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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE EDUCAÇÃO E HUMANIDADES INSTITUTO DE PSICOLOGIA CURSO DE GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA ARTHUR DAIBERT, BRUNA PAULINO, ISTVÁN BACSA, MARINA DOMINGUES E WILLIAM SIMÕES ANÁLISE DO FILME “SHAME” À LUZ DE FREUD EM “INIBIÇÃO, SINTOMA E ANSIEDADE” ANÁLISE DO FILME “SHAME” À LUZ DE FREUD EM “INIBIÇÃO, SINTOMA E ANSIEDADE” A partir da leitura do livro “Inibição, sintoma e ansiedade” de Sigmund Freud, o presente trabalho propõe a associação entre o filme britânico “Shame” e a obra freudiana. Neste sentido, busca-se localizar no longa metragem aspectos relacionáveis a esses três conceitos elaborados por Freud. Ressalta-se, ainda, que nesta breve análise será utilizado o termo Angústia, ao invés do empregado na obra que foi utilizada como referência (a saber: Ansiedade), a preferência por esse termo refere-se ao fato de ser uma tradução mais fidedigna ao termo original em Alemão: Angst. No livro, cuja primeira publicação data de 1926, Freud procura ora formular ora desconstruir a definição desses temas. Inicia, pois, a obra explicando que, diferente da inibição, o Sintoma reflete um processo patológico, sendo uma manifestação distorcida de uma pulsão recalcada que satisfaz parcialmente tanto os desejos do Id quanto as restrições impostas pelo Superego. Por outro lado, a Inibição, que pode não ter caráter patológico, seria, sobretudo, um recuo de uma função do Ego, a saber: função sexual, de nutrição, locomoção e do trabalho. A mais, Freud alega que a Inibição pode ser uma reação à Angústia, no intuito de evitá-la. Este último conceito, a Angústia, é um alerta ao perigo, que, provocando alterações fisiológicas (principalmente ligadas à respiração e ao coração), reproduz o estado físico de completo desamparo de nosso primeiro trauma: o nascimento. Este sinal é emitido face à possibilidade de perda de um objeto amado (principalmente a mãe), ao medo da castração (referente à fase fálica) ou a um risco à sobrevivência (embate moral com o Superego). Vale ressaltar que estes estados afetivos dizem respeito a diferentes fases do desenvolvimento da libido. O referido filme, Shame, tem direção de Steve McQueen e foi lançado no ano de 2011. Na trama, o protagonista, Brandon Sullivan, é um homem bem sucedido financeiramente, dono de um grande apartamento na cidade de Nova York. Sua vida regada de prostituição e excessos sexuais é atrapalhada com a chegada de sua irmã Sissy, uma jovem cantora que, devido a sua vida instável, hospeda-se na casa do irmão a seu contragosto. A relação dos dois é marcada por ambivalência e sentimentos conflituosos. Portanto, o filme retrata esse momento de convivência entre os irmãos e as situações que vão sendo desencadeadas a partir disso. Sissy se envolve sexualmente com o chefe (casado e pai de família) de Brandon e isso deixa-o profundamente angustiado. Com ela morando em sua casa, atrapalha sua rotina sexual de masturbação constante, visitas de diversas prostitutas a seu apartamento e sexo virtual explicito. Sissy flagra Brandon se masturbando no banheiro e ainda encontra pornografias no computador do irmão, além disso, Brandon também tem que lidar com fato de seu computador no escritório ter sido confiscado devido a vírus que foram adquiridos por causa das pornografias que via durante o horário de trabalho. Se dando conta que é anormal sua relação com o sexo, se aproxima de uma colega de trabalho pela qual é apaixonado e tenta manter com ela um relacionamento amoroso, porém não consegue. Frente a essa decepção, Brandon se afunda ainda mais em sua compulsão sexual, expulsa sua irmã de casa e ignora todos os pedidos dela de aproximação entre os dois. Essa situação culmina, no final do filme, em uma tentativa de suicídio de Sissy, momento em que Brandon sofre muito e mostra o quanto ama a irmã. Uma análise geral nos leva a pensar que o protagonista do filme é um neurótico obsessivo. Isso se deve ao fato de que existe claramente um conflito entre o Ego e o Id. O Id, enquanto sede das pulsões, é regido pelo princípio do prazer, é totalmente inconsciente e por si só não é conflituoso. O Ego é a instância psíquica mediadora entre as necessidades pulsionais oriundas do Id, os imperativos do Superego e as exigências do mundo exterior. Funciona de acordo com o princípio de realidade e é o lugar onde se processam as identificações e os mecanismos de defesa. A neurose obsessiva surge justamente quando o Ego, tentando atender às necessidade do Superego e regido pelo princípio de realidade, entra em conflito com o Id. No caso de Brandon, o conflito Ego versus Id surge de uma relação edípica vivenciada na infância do personagem, personificada na imagem da irmã. O desejo incestuoso, reprimido pelo protagonista, é a causa de seus sintomas psicopatológicos. Além disso, vemos em diversas cenas do filme, o isolamento como um modo típico de defesa do neurótico obsessivo. Sintoma: Dessa forma, é possível localizar no filme alguns comportamentos de Brandon que evidenciam seu principal sintoma: a busca incessante e compulsiva por sexo. Mais especificamente, há nesta compulsão uma necessidade frequente de masturbação, de acesso a conteúdo pornográfico e, principalmente, busca por relacionamentos sem compromisso, com pessoas anônimas. Entretanto, no filme, o sexo somente configura estado patológico se tomarmos o outro como referencial e se levarmos em consideração a formação de compromisso de suas práticas sexuais. Na narrativa, o chefe de Brandon confisca seu computador a fins de manutenção e nota que há armazenado neste uma quantidade incomum de material pornográfico e, em outra cena, sua irmã o priva do direito de questionar a vida sexual dela uma vez que a dele não é parâmetro. Além disso, fica claro que o sintoma de Brandon o satisfaz parcialmente, gerando sofrimento e, por nunca concretizar o desejo real, compulsão à repetição. Este sintoma tanto não satisfaz ao Id quanto ao Superego completamente, visto que a satisfação simultânea dos dois é impossível. Há, assim, uma formação de compromisso do Ego com cada um, numa tentativa de conciliar as ordens de ambos os mestres. Inibição: Uma das características da neurose obsessiva é a nítida separação, nos envolvimentos interpessoais, entre o sexo e o amor. É frequente no caráter obsessivo, em geral, as tentativas de isolamento entre dois componentes para que a representação (condensada e/ou deslocada) de um não “contamine” a representação do outro – é importante que certas coisas não se misturem. Desta forma, para Brandon, se o amor e o sexo se fundem, se há, numa mesma relação, a presença do sentimento e do desejo, há uma sensação de retorno ao complexo edipiano mal-resolvido. É por esta razão que, no filme, o protagonista tem um episódio de impotência sexual com uma companheira de trabalho com quem havia se relacionado mais amorosamente. A cena acontece logo após uma tentativa do personagem em organizar sua vida. Ao chegar no trabalho e deparar-se com a mulher que antes já havia trocado olhares, Brandon a beija e a convida para sair. Eles vão, pois, a um quarto de hotel e, durante o ato, que conta com carícias as quais o personagem não estava acostumado, Brandon admite que não consegue prosseguir. À luz de Freud, como já explanado, essa inibição sexual é fruto da aproximação com o desejo reprimido, que, no seu caso, seria cópula com a representação materna, oriunda do Complexo de Édipo. A rejeição ao casamento também é uma inibição presente em sua vida, pois implicaria (além da fidelidade, que interromperia suas práticas sexuais compulsivas e o faria ter que lidar com o sintoma diretamente) uma conexão amorosa e não puramente sexual. Nota-se também, sutilmente, uma inibição para a função do trabalho. Em sua carreira de sucesso, o personagem parece ter uma rotina regrada e bem organizada. Com a chegada da irmã e a consequente desestabilização de sua vida habitual, passa a se sentir também desestimulado no trabalho: percebe-se, pelos comentários dos colegas,que ele vem negligenciando seus horários. Angustia: Segundo Freud, angústia não é fácil expressar precisamente. Ela é, antes de tudo, um alerta ao perigo. Além das suposições acima exploradas, a angústia é despertada frente à pulsão, ao desejo reprimido. Nesse sentido, a angústia permeia toda a história do filme. Percebe-se, principalmente, que ela é causada em Brandon pela aproximação deste com sua pulsão recalcada: a realização de uma relação incestuosa (que, inconscientemente, para ele, representa qualquer relação que una o amor e o sexo). Este conflito aflora-se em sua interação com a irmã, sendo o motivo das conturbações em sua relação ambivalente. Assim, supõe-se que a cena em que briga com esta por ela ter se relacionado com um homem casado (seu chefe e amigo) na noite anterior possui dois distintos significados que levam à angústia do personagem. No primeiro, poderíamos supor que Brandon não aceita que sua irmã tenha relações sexuais com alguém tão semelhante a ele. Admitir tal ato, como dito, seria como se ele mesmo tivesse praticado um ato incestuoso. Tal suposição parte do princípio de que o protagonista se identifica com o patrão, no seu estilo de vida e hábitos sexuais, enquanto a irmã ocuparia o lugar do objeto amado. Como já dito, para o neurótico obsessivo, sexo e amor não podem se juntar. E esse fato justificaria seus sentimentos ambivalentes pela irmã. Neste caso, a angústia surge como reação a um perigo interno. Por outro lado, ainda segundo lições freudianas, pode-se interpretar a mesma cena partindo-se do pressuposto de que, em fase avançada, o perigo ao qual a angústia ativa-se seria o perigo moral. Nesta fase, o conflito do Ego com o Superego seria o principal causador da angústia. Assim, ao afirmar para a irmã que ela não deveria ter tido relações sexuais com seu chefe porque este possuía família, pode-se sugerir que há ali um julgamento do Superego, que justifica sua reação e causa angústia. Em uma das primeiras cenas do filme, Brandon troca olhares com uma mulher no trem. Mesmo ao perceber que ela usa uma aliança, ele investe numa tentativa e vai atrás dela: pode-se dizer, então, que há uma projeção, na irmã, de seus próprios conflitos morais. A mais, uma cena que revela angústia no personagem refere-se à posterior a que sua irmã o encontra se masturbando no banheiro. O flagra promove uma série de atitudes radicais, nas quais Brandon joga fora todas suas revistas pornográficas, arremessa seu computador no lixo e ainda esvazia algumas partes da geladeira. A cena é claramente uma tentativa do protagonista em colocar ordem na sua vida de uma vez por toda e, tanto o é, que logo em seguida ele procura a mulher do seu trabalho com quem poderia ter uma relação dita mais “correta”. Nesta passagem, portanto, a angústia torna-se mais uma vez nítida ao passo de que é o flagrante de sua masturbação que estimula uma sequência de julgamentos morais. Para essa análise, aplica-se o conceito freudiano de angústia moral, ou seja, aquela existente quando há um conflito do Ego com o Superego. A falha em conseguir consumar uma relação sexual com alguém emocionalmente mais próximo, a colega de trabalho, ou seja, a notável incapacidade do personagem de prosseguir com um relacionamento tido como “normal” e desejável pela cultura em que está inserido, o leva a um intenso sentimento de culpa. O Superego, carregado de críticas ao seu comportamento, provoca em Brandon uma necessidade de ser punido, um desejo de ser castigado pelas suas falhas, algo próximo do que Freud elabora como Pulsão de Morte. Altamente entorpecido por esse sentimento, vaga pela cidade em busca de potencializar sua compulsão de forma que, em vez do prazer de costume, esta o cause desprazer. A cena em que tenta seduzir uma mulher no bar e, mesmo depois que seu namorado chega, insiste em sua manifestação de desejo por ela, provocando que o namorado o agrida, deixa bem clara a busca pelo mal-estar. Esta também se faz perceptível quando se envolve com um homem numa boate em que várias pessoas estão tendo relações similares, e no momento em que faz sexo com duas prostitutas ao mesmo tempo: apesar de serem cenas que poderiam ser idealizadas como prazerosas, é visível o desconforto, o sofrimento em seu rosto. Outro momento no qual fica clara a angústia no personagem principal é relativa a cena em que Brandon, após supor que sua irmã poderia ter cometido suicídio, corre para a sua casa e a encontra com os pulsos cortados e desacordada no banheiro. Aqui, mais uma vez, nota-se a angustia por medo de perder o objeto amado. Como uma curiosidade, pode-se explorar, ainda, o caráter masoquista de Sissy. Desde o princípio do filme, quando Brandon a ouve conversar no telefone com um outro homem, percebe que ela tende a buscar, emocionalmente, relações que a desgastem e coloquem em uma posição humilhante. Na ligação, a personagem implora para que o outro a aceite de volta, chegando a dizer que ela não precisa nem sair de casa, que a relação com ele basta para sua sobrevivência. Mesmo na relação com o chefe de Brandon isso é visível; apesar de negar, provavelmente ela percebeu, sim, a aliança em seu dedo, e sabia que ele era casado e não poderia manter com ela uma relação (além de se colocar no papel de amante, da “outra”). Era claro, também, que seu irmão não deixaria esta situação passar em branco, portanto é possível que ela buscasse, também, que ele a repreendesse. Sissy constantemente sabota suas próprias chances de uma melhora de vida, inclusive as oportunidades de convívio propostas pelo irmão: ela é desleixada e não respeita seu espaço. Seu masoquismo assume o ápice quando da sua tentativa de suicídio, a expressão mais concreta, física, de auto-agressão. Dito desta forma, imaginável seria a conclusão errônea de que todo o filme é, pois, passível de interpretação. Entretanto, um olhar mais atento revela cenas e comportamentos dos personagens à trama envolvidos nos quais vê-se claramente a falta de compromisso fiel e verídico com o caso clínico aqui abordado. É neste sentido que vale salientar que, embora fundamentadas em teorias psicanalíticas retiradas da própria exposição freudiana, as proposições acima formuladas tendem, de maneira geral, ao campo das suposições, uma vez que, por se tratar de um filme, o acompanhamento real do caso, aliado a todos seus desdobramentos naturais (estes tão vitais à psicanálise), ficam prejudicados. Ainda no que se refere à obra cinematográfica, pode-se afirmar: por sua coerência, pela capacidade de envolver seus espectadores e, acima de tudo, de bem construído que é, Shame tornou-se, sem dúvida alguma, um “prato cheio” aos estudiosos e admiradores da psicanálise. REFERÊNCIAS FREUD, S. Inibição, sintoma e ansiedade. In: Obras Psicológicas Completas. Edição Standart Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996 [1926]. LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário de psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001. SHAME. Direção: Steve McQueen. Produção: Iain Canning, Emile Sherman. Roteiro: Abi Morgan, Steve McQueen. Reino Unido: Paris Filmes, 2011. DVD (101 min), son., color., legendado. RIO DE JANEIRO 2014