Prévia do material em texto
RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 1 DIREITO PROCESSUAL PENAL 1 CONCEITOS: “É o ramo do Direito Público que tem por objeto determinar as formas pelas quais se iniciam, desenvolvem e terminam os procedimentos punitivos, visando restabelecer a ordem jurídica turbada pelos delitos”- Roberto Barcelos Magalhães. “É um complexo de atos solenes preestabelecidos, pelos quais certas pessoas, legitimamente autorizadas, conhecem dos delitos e dos delinquentes, para justa aplicação das penas”- Galdino Siqueira. “É um conjunto de normas e princípios que regulam a aplicação jurisdicional do direito penal objetivo, a sistematização dos órgãos de jurisdição e respectivos auxiliares, bem como a persecução penal”- Frederico Marques. “É uma sequência de fatos, atos e negócios jurídicos que a lei impõe (normas imperativas) ou dispõe (regras técnicas e normas puramente ordenatórias) para a averiguação do crime e da autoria e para o julgamento de ilicitude e da culpabilidade”- Hélio Tornaghi. Nucci: Direito Processual Penal é o corpo de normas jurídicas cuja finalidade é regular o modo, os meios e os órgãos encarregados de punir do Estado, realizando-se por intermédio do Poder Judiciário, constitucionalmente incumbido de aplicar a lei ao caso concreto. Características do Direito Processual Penal: · Autonomia - O direito processual não é submisso ao direito material (Direito Penal), pois possui princípios e regras próprias. · Instrumentalidade - É meio para fazer atuar o Direito Penal. · Normatividade (DECRETO LEI 3689/1941, CRIAÇÃO DO CPP) é a partir da norma processual penal que se instrumenta os princípios, organiza os institutos e constrói o sistema processual pátrio. · RELAÇÃO COM OS DEMAIS RAMOS DO DIREITO, POIS SE COMUNICAM E INFLUENCIAM ENTRE SI, TENDO UMA RELAÇÃO DE SUBSISTÊNCIA MUTUA COM O DIREITO PENAL, POIS SEM O PROCESSO PENAL O DIREITO PENAL NÃO TEM APLICABILIDADE, É O PROCESSO PENAL MEIO DE REALIZAÇÃO DO DIREITO PENAL, CARATER INSTRUMENTAL. (Rosberg) CONCEITO: Conjunto de normas (princípios e regras) que regulamentam ou disciplinam a persecutio criminis e a tutela das liberdades. Persecutio Criminis: caminho necessário que o Estado deve percorrer para alcançar o titulo executório. Persecutio criminis antes do Juízo (investigação preliminar) Persecutio Criminis em Juízo Entendimento do STF, porém juízo de 1º grau ainda não adota: Eventuais irregularidades na fase de investigação não contaminam a faze judicial, mas o ministro Celso de Melo diz que a Persecutio criminis é uma só, logicamente a depender da irregularidade irá contaminar a ação penal. Ex: Confissão na fase extrajudicial mediante tortura. RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 2 OBJETO: Cotejamento entre o “ius puniendi” e o “ius libertatis” – Doutrina clássica. Contemporaneamente o objeto é o caso penal, a imputação do fato levado ao judiciário. NATUREZA JURÍDICA: Majoritariamente é uma Relação jurídica, na medida em que há sujeitos de direitos. (É incompatível a ideia de Lide no processo penal); Para a minoria é uma situação jurídica de incertezas (Aury). Existe lide no processo penal? No Brasil a corrente majoritária fundada na visão de Carnelutti afirma que toda lide é um processo. Já na visão de Chiovenda nem toda lide é um processo, pois existe a possibilidade das partes convergirem com os mesmos pedidos, como por exemplo em um processo tendo o autor da ação pedindo a absolvição e o ministério público também pedindo a absolvição. jus puniendi x jus libertatis A clássica doutrina italiana sustentou através de Carnelutti que existe lide no processo penal, a qual se traduz no conflito entre a pretensão do acusador que tenta impor ao jus puniendi estatal, contra a pretensão do acusado que se apega ao seu jus libertatis. Em contrapartida, contrariando os argumentos sobre a existência da lide no processo penal, Chiovenda defende que a existência do processo não está condicionada uma lide (pretensão resistida), tendo em vista que, por vezes, as pretensões das partes podem convergir. No Brasil, atualmente, tem prevalecido na doutrina as ideias de Carnelutti, aceitando a existência da lide no processo. No entanto, há uma corrente minoritária, a exemplo do professor Aury Lopes Júnior que se filia ao entendimento de Chiovenda, argumentando que o próprio artigo 127 da cf/88 atesta que o ministério público é um ente imparcial, não podendo, portanto, figurar no clássico triângulo processual. Art. 127. O ministério público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Exemplos em que não há lide no PP: quando mesmo com a denúncia ao órgão policial o MP requer a absolvição do acusado, quando o acusado confessa a autoria do fato criminoso e manifesta a intenção de se submeter à punição estatal, na execução penal não há lide apenas sujeição do condenado a regimes prisionais, não há lide nas ações de revisão criminal, não há lide na reabilitação e em alguns casos de hábeas corpus, quando o próprio MP os ajuíza. Fernando da Costa Tourinho Filho “Cumpre notar não ser pacífico falar em “lide” no campo processual penal. Se a lide é caracterizada por uma pretensão resistida ou insatisfeita, diz-se, não se pode conceber lide no Processo Penal à semelhança do que ocorre no cível. Sendo o Estado o titular do direito de punir e o do bem-estar social, e sendo este a maior das suas finalidades, quando alguém comete uma infração penal, não é vontade dele infligir a pena àquele que foi denunciado, mas, simplesmente, querer que o Juiz aprecie aquele fato e diga se o seu autor merece ou não ser punido. Sustenta-se, então, não haver conflito de interesses, e sim, tão somente, um único interesse: o de apurar se o réu merece ou não receber a reprimenda, se foi ele, ou não, quem cometeu a infração, Assim, quando o Juiz absolve o réu, o Estado, titular do direito de punir, não sofre nenhum prejuízo, nenhuma lesão; ele não sucumbe, seu desejo repousa, simplesmente, num julgamento justo. E se o Juiz fez justiça, o Estado se satisfez, a sociedade saiu vencedora., “A sentença absolutória não compõe um conflito, mas, antes o exclui”, como bem o disse Giulio Paoli, citado por José Carlos T, Giorgis (A lide como categoria comum no processo , Porto Alegre, RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 3 Lejur, 1991, p, 101). Por isso mesmo o Ministério Público, atuando em nome do Estado, atua com imparcialidade. Se houver algum motivo que possa afetar a imparcialidade do Ministério Público, o imputado pode postular seu afastamento do processo, nos termos do a r t 258 c/c o art. 104, ambos do CPP. Já na lide propriamente dita, não se pode exigir imparcialidade dos litigantes. Sem embargo, a doutrina majoritária fala de “lide pena”. O Estado é o titular único e exclusivo do direito de punir. Poderia reprimir os delitos pelos seus órgãos administrativos, ou pelos seus Juizes, como acontecia no processo inquisitivo, mas, como ninguém suportaria viver num Estado em que o titular do direito de punir pudesse exercê-lo desenfreadamente, ele autolimitou o seu poder repressivo, preferindo, tal como se dá no cível, o uso das vias judiciárias para julgar o seu interesse na repressão, e, ao mesmo tempo, tutelando o direito de liberdade, exigindo a paridade de armas, o contraditório e a ampla defesa, não admitindo que o autor da conduta punível sesubmeta à pena sem reação, criou um verdadeiro processo de partes. Sua pretensão punitiva, nascida no instante mesmo em que se verifica a infração, deve ser resistida. Daí por que ninguém poderá ser processado sem Defensor, ainda que ausente ou foragido. Daí por que o Estado não pode, em nenhuma hipótese, deixar de oferecer ao acusado a oportunidade de defender-se. Queira ou não, o acusado é obrigado a defender-se Nada impede que ele reconheça a sua culpa (pleas guilty — submissão) ou abdique dos seus direitos, como na transação. E não basta a defesa material, ou autodefesa. Exige-se, sob pena de nulidade absoluta, a defesa técnica. Não é pelo fato de o Estado desejar um julgamento justo, imparcial, que deixa de existir a lide penal. O interesse do réu em não sofrer restrição na sua liberdade, tenha ou não razão, contrapõe-se ao interesse do Estado, que é o de puni-lo, se culpado for. Contudo, embora não haja absoluta identidade entre lide civil e lide penal, não será possível negar a existência de uma lide penal. Pouco importa se ela é artificial ou não. Nem por isso deixa de ser lide. Se a lide civil pode ser solucionada amigavelmente, se no processo civil, quando em jogo interesses disponíveis, há sempre a fase de conciliação e no processo penal, de regra, a pretensão deve ser obrigatoriamente resistida, o mínimo que se poderá dizer é que a lide penal é sui generis (de seu próprio gênero).” Relação autônoma e instrumental ligada ao direito material. Para que se tenha processo penal é necessário, indícios de crime. Relação Jurídica material: Sujeito Ativo: autor da conduta Sujeito Passivo: vítima Relação Jurídica Processual: Sujeito Ativo: Extraordinariamente é o MP Sujeito Passivo: autor do crime O Processo Penal é sedimentado no tripé: Jurisdição, Ação e Processo. Objetivo: A Doutrina clássica: a busca da verdade real Contemporaneamente, não mais se sustenta esse objetivo, porque a verdade real é um estado de espirito intangível, o processo precisa ter fim, os meios não se justificam em razão dos fins, sustenta à apuração da responsabilidade criminal, busca da reconstrução dos fatos. PRINCÍPIOS E REGRAS PROCESSUAIS Sistema P. Penal, Jurisdição Penal, Ação Penal, Processo Penal RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 4 RELATIVOS AO SISTEMA PROCESSUAL Inquisitivo/Acusatório/Misto 1) Modelo Acusatório: Era a forma de processo onde as funções de acusar, defender e julgar, eram atribuídas a órgãos diferentes, sem a participação do Estado. Acusador – O ofendido, seus parentes, ou qualquer do povo, poderia funcionar como acusador. Defensor – O acusado, ou qualquer do povo, poderia funcionar como defensor do acusado. Julgador – Juiz (Escolhido pelos interessados) ou Tribunal do Povo. Características: Oralidade, Publicidade Desvantagens: Impunidade de criminosos, Facilitação de acusação falsa, Desamparo dos fracos, Deturpação da verdade, Impossibilidade de julgamento (em alguns casos), Inexequibilidade de decisões (de outros julgamentos). ACUSADOR, JULGADOR E DEFENSOR SERÃO PESSOAS DISTINTAS, a sentença transitada em julgado (não há mais recurso, exceção a rescisória criminal) faz coisa julgada. Caracteriza-se pela distinção absoluta entre as funções de acusar, defender e julgar, sendo assegurado ao acusado o contraditório e a ampla defesa, devendo o processo correr de acordo com as determinações legais (procedimentos). A produção de prova incumbe às partes as quais possuem total isonomia processual, bem como vigora a presunção de inocência, devendo o acusado responder ao processo em liberdade. Características do sistema acusatório: Investigação afeta a um órgão do Estado (Delegacia de Polícia), distinto do órgão Judiciário. Processo de partes, estando de um lado a acusação (Ministério Público) e do outro o acusado. Presunção de inocência Julgamento feito por populares (jurados) crimes contra a vida, ou por órgãos judiciários totalmente imparciais (juiz) Igualdade das partes Necessidade do contraditório Prova produzida pelas partes, só aceita a prova ilícita se for à única que possa inocentar o réu. Liberdade das partes quanto à apresentação das provas. Proibição de o juiz provocar sua jurisdição (Princípio da Inércia Judicial) Processo oral e escrito, público e contraditório. Livre convicção quanto à apreciação das provas (juiz) Liberdade do acusado é regra, admitindo-se, excepcionalmente, a prisão preventiva. Sentença faz coisa julgada, mormente em favor do réu, quando contrária ao réu pode haver revisão criminal (CPP atr.621 e seguintes). 2) Modelo Inquisitório: Era a forma de processo em que as funções de acusar, defender e julgar, eram atribuídas ao mesmo órgão, com a participação efetiva do Estado, representado na maioria das vezes pela Igreja Católica. O réu era tratado como objeto do processo, sem nenhuma garantia. Características: Escrito; Sigiloso; Fase de investigação; Fase de julgamento Desvantagens: O segredo, A tortura, A concentração de poderes na mão do julgador. RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 5 ACUSADOR, JULGADOR E DEFENSOR ENCONTRAM-SE NA MESMA PESSOA, a própria lei diz o valor da prova, nunca há o transito em julgado, o processo poderá ser aberto a qualquer momento. Neste sistema o acusado não possui qualquer garantia como o contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal, podendo o processo, inclusive, correr de forma sigilosa por ato discricionário do juiz. Não há igualdade entre as partes e nem a presunção de inocência, sendo comum o acusado permanecer preso durante toda a formação da culpa. Gestão da prova fica a cargo do juiz. 3) Modelo Misto: Combinação da forma de processo acusatório com inquisitório, com a participação efetiva do Estado. Duas fases: Inquérito (Inquisitiva) Instrução Processual (Acusatória) Também denominado Sistema Napoleônico ou Reformador, é a combinação dos dois sistemas anteriores, abrangendo duas fases processuais distintas: A fase inquisitiva, onde não há o contraditório, a ampla defesa e a publicidade, sendo realizada uma investigação preliminar e uma instrução preparatória sob o comando do juiz e a fase do julgamento, em que são asseguradas ao acusado todas as garantias (contraditório, ampla defesa, etc.). Diferencia-se mormente do sistema Acusatório por ter duas fases procedimentais distintas: · Fase inquisitiva, onde não há o contraditório, a ampla defesa e a publicidade, sendo realizada uma investigação preliminar e uma instrução preparatória sob o comando do juiz. · Fase do julgamento, em que são asseguradas ao acusado todas as garantias (contraditório, ampla defesa, etc.). Seriam dois juízes distintos, um na fase inquisitiva e outro na fase do julgamento. Síntese: Sistema inquisitivo: ausência de contraditório e ampla defesa; sigilo no procedimento; ausência ou limitação de recursos; inviabilidade de recusa do órgão investigador/julgador; confusão no mesmo órgão das funções acusatória e julgadora; predomínio da linguagem escrita/Gestão da prova a faculdade do julgador. Sistema acusatório: enaltecimento do contraditório e da ampla defesa; publicidade dos atos; duplo grau de jurisdição assegurado; possibilidade de recusa do julgador; impossibilidade de confusão no mesmo órgão de acusador e juiz. Sistema misto: início da investigação contando com os princípios regentes do sistema inquisitivo; processo-crime instruído pelos princípios condutores do sistema acusatório; predomínio da linguagem oral. 4) No direito Brasileiro: Rosberg: O supremo diz ser o nosso modelo acusatório. A nossa doutrina, porém, diverge sobre as duas definições, tendo alguns adotando o modelomisto: É essencialmente inquisitivo por conta da gestão da prova. Não existe um princípio unificador misto, por isso que majoritariamente não existe um sistema inquisitivo misto. Tem-se um processo acusatório com institutos inquisitivos, Aury chama isso de neo-inquisitório. Processo objetivo: é o modelo acusatório RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 6 Processo subjetivo: é essencialmente inquisitivo e estruturalmente inquisitivo. Estruturalmente acusatório, essencialmente inquisitivo. Art. 156, cpp. Renato Brasileiro: Quando o Código de Processo Penal entrou em vigor, prevalecia o entendimento de que o sistema nele previsto era misto. A fase inicial da persecução penal, caracterizada pelo inquérito policial, era inquisitorial. Porém, uma vez iniciado o processo, tínhamos uma fase acusatória. Porém, com o advento da Constituição Federal, que prevê de maneira expressa a separação das funções de acusar, defender e julgar, estando assegurado o contraditório e a ampla defesa, além do princípio da presunção de não culpabilidade, estamos diante de um sistema acusatório. É bem verdade que não se trata de um sistema acusatório puro. De fato, há de se ter em mente que o Código de Processo Penal tem nítida inspiração no modelo fascista italiano. Toma-se imperioso, portanto, que a legislação infraconstitucional seja relida diante da nova ordem constitucional. Dito de outro modo, não se pode admitir que se procure delimitar o sistema brasileiro a partir do Código de Processo Penal. Pelo contrário. São as leis que devem ser interpretadas à luz dos direitos, garantias e princípios introduzidos pela Carta Constitucional de 1988. Nucci: O sistema adotado no Brasil, embora não oficialmente, é o misto. Registremos desde logo que há dois enfoques: o constitucional e o processual. Em outras palavras, se fôssemos seguir exclusivamente o disposto na Constituição Federal, poderíamos até dizer que nosso sistema é acusatório (no texto constitucional encontramos os princípios que regem o sistema acusatório). Ocorre que nosso processo penal (procedimento, recursos, provas etc.) é regido por Código específico, que data de 1941, elaborado em nítida ótica inquisitiva (encontramos no CPP muitos princípios regentes do sistema inquisitivo, como veremos a seguir). Logo, não há como negar que o encontro dos dois lados da moeda (Constituição e CPP) resultou no hibridismo que temos hoje. Sem dúvida que se trata de um sistema complicado, pois é resultado de um Código de forte alma inquisitiva, iluminado por uma Constituição Federal imantada pelos princípios democráticos do sistema acusatório. Por tal razão, seria fugir à realidade pretender aplicar somente a Constituição à prática forense. Juízes, promotores, delegados e advogados militam contando com um Código de Processo Penal, que estabelece as regras de funcionamento do sistema e não pode ser ignorado como se inexistisse. Essa junção do ideal (CF) com o real (CPP) evidencia o sistema misto. É certo que muitos processualistas sustentam que o nosso sistema é o acusatório. Contudo, baseiam se exclusivamente nos princípios constitucionais vigentes (contraditório, separação entre acusação e órgão julgador, publicidade, ampla defesa, presunção de inocência etc.). Entretanto, olvida-se, nessa análise, o disposto no Código de Processo Penal, que prevê a colheita inicial da prova através do inquérito policial. Somente após, ingressa-se com a ação penal e, em juízo, passam a vigorar as garantias constitucionais mencionadas, aproximando-se o procedimento do sistema acusatório. Ora, fosse verdadeiro e genuinamente acusatório e não se levariam em conta, para qualquer efeito, as provas colhidas na fase inquisitiva, o que não ocorre em nossos processos na esfera criminal. Em suma, apesar de haver alteração no Código de Processo Penal, continua ele com o seu caráter misto, numa formação inquisitivo-garantista. RELATIVOS À JURISDIÇÃO PENAL 1. Princípio do Juiz Natural ou Constitucional Lado positivo: fixação do juiz é previamente definida e fixada por lei. Lado negativo: vedação aos tribunais constituídos pós fato, de execução. O Juízo deve ser fixado antes do fato. RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 7 É aquele que consiste na aplicação da lei pelo juiz competente, previamente definido, escolhido por lei ou pela CF, pois “ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente” (CF, art. 5º, LIII). Veda- se a possibilidade de existência de Juízo ou Tribunal de exceção, que seria aquele escolhido após a ocorrência de um crime e para determinado caso concreto (CF, art. 5º, XXXVII). Observações: Obs1: O STF, este ano, entendeu que não ofende esse princípio, o julgamento por órgão colegiado composto por maioria de juízes convocados. Tem que analisar a forma de convocação, pois tem que estar previamente previsto em lei. CUIDADO: Em se tratando de Ação Penal originária, convocado não vota, só vota titular, por ofensa ao princípio do juiz natural. Segue jurisprudência: PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. JULGAMENTO DE RECURSO DE APELAÇÃOPOR ÓRGÃO COLEGIADO COMPOSTO MAJORITARIAMENTE POR JUÍZES CONVOCADOS.PRINCÍPIO DO JUIZ NATURAL. OFENSA NÃO CONFIGURADA. PRECEDENTE DOSUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. REPERCUSSÃO GERAL. 1. É perfeitamente possível e válida a convocação de juízes de primeiro grau para atuarem em substituição a desembargadores afastados por prazo superior a trinta dias, mesmo porque tal medida encontra amparo na legislação vigente (art. 118 da LC n.º 35/1979) e, no caso dos autos, mais especificamente, em norma regimental (art. 27 do Regimento Interno do TJ/ES). 2. O julgamento de recurso por órgão fracionário de tribunal estadual composto majoritariamente por juízes convocados para atuarem substituição não configura ofensa ao postulado constitucional do juiz natural, consoante entendimento consolidado do Supremo Tribunal Federal, externado quando do julgamento do RE n.º 597.133/RS, de relatoria do e. Min. Ricardo Lewandowski, sob o regime de repercussão geral. 3. Ordem denegada. (STJ - HC: 130642 ES 2009/0041408-5, Relator: MIN. VASCO DELLA GIUSTINA (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/RS), Data de Julgamento: 14/02/2012, T6 - SEXTA TURMA, Data de Publicação: DJe 27/02/2012) O Supremo Tribunal Federal firmou a orientação de que a convocação de juízes de primeiro grau para substituir desembargadores e integrar colegiados majoritariamente não afronta o princípio do juiz natural. O acórdão do referido julgado foi assim ementado: RE Nº 597.133/RS: “RECURSO EXTRAORDINÁRIO. PROCESSUAL PENAL. JULGAMENTO DE APELAÇÃO POR TURMA JULGADORA COMPOSTA MAJORITARIAMENTE POR JUÍZES FEDERAIS CONVOCADOS. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. OFENSA AO PRINCÍPIO DO JUIZ NATURAL. INOCORRÊNCIA. PRECEDENTES. RECURSO DESPROVIDO. I – Não viola o postulado constitucional do juiz natural o julgamento de apelação por órgão composto majoritariamente por juízes convocados, autorizado no âmbito da Justiça Federal pela Lei 9.788/1999. RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 8 II – Colegiado constituídos por magistrados togados, integrantes da Justiça Federal, e a quem a distribuição de processos é feita aleatoriamente. III – Julgamentos realizados com estrita observância do princípio da publicidade, bem como do direito ao devido processo legal, à ampla defesa e ao contraditório. IV – Recurso extraordinário desprovido.” Obs 2: CPP, art. 81: “Verificada a reunião dos processos por conexão ou continência, ainda que no processo da sua competência própria venha o juiz ou tribunal a proferir sentença absolutória ou que desclassifique a infração para outra que não se inclua na sua competência, continuará competente em relaçãoaos demais processos. Parágrafo único. Reconhecida inicialmente ao júri a competência por conexão ou continência, o juiz, se vier a desclassificar a infração ou impronunciar ou absolver o acusado, de maneira que exclua a competência do júri, remeterá o processo ao juízo competente”. No PP não existe a regra do perpetuatio jurisdicionis, como esclarecido no art. 81, do CPP. Porém existe exceção: No procedimento do Júri, se na fase plenária, existir a desclassificação do crime como doloso contra a vida, é o juiz presidente que julga, já na fase de pronúncia, se entender pela desclassificação do crime, manda para o juiz competente. “Evidentemente, que a solução não será a mesma (nem poderia sê-lo por falta de competência do Conselho de Sentença), se a desclassificação for proferida pelos próprios jurados, hipótese em que o crime conexo que não seja doloso contra a vida deverá ser julgado pelo Juiz Presidente do Tribunal do Júri, nos termos do art. 492, § 2º., do Código de Processo Penal”. Obs 3: Não ofende o princípio do juiz natural, a posterior especialização da vara. Obs 4: Ofende esse princípio a fixação de competência determinada em regime interno do tribunal (que é ato normativo), pois fixação de competência é matéria de lei. Obs 5: A indicação política de juiz para cortes superiores não ofende a esse princípio, desde que não haja notadamente julgamento em curso. Obs 6: Esse princípio não se confunde com identidade física do juiz. Juiz natural: órgão julgador, previsto em lei (regra constitucional). Identidade física do juiz: previsto no Código Penal (regra legal), pressupões que o juiz, que participou do último ato do processo (instrução), tem a prevalência de presidir o julgamento, art. 399, §2º do CP. 2. Princípio da Imparcialidade do Juiz (art.252 CPP ou art.424 do CPP) Imparcialidade é diferente de neutralidade (impossível) Decorre do princípio constitucional expresso, do juiz natural, com a finalidade de complementá-lo, afinal de contas o magistrado pode até estar previamente investido na jurisdição, mas pode não ser imparcial na sua atuação, motivo pelo qual o CPP prevê hipóteses de impedimento e suspeição do julgador. É aquele que representa verdadeira garantia de um julgamento estreme de dúvidas, trata-se de um dos mais importantes princípios relativos aos órgãos julgadores. RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 9 3. Princípio da Inércia da Jurisdição Rosberg: A jurisdição penal não pode agir de ofício, porque agindo de oficio quebra o princípio da imparcialidade indo de encontro com a gestão do processo penal. Portanto não se pode deferir prisão provisória ex officio, deve haver demonstração de interesse por parte do MP. Art. 26 do CPP: A ação penal, nas contravenções, será iniciada com o auto de prisão em flagrante ou por meio de portaria expedida pela autoridade judiciária ou policial. – Discussão referente a inércia, porém não foi recepcionado pela CF/88 Aury Lopes: Como decorrência do sistema acusatório anteriormente explicado e para garantia da imparcialidade (princípio supremo do processo), a inércia da jurisdição significa que o poder somente poderá ser exercido pelo juiz mediante prévia invocação. Vedada está a atuação ex oficio do juiz (daí o significado do adágio ne procedat iudex ex of icio). Com isso, a jurisdição somente se põe em marcha quando houver uma prévia invocação – declaração petitória – feita por parte legítima. No que tange ao processo penal, a jurisdição somente pode ser exercida quando houver o exercício da pretensão acusatória, através de queixa-crime (se a iniciativa da ação penal for privada), ou da denúncia oferecida pelo Ministério Público, nos termos do art. 129, I, da Constituição (nos delitos cuja ação penal é de iniciativa pública). Portanto, fazendo uma leitura constitucional, revogado está o art. 26 do CPP, 6 pois não existe mais processo penal iniciando por meio de prisão em flagrante ou mesmo portaria (da autoridade judiciária ou policial) 4. Princípio da Indeclinabilidade Rosberg: Não pode o juiz criminal declinar ou competir para outro, o julgamento do caso penal. Cartas: a) rogatória – outra jurisdição (outro pais); b) de ordem – jurisdição menor; c) precatória – mesma jurisdição. Nesses casos está requisitando que outra autoridade judiciaria realiza o ato processual, não se tratando de declinação de competência. Questão: Na remessa de uma carta rogatória o ato processual a ser produzido se submeterá a qual regra processual, a do pais que emitiu ou do local que foi enviado? Notadamente quando houver cooperação internacional. Nucci: Tendo em vista que a ação penal pública é regida pela obrigatoriedade, uma vez proposta, dela não pode declinar o Ministério Público. RELATIVOS À AÇÃO PENAL 1. Princípio da Oficialidade (art.6º CPP) É aquele pelo qual a pretensão punitiva do Estado deve ser exercida através dos órgãos oficiais. Quem tem legitimidade é o MP, art. 129, I; e o ofendido, nos casos em que a lei prevê. 2. Princípio da Legalidade/ Obrigatoriedade (arts. 5º e 24 CPP) É reservado nas ações penais públicas, havendo indícios de autoria e materialidade é obrigatório. Não há juízo discricionário (conveniência e interesse) “Não há crime sem lei anterior que o defina, não há pena sem lei anterior que a comine”. É aquele que obriga os órgãos oficiais (não há discricionariedade) a tomar providências para a apuração do crime e seu autor em defesa da sociedade. Não podem eles instaurar o inquérito ou o processo segundo as conveniências momentâneas. RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 10 Obrigatoriedade mitigada: Exemplo 1: Lei dos juizados especiais criminais - o juiz pode dispensar a denúncia se houver transação criminal. “Transação penal: em se tratando de infrações de menor potencial ofensivo, ainda que haja lastro probatório suficiente para o oferecimento de denúncia, desde que o autor do fato delituoso preencha os requisitos objetivos e subjetivos do art. 76 da Lei nº 9.099/95, ao invés de o Ministério Público oferecer denúncia, deve propor a transação penal, com a aplicação imediata de penas restritivas de direitos ou multa. Nessa hipótese, há uma mitigação do princípio da obrigatoriedade, comumente chamada pela doutrina de princípio da discricionariedade regrada ou princípio da obrigatoriedade mitigada”. RENATO BRASILEIRO DE LIMA Exemplo 2: Lei de combate às organizações criminosas - colaboração premiada pode deixar de oferecer a denúncia se a colaboração for efetiva. Exemplo 3: “Termo de ajustamento de conduta: a Lei nº 7.347/85, que disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico, à ordem econômica e à economia popular, à ordem urbanística e a qualquer outro interesse difuso ou coletivo, prevê em seu art. 5º, §6º, que “os órgãos públicos legitimados poderão tomar dos interessados compromisso de ajustamento de sua conduta às exigências legais, mediante cominações, que terá eficácia de título executivo extrajudicial”. Inserido nas disposições finais da Lei nº 9.605/98 em 2001, o art. 79-A também dispõe que os órgãos ambientais integrantes do Sisnama, responsáveis pela execução de programas e projetos e pelo controle e fiscalização dos estabelecimentos e das atividades suscetíveis de degradarem a qualidade ambiental, ficam autorizados a celebrar, com força de título executivo extrajudicial, termo de compromisso com pessoas físicas ou jurídicas responsáveis pela construção, instalação, ampliação e funcionamento de estabelecimentos e atividades utilizadores de recursos ambientais, considerados efetiva ou potencialmente poluidores.” RENATO BRASILEIRO DE LIMA Obs: Na ação penal privada vigora oprincípio da oportunidade, ou seja, a vítima avalia se há conveniência e oportunidade para realizar a denúncia, visto mais à frente. E desse princípio decorre outros dois, que são: Princípio de Indisponibilidade da Ação Penal Pública É aquele que faz obrigatória a persecução penal nos crimes de ação penal pública ou pública condicionada à representação. Princípio da Disponibilidade ou da Oportunidade (arts.30, 33 e 34 CPP). É aquele destinado as ações penais privadas e públicas condicionados à representação ou requisição Ministerial, que somente serão instauradas conforme a conveniência do ofendido ou de seu representante legal. 3. Princípio da Divisibilidade/ Indivisibilidade Na ação penal de iniciativa pública é possível ocorrer a divisão da ação. Não é causa de rejeição da denúncia, se um indivíduo for denunciado em detrimento do outro. RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 11 Já na ação penal de iniciativa privada: O denominado princípio da indivisibilidade é inerente à ação penal privada e consiste na necessidade de o querelante oferecer queixa contra todos os autores do fato, sob pena de extinção de punibilidade se houver renúncia com relação a algum deles (essa é a repercussão material, que acontece em caso de omissão voluntária do autor). A repercussão processual é o MP vai requerer a intimação do autor para este aditar a queixa, incluindo os demais coautores ou partícipes que ficaram de fora (isso acontece em caso de omissão involuntária do autor). O aludido princípio conjuga-se com o princípio da oportunidade, que em sede de ação penal privada se contrapõe ao da obrigatoriedade, que vigora na ação penal pública. Dessa forma, se cabe ao querelante escolher processar ou não o autor do fato, e se o fizer, terá que oferecer queixa contra todos os envolvidos. Não pode a vítima escolher o agente, sob a pena de sujeição. Nos casos de omissão involuntária não há sujeição. O princípio da indivisibilidade está previsto no art. 48 do CPP: Art. 48. A queixa contra qualquer dos autores do crime obrigará ao processo de todos, e o Ministério Público velará pela sua indivisibilidade. Repare que o art. 48 acima fala em “queixa” (nome da peça da ação penal privada). Diante disso, indaga-se: o princípio da indivisibilidade aplica-se também para a ação penal pública (“denúncia”)? Sobre o tema, existem duas correntes principais: Indivisibilidade para as privadas e públicas: Doutrina Divisibilidade para a pública: STF e STJ SIM NÃO O princípio da indivisibilidade é aplicado tanto para as ações penais privadas como para as ações penais públicas. O princípio da indivisibilidade é aplicado apenas para as ações penais privadas, conforme prevê o art. 48 do CPP. Havendo indícios de autoria contra os coautores e partícipes, o Ministério Público deverá denunciar todos eles. Ação penal privada: princípio da indivisibilidade. Ação penal pública: princípio da Divisibilidade É o entendimento de Renato Brasileiro, Fernando da Costa Tourinho Filho, Aury Lopes Jr. e outros. É a posição que prevalece no STJ e STF. 4. Princípio da Intranscedência Por força do princípio da intranscendência, entende-se que a denúncia ou a queixa só podem ser oferecidas contra o provável autor do fato delituoso. A ação penal condenatória não pode passar da pessoa do suposto autor do crime para incluir seus familiares, que nenhuma participação tiveram na infração penal. Esse princípio funciona como evidente desdobramento do princípio da pessoalidade da pena, previsto no art. 5º, XLV, da Constituição Federal. Como o Direito Penal trabalha com uma responsabilidade penal subjetiva, não se pode admitir a instauração de processo penal contra terceiro que não tenha contribuído, de qualquer forma, para a prática do delito (CP, art. 29). Esse princípio é aplicável tanto à ação penal pública quanto à ação penal de iniciativa privada. RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 12 RELATIVOS AO PROCESSO PENAL 1. Princípio da Presunção da Inocência (Não Culpabilidade) - art. 5º, LVII, CF) É aquele que considera toda pessoa presumivelmente inocente (não culpável) até que seja declarada culpada, por sentença condenatória transitada em julgado. Aponta Eugênio Pacelli de Oliveira, que é preferível o uso da expressão “situação jurídica de inocência”, porque para ele a inocência não é presumida, ela já existe desde o nascimento do indivíduo, persistindo até o transito em julgado da sentença condenatória. Segundo Rosberg: Consequências: 1ª) Regra de tratamento: o indivíduo só é condenado após o marco da sentença condenatória transitada em julgado. Já na presunção de culpabilidade, o indivíduo é considerado inocente até o julgamento. Decisão do Tribunal Superior (2º Grau) – Consequência, possibilidade do cumprimento provisório da pena antes do trânsito em julgado! 2ª) Distribuição do ônus da prova: na presunção da inocência o ônus da prova é estático e é uma regra de julgamento, pois o descumprimento desse ônus acarretará improcedência do pedido na ação. Já na presunção da culpabilidade, também vigora esta regra, contudo há uma inversão quando se trata de recurso (RE e Resp). 3ª) Liberdade de conformação do legislador: ele só pode editar leis que efetivem a presunção da inocência. Sumula vinculante 11, não sofre qualquer modificação. Súmula Vinculante 11 Só é lícito o uso de algemas em casos de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado. 2. Princípio da Igualdade Processual ou Paridade de Armas (art. 5º, caput, CF) Por força desse princípio em comento, as partes devem ter em juízo, as mesmas oportunidades de fazer valer as razões e ser tratadas igualitariamente, na medida de suas igualdades, e desigualmente, na proporção e suas desigualdades. Esse princípio sofre mitigação pelo princípio do favor rei, segundo o qual o interesse do acusado possui prevalência sobre a pretensão punitiva estatal. Obs: Na teoria geral dos recursos existe uma desproporção entre as partes, pois a acusação possui maiores oportunidades recursais que a defesa. 3. Princípio da ampla defesa (art. 5º, LV, CF) O réu tem direito a um amplo arsenal de instrumentos de defesa como forma de compensar sua enorme hipossuficiência e fragilidade em relação ao Estado, que atua como no PP por meio de diversos órgãos (polícia judiciária, mp, juiz), de forma especializada e com acessos a dados restritos. Esse princípio divide- se em autodefesa e defesa técnica: RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 13 Autodefesa: é defesa promovida pessoalmente pelo próprio réu, geralmente durante o seu interrogatório judicial, sendo ela disponível, afinal de contas, o acusado pode se calar ou até mesmo mentir, em conformidade com outro princípio constitucional expresso, que é o direito ao silêncio. Lembrando que, a disponibilidade da autodefesa não autoriza que o réu minta ou se cale na primeira parte do interrogatório, quando este responde às perguntas referente a sua qualificação pessoal, o que é apenas permitido na segunda parte deste ato processual, no momento das perguntas sobre os fatos delitivos. Se o réu se recusa a fornecer sua qualificação, o agente poderá praticar a contravenção penal prevista no art. 68 da lei de contravenções penais. Se o réu atribui a si mesmo outra identidade pode restar configurado o crime definido no art. 307do CP- falsa identidade. Também não se permite que o réu, na segunda parte do interrogatório, formule imputação falsa a terceiros ou mesmo autoimputação falsa, sob pena de responsabilidade penal por seu ato, caracterizando- se o crime de denunciação caluniosa ou até auto- acusação falsa, todos previstos no CP. A autodefesa distingue- se ainda em direito de audiência (direito do réu em ser ouvido no processo), e direito de presença (direito de o réu estar presente aos atos processuais, geralmente audiências). Defesa Técnica: é a defesa indisponível exercida pelo defensor técnico, bacharel em direito. É indisponível, pois, em regra, o réu não pode se defender sozinho, apenas se ele for advogado é que poderá promover a sua própria defesa. 4. Princípio do Contraditório (ART. 5º, LV, CF) Ambas as partes, tem o direito de manifestar sobre qualquer fato alegado ou prova produzida pela parte contrária, visando a manutenção do equilíbrio entre o direito de punir do Estado e o direito de liberdade do réu e o consequente estado de inocência, objetivo de todo processo penal justo. Em regra, o princípio diz respeito apenas a fatos e provas. Porém, é possível ser aplicado também em matéria de direito, quando ela possibilitar a extinção do feito, a exemplo da abolitio criminis, que pode ensejar o decreto de extinção da punibilidade. Para que seja respeitado o contraditório é preciso que sejam atendidos 3 direitos das partes: - direito de ser intimado sobre os fatos e provas; - direito de se manifestar sobre os fatos e provas; - direito de interferir efetivamente no pronunciamento do juiz. 5. Princípio do Devido Processo Legal É aquele que visa disciplinar a atividade do Estado na apuração e punição de certos atos em face das garantias constitucionais, pois, “ninguém será privado de sua liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal” (CF, art. 5º, LIV). Princípio que fundamenta a visão garantista do processo penal. O cumprimento de todos os outros princípios do PP implica, na verdade, no atendimento ao princípio do devido processo legal. Divide- se em dois aspectos: RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 14 Aspecto material ou substancial: liga- se ao Direito Penal, fazendo valer os princípios penais, a exemplo de que ninguém deve ser processado senão por crime previsto e definido em lei. Coincide com o princípio da razoabilidade. Aspecto processual ou procedimental: garantia da forma. Liga- se ao procedimento e à ampla possibilidade de o réu produzir provas, apresentar alegações, demonstrar, enfim, ao juiz a sua inocência, bem como o de o órgão acusatório, representando a sociedade, convencer o magistrado, pelos meios legais, da validade da sua pretensão punitiva. Em razão da CF, essa mera formalidade não se satisfaz no processo penal, diz-se que deve haver efetividade do ato e não só que haja essa formalidade. 6. Princípio da Publicidade (art.792 CPP e CF) É aquele que exige a transparência da justiça, fazendo com que todos os atos processuais, com algumas exceções, sejam públicos, sendo franqueadas as audiências e sessões, dado o interesse social. Impõe a fiscalização da sociedade sobre os atos processuais (publicidade externa). O conhecimento de todos os elementos por parte do réu (publicidade interna) - súmula 14: “É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa.” Em face de algumas exceções enfrentadas por esse princípio, a doutrina apresenta as seguintes espécies de publicidade: Publicidade geral: regra geral, é aquela que não comporta exceções, sendo o ato processual e os autos do feito acessíveis a todos. Publicidade específica: se a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem, apenas o juiz, o MP, o assistente de acusação e o defensor têm acesso aos atos e autos processuais. Sigilo ≠ Secreto: sigilo é a limitação temporária de informação com a finalidade da colheita de uma informação que necessitam dessa restrição. Não existe processo secreto, investigação secreta é investigação política. Limite à publicidade externa: segredo de justiça. Art. 234- B, CPP. O sigilo é para a publicidade externa, nunca par as partes. Obs: Na colaboração premiada o sigilo será para a publicidade externa e interna. A partir do momento que se torna ação pena, o sigilo fica só para a publicidade externa. 7. Princípio do Livre Convencimento (art.155, caput, CPP) Decorre da exigência feita pela CF de que toda decisão judicial seja fundamentada (princípio da motivação das decisões). É aquele que dá ao órgão julgador, o poder de apreciar qualquer prova colhida, para a prolação da sentença, de acordo com seu convencimento, observando-se que toda decisão deve ser fundamentada e que no processo penal, não há prova com valor absoluto, sendo todas de valor relativo. Para o juiz togado, vigora o Princípio da Livre Convicção, para os jurados ou juizes leigos, vigora o Princípio da Intima Convicção. Crítica: representa a essência da discricionariedade do juiz, pois este decide conforme sua consciência. RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 15 8. Princípio do Duplo Grau de Jurisdição Não está expressamente escrito na CF, mas isso não quer dizer que não exista. Esse princípio está implícito no princípio do devido processo legal. Além disso, ele decorre da própria estrutura do Poder Judiciário traçada pela CF, consistente na divisão do mesmo em instâncias diversas, começando por magistrados singulares, passando pelos respectivos tribunais a que eles estão vinculados, pelo STJ e finalmente chegando ao órgão de cúpula, o STF. Decorre também do princípio da ampla defesa. Ademais, é princípio que vem consagrado expressamente no Pacto de San José da Costa Rica ou Convenção sobre Direitos Humanos, no seu art. 8, item 2, alínea “h”, o qual tem no Brasil status de norma supralegal, conforme entendimento do STF. Em razão de tudo isso, portanto, é que se estabelece o princípio em apreciação, que garante à parte o direito de reexame da causa por instância superior. PROCESSO E PROCEDIMENTO “O processo realiza o Direito; sem ele, o Direito se reduziria à letra morta e fria da lei, é o Processo, que dá vida ao Direito” Magalhães Noronha. O Processo é a atividade estatal, na sua função específica de aplicar a lei. (Sentido Estrito). O Procedimento é a sequência de atos impostos pela lei, que culminará numa manifestação jurisdicional. (Sentido Amplo). O Procedimento abrange o inquérito que se destina a apuração do fato criminoso, e da sua autoria, através de atos investigatórios. PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS O Juiz é obrigado a apreciar, antes de examinar o mérito da questão, as condições que legitimam e justificam o processo, que são os chamados pressupostos processuais. SUBJETIVOS Órgão Investido de Jurisdição; Competência Objetiva e Subjetiva; Legitimidade “Ad Processum”. OBJETIVOS Litispendência; Coisa Julgada; Nulidade da Citação; Inépcia da Inicial NOTITIA CRIMINIS CONCEITO: A notícia do crime é o conhecimento, espontâneo ou provocado, pela autoridade policial de um fato aparentemente criminoso. É espontânea aquela em que o conhecimento da infração penal pelo destinatário (autoridade policial) da notitia criminis ocorre direta e imediatamente por força de sua atividade funcional, (cognição RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 16 imediata) como nos casos de corpo de delito, comunicação de um funcionáriosubalterno, pelos meios de comunicação, etc... É provocada quando a notícia do crime chega ao destinatário (autoridade policial), pelas diversas formas previstas na legislação processual penal, consubstanciando-se num ato jurídico como a comunicação da vítima ou do ofendido (delatio criminis), comunicação de qualquer do povo, por escrito ou verbalmente (notitia criminis simples), comunicação anônima (notitia criminis inqualificada). A Notitia Criminis, é obrigatória, ao Juiz (art. 40 CPP), a quem quer que esteja no exercício da função pública (art. 66, I, LCP), aos médicos e profissões sanitárias ( art. 66, II, LCP), ao síndico da falência (arts. 104 e 105 da Lei de Falências), etc... Delatio criminis apócrifa: Conforme entendimento consolidado pelo STF, a delatio criminis apócrifa (denúncia anônima ou inqualificada), NÃO PODE, SOZINHA, servir de base para a INSTAURAÇÃO de inquérito policial, considerando-se a vedação constitucional ao anonimato e a ausência de elementos idôneos sobre a existência da infração penal. MAS, ATENÇÃO: Para o Supremo, com base na denúncia apócrifa a autoridade policial PODERÁ INICIAR A INVESTIGAÇÃO, realizando diligências preliminares, com o propósito de verificar a veracidade das informações obtidas anonimamente. A partir dos indícios obtidos, será possível, então, instaurar o procedimento investigatório propriamente dito. (Precedente: HC 95244/PE) INVESTIGAÇÃO PRELIMINAR Primeira etapa da Persecutio Criminis. Tem como finalidade colher elementos informativos para subsidiar o titular da ação penal e evitar acusações sem justa causa (temerária). Instrumentos: 1. Inquérito Policial: atribuição exclusiva da autoridade policial, ou seja, delegado de polícia (lei 12.130/2013). A investigação preliminar não é privativa da polícia civil, delegado. Portanto outros órgãos podem realizar essas primeiras investigações. O inquérito policial é um procedimento administrativo inquisitorial. 2. PIC (Procedimento Investigatório Criminal): O MP (STF, Res. nº 13 do CNMP) tem como atribuição constitucional promover suas próprias investigações preliminares. RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 17 INQUÉRITO POLICIAL (arts.4º a 23 CPP) CONCEITO: Peça investigatória destinada a colher elementos informativos a respeito do fato delituoso e sua autoria que sirvam de base à ação penal. É o conjunto de diligências realizadas pela polícia judiciária, visando a apuração de uma infração penal e sua autoria, para possibilitar que o titular da ação penal ingresse em Juízo, pedindo a aplicação da Lei Penal em concreto. Nucci: O inquérito policial é um procedimento preparatório da ação penal, de caráter administrativo, conduzido pela polícia judiciária e voltado à colheita preliminar de provas para apurar a prática de uma infração penal e sua autoria. Seu objetivo precípuo é a formação da convicção do representante do Ministério Público, mas também a colheita de provas urgentes, que podem desaparecer, após o cometimento do crime. NATUREZA JURÍDICA: - Peça investigatória, escrita, inquisitória e sigilosa, preparatória da ação penal. É considerada por alguns autores como uma Instrução Provisória. Renato Brasileiro: Trata-se de procedimento de natureza administrativa. Não se trata, pois, de processo judicial, nem tampouco de processo administrativo, porquanto dele não resulta a imposição direta de nenhuma sanção. Nesse momento, ainda não há o exercício de pretensão acusatória. Logo, não se pode falar em partes stricto sensu, já que não existe uma estrutura processual dialética, sob a garantia do contraditório e da ampla defesa. Natureza instrumental, porquanto se destina a esclarecer os fatos delituosos relatados na notícia de crime, fornecendo subsídios para o prosseguimento ou o arquivamento da persecução penal. FUNÇÃO: Preparatória: Rosberg: investigação da infração penal (autoria e materialidade), a fim de que o titular da ação penal disponha de elementos que o autorizem a promovê-la. Fernando da Costa Tourinho Filho: “Apurar a infração penal é colher informações a respeito do fato criminoso. Para tanto, a Polícia Civil desenvolve laboriosa atividade, ouvindo testemunhas que presenciaram o fato ou que dele tiveram conhecimento por ouvirem a outrem, to-mando declarações da vítima, procedendo a exames de corpo de delito, exames de instrumento do crime, determinando buscas e apreensões, acareações, reconhecimentos, ouvindo o indiciado, colhendo informações sobre todas as circunstâncias que circunvolveram o fato tido como delituoso, buscando tudo, enfim, que possa influir no esclarecimento do fato. Apurar a autoria significa que a Autoridade Policial deve desenvolver a necessária atividade visando a descobrir, conhecer o verdadeiro autor do fato infringente da norma, porquanto, não se sabendo quem o teria cometido, não se poder á promover a ação penal.” Renato Brasileiro: “Esses elementos de informação colhidos no inquérito policial são decisivos para a formação da convicção do titular da ação penal sobre a viabilidade da acusação, mas também exercem papel fundamental em relação à decretação de medidas cautelares pessoais, patrimoniais ou probatórias no curso da investigação policial . De fato, para que medidas cautelares como a prisão preventiva ou uma interceptação telefônica sejam determinadas, é necessário um mínimo de elementos quanto à materialidade e autoria do delito. Além disso, também são úteis para fundamentar eventual absolvição sumária (CPP , art. 397). RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 18 Diferencia-se o inquérito policial da instrução processual por esse motivo : enquanto a investigação criminal tem por objetivo a obtenção de dados informativos para que o órgão acusatório examine a viabilidade de propositura da ação penal, a instrução em juízo tem como escopo colher provas para demonstrar a legitimidade da pretensão punitiva ou do direito de defesa.” Protetiva: Rosberg: evitar deflagração de ação penal temerária, ou seja, sem justa causa. Fernando da Costa Tourinho Filho: “Na verdade, sendo desconhecido o autor do fato infringente da norma, não poderá o órgão do Ministério Público ou o ofendido, se se tratar de crime de alçada privada, dar início ao processo, vale dizer, ingressar em juízo com a denúncia ou queixa, pois o art. 41 do CPP, por razões óbvias, exige, como um dos requisitos essenciais para a peça vestibular da ação penal, a qualificação do réu ou, pelo menos, esclarecimentos pelos quais se possa identificá-lo, sob pena de ser a denúncia ou queixa rejeitada por manifesta inépcia formal.” Renato Brasileiro: “De fato, para que se possa dar início a um processo criminal contra alguém, faz-se necessária a presença de um lastro probatório mínimo apontando no sentido da prática de uma inf ração penal e da probabilidade de o acusado ser o seu autor. Aliás, o próprio CPP, em seu art. 395, inciso III, com redação dada pela Lei n° 11. 719/0 8, aponta a ausência de justa causa para o exercício da ação penal como uma das causas de rejeição da peça acusatória. Daí a importância do inquérito policial, instrumento geralmente usado pelo Estado para a colheita desses elementos de informação, viabilizando o oferecimento da peça acusatória quando houver justa causa para o processo (jumus comissi delicti ), mas também contribuindo para que pessoas inocentes não sejam injustamente submetidas às cerimônias degradantes do processo criminal.” ELEMENTOS INFORMATIVOS ≠ PROVAS Art. 15 5 do CPP : "O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da provaproduzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas " Rosberg: EI: - produzidos na fase de inquérito - sem necessidade de contraditório - destinatário é o titular da ação penal - não tem força probante a justificar eventual condenação. (não terá força probante exclusiva, contudo subsidiária, art. 155 do CPP) - se esgota com o oferecimento da denúncia, deflagração da ação. PROVAS: - realizada judicialmente - necessita de contraditório: elemento informativo submetido ao contraditório. RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 19 - possui força probante para ensejar a condenação. - o juiz é o destinatário. Renato Brasileiro: “elementos de informação são aqueles colhidos na fase investigatória, sem a necessária participação dialética das partes. Dito de outro modo, em relação a eles, não se impõe a obrigatória observância do contraditório e da ampla defesa, vez que nesse momento ainda não há falar em acusados em geral na dicção do inciso LV do art. 5° da Constituição Federal . Apesar de não serem produzidos sob o manto do contraditório e da ampla defesa, tais elementos informativos são de vital importância para a persecução penal, pois, além de auxiliar na formação da opinio delicti do órgão da acusação , podem subsidiar a decretação de medidas cautelares pelo magistrado ou fundamentar uma decisão de absolvição sumária (CPP , art. 3 97). OBS: A Lei n° 11 .690 /08, ao inserir o advérbio exclusivamente no corpo do art. 15 5, caput, do CPP acaba por confirmar a posição jurisprudencial que vinha prevalecendo. Destarte, pode- se dizer que, isoladamente considerados, elementos informativos não são idôneos para fundamentar uma condenação . Todavia, não devem ser completamente desprezado s, podendo se somar à prova produzida em juízo e, assim, servir como mais um el emento na formação da convicção do órgão julgador. Tanto é verdade que a nova lei não previu a exclusão física do inquérito policial dos autos do processo (CPP , art. 12 ). (...) (...)a palavra prova só pode ser usada para se referir aos elementos de convicção produzidos, em regra, no curso do processo judicial, e, por conseguinte, com a necessária participação dialética das partes, sob o manto do contraditório (ainda que diferido) e da ampla defesa. O contraditório funciona, pois, como verdadeira condição de existência e validade das provas, de modo que, caso não sejam produzidas em contraditório, exigência impostergável em todos os momentos da atividade instrutória, não lhe caberá a designação de prova.” As ressalvas do art. 155 do CPP: Rosberg: Prova Cautelar: tem autorização policial e tem como finalidade obter a informação antes do perecimento da fonte de prova. Se exaure ao longo do tempo. Ex: interceptação telefônica. O juiz pode condenar, apenas com a interceptação telefônica. O STJ considera essa interceptação como materialidade no crime de tráfico de drogas. Prova não repetível: é aquela que quando realizada se exaure; não há uma oportunidade de refazê-la. Ex: laudo pericial na cena do crime, exame do corpo de delito. Não necessita de autorização judicial. Prova antecipada: é aquela que em razão da urgência do perecimento da prova é antecipadamente produzida. O contraditório é realizado no momento da produção da prova e necessita de autorização judicial. Ex: testemunha está morrendo; um dano ambiental ou artístico. Aqui o contraditório é postergado, é feito mais para frente. O STJ e o STF entende que o fato da testemunha morar no exterior não caracteriza prova antecipada, por não se demonstrar urgência na situação. RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 20 CARACTERÍSTICAS DO INQUÉRITO POLICIAL: 1. Escrito: o procedimento deve ser todo escrito, nos termos do art. 9º do CPP. Quanto aos atos orais, devem ser reduzidos a termo. A fonte de prova deve estar documentalizada, pois o procedimento é formal e documentalizado. 2. Inquisitivo: Prevalece na doutrina e na jurisprudência o entendimento de que o inquérito policial é um procedimento inquisitorial, significando que a ele não se aplicam o contraditório e a ampla defesa. Isso porque se trata de mero procedimento de natureza administrativa, e não de processo judicial ou administrativo, já que dele não resulta a imposição de nenhuma sanção. Tal característica está diretamente relacionada à busca da eficácia das diligências investigatórias levadas a efeito no curso do inquérito policial. Apesar disso, não se pode perder de vista que o suspeito, investigado ou indiciado possui direitos fundamentais que devem ser observados mesmo no curso da investigação policial, entre os quais o direito ao silêncio, o de ser assistido por advogado, etc. Logo, se houver, no curso do inquérito, momentos de violência e coação ilegal, há de se assegurar a ampla defesa ao investigado . Daí por que o STJ deferiu ordem em habeas corpus para assegurar que a oitiva de testemunhas e a quebra do sigilo telefônico, requeridas pelo investigado, e indeferidas pela autoridade policial, fossem levadas adiante no curso da investigação . Deveras, fossem os atos investigatórios precedidos de prévia comunicação à parte contrária, seria inviável a localização de fontes de prova acerca do delito, em verdadeiro obstáculo à boa atuação do aparato policial. Funciona o elemento da surpresa, portanto, como importante traço peculiar do inquérito policial. Convém destacar que Há corrente doutrinária (minoritária) que sustenta a possibilidade de ampla defesa no curso do inquérito policial. Por fim, há de se lembrar que a observância do contraditório é obrigatória em relação ao inquérito objetivando a expulsão de estrangeiro. Regulamentando o Estatuto do Estrangeiro (Lei n° 6.8 1 5/80), o Decreto no 86.7 15 /8 1 estabelece uma sequência de etapas que devem ser observadas para que se ja concretizado o ato de expulsão, aí abrangida a possibilidade de ampla defesa e contraditório. 3. Sigiloso: o inquérito policial está sob a égide do segredo externo, nos termos do art. 20 do Código de Processo Penal , que dispõe que a autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou exigido pelo interesse da sociedade . Logo, a despeito do art. 20 do CPP, e mesmo em se tratando de inquérito sigiloso, tem prevalecido o entendimento de o advogado deve ter acesso aos autos do procedimento investigatório, caso a diligência realizada pela autoridade policial já tenha sido documentada. Porém, em se tratando de diligências que ainda não foram realizadas ou que estão em andamento, não há falar em prévia comunicação ao advogado, nem tampouco ao investigado , na medida em que o sigilo é inerente à própria eficácia da medida investigatória. É o que se denomina de sigilo interno, que visa assegurar a eficiência da investigação, que poderia ser seriamente prejudicada com a ciência prévia de determinadas diligências pelo investigado e por seu advogado. Este o motivo pelo qual o Supremo Tribunal Federal editou a súmula vinculante n° 14 , cujo teor é o seguinte : "É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa". Pelo menosem regra, o acesso do defensor aos elementos de informação já documentados nos autos do procedimento investigatório independe de prévia autorização judicial. No entanto, em se tratando de investigação referente a organizações criminosas, uma vez decretado o sigilo da investigação pela autoridade judicial competente, para RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 21 garantia da celeridade e da eficácia das diligências investigatórias, o acesso do defensor aos elementos informativos deverá ser precedido de autorização judicial, ressalvados os referentes às diligências em andamento (Lei n° 12 .850/2013, art. 23, caput ). 4. Procedimento oficial: Incumbe ao Delegado de Polícia (civil ou federal) a presidência do inquérito policial. Vê-se, pois, que o inquérito policial fica a cargo de órgão oficial do Estado, nos termos do art. 144, 5 Ia inc. I, c/c art. 144, § 4a, da Constituição Federal. 5. Procedimento oficioso: Ao tomar conhecimento de notícia de crime de ação penal pública incondicionada, a autoridade policial é obrigada a agir de ofício, independentemente de provocação da vítima e/ou qualquer outra pessoa. Deve, pois, instaurar o inquérito policial de ofício, nos exatos termos do art. 5a, inc. I, do CPP, procedendo, então, às diligências investigatórias no sentido de obter elementos de informação quanto à infração penal e sua autoria. Para a instauração do inquérito policial, basta a notícia de fato formalmente típico, devendo a autoridade policial abster-se de fazer qualquer análise quanto à presença de causas excludentes da ilicitude ou da culpabilidade. No caso de crimes de ação penal pública condicionada à representação e de ação penal de iniciativa privada, a instauração do inquérito policial está condicionada à manifestação da vítima ou de seu representante legal. Porém, uma vez demonstrado o interesse do ofendido na persecução penal, a autoridade policial é obrigada a agir de ofício, determinando as diligências necessárias à apuração do delito. 6. Procedimento indisponível (Arquivamento): De acordo com o art. 17 do CPP, a autoridade policial não poderá mandar arquivar autos de inquérito policial. Diante da notícia de uma infração penal, o Delegado de Polícia não está apto a instaurar o inquérito policial, devendo antes verificar a procedência das informações, assim como aferir a própria tipicidade da conduta noticiada. Porém, uma vez determinada a instauração do inquérito policial, o arquivamento dos autos somente será possível a partir de pedido formulado pelo titular da ação penal com ulterior apreciação da autoridade judiciária competente. Logo, uma vez instaurado o inquérito policial, mesmo que a autoridade policial conclua pela atipicidade da conduta investigada, não poderá determinar o arquivamento do inquérito policial. INDICIAMENTO Indiciar é atribuir a autoria (ou participação) de uma infração penal a uma pessoa. E apontar uma pessoa como provável autora ou partícipe de um delito. Possui caráter ambíguo, constituindo-se, ao mesmo tempo, fonte de direitos, prerrogativas e garantias processuais (CF, art. 52, incs. LVII e LXIII), e fonte de ônus e deveres que representam alguma forma de constrangimento, além da inegável estigmatização social que a-publicidade lhe imprime. Portanto, conceitua-se indiciamento como "o resultado concreto da convergência de indícios que apontam determinada pessoa ou determinadas pessoas como praticantes de ato ou atos tidos pela legislação penal em vigor como típicos, antijurídicos e culpáveis". Indiciamento direto: É a modalidade de indiciamento que ocorre quando a autoridade policial consegue levantar elementos de informação nos autos do inquérito policial que apontem para a responsabilidade de alguém. Quando isso ocorre, o delegado de polícia deverá exarar um despacho fundamentado de indiciamento, com o elenco de todos os pressupostos de fato e de direito, bem como a tipificação do delito, em tese, cometido, pelo investigado. No indiciamento direto, há o contato direto entre a autoridade policial, o Delegado de Polícia, e o investigado. Indiciamento indireto: Não se pode deixar de mencionar que o indiciamento indireto ou por qualificação indireta ocorre nas situações que a pessoa a ser indiciada não é localizada, estando em local incerto e não sabido. Nesses casos, o Delegado determinará, sempre com base nas provas RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 22 carreadas aos autos, que seja imputada a essa pessoa a responsabilidade pelo cometimento do crime sob investigação mediante o indiciamento por qualificação indireta. É importante destacar que essa modalidade de indiciamento somente será realizada quando o investigado a ser indiciado estiver em local incerto e não sabido, sendo descabido nos casos em que a pessoa a ser indiciada já tenha sido ouvida nos autos do inquérito policial, pois a pretensa celeridade gerada por essa medida fere o direito fundamental do investigado, pois desconhecerá a mudança do seu status na investigação. CONCLUSÃO DO INQUÉRITO POLICIAL Prazo para a conclusão do inquérito policial De acordo com o art. 10, caput, do CPP, o inquérito deverá terminar no prazo de 10 (dez) dias, se o indiciado tiver sido preso em flagrante, ou estiver preso preventivamente, contado o prazo, nesta hipótese, a partir do dia em que se executar a ordem de prisão, ou no prazo de 30 (trinta) dias, quando estiver solto, mediante fiança ou sem ela. É possível a prorrogação desse prazo? Segundo o art. 10, § 3a, do CPP, quando o fato for de difícil elucidação, e o indiciado estiver solto, a autoridade poderá requerer ao juiz a devolução dos autos, para ulteriores diligências, que serão realizadas no prazo marcado pelo juiz. Portanto, caso o indiciado esteja solto, é perfeitamente possível a prorrogação do prazo para a conclusão do inquérito policial. RELATÓRIO De acordo com o Código de Processo Penal (art. 10, § Ia), o inquérito policial deverá ser concluído com a elaboração, por parte da autoridade policial, de minucioso relatório do que tiver sido apurado, com posterior remessa dos autos do inquérito policial ao juiz competente. Cuida-se, o relatório, de peça elaborada pela autoridade policial, de conteúdo eminentemente descritivo, onde deve ser feito um esboço das principais diligências levadas a efeito na fase investigatória, justificando-se até mesmo a razão pela qual algumas não tenham sido realizadas, como, por exemplo, ajuntada de um laudo pericial, que ainda não foi concluído pela Policia Científica. Deve a autoridade policial abster-se de fazer qualquer juízo de valor no relatório, já que a opinio delicti deve ser formada pelo titular da ação penal: Ministério Público, nos crimes de ação penal pública; ofendido ou seu representante legal, nos crimes de ação penal de iniciativa privada. DESTINATÁRIO DOS AUTOS DO INQUÉRITO POLICIAL: RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 23 Pela leitura do art. 10, § l2, do CPP, percebe-se que, uma vez concluída a investigação policial, os autos do inquérito policial devem ser encaminhados primeiramente ao Poder Judiciário, e somente depois ao Ministério Público. A despeito do teor do referido dispositivo, por conta da adoção do sistema acusatório pela Constituição Federal, outorgando ao Ministério Público a titularidade da ação penal pública, não há como se admitir que subsista essa necessidade de remessa inicial dos autos ao Poder Judiciário. Essa tramitação direta dos autos entre a Polícia e o Ministério Público, ressalvada a hipótese em que sejam formulados pedidos cautelares, além de assegurar um procedimento mais célere, em respeito ao direito à razoável duração doprocesso (CF, art. 52, inc. LXXVIII), contribuindo para o fim da morosidade da persecução penal, também é de fundamental importância na preservação da imparcialidade do órgão jurisdicional, porquanto afasta o magistrado de qualquer atividade investigatória que implique formação de convencimento prévio a respeito do fato noticiado e sob investigação. PROVIDÊNCIAS: a) em se tratando de crime de ação penal de iniciativa privada, deve o juiz determinar a permanência dos autos em cartório, aguardando-se a iniciativa do ofendido ou de seu representante legal. Sobre o assunto, dispõe o art. 19 • do CPP que, nos crimes em que não couber ação pública, os autos do inquérito serão remetidos ao juízo competente, onde aguardarão a iniciativa do ofendido ou de seu representante legal, ou serão entregues ao requerente, se o pedir, mediante traslado. Na prática, todavia, os autos acabam sendo remetidos ao Ministério Público, para que analise se há elementos de informação quanto a eventual crime de ação penal pública; b) cuidando-se de crime de ação penal pública, os autos do inquérito policial são remetidos ao Ministério Público. Com os autos em mãos, ao órgão do Ministério Público se abrem 5 (cinco) possibilidades: 1) oferecimento de denúncia; 2) arquivamento dos autos do inquérito policial; 3) requisição de diligências: de acordo com o art. 16 do CPP, o Ministério Público não poderá requerer a devolução do inquérito à autoridade policial, senão para novas diligências, imprescindíveis ao oferecimento da denúncia. Se o Ministério Público é o destinatário, por excelência, dos elementos de informação produzidos no curso da investigação policial, não cabe ao Poder Judiciário, substituindo-se indevidamente ao titular da ação penal pública, formar juízo acerca da necessidade (ou não) da realização de determinadas diligências reputadas indispensáveis pelo dominas litis à formação de sua convicção acerca da prática de determinada infração penal. 4) pedido de declinação da competência: caso o Promotor de Justiça entenda que o juízo perante o qual atua não é dotado de competência para o julgamento do feito, deve requerer ao juiz que remeta os autos ao juiz natural. Suponha-se, assim, que inquérito policial relativo ao crime de moeda falsa seja remetido à Justiça Estadual. Verificando tratar-se de crime de competência da Justiça Federal, haja vista o interesse da União (CF, art. 109, inc. IV, c/c art. 21, inc. VII), deve o Promotor requerer a remessa dos autos ao juízo federai competente para o julgamento do feito; 5) suscitar conflito de competência: essa hipótese não se confunde com a anterior. Na hipótese anterior, nenhum outro órgão jurisdicional havia se manifestado quanto à competência. Quando se fala em conflito de competência, significa dizer que já houve prévia manifestação de outro órgão jurisdicional, daí por que não se pode requerer o retomo dos autos àquele juízo. Como visto acima, quando o arquivamento tem como motivo determinante a ausência de elementos de informação quanto à autoria e/ou materialidade do delito, tal decisão só faz coisa julgada formal. Significa dizer, portanto, que o arquivamento por falta de lastro probatório é RESUMO DE PROCESSO PENAL ELABORADO POR BEATRIZ ARAUJO, INGRA REIS E MURILO CEDRO COM BASE NA DOUTRINA E NAS AULAS DO PROFESSOR ROSBERG CROZARA. 24 uma decisão tomada com base na cláusula rebus sic stantibus, ou seja, mantidos os pressupostos fáticos que serviram de amparo ao arquivamento, esta decisão deve ser mantida; modificando-se o panorama probatório, é possível o desarquivamento do inquérito policial.