamento numa deter
minada situação, a reação desejada deve ser emitida e freqüentemente
recompensada, ao passo que o comportamento indesejável não é conse
qüentemente recompensado e é inclusive punido. Por exemplo, a anorexia
nervosa tem sido tratada com sucesso concedendo-se recompensas sociais
como o uso de um rádio ou a concessão de companhia durante a refeição e
retirando-se estas recompensas quando o paciente deixa de comer
(Bachrach, Erwin e Mohr, 1965). Vários tipos de comportamentos em
esquizofrênicos têm sido tratados pelo mesmo princípio (Lindsley, 1956,
Williams, 1959, A yllon, 1963, Davison, 1964) e mudanças maiores e
duradouras têm sido inclusive produzidas em pacientes hospitalizados
há anos.
3. Extinção Experimental
Este é o enfraquecimento progressivo de um hábito através de
não-reforços repetidos a respostas manifestas. Assim, o comportamento
FUNDAMENTOS E FIN A LID A D ES 3 5
que depende de reforço de comida torna-se progressivamente mais fraco
se suas ocorrências não forem seguidas por comida. O mesmo geralmente
acontece ao comportamento de esquiva, se não for reforçado por um
choque ocasional. O desempenho, de uma resposta motora tem conseqüen-
cias que enfraquecem seu hábito, a menos que seus efeitos sejam neutra
lizados pelo efeitos do reforço. O mecanismo exato da extinção experi
mental ainda não foi inequivocamente estabelecido, mas é provável que
ele dependa, pelo menos parcialmente, do mecanismo de inibição reativa
associada à fadiga, proposto por Hull (1943). Propus, em outra parte,
um possível mecanismo neurofisiológico para o processo de extinção
concebido deste modo (Wolpe, 1958, pag. 27).
As técnicas terapêuticas baseadas no mecanismo da extinção, intro
duzidas há um quarto de século por Dunlap (1932) sob a denominação
de "prática negativa", têm sido novamente empregadas em anos recentesem tratamentos de hábitos motores tais como os tiques (por exemplo,
Yates, 1958). Em correlação com um número muito grande de tentativas
não reforçadas, as emissões espontâneas de movimentos indesejáveis são
progressivamente diminuídas.
A FINALIDADE DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
O campo da terapia comportamental são os hábitos humanos impró
prios. O terapeuta procura substituir esses hábitos por outros adaptati-
vos. O comportamento é adaptativo quando suas conseqüências satisfazem
as necessidades do indivíduo, trazem-lhe alívio da dor, desconforto,
perigo, ou impedem o gasto indevido de energia (Wolpe, 1958, pag. 32).
Os atos individuais impróprios são a ordem normal do dia de todos.
É apenas quando determinados atos impróprios são habituais, que surge
a necessidade para o tratamento. Quando um hábito impróprio está
enraizado num estado orgânico de coisas, tal como uma lesão cerebral,
o tratamento requer lidar com esse estado orgânico. Quando um hábito
é baseado na aprendizagem, o processo de aprendizagem deve fornecer
a chave para a mudança. Os hábitos impróprios baseados na aprendizagem
são da alçada da terapia comportamental. Eles se dividem em cinco cate
gorias.
1. Neuroses
Hábitos impróprios persistentes adquiridos em situações geradoras
36 PRÁ TICA DA TE R A P IA COM PORTAM ENTAL
de ansiedade e nas quais as respostas de ansiedade são quase que invaria
velmente um aspecto central (Wolpe, 1958).
2. Qutros hábitos impróprios aprendidos
Estes são hábitos impróprios sem os fatores de ansiedade que carac
terizam as neuroses. Exemplos: alguns maus humores, o ato de morder
as unhas, e a enurese noturna.
3. Comportamentos impróprios aprendidos em esquizofrênicos
Embora a esquizofrenia, como agora está claro, seja basicamente
uma doença biológica (Wolpe, 1970), muitos hábitos que os pacientes
apresentam são devidos à aprendizagem.
4. Personalidade psicopática
Este diagnóstico é aplicado a pessoas que possuem habitualmente
um comportamento anti-social do qual não sentem qualquer culpa ou
outra ansiedade, de forma que as censuras e punições da sociedade têm
pouca influência restringente. Enquanto, possivelmente, um fator bioló
gico predispõe ao desenvolvimento do comportamento psicopático, os
hábitos em particular são presumivelmente aprendidos e devem ser sujeitos
a desaprendizagem. Contudo, muito pouco trabalho terapêutico foi
feito até hoje.
5. Vício em drogas
Uma pessoa poderá tomar habitualmente uma droga para aliviar a
dor, ansiedade, ou outra tensão. Se o hábito de tomar drogas continuar
após a cessação da tensão, temos o vício em drogas. O vício é caracteri
zado por "desejos" que compelem a pessoa a procurar a droga. Sob um
desejo há um estado biológico cuja natureza não é conhecida, e que torna
o hábitó em drogas diferente de outras categorias de hábitos impróprios.
Por não sabermos melhor, a modificação comportamental geralmente tem
sido até agora dirigida no sentido de dim inuir a atração do paciente pela
droga (terapia de aversão). Isto só pode ser considerado como um substi
tutivo.
Como Taylor (1959) epitomou a questão: "Se conhecêssemos
o mecanismo dos hábitos em drogas, poderíamos ser capazes de recuperar
FUNDAMENTOS E FIN A LID A D ES 37
o alcoólatra ao ponto dele ser capaz de tomar um aperitivo como qualquer
outra pessoa."
É quanto às neuroses que as técnicas da terapia comportamental
têm sido mais amplamente aplicadas. Uma vez que a ansiedade é geral
mente um componente central de hábitos neuróticos, o descondiciona-
mento da ansiedade forma seu núcleo de tratamento. A centralidade da
ansiedade é muitas vezes evidente. Muitos pacientes se apresentam com
ansiedade contínua, ou em resposta a determinadas situações. Outros,
contudo, não fazem nenhuma referência inicial quanto à ansiedade,
mas se queixam de impotência, frigidez, obsessões e compulsões, desvios
sexuais, gagueira, cleptomania, voyeurismo, e outras coisas. Mas a investi
gação cuidadosa essencial à boa terapia comportamental demonstra em
quase todos os casos que a ansiedade está por trás dessas queixas; que
a impotência ou frigidez resulta de temores condicionados de aspectos
da situação sexual; que uma obsessão é baseada num temor a germes ou
qualquer outro agente "pernicioso" (vide Caso 30); que a gagueira e o
fato de corar são a conseqüência de respostas de ansiedade eliciadas
em situações sociais e assim por diante. A necessidade terapêutica é o
descondicionamento da ansiedade, não menos do que se a ansiedade fosse
notória desde o início.
NOTAS
(1) A ansiedade é definida como um padrão característico de respostas autônomas
do organismo de um indivíduo à estimulação nociva. Como resultado do
condicionamento, muitas sugestões à ansiedade condicionada são estabelecidas.
O primeiro passo, ao investigar um caso para a terapia compor-
tamental, é, necessariamente, a tomada de um cuidadoso histórico clín ico.
Isto é claramente semelhante ao histórico que pode ser tomado por qual
quer clín ico consciencioso, mas_ a orientação comportamental leva em
conta as diferenças quanto à direção e a maneira de questionar. Os aspec
tos especiais podem ser mais eficazmente comunicados ao leitor pelas
transcrições dadas mais adiante neste capítulo nas entrevistas iniciais
dos Casos 1 e 2, que por qualquer descrição.
AS RELAÇÕES ESTÍMULO-RESPOSTA DA APRESENTAÇÃO DE
QUEIXAS
Tendo obtido do paciente os detalhes pessoais básicos como o
nome, endereço, número do telefone, idade e profissão, o terapeuta
imediatamente procede no sentido de explorar as reações neuróticas
do paciente. As circunstâncias que envolvem o princípio de cada uma
dessas reações são meticulosamente exploradas, na esperança de.se obter
um retrato coerente de seus determinantes originais. No caso de um
hábito de resposta de ansiedade, tal como temor às alturas ou de ser
foco de atenção, tentamos estabelecer ambas as circunstâncias nas quais
Investigando
o caso: relações
t
estímulo-resposta
capítulo 3
R ELA ÇÕ ES ESTIM ULO-RESPOSTA 39
isto foi condicionado, e quais contingências posteriores poderão ter
modificado sua forma, e levado a sua 'difusão' a outros estímulos pelo
condicionamento secundário. O histórico do condicionamento de cada
hábito de ansiedade é investigado fundamentalmente da mesma maneira.
A informação histórica proporciona uma base para passos subse
qüentes. Isto dá pelo menos ao terapeuta uma perspectiva do caso, mas
poderá também proporcionar importantes indícios quanto às relações
de estímulo-resposta atualmente importantes. Essas relações atuais serão,
naturalmente, o foco da terapia. Portanto, é necessário dar o mais intenso
escrutínio a elas. Se o paciente ficar ansioso em situações sociais, será
necessário descobrir exatamente que aspectos dessas situações o pertur
bam. Ele poderá ter uma reação de ansiedade condicionada de ser obser
vado, que aumenta com o número de pessoas que o olham; ou a reação
poderá depender do grau de exigência do desempenho verbal que a
situação parece sustentar; ou o grupo social poderá impor-lhe um senti
mento de temor por não ser capaz de escapar. A identificação dos ante
cedentes estimuladores de respostas, indispensável à terapia comporta-
mental eficaz, depende principalmente de um interrogatório preciso
(vide Casos 1, 2 e 3).
A incumbência da análise de estímulo-resposta é sempre mais com
plicada quando há a apresentação de outra queixa que não a ansiedade
como por exemplo uma gagueira, uma compulsão, ou uma moléstia
como a asma. Nos casos de asma e outras supostas condições "psicosso
máticas” poderá haver a questão preliminar de uma etiologia puramente
orgânica. Além desse tipo de possibilidade, todas apresentações de queixas
são geralmente conseqüências de respostas neuróticas de ansiedade. Por
tanto, a primeira questãoé se o paciente possui ou não a ansiedade neu
rótica. Se ele a possuir, precisaremos saber se há alguma correlação entre
a ansiedade e a gagueira, compulsão, ou ataque asmático. Geralmente,
a correlação é bastante clara e direta. Por exemplo, poder-se-á verificar
que uma gagueira aumenta em função da intensidade da ansiedade sentida
que, por sua vez, depende da identidade, número e atitudes das pessoas
na presença do paciente. Porém, especialmente em alguns casos psicosso
máticos, a correlação poderá ser d ifíc il de descobrir. Um exemplo notório
disto foi um caso de asma que vi há diversos anos atrás, no qual o fato
de que o ataque acontecia regularmente quatro horas após cada aconte
cimento exaustivo, tornou-se aparente depois que o paciente manteve
um diário de hora em hora durante diversas semanas.
A Tabela 1 demonstra algumas das conseqüências da ansiedade
neurótica. 0 descondicionamento da ansiedade subjacente geralmente
40 P R Á T IC A D A T E R A P IA C O M PO R T A M E N T A L
Tabela 1 — Conseqüências da ansiedade neurótica
Mecanismo de conseqüência Manifestação
a) Autônom o
1. Hiperventilação
2. Inibição protetora
H hW U A'? / «s^-^Hiprrotizado) quando a ansiedade
' é muito prolongada e intensa
3. Descargas autônomas especialmen
te canalizadas a um sistema orgâ
nico
Efeitos somáticos transitórios como:
(a) Tonturas
(b) Desmaios
(c) Parestesias
(d) Dores de cabeça
(e) Taquicardia
Depressão
Sintomas psicossomáticos como:
(a) Neurodermatite
(b) Asma
(c) Rinite vasomotora
(d) Ulceração péptica e sfndromede úlce
ra péptica
(e) Cólon espástico
(f) Micturação freqüente
(g) Dismenorréia
(h) Hipertensão
(i) Enxaqueca
b) Motores
1. Tensão muscular proeminente, ge
ral ou local
2. Condicionamento de esquiva mo
tora (pode ser condicionada simul
taneamente com a ansiedade, ou
secundariamente a ela)
3. Comportamento motor complexo
condicionado por suas*conseqüên-
cias de redução de ansiedade
Distúrbios motores como:
(a) Tremor
(b) Gagueira
(c) Dor 'fibrosftica' como dores nas
costas
(d) Disquinesia ocular
Esquiva a estímulos eliciadores de ansie
dade
3.
Compulsão
"Neurose de caráter" como:
(a) Promiscuidade
(b) Ausência de objetivos
(a) Desvios sexuais, (como homosse
xualidade, pedofilia)
(b) Exibicionismo
(c) Voyeurismo
(d) Promiscuidade
(Continua. . .)
RELAÇÕ ES ESTIM ULO-RESPOSTA 41
Tabeia 1 — (Continuação)
M ecanism o de efeito secundário Manifestação
4. Ansiedade interferindo com o fun
cionamento complexo
1. Incapacidade para o trabalho ou capa
cidade de trabalho diminuída
2. Capacidade diminuída para a inte
ração social (ansiedade em contextos
sociais)
3. Função sexual diminuída (impotência
ou frigidez)
c) Cognitivo
1. Distração cognitiva devida a estí
mulos produzidos por resposta de
ansiedade
Amnésia devida ao "não-registro" de
estímulos extrínsecos
2. Distorção cognitiva Comportamento paranóide e relaciona
dos
põe um fim a essas conseqüências. À exceção de casos raros de histeria
clássica com /a belle indifference, existem poucas neuroses que podem
ser superadas sem a eliminação da ansiedade (vide Capítulo X II) .
Uma vez que, quase universalmente, a ansiedade é um componente
proeminente de respostas neuróticas e uma vez que a ansiedade é servida
por um nível primitivo (subcortical) da organização neural, a sua desapren-
Fig. 2. A cobra inofensiva (S j) produz a resposta perceptual (rS i) que poderia con
duzir as respostas moleculares à ansiedade (ra ), tanto imediatamente como por
intermédio do conceito de "perigo" condicionado (/‘Sj). (Cortesia de Graphic
Communications, Eastern Pennsylvania Psychiatric Institute, Filadélfia.)
4 2 PR Á TICA DA TE R A P IA COM PORTAMENTAL
dizagem só pode ser obtida através de processos que envolvam esse nível
primitivo. A ansiedade neurótica não pode ser superada puramente pela
ação intelectual — argumentos lógicos, introspecção racional — exceto
no caso especial em que a ansiedade neurótica dependa de uma concepção
errônea — uma "equação errônea" conceptual.
Consideremos uma pessoa que tem medo de cobras inofensivas.
Quando a cobra (S ^ entra em sua linha de visão, produz efeitos neurais
que produzem uma percepção (imagem) da cobra (rSj) dentro dela
(Taylor, 1962) e, finalmente, o processo eferente demonstrado como
re leva a um padrão de ansiedade e respostas de esquiva (Re). Ha~ dois
caminhos através dos quais este rS j pode conduzir a R e. A percepção da
cobra poderá eliciar uma imagem secundária de perigo ou morte (rS2) à
qual as respostas de ansiedade e esquiva já foram condicionadas em quase
todo mundo. O hábito de resposta de ansiedade seria eliminado quebran
do-se a conexão entre rS j e rS2. Aqui teríamos a eliminação de uma
associação entre duas idéias: o rompimento de um hábito "cognitivo".
Isto é tecnicamente o que fazemos ao "corrigirmos concepções errôneas"
(Wolpe, 19 58, p. 199).
Para ilustrar o que foi dito,com referência a um caso clínico comum:
um homem queixa-se de ansiedade cada vez que sente uma dor no lado
esquerdo de seu tórax. O estímulo real de sua dor poderá ser uma pressão
no diafragma devido a uma distensão gasosa do estômago ou intestinos.
Mas a dor conjura imagens eliciadoras de medo que transmitem a mensa
gem: "Estou tendo um ataque de coração: Eu vou morrer." Uma vez
que não é tão desarrazoado que se fique angustiado com o pensamento
de uma morte iminente, a ação terapêutica não será dirigida a esse hábito
emocional de resposta, e sim ao rompimento da associação errônea e
imprópria entre a percepção da dor no tórax e o pensamento da
morte.
A outra possibilidade é a de que a percepção (rS J , imediatamente
e sem qualquer outro intermediário cognitivo, elicia a resposta de ansie
dade porque ela foi diretamente condicionada para fazê-lo. Nesse caso,
nenhuma operação no nível "cognitivo" será de qualquer utilidade para
superar o temor a cobras inofensivas. Será necessário obter o recondicio-
namento direto do hábito emocional a essa percepção. Na grande maioria
dos casos de neurose, essa é a tarefa com a qual nos defrontamos. Mas,
muitas vezes, ambos os tipos de operações são necessários — o paciente
tendo tanto uma concepção errônea das implicações do objeto percebido
quanto uma resposta autônoma irracional de ansiedade relativamente
a este.
RELA ÇÕ ES ESTIM ULO-RESPOSTA 4 3
Quando o paciente apresentando tais reações tiver sido suficiente
mente investigado, o terapeuta extrai os fatos básicos de sua vida passada
e presente. O primeiro tópico recai sobre os primeiros anos de vida em
fam ília do paciente. É-lhe perguntado qual a sua situação entre as crianças
da fam ília, e quantos anos os separam um dos outros. Que tipo de pessoa
o seu pai lhe parecia? Demonstrava ele interesse especial, castigava e, em
caso positivo, parecia-lhe justo ou não? O pai ainda vive? Caso contrário,
como ele morreu, e qual foi o efeito de sua morte sobre o paciente?
As mesmas perguntas são feitas com relação à mãe. Como era o relacio
namento entre os pais? Existiam outros adultos importantes nos primeiros
anos da vida doméstica do paciente? Como eram eles e qual era a sua
influência sobre o paciente? Como era seu relacionamento com os irmãos?
Quão importante foi seu treinamento religioso, e quanta influência a
religião conserva sobre si? Existiram quaisquer temores de infância ou
hábitos nervosos?
O próximo grupo de perguntas relaciona-se à educação do paciente.
Gostou ele da escola? Caso positivo, de que ele gostou; caso contrário,
por que motivo? Como foi na vida acadêmica? Participou de esportes,
e quão bom era neles? Fez amizades e foram algumas íntimas? Existiram
quaisquer pessoas, sejam professores ou estudantes, que ele passou a temer
e a ter particularmente aversão? Com queidade deixou a escola? Formou-
-se na escola secundária? O que fez ele depois: passou a levar uma vida
de ócio, foi trabalhar ou continuou os seus estudos numa universidade
ou outra instituição? Como se saiu na instituição, acadêmica e social
mente? Após formar-se, que trabalho fez, como se saiu nele, e quão
satisfatório o achou? Houve mudanças de empregos e, caso positivo, por
quais motivos? Como se dá com os empregadores, subalternos e iguais?
A vida sexual do paciente é então investigada, desde a primeira
percepção dos sentidos sexuais. Com que idade e em que contexto ficou
pela primeira vez consciente da excitação sexual? Quais foram as experi
ências que se seguiram? Ele se masturbou, e foi isso associado a quaisquer
sentimentos de temor ou culpa? Com que idade começou a namorar?
Quando teve seu primeiro relacionamento importante? O que o atraiu
à namorada, e o que levou a associação a um final? As mesmas perguntas
são feitas quanto a associações posteriores. O que o atraiu à sua esposa?
Como se deu o namoro? Existiram obstácu[os colocados pelas famílias
de uma das partes? Como têm vivido juntos através dos anos? Como têm
sido o lado sexual do casamento?
HISTÓRICO DE FUNDO
44 PR Á TICA DA TE R A P IA COMPORTAM ENTAL
Como são atualmente seus relacionamentos sociais? Possui d ificul
dades com qualquer um de seus amigos? Possui amigos particularmente
íntim os? Como se sai com pessoas com quem sua associação é casual?
Após a coleta desses dados, o paciente recebe três inventários para
serem preenchidos: o de Willoüghby (um resumo dò inventário Clark-
'rThurstone), uma Tabela de Levantamento de Temores, e a Escala de
Auto-suficiência (S-S) de Bernreuter. Esses inventários serão discutidos
resumidamente.
A Tabela de Willoüghby (Modelo Original Apêndice 1) consiste em
25 perguntas que são respondidas numa escala de cinco opções — (de
0 a 4). Cerca da metade das perguntas concede informações sobre as
áreas comuns da reatividade neurótica — especialmente as interpessoais,
e a outra metade indica o grau de sensibilidade emocional geral. Este
questionário é um indicador bastante importante de neurose (Wolpe,
1958, pag. 110 ). Os decréscimos na contagem são correlacionados aos
progressos do paciente. Mas é possível que uma pessoa tenha uma baixa
contagem Willoüghby e ainda assim ser muito neurótica em áreas não
abrangidas pela tabela. Um questionário revisado para a auto-administração
é dado no apêndice 2.
A Tabela de Inventário de Temores (Apêndice 3) (Wolpe & Lang,
1964) relaciona um grande número de situações estimuladoras às quais
o temor é impróprio. O paciente indica, numa escala de cinco opções,
quão perturbado se torna em cada situação. Essa tabela é um instrumento
extremamente útil, que freqüentemente traz à atenção do terapeuta as
sensibilidades neuróticas que ele não poderia ter suspeitado de outra
forma. Uma lista mais recente contendo 108 itens (Wolpe e Lang, 1969)
encontra-se comercialmente disponível. *
Inventário de Auto-Suficiência (S-S) de Bernreuter (Apêndice 4).
Esta lista de 60 perguntas é utilizada menos consistentemente que as
duas tabelas anteriores. Sua principal relevância se dá quanto a casos
com sérios hábitos de dependência. Ele indica a capacidade provável do
paciente em seguir instruções com relação à auto-afirmação. A contagem
normal é geralmente entre 24 e 42. Uma contagem inferior a 20 indica
geralmente que terá dificuldades consideráveis.
Quando houver uma questão relativa a personalidade psicopática,
e quando houver manifestações ambígüas de histeria, a escala de intro-
versão-extroversão do Inventário de Personalidade de Maudsley ou do
(* ) Existente na Educational and Testing Materiais, P.O. Box 7234, San Diego,
Califórnia (92107).
R ELA ÇÕ ES ESTIM ULO-RESPOSTA 45
seu derivado, o Inventário de Personalidade de Eysenck, muitas vezes
oferecem informações decisivas.
Se houver a mais leve indicação de que um mal orgânico poderá
estar relacionado com o mal do paciente, dever-se-á proceder a uma
investigação médica. Uma das indicações mais fortes para isto é a presença
de ataques de ansiedade episódicos, aos quais nenhum antecedente esti
mulador constante pode ser atribuído. As causas orgânicas comuns de
ansiedade são a hipoglicemia, inclusive a hipoglicemia relativa (Salzer,
1966), e o hipertiroidismo. Entre as causas menos comuns, estão os
acessos provenientes do lobo lím bico e feocromocitoma.
Quando tiverem sido reunidos os dados suficientes, as metas e
estratégias terapêuticas são discutidas com o paciente. O terapeuta decide
quanto a que áreas de distúrbios dar prioridade. O grau em que um hábito
neurótico é prejudicial à vida econômica do paciente é geralmente levado
primeiramente em consideração. Assim, num caso recente, uma agorafobia
foi tratada em primeiro lugar devido às suas conseqüências profundamente
incapacitadoras, muito embora outras reações neuróticas tenham preexis
tido a ela e, em certo sentido, lhe dado origem.
ALGUNS EXEMPLOS DE ENTREVISTAS INICIAIS
A terapia c omportamental .é sempre uma. questão individual. Não
obstante, algumas regras gerais poderão ser estabelecidas com relação
ao in ício da terapia:((1) O clima emocional é, como em todas as outras
■— '
ocasiões, uma combinação de objetividade e tolerância. ((2/ O paciente
deve ser assegurado de que as suas reações desagradáveis são reversíveis.
O terapeuta pode muitas vezes ilustrar o processo de aprendizagem pelo
histórico do próprio paciente. (3) Os mal-entendidos devem ser corrigidos
tão logo seja possível. Isto se aplica tanto a mal-entendidos socialmente
condicionados (por exemplo, "a masturbação é perigosa") como a concep
ções errôneas iatrogênicas (como "eu necessito de meus sintomas").
A maneira como isto pode ser importante é ilustrada no Caso 3. O compor
tamento afirmativo (Capítulo V) deve ser incitado num estágio primário,
a menos que haja reações fóbicas severas quanto a alguns aspectos dele
como por exemplo, a própria agressividade do paciente (ver Caso 2).
Os casos cujas primeiras entrevistas são dadas aqui são diversos.
O primeiro se apresentou como uma fobia por objetos cortantes, o
segundo como um problema de ansiedade interpessoal, e o terceiro de
resposta sexual inadequada. Embora a mesma linha central de ação seja
46 PRÁ TICA DA TER A P IA COMPORTAM ENTAL
aparente em todos os três — um esforço concentrado para garantir a maior
definição possível em relacionar estímulos (situações) às respostas que
constituem as queixas que trouxeram o paciente para tratamento.
Caso 1: Primeira entrevista num caso de fobia por objetos cortantes
(Sra. P., 32 anos de idade)
A entrevista com a Sra. P. foi escolhida porque a fobia unifoca-
lizada aparente por facas levou o terapeuta rapidamente à descoberta de
vastas áreas do histórico da paciente. 0 leitor deve prestar atenção quanto
à maneira e ao conteúdo do procedimento do questionário. Deve ser
particularmente observado que o terapeuta sai de seu rumo para ser per
missivo, perdoando atos e atitudes que a paciente parece pensar serem
deploráveis; e que tenta estabelecer com grande precisão pontos que pensa
possam ser significativos para a ação terapêutica. Neste caso em particular,
o benefício esperado da terapia foi evidente — a remoção da fobia.
Um terapeuta inexperiente poderia ser tentado a prosseguir imediata
mente na dessensibilização sistemática, mas a segunda entrevista (não
dada aqui) levou a outra direção, e ilustrou quão insensato é se lançar
ao tratamento de um caso sem sua compreensão adequada. A exploração
dos fatores que comumente controlam o temor por facas revelou que
este se intensificava particularmente quando filhos de outras pessoas
andavam rebeldes e desobedientes pela casa. Constantou-se então que ela
ficava extremamente inibida em quasetodas as situações interpessoais e
que habitualmente reprimia sua ira por temer desaprovação. (Observe que
o interrogatório direto falhou em eliciar a presença da ira reprimida
durante a primeira sessão). De acordo com tudo isto, a sua contagem
Willoughby foi de 66. O treino afirmativo tornou-se rapidamente eficaz
mas, embora a fobia se tornasse então menos problemática, a dessensibi
lização foi eventualmente levada a efeito, como esperado.
T E R A P E U T A : O Dr. N. escreveu-me sobre a senhora, mas gostaria
de aproximar-me de seu caso como se eu nada soubesse a respeito.1 De
que a senhora se queixa?
SR A . P.: Eu tenho medo de objetos cortantes, especialmente de
facas. Ele tem estado muito pior no último mês.
T E R A P E U T A : Há quanto tempo a senhora tem esse medo?
S R A . P.: Ele começou há 6 anos atrás quando estive no hospital
depois que minha primeira criança nasceu. Dois dias depois, meu marido
me trouxe alguns pêssegos e uma faca afiada para cortá-los. Comecei
a sentir medo de que eu pudesse machucar o bebê com ela.2
R ELA ÇÕ ES ESTIM ULO-RESPOSTA 47
T E R A P E U T A : Por quanto tempo a faca estivera com a senhora
até lhe ocorrer que ela poderia ferir o bebê?
SRA. P.: Eu não creio que quisesse que ela lá permanecesse de
um dia para o outro, naquela noite; ou nós a deixamos aquela noite e
então, na noite seguinte, penso que pedi a ele que a levasse para casa.
Não consigo me lembrar exatamente, sei apenas que não a queria por
perto. Desde esse dia até hoje, não me importo de usar facas enquanto
há alguém por perto, mas quando estou sozinha com as crianças eu sim
plesmente não as quero por perto.
T E R A P E U T A : A senhora consegue se lembrar de'que maneira o
pensamento de que pudesse ferir o bebê surgiu em sua mente, ^pela pri
meira vez?
SR A . P.: Não consigo me lembrar.3
T E R A P E U T A : Agora, desde então, de modo geral, tem esse medo
sido igual todo o tempo? Melhorou ou piorou?
SR A . P.: Bem, logo após termo-nos mudado para Richmond há
cerca de 5 meses atrás, eu me senti um pouco melhor quanto a ele. No in í
cio, quando voltei para casa, retornando do hospital, fiz o meu marido
levar embora todas as facas da casa. Eu não as queria por perto, então
ele as levou à casa de minha mãe. Eu trouxe duas delas de volta para casa
quando nos mudamos para Richmond. Mas eu não conseguia, depois
de trazê-las, eu não conseguia usa-las. Eu não conseguia tê-las à vista,
de forma que pudesse apanhar uma, o senhor sabe — e usá-la em alguma
ocasião.
T E R A P E U T A : Então, o que a senhora diz de modo geral é que o
medo tem sido sempre igual?
SR A . P.: Parece sempre igual. Na verdade, penso que tem piorado.4
T E R A P E U T A : Há qualquer coisa — qualquer situação — que a
senhora possa associar à piora?
SR A . P.: Não. Parece estar apenas na minha mente, calculo. Ah, se
o senhor não se importa que eu retorne a algo que o Dr. N. disse quanto
ao fato de eu não querê-las por perto ser um hábito e, quero dizer, calculo
que eu apenas tenha pensado sobre isso e — é d ifíc il admitir — as crianças,
não sei porque, me deixam nervosa e eu temo que isso possa levar a melhor
sobre mim.
T E R A P E U T A : Estão as crianças deixando-a mais nervosa de um
mês para cá?
SR A . P.: Bem, durante o verão elas permanecem fora de casa mas
com este tempo elas não podem sair, e, é claro, elas gostam de correr,
e quando correm pela casa isto me deixa nervosa.5
48 PR Á TICA DA TERA PIA COMPORTAM ENTAL
T E R A P E U T A : Enquanto esteve no hospital quando sua criança
nasceu, de que forma se sentiu relativamente à situação em geral.6
SR A . P.: Bem, não fiquei muito feliz, em primeiro lugar porque
apenas terminávamos de construir uma casa. Eu estava apenas come
çando a trabalhar, e estivera trabalhando por cerca de 6 meses quando
fiquei grávida, e não fiquei feliz com tudo então, porque gostava do meu
trabalho e, construindo uma casa, nós desejávamos mobílias novas e tudo
mais. Bem, creio que nenhum de nós ficou muito feliz com isso. E então,
pouco antes da criança nascer eu disse que se fosse uma menina, com
cabelos e olhos castanhos, tudo estaria bem, mas aconteceu que ela nasceu
loira e menino (Risos).
T E R A P E U T A : Foi isso importante?
SR A . P.: Que fosse menina ou menino?
T E R A P E U T A : Sim. A senhora estava apenas brincando?
SR A . P.: Bem, não penso que estava apenas brincando, porque não
desejava realmente que ela se parecesse com meu marido e seu lado da
fam ília (Risos), mas aconteceu que ele saiu à imagem do seu Papai.7 Mas
penso que isso foi egoísmo. . .
T E R A P E U T A : Bem, está certo.
SR A . P.: . . .de minha parte. Talvez seja uma maneira egoística
de encarar as coisas. Eu desejava uma menina de cabelos escuros.
T E R A P E U T A : Bem, a senhora esteve exprimindo o que sentiu
quanto à criança àquela época. Foi apenas seu sentimento, e não há qual
quer problema quanto ao certo e errado. Esse foi o seu sentimento verda
deiro. . .8 A senhora não gosta da maneira que a fam ília de seu marido
se parece?
S R A . P.: (rindo) Eu jamais consegui gostar de suas aparências.
Sei que gostam de mim pela maneira que agem. . . Eu nada faria contra
eles.
T E R A P E U T A : É muito possível não se gostar da aparência de algu
mas pessoas.
SR A . P.: Eu devo ter gostado da aparência de meu marido, ou caso
contrário não teria casado com ele.
T E R A P E U T A : Então porque foi importante para a senhora que
tivesse uma criança que se parecesse com sua fam ília?
SR A . P.: Bem, como disse, eu penso que foi egoísmo de minha
parte.
T E R A P E U T A : Mas a senhora tinha uma preferência. Não é uma
questão de ser egoísta. A senhora tinha uma preferência.9
RELAÇÕ ES ESTIM ULO-RESPOSTA 49
SR A . P.: Bem, eu senti que deveria passar pelos estágios de ter o
bebê, cuidar dele e tudo mais, e assim senti como se desejasse que ele
se parecesse comigo uma vez que teria de passar por tudo isso.
T E R A P E U T A : Uma espécie de recompensa pelo séU trabalho?
SR A . P.: Exatamente.
T E R A P E U T A : Jamais a senhora teve esse tipo de sentimento antes
do nascimento dessa criança?
SR A . P.: Nunca.
T E R A P E U T A : Bem, quando disse isso, eu não estava pensancib
apenas sobre esse sentimento quanto a facas, mas já aconteceu alguma
vez da senhora desejar quebrar coisas se, talvez, se sentisse zangada quanto
a elas?10
SR A . P.: Eu sempre fui uma espécie de, o serfhor sabe, perfeccio
nista, creio que diria, cautelosa quanto às minhas coisas. Tive duas irmãs
mais novas e sei que se elas mexessem em qualquer de minhas coisas,
eu ficaria terrivelmente zangada quanto a isso. . . mas eu jamais desejei
ferir alguém.
T E R A P E U T A : A senhora jamais teve vontade de bater nelas?
SR A . P.: Eu penso que não.
T E R A P E U T A : A senhora seria capaz de bater em alguém que a
aborrecesse? Ou quando as situações se dessem de uma forma que não
gostasse?
SR A . P.: Eu penso que não. Não consigo me lembrar. . .
T E R A P E U T A : Bem, não precisa ser uma questão de machucar
alguém fisicamente, mas apenas um sentimento de raiva e expressar a raiva
quanto às pessoas. Bem, agora vejamos os seus antecedentes. Onde a
senhora nasceu?
SR A . P.: Em Norfolk.
T E R A P E U T A : Quantos irmãos e irmãs?
SR A . P.: Quatro irmãs e um irmão.
T E R A P E U T A : E aonde a senhora se encaixa?
SR A . P.: Eu fico no meio. Há duas irmãs e um irmão mais velhos
e duas irmãs mais novas.
T E R A P E U T A : A senhora poderia dizer-me quantos anos a sua irmã
mais velha tem a mais que a senhora?
SR A . P.: Ela completou 47 anos em Outubro. . . e eu tenho uma
que completou 45 em Janeiro e meu irmão fará 43 em Dezembro, e
então 18 meses mais nova há uma irmã, e uma 2 anos mais nova que ela.
T E R A P E U T A : Os seus paisainda vivem?
50 PRÁ TICA DA TER A P IA COMPORTAMENTAL
S R A . P .: Sim.
T E R A P E U T A : Que tipo de pessoa é seu pai, especialmente como
a senhora se lembra dele em sua infância?
S R A . P.: Delicado e acessível.
T E R A P E U T A : Sentiu que ele se interessava pela senhora?
S R A . P.: O senhor quer dizer quanto à escola e coisas assim?
T E R A P E U T A : Esteve o seu pai interessado na senhora pessoalmente
e naquilo que fazia?
SR A . P .: Não muito.
T E R A P E U T A : Ele jamais a castigou?
SR A . P.: Não.
T E R A P E U T A : E quanto a sua mãe?
S R A . P.: Bem, eu poderia dizer o mesmo quanto a ela. Eles eram
ambos bons, o senhor sabe. Ela. . . ela esteve interessada, fazia coisas como
levar-nos à escola. Ela não parecia muito interessada em como estávamos
indo ou no que fazíamos. E eu falhei e tive péssimas notas na escola.
Ela nunca conversou com a professora para saber se eu poderia ter feito
melhor, ou algo semelhante. Ela jamais ajudou nas lições de casa ou
coisas assim. Naturalmente, eu calculo que ela sempre tinha outras coisas
a fazer.11
T E R A P E U T A : Independente do fato de que seus pais eram pessoas
um tanto semelhantes, a senhora diria que eles se gostavam mutuamente
e que se comportavam com relação à senhora como se a amassem?
S R A . P.: Bem, eles tentaram fazer com que nós fizéssemos as coisas
certas, e posso me lembrar de que sempre nos levavam à Escola Dom ini
cal e à igreja.
T E R A P E U T A : Eles viviam bem juntos?
SR A . P.: Bem, sim. Até quanto sei. Eles tinham discussões.
T E R A P E U T A : Eles discutiam muito?
S R A . P.: Bem, não. Afinal, eles viveram juntos quarenta e poucos
anos.
T E R A P E U T A : Existiam outros adultos que tiveram alguma impor
tância em sua vida doméstica na infância tais como avós, tias ou pajens?
SR A . P.: Não, não me lembro de quaisquer avós ou tias.
T E R A P E U T A : Como se saía com seu irmão e irmãs?
S R A . P.: Muito bem, eu creio. Logicamente, sendo crianças eu penso
que se discute e briga muitas vezes. Agora eu penso que nós nos dávamos
muito bem.
T E R A P E U T A : A senhora teve quaisquer temores especiais, quandc
criança?
R ELA ÇÕ ES ESTIMULO-RESPOSTA 51
SR A. P.: Bem, não, não que eu saiba. Mas quando eu estava com
oito anos de idade, a nossa casa se incendiou. Eu estava voltando para
casa da escola e os carros de bombeiros passaram por nós. Era Janeiro
e estava nevando e alguém nos disse que a nossa casa estava em chamas.
E então houve um receio. . . de que de fato estivesse. Meus pais perderam
quase tudo o que tinham. Eu sei que eles. . . oh, 5 ou 6 anos depois disso,
cada vez que eu ouvia uma sirena de bombeiros ficava tão nervosa, que
se estivesse na escola me levantaria e sairia. Eu não sairiá da escola, mas
teria que sair da sala de aula, mas coisas como essas não me incomodam
agora.12
T E R A P E U T A : A senhora teve mais dessas experiências, ou quais
quer outros temores quando era criança?
SR A . P.: Não.
T E R A P E U T A : Bem, a senhora diz que não se saiu muito bem na
escola. Independente do fato de que seus estudos foram difíceis, a senhora
gostava da escola?
SR A . P.: Eu gostava bastante. Quero dizer, eu só brincava o tempo
todo.
T E R A P E U T A : Bem, a senhora sempre se saiu mal nos estudos?
SR A . P.: Sim.
T E R A P E U T A : E quanto aos esportes? Como se saía neles?
SR A . P.: Eu devo ter puxado ao meu pai. Saí-me bem.
T E R A P E U T A : A senhora fez amizades na escola?
SR A . P.: Sim, eu tive muitas amizades na escola.
T E R A P E U T A : A senhora teve amizades íntimas?
SR A . P.: Bem, sim. Havia seis ou oito de nós que sempre andávamos
juntos, moças e . . .
T E R A P E U T A : Havia alguma pessoa na escola a quem a senhora
temesse? Quero dizer, entre moças e professores?
SR A . P.: Não.
T E R A P E U T A : Até que ponto a senhora foi na escola?
SR A . P.: Eu terminei o curso secundário.
T E R A P E U T A : Que idade tinha a senhora então?
SR A . P.: Dezoito.
T E R A P E U T A : O que fez então?
S R A . P.: Eu trabalhei para um médico durante três anos.
T E R A P E U T A : Como recepcionista?
SR A . P.: Eu fazia seu trabalho de laboratório e serviços de dactilo
grafia, estenografia. . . ajudava-o com seus pacientes.
T E R A P E U T A : A senhora gostava desse trabalho?
5 2 PRÁTICA DA TER A P IA COMPORTAMENTAL
SR A . P.: Sim, muito.
T E R A P E U T A : O que fez então?
S R A : P .: Trabalhei para uma companhia de força durante cinco ános,
como escriturária-estenógrafa. Eu gostei disso também.
T E R A P E U T A : E então?
SR A . P.: Casei-me. Não trabalhei durante dez meses. Então trabalhei
para uma firma de plásticos em Norfolk até que a primeira criança násceu
— como já disse ao senhor.
T E R A P E U T A : E desde então?
SR A . P.: Dona de casa.
T E R A P E U T A : Como se sente como dona de casa?
SR A . P .: Muito bem.
T E R A P E U T A : Há alguma coisa que a senhora não goste quanto
a isso?
SR A . P.: Que as coisas não permaneçam limpas depois de limpas!
(Risos) Não, eu gosto muito. Não gostaria de voltar ao serviço público,
por nada. A menos que eu pudesse trabalhar num hospital, ou algo assim.
Eu diria algo assim, e quando minhas crianças estiverem na escola.
T E R A P E U T A : Que idade tinha quando pela primeira vez teve
qualquer tipo de sensação sexual?
S R A . P.: Bem, eu. . . (gesto desesperado)
T E R A P E U T A : Bem, apenas por alto: a senhora tinha dez, quinze
ou vinte anos? Mais ou menos?
S R A . P.: Bem, não consigo lembrar-me. Não faço a menor idéia.
T E R A P E U T A : Bem, então, foi antes dos dez?
SR A . P.: Penso que não.
T E R A P E U T A : Foi antes dos quinze?. . . Antes dos vinte?
S R A . P.: Penso que foi antes dos vinte.
T E R A P E U T A : Diria por volta dos dezessete?
SR A . P.: Bem, sim, talvez.13
T E R A P E U T A : Em que tipo de situação teve a senhora a sua pri
meira sensação sexual? Foi saindo com rapazes, ou no cinema, ou o quê?
SR A . P.: Bem, eu nunca namorei, demais. E quando estive na escola,
bem, em minha classe na escola simplesmente não havia qualquer rapaz.
E. . .
T E R A P E U T A : Portanto, a senhora começou a namorar mais ou
menos aos dezoito anos, depois que deixou a escola?
S R A . P.: Exatamente.
T E R A P E U T A : Na época, a senhora saía com diversos rapazes ou
apenas com um de cada vez? A senhora ia a festas? Qual era o padrão?
R ELA ÇÕ ES ESTIM ULO-RESPOSTA 53
SR A. P.: Bem, eu passeei com diversos. Eu pertencia ao coro da
igreja e quando havia coisas como as festas da Escola Dominical nós
geralmente levávamos alguém conosco.
T E R A P E U T A : Bem. . . quando foi que a senhora ficou especial
mente interessada por alguém?
• SR A . P.: Bem, vejamos. Eu comecei a sair com o meu marido,
Charles, penso que em Julho de 1949. E depois que comecei a sair com
ele nunca mais saí com ninguém.
T E R A P E U T A : Não houve ninguém mais por quem a senhora tenha
realmente se interessado?
SR A . P.: Bem, quando trabalhava em meu segundo emprego, havia
uma rapaz lá, mas ele era casado, e eu nunca saí com ele.
T E R A P E U T A : O que foi que a senhora gostou nele?
SR A . P.: Bem, praticamente de tudo. (Risos) E, bem, ele demons
trava muita atenção para comigo também. Então ele deixou o emprego
e foi para Richmond trabalhar, e jamais o vi novamente.
T E R A P E U T A : Então a senhora jamais saiu com ele ou teve qualquer
contato físico?
SR A . P.: Eu sei que muitas pessoas não acreditariam nisto, mas é
absolutamente verdadeiro.
T E R A P E U T A : Bem, então a senhora começou a sair com Charles?
SR A . P.: Não, eu tinha saído com ele anteriormente, desde o verão
de 1949, e eu não deixei de trabalhar lá até o verão de 19 5 1.
T E R A P E U T A : O que foi que a senhora gostou nele?
SR A . P.: Meu marido é. . . a maneira queele. . . bem, praticamente
tudo, eu calculo. Ele era bom e o que mais me impressionou foi a maneira
como ele tratava a sua mãe. Ele era bom para a sua mãe. O seu pai morrera
fazia poucos anos e ele era bom para ela, sempre lhe telefonava, e eu senti
que qualquer um que fosse bom para a mãe seria um bom marido.14
T E R A P E U T A : Bem, quando foi que a senhora sentiu que estava
disposta a se casar com ele?
SR A . P.: Eu não sei se jamais senti como se estivesse. Eu saí com
eJe durante sete anos.
T E R A P E U T A : Esteve ele interessado em desposá-la mais cedo?
SR A . P.: Sim. Mas eu protelava cada vez. Eu concordava e então
ficava nervosa e perturbada e não conseguia dormir e dizia, bem, que
não conseguiria passar por isso novamente. Então nós adiávamos nova
mente, até que nos cansamos disso. Ele estava trabalhando e, quando
ficou farto, disse que ia desistir de seu trabalho e que ia para a universi
dade. E de fato o fez.
54 PRÁTICA DA TER A P IA COMPORTAMENTAL
T E R A P E U T A : Ele foi à universidade?
SR A . P.: Sim. De Janeiro de 1953 até Junho de 1956. Ele foi então
a Tennessee e conseguiu um emprego. Quando ele partiu, é claro, deixei-
-me ficar em casa sozinha e eu quase morri. Perdi quase dez quilos, não
conseguia comer, não conseguia dormir.
T E R A P E U T A : Bem, a senhora poderia dizer-me o que o outro
homem que mencionou tinha que Charles não tinha? Que pontos eram
importantes no que concerne aos seus sentimentos?
SR A . P.: Oh, ele tinha boa aparência. Mas eu pensava sobre os
cabelos loiros e olhos azuis de meu marido. Ele tinha cabelos e olhos
escuros.15
T E R A P E U T A : Quando a senhora teve a proposta de Charles diante
de si, e se sentiu nervosa, sobre o que se sentiu nervosa? Havia algum
aspecto em particular do relacionamento que a fazia ficar nervosa?
SR A . P.: Creio que toda a coisa. Eu simplesmente não estava prepa
rada para me casar.
T E R A P E U T A : Em 1954 Charles foi estudar?
SR A . P .: Janeiro de 1953. E terminou em 1956.
T E R A P E U T A : Para fazer isso ele teve que sair da cidade?
SR A . P.: Sim, ele foi para Baltimore.
T E R A P E U T A : Então, eventualmente, a senhora se casou. Quando?
SR A . P.: Em Agôsto de 1956.
T E R A P E U T A : A esse estágio a senhora estava satisfeita por se casar?
SR A . P.: Bem, primeiramente ele me telefonou de Tennessee e
disse: "Se não se casar comigo agora, estará tudo terminado. Eu deixarei
o país.” Assim, foi então ou nunca, e então eu disse, "Está bem". Então
nos casamos no outono.
T E R A P E U T A : Bem, como é que vivem juntos?
SR A . P.: Nós nos damos muito bem. Eu sempre soube que jamais
me casaria com ninguém mais. Bem, eu creio que sou do tipo de pessoa,
o senhor sabe, alguém deve me dizer que faremos algo agora ou nunca.
T E R A P E U T A : Como é a parte sexual de seu casamento?
S R A . P.: Ótima. Gostaria que ele dissesse o mesmo (risos).
T E R A P E U T A : No momento estou interessado apehas em sua
parte.16 A senhora tem orgasmos?
SR A . P.: Sim.
T E R A P E U T A : Sempre?
S R A . P.: Bem, não tenho sempre, mas tenho pelo menos a maioria
das vezes.
RELAÇÕ ES ESTIMULO-RESPOSTA 55
T E R A P E U T A : A senhora se sente feliz de modo geral quanto
ao casamento?
SR A. P .: Bem, eu não o seria de outra forma.
T E R A P E U T A : O que quer dizer com isso?
SR A . P.: Bem, eu quero dizer que não ficaria sozinha novamente.
T E R A P E U T A : Mas a senhora não tem queixas quanto ao casa
mento?
SR A . P.: Não.
T E R A P E U T A : Quantos filhos a senhora tem agora?
SR A . P.: Tenho dois. A menina completará 3 anos no dia 16 deste
mês.
T E R A P E U T A : A senhora gosta de seus filhos?
SR A . P.: Bem, eu diria que sim.
T E R A P E U T A : Exceto quando fazem muito barulho e a deixam
nervosa.
SR A . P.: Bem, isso é de se esperar. Fico imaginando às vezes o que
fazia a minha mãe com seis. Naturalmente, nós não estávamos todos lá
ao mesmo tempo.
T E R A P E U T A : As suas crianças estão bem?
SR A . P .: Sim.
T E R A P E U T A : A senhora gosta de viver em Richmond?
SR A . P.: Mais do que eu esperava. Eu tinha ouvido que as pessoas
não eram muito amigáveis, mas verifiquei que elas o são.
T E R A P E U T A : Existe alguma coisa com a qual a senhora não esteja
satisfeita?
SR A . P.: Bem, eu gostaria de ter uma casa nova. Nós tivemos que
comprar uma casa velha e não havia nenhuma para alugar ou vender
quando tivemos que nos mudar, assim compramos essa velha casa, e ainda
é necessário se fazer muita coisa nela.
T E R A P E U T A : Qua| é a sua religião?
SR A . P.: Metodista.
T E R A P E U T A : É a religião importante em sua vida?
SR A . P.: Sim , ela é.
T E R A P E U T A : Bem, de que maneira?
SR A . P.: Bem, eu penso que não posso passar sem ela.
T E R A P E U T A : A senhora gasta muito tempo com as atividades
da igreja?
SR A . P.: Oh, não, não. Eu não tenho ido à igreja em Richmond.
Nós temos levado as crianças à Escola Dominical.
56 PR Á TICA DA TER A P IA COMPORTAM ENTAL
T E R A P E U T A : Bem, a senhora se preocupa em demasia sobre o que
Deus pensa quanto às suas ações?
SR A . P.: Eu faço o melhor que posso.
T E R A P E U T A : Bem, nós temos as informações básicas importantes
suficientes. Vou dar à senhora um ou dois questionários para serem preen
chidos em casa, e da próxima vez que vier nós falaremos sobre os proce
dimentos do tratamento.17 Nós provavelmente faremos um tipo especial
de tratamento, chamado dessensibilização. Ele envolve o relaxamento
muscular profundo, e outros procedimentos especiais. É tudo, por en
quanto.
Caso 2: Primeira entrevista num caso de ansiedade interpessoal (Srta. G.f
21 anos de idade)
Este é o transcrito da primeira de duas entrevistas, numa demons
tração filmada dos procedimentos básicos na terapia comportamental
de neuroses.* 0 leitor deve notar o empenho insistente do terapeuta
em definir as origens dos estímulos das respostas de ansiedade de que a
paciente se queixa em certas situações sociais. Depois de sindicâncias
iniciais nessa direção, ele volta para o histórico da vida da paciente, mas
interrompe a cronologia repetidamente, para seguir de perto os indícios
que poderiam lançar mais luz sobre os estímulos controladores da ansie
dade. Perto do final da entrevista, ele se afasta do histórico de vida incom
pleto, para renovar sua investigação desses estímulos. Finalmente, ele
faz um exame de algumas situações em que o comportamento auto-asser-
tivo (ver Capítulo 5) seria apropriado; mas surge o fato de que a ansiedade
que a Srta. G. teria, em resposta à conseqüências da asserção é tão grande
a ponto de tornar fútil qualquer tentativa quanto ao treino afirmativo
nesse estágio. Será primeiramente necessário dessensibilizá-la quanto
ao fato de ser observada e quanto à desaprovação.
T E R A P E U T A : Então o seu nome é Carol Grant? Qual é a sua idade?
S R T A . G .: 21 anos.
(*) Um resumo, que é tecnicamente excelente, se encontra disponível no
Psycological Cinema Register, Penn State University, State University, State
College, Pa., sob o título ds Behavior Therapy D em onstration. O leitor deve,
contudo, saber que esta é uma condensação de aproximadamente 35 minutos
de quase duas horas de entrevista, de forma que é dada a impressão enganosa
de negligência.
T E R A P E U T A : Qual é a sua queixa?
S R T A . G .: Eu fico nervosa o tempo todo.
T E R A P E U T A : Todo o tempo?
S R T A . G .: Sim, o tempo todo.18
T E R A P E U T A : Há quanto tempo tem sido assim?
S R T A . G .: Aproximadamente desde quando fiz quatorze anos.
T E R A P E U T A : Pode lembrar-se do que ocasionou isto?
S R T A . G .: Não, não realmente. Desejaria que pudesse.
T E R A P E U T A : Mas, não está você dizendo que antes de completar
quatorze anos não era nervosa?
S R TA . G .: Bem, eu era,mas não até esse ponto. Lembro-me de ter
sido especialmente na escola primária, quando tinha que ler algo diante
da classe, e então ficava muito nervosa, tendo que falar ou responder
algo na classe. Isto me incomodava.
T E R A P E U T A : Bem, essa é uma situação especial.
S R T A . G .: Sim , mas agora acontece todo o tempo. Quando saio de
casa, ou transponho a porta.
T E R A P E U T A : Bem, tentemos construir uma imagem. Diz que na
escola primária você só ficava nervosa quando tinha de se levantar e falar
diante da classe. Só então?
S R T A . G .: Sim.
T E R A P E U T A : E então na escola secundária?
S R TA . G .: Piorou. Quando saíamos com rapazes eu ficava muito
nervosa.
T E R A P E U T A : Quer dizer então que ficava mais nervosa diante da
classe?
S R TA . G .: Não conseguia dormir durante muitas noites preocupada
quanto ao fato de ter que falar diante da classe ou algo assim.
T E R A P E U T A : Então também ficava nervosa quanto a sair com
rapazes.
S R TA . G .: Sim , o senhor sabe, eu tinha medo especialmente se fosse
um encontro ao acaso, eu ficava apavorada.
T E R A P E U T A : Bem, não é isso até certo ponto natura l? 19
S R TA . G .: Eu creio que sim, mas não até os extremos que eu iria.
T E R A P E U T A : E se fosse sair com alguém que conhecesse?
S R T A . G .: Bem, após algum tempo eu ficaria um pouco mais calma,
mas ainda assim nervosa.
T E R A P E U T A : E se saísse com amigas?
S R TA . G .: Não ficaria tanto. Não ficaria tão nervosa, mas ainda
assim ficaria um pouco.
RELAÇÕES ESTl'MULO-RESPOSTA 57
58 PR Á TICA DA TER A P IA COMPORTAM ENTAL
T E R A P E U T A : Existiram outras situações em que demonstrou ner
vosismo enquanto esteve na escola secundária?
S R T A . G .: Nenhuma de que consiga lembrar-me, apenas basicamente
quando saía de casa tudo simplesmente parecia me incomodar.
T E R A P E U T A : Tudo? Como?
S R T A . G .: Bem, o senhor sabe, eu tinha receio de fazer provas ou
coisas assim, ou de falar, como disse antes. Apenas o fato de estar com
pessoas me assustaria.
T E R A P E U T A : Apenas estar com qualquer pessoa?
S R T A . G .: Sim, incomodar-me-ia mais se fosse com pessoas a quem
eu não conhecesse muito bem.20
T E R A P E U T A : E quanto aos períodos de férias?
S R T A . G .: Férias? Eu não compreendo o que o senhor quer dizer.
T E R A P E U T A : Bem, eu quero dizer que você deve passar por exames
e outras coisas na escola, mas durante as férias não há provas. Ainda
assim, você se sentiria nervosa ao sair de casa?
S R T A . G .: Um pouco. Mas não tanto.21 Porque não estaria pen
sando sobre isso.
T E R A P E U T A : Em que ano se formou na escola?
S R T A . G .:E m 1963.
T E R A P E U T A : E o que fez então?
S R T A . G .: Fui para uma escola e tornei-me uma técnica.
T E R A P E U T A : Que tipo de técnica?
S R T A . G. : Em raios X.
T E R A P E U T A : Gosta deste trabalho?
S R T A . G .: Não realmente. É só porque não sabia realmente o que
mais fazer. Pensei que isso seria interessante e o único motivo por
que entrei nisso foi por pensar que fosse interessante, mas uma vez
lá, fiquei nervosa quanto a tudo. Assusta-me o fato de estar com
pacientes.
T E R A P E U T A : Os pacientes a assustam?
S R T A . G .: Bem, especialmente os doentes. Que algo pudesse lhes
acontecer.
T E R A P E U T A : Você temia que algo pudesse acontecer a eles?
S R T A . G .: Sim, de que tivessem um ataque ou algo semelhante.22
T E R A P E U T A : Alguma vez aconteceu isso?
S R T A . G .: Não, não realmente.
T E R A P E U T A : Bem, faz agora cerca de cinco anos que se tornou
uma técnica.
S R T A . G .: Há mais ou menos quatro anos.
R ELA ÇÕ ES ESTIM ULO RESPOSTA 59
T E R A P E U T A : Durante esses quatro anos tornou-se mais nervosa
ou menos nervosa, ou permaneceu a mesma?
S R T A . G .: Definitivamente mais.23
T E R A P E U T A : Tem ficado gradativamente mais nervosa?
S R T A . G .: Sim.
T E R A P E U T A : Todo o tempo?
S R T A . G .: Sim. Minha boca se entesa todo o tempo.
T E R A P E U T A : Entendo. Agora, existe alguma coisa em especial
que a deixa atualmente nervosa.
S R T A . G .: Coisas especiais?
T E R A P E U T A : Bem, principiemos considerando a sua situação
no trabalho.
S R T A . G .: S im ?
T E R A P E U T A : Você disse que os pacientes doentes deixam-na
mais nervosa.
S R T A . G .: E também meu chefe.
T E R A P E U T A : Sim ?
S R T A . G .: Ele me deixa muito nervosa. Eu tenho medo dele.
T E R A P E U T A : Por que? Ele é muito severo?
S R T A . G .: Bem, sim, ele dá essa aparência.
T E R A P E U T A : Ele se comporta mal? Grita ou coisas assim?
S R T A . G .: Nunca comigo. Mas sempre receio que isso possa acon
tecer.
T E R A P E U T A : E quanto às enfermeiras?
S R T A . G .: Não realmente. Eu não tenho muito contato com elas.
T E R A P E U T A : Alguém mais a assusta?
S R T A . G .: Os homens.
T E R A P E U T A : Os homens?
S R T A . G . : Se eu sair com eles.
T E R A P E U T A : Sim. E quanto aos homens que vêm ao seu local
de trabalho, como os estudantes de medicina?
S R T A . G .: Sim , eles também me assustam.
T E R A P E U T A : Como é que eles a assustam?
S R T A . G .: Eu tenho medo de. . . eu não sei. Eu não tenho medo
deles realmente. Eu apenas tenho medo da forma que agirei. . . que meu
nervosismo transpareça. Eu penso muito sobre isso.
T E R A P E U T A : Bem, seria certo dizer que você teme um pouco ser
observada?24
S R T A . G .: Sim . Eu sempre penso que todo o mundo está me obser
vando.
60 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
TERAPEUTA: Agora, isso é no trabalho. Quais as outras circuns
tâncias que a assustam quando está afastada do trabalho?
SRTA. G.: Apenas o fato de sair. Eu tenho medo, o senhor sabe,
que me vejam como eu sou. Tenho medo de pegar qualquer coisa, porque
receio que possa tremer, e minha boca fica apertada todo o tempo. Tenho
medo de encarar as pessoas diretamente nos olhos.25
TERAPEUTA: Você tem receio de encarar apenas o seu acompa
nhante nos olhos, ou qualquer pessoa?
SRTA. G.: Qualquer pessoa.
TERAPEUTA: Então o fato de encarar uma pessoa frente a frente
aumenta o seu nervosismo?
SRTA. G.: Sim.
TERAPEUTA: Suponhamos que você esteja andando pela rua e que
haja um banco no lado oposto da rua com algumas pessoas sentadas
esperando o ônibus. Estaria você ciente da presença delas?
SRTA. G.: Sim, definitivamente.
TERAPEUTA: Embora elas pudessem não estar particularmente
olhando para você?
SRTA. G.: Sim.
TERAPEUTA: Agora, suponhamos que tirássemos todas as pessoas.
Suponhamos que esteja andando sozinha, digamos, por um parque. Não
há mais ninguém lá. Sente-se então perfeitamente à vontade?
SRTA. G.: Sim.
TERAPEUTA: Eu preciso estar bem certo disso.26
SRTA. G.: Sim.
TERAPEUTA: Se estiver completamente sozinha, você se sente
absolutamente calma e à vontade?
SRTA. G.: Sim, eu sinto. Da mesma forma que me sinto em casa.
Sinto-me bem.
TERAPEUTA: Bem, isso significa que há algumas pessoas que
podem olhá-la sem que isso a incomode.
SRTA. G.: Sim, às vezes. Mas eu não sei porque isso acontece.
TERAPEUTA: Bem, e quanto a sua mae.
SRTA. G.: Não, isso não me incomoda em casa.
TERAPEUTA: Sua mãe pode encará-la quando quiser?
SRTA. G.: Sim. É tolice mas. . .
TERAPEUTA: Bem, isso não é tolice.27 Quero dizer que esta é
a maneira como as coisas se desenvolveram.
SRTA. G.: Eu sei.
TERAPEUTA: E quem mais pode olhá-la sem a incomodar?
RELAÇÕES ESTIMULO-RESPOSTA 61
SRTA. G.: Toda a minha família.
TERAPEUTA: Quem está em sua família?
SRTA..G.: Meu pai, minha mãe, minha irmã, minha avó.
TERAPEUTA: Além dessas pessoas, existem outras que podem
encará-la sem a perturbar?
SRTA. G.: Não.
TERAPEUTA: E quanto a um bebê?
SRTA. G.: Não, isso não me perturba, e também uma pessoa mais
velha que seja senil ou algo assim. Issonão me incomoda.
TERAPEUTA: E quanto a um menininho de quatro anos de idade?
SRTA. G.: Não sei.
TERAPEUTA: Seis?
SRTA. G.: Não.
TERAPEUTA: Oito?
SRTA. G.: Não. É quando eles ficam mais velhos que eu fico ner
vosa.
TERAPEUTA: Doze?
SRTA, G.: Daí para diante.
TERAPEUTA: Cerca de doze anos? Efes parecem começar a inco
modá-la?
SRTA. G.: Sim.
TERAPEUTA: Depreendo disto que um menino de doze anos
não seria tão mau quanto um de dezoito?
SRTA. G.: Não.
TERAPEUTA: Voltemos à rua por onde andava, e lá estão 3 pessoas
sentadas num banco no oposto da rua. Faria alguma diferença se fossem
três homens ou três mulheres?
SRTA. G.: Não, não faria. Sentir-me-ia pior se visse alguém de muito
boa aparência.
TERAPEUTA: Quando o vê, mesmo que ele não esteja olhando
para você?
SRTA. G.: Sim, é assim.28
TERAPEUTA: Se fôr a um cinema e vir um artista muito bem
parecido, isso a incomoda?
SRTA. G.: Não, não realmente, porque eu sei que ele não está
olhando para mim.
TERAPEUTA: E se houver um artista bonito no palco?
SRTA. G.: Sim, incomodaria.
TERAPEUTA: Incomodaria mesmo que ele não estivesse olhando
para você?
62 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
SRTA. G.: A menos que estivesse muito escuro e ele não pudesse
me ver.
TERAPEUTA: Bem, então, é só quando ele consegue vê-la que
se sente atemorizada — porque pensa que ele pode enxergá-la.
SRTA. G,: Penso que sim.
TERAPEUTA: Além de a olharem, o que mais podem as pessoas
fazer para deixá-la nervosa? Você, penso, mencionou algo. Elas podem
criticá-la. Você teme que seu chefe a critique.
SRTA. G.: Qualquer crítica me perturba, mesmo que eu saiba
que estou certa. Eu não consigo replicar-lhes que estou certa29
nesse caso; eu simplesmente fico engasgada *e me sinto como se fosse
chorar.
TERAPEUTA: Há algo mais que as pessoas podem fazer para per-
turbá-la?
SRTA. G.: Bem, basta apenas me dizerem que estou errada — se
eu estiver errada ou se estiver certa, ainda assim isso me incomoda, Isso
me perturba.
TERAPEUTA: Esse é um tipo de desaprovação. Suponhamos que
as pessoas a elogiem?
SRTA. G.: Isso faz-me sentir bem.
TERAPEUTA: Isso a faz sentir-se bem. Quem é mais velha, você
ou sua irmã?30
SRTA. G.: Eu sou mais velha.
TERAPEUTA: Quanto?
SRTA. G.: Três anos.
TERAPEUTA: Que tipo de pessoa é seu pai?
SRTA. G.: Ele pende para o lado mais quieto, e ambos os meus
pais pendem para o nervosismo. Minha irmã, também. Toda a família,
na verdade.
TERAPEUTA: Foi o seu pai bom para você quando era pequena?
SRTA. G.: Sim.
TERAPEUTA: E sua mãe?
SRTA. G.: Sim, ela é a mais forte. Eu sou mais como meu pai e
minha irmã é mais como minha mãe.
TERAPEUTA: De que maneira é sua mãe mais forte?
SRTA. G.: Bem, as coisas não a incomodam, pelos menos exterior
mente, tanto como incomodam ao meu pai e a mim. Ela parece que
toma decisões.
TERAPEUTA: O que faz seu pai?
SRTA. G.: Ele é corretor de seguros.
RELAÇÕES ESTIMULO-RESPOSTA 63
TERAPEUTA: Algum de seus pais a castigou quando era nova?
SRTA. G.: Eles costumavam bater em mim uma vez ou outra.
Minha mãe o fazia. Meu pai dificilmente o faria, não se eu fizesse algo
errado.
TERAPEUTA: A sua mãe batia em você com muita freqüência?
SRTA. G.: Nem tanto.
TERAPEUTA: Bem, fez ela algo mais para discipliná-la?
SRTA. G.: Não, isso é tudo. Ela fazia alguns sermões.
TERAPEUTA: Você sentia, quando seus pais a castigavam, que era
injustiça?
SRTA. G.: Às vezes sentia.
TERAPEUTA: Havia outros adultos que tiveram um papel impor
tante em sua vida doméstica: avós, tias, babás?
SRTA. G.: Sim, minha avó — ela mora conosco.
TERAPEUTA: Certo, bem, agora, e quanto a ela? Que tipo de pessoa
é ela?
SRTA. G.: Ela é muito boa para comigo. Eu sou sua primeira neta,
assim ela dá mais atenção a mim que a minha irmã, mas ela não compre
ende muitas coisas porque não nasceu na América e não teve uma edu
cação.
TERAPEUTA: Como é que você se dá com sua irmã?
SRTA. G.: Nós costumávamos brigar muito, mas ultimamente
nós nos damos bem melhor do que antes mas nós não somos realmente
aproximadas porque ela é completamente diferente de mim.
TERAPEUTA: Como é ela?
SRTA. G.: Ela é muito mais faladora do que eu - mais extrover
tida. Eu sou pelo lado quieto.
TERAPEUTA: Foi à escola em Filadélfia, Carol?
SRTA. G.: Sim, eu fui.
TERAPEUTA: Gostou da escola?
SRTA. G.: Não realmente.
TERAPEUTA: O que a desagradou?
SRTA. G.: Eu tinha medo de me levantar diante da classe.31
TERAPEUTA: Sim, isso é tudo?
SRTA. G.: Sim.
TERAPEUTA: Como se saiu?
SRTA. G.: B, em média.
TERAPEUTA: Tomou parte em esportes?
SRTA. G.: Não.
TERAPEUTA: Fez amizades?
64 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
SRTA. G.: Sim, eu tenho muitas amizades.
TERAPEUTA:Tem quaisquer amigos próximos?
SRTA. G.; Sim, uma em particular.
TERAPEUTA: Diz que não gosta de ser técnica em raios X. 0 que
gostaria de ser?
SRTA. G.: Gostaria de ser professora de jardim de infância.
TERAPEUTA: Professora de jardim de infância?
SRTA. G.: Eu gosto de estar com crianças.
TERAPEUTA: Independente do fato de temer erguer-se e falar,
teve você quaisquer outros temores quando era pequena?
SRTA. G.: Não.
TERAPEUTA: Como, digamos, insetos, escuridão?
SRTA. G.: Eu tinha medo de tomar banho de chuveiro porque
tinha claustrofobia.
TERAPEUTA: Quando foi isso?
SRTA. G.: Aconteceu quando eu tinha 12 ou 13 anos de idade.
Eu tinha medo de ficar fechada. Alguém me trancara num banheiro
e eu não pude suportá-lo. Isso me apavorou.
TERAPEUTA: Que idade tinha quando isso aconteceu?
SRTA. G.: Eu realmente não me recordo. Calculo que por volta
dos 10 ou 11 anos.
TERAPEUTA: Depois que completou 12 anos de idade, esse temor
dèsapareceu?
SRTA. G.: Bem, ainda teria medo se alguém me trancasse num
banheiro. Eu não tenho medo de tomar banhos de chuveiro.
TERAPEUTA: Gosta de andar de elevadores?
SRTA. G.: Eu costumava sentir medo, mas não sinto mais.32
TERAPEUTA: Está relativamente bem agora?
SRTA. G.: Sim, eu os tomo todos os dias.
TERAPEUTA: Recorda-se de qualquer experiência por que tenha
passado na escola, que tenha sido particularmente assustadora com relação
a levantar e falar na classe?
SRTA. G.: Sim, quando estava no sexto ano tive que ler algo diante
<^a classe. Estava segurando o papel e comecei a tremer. E a professora
perguntou, "O que é que há?" e eu não conseguia falar.33 E desde então
quando tinha que ler alguma coisa eu a punha em cima da carteira e
a olhava. Eu ainda ficava nervosa.
TERAPEUTA: Antes disso acontecer, você já era nervosa?
SRTA. G.: Sim.
TERAPEUTA: E depois disso, você ficou pior?
RELAÇÕES ESTIMULO RESPOSTA 65
SRTA. G.: Sim.
TERAPEUTA: Deixe-me perguntar como você reagiria diante de
certas situações cotidianas.34 Suponhamos que esteja em pé numa fila e
que alguém entre na sua frente, como se sentiria e o que faria?
SRTA. G.: Eu nada faria mas sentir-me-ia prestes a explodir porque
acharia que isso está errado.
TERAPEUTA: Sim, estaria certamente errado.
SRTA. G.: Mas eu não poderia dizer nada a respeito. Eu não
consigo chegar ao ponto de dizer alguma coisa.
TERAPEUTA: E isso se aplica a toda situação deste tipo?
SRTA. G.: Sim. Há um homem que toma o mesmo ônibus, que
coxeia e ele não passa à minha frente mas empurra e puxa e ninguém lhe
diz nada, e isto realmente me perturba porque todos se queixam sempre
mas ninguém diz nada.
TERAPEUTA: Bem, porque não diria você algo a ele?
SRTA. G.: Eu simplesmente teria medo de fazê-lo. Ele tem um
mau temperamento.
TERAPEUTA: Bem, suponhamos que não fosse ele? Suponhamos
que você estivesse em pé numa fila da bilheteria da Academia de Música
e alguém que não conhecesse passasse à sua frente.
SRTA. G.: Eu provavelmente ainda nada diria.
TERAPEUTA: Por que não?
SRTA. G.: Simplesmente porque temo fazê-lo. Tenho medo de
abrir a boca.
TERAPEUTA: Tem isso qualquerrelação com a idéia de que se
tivesse que falar algo, as pessoas poderiam começar a olhá-la?
SRTA. G.: Talvez.
TERAPEUTA: Deixe-me tentar colocar a pergunta de outra maneira.
Gostaria que você pensasse com muito cuidado antes de responder.
Supondo-se que você não se importasse se as pessoas a olhassem, você
diria algo?
SRTA. G.: Eu realmente não sei. É só que não consigo exterio
rizar isto. As palavras simplesmente não saem.
TERAPEUTA: Bem, está certo. Você compreende que se alguém
tentar algo assim, como passar à sua frente, ele a estará prejudicando.
Uma das coisas que vai aprender a fazer enquanto estiver sendo tratada
aqui é precisamente tomar uma atitude quanto a essas coisas — enfrentar
a situação e não permitir que as outras pessoas a prejudiquem.
SRTA. G.: Como se faz isso?
TERAPEUTA: Essencialmente, o que deve fazer é expressar o des-
66 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
contentamento que com razão sente.35 É muito difícil no início mas se
se empenhar nisso, você verificará que fica cada vez mais fácil.
SRTA. G.: Eu já tentei, mas não consigo; se a situação surge, as
palavras simplesmente não saem e eu começo a gaguejar.
TERAPEUTA: Bem, eu a ajudarei. Mais tarde, cada vez que aqui
vier, eu perguntarei, "Carol, teve você quaisquer situações dessa espécie
na semana passada?" Você dirá, talvez, "Sim", e eu desejarei saber que
providências você tentou. Mas entrementes, eu sei que é difícil para
você, por ter um temor especial de ser o centro da atenção; se você disser
a uma pessoa que volte ao seu lugar na fila, ela a olharia e as outras pessoas
também. E isso torna as coisas mais difíceis.36
SRTA. G.: Sim.
TERAPEUTA: Portanto uma das coisas que deve fazer é derrubar
esse medo que tem de ser observada. Para fazê-lo, nós precisamos de
saber mais sobre ele. Usemos como uma espécie de situação básica aquela
que mencionamos na qual você está sentada num banco na rua.37 Agora,
faria qualquer diferença a largura da rua?
SRTA. G.: Sim, se as pessoas estivessem mais próximas sentir-me-ia
pior.
TERAPEUTA: Entendo. Agora, eu acho muito útil ter alguma
espécie de forma quantitativa de expressar o temor que a pessoa sente.
Uma das maneiras é lhe pedir para pensar sobre o pior medo que jamais
teve e chamá-lo de 100; e então você pensa sobre estar absolutamente
calma, como quando está em casa, e chamemos isso de zero. Agora,
consideremos que a rua seja tão larga quanto a Broad Street (cerca de
30 m) e que há apenas uma pessoa sentada no banco: quanta ansiedade
sentiria? Seria cinco, cinqüenta, vinte ou o quê?
SRTA. G.: Creio que seria por volta de 50.
TERAPEUTA: Agora, suponhamos que a rua fosse duas vezes mais
larga que a Broad St. e que houvesse apenas essa única pessoa?
SRTA. G.: Creio que cerca de 25.
TERAPEUTA: Agora, se você visse duas pessoas, seria ainda 25?
SRTA. G.: Sim.
TERAPEUTA: Não importa quantas?
SRTA. G.; Não, bem, se houver um grupo inteiro será pior.
TERAPEUTA: Suponhamos que você esteja em pé num lado de um
estádio de futebol que seja duas vezes mais largo que a Broad St. e que
haja um homem sentado nas arquibancadas no lado oposto; quanta ansie
dade isso causaria em você?
SRTA. G.: Por volta de 25.
RELAÇÕES ESTIMULO-RESPOSTA 67
TERAPEUTA: Se ao invés de ser um homem, fosse um menino
de doze anos de idade?
SRTA. G.: Creio que não chegaria a. . . 5, 10.
TERAPEUTA: Bem, se quando você estivesse em pé num lado do
estádio, houvesse um menino de 12 anos sentado nas arquibancadas do
lado oposto, você disse que teria 5 ou 10 graus de ansiedade. Se fosse um
homem de 25 anos de idade seria de 25 graüs. Com um menino de quinze
anos, seria algum grau intermediário?
SRTA. G.: Sim.
TERAPEUTA: Entendo. Bem, penso que podemos tomar isso como
uma base para a ação. Mas antes de tomarmos qualquer atitude, nós
devemos fazer outra coisa. Deixe-me explicar-lhe algo. Você sabe muito
bem que tem ansiedade onde não deveria ter. De forma a combater a
ansiedade, nós teremos de usar as reações dentro de você, as quais enfren
tarão a ansiedade. Uma muito conveniente é obtida pelo relaxamento
muscular. Agora, você provavelmente nunca aprendeu como relaxar os
seus músculos adequadamente, aprendeu?
SRTA. G.: Não.
TERAPEUTA: Da próxima vez começarei a )he demonstrar.
NOTAS
O) Sempre foi arriscado confiar na versão de um caso fornecida por um
psiquiatra ou psicólogo cuja orientação não seja comportamental, uma vez
que muita informação que lhes interessa não nos interessa, e vice-versa.
(2) Não é necessário ser Freudiano para suspeitar que esse bebê pode ter sido uma
intrusão na vida deta e, como será visto, de fato foi,
(3) Não pareceu aconselhável exercer pressão sobre sua memória nesse estágio
prematuro, quando ela ainda não se sentia à vontade com o terapeuta.
(4) Não se pode deduzir disto que ela continuou ressentindo-se da criança
posteriormente. A consciência da idéia destrutiva, produzindo uma intensa
perturbação emocional, poderia ter resultado no condicionamento de vários
estímulos àquela perturbação e á idéia associada.
(5) A piora é assim, aparentemente, um resultado da tensão aumentada época.
(6) Um retorno à busca de informação a respeito das circunstâncias referentes ao
princípio da fobia.
(7) Sua gravidez não foi apenas indesejada, como seu nascimento foi também
fisicamente desagradável.
(8) Observe a aceitação notória de seu relato e a forte rejeição da sugestão de
torpeza moral implicada no seu uso da palavra ''egoísta1'.
(9) A idéia de egoísmo é combatida novamente.
(10) Isto ergueu a questão quanto a se, em geral, ela tinha uma tendência para a ira
e agressão, quando contrariada. Conforme suas afirmações seguintes, este não
foi o caso.
(11) Tendo pais tão pouco envolvidos, não é de se surpreender que a Sra. P. não
ficasse entusiasmada quanto a ter crianças.
(12) É comum que as fobias de infância sejam descondicionadas peias experiências
que a vida fornece, sem qualquer tratamento formal.
(13) Observe a insistência do terapeuta quanto a pelo menos uma resposta aproximada
o que, uma vez obtida, foram procurados detalhes.
(14) Claramente, a escolha de um marido foi feita em termos racionais, e não por
causa de sua atração emocional, em contraste com o homem casado, anterior
mente mencionado.
(15) A aparência física é obviamente de grande importância emocional pafa ela,
oontribuindo muito para a força de sua reação negativa para com a criança
recém-nascida.
(16) Esta afirmativa expressa a orientação central de um histórico comportamental.
Tudo deve ser visto do ponto de vista da sofredora, pois é ela que deve ser
mudada.
(17) Já nesta primeira entrevista, a paciente recebe a mensagem de que a terapia
ativa começará muito em breve.
{18) É importantB estabelecer a presença ou ausência de ansiedade contínua. Suas
origens são várias, as mais comuns sendo os conflitos contínuos, reflexões
quanto a possíveis catástrofes, e a ansiedade difusa (vide Capítulo 9). Aqui,
a afirmação da Srta. G. de estar sempre ansiosa foi posteriormente verificada,
como incorreta.
(19) Isto foi para inferir que sua reação não estava realmente “por fora".
(20) Isto nos diz que sua ansiedade interpessoal varia diretamente com a estranheza
das outras pessoas.
(21) Quando a ameaça de testes esteve presente, o nível de ansiedade foi
aumentado.
(22) Aqui nós temos uma ansiedade de origem totalmente diferente.
(23) Jtto torna importante saber em que direções a reatividade se espalhou.
(24) Ser observada por pessoas significa um contato maior do que quando elas não
estão observando.
(25) Isto aumenta ao máximo o efeito do estímulo de ser olhada.
(26) Muitos pacientes dizem que estão "perfeitamente à vontade” quando estão
moderadamente aflitos.
(27) A paciente deve aceitar suas reações como notórias. Elas não são "erradas"
ou "tolas".(28) À primeira vista, esta ó uma exceção à regra. Mas, nas indicaçêos da conver
sação subseqüente, parece claro que ela reage à antecipação de ser olhada por
este tipo de imagem altamente eiiciadora de ansiedade.
(29) Outra fonte maior de ansiedade.
(30) Isto inicia o interrogatório quanto ao histórico geral.
(31) isto jâ foi observado e parcialmente explorado. Isto será logo diligenciado.
(32) Especialmente na infância, muitos temores são superados pelas experiências
da vida. A Srta. G. ainda tem algum grau de claustrofobia (em cubículos), mas
evidentemente relacionado com sua presente neurose séria.
68 PRATICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
RELAÇÕES ESTIMULO-RESPOSTA 69
(33) Este pode ter sido um evento crftico de condicionamento, mas o tremor em
suas mãos indica que houve um condicionamento preexistente de ansiedade.
(34) As respostas a estas perguntas lançam luz sobre as ansiedades interpessoais do
tipos que requerem treino afirmativo (vide Capítulo 5).
(35) Um princípio básico no treino afirmativo (ver Capítulo 5),
(36) 0 treino afirmativo está sendo, por enquanto, impedido por sua reação a
ser olhada.
(37) O que segue é o início da construção de uma hierarquia (ver Capítulo 6).
capítulo 4
]
Orientação✓
e a correcão de*
concepções errôneas
A atitude objetiva de não-julgamento que caracteriza o recolhimento
de informações, como retratado no capítulo anterior, permeia cada fase
da terapia comportamental. É uma atitude que vem facilmente ao com-
portamentista completo, mas é desagradável para quase todos.
O terapeuta comportamental toma por certo que o comportamento
humano está sujeito à determinação causal não menos que os compor
tamentos dos corpos cadentes ou das plantas que crescem. Por exemplo,
um homem pára numa encruzilhada, indeciso quanto ao caminho a seguir.
O caminho que ele toma é inevitável, sendo o resultado de uma
ponderação das tendências de ações em conflito. A força de cada tendência
de ação é essencialmente uma função de reações incipientes eliciadas por
estímulos impingentes, internos e externos, cujos efeitos dependem
principalmente da natureza das ligações neurais previamente estabele
cidas - isto é, das estruturas de hábitos preexistentes.
A atitude geral do terapeuta comportamental em relação aos seus
pacientes está de acordo com esta perspectiva determinista. Ele considera
o paciente como um produto de seus dotes físicos e dos efeitos cumu
lativos das experiências por que passou. Cada ambiente, cada exposição
à estimulação modificou, através da aprendizagem, o caráter do paciente,
como um organismo reativo, em maior ou menor proporção. Atitudes,
pensamentos, comportamento verbal, e comportamento emocional,
ORIENTAÇAO E CORREÇÃO DE CONCEPÇÕES ERRÔNEAS 71
têm sido todos modelados de diversas maneiras, e em diversos graus,
pelas interações anteriores do organismo com seus ambientes.
Uma vez que o paciente não teve qualquer escolha em se tornar
o que é, é incongruente culpá-lo por ter-se desviado para um lado,
ou depreciá-lo pela permanência de seu estado infeliz. 0 terapeuta com
portamental, portanto, não tenta moralizar seu paciente mas, ao con
trário, esforça-se para desalojar qualquer auto-censura que o condicio
namento social possa ter gerado e que possa ter sido ampliada por
afirmações feitas por amigos, parentes, e terapeutas anteriores. Ele capacita
o paciente a compreender que suas reações desagradáveis são devidas
a hábitos emocionais, os quais efe não pode evitar; que eles nada têm em
comum com a 'força moral' ou uma má vontade de melhorar; que reações
semelhantes são facilmente induzidas em animais, que permanecem neu
róticos por tanto tempo quanto o experimentador desejar e que quando
este decidir 'curar' a neurose, ele aplica ao problema métodos que são
determinados pelos princípios da aprendizagem. A desaprendizagem
da neurose experimental fica completamente sob o controle do experi
mentalista, e, de forma paralela, o domínio de uma neurose humana está
dentro do controle do terapeuta, através de técnicas bastante semelhantes
àquelas usadas no laboratório.1
O paciente, assim orientado, é então apresentado às práticas da
terapia comportamental. Isso é feito por meio de curtos discursos
didáticos, ou de outra forma, no decurso de discussões entre o paciente
e o terapeuta, que possam incluir outros tópicos.
0 papel central do medo (ansiedade) na neurose deve ser apresen
tado desde o início. A maioria dos pacientes está bastante ciente de estar
incapacitada pelo medo. Nem todos reconhecem que esta seja a essência
de suas reações perturbadoras (como demonstrado na Tabela 1); mas a
maioria consegue aceitá-lo quando o terapeuta o aponta. Os aspectos
característicos das origens dos temores neuróticos sao indicados nas
afirmações nas próximas linhas:
Você percebeu que o temor aparece excessivamente em sua vida.
É necessário que tenha alguma perspectiva# sobre ele. Ele é uma
emoção que tem um papel normal na vida de todos quando uma
situação que envolve um perigo real surge — por exemplo, cami
nhando a sós e desarmado à noite por um local ermo, ou sabendo
que a firma onde se trabalha está a ponto de fazer cortes no quadro
de empregados, ou sendo defrontado por uma cobra venenosa.
Ninguém viria para um tratamento porque experimentou o temor
PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
em tais situações. É uma questão diferente quando o temor surgiu
por experiências que não constituem nenhuma ameaça real — tal
como ver uma ambulância, adentrar uma sala repleta de gente,
ou andar de automóvel — tomando-se exemplos diferentes do seu
próprio. Sentir-se temeroso em tais situações é obviamente impró
prio, e isto pode interferir na vida cotidiana da maneira mais deso
ladora. É a isto que chamamos de medo neurótico; e é a tarefa da
terapia desligá-lo dos estímulos ou situações que o provocam.
Consideremos agora como se originam os temores neuróticos. O
processo é realmente o que o senso comum levaria a esperar.
Deixe-me ilustrar isto pelo exemplo antigo da criança que se
queimou. A criança coloca sua mão sobre um grande fogão a carvão
preto, que está quente. Ela rapidamente retrai e mão dolorida,
chorosa e temerosa. Sua mãe a consola mas, posteriormente, nota
que ela se afasta do fogão e parece sentir medo dele. Claramente, a
criança desenvolveu um hábito benéfico de temer e evitar um objeto
realmente perigoso.
Mas, em alguns casos, a experiência também tem outras conse
qüências menos favoráveis. Suponhamos que no quarto da mãe
haja uma grande cômoda de gavetas preta. A criança poderá passar
a temê-la também, baseada puramente em sua semelhança física
com o fogão — um fenômeno conhecido na psicologia como genera
lização. 0 temor à cômoda é neurótico porque não pode haver
nenhum mal em tocá-la. Ele pode ter uma série de implicações
indesejáveis. Em primeiro lugar, a própria presença de uma emoção
desagradável. Em segundo, a criança é agora forçada a se desviar, se
a cômoda estiver em seu caminho; e em terceiro, ela já não tem
acesso fácil a quaisquer conteúdos que sejam agradáveis nas gavetas,
tais como doces. Nesses aspectos do caso da criança, nós temos
um modelo de todas as reações neuróticas de temor.
Os seus próprios temores foram igualmente adquiridos no decurso
de experiências desagradáveis, algumas das quais nós abordamos em
seu histórico. As emoções desagradáveis que tivera tornaram-se
então condicionadas, ou associadas, aos aspectos da situação que
ficaram gravados em você naquela época. Isto significa que as expe
riências semelhantes subseqüentes levaram ao surgimento desses
mesmos sentimentos desagradáveis. Agora, só porque essas reações
poderiam ser então produzidas por determinados estímulos desen-
cadeadores como resultado da operação de um processo de apren-
ORIENTAÇÃO E CORREÇÃO DE CONCEPÇÕESERRÔNEAS 73
dizagem, é possível eliminá-las pela aplicação dos princípios de
aprendizagem.
Nos animais, o tratamento de uma neurose é uma questão muito
direta, especialmente quando o próprio experimentador induz a
neurose. Nas questões humanas ele pode ser tão simples, mas tam
bém complicado por diversos fatores no organismo mais complexo.
Contudo, dotados da palavras, nós podemos desemaranhar a maioria
das teias, e nossa própria complexidade dá à terapia comportamental
humana a possibilidade de um grande repertório de técnicas. Por
exemplo, alguns meninos que tiveram experiências assustadoras
com fogões poderão perder seus temores por cômodas de gavetas
através de uma explanação verbal e uma demonstração física das
diferenças entre dois tipos de objetos — um tipo de solução que
não se encontra disponível para as neuroses de animais.
Outros tipos de informações orientadoras são muitas vezes neces
sários. Embora o paciente possa em geral distingüir facilmente entre
aquelas de suas reações de ansiedade que são adaptativas e aquelas que
não o são, poderão existir mal-entendidos e, quando estes surgirem, o
terapeuta não deverá medir esforços para removê-los. É raramente
possível descondicionar a ansiedade de uma situação, que o paciente
acredite conter, por mais que erroneamente, um perigo real. Nenhuma
quantidade de esforço quanto à dessensibilização poderá tornar uma
pessoa indiferente a manipular uma cobra que ela acredite ser venenosa.
Os mal-entendidos são particularmente comuns em temores do tipo
'hipocondríaco'. Somente quando o paciente com dores recorrentes
no tórax é assegurado de que as dores não significam uma moléstia
cardíaca, como também lhe é demonstrada a origem verdadeira, pode-se
esperar que as operações da dessensibilização sejam empreendidas com
sucesso.
Alguns outros tipos de afirmações corretivas, cumumente neces
sárias de se fazer são exemplificadas pelo seguinte:
1. "Não está mentalmente doente e não há-nenhuma possibilidade
de ficar demente". A própria característica de seus sintomas faz
muitos pacientes se sentirem como se estivessem 'caindo aos pe
daços', uma interpretação que é 'confirmada' quando outras pessoas,
particularmente médicos, não compreendem sobre o que estão
falando, quando tentam descrever os seus sintomas. O temor do
PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
paciente é naturalmente exacerbado se um psiquiatra lhe tiver dito
que ele é, ou poderá tornar-se, psicótico: É muitas vezes suficiente
expressar a confiança de uma maneira peremptoriamente dogmática
mas, com pacientes instruídos, uma grande quantidade de provas
terá que ser fornecida. Poderá ser necessário argumentar que as
neuroses e as psicoses não estão na mesma série contínua. Assim,
por pior que a neurose se torne ainda assim não é uma psicose.
Indivíduos incomumente sofisticados poderão necessitar de fatos
comprovados: que as psicoses demonstram um claro padrão
herdado não manifesto nas neuroses; que há evidências de anorma
lidades bioquímicas na linfa de psicóticos, ao passo que aquela do
neurótico é indistingüível da normal; e que no decurso da Segunda
Guerra Mundial, enquanto que a incidência das neuroses aumentou,
aquela das psicoses permaneceu estacionária. Eles também poderão
ouvir falar sobre a descoberta de Eysenck (1958), de que as neuroses
e psicoses são desvios em diferentes dimensões, e a diferenciação
pupilográfica de Rubin (1970). Para maiores detalhes, vide
Wolpe (1970).
2. "Todas as suas reações são explicáveisPacientes que de tempos
em tempos são tomados por estados de pânico ou depressões,
cujos antecedentes não estão esclarecidos, poderão começar a
sentir-se cronicamente apreensivos: eles não sabem quando as 'forças
ocultas' atacarão. Um exame cuidadoso das circunstâncias dessas
severas reações quase sempre revela constâncias; e o fato de conhecê-
-las dá um grande consolo ao paciente, por si só removendo uma
origem importante de ansiedade.
3. "Não há nenhuma virtude em enfrentar os seus temores". Muitos
pacientes, seja na base de sua educação moralista, ou incitados por
amigos ou terapeutas, sentem que devem, para melhorarem, 'encarar'
as situações que lhes eliciam a ansiedade. É geralmente suficiente
referir-se às suas próprias experiências para convencê-los de que isso
é fútil e inclusive agravante. Sua coragem leva à penitência não
recompensada por bênçãos. Deve-se lhes dizer que uma mudança
emocional depende de exposições controladas a estímulos
perturbadores.
ORIENTAÇÃO E CORREÇÃO DE CONCEPÇÕES ERRÔNEAS 75
Caso 3: Um transcrito exemplificando a correção de uma concepção
errônea *
Muitas concepções errôneas podem ser corrigidas por algumas
afirmações autorizadas. Mas, às vezes, um complexo sistema de
pensamentos, errôneos pode ter sido configurado na vida do paciente e,
nesse caso, poderá ser necessária uma grande quantidade de instrução e
argumentação para analisá-lo. Isto é ilustrado no transcrito abaixo.
A paciente. Lisa, era uma mulher muito inteligente, com 35 anos
de idade, que tinha sofrido muito durante mais de 10 anos de irritabi
lidade acentuada, severas depressões, maus humores freqüentes, às vezes
violentos. Ela jamais tivera um orgasmo coital; e tinha aceito o consenso
de amigos, parentes, e médicos de que era, de alguma maneira, biologi
camente incapaz de uma função sexual normal — um ponto-de-vista que
ficou confirmado em sua mente quando quase 10 anos de psicanálise
deixaram de produzir qualquer mudança. Essa visão de si mesma, junta
mente com uma impressão de desinteresse por parte de seu marido, Ed,
encheu-a de desespero, e causou as depressões e os maus humores.
Misturado com a tomada do histórico, nas primeiras sessões de
Lisa, houve um ataque organizado sobre toda a estrutura conceptual
errônea. Foi demonstrado a ela que, na verdade, era uma pessoa bem
integrada que tinha recolhido, através da aprendizagem, alguns hábitos
não adaptativos — mais notavelmente, um receio de confiar nas pessoas,
particularmente no contexto da experiência sexual mais profundamente
sentida - o orgasmo.
Quando compreendeu isto, Lisa experimentou um enorme alívio
emocional, e cooperou zelosamente nos esforços que foram instituídos
para normalizar sua vida sexual. Ela, durante anos, foi capaz de se
masturbar até o orgasmo, comprimindo suas coxas, mas apenas quando
sozinha em casa. O primeiro objetivo, no domínio do sexo, foi o de
superar seu temor de ser observada durante o orgasmo. A ansiedade come
çava a ser sentida com a idéia de se masturbar se seu marido estivesse a
três casas de distância, e aumentava à medida que ele se aproximava.
Conseqüentemente, a dessensibilização (Capítulo 7) foi planejada numa
dimensão de proximidade. Porém, quando lhe foi pedido que fechasse
os olhos com o propósito de se relaxar, ela ficou muito ansiosa — isso
associado, como o transcrito sugere, a um receio de confiar nas pessoas.
í*) A primeira dessas entrevistas transcritas foi publicada no Journal of
Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, 2, XXX, 1971,
76 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
Através de períodos gradativos de fechar os olhos, esse temor foi togo
superado; e então a dessensibilização, à hierarquia de Ed se aproximando
durante a masturbação, foi rapidamente concluída.
Uma vez que Lisa foi capaz de se masturbar na presença de Ed,
foi possível organizar uma série de passos através dos quais o orgasmo
masturbatório foi integrado ao coito de uma maneira que ambos acharam
inteiramente satisfatória. A reação de ciúmes desapareceu à medida que o
progresso continuou. Cinco meses depois, Lisa escreveu: '"Meus dias
continuam cheios de sol e minhas noites começam com milhões de
estrelas." Jamais houve a sombra do retorno de seus sintomas anteriores.
O transcrito consiste nos resumos das primeiras três entrevistas
de Lisa.Durante a primeira metade da entrevista inicial, Lisa foi vista só,
e em diversos pontos contestei que sua incapacidade fosse uma ''doença”,
e que ela era culpada pelo problema marital. Ed participou da segunda
metade, para tornar possível corrigir a impressão de Lisa de que este não
se importava com ela. Ao final, ambos receberam a Tabela Willoughby
para preencherem em casa. Poucos dias depois, Ed telefonou para dizer
que Lisa estava em estado de crise, e que tomara 30 comprimidos de
oxazepam no dia anterior. Numa pequena sessão de emergência, ela
afirmou que suas respostas Willoughby (uma contagem de 51) contra os
16 de Ed tinham-na convencido de que ela deveria ser um caso sem espe
ranças. Como os excertos da sessão demonstram, eu a persuadi de que a
diferença era puramente uma questão de condicionamento. Depois disso,
ela jamais olhou para trás. A terceira sessão prosseguiu com a ênfase
quanto ao esclarecimento conceptual. Os resumos dele incluem algo do
histórico de fundo de Lisa.
Primeira Sessão
DR.: Pelo que disse Ed, seu marido, depreendo que há uma falta
de harmonia entre os dois.2 A questão é quanto a se há qualquer possi
bilidade prática de endireitar seu relacionamento e torná-lo mutuamente
desejável.
LiSA: Eu penso que somos pessoas muito diferentes. Logicamente,
quase todas as pessoas são diferentes; mas penso que casei com meu
marido por motivos muito neuróticos, e penso que houve algo semelhante
por parte dele, também. Eu tive dez anos de terapia. O senhor é o terceiro
médico que meu marido me faz consultar, não, não "fez-me consultar”.
Não devo colocar a coisa dessa maneira.
DR.: Bem, às vezes não é uma questão de terapia.3 De qualquer
ORIENTAÇÃO E CORREÇÃO DE CONCEPÇÕES ERRÔNEAS 77
forma, antes de tomarmos qualquer decisão, tentemos conseguir alguns
fatos. Quando foi a primeira vez que a senhora o encontrou?
LISA: Creio que conheci casualmente durante nossa adolescência.
Eu era caloura na universidade enquanto ele era veterano. Não comecei
a namorá-lo até que meu primeiro casamento dissolveu-se.
DR.; O que foi que a senhora gostou em Ed?
LISA: Ele era inteiramente oposto ao meu pai.
DR.: Que idade tinha quando seu primeiro casamento se dissolveu?
LISA: 20 anos.
DR.: A senhora gostou do fato de que Ed era diferente de seu pai.
Bem, qual era a diferença?
LISA: Ele era calmo e mais estável, e certamente mais equilibrado
emocionalmente. Ele era o tipo de homem ao qual sempre me senti
atraída - protetor, imagino.
DR.: Bem, ele era estável e eliciava um sentimento de proteção.
Essa é a essência disso?
LISA: Eu não sei. Nunca pensei sobre isso dessa maneira.
DR.: Sentiu-se fortemente atraída por Ed nessa época?
LISA: Sim.
DR.: Depois de quanto tempo se casaram?
LISA:Seis meses.
DR.: Como se saiu com ele durante esses seis meses?
LISA: Ah, foi uma espécie de relacionamento confuso.
DR.: Como assim?
LISA: Bem, houve certos períodos de tensão e extenuação. Nunca
foi o que eu poderia chamar de um período calmo de namoro.
DR.: Quais foram as causas das tensões e exter.uações?
LISA: Eu, calculo. Eu era uma pessoa emocionalmente muito
doente naquela época e .. .
DR.: Algo deve tê-la perturbado.4
LISA: Não sei. Creio que foi sua formação.
D R.: Não estou perguntando nesse sentido. Não estou perguntando
o que causou o distúrbio. Pergunto apenas o que a pertubou.5
LISA: Oh, não sei. Suponho que eu era exigente, insegura e ciumenta
quanto ao tempo que ele passava comigo. Jamais me encontro equili
brada; estou sempre por cima ou por baixo, ou. . .
DR.: Ainda assim, que tipo de coisas a incomodam?
LISA: Quando ele dá atenção a uma outra mulher, isso me perturba.
DR.: Bem, isto é bastante claro. Era esse tipo de coisa que costu
mava acontecer.
78 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
LISA: Foi há tanto tempo. Não consigo lembrar-me. Eu estava em
tal estado de completa irrealidade quando Ed e eu namorávamos, que
não consigo lembrar-me de como era meu comportamento.
D R.: Mas a senhora gostava de estar com ele e se sentia feliz com
o relacionamento.
LISA: Sim.
DR.: Mas havia algumas coisas que a perturbavam.
LISA: Sim. Bem, eu morava em casa com um pequeno bebê6 — não
é exatamente um arranjo ideal.
D R.: Como era o relacionamento sexual7 durante esse período?
LISA: Eu nao sei. Quanto a mim, jamais houve qualquer satisfação
sexual, mas calculo que me esforcei muito porque queria prendê-lo a mim.
D R.: Então não houve qualquer prazer sexual real para a senhora?
LISA: Jamais houve com ninguém.
D R.; A senhora conhece algumas mulheres que dirão que não atin
gem um orgasmo, mas que apreciam o sexo. A senhora nem ao menos
aprecia?
LISA: Oh, creio que aprecio. Sim, até certo ponto.
D R.: Sim?
LISA: Sim, creio que jamais o afastei assim.
D R.: Bem, fica estimulada até certo ponto e então se sente no seco.
Sente-se frustrada?
LISA: Não, a ira dissipou-se completamente em mim. Já não me
zango com isso ou quanto às exigências disso. Eu fico muito irritável
e hostil quanto a Ed.
DR.: Bem, é isso que eu quero dizer.
LIZA: Mas não sinto que é minha culpa porque. . .
DR.: Não importa de quem seja a culpa.8
LISA: Nao, mas, quero dizer, não há nenhuma relação sexual — a
menos que parta de mim, não há nenhuma. . .
DR.: Entendo. De qualquer forma, voltando àquela época. Naquela
época, a senhora mantinha relações sexuais com ele?
LISA: Sim.
D R.: E as apreciava até certo ponto. . .
LISA: Oh, sim.
D R.: E então ficava irritada depois?
LISA: Sim.
D R.: Então isso tendeu para afastá-la dele porque era uma espécie
de punição.
LISA: Bem, penso eventualmente que sim. Especialmente depois
ORIENTAÇÃO E CORREÇÃO DE CONCEPÇÕES ERRÔNEAS 79
que se casa e se estão ligados legalmente um ao outro, sente-se mais segu
rança emocionalmente. Quando fui ao primeiro psiquiatra, e Ed descobriu
que havia um problema, ele desistiu completamente das aproximações
sexuais. Nos últimos dez anos se eu não começasse, não haveria nada.
No ano passado, nós passamos o ano todo sem qualquer sexo. Mas eu
realmente sinto que minha terapia foi. . . foi longa, mas serviu ao seu
propóstio.
D R.: A qual propósito serviu?
LISA: Bem, descobri, eu penso, as razões de meus problemas. Consi
dero-me uma neurótica controlada9 agora. Tenho medo de fazer qualquer
coisa.
D R.: Tem medo de fazer qualquer coisa?
LISA: Certo. Eu não faço nada, nada. Se sei que é perigoso para
minha.. .
DR.: Isso é muito importante. Tomemos esta situação sexual. Se sen
te que o sexo a deixa perturbada e irritada, então é razoável evitá-lo.
Isto não significa necessariamente que seu fracasso em responder sexual
mente seja em si neurótico. Pode ser; eu não sei. Mas também pode não
ser.”
LISA: Bem, é um sentimento diferente agora. Mas, desde que voltei
para Ed — estou certa que ele lhe explicou — segundo as circunstâncias
do último outono,11 ele fez um esforço e eu fiz um esforço. Mas ele
se afastou e isso me deixa mais irritada.
D R.: Ele se afastou em que sentido?
LISA: Ele já não me procura. Ele tentou durante algum tempo — eu
jamais o rejeitei durante todo esse período; e eu cooperava e apreciava e .. .
DR.: Então hoje gostaria que ele a procurasse?
LISA: Mas ele não o faz. E isto foi quando comecei a interroga-lo.
Eu disse, "Ed, eu não vou mais a psiquiatras porque é uma rua de duas
mãos. "E disse, "Estou cansada de ser sempre a agressiva em nosso relacio
namento." Jamais posso ser subordinada em minha mente, se sou a única
que é agressiva.
D R.: No começo, era a senhora que evitava as relações e agora é
ele que evita.
LISA: Bem, ele evitou durante todo um período de oito anos. Os
médicos interrogaram-me a respeito.12 Eles sentiram que Ed tinha desis
tido muito rapidamente quando descobrira que eu tinha um bloqueio
mental quanto a . . . bem, eles o denominaram um Complexo deÉdipo,
um complexo de pai, não se tem a capacidade de ter um orgasmo.13
Está muito além de minha capacidade. Muitas meninas adoram seus pais —
80 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
e daí? Após dez anos de terapia, deveria certamente haver alguma mu
dança.
DR.: Eu concordo com a senhora.14
LISA: Aqui estamos na mesma situação e, por algum motivo, essas
mulheres são ainda muito perturbadoras para mim: sua mãe, sua irmã. ..
não fazem qualquer diferença, trata-se das mulheres em geral. Minha mãe
era minha concorrente, então qualquer mulher é minha concorrente.15
DR.: Bem, pensa que sentiria tanto isso se Ed a estivesse procu
rando?
LISA: Não. Sentir-me-ia mais segura.
D R.: Isso faz sentido.
LISA: Como está agora, sinto-me muito insegura. Sinto que qualquer
mulher é uma ameaça para mim. Há certos tipos de mulheres que são
muito femininas, que parecem bastante seguras em suas vidas. Elas não
representam uma ameaça. Mas então existem aquelas que subitamente tin
gem seus cabelos e ficam insatisfeitas com suas situações no tar. Para
mim elas são ameaçadoras.
D R.: Mas há uma base para isto. A senhora compreende que Ed
é uma pessoa e tem suas necessidades. Se ele não vem para a senhora,
talvez ele sinta que essas pessoas insatisfeitas são mais acessíveis.
LISA: Bem, se é isso, tenho disfarçado para mim mesma. Talvez
isso fosse demasiadamente horrível para encarar.
D R.: Mas a senhora está agindo como se sentisse dessa maneira,
não é?
LISA: Creio que sim.
DR.: Independentemente dessa parte sexual, como vão indo?
LISA: Horrivelmente. Estou constantemente irritada — somos como
duas pessoas ofendendo uma a outra.16 Eu amo de fato a Ed e temos
três crianças maravilhosas. Elas são muito estáveis, saudáveis de corpo e
espírito. É extraordinário para mim. Olho para elas e penso: "Com minha
condição mental, como poderiam ser essas crianças como são? " Ed jamais
esteve por perto durante doze anos. Calculo que para escapar de mim
ele se atira ao trabalho. Eu não sei. Penso que muitos homens fazem isso.
Talvez seja apenas um padrão de comportamento. Isso é comum em sua
família. Sua própria irmã jamais permanece em casa e ela tem quatro
filhos; e ela sai constantemente. E seu irmão, com 38 anos de idade,
já passou por três divórcios. Eu olho para todas essas coisas e penso:
"É tudo eu? " Eu disse a Ed, "Estou farta da terapia. Sinto como se
tivesse sido colocada aos cuidados médicos para que não^fizesse onda17
de maneira que você pudesse aproveitar a vida quanda eu estivesse ten
ORIENTAÇÃO E CORREÇÃO DE CONCEPÇOES ERRÔNEAS 81
tando impedi-lo." Creio que se chega a um ponto onde não se liga mais
para nada.
D R.: Seus pensamentos já se voltaram para outros homens?
LISA: No ano passado, estive fora com um estudante universitário
durante alguns dias. Ele se sentia infeliz com sua vida pessoal. Sua família
é vizinha à nossa. Ele veio falar comigo e eu fiquei envolvida. A realidade
pareceu sair de mim. Olho para isso agora e penso que jamais poderia
ter acontecido. Mas aconteceu.
DR.: Foi essa uma situação emocionalmente satisfatória?
LISA: Emocionalmente satisfatória, sim. Ela satisfez uma neces
sidade. Creio que venho procurando há anos, mas jamais pensei que seria
um rapaz de 20.
D R.: Bem, isso não importa.18 Teve orgasmos?
LISA: Não.
D R.: Bem, esteve perto de um?
LISA: Não.
D R.: O que pensa que está faltando, impedindo-a de ter um or
gasmo?
LISA: Bem, disseram-me que é um Complexo de Édipo.
DR.: Não importa isso.19 O que é que a senhora pensa?
LISA: Eu não acho que me sinta adequada- Não sei.
DR,: Pode descrever quaisquer circunstâncias que possam ingressar
num relacionamento que a deixariam. . .
LISA: Oh, sinto que tenho medo de perder contato com a realidade.
D R.: Uma espécie de medo de se soltar, não é?
LISA: É o seguinte. Não confio em ninguém o suficiente.20
D R.: Se tiver um orgasmo, é claro, a senhora não estará perdendo
contato com a realidade. A senhora está se envolvendo demais com a
realidade.21 Posso ver que a senhora pode sentir de outra forma, contudo.
Encontramos pessoas que têm receio até de relaxar.
LISA: Bem, eu também jamais me relaxo. Não quero dízer apenas
no sexo, e sim em qualquer situação. E eles me dizem, "Não fique ner
vosa." É muito bom dizer a alguém, o senhor sabe, não fique nervosa,
mas. . . j,
DR.: Bem, eu gostaria de pedir a Ed que entrasse e ver se conse
guimos mais algumas orientações.
Ed é chamado e entra.
ED: Bom dia, senhor. , <
DR.: Por favor, sente-se. Tivemos um breve conspèeto do problema
82 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
marital do ponto de vista de Lisa, e parece-me que há tanto fatores gerais
como situacionais. Um fator situacional que me parece muito importante
é que, de acordo com o relato dela, o senhor não faz qualquer aproxi
mação sexual em direção a ela. Poderia comentar sobre isso?
ED: Eu diria que isso é geralmente verdade.
DR.: Bem, deve haver uma razão para isso. O que o impede? 22
ED: Tem havido um espetáculo particularmente mau, por assim
dizer, entre nós, quanto a isso. Eu fui apenas desligado, em algum ponto
ao longo da linha.
DR.: Talvez tenha havido uma má comunicação entre vocês. Há
muito te m p o ,L is a se tornou negativa em relação ao sexo, porque se
sentia irritada depois de não ter orgasmos. Mas seus sentimentos são dife
rentes agora. Ela agora procura sinais de afeição do senhor e responderia
a eles. Creio que não está ciente disso.
ED: Bem, ela me disse isso. Talvez eu agora tenha um bloqueio,
por causa das más experiências passadas que tive com ela.
DR.: Bem, o senhor gosta dela?
ED: Eu a amo.
DR.: Gosta de estar próximo a ela?
ED : Muito
DR.: Bem, como chega tá sem se aproximar dela?
ED: Não entendi sua pergunta.
LISA: Ele quer dizer, como chegar à primeira etapa, querido, se
você não tenta.
ED: Oh, entendo. Bem, é uma boa pergunta, mas eu não tenho
uma resposta.
DR.: É muito compreensível que se tornasse temeroso, como uma
criança que apanhou muitas vezes. Para ser perfeitamente franco com o
senhor, uma situação pode tornar-se tão poderosamente aversiva que não
poderia ser feito um movimento de aproximação.24 Haverá então um pro
blema terapêutico. Mas, antes de tentarmos soluções terapêuticas, desejo
ver se consigo persuadi-lo a fazer aproximações. O fato de que os três
estivemos discutindo a questão abertamente talvez já possa ter facilitado
a ação, porque sabe antecipadamente, Ed, que vai ser aceito. Acolheria
isso de bom grado. Lisa?
LISA: Penso que seria necessário algum esforço. Tornei-me tão zan
gada ao ponto de não poder predizer uma resposta. Quero dizer, pode-se
tornar tão desligada que levaria um longo período de tempo para se ser
excitada. Mas eu o acolheria de bom grado, certamente.
DR.: Penso, Lisa, que muito depende daquilo que queremos dizer
ORIENTAÇÃO E CORREÇÃO DE CONCEPÇÕES ERRÔNEAS 83
por aproximação. Uma aproximação pode tomar muitas formas. Pode ser
apenas segurar sua mão. Pode ser ele entrando na cozinha e lhe dando um
abraço. Neste estágio, Ed está um pouco hesitante e a senhora um tanto
ressentida. Mas, uma vez que a afeição é recíproca, a ação deve começar.
LISA: Penso que isso seria muito suspeito. Eu sentiria que ele estaria
iniciando isso porque o senhor o determinou.
D R.: Sem, isso é verdade, mas ele também o deseja.
LISA: Não estou convencida disso.
DR.: Bem, como é que poderemos verificar?
LISA: Não sei. Passei dez anos em terapia e não descobri.
DR.: Eu realmente não vejo como a terapia poderia tê-la ajudado
a descobrir. A senhora disse que lhe agradaria se ele se aproximasse. Se não
h quisesse, ele poderia simplesmente deixá-la, não é verdade?
LISA: Sim, certamente.
D R.: Pensa que teria sentido ele mentir? Por que deveria ele fingir
que a deseja? Por que deve ele tolerar a insatisfação, a menosque real
mente espere que algo se resolva?
LISA: Bem, penso que isso é verdade.25
D R.: Portanto, penso que há uma razão fundamental para aceitá-lo.
Há o que podemos chamar de campo para uma experiência. Gostaria de
vê lo fazendo aproximações, pequenas aproximações, muitas aproxima
ções. Ele poderá ficar indeciso no começo, mas a senhora o reforçaria.
Então se tornaria mais fácil para ele fazê-!o.
LISA: Venho esperando desde o Natal, quando voltei para Ed.
DR,: Sim, mas quero dizer quando ele faz uma aproximação.
LISA: Eu tenho reforçado.
DR.: Mas a senhora disse que ele nunca se aproxima.
LISA: Ele tentou. Ele leu esse livro de Masters e Johnson, e então
desistiu novamente.
DR.: Por que desistiu novamente, Ed? Sentiu-se mal acolhido ou
o quê?
ED: Sim, até certo ponto, senti. Senti que era um fracasso, embora
no início nós tivessemos um bom relacionamento. Mas, então, depois
dliio, se eu atingisse um orgasmo, era prematuro, e Lisa dizia, "Por que
Vil ião rápido? " Às vêzes o ato era apenas um fracasso.
D R.: O mais importante aqui não é o sexo, mas o amor, do qual o
áto sexual é apenas uma expressão exterior, mas não a única.26 Também
há muitas pequenas coisas que ocorrem entre as pessoas — pequenas apro-
Hlmações onde o sexo não precisa acontecer, e talvez não pudesse acon-
Üeor. Se Ed fizer essas coisas e Lisa responder positivamente, um forte
84 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
sentimento de afirmação mútua será formado, de onde o sexo é um ramo
natural, embora não seja necessariamente um grande sucesso no início.
O medo de Lisa de se soltar torna impossível orgasmos coitais por parte
dela. Mas tenho bastante certeza que ela eventualmente terá orgasmos com
o senhor.
LISA: Não creio que aceitaremos um ao outro como indivíduos.27
Assim sendo, não vejo como possivelmente poderemos ter uma relação
sexual satisfatória.
D R.: Considererríos isso. Às vezes as pessoas não aceitam umas às
outras porque são realmente muito diferentes e incompatíveis. Às vezes
não aceitam umas às outras por causa de uma sucessão de mensagens
errôneas. Eu não sei realmente qual é a sua situação. Tentemos explorar
essas coisas. Farei a cada um algumas perguntas. Sente-se, Ed, atraído
fisicamente por Lisa?
ED: Sim.
DR.: Sente-se atraída fisicamente por Ed?
LISA: Sim, definitivamente.
D R.: Tem um número substancial de interesses comuns?
ED: Temos bastante; temos o golfe, temos nossos filhos.
LISA: Eu comecei a praticar o golfe para estar com você.
D R.: Porém está lá agora.
ED: Está lá, sím
LISA: Nós gostamos.
DR.: Em que mais estão interessados?
LISA: Não em muita coisa mais.
DR.: Em que poderiam estar interessados?
LISA: Coisas criativas. Qualquer coisa criativa; eu costuro muito.
Coisas pelas quais Ed não se interessa.
ED: Bem, eu não preciso participar de. tudo.
LISA: Você não deve participar de algumas coisas?
ED: Algumas coisas.18 Você tem o golfe e você tem as crianças.
LISA: Mas o golfe só veio nos últimos quatro anos.
DR.: Isso não importa. Está aqui agora. E quanto a cinemas, livros,
eassim por diante?
LISA: Nós não gostamos dos mesmos filmes.
D R.: Penso que a coisa mais importante é um sentimento de parti
cipação mútua no próprio viver. Isso é mais importante que cinemas e
livros, até o ponto de poderem sentir-se çapazes de construir uma vida
juntos, na qual sua casa e as crianças são uma parte importante. Tem
algo desse sentimento geral?
ORIENTAÇÃO E CORREÇÃO DE CONCEPÇÕES ERRÔNEAS 85
ED: De sermos capazes de construir uma vida juntos?
DR.: Sim.
ED: Oh, nós certamente temos.
LISA: Pensei que o senhor disse "participação” .
DR.: Sim. Quero dizer participação emocional construindo uma vi
da juntos.
ED: Bem, penso que. . . penso que nós dois realmente desejamos
isso. Penso que isso é. . .
D R.: Muito bem, Lisa, quais são-as coisas que desejaria e Ed não dá?
LISA: Bem, penso que o mais importante é ser capaz de satisfazer
as necessidades de alguém.29 E quando alguém precisa da gente, a gente
precisa estar lá.
DR.: Vou dizer o que gostaria que fizessem. Poderiam cada um
fazer uma lista de coisas que sentem que se interpõem entre vocês? Tantas
quanto puderem. Então gostaria que cada um entregasse ao outro essas
listas e indicasse se pensam que algo pode ser feito para reconciliar cada
objeção em particular. Também gostaria que cada um preenchesse um
desses Questionários Willoughby.
Segunda Sessão
Esta foi uma sessão de emergência, e aconteceu 3 dias antes da esta
belecida. Ed telefonou dizendo que Lisa tinha ficado num estado de gran
de angústia emocional, culminando por tomar 30 comprimidos de oxa-
zepam. Pedi-lhe que a trouxesse para ver-me, sem delongas. Segue-se a
parte relevante da breve, mas importante entrevista que se seguiu.
DR.: A senhora pareceu um tanto esperançosa no final da última
sessão. Então houve um colapso. O que aconteceu?
LISA: Aqueles testes Willoughby que fizemos demonstraram que
eu sou a doente e Ed é o normal. Minha resposta a praticamente ca
da pergunta é oposta à dele. Ele esteve certo todo o tempo. As respostas
dele denotam estabilidade e as minhas instabilidade. Sinto-me desanimada.
DR.: Esse teste mede o neuroticismo social. Isso significa a extensão
à qual existe ansiedade ou nervosismo excessivo com relação às outras
pessoas. Sua contagem de 51 em contraste com a de 16 dele demonstra
que a senhora é muito mais vulnerável que Ed quanto às afirmações das
pessoas e às atitudes delas quanto à senhora. Mas essa reatividade ansiosa
não é orgânica. Ela não é herdada. Ela foi adquirida através da aprendi
zagem. É uma questão de aprendizagem emocional. Aquilo que foi apren
dido pode ser desaprendido.
86 PRÁTiCA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
LISA: Mas como? Todos esses anos de psicoterapia!
DR.: Bem, nós temos métodos que são baseados em nosso conheci
mento de como acontece a aprendizagem. Seus terapeutas anteriores não
usaram tais métodos porque operavam na teoria de que seus problemas
sao causados por complexos emocionais profundamente enraizados em
sua suposta mente inconsciente. Uma vez que essa teoria, embora ampla
mente mantida, não tem nenhum apoio cientificamente aceitável, não é
de se surpreender que seus esforços não a ajudaram.
LISA: Jamais pude entender como a análise de minha infância po
deria ajudar. Mas, o que mais pode ajudar?
DR.: Se tomarmos um animal de laboratório e o tornarmos medroso
através de um choque elétrico brando numa determinada saia, ou a um
determinado som, tal como um gongo, essa sala ou esse gongo ficarão
ligados ao temor — associados a ele. Ele adquire um poder independente
de eliciar o medo. A reação de medo ao gongo pode perdurar durante
anos, mesmo se o animal jamais receber outro choque na sua presença.
Mas nós podemos fazer coisas com ele que sabemos que romperá esse
hábito. Estou certo de que quando examinarmos seu histórico verifica
remos que a senhora teve experiência que a levaram a reagir com temor
em diversas situações sociais, inclusive a certos aspectos do sexo. Dife
rentes tipos de experiências podem ser arranjadas, aqui, que podem des
ligar o temor dessas situações.
LISA: Compreendo a idéia.
DR.: Começaremos a desenvolver esse tipo de programa quando a
senhora vier na quinta-feira, como combinado. Como se sente agora?
LISA: Mais feliz. Muito encorajada.
Tercçira Sessão
DR.: Como é que tem se sentido desde nossa última sessão?
LISA: Senti-me muito, muito bem. Melhor do que venho sentindo
há muito tempo. É um estranho sentimento quando alguém lhe oferece
um abraço e se está pronto a aceitá-lo.30 Sinto-rrte como se estivesse a
meio caminho de casa.
DR.: Bem, devemos proceder sistematicamente agora. Quais tém sido
suas queixas? 31
LISA: Todas elas? O senhor quer dizer as queixas quanto ao meu
casamento ou quanto à minha personaiidade?
DR.: A senhorapassou por tratamento psiquiátrico. Qual foi o pro
blema nesse sentido?
LISA: O fato é que não tenho sido capaz de produzir desde por
...—......... ....
ORIENTAÇÃO E CORREÇÃO DE CONCEPÇÕES ERRÔNEAS 87
volt3 dos treze anos de idade. Meus estudos começaram a falhar. Eu era
urna estudante muito brilhante — brilhante o bastante para passar por
cima do sexto ano. Então comecei a escorregar. Então fui enviada a uma
ótima escota para meninas, mas só que não era ócima para mim Tornei me
mais pesada, e meu trabalho fracassou. Fui retirada dessa escola e fuj
enviada a um ginásio público para fazer o último ano, onde também não
produzi. Fui aceita no Philadelphia Museum School of Art, mas nao permi
tiram que eu frequentasse. Fui então enviada à Penn State University,
mas ainda não conseguia produzir.
D R.: Muito bem, a senhora foi improdutiva. Qual acha que foi a
<"azão para isso?
L IS A : Recusava-me a competit porque nao desejava fracassar. Para
meu pai só havia uma medida, e esta era a mais alta; não havia meio termo.
Üu é 10 ou é nada. E estava cansada de minha mãe como competidora.
Sempre me saí como a segunda melhor, de qualquer maneira.
D R .: Agora, havia um tempo em que estava indo muito bem.
L IS A : Sim.
D R .: Então deixou de ir bem. Algo deve ter mudado. O que mudou?
L IS A : Não sei. Eu. . . eu tinha uma atitude sexual, calculo. Eu não
sei.
D R.: Por que diz uma ''atitude sexual"?
L iS A : Não sei. Deve ter havido. Não é essa a idade em que se
passa a ter. . .32
D R.: Talvez, mas eu quero saber o que realmente lhe aconteceu.
L IS A : Nada. Nada mesmo.33 Foi um período de. . . eu comecei
a mudar.
D R.: Bem, havia um tempo em que fazia seu trabalho e outro em
que não fazia. O que é que a impedia de fazer seu trabalho?
L IS A : Uma falta de desejo.
D R .: Perdeu o interesse pelo trabalho?
L IS A : Era uma forma de receber uma atenção completa, o motivo
porque nao o fazia.34
D R .: Nao, essa é uma teoria. Não me dê nenhuma teoria. Nós temos
muitas teorias.
L IS A : Eu não sei. Não saberia dizer-lhe. Foi há tantos anos. Eu es
tava tão nervosa. Talvez não conseguisse concentrar-me.
D R .: O que a deixava nervosa: Sobre o que estava nervosa?
L IS A : Talvez por ser aceita num mundo do qual não gostaria de
lo mar parte. Eu não sei. Creio que presenciei um mau relacionamento
entre meu pai e minha mãe. Talvez não desejasse crescer.
88 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
DR.: A senhora está cheia de instrução psicanalítica, e quando peço
para dizer-me o que aconteceu, a senhora me dá uma teoria. Não desejo
teorias.
LISA: Mas eu não sei o que aconteceu.
DR.: Estou apenas perguntando quais foram os fatos. Eu não quero
saber, dos motivos ou coisas assim. Desejo que me forneça uma espécie
de estória. Os detalhes serão seus. 0 tipo de estória que espero da senhora
é este: "Eú ia muito bem até os quinze anos de idade e então minha
■-S ,
• ava passou a morar conosco. Ha coisas sobre ela que achei perturbadoras
e fiquei nuin,,•estado nervoso e não conseguia fazer meu trabalho.” Estes
seriam os fatoi; esse é o tipo de estória que desejo.
LISA:,Tinha havido uma grande festa na véspera de Todos os Santos
do quartò ano e tínhamos todos corrido para os bosques.35 Posso lem
brar-me dos mehinos começando a provocar-nos e chamando-nos de nomes
feios, ó senhor*sábé. E então no ginásio, os meninos que também tinham
' sido trànsferidos‘da outra escola continuaram zombando de mim.
DR.: Continuaram zombando da senhora?
LISA: Sim, por causa desses episódios que aconteceram quando está
vamos no quarto ano. Eles continuavam chamando-me de nomes. Posso
lembrar-me quão tremendamente perturbador isso era. Às vezes, eu até
não queria ir para escola.
DR.: Ficava muito magoada com a atitude desses meninos?
LISA: Mortificada. Absolutamente horrorizada.36
DR.: Isso aconteceu durante todo o sétimo ano?
LISA: Durante o oitavo e parte do nono.
DR.: Aflòra a senhora está me contando o tipo de coisa que eu
gostaria de saber. Era sensível quanto a outras coisas que as pessoas pu
dessem dizer?
LISA: Oh, sim. Fiz uma plástica no nariz há poucos anos atrás.
Tinha o nariz arrebitado, não grande, mas o suficiente para fazer-me pa
recer com minha mãe. Eles começavam a me provocar, e isso me per
turbava.
DR.: Comp é que se defenderia?
LISA: Retaliando ou dizendo algo áspero sobre alguma outra pessoa
— o que eu não fiz.37 Eu geralmente ficava tão magoada, que não dizia
nada. Não havia dúvidas de que meus pais me criticavam. Quero-dizer,
era uma vida de censuras: "Sente-se direito" — “coloque seu guardanapo
sobre os joelhos.”
DR.: Seus pais ainda vivem?
LISA: Sim.
ORIENTAÇÃO E CORREÇÃO DE CONCEPÇÕES ERRÔNEAS 89
DR.-. Que espécie de pessoa é seu pai? 38
LISA: Brilhante — infelizmente. Ele sempre foi um perfeccionista.
DR.: Como foi que ele a tratou quando era pequena? Ele era bom
para a senhora?
LISA: Oh sim.. . sim, muito bom, muito generoso. Ele não tinha
muito tempo, por causa de seus negócios, para me conceder, mas era muito
generoso materialmente. Ele jamais aplicou qualquer castigo — era minha
mae que aplicava. Ele sempre quis ser um bom sujeito.
DR.: E ele sempre desejou ver altos padrões na senhora?
LISA: Oh sim — completamente. Ele me deu tudo o que lhe faltou
quando foi criado nos bairros pobres de Filadélfia.
DR.: E quanto à sua mãe?
LISA: Possessiva, crítica, dominante, negativa, mas ela tentou fazer
tudo por mim. Quero dizer, nunca me faltou nada. Ela estava sempre lá
para conduzir-me, levar-me ou pegar-me.
DR.: Bem, qual foi seu sentimento geral quanto a ela?
LISA: Eu não gostava dela — até hoje não suporto tê-la per.to de
mim, ou que me toque. Eu não gostava que nenhum dos dois me tocasse
quando era criança.39 Até me angustia pensar sobre isso — é assim que
eu era hostil com ambos.
DR.: Algo deve ter acontecido para torná-lo desagradável.
LISA: Ela era apenas critiqueira — era uma crítica constante.
D R.: 0 que, em particular, ela criticava?
LISA: Não quero dizer que me criticasse pessoalmente — quero dizer
as críticas quanto às minhas ações — se eu não colocasse meu guardanapo
sobre os joelhos na hora do jantar, medidas corretivas. Era apenas um tipo
de coisa constante. Meu pai tinha um lado muito destrutivo. Ele costumava
dar-me animais de estimação e, se não lhe agradassem, ele os dava a outras
pessoas oii os destruía, o que era extremamente perturbador para mim
40como criança.
DR.: Isso é extraordinário.
LISA: É um tanto cruel, não é? Quando eu ia para a escola e não
era boa estudante, quando voltava para casa para as férias meu cachorro
tinha-se ido. Quando me casei pela primeira vez, eu tinha tocado piano
durante quatorze anos. Eu voltei e meu piano tinha-se ido. Houve muitas
pequenas coisas como essas. Quando não quis divorciar-me de meu pri
meiro marido, durante um casamento muito instável, eu fui rejeitada.
É surpreendente para mim que eu tenha durado doze anos com Ed. Para
mim é apenas incrível que ele tenha visto tudo de mim e ainda assim não
me odeie.
90 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
DR.: Bem, por que deveria eie odiá-la?
L.ISA: Creio que talvez eu própria me odeie e tenho certeza que todo
mundo também me odeia. Quero dizer, num quadro totai; há muitas coisas
que não desejo mudar de forma alguma.41
DR.: A senhora espera ser odiada?
LISA:Talvez, sim — malquista.
D R.: Mas a senhora pode estar bem errada em pensar que deva ser.42
LISA: tu não sei.
DR.: Bem, creio que isso é verdade. Com que idade teve sua primeira
sensação sexual?
LISA: Quanto a rapazes — calculo que por volta. . .
DR.: Teve alguma quanto a meninas?
LISA: Nao. Creio que por volta dos nove. . . oito ou nove.
DR.: Se masturbou?
LISA: Sim.
DR.: Com que idade?
LISA: Por volta dos nove.
DR.: Teve algum sentimento de culpa?
LISA: Sim.DR.: O que pensou que aconteceria?
LISA: Tinha medo que alguém me descobrisse.43
DR.: Não pensou que poderia acontecer algo horrível para a se
nhora?
LISA: Eu não sabia.
DR.: Bem, alguns apenas gozam e não se incomodam.
LISA: Oh, deveras?
DR.: Alguns recebem instruções sobre sexo e. . .
LISA: Eu nunca recebi nenhuma.
DR.: Entao teve uma espécie de temor pela descoberta. Mas, teve
algum temor achando que estava fazendo algum mal? Pensou que Deus
poderia castigá-la?
LISA: Não havia nenhum Deus em minha vida. Eu nunca tinha
sido levada a uma igreja.
DR.: Quando começou a namorar e tudo mais?44
LISA: Bem, freqüentei uma escola de danças em torno dos nove
anos de idade, mas namorar. . . talvez doze, treze. . . o senhor sabe, pe
quenas festas onde os pais nos levavam e nos iam buscar — chás dançantes
tolos.
DR.: Bem, quando foi que começou a interessar-se por alguma pes
soa?
ORIENTAÇÃO E CORREÇÃO DE CONCEPÇÕES ERRÔNEAS 91
LISA: Fiquei muito interessada por um rapaz quando tinha. . . desde
a idade dos nove até os doze ou treze anos, taivez. Eu o achava mara
vilhoso.
DR.; O que achou de maravilhoso nele?
LISA: Ele era brilhante, loiro, bonito e atlético.
DR.: Houve alguém importante antes de seu primeiro marido?
LISA: Nao, ninguém.
DR.: Qual era o nome de seu primeiro marido?
LISA: Sid.
DR.: O que gostou nele?
LISA: Ele era loiro, encantador, quieto, agradável e bonito — todos
os homens de minha vida foram quietos.
DR.: Bem, o que aconteceu?
LISA: Era uma arenga constante, uma briga violenta após a outra.
DR.: Quais foram as causas?
LISA: Creio que eu era hostil e irritável. Nós não éramos sexual
mente compatíveis — eu sabia que havia algo de errado comigo.
DR.: Com a senhora?
LISA: Sim. . . quero dizer, eu nao conseguia atingir o orgasmo e,
é claro, isso começou a me perturbar muito.
DR.: Foi essa a principal coisa que a perturbou?
LISA: Oh, eu acho que sim.
DR.: Isto é muito importante. Está me dizendo que se tivesse or
gasmos, nenhum problema teria surgido nesse casamento?
LISA: Penso que seria capaz de adaptar-me. Eu realmente não sei.
Quer dizer, se se fica irritada e hostil porque as relações sexuais não estão
bem — como saber de que forrna se reagiria na vida do dia a dia?
DR.: Bem, diga-me, na realidade o que acontecia?
LISA: Era apenas um tipo tempestuoso de relacionamento. Penso
que ele era um tipo pouco profundo e, é claro, eu estava tentando fazer
uma série de pequenas coisas para manter o casamento. Ele desejava um
companheiro de-folguedos e eu não era.
DR.: Antes de se casarem, vocês se davam bem?
LISA: Oh, sim. Não consigo lembrar-me de jamais termos tido uma
briga séria.4*
D R.: Então, quando se casou e havia tentativas quanto ao sexo,
a senhora ficava excitada e não tinha orgasmo?
LISA: Nós tivemos relações sexuais algumas vezes antes de nos casar
mos e, é claro, quando não tive nenhum orgasmo ele disse, "Bem, está
tudo bem porque as circunstâncias não são naturais e você não está
92 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
relaxada, etc.” Logicamente, depois que se casa, espera-se que se fique
relaxada, não é?
DR.: Quer dizer que o fato de não ter orgasmos teve um efeito
fisiológico perturbador muito forte?
LISA: Certamente. Foi tao perturbador que fui ver um médico es
tranho em Mênfis, Tennesse. Tudo o que ele fez foi olhar para mim e
dizer: "Bem, estou certo de que isso se corrigirá no devido tempo — não
se preocupe com isso."
DR.: Poderia dizer por que não tinha orgasmos? Poderia ter sido
algo relacionado com ele?
LISA: Não, sou eu.
D R.: Não, espere um pouco — isso é uma espécie de.. .
LISA: Uma suposição. . . não devo.. .
D R.: Apenas gostaria de saber por que diz isso — poderia ter sido
que se ele lidasse de outra forma, a senhora poderia haver tido orgasmos?
LISA: Não. Houve muitos homens em minha vida desde meu pri
meiro marido. Sou eu.
DR.: Seu padrão de resposta para cada um deles tem sido o mesmo?
LISA: Exatamente.
D R.: Qual é esse padrão de resposta?
LISA: Prazer até certo ponto e desejar estar mais próxima de alguém
e, ainda assim, quando se chega ao ato sexual: nada. Eu sempre fiz uma
piada, dizendo que desejo que alguém segure minha mão. Penso que ainda
estou esperando voltar à adolescência.46
DR.: Isso é bobagem.
LISA: Bem, eu não sei. . . pode.não ser.
DR.: Diz que tem prazer até certo ponto. Diga-me qual é o padrão
com detalhes.
LISA: Eu não desgosto dele. Acho a intimidade agradável e gosto
de estar com Ed, mas não há nenhuma sensação. Fico um tanto irritada
com isso, pouco à vontade, faz sentir-me mal, triste, melancólica, não
irritada, como no passado, eu aceito o prazer que recebo até certo ponto,
e aceito o fato de que não há nada mais. Eu tenho aceito isso.
DR.: Bem, o que acontece realmente? Antes de tudo, há as carfeias,
etc. Acha isso agradável?
LISA: Sim, acho tudo agradável.
DR.: Fica excitada?
LISA: Oh, sim.
DR.: Fica realmente fortemente excitada?
LISA: Sim.
ORIENTAÇÃO E CORREÇÃO DE CONCEPÇÕES ERRÔNEAS 93
DR.: Entao é apenas durante o próprio ato sexual que não consegue
nenhuma sensação?
LISA: Nenhuma.
DR.: 0 que acontece se seu clitóris é estimulado?
LISA: Nada.
D R.: Nada?
LISA: Não.
DR.: Mas a senhora me disse anteriormente que tinha se masturbado.
LISA: Sim.
DR.: Isso não significa que um orgasmo pode ser induzido pela
estimulação digital?
LISA: Até agora não foi, não.
DR.: E estando sozinha?
LISA: Não.
DR.: E quando era criança?
LISA: Não.
DR.: Nunca teve um orgasmo?
L IS A : Sim , tive, mas nunca me toquei.
DR.: Como consegue ter um orgasmo?
LISA: Cruzando minhas pernas e aplicando pressão em meus mús
culos.
DR.: Bem, o que é que isso estimula?
LISA: Creio que meu clitóris, eu não sei. Quero dizer, medicamente
eu não sei.
D R.: Tentarei não impor uma resposta á senhora.
LISA: Bem, eu não sei a resposta.
DR.: Mas se ele fosse comprimido pela mão, isso não teria o mesmo
efeito?
LISA: Não.
DR.: Com que frequência consegue obter um orgasmo dessa ma
neira?
LISA: Com que frequência? 0 que o senhor quer dizer com com
que frequência?
DR.: Bem, consegue fazê-lo todos os dias?
LISA: Oh, certamente.
DR.: Pode fazê-lo repetidamente?
LISA: Quatro ou cinco vêzes em seguida.
DR.: Faz regularmente esse tipo de coisa?
LISA: Não todos os dias.. . não, mas quando o faço, posso fazê-lo
quatro vêzes em seguida. Então, eu diria que sou uma mulher bastante
94 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
saudável. Mas por alguma razão nao consigo construir uma intimidade
com outra pessoa. E não é apenas Ed. É qualquer outra pessoa.
D R .: Por que o diz dessa maneira? Diz que não consegue construir
uma intimidade. Quer dizer isso de maneira geral ou apenas num sentido
físico?
L IS A : Quero dizer de qualquer maneira.
D R .: A senhora falou sobre esse tipo de coisa acontecendo quando
estava na escola. Havia uma espécie de temor quanto às pessoas. Ainda
se sente dessa maneira?
L IS A : Sim.
D R .: Bem, esse pode ser um indício. Deixe-me investigá-lo apenas
um passo adiante. Suponha que foi estimulada sexualmente e que nao
teve um orgasmo da maneira usual, conseguiria ir adiante e conseguir um
comprimindo suas coxas?
L IS A : Não.
D R .: Agora, porquê?
L IS A : Porque Ed está lá.47
D R .: Oh, percebo.
L IS A : Eu disse ao senhor que era algo embaraçoso quando era cri
ança e ainda é. Suponho que se tornou uma espécie de ação pessoal re
traída.
D R .: Que interessante. Na semana que vern começaremos o tratamen
to.
L IS A : O senhor quer dizer que existe urn tratamento para iso?
D R .: Oh, sim. Temos que ter um pouco mais de seu histórico, mas
não muito.
NOTAS
(1) É particularmente difícil àqueles que foram anteriormente treinados psicana-
liticamente aiiarem-se a 9sta orientação. Mesmo aqueles que ficaram intelec
tualmente desencantadoscom as teorias e práticas 'psicodinâmicas', recorrem
a formas habituais de pensamento teieológico e tendem a fazer afirmações
interpretativas que às vezes contêm implicações condenatórias.
(2) A afirmação foi deliberadamente fraseada nesses termos extremamente gerais,
para que a paciente pudesse afirmar sem constrangimento os problemas è
medida que os visse,
(3) Algumas incompatibilidades maritais não são resolvíveis pela psicoterapia.
Isto é verdadeiro, por exemplo, para diferenças intelectuais e as amplas
divergências de interesse. A idéia foi agora introduzida de forma a sugerir à
paciente que ela pode, afinal, não estar "doente”, como sempre se supôs. No
final, esta foi a chave do tratamento do caso.
ORIENTAÇÃO E CORREÇÃO DE CONCEPÇÕES ERRÔNEAS 95
(4)
(5)
(6 )
(7)
( 8 )
(9)
( 10 )
( 11 )
( 1 2 )
(13)
(14)
(15)
(16)
(17)
(18)
(19)
( 20 )
(2 1 )
( 22 )
(23)
(24)
(25)
(26)
(27)
Mais desvios da idéia de "doença”, e sugerindo reatividade explicável.
Pacientes que tiveram uma terapia informada psicanaiiticamente estão mais
prontos a fornecer hipóteses causais do que fatos.
Fruto do seu primeiro casamento.
Deve ser observado quão este tópico crucial foi introduzido.
O terapeuta agarra-se a cada oportunidade de amenizar a culpa e diminuir
autocensura. Não importa que, neste exemplo, a observação seguinte da
paciente tenha demonstrado que ele estava fora de objetivo.
Por qualquer via que sua terapia tenha levado a esta concepção, isto resume
uma aceitação de uma inferioridade Dermanente.
Como a referência da Nota de Rodapé número 3, um golpe atirando dúvidas
na suposição de ''doença” da paciente.
A referência é quanto a um caso com um estudante que Ed tinha descrito e
que ela mais tarde relata com detalhes.
Sem, contudo, dissipar a dúvida de que a culpa principal era de Lisa.
Esta equação confiante impediria inevitavalmente qualquer exploração da
evolução do comportamento sexual de Lisa.
Reforçando sua dúvida quanto à teoria anaiítica, e aumentando as afirmações
citadas nas Notas 2 e 9.
A razão sendo, como se constatou, que nenhumo outra mulher sofria de sua
''anormalidade”.
À luz do que foi dito, isso dificilmente poderia ser de outra forma.
Ao passo que esse não foi o propósito dos "cuidados médicos", foi certamente
uma conseqüência deles.
Umas poucas palavras para dissipar qualquer pensamento de censura,
Mais uma minagem do diagnóstico de "doença”, e sugestão de auto-
-expl oração.
Esta observação abre uma nova direção para a investigação. O que quer ela
dizer por "confiar'7 Como começou o temor dele? Quais os fatores
envolvidos?
Voltei a esta tópico porque, antes de tudo mais, desejava que os fatos
básicos relativos às respostas sexuais em geral ficassem claros em sua mente.
Esta é caracteristicamente uma pergunta comportamentista, procurando os
antecedentes do comportamento. Ela deve ser diferenciada dos outros tipos de
respostas do terapeuta, numa conjuntura como está imoralizando, dirigindo,
interpretando, "refletindo", etc.
Um resumo vívido do iiiistórico como fundo para a discussão da presente
situação.
Levantando a possibilidade de que os fatores emocionais possam tornar a ação
impossível, libertei Ed do encargo de um imperativo morat, e assim provavel
mente tornei os esforços voluntários mais fáceis.
O propósito (e resultado evidente) do argumento anterior foi o de derrubar a
concepção firmemente estabelecida de Lisa, quanto à atitude de Ed com
relação a ela.
A expressão de afeição somente no contexto da relação sexual è espantadora-
mente ccmum, e é a origem principal do fracasso marital.
Agora, embora admitindo uma boa vontade recíproca, ela expressa a idéia de
que uma incompatibilidade fundamenta! fica entre eles.
96 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
(28) Há bastante interesse mútuo sobre o qual se construir.
(29) Ela considera Ed carente a este respeito.
(30) A elucidação da natureza de sua enfermidade, na segunda entrevista,
tinha-lhe dado uma sensação de completa aceitação por mim e a tinha
convencido de que seus problemas não eram apenas compreendidos, como
também remediáveis. A crise emocíònal que precedera aquela entrevista foi a
última desse tipo até hoje. Ela teve posteriormente distúrbios "normais” a
frustrações e dificuldades comuns, mas não teve novamente a angústia que j
tinha estado anteriormente mais ou menos onipresente.
(31) Foi necessário colocar esta questão novamente, porque tínhamos anterior
mente nos concentrado no problema sexual e suas repercussões.
(32) A "explicação" deriva claramente de sua experiência psicanalftica.
(33) Isto não é acreditável. Algo deve ter acontecido. A paciente pode realmente
ser incapaz de se recordar. O terapeuta deve fazer tudo o que puder para
sacudir sua memória — mas gentil e não derrogativãmente. I
(34) Ela tinha ouvido isso ou então o deduziu do pensamento psicanaJítico
padrão, no qual ele era bem versada. ;
(35) Nós chegamos è primeira etapa.
(36) Possivelmente, uma experiência condicionadora-chave no desenvolvimento do 1
"medo de confiar", elemento na inibição de sua resposta sexual.
(37) Os pacientes, muitas vezes, ficam cônscios de que devem comportar-se
assertivamente, mas geralmente não conseguem fazê-lo sem ajuda.
(38) Isto inicia o interrogatório formal de fundo. Os tópicos anteriormente
cobertos não serão, é claro, repetidos.
(39) £ possível que esse condicionamento negativo quanto ao contato tenha sido
um fator no desenvolvimento de suas inibições sexuais. Contudo, ela sempre
apreciou o contato sexual.
(40) Seria estranho se isto não tivasse gerado um medo de envolvimento. |
(41) Um outro ramo do fogo antiaéreo "dinâmico".
(42) Botando um freio nassa crença.
(43) Essse temor antigo é o cantro de interesse etiológico de suas presentes
dificuldades sexuais. A origem do temor já não é, evidentemente, seus pais
exigentes. J
(44) Outras investigações no seu histórico sexual são agora iniciadas, de maneira |
aberta.
(45) Isto sugere fortemente que eles poderiam ter-se saído bem se não tivesse
nenhum problema sexual.
(46) Mesmo que houvesse alguma evidência para sustentar esta proposição, ela não
tem quaisquer implicações práticas — não sugere nenhuma direção de ação
para a mudança.
(47) Esta resposta foi o "abra-te, sésamo” do caso. Ficou agora claro que todos os
esforços dirigidos a dar a Lisa orgasmos coitais deveriam falhar enquanto ela
não pudesse suportar ser vista tendo orgasmçs masturbatórios. J
\\
f :
capítulo 5
Este é o primeiro de diversos capítulos que tratam de métodos
para o descondicionamento de hábitos de respostas de ansiedade. Com
referência à seqüência lógica, começaremos com uma exposição da dessen
sibilização sistemática, uma vez que este método é tão claramente paralelo
ao método descrito no Capítulo 1 para superar as respostas de ansiedade
não adaptativas condicionadas de gatos experimentais; e uma vez que é
o mais usado de todos os métodos de contra-ansiedade. Todavia, o treino
afirmativo será considerado em primeiro lugar, porque ele é sempre intro
duzido no começo da terapia, logo depois que os aspectos conceptuais das
queixas do paciente sao postos em perspectiva. Ele pode ser freqüente-
mtnte iniciado com base em instruções relativamente simples, para que
• mudança terapêutica seja efetuada, com o paciente cumprindo um
cpmportamento prescrito, entre as sessões.
O treino afirmativo é preeminentemente aplicável ao descondicio-
namtnto de hábitos de respostas de ansiedade impróprios a pessoas com
• I quais o paciente interage. Ele se utiliza de emoções inibidoras de
•nilcdade que as situações da vida nele eliciam. Muitas emoções, na
maioria “agradáveis" em suas características, parecem envolver aconteci-
rtwntos corpóreos que competem com a ansiedade (Wolpe, 1958, pag. 99).
Tedti as categoriasde estímulos tais como visões, odores, sons, palavras
JpOCltm ser origens de tais emoções, devido à harmonia perceptual imediata
O treino
afirmativo
98 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
(efeito estético), ou por causa de um condicionamento prévio. Um
perfume, por exemplo, pode ficar condicionado a fortes sentimentos
românticos. Da mesma forma, uma outra pessoa pode despertar aprovação,
afeição, admiração, aborrecimento, ira ou outros sentimentos, cada um dos
quais produz respostas corpóreas diferentes da ansiedade, e possivelmente
com ela competitivas. Parece que, quando tais emoções são exteriorizadas
no comportamento motor, sua intensidade é aumentada; e qualquer
ansiedade eliciada pela situação é mais capaz de ser inibida. 0 comporta
mento afirmativo é definido com a expressão adequada de qualquer
emoção que não a ansiedade, com relação à outra pessoa.
Tem havido relativamente pouca pesquisa psicofisiológica sobre
as relações mútuas de vários estados emocionais desde o inventário feito
por Leschke {1914). Arnold (1945) compilou a evidência do antagonismo
fisiológico entre a ira e a ansiedade. Ax (1953) expressou dúvidas quanto a
isso, embora seus dados até certo ponto o sustentassem. Arnotd (1960),
posteriormente, coletou outros dados comprovadores. Uma recente
pesquisa soviética (Simonov, 1967) revelou evidência inequívoca da
existência de centros separados e reciprocamente inibitórios para a ira e
a ansiedade, no mesencéfalo. Tanto por drogas como por ablações, é se
possível suprimir um desses padrões de resposta emocional, com o efeito
de facilitar o outro.
Os contextos em que o comportamento assertivo é um instrumento
terapêutico adequado são inúmeros. Em quase todos eles encontramos o
paciente inibido ao desempenhar um comportamento "normal", por causa
de um temor neurótico. Ele fica inibido ao dizer ou fazer coisas que
parecem certas e razoáveis para um observador. Ele poderá ser incapaz
de se queixar quanto aos maus serviços de um restaurante, porque teme
ferir os sentimentos do garçom; incapaz de expressar diferenças de
opiniões com seus amigos, porque teme que não gostarão dele; incapaz
de se levantar e deixar uma situação social que se tornou enfadonha
porque teme parecer ingrato; incapaz de pedir o pagamento de uma
dívida ou repreender legitimamente um subordinado, porque receia
que sua imagem de "bom sujeito” seja prejudicada; incapaz de expressar
afeição, admiração, ou elogio porque acha tal expressão embaraçosa.
Além dessas coisas que ele não pode fazer, por causa do temor, poderão
haver outras coisas que ele não poderá deixar de fazer. Por exemplo,
num restaurante, ele poderá compulsoriamente tentar pagar a conta,
para afastar um temor de ficar devendo obrigações.
Deve ser observado que as respostas interpessoais de ansiedade do
tipo acima exemplificado às vezes levam à canalização de percursos inatos
TREINO AFIRMATIVO 99
por caminhos não adaptativos. O temor eliciado por pares heterossexuais
poderá desviar o paciente de parcerias sexuais normais, para empenhar-se
em desvios como a homossexualidade, pedofiiia, ou exibicionismo. Em
outros casos, a supressão da ação que daria uma expressão exteriorizada
aos sentimentos resulta num tumulto interior contínuo, que pode produzir
sintomas psicossomáticos, e até uma mudança patológica em órgãos
predispostos. Em todos esses casos, a estratégia correta de tratamento não
é dirigida ao alvo manifesto (tal como o desvio sexual em si), mas sim às
ansiedades interpessoais neuróticas, que são geralmente acessíveis ao
treino afirmativo (vide Casos 32 e 33).
Um histórico muito comum, em pacientes aos quais o treino afirma
tivo é necessário, consiste no ensinamento antecipado que enfatizou
demais as obrigações sociais, engendrando o sentimento no paciente de
que os direitos dos outros são mais importantes que os seus. Um exemplo
extremo, mas não muito incomum, é o de um homem de 36 anos de idade
cujos pais insistiram fortemente numa submissão polida. Durante a
Segunda Guerra Mundial, com oito anos de idade, ele tinha ido viver
durante 2 anos com um tio que encorajou a expressão de sua personali
dade. Esse comportamento foi severamente punido quando ele voltou à
casa paterna, estabelecendo uma forte e duradoura timidez com relação
aos outros, e especialmente quanto a figuras de autoridade.
As intervenções do terapeuta são destinadas a aumentar cada
impulso em direção da eliciação das respostas inibidas, com a esperança de
que com cada eliciação, haja, reciprocamente, uma inibição da ansiedade,
resultando em atgum grau no enfraquecimento do hábito de resposta
de ansiedade (Wolpe, 1958, p. 72). Entrementes, o comportamento
motor é reforçado por suas conseqüências sociais favoráveis, tais como
a obtenção do controle de uma situação social, redução da ansiedade, e
a aprovação posterior do terapeuta. Portanto, o contracondicionamento
da ansiedade e o condicionamento operante do ato motor acontecem
simultaneamente, facilitando um ao outro. (Para mais detalhes, vide
Wolpe, 1958.) O condicionamento operante do comportamento afirma
tivo é empregado sozinho em certas pessoas que dele carecem, não por
causa da ansiedade, mas porque elas simplesmente não adquiriram os
hábitos motores apropriados para certas situações sociais.
Com todos os outros métodos da terapia comportamental, o treino
afirmativo é aplicado em contextos específicos em que haja evidências de
sua necessidade. Alguns pacientes não se expressam afirmativamente
num amplo campo de interações, e para esses, a denominação de Salter
(1949), "personalidade inibitória", é descritivamente apropriada. Em tais
100 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
casos, quase que qualquer interação social pode ser adequada para o treino
afirmativo. Mas, nos outros, as indicações se relacionam a contextos
determinados. Encontramos pacientes que são competentemente capazes
de lidar com negociantes e estranhos, mas que são no entanto timoratos e
submissos com qualquer pessoa importante, como uma mãe, uma esposa,
uma namorada — ou a apenas uma destas. Em contraste, existem aqueles
que dominam (e ocasionalmente tiranizam) os associados próximos, mas
são temerosos, desajeitados, e em vários graus ineficazes em sua conduta
com estranhos.
MEDIDAS PRELIMINARES
Antes do treino assertivo poder ser iniciado, o paciente deve aceitar
sua racionalidade. Às vezes, a submissão às necessidades de outros está
estreitamente ligada à filosofia geral de que é moralmente bom colocar
os interesses de outros adiante do próprio. Isto é mais comumente encon
trado em alguns devotos cristãos, cuja a principal emulação de Cristo
consiste em voltar a outra face. Eu lhes digo que este tipo de comporta
mento é uma proposição prática apenas para uns raros indivíduos santos;
e que para todos os demais a biologia cobra seu tributo pelo comporta
mento contrário aos interesses do organismo (vide discussão sobre os
aspectos morais da terapia comportamental). Acrescento que enquanto
eles estiverem socialmente ansiosos, não têm nenhuma alternativa senão
se comportarem como o fazem; mas que, mais tarde, quando essa ansie
dade tiver sido descondicionada, eles terão a opção de serem ès vezes
magnânimos.
A maioria dos pacientes pode ser levada a reconhecer a necessidadè
de uma positividade apropriada. Alguns sempre estiveram cônscios disso,
A introspecção, como tal,1 por mais clara que seja, não produz nenhuma
mudança (ver Wolpe, 1958, p. 120; Rathus, 1972). O terapeuta deve
ajudar o paciente a transferir a introspecção para a ação. Simples lisonja
e estímulo é às vezes tudo o que é necessário. Isto consiste, em parte,
no enfatizar as desvantagens da não asserção: sua derrota inevitável, suas
conseqüências emocionais geralmente desagradáveis, a imagem desfa
vorável que dá aos demais — e a promessa deuma facilidade crescente de
execução de atos afirmativos, à medida que a ansiedade diminui. Eu digo
aos pacientes que o poder de se afirmar cresce com a ação, como uma
bola de neve rolando por uma encosta. Às vezes, verifico que é útil citar
o exemplo de um ou dois casos anteriores.2
TREINO AFIRMATIVO 101
Um contexto adequado para começar o treino assertivo geralmente
surge, de uma maneira muito natural, da narração ao paciente de algum
incidente recente. Uma alternativa para o ponto de partida pode ser
encontrada nas respostas do paciente à Tabela de Personalidade de
Willoughby (Apêndice 1) — especialmente se houver respostas numéricas
altas às seguintes perguntas: Seus sentimentos são facilmente feridos?
É tímido(a)? A crítica o(a) magoa muito? Fica constrangido (a) diante
de superiores?
Para tomar o primeiro destes como exemplo, o terapeuta pediria
um exemplo de uma situação que fere os sentimentos do paciente, e
investiga isto, inquirindo sobre como ele lidaria com a situação. Se o modo
de lidar não for afirmativo, ele proporia um substituto assertivo.
É uma rotina útil perguntar ao paciente como se comportaria num
certo número de situações formadas com estranhos. Tenho apresentado
há alguns anos estas cinco:
1. O que faz se após ter comprado um artigo numa loja, sai e verifica
que falta algum dinheiro no troco?
2. Suponhamos que, chegando em casa após comprar um artigo,
verifica que este está ligeiramente avariado. O que fará então?
3. O que faria se alguém passasse à sua frente numa fila (digamos,
num teatro)?
4. Numa loja, enquanto espera que o vendedor termine de atender
a um freguês à sua frente, outro freguês chega e também aguarda.
O que faria se o vendedor posteriormente dirigisse a atenção
dele a esse freguês, deixando-o(a) para depois?
5. Num restaurante, encomenda um churrasco mal passado e este
vem bem passado. Como manejaria a situação?
Em todas essas situações, o indivíduo deve ser capaz de se afirmar.
Caso não o f^aça, o treino afirmativo é indicado.
INSTIGANDO O COMPORTAMENTO AFIRMATIVO
Investiguemos agora como a instigação assertiva poderá desen
volver-se da terceira das perguntas abaixo citadas:
TERAPEUTA: O que faria se estivesse em pé numa fila de uma
bilheteria de teatro e alguém lhe passasse à frente?
PACIENTE: Eu não faria nada.
TERAPEUTA: Bem, como se sentiria?
10 2 PRATICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
PACIENTE: Ficaria furioso, Ferveria por dentro.
TERAPEUTA: Então, por que não diz alguma coisa?
PACIENTE: Tenho medo de fazer uma cena.
Portanto, é o temor de fazer uma cena que o impede de agir. Mas,
ao mesmo tempo ele fica zangado. O terapeuta deve tentar fazê-lo inflar
sua ira dando-lhe um escape. Então a ira poderá ser grande o bastante
para inibir a ansiedade.
TERAPEUTA: As pessoas estão tirando proveito de você. Aqui,
esta pessoa está tirando proveito. Não pode permiti-lo. Deve dizer-lhe,
"Por gentileza, vá para o fim da fila." Ao fazer isto, você estará expres
sando sua ira de maneira apropriada à situação e socialmente aceitável.
Cada vez que o paciente, expressando sua ira, inibe sua ansiedade,
ele enfraquece até certo ponto o hábito de ansiedade. Mas a emoção
não é o único componente do comportamento instigado. Há também
um novo comportamento verbal. 0 paciente, agora, pela primeira vez,
diz a outra pessoa que vá para o fim da fila. Ele terá a aprovação daqueles
que estão na fila atrás de si; e o intruso geralmente irá para trás. Essas
coisas reforçarão a tendência do paciente de falar à altura, não apenas
nesta situação específica, como também em situações semelhantes. Uma
vez que o progresso na asserção depende do sucesso, o terapeuta deve
estar a par dos detalhes das situações em que a ação poderá ocorrer.
Prevenir-se-ia, por exemplo, o paciente contra a insistir na sua prioridade
na fila numa vizinhança de valentões.
Em pacientes que sentem muita ansiedade quanto à afirmação,
poderá ser necessário graduar as tarefas de maneira paralela à dessensibi
lização. De modo geral, é uma boa prática fazer disto uma regra geral.
Nas palavras de Salter (1949), o pioneiro das técnicas assertivas, !'A terapia
deve começar onde o nível de inibição do paciente for o mais baixo."
Salter propôs seis modos de comportamento de uso geral a pacientes
que precisam de treino afirmativo (em seus termos, "excitação"). São eles:
1. Fala de Sentimento. Com isto, Salter quer dizer a expressão
vocal deliberada de emoções espontaneamente sentidas. Um exemplo
que ele dá é, "Graças a Deus, hoje é sexta-feira e o fim de semana está
aí"; ao invés de dizer secamente, "Hoje é sexta-feira."
2. Fala Facial. Esta é a demonstração da emoção na face (e movi
mento) até o ponto em que for apropriado.
3. Contradizer e Atacar. Quando o paciente discorda de alguém,
TREINO AFIRMATIVO 103
não deve simular concordância, e sim contradizer com tanto sentimento
quanto for razoável.
4. O Uso do "Eu". A palavra "eu" é usada tantas vezes quanto for
possível de forma a envolver o paciente nas afirmações que fizer.
5. Expressar Concordância Quando é Elogiado. O elogio não deve
ser afastado, e sim aceito honestamente. O auto-elogio deve ser feito
quando for razoável.
6. Improvisar. Tentar emitir respostas espontâneas para estímulos
imediatos.
Algumas atitudes, relacionadas com o anterior, implicam em saudar
as pessoas, perguntando "Por quê?" ao, invés de aceitar afirmações ex
cathedra, olhar as pessoas nos olhos, e evitar justificar suas opiniões.
Segue-se uma demonstração de afirmações assertivas, expressando
hostilidade ou louvor. As primeiras são mais numerosas, porque são mais
facilmente e mais freqüentemente relevantes às necessidades da terapia.
Expressões Afirmativas
A. "Hostis”
1. Por favor, telefone-me depois. Eu não posso falar-lhe agora.
2. Por favor, não fique na minha frente.
3. Quer, por favor, parar de conversar durante a peça/filme/música.
4. Esta é uma fila. Seu lugar é lá atrás,
5. Tem quaisquer privilégios especiais nesta fila?
6. Deixou-me esperando durante 20 minutos.
7. Importa-se em diminuir a temperatura do aquecedor?
8. Está muito frio para que eu saia.
9. Por favor, coloque esses pacotes pesados num saco duplo (num
supermercado).
10. O seu comportamento me repugna.
11. Detesto a sua duplicidade.
12. Eu desprezo a sua intolerância/irracionalidade.
13. Eu não suporto os seus resmungos.
14. Se não fôr incômodo, pegaria o meu pacote?
1 5. Sinto muito, mas não será possível.
16. (À aeromoça num vôo que está atrasado para uma conexão)
Pediria ao piloto que transferisse pelo rádio a minha conexão?
17. Eu preferiria não dizer.
18. Por que está atrasado(a)?
104 PR Á TICA DA TE R A P IA COM PORTAM ENTAL
19. Se persistir em chegar atrasado(a), deixarei de marcar encontros
com você.
20. Insisto para que venha ao trabalho no horário.
21. Como se atreve a falar comigo dessa forma?
22. Desculpe-me, cheguei aqui antes.
23. Gosto de conversar com você, mas por favor fique quieto(a)
enquanto estou lendo/escrevendo/pensando/ouvindo.
B. "Comendatórias”
1. Bonito vestido/broche, etc.
2. Está encantadora, extraordinária, arrebatadora, deslumbrante,
etc.
3. Essa fdi uma observação inteligente.
4. Que sorriso radiante.
5. Eu gosto de você.
6. Amo você.
7. Eu admiro sua tenacidade.
8. Isso foi resolvido de forma brilhante.
Com uma quantidade razoável de pressão e encorajamento, a maior
parte dos pacientes passa a ser capaz de afirmar-se em questão de dias,
uma ou duas semanas. Em cada entrevista, informam sobre o que fizeram
nesse meio termpo, e o terapeuta elogia os seus sucessos e corrige os seus
erros. Eles devem ser advertidos no sentido de não dormirem sobre os seus
louros, e sim para estarem alertas quanto a qualquer oportunidade de
uma afirmação apropriada. À medida que a ansiedade interpessoal diminuiem conseqüência de seus esforços, os atos de afirmação se tornam mais
fáceis de serem executados. Quanto mais fazem, mais eles conseguem
fazer. Uma regra deve ser sempre observada: Jamais incitar um ato afirma
tivo que possa ter conseqüências sérias de represália para o paciente.
Segue-se uma típica conversação instigadora de afirmação.
TERAPEUTA: Falemos sobre sua sogra.
SR A. A .: Ela é uma provocadora, diz e faz um monte de coisas para
mim e eu me retraio e recebo. Eu realmente deveria abrir minha boca
e não bancar a superior. Pessoalmente, não me importa que ela não goste
de mim. Sinto muito mais por um estranho do que por ela, porque ela
fez muitas coisas que acho que não estão certas. Ela pisa em cima de mim
e eu me fervo por dentro.
TERAPEUTA: Agora, o que aconteceria se se desabafasse com sua
TREIN O A FIR M A TIVO 105
sogra — o que é realmente o que gostaria de fazer, não é? Tomemos um
exemplo recente.
SRA. A.: Bem, ela está sempre me dizendo, por exemplo, que minha
mãe não me educou direito.
TERAPEUTA: Essa é uma observação insultante.
SRA. A.: Sim, ela é, e eu nunca digo nada.
TERAPEUTA: Bem, a observação não a perturba?
SRA. A.: Ela me faz aos pedaços; é como se eu fosse apunhalada.
TERAPEUTA: E deixa ficar por isso. O que deveria fazer?
SRA. A.: Eu deveria dizer: "Ela é minha mãe. Por favor, não fale
dela.''
TERAPEUTA: Certo, E o efeito seria o de aumentar o respeito
dela pela senhora.
SRA. A.: Meus sogros não gostam da maneira como me comporto,
aliás; eles realmente não gostam.
TERAPEUTA: Isso não é surpreendente. Deixe-me dar-lhe um
contraste. Suponha que está visitando a casa de alguém e a senhora repara
que há lá dois homens. Eles são os genros de seus anfitriões. Um deles
é brando e agradável todo o tempo, enquanto que o outro fala à altura
com os sogros. Qual deles lhe dá melhor impressão?
SRA. A.: O que fala à altura. O senhor não precisa criar um exemplo.
Esse novo noivo de minha cunhada está vivendo na casa de meus sogros
agora, e ele fala à altura. Eles o adoram.
Um pouco mais tarde na entrevista, a Sra. A. expressou uma preocu
pação quanto ao fato do marido poder fazer objeção quanto a seu novo
comportamento para com a mãe dele.
SRA. A.: Suponha que meu marido comece a dizer: "Não deve falar
assim com minha mãe. Você não está consolidando os relacionamentos;
você os está separando cada vez mais." Como lidar com essa situação?
TERAPEUTA: A senhora deve dizer: "Se sua mãe faz observações
injustas eu devo dizer-lhe, e eu o farei. Se sua mãe fizer críticas razoáveis,
eu estarei muito interessada naquilo que ela disser. Mas ela sempre me
provoca, e ela adquiriu esse hábito por que tenho permitido que ela
dissesse o que bem entendesse. Eu não vou mais aceitar isso."
Alguns pacientes têm grande dificuldade em executar quaisquer
atos afirmativos. O terapeuta deverá averiguar porque. Ele poderá desco
brir uma reação 'fóbica' a algum aspecto ou implicação da afirmação.
106 PR A TICA DA TER A P IA COMPORTAMENTAL
Por exemplo, o paciente poderá ter uma forte reação de ansiedade condi
cionada, ao perceber-se atuando agressivamente {ou seja, culpa quanto à
agressão). Um programa preliminar de dessensibilização sistemática às
configurações relevantes de estímulo é então necessário. Um temor severo
quanto a agressões de outros (que é sempre uma reação possível à afir
mação) requer igualmente uma dessensibilização (ver abaixo).
A quinta-essência do comportamento assertivo consiste em fazer
para os demais o que é razoável e correto. Isso é bem destacado nos
seguintes excertos de uma declaração escrita por um paciente (Wolpe,
1958, pag. 118):
"Recebi a tarefa de obter vitórias emocionais na vida diária. . .
Esta é uma importante descoberta que fiz — e ela me é emocio
nalmente satisfatória. /As opiniões e sentimentos das outras pessoas
contam - mas os meus também, isso não significa que tenha me
tornado agressivo, desagradável, ou sem consideração para com as
outras pessoas. . . Este novo método de contender com situações
interpessoais simplesmente se resume em fazer as coisas que, se
se fosse um observador observando a situação, pareceriam justas
e adequadas. ’’
As relações mútuas entre o comportamento afirmativo e outras
categorias de comportamento estão ilustradas na Fig. 3. O comportamento
afirmativo, definido como a expressão de emoções que não a ansiedade
de maneira socialmente aceitável, envolve muitas categoms de comporta
mento emocional. A mais comum dessas categorias é o comportamento
opositivo (por exemplo, reivindicar direitos razoáveis). Qs tipos de
comportamento opositivo fora da categoria assertiva são o provocativo,
o agressivo, o violento, e muitas vezes, o sarcástico.
Muitos dos problemas a respeito do comportamento assertivo são
explicados extensa e claramente num pequeno livro de Alberti e Emmons
(1970) que também contém numerosas ilustrações e instruções para o
treino afirmativo. É um livro que pode ser usado com lucro por prati
cantes, e também por alguns de seus pacientes.
Quando nenhum temor extrínseco especialmente forte é evidente,
são feitos mais esforços vigorosos diretos no sentido de eliciar a afirmação.
Poderá ser suficiente simplesmente aumentar a motivação do paciente,
contrastando fortemente os efeitos negativos pouco atraentes com os
benefícios que a afirmação deve render; ou o terapeuta poderá se recusar
a ver o paciente até que este possa registrar alguma ação. Uma outra
possibilidade é o ensaio comportamental.
TREIN O A FIR M A T IVO 107
Fig. 3. Inter-relações entre categorias assertivas, hostis e afetuosas do comporta
mento. (Cortesia do Grapbic Communications, Eastern Pennsylvania Psychiatric
Institute, Filadélfia.}
"RELACIONAMENTO" ("LIFEMANSHIP")
Existem circunstâncias em que a afirmação direta é inadequada, mas
em que é, não obstante, desejável que o paciente adquira algum tipo
de controle. Por exemplo, não é geralmente aconselhável que um empre
gado dê ao seu empregador “aquilo que ele acha”. É então necessário
o uso de táticas mais sutis. Estas são às vezes sugeridas por um conheci
mento especial das fraquezas da outra pessoa, mas também existem possi
bilidades que podem ser aplicadas em quase qualquer pessoa — afirmações
que automaticamente colocam o interlocutor numa desvantagem, sem
revelar uma intenção agressiva por parte de quem fala. Um exemplo
muito usado é "Há algo errado? Você não parece ser o mesmo hoje.”
Uma grande variedade de exemplos engenhosos de comportamentos
deste tipo aparece numa série de pequenos livros de autoria do escritor
britânico, Stephen Potter, que selrefere a eles como os macetes do Rela
cionamento. Embora o objetivo de Potter seja o humor e não a psicote-
rapia, há muita coisa que um psicoterapeuta pode usar. Por exemplo,
Potter descreve como um dia ele e o Professor Joad jogavam tênis contra
dois estudantes da Universidade de Oxford — dois jovens ótimos e corre
tos. O primeiro saque dado por um dos estudantes, dirigido a Joad, foi
um ponto obtido, do qual Joad nem sequer se aproximou. Ele então
108 PR Á TICA DA TE R A P IA COM PORTAM ENTAL
dirigiu um saque a Potter com o mesmo resultado. No saque posterior,
Joad apenas conseguiu atingir com a armação de madeira a bola, que
voou sobre a rede resvalando no campo do estudante. Então, à medida
que o estudante atravessava o campo para devolver o golpe de miseri
córdia, Joad gritou, "A bola foi dentro ou fora?" O estudante respondeu,
"Sinto muito, pensei que ela saíra. Devemos repetir a jogada?" "Não,
não," disse Joad, "está tudo bem, mas no futuro você deverá declarar
se a bola saiu ou não." Esta ligeira sugestão de um comportamento pouco
esportivo foi suficientemente desconcertante para arruinar gradativamente
o desempenho dos estudantes e fazê-los perderem o jogo!
ENSAIO COMPORTAMENTALEsta técnica foi originalmente chamada de "psicodrama comporta-
mental" (Wolpe, 1958). Ela consiste numa atuação em pequenos inter
câmbios entre o terapeuta e o paciente, em,estruturas da vida do paciente.
O paciente representa a si mesmo, e o terapeuta alguém ante quem o
paciente fica impropriamente ansioso e inibido. O terapeuta começa com
uma observação, geralmente opositiva, que a outra pessoa faria, e o
paciente responde como se a situação fosse "r e a l S u a resposta inicial
será geralmente hesitante, defensiva, e tímida. O terapeuta sugere então
uma resposta mais apropriada; e a representação começa novamente,
revisada. A seqüência poderá ser repetida diversas vezes até que o tera
peuta esteja satisfeito pelo fato da expressão vocal do paciente ter sido
adequadamente remodelada. É necessário se levar em conta não apenas
as palavras que o paciente usa, como também o volume, a firmeza, a
expressividade de sua voz, e a apropriabilidade de seus movimentos cor
póreos. (Para o propósito mencionado por último, a Unidade de Terapia
Comportamental fez recentemente bom uso da modelagem do compor
tamento por uma atriz bem treinada). O objetivo dessa modelagem e
ensaio é freqüentemente uma preparação efetiva para o paciente lidar
com seu "adversário” real, de forma tal que a ansiedade que o segundo
eliciar possa ser reciprocamente inibida, e o hábito motor assertivo esta
belecido.
O Caso 4 é um exemplo típico da modelagem feita durante o ensaio
comportamental, extraído de um estudo (Wolpe, 1970). A paciente
vinha se lamentando por ter sido injustamente criticada por seu pai e
desejava retificar a questão.
TREINO A FIR M A TIVO 109
TERAPEUTA: Bem, façamos uma experiência. Vamos representar
essa situação. Suponhamos que você vá adiante e faça de conta que eu
sou seu pai e diga o que pensa que gostaria de dizer para ele.
PACIENTE: Quanto à outra noite, gostaria de dizer que penso que
você foi excepcionalmente injusto, supondo que eu não quisesse apro
ximar-me e que eu fui aquela que foi injusta ou a vilã, porque não me
aproximava para fazer a família feliz. A família não tem sido realmente
uma família há muitos anos ef pensando bem, a família não representa
muito para mim. Eu ficaria muito feliz se passasse o Natal sozinha. E então
ele provavelmente diria: "Bem, vá adiante e faça isso."
TERAPEUTA: Espere um minuto. Não importa. Não se preocupe
com ele. Eu sou ele, portanto não ponha as palavras na minha boca.
Além disso, em geral eu gostaria de corrigir sua aproximação. Você está
fazendo a coisa de uma maneira que a deixa muito vulnerável. Antes de
mais nada, é muito insatisfatório você se queixar de que uma pessoa é
injusta, porque se fizer isso estará realmente de alguma forma se colocando
à mercê dela. Uma linha melhor de aproximação seria: "Quero dizer-lhe
que você não tinha o direito de supor, na outra noite, que eu não tinha
nenhuma intenção de vir para o Natal. Sabe muito bem que sempre vim.
Você me acusou de falta de sentimentos. Tenho bastante sentimento,
e talvez até demais. Seu ataque foi totalmente injustificado." Ao dizer
isto, você não estará pedindo por justiça ou imparcialidade, está simples
mente afirmando que sentiu que o comportamento dele é errado. Agora,
acha que conseguiria refazê-lo em algum estilo?
PACIENTE: Muito bem. Eu gostaria de ajustar algumas coisas -
é sobre seu telefonema na outra noite. Quando me telefonou, eu simples
mente não pude pensar sobre isso imediatamente. Fui tomada de surpresa,
mas estive pensando sobre isso e penso que gostaria de dizer uma ou duas
coisas.
TERAPEUTA: Penso que devo interrompê-la novamente. Você
começou muito bem, mas quando começa a explicar porque não disse
isso na outra noite, a sua posição é enfraquecida. Por exemplo, isso pode
tentá-lo a dizer, "Sim, isso é muito seu, não é? Você nunca responde na
hora certa. Teve que se lastimar durante 3 dias antes que pudesse dizer
alguma coisa.” Ele poderia ter dito algo semelhante. Mas, de qualquer
forma, essa é uma firmação de um derrotado, e nós não queremos isso.
PACIENTE: Certo. Quanto a seu chamado na outra noite, eu não
tinha desistido inteiramente da idéia de passar o Natal com você e mamãe.
Eu fazia o que achava que era melhor de acordo com o que compreendi
da conversação que tive com mamãe. Senti que mamãe queria que eu
P R Á TICA DA TE R A P IA COM PORTAM ENTAL
passasse o Natal com vovó e vovô na ceia de Natal, e eu desejava estar nos
dois lugares, mas achei que teria que dirigir muito.
TERAPEUTA: Sinto muito, mas devo interrompê-la novamente.
Como vê, você está se explicando. Está dando uma espécie de desculpa.
Na verdade, a parte importante desta conversação é salientar o ponto de
que não foi correto por parte dele precipitar-se em censuras que suben
tendiam que você tinha decidido a não ir.
PACIENTE: Que tal: Não penso que foi certo telefonar-me na outra
noite, e dizer o que disse, porque não penso que tinha os fatos esclarecidos
por mamãe. Penso que deveria ter averiguado com ela primeiro, assim
tendo certeza que compreendia os fatos. Eu tinha conversado com mamãe
antes, e senti que era isto que tínhamos decidido, e penso que você deveria
ter averiguado com ela e ter-se assegurado de que, . .
TERAPEUTA: É o bastante, o fato de continuar sugere que não
está muito confiante. Agora, deixe que ele diga alguma coisa.
Na verdade, bastante descondicionamento de ansiedade freqüente
mente acontece durante o próprio ensaio comportamentai. Por exemplo,
uma mulher inteligente de 42 anos de idade tinha tanta ansiedade quanto
à idéia de molestar as pessoas, que não conseguia ser persuadida a fazer
inclusive as mais minúsculas exigências a ninguém, exceto às amizades
mais próximas. No ensaio comportamentai com ela, fiz o papel de uma
de suas colegas de escritório que mora perto de sua casa, e lhe disse que
me pedisse uma carona até em casa (que só me afastaria um quarteirão
de meu caminho). Ela teve dificuldade inclusive em formular esse pedido.
Dei portanto esta frase para que ela usasse: "Se fôr para casa após o
trabalho, se incomodaria em me dar uma carona até minha casa?” A sua
primeira enunciação disto foi muito desajeitada, e ela afirmou que o fato
de fazê-lo evocara bastante ansiedade (70 suds ver pag. 118). Minha
resposta foi: "Eu a levarei com prazer.” Com a repetição, ela articulou
a sentença com maior tranquilidade e expressão, ao passo que o nível
de sua ansiedade caiu progressivamente. Depois de um total de 8 repe
tições em duas sessões, cia conseguiu pedir essa carona sem praticamente
nenhuma ansiedade. Durante as sessões subseqüentes, a distância que
me tirava de meu caminho aumentava progressivamente. Esses 'ensaios'
capacitaram confortavelmente a paciente a fazer pedidos razoáveis na
realidade.
A capacidade de 'simular' o comportamento, para extrair uma mu
dança terapêutica real, está de acordo com algumas observações sobre
atores, registradas por Simonov (1967). Especialmente (mas não apenas)
quando o ator foi treinado pelo método de Stanislavsky (que exige dele
TREINO A FIR M A TIVO
tentar viver cada parte), ele exibe respostas autônomas na direção das
emoções que está simulando. Simonov afirma: "Os atores foram soli
citados a pronunciarem certas palavras sob várias condições mental
mente reproduzíveis. . . As mudanças nas taxas dos batimentos cardí
acos, registradas enquanto o ator cumpria a tarefa, confirmam que ele
estivera reproduzindo uma situação emocionalmente colorida, e que
não copiara entoações anteriormente notadas em outras pessoas, Esta
conclusão foi confirmada pela comparação com os resultados da análise
de conversas, em situações naturais.'' Contudo, há diferenças também,
porque se o ator estiver representando bem, ele recebe um sentimento
deleitante interpenetrado da ansiedade ou ira que está representando.Um relato detalhado deste trabalho é, infelizmente, disponível apenas
em forma de manuscrito (Simonov, 1962).
Mais do que quaisquer outros métodos sob a rubrica da terapia
comportamental, o ensinamento do treino afirmativo tira proveito das
demonstrações práticas. As nuanças técnicas são mais prontamente
transmitidas por elas, do que por relatos escritos. Os filmes e gravações de
fita têm um papel muito útil. Uma fita minha que entre outras coisas
demonstra o treino afirmativo é o The Case of Mrs. Schmidt (1964).3
Dois filmes sobre a terapia comportamental que têm seções que
demonstram o treino afirmativo são o Behavior Therapy Demonstration,4
e o Behavior Therapy In A Case Of Overdependency.5
NOTAS
(1) Trabalhar diligentemente nas auto-verbalizações ilógicas'' Jo paciente, que
Ellis (1958) concebe como a causa do comportamento neurótico, é a
essência de sua "psicoterapia racional-emotiva". Esse tipo de coisa pode ser
suficiente apenas nas neuroses baseadas em concepções errôneas. Ellis não
fornece dados em contrário, Os dados satisfatórios levariam em conta os
processos não específicos que valem para todas as psicoterapias. É interes
sante que Ellis (1970) tenha acrescentado instruções assertivas ao seu
tratamento.
(2) Se a asserção resultar dessas intervenções, isso poderá ser encarado comporta-
mentísticamente como devido a uma adição duma tendência de ação já
presente (protestar, por exemplo) àquela que á acrescentada pela atitude e
palavras do terapeuta.
(3) Publicado pela Consellor Recordings, Nashville, Tenn,
(4) Encontrado no Psychological Cinema Register, Penn State University,
University Park, Penna.
(5) Encontrado no Behavior Therapy Presentation, Eastern Pennsylvania Psychia
tr ic Institu te, Philadelphia, Penaa.
capítulo 6
INTRODUÇÃO
A dessensibilização sistemática é um dos diversos métodos para
derrubar hábitos neuróticos de resposta de ansiedade gradativa mente,
segundo o modelo da terapia de neuroses experimentais. Um estado
fisiológico inibitório de ansiedade induzido no paciente, . . .através do
relaxamento muscular, é então exposto a um estímulo fraco de eliciação
da ansiedade. A exposição é repetida até que o estímulo perca comple
tamente a sua capacidade de eliciar a ansiedade. Então, estímulos progres
sivamente 'mais fortes' são introduzidos e igualmente tratados. Este
método nos deu o poder de superar muitos hábitos neuróticos, muitas
vezes em pouco tempo. O terapeuta foi capacitado a tratar estes hábitos
em qualquer ordem que escolher, e até o ponto que escolher.
0 emprego de uma emoção neutralizante para superar um hábito
emocional indesejável passo a passo, tem seu precedente num método
antiquíssimo: uma criança é gradativamente acostumada a situações que
teme, expondo-a a pequenas doses daquilo que teme em circunstâncias
em que outras emoções também estejam presentes. Por exemplo, se a
criança temer a barba preta de uma visita, ela provavelmente não fará
oposição a ela se houver eventos descondicionadores que possam ocorrer
se se sentar no colo do pai enquanto este conversa com o visitante. Ela
A dessensibilização
sistemática
D ESSEN SIBILIZA ÇÃ O SISTEM Á TICA 11}3
poderá inicialmente olhar intermitentemente de relance para a barba,
cuja eliciação de ansiedade ocorre sobre um fundo de respostas afetuosas
g agradáveis quanto ao pai. As pequenas eliciações de medo são presumi
velmente inibidas, e, gradativamente, à medida que o medo diminui,
a criança passa a suportar olhares mais prolongados em direção à barba.
Além de serem agentes inadvertidos de tal terapia espontânea, os
pais muitas vezes tratam 'instintivamente' dos temores estabelecidos
em suas crianças de uma maneira essencialmente semelhante (de uma
maneira deliberada e razoavelmente sistemática). Quando uma criança
tem medo de se banhar no mar, primeiramente um dos pais a levará pela
mão até bem próximo das ondas que se aproximam e a erguerá quando
vier uma onda; então, quando a criança se acostumar com isso, será enco
rajada a mergulhar um de seus pés na água, depois o tornozelo, e assim
por diante. Conquistando seu temor gradativamente, a criança aventual-
mente será capaz de brincar no mar com prazer. Isto é muito semelhante
às rotinas seguidas nas soçiedades primitivas para preparar indivíduos
para suportarem os ordálios cerimoniais; e em nossa sociedade, no treino
de alpinistas e artistas trapezistas. O primeiro exemplo conhecido do uso
deliberado de respostas contra-a gentes para superar ansiedades neuróticas
num estilo gradativo, fot o uso da alimentação para superar as fobias
de crianças, no trabalho de Mary Cover Jones (1924), descrito no Capí
tulo I.
A BASE FORMAL DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA
A técnica da dessensibilização sistemática teve as suas origens
formais no laboratório experimental (Wolpe, 1948, 1952, 1958). Tendo
produzido neuroses experimentais em gatos confinados numa pequena
gaiola (como descrito no Capítulo I), administrando-lhes choques de
alta voltagem e baixa amperagem, verifiquei que as respostas neuróticas
de ansiedade quanto à gaiola, a estímulos relacionados e a um estímulo
auditivo que tinha precedido os choques eram extremamente resistentes
ao processo normal de extinção. Nem a exposição prolongada e nem
a exposição repetida dos animais ao ambiente da gaiola levou ao decrés
cimo da intensidade das respostas de ansiedade, embora, os animais
jamais tivessem tomado choques novamente. Esta falha quanto à extinção
é, logicamente, também encontrada regularmente nas neuroses do homem.
Os animais, embora famintos, não conseguiram ser tentados a comerem
alimentos atraentes espalhados na gaiola experimental. Em outras palavras.
P R Á T I C A DA T E R A P IA C O M P O R T A M E N T A L
a ansiedade produziu total inibição de resposta adaptativa tão básica
como comer, num animal faminto. Parece possível que isso tenha depen
dido da maior força relativa da ansiedade. Entretanto, os animais demons
traram menos ansiedade no laboratório experimental e ainda menos nas
outras salas, de acordo com seu grau de semelhança com o laboratório.
Parecia razoável oferecer-lhes comida nesses vários íugares em ordem
descendente. Quando, numa determinada sala, a eliciação de ansiedade
não era bastante grande para inibir a alimentação, oferecimentos suces
sivos de alimentos eram aceitos com uma presteza crescente, até que todos
os sinais de ansiedade retrocederam, A sala próxima em semelhança ao
laboratório poderia ser então introduzida. Depois de diversas séries de
passos semelhantes, o comportamento da alimentação foi eventualmente
restaurado na própria gaiola experimental, e isto tornou possível a total
eliminação de todos os sinais de ansiedade ali. Em estilo gradativo paralelo,
a ansiedade foi descondicionada do estímulo auditivo que tinha precedido
os choques.
Enquanto que essas observações levaram à busca de métodos pelos
quais os hábitos neuróticos dos humanos poderiam também ser quebrados
pouco a pouco, elas não sugeriram imediatamente a técnica da dessen
sibilização sistemática. Esta surgiu de uma sucessão de outras experiências.
Desde 1947, venho procurando ocasionar mudanças em pacientes fazen
do-os se comportarem diferentemente em suas situações da vida. A mais
importante dessas foi a incitação do comportamento afirmativo. Fiquei
muito encorajado quanto ao uso dessas técnicas pelo aparecimento do
Conditioned Reflex Therapy de Salter 09 49) e, na verdade, fui movido
por seu otimismo animado a uma defesa generalizada do comportamento
auto-expressivo em todos os pacientes. Fui influenciado desta maneira
pela positividade do relatório de Salter, embora não fosse claro para mim
como esse tratamento poderia afetar aquelas neuroses em que os estímulos
coni roladores das respostas neuróticas não eram de forma alguma trazidosàs situações interpessoais em que o comportamento afirmativo fora
induzido.
Logo se tornou evidente que as neuroses não-interpessoais não
estavam respondendo ao treino afirmativo comportamental, precisa
mente como seria de se esperar a partir dos fundamentos teóricos. A
teoria do condicionamento exige que, para eliminar ou mudar um hábito
de resposta a um estímulo, esse estímulo esteja presente na situação
descondicionamento. Tal descondicionamento, como ocorre através
do atos de afirmação, pode afetar apenas os hábitos de resposta de ansie-
Jade de estímulos que estão presentes. Se um paciente tiver um temor
D ESSEN SIB ILIZA ÇÃ O SISTEM Á TICA 115
de ficar sozinho, este não será dim inuído pelo comportamento afirmativo
(principalmente porque a afirmação envolve a presença de outra pessoa).
Urn benefício ocasional é certamente observado em casos especiais em
que uma cadeia de outros hábitos poderão ser secundariamente alterados,
quàndo o temor interpessoal tiver sido dim inuído. De modo geral, con-
ludo, a afirmação em direção às pessoas é irrelevante onde as respostas
de ansiedade sejam dadas a conjuntos de estímulos não-pessoa is tais
como espaços fechados, animais, alturas, a visão de sangue — em resumo,
todos os estímulos clássicos a respostas fóbicas. Ela também é irrelevante
quando as respostas de ansiedade são relativas a pessoas a quem a ação
direta por parte do paciente seria imprópria como por exemplo, onde
o medo é eliciado pela simples presença de determinadas pessoas, por ser
o centro de atenção, ou por um sentimento de 'rejeição', tal como uma
situação social quando parece ao paciente que muito pouca atenção
lhe é dirigida. Um caso que exemplificou a irrelevância da expressividade
interpessoal foi o de uma mulher que ficava severamente ansiosa quanto
a todas manifestações de enfermidade em outras pessoas. Um treino
bem sucedido de comportamento expressivo falhou em dim inuir a sua
ansiedade e o caso foi lamentavelmente abandonado como um fracasso.
Naquela época, não conhecia nenhuma maneira de inibir ansiedades eli-
dadas por estímulos aos quais nenhuma resposta relevante poderia ser
proposta è paciente — estímulos que oprimem o paciente 'sem animus'.
Logo depois, tive a felicidade de ter em mãos o Progressive Rela
xation de Edmund Jacobson (1939). Nele foi descrita uma resposta
mibidora de ansiedade que não exigia do paciente qualquer tipo de ativi
dade motora em direção à origem de sua ansiedade. Comecei a dar treinos
de relaxamento a pacientes a cujas neuroses a afirmação não era aplicável.
Contudo, um enorme potencial de relaxamento era necessário para inibir
a ansiedade eliciada por um estímulo fóbico maior na vida real. Conjeturei
que os pacientes de Jacobson foram capazes de inibir altos níveis de ansie
dade em virtude de um treino prolongado e assíduo.
Comecei a organizar programas de exposição a estímulos fóbicos
tjraduados ao vivo para pacientes que tinham adquirido alguma facilidade
em relaxar, geralmente depois de 6 a 10 sessões. Mas esses programas
eram muitas vezes difíceis de executar, e comecei portanto a explorar
a possibilidade de fazer uso de situações imaginárias no lugar das reais.
Fui agraciado em verificar que as magnitudes da ansiedade experimentada
dim inuíam progressivamente nas apresentações repetidas de situações
imaginárias que eram fracamente eliciadoras de ansiedade. Além do mais,
estímulos imaginários cada vez mais fortes podiam ser despojados em seu
116 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
potencial eliciador de ansiedade, e havia uma transferência do descondi-
cionamento da ansiedade para situações reais. A princípio, influenciado
por alguns dos experimentos de Pavlov, apresentei apenas um estímulo
de qualquer classe a cada sessão, mas as experimentações cautelosas de
apresentações múltiplas não revelaram quaisquer desvantagens e aumen
taram gradativamente as possibilidades de acelerar a terapia.
EXPOSIÇÃO GERAL DO PARADIGMA DA DESSENSIBILIZAÇÃO
Os efeitos autônomos que acompanham o relaxamento profundo são
diametralmente opostos àqueles característicos da ansiedade. Jacobson
(1939, 1940) há muito demonstrou que a pulsação e a pressão sangüínea
eram diminuídas pelo relaxamento muscular profundo. Foi posteriormente
demonstrado (Drvota 1962, Clark 1963, Wolpe, 1964) que a resistência
da pele diminui e que a respiração torna-se mais lenta e mais regular
durante o relaxamento. Estudos mais enérgicos têm aparecido recente
mente. Paul (1969) demonstrou que o relaxamento muscular produz
efeitos opostos àqueles da ahsieci.ide, nos batimentos cardíacos, índice
respiratório, e condutância da pele. Efeitos óbvios podem ser obtidos até
pelas simples instruções quanto ao relaxamento; eles podem ser sensivel
mente aumentados se as instruções forem dadas numa estrutura hipnó
tica e, ainda mais significativamente, se forem seguidas pelo treino de
relaxamento. Van Egeren, Feather, e Hein (1971), num estudo psicofisio-
lógico elaborado, envolvendo a condutância da pele, batimentos cardíacos,
amplitude digital do pulso, e índice de respiração, descobriram que os
sujeitos relaxados demonstravam um decréscimo menor na resistência da
pele a estímulos fóbicos do que aqueles que não estavam relaxados.
Esses efeitos autônomos do relaxamento (e a calma subjetiva relacionada)
não podem ser secundários ao estado relaxado dos músculos. O relaxa
mento completo ou quase completo induzido por drogas do tipo curare
pode ser acompanhado por uma ansiedade muito severa. Os efeitos
calmantes do relaxamento Jacobsoniano parecem ser concomitantes ou
conseqüências dos esforços que o sujeito faz para diminuir o tom de
seus músculos.
Um estudo psicofisiológico piloto, feito por Wolpe e Fried (1968),
fornece evidência de que a resposta galvânica da pele (na medida de
variabilidade de Lathrop, 1964) demonstra decréscimos durante a dessen
sibilização que são paralelos aos decréscimos de ansiedade que o paciente
relata. A Figura 4 demonstra as mudanças rateadas de quatro pacientes,
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 117
0,18 -r
0,16 “
0,14 “
0,12 _
-g 0,10 -
n
| 0,08 -
0,06 “
0,04 “
0,02 “
0 —
0
Fig. 4. Mostrando os valores lambda para três apresentações da mesma cena, durando
2 sucessivas sessões de dessensibilização. O diagrama mostra a média dos resultados
de quatro pacientes diferentes. Náo somente a intensidade das reações diminuiu
durante cada sessão, mas o decréscimo obtido no ftm da primeira sessão foi mantido
até o início da segunda sessão.
aos quais cenas fóbicas foram apresentadas três vezes em cada duas sessões.
O decréscimo de resposta de uma apresentação para outra deve ser obser
vado, assim como as "economias" entre a Sessão 1 e Sessão 2.
Portanto, não apenas os efeitos do relaxamento são opostos em tipo
àqueles da ansiedade, como, se contrapostos aos estímulos eliciadores
de ansiedade, eles diminuem as respostas de ansiedade que esses estí
mulos são capazes de eliciar. Van Egeren (1970) relata que, com as repe
tições dos estímulos fóbicos, a magnitude de seus efeitos diminuía progres
sivamente nos sujeitos relaxados, mas permanecia a mesma naqueles que
não estavam relaxados. Num estudo não terapêutico, comparando os
efeitos da apresentação de estímulos hierárquicos, numa maneira de repe
tição padronizada, a sujeitos relaxados e não relaxados (Wolpe e Flood,
1970), uma tendência descendente consistente de excitação autônoma,
tal como medida pela resposta galvânica da pele foi observada através das
O------------- — — O —
—O
1
apresentação da cena
118 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
sessões a respeito de cada estímulo, no caso dos sujeitos relaxados, mas
não naqueles que não estavam relaxados. Num contexto clínico, Paul
(1969) demonstrou que a excitação autônoma através de umestímulo
cansativo decresce com a repetição em função da extensão à qual o relaxa
mento previamente induzido tem efeitos contrários à ansiedade.
Da mesma forma que nas neuroses de gatds, foi verificado que a
alimentação pode ser usada para agir contra uma resposta de ansiedade,
apenas se esta for fraca o bastante; também em seres humanos, os efeitos
autônomos do relaxamento serão capazes de agir apenas contra respostas
de ansiedade relativamente fracas.
Verifiquei muitas vezes que um estímulo eliciando uma forte
resposta de ansiedade pode ser apresentado diversas vezes ao paciente
relaxado, sem que a força da ansiedade diminua nem um pouco. Em
contraste, se a resposta de ansiedade for fraca, verifica-se que, de uma
apresentação de estímulo para a outra, a quantidade de ansiedade diminui
até que finalmente nada resta dela. Essas observações clínicas foram
impressivamente apoiadas por um experimento animal, admiravelmente
controlado, feito por Poppen (1970).
Em contraste com o anterior, deve ser notado que algumas obser
vações recentes, inclusive aquelas de Wolpe e Flood acima mencionadas,
indicam que o decréscimo de respostas ocorre se estímulos mais fortes
forem administrados com insistência suficiente. As relações mútuas pos
síveis com a inundação ainda devem ser exploradas.
O papel do relaxamento da inibição de ansiedade tem sido experi
mentalmente demonstrado. Trabalhando independentemente, em fobias
de aranha e cobra respectivamente, Davison (1965) e Rachman (1966)
verificaram que sujeitos a quem toda a seqüência do procedimento de
dessensibilização foi aplicada demonstraram significativamente mais
progresso que aqueles recebendo treino de relaxamento sem apresentações
de cenas ou outros a quem as cenas foram apresentadas sem o relaxa
mento. Um estudo recente, apontando na mesma direção foi relatado
por Farmer e Wright (1971).
Os tradicionalistas aproveitaram a sugestão, feita por Vaiins e Ray
(1967), de que a base da dessensibilização pode ser, não o recondiciona-
mento moral, mas a mudança das cognições do sujeito quanto as suas
reações interiores ao objeto temido. Obviamente, isto não será possível
se estivermos corretos ao considerarmos os temores neuróticos como
hábitos condicionados envolvendo os centros emocionais do mesencéfalo,
uma vez que esses não seriam alterados simplesmente mudando-se as
associações corticais. Valins e Ray supriram alguns sujeitos com fobias
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 119
por cobras com uma falsa regeneração do índice cardíaco enquanto
estavam vendo slides de cobras. Em virtude desses sujeitos terem subse
qüentemente se aproximado mais de uma cobra do que o fez o grupo de
controle, Valins e Ray concluiram que as cognições quanto à reações
internas poderiam ser responsáveis pela dessensibilização bem sucedida.
O estudo deles, todavia, tem uma variedade de debilidades internas (Wolpe,
1969, 1970). Réplicas recentes e melhor controladas do estudo feitas
por Sushinsky e Bootzin (1970) e por Kent, Wilson e Nelson (1972}
deixaram de demonstrar qualquer efeito significativo de manipulação
cognitiva no comportamento de esquiva ou emocional. Ademais, um
experimento psicofisiológico feito por Gaupp, Stern, e Galbraith (1972)
indica que quando g cognição, "Esse estímulo não me afetou interior
mente", é induzida em relação aos slides de cobras de Valins e Ray, eia
é verídica em natureza e é baseada na resposta fisiológica reduzida real.
Outra idéia que foi recentemente salientada foi a de que muito do
efeito da dessensibilização sistemática depende de "instruções terapêu
ticas" (Leitenberg, e outros, 1969 e Oliveau, e outros, 1969). Nas expe
riências conduzidas por esses trabalhadores, sujeitos com fobia por cobras,
que pensavam que estavam sendo dessensibilizados como uma medida
terapêutica, progrediram significativamente mais que aqueles que foram
submetidos ao procedimento na crença de que ele era um experimento
fisiológico, embora o segundo grupo se saísse melhor que o grupo de
controle. Este contraste entre resultados não foi replicado <por McGlynn,
Reynolds, e Linder (1971). Relatos da relevância de outros fatores "peri
féricos" tais como sugestão (como Efram e Mareia, 1967; McGlynn e
Williams, 1970) e exposição à vida real (Sherman, 1972) têm ultima
mente aparecido com freqüência crescente. Eles devem ser vistos com
considerável reserva, uma vez que lidam com temores relativamente
fracos. Bernstein e Paul (1971) salientaram que, a menos que os temores
que são a matéria de um experimento tenham a severidade que caracteriza
as fobias clínicas, eles não podem constituir um verdadeiro análogo das
últimas.
Uma vez que um estímulo fraco deixou de eliciar qualquer ansie
dade, é possível apresentar um estímulo um tanto mais forte ao paciente
totalmente relaxado, e esse estímulo mais forte eliciará agora menos
ansiedade que o teria feito anteriormente. Apresentações sucessivas levarão
a quantidade de ansiedade eliciada até zero. Estímulos cada vez mais
fortes são assim trazidos para dentro da capacidade inibidora da ansiedade
própria ao relaxamento. Colocando a questão de outra forma, se houver
dez estímulos que em suas variações em torno de uma única dimensão
12 0 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
estímulos em continuidade
Fig. 5. I lustrando o processo de dessensibilização. Quando a habilidade de A para
evocar ansiedade declina da unidade 1 a 0, B evoca a unidade 1 no lugar de um
potencial de 2 unidades; e quando a evocação de H for 0, C evocará 1 unidade;
e assim por diante.
eliciam num sujeito quantidades de ansiedade que variam de um para dez,
e se através dos efeitos inibidores do relaxamento a ansiedade eliciada
pelo estrmulo eliciado uma unidade é reduzida a zero, o estímulo origi
nalmente evocador de duas unidades de ansiedade constatar-se-á evocar
apenas uma unidade. Isto é ilustrado pela Figura 5. Assim, um sujeito
acrofóbico que tem uma unidade de ansiedade produzida ao olhar através
de uma janela num segundo andar, e duas unidades ao olhar através de
uma janela num terceiro andar, a redução da quantidade de ansiedade
do segundo andar para zero teria o efeito de que a quantidade de ansiedade
eliciada numa janela de um terceiro seria diminuída para uma unidade.
Então, quando a ansiedade no terceiro andar for zero, haverá apenas
uma unidade no quarto andar — e assim por diante. (Este relacionamento
é uma simples função de força.)
É apropriado neste ponto observar que embora tenha sido comum
referir-se aos estímulos eliciadores de ansiedade mais fracos como “estí
mulos generalizados", isto não se aplica acuradamente a todos os exem-
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 121
pios. Um estímulo generalizado incorpora alguma medida de um aspecto
do estímulo condicionado; e a magnitude do aspecto compartilhado é
a base de um gradiente de generalização (Hull, 1943). Mas, às vezes,
a eliciação mais fraca de ansiedade é uma função dos estímulos que foram
condicionados à ansiedade por estarem no caminho para o estímulo
condicionado central. Esses estímulos no caminho, evidentemente, não
dependem de sua semelhança ao estímulo condicionado central para
seu potencial eliciador de ansiedade. A diferença está ilustrada na Figura 6.
Fig. 6. Dois estímulos contínuos: generalização de formas e estímulos no caminho.
A intensidade de uma resposta de ansiedade pode ser diminuída tanto pela expo
sição do sujeito à uma forma progressivamente i^ferente da do círculo (forma 5),
como colocando-o em pontos do percurso progressivamente remotos da forma 5.
Note que neste último caso a influência de distância é maior com um desenvolvimento
da proximidade, concordando com a observação de que uma simples função de
poder está operando nessa dimensão- (Cortesia de Graphic Communications, Eastern
Pennsylvania Psychiatric Institute, Philadelphia.)A TÉCNICA DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA
Os problemas apresentados pelo paciente são cuidadosamente
considerados pelo terapeuta antes de decidir-se quanto a técnica em
particular. Sua primeira tarefa é, geralmente, a de corrigir concepções
errôneas; e a respeito de alguns temores nada mais poderá ser necessário
{vide Figura 2). Então, se o comportamento mudado for necessário em
situações sociais, sexuais e outras, isto será efetuado depois, geralmente
através do treino afirmativo (Capítulo 5). Se a dessensibilização siste
mática for indicada, ela será iniciada tão logo quanto possível, e poderá
ser conduzida paralelamente com quaisquer medidas que possam ter sido
122 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
prescritas para a situação da vida. A técnica envolve quatro estruturas
separadas de operações:
1. Treino no relaxamento muscular profundo.
2. O estabelecimento do uso da escala de ansiedade subjetiva.
3. A construção das hierarquias de ansiedade.
4. A contraposição do relaxamento aos estímulos eliciadores de
ansiedade das hiearquías.
1. O treino do relaxamento
0 método de relaxamento ensinado é essencialmente aquele de
Jacobson (1938), mas a instrução é completada no decorrer de cerca
de seis entrevistas, em contraste marcante com os esquemas de treino
muito prolongados de Jacobson. Pede-se ao paciente para praticar em
casa durante dois períodos de quinze minutos por dia.
Ao introduzir o tópico do relaxamento, eu digo ao paciente (que
geralmente já recebeu um apanhado geral da natureza da terapia de condi
cionamento) que o relaxamento é apenas um dos métodos à nossa dispo
sição para combater a ansiedade. Continuo como se segue:
Mesmo o relaxamento comum que ocorre quando a pessoa se deita,
muitas vezes produz um notável efeito calmante. Verificou-se que
há uma relação definida entre a extensão do relaxamento muscular
e a produção de mudanças emocionais opostas à ansiedade. Vou
ensinar como relaxar-se bem além do ponto comum, e com a prática
será capaz de 'ligar' pela vontade efeitos emocionais consideráveis
de um tipo 'anti-ansiedade'.
Não há nenhuma seqüência estabelecida para o treino dos vários
grupos de músculos no relaxamento, mas seja qual for a seqüência adotada,
ela deve ser sistemática. Minha própria prática é a de começar com os
braços, porque são convenientes para o propósito de demonstração, e
fáceis de serem verificados. A região da cabeça é a seguinte, porque os
mais marcantes efeitos inibidores de ansiedade são geralmente obtidos
por um relaxamento nesse local.
Pede-se ao paciente para agarrar o braço de sua cadeira com uma
mão para ver se consegue distingüir qualquer diferença qualitativa entre
as sensações produzidas no antebraço e aquelas em sua mão. Pede-se-lhe
que dê atenção especial à qualidade da sensação do antebraço porque
esta é causada pela tensão muscular, em contraste com as sensações de
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 1 2 3
tato e pressão na mão. Pede-se também que ele observe a exata localização
das tensões do antebraço nas áreas flexoras e extensoras. Depois, o tera
peuta segura o pulso do paciente e pede-lhe que dobre o braço contra
esta resistência, deixando-o assim consciente da tensão de seu bíceps.
Então, instruindo-o no sentido-de esticar o braço contra resistência, ele
chama atenção para os músculos extensores do braço. O terapeuta pros
segue dizendo:
Agora vou demonstrar a atividade essencial que está implicada na
obtenção do relaxamento profundo. Pedir-lhe-ei novamente que
resista ao meu puxar de seu pulso de forma a endurecer o seu bíceps.
Quero que observe muito cuidadosamente as sensações nesse mús
culo. Então pedirei que solte grada ti vãmente à medida que eu
diminuo a quantidade de força exercida. Repare, enquanto o seu
antebraço desce, que há uma sensação decrescente no bíceps. Repare
também que o soltar é uma atividade, mas de uma espécie negativa
— é uma "descontração" do músculo. A/o devido tempo, seu ante
braço virá a repousar sobre o braço dá cadeira, e poderá então
pensar que já foi o mais longe possível — que o^relaxamento está
completo. Mas embora o bíceps esteja de fato parcialmente e talvez
a maior parte relaxado, um certo número de suas fibras ainda
estarão, na verdade, contraídas. Portanto continuarei dizendo:
"Continue soltando. Tente estender a atividade que ocorreu no
bíceps enquanto seu antebraço descia. " É a ação de relaxar essas
fibras adicionais que produzirá os efeitos emocionais que desejamos.
Tentemos fazer isto, e vejamos o que acontece.
0 terapeuta, então, segura o pulso do paciente durante um segundo
e fhe pede que entese, e então gradativamente relaxe, o bíceps. Quando
o antebraço estiver próximo ao braço da cadeira, o terapeuta solta o
pulso, permitindo que o paciente complete o movimento por si. Ele
então o exorta a “continuar soltando", a "tentar ir cada vez mais adiante
na direção negativa", a "tentar ir além daquele que parece ser o ponto
mais distante."
Depois do paciente indicar que entendeu tudo o que é necessário,
pede-se a ele que coloque ambas as mãos confortavelmente sobre o colo
e tente relaxar todos os seus músculos de ambos os braços por alguns
minutos. Ele deve comunicar quaisquer sensações novas que possa sentir.
As comuns são formigamento, dormência, ou calor, especialmente nas
mãos. Depois de alguns minutos o terapeuta apalpa os músculos relaxados.
124 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
Com a prática ele aprende a julgar entre os diversos graus de tensão mus
cular.
A maioria dos pacientes tem um sucesso um tanto limitado, quando
tenta relaxar pela primeira vez, mas eles devem ser assegurados de que
um bom relaxamento é uma questão de prática, e ao passo que inicial
mente com vinte minutos de relaxamento poderá obter-se não mais que
um relaxamento parcial de um braço, será eventualmente possível relaxar
todo o corpo numa questão de um minuto ou dois. Contudo, existem
alguns indivíduos afortunados que, desde a primeira tentativa, experi
mentam um relaxamento profundo, como se fosse irradiando dos braços,
e acompanhado por efeito0 gerais, como a calma, sonolência ou calor.
Habitualmente, inicio a segunda lição de relaxamento dizendo
ao paciente que, do ponto de vista emocional, os mais importantes mús
culos do corpo estão situados na cabeça ou próximos a ela e que, portanto,
lidaremos com essa área primeiro. Nós começamos com os músculos da
face, demonstrando as tensões produzidas ao contrair os músculos da
fronte. Esses músculos se prestam a uma demonstração de caráter do
relaxamento progressivo. O terapeuta ergue simultaneamente o grupo
de músculos que franze as sobrancelhas muito intensamente, indicando
de passagem que foi assim produzida uma expressão ansiosa. Ele então
diz: "Vou relaxar estes músculos de forma controlada para lhe dar o
sentimento da forma gradativa que os decréscimos de tensão ocorrem
durante as tentativas de relaxamento profundo, embora no próprio rela
xamento, os passos sejam geralmente muito menos rápidos que na minha
demonstração." Os músculos são então relaxados como afirmei, dando
um passo a cada cinco segundos até que, após cerca de meia dúzia de
passos, nenhuma outra mudança seja evidente; porém é enfatizado ao
paciente que o relaxamento continua e que esse relaxamento ''sob a
superfície'' é a parte que importa para a produção dos efeitos emocionais
desejados. Fala-se então ao paciente para contrair os seus próprios mús
culos da fronte e lhe são dados cerca de dez minutos para relaxá-los
o tanto que puder. Os pacientes registram espontaneamente a ocorrência
da “regeneração do relaxamento" em suas frontes, que eles podem sentir
como que formigando, ou "uma sensação de grossura, como se minha
pele fosse feita de couro.” Essas sensações são como uma regra indicadoras
de um grau de relaxamento além do nível normaldo tono muscular.
Esta lição geralmente conclui dirigindo-se a atenção aos músculos
da região do nariz, fazendo-se o paciente franzir o nariz; e aos músculos
em volta da boca, fazendo-o enrugar os lábios e então sorrir. Todos esses
músculos estão agora relaxados.
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 125
Na terceira lição pede-se ao paciente para cerrar os seus dentes,
retesando assim seus músculos masseteres e temporais. A posição dos
lábios é um importante indicador do relaxamento dos músculos da masti
gação. Quando estes estão relaxados, os lábios ficam entreabertos alguns
milímetros. Os masseteres não podem estar relaxados se a boca for
mantida resolutamente fechada. Naturalmente, isto não quer dizer que
uma boca aberta seja prova de relaxamento.
Na mesma lição, também introduzo os músculos da língua. Estes
podem ser sentidos contraindo-se o soalho da boca, quando o paciente
pressiona a ponta da língua firmemente contra a parte posterior de seus
dentes incisivos inferiores. 0 relaxamento dos músculos da língua poderá
produzir sensações locais, como um formigamento ou uma sensação
de dilatação desse órgão.
Pacientes que tém tensões especiais na região do pescoço agora
aprendem a relaxar os músculos faríngeos — que podem ser sentidos
antecipadamente pelo ato de preparar para limpar a garganta. Outros
músculos que recebem antenção apenas para propósitos especiais, são
aqueles do globo ocular (que são primeiramente contraídos individual
mente voltando-se os olhos sucessivamente para a esquerda, direita, para
cima e para baixo), o grupo infrahióide (que o paciente pode sentir ten
tando abrir as suas mandíbulas contra uma resistência).
A quarta lição trata do pescoço e ombros. 0 principal objetivo
no pescoço são os músculos posteriores que normalmente mantêm a
postura ereta da cabeça. Muitas pessoas ficam conscientes deles concen
trando-se simplesmente nas sensações da parte posterior do pescoço.
Quando elas relaxam esses músculos a cabeça pende para diante, mas
por ser incompleto o relaxamento no indivíduo sem prática, a pressão
é impostanas fibras musculares que ainda estão contraídas, e o descon
forto, e reparar mesmo a dor, são freqüentemente sentidos. Como
Jacobson acentuou, a prática persistente, quando ignorando os descon-
fortos leva a uma submissão progressiva esses músculos, e geralmente no
prazo de uma semana aproximadamente o paciente verifica que o seu pes
coço fica bem embora seu queixo pressione o esterno. Aqueles que sentem [SS;
muito desconforto em inclinar a cabeça demais, são instruídos no sentido
de relaxarem o músculo do pescoço com a parte posterior da cabeça
encostada numa cadeira de encosto alto.
As tensões dos músculos do ombro são demonstradas seguindo-se
a seguinte rotina: o deltóide é contraído abduzindo o braço até uma
posição horizontal, os músculos lateriais do pescoço prosseguindo este
movimento até a altura do ouvido, os grupos posumerários e escápulo-
126 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
-espinhais movendo o braço na horizontal para trás, e os peitorais moven
do-se para diante através do tórax. Ao relaxar estes músculos, o paciente
é orientado no sentido de observar a sua unidade funcional com aqueles
do braço.
A quinta lição de relaxamento lida com os músculos das costas,
abdômem e tórax. O procedimento referente às primeiras duas áreas
segue o padrão habitual. Os músculos das costas são contraídos arcando
para trás a espinha. Os músculos abdominais são retesados como que
na antecipação de um soco na barriga; depois de contraí-los o paciente
os relaxa o mais que puder. Os músculos torácicos, ou, mais precisamente,
os músculos da respiração, estão necessariamente numa categoria dife
rente, pois a inibição total da respiração não é uma empresa que se deva
tentar promover) Mas o ritmo respiratório pode muitas vezes ser usado
para aumentar o relaxamento. A atenção à musculatura durante algumas
respirações razoavelmente profundas logo revela que, enquanto que
algum efeito é envolvido durante a inalação, a respiração é essencialmente
uma "soltura". Alguns pacientes acham muito útil coordenar o relaxa
mento de vários outros músculos com o relaxamento autônomo dos
músculos respiratórios que acontece com a exalçção durante a respiração
normal.
Ao tornar os pacientes cientes dos músculos dos membros inferiores
a serem relaxados, durante a sexta lição, iniciar pelos pés, e trabalhar
para cima. Os flexores dos artelhos são sentidos dobrando-se os dedos
do pé dentro do sapato; os músculos da barriga da perna colocando-se
algum peso sobre os dedos do pé; os músculos peroneais e o tibial anterior
flexionando o dorso do pé; o quadríceps femoris esticando a perna;
os tendões do jarrete tentanto flexionar o joelho contra uma resistência;
os adutores da coxa por adução contra a pressão da mão no lado interior
do joelho; e os abdutores {que incluem alguns dos músculos glúteos)
por abdução contra pressão. Todos esses músculos são o tópico da se.:*a
lição, e deve-se dar tempo ao paciente para relaxá-los.
A determinação da capacidade do paciente se relaxar depende
parcialmente de seu relato de um grau de calma que o relaxamento lhe
traz, e parcialmente das impressões obtidas ao observá-lo. Pela segunda
ou terceira lição, muitos pacienteis registram calma, tranqüilidade, ou
sonolência. Poucos experimentam pouca ou nenhuma mudança. É uma
vantagem se ter indicadores objetivos do relaxamento. Jacobson (1939,
1964) tem usado o eletromiograma, mas principalmente como medida
corroborativa. Recentemente, tornaram-se disponíveis equipamentos
mais convenientes que traduzem os potenciais do músculo para sinais
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÃTICA- 127
«luditívos cujos acmes caem à medida que a tensão diminui (Budzinski,
Stoyva, e Adier, 1970}. Isto também facilita o relaxamento, fornecendo
icgoneração ao paciente. Felizmente, os relatos dos pacientes geralmente
servem como um guia suficientemente seguro de seus estados emocionais,
especialmente com a ajuda da escala de ansiedade subjetiva. Muitos deles,
especialmente aqueles que começam com pouca ou nenhuma ansiedade
(Mn progresso, relatam uma sensação positiva de calma somente após uma
ou duas sessões de treino de relaxamento. Alguns indivíduos afortunados
parecem possuir uma espécie de 2ona de radiação de relaxamento (geral
mente nos braços ou no rosto), de onde o relaxamento se espalha para
outras regiões quando a zona de radiação está relaxada.
2. A construção de hierarquias
Uma hierarquia de ansiedade é uma lista de estímulos sobre um
tema, ordenada de acordo com a quantidade de ansiedade que eliciam.
Minha própria experiência tem sido sempre a de colocar o estímulo que
elida a maior quantidade de ansiedade no alto da lista. Às vezes, a cons
trução de uma hierarquia é coisa fácil; os temas são claros e a ordem de
classificação dos estímulos é óbvia. Em outros casos, ela pode ser muito
difícil. O Caso 31 no Capítulo 14 ilustra quão complicada pode ser a
questão da construção de uma hierarquia,
O tema, ou a essência comum de uma neurose é geralmente derivado
de situações de estímulos perturbadores extrínsecos ao paciente: como
íiranhas ou censuras; mas, às vezes, a essência subsiste em estímulos produ
zidos por respostas. Uma variedade de situações de estímulos fisicamente
incompatíveis poderá induzir uma resposta comum. Por exemplo, um
caso de claustrofobia (Wolpe, 1961) tinha o mesmo tipo de sensação
de cilada se tivesse esmalte irremovível em suas unhas ou quando usava
um anel apertado como quando ficava fisicamente confinada. Tal "comu
nidade” de respostas é a base da generalização secundária (Hull, 1943,
p. 191).
A construção das hierarquias geralmente começa por volta da mesma
época do treino de relaxamento, e está sujeita a alterações ou adições
em qualquer época. É importante notar quetanto a reunião dos dados
como a sua organização subseqüente são feitos em forma de conversação
comum e não sob relaxamento, uma vez que as reações habituais do
paciente a estímulos são aquelas que o terapeuta precisa conhecer.
Os dados primários dfe onde as hierarquias são construídas vêm
de quatro origens principais: (a) o histórico do paciente (ver Cap. III);
128 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
{b) reações ao Questionário Willoughby, que revela ansiedades principal
mente em contextos interpessoais; (c) um Inventário de Temores1 {Wolpe
& Lang, 1964) (vide Apêndice 3) e (d) investigações especiais em todas
as situações possíveis em que o paciente sente ansiedade imprópria. É
freqüentemente útil encarregar o paciente da tarefa em casa de relacionar
todas as situações, pensamentos, ou sentimentos que ele ache pertur
badores, amedrontadores, embaraçosos, ou de qualquer outra maneira
aflitivos.
Quando todas as origens identificadas de perturbação neurótica
tiverem sido relacionadas, o terapeuta as classifica por temas. Geralmente
há mais de um tema. Na maioria dos casos estes são bastante óbvios, porém
há muitas exceções. Por exemplo, um receio de ir a cinemas, festas e
outras situações públicas pode sugerir uma claustrofobia e ainda assim
ser realmente temor quanto ao escrutínio. Freqüentemente, o temor
e a esquiva a ocasiões sociais constata-se serem baseados no temor à
censura ou à rejeição; ou o temor poderá ser uma função da simples
presença física de pessoas, variando com o número a que o paciente
é exposto. 0 temor ostensivo a situações sociais por parte de um paciente
foi na realidade uma resposta de ansiedade condicionada ao odor de
comida em lugares públicos. Urobom exemplo da importância da identi-
r ficação correta das origens relevantes de ansiedade pode ser num caso
anteriormente relatado (Wolpe, 1958, p. 152) onde a impotência de
um homem foi constatada séT”devída a uma ansiedade não relacionada
com aualauer aspecto da situação sexual, mas sim à idéia de trauma.
No contexto de uma tentativa de defloraçao, IPansiedade tinha sido
condicionada ao ato sexual. Neste caso a estratégia do tratamento foi
mudada por esta revelação do uso ao vivo da resposta sexual para a dessen
sibilização sistemática quanto ao dano do tecido.
Não é necessário que o paciente tenha realmente experimentado
cada situação que deva ser incluída numa hierarquia. A pergunta apresen
tada é: "Se tivesse que se defrontar com tais e tais situações, sentiria
ansiedade?" Para responder esta pergunta ele deve imaginar a situação
em questão, e geralmente é quase tão fácil imaginar um acontecimento
suposto quanto um que tenha ocorrido. A disposição temporária de
uma configuração de um estímulo raramente afeta sua resposta. Um
homem com fobia por cães deverá geralmente sentir tanta ansiedade
ante a idéia de se encontrar com um buldogue a caminho de casa no dia
seguinte, quanto sentiria pela lembrança de um encontro verdadeiro
com esse tipo de cachorro.
A seguinte lista de temores de uma paciente recente será usada
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 129
p«rs ilustrar algumas das dificuldades da construção da hierarquia.
Elta lista é reproduzida exatamente como a paciente a apresentou:
Lista Primária de Temores
1. Grandes Altitudes 11. Fogo
2. Elevadores 12. Desmaiar
3. Locais Apinhados 13. Cair de Costas
4. Igrejas 14. Injeções
5. Escuro — cinemas, etc. 15. Medicamentos
6. Estar só 16. Medo do desconhecido
7. Relações maritais (gravidez) 17. Perda da razão
8. Caminhar qualquer distância 18. Portas trancadas
9. Morte 19. Passeios num parque de diversão
10. Acidentes 20. Escadarias íngremes
Com a ajuda de alguns esclarecimentos pela paciente os itens foram
separados em categorias, assim:
A. Acrofobia
1. Grandes altitudes 20. Escadarias íngremes
19. Passeios num parque de diversão
B. Claustrofobia
2. Elevadores 5. Cinemas (fator escuridão)
3. Locais apinhados 18. Portas Trancadas
4. Igrejas
C. Agorafobia
6. Estar só 8. Andar qualquer distanciai (só)
D. Doenças e suas associações
12. Desmaiar 14. Injeções
13. Cair de Costas ' 15. Medicamentos
130 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
E. Temores basicamente Objetivos
7. Relações maritais (gravidez)
9. Morte
10. Acidentes
11. Fogo
16. Medo do desconhecido
17. Perda da razão
Antes de considerar os grupos hierárquicos verdadeiros de A a D,
aos quais a dessensibilização é relevante, algumas observações devem ser
feitas quanto ao grupo E. Os temores da paciente quanto à gravidez,
acidentes, morte e fogo, estiveram todos em contextos nos quais o temor
poderia ser razoável, mas, em seu caso a apreensão quanto a esses casos
era um pouco mais que normal. Considerei que isto poderia ser em função
de um nível geralmente elevado de ansiedade, como muitas vezes se veri
fica, que provavelmente desapareceria quando as origens maiores de
ansiedade neurótica fossem removidas pela terapia. O seu temor pelo
desconhecido estava relacionado à idéia da morte. O medo de perder
a razão, uma conseqüência de seus sentimentos estranhos e incontroláveis
que caracterizavam sua neurose, foi superado por uma forte asseveração
de que a sua condição não era relacionada com a insanidade e que jamais
poderia levar a ela, asseveração que foi reforçada demonstrando-se que
a hiperventilação poderia precipitar muitos de seus sintomas. Há alguns
casos em que todos os temores poderia pertencer ao grupo E, em cujo
caso, é claro, a dessensibilização não seria relevante; e a parada de pensa
mento seria a mais importante técnica a ser usada.
Ao examinar os grupos de estímulos de A a D o leitor deve observar
que os itens são muito vagos e não são suficientemente bem definidos
para a classificação hierárquica. Na verdade, os itens de cada grupo são
apenas exemplificações que irão gerar situações estimuladoras especí
ficas, o suficiente para serem classificadas só depois das comunicações
ulteriores entre paciente e terapeuta. Mas isto não é muito óbvio. É
comum entre os recém-chegados à terapia comportamenta! tentarem
formar tal exemplificação em hierarquias. Recentemente, perguntei
a um grupo de 25 membros de um curso de terapia comportamental
(nenhum dos quais tinha anteriormente tratado mais de dois ou três
pacientes) como procederiam para construir uma hierarquia b í^ d a nos
cinco itens de claustrofobia do grupo B. A maioria deles se dispunha a
pedir à paciente para classificar elevadores, igrejas, cinemas, etc., hierar
quicamente, e para considerar a influência dos fatores modificadores,
como o tamanho do elevador, como confinados pelos limites da classifi
cação hierárquica. Mas, na verdade, estes cinco itens foram agrupados
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 1 3 1
soh a claustrofobia, apenas porque expressavam constrição de espaço.
Indagações ulteriores da paciente demonstraram claramente que a ansie-
(liide claustrofóbica era uma função inversa do tamanho do espaço
fijchado, e uma função direta da duração do confinamento. A dessensibi
lização, conseqüentemente, envolveu duas séries hierárquicas: primeira
mente, a paciente foi "confinada" durante um espaço de tempo constante
numa sala progressivamente menor; e, em segundo lugar, ela ficou "con
finada" numa sala muito pequena (cerca de 1 metro quadrado) por perío
dos crescentes.
Da mesma forma, no grupo A, acrofobia, cada um dos três itens
st: refere a toda uma série de situações concretas. Eles não tèm o caráter
nspecífico que lhes permitiria serem usados na dessensibilização; mas
particularizando dentro das áreas que cingem, eles forneceram uma série
di! situações concretas eliciando respostas de diferentes intensidades.
Indagações posteriores revelaram que as altitudes crescentes eram crescen
temente temíveis, partindo de cerca de seis metros (ou uma janela de
um segundo andar); e queem todas as altitudes, o movimento agravava
o temor. Da mesma forma, o grupo D produziu uma hierarquia relativa
mente extensa, cujos itens, classificados em ordem descendentes, foram:
1. Sensação de estar prestes a perder a consciência
2. Sensação de cair de costas
3. Tontura acentuada
4. Sensação de leveza na cabeça
5. Tontura moderada
6. Cheiro de éter
7. Tomar uma injeção
8. Taquicardia (a ansiedade aumentando com a rapidez das batidas
canl íacas)
9. Joelhos bambos
10. A visão de uma seringa preparada para uma injeção
11. A visão de ataduras
Deverá ser observado que os estímulos mais fortes (1 a 5) são todos
endógenos, que muitos dos fracos são exógenos. 0 que é comum a todos
é <> sentimento de perigo pessoal.
Em outros casos, além da multiplicidade das hierarquias, encontram-
se múltiplas "dimensões'"' dentro de uma única hierarquia. Por exemplo,
numa paciente que tinha reações claustrofóbicas em situações sociais,
cinco variáveis controlavam a intensidade da reação. As reações eram
mais fortes:
13 2 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
1. quanto maior o número de pessoas presentes.
2. quanto mais estranhas eram as pessoas.
3. quanto maior a dificuldade no caminho de saída da sala (tanto
os fatores físicos como a propriedade social sendo relevantes).
4. quanto menor o espaço de tempo após a sua última refeição
(este fator determinando a medida de um medo de vomitar).
Elas eram mais fracas se ela fossem acompanhada por:
5. pessoas protetoras — marido, mãe ou amizades próximas (em
ordem decrescente de eficiência).
Às vezes, os problemas mais difíceis da construção da hierarquia
tornam-se evidentes só depois de terem sido iniciadas as tentativas de
dessensibilização, e é verificado que o nível da ansiedade não diminui
após repetidas apresentações das cenas mais fracas contidas nas hierar
quias, embora o relaxamento seja evidentemente bom. O problema é
procurar então cenas ainda mais fracas, cujas ansiedades eliciadas possam
ser inibidas pelo relaxamento do paciente. Em muitos casos, é óbvio o
lugar onde procurar os itens mais fracos. Por exemplo, numa paciente
que teve uma hierarquia de ansiedade baseada no tema de solidão, o
item mais fraco na hierarquia original, estar em casa acompanhada apenas
por sua filha, constatou-se eliciar mais ansiedade do que seria contro
lável. Para se obter um ponto de partida mais fraco, tudo o que foi neces
sário foi acrescentar itens em que ela tinha dois acompanhantes ou mais.
Porém, não é sempre tão fácil, e o terapeuta poderá ter que usar muito
do seu engenho para descobrir dimensões manipuláveis.
Por exemplo, seguindo um acidente ocorrido havia três anos, uma
paciente feminina tinha desenvolvido severas reações de ansiedade à visão
de automóveis que se aproximavam. O terapeuta tinha sido levado a
acreditar que a paciente notava os primeiros vislumbres de ansiedade
quando um carro estava a dois quarteirões de distância, e que a ansiedade
aumentava gradativamente até a distância de meio quarteirão, e então
muito mais abruptamente com as aproximações ulteriores. Isto parecia
prometer um progresso direto, mas, durante a primeira sessão de dessen
sibilização mesmo uma distância imaginária de dois quarteirões do carro
eliciava uma ansiedade grande demais para ser inibida pela neutralização
do relaxamento. Investigações posteriores revelaram que a paciente tinha
uma ansiedade considerável quanto à própria perspectiva de inclusive
a menor viagem por carro, uma vez que toda série de por«jbilidades amea
çadoras já estava presente para ela no momento em que uma viagem se
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 133
tornasse iminente; mas ela não achara esta quantidade de ansiedade digna
de registro. Como em todos os outros casos, a dessensibilização não
poderia ser iniciada a menos que a quantidade de "perigo" contida nas
cenas da hierarquia estivesse sob controle. Portanto, um campo imaginário
fechado, dois quarteirões quadrados, foi desenhado numa folha de papel.
0 carro da paciente foi "colocado" num canto do campo e os primeiros
itens da hierarquia passaram a consistir de uma pessoa de confiança diri
gindo o seu carro até um ponto indicado em direção.ao carro dela, e então
a pontos cada vez mais próximos à medida que a paciente progredia.
O "perigo" ficou assim sempre circunscrito. Isto, e os passos posteriores
no tratamento do caso são descritos detalhadamente no relato total deste
caso no Capítulo IV.
Um outro caso em que foi difícil obter estímulos eliciadores de
ansiedade suficientemente fracos foi o de um paciente com uma fobia
quanto à morte, cujos itens abrangiam em ordem descendente desde
cadáveres humanos até procissões fúnebres de cachorros mortos. A apre
sentação de cenas de cachorros mortos produziu uma ansiedade acentuada
e não diminuída, mesmo quando elas eram imaginadas a distâncias de
duzentos ou trezentos metros (onde elas dificilmente seriam discerníveis).
A solução foi encontrada na utilização de uma dimensão cronológica,
iniciando com a sentença historicamente incorreta, "Guilherme, o Con
quistador, foi morto na Batalha de Hastings em 1066."
Um terceiro exemplo se refere a uma mulher que tinha reações
muito severas quanto à idéia de alguém desmaiando ou "perdendo o
poder”. O imaginar mesmo o sinal mais trivial de fraqueza, numa pessoa
ou num animal, produzia mais ansiedade do que seu relaxamento poderia
agir contra. A primeira cena a ser apresentada com sucesso em sua dessen-
libilização, deu-se no contexto dela estar sendo conduzida em volta de
um campus. Seu acompanhante indica uma plataforma e diz, "Foi ali
que, há cinco anos atrás, um animal recebeu uma injeção que o paralisou
durante 5 minutos." A dessensibilização posteriormente envolveu primeiro
á redução do espaço de tempo e então o aumento da duração da paralisia.
Uma questão sempre presente na construção de hierarquias é quanto
a se os itens constituem uma progressão uniformemente espaçada. Se os
x Itens forem demasiadamente semelhantes, o tempo será desperdiçado;
te os itens adjacentes diferirem demais no potencial eliciador de ansiedade,
o progresso cessará durante a mudança de um menor para um maior.
0 paciente poderá inclusive ficar mais sensibilizado como resultado de
ter sido eliciada uma severa ansiedade. (Não está claro porque, mas isto
dificilmente acontece com estímulos sociais à ansiedade.) Quando uma
134 PRÁTICA OA TERAPIA COMPORTAMENTAL
hierarquia é baseada numa dimensão diretamente mensurável como uma
distância, uma progressão bem espaçada é relativamente fácil de ser obtida.
Contudo, esta não é uma função linear. Foi demonstrado (Wolpe, 1963)
que uma simples função de força está implicada, cujo índice excede a
unidade em alguns casos e é fracionário em outros. Nas fobias em que
a ansiedade aumenta com a aproximação do objeto temido, e também
claustrofobias, pequenas mudanças de distância aumentam em importância
com a proximidade do objeto. O oposto se aplica à acrofobia e agorafobia.
Da mesma forma onde o temor é uma função do número de objetos
temidos, pequenos incrementos são mais potentes em níveis numéricos
baixos. Mais referências quanto a este tópico serão feitas posteriormente
(pag. 143-156).
É sempre uma grande vantagem uma hierarquia ser de forma clara
mente quantificável; e o terapeuta deve por em prática todo esforço
para obter isto. Muitas vezes, é necessária a utilização de um contexto
distante do problema do paciente. Por exemplo, no caso de uma mulher
de 42 anos de idade, com um temor de viajar sozinha com 21 anos de
duração, tornou-se evidente que o ponto central de sua incapacidade era
um temor de estar sozinha fora de casa. Teria sido certamente possível
lidar com isto no contexto da viagem, mas a sua sensibilidade era extrema
e a solidão seria difícil de quantificar em termos de distância. Foipossível
obter muito melhor controle de suas reações usando um elevador como
veículo de sua separação do mundo exterior. Os itens mais fracos da
hierarquia foram formados num elevador completamente aberto no qual
subiu um número crescente de pavimentos até 100. Ela então foi "colo
cada” num elevador que tinha uma única janela de 30 por 30 centímetros,
e nele foi seguida uma seqüência semelhante. A mesma coisa foi feita num
elevador cujas dimensões da vigia eram de 23 X 7,5 cms, um elevador
com uma vigia de 5 X 5 cms, e finalmente um completamente opaco.
A dessensibilização a esses itens foi acompanhada de um aumento pro
gressivo em sua capacidade de viajar para longe precisamente porque
a distância não tinha de, forma alguma figurado na dessensibilização
até esse ponto. Mas agora uma nova série foi iniciada abrangendo estí
mulos especiais de ansiedade condicionada pertencentes a viagens de
diversos tipos,
O problema de determinar diferenças espaçadas com razoável unifor
midade, é muito mais difícil quando a hierarquia não depende de uma
dimensão independente exteriormente mensurável quando ela depende
de uma generalização secundária como por exemplo, uma hierarquia
baseada em sentimentos de rejeição. Esta, e muitas outras dificuldades
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 135
de quantificação que surgem, não apenas na execução da dessensibilização,
mas também na psicoterapia em geral, são grandemente auxiliadas pelo
uso de uma escala subjetiva de ansiedade.
3. Alguns exemplos de hierarquias.
/. Um grupo de hierarquias que er volvem pessoas
Caso 5. A Srta. C. era uma estudante de artes com 24 anos de idade,
que veio para tratamento porque uma ansiedade acentuada dur inte os
exames tinha resultado em repetidos insucessos. A investigação revelou
áreas fóbicas adicionais. As hierarquias são dadas abaixo. Todas elas
envolvem pessoas, e nenhuma pertence às fobias clássicas. Observe, na série
de exames, que a ordem hierárquica dos primeiros 5 itens não corresponde
à ordem temporal. (A Libertação da ansiedade, até os itens mais altos de
cada uma dessas hierarquias, foi conseguida em 17 sessões de dessensibi
lização, com completa transferência para as situações reais correspon
dentes. Quatro meses depois, ela passou em seus exames sem ansiedade.)
Hierarquias2
A. Série de Exames
1. A caminho da universidade num dia de exames.
2. 0 processo de responder numa folha de exame.
3. Diante das portas abertas da sala de exames.
4. Aguardando a distribuição das folhas de exame.
5. Co'm a folha de exame voltada para baixo diante de si.
6. A noite antes de um exame.
7. Um dia antes de um exame.
8. Dois dias antes de um exame.
9. Três dias antes de um exame.
10. Quatro dias antes de um exame.
11. Cinco dias antes de um exame.
12. Uma semana antes de um exame.
13. Duas semanas antes de um exame.
14. Um mês antes de um exame.
8. Série de Escrutínio
1. Ser observada trabalhando (especialmente desenhando) por
10 pessoas.
136 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
2. Ser observada trabalhando por seis pessoas.
3. Ser observada trabalhando por três pessoas.
4. Ser observada trabalhando por um perito no campo. (A ansie
dade começa quando o observador está a 3 metros de distância e
aumenta à medida que ele se aproxima).
5. Ser observada trabalhando por um não-perito. (A ansiedade
começa a uma distância de um metro e vinte),
C. Série de Depreciação
1. Um argumento que ela apresenta numa discussão é ignorado pelo
grupo.
2. Ela não é reconhecida por uma pessoa com que se encontrou
ligeiramente três vezes.
3. A sua mãe diz que ela é egoísta porque não está ajudando na
casa. (Estudando ao invés).
4. Ela não é reconhecida por uma pessoa com quem se encontrou
ligeiramente duas vezes.
5. Sua mãe a chama de preguiçosa.
6. Ela não é reconhecida por uma pessoa com quem se encontrou
ligeiramente uma vez.
D. Discórdia entre outras pessoas
1. Sua mãe grita com uma empregada.
2. Sua irmã menor choraminga para a sua mãe.
3. Sua irmã discute com seu pai.
4. Sua mãe grita com sua irmã.
5. Ela vê dois estranhos discutindo.
2, Algumas variantes de hierarquias no tema de doenças e ferimentos
Os exemplos que seguem são dados especialmente para ilustrar
as diferenças individuais na graduação de reações. Em cada um dos casos,
houve temor de estímulos tanto exteriores como interiores. Todos os
três precisaram de, e receberam, treino no comportamento afirmativo
somado à dessensibilização.
Caso 6, A Sra. D., de 35 anos de içiade, também era agorafóbica.
Ela nunca experimentou realmente quaisquer dos eventos da série endó
gena.
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 137
Estímulos Externos
1. A visão de um acesso.
2. Movimentos convulsivos no braço de outra pessoa.
3. A visão de alguém desmaiando.
4. Um conhecido diz: "Aquele homem no outro lado da rua tem
alguma forma de insanidade."
5. A palavra "insanidade".
6. A palavra "loucura".
7. Risos parecendo insanos.
8. Um conhecido diz: "Aquele homem no outro lado da rua tem
um estado de ansiedade."
9. 0 som de um grito (quanto mais próximo mais perturbador).
10. Um homem com uma fratura deitado numa cama com cordas
e polias atadas à sua perna.
11. Um homem sentado ereto na cama com falta de ar devido à uma
moléstia cardíaca.
12. Um conhecido diz: "Aquele homem no outro lado da rua é um
epiléptico.”
13. A visão de um homem sentado ereto na cama com falta de ar
por causa de uma pneumonia.
14. Um homem andando com uma perna engessada.
15. Um homem com o mal de Parkinson.
16. Um homem com o rosto sangrando em virtude de um corte.
17. Uma pessoa com um tique facial.
Estímulos Endógenos
1. Ter um ataque.
2. Desmaiar.
3. Tremor nas mãos.
Caso 7. Mulher de 32 anos de idade.
Estímulos Externos
1. A visão de uma deformidade física.
2. Alguém com dores (quanto maior a evidência da dor, mais per
turbadora).
3. A visão de uma hemorragia.
4. A visão de alguém seriamente doente (por exemplo, um ataque
do coração).
5. Acidentes automobilísticos.
138 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
6. Enfermeiras com uniformes.
7. Cadeiras de roda.
8. Hospitais.
9. Ambulâncias.
Estímulos Endógenos
1. Sensação tensa (explosiva) na cabeça.
2. Pés frios e úmidos.
3. Mãos suadas.
4. Boca seca e incapacidade de engolir.
5. Tontura.
6. Respiração apressada.
7. Taquicardia.
8. Sensação tensa na parte posterior do pescoço.
9. Fraqueza nos joelhos.
10. Estômago roncando.
A Sra. F., de 52 anos de idade, também tinha um severo sistema
fóbico quanto ao tema de morte.
Estímulos Externos
1. Uma criança com as duas pernas quebradas.
2. Homem caminhando vagarosamente, com falta de ar devido ao
coração fraco.
3. Homem cego operando um elevador.
4. Uma criança com uma perna quebrada.
5. Um corcunda.
6. Uma pessoa gemendo com dor.
7. Um homem com um pé torto.
8. Um homem com só um braço.
9. Um homem com apenas uma perna.
10. Uma pessoa com a temperatura elevada devido a uma doença
relativamente pouco perigosa, como uma gripe.
Estímulos Endógenos
1. Extrasístoles
2. Dores agudas no tórax e abdômem.
3. Dores no ombro esquerdo e nas costas,.
4. Dor na parte superior da cabeça.
5. Zumbido no ouvido.
d e s s e n s ib il iz a ç ã o s is t e m á t ic a 139
6. Tremor nas mãos.
7. Dormência ou dor nas pontas dos dedos.
8. Falta de ar após esforço.
9. Dor na mão esquerda (lesão antiga).
Será observado que o material heterogêneo em todas as hierarquias
anteriores é inevitável. É impossível se abstrair de qualquer uma delas
um fator comum que possa ser variado quantitativamente. Ele é bastante
diferente no seguinte exemplo, em que heterogeineidade é supérflua.
1. Num coquetel numa grande universidade, conversando com
estranhos.
2. Num almoço com amigos.
3. Adentrando uma sala comum de residentes, onde as pessoas
aolham.
4. Pessoas a olham enquanto está caminhando por uma rua.
5. Lendo na biblioteca, observada por dois homens na mesa oposta.
6. Na biblioteca, consciente de uma garota observando a.
A essência desta hierarquia poderia ter sido formulada mais proveito
samente como uma função da exposição social numa dimensão numérica
de uma única estrutura arbitralmente escolhida, por exemplo, na biblio
teca sendo observada por um número crescente de pessoas. Se eventual
mente resultasse que as diferentes estruturas adicionassem sua própria
ansiedade, estas seriam tratadas numa nova hierarquia, em que as pessoas
presentes poderiam ser mantidas num grande número constante.
Embora a maioria das hierarquias varie numa única dimensão,
Tabela 2 — Hierarquia bidimensional estruturada de acordo com a con
tagem de suds resultante da interação de pares de fatores.
Tio
Charlie
F iorence Sharon Geraldine
Balconista
que m al
conhece
Usa as Pessoas 95 65 70 50 20
Irresponsável 90 75 50 40 20
Egoísta 90 75 40 50 20
Falível 80 60 30 40 10
Preguiçosa 60 50 10 20 0
Desleixada 50 40 20 10 0 '
Inepta 40 30 10 10 0
140 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
existem muitas que incorporam dois ou mais fatores. £ então útil orde-
ná-los na forma tabelar ilustrada pela Tabela 2, na qual os temores de
uma mulher, quanto a opiniões negativas de outros, variavam de acordo
com o adjetivo aplicado a ela e com a pessoa que o aplicava. Deve ser
observado que a verdadeira ordem hierárquica de impacto das palavras
varia um pouco de pessoa para pessoa. A maneira costumeira de se tratar
a$ hierarquias deste tipo é fazer a paciente imaginar-se ouvindo por acaso
a pessoa citada atribuir uma determinada qualidade a eia, enquanto essa
pessoa ignora que está sendo ouvida.
3. A escala de ansiedade subjetiva
Sendo o conhecimento da magnitude das respostas de ansiedade
do paciente a estímulos específicos indispensável à dessensibilização,
é desejável ter-se maneiras seguras para medi-la.
A escala é apresentada ao paciente endereçando-se a ele como segue:
"Pense sobre a pior ansiedade que jamais experimentou, ou que consegue
imaginar-se experimentando, e atribua a isso o número 100. Agora pense
sobre um estado de absoluta calma e chame isso de zero. Agora tem uma
escala de ansiedade. Nesta escala, onde se situaria neste momento?"
A maioria dos sujeitos dá um número sem muita hesitação e, com a prá
tica, passa a ser capaz de indicar seus sentimentos com confiança cres
cente, de maneira muito mais informativa do que as costumeiras afirma
ções adjetivas. A unidade é o sud (unidade subjetiva de perturbação).
É possível usar-se a escala para pedir ao paciente que classifique os itens
da hierarquia de acordo com a quantidade de ansiedade que sentiria se
fosse exposto a eles. Se as diferenças entre os itens forem semelhantes e,
falando de modo geral, não maiores do que 5 ou 10 suds, o espaçamento
pode ser considerado satisfatório. Por outro lado, se houver, por exemplo,
40 suds para o item 8 e 10 suds para o item 9, haveria uma necessidade
óbvia de itens intermediários.
3. O procedimento da dessensibilização: neutralização da ansiedade pelo <
relaxamento
Com esse estágio pronto, pode-.se proceder à dessensibilização
convencional — o paciente tendo obtido a capacidade de se acalmar pelo
relaxamento, e o terapeuta tendo estabelecido as hierarquias apropriadas.
Muitos deles ficam adequadamente calmos quando o treino de relaxa
mento está na metade ou menos ainda. Enquanto que um programa de
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 141
dessensibilização torna altamente desejável que o paciente atinja um
sentimento positivo de calma, isto é, uma negativa da ansiedade, isso
não é obrigatório, e pode-se muito bem ficar satisfeito com zero unidades
subjetivas de ansiedade. Num número razoável dos que tem níveis conside
ráveis de ansiedade corrente (seja ou não essa ansiedade difusa — "free-
-floating"), verificou-se que um substancial rebaixamento do nível -
digamos, de 50 para 15 suds — poderá conseguir um embasamento de
ansiedade suficientemente baixo para uma dessensibilização bem suce
dida. Aparentemente, um "dinamismo" inibidor de ansiedade pode inibir
pequenas quantidades de ansiedade intercorrente mesmo quando não
supera inteiramente a ansiedade corrente. Os efeitos da dessensibilização
são apenas raramente atingíveis com nfveis em excesso de 25 suds; e em
alguns indivíduos um nível zero é indispensável. É natural se esperar
por uma passagem terapêutica suave, e tal é geralmente o caso, mas há
muitas dificuldades que podem obstruir o caminho. Descreverei primeira
mente a técnica e o decurso característico do processo não-complexo da
dessensibilização.
A primeira sessão de dessensibilização é introduzida dizendo-se:
imagine certas cenas. Cada vez que a cena estiver clara em sua- mente,
indique-o erguendo seu dedo indicador cerca de dois centímetros."
Enquanto o paciente se senta ou deita confortavelmente com seus
olhos cerrados, o terapeuta procede no sentido de produzir, tão profundo
quanto possível, um estado de relaxamento pela utilização de palavras
como as seguintes;
''Agora, todo o seu corpo se torna progressivamente mais pesado,
e todos os seus músculos se relaxam. Deixe-se ir cada vez mais.
Nós daremos aos seus músculos atenção individual. Relaxe os
músculos de sua fronte. (Pausa de 5 a 10 segundos). Relaxe os
músculos de suas mandíbulas e os de sua língua. {Pausa). Relaxe
os músculos de seus globos oculares. Quanto mais relaxar, mais
calmo(a) se tornará. (Pausa) Relaxe os músculos de seu pescoço.
Deixe todos os músculos de seus ombros se relaxarem. Apenas
deixe-se ir. (Pausa) Agora relaxe seus braços. (Pausa) Relaxe todos
os músculos do tronco. (Pausa) Relaxe os músculos de seus membros
inferiores. Deixe que seus músculos se soltem cada vez mais. Agora
você se sente muito mais à vontade e confortável."
Na primeira sessão de dessensibilização, que é sempre parcialmente
exploratória, o terapeuta procura obter alguma regeneração no estado
142 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
do paciente. Ele diz, "Se se sentir completamente calmo(a) — nada faça;
caso contrário erga o seu dedo indicador esquerdo.” Se o dedo permanecer
parado, o estágio seguinte poderá ser iniciado; mas se ele for erguido,
o terapeuta verifica o nível de ansiedade através de outras sindicâncias -
"Erga o dedo se for mais de 10 suds”, etc. Este tipo de indagação é usado
porque parece causar muito menos rompimento do relaxamento que a
palavra.
Se o paciente continuar a ter uma boa quantidade de ansiedade
apesar de seus melhores esforços de relaxamento direto, diversos arti
fícios imaginários poderão ser invocados. Os mais comumente usados são:
1. "Imagine que, num dia calmo de verão, está deitado(a) de costas
sobre a relva macia e observa as nuvens se movendo lentamente
acima. Observe especialmente os extremos brilhantes das nuvens".
2. "Imagine um ponto de luz intenso e brilhante a cerca de 45
centímetros de distância diante de você.” (Esta imagem é devida
a Milton Erickson.)
3. "Imagine que à beira de um rio vê uma folha se movendo irregu
larmente pelas pequenas ondulações."
Há rotina para se proceder à introdução de cenas durante a primeira
sessão de dessensibilização. As observações que o terapeuta faz durante
essa sessão freqüentemente determinam os detalhes de técnicas adequadas
às necessidades particulares do paciente.
A primeira cena apresentada é neutra, no sentido de que não se
espera que o paciente tenha qualquer reação ansiosa quanto a ela. Eu
geralmente uso uma cena de rua. Às vezes, é mais "seguro” fazer com
que o paciente se imagine sentando-se em sua sala de estar, ou lendo
um jornal; mas nao há nenhuma garantia quanto à sua segurança, a menos
que o tema tenha sido antecipadamente explorado. Em certa ocasião,eu costumava empregar uma flor branca contra um fundo preto como
uma cena de controle padrão, até que um paciente demonstrou consi
derável ansiedade quanto a isto, devido a uma associação com funerais
e, como se verificou posteriormente, ele tinha uma neurose quanto à
morte.
Há duas utilidades para uma cena de controle. Primeiramente,
ela fornece informação quanto à capacidade geral do paciente visualizar
um material livre de ansiedade. Segundo, ela permite a procura de certos
fatores contaminantes: o paciente poderá ter ansiedade quanto ao aban
dono do controle de si mesmo, ou ansiedade quanto ao "desconhecido”.
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 143
Lm ambos os casos, é apresentada uma ansiedade que não tem relação
com o objetivo da dessensibilização, e que deve ser tratada para que
ii dessensibilização seja bem sucedida.
Durante muitos anos, o método preferido para introduzir cenas
loi aquele que descrevi pela primeira vez em detalhes em 1954. Em
riibumo, pedia-se ao paciente que imaginasse a cena, e então se lhe instruia
(juo dela desistisse depois de tempo "suficiente" (geralmente de 15 a 20
M!<jundos). Pediu-se-lhe então que erguesse o dedo se a cena causasse
nt:m que fosse um mínimo de ansiedade.
Este procedimento tinha a desvantagem de que o terapeuta não
poderia saber quando realmente começara a visualização. Conseqüente
mente, poderão existir amplas variações na duração de uma cena de
uma apresentação para a seguinte. O método a ser aqui descrito é livre
dfísta desvantagem. Ele tem sido consistentemente usado e ensinado
na Unidade de Terapia Comportamental desde 1968.
Pede-se ao paciente que imagine uma série de cenas que lhe serão
descritas. Ele deve erguer seu dedo indicador esquerdo cerca de dois
emitímetros no momento em que a imagem estiver claramente formada.
D tinapeuta apresenta então a cena e a deixa permanecer durante exata-
mmite o tempo que desejar — geralmente de 5 a 7 segundos. Ele a encerra
tlf/undo: "Pare a cena"; e então pede ao paciente que diga quanto ela
O perturbou em termos de suds. Depois de algumas sessões, o paciente
idquire o hábito de dizer o número de suds automaticamente ao término
én cena. Enquanto que o uso de um relato verbal rompe possivelmente
0 relaxamento mais que o erguer de um dedo, os efeitos adversos até
hojo em nenhum caso pareceram importantes. Quaisquer desvantagens
Ho certamente compensadas pela dispensa da necessidade de permitir
"tempo suficiente" para estar-se certo de que o paciente visualizou
fl tíena, a pela regeneração imediata e precisa da quantidade de pertur-
feiçlu.
De modo a ilustrar o que é tipicamente dito e feito, façamos uso
00 grupo de quatro hierarquias da Srta. C. (p. 115).
TERAPEUTA: Vou agora pedir que imagine algumas cenas. Deverá
jffliginá las claramente e elas geralmente interferirão pouco, se muito,
seu estado de relaxamento. Se, contudo, em qualquer momento
|intlr-se perturbada ou preocupada e desejar chamar minha atenção,
poderá fazê-lo. Assim que a cena estiver clara em sua mente, indi-
'*o erguendo seu dedo indicador esquerdo cerca de dois centímetros.
llDtiro. desejo que imagine que está numa esquina familiar, numa agra-
144
l
PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMÉNTAL
dável manhã, observando o tráfego passar- Você vê carros, motocicletas,
caminhões, bicicletas, pessoas, e sinais de tráfego; e ouve os sons associados
a essas coisas.
Após alguns segundos a paciente ergue seu dedo indicador esquerdo.
O terapeuta faz uma pausa de cinco segundos.
TERAPEUTA: Pare de imaginar essa cena. Até que ponto ela aumen
tou seu nível de ansiedade enquanto a imaginou?
SRTA. C.: Não aumentou em nada.
TERAPEUTA: Agora preste novamehte atenção ao seu relaxamento.
Há novamente uma pausa de 20 a 30 segundos.
TERAPEUTA: Agora imagine que está em casa estudando à noite.
É o dia 20 de Maio, exatamente um mês antes de seus exames.
Depois de cerca de 15 segundos, a Srta. C. ergue seu dedo. Nova
mente ela é deixada com a cena durante 5 segundos.
TERAPEUTA: Pare a cena. Quanto foi que ela aumentou em sua
ansiedade?
SRTA. C.: Cercá de 15 unidades.
TERAPEUTA: Agora imagine a cena novamente — um mês antes de
seus exames.
Nessa segunda apresentação o aumento em ansiedade foi de 5 suds e
na terceira foi de zero. Os números sucessivos variam tanto com o indi
víduo como com a cena. Quando o número inicial é maior do que 30,
a repetição dificilmente a diminuirá. Mas existem exceções. Existem
também pacientes esporádicos nos quais uma elevação inicial de 10 é por
demais grande para ser diminuída com a repetição.
Tendo eliminado a primeira cena da hierarquia de exames, eu
poderia passar para a segunda. Alternativamente, eu poderia testar as
respostas da Srta. C. em outra área, tal como a hierarquia de discórdia
da seguinte maneira:
TERAPEUTA: Imagine que está sentada num banco no ponto de
ônibus e que no outro lado da rua estão dois homens estranhos cujas
vozes estão elevadas em discussão.
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 145
Esta cena foi apresentada duas vezes, depois que a paciente falou
sobre sua resposta quanto à última cena, terminei a sessão de dessen
sibilização.
TERAPEUTA: Relaxe novamente. Agora vou contar até 5 e você
abrirá seus olhos, sentido-se calma e revigorada.
As respostas desta paciente foram comuns. Uma vez que a visua
lização estava clara, e havia evidência de um decréscimo de ansiedade com
cada repetição de uma cena, pareceu provável que prosseguiríamos através
das quatro hierarquias sem problemas, uma expectativa que os eventos
posteriores confirmaram.
O procedimento em sessões posteriores decorre de forma muito
semelhante à primeira, mas há uma tendência para as preliminares levarem
cada vez menos tempo. Quando se julgar que o paciente está suficiente
mente relaxado, lhe é informado que serão apresentadas cenas à sua ima
ginação, e nas primeiras sessões ele é lembrado de que se algo perturbá-lo
indevidamente, poderá fazer um sinal, erguendo seu dedo indicador.
A exposição, em especial a exposição prolongada, a uma cena muito
perturbadora pode aumentar seriamente a sensibilidade fóbica. Se, numa
sessão anterior, tiver havido uma cena em cujas apresentações a ansiedade
diminuiu, mas não até zero, essa cena é geralmente a primeira a ser apre
sentada. Mas, se numa sessão anterior, essa cena tiver deixado de eliciar
qualquer ansiedade, a próxima cena mais elevada na hierarquia será então
apresentada. Existem, contudo, alguns pacientes que, embora não havendo
tido nenhuma ansiedade até o final da cena numa sessão, demonstram
novamente uma pequena quantidade de ansiedade a essa mesma cena na
sessão seguinte — uma espécie de "recuperação espontânea" da ansiedade
A cena deve ser então repetida até que a ansiedade seja inteiramente
eliminada, antes de se passar para um nível mais alto na hierarquia. Em
alguns pacientes que exibem este aspecto, a necessidade de retroceder
pode às vezes ser eliminada por uma superposição de aprendizagem numa
sessão anterior, isto é, a apresentação de uma cena 2 ou 3 vezes após ter
deixado de eliciar ansiedade.
Todas as ocorrências relevantes durante a sessão de dessensibilização
são anotadas numa ficha através de uma anotação concisa. Foi o seguinte
o registro da primeira sessão de dessensibilização da Srta. C.:
D. S. por rei. Cena 1 — ângulo. 2 — estudando em casa um mês
antes do exame (x3), 3 — dois homens estranhos discutem no lado oposto
da rua (x2). Mod. decr. lig. 2, 3,2
PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
ÀÍderações quantitativas
Hd uma grande variação entre quantos temas, quantas cenas de cada,
-.'••'Hv apresentações são dadas numa sessão. Geralmente; até quatro
arques são trazidas numa sessão individual, e alguns pacientes têm
<i.' quatro. Très ou quatro apresentações de uma cena são habituais,
' Ti cie-/ oumais poderão ser necessárias. 0 número total de cenas
■■■■st.-madas é limiiado principalmente pela disponibilidade de tempo e
resistência do paciente. De modo geral, ambas essas quantidades
■^ ntam à rnodida que a terapia prossegue, e eventualmente quase toda
,trwisiH poderá ser dedicada à dessensibilização para que, embora
i esráçjio primário o total dado numa sessão seja entre oito a dez
sentaçoes num estágio avançado o número possa aumentar para 30 ou
mo 50. A duração habitual de uma sessão de dessensibilização é de
30 minutos. Contudo Wolpin e Pearsall (1965) alegaram ter superado
Mnenic uma fobia numa única sessão conduzida continuamente
00 minutos.
ivVnbora as generalizações anteriores se apliquem à grande maioria
5.^ ; sentes. existem aiguns indivíduos raros que manifestam uma
< de mesmo uma ansiedade branda eliciada por uma única
• t v. :u aa cena. Ainda assim a ansiedade decresce de sessão para
>' ;.;ri tais indivíduos apenas uma cena deve ser dada em cada sessão,
.-••• t :jr -ça marcada de ansiedade também pode ocorrer em
[■■nr:í:> apos a apresentação de uma cena indevidamente perturbadora,
ndo islo acontece a sessão deve ser suspensa.
A té agora, tem sido um princípio aceito na dessensibilização siste-
;; í ueiar ;>e apenas fracos estímulos eliciadores de ansiedade.
;i : i isto seja obviamente prudente quando se depende da inibição
para a mudança, esta não é necessariamente sempre a coisa
< ■ ' >mii:a a se fazer. Existem relatos clínicos sugerindo que um
nais rápido, às vezes, segue maiores passos (Rachman, Comu-
Pessoal). É concebível que haja algum fator de personalidade
■ Uiimtne a receptividade à mudança, abrangendo da "dessensibili-
'tuín extremo à "inundabilidade" em outro.
Á :-juraçao de uma cena é geralmente por volta de 5 a 7 segundos,
■>críerá Sfii' varinda de acordo com diversas circunstâncias. Ela é
Emente encerrada se o paciente demonstrar qualquer reação pro-
'ida. Quando o terapeuta tiver motivo especial para suspeitar que uma
eliciar uma forte reação, ele a apresenta com cautelosa brevi-
újra»ite um ou dois segundos. De modo geral, as primeiras apre-
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 147
scmtações de cenas são breves, as posteriores mais longas. Um certo número
d« pacientes necessita de quinze ou mais segundos para construir uma
imagem clara de uma cena em sua imaginação. A natureza da cena também
tem necessariamente um papel de determinar o tempo a ela permitido.
Uma trovoada leva menos tempo que o proferir de uma palavra.
0 intervalo entre as cenas também varia e é geralmente de dez a
vinte segundos, mas se o paciente tiver estado mais que ligeiramente
perturbado pela cena precedente, o intervalo poderá ser prolongado para
uni minuto ou mais, durante os quais o paciente poderá receber repetidas
lugestões para ficar calmo, relaxado e tranquilo. Até que o terapeuta
80 familiarize com os modos de reagir do paciente, ele deve, freqüente
mente, verificar o nfvel basal de relaxamento entre as cenas. Para este
propósito a escala de suds é de valor inestimável.
O número de sessões de dessensibilização necessário depende do
número de apresentações necessário para superar as constelações fóbicas
do paciente. Os fatores relevantes são o número dessas constelações,
I gravidade de cada uma, e o grau de generalização ou envolvimento de
«tfmulos relacionados no caso de cada uma. Um paciente poderá recu
a i ar se em meia dúzia de sessões, um outro poderá precisar de cem ou
O paciente com fobia de morte, já mencionado na página 133
tm que uma dimensão temporal teve que ser usada, também tinha duas
BUtras fobias e necessitou de um total de cerca de cem sessões. Para
ftmover a fobia de morte teve que ser usado apenas um total de cerca
i t 2,000 apresentações de cenas.
O espaçamento das sessões não parece importar em demasia. De
>do geral, as sessões são dadas de 2 a 3 vezes por semana, mas poderão
leparadas por muitas semanas ou acontecerem diariamente. Alguns
lentes, vindos de longe, recebem 2 sessões por dia, e às vezes até quatro,
fti as sessões freqüentes ou amplamente esparsas, há praticamente
ipre uma correlação próxima entre a extensão à qual a dessensibili-
ftj foi efetuada e o grau de diminuição das respostas de ansiedade a
ífliylos reais em áreas fóbicas. Exceto quando a terapia está quase
minada e nada resta de uma fobia senão umas poucas reações fracas
I poderão ser superadas pela competição de emoções que surgem
„ntan ca mente no decorrer normal da vida) pouca mudança ocorre,
de legra, entre as sessões. Num caso de claustrofobia severa um grau
reante mas incompleto de progresso obtido por uma primeira série
íêllões permaneceu quase estacionário durante um intervalo de três
t meio, após o que sessões ulteriores levaram à completa eliminação
ffibia. A paciente acima mencionada com um temor por carros, que
148 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
teve sessões diárias durante uma semana ou duas a cada 5 semanas apro
ximadamente, progrediu muito durante as fases de tratamento mas não
durante as semanas intermediárias. Vide caso 31.
O índice de mudança não é um puro acaso e nem simplesmente
uma questão individual. Pelo menos no caso da dessensibilização das
fobias clássicas ele segue leis quantitativas consistentes. Um estudo de
20 fobias de 13 pacientes (Wolpe, 1963) foi sugerido pela observação
casual que durante a dessensibilização o número necessário de apresen
tações de uma cena para levar o nível da ansiedade até zero não é
uniforme, mas que tende a aumentar ou diminuir à medida que se sobe
na hirarquia. Foi feita uma tentativa no sentido de estabelecer relações
quantitativas através de um estudo dessas fobias que variam junto com
uma dimensão física. Verificou-se que na claustrofobia e naquelas fobias
em que o paciente se torna mais ansioso com a proximidade crescente do
objeto temido, a curva acumulada alusiva ao número de apresentações
de cenas para o progresso terapêutico é uma função positivamente
acelerada. Nas agorafobias, acrofobias, e aqueles em que a ansiedade
depende do número de objetos, a curva acumulada é uma função nega
tivamente acelerada. Nenhuma exceção foi encontrada, como pode ser
observado pelo estudo das Figuras de 7 a 10, cada uma das quais contém
as curvas de um grupo em particular. De forma a torná-las comparáveis,
as curvas foram submetidas a transformações percentis. 0 eixo horizontal
indica a porcentagem obtida do critério de recuperação, e o eixo vertical
as apresentações de cenas como uma porcentagem do número total
empregado para superar toda a hierarquia.
A Figura 11 ilustra que não é a personalidade do paciente mas
sim o tipo de fobia que determina a formação da curva. As três curvas
desta figura foram obtidas de uma única paciente. Aquela que exibe
aceleração negativa (B) representa a dessensibilização da resposta de
ansiedade a um número crescente: túmulos a 180 metros de distância.
As curvas positivamente aceleradas pertencem respectivamente a fobias
de aproximação a um cachorro morto (A) e a um carro parado (C), e são
notavelmente concordantes.
A análise matemática das curvas revela que com exceção daquela
para agorafobia Caso A, e a curva C na Fig. 10 (que será comentada
posterioremente), elas expressam o mesmo tipo de relação funcional
como foi verificado por Stevens (1957, 1962) relacionando a magnitude
física de um estímulo à sua intensidade percebida — a "lei psicofísica".
Esta é uma lei empírica geral pela qual a magnitude psicológica (subjetiva)
é uma função de força da magnitude do estímulo. Isto significa que para
DESSENSIBILIZAÇÃO SJSTEMÁTICA 149
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DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA
CURVAS DE PORCENTUAL CUM ULATIVO DE UM ÚNICO CAS- ,
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20 17 14 11 8 5 4 3 2 1 0
C ° *> distância do carro (metros)
' Fig. 11
fazer um estímulo parecer duas vezes maior que o outro, a energia
deve ser aumentada numa proporção fixa, não importando o nível de
intensidade inicial. A conexão é expressa pela fórmula:
P — kSn
onde P representa a intensidade percebida (magnitude psicológica), S a
magnitude do estímulq, k é uma constante, e n o expoente da conexão.
O expoente é determinado empiricamente pela fórmula:
_ log 0,3
n log 0,5
ondu r é a razão entre a magnitude física de um estímulo dado e a maqn.
tüde física do estímulo que aparece duas vezes mais forte que o esüVn“1-.;
d*do
152 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
Visto que as curvas de dessensibilização descrevem este tipo de
relação funcional, pode-se deduzir que a quantidade de trabalho necessário
para cada unidade medida de progresso para superar essas fobias, é uma
função das magnitudes correlatas da resposta antes do tratamento do
sujeito. O indicador de resposta é aqui a magnitude de resposta autônoma
e não a magnitude percebida, Para testar esta conclusão, é necessário com
parar a curva de magnitudes autônomas diretamente medidas em pontos
diferentes nas hierarquias antes do tratamento, com as curvas da dessen
sibilização posteriormente obtidas. Nenhuma comparação direta foi
até agora tentada, mas Lang (1967) verificou que a curva que correlaciona
a mudança da pulsação á posição hierárquica do estímulo na fobia por
cobras é muito semelhante às curvas de fobias de proximidade na Fig, 7.
Para muitas curvas, o valor do expoente n foi determinado pela
fórmula de Stevens (dada acima), o valor de r sendo derivado do ponto
no eixo x em que y — 50% (0,5). Entre os casos de fobias de proximi
dade (Fig. 7) o expoente da curva do centro, C, é de cerca de 3,0. Entre
as fobias que variam de acordo com o número de objetos fóbicos
(Fig. 8) o valor da curva B2 é de 0,43. A curva do centro, C, no grupo de
fobias de distância (Fig. 9) lhe é quase idêntica.
Como foi mencionado acima, a curva do grupo de distância não se
adapta a uma função de força, mas o caso foi incomum naquilo em que
as distâncias de dessensibilização refletiram na curva abrangida de 18
metros a 160 quilômetros, é óbvio que a percepção de uma pessoa de uma
diferença quanto a metros pode variar de forma bastante diferente das
diferenças entre quilômetros. Foi verificado, ao delinear curvas separadas
para 0 a 1 e para 1 a 160 quilômetros, que duas curvas de função de força
foram obtidas, a primeira (0 a 1) sendo semelhante à cúrva teórica
n = 0,44, e a segunda (1 a 160} correspondendo quase que exatamente à
curva n = 0,26 (Wolpe, 1963). A curva C na Fig. 8 se ajusta muito melhor
a uma função exponencial [(P = 76,11 (1 — 0,85°)] que a uma função
de força, mas permanece próxima bastante da curva de força n — 0,3
não para constituir uma exceção danosa à regra.
O conhecimento dessas relações quantitativas torna possível pre
dizer de modo geral a que estágios nos casos esta classe de progresso será
mais lenta, e, mais especificamente, para calcular, depois que o trata
mento tiver sido procedido durante tempo bastante para fornecer os
dados essenciais, quanto tratamento a mais será necessário para superar
uma determinada fobia. Além do mais, as curvas que caracterizam dife
rentes dimensões ajudam o terapeuta a decidir quanto a qual dimensão
trabalhar inicialmente numa hierarquia multidimensional. Por exemplo,
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 15 3
numa mulher que tinha medo de ser vista vomitando o temor crescia
com o número de testemunhas e com a proximidade. O conhecimento
de que a curva de número acelera negativamente e que a curva de apro
ximação positivamente promoveu a apresentação de números crescentes
em noventa metros. Isto permitiu que a dimensão de número fosse con
trolada com muito pouco esforço. Assim as numerosas testemunhas
poderiam ser gradualmente aproximadas. Se a ordem inversa tivesse sido
adotada, isto finalmente poderia ter significado o trabalho nas seções
íngremes simultaneamente de ambas as curvas.
Alguns obstáculos e armadilhas
Às vezes, apesar de ter efetuado as preliminares conscienciosamente
e com aparente sucesso, o terapeuta fica mortificado ao saber que a
dessensibilização não se está processando de acordo com suas espec-
tativas. Ou o paciente não experimenta nenhum decréscimo de ansiedade
apesar das sucessivas apresentações de cenas, ou não registra nenhuma
melhora em suas reações quanto a situações reais que correspondam ao
progresso durante as sessões. As variações são tão complexas e sutis que
nem mesmo a experiência mais extensiva pode fornecer segurança absoluta
alguma contra os desapontamentos. O que importa é contornar a situação.
Para fazer isto o terapeuta deve verificar de onde vem sua falha. Os
motivos habituais são de três tipos e serão discutidos em turnos.
1. Dificuldades no relaxamento
2. Hierarquias enganosas ou irrelevantes
3. Inadequabilidade de imagens
1. Dificuldades no Relaxamento. Quando o relaxamento é inade
quado, são feitos esforços no sentido de aumentá-lo com doses de mepro-
bamato, ctorpromazina, ou codeína, ou outro tranquilizante dado uma
hora antes da entrevista. A droga a ser usada é uma questão de tentativa
e erro. Quando a ansiedade difusa ("free-floating") impede o relaxamento,
o uso de misturas de dióxido de carbono-oxigênio, pela técnica de inalação
única de La Verne é de grande valia, e com alguns pacientes passam a ser
usadas antes de cada sessão de dessensibilização. As inalações são dadas
até que a ansiedade atinja um nível irredutível — geralmente pela quarta
inaJação. Nuns poucos pacientes que não são capazes de se relaxar, mas
que não estão difusamente ansiosos, as tentativas na dessensibilização
poderão ser bem sucedidas, talvez porque as respostas emocionais
induzidas pela entrevista inibem a ansiedade eliciada pelos estímulos ima
ginários. Esta é uma suposição que requer um teste experimental.
154 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
O relaxamento é às vezes aumentado pela hipnose. Eu emprego,
muitas vezes, a técnica de levitação descrita por Wolfberg (1948).
0 paciente poderá ter sido hipnotizado de maneira exploratória durante
uma ou mais sessões anteriores, mas geralmente a primeira tentativa de
hipnose é feita durante uma sessão de dessensibilização. Naqueles que
são difíceis de serem hipnotizados, o procedimento é logoabandonado.
Mas alguns pacientes certamente se relaxam melhor num contexto hip
nótico formal. 0 terapeuta poderá ter a impressão de que o paciente está
bem relaxado quando na verdade não está. Um paciente muitas vezes
dirá que se sente relaxado enquanto estiver, na verdade, moderadamente
tenso. Isto poderá acontecer por diversos motivos. Ele poderá não estar
suficientemente consciente das indicações interiores de tensão, ou ele
poderá não pensar que estas sejam dignas de registro, ou talvez tenha
passado muito tempo desde que experimentou um verdadeiro estado
de calma e qualquer queda substancial de tensão parece ser relaxamento
para ele. A utilização da escala quantitativa de ansiedade subjetiva diminui
a possibilidade de ocorrências desse tipo de comunicações errôneas
(embora não as elimine). O diagnóstico pode, muitas vezes, ser feito pelo
controle psicofisiológico, para o qual o indicador mais simples é a regene
ração auditiva dos potenciais musculares (Budzinsky, Stoyva, e Adler,
1970; Leaf e Gaarder, 1971). É necessário um interrogatório muito cuida
doso do paciente para revelar o verdadeiro estado das coisas; e então,
naturalmente, o terapeuta deve intensificar os seus esforços para melhorar
o relaxamento através de mais treinos diretos ou pela introdução do
dióxido de carbono ou drogas (Capítulo IX).
Há outros pacientes que acham difícil relaxar como parte do medo
geral de “se soltar”. Alguns desses pacientes fazem um esforço para relaxar
os seus músculos e talvez sejam bem sucedidos até certo ponto; mas per
manecem receosos. Os componentes autônomos da resposta de ansiedade
permanecem inalterados, e poderão inclusive aumentar. A solução para
esta dificuldade varia com o caso. Às vezes é possível se obter uma base
para a dessensibilização simplesmente dizendo ao paciente para ficar
calmo e à vontade è sua própria maneira, sem tentar "se deixar ir". Em
outros casos, é possível tentar uma dessensibilização prévia quanto ao
temor de se deixar ir por um método ao vivo (Capítulo V III) e às vezes
prosseguir atacando todas as outras correlações de ansiedade nas neuroses
da mesma forma. E ainda em outros, é possível se ter o auxílio de um ou
outro dos métodos elétricos para contracondicionar a ansiedade, tais como
o "alívio da ansiedade" ou a técnica recentemente introduzida da inter
ferência sensorial não-aversiva (Capítulo 7).
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 155
2. Hierarquias enganosas ou irrelevantes: Mesmo quando suas
hierarquias não tiverem nenhuma das falhas de concepção ou construção
que possam ser atribuídas a erros elementares, há ocasiões em que o
terapeuta pode se encontrar sem fazer progressos, e torna-se evidente
que as hierarquias estão no caminho errado. Às vezes ele é iludido pelo
fato do temor do paciente ser freqüentemente experimentado em con
textos que são a ocasião para o temor, mas que não são a sua origem.
Por exemplo, depois de um homem ter sido tratado durante 20 sessões,
com um benefício mínimo quanto à claustrQfobia e agorafobia, verificou-
se que ambas eram baseadas num medo central de morrer. Ele sentia
ansiedade quando a sua liberdade de movimentos era restringida ou
quando estava longe de um abrigo, porque tais situações em diferentes
graus significavam dificuldade em conseguir auxílio no caso de um colapso.
Durante o mesmo período outro paciente masculino com uma série de
fobias muito semelhante respondia à dessensibilização de uma forma
clássica - para ele os estímulos de espaço eram os verdadeiros antece
dentes da ansiedade. Um tipo comum de caso em que as hierarquias
obtidas não são melhoráveis pela dessensibilização ocorre numa mulher
casada de baixa auto-suficiência (ver página 261). As fobias aparente
mente simples, que se originaram no decorrer de seu casamento, foram
constatadas serem realmente reações de temor a situações estimuladoras
relacionadas a algum aspecto do casamento que eliciava tensão e aversão.
Isso também foi independentemente observado por Fry (1962). Esses
casos freqüentemente tomam forma de agorafobia, e compreendem a
maioria dos casos deste síndroma. Tais fobias podem ser consideradas
como reações simbólicas verdadeiras, desde que a palavra "simbólica"
seja compreendida nos termos convencionais da semântica e da teoria
da aprendizagem, e não psicanaliticamente. É muito provável que a desco
berta de-alguns casos possuindo este aspecto incomum seja o que levou
Freudà conclusão de que todas as fobias têm uma origem oculta.
Um caso incomumente instrutivo deste tipo, o Caso 9, foi um
que tratei, como demonstração diante de um grupo no Haverford State
Hospital, há cerca de 5 anos. Ela era uma atraente mulher de 26 anos
de idade com quatro filhos, que tinha se casado com a idade de 14
corn um homem que não lhe demonstrava nenhum afeto ou mesmo
consideração. Era muito característico por parte dele que, poucas semanas
após o casamento, ele a oferecesse como parceira sexual para a noite
à um amigo que os visitasse. A paciente desejava desesperadamente fugir
ao casamento mas, sendo de muito baixa auto-suficiência, era incapaz
de fazê-lo, e em questão de meses tornou-se temerosa quanto a sair
156 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
sozinha, mesmo até uma distância de poucos quarteirões, Foi com esta
queixa, juntamente com diversas outras de natureza fóbica, que ela se
apresentou para tratamento. O próprio histórico proporcionou evidência
incomumente clara da relevância do casamento na agorafobia. Cerca de
três anos antes, a paciente encontrara um homem que se apaixonara
por ela e por quem se sentia muito atraída. Ela tinha ido viver com ele
durante um mês, em outra cidade, e durante esse tempo fora capaz de
sair sozinha a qualquer distância sem sentir qualquer desconforto.
Quando voltou para seu marido a agorafobia reapareceu com força total.
Seu tratamento seguiu três linhas paralelas: treino afirmativo, medidas
para capacitá-la a mover-se fora do domicílio comum com seu marido,
e dessensibilização dos outros temores. Sair tornou-se possível com base
num aumento de auto-suficiência, atingido principalmente pelo treino
afirmativo, combinado com arranjos para ela viver noutro lugar, que
levaram em conta seus direitos em termos das leis da Pennsylvania. Após
9 meses, ela se mudou para a casa de uma amiga, e no decurso da primeira
semana a agorafobia desapareceu gradativamente. Ela lá permaneceu
durante mais uma semana, e então, por razões legais, voltou a viver com
o marido. Não houve nenhum retorno da agorafobia porque ela agora
se sentia desapegada e livre de seu marido, e o pensamento de estar só
já não era ameaçador. Ela continuou a morar com ele durante diversos
meses, até que as providências para a separação permanente foram toma
das e, finalmente, o.divórcio.
Um exemplo não agorafóbico, Caso 10, é o de uma mulher de
34 anos de idade cuja queixa inicial foi a de uma sensação de estar cercada
e um impulso forte de escapar quando estava empenhada em conversações
com adultos, exceto em intercâmbios dos mais casuais, tais como per
guntar a hora. Esta reação tinha iniciado havia oito anos, durante a pri
meira gravidez da paciente, Quando a terapia de condicionamento come
çou, nenhuma causa precipitante satisfatória de neurose pôde ser perce
bida. Ela foi treinada no relaxamento e os estímulos fóbicos tomados
em seu valor nominal. A primeira hierarquia usada foi baseada no tema
de ser observada, com as reações da paciente aurtientando com a aproxi
mação da pessoa que observa. As cenas apresentadas para a sua observação
despertaram muito pouca ansiedade até que foi atingida a distância de
quatro metros e meio - e então houve uma forte reação. Várias outras
dimensões foram então respectivamente tentadas, inclusive o número
de pessoas a uma distância, a idade do observador, a duração da obser
vação e a intensidadeda iluminação, em cada caso com a mesma conse
qüência. Era óbvio que algo estava faltando, mas isto não poderia ser
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 157
identificado. Eu estava para abandonar o caso por falta de esperança
quando a paciente, a quem os tranqüilizantes ajudaram apenas um pouco,
perguntou "Existe algo que possa diminuir a minha angústia?" Eu
respondi: "Durante uma ansiedade especial a sra. poderia experimentar
um pouco de álcool." Depois de uma longa pausa ela disse: "Meu marido
não consente que eu beba.” Essa foi a primeira vez que a ouvi fazer um
comentário adverso sobre ele; mas este foi apenas o extremo agudo de
uma cunha que agiu como uma alavanca libertando uma ira e frustração
há muito reprimidas quanto ao seu domínio absoluto sobre cada uma
das ações dela. A primeira gravidez precipitara a sua neurose porque
parecia impedir para sempre uma saída para o casamento — que para o’
mundo exterior e parcialmente para si própria ela representava como
se fosse um grande sucesso.
A fobia pareceu ser agora originalmente um medo de ser observada
e espreitada. 0 impulso de fugir dessas situações adicionado ao senti
mento claustrofóbico gerado cronicamente pelo casamento. Assim, uma
situação de vida desconhecida foi a base real da fobia. A instigação da afir
mação quanto ao seu marido tornou-se então a principal tática terapêutica.
Caso o leitor conclua que neste caso a psicanálise deveria ser o tratamento
escolhido, devo dizer que a paciente tinha passado por uma psicanálise
durante dois anos sem nenhum sucesso. Os aspectos cruciais da situação
marital nao surgiram durante o seu decurso, no qual, parece, a principal
atenção foi focalizada nas atitudes edtpianas e outras semelhantes. Os
dogmas mais circunstanciais da teoria psicanalítica muitas vezes demons
tram ser um obstáculo que impede a exploração total das possibilidades
reativas de um paciente. Em todo caso, a introspecção adquirida quanto
ao casamento não produziu por si os efeitos terapêuticos.
3. Inadequabi/idade de imagens: Muitos pacientes são capazes de
se projetar em situações eliciadoras de ansiedade imaginadas de uma
maneira tal que evoque alguma coisa da realidade das situações e uma
quantidade correspondente de ansiedade. Tenho verificado que este é
o caso de cerca de 90 por cento de pacientes tanto sul africanos como
americanos. Na Inglaterra, contudo, a porcentagem poderá ser conside
ravelmente menor, de acordo com a minha impressão pessoal e recentes
comentários feitos por Meyer (1963). Pode ser que o treino tradicional
inglês que encoraja as manifestações fleumáticas de sentimentos também
enfraqueça a capacidade de associar a emoção à imagem.
Existem aqueles pacientes que são incapazes de conjurar imagens
sejam visuais ou auditivas — de qualquer forma em resposta às necessi
dades do terapeuta. De forma muito mais comum, o problema é que.
158 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
embora as imagens possam ser formadas, elas não têm nenhum sentido
de realidade para o paciente. Ocasionalmente, a ação tomada pelo tera
peuta leva ao domínio da dificuldade. A ação é de diversas espécies —
fornecendo muitos detalhes verbais da situação a ser imaginada, indu
zindo um transe "profundo" com bons temas hipnóticos, ou pedindo
ao paciente que descreva o que está imaginando, Darwin e McBrearty
(1969) verificaram que em temas de ansiedade quanto à palavra há um
progresso mais rápido durante a dessensibilização se o paciente descrever as
cenas ao invés de simplesmente imaginá-las. Um programa aparentemente
eficaz para o treino deliberado da capacidade de imaginar realisticamente
foi proposto por Phillips (1971), Todos esses esforços podem ser inúteis;
e a mudança terapêutica dependerá então do uso de estímulos reais, ou
então de suas representações físicas. Alguns pacientes visualizam satis
fatoriamente até um ponto adiantado na hierarquia e então se separam
das situações imaginadas, visualizando-as do ponto de vista de um espec
tador desinteressado. Um exemplo é o Caso 34 no Capítulo 14. Ele tinha
uma compulsão quanto à limpeza, baseada num temor de contaminação
pela sua própria urina. Quanto deixou de ocorrer a transferência de situa
ções imaginárias para as reais, seu relaxamento foi contrabalançado com
estímulos reais ao invés dos imaginários. Nesta base a investida violenta
sobre a sua neurose trouxe a vitória final.
RESULTADOS DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA
É útil saber quão bem sucedido podemos esperar ser aplicando a
dessensibilização em casos apropriados, mantendo entretanto os vínculos
de avaliação separados do risco de alimentar a idéia errônea de que este
é um método sui generis ao invés de simplesmente uma aplicação parti
cular de um princípio. 0 único estudo estatístico publicado até o mo
mento, Wolpe (1962), usou como tema 39 pacientes cujos registros de
casos foram extraídos ao acaso dos arquivos do terapeuta por um visi
tante casual. Muitos desses pacientes tiveram também outros hábitos
neuróticos que foram tratados por métodos diferentes considerados
mais apropriados.
Os detalhes do estudo são expostos na Tabela 3, na qual o resul
tado do tratamento é indicado numa escala de 5 pontos abrangendo
de 4-positivo a zero. Uma avaliação de 4-positivo significa uma liber
tação completa ou quase completa das reações fóbicas quanto a todas
as situações na área da fobia encontrada de fato. Uma avaliação 3-posi-
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 159
Tabela 3 - Dados básicos do caso
Paciente N ú m ero de
Tema de hierarquia Resultado Com entárioss^xo-idàde sessões
(1) F.50 62 (a) Claustrofobia
(b) Doenças e hospitais
(c) Morte e seus adornos
(d) Temporais
(e) Discussões
+ + + +
4-4- + +
+ + + +
+ + +
+ + + +
(?) M.40 6 (a) Culpa
(b) Depreciação
+ + + +
++ + +
(3) F.24 17 (a) Exames
(b) Ser escrutinada
(c) Depreciação
(d) Discórdia entre
terceiros
+ + + +
+ + + +
+ + + +
+ + + +
Vide Caso 4
(4) M. 24 5 (a) Objetos serpentiformes + + + +
(M M.21 24 (b) Sofrimento alheio
(c) Reação de "ciúme"
(d) Desaprovação
+ + + +
+ + + +
+ + + +
Ui) M.28 5 (a) Multidões + + +
(/) F.21 5 (a) Censura + + 4- +
W) F.52 21 (a) Ser centro das atenções
(b) Superstições
0
0
Nenhuma pertur
bação durante
as cenas
Nãc esteve se
imaginando na
situação
11)) F.2 5 9 (a) Sofrimento e morte
de outros + + +
MU! M.22 17 (a) Causar ferimentos em
outros + + + +
11 1) M.37 13 (a) Censura verdadeira ou
subentendida 4-M- +
112) r 31 15 (a) Ser observada
trabalhando 4- + +
113) F.40 16 (a) "Sofrimento" e
lugubrid ade
(b) Ser depreciada
(c) Deixar de corresponder
às expectativas
+ + + +
4-4 4- 4-
-I 1-4-4-
Este caso foi
registrado em
detalhe
{Wolpe, 1959)
<Í4) M.36 10 (a) Luz brilhante + f f +
(b) Palpitações + + + +
(Continua. . . )
160
Tabela 3
Paciente
sexoidade
(15) M.43
(16) M.27
(17) M.33
(18) M.33
(19) M.40
(20) M.23
(21) F.23
(22) M.46
(23) F.40
(24) F.28
(25) F.48
(26) M.28
(27) M.11
(28) M.26
(29) F.20
(30) M.68
PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
- (Continuação)
Número de
sessões Tema da hierarquia Resultado Comentários
9 (a) Ferimentos e cadáveres + + +
51 (a) Ser observado,
especialmente
trabalhando + + +
(b) Ser criticado + + + +
8 (a) Ser observado jogando
golfe + + +
8 (a) Falar diante de um
auditório (gago) 0
7 (a) Imagens de autoridade ++ + +
4 (a) Claustrofobia + + + +
6 (a) Agorafobia 0
(b) Medo de cair 0
19 (a) Estar em foco
(notoriedade) +++
(b) Sangue e morte + + + +
20 (a) Embaraço social +++ +
9 (a) Agorafobia * 0
7 (a) Rejeição + + +
13 (a) Desaprovação + ++
(b) Rejeição + + + +
6 (a) Imagens de autoridade + + + +
217 (a) Claustrofobia
(b) Censura (diversos
+ + + +
aspectos) + + +
(c) Ornamentos da morta + ++
5 (a) Agorafobia + + + +
23 (a) Agorafobia + + + +
(b) Masturbação + + + +
Nenhuma
ansiedade ao ser
observado
trabalhando.
Ansiedade âs
vezes quando
jogando cartas.
Nenhuma cena
imaginada foi
perturbadora
Posteriormente
tratada com
sucesso pelo
método de
resposta motora
condicionada
Finalmente
superadas
completamente
pelo uso da
"inu ndaçao”
(Continua. . . )
DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 161
Tabela 3 — (Continuação)
Paciente
sexo-idade
Número de
sessões Tema da hierarquia Resultado Comentários
(31) F .36 5 (a) Estar em foco
(notoriedade) +■ + + +
(32) M.26 17 (a) Doença e morte
(b) Sintomas próprios
4~ -4- 4-
+ + +
(33) F.44 9 (a) Ser observada
(b) Elevadores
+ + + +
+ + + +
(34) F.47 17 (a) Intromissão na
vagina + + +
(35) M.37 5 (a) Desaprovação
(b) Rejeição
+ + + +
+ + + +
(36) F.32 25 (a) Estímulos sexuais + + + +
(37) M.36 21 (a) Agorafobia
(b) Desaprovação
(c) Ser observado
+ + + +
+ + + +
+ + + +
(38) M.18 6 (a) Desaprovação + + +
(b) Estímulos sexuais 4- + + + Instrumental para
superar a
impotência
(39) F.48 20 (a) Rejeição + + + + Gagueira melhorou
(b) Grosseria de outros + + + + sensivelmente
tivo significa uma melhora de resposta tal que a fobia é julgada pelo
paciente como tendo perdido pelo menos 80 por cento de sua força
original. A avalição de zero indica que não há nenhuma mudança defi
nida. Será notado que apenas as avaliações de 4-positivo, 3-positivo e
zero foram aplicáveis aos pacientes nesta série.
A Tabela 4 resume os dados fornecidos na Tabela 3. Houve 68
hábitos de resposta de ansiedade entre 39 pacientes, dos quais 19 tiveram
hierarquias múltiplas. 0 tratamento foi julgado eficaz em 35 pacientes.
Quarenta e cinco dos hábitos de resposta de ansiedade foram aparente
mente eliminados (avalição 4-positivo) e mais 17 marcadamente melho
rados (avalição 3-positivo), perfazendo um total de 90 por cento. É possí
vel que muitos do último grupo tivessem atingido um nível de 4-positivo
se houvessem sessões adicionais. Nos casos 16 e 29 o progresso diminuirá
quando as sessões foram interrompidas, mas não em nenhum dos outros.
Entre os fracassos, os Casos 8 e 18 foram incapazes de se imaginar
dentro das situações; o Caso 22 não conseguia confinar a sua imaginação
à cena exposta e repetidamente se expunha a imagens excessivamente
perturbadoras. Ela foi a paciente que posteriormente foi tratada com
PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
Resumo de dados da Tabela 3
Pacientes...................................................................................................... 39
Número de pacientes respondendo ao tratamento de dessensibilização. . 35
Número de hierarquias............................................................................ 68
Hierarquias superadas.............................................................................. 45
91%Hierarquias melhoradas sensivelmente....................................................... 17
Hierarquias sem meíhora......................................................................... 6 9 %
Número total de sessões de dessensibilização........................................ 762
Gasto médio de sessões por hierarquia................................................... 11,2
Gasto médio de sessões por hierarquia tratada com sucesso.................... 12,3
Número médio de sessões por paciente................................................ 10,0
sucesso completo pelo método de resposta motora condicionada mencio
nado na pág. 169. O Caso 25 tinha reações interpessoais que levavam a
respostas irregulares e, não tendo experimentado nenhum benefício,
buscou terapias alhures.
O número médio de sessões por fobias foi de 11,2; o número médio
de sessões dadas aos pacientes foi de 19,6. Deve ser observado que uma
sessão de dessensibilização leva geralmente apenas uma parte do período
de 45 minutos de uma entrevista, e em casos que também haja problemas
neuróticos não-fóbicos poderão haver outras entrevistas em que uma
sessão de dessensibilização não ocorre, e estas não estão incluídas neste
registro.
NOTAS
(1) Um inventário muis extenso (Wolpe & Lang, 1969) está comercialmente
disponível. Knapp, San Diego.
(2) "D. S. por rei.” significa "dessensibilização sistemática peio relaxamento".
"Mod. decr. lig. 2,3" significa que as reações às cenas 2 e 3 foram moderadas,
decrescendo para ligeiras durante a repetição. Os números nos parênteses
demonstram quantas apresentações foram dadas.
O plano habitualmente seguido paro determinar índices numéricos às cenas é o
de usar um número inteiro para indicar a classe do tema, e as letras para as
variações de detalhes. Por exemplo, no caso da Srta. C. à situação imaginária
de estar em casa estudando 2 semanas antes dos exames foi dado o índice 1 a,
uma semana antes dos exames foi de 1 b, e assim por diante. As vantagens de
se empregar estes índices são: 11) Eles evidenciam repetidamente a necessidade
de escrever os aspectos das cenas, (2) Eles tornam fácil a procura de deter
minados cenas quando se consulta o registro, (3) Facilitam trabalhos poste
riores de pesquisas.
162
Tabela 4 —
capítulo 7
A s variações
da dessensibilização✓
sistemática
A grande vantagem de se ter um princípio para utilizar é que este
tem a potencialidade de gerar variações logicamente paralelas de procedi
mentos testados. Se a dessensibilização sistemática convencionai demons-
tt;ir-se inadequada num determinado caso ou classe de casos, poder-se-á
(ii/er tentativas com esperanças de efetuar, de outras maneiras, o princí
pio de inibir reciprocamente pequenas "doses" de ansiedade de cada
viv_. Mesmo onde a dessensibilização convencional for razoavelmente
Imm sucedida, vale a pena experimentar novas elaborações quanto ao
piincíp io por causa da possibilidade delas serem mais eficientes e econô
micas.
Diversas variações de técnicas são descritas neste capítulo. Até agora,
ülqumas delas têm sido deixadas de lado para serem experimentadas
quando a dessensibilização convencional não puder ser conduzida com
sucesso. Outras têm sido o tema de experimentos controlados que demons-
11am serem elas superiores à dessensibilização convencional pelo menos
no que diz respeito aos tipos de temores neuróticos que figuram nos
experimentos.
As variações de dessensibilização podem ser divididas em três cate
gorias: 1. variações técnicas do procedimento convencional de consul
tório; 2. alternativa de contra-ansiedade para uso com os estímulos imagi
nários; e 3. métodos que contêm a utilização de origens exteroceptívas
de ansiedade.
164 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
VARIAÇÕES TÉCNICAS DO PROCEDIMENTO-PADRÃO DA
DESSENSIBILIZAÇÃO
A essência da dessensibilização sistemática consiste na apresen
tação de estímulos imaginários gradativos a um paciente relaxado. Existem
maneiras de executá-la que reduzem a quantidade de tempo que o tera
peuta deve gastar com seus pacientes, e aumentam o número dos que
ele pode ver.
Uma das maneiras é se ter parte do procedimento automatizado
para que ocorra sem a presença física do terapeuta. A segunda maneira
consiste na dessensibilização de pacientes a temores neuróticos seme
lhantes em grupos.
(a) Auxílios mecânicos na dessensibilização sistemática
Lang (1966) foi o primeiro a demonstrar que a dessensibilização
poderia ser conseguida com sucesso através de uma máquina. As fobias
por cobras foram superadas através da utilização de dois gravadores, um
contendo os itens da hierarquia e o outro as instruções quanto ao rela
xamento. 0 paciente controlava os botões para obter o relaxamento,
repetição, mudança, ou cessação da cena. Aproveitando a sugestão das
observações de Lang, Migler e Wolpe (1967) usaram um único gravador
modificado para tratar deum paciente que se sentia severamente pertur
bado por desaprovações pressupostas e pelo ridículo, especialmente
quando falava a um grupo. O próprio paciente gravou tanto os itens
da hierarquia como as instruções para o relaxamento sob supervisão.
Ele levou o gravador para casa e se dessensibilizou completamente em
sete sessões. Ele tem até agora estado livre de seus temores há dois anos.
Os detalhes técnicos que se seguem são reproduzidos com poucas modi
ficações de Migler e Wolpe (1967). É possível se usar urr» gravador de
fita Wollensak T-1600 ou um Uher Universal 5000, ambos os quais pos
suem duas características necessárias. Primeiramente, um interruptor
de pausa pelo qual o movimento da fita pode ser parado. Este interruptor
é ligado a um interruptor menor que o paciente pode segurar em sua
mão e, como desejado, parar o movimento da fita a qualquer momento,
e por quanto tempo quiser. Depois, o gravador tem dois sensibilizadores
de metal em cada lado das partes de gravação. Quando uma lâmina de
metal que foi colocada na fita provocar um contato com os dois sensibi
lizadores de metal no lado direito, um circuito interno fica fechado e o
gravador liga automaticamente de playback para rewind. Estes dois sensi-
AS VARIAÇÕES DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 165
hilizadores são, para nosso fim, passados secundariamente pela fita e um
botão de pressão ligado em paralelo com eles, de maneira que agora a
pressão do botão liga de playback para rewind. O segundo par de sensibi-
li/adores, para o lado esquerdo das partes de gravação, funciona para parar
« rebobinagem e voltar a playback quando a outra lâmina de metal espe
cialmente colocada atingir esses sensibilizadores. Isso não é alterado.
O botão de pressão e o interruptor menor são presos juntos com uma
fita adesiva, para formarem uma unidade de controle remoto combinada
Hi; modo que o paciente possa segurar em sua mão. A pressão do inter
ruptor menor {daqui por diante chamado de interruptor de pausa) pára
o playback durante o tempo em que o botão é premido. A pressão momen
tânea do botão de pressão (daqui por diante chamado de botão de repe
tição) produz os seguintes efeitos: o gravador pára o playback e liga
pata o rewind; a rebobinagem continua até que a lâmina é detectada
poios sensibilizadores para o lado esquerdo da faixa de gravação; quando
s rebobinagem parar o playback começa de novo.
Ao preparar a fita para a dessensibilização, Migler e Wolpe usaram
do começo ao fim, a voz do paciente. As operações foram as seguintes:
1. As instruções de relaxamento foram gravadas — "Relaxe as
barrigas das pernas, coxas, antebraços, ombros, pescoço, mandíbulas,
tsita, etc.” (Ao usar esta parte da fita instruiu-se o paciente para premir
6 interruptor de pausa depois de cada parte anatômica que era enume-
fada e se concentrar na dita parte até que se sentisse livre da tensão muscu
lar, e então para soltar o interruptor de pausa e deixar a fita rodar).
2. Uma lâmina de metal foi aderida à fita no fim dessas instruções
(lê relaxamento. Uma lâmina de metal semelhante vinha depois de cada
BÇntt gravada na fita. A função delas é dada abaixo.
3. Pouco além da lâmina de metal, (e pouco antes da primeira
iintt) havia umas poucas instruções sobre o relaxamento: "Relaxe os
m * braços, pernas, estômago, tórax, pescoço e todos os seus músculos
lis ta is . Agora uma pausa até que se sinta relaxado." (O paciente foi
ruído no sentido de premir o interruptor de parada neste ponto até
!<t te sentisse relaxado).
4. Seguindo estas instruções quanto ao relaxamento, a fita con-
fih* instruções para visualizar a primeira cena da hierarquia: "Agora
iflgine (primeira cena)". Pausa. (O paciente foi instruído no sentido
pressionar o interruptor de pausa neste ponto até que a visualização
tftrrmsse clara, e então para deixar a fita prosseguir}.
6. Dez segundos de silêncio gravados seguiram a instrução para
r, permitindo dez segundos de visualização clara. 0 silêncio foi encer-
166 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
rado pelas palavras: “Pare de visualizá-la. Aperte o botão de repetição
se a cena de alguma forma o perturbou.” (Se o paciente sentisse qualquer
resposta emocional negativa quanto à cena, deveria premir o botão de
repetição, que por sua vez rebobinaria a fita de volta até a lâmina de metal
(passo 2 acima) para que as breves instruções quanto ao relaxamento,
a céna e o restante da seqüência se repetissem. Se o botão de repetição
não fosse pressionado, o gravador continuaria até a lâmina de metal
seguinte que, como a primeira, era seguida de instruções quanto ao rela
xamento; mas depois destas vinha a cena 2 da hierarquia — e assim por
diante).
Esses arranjos elaborados tornam fácil ao paciente levar a cabo a
dessensibilização. Um equipamento mais simples pode tomar seu lugar,
e a um custo muito mais baixo, o que exige mais esforço por parte do
paciente. A primeira experiência desta natureza foi feita por Kahn e
Baker (1968) que inventaram uma gravação que o paciente poderia usar
em casa para qualquer hierarquia. Ela contém instruções para apresen
tações dç cenas seguidas de silêncio onde o paciente insere suas cenas
hierárquicas imaginárias conforme dirigido de antemão pelo terapeuta.
As instruções quanto ao relaxamento precedem cada cena, e a gravação
é expressa de tal maneira que o paciente pode repetir uma determinada
cena tantas vezes quantas forem necessárias.
Os gravadores de fita são agora amplamente usados para a dessen-
siblizaçao em casa. Eles oferecem muito mais flexibilidade que uma
gravação em disco. Denholtz (1971) descreveu o uso doméstico de grava
dores de fita tanto para o treino de relaxamento como para a apresen
tação de cenas eliciadoras de ansiedade. Cada lição de relaxamento é gra
vada durante a sessão de tratamento, na fita do próprio paciente, a qual ele
leva então para casa ". . . tendo sido instruído para tocá-la duas vezes
por dia até sua visita seguinte. Nas visitas subseqüentes, as instruções
são gravadas novamente, tornando-se progressivamente mais curtas, porque
o paciente está se tornando condicionado ao relaxamento. Eventualmente,
as instruções são dadas com apenas 2 a 5 minutos de duração." O proce
dimento é " . . . particularmente valiosa não para o paciente incomum
que fica simplesmente muito ansioso, na presença do terapeuta para ser
capaz de soltar-se.. . Alguns desses pacientes. . . aprendem o relaxamento
desta maneira em casa, e podem fazê-lo posteriormente no consultório” .
Pa1 a o propósito da dessensibilização em casa, Denholtz geralmente
grava uma cena de cada hierarquia em cada sessão . . Se, contudo,
houver uma variedade de estruturas que pertençam a um determinado
passo hierárquico , (ele) poderá gravar até três cenas para esse passo.
AS VARIAÇÕES DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 167
É sempre importante assegurar-se de que as cenas gravadas só eliciem
uma pequena quantidade de ansiedade — geralmente não mais do que
10 a 15 unidades na escala sud. As instruções quanto ao relaxamento
sao renovadas entre as cenas. . . Pede-se ao paciente que use essa fita
diariamente até sua próxima sessão, quando ele geralmente informará
que já não sente ansiedade quanto a qualquer uma das cenas gravadas.
Ele estará então pronto para subir na hierarquia." Não é surpreendente
que o uso desse material de trabalho em casa reduza a quantidade de
tempo que o terapeuta deve gastar com o paciente.
(b) Dessensiblizaçao em grupo
Se diversos pacientes sofrerem da mesma fobia, pode se esperar
que, havendo sido treinados quanto ao relaxamento, eles possam ser
dessensíbilizados simultaneamente mesmo que os "graus” de suas hierar
quias (pág. 130) não sejam idênticos, desde que o terapeuta tenha se
assegurado de que cada cena tenha deixado de eliciar ansiedade em cada
paciente antes de prosseguir paraa cena seguinte, Evidentemente, esse
arranjo pode economizar muito tempo para o terapeuta.
Por exemplo, uma média de menos de duas horas do tempo do
terapeuta por cliente foi conseguida por Paul & Shannon (1966) no trata
mento de uma forte ansiedade de "avaliação social" em estudantes univer
sitários, caracterizada por um temor e incapacidade em situações de falar
em público. Num registro de dois anos (Paul, 1968) verificou que a
melhora fora mantida ou aumentada.
É possível que os pacientes de Paul e Shannon fossem mais rapida
mente dessensíbilizados porque os estímulos exteroceptivos dos outros
membros do grupo fossem um fator de facilitação para superar seus
temores de exposição às pessoas. Esta possibilidade parece ser de certa
forma sustentada por uma experiência minha. Em 1966, durante uma
série de seminários de terapia comportamental, convidei a todos com
temores de falar em público para se submeterem a uma dessensibilização
em grupo diante de uma classe de 30. Oito se apresentaram como volun
tários. As sessões de tratamento — cada uma durando 15 minutos —
aconteceram no final de um decurso de duas horas. O grupo se sentou
diante de mim na primeira fila da sala de aulas. A primeira sessão foi
dedicada ao treino de relaxamento, com o qual eles já "estavam familia
rizados, e alguns deles já o tinham praticado. Em sessões subseqüentes
as cenas imaginárias de falar em público foram apresentadas ao grupo.
A primeira cena foi a de falar diante de um auditório de três pessoas.
168 PRÁTICA DA TE R AP IA COMPORTAMENTAL
Depois de cinco sessões de dessensibilização, todos os cinco casos que
passaram pela terapia foram capazes de se imaginar falando a um grupo
de 50 pessoas sem ansiedade. A evidência de transferir para a situação
real foi posteriormente obtida de 2 dos participantes. Um deles afirmou
estar dando aulas a um grupo de 75 pessoas sem qualquer ansiedade.
Uma vez que o tempo total gasto na terapia do grupo foi de 90 minutos,
se considerarmos apenas os cinco casos que completaram o curso, nós
obtemos um tempo médio gasto por paciente pelo terapeuta, por fobia,
de 18 minutos! Embora não seja obviamente possível fazer quaisquer
deduções acuradas desta experiência um tanto casual, ela sugere que a
mudança terapêutica pode ter sido acelerada pela ciência dos casos de
se sentarem num grupo enquanto a dessensibilização se processava na
imaginação.
Há uma preponderância de evidências sugerindo que a dessensi
bilização com estímulos reais é mais potente que a com estímulos imagi
nários. Esses sujeitos tiveram ambas.
Tratamentos bem sucedidos em estruturas de grupos têm sido rela
tados para uma variedade de fobias, por exemplo, situações de teste
(Donner e Guerney, 1969; Cohene e Dean, 1968; e Ihli e Garlington,
1969). Donner e Guerney (1969) usaram uma técnica automatizada
com os grupos e, numa verificação, Donner (1970) constjtou que os
benefícios tinham sido mantidos. Robinson e Suinn (1969) relataram
sobre tratamento em grupo de fobias por aranhas, usando sessões de
dessensibilização em massa.
A dessensibilização em grupo também foi parte de um programa
de um grupo geral de terapia comportamental (Goldstein e Wolpe (1971).
Cada paciente é visto primeiro individualmente para que o terapeuta
possa tomar um histórico, executar uma análise comportamental, e decidir
quanto às metas da terapia. A terapia em grupo é recomendada quando
o paciente tem problemas especiais quanto a interações pessoais. Cinco
a sete pacientes e um ou dois terapeutas tomam parte num grupo. Uma
vantagem da estrutura do grupo é que o terapeuta é capaz de observar
o comportamento do paciente em resposta a várias outras pessoas; poderá
eliciar padrões de comportamento dos quais o paciente poderá não ter
estado consciente. A primeira sessão dura cerca de duas horas, durante
as quais a estrutura é mínima; o terapeuta afirmando que, uma vez que
todos os pacientes têm problemas semelhantes, as sessões iniciais serão
amplamente dedicadas à familiarização. O terapeuta então assume o
papel de um facilitador, para iniciar o desenvolvimento de uma atmos
fera interativa adequada. Pela quinta reunião, as sessões duram entre três
AS VARIAÇÕES DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 169
e cinco horas. Uma vez que cada sessão deve envolver cada paciente
de alguma maneira concentrada, é necessário permitir-se aproximadamente
45 minutos por paciente, embora o tempo não seja dividido em qualquer
forma determinada. Os procedimentos mais usados são: modelagem,
ensaio comportamental, e a dessensibilização ao vivo.
RESPOSTAS ALTERNATIVAS DE CONTRA-ANSIEDADE PARA
A UTILIZAÇÃO COM ESTÍMULOS IMAGINÁRIOS
1. Respostas Eliciadas pelo Terapeuta
Nao há dúvida de que a própria entrevista psicoterápica elicia respos
tas emocionais em muitos pacientes. As vezes, a emoção é ansiedade, mas
geralmente, ela é uma mistura de expectativa esperançosa, confiança no
perito, e outras emoções positivas condicionadas a médicos e seus consul
tórios. De modo geral, ela talvez corresponda à "transferência positiva"
do psicanalista num sentido livre. Quando isso ocorre, ela é capaz de
inibir respostas relativamente fracas de ansiedade que são verbalmente
eliciadas durante a entrevista (Wolpe, 1958, pag. 193). Ela é provavel
mente a base principal para os efeitos psicoterápicos muito semelhantes
que as terapias diversas da terapia comportamental podem obter
(Eysenck, 1952, 1965). Logicamente, o terapeuta comportamental tam
bém lucra com isso, mas até um ponto relativamente menor, indicado,
talvez, pela quantidade de mudança encontrada no grupo "atenção-
placebo” do estudo controlado de Paul (1966) (vide pag. 306).
Os efeitos da emoção eliciada pelo terapeuta são inadvertidos e
não são sistemáticos. É, contudo, possfvel fazer-se dela um uso sistemá
tico. Em sujeitos que são incapazes de aprender a relaxar ou que resistem
quanto a "se soltar" ainda vale a pena apresentar cenas hierárquicas
com a esperança de que emoção eliciada pelo terapeuta inibia a ansiedade.
Elas também são a base aparente daqueles casos de dessensibilização
bem sucedida em que as cenas são apresentadas sem relaxamento; além
do mais, têm provavelmente um papel importante na dessensibilização
ao vivo (vide abaixo). Sob o presente tópico, contudo, nós considera
remos os modos de inibição da ansiedade que o terapeuta pode induzir
deliberadamente.
2. Respostas Desencadeadas Pela Estimulação Elétrica
1. Dessensibilização Baseada na Inibição da Ansiedade Através
de uma resposta Motora Condicionada. Esta técnica, primeiramente
170 PRATICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
relatada há muitos anos (Wolpe, 1954), foi muito pouco usada embora
tenha uma base experimental muito acreditável. Foi sugerido, através
de uma observação feita por Mowrer e Viek (1948), que se o estímulo
desagradável aplicado a um animal for constantemente interrompido
quando o animal executar uma resposta motora definida, com a repe
tição da estimulação do animal desenvolverá uma inibição condicionada
de respostas autônomas que são eliciadas ao mesmo tempo. Por contraste,
uma dupla experimental que recebe a mesma duração de estimulação
desagradável interrompida a cada devido tempo, sem referência ao compor
tamento motor do animal, deixa de desenvolver qualquer inibição da
resposta emocional que, ao contrário, é capaz de aumentar.
Na aplicação clínica desta descoberta, o paciente com uma hierar
quia de ansiedade é solicitado a imaginar uma cena da maneira habitual,
e pede-se-lhe que indique com um sinal quando a imagem estiver clara.
O terapeuta aplica então um choque relativamente brando em seu ante
braço, em resposta ao qual o paciente flexiona seu braço, tendo sido
previamente instruído no sentido de fazê-lo. Num caso extremo de agora
fobia, que foi tratado através deste método e que foi descritoem outra
parte em detalhes (Wolpe, 1958, p. 174), verificou-se que 15 a 25 flexões
eram necessários para levar a resposta de ansiedade até zero diante uma
cena perturbadora.
No caso referido, a flexão do braço parecia indispensável para
o decréscimo da resposta de ansiedade. Mas, uma vez que sabemos que
uma estimulação elétrica fraca sem uma resposta motora também pode
enfraquecer hábitos de ansiedade (vide abaixo), nós podemos estar curio
sos por saber o quanto a resposta motora realmente contribuiu para a
mudança notada. Todavia, existem alguns dados clínicos que sugerem
que a atividade muscular pode ser um agente inibidor de ansiedade (Wolpin
e Raines, 1966; Farmer e Wright, 1971).
A possibilidade de utilizar este fenômeno (Pavlov, 1927, pag. 46)
tornou-se aparente para mim há poucos anos atrás observando o D r.
William M. Phipott de Takoma Park, Doutor em Medicina, executando
um procedimento um tanto elaborado para eliminar a ansiedade condi
cionada com o auxílio de choques elétricos brandos. O paciente se deitava
num divã com elétrodos afixados a seu antebraço e com os olhos cerrados.
Ele recebia uma cena para- imaginar, e, quando indicava que esta estava
claramente formada, dizia palavras do seguinte padrão: "Músculos dos
braços, respondam à vontade; relaxem-se." Alguns experimentos contro
lados que pouco tempo depois organizei na Universidade de Virgínia
demonstraram que a arenga verbal era desnecessária e por si ineficaz,
AS VARIAÇÕES DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 171
e que os estímulos elétricos fracos poderiam produzir todos os efeitos
demonstrados por Philpott. Pareceu que o tipo de interferência típica
da inibição externa estava em funcionamento.
Dispensando as superfluidades, a técnica é como segue. Envolve-se
o antebraço do paciente com duas faixas de gaze, com 38 mm de largura,
uma pouco acima do pulso e a outra cerca de oito centímetros acima.
Cada faixa é fixada ao local por um prendedor de aço inoxidável ligado
à origem da corrente — uma pilha seca de 90 volts cuja potência é contro
lada por um aparelho de resistência variável de 50,000 ohms. {Eletrodos
de prata poderão ser usados ao invés das faixas de gase.) As pulsações
são dadas com o terapeuta pressionando um pequeno interruptor durante
cerca de meio segundo. O nível correto da corrente para o paciente é
aquele que é fortemente sentido sem ser aversivo. Em alguns casos uma
pulsação muito fraca é suficiente; em outros, nenhum efeito terapêutico
ocorre até que o estímulo elétrico seja forte bastante para produzir uma
contração rigorosa nos músculos do antebraço. (Foi observado freqüente
mente que se o paciente tiver ansiedade difusa, 8 a 10 pulsações por
minuto a reduzirá gradativamente, de forma que em 20 ou 30 minutos
ela poderá ser reduzida de 60 suds ou mais para zero).
Uma vez que o nível apropriado de choque esteja estabelecido, o
procedimento da dessensibilização é iniciado. Primeiramente, o item
mais fraco da hierarquia é apresentado sozinho uma ou duas vezes à
imaginação do paciente para determinar quantos suds ele elicia. Pede-se
então ao paciente que imagine a cena e que avise erguendo o seu dedo
indicador quando ela estiver bem definida. Nesse ponto, o terapeuta admi
nistra dois choques de força predeterminada separados por cerca de
um segundo. Depois de cinco segundos o paciente é instruído novamente
no sentido de imaginar a cena, sinalizando como antes. Depois de uma
série de 5 a 20 cenas, é feita uma verificação quanto ao estado de sua
reação à cena apresentando-a sem nenhum choque.
Um dos primeiros casos a serem tratados por este método foi o
de uma mulher cuja neurose multi-facetada tinha sido altamente superada
pelos métodos habituais da terapia comportamental. Um importante
problema neurótico remanescente foi uma fobia por dirigir sozinha.
Originalmente, ela era incapaz de dirigir inclusive em sua própria entrada
para automóveis sem sentir ansiedade. Com a dessensibilização conven
cional ela tinha progredido regularmente, embora lentamente, até que foi
capaz de dirigir num percurso de 1.200 metros sem qualquer desconforto.
Porém, um incidente perturbador a oitocentos metros de sua casa a tinha
feito retornar àquela distância. Em vez de recomeçar a dessensibilização
172 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
que tinha sido tão tediosa, decidi tentar a inibição externa. A estimulação
branda provou ser completamente ineficaz; mas os choques fortes bas
tante para causarem a contração muscular, enquanto ela se visualizava
naquele local crítico a oitocentos metros de casa, levaram a ansiedade a
um decréscimo. Com vinte repetições da cena a ansiedade caiu para zero.
0 procedimento foi repetido de ponto dos 1.200 metros. Quando poste
riormente se testou naquele ponto, ela verificou que estava completa
mente livre da ansiedade. Continuando este método, a paciente fez
progressos muito mais rápidos que tinha feito anteriormente com a dessen
sibilização convencional.
3. Respostas Eliciadas por Imagens verbalmente Induzidas
Sob este tópico estão três métodos — imagens emotivas, ira indu
zida, e sugestão direta. No primeiro, o estado emocional que age contra
a ansiedade é eliciado pelo cenário em que os estímulos eliciadores de
ansiedade são intoduzidos; nos dois últimos, isso depende das quanti
dades verbais repetidas e insistentes, e o cenário é principalmente um
fundo.
1. Imagens emotivas. Este é o nome de um procedimento pela
primeira vez descrito por Lazarus e Abramovitz (1962) no qual os estí
mulos hierárquicos são apresentados ao paciente numa situação imaginária
em que outros elementos eliciam respostas antagônicas à ansiedade. Estas
respostas tomam portanto o lugar do relaxamento como a origem de
inibição da ansiedade.
Um de seus casos foi o de um menino de 12 anos de idade que
temia muito a escuridão. No quarto que compartilhava com o seu irmão,
uma luz brilhante à noite próxima à süa cama. Ele sentia medo especial
mente no banheiro, o qual ele apenas usava se fosse acompanhado por
outro membro da família. As tentativas no treino do relaxamento tinham
falhado. O menino tinha paixão por dois seriados pelo rádio, "Super-
-Homem" e o "Capitão Silver''. Foi pedido a ele que imaginasse que o
Super-Homem e o Capitão Silver o haviam indicado como seu agente.
Lazarus e Abramovitz descrevem os desenvolvimentos subseqüentes
como segue:
O terapeuta disse, "Agora desejo que feche seus olhos e imagine
que está sentado na sala de jantar com seus pais. É noite. Subita
mente, você recebe um sinal no rádio portátil de pulso que o
Super-Homem lhe enviou. Você corre rapidamente para a sala de
AS VARIAÇÕES DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 173
estar porque a sua missão deve ser mantida em segredo. Há apenas
uma pequena luz penetrando a sala de estar vindo da passagem.
Agora faça de conta que está sozinho na sala de estar esperando pelo
Supoer-Homem e o Capitão Silver que virão visitá-lo. Pense sobre
isto com bastante clareza. Se a idéia lhe fizer sentir medo, erga a
sua mão direita."
Uma cena apresentada era terminada assim que havia qualquer
indicação de ansiedade. Quando uma imagem provocava ansiedade, ela
era repetida de uma forma mais desafiadóramente afirmativa, ou alte
rada ligeiramente para que parecesse menos ameaçadora. Ao fina! da
terceira sessão, o menino era capaz de se retratar sozinho no banheiro
com todas as luzes apagadas, aguardando uma comunicação real. Uma
constatação 11 meses depois revelou que o progresso obtido tinha sido
mantido.
A técnica também tem sido usada em adultos. Por exemplo, um
homem com uma claustrofobia que era especialmente relacionada com
teatros e restaurantes foi instruído no sentido de se imaginar sentado
num teatro {na coxia da última fila, inicialmente) observando um strip
tease. A excitação sexual inibiu as respostas fracasde ansiedade e foi assim
a base para parte do descondicionamento da segunda.
2. ira induzida. Este procedimento, que Goldstein, Serber, e Piaget
(1970) constataram ser eficaz em seis entre dez casos, consiste em
conseguir que o paciente un.a imagens eliciadoras de ira (aumentadas por
um comportamento vocal e motor apropriado) as cenas eliciadoras de
temor imaginadas (ou estímulos reais no consultório). Mais tarde, o
paciente usa as imagens para eliciar a ira em situações da vida real que
produzem temor espontaneamente. A preocupação de que tal tratamento
possa deixar os pacientes irados ao invés de temerosos não foi sustentada
pela experiência. Eles se tornam finalmente indiferentes aos estímulos
anteriormente perturbadores, apoiando o ponto de vista de que o processo
terapêutico essencial é o condicionamento da inibição de respostas de
temor a determinados estímulos.
Um de seus casos foi o Sr. F., de 23 anos de idade, que se queixava
de temores quanto a andar em transportes públicos, andar por certas
vizinhanças, e a estar na presença de pessoas aparentemente agressivas,
Esses temores mais ou menos o confinavam à sua casa. Ele se aventurava
a sair somente para ir às sessões de terapia, carrvnhando uma distância
excessiva para evitar os transportes públicos e certas ruas.
174 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
Embora tivesse havido algum progresso com a dessensibilização siste
mática quanto ao temor a ônibus, nenhum ocorreu na área das situações
interpessoais. Quando lhe pediam que imaginasse até as mais fracas cenas
interpessoais, o Sr. F. atingia estados próximos ao pânico que destruíam
o tênue estado relaxado anteriormente atingido. Então, pediu-se que
se imaginasse sendo abordado na rua por um homem agressivo (uma
reconstrução de um evento passado verdadeiro). Quando sentia medo,
ele devia imaginar que estava esmurrando o homem. O Sr. F. verificou
que era incapaz de se imaginar socando o homem eficazmente porque
cada episódio imaginado de ataque levava a uma seqüência em que o soco
tentado falhava. Mas, ao começar a imaginar-se apenas replicando ao
homem e aum.entando gi;adativamente a quantidade .de agressividade, o
Sr. F. foi eventualmente capaz de imaginar-se efetivamente esmurrando,
chutando, e finalmente esquartejando o homem com um machado. Com
cada aumento da agressão, menos temor e mais ira eram sentidos. A certo
ponto, ele disse, "Sinto vontade de gritar e de realmente bater em alguma
coisa." Ele recebeu um grande travesseiro e foi encorajado a fazê-lo e a
gritar de acordo com seus sentimentos. Depois disso, suas imagens de ser
abordado na rua foram acompanhadas por gritos de obscenidades, murros
no travesseiro, e contra-agressões imaginárias. Após 3 sessões com 10
repetições por sessão de cenas apropriadas a seus temores, o Sr. F. apre-
sentou completa libertação de temor na maioria das situações com as quais
se assustava e disse que viajava livremente para onde desejasse. Ainda se
sentia algo receoso em teatros e cinemas em que houvesse um número de
pessoas que lhe parecesse epitomar agressividade. Foi instruído no sentido
de continuar a freqüentar esses lugares e, ao se sentir ansioso, deveria
imaginar-se subindo no palco e abatendo a assistência com uma metralha
dora. Ele assim o fez, e desenvolveu outras variações de agressões ima
ginárias que o levaram a ser capaz de ir a teatros com completa ausência
de temor. Nenhum sentimento hostil tomou o lugar do medo; o resultado
foi a completa indiferença à assistência. Numa constatação após 6 meses,
o Sr. F. informou que estava livre de temores, que planejava casar-se, e
que ía fazer um curso de pós-graduação numa cidade distante.
Num outro caso, os estímulos eliciadores de ansiedade foram postos
em oposição com a ira ao vivo. Foi uma mulher com 34 anos de idade
com o histórico de uma ansiedade severa e constante juntamente com
sensações de tontura e falta de estabilidade nas pernas. Ela se sentia
relativamente calma somente quando sentada em casa na presença de seu
marido ou amigos próximos. Ela tinha medo de perder o equilíbrio ou,
se estivesse longe de casa, de ser incapaz de voltar. A análise de seu com-
AS VARIAÇÕES DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 1 7 5
portamento demonstrou que sua ansiedade era mais severa na antecipação
de uma situação eliciadora de ansiedade. A dessensibilização padrão
tinha falhado porque a paciente não se tornava ansiosa com as cenas ima
ginadas; e a dessensibilização ao vivo falhara porque o medo eliciado pelas
situações reais era demasiadamente grande para ser inibido pelo relaxa
mento muscular.
Foi então que a paciente aprendeu a expressão da ira, para ser
usada contiguamente com os estímulos produtores de ansiedade. Ela
aprendeu a como demonstrar uma indignação justa em altos brados:
"Eu não tenho medo! Eu não quero ter medo! Isso é tolo e injusto —
eu não quero ter medo!" Acentuava este comportamento verbal
esmurrando um travesseiro diante dela. Foram dadas três sessões de
treinamento e pediu-se à paciente que praticasse em casa durante meia
hora por dia. Ela foi instçuída a se expor a diversas situações que a pertur
bavam, tal como ficar sozinha trancada numa sala durante 10 minutos,
usando as respostas de ira que tinha aprendido cada vez que tinha qualquer
consciência de alguma perturbação. A terapia terminou após um total
de 19 sessões. Seis meses depois, ela se encontrava livre de todos os
sintomas.
3. Sugestão Direta. Rubin (1972) descreveu uma variação da dessen
sibilização sistemática que depende da indução de diversas respostas,
yeralmente incluindo o relaxamento, através de forte sugestão verbal.
Parece provável que as respostas de contra-ansiedade sugeridas sejam o
fator chave desta técnica, embora Rubin as apresente como parte de um
pacote. Um aspecto dessa explanação detalhada é o de como o paciente
adquiriu seu hábito indesejável através da aprendizagem e como os estí
mulos em questão, quando justapostos a uma resposta diferente, virão a
eliciar a última, ao invés. Outro aspecto é o de não pedir ao paciente para
imaginar uma determinada cena até que o terapeuta dê o sinal combinado
antecipadamente. As cenas são geralmente apresentadas à imaginação do
paciente a despeito de sua posição hierárquica, mas uma cena mais fraca
ó usada se a escolhida for muito aflitiva.
A técnica de Rubin poderá ser ilustrada pela referência a um de seus
casos - um mulher de 37 anos de idade que tinha reações condicionadas
de ansiedade a numerosas situações, inclusive sentar-se à mesa de jantar,
aplicar cosméticos, sentar-se para trabalhar, e ir ao instituto de beleza.
Todas essas reações tinham-se ramificado de uma ocasião, havia três
anos antes, quando ela tinha sido surpreendida com o tremor de suas
mãos enquanto tomando café num restaurante, ao mesmo tempo que ela
176 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
tornou-se ciente de uma sensação de um espasmo cervical posterior. Um
importante fato de fundo foi que, cinco anos antes, sua mãe sofrera um
derrame que a deixara afásica. O pensamento de que o espasmo cervical
tinha as implicações de um derrame iminente passou pela mente da
paciente. Segue-se uma transcrição do tratamento de Rubin, depois que ele
lhe explicou sobre um condicionamento em série que tinha resultado de
sua experiência inicial de ansiedade:
Vou agora descrever uma série de cenas para a senhora. Por favor,
escute com atenção enquanto as descrevo, mas não tente visualizá-
'/as até que receba o sina/ adequado para contar até três. A senhora
indicará que a visualização está acontecendo, erguendo seu dedo
indicador e deixando-o descer quando a visualização estiver
completa.
A primeira cena que gostaria que visualizasse é uma em que está
sentada para comer em sua própria cozinha. A senhora preparou
um fi/é mignon com ótimo aspecto e está com bastantefome.
Enquanto se senta para comer o filé, sente-se bastante à vontade
e relaxada, e é uma sensação muito agradável apreciçr a comida e
sentir-se relaxada. A senhora não está realmente preocupada. Sente
realmente um pouco de dor e desconforto na parte posterior de sua
cabeça e pescoço mas, apesar disto, sen fe-se muito bem.
É uma sensação muito agradável sentar-se iá sentindo-se relaxada e
apreciando a comida. Quando eu contar até três, a senhora come
çara a visualizar e indicará isto para mim erguendo o dedo indi
cador de sua mão esquerda, e o manterá erguido até que a visuali
zação esteja completa.
Quando a paciente indicou uma visualização satisfatória, a descrição
foi aumentada por comentários semelhantes àqueles dados inicialmente.
Cenas adicionais foram agora oferecidas — aplicando cosméticos, estando
sentada quando trabalhando, fazendo visitas e comendo na casa de outras
pessoas, comendo em restaurantes, e outras situações que normalmente
provocariam ansiedade. Os seguintes extratos da transcrição que trata da
visita ao instituto de beleza demonstram como o terapeuta usou suas
próprias experiências para aumentar os efeitos pretendidos.
A senhora vai ao cabeleireiro. Está muito familiarizada com o
local e entra sentindo-se muito à vontade e relaxada. Sei disso
porque, quando vou ao barbeiro, encontro uma oportunidade para
AS VARIAÇÕES DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 177
me relaxar e, freqüentemente, cochilar. As vezes, por causa da
posição em que estou, sinto alguma dor e desconforto na cabeça
e no pescoço. Contudo, isso não me perturba ou assusta, e essa
é exatamente a maneira que gostaria que se sentisse. Portanto,
quando eu der o sinal apropriado, desejo que se imagine num sa/ffo
de beleza sentindo-se à vontade e reiaxada. Sente-se algum des
conforto na parte posterior da cabeça e pescoço, mas isso não a
preocupa ou perturba. A senhora percebe que não tem nenhuma
importância. Isso certamente não indica que vai ter um derrame,
e assim, quando eu contar até três, queira sentir-se calma e relaxada.
A paciente foi vista num total de quatro vezes, progedindo acentua*
damente, de forma tal que foi capaz de retomar ao trabalho. Uma consta
tação nove meses depois revelou que o progresso fora mantido.
Esta técnica torna o repertório de eliciação de respostas do hipno-
tizador disponível para a prática da terapia comportamental. A forma
comum de terapia hipnótica, que consistiu em afastar, através da suges
tão, os sintomas ou reações, inclinando muito para a sugestão pós-hip
nótica, foi notoriamente sem eficácia. A técnica de Rubin traz respostas
diretamente sugeridas em oposição com as respostas de ansiedade. É digno
de se notar que algo semelhante a isso parece ter sido feito ocasional
mente por Bernheim (1895).
As tentativas iniciais na Unidade de Terapia Comportamental quanto
à utilização deste procedimento, ainda que numa maneira modificada,
têm sido encorajadoras. 0 primeiro caso que tratei, há 15 meses, mudou
acentuadamente depois de uma única sessão. 0 paciente era um execu*
tivo de 45 anos de idade que começara num trabalho de US$ 50.000
por ano de salário, que exigia voar muito. Seguindo-se a uma experiência
temerosa havia dez anos, ele tinha desenvolvido uma forte aerofobia.
Em virtude de ter vindo de Boston para consultar-me e estar prestes a
viajar por metade do país poucos dias depois, decidi usar o contracondi-
cionamento através da sugestão direta. Eliciei aspectos de estar num
avião, a que ele reagiu agradavelmente — a sensação de liberdade, a deco
ração, os tons tranqüilizantes da voz do comandante. Então fiz com que
fechasse os olhos e imaginasse que estava num quarto estacionário, com
a decoração de um avião, e respondendo fortemente às estimulações
agradáveis. Quando ele indicou que estava tendo as sensações pedidas
com bastante força, pedi-lhe que imaginasse que o quarto estava em
movimento como num vôo. Ele foi capaz de manter essa imagem sem
ansiedade durante diversos minutos. Então, pedi-lhe que praticasse a
73 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
imagem diversas vezes por dia, e disse-lhe que ac embarcar no avião ele
devera focalizar sua atenção nos aspectos agradáveis e que deveria res
ponder exclusivamente a eles. Depois do vôo programado, ele telefonou
para dizer que inicialmente tivera uma ligeira ansiedade e depois nenhuma.
Quatro meses mais tarde, ele informou a um terapeuta comportamental
de Boston, a quem o indicara para outros tipos de problemas, quanto à
"cura miraculosa" de seu medo de voar numa única sessão, capacitando-o
d vohi livremente por todo o país.
4 Respostas Devidas a Manobras Físicas Especiais
Fste tópico cobre práticas associadas principalmente com o Extremo
Oriente exercícios orientais de defesa, meditação transcendental, e a
Ioga. Um paradigma ocidental também está disponível agora para pes
quisas: Cabanac (1971) demonstrou que os estímulos físicos podem ser
lomados agradáveis aplicando-os contra um estado de fundo adequado —
por uxnmplo, um frio localizado contra o calor geral. Métodos envolvendo
a atividade mais comum da leitura (Everaerd, 1970 e Stoffelmayr, 1970)
podem muito bem ser considerados da mesma categoria.
1. Exercícios de Defesa Orientais. Em dois casos que não puderam
íí-,í vjtislotoriamente tratados pela dessensibilização padrão, Gershman e
o Í L - r i i (1971) usaram exercícios de defesa orientais como a origem da
siuDKáo recíproca de ansiedade, na suposição razoável de que "se um
identificar um contracondicionador que seja idiossincrássico
i ;.‘íp paciente, é possível que isto tenha uma eficácia terapêutica especial,"
Um de seus casos foi um homem que praticava rotineiramente o
k . p a r a manter-se em boa forma física. Seu temor de voar foi tratado
i - . i jou imaginar situações de vôo em ordem hierárquica, e, a cada-
i)í‘*s.’!i;açSo, empenhando-se em vigorosos exercícios de karatê. Em duas
. a ansiedade quanto a todos os itens foi reduzida a zero na escala
Lm ou tio caso, exercícios de Kung Fu foram muito eficazes para
r urna severa claustrofobia fazendo o paciente iniciá-los imediata-
.jpós ser trancado numa sala. Os períodos de seu confinamento
ir.i iüi progressivamente aumentados de 10 segundos para uma hora, e
. ln r jç á o dos exercícios diminuiu progressivamente e, se n paciente em
c.ociSquer momento sentisse uma ponta de ansiedade, ele poderia recorrer
exercícios para dissipá-la.
Constatações após seis meses encontraram ambos os pacientes
rios hábitos de ansiedade de que foram tratados. Parece provável
AS VARIAÇÕES DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 179
que a competição motora é a base dessas mudanças; mas o papel dos
efeitos emocionais concomitantes não pode ser estabelecido.
2. toga. Visto que as práticas de ioga levam ao controle das respostas
fiutônomas, seu potencial para romper hábitos emocionais impróprios é
óbvio. Boudreau (1972) descreveu o caso de uma professora de 40 anos
de idade cujo sofrimento quanto à transpiração excessiva foi apenas
parcialmente aliviado pela prática assídua do relaxamento muscular.
Ela passou então a freqüentar um curso de verão para a prática de exer
cícios de ioga, com prática adicional durante os momentos tensos. Após
três meses de prática desta técnica, sua transpiração branda diminuiu para
menos de uma hora por dia, enquanto que sua transpiração excessiva
desapareceu.
Os estudos de Barber (1970) indicam as consideráveis potencia
lidades terapêuticas da ioga.
3. Meditação Transcendental. Wallace (1970) relatou sobre
mudanças fisiológicas durante a meditação transcendental, incluindo
o índice metabólico diminuído, resistência da pele aumentada, e bati
mentos cardíacos diminuídos, Boudreau (1972) fez uso desta observação
no tratamento de um estudante colegial com diversas fobias incapacita-
doras. No início,a dessensibilização sistemática foi usada sem qualquer
memora visível. Nesse ponto, o paciente indicou que era adepto da medi
tação transcendental. Ele foi instruído no sentido de praticar a meditação
seguindo cenas fóbicas imaginárias durante meia hora todos os dias e
também durante o próprio aparecimento de situações eliciadoras de
lomor. Seguiu-se uma melhora acentuada. No prazo de um mês, o com
portamento de esquiva a lugares fechados, estar só, e elevadores tinha desa
parecido. Uma vez que seu nível de tensão diminuiu, ele não experimentou
sensações fisiológicas anormais, e isso o tranqüilizou quanto a seu estado
físico e mental.
6. Respostas Produzidas Pelo Alívio da Aflição
Estes substitutos para o relaxamento no contexto da dessensibili
zação padrão se desenvolveram do paradigma do alívio da ansiedade
(Wolpe, 1958) que teve seu uso original para superar a ansiedade em
estruturas da vida real.
1. A!Mo de Aversão. A essência deste método, que foi primeira
mente empregado por Thorpe e outros (1964), consiste em apresentar
um estímulo fóbico ao sujeito no momento que ele pressiona um botão
180 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
para interromper uma desagradável estimulação elétrica contínua.
Solyom e Miller (1965) e Solyom (1969) têm feito amplo uso deste
seguinte procedimento, modificado.
A paciente, que preparou uma gravação em fita consistente de
eventos passados e possíveis, senta-se numa poltrona, separada do
experimentador por um espelho falso. Os itens dessa gravação são apre
sentados a ela, um de cada vez, através de fones de ouvido. Depois de um
período de silêncio de cerca de 30 segundos, uma desagradável estimulação
elétrica é administrada ao dedo da paciente. Apertando um botão, ela
interrompe o choque elétrico e ao mesmo tempo libera um item de
ansiedade de sua fita. Por exemplo, uma paciente cpm fobia por gatos
poderia, ao premir o botao, ouvir sua própria voz dizendo: "Vejo um
gato cinzento" simultaneamente com a cesáação do choque. A intensidade
do choque é determinada para cada indivíduo, selecionando-se um ponto
médio entre sua receptividade ao choque e os limiares de tolerância ao
choque. Solyom e Miller sumariaram o tratamento de 8 pacientes, entre os
quais 6 ficaram livres de temores após uma média de 19,5 sessões de
tratamento — sem substituição de sintomas, conforme constatação
posterior.
2. Alivio Respiratório. Um método semelhante, que parece ter
surgido independentemente do anterior, é o alívio respiratório (Orwin,
1971). Pede-se ao paciente que retenha voluntariamente sua respiração
o tanto quanto puder, e que indique quando já não puder mantê-la. Nesse
exato momento, o estímulo fóbico é apresentado à sua imaginação, de
forma tal que o alívio que advém ao reassumir a respiração possa competir
com a ansiedade. Orwin afirma que 6 pacientes perderam rapidamente
suas antigas fobias. Quatro pacientes com fobias por aranhas foram capazes
de tocar numa no prazo de uma ou duas sessões de 30 minutos.
Um deles permitiu posteriormente que uma enorme aranha domés
tica corresse sobre suas mão e braços sem qualquer ansiedade. Os
componentes fóbicos das condições obsessivas crônicas também foram
"controlados de maneira surpreendentemente fácil através do alívio
respiratório" e todos os pacientes apresentaram uma melhora acen
tuada.
Experimentei recentemente este método em dois pacientes com
alguma indicação de sua eficácia num deles. A simplicidade técnica do
método torna válida a sua investigação.
AS VARIAÇÕES DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA 181
6. Inibição Farmacológica da Ansiedade Através da Inalação de Dióxido
de Carbono-Oxigênio
0 poderoso efeito que o dióxido de carbono-oxigênio tem em
reduzir a ansiedade difusa (pag. 209), fez com que ele parecesse ser um
agente potencialmente valioso para superar também hábitos específicos
de ansiedade. Philpott (1967) relatou que fora capaz de usar o gás desta
maneira apresentando estímulos hierárquicos, enquanto o paciente inalava
o gás de forma a manter um grau moderado de hiperventilação, durante
diversos segundos.
Durante os últimos anos, tive diversas vezes a oportunidade de
tentar a dessensibilização com o dióxido de carbono através deste método.
Em cada caso, foram obtidos, efeitos marcantes, e tornou-se possível
a apresentação de cenas muito mais altas na hierarquia do que seria pos
sível usando o relaxamento. Num caso de fobia por salas de aula, foi
obtida uma recuperação aparente em duas sessões. Numa fobia incomum
por certas configurações do sexo oposto, que tinha resistido a todos os
outros métodos disponíveis, levou-se oito sessões para se obter uma
redução marcante nas respostas de ansiedade aos estímulos envolvidos,
apresentados ao vivo durante inalações de dois a trés minutos de duração.
As indicações são de que este gás é um inibidor de ansiedade particular
mente poderoso e que merece estudos clínicos extensos.
DESSENSIBILIZAÇÃO COM O USO DE ESTÍMULOS
EXTEROCEPTIVOS À ANSIEDADE
Um estímulo exteroceptivo é aquele que vem de fora do organismo
responsivo, em contraste com um estímulo endógeno que se inicia dentro
do organismo, como por exempto uma sensação visceral ou uma imagem
mental. Os estímulos exteroceptivos que são empregados na dessensibili
zação são os próprios objetos temidos ou as representações pictóricas
deles. Os primeiros têm, até agora, sido usados muito mais amplamente.
Uma variedade de respostas de contra-ansiedade tem sido envolvida, como
será indicado. Os procedimentos se dividem em duas classes principais
(a) dessensibilização ao vivo em que os estímulos exteroceptivos são
apresentados ao paciente em quantidades gradativas nas linhas gerais da
dessensibilização convencional, e (b) modelação na qual o paciente observa
um sujeito destemido fazer um contato cada vez mais íntimo com o objeto
temido.
182 PRÁTICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL
(a) Dessensibilização ao vivo
Tem sido muitas vezes uma política prática pedir aos pacientes para
tentarem se expor na realidade a situações em que apenas acabaram
de ser dessensibilizados na imaginação. Por exemplo, pede-se a uma pessoa
com medo de dirigir para sair dirigindo até o último ponto dessensibili-
zado. Eu costumava considerar isto como uma manobra consolidadora e
um meio de obter uma "regeneração". Recentemente, um estudo contro
lado feito por Garfield, Darwin, Singer e McBrearty (1967) deu evidência
de que isto positivamente acelera a dessensibilização. Sherman (1972)
relatou uma descoberta semelhante mas, em virtude de ter trabalhado
com temores fracos, a aplicabilidade de seus achados às condições
clínicas é incertB (Bernstein e Paul, 1971).
A dessensibilização ao vivo tem a sua indicação principal como
método primordial em 10 ou 15 por cento de pacientes em que os estí
mulos imaginários são inúteis para a dessensibilização porque não excitam
respostas emocionais semelhantes àquelas produzidas pela situação real.
Cooke (1966) verificou que nas fobias por cobras a dessensibilização se
procedia com a mesma velocidade, fossem usados estímulos imaginários
ou reais.
O uso bem sucedido de exposições gradativas à vida real numa
situação institucional foi relatado por Terhune (1949) trabalhando empiri
camente e sem a consciência dos princípios de aprendizagem envolvidos.
O primeiro relato de terapia ao vivo baseada diretamente no paradigma da
dessensibilização foi em ligação com dois casos agorafóbicos tratados
por Meyer (1957). Ele foi seguido em 1960 pelo registro de Freemam e
Hendrick alegando terem superado uma fobia em gatos fazendo a paciente
manipular pedaços de materiais progressivamente semelhantes à pele de
gatos, expondo-a a retratos de gatos, e então à um gatinho de brinquedo,
seguido por um gatinho de verdade, e eventualmente por gatos crescidos,
Uma fobia por minhocas foi tratada