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A maioria dos pontos de registros de desembar-
que foi desativada no final da década de 80, inclusive o de Manaus,
sendo alguns deles retomados no início da década seguinte. No entan-
to a retomada de alguns destes, como em Manaus, Parintins, Itacoatiara,
Manacapuru e Tabatinga, foram iniciativas que não se estenderam além
de um ano (Batista, 1998), com exceção dos registros de desembarque
em Manaus, retomados em 1993 e mantidos até o presente. Além dis-
so, os trabalhos de coleta de dados nestes portos de desembarque
raramente foram realizados no mesmo período. A falta de sincronia
nos trabalhos impede a visão, mesmo que momentânea, da atuação
da frota pesqueira amazônica numa escala mais ampla. Apesar das fro-
tas que atuam em Manaus ou Belém percorrerem milhares de quilôme-
tros para obter seu pescado (Petrere, 1978b), estas não conseguem
atuar em todas as áreas de pesca, de modo que suas informações apre-
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A pesca e os recursos pesqueiros na Amazônia brasileira
sentam muitos vazios que impedem elaborar um padrão geral da dis-
tribuição da captura comercial na Amazônia para os anos que temos
dados disponíveis. A ausência de uma série histórica contínua e de lar-
ga escala compromete uma análise integrada da dinâmica da pesca
comercial na região mais produtiva da Amazônia brasileira.
Além do montante que é comercializado nos centros urbanos,
existe outra quantidade expressiva que é consumida pela população
ribeirinha, que tem no pescado a principal fonte protéica. Este consu-
mo difuso em áreas rurais, em torno de 500gr/pessoa-1/dia-1, nunca é
considerado nos indicadores econômicos regionais, apesar de ser um
dos mais elevados do mundo, atualmente na ordem de 16kg/pessoa-1/
ano-1 ou 44gr/pessoa-1/dia-1, mostrando a dependência direta das po-
pulações tradicionais ao pescado (Honda et al., 1975; Shrimpton &
Giugliano, 1979; Giugliano et al., 1978; Amoroso,1981; Batista &
Freitas,1995; Cerdeira et al., 1997; Batista et al., 1998; Batista, 1998;
Fabré & Alonso, 1998; FAO, 2000; Garcez, 2000).
Pelo exposto, o manejo dos recursos pesqueiros faz-se necessá-
rio tanto pela conservação dos sistemas aquáticos amazônicos quanto
pela manutenção de uma atividade de destacada importância
sócioeconômica para a população tradicional amazônica. O sucesso
do manejo depende do conhecimento integrado da biologia das espé-
cies exploradas e das características do ambiente onde vivem. O pre-
sente capítulo apresenta aspectos sobre o ambiente aquático amazôni-
co e a biologia e a ecologia das espécies de peixes exploradas pela
pesca comercial consideradas relevantes para o seu manejo.
Paisagens e ambientes relacionados à pesca
Unidades Geotectônicas,
qualidade da água e habitats aquáticos
A paisagem amazônica é moldada fundamentalmente por três
estruturas geológicas: (i) a Cordilheira dos Andes, à Oeste; os (ii) Escu-
dos Cristalinos, da Guiana ao Norte e do Brasil ao Sul; e (iii) a planície
sedimentar, na porção central (IBGE, 1977). A atividade pesqueira está
concentrada basicamente na planície, nos trechos onde os rios são mais
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Biologia e diversidade dos recursos pesqueiros da Amazônia
volumosos, e na região estuarina, na zona de contato das águas conti-
nentais e oceânicas. Apesar de não haver pesca expressiva nas demais
estruturas geotectônicas, estas exercem um papel fundamental na for-
mação dos ambientes aquáticos e na produção biológica que sustenta
os recursos pesqueiros, de modo que a sua compreensão deve ser inclu-
ída nos estudos relacionados à ecologia e à pesca da Amazônia.
Os Andes
A Cordilheira dos Andes é a unidade geotectônica mais recente,
com mais de 15 milhões de anos. Os Andes são divididos em Setentri-
onal, Meridional e Central, e sua extensão cobre quase todo o lado
Oeste do continente sul-americano, formando uma faixa de monta-
nhas e vulcões que isola as bacias do leste e oeste e abriga as maiores
elevações das Américas (Rezende, 1972). Sua importância para os
ecossistemas aquáticos e, conseqüentemente, para a pesca está relaci-
onada com os nutrientes lixiviados de suas encostas pela forte chuva
que chega a 8.000 mm/ano (Day & Davies, 1986). O processo de ero-
são provocado pelas chuvas nos profundos vales da cordilheira é res-
ponsável pelo carregamento de sedimentos para o sistema hídrico, o
que contribui de forma decisiva para o enriquecimento da planície
sedimentar e do estuário (Landim et al., 1983). A quantidade de sedi-
mentos lançados no Oceano Atlânticos situa-se em torno de 1,161x
106 toneladas/ano ou 90 toneladas por km2 de bacia, representando a
terceira maior descarga de sedimentos dos rios do mundo, depois do
rio Ganges e Brahmaputra (Índia e Bangladesh) e rio Amarelo (China)
(Milliman & Meade, 1983; Carvalho & Cunha, 1998).
A classificação generalizada das águas da bacia amazônica em
branca, preta e clara foi proposta por Harold Sioli há mais de 20 anos e
validada por vários estudos limnológicos realizados posteriormente (Ta-
bela 1). Os rios de água branca nascem na região Andina ou Pré-Andina,
carregam uma grande quantidade de material em suspensão oriundo
das morenas (Sioli, 1968) depositadas em períodos glaciários, ou da
própria erosão dos profundos vales presentes nos Andes Orientais.
 Os rios de água branca possuem turbidez e condutividade eleva-
das e pH próximo do neutro, devido ao bicarbonato diluído na água que
atua como tampão (Tabela 1). Os tributários de água branca mais impor-
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A pesca e os recursos pesqueiros na Amazônia brasileira
tantes do sistema Solimões-Amazonas são Napo, Marañon e Tigre, nas
cabeceiras, e Juruá, Purus e Madeira, afluentes da margem direita (Figura
1).
A distinção entre as águas na bacia muitas vezes não é muito ób-
via, pois depende das formações geológicas de uma determinada região
e das variações das características químicas e biológicas muito relaciona-
das com o período hidrológico (Junk, 1983; Junk & Furch, 1985). Por
exemplo, a bacia do rio Branco, no Estado de Roraima, constitui uma
lacuna para esta classificação, já que suas águas são turvas devido à
elevada carga de sedimentos, de 0,65g/l (ELETROBRAS, 1992), que é um
pouco superior à citada por Irion et al. (1997) para as águas brancas (0,2
a 0,4g/l). Contudo, os sedimentos do rio Branco não são de origem andina
e a condutividade observada nas águas é baixa (Tabela 1).
Os Escudos
Os escudos cristalinos das Guianas e do Brasil são formações
modeladas desde o Pré-Cambriano, há mais de setecentos milhões de
anos, a partir de Granito e Gnaisse, predominando altitudes acima de
200m (Salati et al., 1983; Ayres, 1993). Suas elevações mais acentuadas
encontram-se ao norte, nas serras Imeri-Tapirapecó, Parima, Pacaraima,
Figura 1. Mapa indicando a localização dos principais rios e das cidades
mencionadas no texto.
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Biologia e diversidade dos recursos pesqueiros da Amazônia
Acarai e Tumucumaque, e as elevações ao sul são menos acentuadas,
destacando-se as serras Pacaás Novos, Parecis, Apiacá, Cachimbo, Se-
ringa e Carajás (IBGE, 1977). Os rios que se originam nestas encostas
são denominados de água clara por possuírem uma grande transpa-
rência, com visibilidade chegando a quase 5m, como Tapajós, Xingu e
Trombetas. Estas águas são quimicamente pobres, com condutividades
bastante baixas, 6 a mais de 50 µS/cm e pH quase neutro (Tabela 1).
Tabela 1. Comparação de características físico-químicas dos três principais tipos de
água da Bacia Amazônica com o Rio Branco.
augÁedopiT edadivitudnoC )mc/S¼( Hp
-apsnarT
)m(aicnêr etnoF
acnarBaugÁ 07-06 0,7-5,6 5,0–1,0 )3891(knuJ )5991(seryA
aterPaugÁ 8étA 0,4étA 9,2–3,1 )3891(knuJ )5991(seryA
aralCaugÁ siama6 05euq
siam-5,4
0,7euq 3,4–1,1
)3891(knuJ
)5991(seryA
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