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AULA 01 – Introdução a Epidemiologia A importância a respeito do conhecimento epidemiológico sobre as práticas de prevenção de doenças e promoção de saúde e sobre o modo de vida contemporâneo foi determinante para a consolidação da Epidemiologia como a principal ciência da informação em saúde. Um pouco de história Hipócrates (a.C. 460 a 377 a.C.), o pai da Medicina, é considerado o precursor da Epidemiologia, devido aos seus relatos sobre as epidemias. Hipócrates não se limitava a analisar o paciente em si, mas possuía uma visão holística demonstrando antecipadamente um raciocínio epidemiológico. Analisava as doenças de forma racional como produtos da relação dos indivíduos com o ambiente e com a maneira de viver. No tratado de Ares, águas e lugares, um dos mais antigos do corpus hippocraticum, Hipócrates discutiu os fatores ambientais ligados às doenças, defendendo um conceito ecológico de saúde-doença. Daí surgia a Teoria Miasmática, que sustentava a ideia de que regiões insalubres eram capazes de provocar doenças. O Renascimento foi um movimento importante para o resgate dos elementos filosóficos, estéticos e ideológicos mais avançados da cultura greco-latina. O pensamento renascentista propiciou as bases para uma compreensão racional da realidade resultando na constituição das ciências modernas. A partir dessa nova visão de mundo, “explodiu”, entre os séculos XVI e XVIII, a necessidade da produção de conhecimento em todos os saberes. É justamente nesse contexto que as raízes históricas de todas as ciências contemporâneas podem ser identificadas. O impacto dessa “explosão do saber” na constituição da ciência epidemiológica é notável. Epidemiologia - A palavra é formada pela junção do prefixo epí- (em cima de, sobre) com o radical -demos significando povo. O sufixo -logos também vem do grego que corresponde a estudo, doutrina. Epidemiologia significa “ciência do que ocorre sobre o povo”. Existem várias definições para o termo. O conceito original se restringia ao estudo de doenças transmissíveis, entretanto, houve uma evolução passando a abranger todos os eventos relacionados à saúde da população. Segundo Rouquayrol (1999) Epidemiologia é a ciência que estuda o processo saúde-doença em coletividades humanas, propondo medidas específicas de prevenção, controle ou erradicação de doenças. Enquanto a abordagem clínica se dedica ao estudo da doença no indivíduo, a Epidemiologia estuda os problemas de saúde em coletividades humanas. A Epidemiologia se constitui na principal fonte de informação em saúde e é considerada a ciência básica da Saúde Coletiva. Até mais do que uma ciência! Trata-se de uma verdadeira “aventura” do espírito humano, em uma busca incessante por respostas sobre as mais variadas questões que transcendem a ciência e encontram-se inseridas em diversos campos de saberes, sendo orientadas por demandas filosóficas, morais, políticas e outras. As principais aplicações da Epidemiologia são: - Investigação etiológica (estudo e causa de um determinado fenômeno); - Determinação de riscos; - Aprimoramento na descrição de quadro clínico; - Determinação de prognósticos (previsão) e diagnósticos de Doenças Infectocontagiosas (DIC) e Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT); - Uso nos serviços de saúde: vigilância epidemiológica, estudos de situação de saúde, e avaliações dos serviços, ações e programas de saúde vigentes. Tipos de saúde: Por ser muito importante para os estudos Epidemológicos a atuação da saúde é dividida em dois tipos: 1 A Saúde Pública está relacionada a um campo de saberes e práticas baseado na intervenção técnica e política do Estado, cujas práticas voltam-se tanto para o individual quanto para o coletivo (Pires Filho, 1987). 2 A Saúde Coletiva “é a ciência que evita doenças, prolonga a vida e desenvolve a saúde física, mental e a eficiência, através de esforços organizados da sociedade, para o saneamento do meio ambiente, o controle de infecções entre as pessoas, a organização de serviços médicos e paramédicos para diagnóstico precoce e o tratamento preventivo de doença, e o aperfeiçoamento da máquina social que assegurará a cada individuo, dentro da sociedade, um padrão de vida adequado à manutenção da saúde” (Winslow citado por Rouquayrol, 1999). A Saúde Coletiva investiga as seguintes: - estado de saúde ou condições de saúde de grupos populacionais específicos; - serviços de saúde (do posto de saúde ao hospital especializado); - saber sobre a saúde, as relações entre o saber "científico" e as concepções e práticas populares de saúde, influenciadas pelas tradições, crenças e cultura de modo geral. O lugar da Epidemiologia no campo da Saúde Coletiva: A Saúde Coletiva se estrutura sobre um campo disciplinar: a Epidemiologia; um campo de ação tecnológica: o planejamento e gestão em saúde, e um campo de prática social: a promoção da saúde. Epidemiológico de risco Atualmente, com a emergência das doenças crônicas não transmissíveis e com a reemergência de outras que até então estavam supostamente erradicadas, o objeto, ou seja, a base da moderna Epidemiologia tem sido construída através do conceito de risco. No senso comum risco significa perigo, logo, tem um sentido negativo, já na Epidemiologia o conceito de risco pode ter tanto um sentido positivo quanto negativo, pois está associado à probabilidade de ocorrência de algum evento. Portanto, pode estar relacionado a algo positivo, como por exemplo, as chances de cura ou recuperação de uma doença. Tríade - A ciência epidemiológica é formada por três elementos : Clínica Médica - Trata dos saberes sobre saúde e doença. Estatística - Trata das diretrizes metodológicas quantitativas. Medicina Social - Trata das práticas de transformação da sociedade. Cronologia Entre os anos 1960 e 1970, houve uma verdadeira revolução na Epidemiologia com a introdução da computação eletrônica. Pode-se dizer que houve uma forte “matematização” da área. Por outro lado, John Cassel (1915-1978) também contribuiu significativamente na sistematização do conhecimento epidemiológico com a teoria compreensiva da doença, fruto da integração dos fundamentos socioantropológicos na saúde. A Epidemiologia clínica se consolidou na década de 1980, trazendo como principal consequência o afastamento do contexto coletivo. Dava-se maior ênfase à identificação dos casos e à avaliação da eficácia terapêutica, constituindo a chamada Medicina Baseada em Evidências. Entretanto, na Europa e na América Latina surgiam abordagens mais críticas da Epidemiologia em resposta a essa tendência de “biologização” da Saúde Pública, reafirmando a influência dos determinantes sociais da saúde no processo saúde-doença. Nessa década, novos desafios surgiram: doenças antigas reapareceram e novas enfermidades despontaram. As chamadas doenças emergentes destacando, nesse contexto, a pandemia da SIDA ou AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). Nos anos 1990, observamos as novas tendências na Epidemiologia passando a ser aplicada por níveis de determinação, desde abordagens moleculares até uma Etnoepidemiologia. As interfaces entre a Epidemiologia e a Antropologia passaram a chamar a atenção. Atualmente, a Epidemiologia encontra-se inserida nos mais variados contextos com inúmeras interfaces disciplinares. Observamos claramente as aplicações da Epidemiologia às diversas fases do ciclo da vida, aos diversos tipos de problemas de saúde (Epidemiologia da AIDS, das doenças infecciosas, das doenças cardiovasculares, do câncer, Epidemiologia nutricional, das violências, do uso de substâncias psicoativas, em saúde mental, em saúde bucal, na saúde do trabalhador, entre outras aplicações) e aos sistemas de saúde. Os principais objetivos da Epidemiologia são: 1 Descrever a distribuição e a magnitude dos problemas de saúde nas populações humanas; 2 Proporcionar dados para planejar, executar e avaliar ações de prevenção, controle e tratamento das doenças; 3 Identificar fatores etiológicos na gênese das enfermidades. A partir da primeira décadado século XXI as DCNT‘s ou Não Infecciosas, como a obesidade e a síndrome metabólica, doenças cardiovasculares, diabetes, doenças cerebrovasculares e câncer, assumiram proporções alarmantes. Entretanto, doenças infecciosas, como gripe, pneumonia, tuberculose e gastroenterites já foram as principais causas de morte no mundo inteiro. Devido a isso, atualmente, inúmeras pesquisas epidemiológicas vêm sendo conduzidas com base nessas doenças. Hoje, o principal objetivo de interesse desses estudos está relacionado às principais causas de morte das sociedades modernas: óbitos violentos e DCNT. As mudanças da prevalência das doenças infecciosas para as doenças crônico-degenerativas como causa de mortalidade e morbidade trouxeram a necessidade de: - determinar as condições de saúde da população através de inquéritos de morbidade e de mortalidade; - investigar fatores antecedentes ao aparecimento das doenças que possam ser considerados como agentes ou fatores de risco (sedentarismo, tabagismo, hábitos alimentares incorretos). Entretanto, além do olhar nas doenças crônicas não transmissíveis, pandemias como a AIDS, gripe aviária e influenza A e a reemergência de enfermidades que até então estavam supostamente erradicadas, como a dengue, a tuberculose e a varíola, também vêm chamando atenção para a Epidemiologia de doenças transmissíveis. AULA 02 Saúde - Integridade anatômica e funcional dos organismos vivos Podemos observar como a forma de conceituar Saúde evoluiu ao longo do tempo: Até o século XIX - A “Saúde era a ausência de doença.” O centro das atenções era a doença em si. 1947 - “Saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença” (OMS – Organização Mundial da Saúde, 1947). Carta Magna de 7 de abril trouxe, o primeiro conceito de Saúde, que apesar de revolucionário, era subjetivo e idealizado. 1970 - Cristopher Boorse, formulou a Teoria Bioestatística da Saúde, altamente criticada. 1986 - Acontece a VIII Conferência Nacional de Saúde, realizada em Brasília , que traz a seguinte definição: "Saúde é a resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acessos aos serviços de saúde, é assim antes de tudo, o resultado das formas de organização social". 1988 - O Artigo 196 de 05 de outubro de 1988, da constituição federal diz que: “Saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços, para sua promoção, proteção e recuperação.” Segundo Tambellini,1988 , saúde é um bem coletivo que deve ser compartilhado individualmente por todos os cidadãos. Comporta duas dimensões essenciais: a dimensão do indivíduo e a dimensão da coletividade.” Podemos observar a dimensão social do conceito de saúde. A saúde passou a ser, também, um critério de cidadania. Assim, podemos afirmar que todos os cidadãos são responsáveis pela manutenção da sua saúde (citado por Rouquayrol, 2003). História Natural da Doença Compreende as inter-relações do agente, do suscetível e do meio ambiente que afetam o processo global e seu desenvolvimento, desde as primeiras forças que criam o estímulo patológico no meio ambiente, ou em qualquer outro lugar, passando pela resposta do homem ao estímulo, até as alterações que levam a um defeito, invalidez, recuperação ou morte (Rouquayrol, 1999). Período Pré-Patogênico: Ocorre previamente à instalação do agente patogênico; Ausência da doença; Medidas de Atenção Primária à saúde. Período Patogênico: Momento em que o agente patogênico instalou-se; Presença da doença. Período Pós-Patogênico: Momento após a instalação do agente patogênico; Presença ou ausência de incapacidades ou invalidez conforme a doença que se instalou. Níveis de Atenção à saúde Atenção Primária à Saúde - Realizada no período pré-patogênico. Compreende aplicação de medidas dirigidas a determinado agravo à saúde. Objetivos: • Promoção da saúde e prevenção de doenças; • Interceptar as causas patológicas antes mesmo que atinjam o indivíduo. Exemplos de medidas de proteção específica: Imunização, quimioprofilaxia para certas doenças, proteção contra acidentes, controle de vetores, aconselhamento genético, o auto-cuidado em saúde (alimentação adequada, prática regular de exercícios físicos, higiene). Atenção Secundária à Saúde - Realizada no indivíduo sob ação do agente patogênico, isto é, quando o período pré-patogênico já foi ultrapassado e o processo patológico foi desencadeado. As medidas preventivas nesse nível incluem: Diagnóstico precoce, tratamento imediato e limitação da incapacidade. Atenção Terciária à saúde - Corresponde às medidas adotadas após as consequências da doença, representadas pela instalação de deficiências funcionais. Objetivo: Consiste em alcançar a recuperação total ou parcial, através dos processos de reabilitação e de aproveitamento da capacidade funcional remanescente. As medidas mais frequentemente utilizadas nesse nível é: A prática de exercício físico realizado através dos profissionais de educação física e fisioterapia, a reeducação alimentar, a terapia ocupacional e a readaptação à vida normal. Paradigmas Explicativos dos Modelos Saúde-Doença no Âmbito das Sociedades - Através do conceito de coletivo, o que importa é a determinação social do processo saúde-doença. "Não se trata, de indivíduos, mas de sujeitos sociais, de grupos, de classes sociais e de relações sociais referidas ao processo saúde-doença" (PEREIRA, 1986). Perspectivas sobre o processo Saúde-Doença - A doença pode ser definida como uma falha nos mecanismos de adaptação do organismo, levando a perturbações na estrutura, na função de um órgão, de um sistema ou de todo o organismo e de suas funções vitais (Jenicek & Cléroux citados por Rouquayrol, 1999). Entende-se como Processo Saúde-Doença, a forma como interagem os fatores ambientais, sociais e próprios do indivíduo. Esse processo causa dois tipos de impacto: • Individual – doença/sofrimento/dor; • Social – Representação da doença, problema de saúde pública. As Causas das Doenças, ou os Fatores Etiológicos, podem se dar por meio da Multifatorialidade (vários fatores de ordem individual e coletivo que interferem e são determinantes no processo saúde-doença). Esse processo pode ser de origem: ENDÓGENA: Intrínseca/Genética – Ambiente Humano; EXÓGENA: Extrínseca – Fatores Sociais + Fatores Ambientais (Agressores Físico-Químicos e Biológicos). Fatores sociais do processo saúde-doença Fatores socioeconômicos - Os pobres são percebidos como mais doentios e mais velhos. São mais propensos a enfermidades graves e morrem mais jovens. A taxa de mortalidade infantil é mais elevada, assim como o número de recém-nascido de baixo peso (Rouquayrol, 2003). Fatores sociopolíticos - A incapacidade de decisão política e de participação comunitária são exemplos de desvalorização da cidadania. Fatores socioculturais - O preconceitos, os hábitos culturais, as crendices, os comportamentos, os valores, a incapacidade de se organizar para reivindicar, são exemplos de fatores sociocultural inseridos no processo de saúde-doenças. Fatores psicossociais - A marginalidade, a promiscuidade, as relações parentais instáveis, as condições de trabalho inadequadas, a carência afetiva de ordem geral, o bullying, são fatores psicossociais que interferem no processo de saúde-doenças. Fatores ambientais - São todos os fatores que mantêm relações interativas com o agente etiológico e o suscetível. Ocorrem em situações ecológicas desfavoráveis produzidas por fatores naturais ou artificialmente pela ação do homem, podendo funcionar como agentes patogênicos. Os Fatores ambientais estão divididos em: Ambiente físico e químico - Com o progresso, o desenvolvimento industrial, a urbanização e a industrialização houveram modificações nos hábitos e estilo de vida. Diariamente, substânciascarcinogênicas são ingeridas, inaladas ou absorvidas por via cutânea. Ambiente biológico - Solo, clima e recursos hídricos, microssistemas bioclimáticos propícios à manutenção dos vetores e reservatórios de agentes patogênicos. Ambiente humano - Fatores genéticos determinam a maior ou menor susceptibilidade à aquisição de doenças e ao uso de medicamentos. Saúde e Qualidade de Vida - O que vem na mente ao pensar em qualidade de vida? Somos unânimes em afirmar: Uma completa sensação de BEM-ESTAR! Entretanto, definir qualidade de vida é uma tarefa difícil... e a dificuldade está relacionada à subjetividade, complexidade e às várias dimensões relacionadas aos diferentes aspectos da vida dos indivíduos. De uma forma geral, a qualidade de vida depende de fatores intrínsecos (endógenos) e extrínsecos (exógenos) e varia de indivíduo para indivíduo. É um termo que representa uma tentativa de nomear as características das experiências de vida relacionadas ao cotidiano. Existem vários conceitos propostos para qualidade de vida e a maioria deles possuem pontos comuns, como, o modo de viver a vida e a satisfação das necessidades e expectativas dos seres humanos. Como estes conceitos estão relacionados ao bem-estar, o complexo da Qualidade de Vida envolve os seguintes temas: • Habitação; • Saneamento e meio ambiente; • Saúde; • Educação; • Alimentação e Nutrição; • Cultura, Esporte e lazer; • Trabalho e renda; • Previdência e Assistência Social; • Transporte. A discussão sobre esses temas tem preocupado os países do mundo inteiro, inclusive o Brasil. Entre os principais temas de preocupação estão: Baixos salários (má distribuição de renda); Analfabetismo ou baixo nível de escolaridade; Desemprego; Moradias sem água e esgoto (saneamento básico); Problemas com alimentação (desnutrição e obesidade); Violência e drogas; Acesso aos serviços de Saúde. World Health Organization Quality of Life - Em 1995, a Organização Mundial de Saúde (OMS), propôs a criação de um grupo (grupo WHOQOL) que construiu o seguinte conceito de qualidade de vida: “Qualidade de vida é a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”. A construção desse conceito permitiu a este grupo desenvolver um instrumento (ferramenta de mensuração) válido para a avaliação do conceito de qualidade de vida a nível internacional: o instrumento de avaliação de qualidade de vida da Organização Mundial da Saúde (WHOQOL-100). Trata-se de um questionário composto por 100 itens que avalia a qualidade de vida, baseado em três aspectos fundamentais: subjetividade, a multidimensionalidade e a presença de dimensões positivas e negativas. Para isto a Organização Mundial de Saúde criou um projeto colaborativo e multicêntrico que foi desenvolvido com a colaboração de 15 centros que trabalharam, simultaneamente, em diversas culturas. O WHOQOL-100 é composto por 100 questões que avaliam seis domínios: Físico, Psicológico, Nível de Independência, Relações sociais, Meio ambiente e Espiritualidade /Crenças Pessoais. O grupo também desenvolveu o WHOQOL-Bref, que é uma versão abreviada, composta por 26 questões extraídas do WHOQOL-100. Esta versão abreviada é composta por quatro domínios: físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente. Os principais usos do WHOQOL-100 são: Prática clínica para melhorar a relação médico-paciente e avaliar o resultado do tratamento; Pesquisas; Construção e Implementação de Políticas de saúde. As principais características do WHOQOL-100 são: Disponibilidade em 20 idiomas; Desenvolvimento transcultural; Ênfase na percepção do indivíduo. No Brasil, a versão em português foi desenvolvida no Departamento de Psiquiatria e Medicina legal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), tendo como coordenador o Dr. Marcelo Pio de Almeida Fleck. É importante destacar que os pesquisadores em geral podem aplicar os questionários propostos pela OMS, desde que não modifiquem suas orientações. AULA 03 Determinantes Sociais da Saúde A saúde de cada indivíduo, bem como o perfil epidemiológico é explicado através do formato que cada um dá para própria vida. As condições gerais de existência caracterizam o modo de vida que articula as condições e o estilo de vida. Condições de vida - condições materiais necessárias à subsistência, relacionadas à nutrição, à habitação, ao saneamento básico e às condições do meio ambiente. Estilo de vida - formas social e culturalmente determinadas de vida, que se expressam no padrão alimentar, no dispêndio energético cotidiano no trabalho e no esporte, hábitos como fumo, álcool e lazer. Um dos fatores relevantes para definição de cada individuo e do seu perfil epidemiológico é a desigualdade social, que representa diferenças sistemáticas na situação de saúde de grupos populacionais. Segundo Relatório Final da Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde ( Fiocruz, 2008), alguns DSS são biológicos, enquanto outros, de abrangência coletiva, são dependentes de políticas públicas e das condições políticas, econômicas, sociais, culturais e ambientais existentes. Para promover a saúde as ações devem atuar sobre o universo dos determinantes da saúde pessoais e não pessoais. Dentro desse contexto, destaca-se a importância da Epidemiologia Social, visto que a doença tem caráter histórico e social. É fundamental a compreensão do processo saúde-doença como processo social e enfatizar que os DSS desempenham um impacto direto na saúde”. As relações entre a forma como se organiza e se desenvolve uma determinada sociedade e a situação de saúde de sua população, estão sendo muito estudadas. É preciso estabelecer uma ligação entre os fatores sociais, econômicos e políticos e a sua incidência sobre a situação de saúde de grupos e pessoas. Não há uma correlação constante entre os indicadores da riqueza de uma sociedade, como o PIB, com os indicadores de saúde; embora saibamos que o volume de riqueza gerado por uma sociedade é um elemento fundamental para proporcionar melhores condições de vida e de saúde. Uma vez superado um determinado limite de crescimento econômico de um país, um crescimento adicional da riqueza não se traduz em melhorias significativas das condições de saúde. A partir desse nível, o fator mais importante para explicar a situação geral de saúde de um país não é sua riqueza total, mas a maneira como ela se distribui. O complexo da Qualidade de Vida envolve: • Habitação; • Saneamento e meio ambiente; • Saúde; • Educação; • Alimentação e nutrição; • Cultura, Esporte e lazer; • Trabalho e renda; • Previdência e Assistência Social; • Transporte. A saúde envolve: Aspectos biológicos: idade, gênero, ciclo de vida (infância, adolescência, maturidade, velhice), herança genética; Aspectos ambientais, incluindo o físico e o socioeconômico e cultural; Estilo de vida: higiene pessoal, dieta, atividade física, adições, comportamento sexual e outros; Serviços de saúde. Promoção da saúde - está relacionada a medidas que não se dirigem a doenças específicas, mas que visam aumentar a saúde e o bem-estar dos indivíduos e da coletividade. O fortalecimento da capacidade individual e coletiva para o confronto com uma imensa variedade de determinantes sociais e condicionantes da saúde é o aspecto principal. A promoção da saúde tem como objetivo: Ressaltar a atuação sobre os determinantes socioambientais da saúde e políticas públicas intersetoriais, voltadas à melhoria da qualidade de vida das populações; Reforçar a tendência de diminuição das responsabilidades do Estado, delegando aos indivíduos, progressivamente, o autocuidado. Já a prevenção de doenças, exige uma ação antecipada, baseada no conhecimento da história natural da doença, para impedir que ocorra seu estabelecimento. Há a necessidade do conhecimento epidemiológico para o controle e redução do risco de doenças. Dentro desse contexto, projetos de prevenção na área de educação em saúdesão imprescindíveis e baseiam-se na informação científica e orientações à população. Focos da promoção da saúde Foco I - Saúde como produto da interação de vários fatores relacionados à qualidade de vida, com ênfase em ações voltadas para o coletivo e o ambiente (físico, social, político, econômico, cultural), contemplando a “autonomia” de indivíduos e grupos (capacidade para viver a vida) e a equidade (justiça) (Carvalho et al, 2004 citados por Paim, 2006). Foco II - Saúde como produto de comportamentos de indivíduos e famílias (estilos de vida, dieta, atividade física, hábito de fumar), com ênfase em programas educativos relacionados a riscos comportamentais passíveis de mudança. (Carvalho et al., 2004) Os determinantes sociais podem ter um efeito positivo (fomento, promoção da saúde e da qualidade de vida) na saúde ou negativo (riscos, doenças e agravos). Dentro desse contexto é imprescindível a substituição da abordagem comportamental por abordagem ampla dos problemas de saúde focando os determinantes sociais, o caráter coletivo, as políticas públicas, a capacidade dos indivíduos e de comunidades e envolvendo estratégias combinadas: individuais, ambientais e políticas. Determinantes Sociais da Saúde e as iniquidades – panorama nacional A equidade na saúde pode ser definida como ausência de diferenças injustas, evitáveis ou remediáveis na saúde de populações ou grupos definidos com critérios sociais, econômicos, demográficos ou geográficos. O principal problema de saúde no Brasil são as iniquidades nas condições sociais e de saúde e no acesso aos serviços sociais e de saúde. como enfrentar os Determinantes Sociais da Saúde (DSS) na perspectiva da integralidade dos direitos humanos? A saúde é um direito e um bem social. Reconhecer os determinantes sociais em saúde nos ajuda a encontrar um caminho para trabalhar mais efetiva mente através de ações que reduzem as iniquidades sociais. Segundo Don Matheson (Massey University), tal ação “é requisito para liberdade”. Os princípios de justiça social, equidade em saúde e direitos humanos e suas relações são valores fundamentais para a ação sobre os Determinantes Sociais de Saúde (DSS). A necessidade de um enfoque integral, intersetorial e participativo para a compreensão e ação sobre DSS é extremamente relevante. A reflexão sobre os DSS, possibilita a elaboração de estratégias visando à diminuição das iniquidades em saúde e contribuíndo para o melhor exercício da justiça social e dos direitos humanos. Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde (CNDSS) - A CNDSS foi criada em março de 2005 sendo composta por especialistas e personalidades da vida social, econômica, cultural e científica do país, nomeados pelo Ministro da Saúde. Sua constituição expressa o reconhecimento que a saúde é um bem público a ser construído com a participação solidária de todos os setores da sociedade brasileira. Trata-se de uma iniciativa de grande importância ética e humanitária, que visa: Identificar com maior precisão as causas de natureza social, econômica e cultural da situação de saúde da nossa população; Identificar políticas públicas de saúde e extras setoriais, assim como iniciativas da sociedade, que ajudem a enfrentá-las, buscando garantir maior equidade e melhores condições de saúde e qualidade de vida para os brasileiros. definição de saúde presente na Constituição Federal de 1988, art.196 : “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.” DIREITOS HUMANOS EM QUESTÃO - “O caráter universalizante dos direitos do homem (...) não é da ordem do saber teórico, mas do operatório ou prático: eles são invocados para agir, desde o princípio, em qualquer situação dada”. François JULIEN, filósofo e sociólogo. No ano de 2008, foram comemorados os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Novas perspectivas e concepções incorporam-se à agenda pública brasileira. Uma delas é a visão mais integrada dos direitos econômicos, sociais, civis, políticos e, mais recentemente, ambientais, ou seja, trata-se da integralidade ou indivisibilidade dos direitos humanos. Dentre as novas concepções de direitos, destacam-se: • a habitação como moradia digna e não apenas como necessidade de abrigo e proteção; • a segurança como bem-estar e não apenas como necessidade de vigilância e punição; • o trabalho como ação para a vida e não apenas como necessidade de emprego e renda. o enfrentamento dos Determinantes Sociais da Saúde (DSS) na perspectiva da integralidade dos direitos humanos. As formas concretas de inserção socioeconômica da população (condições de trabalho e condições de vida) são relevantes para explicar a saúde e o perfil epidemiológico. As condições gerais de existência caracterizam o modo de vida que articula as condições e o estilo de vida. O complexo da Qualidade de Vida envolve: habitação, saneamento e meio ambiente, saúde, educação, alimentação e nutrição, cultura, esporte e lazer, trabalho e renda, previdência e assistência social e transporte. A saúde envolve aspectos biológicos (idade, gênero, herança genética); aspectos ambientais, incluindo o físico e o socioeconômico e cultural; estilo de vida: (higiene pessoal, dieta, atividade física, adições, comportamento sexual e outros) e acesso aos serviços de saúde. A saúde é um direito e um bem social. Reconhecer os determinantes sociais em saúde nos ajuda a encontrar um caminho para trabalhar mais efetiva e eficazmente através de ações que reduzem as iniquidades sociais. Como disse Don Matheson, “é requisito para liberdade”. Os princípios de justiça social, equidade em saúde, direitos humanos e suas relações são valores fundamentais para a ação sobre os Determinantes Sociais de Saúde (DSS). A necessidade de um enfoque integral, intersetorial e participativo para a compreensão e ação sobre DSS é extremamente relevante. Através da reflexão sobre os DSS é possível elaborar estratégias que visam à diminuição das iniquidades em saúde e contribuam para o melhor exercício da justiça social e dos direitos humanos. Através dessa atitude, uma visão crítica sobre os determinantes sociais de saúde poderá ser construída. Aula 4: Indicadores Epidemiológicos O que são e para o que servem os indicadores? De acordo com Rouquayrol (1999), indicadores são parâmetros utilizados internacionalmente com o objetivo de avaliar, sob o ponto de vista sanitário, a higidez (boa saúde) de agregados humanos, bem como fornecer subsídios aos planejamentos de saúde, permitindo o acompanhamento das flutuações e tendências históricas do padrão sanitário de diferentes coletividades consideradas à mesma época ou da mesma coletividade em diversos períodos de tempo. Segundo o documento, Indicadores básicos de saúde no Brasil: análise do período 1996 a 1999, o grau de excelência de um indicador deve ser definido por sua validade (capacidade de medir o que se pretende) e confiabilidade (reproduzir os mesmos resultados quando aplicado em condições similares). Outros atributos de qualidade de um indicador são sua mensurabilidade (basear-se em dados disponíveis ou fáceis de conseguir), relevância (responder a prioridades de saúde) e custo-efetividade (os resultados justificam o investimento de tempo e recursos). Os indicadores são apresentados como: • Indicadores de Morbidade e fatores de risco; • Indicadores de Mortalidade; • Indicadores Demográficos; • Indicadores Socioeconômicos; • Indicadores de Recursos; • Indicadores de Cobertura. Medidas de ocorrência de doenças, agravos e óbitos Como as doenças e agravos de interesse em saúde coletiva se distribuem segundo as condições de vida, revelando as desigualdades sociais que necessitam de intervenção? A análise da situação de saúde é uma das aplicações da Epidemiologia, na interface entre a produção de conhecimentos e sua aplicação aos serviçosde saúde. Na verdade, é necessário conhecer o que afeta a saúde da população e em que medida isso ocorre, o que compromete o pleno desempenho das potencialidades humanas, quais os fatores relacionados ao surgimento de doenças, agravos e óbitos e os que podem ser evitados através de prevenção e assistência adequada. Segundo Paulo Buss (2000), o estado de saúde está associado à qualidade de vida das populações e que as características da vida em sociedade, o modo de viver a vida e as relações sociais guardam relação com o nível de saúde. Daí a necessidade de analisar a situação sanitária de acordo com as características sociais, econômicas, políticas e culturais das coletividades. Por ser mais difícil de se mensurar a saúde, mede-se a “não saúde”, ou seja, as doenças e agravos (morbidade), as mortes (mortalidade), as incapacidades físicas e mentais (sequelas); mede-se, também, as variáveis relacionadas a processos fisiológicos (como a gestação), hábitos e estilo de vida (exercícios físicos, dietas saudáveis etc.), entre outros. A doença como evento pode ser medida em sua frequência e analisada para o estudo das características e do impacto sobre a situação de saúde da população (Barata, 1997). Dessa forma, métodos epidemiológicos são empregados para estudar uma doença ou agravo à saúde identificando, assim, grupos que estejam sob maior risco, indicando possíveis causas e produzindo informações que auxiliem o controle das enfermidades e na avaliação dos resultados das ações e serviços de saúde. A produção de dados referentes às doenças (dados de morbidade) e os óbitos (dados de mortalidade) a partir de registros ambulatoriais, hospitalares ou de inquéritos populacionais é uma ferramenta extremamente útil. Os principais indicadores utilizados na epidemiologia para avaliar o estado de saúde das comunidades são: Morbidade é uma variável característica de comunidades de seres vivos e refere-se ao conjunto de indivíduos que adquirem doenças em um dado intervalo de tempo e lugar. Designa-se morbidade ao comportamento das doenças e dos agravos à saúde em uma população exposta. Em Saúde Pública, os indicadores utilizados com mais frequência para avaliar o risco de um problema de saúde ou para descrever a situação de morbidade em uma comunidade são as duas medidas básicas da frequência: a prevalência e a incidência. Mortalidade é uma propriedade natural das comunidades dos seres vivos. Refere-se ao conjunto dos indivíduos que morrem em um dado intervalo de tempo e em certo espaço. Indicadores Demográficos Esperança de vida - A esperança de vida para uma faixa etária definida é um indicador geral das condições de vida e saúde e reflete o padrão de mortalidade de uma população. Principais funções dos Indicadores Demográficos: Analisar variações geográficas e temporais na expectativa de vida da população; Contribuir para a avaliação dos níveis de vida e de saúde da população; Subsidiar processos de planejamento, gestão e avaliação de políticas de saúde e de previdência social, entre outras, relacionadas com o aumento da expectativa de vida ao nascer. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) apresenta dados sobre as condições de saúde, necessidades, acesso e utilização de serviços e planos de saúde, moradia, censo populacional. Objetivos da PNAD: Levantamento estatístico que integra o Programa Nacional de Pesquisas Contínuas por Amostra de Domicílios da Fundação IBGE; Vem sendo realizada desde 1967 com um duplo objetivo: suprir a falta de informações sobre a população brasileira durante o período intercensitário; estudar temas insuficientemente investigados ou não contemplados nos censos demográficos decenais realizados por aquela instituição. A PNAD está estruturada em... Pesquisa básica: investiga, de forma contínua, os temas definidos como de maior importância para medir e acompanhar o nível socioeconômico da população: habitação e mão de obra, além de características demográficas e educacionais. Pesquisas suplementares: aprofundam os temas permanentes e investigam outros assuntos de interesse que se interliguem com os da pesquisa básica. Pesquisas especiais: abordam assuntos de maior complexidade, que exigem tratamento à parte da pesquisa básica. Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) - O conceito de Desenvolvimento Humano parte do pressuposto de que para aferir o avanço de uma população não se deve considerar apenas a dimensão econômica, mas também outras características sociais, culturais e políticas que influenciam a qualidade da vida humana. O objetivo da elaboração do IDH é oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento. Desde 2010, quando o Relatório de Desenvolvimento Humano completou 20 anos, novas metodologias foram incorporadas para o cálculo do IDH. Atualmente, os três pilares que constituem o IDH (saúde, educação e renda) são mensurados da seguinte forma: Uma vida longa e saudável (saúde) é medida pela expectativa de vida; O acesso ao conhecimento (educação) é medido por: i) média de anos de educação de adultos, que é o número médio de anos de educação recebidos durante a vida por pessoas a partir de 25 anos; e ii) a expectativa de anos de escolaridade para crianças na idade de iniciar a vida escolar, que é o número total de anos de escolaridade que um criança na idade de iniciar a vida escolar pode esperar receber se os padrões prevalecentes de taxas de matrículas específicas por idade permanecerem os mesmos durante a vida da criança; E o padrão de vida (renda) é medido pela Renda Nacional Bruta (RNB) per capita expressa em poder de paridade de compra (PPP) constante, em dólar, tendo 2005 como ano de referência. As medidas da frequência das doenças, agravos à saúde e de óbitos representam um desafio constante para a realização de ações de prevenção, promoção da saúde e da qualidade de vida. Os principais sistemas de informação possuem grande cobertura em todo país e o seu aperfeiçoamento possibilitam obter indicações com elevado grau de fidedignidade para as áreas com melhor desenvolvimento social e de gestão dos serviços de saúde. Dessa forma, melhorias no processo saúde-doença-cuidado podem ser proporcionadas através da interpretação das medidas de morbidade e mortalidade, mesmo com suas limitações. Explica-se essa variação pela qualidade de atenção médico-hospitalar, por uma parte, e por outra pelo sub-registro de casos, que também oscila entre períodos epidêmicos e não epidêmicos. Nos períodos epidêmicos os profissionais da saúde e a população estão alertas para a ocorrência da doença e os indivíduos doentes tendem a procurar os serviços de saúde mais precocemente, onde o diagnóstico de certeza é feito mais prontamente e o suporte à vida evita maior número de óbitos. Em períodos não epidêmicos, o retardo na procura dos serviços de saúde pode significar maior letalidade para esta doença que é imunizável. Aula 05 – Metodologia Epidemiológica Conceito de Método - Método pode ser conceituado como um modelo a partir do qual observamos, medimos e tomamos conhecimento dos fatos e dos acontecimentos da vida. A Epidemiologia, assim como acontece com outras áreas do conhecimento, tem o seu método próprio para reconhecer, medir e avaliar o seu objeto de trabalho. A investigação epidemiológica envolve a coleta, o manejo e o tratamento dos dados epidemiológicos que devem ser realizados a partir do método. A contínua construção do conhecimento, a formulação de problemas significativos, a abertura a novas ideias, a fatos novos e relevantes, o entusiasmo na resolução de problemas e a sensibilidade perceptiva são algumas qualidades que devem estar presentes na investigação epidemiológica. Medidas de promoção da saúde também determinam a problemática da Epidemiologia. Dentro desse contexto, é imprescindível destacar que a solução de um problema epidemiológico pode representar a vida e a sobrevivência de indivíduos e coletividades. O métodoepidemiológico foi especialmente desenvolvido para ser aplicado à investigação do processo saúde-doença, em populações humanas e compreende as seguintes etapas: Observação: caracterização do problema em estudo, por meio de instrumentos de medição. Formulação de hipóteses: tentativa de explicação para um fenômeno observado, uma proposição que necessita ser verificada. O conhecimento prévio que se obtém do fenômeno observado é o que vai orientar a formulação da hipótese. Conclusões: momento da interpretação dos resultados. As conclusões servirão para a construção de novas teorias ou para a complementação e verificação das teorias existentes. Interpretação: realizada por meio de informações (censos, histórias clínicas, estatísticas, bibliografia, entrevistas etc.) Verificação de hipóteses: momento da análise e processamento dos dados epidemiológicos. Problematização na pesquisa epidemiológica: estratégias de problematização propiciam o crescimento da capacidade humana em conhecer a realidade e transcender o seu universo. Criar problemas? Sim, é exatamente essa a ideia da problematização na pesquisa epidemiológica. E pode ser que criar problemas não seja tão difícil quanto resolvê-los. Hipóteses epidemiológicas - Um dos momentos do raciocínio epidemiológico voltado para a explicação de um problema é o levantamento de hipóteses. Hipóteses são respostas possíveis aos problemas colocados pela ciência e pelo senso comum. Uma hipótese epidemiológica compreende uma explicação para algum fenômeno, como por exemplo, a distribuição ou a determinação do surgimento de doenças e/ou indivíduos doentes, em populações, através de relações estabelecidas entre as variáveis que representam risco, fatores de risco e vulnerabilidade às doenças. Dentro desse contexto, é importante destacar que a hipótese epidemiológica deve levar em consideração os aspectos da doença na população e as variações nos componentes ambientais (físicos, químicos, biológicos, sociais) associados à exposição aos fatores de risco. A hipótese orienta e determina a natureza dos dados a serem coletados e a metodologia da coleta. A formulação de hipóteses é indispensável em toda investigação epidemiológica, estudo epidemiológico e pesquisa científica, seja de ordem experimental ou observacional. As hipóteses geradas objetivam dar explicação aos padrões de distribuição segundo pessoa, tempo e lugar, podendo identificar os fatores de risco associados. A correta produção de hipóteses e a busca de solução para os problemas identificados são os maiores desafios para a ciência epidemiológica. A formulação de hipóteses é a etapa fundamental em qualquer pesquisa científica. Epidemiologia descritiva - A formulação de hipóteses é uma etapa imprescindível. É preciso saber qual ou quais as hipóteses mais prováveis para a explicação da associação entre causa (variável dependente) e efeito (variável independente). Após o levantamento da hipótese, a validação é a etapa seguinte de um estudo analítico. Desse modo, qualquer problema de saúde, sob a perspectiva epidemiológica, deve ser descrito a partir de determinadas características ou variáveis, antes que se possa analisá-lo. Do ponto de vista epidemiológico, analisar é estabelecer relações. A Epidemiologia descritiva usa princípios básicos de outras ciências, como a Sociologia, a Antropologia e as Ciências Políticas; além disso, utiliza as ferramentas da estatística, objetivando revelar os problemas de saúde-doença em nível coletivo, possibilitando o detalhamento do perfil epidemiológico da população com vistas à promoção da saúde. No enfoque temporal, a Epidemiologia descritiva pode estudar o estado atual, a tendência histórica ou a tendência prospectiva dos agravos à saúde. Variáveis Epidemiológicas - As variáveis são os elementos do processo saúde-doença que se quer estudar. Os métodos e as técnicas da Epidemiologia são utilizados para detectar uma associação entre uma doença ou agravo e características de pessoa, tempo e lugar. Portanto, o primeiro passo para o entendimento de um problema de saúde ou de uma doença consiste em descrevê-lo por meio de variáveis de pessoa, tempo e lugar. As pessoas incluídas nos estudos são diferenciadas entre si por atributos tais como: gênero, religião, peso ou altura, que são as variáveis. Variáveis qualitativas estão relacionadas às diferenças essenciais, como por exemplo a variável gênero que inclui as categorias feminino e masculino, a variável situação conjugal, ocupação, entre outras. Variáveis quantitativas referem-se a propriedades que mantêm a mesma natureza e podem ser manifestadas em termos numéricos, como temperatura, pressão sanguínea, peso e estatura. Na prática epidemiológica busca-se evidenciar as relações entre as variáveis. Formas de ocorrência das doenças: Epidemia - Elevação do número de casos de uma doença ou agravo em um determinado lugar e período de tempo, que caracterize, de forma clara, um excesso em relação à frequência esperada. Manifestação em uma coletividade ou região, de um grupo de casos de alguma enfermidade que excede a incidência prevista. O número de casos varia de acordo com a causa, o tamanho e as características da população exposta, sua experiência prévia ou falta de exposição à enfermidade, o local e a época do ano em que ocorre. O mais importante é o caráter desse aumento – descontrolado, brusco, significante, temporário. Exemplo: epidemia de dengue. Surto epidêmico - Tipo de epidemia em que os casos se restringem a uma área geográfica pequena e bem delimitada. Designa-se surto quando dois ou mais casos de uma determinada doença ocorrem em locais circunscritos, como instituições, escolas, domicílios, edifícios, cozinhas coletivas, bairros ou comunidades, aliados à hipótese de que tiveram, como relação entre eles, a mesma fonte de infecção ou de contaminação ou o mesmo fator de risco, o mesmo quadro clínico e ocorrência simultânea. Endemia - É a ocorrência coletiva de uma determinada doença que, no decorrer de um largo período (temporalmente ilimitada), acometendo sistematicamente grupos humanos distribuídos em espaços delimitados e caracterizados, mantém uma incidência relativamente constante, permitindo flutuações de valores, tais como as variações sazonais. Exemplo: tuberculose, malária e febre amarela. Segundo Duarte S. (2004), sazonalidade: é a propriedade de um fenômeno considerado periódico (cíclico) de repetir-se sempre na mesma estação do ano. As doenças são sujeitas à variação sazonal com aumentos periódicos em determinadas épocas do ano, geralmente relacionados ao seu modo de transmissão. Pandemia - É considerada uma epidemia de grandes proporções e larga distribuição geográfica, que se espalha por vários países e a mais de um continente. Um exemplo típico deste evento é a Aids que acomete todos os continentes. Risco e vulnerabilidade - O termo vulnerabilidade tem sido usado em vários estudos epidemiológicos, principalmente focalizado para a perspectiva de risco. MUNÕZ SÁNCHEZ & BERTOLOZZI, 2007 demonstraram que o modelo de vulnerabilidade deve ser analisado de acordo com a relação entre a vulnerabilidade individual/social/programática em diferentes populações. Vulnerabilidade Individual - Refere-se ao grau e à qualidade da informação que os indivíduos dispõem sobre os problemas de saúde, sua elaboração e aplicação na prática. Vulnerabilidade Social - Avalia a obtenção das informações, o acesso aos meios de comunicação, a disponibilidade de recursos cognitivos e materiais, o poder de participar de decisões políticas e em instituições. Vulnerabilidade Programática - Consiste na avaliação dos programas para responder ao controle de enfermidades, além do grau e qualidade de compromisso das instituições, dos recursos, da gerência e do monitoramento dos programas nos diferentes níveis de atenção. Vale a pena ressaltar que a determinação social da doença é destacada através desse modelo de vulnerabilidade que interliga os aspectos individuais, sociais e programáticos. Para intervirem situações de vulnerabilidade é imprescindível o desenvolvimento de ações que envolvam a transdisciplinaridade, o que é fundamental quando se trata de questões de saúde. Dentro desse contexto, o novo conceito de vulnerabilidade, em processo de construção, supera o caráter individualizante e probabilístico do clássico conceito de “risco”, tradicionalmente empregado no âmbito da Epidemiologia Clássica, pois este, segundo Ayres et al citados por MUNÕZ SÁNCHEZ & BERTOLOZZI, 2007, designa “ [...] chances probabilísticas de susceptibilidade, atribuíveis a um indivíduo qualquer de grupos populacionais particularizados, delimitados em função da exposibilidade a agentes (agressores ou protetores) de interesse técnico ou científico”. A vulnerabilidade é vista como um conjunto de aspectos que vai além do individual, abrangendo caráter coletivos, contextuais, que levam à suscetibilidade a doenças ou agravos, levando em conta, também, aspectos que dizem respeito à disponibilidade ou à carência de recursos destinados à proteção das pessoas, na medida em que incorpora práticas cuja essência é o cuidado ao indivíduo-coletivo, a possibilidade de apoiar os sujeitos sociais no que diz respeito aos seus direitos, fato que, na atual conjuntura de saúde e de desenvolvimento do país, se constitui como um desafio a ser perseguido e concretizado. A operacionalização do conceito de vulnerabilidade pode contribuir para renovar as práticas de saúde coletiva, nas quais o cuidado às pessoas, como já estudamos anteriormente, deve ser responsabilidade de diferentes setores da sociedade. Aula 06: Institucionalização e desenvolvimento da Epidemiologia no Brasil e a construção de políticas públicas de saúde Contextualização histórica e social - As políticas públicas se expressam em leis, decretos, regulamentações e normas que são adotadas pelo Estado para proteger as condições econômicas e sociais que têm impacto significativo na saúde. O módulo I do CBVE – Curso básico de Vigilância Epidemiológica, oferecido pelo Ministério da Saúde faz uma retrospectiva histórica que inicia com o descobrimento do Brasil e culmina com os dias atuais, trazendo uma contextualização histórica e social do Brasil que privilegiou a construção de políticas públicas de saúde, o sistema único de saúde (SUS) e o estabelecimento da Epidemiologia como eixo fundamental de estudo de questões de saúde e práticas de saúde coletiva. percepção sobre a modificação na forma de garantir a saúde da população brasileira - No início do século XX, a saúde era um dever e uma obrigação da população. Práticas sanitárias eram impostas autoritariamente pelo Estado. Entretanto, no decorrer do século, através da luta popular, essa relação se inverteu. A saúde passou a ser considerada um direito do cidadão e um dever do Estado (Constituição de 1988). Políticas públicas de saúde no Brasil - O Brasil é o único país do mundo que se refere a estratégias de uso da Epidemiologia na sua constituição (Constituição Federal – Artigos 196 a 200). A competência do nosso Sistema Único de Saúde (SUS) na execução de ações de vigilância sanitária e epidemiológica, além de outras atribuições, resulta das peculiaridades de sua concepção, baseada na complexidade da dinâmica social e na aplicação de conhecimentos desenvolvidos a partir da nossa realidade de saúde, sendo, então, um modelo articulado com outros setores sociais públicos e privados, bem como com a sociedade civil. Evolução nos Sistemas de Saúde no Brasil - A trajetória dos modelos de sistema de saúde no Brasil é determinada pelo tipo de economia e pela concepção de saúde vigente na sociedade no contexto histórico. Modelo Sanitarismo campanhista - (início do século até 1965). Economia: modelo agroexportador. Sistema de saúde: saneamento dos espaços de circulação de mercadorias, com erradicação de doenças que poderiam prejudicar a exportação. A concepção de saúde era fundamentada na teoria dos germes e relação entre agente - hospedeiro e doença. É importante destacar que esse modelo de saúde possuiu inspiração militarista, de combate a doenças em massa, forte concentração de decisões e estilo repressivo de intervenção sobre o individual e o social. Médico-assistencial privatista (até o final dos anos 1980) - Economia: industrialização, grande deslocamento de massa operária para os centros urbanos. Sistema de saúde: o importante era atuar sobre o corpo do trabalhador, mantendo e restaurando sua capacidade produtiva. A concepção de saúde era fundamentada na teoria dos germes e relação entre agente - hospedeiro e doença. O modelo médico-assistencialista foi construído por uma deliberação política autoritária, com agentes previdenciários, onde o Governo era o grande patrocinador e produtor de serviços privados, criado na lógica do lucro. Com isso esse sistema mostrou-se ineficiente e desigual com consequências catastróficas para a saúde no país, dentre as quais destacam-se a desigualdade no acesso aos serviços, a inadequação à estrutura de necessidades da população; qualidade insatisfatória dos serviços, ausência de integralidade da atenção e excessiva centralização. SUS - “É o conjunto de ações e serviços de saúde prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais, da administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo poder público, e de forma complementar pela iniciativa privada.” (Art. 4° Lei 8.080). Por que o sistema é único - Por ser um conjunto de unidades, de serviços e de ações que interagem com um mesmo propósito, organizando-se nas três esferas governamentais: Federal, Estadual e Municipal. Princípios ou características do SUS Universalidade - está relacionado ao direito universal ao atendimento, ou seja, todas as pessoas têm o direito ao atendimento, independente da cor, raça, religião, local de moradia, situação de emprego ou renda, caracterizando a saúde como um direito de cidadania, ao ser definido pela Constituição Federal como um direito de todos e um dever do estado. Equidade - está relacionado à justiça, ou seja, todo o cidadão deverá ser atendido conforme as suas necessidades, objetivando-se diminuir as diferenças sociais, proporcionando um "atendimento desigual para necessidades desiguais", caracterizado como o princípio de justiça social. É importante destacar que equidade não é sinônimo de igualdade, pois apesar de todos terem direito de acesso aos serviços, independente de cor, raça ou religião e sem nenhum tipo de privilégio, as pessoas não são iguais e, por isso, têm necessidades distintas. Integralidade da assistência - Os serviços de saúde devem funcionar atendendo o indivíduo como um ser humano integral. As ações de saúde devem ser combinadas e voltadas ao mesmo tempo para prevenção e a cura. Regionalização e Hierarquização - Os serviços devem ser organizados em níveis de complexidade crescente, dispostos em uma área geográfica delimitada e com definição da população a ser atendida. Resolutividade - É a exigência que um indivíduo busca em um atendimento, ou seja, que o serviço correspondente esteja capacitado para enfrentar e resolver o problema até o nível de sua complexidade. Descentralização - Redistribuição das responsabilidades das ações e serviços de saúde entre os vários níveis de governo (municipal, estadual e federal). Controle Social - Participação da população através das entidades representativas na formulação das políticas de saúde e do controle de sua execução, em todos os níveis de governo. Complementaridade do setor privado - A Constituição definiu que quando por insuficiência do setor público, poderá ser realizada contratação de serviços privados. Em 1990, as ações nacionais de vigilância epidemiológica e todo o seu acervo documental foram absorvidos pela recém-instituída Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Surgiu, então, a proposta de criação do Centro Nacional de Epidemiologia (Cenepi), vinculado à Fundação Nacional de Saúde que promoveu o uso da Epidemiologia em todos os níveis do SUS e subsidiou a formulação e a implementaçãodas políticas de saúde nacionais. O Cenepi desenvolveu trabalhos conjuntos com universidades e serviços de saúde, para o estabelecimento e para a consolidação dos Sistemas de Informação em Saúde, o Sistema Nacional de Mortalidade (SIM), Sistema Nacional de Nascidos Vivos (SISNAC), Sistema Nacional de Agravos de Notificação (SINAN), entre outros, constituição da Rede Nacional de Informação para a Saúde (RNIS) e da Rede Interagencial de Informações para a Saúde (Ripsa), capacitação de recursos humanos e apoio à pesquisa. No início do século XX, a saúde era um dever e uma obrigação da população. Práticas sanitárias eram impostas autoritariamente pelo Estado. Entretanto, no decorrer do século, através da luta popular, essa relação se inverteu. A saúde passou a ser considerada um direito do cidadão e um dever do Estado (Constituição de 1988). Dentro desse contexto, para a evolução plena da saúde pública no Brasil, é imprescindível que constantes atualizações sejam realizadas nas políticas públicas, pois, a reforma sanitária não foi realizada em sua totalidade. Portanto, devem ser desenvolvidas ações sustentáveis e articuladas que possibilitem iniciativas por parte do Estado que tornem o ambiente mais saudável, avançando dessa forma, em políticas de saúde e qualidade de vida. Aula 07: Situação atual da pesquisa epidemiológica no Brasil e as perspectivas para uma Epidemiologia Brasileira Tropicalismo na Epidemiologia - A situação atual da pesquisa epidemiológica no Brasil e suas perspectivas futuras estão intimamente relacionadas com sua institucionalização. Como vimos anteriormente, no Brasil, a Medicina Tropical representou um marco na história da Epidemiologia e na sua institucionalização. Os tropicalistas na época associavam as doenças tropicais à pobreza, à desnutrição, à ausência de saneamento básico e às más condições de vida de uma forma geral, descartando a hipótese miasmática, ainda usada naquela época. A importância da institucionalização da Epidemiologia no Brasil para o desenvolvimento da pesquisa epidemiológica 1866 - A Escola Tropicalista Baiana, criada em meados do século XIX, ainda que não tenha se constituído em uma instituição formal de ensino, dedicou-se à prática médica e à pesquisa da Etiologia (estudo da causa de doenças) das doenças tropicais. Dentro desse contexto, é importante destacar que as descobertas do grupo de pesquisadores, publicadas na Gazeta Médica da Bahia, fundada em 1866, contribuíram para questionar o ensino médico oferecido pelas tradicionais faculdades de medicina na Bahia e do Rio de Janeiro, que ainda utilizavam a teoria miasmática para explicar a Etiologia das doenças. Os pesquisadores da Escola Tropicalista Baiana, chamados de tropicalistas, utilizavam as técnicas mais avançadas da medicina europeia, como a análise de fluidos corporais, a Parasitologia e a Microscopia. 1902, o jovem bacteriologista Oswaldo Cruz, assumiu a direção geral do Instituto. 1904, o Rio de Janeiro sofreu uma grave epidemia de varíola o que desencadeou a vacinação obrigatória contra a doença. Como também vimos na aula passada, a forma autoritária da vacinação gerou grande insatisfação popular, o que, aliado às demolições realizadas pelo Prefeito Pereira Passos, deu origem ao movimento conhecido como a Revolta da Vacina, que durou uma semana. 1908, o Instituto Soroterápico passou a ser chamado de Instituto Oswaldo Cruz. 1970, foi instituída formalmente a Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), reunindo inicialmente: - o Instituto Oswaldo Cruz; - a Fundação de Recursos Humanos para a Saúde, que depois passou a ser chamada de Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP); - e o Instituto Fernandes Figueira (IFF). 1990 Na primeira metade do século XX, duas instituições de pesquisa e formação especializada no campo da saúde pública foram criadas: a Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro e a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. A inauguração do Instituto Soroterápico Federal, em 25 de maio de 1900, para a fabricação de soros e vacinas contra a peste bubônica, marcou o início da criação da Fundação Oswaldo Cruz. 1903, o Presidente da República Rodrigues Alves, nomeou o médico Oswaldo Cruz, recém-egresso do Instituto Pasteur, para a Diretoria Geral de Saúde Pública com a tarefa de sanear o Rio de Janeiro - capital do país - e combater as principais epidemias que assolavam a cidade: peste bubônica, febre amarela e varíola. A campanha contra a febre amarela foi estruturada nos moldes militares, sendo impostas medidas rigorosas, como a aplicação de multas, entre outras. A batalha contra a peste bubônica se deu através da notificação compulsória dos casos, combate aos ratos da cidade, entre outras. 1905, Carlos Chagas conseguiu controlar um surto de malária no interior de São Paulo, sendo reconhecido internacionalmente. 1960 - As campanhas de erradicação da varíola, em 1960, e da poliomielite, anos depois, aliadas à grave epidemia de doença meningocócica, contribuíram para consolidar o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica no Brasil. 2004, a ENSP passou a ser chamada Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, em homenagem ao grande sanitarista brasileiro. De acordo com Paim e Almeida Filho (2000), a saúde coletiva compreende um campo acadêmico de produção de conhecimentos científicos e tecnológicos e um âmbito de saberes e práticas. Do ponto de vista acadêmico, contempla o desenvolvimento de atividades de investigação sobre o estado sanitário da população, a natureza das políticas de saúde, a relação entre os processos de trabalho e doenças e agravos, bem como as intervenções de grupos e classes sociais sobre a questão sanitária. Nessa perspectiva, a saúde coletiva pode ser definida como um campo de conhecimento de natureza interdisciplinar cujas matérias básicas são Planejamento/Administração de Saúde, Ciências Sociais em Saúde, e que tem como eixo estruturante a Epidemiologia. Desenvolvimento da Epidemiologia e da pesquisa epidemiológica no Brasil 1970 No início do século XX, o desenvolvimento da Epidemiologia em nosso país foi impulsionado pelo êxito das ações em saúde. No processo de constituição do movimento de saúde coletiva, na década de 1970, diversos núcleos de pesquisa e pós-graduação em saúde foram criados e consolidados nas principais instituições de ensino e pesquisa do Brasil, com a participação da primeira geração de epidemiologistas brasileiros. 1979, foi criada a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO), cujo objetivo embora fosse a pós-graduação, sempre atuou nas questões acadêmicas e nos serviços de saúde, incluindo com destaque os temas de pesquisa, formação e intervenção da Epidemiologia. 1984, foi realizada em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, a I Reunião Nacional sobre Ensino e Pesquisa na Epidemiologia. Nesse encontro, foram aprovados a constituição e os objetivos da Comissão de Epidemiologia da ABRASCO. 1986, ocorreu na Bahia o Seminário “Perspectivas da Epidemiologia frente à reorganização dos serviços de saúde”. Nesse evento, foi discutida a influência da Epidemiologia na unificação do sistema de saúde para a melhoria das condições de vida da população. Demonstrou a preocupação dos epidemiologistas com a reorganização dos sistemas de saúde e o engajamento no movimento de Reforma Sanitária, que estava em curso no paíse teve seu ápice na época da VIII Conferência Nacional de Saúde — marco da criação do SUS — conforme abordado na aula anterior. 1989, logo após a promulgação da Constituição Brasileira, foi realizado o seminário “Estratégias para o desenvolvimento da Epidemiologia no Brasil”, sendo elaborado o I Plano Diretor para o Desenvolvimento da Epidemiologia no Brasil, envolvendo instituições acadêmicas e serviços de saúde e questões tanto nas áreas de ensino de graduação, pós-graduação e pesquisa, quanto nas ações dos serviços de saúde. 1990 constituiu um marco para a Epidemiologia brasileira devido à realização do I Congresso Brasileiro de Epidemiologia e a criação do CENEPI.O Congresso foi realizado em Campinas e reuniu aproximadamente 1.500 participantes. O tema foi “Epidemiologia e Desigualdade Social: os desafios do final do século”. O Centro Nacional de Epidemiologia (CENEPI), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, era responsável pelo desenvolvimento de ações voltadas para a promoção e a disseminação do uso da Epidemiologia em todos os níveis do SUS. 1992, foi realizado o II Congresso Brasileiro de Epidemiologia, em Belo Horizonte, com o tema “Qualidade de vida: Compromisso histórico da Epidemiologia”. 1995, em Salvador, ocorreram três eventos: o III Congresso Brasileiro de Epidemiologia, organizado em conjunto com o II Congresso Íbero-Americano e o I Congresso Latino-Americano de Epidemiologia. O tema desse grande encontro foi “Epidemiologia na busca da equidade em saúde”, que se constituiu no primeiro evento de caráter internacional realizado no Brasil. Nesse congresso, foi lançado o II Plano Diretor para o Desenvolvimento da Epidemiologia no Brasil, onde se criticava a prática epidemiológica setorizada, preconizando a adoção de um enfoque mais global na definição dos perfis saúde-doença da população. 1998 - O IV Congresso Brasileiro de Epidemiologia foi realizado no Rio de Janeiro, em 1998, com o tema “Epidemiologia em perspectiva: novos tempos, pessoas e lugares”. Neste mesmo ano foi lançada a Revista Brasileira de Epidemiologia, representando um marco na divulgação científica na área. Atualmente, essa revista se encontra indexada nas bases do LILACS (Index MedicusLatinoamericano) e do SciELO (Scientific Eletronic Library Online). 2000, foi lançado o III Plano Diretor para o Desenvolvimento da Epidemiologia no Brasil. 2002, em Curitiba, foi realizado o V Congresso Brasileiro de Epidemiologia com o tema “A Epidemiologia na Promoção da Saúde”, sendo submetidos mais de 2.800 resumos de trabalhos. O VI Congresso Brasileiro de Epidemiologia com o tema “Um olhar sobre a cidade” foi realizado em Recife e contou com a inscrição de 3.800 trabalhos, mantendo-se o aumento progressivo da produção científica em Epidemiologia,tanto nas universidades e centros de pesquisa quanto nos serviços de saúde do Brasil. 2005 - A Comissão de Epidemiologia da ABRASCO lançou, em 2005, o IV Plano Diretor para o Desenvolvimento da Epidemiologia no Brasil, demonstrando que a pesquisa no campo da saúde pública estava se expandindo e refletindo o desenvolvimento da pesquisa epidemiológica, cuja orientação tem como objetivo os problemas de saúde de grande impacto social e suas relações com os determinantes políticos, sociais, econômicos e culturais. O IV Plano Diretor também destacou que a Epidemiologia deve estar incorporada às políticas, aos programas e aos serviços de saúde no Brasil. Nesse sentido, a utilização cada vez maior pelo SUS de informações epidemiológicas, nos diversos níveis do sistema para o conhecimento das necessidades de saúde da população, constitui-se em ferramenta fundamental para aprimoramento do SUS. Um ponto que merece destaque no relatório do IV Plano Diretor é o relacionado à pesquisa epidemiológica, sendo discutidos os seguintes tópicos: • a produção do conhecimento em Epidemiologia; • a divulgação científica; • a difusão do conhecimento; • a ética na pesquisa; • teoria e metodologia da pesquisa em Epidemiologia. 2008, ocorreu no Brasil o VII Congresso Brasileiro de Epidemiologia e o XVIII IEA World Congress of Epidemiology organizados pela ABRASCO e pela InternationalEpidemiologicalAssociation (IEA). Na ocasião, o congresso elegeu o epidemiologista brasileiro César Gomes Victora para a presidência da IEA, na gestão 2011 a 2014; e o Brasil, com seus 4.273 congressistas, pode mostrar com alegria e profissionalismo a Epidemiologia Brasileira. O tema do evento foi: “Epidemiologia na construção da saúde para todos: métodos para um mundo em transformação.” 2011, em São Paulo, ocorreu o VIII Congresso Brasileiro de Epidemiologia, trazendo como tema central a “Epidemiologia e seu papel na definição de políticas públicas” articulado ao conjunto das demais disciplinas do campo da Saúde Coletiva. Os congressos oferecem a oportunidade para atualizar e rever as contribuições da Epidemiologia para os diversos temas em saúde que interessam à sociedade brasileira, além de promover a interação entre a pesquisa realizada tanto no meio universitário quanto nos serviços de saúde. Atualidades sobre a pesquisa epidemiológica no Brasil - A pesquisa em Epidemiologia no Brasil vem crescendo e adquirindo reconhecimento científico em âmbito mundial. O Brasil está entre os seis países de maior produção científica da América Latina. Segundo Guimarães, Lourenço e Cosac (2001), citados por Ameida Filho e Barreto (2011),no ano de 2000, havia 363 pesquisadores com título de doutor realizando pesquisa epidemiológica no país. Barreto (2006) analisou a produção científica em Epidemiologia no Brasil em comparação com o total de publicações indexadas na base bibliográfica MEDLINE/PubMed, no período de 1985 a 2004. Do total de 211.727 artigos identificados na base, 1.925 (0,9%) eram referentes ao Brasil. O autor observou que no período de 1985 a 1989, 91 artigos foram publicados. E no período de 2000 a 2004 foram publicados 1.096, representando um crescimento de 12 vezes na quantidade de artigos. De acordo com os resultados do estudo, o crescimento da produção científica no Brasil foi mais acelerado do que o crescimento mundial nas duas décadas analisadas, evidenciando o avanço da pesquisa epidemiológica no Brasil. Dentro desse contexto, é importante destacar que a pesquisa epidemiológica brasileira vem se consolidando de forma consistente e sendo reconhecida mundialmente. Dentro desse contexto, é importante destacar que a pesquisa epidemiológica brasileira vem se consolidando de forma consistente e sendo reconhecida mundialmente. Como reconhecimento da contribuição nacional à ciência epidemiológica, em âmbito internacional, os editores-chefe de dois periódicos científicos que estão entre os melhores do mundo na área são brasileiros: • Maurício Barreto, do Journal of Epidemiology and Community Health; • Moysés Szklo, do American Journal of Epidemiology. A pesquisa epidemiológica no Brasil tem sido conduzida, basicamente, para dois eixos temáticos bem peculiares, caracterizando-se pela dupla inserção na abordagem do processo saúde-doença. Esta propriedade da disciplina de desenvolvimento, relativamente recente, frente à história das ciências em saúde está consolidada, podendo ser vista no impressionante crescimento da produção acadêmica e pela sua crescente utilização dos serviços de saúde. Por um lado, a Epidemiologia Brasileira tem demonstrado significativo interesse em desenvolver aplicações para o planejamento e a gestão de sistemas e serviços de saúde. Por outro lado, os epidemiologistas nacionais têm investigado principalmente os problemas de saúde de grande importância social, estudando amplamente determinantes sociais da saúde. Dentro desse contexto, torna-se importante destacar que o Brasil tem se consolidado como o principal produtor de conhecimento epidemiológico legitimado, metodologicamente, sobre os determinantes sociais da saúde. Aula 8: Epidemiologia, Prevenção de doenças e Promoção de Saúde: Planejamento estratégico de ações em Saúde “Medindo” a saúde - Conforme visto anteriormente, os componentes do complexo da qualidade de vida, as características do instrumento de mensuração proposto pela Organização Mundial da Saúde (WHOQOL) e os conceitos e aplicações dos principais indicadores epidemiológicos (os índices básicos para a saúde no Brasil) mostram, que para “medir” a saúde da população, não se deve restringir apenas à avaliação dos riscos de doenças ou de agravos. Na verdade, o ideal é o uso de duas estratégias distintas. Métodos e tecnologias devem ser desenvolvidos e aplicados para abordar a saúde enquanto inverso de morbidade, entendida como “volume global de doença”. E em um segundo momento, metodologias e tecnologias capazes de avaliar positivamenteos níveis de saúde em uma dada população devem ser aplicados. Contagem de indivíduos - Na prática de produção de informação, a Epidemiologia utiliza um conjunto de indicadores da saúde que, se baseiam na contagem de doentes (indicadores de morbidade) ou de falecidos (indicadores de mortalidade). A contagem de indivíduos sadios é uma estratégia alternativa que tem sido realizada, mas está limitada a avaliações de inquéritos domiciliares locais ou nacionais. Atualmente, existe um amplo e variado conjunto de instrumentos (questionários/escalas) desenvolvidos ou em desenvolvimento, com objetivo de medir “indiretamente” a saúde. Almeida Filho & Barreto (2011) destacaram uma característica interessante do indicador “esperança de vida”, o qual aborda apenas os anos vividos, em geral, sem considerar o estado ou o nível de saúde desses anos. Reforçando a ideia de que viver uma longa vida não significa vivê-la com qualidade. Nesse contexto, vale a pena relembrar a relevância e o impacto do significado, apesar de subjetivo, de qualidade de vida que está relacionado a uma sensação de bem-estar (satisfação, felicidade). Dessa forma, o complexo da Qualidade de Vida reflete as condições de saúde de uma população e envolve vários itens, destacando, alimentação e nutrição; habitação; saneamento e meio ambiente; educação; cultura, esporte e lazer; trabalho e renda; previdência e assistência social e; transporte. Além dos clássicos indicadores de morbidade e mortalidade, atualmente os indicadores de saúde estão cada vez mais relacionados com a capacidade física (habilidades, funcionalidade) e mental (competências, desempenho) e com abordagens positivas referentes ao bem-estar e à qualidade de vida. A saúde referida pelo próprio sujeito ou por terceiros tem sua expressão representada pela palavra. Na prática, as principais dimensões/domínios dos instrumentos de mensuração da saúde individual referem-se a variáveis comportamentais. Alguns instrumentos de mensuração da saúde individual já foram adaptados culturalmente para o Brasil. Conforme estudamos na aula 2, um exemplo é o instrumento desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde em um estudo colaborativo multicêntrico, composto por 100 itens (WHOQOL-100) para avaliação da qualidade de vida com uma perspectiva de comparabilidade internacional. Quality-Adjusted Life Years (QALY) – é Um indicador positivo da saúde estimado a partir do cálculo acumulado (por área geográfica) dos anos com qualidade de vida não vividos por motivo de doença, incapacidade ou morte, foi desenvolvido por uma equipe de pesquisa em Economia da Saúde da Universidade de York, Inglaterra. Segundo Almeida Filho & Barreto (2011), o conceito de QALY relacionado à “qualidade de vida ligada à saúde” propiciou um importante desenvolvimento na mensuração da saúde, considerando as grandes possibilidades do seu emprego para medidas positivas da saúde individual como capacidade vital e qualidade de vida. Em 1992, o Banco Mundial contratou uma equipe da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, coordenada pelo economista Christopher Murray, para viabilizar uma metodologia destinada a medir a “carga global de doença” (GBD – Global Burden of Disease) das populações. Como pré-requisito fundamental, estabeleceu-se que os componentes de morbidade e mortalidade deveriam estar integrados em um mesmo indicador. Inspirado no conceito do QALY, o novo indicador foi batizado de DALY (Disability-Adjusted Life Years) e definido como uma medida “do tempo vivido com incapacidade e do tempo perdido devido à mortalidade prematura”. Epidemiologia e planejamento em saúde - De uma forma geral, os indicadores da saúde devem ser capazes de gerar dados epidemiológicos e estatísticas vitais que permitam comparações internacionais e possibilitem o planejamento, a gestão, a operação e a avaliação de políticas públicas, os sistemas e os serviços de saúde. O planejamento de ações em saúde e o papel da Epidemiologia na formulação (elaboração), acompanhamento e avaliação de políticas, planos, programas e projetos em saúde destinados à Prevenção de doenças e Promoção de Saúde estão sendo muito investigados por diversos pesquisadores. A promoção da saúde está relacionada a medidas que não se dirigem a doenças específicas, mas que visam aumentar a saúde e o bem estar dos indivíduos e da coletividade. A prevenção de doenças exige uma ação antecipada, baseada no conhecimento da história natural da doença, para impedir que ocorra seu estabelecimento. Há a necessidade do conhecimento epidemiológico para o controle e redução do risco de doenças. Jairnilson Silva Paim e Eduardo Mota (2011) relataram que a partir do final da década de 1990, os desafios da implantação do SUS no Brasil motivaram a reflexão sobre as relações entre Epidemiologia e Planejamento em Saúde. TEIXEIRA (1999) enfatizou o grande dinamismo da produção científica no Brasil e a contribuição da Epidemiologia ao desenvolvimento teórico/metodológico do planejamento em saúde, destacando os seguintes usos: - no processo de formulação de políticas; - na definição de critérios para a repartição de recursos; - na realização de diagnósticos e análises de situações de saúde; - na elaboração de planos, programas e projetos; - na organização de ações e serviços; - na avaliação de sistemas, políticas, programas e serviços de saúde. O planejamento e a gestão constituem um dos suportes disciplinares da saúde coletiva, juntamente com a epidemiologia e as ciências sociais e humanas em saúde. O planejamento e a gestão constituem um dos suportes disciplinares da saúde coletiva, juntamente com a epidemiologia e as ciências sociais e humanas em saúde. Segundo PAIM (2006) o saber planejador e o saber epidemiológico podem ser considerados tecnologias não materiais aplicadas nos processos de trabalho em saúde coletiva, especialmente no que se refere à organização, à gestão e à avaliação. Dessa forma, o planejamento pode ser considerado uma prática técnica e social. A tecnologia adotada para o planejamento de ações em saúde expressa relações sociais. O planejamento está condicionado às influências e determinações que a estrutura da sociedade faz incidir sobre as ações de saúde. Consequentemente, determinantes políticos, econômicos e ideológicos modulam a extensão e a profundidade da utilização dessa tecnologia de gestão em cada instituição, município, estado ou país. O planejamento é um compromisso com a ação: planejar é pensar antecipadamente a ação. Somente em um contexto histórico no qual se buscou uma alternativa para a alocação de recursos sem subordinação aos mecanismos de mercado é que o planejamento emerge como um processo social. 1930 e 1945 - A origem do planejamento no Brasil ocorreu entre 1930 e 1945, quando se desenvolveu uma “política econômica nacionalista”. 1950 - houve um avanço no planejamento com a criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e com o Programa de Metas do Governo Kubitschek. 1964 - Os setores sociais apareceram no planejamento federal depois de 1964, entretanto, apenas sofreram expansão uma década depois. O II Plano Nacional de Desenvolvimento incluiu, entre outros setores sociais, a educação, a ciência e tecnologia e a saúde. É importante destacar que a identificação de problemas e necessidades bem como dos meios para superá-los faz com que o planejamento mobilize e eleve a consciência sanitária dos cidadãos e profissionais da saúde. Dentro desse contexto, o planejamento em saúde ajuda a pensar a ação coletiva para que organizações públicas de saúde possam agir melhor. As ciências sociais e humanas, a filosofia e a arte são imprescindíveis na avaliação das necessidades relacionadas às dimensões positivas da saúde, na perspectiva da promoção da saúde. Papel da Epidemiologia – A explicitação de propósitos possibilitando aos trabalhadores, gestores e população conhecerem e acompanharem o que precisa ser feito cria condições favoráveis à participação e à interação em torno do conhecimento sobre a situaçãode saúde, justificando, assim, o planejamento. O estabelecimento de compromissos sociais é essencial na ação visto que sociedades democráticas, interessadas em elevar a consciência sanitária da população e promover o exercício da cidadania, criam o ambiente político e institucional necessário à prática de planejamento em saúde que não se limita à produção de atos burocráticos. Nesse contexto, se insere a Epidemiologia. Como a disciplina é voltada para a produção de informações sobre a saúde da população, possui os mesmos compromissos sociais do planejamento em ambientes institucionais democráticos do sistema de saúde. Com isso, a produção de conhecimento sobre a situação de saúde e a orientação de ações para modificá-la no sentido de melhorar a qualidade de vida da população são os interesses em comum da Epidemiologia e do planejamento em saúde. O papel da Epidemiologia no planejamento de saúde vem crescendo muito, principalmente pela necessidade de informações que possam ser úteis para estabelecer prioridades na organização e gestão dos serviços e na aplicação de metodologia epidemiológica aos estudos de avaliação (TEIXEIRA, 1999 citado por PAIM & MOTA, 2011). Portanto, a Epidemiologia produz informações necessárias ao planejamento e as ações de vigilância se integram ao conjunto de serviços de saúde para a redução de riscos e da incidência de doenças e óbitos. Entretanto, o ambiente institucional em que a Epidemiologia pode realizar sua contribuição aos serviços de saúde depende dos modelos de gestão e de atenção à saúde, adotados para a modificação positiva da situação de saúde da população. Assim, os desafios e os obstáculos para a implantação do SUS, no Brasil, no âmbito da institucionalização do planejamento em saúde são os mesmos enfrentados para a realização do papel da Epidemiologia no planejamento. Nesse contexto, vale destacar que antes da criação do SUS, a aproximação entre a Epidemiologia e o planejamento limitava-se às campanhas sanitárias e aos programas especiais de controle de doenças. Momentos do processo de planejamento de saúde - No processo de planejamento de saúde podem ser destacados quatro momentos, que para fins didáticos podem ser visualizados e descritos de forma separada, entretanto, são momentos simultâneos. Momento explicativo - são identificadas as necessidades e os problemas, buscando possíveis explicações sobre a ocorrência e a produção dos mesmos. Algumas técnicas têm sido usadas como a “árvore de problemas” e o “fluxograma situacional”. Estas técnicas ajudam a sistematizar as respostas às seguintes perguntas: quais são os problemas e por que ocorrem? momento normativo procura-se definir o que deve ser feito (objetivos, metas, atividades, recursos). momento estratégico procura-se confrontar o que deve ser feito e o que pode ser feito, considerando as restrições políticas e financeiras. Nesse momento, se definem estratégias para superação de obstáculos (desenho estratégico) e se estabelecem cursos de ação para o plano, programa ou projeto. momento tático-operacional, um dos mais importantes, busca-se realizar as ações. Neste enfoque não se separa o pensar, o agir, nem o planejamento e a gerência. A operação caracteriza o fazer diante de toda a complexidade do real, sendo mais um ponto de confluência entre o planejamento e a Epidemiologia. Aplicabilidade da Epidemiologia - A Publicação “As causas sociais das iniquidades em saúde no Brasil” da Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde (2008), explica a aplicabilidade da Epidemiologia no entendimento do processo saúde-doença-cuidado para o estudo dos DSSs. SCHRAIBER et al (1999) citados por PAIM & MOTA (2011) relataram que o encontro progressivo entre os saberes e as práticas da Epidemiologia e do planejamento favorece a construção de um projeto assistencial comum a todos os agentes que compõem a equipe de trabalho. Essa construção requer tolerância às adversidades, permeabilidade ao novo e disposição para mudanças e críticas. Desse modo, é necessário que cada profissional conheça o trabalho de cada componente da equipe de saúde. Esta aproximação entre a Epidemiologia e o Planejamento tende a transcender a dimensão técnica, ampliando o comprometimento com a prática social. Aula 9: Epidemiologia e Gestão de Serviços de Saúde A relação entre a Epidemiologia e os serviços de saúde vem sendo muito estudada, afinal, o processo saúde/doença/cuidado não pode ser dissociado das intervenções que devem ocorrer sobre esse mesmo processo. E é justamente esse contexto que justifica a ação da Epidemiologia, ou seja, quando orienta intervenções que melhorem a qualidade de vida das coletividades. Em 1983, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) realizou um “Seminário sobre Usos e Perspectivas da Epidemiologia” disseminando as contribuições da Epidemiologia nos serviços de saúde, destacando a análise de situações de saúde, a vigilância epidemiológica, os estudos causais e a avaliação de serviços, programas e tecnologias. Teixeira (1999) citado por Portela e Teixeira (2011) destacou vários usos para a Epidemiologia, como no processo de formulação de políticas; na definição de critérios para repartição de recursos; na elaboração de diagnósticos e análises da situação de saúde; na elaboração de planos e programas; na organização de ações e serviços; na avaliação de sistemas, políticas, programas e serviços de saúde. Dentro desse contexto, é importante destacar que existem instrumentos, conhecimentos e símbolos oriundos da Epidemiologia que podem realmente ajudar os gestores da saúde em suas tarefas. O conceito de gestão relaciona-se ao de administração. A definição mais conhecida de Administração (e de gestão) é a proposta por Henry Fayol, em 1990: planejar, organizar, dirigir e controlar. Portela & Teixeira (2011) encontraram na teoria do processo de trabalho uma ferramenta para compreender o conceito de gestão. Nessa perspectiva, a gestão relaciona-se ao “trabalho indireto”, ou seja, a gestão é um trabalho que se realiza sobre outros trabalhos. Não temos como duvidar dessa afirmação, pois o objeto de trabalho do gestor ou do administrador é o trabalho de outras pessoas que se encontram sobre seu comando ou supervisão. Os instrumentos de trabalho do gestor são as atitudes, os conhecimentos e as técnicas que utiliza para definir o processo de trabalho dos outros e controlar a sua execução. O Gestor na liderança - O gestor pode se posicionar como líder ao executar suas ações, participando ativamente desse processo, conquistando a adesão dos trabalhadores para desenhar processos de trabalho eficientes. É importante destacar que independente desse controle ser mais autoritário ou democrático, é essencial que as tarefas dos membros de uma organização ou de um sistema sejam coordenadas para alcançar os objetivos organizacionais. Pode-se concluir que o trabalho indireto da gestão consiste em criar e aprimorar estratégias de controle sobre o trabalho dos outros através da motivação em relação aos objetivos organizacionais. Dessa forma, entende-se que planejar, organizar, dirigir ou analisar a situação, definir objetivos e desenhar estratégias, são ações importantes, mas não são ações essenciais do gestor. A pressão social exercida sobre o gestor da saúde é bastante elevada devido à imensa variedade de problemas na área, além disso, o trabalho em organizações sanitárias também é muito variável e de difícil padronização. Os serviços de saúde precisam estar preparados para situações emergenciais, que são frequentes. O caráter profissional dos serviços e das organizações de saúde é outra particularidade da gestão que merece destaque. As organizações são caracterizadas como profissionais, essencialmente, por dependerem do trabalho especializado para funcionar o que tornam os profissionais da saúde diferenciados pelo fato de que o próprio exercício de suas competências e habilidades exige um elevado grau de autonomia. Em virtude disso, a estrutura das organizações é necessariamente descentralizada, embora burocrática.A coordenação da organização profissional depende dessa padronização de competências e vale a pena destacar que ela depende do discernimento dos profissionais para poder funcionar. O caráter profissional do trabalho em saúde sugere, que mudanças em suas organizações estejam relacionadas a modificações progressivas no comportamento dos profissionais, por meio de ações educativas e da articulação entre a melhoria das condições de trabalho, e a responsabilidade dos profissionais pelo seu desempenho individual e coletivo. Nesse contexto, o gestor pode e deve desenvolver estratégias junto às instituições formadoras, assim como ações educativas dentro de suas organizações, relacionadas com a implantação de processos de trabalho mais efetivos e com as relações de trabalho mais motivadoras. Gestão do SUS: Princípios administrativos constitucionais - A gestão na área da saúde pública apresenta ainda mais especificidades que podem interferir no trabalho do gestor. O artigo 37º da Constituição Federal (1988) estabelece que “a administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”. - Legalidade: O princípio da legalidade diz que o gestor público só pode fazer o que a lei permite. - Impessoalidade: determina que os atos de qualquer agente público devem obrigatoriamente ter como finalidade o interesse público. - Moralidade está relacionado à honestidade nas ações e conduta do gestor. - Publicidade diz que o gestor público deve levar ao conhecimento de todos os seus atos e os contratos que estabelece. - Eficiência obriga o gestor público a agir com clareza, otimizar os resultados, levar em conta a relação custo-benefício e atender ao interesse público adequadamente. Gestão Tripartite - As Leis e Orgânicas da Saúde (Leis 8.080/90 e 8.142/90) definem as atribuições da União, do Distrito Federal, dos estados e dos municípios, tanto as que são comuns às três esferas do governo, quanto às específicas de cada uma. Apesar de ser uma longa lista de atribuições, existe um entrelaçamento das mesmas. Na prática, há um elevado grau de interdependência exigindo um alto nível de coordenação entre as esferas federal, estadual e municipal. Os instrumentos legais que propiciaram a nova organização do sistema de saúde foram as Normas Operacionais Básicas (NOB) do SUS (portarias do Ministério da Saúde), editadas entre os anos de 1991 e 1996, que definiram a forma de financiamento, os mecanismos de repasse de recursos nas relações entre os gestores dos três níveis (municipal, estadual e federal) enfatizando as descentralizações aos municípios e criando categorias de gestão diferenciadas. Como as negociações entre os gestores federais, estaduais e municipais não poderiam ser estabelecidas em uma única norma, o Ministério da Saúde, o Conselho Nacional de Secretários da Saúde e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde evoluíram suas negociações para a construção do Pacto pela Saúde, formalizado em 2006 pela Comissão Intergestores Tripartite (CIT). O Pacto pela Saúde divide-se em três partes: 1 Pacto pela Vida contém os seguintes objetivos e metas prioritárias (Portaria GM/MS nº 325, de 21 de fevereiro de 2008): - atenção à saúde do idoso; - controle do câncer de colo de útero e de mama; - redução da mortalidade infantil e materna; - fortalecimento da capacidade de resposta às doenças emergentes e endemias, com ênfase na dengue, hanseníase, tuberculose, malária, influenza, hepatite, AIDS; - promoção da saúde; - fortalecimento da atenção básica; - saúde do trabalhador; - saúde mental; - fortalecimento da capacidade de resposta do sistema de saúde às pessoas com deficiência; - atenção integral às pessoas em situação ou risco de violência; - saúde do homem. 2 Pacto de Defesa do SUS - O Pacto de Defesa do SUS foi criado com o objetivo de despertar a compreensão dos gestores da saúde para o fato de que a implantação efetiva do SUS depende de decisões que vão além dos limites setoriais, exigindo a mobilização da sociedade na luta para a garantia da saúde como direito de todos. Dessa forma, expressa os compromissos entre os gestores do SUS com a consolidação do processo da Reforma Sanitária Brasileira e articula ações que visam qualificar e assegurar os SUS como política pública, com uma clara estratégia de mobilização social. O Pacto de Defesa do SUS inclui a regulamentação da Emenda Constitucional nº 29 pelo Congresso Nacional para assegurar os recursos mínimos para o financiamento das ações e serviços públicos de saúde, buscando um financiamento compatível com as necessidades de saúde. 3 Pacto de Gestão do SUS - O Pacto de Gestão do SUS estabeleceu o processo de definição de responsabilidades e competências específicas de cada esfera do governo. De modo geral, as ações de atenção primária ficaram definidas como de responsabilidade dos municípios e todas as demais como objeto de pactuação. Também instituiu aos gestores estaduais e municipais maior autonomia na alocação dos recursos federais, ou seja, os repasses federais a estados e municípios passaram a ser feitos através de cinco grandes blocos: atenção básica, atenção de média e alta complexidade, vigilância em saúde, assistência farmacêutica e gestão do SUS. É importante destacar que o Pacto de Gestão do SUS valoriza as relações solidárias entre gestores, definindo as diretrizes e as responsabilidades, contribuindo para o fortalecimento da gestão, em cada eixo de ação: • descentralização • regionalização • financiamento do SUS • planejamento no SUS • programação Pactuada Integrada (PPI) • regulação da Atenção à Saúde e Regulação Assistencial • participação e Controle Social • gestão do Trabalho na Saúde • educação na Saúde Gestão Participativa - A participação de representantes da sociedade civil na condução do sistema de saúde foi uma conquista do movimento social contra o regime militar (1964-1985), que foi posteriormente consagrada na Constituição e nas Leis Orgânicas do SUS. É inquestionável a importância da participação social na gestão da saúde, entretanto, existem fortes indícios de que as conferências e os conselhos têm perdido a capacidade de formular diretrizes e estratégias para as políticas de saúde. Muitas dessas conferências têm se concentrado em debates sobre interesses de grupos específicos, como corporações profissionais, representações ideológicas, religiosas ou partidárias. Dentro desse contexto é importante ressaltar que uma participação social qualificada pode ajudar o gestor, entretanto, uma participação desfocada das políticas de saúde dominada por interesses particulares compromete de forma catastrófica o desempenho da gestão da saúde. Contribuição da Epidemiologia para a gestão em saúde - De uma forma geral, as ações do gestor relacionadas ao controle do trabalho dos profissionais da saúde estão relacionadas basicamente ao processo de produção e as relações de trabalho. Quanto às ações do gestor sobre o processo de produção podemos dizer que envolvem o desenho e a implantação de estruturas e tecnologias que favoreçam o alcance dos objetivos organizacionais ou do sistema de saúde. Já as ações sobre as relações de trabalho envolvem a conquista da adesão dos trabalhadores a esses objetivos. O processo de produção de ações e serviços de saúde no Brasil tem sido descrito e analisado a partir do conceito de modelo assistencial ou modelo de atenção à saúde. Os modelos assistenciais ou de atenção à saúde são “combinações tecnológicas estruturadas em função de problemas de saúde (danos e riscos) que compõem o perfil epidemiológico de uma dada população e que expressam necessidades sociais de saúde, historicamente definidas” (Paim, 2003, citado por Portela & Teixeira, 2011). Segundo Portela & Teixeira, (2011) a combinação tecnológica predominante ou hegemônica tem sido denominada de modelo médico-assistencial privatista pois apresenta as seguintes caraterísticascentrais: - sobrevalorização do trabalho do médico em detrimento do trabalho em equipe; - atuação sobre a doença e os doentes, privilegiando a assistência individual e curativa em detrimento das ações de promoção e prevenção; - ênfase na utilização de tecnologias médicas em ambiente hospitalar a partir da “demanda espontânea” de pessoas que sentem a necessidade de procurar um serviço de saúde. De acordo com esses autores, trata-se de um modelo curativista, biologicista e individualista, que não se preocupa com a atenção integral ao paciente e à coletividade. Portela & Teixeira, (2011) destacaram que apesar das características da Legislação do SUS que facilitam o trabalho do gestor, existem certas especificidades da gestão pública da saúde que dificultam a adesão dos trabalhadores ao objetivo de melhorar as condições de saúde das pessoas e da comunidade, como por exemplo a proliferação de contratos temporários e terceirizações em detrimento da realização de concursos públicos. Dentro desse contexto, destacam-se, também, as dificuldades inerentes às organizações profissionais como a coordenação de atividades e implantação de inovações. Segundo esses autores, os principais desafios impostos ao gestor na sua tarefa de conquistar a adesão dos trabalhadores são o favorecimento do trabalho em equipe e o fortalecimento de uma concepção humanista em detrimento da “tecnificação” do ato profissional. Vale ressaltar que a opção por processos de produção ou modelos de atenção epidemiologicamente orientados estão vinculados a decisões políticas. A Epidemiologia poderá ser muito útil à gestão da saúde, mas somente a partir da conquista da adesão dos trabalhadores ao objetivo de melhorar as condições de saúde das pessoas e da comunidade. Aula 10: Vigilância Epidemiológica no Brasil Avanços da Vigilância Epidemiológica no Brasil - A vigilância epidemiológica está incluída entre as nove funções essenciais para a saúde pública (WHO, 1998, OPAS, 2002). O Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica é um subsistema do Sistema Único de Saúde (SUS), baseado na informação-decisão-ação de doenças e agravos específicos. Seus principais objetivos são elaborar, recomendar e avaliar as medidas de controle e o planejamento. Dentro desse contexto, a Vigilância Epidemiológica pode ser definida como atividade de informação para decisão/ação, desenvolvendo várias funções específicas, tais como: Para que a VE possa cumprir seu papel, é necessário dispor de informação, que é gerada a partir da coleta, tratamento e interpretação de dados. A informação constitui um instrumento capaz de estabelecer um processo dinâmico para desencadeamento de medidas de controle pertinentes, planejamento, avaliação, manutenção e aprimoramento das intervenções públicas em saúde. Com a criação, em 1991, do Centro Nacional de Epidemiologia (CENEPI), foi impulsionada a ampliação da atuação da Vigilância Epidemiológica para além das doenças transmissíveis, conforme exigido pela Lei do SUS, indicando a necessidade de atuar sobre determinantes e condicionantes dos problemas de saúde das populações. (Paim citado por Almeida Filho & Barreto, 2011). Entre as atividades desenvolvidas pelos serviços de vigilância do país destacam-se o monitoramento e a prevenção de agravos não transmissíveis (DANT), a Vigilância de Óbitos Infantis, da Mortalidade Materna e de Acidente de Trânsito. Essa ampliação no modelo de atuação da Vigilância Epidemiológica vem possibilitando sua articulação com instituições de ensino e pesquisa no país. Através do desenvolvimento de ações de promoção, prevenção, recuperação e reabilitação se busca alcançar a prestação de atenção integral à saúde da população. Outro marco importante no avanço da Vigilância Epidemiológica no Brasil foi a Lei 9.782 de 27 de janeiro de 1999, que dispõe sobre o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária e a criação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que substituiu a Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária. A Anvisa tem por finalidade institucional “promover a proteção da saúde da população, por intermédio do controle sanitário da produção e da comercialização de produtos e serviços submetidos à Vigilância Sanitária, inclusive dos ambientes, dos processos, dos insumos e das tecnologias a eles relacionados, bem como o controle de portos, aeroportos e fronteiras.” Este mesmo instrumento define, no § 3º do seu artigo 7º, que “as atividades de Vigilância Epidemiológica e de controle de vetores relativas a portos, aeroportos e fronteiras, serão executadas pela Agência, sob orientação técnica e normativa do Ministério da Saúde”. Entende-se por vigilância sanitária um conjunto de ações capazes de eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde, abrangendo: a) o controle de bens de consumo que, direta ou indiretamente, se relacionam com a saúde, compreendidas todas as etapas e os processos, da produção ao consumo; b) o controle da prestação de serviços que se relacionam, direta ou indiretamente, com a saúde. O conceito de vigilância em saúde passou a ser adotado com a criação da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), em 9 de junho de 2003, pelo Decreto número 4.726 reforçando uma área estratégica do Ministério da Saúde, fortalecendo e ampliando as ações de Vigilância Epidemiológica, para além da tradicional vigilância de doenças transmissíveis. Essa mudança segue uma tendência internacional, de órgãos como a OMS (Organização Mundial de Saúde) e o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) que têm utilizado os termos vigilância em saúde ou vigilância em saúde pública para representar de maneira integrada, as atividades de vigilância das doenças transmissíveis, a vigilância das doenças e os agravos não transmissíveis e dos seus fatores de risco, a vigilância ambiental em saúde e a vigilância da situação de saúde. (Silva Junior, citado por Almeida Filho & Barreto, 2011). VEDT – Vigilãncia Epidemiologica de doenças transmissíveis - A Vigilância Epidemiológica foi desenvolvida a partir da necessidade de controlar as doenças transmissíveis, denominadas anteriormente de doenças pestilenciais ou quarentenáveis. Com sua evolução, vários métodos e práticas vêm sendo aplicados na maioria dos países ocidentais. Tipos e fontes de dados - A disponibilidade de dados constitui elemento-chave para o cumprimento das funções de VE. 01 Notificação compulsória – representa a principal fonte de informação da VE de doenças transmissíveis. È a comunicação obrigatória da ocorrência de doenças ou agravo a saúde feito a autoridade sanitária por profissionais da saúde ou qualquer cidadão no intuito de intervenção 02 Laboratorio – os laboratórios de imunologia, virologia etc, fontes de dados q permitem detectar casos q não foram conhecidos por meio de notificação 03 SIH-SUS – internações hospitalares , são importantes fontes de notificação em virtude dos hospitais serem a porta de entrada para casos graves. 04 Declarao de óbitos (DO) – sistema de informação de mortalidade (SIM) – os dados das DOS alimentam o SIM q se constitui em um importante elemento para o SNVE, tanto como fonte principal de dados, qd existem falhas de registro de casos no SINAM, qto como fonte complementar, por dispor de informações sobre as características de pessoa, tempo e luar, assistência prestada ao paciente, causas básicas e associadas a óbitos, q são extremamente relevantes e muito utilizadas no diagnostico da situação de saúde da população. 05 Investigação Epidemiologica – através dessa atividade podem ser obtidas informações complementares sobre os casos pra q sejam estabelecidos as ontes e os mecanismos de transmissão e as medidas de controle, complementando, dessa forma, os dados da notificação, no q diz respeito a fonte de infecção, modo de transmissão, confirmação diagnóstica e outras. 06 Notificacao de surtos e epidemias – a ocorrência de surtos e epidemiasdeve ser imediatamente comunicada aos serviços de VE para acompanhamento e adoção de medidas de controle 07 Imprensa e população 08 Dados demográficos ambientas e socieconomicos 09 Processamento analise e interpretação dos dados Monitoramento de Doenças e Agravos Não Transmissíveis (DANT) - Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), violências e acidentes representam graves problemas de saúde pública com alto impacto sobre a morbimortalidade da população. O monitoramento de doenças e agravos não transmissíveis tem como objetivo reduzir a incidência e a prevalência desses problemas de saúde, prolongando, dessa forma, a vida dos seres humanos com qualidade. Viver uma longa vida, não significa vivê-la com qualidade. Portanto, as ações individuais e coletivas devem ser voltadas para a preservação da vida com qualidade, conforme estudamos na aula 2. A Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) através da Coordenação por meio da Coordenação-Geral de Vigilância de Agravos e Doenças Não Transmissíveis – CGDANT -, tem trabalhado para coordenar, fomentar e desenvolver estudos e pesquisas para identificação e monitoramento de fatores de risco, análise e avaliação das ações de promoção da saúde, prevenção e controle das DANTs. Uma importante estratégia para a prevenção das DANTs é a utilização de técnicas pedagógicas ou intervenções educativas em saúde capazes de persuadir as pessoas a modificarem seu estilo de vida. O perfil epidemiológico dessas enfermidades pode ser modificado por intervenções de promoção da saúde estimulando o autocuidado em saúde. Entretanto, vale a pena destacar que além das intervenções educativas que mobilizam a população para a adoção de hábitos saudáveis, também são necessárias intervenções no campo regulatório e de políticas públicas de promoção da saúde, conforme abordado na aula 8, tais como a promulgação de leis restritivas ao consumo de álcool e tabaco e ações que promovam a prática de exercícios físicos. As abordagens metodológicas para estruturar as ações de monitoramento das DANTs estão centradas na evolução de determinados indicadores relacionados à morbidade e à mortalidade. Para monitorar a ocorrência das DANTs é imprescindível que se disponha de dados confiáveis e acessíveis para que sejam realizadas as análises epidemiológicas. Dessa forma, os indicadores escolhidos devem captar a conjuntura epidemiológica da doença ou agravo. O monitoramento das DANTs não está condicionado a sistemas de notificação compulsória, pois não é necessário o conhecimento de todos os casos para o planejamento e a execução de intervenções coletivas ou individuais para a prevenção. Sistemas Nacionais de Informação em Saúde - Conforme abordado anteriormente, o setor saúde, em seus três níveis de gestão, que vem incentivando o desenvolvimento de pesquisas para identificar e monitorar a situação epidemiológica, as necessidades no campo de assistência médica, os fatores de risco, as condições e estilo de vida que influenciam tanto a incidência destas doenças e os agravos quanto sua evolução e prognóstico. As principais fontes de dados utilizados para a construção de indicadores, adequados para essa estratégia, são os próprios Sistemas Nacionais de Informação em Saúde. O Sistema de Informação Ambulatorial do SUS (SIA-SUS) e Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH-SUS) . Apesar de não registrarem os atendimentos da rede privada, não conveniada ao SUS, possuem uma cobertura abrangente, além de fornecerem dados sobre vários tipos de procedimentos que, praticamente, só são realizados no SUS, como transplantes de órgãos. No SIH-SUS é possível obter um conjunto de importantes variáveis para a construção de indicadores que utilizados no monitoramento das DANTs, como a causa da internação, os dias de permanência e a evolução da doença. É importante destacar que todas as internações são codificadas segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID), contando com a possibilidade de registrar a causa principal, ou seja, a doença que motivou a internação e a secundária, isto é, a doença que contribuiu para a causa principal de internação. INCA (Instituto Nacional do Câncer) - Outro sistema de referência para a obtenção de dados de morbidade é oferecido pelos Registros de Câncer, divulgados pelo INCA (Instituto Nacional do Câncer) possibilitando a realização de estimativas de morbidade. Com os dados obtidos a partir desses sistemas é possível construir vários indicadores para monitoramento da morbidade, como por exemplo, taxas de internação por doenças específicas (doenças cardiovasculares, diabetes, entre outras); taxas de internação por determinados procedimentos, como a amputação de membros inferiores permitindo avaliar as complicações do diabetes. O Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) - permite o conhecimento do comportamento e das tendências de mortalidade por DANT, através do cálculo das taxas de mortalidade bruta ou padronizadas para cada doença. Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico - VIGITEL - O Ministério da Saúde vem utilizando a combinação de inquéritos de prevalência de fatores de risco para as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) de base populacional, com um sistema fundamentado em inquéritos telefônicos, o VIGITEL (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), implantado em 2006. Diversos fatores de risco como tabagismo, sedentarismo, ingestão excessiva de bebidas alcóolicas, alimentação inadequada, entre outros, têm sido monitorados através do VIGITEL. É importante destacar que o VIGITEL, desde que foi implantado, vem cumprindo com grande eficiência, seu objetivo de monitorar a constância e a distribuição dos principais determinantes das Doenças Crônicas NãoTransmissíveis (DCNT) por inquérito telefônico. Acidentes de trânsito - Em se tratando de acidentes de trânsito, estados, municípios e instituições de pesquisa estão sendo estimulados a desenvolver estratégias para a redução dessas ocorrências. A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, no dia 02 de março de 2010, proclamou oficialmente o período de 2011 a 2020 como a Década Mundial de Ação pela Segurança no Trânsito, a fim de estimular esforços em todo o mundo, para conter e reverter a tendência crescente de fatalidades e ferimentos graves em acidentes no trânsito no planeta. Os Ministérios da Saúde e das Cidades lançaram, no dia 11 de maio de 2011, o Pacto Nacional pela Redução dos Acidentes no Trânsito – Pacto pela Vida. A meta é estabilizar e reduzir o número de mortes e lesões em acidentes de transporte terrestre nos próximos 10 anos, como adesão ao Plano de Ação da Década de Segurança no Trânsito 2011-2020, lançado na mesma data (11/5/2011) pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O Plano Nacional de Redução de Acidentes e Segurança Viária para a Década 2011-2020, é um conjunto de medidas visando contribuir para a redução das taxas de mortalidade e lesões por acidentes de trânsito no país, através da implementação de ações de fiscalização, educação, saúde infraestrutura e segurança veicular, a curto, médio e longo prazo. Novo Regulamento Sanitário Internacional - Em 2005, a 58ª Assembleia Mundial de Saúde aprovou o novo Regulamento Sanitário Internacional modificando a estratégia anterior para notificação internacional de problemas de saúde que, até então, era restrita a três doenças específicas: febre amarela, peste e cólera. Tal aprovação representou um marco para a Saúde Pública Internacional, estando o RSI mais adequado às realidades da comunidade sanitária internacional. Sua abrangência foi ampliada para a “verificação e notificação de todos os EVENTOS URGENTES DE IMPORTÂNCIA INTERNACIONAL, independente de sua natureza (eventos naturais, acidentais ou intencionais), origem e fontes (biológicas, químicas ou radionucleares), com vistas à adoção de medidas temporárias ou permanentes que impeçam a propagação de doenças e seus agentes pelo mundo, sem criar transtornos desnecessários aotráfego e ao comércio internacional”. A disseminação da influenza A (H1N1), mais conhecida como gripe suína, em território nacional, foi um desses eventos recentes e demonstrou o desconhecimento de muitos setores sobre os papéis das autoridades nacionais bem como os limites e as limitantes do Estado frente ao quadro que se apresentava naquele momento, principalmente, no que se refere ao comércio internacional e aos direitos individuais dos cidadãos, de se locomoverem para além das fronteiras de seus países de origem e residência. Dessa forma, em virtude dos novos contextos epidemiológicos e situações que propiciam a circulação de patógenos biológicos e não biológicos, potencialmente capazes de colocar em risco a saúde das populações dos países, foi proposta a notificação mais precoce de diversas situações clínicas suspeitas. Em substituição à lista anterior de doenças, estabeleceu-se um regulamento das denominadas “Emergências de Saúde Pública de Importância Internacional”. Os países membros da OMS já implantaram esse novo regulamento e o Brasil já adotou providências para cumprir esse pacto. O Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA – tiveram papel relevante no aprimoramento deste regulamento, e desde o início da década nosso país está se preparando para o enfrentamento de situações inusitadas que possam colocar em risco a saúde da população.