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AMENDOIM SOB SUSPEITA
Rafael Barifouse
"alto teor de aflatoxinas no produto brasileiro reduz preços e afeta exportações"
	Na década de 1960, o amendoim importado do Brasil, utilizado na fabricação de ração para aves no Reino Unido, foi considerado responsável pela morte de milhares de animais. A semente apresentava altos níveis de contaminação por aflatoxinas, substâncias tóxicas produzidas por fungos. desde então, o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), junto com os laboratórios estaduais da Vigilância Sanitária, vêm realizando monitoramentos constantes do amendoim brasileiro. Os resultados mostram um número significativo de contaminações acima dos padrões legais. Por outro lado, essa taxa vem caindo a cada ano e, em 2001, das 29 amostras coletadas pelo INCQS no estado do Rio de Janeiro,cerca de 10 % encontravam-se impróprias para o consumo.
	Realizado entre 1987 e 1988, o primeiro monitoramento mostrou que das 215 amostras coletadas na cidade do Rio de Janeiro, 46 % estavam impróprias para o consumo. Em 1996, das 136 amostras coletadas em Pernambuco, no Rio de Janeiro e no Distrito Federal, 26 % apresentavam contaminação acima do permitido. "Os últimos resultados demonstraram uma queda desses índices, mas algumas amostras ainda apresentaram níveis muito elevados", afirma a coordenadora da pesquisa, Maria Heloisa Paulino de Moraes, do INCQS.
	As análises foram feitas dentro dos padrões estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que determinava, até 2001, que o somatório das aflatoxinas B1 e G1 não deveria ultrapassar 30 partes por bilhão (ppb). Mas em 2003, uma legislação mais rígida entrou em vigor (RDC nº 274 da ANVISA), de acordo com as normas do Mercosul, criando novos parâmetros de avaliação: agora o somatório das aflatoxinas B1, B2, G1 e G2 não deve superar 20 ppb, internalizando os limites estabelecidos no Mercosul.
	O amendoim é uma leguminosa cujos frutos subterrâneos são colocados para secar ao ar livre após a colheita. A aflatoxina é produzida por linhagens de Aspergillus flavus, Aspergillus parasiticus, Aspergillus oryzae e algumas espécies de Penicillium. Os fungos estão presentes no solo e se desenvolvem nas sementes durante o período de secagem. Em determinadas condições de temperatura e umidade, esses fungos produzem a aflatoxina, contaminando o amendoim. As chuvas são um fator crucial: quanto maiores os índices pluviométricos, mais fungos se desenvolvem na terra úmida. "O amendoim é muito monitorado, pois é considerado um substrato ideal para os fungos produtores das aflatoxinas", explica.
	O alto teor calórico e protéico, além do sabor agradável, faz do amendoim um alimento popular entre crianças e adultos, sendo consumido nas mais diversas formas. A ingestão de grãos com altos níveis de aflatoxina é um risco à saúde, pois segundo a Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC) a substância pode causar mutações genéticas, câncer e deformidades nos fetos animais e humanos.
	Mas a aflatoxina não gera apenas prejuízos à saúde, como também à economia. Desde a década de 1970, os grandes produtores vêm dando preferência ao plantio de soja, provocando uma queda na produção brasileira de amendoim. Seu cultivo ficou praticamente reduzido aos pequenos agricultores, concentrados principalmente em São Paulo, que mantêm um sistema rudimentar de plantio e colheita, diminuindo sua competitividade. A situação se agrava diante das exigências de segurança alimentar, que dificultam as exportações brasileiras, com participação inferior a 1 % no mercado mundial. O Brasil é freqüentemente notificado pelos seus maiores compradores, sobretudo a União Européia, sobre os problemas de contaminação acima dos padrões. Internamente, as repercussões também são sentidas: na região de Ribeirão Preto (SP), o preço do amendoim caiu à metade com a notícia da presença da aflatoxina.
	Segundo a pesquisadora, esse quadro pode ser revertido se boas práticas no manejo do amendoim forem adotadas ao longo de toda a cadeia produtiva - trabalho que já vem sendo desenvolvido. "É preciso um tempo para que a indústria e o campo se adeqüem às novas leis, para que os monitoramentos possam retratar a nova realidade". Além disso, seria necessária uma vigilância mais eficaz sobre essas condições de produção, colheita, transporte, armazenamento, beneficiamento e distribuição. Esse controle é de responsabilidade do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e da ANVISA, mas os resultados dos monitoramentos mostram que as ações desses órgãos não têm sido suficientes para garantir a oferta de produtos seguros à população.
	Para melhorar a qualidade do amendoim, é importante que, durante a secagem, a semente não fique em contato com o solo, onde estão os microrganismos. Uma alternativa é a secagem através do método "bandeira", no qual se retira a planta da terra, fincando-a invertida, afastando os frutos do chão. Se a coleta for automática, os aparelhos mecânicos devem estar bem regulados. A estocagem deve ser feita sem danos para a vagem, casca espessa que protege os grãos, e o amendoim só deve ser ensacado quando estiver bem seco. Mas a pesquisadora ressalta que a contaminação por aflatoxina é sempre um risco. "Mesmo que tudo seja feito corretamente, se as condições forem adversas e chover muito, por exemplo, ainda pode haver proliferação de fungos".
(texto transcrito da Ciência Hoje 34(201): 48-49. 2004)

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