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Aprendizagem: Linguagem Comportamento e Cognição De A. Charles Catania Um resumo de Tiago Martins Speckart Referência: Aprendizagem: Comportamento, Linguagem e Cognição de A. Charles Catania. Trad. Deisy das Graças de Souza (et. al.). 4a ed - Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999. Título original: Learning Índice Parte 1 - Introdução Capítulo 1 – Aprendizagem e Comportamento Página 4 Capítulo 2 – Uma taxonomia do Comportamento Página 7 Parte 2 – Comportamento sem Aprendizagem Capítulo 3 – Evolução e Comporamento Página 9 Capítulo 4 – Comportamento Eliciado e Comprtamento Emitido Página 11 Parte 3 – Aprendizagem sem Palavras Capítulo 5 – As Consequências do Responder: Reforço Página 15 Capítulo 6 – As Consequências do Responder: Controle Aversivo Página 21 Capítulo 7 – Operantes: A Seleção do Comportamento Página 28 Capítulo 8 – Operantes Discriminados: Controle de Estímulo Página 32 Capítulo 9 – Discriminação Condicional e Classes de Ordem Superior Página 38 Capítulo 10 – Esquemas de Reforço Página 44 Capítulo 11 – Combiações de Esquemas: Síntese Comportamental Página 48 Capítulo 12 – Comportamento Respondente: Condicionamento Página 53 2 Capítulo 13 – Aprendizagem Social Página 59 Parte 4 – Aprendizagem com Palavras Capítulo 14 – Comportameto Verbal: A Função da Linguagem Página 63 Capítulo 15 – Comportamento Verbal e Comportamento Não-Verbal Página 72 Capítulo 16 – Psicolinguística: A Estrutura da Linguagem Página 79 Capítulo 17 – Aprendizagem Verbal e Transferência Página 85 Capítulo 18 – As Funções do Lembrar Página 87 Capítulo 19 – A Estrutura do Lembrar Página 91 Capítulo 20 – Cognição e Resolução de Problemas Página 93 Parte 5 – Conclusão Capítulo 21 – Estrutura e Função na Aprendizagem Página 95 3 Parte I - Introdução 1 - Aprendizagem e Comportamento Quais as propostas do livro? Tentar responder as questões: (a) qual a natureza dos eventos a que nos referimos como aprendizagem? (b) qual a melhor forma de falar deles? O que é comportamento? “Tudo que um organismo faz” Não sei o porque de o autor não ter utilizado uma definição mais conteporânea de comportamento, já que tal definição “tudo que um organismo faz” é pouco esclarecedora, e o autor posteriormente participou na elaboração de um conceito mais útil para o que é o comportamento. Eu utilizarei como definição de comportamento uma mais atualizada, e que inclui os vários fenômenos abordados ao longo do livro. Tal definição é a que se segue: Comportamento é um sistema1 de interações2 entre valores3 de variáveis de estímulos antecedentes4 que pertencem à uma mesma classe5, valores de variáveis de respostas de um organismo que pertencem à uma mesma classe e valores de variáveis de estímulos consequentes4 que pertencem à uma mesma classe. 1: Sistema aqui é entendido como um conjunto de conjuntos. Neste caso, um conjunto de conjuntos de interações. Isto fica melhor representado na figura abaixo. 4 2: Interação nesta definição serve para mostrar que as mudanças não são unidirecionais, mas que o que modifica também é modificado, e vice-versa. 3: Valores de variáveis. Variável neste caso vem à substituir a palavra propriedade, muito utilizada neste texto. Propriedade não está errado, o que acontece é que a noção de variável mostra claramente que não estamos lidando com propriedades constantes, mas sim com variáveis que variam (pode parecer redundante, mas é um conceito fundamental para mostrar a dinamicidade das interações comportamentais). 4: Antecedentes/Consequentes nesta definição serve para especificar melhor o “meio” em que a resposta está inserida. Há um “meio” antes da resposta e um “meio” após a resposta. Assim fica claro que a resposta modifica o meio, e é modificado pelo meio. 5: Respostas/Estímulos pertencentes à uma mesma classe é diferente de falarmos de classes de respostas/estímulos. O problema consiste que as interações comportamentais não ocorrem entre “classes”: são antes de mais nada com os (valores de) estímulos e (valores de) respostas, que podem pertencer ou não a uma classe. Uma classe é um conjunto, e as interações não são entre os conjuntos, mas sim entre o que está contido (estímulos e respostas) nos conjuntos (classes). 5 O que é aprendizagem? “Usualmente, é o processo no qual um comportamento é adicionado ao repertório do organismo. Aprendizagem não tem uma definição satisfatória. Se estuda como os organismos se comportam de maneiras diferentes. Aprendizagem significa coisas diferentes em diferentes momentos para diferentes pessoas.” O autor tenta não definir restritamente a definição de aprendizagem para tentar ser o mais inclusivo possível. O que ocorre, como pode ser visto no final do resumo, é que os fenômenos da aprendizagem e os procedimentos em que eles ocorrem não são abarcados pela palavra aprendizagem. Faríamos melhor, ao nos referirmos a um fenômeno de aprendizagem, realizar uma descrição exaustiva do fenômeno e o procedimento que o faz possível de acontecer. Olhar página 95 do resumo. Quais são as diferenças entre a linguagem comportamental e da linguagem cognitiva? São dois modos diferentes de se falar de eventos psicológicos. A linguagem Comportamental, por exemplo, nega explicações internas, como a mente. A linguagem Cognitiva aceita explicações internas. As duas lidam com questões diferentes: a primeira com a função, a segunda com a estrutura. Estrutura: aspectos do estímulo. Função: a grosso modo, interações entre estímulos antecedentes, respostas e estímulos consequentes. (ver o que é comportamento) Estímulos são eventos no mundo, que assumem alguma função para alguma resposta. Respostas são instâncias (uma parte) do comportamento. A resposta é definida por seu efeito no ambiente. 6 2 - Uma Taxonomia do Comportamento O que é taxonomia do comportamento? Taxonomia é um sistema de classificação. Taxonomia Comportamental é um vocabulário que permite organizar os vários procedimentos e fenômenos do comportamento. O que é e quais são procedimentos comportamentais? Procedimento comportamental é uma operação experimental; uma intervenção (alteração de variáveis ambientais). Operações comportamentais (a) Observação do comportamento. (b) Operação de apresentação de estímulo. (c) Operação consequencial. (d) Operação sinalizadora ou de controle de estímulos: superposta à apresentação de estímulo. (e) Operação sinalizadora ou de controle de estímulo: superposta às consequências. (f) Operação estabelecedora. Descrição das operações (a) Nenhuma intervenção (b) O estímulo A é apresentado (c) A resposta B tem a consequência C (p.e. um estímulo é produzido ou é terminado) (d) O estímulo D sinaliza a apresentação do estímulo E. (e) O estímulo F sinaliza que a resposta B terá a consequência H. (f) É estabelecida a efetividade de uma consequência I como um reforçador ou como um punidor. No que implica observar o comportamento? A observação por si só raramente identifica as fontes do comportamento e raramente resolve questões. Em qualquer estudo comportamental, apresentar variáveis é inevitável, logo não há observação “pura”. É necessário levar em consideração o efeito da observação no controle do comportamento do sujeito ao observá-lo. Qual a função de Estímulos e Consequências numa operação comportamental? Deve-se manipular estímulos para identificar quais são os mais determinantes. Também deve- se alterar as consequências para avaliar se houve aprendizado. 7 O que é processo de sinalização? Que relações ela pode ter? Operações sinalizadoras = operações de controle de estímulos. Estímulos podem sinalizar tanto outros estímulos quantoconsequências. Sinalização de estímulos: reflexos condicionados. Sinalização de consequências: treino discriminativo. (a) quando um estímulo é o determinante fundamental de uma resposta, dizemos que o estímulo elicia a resposta ou que a resposta é eliciada. (b) quando uma resposta ocorre em presença de um estímulo, porque o estímulo sinaliza alguma consequência do responder, dizemos que o estímulo ocasiona a resposta e que a resposta é emitida. Uma discriminação onde há (ou não) apenas um estímulo discriminativo se chama sucessiva ou vai-não-vai Aquela em que dois ou mais Sd estão presentes e em que cada um está correlacionado a uma R diferente é denominada discriminação simultânea. O que são Operações Estabelecedoras? Operações estabelecedoras alteram o valor das consequências. O comportamento decorrente de uma OE se chama evocado. OEs aumentam ou diminuem a probabilidade de resposta. Deve-se ter cuidado para analisar o que é OE e o que é Sd. O responder evocado por tais operações ocorre em um ambiente relativamente constante. Sd evoca R OE ocasiona R R ocasionados e/ou evocados são emitidos. OEs não fornecem aprendizagens, mas contextos para que esta possa acontecer. Exemplo de diferença entre Sd e OE: João está com sede, aumentando a probabilidade de que comportamentos que comportamentos que levem a saciação sejam ocasionados. Ao avistar uma máquina de refrigerante (Sd para o saciar a sede) o valor reforçador de achar uma moeda é elevado (o comportamento de achar uma moeda é portanto ocasionado). 8 Parte II - Comportamento Sem Aprendizagem 3 - Evolução e Comportamento Contextualização de evolução. Todos os organismos hoje são parentes sobreviventes. Evolução não é uma teoria, é um nome para certos tipos de mudanças que ocorrem com populações biológicas a que denominamos espécie. A seleção natural decorre de variação e seleção. As teorias paralelas à seleção natural foram o (a) lamarckismo, a (b) ortogênese preformacionista e a (c) combinação genética mendeliana com mutação genética. Descrição das teorias: (a) características aprendidas na ontogênese passariam adiante (o que não acontecia, como exemplo mutilações que não eram transmitidas). Porém com o conhecimento provido pela epigenética é possível que algumas alterações ontogenéticas podem afetar em algum grau DNA e ser transmitido a descendentes. (b) evolução ditada por forças internas, sem relação com o ambiente. (c) o modelo mendeliano não explica a variação genética, por isso a junção com a teoria da mutação, mas este modelo de mutação era muito radical. O que é receita e fotocópia? O que isso tem a ver com evolução? Uma receita é uma sequência de procedimentos ou instruções. Ela descreve como criar o produto, mas não incorpora, necessariamente, uma descrição do produto. É pouco provável que contenha informação sobre sua origem. Uma fotocópia geralmente não mostra como construir a estrutura que ela mostra. É uma representação ou cópia, mas a receita não o é. As explicações (a) e (b) tratavam o material genético mais como fotocópias do que como receitas. A biologia moderna encara genes como receitas para o desenvolvimento. São receitas para formação de proteínas, e contém pouca informação sobre seu passado. (c) contribuiu com a seleção natural pela teoria da mutação, que contribui com a variabilidade necessária para as mudanças. Porém hoje sabe-se que mutações ocorrem numa escala bem menor e em maiores períodos de tempo (entretanto mudanças drásticas em um ambiente podem selecionar mutações mais drásticas). Seleção, variação e evolução. Seleção filogenética Variação de comportamentos abaixo ou acima da média são selecionados pela probabilidade de tal aspecto aumentar a probabilidade de sobrevivência da espécie. A seleção é feita pelo 9 ambiente, e ela cria e mantém características (órgãos, sistemas, partes) do organismo. A evolução pode ocorrer gradualmente em relação à uma media da população ou após eventos pontuais que produziram grandes mudanças ambientais. A seleção não substitui mecanismos existentes com outros que realizariam a mesma função. Sistemas de respostas se desenvolveram antes de sistemas sensoriais. Responder diferencialmente foi a base para a seleção de sistemas sensoriais (em ambientes estáveis). Mas nem todos os ambientes são estáveis. Deve ter sido um passo evolutivo importante quando tais padrões de comportamento tornaram-se modificáveis (em outras palavras, tornaram-se capazes de aprender). Contingências evolucionárias selecionaram diferentes tipos de aprendizagem. Algumas permanentes, outras reversíveis; outras somente em situações específicas, outras em situações diversas; algumas possíveis apenas em certos momentos da vida do organismo, outras possíveis ao longo de sua vida. Seleção ontogenética (explorada mais tarde) Sinônimo de seleção por consequências (do organismo). Respostas são selecionadas pelo ambiente, de acordo com as consequências. Seleção cultural (explorada mais tarde) Práticas são passadas para outros sujeitos (por imitação, verbalmente, etc.). Os comportamentos sobrevivem os indivíduos. O comportamento é em que medida filogenético e ontogenético? Em que medida o comportamento advém da filogenia ou da ontogenia (aprendizagem)? Ele é produto de ambas, agora o quanto cada nível de seleção determina o comportamento é outro problema. Temos sempre que considerar as bases filogenéticas do comportamento. O comportamento já começa no embrião. 10 4 - Comportamento Eliciado e Comportamento Emitido. O que é Reflexo? Um tipo de relação entre evento ambiental (estímulo) e uma mudança resultante no comportamento (resposta). Arco reflexo: rota fisiológica do reflexo (receptores, sistema nervoso central, respostas glandulares, musculares, etc.) Diz-se que um estímulo elicia uma resposta. O estímulo assim é chamado de estímulo eliciador e a resposta de resposta eliciada. A relação entre estímulo e resposta neste caso é chamado de reflexo. Reflexo é um subconjunto de relações possíveis no comportamento (neste caso, entre estímulos antecedentes e respostas). Quais as características do comportamento eliciado? Estímulos precisam atingir um limiar para eliciar a resposta. O limiar é estabelecido por certos valores particulares do estímulo. O tempo transcorrido entre o estímulo e a resposta se chama latência de resposta. Respostas ocorrem com alguma magnitude e tem alguma duração. Como estas três variáveis podem covariar elas têm recebido, as vezes, o nome de força do reflexo. Força fraca = limiar alto, latência alta, magnitude baixa e duração baixa. Força forte = limiar baixo, latência baixa, magnitude alta e duração alta. No reflexo, S forte = força de R forte e S fraco = força de R fraca. O que são probabilidades ou frequências relativas e probabilidades condicionais? Probabilidade ou frequência relativa As relações S-R podem ser expressas em probabilidade ou frequências relativas. Então é possível definir os efeitos do estímulo comparando a probabilidade de uma resposta quando o estímulo está presente ou quando o estímulo está ausente. Uma probabilidade ou frequência relativa é uma proporção ou razão: o número de vezes em que o evento ocorre, comparado com o número de vezes em que ele poderia ter ocorrido. p(R1)=1,0 -> 100% de emissão de R ao apresentar S p(R2)=0,6 -> 60% p(R3)=0,0 -> 0% Probabilidade Condicional Como medir o reflexo quando a resposta ocorre com alta frequência (sem a presença do estímulo a ser estudado?) exemplo: piscar o olho (resposta) com e sem presença de um sopro 11 no olho (com ou sem estímulo). Deve-se então comparar probabilidades de respostacom o estímulo e sem o estímulo. p(R/S)=1,0 p(R/nãoS)=0,6 Probabilidade Condicional é a probabilidade em que seu valor é especificado em termos de presença ou ausência de um evento. p(A/B)=probabilidade de A, dado B; ou a probabilidade de A a condição que B esteja presente. Quais os tipos de relações estímulo - resposta? Uma resposta que ocorra sem ser eliciada é emitida. Se uma resposta segue um estímulo, deve-se saber se um estímulo determinou de fato a resposta. As classes de relações (a) S-R. S aumenta a probabilidade de R. p(R/S)=0,75 e p(R/nãoS)=0,5 (b) R emitido, sem relação com S. p(R/S)=0,25 e p(R/nãoS)=0,25 (c) S-R. S diminui a probabilidade de R. p(R/S)=0,1 e p(R/nãoS)=0,9 (d) S-R chamado de reflexo. p(R/S)=1,0 e p(R/nãoS)=0,1. Em termos de probabilidades o que é e o que não é reflexo torna-se mais arbitrário. Excitação de Resposta: Estímulo aumenta p da resposta Inibição de Resposta: Estímulo diminui p de resposta Sistemas explicativos baseados somente somente no reflexo são portanto incompletos. R emitidas eram chamadas de Comportamento Instrumental ou Operante, pois eram instrumentos para mudar o ambiente ou como operavam no ambiente. R eliciado era denominado Comportamento Reflexo. Voluntário ou Involuntário? Comportamento Operante e Comportamento Reflexo tem ambos exemplos de serem voluntários e involuntários e tal distinção não é útil. Nem é útil diferenciar a resposta pela fisiologia da resposta (se é R esquelético-operante ou se é R autônomo-reflexo). O que ocorre após eliciações sucessivas? Duas apresentações diferentes de um mesmo estímulo podem ter efeitos diferentes. O responder eliciado frequentemente depende do número de apresentações do estímulo e de seu espaçamento no tempo. 12 Habituação ou Adaptação É um decréscimo no responder pela repetição constante de estímulo. É uma característica do responder eliciado, podendo ser produzida por uma variedade de estímulos. Pode ser um componente importante no comportamento emocional. Potenciação ou Facilitação É um acréscimo no responder com estimulações repetidas. É mais provável com estímulos aversivos do que com neutros e reforçadores. Não confundir com sensibilização, onde os efeitos eliciadores de um estímulo aumentam como resultado de apresentação de algum outro estímulo (um S aumenta o efeito eliciador de S’). O método de apresentação de S pode determinar se ocorrerá habituação ou potenciação. Efeitos do Tempo desde o último S Eliciador Se o estímulo deixa de ser apresentado por um tempo depois da habituação ou potenciação, a probabilidade de o responder ser eliciado poderá retornar a valores prévios. As mudanças no responder, chamadas de adaptação ou potenciação, não são permanentes* e, à medida que o tempo passa, ocorre um retorno para níveis prévios. *Porém pode ser que casos de potenciação permanente explicariam um responder violento, por parte do sistema imunológico, nas chamadas alergias. O que é padrão temporal do comportamento? A apresentação de um estímulo pode determinar a sequência de respostas que ocorrem ao longo de um período extenso de tempo. O responder que depende de outro responder é chamado de comportamento adjuntivo. Uma resposta acompanha de modo regular outra resposta. Exemplo: após comer, o rato regularmente bebe se possível. Qual o papel do exercício? Antes de se saber sobre o efeito do efeito das consequências sobre o responder, acreditava-se que a repetição do responder mantinha o comportamento, mesmo na ausência do estímulo eliciador. Baseado nisso, pode-se concluir que a eliciação repetida de uma resposta aumenta a probabilidade de que a resposta seja emitida. O papel da lei do exercício na Psicologia da Aprendizagem foi deixado de lado com a escassez de dados, e com o advento das operações cosequenciadoras. O responder pelas consequêcias fica mais forte assim que o responder se torna independente de estímulos eliciadores. Esta seria uma interpretação possível da lei do exercício. 13 Como funciona a estampagem? Estampagem é relação resultante de apresentações de estímulos. Na estampagem, os efeitos de apresentação inicial do estímulo a ser estampado não são as mudanças nas probabilidades do responder. Antes, são as Operações Estabelecedoras. Elas mudam a importância do estímulo. O S estampado adquire sua importância para o organismo simplesmente por ter sido apresentado sob circunstâncias adequadas. Exemplo clássico: estampagem com patos filhotes, onde um estímulo grande que se move (uma mãe pata ou uma caixa sobre rodas) terá seu valor alterado drasticamente por ter sido apresentado sob circunstâncias adequadas (neste caso, o início da vida do patinho). Qual a relação entre operações estabelecedoras e a importância de estímulos? As mudanças na importância dos estímulos que ocorrem com as operações estabelecedoras são discutidas em termos de impulso e motivação. Estudos fisiológicos de motivação normalmente estão relacionados nas relações entre os fatores orgânicos e a importância de estímulos. Ex: hormônios e comportamento sexual. A motivação logo não é uma força ou impulso a ser localizada dentro do organismo; antes, é um termo aplicado a muitas variáveis orgânicas e ambientais, que tornam vários estímulos importantes para um organismo. 14 Parte III - Aprendizagem Sem Palavras 5 - As consequências do Responder: Reforço Reforço e Extinção Labirintos, curvas de aprendizagem, câmaras experimentais e registros cumulativos. O decréscimo gradual do tempo gasto na realização de uma tarefa veio a se chamar aprendizagem por tentativa e erro. Acreditava-se que a inteligência de espécies poderia ser medida pelo tempo de resolução de caixas-problema, labirintos (como os de Thorndike) e outros aparatos. Na época se perguntava se a aprendizagem ocorria por saltos discretos ou eram na base do tudo-ou-nada (insights). Os organismos nestas tarefas aprendiam movimentos ou propriedades dos ambientes? De qualquer forma, os experimentos indicavam que o responder se tornava mais provável após certas consequências. Curvas de aprendizagem são gráficos que mostram como o comportamento muda durante o experimento. Medir tempo de desempenho não especificava o que os organismos estavam realmente fazendo durante o tempo. Ocorreram duas inovações na pesquisa experimental: -Um aparelho construído de tal modo que o organismo podia emitir rapidamente, sem a intervenção do experimentador, uma resposta facilmente especificada; diferente de labirintos e caixa-problemas. -Um método de registro, baseado diretamente na taxa ou frequência de respostas, em contraposição às medidas indiretas derivadas de sequências de respostas ou de grupos de organismos (médias de curvas de aprendizagem de vários organismos). Inovações pensadas para reduzir a manipulação do organismo, simplificando o trabalho do experimentador. Caixa experimental = Caixa de Skinner. Algumas características de registros cumulativos: Quanto a textura ou granulação: Registro em degraus - surtos de respostas. 15 Registro liso - respostas constantes Quanto à aceleração: Positiva - poucas respostas no início com um aumento no final Negativa - muitas respostas no início com um decréscimo no final Para outras características, olhar página 89 O que é reforço? Terminologia do reforço. Esta terminologia é adequada se, e somente se, estiverem presentes as seguintes 3 condições: (1) uma resposta produz alguma consequêcia, (2) a resposta ocorre com mais frequência do que quando não produz consequências e (3) o aumento das respostas ocorre porque a resposta tem aquela consequência. 16 Termo Restrições Exemplos Reforçador (substantivo)Um estímulo. Pelotas de alimento foram empregadas como reforçadores para as pressões à barra por ratos. Reforçador (adjetivo) Uma propriedade de um estímulo. O estímulo reforçador era produzido mais frequentemente do que outros estímulos não reforçadores. Reforço (substantivo) Como uma Operação, apresentar consequências quando uma resposta ocorre. Como um Processo, o aumento nas respostas que resultam do reforço. O esquema de reforço em razão fixa programava a apresentação de alimento a cada 10 respostas de bicar. O experimento com macacos demonstrou reforço produzido por consequências sociais. Reforçar (verbo) Como uma Operação, apresentar consequências quando uma resposta ocorre; respostas são reforçadas, não organismos. Como um Processo, aumentar o responder mediante a operação de reforço. Quando um período de recreio foi usado para reforçar o cumprimento de uma tarefa escolar, as notas da criança aumentaram. O experimento foi planejado para verificar se estrelas douradas reforçariam jogos de cooperação em alunos de 1a série. Princípio do reforço: o responder aumenta quando produz reforçadores. Problema lógico: quando uma resposta se torna mais provável porque produziu um S, dizemos que a R foi reforçada e que S é reforçador. Se os perguntam como sabemos que S é reforçador, podemos dizer que a R foi reforçada. Logo começamos a nos repetir. Uma solução seria reconhecer que o termo reforço é descritivo, não explicativo. Ele nomeia uma relação entre uma classe de respostas e uma classe de estímulos. A relação é composta pelas 3 condições da terminologia do reforço: (1) uma resposta produz alguma consequêcia, (2) a resposta ocorre com mais frequência do que quando não produz consequências e (3) o aumento das respostas ocorre porque a resposta tem aquela consequência. Caso o R aumente, é precipitado dizer que R foi reforçado antes de avaliar que outras relações podem ter ocorrido (R pode ter sido eliciado em algum grau p. e.). A eficácia de reforçadores é variável e consequências podem reforçar certas classes de respostas e não reforçar outras. (ver relatividade de reforço). O reforço não é uma explicação da aprendizagem: antes, faz parte da descrição do que é aprendido. Os organismos aprendem as consequências de seu próprio comportamento. O que é extinção? O responder volta aos níveis anteriores tão logo o reforço seja suspenso. Operação: Extinção. Resultado da operação: responder extinto. Os efeitos do reforço são temporários. 17 A redução no responder durante a extinção não é um processo especial que requeira um tratamento separado, é uma das propriedades do reforço. Termo em desuso: resistência à extinção. Problema: qual critério para observar a resistência à extinção? Tempo sem respostas?l ou total de respostas acumuladas? Em contrapartida a resistência a mudança é uma importante propriedade do comportamento. Comportamentos resistentes a mudança são os que após reforços e repetidas práticas são executados com grande exatidão e latência curta, se tornando fluentes. Quando fluentes, é improvável que sejam perturbados por mudanças no ambiente ou por outras distrações. Qual a diferença entre extinção e inibição? Se não ocorresse a extinção, os efeitos do reforçamento seriam permanentes. Por muito tempo se supôs que a extinção suprimia ativamente o responder. Afirmava-se que a extinção tinha efeitos inibitórios, ao contrário dos efeitos excitatórios supostos para o reforço. Por isto reforço e extinção eram tratados diferencialmente, quando hoje sabe-se que são dois aspectos do mesmo fenômeno. Um exemplo de recuperação do responder (previamente extinto) é a regressão (ou ressurgimento), onde um responder extinto tem maior probabilidade de emissão devido a extinção de um responder atual. O que são contingências resposta-reforço e apresentações do reforçador? Descontinuar o reforço tem dois efeitos: (1) eliminar a contingência entre as R e os reforçadores, de modo que (2) os reforçadores não mais ocorrem. Neste contexto, contingência 18 descreve as consequências do responder; aqui ele indica o efeito de uma resposta sobre a probabilidade de um estímulo. O procedimento padrão de extinção envolve a (1) suspensão da contingência e (2) das apresentações do estímulo. Porém suspender a contingência e manter a apresentação de estímulos tem consequências diferentes da suspensão total de (1) e (2). Em ambos os casos o responder reforçado diminui. Mas descontinuar (2) altera outra faixa de respostas. Tomando o rato como exemplo, ao suspender a apresentação de estímulo certas respostas tornam-se mais prováveis, como comportamentos agressivos, defecar e urinar. Estes efeitos (colaterais) não são decorrentes da suspensão da contingência, mas sim da apresentação do estímulo. As operações comportamentais, tem, em geral, mais de um efeito. O que extinção tem a ver com superstição? A suspensão das contingências sem a suspensão da apresentação de estímulo não se tornou a operação usual para se estudar a extinção por poder ocasionar o processo de superstição. Superstição neste caso ocorre pela sucessão acidental de respostas e reforçadores, pois R não gera S (R não é contingente à S), mas o organismo se comporta como se fosse. O responder supersticioso é um problema na análise do comportamento, pois tais comportamentos podem ocorrer quer os reforçadores sejam consequências das respostas ou não. As consequências podem reforçar diferentes propriedades das respostas. Os reforçadores com oportunidades para o comportamento O que é relatividade de reforço? Coloquialmente chama-se reforçadores de “recompensas”, mas isto é um equívoco. Os reforçadores não funcionam porque fazem o organismo “se sentir bem”. Nossa linguagem cotidiana não captura as propriedades essenciais dos reforçadores. Alguns eventos que, superficialmente, parecem “recompensadores” podem não funcionar como reforçadores; o contrário também é válido. Um exemplo são quedas livres em brinquedos de parques de diversão, não “recompensadores”, mas muito provavelmente reforçadores. A efetividade de um reforçador depende da sua relação com as respostas que o produzem. Reforçadores não podem ser definidos independentemente das respostas que reforçam. Reforçadores são relativos e suas propriedades importantes são baseadas nas respostas às quais eles criam oportunidade de ocorrência. A privação (e alguns tipos de OEs) torna os reforçadores mais efetivos, porque a probabilidade de uma resposta em geral aumenta quando a oportunidade de se engajar nela fica restrita. 19 O reforço é uma relação, que envolve o responder, suas consequências e a mudança no comportamento que se segue. Como um comportamento é adquirido? Como um organismo pode adquirir respostas por meio do reforço? Reforço não produz aprendizado, produz comportamento. Ao observar se o rato pressiona a barra quando a contingência de reforço está em operação e não na sua ausência estamos simplesmente interessados em até que ponto o rato aprendeu as consequências de sua ação de pressionar a barra. As consequências do responder são críticas para a aprendizagem não porque a aprendizagem ocorra a partir delas, mas porque elas são o que é aprendido. Certas contingências envolvem o modo pelo qual o ambiente é afetado pelo comportamento, sendo, portanto, características importantes do ambiente a serem aprendidas pelos organismos. O que é aprendizagem latente? Experimentos (em labirintos) sobre aprendizagem latente mostravam que a aprendizagem poderia ocorrer “sem reforço”. Porém se contra-argumentouque outros reforços não planejados estavam atuando, como os reforços sensório-motores, o acesso para a caixa com alimento e água, etc. A aprendizagem latente portanto deixou de ser uma questão teórica crítica, pelo argumento que sempre há uma consequência a resposta, e são estas consequências que o organismo aprende. Chamá-las de reforçadores é uma questão de preferência. O que é aprendizagem sensório-motora? A interação dos processos sensoriais com o comportamento tem sido uma fonte de controvérsias na Psicologia da Aprendizagem. A aprendizagem é motora ou sensorial? Os organismos aprendem respostas ou relações entre estímulos? Aprendem associações resposta-estímulo ou não associações estímulo-estímulo? Os processos sensoriais são comportamentais como relações entre classes de estímulos e classes de respostas. Olhar aumenta a probabilidade de ver, e desta forma o olhar é mantido por suas consequências. Sons, luzes e outros eventos básicos tem sido descritos como estímulos neutros, mas este rótulo, embora conveniente, é um nome enganoso. Os eventos não podem ser verdadeiramente neutros se forem consequências do comportamento. Após experimentos o fenômeno chamado reforço sensorial foi estabelecido, podendo-se discutir com mais clareza a curiosidade e o comportamento exploratório (podendo o reforço sensorial ser uma possível consequência determinante de tais comportamentos). 6 - As consequências do Responder: Controle Aversivo 20 Controle aversivo = punição + reforço negativo O que é punição? Terminologia da punição. Esta terminologia é adequada se, e somente se, estiverem presentes as seguintes 3 condições: (1) uma resposta produz alguma consequêcia, (2) a resposta ocorre com menos frequência do que quando não produz consequências e (3) a diminuição das respostas ocorre porque a resposta tem aquela consequência. Termo Restrições Exemplos Punidor (substantivo) Um estímulo. Choques foram empregados como punidores para as pressões à barra por ratos. Punitivo (adjetivo) Uma propriedade de um estímulo. O estímulo punitivo era produzido menos frequentemente do que outros estímulos não punitivos. Punição (substantivo) Como uma Operação, apresentar consequências quando uma resposta ocorre. Como um Processo, a diminuição nas respostas que resultam da punição. O esquema de punição emparelhada com um esquema de reforço de razão fixa 10 programava a apresentação de choques e alimento a cada 10 bicadas. O experimento com macacos demonstrou punição produzido por consequências sociais. Punir (verbo) Como uma Operação, apresentar consequências quando uma resposta ocorre; respostas são punidas, não organismos. Como um Processo, diminuir o responder mediante a operação de punição. Quando um castigo foi usado para punir o cumprimento de uma tarefa escolar, as notas da criança diminuiram. O experimento foi planejado para verificar se broncas puniriam jogos de cooperação em alunos de 1a série. Punição pode se referir a processos e operações. Operação: apresentar consequência punitiva. Processo: a redução do responder. É mais adequado usar punição como operação, e se referir ao processo pelos efeitos diretos no responder. Como no reforço, são as respostas que são punidas, não organismos. 21 Comparando Reforço e Punição O efeito da punição é o contrário do reforço. Extinção: suspensão do reforço e diminuição do responder até a linha de base. Recuperação: suspensão da punição e aumento do responder até a linha de base. Punição é inadequado no controle do comportamento não por ser temporário, já que segundo este critério o reforço também seria inadequado, já que ambos são temporários. Ver ética do controle aversivo. Como estudar punição se não há mais o responder? O que acontece se a recuperação ultrapassar a vida de um organismo? Os efeitos da punição devem ser estudados, pois é uma forma de controle presente e atuante. Como o reforço, o efeito da punição deve depender da relação entre as respostas e os estímulos punitivos (contingências) e não simplesmente da aplicação de punidores. Ver relatividade da punição. O termo punição se aplica à relação entre o responder e a consequência. A questão é, principalmente, saber quando a aplicação do termo é apropriada. Ambas as operações tem efeitos temporários; quando interrompidas, o responder retorna a níveis prévios. Como Punição é relativa? Experimentos com punição costumam usar choques como estímulos por sua relação fidedigna sobre uma variedade de respostas, porém este é um exemplo extremo de punidor. Esguichos de água podem punir efetivamente comportamentos autolesivos fortes, sendo que um estímulo inofensivo pode atuar como punidor. Da mesma forma que reforçadores, punidores não podem ser especificados em termos absolutos, nem em termos de variáveis em comum. Eles devem ser avaliados com base na relação entre as respostas punidas e as respostas ocasionadas pelo estímulo punitivo. Os estímulos e as respostas em experimentos típicos de reforço e punição têm sido escolhidos de modo a fazer com que estes experimentos funcionem. Eles obscurecem, assim, a reversibilidade potencial das consequências como reforçadoras ou punitivas. O responder pode ser aumentado ou reduzido pela mudança de suas consequências, e esses efeitos são determinados pelas propriedades comportamentais, e não pelas propriedades físicas, das consequências. Quais são os efeitos eliciadores dos estímulos punitivos? Estímulos punitivos podem ter efeitos independentes de sua relação de contingência com as respostas. A dificuldade em estudar a punição é distinguir os diferentes efeitos da punição que não tem relação com a contingência. 22 Devemos distinguir os diferentes efeitos da aplicação de estímulos contingentes a resposta das aplicações não contingentes a resposta. É importante reconhecer os efeitos separados de contingências resposta-estímulo e das apresentações de estímulo As vezes é mais apropriado comparar o choque produzido pela resposta com o choque produzido independentemente da resposta do que com uma situação sem choques. O choque, por exemplo, elicia respostas manipulativas (pressionar a barra) em macacos. Estes efeitos foram observados em Intervalo Fixo 5 minutos, onde o responder se manteve alto. Porém comparando com outras contingências outros resultados surgiram. O responder foi menor em IF 2m, mostrando que o responder aumentava com menos estímulos por resposta. E em esquemas onde a punição era aplicada a cada resposta o responder ficou bastante reduzido. Em cotrapartida, o responder do macaco era menor sem punições do que no esquema de IF 4m. Esses efeitos eliciadores do choque podem ser fortes o suficiente para anular seus efeitos punitivos, de modo que pressionar a barra ocorre a despeito de, e não por causa, da contingência punitiva. Quais são os efeitos discriminativos dos estímulos aversivos? Outro efeito colateral da punição pode ocorrer, porque os estímulos punitivos podem adquirir propriedades discriminativas, como quando uma resposta é reforçada apenas quando é também punida. Uma analogia humana seria a de uma criança que apanha pode provocar o pai a ponto de ser surrada, porque a surra geralmente é seguida por uma quantidade de atenção do pai arrependido que é maior do que a atenção em outros contextos. A atenção pode ser um reforçador poderoso e superar consequências que, de outra forma, serviriam de estímulos punitivos. O que é reforço negativo? Definição antiga: Quando uma resposta termina ou evitaum estímulo aversivo e, assim, torna-se mais provável, o estímulo é denominado reforçador negativo e a operação de reforço negativo. A distinção entre reforço positivo e negativo depende se uma resposta produz ou remove um estímulo Definição conteporânea: 1. O reforço faz a resposta reforçada aumentar. 2. A punição faz a resposta punida diminuir. 3. O adjetivo positivo significa que a consequência do responder é a adição de um estímulo ao ambiente do organismo. 4. O adjetivo negativo signiica que a consequência do responder é a subtração de um estímulo ao ambiente do organismo. 5. Os reforçadores e punidores são estímulos e a não ausência de estímulos (supondo que seja possível fazer uma distinção clara). 23 O que caracteriza a fuga? Procedimento simples de fuga: a resposta de um organismo suspende um estímulo aversivo. A terminologia da fuga e da esquiva (ver esquiva) é consistente com o uso cotidiano. A pesquisa em reforço negativo é dominada por procedimentos mais complexos, como a esquiva. Qual a relação entre o responder eliciado e a fuga? O motivo da relativa negligência em se pesquisar a fuga é que geralmente é fácil aumentar a probabilidade de respostas utilizando o reforçamento positivo, mas, às vezes, é difícil fazer isso, utilizando o reforçamento negativo em procedimentos de fuga. Parte da dificuldade ocorre, em parte, porque a relação temporal entre as respostas reforçadas e as respostas produzidas por um reforçador difere, no reforço positivo, daquela produzida no reforço negativo. Também no reforço negativo o estímulo está presente antes que a resposta a ser reforçada possa ser emitida. E o estímulo aversivo aumenta a probabilidade de outras resposas concorrentes com a resposta a ser reforçada sejam emitidas, diminuindo a probabilidade de que a resposta a ser reforçada seja emitida. 24 Exemplo: Para fugir de uma luz intensa o rato pode fechar os olhos e se encolher em um canto, sendo que qualquer comportamento que seja emitido será punido pela luz intensa (enquanto que se o rato apertasse a barra a luz cessaria). Sobre a ambiguidade da distinção entre reforço positivo e reforço negativo. Se os estímulos são apresentados ou removidos, isso pode ser um critério menos importante na distinção entre reforço positivo e reforço negativo do que se as respostas geradas pelo reforçador ocorrem em momentos em que elas podem competir com a resposta reforçada. Podemos considerar as mudanças no ambiente do organismo que produzem um contínuo de efeitos, que variam entre aqueles em que outras respostas têm alta probabilidade de preceder e competir com a resposta reforçada, até aqueles em que elas não fazem ou talvez até mesmo contribuam para um aumento na probabilidade de ocorrência da resposta reforçada. O que caracteriza a esquiva? Na esquiva, o estímulo aversivo não está presente quando a resposta reforçada ocorre. O procedimento simples de esquiva: a resposta evita ou atrasa um estímulo aversivo. As duas principais variantes da esquiva são denominadas cancelamento e adiamento. Analogia para cancelamento: matar um pernilongo antes que ele pique você. Analogia para evitação: colocar fichas em um telefone público para manter a ligação. O comportamento de esquiva costuma ser persistente e sua extinção lenta. A consequência de uma resposta de esquiva é que nada acontece. Embora seja fácil manter a persistência do comportamento de esquiva, é difícil instalar este comportamento. Isto explica porque medidas preventivas são difíceis de modelar e manter: elas não tem consequência aparente. O que são reações de defesa específicas da espécie? Uma vantagem dos procedimentos de esquiva sobre os de fuga é que a resposta reforçada ocorre na ausência do estímulo aversivo. Assim, outras respostas geradas pelo estímulo aversivo não compete continuamente com a resposta de esquiva. Também certas respostas funcionam melhor sob fuga, outras melhor sob esquiva. Tem se argumentado que as diferenças surgem porque os organismos são equipados de maneira variada, com respostas de defesa que são específicas da espécie. Sendo assim, o sucesso com procedimentos de esquiva dependerá de o experimentador escolher respostas que o organismo puder emitir. Certos comportamentos de esquiva podem ter tido grande valor de sobrevivência no passado, e por isso, foram selecionados filogeneticamente. Comportamentos específicos da espécie limitam o que pode ser aprendido. Saber se o responder de esquiva se mantém por prevenir a consequência aversiva, ou por uma resposta da espécie, é uma questão experimental. Algumas diferenças podem também depender dos determinantes específicos da espécie para o que é aversivo, p.e. o barulho de correnteza de água como estímulo aversivo para castores, sendo este estímulo um possível determinante para a construção de diques em rios. 25 Qual é a natureza do reforçador na esquiva? Outra questão é especificar o que reforça o responder na esquiva. Por a esquiva bem sucedida não gerar consequências, como pode a ausência de evento reforçar o comportamento? Uma teoria foi formulada a partir de experimentos que envolviam a sinalização do estímulo aversivo, sendo que tal estímulo sinalizador adquiriria propriedades aversivas ao ser consistentemente emparelhado com o estímulo aversivo. O término do estímulo sinalizador reforçaria negativamente a resposta evasiva. Tal concepção foi denominada teoria dos dois processos de esquiva. Mas o efeito do reforço voltou ao debate depois que Sidman realizou seus experimentos com esquiva não sinalizada. Também outro problema surgiu com experimentos onde a esquiva diminuía a taxa total de estímulos aversivos, mas não completamente. (ver páginas 123-125 para maiores detalhes). Orientações molar e molecular em Análise do Comportamento. Molecular: lida com o comportamento em termos de sequências de eventos, momento a momento, em um dado contexto. Molar: lida com propriedades que podem ser medidas ao longo de extensos períodos de tempo. Abordagem molecular da esquiva examina os intervalos de tempo individuais que separam respostas particulares de choques individuais. Abordagem molar da esquiva examina a relação mais geral entre taxas de resposta e as taxas de choque ao longo de uma amostra grande de respostas. As propriedades molares e moleculares do comportamento podem ser importantes em contextos diferentes. É razoável supor que a evolução equipou os organismos com a capacidade de responder, diferencialmente, a muitas propriedades das situações que se encontram. A questão é decidir qual abordagem é mais apropriada à análise de uma dada situação. Qual a relação entre extinção, fuga, esquiva e reforço negativo? Os efeitos da extinção também são temporários. Os efeitos de eliminar contingências devem ser distinguidos das de eliminar estímulos aversivos. Em fuga, o responder cessa pois não há mais ocasião para responder. No entanto, em esquiva, desligar a fonte do choque é, às vezes, considerado uma operação de extinção. Se o responder da esquiva for mantido por raros estímulos aversivos, o responder continuará por um longo tempo. Por essas razões a esquiva em sido considerada relevante para casos de comportamento humano, como compulsões. Suspender as apresentações do estímulo aversivo tem sido o procedimento de extinção mais comum em esquiva, mas apresentar o estímulo aversivo enquanto interrompe-se as contingências do responder é um paralelo mais próximo da extinção após reforço negativo. 26 Sobre punição positiva e punição negativa. Também é possível distinguir entre punição positiva e negativa (embora aqui também sejam possíveis casos ambíguos). É difícil estudara punição negativa experimentalmente retirando-se o reforço positivo; o que se tem feito é a remoção de um estímulo na presença do qual as respostas são reforçadas, o que é um paralelo da ênfase na esquiva e não na fuga, em estudos de reforço negativo. Tais períodos sem estímulos sinalizadores que ocasionam reforço da resposta são chamados de suspensão discriminada das contingências de reforço, às vezes, de punição por timeout de reforço positivo. Os procedimentos que sinalizam punição negativa têm sido chamados de treino de omissão. Assim como qualquer forma de punição, a função principal da punição negativa é reduzir certos comportamentos, mas ela é frequentemente aplicada sem uma atenção para os comportamentos alternativos que poderiam ser reforçados. A utilização do timeout sem a compreensão de suas bases comportamentais pode ser contraproducente. Sobre a linguagem e a ética do controle aversivo. Ao falarmos de estímulos punitivos, reforçadores negativos e estímulos aversivos, temos que lembrar que cada um é apropriado em contextos diferentes. Estímulos aversivos foram apresentados com fenômenos de eliciação, os estímulos punitivos foram apresentados durante a discussão de consequências que reduzem o responder e os reforçadores negativos foram incluídos como classes de consequências que aumentam a probabilidade de resposta. Seria conveniente se pudéssemos supor que cada termo identifica diferentes aspectos de uma categoria única de eventos. Para muitos estímulos, na maior parte do tempo, tal premissa é possivelmente correta. Mas devemos lembrar das diferentes probabilidades de resposta e da relatividade de reforçadores e punidores. Tal premissa não é garantida. As propriedades comportamentais do controle aversivo têm implicações que são consistentes com os argumentos éticos contra o controle aversivo. A punição só é justificável em casos extremos, como comportamentos autolesivos (a punição pode prevenir danos permanentes). Porém a punição permanece como uma prática recorrente de controle alheio, por sua imediaticidade da diminuição do responder; o reforço positivo é mais complexo de ser aplicado e tem consequências atrasadas. É necessário estudar os mecanismos do comportamento para prevenir seus maus usos. 27 7 - Operantes: A Seleção do Comportamento O que é modelagem? Modelagem é o reforçamento de respostas que se aproximem de uma resposta alvo. Modelar implica em um meio termo entre os extremos da apresentação frequente e não frequente de reforço. Reforçar demais sacia e pode fortalecer respostas não planejadas. Reforçar pouco leva a extinção. A modelagem também pode ocorrer como um resultado de contingências naturais e também pode gerar mudanças qualitativas abruptas, ao invés de lentas aproximações de propriedades de uma classe de respostas (exemplos destes processos na página 131). A modelagem é baseada no reforço diferencial: em estágios sucessivos, algumas respostas são reforçadas e outras não. À medida que o responder se altera, os critérios para o reforço diferencial também mudam. A propriedade do comportamento que torna a modelagem efetiva é a variabilidade do comportamento. O paradoxo (antigo) da modelagem é que não aumentamos a probabilidade de uma mesma resposta ocorrer porque nunca uma resposta é igual a outra. Mas não se lidam com respostas singulares, mas sim com diferentes respostas que pertencem a uma mesma classe. O que são classes de respostas e classes operantes? Não podemos discutir o comportamento apenas em termos de respostas isoladas. As respostas individuais são instâncias do comportamento, e cada uma pode ocorrer apenas uma única vez; as respostas podem ter propriedades em comum, mas não podem ser idênticas em todos os aspectos. Assim temos que respostas reforçadas produzem outras respostas que não a mesma resposta, mas não podemos agrupar respostas sem distinção, porque ficaríamos sem nada a falar a não ser do comportamento em geral. Um nível intermediário de análise, que não são respostas individuais nem o comportamento em geral, mas sim classes de respostas definidas por propriedades em comum. Se as consequências modificam a probabilidade de respostas de uma classe ela é denominada classe operante. Conceitos antigos relacionados a classe operante: instrumental, voluntário. Comportamentos “autônomos” podem ser operantes (ver exemplo na página 133). 28 Essa definição de classes de respostas depende de propriedades comportamentais do responder e não de propriedades fisiológicas, como a distinção somática-autonômica. As propriedades comportamentais de classes operantes são baseadas na operação denominada reforço diferencial (o reforço de apenas algumas respostas de uma classe de respostas). Esta operação torna o responder subsequente cada vez mais estreitamente ajustado às propriedades definidoras da classe. A característica essencial de um operante é a correspondência entre uma classe de respostas definida por suas consequências e o espectro de respostas geradas por essas consequências. O que é diferenciação e indução? Indução: extensão do efeito do reforço a outras respostas não incluídas na classe reforçadora. Sinônimo ocasional: generalização de respostas. Diferenciação: processo de distribuição de respostas emitidas que passa a se circunscrever estreitamente aos limites da classe de respostas reforçadas. O responder estabelecido desta maneira é denominado diferenciado. Quais as diferenças entre topografia e função na classe operante? Vimos como classes de comportamentos podem ser criadas por meio de reforço diferencial. Mas elas não são definidas por sua topografia, mas sim por sua função comum. Topografia: pisar na barra, morder a barra para baixo, sentar na barra, pressionar a barra com a pata esquerda, direita ou ambas. Função comum: todas produzem as mesmas consequências. Os operantes são definidos por suas funções e não por suas formas. Respostas com topografias similares, mas funções diferentes, serão agrupadas em diferentes classes. Reforço diferencial da organização temporal. As propriedades temporais do responder incluem a latência, a duração e o ritmo. Quaisquer dessas propriedades podem servir de base para o reforço diferencial. Reforço diferencial de baixas taxas - DRH (Differential reinforcement of low response rate). Exemplo: DRL10" = um rato é reforçado pela primeira resposta depois de 10s, mas se o rato responder antes que 10s não haverá reforço e o rato terá que esperar 10 segundos a partir da última resposta. Reforço diferencial de altas taxas - DRH (Differential reinforcement of high rate). Muitas R em pouco t para receber reforço. 29 Exemplo: DRH10"/15 responses = um rato deve apertar a barra 15 vezes dentro de 10 segundos para receber reforço. A taxa de resposta não é uma medida fundamental do reforço, mas é apenas uma propriedade do comportamento que pode ser diferenciada. O responder sob DRL ocorre a uma baixa taxa, mas é facilmente estabelecida e sustentada. O responder sob DRH ocorre a uma taxa alta, mas é difícil de se estabelecer e é frágil quando estabelecido. Outras classes de reforço diferencial: Reforço diferencial de responder espaçado: estabelece limites tanto inferiores quanto superiores para os IRT (tempo entre respostas) que precedem uma resposta reforçada e que tende a manter uma taxa de respostas razoavelmente constante. Reforço diferencial de outro comportamento (DRO): apresenta um reforçador na condição que ocorra um tempo definido sem a resposta especificada. Este é o nome técnico para o procedimento geralmente usado para programar reforço para comportamentos alternativos.A estrutura do operante Noção de comportamento complexo em labirintos. Além de respostas discretas, sequências complexas de respostas também podem ser tratadas como classes operantes. Exemplo: o percurso por um labirinto pode ser considerado uma resposta única, mas complexa. Escolher os caminhos certos pode ser reforçado diferencialmente. O responder em um labirinto não é fruto de tentativas e erros, nem de hipóteses que o organismo formula, são antes alterações consistentes no responder integrado de um organismo. Sequências de respostas: qual a diferença entre encadeamento e unidades temporalmente extendidas? Quebrar uma sequência comportamental pode mostrar uma sucessão de operantes. Este tipo de sequência é denominado cadeia de respostas, onde as respostas tem funções duplas: elas reforçam a resposta anterior (ver reforço condicionado) e servem de ocasião para a próxima resposta. Alguns componentes de certas cadeias são independentes entre si, mas algumas sequências apresentam outros problemas: as respostas são sequências específicas de respostas encadeadas ou unidades temporalmente extendidas, não redutíveis a tais sequências? Esta é 30 uma questão experimental, onde ambos os processos podem ocorrer. O desafio é saber qual sequência está em vigor. Classes operantes e comportamento novo. As classes operantes podem ter propriedades mais complexas, como nos casos de reforço diferencial, labirintos e sequências de respostas interligadas. O nosso interesse principal está nas dimensões ao longo das quais o responder se conforma à classe de respostas que é reforçada. A estrutura do comportamento é tal que nem sempre podemos definir tais dimensões independentemente das contingências de reforço. Tomando o exemplo do treino de golfinhos para diferenciar respostas novas. Como definir tal classe operante sem ser pelo critério de reforço? O fato de que temos dificuldade em medir a originalidade ou outras dimensões complexas do comportamento não as elimina como propriedades que possam definir as classes operantes. Mesmo a variabilidade do responder pode ser tomada como base para o reforço diferencial. Isto mostra que organismos são sensíveis a populações de respostas e consequências ao longo de extensos períodos de tempo, e não meramente a sequências individuais resposta- estímulo (ver análises molares x moleculares). 31 8 - Operantes Discriminados: Controle de Estímulo O que são operantes discriminados? O reforço diferencial também pode ocorrer com base nas dimensões em cuja presença as respostas ocorrem. Quando o responder é reforçado apenas na presença de alguns estímulos, dizemos que o reforço é correlacionado com aquele estímulo. Uma classe de respostas criada por este reforço diferencial em relação às propriedades do estímulo é chamada de operante discriminado. É bem possível que não exista uma classe operante sem estímulos discriminativos. Mesmo o ambiente constante de um organismo atua controlando seu comportamento. SDs estabelecem a ocasião em que as respostas têm consequencias, e diz-se que eles ocasionam respostas. Notação científica usual: SD: estímulo discriminativo (ou) S+: estímulo positivo SΔ: estímulo correlacionado com o não reforço (ou) S-: estímulo negativo (o mais apropriado seria S0, pois nada é removido em presença deste estímulo). A dispersão do efeito do reforço na presença de um estímulo para outros estímulos não correlacionados com o reforço é denominada generalização. Discriminação: processo no qual estímulos que ocasionam o responder vieram a conformar-se estreitamente com a classe de estímulos correlacionada com o reforço. O responder sob tal controle de estímulo é denominado de comportamento discriminado. Devemos reconhecer duas classes de estímulos: 1. Uma classe correlacionada com a contingência de reforço. 2. Uma classe onde o responder ocorre. O interesse está na correspondência entre estas 2 classes. Os estímulos estabelecem a ocasião para as respostas pois quando uma classe de respostas é definida pela presença de um estímulo, as respostas nesta classe não podem ocorrer quando o estímulo está ausente. Quando falamos de diferenciação e indução ou de discriminação e generalização, a operação subjacente em cada caso é o reforço diferencial. Tanto a diferenciação quanto a discriminação envolvem correspondências entre as dimensões sobre as quais o reforço diferencial é aplicado e as dimensões do comportamento resultante. Porque atentar para as propriedades de estímulo? 32 Ao discutir a correspondência entre os estímulos com os quais as contingências de reforço estão correlacionadas e os estímulos os quais o organismo responde, fala-se a partir de um valor de estímulo específico. Os estímulos são variáveis e não há garantias que o organismo responda a apenas um grupo de variáveis específicas. As variáveis de estímulo às quais um organismo tende a responder discriminativamente são, às vezes, denominadas salientes. Mas saliência não é uma variável de um estímulo, mas sim uma propriedade do comportamento do organismo com relação à aquele estímulo. O conceito de atenção é essencial em um tratamento dos operantes discriminados, porque os organismos tendem a responder a algumas variáveis de estímulos, e não a outras. Na medida em que atentar para, ou prestar atenção a uma variável ou a outra, é algo que os organismos fazem, podemos tratá-lo como um tipo de comportamento (ver capítulo 20). Uma razão importante para tratar a atenção desta maneira é que o atentar (para) pode ter consequencias. Aprendizagem de lugar x Aprendizagem de resposta. A questão é se os organismos aprendem dimensões das respostas (uma sequência específica em um labirinto, por exemplo) ou aprendem dimensões do estímulo (se movimentar em direção a um local particular, se movimentando em um labirinto em direção à uma janela, p.e.). As propriedades espaciais do ambiente são particularmente importantes, mas, em circunstâncias apropriadas, um rato pode aprender propriedades do ambiente. Gradientes de controle de estímulo Em um procedimento de diferenciação, o organismo determina a ordem das respostas, mas em um procedimento de discriminação o experimentador deve decidir a ordem em que os estímulos são apresentados. Um experimentador que esteja interessado em algum contínuo de estímulo (isto é, alguma dimensão ao longo da qual os estímulos podem variar, como a intensidade ou a posição de uma luz) deve preocupar-se com quantos estímulos apresentar, por quanto tempo de que forma os estímulos deveriam ser correlacionados com o reforço e com o não reforço, para mencionar algumas das possibilidades mais importantes. A seguir, alguns exemplos de possíveis gradientes de controle de estímulo. Gradientes de Generalização Se uma resposta é reforçada durante um estímulo, e alguma propriedade daquele estímulo então é variada, o responder pode depender de quanto o estímulo mudou. 33 Os efeitos do reforço na presença do vermelho estenderam-se para outras cores. O gradiente de generalização pode ser afetado por outras variáveis, como a privação e diferentes esquemas de reforços. Gradientes de Pós-discriminação Os gradientes de controle de estímulos podem ser obtidos após uma discriminação entre dois ou mais estímulos ao longo de uma dimensão. Em um treino de discriminação, onde SD é reforçado e SΔ é extinto, as respostas tendem a serem mais frequentes em valores de estímulos distantes de SΔ. Um pombo treinado com SD=550 milimicrons (um comprimento de onda, neste caso de luz) e com SΔ=570 milimicrons responde majoritariamente em 540 milimicrons, distante de SΔ. Este deslocamento visto num gráfico de respostas é denominado deslocamento de pico. Gradientesde Inibição Aqui os gradientes são para avaliar em que medida um estímulo não-correlacionado com SD inibe altera o responder. Em tais gradientes, o responder aumenta quanto mais os valores do estímulo correlacionado com a extinção se afastam da característica negativa (valor de estímulo correlacionado com a extinção). É mais fácil treinar características positivas (valores de estímulos correlacionados com o reforço) do que características negativas. O que é esvanecimento (fading)? Do mesmo modo que as propriedades de resposta que definem uma classe operante podem ser gradualmente modificados por meio de procedimentos de modelagem, as propriedades de estímulo que definem uma classe operante discriminada podem ser gradualmente alterados por procedimentos análogos de esvanecimento ou esmaecimento. 34 O treino não tem que começar com estímulos que são difíceis de discriminar. Ele pode começar com aqueles que são fáceis de discriminar e, então, mudar gradualmente para estímulos mais difíceis. Como no caso da modelagem, não há regras simples para determinar quão rapidamente os estímulos devem ser gradualmente introduzidos (fading in) ou removidos (fading out) em diferentes situações. O esvanecimento requer que algum comportamento sob controle discriminativo esteja disponível para ser mudado no controle de uma nova dimensão de estímulo. Como é a terminologia do reforço diferencial? Tanto a diferenciação quanto a discriminação envolvem reforço diferencial. A diferença está em se o reforço diferencial é imposto sobre as propriedades do responder ou sobre as propriedades do estímulo em cuja presença o responder ocorre. A principal implicação dessa diferença diz respeito ao procedimento: em estudos de diferenciação, o experimentador deve esperar pelas respostas do organismo, enquanto em estudos de discriminação o experimentador controla a ordem e a duração das apresentações de estímulo. O reforço diferencial pode ser programado para propriedades complexas dos estímulos que não são facilmente quantificáveis. Frequentemente, tratamos os estímulos como se fossem restritos a objetos concretos ou a eventos ambientais. Mas também discriminamos entre as características, às vezes, chamadas de abstratas ou de relacionais que são independentes dos objetos ou dos eventos particulares. O termo estímulo também funciona no sentido de propriedade de eventos ambientais (como estar a direita ou a esquerda de algo). 35 Cognição Animal Os estudos sobre cognição animal estão interessados no que os organismos sabem, e as explicações, geralmente, estão vinculadas à estrutura dos estímulos relevantes. Por exemplo, se um organismo discrimina entre certos estímulos com base em alguma característica crítica, um cognitivista pode dizer que o organismo representa os estímulos para si mesmo com base naquela característica. Tais questões serão retomadas no contexto da memória e da recordação, e no contexto das teorias comportamentais e cognitivas no capítulo 20. Mapas cognitivos A descoberta de que organismos podem localizar uma área mesmo quando se aproximam dela por uma nova direção demonstra que eles podem aprender as relações espaciais além das, ou talvez em vez de trilhas específicas. Isto justifica falar de mapas cognitivos. Algumas habilidades de “navegação” são aprendidas, e outras foram selecionadas filogenéticamente. Uma análise das propriedades do estímulo que determinam o comportamento é relevante tanto para a filogenia quanto para a ontogenia. Conceitos naturais e Classes de estímulo probabilísticas Podemos falar de generalização, dentro de uma classe de estímulos, e discriminação, entre classes de estímulos. Assim, nosso conceito de vermelho deve envolver a generalização entre todos os estímulos a que chamamos de vermelho, e a discriminação entre estes estímulos e todos os outros a que não chamamos de vermelho. Então, os conceitos estão para classes de estímulos como os operantes estão para as classes de respostas. É difícil definir os estímulos por dimensões físicas, seja a discriminação entre letras, números e objetos, por exemplo. O que distingue os cachorros dos outros animais? Pombos foram ensinados a discriminar formas humanas de não humanas, e tais discriminações complexas foram denominadas conceitos naturais. Os conceitos naturais são exemplos de classes de estímulo probabilísticas, classes em que cada membro contém algum subconjunto de caracterísicas mas nenhum é comum a todos os membros. Às vezes, estas classes denominadas conjuntos imprecisos ou indefinidos (fuzzy sets) não tem limites bem definidos. 36 Algumas classes de estímulo probabilísticas são definidas por referência a um protótipo. Um protótipo é um membro típico de uma classe probabilística; é derivado de uma média ponderada de todas as características de todos os membros da classe. Exemplo: os pássaros (como classe probabilística), em sua maioria, voam, mas alguns dos membros desta classe não (avestruz, pinguim). Outros tipos de classes de estímulos: -classes de estímulo polimorfas -classes de equivalência (ver capítulo 9) A classe de estímulo é, ela própria, uma classe de estímulo probabilística, no sentido de que sua definição muda à medida que expandimos os limites de pesquisa relevantes. Qual a definição de Classes de estímulo? O problema de definir as classes de estímulo é generalizado. Ela não será resolvido por meio do apelo a procedimentos de mensuração física, porque a leitura de instrumentos de medida também é um comportamento discriminativo. 37 9 - Discriminação Condicional e Classes de Ordem Superior Discriminações em que o papel de um estímulo depende de outros que forneçam o contexto para ele são denominadas discriminações condicionais. Estes procedimentos geram classes de ordem superior, no sentido de que as classes são definidas não por estímulos ou respostas particulares mas por relações que incluem tais estímulos e tais respostas como casos especiais. O que são as dimensões relacionais dos estímulos? Muitas discriminações condicionais envolvem relações arbitrárias entre um estímulo discriminativo condicional e as discriminações para as quais ele estabelece condição. Alguns casos em que tais relações não são arbitrárias são de interesse especial. Se em uma situação um estímulo é comparável, igual, ou diferentes a outros, depende do, ou é condicional ao, contexto na qual ele é apresentado. Por exemplo, se os estímulos A e B são azuis e o estímulo C é amarelo, então, em relação a A, B é um estímulo igual e C é um estímulo diferente. Emparelhamento com o modelo, emparelhamento por singularidade e as classes de equivalência são propriedades de tais discriminações condicionais. Como funciona o Emparelhamento com o Modelo (identidade) e o Emparelhamento por Singularidade? 38 Pode-se dizer que o emparelhamento foi bem sucedido se as respostas forem generalizadas para outras cores. Uma variação de tal emparelhamento é o de emparelhamento por singularidade (oddity), onde o reforço é programado para que o reforço ocorra no estímulo não-emparelhado. As relações entre os estímulos também podem implicar no emparelhamento arbitrário. Em um procedimento pode-se treinar o bicar no disco verde a partir de um modelo “quadrado” e o bicar um disco vermelho a partir de um modelo “círculo”. Todas estas tarefas são relações entre diferentes classes de estímulos. O que é o Comportamento Simbólico e qual o papel das Classes de Equivalência neste comportamento? Propriedades das relações: reflexidade, simetria e transitividade. As propriedades reflexivas são aquelas em que se mantém entre um termoe ele mesmo. Ex: A=A As propriedades simétricas são aquelas em que a ordem dos termos é reversível. Ex: se A=B, então B=A. As propriedades transitivas são aquelas em que os temos comuns em dois pares ordenados determinam um terceiro par ordenado. Ex: se A=B e B=C, então A=C. As relações de equivalência são aquelas que têm todas as três propriedades, e os termos que entram nelas (aqui, A, B e C) são considerados membros de uma Classe de Equivalência. Outras relações partilham apenas algumas dessas propriedades. A relação de oposição é simétrica (se D é o oposto de E, E é o oposto de D), mas não é reflexiva (D não é o oposto de si mesmo) nem transitiva (se D é o oposto de E e E é o oposto de F, D não é o oposto de F). E uma relação de magnitude como maior que é transitiva (se G é maior que H e H é maior que I, então G é maior que I), mas não é nem reflexiva nem simétrica. A figura abaixo ilustra como os procedimentos de emparelhamento de identidade (modelo) e emparelhamento arbitrário podem ser usados para demonstrar as três propriedades das relações de equivalência. 39 O teste da última linha combina os testes de reversão e de transitividade (intensidade e cor); ele é denominado teste de equivalência, e a relação entre os estímulos do teste de equivalência é denominada relação de equivalência. As relações dos testes de reversão e equivalência nunca foram explicitamente ensinadas. Se ocorre um emparelhamento apropriado nestes testes, as novas relações demonstradas por este comportamento são denominadas relações emergentes, no sentido de que emergiram sem um treino explícito; elas são exemplos de comportamento novo, produzidas por contingências de emparelhamento arbitrário. Não pode-se reduzir classes de equivalência a classes de estímulos discriminativos. As relações de equivalência são simétricas, mas as relações entre os termos de uma contingência de três termos não são (uma resposta A não é igual a um estímulo B, mas os estímulos que compõem uma classe de equivalência são simétricos entre si, no sentido que um estímulo C é igual a um estímulo D). As relações de equivalência são dificilmente (e suspeitosamente) demonstradas por pombos, mas são facilmente geradas em humanos. As relações de equivalência emergentes em 40 humanos justificam nomear tais desempenhos de emparelhamento simbólico, e não apenas de emparelhamento arbitrário. Não há limites óbvios para o número de classes que podem ser criadas ou para o número de estímulos que podem ser incluídos em cada classe. O status destes tipos de classes no comportamento de não-humanos permanece objeto de controvérsias. Mas as classes de equivalência definem comportamento simbólico, e assim, pode ser que elas sejam uma propriedade exclusiva do comportamento humano (ou também de seus parentes próximos). Elas tem grande relevância no comportamento verbal (ver capítulos 14, 15 e 16). O que são comportamentos de ordem superior? Se demonstramos, por exemplo, um emparelhamento por identidade (modelo), cada emparelhamento específico define uma classe, mas o emparelhamento de identidade é, então, uma classe de ordem superior que inclui, como seus componentes, todos os emparelhamentos específicos, ou seja, classes embutidas em outras classes. Um teste para o operante de ordem superior é se as relações novas podem ser demonstradas, como o emparelhamento de outras cores; um outro teste é se todas as subclasses em um emparelhamento se mantêm juntas como classe, caso mudemos as contingências somente para um subconjunto delas. Aprender a Aprender A aprendizagem de uma nova discriminação pode depender daquilo que organismo já aprendeu (o que no laboratório é chamado de história experimental). O fenômeno do learning set ocorre quando o responder pode depender das relações entre as propriedades do estímulo, independentes de estímulos específicos. (Com macacos,) quanto mais problemas eles haviam aprendido, mais rapidamente eles resolviam um novo problema. O desempenho depende de relações entre os estímulos e suas consequências correlacionadas, a longo de problemas sucessivos, e não de pares particulares de estímulos que aparecem dentro de problemas particulares. Podemos definir o operante discriminado (no experimento com os macacos) como se segue: se a resposta de selecionar um dos objetos é reforçada na primeira tentativa de um novo problema, selecione aquele objeto em todas as tentativas subsequentes. Na aprendizagem de problemas sucessivos, esse é o desempenho que é reforçado e é nisso que o comportamento do organismo se transforma. Assim, a correspondência entre as contingências de reforço e o comportamento gerado por essas contingências permanece como um critério apropriado para essa classe operante. 41 Aprende a aprender qualifica-se como uma classe de ordem superior, porque é definida por essas relações, e não pelos estímulos e pelas respostas a qualquer problema particular. Um fenômeno que pode ser visto como uma variação de learning set é o desamparo aprendido. Ratos que receberam choques elétricos inescapáveis e inevitáveis em uma situação tendem a não aprender uma resposta de esquiva quando esta se torna disponível, ao contrário dos ratos que nunca foram expostos a tal situação. Aqui, novamente, é difícil definir a classe de respostas, exceto se notarmos que os ratos que receberam choques inevitáveis e inescapáveis aparentemente aprenderam que suas respostas não tinham consequências importantes; o comportamento gerado por essas contingências se transfere para situações nas quais o responder poderia ter consequências. Talvez o desamparo aprendido, como uma classe de ordem superior, pudesse ser colocado sob controle de estímulos discriminativos, por meio de contingências diferenciais. O learning set ilustra a amplitude e a complexidade do que os organismos podem aprender. Propriedades de classes de ordem superior Sempre que as contingências que mantêm uma classe de ordem superior são diferentes das que mantém uma ou mais de suas subclasses, podemos nos perguntar quais das contingências prevalecerão. Enquanto a classe de ordem superior mantém sua integridade, suas subclasses são mantidas juntamente com os outros membros, mesmo que não estejam consistentemente envolvidas nas continências que mantém as outras. Quando isso acontece, as subclasses de ordem inferior parecerão insensíveis às mudanças nas contingências que são programadas para elas. Quando programamos novas contingências para as subclasses das classes de ordem superior, geralmente, esperamos que aquelas subclasses, eventualmente, sejam diferenciadas das outras. Mas se as subclasses se superpõem de diversas maneiras com outras classes que partilham de outras contingências, isso pode não acontecer. Muito do comportamento humano complexo pare de que ordens de classes superior; como regras, princípios, estratégias e similares; são mantidas por contingências sociais. Tentar explicar o comportamento humano apenas por relações estímulo-resposta, sem levar em consideração as classes de ordem superior, gerará explicações falhas e incompletas. Origens da Estrutura A maior parte das classes consideradas até agora tem sido as classes estruturais. As propriedades que as definem não eram arbitrárias, mas sim derivadas de relações sistemáticas entre as propriedades de eventos ambientais (p.e. emparelhamento, a singularidade, a simetria). 42 Porém classes arbitrárias também podem ser criadas, onde uma classe de estímulos, se for sistematicamente contingente com o reforço, terá a função de uma classe de ordem superior. A diferença entre esta estrutura e as outrasé que não há entre os membros da classe uma propriedade em comum entre os estímulos que compõem a classe. As classes operantes são criadas não por consequêcias comuns, mas sim por consequências comuns que dependem de contingências comuns. Desta forma um operante discriminado pode ser criado a partir de estímulos sem propriedades em comum (arbitrário), baseado apenas em contingências comuns. Isto é para contrapor a explicação de operantes discriminados complexos que se baseiam apenas nas relações entre o estímulo e a resposta, sem atentar para as contingências que determinaram tal relação. A estrutura do comportamento é determinada por contingências, mas as contingências são determinadas, por sua vez, pela estrutura ambiental. Quais as fontes do comportamento novo? Até então vimos: ● Modelagem (cap. 7) ● Esvanecimento (cap. 8) ● Novidade e variabilidade como propriedades das respostas, possíveis de serem reforçadas. ● Relações que emergem sem treino explícito, a partir de classes de equivalência (que são também classes de ordem superior) A novidade que tem origem na junção de operantes separados tem sido denominada adução. 43 10 - Esquemas de Reforço Esquemas de reforço são arranjos que especificam que respostas, dentro de uma classe operante, serão reforçadas. Os três tipos básicos de esquema são: ● Esquemas de Razão: aqueles que permitem que uma respostas seja reforçada depois de algum número de respostas. ● Esquemas de Intervalo: os que permitem que uma resposta seja reforçada depois de um tempo transcorrido, desde algum evento anterior. ● Esquemas que reforçam diferencialmente a taxa ou o tempo entre as respostas: aqueles que permitem que uma resposta seja reforçada, dependendo da taxa ou do espaçamento temporal das respostas prévias. Como funcionam os esquemas de Razão Variável e Intervalo Variável? No esquema de razão variável (VR), a apresentação de um reforçador depende da emissão de um número variável de respostas, independente da passagem de tempo. No esquema de intervalo variável (VI), a apresentação de um reforçador depende da passagem de um período variável de tempo e da emissão de uma ‘nica resposta; as respostas que ocorrem antes do final do intervalo não tem efeito. O que são esquemas de Reforço e Causação? Os efeitos dos reforçadores dependem das respostas às quais se seguem, mas eventos reforçadores podem se seguir a respostas quando produzidos por respostas ou quando apresentados independentemente delas. Os diferentes efeitos dos reforçadores dependentes e independentes das respostas dependem, de uma forma complexa, de como as correlações entre eventos são integrados no tempo. Os julgamentos sobre a causalidade dependem não de conjunções constantes de eventos, mas de uma amostragem de contingências que, às vezes, são muito complexas. As pesquisas sobre os efeitos de contingências mostra o quanto os organismos são sensíveis às contingências de seu próprio comportamento. Essa sensibilidade pode depender das relações detalhadas ou moleculares entre as respostas e os reforçadores ou das propriedades globais ou molares de taxas de resposta e de reforçadores, e mesmo ambas as combinações. Como funcionam os esquemas de Razão Fixa e Intervalo Fixo? Se a probabilidade de uma resposta ser reforçada for maior em alguns momentos de que em outros, é provável que a taxa de respostas seja maior nestes momentos do que nos outros. 44 Uma propriedade importante dos esquemas fixos é que eles introduzem períodos discrimináveis, durante os quais não ocorrem reforçadores. Na razão fixa (FR) a última resposta de uma série fixa é reforçada. Nestes esquemas costuma ocorrer uma pausa após o reforço (post-reforce period, PRP) que aumenta a duração com o aumento da FR. O grau de coesão com o qual o responder em FR se mantém deve ser encarada como uma unidade comportamental em si mesma e não apenas uma sucessão de respostas. Para ver a relação de FR com esquemas de ordem superior, ver página 187. No intervalo fixo (FI) uma resposta é reforçada apenas após a passagem de um período constante de tempo, a partir de algum evento ambiental; as respostas que ocorrem antes deste momento não tem qualquer efeito. O que é o atraso do reforço? A curvatura de FI (desenho abaixo) mostra uma crescente taxa de resposta na direção no momento onde a resposta será reforçada. Isso levanta a questão de porque as respostas antes da resposta reforçada não são extintas, já que não produzem o reforço. A resolução dessa questão provavelmente envolve algum gradiente de atraso de reforço. Isto implica que o reforço produzido pela última de uma sequência de respostas tem efeitos que dependem de sua relação com todas as respostas precedentes, e não simplesmente com aquela que o produziu. Ao interpretarmos os efeitos dos esquemas, precisamos conferir a forma do gradiente de atraso de reforço. 45 Entender os efeitos do reforçador de tal maneira tem grandes implicações práticas. O professor que reforce um acerto após uma série de erros estará, ao mesmo tempo, reforçando (mesmo que em graus menores) os erros. O ideal seria um professor que não fizesse o aluno errar, para evitar ao máximo reforçar os erros precedentes. A terminologia dos esquemas de reforço. Alguns elementos da terminologia dos esquemas são lógicos, mas outros são admitidamente idiossincráticos. Por exemplo, os nomes dos esquemas de FI e VI vesus FT e VT são arbitrários (cada par poderia, com igual facilidade, ser denominado duração fixa e duração variável, supostamente abreviadas com o FD e VD). Além disso nomes diferentes são correlacionados com contingências muito diferentes. Embora os esquemas de FI, DRL e FT requeiram igualmente a passagem de um tempo constante, o que as respostas podem produzir é diferente em cada um deles. Um esquema de FI não impõe restrições sobre o responder durante o intervalo, mas uma resposta deve ocorrer no final dele. Um esquema em DRL exige que se passe um tempo específico que ocorra sem respostas, e então a próxima resposta é reforçada. Em um esquema em FT o reforçador é apresentado ao fina do intervalo especificado, independente da resposta. Neste esquema as respostas nunca tem efeito. Estes nomes de esquemas surgiram incidentalmente, à medida que a pesquisa evoluiu, e agora estão tão bem estabelecidos que seria difícil mudá-los. Esquemas Básicos Nome Abreviação Contingência* Comentário Intervalo variável (intervalo randômico) VI (RI) t s, então 1 resposta t varia; com intervalos randômicos, a taxa de respostas é aproximadamente constante Intervalo fixo FI t s, então 1 resposta t constante; gera curvaturas de FI Razão variável (razão randômica) VR (RR) n respostas n variável; taxas de respostas altas e constantes, entretanto n grande pode produzir distensão de razão Razão fixa FR n respostas n constante; produz pausa pós-reforço; pausas seguidas por taxas altas Tempo variável VT t s t variável; reforçadores independentes de resposta Tempo fixo FT t s t constante; reforçadores independentes de resposta Reforço contínuo (FR 1) 1 resposta Todas as respostas são reforçadas; também abreviado como CRF Extinção EXT - Como procedimento, frequentemente usado mesmo que a resposta nunca tenha sido reforçada. Contenção limitada (limited hold) LH Reforço cancelado se nenhuma resposta t constante, se não for especificado; LH, sempre adicionado a outro 46 reforçada ocorrer em t s esquema, não pode ocorrer sozinho Reforço diferencial de baixas taxas (ou IRT longo) DRL t s sem resposta, então 1 resposta Mantém o responder facilmente; redução no responder aumenta o reforço e, assim, previne a extinção Reforçodiferencial de altas taxas (ou IRT curto) DRH 1 resposta dentro de t s ou menos de t s da última resposta Alternativamente, pelo menos n respostas em t s; algumas vezes é difícil de ser mantido, porque o decréscimo do responder reduz o reforço Reforço diferencial de responder espaçado DRP 1 resposta entre t e t’s da última resposta Estabelece limites, inferior e superior, das taxas de respostas reforçáveis Reforço diferencial de outro comportamento DRO t s sem respostas Um procedimento de omissão ou de punição negativa; geralmente reduz a taxa de resposta escolhida * t s = tempo em segundos; n = número de respostas O vocabulário da tabela também pode ser estendido a esquemas de punição, tendo em vista a simetria entre reforço e punição vista no capítulo 6. 47 11 - Combinações de Esquemas: Síntese Comportamental Esquemas podem se alternar uns com os outros, com estímulos correlacionados a cada esquema (esquemas múltiplos) ou não (esquemas mistos). A consequência de completar um esquema pode ser o início de um outro esquema, com estímulos correlacionados (esquemas encadeados) ou sem eles (esquemas tandem); em tal contexto, um esquema pode ser a unidade comportamental sobre a qual outro esquema opera (esquema de ordem superior). Os esquemas podem operar ao mesmo tempo, para respostas diferentes (esquemas concorrentes) ou para uma mesma resposta (esquemas conjugados); os esquemas que operam concorrentemente podem produzir outros esquemas (esquemas encadeados concorrentemente). Os esquemas encadeados estão correlacionados a problemas que tiveram importância histórica, como a aprendizagem de discriminação (esquemas múltiplos), o reforço condicional (esquemas de segunda ordem e esquemas encadeados) e a escolha (esquemas concorrentes e cadeias concorrentes). A decomposição (análise) comportamental de comportamentos complexos pode ser validada pela síntese comportamental, quando suas partes funcionais analisadas (esquemas de reforçamento) são sintetizadas em combinações de esquema. Se a síntese for bem sucedida a cadeia comportamental foi analisada corretamente. O que se estuda com esquemas múltiplos e mistos? Fala-se de esquemas múltiplos com exemplos de controle de estímulos. Dois esquemas se alternam, cada um correlacionado com um estímulo estímulo diferente; falamos de controle de estímulos quando o desempenho apropriado a cada esquema ocorre em presença do estímulo correspondente. O que são respostas de observação? Os estímulos discriminativos são efetivos apenas se o organismo o observa. A efetividade reforçadora de um estímulo discriminativo não depende do caráter informativo, mas, muito mais das consequências particulares com as quais está correlacionado. Assim, um problema central na aprendizagem da discriminação pode ser simplesmente o de levar o organismo a observar os estímulos relevantes. Exemplos: a hesitação em procurar diagnósticos e o tratamento infeliz dado a mensageiros com más notícias. A efetividade de uma mensagem depende mais de se seu conteúdo é reforçador ou aversivo, do que se está correta ou incompleta. 48 O que é o contraste comportamental? Em esquemas múltiplos, o comportamento em um componente é frequentemente afetado pelo que acontece em outro componente. Por exemplo, se o esquema que mantém o comportamento de um pombo de bicar o disco em presença de um estímulo (Sa) é alterada de Reforço em VI, para Extinção, enquanto o Reforço em VI continua durante o segundo estímulo (Sb), a redução de bicar o disco na presença de Sa é frequentemente acompanhada de um aumento em presença de Sb, mesmo que o esquema programado durante Sb mantenha-se inalterado. Quais os efeitos dos esquemas encadeados, tandem e de segunda ordem? Estímulos únicos em esquemas (tandem) produzem mais responder do que diferentes estímulos em cada componente de um esquema encadeado. Por exemplo:: • 200 FI: tandem, mais respostas, um S • 50 FI, 50 FI, 50 FI, 50 FI: encadeado, menos respostas, 4 S * *Os estímulos só tem valor de reforço condicionado no fim da cadeia. Os estímulos nos esquemas encadeados podem torar-se reforçadores condicionados, mas seus efeitos como reforçadores se combinam com os efeitos discriminativos, de forma que o responder é atenuado. Porém este resultado parece inconsistente com os efeitos de alguns estímulos que adquirem propriedades reforçadoras. Porém estímulos breves em esquemas de segunda ordem aumentam o responder. Em esquemas de segunda ordem, completar um esquema é considerado como uma unidade comportamental reforçada de acordo com outro esquema. Exemplo: ● FR 10 (FR400: luz): a cada 400 respostas se recebe luz, e depois de 10x400 resposas (4000 R) se recebe o reforço. Os esquemas encadeados e de segunda ordem com estímulos breves envolvem os reforçadores condicionados, mas seus efeitos opostos ilustram quão criticamente os efeitos dos esquemas dependem de relações detalhadas entre os estímulos, as respostas e as consequências. O que são esquemas concorrentes? Esquemas concorrentes são esquemas programados, simultâneamente, para duas ou mais respostas Dois exemplos de desempenhos em esquemas concorrentes A lei da igualação afirma que a frequência relativa de uma resposta iguala a frequência relativa dos reforços produzidos por aquela resposta. 49 Maximização ocorre quando, com duas ou mais respostas disponíveis, se emite as respostas com a maior probabilidade de reforço. A maximização a nível molecular pode levar a igualação a nível molar. Os esquemas concorrentes colocam consequências diferentes simultâneamente disponíveis provendo procedimentos de linha de base apropriados para o estudo de escolha ou preferência. Como funcionam esquemas encadeados concorrentes? Uma programação para estudar a preferência é o procedimento de esquemas encadeados concorrentes. Exemplo de esquema encadeado concorrente. Bicar na esquerda ou na direita de I produz esquema diferentes. A preferência pode ser medida pelas probabilidades relativas de bicar em I. As cadeias concorrentes mostraram que a taxa de reforço é um determinante mais importante da preferência do que o número de respostas por reforço. Esquemas concorrentes também são utilizados na compreensão do comportamento complexo, onde cada componente mais simples da cadeia pode ser analisado. Mais detalhes na página 203. Outro determinante da preferência é a livre escolha. Foi demonstrado que há preferência por esquemas onde há duas ou mais respostas possíveis de serem reforçadas, do que apenas uma. Tal preferência pela escolha livre pode ter ma base filogenética, indicando que nosso conceito de liberdade tem bases biológicas. A escolha livre não consiste apenas na disponibilidade de duas ou mais respostas; ambas devem ser capazes de produzir um reforçador. 50 Outro fenômeno estudado por meio de esquemas encadeados concorrentes é o autocontrole. Tipicamente questões de autocontrole envolvem duas ou mais consequências do responder, sejam elas reforçadoras ou aversivas. O autocontrole em humanos pode envolver componentes complexos, como o comportamento verbal, mas o estudo do autocontrole, do compromisso e da impulsividade (ver pg. 206) em animais fornece uma base essencial para o estudo de tal fenômeno dos esquemas de reforçamento no controle do comportamento humano. Conclusão O estudo de esquemas de reforçamento é relativamente novo, e as combinações de esquemas simples em complexos não se encerram nos que foram estudados neste capítulo. Ver página 207 para ver outros exemplos de esquemas combinados. O esquemas combinados são nossas ferramentas. Uma vez que empregamosde esquemas para explorar as propriedades de comportamentos complexos por meio de uma análise do comportamento, podemos estar na posição de utilizar esses instrumentos para recolocar as partes analisadas em uma síntese comportamental. Por exemplo, podemos testar nossa interpretação do comportamento complexo em um habitat natural ao tentar reunir seus componentes em um ambiente de laboratório. Não podemos criar uma síntese comportamental sem tornar explícitas nossas suposições sobre as propriedades do comportamento que tentamos sintetizar. Por isso, quando tentamos sintetizar, provavelmente, ganhamos mais de nossas falhas do que de nossos sucessos. De fato, pode ser um princípio geral de pesquisa científica, que aprendemos mais quando nossos experimentos produzem dados que não esperamos. Afinal, qual a vantagem de realizar experimentos, se sabemos exatamente no que eles resultarão? Esquemas Combinados Esquema Definição1 Exemplo (com Abreviação)2 Múltiplo A, durante SA, alterna com B, durante SB (A) VI durante luz vermelha se alterna com (B) EXT durante luz verde (mult VI EXT) Misto A e B se alternam (como nos esquemas múltiplos, mas sem estímulos diferentes). (A) DRL aterna com (B) FI, sem estímulos correlacionados (mix DRL FI) Encadeado Durante SA, completar A produz SB; durante SB, completar B produz reforçador. Completar (A) VR em presença de luz azul, produz luz amarela; completar (B) FR a luz amarela, produz comida (chain VR FR) Tandem Completar A produz B; completar B produz o reforçador (como no encadeado, mas sem estímulos diferentes) Completar (A) VR produz (B) DRH e completar DRH produz comida, na ausência de estímulos correlacionados (tand VR DRH) 51 Concorrente A opera para uma resposta; simultâneamente B opera para outra resposta. (A) Um esquema VI vigora para bicadas no disco da esquerda e (B) outro VI opera para bicadas no disco da direita (conc VI VI) Conjugado A e B operam ao mesmo tempo, mas independentemente, com uma única resposta (como no concorrente, mas sem respostas concorrentes). (A) VI e (B) esquiva operam, simultâneamente, para pressões em uma única barra. (conjt VI Esquiva) De segunda ordem Completar A é reforçado de acordo com B (reforçar um esquema de segunda ordem, de acordo com um terceiro esquema, C, cria um esquema de terceira ordem e assim por diante). (A) FRs sucessivas são tratadas como unidades de respostas reforçadas de acordo com (B), um esquema de FI (FI [FR]). Alternativo O reforçador depende de completar exigências de A ou de B. O responder é reforçado ao satisfazer as contingências de (A) VR ou de (B) VI, o que ocorrer primeiro (altern VR VI) Conjuntivo O reforçador depende de completar exigências tanto de A quanto de B. O responder é reforçado ao satisfazer ambas as cotingências de (A) FR e de (B) FI, em qualquer ordem (conjunc FR FI). Intercruzado O reforçador depende de completar alguma função combinada de A e B O responder é reforçado quando (A) a soma das respostas mais (B) o número de segundos decorridos, alcançam algum valor constante (Inter FR FT) Progressivo Alguns parâmetros do esquema mudam, sistematicamente, ao longo de reforços sucessivos ou para blocos de reforçadores. Depois de cada enésimo reforçador, t s são adicionados ao FI (Progressive FI) 1Por conveniência, cada caso é definido em termos de apenas dois esquemas componentes arbitrários, A e B, mas combinações de esquemas podem incluir qualquer número de componentes. Os estímulos são designados por S, com um sobrescrito que identifica o esquema que o estímulo acompanha. 2NT. As abreviações dos esquemas foram mantidas no original, em inglês. 52 12 - Comportamento Respondente: Condicionamento Qual a definição de Reflexo Condicional? Reflexo condicional (ao invés de condicionado) pois designa reflexos condicionais a relações entre estímulos ambientais. O condicionamento respondente é uma instância de controle controle de estímulos aplicado em vez de contigências envolvendo operações de consequenciação. Em vez de sinalizar consequências, sinaliza a apresentação de outro estímulo. O conceito de classe também é aplicável a tais respostas, pois elas variam. Portanto, é apropriado estender a linguagem de classes de modo a abranger também as respostas definidas pelos estímulos que as produzem. Essas classes, denominadas respondentes, correspondem ao comportamento anteriormente denominado eliciado ou reflexo. Produzimos comportamento respondente através da apresentação de estímulos e modificamos o comportamento respondente através de modificações em tais estímulos. Há limites na extensão pela qual podemos modificar o comportamento respondente. Não há um paralelo da modelagem, já que o comportamento respondente é determinado por seus estímulos eliciadores. Mas podemos alterar os efeitos eliciadores dos estímulos. Quando um NS (estímulo neutro) passa a ter função eliciativa, tornando-se um CS (estímulo condicionado), formou-se uma nova classe responde, entre o US (estímulo incondicionado), o CS e a CR (resposta condicionada), sendo denominada a relação entre CS e CR de reflexo condicional, pois esta relação é condicional a uma relação prévia entre CS (antes NS) e CR. Uma CR não é meramente uma UR (resposta incondicionada) eliciada por um novo estímulo; o condicionamento respondente não pode ser interpretado como uma substituição de estímulo, por exemplo, o cão não tenta come a campainha (CS). Um CS pode afetar uma ampla faixa de respostas, além daquelas que se assemelham à resposta eliciada pela US. O condicionamento foi demonstrado com várias respostas fisiológicas, como o metabolismo condicionado a ambientes frios/quentes e reações do sistema imunológico. Com alguns tipos de US, o condicionameno leva a CSs que eliciam respostas compensatórias, como por exemplo respostas compensatórias ao usar certas drogas, que explicam parcialmente a tolerância e um aumento do efeito destas drogas ao se alterar o ambiente,que funcionava como CS para as CR compensatórias. 53 Quais são os tipos de condicionamento? Reações temporais podem ser programadas de várias maneiras. ● Condicionamento simultâneo: tempo entre CS e US menor ou igual a 5 segundos. ● Condicionamento de traço: tempo entre CS e US maior, com apresentação rápida do CS ● Condicionamento de atraso: tempo entre CS e US maior, onde CS permanece em apresentação até a apresentação de US. ● Condicionamento temporal: apresentações regulares de US criam um CR ao tempo. ● Condicionamento reverso: US antes de CS. Pouco efetivo, particularmente com US aversivos. ● Condicionamento diferencial: procedimento no qual um estímulo torna-se um CS por meio de sua relação com o US, enquanto um segundo estímulo não se torna um CS, porque nunca precede o US. Qual a relação entre contiguidade e condicionamento? O condicionamento respondente já foi considerado como o processo que estava na raiz de toda a aprendizagem, e foi assumido que ele ocorria meramente através da contiguidade temporal de eventos, ou seja, de sua ocorrência conjunta no tempo. Tentava-se interpretar o comportamento operante como sendo gerado por processos respondentes. Parte do problema era que as contiguidades entre os estímulos não eram adequadamente distinguidos das contingências estímulo-estímulo. A contiguidade é definida por pareamentos estímulo-estímulo, ou seja, o número de vezes em que eles ocorrem juntos. Porém, mesmo quando o número de estímulos permanece constante, as relações de contingência entre CSs e USs podem variar. A base apropriada para classificar os procedimentos de condicionamento é a relaçãocondicional entre os dois estímulos (contingência), e não o número de pareamentos (contiguidade). Como funcionam as combinações de estímulo no condicionamento? O fato de um estímulo tornar-se ou não um CS efetivo depende do contexto de estímulos em que ele aparece; um estímulo não-familiar ou um estímulo familiar em uma situação não-usual tem maior probabilidade de tornarem-se efetivos do que um estímulo familiar em uma situação familiar. Às vezes, o próprio contexto pode tornar-se efetivo como um CS, sendo um exemplo a câmara experimental atuar como uma contingência para que ocorra a efetividade das relações CS-CR. No condicionamento respondente, tais estímulos têm sido denominados estabelecedores de ocasião, no sentido que eles estabelecem a ocasião na qual a contingência estímulo-estímulo operará. 54 O estabelecimento de ocasião é uma das muitas possíveis funções de estímulo que podem ser produzidas por combinações de estímulos no condicionamento respondente. A seguir, exemplos de algumas outras funções. Sombreamento e Bloqueio Quando os estímulos de um composto não se tornam igualmente efetivos como CSs, diz-se que o estímulo mais efetivo sombreia o menos efetivo. O sombreamento é tal procedimento. Quando um estímulo já tem uma história de condicionamento anterior e impede o condicionamento de outro estímulo novo, diz-se que o primeiro bloqueou o condicionamento do segundo estímulo. Este procedimento é o bloqueio. Estímulos Inibitórios em Compostos Os estímulos podem sinalizar tanto omissões quanto apresentações de outros estímulos. Os estímulos que sinalizam a omissão de outro estímulo, podem adquirir, às vezes, a capacidade de reduzir a efetividade de outros CSs e são descritos como inibitórios. Isto demonstra que os organismos podem responder diferencialmente não apenas a estímulos individuais, mas também a relações entre eles. Qual a diferença entre contiguidade e consequência? É preciso atentar para as possíveis consequências que o condicionamento produz e avaliar como estas consequências interferem na probabilidade de resposta. O lugar do condicionamento respondente na Teoria da Aprendizagem começou com as tentativas de reduzir todas as instâncias de aprendizagem operante a casos especiais de condicionamento respondente, mas a percepção das consequências reviraram a situação ao contrário. Todas as instâncias de condicionamento respondente podiam ser interpretadas em termos de consequências que não haviam sido percebidas anteriormente. Portanto, o status do condicionamento respondente veio a depender de demonstrações de condicionamento que não pudessem ser interpretadas com base nas consequências do responder. (ver experimentos nas páginas 222 e 223) A distinção entre operante e respondente tem muitas evidências, sendo que foram infrutíferas as tentativas de reduzir um condicionamento a outro . A questão crucial, ao lidar com operantes e respondentes, é distinguir qual é qual. Como a interação entre Operantes e Respondentes ajudam a explicar a emoção? Os processos operantes e respondentes podem interagir, quando os procedimentos respondentes são combinados com procedimentos operantes. Um estímulo que precede sistematicamente um choque pode não apenas aliciar as flexões: pode também interferir no 55 comportamento que esteja sendo mantido por suas consequências, como o pressionar a barra mantido por reforço alimentar. Comportamentos comparáveis são observados em humanos com base no medo ou na ansiedade; assim tais procedimentos são considerados relevantes para o estudo da emoção. Qual a relação entre condicionamento e emoção? Os estímulos que sinalizam a apresentação de outros estímulos podem ser superpostos sobre linhas de base de comportamento operante. Pressões à barra mantidas por reforço alimentar podem ser reduzidas pela apresentação de um tom que sinaliza um choque. Este fenômeno tem recebido diversos nomes: ansiedade, supressão condicionada e resposta emocional condicionada (CER). Esta contingência não afeta apenas a resposta de pressão à barra, mas uma grande faixa de respostas. Estamos mais propensos a invocar a linguagem da emoção quando um evento afeta uma ampla classe de respostas diferentes; por isso ficamos tentados a falar do medo ou da ansiedade por parte do rato. Não seria justificável dizer, depois, que o rato parou de pressionar a barra porque estava com medo; o efeito do tom em primeiro lugar nos leva a falar de medo no rato. Nossa linguagem de emoções é complicada. Falamos de nossas emoções e das dos outros com base tanto em situações quanto no comportamento que ocorre nessas situações. Porém nomear emoções não explica o que as causou, pois isto não passa de uma descrição de uma classe de comportamento. Qual a utilidade dos conceitos de estímulos pré-aversivos e pré-apetitivos? Embora a linguagem das emoções seja importante em nossas relações com outras pessoas, ela não tem sido muito útil para uma análise comportamental dos efeitos de estímulos pré aversivos. Ao contrário, as interações entre o condicionamento respondente e o comportamento operante, por exemplo, quando estímulos pré-aversivos ou ré-apetitivos são superpostos ao responder reforçado, têm sido analisadas de modo mais efetivo com base em parâmetros experimentais, tais como o esquema de reforço da linha de base, a taxa de respostas, etc. Um motivo disso é que descrever comportamento pela emoção supersimplifica contingências que nem sempre obedecem a descrição do responder pela emoção. Por exemplo, nem sempre o responder aumenta pela apresentação de estímulos pré-apetitivos, que seria interpretado como alegria. O responder na presença de um estímulo sinalizador é afetado pela sua relação com o estímulo que ele sinaliza. No caso pavloviano clássico, parecia de início que um estímulo funcionava como substituto do outro, mas com os estímulos pré-aversivos e pré-apetitivos vimos novamente que os fenômenos respondentes não podem ser tratados como uma 56 substituição do estímulo. Os estímulos podem ter várias funções, dependendo das contingências. Quais são os limites biológicos da aprendizagem? As origens filogenéticas e ontogenéticas podem impor restrições ou limites não apenas sobre os estímulos e as respostas que entram nas contingências operantes e respondentes, mas também sobre as relações que podem ser estabelecidas entre os estímulos e as respostas. A seguir, alguns exemplos. Limites sensoriais Algumas das restrições mais óbvias sobre a aprendizagem dependem dos sistemas sensoriais dos organismos. Pombos percebem estímulos visuais melhor que morcegos, enquanto morcegos percebem melhor estímulos sonoros que pombos. Em experimentos deve-se atentar para estímulos que só o organismo percebe, como o odor em labirintos. Limites motores Os limites anatômicos sobre o responder não apresentam problemas. Nós não esperamos que o vôo seja similar em pombos, morcegos e abelhas (e nem consideramos a possibilidade do rato voar). As diferenças entre espécies em relação às capacidades motoras tem maior probabilidade de suscitar questões quando elas não tem uma base anatômica clara. As contingências podem afetar a direção na qual a pessoa ada, mas não as coordenações detalhadas de seus músculos e juntas quando ele anda. Muitos aspectos dessas coordenações operam independentemente do ambiente, sendo denominados programas motores. O vôo em pássaros já vem com as conexões prontas ao nascimento, elas são pré- programadas (pre-wired); esses aspectos já vêm construídos no vôo do pássaro. Porém o ambiente ainda tem papel predominante, seja na seleção naturalde tal programação, seja na determinação da direção do vôo. As espécies diferem de várias maneiras, e as restrições sobre a topografia não devem ser confundidas com certas restrições nas funções destas respostas. Limites sobre as consequências Os estímulos também variam em capacidade de reforçar ou de servir de US, em diferentes espécies. Já é sabido que a efetividade dos reforçadores tem uma base filogenética. Mas propriedades mais sutis do ambiente também podem ser importantes, tais como as consequências sensoriais que mantém o comportamento exploratório ou as consequências novas que podem tornar um organismo cauteloso ao provar uma comida desconhecida em um local desconhecido. 57 Dado que as relações de reforço são baseadas em probabilidades relativas de respostas, as diferentes hierarquias comportamentais de diferentes espécies inevitavelmente limitam o que elas podem aprender. Uma parte essencial da análise da aprendizagem é explorar tais limites. Preparação Certas restrições podem envolver também as relações entre os estímulos e as respostas que entram em contingências operantes e respondentes. Algumas relações entre os estímulos discriminativos e as respostas podem ser mais fáceis de aprender que outras. As contingências filogenéticas podem ter preparado os organismos para aprender apenas algumas das muitas relações possíveis entre os estímulos e as respostas nos procedimentos operantes e respondentes. O conceito de preparação surgiu a partir da observação de que a aprendizagem discriminativa pode ser uma função do contexto de respostas e reforçadores dos quais ela ocorre. 58 13 - Aprendizagem Social Até agora foram abordados os comportamentos que surgem pela seleção filogenética, a seleção que ocorre em populações de organismos ao longo de gerações sucessivas. Outra variedade estudada é a que ocorre em uma população de respostas de um organismo, dentro do tempo de vida deste organismo; este nível de seleção é o ontogenético. A partir de agora será estudada uma terceira variedade de seleção, que opera sobre o comportamento, mas em mais de um organismo. A partir da aprendizagem social este nível de seleção se tornou possível. Assim, o comportamento sobrevive no que os outros fazem, talvez não apenas no comportamento de seus descendentes, mas mesmo no comportamento de outros não geneticamente relacionados. Quais são os tipos de contingências sociais? Muito do comportamento humano complexo é aprendido com os outros , mas resta a pergunta: em que ponto alguns organismos começaram a aprender a fazer coisas simplesmente observando o que acontecia, à medida que outros organismos faziam estas mesmas coisas? A aprendizagem por observação não é tão banal quanto parece. Mas não é claro quanto desta aprendizagem ocorre em mamíferos e pássaros, e dificilmente há evidência de observação em invertebrados, entretanto é bem evidente esta aprendizagem em primatas. O comportamento que é socialmente transmitido sobrevive por causa de suas consequências. A sobrevivência de outros padrões de comportamento pode envolver contingências complexas. Nas discussões iniciais das duas primeiras variedades de seleção natural e seleção operante, notamos que a evolução e a modelagem dependiam de populações variáveis sobre as quais a seleção pudesse operar. Restrições semelhantes existem no nível de seleção cultural. Por exemplo, as práticas culturais que favoreciam a diversidade étnica podem ter vantagens sobre outras que não favoreciam tal diversidade, simplesmente porque elas permitiam tal variabilidade. Como se aprende sobre os outros? Em muitas situações, os estímulos discriminativos fornecidos por outros organismos são mais importantes do que aqueles fornecidos por objetos inanimados e eventos. Em muitos organismos, tais propriedades são correlacionadas com as características anatômicas (p. ex., plumagem colorida em pássaros); mas frequentemente, o comportamento é a dimensão crucial. O estudo da comunicação animal está interessado nas maneiras pelas quais os organismos produzem os estímulos que afetam o comportamento de outros organismos. Seria mais 59 apropriado falar de tais estímulos com base em seus efeitos comportamentais, mais do que na informação que transmitem. Do mesmo modo que pode ser enganoso dizer que os genes carregam a informação sobre as contingências filogenéticas (Dawkins), pode ser enganoso falar dos estímulos sociais como carregadores de informação (ver. cap. 14). Os estímulos liberadores e os padrões fixos de ação fornecem muitos exemplos de efeitos de estímulos sociais. Ex.: “estouro de boiada”, movimento de cardumes. Não confundir com imitação, pois tais comportamentos são limitados por classes de estímulos e classes de respostas específicas. Discriminar o comportamento de outros organismos, sejam eles da própria espécie ou de outras espécies, cem claras vantagens evolutivas. As discriminações do comportamento social podem se tornar tão importantes que sobrepujam outros tipos de discriminações. A discriminação do comportamento de outros estão no cerne de nosso conceito de intencionalidade. As discriminações intra-espécies tem muitas funções, e em primatas elas explicam a cooperação e a empatia. Como se aprende com os outros? Uma coisa é aprender sobre os outros organismos, outra coisa é aprender algo com eles. Algumas vezes o comportamento de um organismo possibilita que um outro organismo aja com base nos estímulos disponíveis somente ao primeiro, como quando o chamado vocal de um macaco favorece que um outro macaco fuja de um predador que ele não havia visto. Aprendizagem por observação A aprendizagem baseada na observação do comportamento do outro organismo é denominada aprendizagem por observação (outro termo é aprendizagem vicariante). Tal aprendizagem foi demonstrada em macacos rhesus, onde filhotes que observavam seus pais se esquivarem de cobras também passavam a se esquivar delas. Sem tal aprendizagem, os macacos eram indiferentes às cobras. No mínimo, a aprendizagem por observação deve incluir discriminações sutis das ações de m outro organismo e de seus resultados, e alguma história com relação aos efeitos de ações relacionadas por parte do observador. Quando analisamos a aprendizagem por observação, devemos determinar seus componentes, em vez de usá-la para explicar outros tipos mais complexos de comportamento. 60 Imitação A diferença mais importante entre a aprendizagem por observação e a imitação é que na imitação o comportamento do observador corresponde ao comportamento que o organismo observou. A imitação não implica em que o organismo que imita tenha aprendido alguma coisa sobre as contingências, de modo que nem todas as imitações são vantajosas. Denominamos o responder de imitativo quando um organismo duplica o comportamento modelado por um outro organismo. A imitação generalizada é um comportamento de ordem superior, diferencialmente reforçado, que consiste de um responder imitativo generalizado para novas situações. O imitar generalizado consiste em uma suplementação efetiva para a modelagem. As origens sociais da linguagem Uma outra maneira de aprender com outro organismo é por meio do comportamento verbal: você pode ser informado sobre as contingências, em vez de observá-las. Mas o comportamento verbal não pode ter surgido desta maneira, já que tais descrições requerem sentenças completas, e as formas primitivas começaram com palavras isoladas. A função mais simples e mais óbvia do comportamento verbal é a instrucional: é uma maneira pela qual um organismo leva outro a fazer alguma coisa. Ao falar,mudamos o comportamento uns dos outros. Se a função primária da linguagem é a de ser uma maneira eficiente pela qual um indivíduo pode mudar o comportamento do outro, segue-se que esse comportamento é essencialmente social e pode emergir apenas em organismos cujo comportamento já seja sensível a contingências sociais. Para um cenário hipotético e detalhado da evolução do comportamento verbal e sua aprendizagem, ver página 241. Como se aprende sobre si próprio? Na discussão sobre o imitar, uma relação do comportamento dos outros com o nosso, estava implícita a sugestão de que aprendemos a discriminar as propriedades do nosso próprio comportamento no contexto de aprender com os outros. O caso é ainda mais óbvio com o comportamento verbal, porque aprendemos com os outros a linguagem com que descrevemos nosso próprio comportamento. O que sabemos sobre nós mesmos é um produto social. Não vemos nós mesmos como os outros nos vêem; vemos a nós mesmos como vemos os outros. Do mesmo modo que julgamos os outros com bases na observação de seu comportamento, também nos julgamos com base nas observações de nosso próprio comportamento. 61 Discriminando as propriedades de nosso próprio comportamento A capacidade de discriminar as propriedades do nosso próprio comportamento é importante em muitos tipos de comportamento humano. As discriminações de nosso próprio comportamento muito frequentemente tem origem no contexto do comportamento social. Dois exemplos destas discriminações é o julgamento de quão bem estudamos um texto (superficialmente, profundamente) e a percepção de diferentes níveis de álcool no sangue (que pode determinar se o sujeito irá para casa de carro ou se pedirá para ir de carona, por exemplo). As contingências que geram estas discriminações são complexas e provavelmente envolvem o comportamento verbal. 62 Parte IV - Aprendizagem Com Palavras 14 - Comportamento Verbal: A Função da Linguagem Linguagem é comportamento. Porém nossa linguagem cotidiana usa palavras como “linguagem” e “palavra” (fazer uso das palavras) como se fossem coisas. A linguagem da significação é outra complicação. Dicionários não contém significados de palavras definidas; eles apenas contêm outras palavras. Falamos metafóricamente, quando dizemos que as palavras contém significados, e que levamos esses significados para os outros através da linguagem (ver cap. 16). A metáfora das palavras como recipientes do significado tem estado em toda a parte há muito tempo, se a linguagem transmite algo, esse algo é o próprio comportamento verbal. Compartilhamos nosso comportamento verbal; ele é, acima de tudo, um comportamento social. Uma tarefa primordial da análise da linguagem é classificar o comportamento verbal. Mas nossa taxonomia deve ser funcional, e não estrutural ou gramatical. Explicações funcionais do comportamento verbal examinam o que as respostas verbais fazem. Como no comportamento não-verbal, as explicações funcionais e estruturais da linguagem se complementam umas às outras, ao invés de serem incompatíveis como parecem na história da Psicologia (Skinner x Chomsky). As respostas verbais são distinguidas pelas ocasiões nas quais elas ocorrem e pelas consequências que produzem. Podem ser ocasionadas tanto por estímulos não-verbais como por estímulos verbais e podem ter consequências tanto verbais quanto não-verbais. Qual a correspondência entre as classes vocais e as classes escritas. Nossas comunidades verbais modelam as correspondências entre as coisas e seus nomes, entre as palavras e suas definições, entre o que fizemos e o que dissemos que faríamos, entre o que prometemos e o que cumprimos, etc. A maneira pela qual aprendemos as correspondências e as condições de sua manutenção podem determinar como elas funcionam em nosso comportamento verbal. Os primeiros exemplos a serem abordados a seguir são entre as relações verbais formais entre classes vocais e classes escritas. O termo verbal é um termo genérico e aplica-se à linguagem em qualquer modalidade; será distinguido do termo vocal, que é específico para a linguagem falada. Poderíamos extender a explanação para outras modalidades (p. ex. modalidade gestual da linguagem de sinais), mas restringiremos nossa atenção às classes vocais e escritas do comportamento verbal. Serão estudadas as 4 correspondências entre estímulos vocais e escritos e respostas vocais e escritas: de vocal para vocal (comportamento ecóico), de escrito para escrito (transcrição), de escrito para vocal (comportamento textual) e de vocal para escrito (ditado). 63 Comportamento ecóico A imitação de algumas propriedades dos estímulos vocais é uma classe de relações verbais denominada ecóica. O comportamento ecóico é imitação vocal generalizada. O comportamento ecóico não é definido pela correspondência acústica: ele é definido pelas correspondências das unidades fonéticas. O comportamento ecóico depende, ao menos em parte, da modelagem de articulações pelas suas consequências vocais. As vocalizações podem ser reforçadas, e as vocalizações de crianças são engendradas e mantidas pelo que elas ouvem dizendo a si mesmas; sem essas consequências auditivas, o comportamento não se desenvolve. O comportamento ecóico não implica que o falante tenha entendido aquilo que ecoou; o significado não entra na definição de comportamento ecóico. Transcrição Os estímulos e as respostas verbais também podem corresponder quando estão escritos. Em tais casos, o comportamento é chamado de transcrição. A transcrição depende de correspondências de propriedades verbais e não-visuais. Uma sentença escrita à mão pode ter uma aparência muito diferente do texto impresso do qual ela foi transcrita, justamente pelas diferenças nas formas das letras em cada tipo de escrita. Contudo, escrever a sentença qualifica-se como transcrição, se a sentença manuscrita corresponder à impressa quanto à soletração, ordem das palavras e pontuação. Da mesma forma que unidades de comportamento ecóico podem variar, desde fonemas individuais até frases ou sentenças completas, as unidades de transcrição podem variar de caracteres individuais até passagens extensas. A transcrição difere da cópia nas unidades comportamentais dos dois tipos de cópia. Na primeira, quem transcreve está sob controle das unidades verbais (letras, palavras, sentenças, etc.); na segunda, quem copia está sob controle de propriedades geométricas e das marcas produzidas pelo calígrafo. Comportamento textual Quando um estímulo verbal escrito estabelece a ocasião para uma resposta vocal correspondente, o comportamento é textual. No comportamento textual, a correspondência arbitrária entre os estímulos e as respostas é mais óbvia que no comportamento ecóico ou na transcrição, porque os estímulos e as respostas estão em modalidades diferentes. É necessário distinguir comportamento textual de outros tipos de respostas a estímulos verbais escritos. Ler um sinal de diz “PARE” em voz alta é comportamento textual, mas parar não. 64 A leitura com compreensão inclui outros comportamentos com ou sem fala vocal ou subvocal, assim ela é mais (provavelmente muito mais) do que simplesmente um comportamento textual. Ditado Assim como um estímulo escrito pode estabelecer a ocasião para uma resposta vocal, um estímulo vocal pode estabelecer ocasião para uma resposta escrita. Essa classe de comportamento verbal é chamado de ditado. Como acontece com o comportamento textual, o ditado envolve estímulos e respostas de modalidades diferentes. As ocasiões para o ditado são mais limitadas do que para o comportamento textual,porque, ao contrário do nosso aparato vocal, os instrumentos para a escrita não são parte de nossa anatomia. Relações entre as classes Ensinar a ler e a escrever é ensinar equivalências entre as modalidades vocal e escrita do comportamento verbal. Outras modalidades verbais podem estabelecer relações com outras modalidades. Também outras relações podem ser estabelecidas na mesma modalidade: um estudante que aprendeu a traduzir do alemão para o inglês pode te dificuldade para traduzir na direção oposta. O comportamento verbal bilíngue poderia ser melhor caracterizado em termos do grau em que as classes de equivalência se estendem para ambas as línguas. Como funciona o comportamento intraverbal? As classes verbais formais envolvem respostas verbais ocasionadas por estímulos verbais. Porém, aprendemos muitas relações verbais que não envolvem tais correspondências formais. Tais casos são chamados de intraverbais. No comportamento intraverbal, um estímulo verbal estabelece a ocasião para outra resposta verbal. A relação entre um estímulo e uma resposta é arbitrária; não há nenhuma 65 correspondência sistemática entre eles. A associação livre e recitar o alfabeto são exemplos deste comportamento. O comportamento intraverbal está envolvido apenas em casos que as partes sucessivas de uma expressão servem como estímulos discriminativos para as partes subsequentes. Unidades verbais independentes, como máximas, não são comportamentos intraverbais. Como se dá o contato do comportamento verbal com o ambiente? O comportamento verbal nunca teria evoluído se tivesse feito apenas contato com outro comportamento verbal. Em algum ponto, ele deve fazer contato com os eventos ambientais. Chamamos esse contato de tato; um tato é uma resposta verbal ocasionada por um estímulo discriminativo. O tato não envolve qualquer processo novo; é apenas um nome para o controle do estímulo que entra no comportamento verbal. Tato não é nomeação. Por um lado, o tato é, às vezes, um componente da nomeação. Diferente da nomeação, no entanto, ele pode ocorrer apenas na presença do estímulo tateado. Podemos nomear um objeto ausente, mas não podemos tateá-lo. Inúmeros aspectos do ambiente podem ser tateados: objetos, coisas vivas, atividades, etc. Alguns são genéricos (homem, mulher) e outros são mais restritos a situações específicas (o nome de alguém). A riqueza dos tatos disponíveis pode ser tomada como uma característica notável da linguagem humana, mas tal riqueza não deve obscurecer a relação simples que define um caso de tato. A relação entre um tato e algo tateado é precisamente a mesma relação entre um estímulo e a resposta que ele ocasiona, em uma contingência de três termos. Abstração No comportamento verbal, frequentemente estaremos interessados no responder ocasionado por propriedades do ambiente, e não por determinados estímulos ou classes de estímulos particulares. Chamamos a discriminação verbal baseada em uma única propriedade de abstração. A propriedade tateada é definida pelas práticas da comunidade verbal; não dependem de termos alguma medida física independente para ela. As discriminações costumam ser arbitrárias em algum grau, por isso dimensões costumam ser arbitrárias em algum grau, por isso dimensões físicas não são critério para a propriedade tateada. Muitas vezes não podemos definir tão explicitamente a base de muitos de nosso tatos. Por exemplo, não podemos dizer exatamente que propriedades fazem de um objeto uma cadeira, já que existem cadeiras com funções diversas, formatos, materiais, etc., nenhuma comum a todas as cadeiras (este pensamento contrasta com o essencialismo de Platão). 66 Podemos tatear propriedades extremamente sutis dos eventos. Elas incluem relações entre os estímulos, como acima, abaixo, perto, longe. O tatear relacional ocorre quando você diz que dois objetos são semelhantes ou diferentes ou quando você nota que um item de um conjunto é um item estranho. Tais termos raramente se sustentam por si sós, e consideramos sua dependência de outras propriedades de eventos e de outras respostas verbais quando abordamos as relações verbais chamadas autoclíticas. Também tateamos eventos complexos quando diferenciamos autores por suas obras de arte. Às vezes, as propriedades que ocasionam um tato podem ser identificadas mais com o próprio comportamento do falante do que com qualquer característica do ambiente. Se uma obra de arte ocasiona a palavra maravilhosa, esse tato depende mas das respostas geradas no falante do que em propriedades da obra. Dizer que um comportamento é voluntário ou involuntário, depende provavelmente do que sabemos sobre os antecedentes e consequentes de tal comportamento, como se ele foi eliciado ou coagido. Quando se diz que uma palavra está na ponta da língua, está se tateando a disponibilidade próxima do limiar de uma resposta apropriada em um próprio comportamento verbal. Às vezes, podemos mesmo relatar as propriedades de uma palavra não lembrada, como seu tamanho ou parte de sua ortografia. A terminologia da emoção está similarmente baseada em relações complexas envolvendo situações e comportamento. Tatos de amor, ódio, alegria e pesar, quer em si mesmo ou em outras pessoas, dependem de manifestações visíveis como risos ou lágrimas e das circunstâncias que geraram o comportamento que observamos. Se não fosse assim, ma comunidade verbal não poderia manter qualquer consistência em seu vocabulário; a variabilidade da linguagem das emoções é, em si mesma, uma evidência da sutileza das relações que tateamos. Ver mais implicações na página 263. A extensão das classes verbais O tato é uma relação flexível. Em algumas comunidades verbais, as propriedades do estímulos que ocasionam o tato são definidas nitidamente. Tal precisão é menos frequente no discurso cotidiano. Frequentemente tateamos propriedades do comportamento de nossos conhecidos, mas as condições sob as quais dizemos que alguém é caloroso ou reservado, interessante ou chato, etc., vaiam consideravelmente de um falante para outro. Em discriminações envolvendo o comportamento não-verbal, dizemos que uma resposta se generalizou se a resposta mantida durante um estímulo ocorre quando um novo estímulo é apresentado. Uma generalização semelhante de respostas verbais para novos estímulos ocorre no tato estendido. As comparações e metáforas são exemplos de tais generalizações: ele é esperto como um gato (comparação) ou ele é um lobo (metáfora). 67 Outro tipo de extensão do tato ocorre quando novas palavras são formadas pela combinação de outras já existentes (ex.: lavar, louças: lava-louça). As maneiras pelas quais os tatos podem ser estendidos são tão variadas que uma explicação detalhada não é possível. O tato deve ocorrer na presença de, ou logo após, o evento tateado. Unidades políticas, posses ou dívidas, processos como a criação ou a evolução, meses e dias da semana, desta forma, não são tateáveis, pois elas não existem em uma forma que possa ser tateada. Tais entidades devem entrar em nosso comportamento verbal de outras maneiras. A linguagem dos eventos privados Outra extensão importante do tato é a dos eventos privados. Os estímulos tateados são, às vezes, acessíveis apenas para o falante, quando, por exemplo, dizemos que estamos com uma dor de cabeça. Tais tatos dependem da comunidade verbal para sua origem e manutenção. O problema é como a comunidade verbal pode criar e manter essas respostas, quando não tem acesso aos estímulos. Em se tratando de eventos privados, o vocabulário pode ser ensinado somente pela extensão de tatos, com base em eventos aos quais a comunidade verbal tem acesso. Uma criança sabe dizer queestá com dor pois seus pais tiveram acesso a manifestações públicas de dor. Provavelmente, achamos que os eventos privados, como nossos sentimentos e pensamentos, são aqueles aos quais temos acesso privilegiado e, portanto, um conhecimento especial sobre eles. No entanto, aprendemos as palavras relevantes a partir dos outros, e tudo a que eles tiveram acesso ao ensiná-las para nós foram correlatos públicos. Algumas respostas verbais que, superficialmente, parecem tatear eventos privados podem ser ocasionados, porém, pelas situações em que nosso comportamento ocorre. Ao perceber a voracidade com que comeu uma comida, você pode dizer “Eu devia estar com muita fome”, mesmo não tateando os eventos internos corelatos à fome. (para mais implicações do tato privado, ver página 265) As relações de tato em si mesmas são apenas uma parte do comportamento verbal, mas, por meio delas, o comportamento verbal entra em contato com o ambiente. Sem essas relações, não haveria nada sobre o que pudéssemos falar. Classes verbais e nomeação A nomeação pode incluir o tatear como um de seus componentes, mas não é apenas isso. A nomeação é uma classe de ordem superior que envolve classes de estímulos arbitrários (objetos ou eventos com nomes particulares) e topografias verbais correspondentes (as palavras que servem como nomes), em uma relação funcional. 68 Superficialmente, isso parece com uma relação de equivalência ou, ao menos, com uma relação de simetria. Mas isso é supor muito, porque, ao contrário das bicadas de um pombo em um estímulo modelo e um estímulo de comparação, um objeto visto não pode ser permutado com ele, e uma palavra ouvida não pode ser permutada com uma falada; a relação entre um nome e o que ela nomeia é fundamentalmente assimétrica. A nomeação tem uma outra característica. Se uma criança já faz alguma nomeação, mas ainda não aprendeu o nome luva, poderíamos pegar uma luva e dizer “Isto é uma luva”, a criança poderia imediatamente dizer “luva” e apontar para ela. Então, não deveríamos nos surpreender se, um pouco mais tarde, a criança apontasse para a luva quando perguntássemos “onde está a luva?”. As respostas da criança a perguntas diferentes envolvendo a luva são exemplos de comportamentos novos, e a nomeação como uma classe de ordem superior possibilita a emergência deles. A nomeação é gerada a partir de interações usuais entre as crianças e aqueles que cuidam delas. Uma vez que esteja disponível como uma classe de ordem superior na criança, a nomeação permite expansões do vocabulário nas quais a introdução de novas palavras em relações funcionais particulares (tais como o tato), envolve aquelas palavras em uma gama de outras funções emergentes (incluindo comportamento intraverbal, comportamento ecóico e se orientar em direção a ou apontar para os objetos nomeados). Como funciona o comportamento verbal condicional a outro comportamento verbal? O comportamento verbal, como qualquer outro evento, pode ser tateado. Nenhum novo tipo de relação está envolvido, mas as complexidades geradas quando o comportamento verbal é construído a partir de outro comportamento verbal exigem um comentário especial. O comportamento verbal depende de outro comportamento verbal e que modifica os efeitos de outro comportamento verbal é chamado de autoclítico. Ele inclui tanto a combinação e o arranjo de unidades verbais, como na adução (cap. 9), como os usos verbais que modificam o efeito de outro comportamento verbal sobre o ouvinte. Os comportamentos autoclíticos relacionais envolvem aquelas unidades verbais que não podem ficar sozinhas, porque devem estar coordenadas a outro comportamento verbal; os autoclíticos descritivos envolvem discriminações do nosso próprio comportamento verbal. Os intraverbais também dependem de outro comportamento verbal, mas não são autoclíticos pois estão limitados às relações verbais sequenciais e não requerem discriminações do nosso próprio comportamento. Autoclíticos relacionais: a conjunção das unidades verbais. Algumas respostas verbais especificam certos eventos somente por meio de suas relações com outras respostas verbais. Palavras como acima, antes e de não são simplesmente tatos de eventos particulares. Elas quase sempre ocorrem em combinação com outras respostas verbais e dependem de outras respostas verbais quanto a seus efeitos. 69 Muitos comportamentos verbais importantes são derivados de outro comportamento verbal. Mencionamos o problema de entidades que não podem ser tateadas (filosofia, psicologia). Podemos progredir a partir de indivíduos, do que eles fazem e onde os encontramos, para grupos, atividades mais gerais e áreas maiores, até falarmos de instituições acadêmicas, governos, etc. Tais derivações são, muitas vezes, pouco definidas, e possivelmente as correspondências entre o mundo e o que dizemos a respeito dele se tornam menos confiáveis; à medida que nosso comportamento verbal se afasta daqueles pontos de contato direto com o ambiente. O comportamento verbal derivado também nos permite responder a propriedades do mundo às quais não podemos responder de outras maneiras. Não podemos tatear o meio dia, os sábados, o 3 de Fevereiro ou o século XXI. Eles existem apenas em virtude dos relógios e calendários; não podem existir independentemente do comportamento verbal. Autoclíticos descritivos: discriminando nosso próprio comportamento verbal Muitas respostas verbais tateiam as condições sob as quais outro comportamento verbal é emitido e, portanto, modificam as respostas dos ouvintes. Consideremos as frases Eu duvido e Eu estou certo em “Eu duvido que o café esteja pronto” e “Eu estou certo que o café esteja pronto”. Cada uma modifica a probabilidade do ouvinte agir sobre a declaração de que o café está pronto. Agora considere o falante. O que Eu duvido ou Eu estou certo tatearam? Não pode ser simplesmente o fato do café estar pronto. Deve ser alguma propriedade da própria tendência do falante dizer “O café está pronto”, e a relação daquela declaração com o estado real do café. Só é possível usar Eu duvido e Eu estou certo se você puder discriminar seu próprio comportamento. Não tateamos tudo o que vemos e, inversamente, às vezes, respondemos com se estivéssemos tateando apesar do estímulo estar ausente. A assertiva, assim como a negação, também é um autoclítico, mas a forma verbal é serve para muitas funções: ● Tato: isto é um livro. ● Equivalência entre respostas verbais: o homem é um bípede implume. ● Propriedades temporais: está frio agora (it is cold now). A função específica de é depende de outras respostas verbais, ou em outras palavras, do contexto. O mais importante é que os autoclíticos descritivos demonstram que a análise do comportamento verbal é uma questão de comportamento, não de lógica. Dizer “Isto é assim.”, ou “É provável”, ou ainda “Pode ser” é um comportamento verbal a respeito de outro comportamento verbal. Reduzir tais sentenças à lógica simbólica ou a matemática da 70 probabilidade pode ser útil na solução de problemas de lógica ou de matemática, mas essa redução elimina uma característica crucial da linguagem humana. As discriminações do nosso próprio comportamento são pré-requisitos para o que chamamos de consciência ou de auto- consciência, e devemos essas discriminações à comunidade verbal. 71 15 - Comportamento Verbal e Comportamento Não-Verbal Com exceção do tato, as classes verbais do capítulo 14 relacionavam principalmente as respostas verbais umas às outras. Para ser funcional, o comportamento verbal deve ser capaz de fazer coisas. As classes discutidas atéagora são apenas a matéria-prima que é combinada no comportamento verbal funcional. O comportamento verbal, em si mesmo, não faz coisas. Ele é efetivo pela mediação de outras pessoas. Mas a mediação por outras pessoas é característica de todo comportamento social, então, devemos acrescentar uma outra condição. As contingências sociais que modelam o comportamento verbal não criam apenas as condições para a fala; elas também criam repertórios verbais com uma propriedade especial. Em um diálogo comum, na medida em que o falante se torna ouvinte e vice-versa, o comportamento do ouvinte reforça o comportamento do falante. Em alguns aspectos, todas as culturas verbais são sociedades de reforço mútuo. O comportamento verbal envolve tanto o comportamento do ouvinte, que é modelado pelos seus efeitos sobre o comportamento do falante, quanto o comportamento do falante, que é modelado pelo comportamento do ouvinte. Tais reciprocidades definem o comportamento verbal. O comportamento verbal é, pois, modelado e mantido pelas práticas de uma comunidade verbal, e este capítulo fará algumas considerações sobre algumas das várias consequências que resultam dessas práticas. Ao definirmos o comportamento verbal desse modo, por sua função, o distinguimos de linguagem e de língua. Uma língua é definida é definida pela estrutura, não pela função. As definições, ortografias e pronúncias de um livro de gramática descrevem a estrutura padrão de várias unidades verbais em uma língua. Fazendo isso, tanto dicionários quanto os livros de gramática resumem algumas propriedades estruturais de práticas de uma comunidade verbal. O comportamento verbal de um falante ocorre no contexto dessas práticas, mas as práticas mantenedoras, ou seja, a linguagem, não deve ser confundida com o que elas mantém, que é o comportamento verbal. Como os operantes verbais são mantidos por suas consequências? O comportamento verbal tem consequências. Como é um operante, é afetado por tais consequêcias. Muitas vezes as consequências para quem fala são simplesmente o comportamento verbal subsequente de quem ouve. Assim, podemos dizer que as respostas do ouvinte reforçam o comportamento verbal do falante. Uma das consequências mais gerais do comportamento verbal é que, por meio dele, um falante pode mudar o comportamento de um ouvinte. As consequências que podem servir de reforçadores para o comportamento verbal são numerosas e variadas. Podem ser verbais o não, específicas ou abrangentes, e provavelmente 72 vários são reforçadores generalizados (“obrigado”, “de nada”). Além disso, a tendência a falar pode depender de algumas consequências, enquanto o que é falado pode depender de outras. Certas respostas verbais especificam seus reforçadores, sendo tais respostas denominadas mandos. Pedidos e ordens são mandos, já que especificam um comportamento consequente no qual o ouvinte deve se engajar. O mando não consiste apenas de diversas classes de respostas correspondendo a diversas consequências que poderiam ser objeto do mando; o mando é uma classe única de respostas que se caracteriza por incluir a resposta verbal que, em outras circunstâncias, tateia as consequências reforçadoras. Em outras palavras, o mando é um operante verbal de ordem-superior. Dentro da classe dos mandos, algumas sub-classes especificam os estímulos (“Por favor, me dê o lápis”); outras especificam o comportamento do ouvinte (“Por favor, espere por mim”); outras ainda, chamadas perguntas, especificam o comportamento verbal do ouvinte (“Qual o seu nome?”). Essas classes podem ser subdivididas de acordo com suas características; falamos de dicas (prompts) quando uma resposta verbal já é conhecida do falante e de sonda (probe) quando é desconhecida. Na linguagem do dia-a-dia, diferenciamos mandos de acordo com as diferentes contingências que eles sinalizam. Um suborno especifica as consequências para o comportamento de cumplicidade, enquanto uma ameaça especifica as consequências para o comportamento de não-submissão. Causação múltipla Um problema do comportamento verbal é que as topografias verbais particulares (ex: palavras) podem ter várias funções diferentes. Potencialmente, qualquer topografia verbal pode fazer parte de qualquer função verbal. Além disso, provavelmente nenhuma instância do comportamento verbal é determinada por apenas uma única variável. Quando dois ou mais eventos atuam determinando, ao mesmo tempo, um comportamento, falamos do seu efeito combinado de causação múltipla. Um exemplo de causação múltipla encontra-se no tatear, pois depende do estímulo tateado e depende de uma audiência para ouvir a resposta tateada. Existem inúmeros exemplos possíveis, e a grande maioria dos comportamentos, se não todos, são multi-determinados. O que é o comportamento governado verbalmente e o comportamento modelado por contingências? Como estes controles afetam o comportamento verbal? O comportamento verbal pode apresentar tanto consequências verbais quanto não-verbais, mas de uma forma ou de outra, a consequência é geralmente uma mudança no comportamento do outro. A comunidade mantém certas correspondências entre o comportamento verbal e os eventos ambientais. O ouvinte pode atuar sobre o comportamento 73 verbal do falante apenas se essas correspondências forem consistentes. O conto do “Menino e o Lobo” ilustra como o controle pelo comportamento verbal do falante pode enfraquecer se ele tateia de forma inverossímil. Algumas vezes, o que as pessoas fazem depende daquilo que elas foram instruídas a fazer; as pessoas frequentemente seguem instruções. O comportamento governado verbalmente (ou também chamado de governado por regras) é aquele determinado principalmente por antecedentes verbais; as propriedades diferem das do comportamento governado por contingências ou modelado por contingências, que é o comportamento modelado o suas consequências. Controle instrucional A função mais ampla da linguagem é a instrução; dizemos uns aos outros o que fazer e o que dizer. A linguagem não é um veículo da verdade; essas propriedades são apenas corolárias de sua função primária, a mudança do comportamento do ouvinte. Esse controle passa facilmente despercebido quando o comportamento instruído também é verbal (um roteiro é um conjunto de instruções para um ator). Um professor que define um termo está especificando as circunstâncias em que o termo e sua definição serão empregados apropriadamente pelo estudante no futuro. Uma característica importante da instrução é que ela substitui as contingências naturais por antecedentes verbais. Ao convidarmos amigos para visitar a nossa casa, entregamo-lhes nosso endereço, em vez de deixá-los procurar o caminho por si sós. Antecedentes verbais nem sempre são estímulos discriminativos: às vezes, instruções alteram a função de alguns estímulos. Uma instrução “Não toque no fogo!” altera a função do fogão enquanto estímulo, tornando-se um estímulo discriminativo sinalizador de queimadura. As contingências operam sobre o ato de seguir instruções. Como comportamento de ordem- superior, seguir instruções geralmente é mantido por contingências sociais e verbais, porém instruções específicas podem ser governadas por contingências não-verbais. Soldados no quartel obedecem as ordens de seus superiores mediante contingências sociais longas e poderosas, geralmente por meio da aplicação do controle aversivo. Porém em uma guerra, seguir ordens tem valor de sobrevivência. O termo aqüiescência tem sido sugerido para denominar o seguimento de instruções que depende de contingências sociais, e otermo rastreamento, para contingências instrucionais que envolvem o comportamento verbal e os eventos ambientais. Algumas instruções também funcionam como operações estabelecedoras (ex: quando uma propaganda que mostra fotografias de comida torna mais provável o comportamento de comer). Devido às vantagens práticas das instruções, a comunidade verbal modela o comportamento de seguir as instruções por meio de uma ampla gama de atividade, a longo de parte 74 substancial de nossas vidas. Isso só pode acontecer se as contingências que mantêm o comportamento de seguir instruções forem mais poderosas do que as contingências naturais, às quais as instruções são contrapostas. Desta forma, as instruções podem começar a superar as contingências naturais: as pessoas passam a fazer coisas, quando instruídas, que jamais fariam se fossem expostas às contingências naturais. Insensibilidade às contingências O comportamento governado verbalmente pode ser insensível às contingências, na medida em que seguir a descrição de uma contingência (instrução) não coloca o indivíduo em contato com as contingências presentes. O comportamento habilidoso, em contrapartida, deve ser modelado pelas contingências. Frequentemente, fazemos suposições acerca de situações novas, e nossas suposições muitas vezes tomam a forma de regras, formadas por nós mesmos. Mas, por vezes, nossas suposições se interpõem na situação de tal forma que fazem nosso comportamento tornar-se insensível a algumas contingências que, de outra forma, poderiam modelar e manter o comportamento em questão. Geralmente não queremos que outros façam o que dizemos, simplesmente, porque dizemos. Às vezes, instruções afastam o instruído das contingências naturais as quais elas se relacionam. Não existe uma solução fácil para este problema. Devemos sempre escolher entre os efeitos imediatos e a conveniência das instruções e seus efeitos a longo prazo sobre a sensibilidade do aprendiz às consequências do comportamento. Alguns exemplos onde a instrução dificulta a aprendizagem na página 279. Consequências intrínsecas versus consequências extrínsecas As instruções tem um papel importante na distinção entre os reforçadores intrínsecos e extrínsecos. Alguns reforçadores são instrínsecamente eficazes, ao passo que a eficácia de outros deve ser estabelecida. Muitas vezes, a ineficácia de um reforçador extrínseco está sendo determinada não pelo fato de onde vem o reforço, mas sim por uma insensibilidade às contingências gerada pela instrução, que consequentemente reduz o valor reforçador de um reforçador intrínseco. Até que o comportamento produza consequências naturais, o professor não tem escolha a não ser programar consequências artificiais, fazendo elogios ou outros reforçadores extrínsecos. O argumento, então, é de que é responsabilidade do professor acrescentar reforçadores extrínsecos apenas quando não há qualquer reforçador intrínseco na situação ou quando eles não estão funcionando. 75 Como se dão as correspondências entre Dizer e Fazer? As comunidades verbais estabelecem certas correspondências entre as palavras e os eventos. As correspondências operam em ambas as direções, como nas classes de equivalência. Outra correspondência importante é a entre o que dizemos e o que fazemos. Esta correspondência também pode atuar em ambas as direções: se fizemos alguma coisa, podemos dizer que a fizemos, e se dissermos que faremos algo, então poderemos fazê-lo. Na medida que a comunidade verbal estabelece certas contingências para tais correspondências, podemos modificar o comportamento não apenas por meio de instruções, mas também modelando o que se diz acerca do mesmo. Se forem reforçados tanto o dizer quanto a correspondência entre o dizer e o fazer, o fazer poderá ocorrer. Por meio de tais contingências, o próprio comportamento verbal de cada um pode se tornar eficaz como estímulo instrucional. Modelagem do comportamento verbal A modelagem do comportamento verbal é uma técnica potente para modificar o comportamento humano, especialmente, sabendo-se que a distinção entre comportamento governado verbalmente e comportamento governado por contingências é relevante tanto para o comportamento verbal quanto para o não-verbal. O comportamento verbal modelado ou governado por contingências é, como todo comportamento não-verbal modelado, sensível a suas consequências, mas é, também, acompanhado pelo comportamento não-verbal correspondente; se o que dizemos é modelado, fazemos o que dizemos. Por outro lado, o comportamento verbal instruído ou governado verbalmente é, como o comportamento não- verbal instruído, relativamente insensível a suas consequências, mas é menos sistematicamente acompanhado pelo comportamento não-verbal correspondente; se nos dissermos o que temos que dizer, o que fazemos não decorre necessariamente do que dizemos, mesmo quando falamos exatamente o que nos disseram para fazer. As implicações práticas disso é que pode ser mais fácil mudar o comportamento humano modelando aquilo que alguém diz, do que modelado aquilo que esse alguém faz. O comportamento humano não-verbal é frequentemente governado verbalmente, mas o comportamento verbal é geralmente modelado por contingências (talvez porque não seja comum falarmos sobre as variáveis que determinam nosso comportamento verbal). Assim, um terapeuta pode, muitas vezes, ser eficiente simplesmente modelando aquilo que o cliente fala. As terapias que fazem referência à modificação do comportamento cognitivo, ou a eficácia cognitiva, dizem modificar o comportamento do ciente pela mudança de suas cognições, mas isso é feito, de um modo geral, pela mudança do comportamento verbal do cliente, tanto por meio de instruções como por meio da modelagem verbal (provavelmente mais incidental do que deliberado). Tais terapias algumas vezes são efetivas, mas provavelmente por razões outras que não aquelas programadas. 76 Em educação, às vezes, ensinamos, modelando o que nosso estudantes dizem, por meio de questões e discussão. Mais frequentemente, ensinamos não por meio da modelagem, mas da instrução; nas aulas dizemos aos estudantes o que dizer nos exames. Se os cursos não incluem um contato direto com o objeto de estudo, o primeiro tipo de ensino tem maiores chances do que o segundo de ter algum efeito sobre o comportamento do aluno, fora da sala. Como ouvintes ou leitores se comportam? Dado que o comportamento verbal do falante proporciona estímulos discriminativos ao ouvinte, o comportamento do ouvinte é o que é ocasionado por estes estímulos. As respostas do ouvinte podem ser tão variáveis quanto as respostas a quaisquer outros tipos de evento. Os ouvintes não são passivos, e muitas vezes comportam-se verbalmente ao mesmo tempo que o falante, dizendo coisas para si mesmos, planejando réplicas, etc. Algumas vezes, agimos como nossos próprios ouvintes: ao prestar atenção cuidadosamente ao que falamos ou quando lemos o que nós mesmos escrevemos. Mesmo que se diga que o ouvinte compreendeu algo, parece improvável, contudo, que possamos oferecer uma explicação adequada da resposta do ouvinte recorrendo simplesmente ao emparelhamento de palavras a palavras (como quando se dão definições) ou de palavras a eventos (como quando se ensinam tatos). O problema do significado deve residir, pelo menos em parte, nas propriedades das respostas do ouvinte a estímulos verbais. Uma propriedade crítica pode ser as correspondências entre as respostas ocasionadas por uma palavra ou a expressão e aquelas ocasionadas poreventos não-verbais que a palavra ou expressão normalmente tateia. Significados como equivalências Ao tratar das relações formais, argumentamos que a simetria das relaçÕes entre o estímulo e a resposta favorecem um vocabulário em termos de palavras, em vez de em termos de modalidades orais ou escritas específicas. Existem correspondências semelhantes nas relações entre tatos e eventos ambientais. Elas podem ser importantes quando se fala de significado, porque a linguagem do significado é independente de se as palavras funcionam como estímulos ou como respostas. Essa pode ser a forma mais importante como classes de equivalência entram no comportamento verbal. Segue abaixo um exemplo de tal equivalência 77 A maioria das relações envolvendo chuva como um estímulo verbal e chuva como uma resposta verbal na figura estão entre os critérios necessários para falar de nomeação, mas aqui, há muito mais envolvido que simplesmente nomeação. Então, parece que julgamos a compreensão ou o significado não por uma única relação entre os estímulos e as respostas mas, ao contrário, pela integridade dos tipos de relações ilustradas da figura Dizemos que alguém compreendeu o que foi dito quando esse indivíduo repetir o que foi dito não porque alguém o disse, mas pelas mesmas razões pelas quais o outro indivíduo disse o mesmo. 78 16 - Psicolinguística: A Estrutura da Linguagem Este capítulo tratará da estrutura do comportamento verbal. Podemos ordenar as palavras em sentenças e podemos observar o quanto certas palavras são semelhantes ou não em relação ao significado. Esses são os tópicos da sintaxe e a semântica. Pergunta da semântica: que propriedades do comportamento verbal nos levam a dizer quais palavras articulares estão relacionadas quanto ao significado? A psicolinguística lida com o vocabulário do falante, com base no léxico desse falante, que é o dicionário de palavras disponíveis no seu repertório verbal. Quando os efeitos das diversas características da sintaxe e da semântica foram demonstradas no comportamento verbal, essas características foram como tendo realidade psicológica. Falamos de realidade psicológica de diversas propriedades estruturais da linguagem quando podemos mostrar que elas fazem diferença no comportamento do falante ou do ouvinte. Como a linguagem se estrutura gramaticalmente? Como palavras são organizadas em sentenças? Podemos contar ou classificar e podemos discriminar entre sentenças gramaticalmente corretas ou não. Podemos classificar sentenças gramaticalmente corretas em categorias, como voz ativa, voz passiva, passado, etc. Mas como definirmos as dimensões nas quais estamos fazendo estas distinções? Precisamos de uma descrição exaustiva dos tipos de sentenças. Na linguagem da psicolinguística, falaríamos em escrever uma gramática com um número finito de regras. Revisaremos duas teorias sobre as regularidades estruturais das sentenças gramaticais. A primeira descreve as estruturas com base em seus constituíntes ou componentes. A segunda examina a transformação que mostram como a estrutura de uma sentença está relacionada à outras. Por exemplo, considere a frase “Quem hesita está perdido”. Quando estudamos como as partes da frase vêm a ser denominadas sujeitos e predicados, ou pronomes e verbos, estamos lidando com os constituíntes. Quando descrevemos as relações desta frase com paráfrases como “Está perdido quem hesita”, estamos lidando com as transformações gramaticais. Constituintes e estrutura da frase Determinamos os constituintes da sentenças, observando como suas partes se relacionam. Nomear um constituínte isoladamente é problemático como quando sua classificação depende da relação com os outros constituíntes. Só é possível estão classificar os constituíntes a partir de suas relações com os outros constituíntes da sentença, ou identificar a estrutura da sentença. 79 Como poderemos então descrever a estrutura de uma sentença? A resposta é que as consistências da estrutura da sentença não são palavras em particular ou sequências de palavras; elas residem, ao contrário, nos vários tipos de coordenações entre as palavras. Podemos classificar as palavras de uma sentença como tipos particulares de constituintes, porque já aprendemos as estruturas típicas (p. ex. padrões de concordância entre substantivos no singular, no plural e nos verbos). As classificações gramaticais das palavras não dependem dos eventos ambientais a que nos referimos. Dependem das estruturas das sentenças dentro das quais as palavras aparecem. Os verbos, por exemplo, não são definidos como a classe de palavras que apresenta uma ação; são definidas com base na conjugação e em outras propriedades gramaticais. Isso não significa que o contexto nunca afete nossos julgamentos sobre a estrutura. Ele determina as estruturas de frases ambíguas, quando descontextualizadas. Caímos em um paradoxo. Por um lado, existem sentenças que nos permitem nomear seus constituintes sem conhecer as circunstâncias nas quais foram proferidas; por outro lado, há sentenças cujas estruturas não nos permitem nomear seus constituintes a menos que conheçamos as circunstâncias em que foram pronunciadas. Qualquer análise da gramática que seja exclusivamente estrutural ou exclusivamente funcional é necessariamente incompleta. Devemos basear nossa análise da estrutura gramatical e algo mais do que a capacidade de nomear os componentes ou diagramar as estruturas. Devemos demonstrar a relação entre as propriedades da sentença e o comportamento do falante ou do ouvinte. Estudos que procuram demonstrar tais relações estão interessados na realidade psicológica dessas dimensões da linguagem. Transformações Algumas sentenças dizem coisas diferentes, enquanto que outras dizem a mesma coisa de maneiras diferentes. Ao fazer tais julgamentos, fazemos uma discriminação das relações entre as sentenças.”Quem hesita ri por último” e “Ri por último quem hesita” diferem quanto a ordem das palavras, mas as relações estruturais entre seus componentes são as mesmas. Chamamos, por isso, a segunda sentença de uma transformação da primeira. As transformações descrevem mudanças na estrutura da sentença que preservam determinadas relações entre os constituíntes. Quando transformamos uma sentença da voz ativa para a passiva, mantemos a relação sujeito-objeto entre os substantivos e os verbos. Quando falamos de transformações que relacionam uma sentença a outra, estamos discriminando algumas características estruturais que as sentenças compartilham. As transformações são propriedades do comportamento verbal, mas não explicam o comportamento verbal. Descrever as propriedades estruturais das sentenças gramaticais é o objetivo da gramática, mas descrever uma sentença não diz como ela foi produzida ou 80 compreendida, nem sua produção ou compreensão requer um julgamento da gramática da mesma. Organização hierárquica As transformações mudam não apenas a forma das sentenças, mas também as maneiras pelas quais as sentenças ou suas partes podem ser combinadas entre si. “O canário cantava” e “O gato comeu o canário” podem se combinar em “O gato comeu o canário que cantava” . Essas estruturas são chamadas recorrentes, porque a adição de segmentos pode ocorre continuamente. Podemos expandir sentenças, acrescentando frases no seu início ou no seu fim, quando suas estruturas são chamadas de recorrentes à esquerda ou à direita, ou acrescentando partes dentro ou em torno da sentença, quando suas estruturas são chamadas de auto-embutidas ou auto-envolventes. “O canário que o gato comeu cantava”, está embutida nasentença “A música que o canário que o gato comeu cantava era desafinada”, que está envolvida por “A música era desafinada”. A análise da estrutura hierárquica é um problema geral: ele foi considerado em nossa discussão sobre as classes de ordem superior (cap. 9). Diferentes unidades entram em diferentes níveis de análise no comportamento verbal. Letras e fonemas combinam-se em morfemas e palavras, que por sua vez, formam frases e sentenças que, por sua vez, agrupam- se em parágrafos e textos, e assim por diante. Nossa preocupação aqui foi, principalmente com a estrutura das sentenças, mas tais análises poderiam ser feitas com estruturas de unidades maiores e menores. As estruturas de sentenças têm ma importância comportamental; na medida em que as transformações descrevem o que fazemos quando falamos, ouvimos, lemos ou escrevemos, elas correspondem a alguns processos autoclíticos. Como a sintaxe nos ajuda a entender o problema do significado? Estudar semântica é trava uma batalha com o problema do significado. Nosso tratamento sobre o comportamento verbal apontou que o vocabulário tradicional do significado e referência pode ser enganoso. Parte do problema é que a produção do comportamento verbal por um falante ou por um escritor pode ser distinto da compreensão deste comportamento por um ouvinte ou leitor. O decorrer normal do desenvolvimento da linguagem cria correspondências entre a produção da linguagem e a compreensão da mesma, entretanto não devemos toma-las como certas. Nosso tratamento da semântica derá ênfase à compreensão: o que acontece quando se diz que alguém compreendeu uma palavra ou uma sentença? 81 Quando falamos de transformações, falamos do conceito de estrutura profunda (este é o nome para aquelas propriedades de uma sentença que permanecem constantes ao longo de várias transformações. Aquilo que mantemos constante quando alteramos a estrutura sintática de uma sentença é sua estrutura semântica. A mensuração do significado Estudos em semântica costumam trabalhar com o significado de palavras isoladas. As definições produzidas por associações de palavras ou pelo diferencial semântico (p. 298) não nos permitem dizer muita coisa sobre o significado comportamental dos significados. Os significados não são propriedades das palavras em si; são propriedades de nossas respostas às palavras. A semântica envolve mais do que as próprias palavras; envolve a correspondência entre as palavras e as classes de estímulo. Quando estas classes não tem limites bem definidos, elas são exemplos de classes de estímulo probabilísticas (conjuntos difusos, cap. 7). A anáise da estrutura semântica não explica as classes de estímulo probabilísticas; ela define algumas de suas propriedades. Metáfora A metáfora demonstra outro aspecto da estrutura semântica. No cap. 14, a metáfora ilustrou a extensão do comportamento verbal para eventos novos. Uma vez que determinadas metáforas se tornem eficientes dentro de uma comunidade verbal, elas têm maior probabilidade de evoluir, interagir e se expandir para uma variedade de situações. Metáforas comuns: • Linguagem como comunicação de idéias: idéias e significados são objetos transformados em palavras que são, então, transmitidos a outras pessoas. • Tempo como dinheiro • Compreender como ver • Mais como acima; menos como abaixo Os sistemas de metáforas podem ser coordenados entre si. Dizer que um argumento teórico pode ser demolido, atacando seus pontos fracos, combina a metáfora da discussão como guerra e com a metáfora da edificação. Em tarefas de julgamento semântico, os tempos de reação são frequentemente menores para usos metafóricos do que para usos literais. A metáfora não é apenas matéria-prima da poesia; é um aspecto fundamental do comportamento verbal. A característica mais importante da metáfora é que ela nos permite lidar com o abstrato a partir do concreto. A linguagem de dimensões abstratas, como bom-mau ou feliz-triste transformam- se em uma linguagem com dimensões mais acessíveis, como cima-baixo. Amanhã-ontem se torna em frente-para trás. 82 Referimo-nos a classes de respostas em termos de operante e a classes de estímulo em termos de conceitos. As palavras podem funcionar tanto como respostas quanto como estímulos, assim, é razoável que falemos de classes semânticas de palavras em termos de significado. Algumas propriedades da linguagem A propriedades que, supostamente, são características de todas as linguagens humanas tem sido denominadas universais linguísticos. Todas as línguas humanas tem a estrutura sujeito- predicado, distinguem o singular do plural e são limitadas quanto às transformações que podem operar sobre as estruturas embutidas. O inverso da questão dos universais linguísticos é a relatividade da linguagem. Não é surpreendente que os vocabulários correspondem às classes de eventos funcionalmente importantes em diferentes comunidades linguísticas. A relatividade da linguagem apresenta maior interesse quando parece envolver relações gramaticais possíveis ao invés de categorias de linguagem. Por exemplo, línguas em que substantivos e verbos são permutáveis (pensamento-pensar) podem levar a diferentes tratamentos dos eventos e das ações do que línguas onde isso não e possível. Na medida em que a linguagem é comportamento, línguas particulares inevitavelmente terão propriedades funcionais diferentes. A relatividade da linguagem lembra-nos que devemos lidar com cada linguagem no contexto ambiental dentro do qual ela foi modelada. História acerca do debate sobre o Desenvolvimento da Linguagem Se a linguagem é inata ou aprendida, a conclusão razoável é que ambas, filogênese e ontogênese, contribuem. Porém é improvável que tenhamos estruturas inatas, pois a linguagem em nossa espécie é muito recente. Mesmo que fosse provado que as crianças não têm que aprender todos os detalhes da gramática, porque alguns estão construídos nela, isso não significaria que não há muitas outras coisas sobre o comportamento verbal que elas tenham ainda que aprender. Há evidências que ambientes verbais ricos fazem diferença grande e duradoura na competência verbal dessas crianças. As contigências têm importância.. Deixis Uma característica significativa do desenvolvimento da linguagem da criança é a evolução de vocabulário dêitico; os dêiticos são ocasionados não por propriedades intrínsecas de eventos ou objetos, mas antes por sua relação com o falante ou ouvinte. Exemplos: aqui-lá, isto-aquilo e à frente-atrás. Em cada caso, o termo apropriado depende de onde a pessoa está situada. 83 A aquisição dos deixis acompanha de perto a de outros vocabulários relacionais (grande- pequeno). Em combinação com os pronomes, as funções dos dêiticos na linguagem são análogos às das variáveis em álgebra; podemos falar de coisas mesmo que não possamos nomeá-las (que é isto? quem estava lá?). Pronomes pessoais são um caso especial de vocabulário dêitico. As crianças geralmente aprendem isto antes de eu ou você, e as distinções entre a primeira e a segunda pessoa emerge antes de distinções dentro desta classe (me-meu-minha e você-seu-sua). Mas eu e me não são aprendidos como nome pessoal; alguém chamado de você e não de eu ou me quando a ele nos dirigimos. Como, então, as crianças passam a dizer eu e me, apropriadamente, quando se tornam falantes em vez de ouvintes? É difícil observar as condições sob as quais esta característica da linguagem se desenvolve. Podemos descrever como esse domínio evolui; mas não sabemos detalhes o bastante para dizer que aspectos do ambiente verbal da criançasão cruciais para esta evolução. Tais propriedades que levam a deixis são provavelmente comuns a todos os ambientes humanos. Os pronomes pessoais e o vocabulário dêitico envolvem discriminações entre eventos relacionados a si mesmos, e assim, estão supostamente relacionados de perto a discriminações do próprio comportamento da pessoa, assim se relacionando com o contexto dos processos autoclíticos e com o conceito de auto-consciência. Essas características de desenvolvimento da linguagem sugerem que a linguagem humana e a autoconsciência estão associadas de maneira inseparável. Produtividade Outra característica importante da linguagem é sua novidade; quando escrevemos uma sentença, é provável que ela seja diferente de qualquer outra que já tenhamos escrito antes. Essa característica da linguagem é chamada de produtividade (a linguagem compartilha essa propriedade com o comportamento não-verbal). Podemos lidar com a novidade em termos de características que a nova sentença compartilha com as sentenças anteriores; as novas produções envolvem combinações de novas classes sintáticas e semânticas já estabelecidas (adução, cap. 9) No caso da estrutura sintática, são aprendidas palavras específicas e sequências de palavras, mas que, em seguida, começam a dominar unidades maiores, como as classes de plurais, e onde podem derivar plurais de palavras de palavras pouco conhecidas ou até desconhecidas., O mesmo se aplica a estruturas semânticas. Eventos em um contexto novo podem ocasionar novas expressões gramaticais mas as expressões também podem ser semanticamente novas. Referimo-nos a tais casos com base nas metáforas e nas analogias. 84 17 - Aprendizagem Verbal e Transferência Este capítulo examinará quatro classes principais de procedimentos de aprendizagem verbal. Depois, serão examinados alguns problemas de transferência de aprendizagem, quando o que é aprendido afeta futuras aprendizagens. Quais são os procedimentos de aprendizagem verbal? Como eles funcionam? Classes de Procedimentos da Aprendizagem Verbal Nome Descrição Exemplos Aprendizagem Serial Os itens de uma sequência são aprendidos em ordem Aprender a recitar o alfabeto ou os meses do ano; aprender a recitar um poema Aprendizagem de pares associados Cada um dos vários estímulos verbais ocasiona uma resposta verbal diferente; a ordem dos pares estímulo-resposta podem variar Dado o nome de um estado, nomear a capital; dada uma palavra em outra língua, fornecer o equivalente em português Recordação livre Os itens de uma lista são nomeados sem levar em conta a ordem Nomear os times de futebol de um campeonato; nomear os jogadores de um determinado time. Discriminação verbal As respostas são ocasionadas pelas classes em que os estímulos verbais se enquadram; em outras palavras, uma discriminação em que as dimensões do estímulo é verbal Identificar os substantivos de um parágrafo ou texto; dados alguns nomes num fichário, separar cartões em um conjunto com os nomes femininos e outro com os nomes masculinos. Reconhecimento verbal Um caso especial de discriminação verbal. A propriedade que define a classe discriminada é se o item verbal apareceu em um contexto ou lista anterior especificada. Dada uma lista de nomes, dizer quais são aqueles que você conhece, dstinguir entre termos técnicos antigos e novos ao ler um texto Este tópico, no livro, constitui de um minucioso levantamento de experimento históricos envolvendo este processo. Ao fazer isso, Catania argumenta como tas experimentos tem desempenhos estabelecidos somente por instruções, não levando em consideração as contingências. O sujeito, em tais experimentos, enquanto aprende as tarefas, faz muito mais que o esperado. Dessa forma, parece inapropriado encarar as associações meramente como sequências verbais; o comportamento verbal humano tem outras propriedades estruturais, além do ordenamento temporal dos eventos. Tais procedimentos de aprendizagem verbal devem ser relacionadas com o contexto de seu desenvolvimento. Aqueles procedimentos foram elaborados a serviço de explicações de aprendizagem verbal em termos de associações. Essas explicações pressupunham que a aprendizagem verbal estabelecia relações estímulo-resposta nas quais determinados estímulos verbais passavam a ocasionar determinadas respostas verbais. Mas as relações estabelecidas 85 na aprendizagem verbal inevitavelmente estabelecia outras relações entre os itens verbais. Veremos algumas implicações desta abordagem nos capítulos 19 e 19, sobre memória. O que é a Transferência? Como que aprender um conjunto de materiais verbais afeta a aprendizagem de outros materiais? O domínio de uma língua clássica como o grego ou o latim facilitam a aprendizagem de Economia, História ou Sociologia? Pode o aprendizado de Matemática fazer alguém pensar de forma mais lógica? O estudo da música ou da arte faz adquirir habilidades que seriam úteis para o estudo de grandes obras de literatura? A transferência de aprendizagem de um assunto para outro é de difícil análise. É razoável pressupor que algumas habilidades de estudo se generalizam de um curso para outro. Mas o exame de como uma língua clássica pode influenciar o progresso de um estudante de Matemática, Ciências ou Filosofia requeriria procedimentos experimentais que possivelmente não seriam nem práticos, nem aceitáveis, em uma instituição educacional típica. A pesquisa sobre a transferência concentrou-se em tarefas mais simples, o que talvez fosse inevitável, como a transferência de uma lista de pares associados para outra. Transferência positiva: quando a aprendizagem de X facilita a aprendizagem de Y. Transferência negativa: quando a aprendizagem de X dificulta a aprendizagem de Y. Para ocorrer transferência tanto verbal quanto não verbal. A transferência pode ajudar a estabelecer algumas relações formais entre os estímulos e respostas faladas e escritas (cap. 14). Quando a aprendizagem de (1) afeta a aprendizagem de (2, denomina-se esse efeito de proativo, porque a direção do efeito é de uma tarefa anterior ara uma posterior. Quando (2) afeta (1), denomina-se esse efeito de retroativo. Exemplo de proação: quando a preparação em álgebra afeta o domínio em cálculo. Exemplo de retroação: quando o vocabulário técnico aprendido em um curso avançado em ciências afeta a terminologia aprendida em um curso introdutório. 86 18 - As Funções do Lembrar O estudo do lembrar está interessado em como uma resposta de um organismo, neste momento, pode ser ocasionada por eventos passados, quando, por exemplo, um atraso é imposto entre um estímulo e uma oportunidade de responder. As explicações acerca do lembrar frequentemente chamam o que o organismo faz quando o estímulo é apresentado de armazenamento de memória, o tempo interveniente de período de retenção e aquilo que o organismo faz quando a resposta ocorre mais tarde de recuperação de memória. Com pombos, um atraso entre um estímulo discriminativo e a resposta de até 2 segundos não costuma afetar o desempenho. Porém a partir de 5 segundos o desempenho tende a ir ao acaso. Porém, se ensinarmos um comportamento mediador (ver glossário) ao pombo, o atraso pode ser de até 2 minutos. Assim, o lembrar do pombo depende de seu comportamento mediador. Também modificamos nosso lembrar a partir de nosso comportamento; ensaiamos um número que queremos lembrar mais tarde, e a capacidade de lembrarmos deste número depende de nosso comportamento. O que são sistemas mnemônicos? Os sistemas mnemônicos são técnicas (clsses de comportamentos) para aumentara probabilidade do lembrar. O lembrar pode envolver a persistência do comportamento ao longo do tempo, como no ensaio, mas isso é apenas uma parte da história. O uso de sistemas mnemônicos torna o aprendiz menos dependente do ensaio, que é o principal componente da memorização por repetição. Outra técnica mnemônica simples é a conversão de símbolos em uma sentença: EGBDF (notas musicais) se tornam Esta Grande Bola Dá Fogo. Outros exemplos são o sistema loci (de local), de rima e a de tradução de números em letras. Estas técnicas mostram como são variados os fenômenos do lembrar. Eles são classes de comportamento que podem ser aprendidos e mostram o que o aprendiz lembra depende do que ele faz. Análise das metáforas do armazenamento, da retenção e da recuperação. Um episódio de lembrar é definido por três componentes; a aprendizagem inicial de um item, a passagem do tempo e então a oportunidade para o lembrar. Na literatura de pesquisa sobre a memória, um tratamento metafórico destes três componentes tem evoluído gradualmente para 87 uma linguagem técnica. Diz-se que o armazenamento do item resulta da aprendizagem inicial, que determina como o item é retido ao longo do tempo; um período de retenção é seguido pela oportunidade de recordar; o recordar o item é então chamado de recuperação do armazenamento. Diz-se que um item que foi armazenado está disponível, mas somente acessível se puder ser recuperado. A linguagem do armazenamento e da recuperação é uma analogia eficiente do que acontece no lembrar, mas devemos reconhecer seu status metafórico. De fato, um dos objetivos de algumas pesquisas sobre a memória é explicar as propriedades funcionais do lembrar, determinando a gama de condições ao longo das quais a metáfora é válida. Armazenamento: codificação e níveis de processamento Quando você lembra um estímulo, o que você lembra não é tanto o estímulo em si, mas sim sua resposta ao mesmo. Tal resposta inevitavelmente difere do estímulo, mesmo quando eles pertençam a mesma modalidade (como quando você repete em voz alta um item verbal ditado). Como na análise do controle de estímulo, o problema do lembrar não será resolvido tentando seguir o estímulo dentro do organismo; em vez disso, devemos descobrir como caracterizar o comportamento do organismo em relação ao estímulo. O comportamento do aprendiz no que diz respeito ao estímulo a ser lembrado é denominado codificar (encoding). A codificação pode depender de apenas uma variável do estímulo ou de classes complexas, dependendo de como houve a codificação. Aqui se faz uso de sistemas mnemônicos. Certas propriedades do estímulo tem maior probabilidade de ocasionar respostas que outras; as palavras escritas muito provavelmente são determinantes para que ocorra o tipo de codificação chamada leitura. Mesmo a nomeação pode ser um tipo de codificação. Isso pode explicar, em parte, porque temos menor probabilidade de lembrar de nossa infância do que de momentos posteriores de nossas vidas. O nível de processamento é um conceito descritivo que relaciona “profundidade de processamento” com a probabilidade de lembrar. Assim a probabilidade de lembrar variam em diferentes tipos de codificação. Retenção: a questão da reorganização da memória A metáfora da retenção e do armazenamento não nos ajuda muito, já que não armazenamos os estímulos. Talvez seja mais adequado explicar o lembrar não como um processo reprodutivo, mas sim como um processo reconstrutivo, em que aspectos de eventos passados são derivados ou reconstruídos a partir do que foi codificado. 88 Dado que podemos afetar o lembrar interrompendo ou interferindo sobre o ensaio logo depois de um evento, não deveríamos fiar surpresos por também fazê-lo, distorcendo-o ou interferindo sobre ele mais tarde. Algumas distorções do lembrar podem estar baseadas nas relações temporais entre o evento lembrado e a recordação posterior que introduziu algo novo; o domínio de um sobre o outro pode se reverter dependendo da sua separação no tempo, em relações reminicientes dos eventos, mas essa reversão se dá na direção temporal oposta das reversões de preferência em procedimentos de autocontrole. O desenvolvimento de falsas memórias podem ter origem em uma modelagem do comportamento verbal, modificando os “lembrares” anteriores, podendo estas falsas-memórias se tornarem até mais duradouras. É preciso produzir conhecimento sobre este fenômeno para que possamos intervir quando lembramos (em relatos policiais, por exemplo) sem levantar questões legais ou éticas. Recuperação: dependência de pistas e acessibilidade Não há qualquer probabilidade de lembrar um item ou evento na ausência de estímulos discriminativos correlacionados com algumas propriedades do item ou evento a ser lembrado. A característica nuclear da recuperação é a produção de condições similares àquelas que existiam durante a codificação e o armazenamento. Tais condições podem ser propriedades de estímulos, propriedades relacionais entre estímulos e respostas e até mesmo o contexto. Por exemplo, caso se codifique algo quando bêbado, é mais provável recuperar quando bêbado do que quando sóbrio. Problemas da metáfora da busca: ● Até que ponto a metáfora lida com a rapidez e a precisão com que os humanos podem discriminar entre conhecer alguma coisa e desconhecê-la? ● Porque a busca deveria levar mais tempo quando um item apropriado existe para ser encontrado do que quando não existe, e portanto quando a busca deve examinar cada item no armazenamento metafórico? Além do problema da rapidez com que podemos dizer não conhecer algo, a metáfora também parece forçada pela vasta capacidade da memória humana; se não por qualquer outro motivo, uma busca no arquivo da memória a cada vez que se queira lembrar parece ineficiente. A dependência de pistas sugere uma busca mais restrita, limitada pelas condições no momento da recordação. O que é a metamemória? O lembrar é um comportamento e o lembrar pode ser aprendido. Não apenas aprendemos padrões de ensaio ou repetição e as técnicas mnemônicas, mas também aprendemos a julgar as propriedades de nosso próprio lembrar. O que fazemos ao lembrar dependerá, ao menos parcialmente, de consequências passadas do nosso lembrar. Podemos, portanto, definir a metamemória com base na diferenciação e na discriminação do nosso próprio lembrar. 89 Memória corrente ou memória de trabalho As atualizações contínuas do que é lembrado, pela eliminação de alguns itens e acréscimo de outros, é, às vezes, chamada de memória corrente ou memória de trabalho (running ou working memory). A atualização constante do que pode ser esquecido e do que deve ainda ser lembrado é crucial para um garçom, por exemplo. O lembrar discriminado Os aprendizes podem não apenas aprender a lembrar e a esquecer de modo diferencial, por exemplo, quando eles apresentam maior probabilidade de lembrar tarefas inacabadas do que de tarefas acabadas, mas podem também discriminar entre as propriedades de seu próprio lembrar. Quando a palavra está na ponta da língua, você frequentemente pode mencionar sua letra inicial, o número de sílabas, ou alguma outra propriedade, e também pode reconhecê-la quando se deparar com ela. Tanto no armazenamento como na recuperação, os aprendizes podem estimar a probabilidade do lembrar; geralmente , eles podem também discriminar entre nunca ter aprendido algo e ter aprendido e depois esquecido. 90 19 - A Estrutura do Lembrar No capítulo anterior o interesse era como ela funcionava, mas neste capítulo estaremos interessados no que é lembrado. As análises do que é lembrado, como as análisesdos efeitos do reforço, podem nos dizer algo acerca das propriedades das classes do comportamento. Há dois critérios para classificar os comportamentos de lembrar: uma classe é definida pelo período de tempo no qual algo é lembrado, a outra é pelo que é lembrado. A duração do comportamento de lembrar pode ser dividida em três fenômenos: (1) a persistência relativamente breve dos efeitos dos estímulos; (2) a manutenção do responder ocasionado por um estímulo, como no ensaio; e (3) lembrar após algum tempo decorrido, sem ensaio. Essas classes tem sido respectivamente chamados de 1) memória icônica, (2) memória de curto prazo e (3) memória de longo prazo. O que é lembrado também será examinado. Exemplos de componentes desta classe são a memória episódica ou autobiográfica e a memória semântica. Memória Icônica Os efeitos de um estímulo podem continuar mesmo depois do término de sua apresentação. Os pós-efeitos persistentes de estímulos visuais são chamados de ícones, e o tópico chamado de memória icônica trata de seu uso temporal. O experimento da página 343 mostra que os efeitos sensoriais de um estímulo continuam por um breve espaço de tempo depois que o estímulo tenha sido removido. Os efeitos dos estímulos auditivos (memória ecóica) tendem a diminuir mais lentamente que os efeitos dos estímulos visuais. Porém estes efeitos pouco explicam sobre o lembrar ao longo de minutos ou dias. Memória de curto prazo A propriedade definidora deste lembrar é que a resposta é ocasionada por um comportamento mediador, tal como o ensaio. Com base em experimentos, a duração dela é de curta duração (de 10 a 20 segundos, p. ex.) e limitada a aproximadamente 5 a 9 itens. Memória de longo prazo A memória de longo prazo ocorre depois da codificação e da recapitulação e/ou apresentações múltiplas dos itens, e, assim, tem capacidade e duração ilimitadas. A estrutura da memória Agora classificaremos os diferentes tipos de lembrar de acordo com a estrutura do que é lembrado. A relação entre o que aconteceu e o que é lembrado define a estrutura do lembrar. 91 Memória de processamento e memória declarativa Lembrar de como as coisas são feitas é chamada de memória de processamento. A memória motora é um exemplo. A memória motora pode ser distinguida em outras 2 classes: as habilidades discretas, como datilografar e trocar a marcha de carros com câmbio manual; e as habilidades contínuas, como nadar ou dirigir um carro. Habilidades discretas tem maior probabilidade de serem esquecidas do que habilidades contínuas. A memória declarativa é o lembrar verbal, em contraste com a memória de procedimento, pois é o lembrar verbal de como são feitas as coisas. Memória implícita e memória explícita Alguns tipos de lembrar não podem ser avaliados simplesmente perguntando o que alguém lembra. Esta é a base para distinguir entre a memória implícita e explícita. Esses dois tipos de lembrar estão geralmente integrados em adultos normais, porém em pessoas com afasia a dissociação é mais evidente. Neles, estímulos verbais podem ter efeito sobre o comportamento verbal subsequente (implicitamente lembrado) mesmo quando não podem ser relatados mais tarde (não são explicitamente lembrados). Memória episódica e memória semântica A memória episódica ou autobiográfica é aquela que envolve a recordação de episódios de nossa própria vida. O lembrar no cotidiano geralmente envolve essa classe do lembrar. A memória semântica é o lembrar de propriedades da linguagem: o emprego de palavras, os idiomas e os aspectos funcionais da gramática. Estas classes não são exaustivas, e existem outras classes do lembrar. Ver página 352. 92 20 - Cognição e Resolução de Problemas O que são processos cognitivos? Não podemos ver o que alguém está pensando ou imaginando. Mas assim como andar e falar, imaginar é algo que fazemos, e devem ser tratados como comportamento, já que operantes não são definidos por sua topografia. É plausível supor que tal comportamento tem algo em comum com o comportamento de olhar para eventos no ambiente (podemos discriminar nosso imaginar de nosso ver; quando falhamos em fazer isso, diz-se que alucinamos). Um evento privado é, por definição, acessível apenas à pessoa que se comporta, mas a linguagem de eventos privados deve ser baseada, em algum grau, naquilo que é publicamente acessível à comunidade verbal. Assim, as consistências no relato dos eventos privados devem depender das consistências nas relações entre os vocabulários privados e públicos. Quando o comportamento não envolve um movimento, podemos registrar outras propriedades do comportamento, como a duração ou a latência. Um experimento acerca da mudança de atenção na página 356 exemplifica esta afirmação. Imaginação visual Imaginar é um comportamento visual na ausência do estímulo visual, e o que se faz ao imaginar é equivalente ao que se fez anteriormente com objetos reais. Tratar o imaginar como um comportamento ao invés de algo que a pessoa “tem” ou “não tem” levanta a possibilidade de que o visualizar possa ser ensinado. Porém faltam estudos sistemáticos de tais fenômenos. Simulações Nosso imaginar não se limita à modalidade visual. Nós não apenas visualizamos; mantemos conversas imaginárias, embarcamos em viagens imaginárias e desempenhamos ações imaginárias. Todas essas são simulações, imitações na ausência da estimulação relevante de algumas partes do comportamento que podem ocorrer em várias situações. Representações mentais O desenvolvimento de estruturas cognitivas pode ser considerado como o desenvolvimento de correspondências entre a estrutura do ambiente e a estrutura do comportamento. Análises de aprendizagem de conceito e estratégias estão, às vezes, baseadas na demonstração de tais correspondências. 93 As representações não existem nas pessoas exceto em um sentido metafórico; elas existem em nosso próprio comportamento discriminativo quando observamos a pessoa se comportando, e correspondem às correspondências que observamos nela ou em seu comportamento. Resolução de problemas A análise de resoluções de problemas têm sido tratadas por abordagens cognitivistas com ênfase sobre a estrutura do problema. Mas tal análise também levanta questões funcionais, quando, por exemplo, consideramos as condições que podem tornar a solução de um problema mais ou menos provável. A resolução de problemas por máquinas é limitado ao que o programador consegue programar: apenas o comportamento governado verbalmente, como um sistema de regras ou orientações. Porém máquinas ainda não são modeladas pelo ambiente, e seu desempenho nunca alcançará o desempenho de comportamentos que não podem ser verbalizados. Assim, estudos de resoluções de problemas em humanos envolvem os efeitos da história do solucionador de problemas na resolução de problemas. Fixação funcional Casos de falha em resolver um problema que requer um uso incomum de materiais e ferramentas comuns são, às vezes, descritos como exemplos de fixação ou rigidez funcional; os objetos ocasionam respostas apropriadas as suas funções cotidianas, mas não respostas novas apropriadas à solução do problema (cap. 15: insensibilidade às contingências). A construção de soluções A resolução de problemas é um comportamento. As características discriminativas da situação definem o problema. Frequentemente resolvemos problemas manipulando estímulos: fazer uma consulta, converter um problema verbal em uma equação matemática, etc. É importante reconhecer como podemos alterar nosso próprio comportamento ao altera o ambiente. 94 Parte V - Conclusão 21 - Estrutura e Função da Aprendizagem A maior parte da abordagem do livro classificou os fenômenosda aprendizagem de acordo com as operações experimentais. Contudo, não há garantias de que a imposição de um procedimento específico a um dado comportamento de um organismo será eficaz. Um procedimento que leve um organismo a aprender pode não ser eficaz com outro, e um organismo que aprenda sob um procedimento pode não aprender sob outro. Tais resultados não invalidam nossa taxonomia comportamental, porque as classificações são meras formas de nomear os fenômenos e relacioná-los uns com os outros. Isso não seria assim se supuséssemos que toda a aprendizagem é baseada em um processo apenas ou em um reduzido número de processos que atuam sobre todos os organismos e procedimentos. Duas Psicologias da Aprendizagem, um resumo histórico Os procedimentos de aprendizagem não podem ser exaustivamente explicados por um único processo. Assim, a história da psicologia da aprendizagem, uma novela de confusões e controvérsias, tem sido contada, frequentemente, mais sob um prisma dos teóricos e de seus sistemas do que em termos dos fenômenos da aprendizagem. Catania fala que historicamente houveram 2 psicologias da aprendizagem: uma preocupada com o condicionamento e aprendizagem animal, e outra preocupada com a aprendizagem humana e a memória. Porém as duas não deveriam ser separadas:os fenômenos da aprendizagem estudados com animais também ocorrem no comportamento humano; a natureza da aprendizagem humana complexa é esclarecida por análises com base nos processos elementares; e, talvez o mais importante, o comportamento humano é caracterizado, principalmente, pelo intercâmbio entre as respostas verbais e não-verbais, cujas origens ainda estamos por entender. É preciso identificar não apenas as propriedades de nosso comportamento que são unicamente humanas, mas também aquelas que temos em comum com outros organismos. É necessária uma única psicologia da aprendizagem que abranja todos os tipos de aprendizagem animal e humana. Sobre Estrutura e Função, para construir uma psicologia da educação que integre estes dois problemas Uma análise estrutural considera as relações entre os estímulos as respostas questão mantidas constantes, enquanto variam propriedades críticas de um e de outro. Observamos as propriedades das unidades verbais, as organizações hierárquicas na estrutura do texto e as correspondências entre estrutura do estímulo e da resposta. 95 Uma análise funcional mantém constantes os estímulos e as respostas de interesse enquanto variam as relações entre os mesmos. Estudamos as interações entre comportamento e o ambiente com base nas relações de contingência entre os estímulos discriminativos, as respostas e as consequências. Os problemas estruturais e funcionais estão frequentemente interrelacionados, e não são excludentes. Contudo, na evolução da Psicologia, a distinção entre as abordagens estrutural e funcional tornou-se correlacionada com outra distinção, aquela entre as linguagens da Psicologia cognitiva e a do Behaviorismo. Na Biologia há a distinção entre estrutura, Anatomia, e função, Fisiologia, mas não houve um cisma equivalente ao da Psicologia, porque as linguagens não divergem. O problema da estrutura e da função, na Biologia, foi resolvido com o reconhecimento de que estrutura e função são ambas determinadas pela seleção. Seria rico para a Psicologia da Aprendizagem se os problemas estruturais e funcionais fossem tratados como complementares, assim como na Biologia. Aprendizagem e Evolução As analogias entre o comportamento e a Biologia sugerem que algumas soluções apropriadas à Biologia serão apropriadas à Análise do Comportamento. Vimos a importância das descrições do que ocorre na aprendizagem e demos prioridade a essas descrições em detrimento de teorias, mecanismos ou modelos. A Psicologia da Aprendizagem procurou explicar a aprendizagem procurando fontes de respostas (traços neurais, associações, estruturas cognitivas). Mas isso resultou em retrocesso. Deveríamos utilizar o desenvolvimento do comportamento para definir as classes comportamentais: levando em consideração de onde vieram e como foram aprendidas. O termo “Aprendizagem” O termo aprendizagem perde sentido frente a multiplicidade de fenômenos e procedimentos onde ocorre a aprendizagem, especialmente por ele ser um conceito que raramente se refere a tais fenômenos. Podemos modificar hierarquias comportamentais, modelar novas respostas, construir classes de ordem superior, gerar discriminações, formar classes de equivalência, resolver problemas e criar novos comportamentos por meio da adução. O desenvolvimento da compreensão destes fenômenos depende, em algum grau, de desenvolvermos uma linguagem consistente com eles; tal linguagem se desenvolverá com o progresso das pesquisas. 96