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A Planície
A bacia sedimentar amazônica possui cerca de 2 milhões de km2
e foi formada a partir da Era Cenozóica, com os sedimentos carreados
dos Escudos Cristalinos e dos Andes que durante o Terciário e
Quaternário se depositaram no vale Amazônico. A superfície é em gran-
de parte plana, com uma declividade em torno de 20mm/km. Mesmo
as cidades que se encontram muito distantes da foz podem situar-se
em altitudes bem baixas, como Manaus, a 40m de altitude e a 1287km
da foz, Tabatinga ou Letícia, a 65m de altitude e a 2.920km da foz, e
Iquitos, a 107m de altitude e a 3.400km da foz. Esta declividade, asso-
ciada à descarga de água e sedimentos, favorece a formação de uma
paisagem de complexos sistemas de rios meândricos, que apresentam
um processo dinâmico de construção e destruição de suas margens
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A pesca e os recursos pesqueiros na Amazônia brasileira
(Dunne et al.,1998). Os ambientes que aí se formam são ocupados por
uma vegetação adaptada à alagação periódica e que fornece grande parte
da energia que sustenta a cadeia trófica aquática (Forsberg et al., 1993)
Um dos complexos orgânicos mais importantes que caracteri-
zam a química das águas amazônicas são os ácidos húmicos e fúlvicos
que acidificam e escurecem a água. Os rios que apresentam grande
concentração desses ácidos são denominados de rios de água preta, e
a origem dos mesmos está associada às áreas com vegetação baixa
sobre solo arenoso, do tipo campina e campinarana (Leenheer, 1980).
As águas drenadas nesta planície são, em geral, quimicamente
mais puras que o de águas claras, com condutividade de até 8 µS/cm e
pH abaixo de 5,5. O maior rio de água preta na Amazônia é o rio Ne-
gro, que possui em suas cabeceiras a maior extensão de vegetação do
tipo campinara na Amazônia.
Clima e ciclo hidrológico na Bacia Amazônica
Clima
As regiões tropicais caracterizam-se por apresentarem tempera-
turas elevadas e relativamente constantes ao longo do ano, assim como
a duração do dia. Na planície Amazônica, o clima em geral é quente e
úmido, com a temperatura média anual em torno de 26,6oC. As
flutuações diurnas da temperatura são mais acentuadas que as anuais,
podendo chegar a 10oC (Irion et al., 1997). No entanto a temperatura
pode abaixar mais em alguns dias do ano devido à influência das fren-
tes frias do sul, que alcançam a bacia principalmente na sua parte mais
ocidental. Estes fenômenos, denominados localmente por friagens, cau-
sam uma grande mortandade de peixes nas áreas alagadas. O
resfriamento da superfície das águas superficiais e oxigenadas faz que
estas se tornem mais pesadas que as águas pobres em oxigênio do
fundo, empurrando-as para baixo. A movimentação dessas águas di-
minui a concentração de oxigênio do corpo d’água como um todo,
provocando a morte dos peixes por asfixia (Junk, 1983). Diversas espé-
cies amazônicas apresentam adaptações para obter oxigênio da super-
fície, a fim de resistir melhor à baixa disponibilidade de oxigênio nos
ambientes lacustres. O pirarucu é uma dessas espécies que apresentam
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Biologia e diversidade dos recursos pesqueiros da Amazônia
respiração aérea, ele vai regularmente à superfície para renovar o ar de
sua bexiga natatória bastante vascularizada, onde se dá a troca gasosa
(Almeida & Val, 1990; Brauner & Val, 1996). Ironicamente, esta adapta-
ção que lhe dá vantagens para viver em ambientes pobres em oxigênio
torna-o vulnerável aos pescadores, que o esperam vir à superfície para
arpoá-lo (Veríssimo, 1970).
A umidade relativa permanece alta durante todo o ano, em mé-
dia 76% em setembro, quando o nível das precipitações é baixo (inferi-
or a 100mm por ano) e 87% em abril, período mais intenso de precipi-
tações, acima de 250mm por ano (Irion et al., 1997).
Vazão dos Rios
A vazão total da bacia Amazônica, que inclui os rios Amazonas e
Tocantins, é de 220.800m3/s. O primeiro é responsável por quase 95%
de toda a descarga e o segundo tem uma vazão semelhante às dos gran-
des afluentes que drenam os escudos do Brasil Central, o Xingu e o Tapajós.
Os afluentes de destaque são os rios Negro e Madeira, cujas desemboca-
duras se encontram próximas, na escala Amazônica, e que deságuam
cerca de um quarto do volume total, interferindo de forma expressiva no
trecho à jusante da confluência dos mesmos (Tabela 2 e Figura 1). O rio
oirodemoN edaerÁ mkmeganerd 2 moãzaV
3 s/ avitaleRoãzaV
AINÔZAMA 000.968.6 008.022 %0,001
sanozamA 000.211.6 000.902 %7,49
ariedaM 000.024.1 002.13 %1,41
orgeN 018.696 060.82 %7,21
árupaJ 000.842 026.81 %4,8
sójapaT 000.094 045.31 %1,6
snitnacoT 000.757 008.11 %3,5
suruP 000.073 079.01 %0,5
ugniX 003.405 086.9 %4,4
açI 067.341 067.8 %0,4
áuruJ 000.581 024.8 %8,3
.ANA:etnoF
Tabela 2. Vazão e área de drenagem dos principais rios da bacia Amazônica.
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A pesca e os recursos pesqueiros na Amazônia brasileira
Negro é de água preta e contribui com muito pouco sedimento, e o rio
Madeira carrega mais sedimentos que o próprio Amazonas antes da con-
fluência (Carvalho & Cunha, 1998; Dunne et al., 1998).
Tipo de Alagação
Apesar da estabilidade térmica anual, os ambientes aquáticos tro-
picais apresentam ciclos sazonais que interferem na biota aquática. Os
fatores determinantes dos ciclos anuais na Amazônia são os ventos e as
precipitações. A principal conseqüência dos mesmos é a oscilação da
vazão e, conseqüentemente, do nível do rio em uma escala raramente
observada fora dos trópicos. Nos períodos de maior vazão, os rios trans-
bordam o seu leito e alagam as áreas marginais, provocando a expan-
são dos ambientes aquáticos.
A alagação pode ser causada pelas chuvas locais, pelo transbor-
damento do rio e pela maré (Welcomme, 1985). A alagação por chuvas
locais ocorre principalmente nas cabeceiras dos rios e em planícies afas-
tadas dos grandes rios. Dentre as áreas alagadas por chuvas locais e de
importância para a pesca destacam-se os campos da Ilha de Marajó e
da costa do Amapá. Acredita-se que as cabeceiras dos igarapés e dos
lagos de terra firme da planície Amazônica possuam importância eco-
lógica para diversas espécies de peixes migradores, como os jaraquis
(Semaprochilodus insignis e S. taeniurus), ou como áreas de refúgio
para espécies de hábitos sedentários, como acarás, pirarucu, tucunaré,
entre outras. Contudo estes hábitats ainda são pouco explorados pela
pesca comercial profissional.
Alagação pelo transbordamento dá-se comumente nas áreas de
pesca da planície Amazônica, no trecho acima da foz do rio Xingu.
Como o principal fator é o transbordamento dos rios e não o excesso
de chuvas local, é possível que o período de águas altas ocorra num
período em que as chuvas já cessaram ou diminuíram expressivamen-
te. O ciclo de alagação promovida pelo transbordamento dos rios é o
principal fator que rege a dinâmica da pesca na planície Amazônica.
O efeito da maré pode ser percebido de duas formas, no nível
do rio e na inversão da correnteza. O fenômeno de inversão da cor-
renteza é restrito à foz, mas a influência sobre o nível do rio é perce-
bida a mais de 1000km a montante, até a região de Óbidos. A oscila-
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Biologia e diversidade dos recursos pesqueiros da Amazônia
ção é diária, mas a amplitude varia com a posição da lua e do sol em
relação à Terra, para as áreas mais próximas à foz, e com a flutuação
do rio, nos trechos mais interiores. Na foz, a amplitude da maré ultra-
passa 4m. Nos trechos internos e no período de águas baixas do rio,
quando o efeito da maré é mais intenso, a oscilação diária é de 1,27m
em Almeirim, a cerca de 500km da foz, e 0,22m em Santarém, a qua-
se 800km da foz (Kosuth et al., 1999).
Ciclo de alagação
As oscilações do nível dos rios da planície Amazônicas apresen-
tam-se, em geral, como um ciclo unimodal anual, com um período
regular de águas altas e outro de águas baixas (Figura 2). Devido à sua
regularidade, a vegetação