Foucault em tres tempos
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Foucault em tres tempos


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A 
em tres tem os 
Contestador de todo 
poder, Foucault 
admite, em seus 
últimos textos, 
o papel dos 
indivíduos livres, 
éticos e racionais 
nas lutas pela 
transformação 
social e política 
GUILHERME CASTELO BRANCO, mestre 
em filosofia e doutor em comunicação 
pela UFR], é professor associado I 
do Departamento de Filosofia dessa 
<i- universidade. Coordena o programa de 
~ pós-graduação em filosofia e o laboratório 
© de filosofia contemporânea da UFR]. 
A subjetividade 
na arqueologia 
do saber 
POR GUIL HERME CAST EL O BRANCO 
MrCHEL FOUCAULT MARCOU DE MODO decisivo o pensamento de 
seus contemporâneos, não apenas no domínio da filosofia, 
mas também nas ciências humanas, biomédicas, jurídicas, na 
psicologia, na ciência política. Seus livros, artigos, entrevistas 
e cursos cobrem um campo tão vasto de temas e interesses, 
que muitos.estudiosos mais apressados desistem de investigar 
sua obra, tamanho o arrojo de suas hipóteses e a erudição de 
seus textos . \u2022 Tendo realizado sua graduação na École ormale 
Supérieure, Foucault revelou-se bem cedo uma personalidade 
pouco afeita ao academicismo e à tranqüila vida universitária. 
Viajou para diversos países, a trabalho, como leitor, adido cultu-
ral, professor de cultura e liter?tura francesa , até que sua tese de 
doutorado, publicada pela Gallimard, atraiu a atenção da intelec-
tualidade da época. História da loucura na idade clássica (961) 
não somente abriu-lhe as pOltas para um relativo sucesso, mas 
também tornou-se um vetor de interesse pelos livros do jovem 
pensador, dentre eles Doença mental e psicologia (954) e O 
nascimento da clínica C 1963). 
7 
o TEMPO DE FOUCAULT E DELEUZE
1939 1941 1951 1956 1958 1962 1966 1968 1970 1974
Início da Lançamento É criada, Revolução, Charles de A Argélia torna-se Mao Tse-tung Na França, Franco Basaglia Alexandre
Segunda de Cidadão na França, na Hungria, Gaulle, líder independente da França. impulsiona estudantes adota, em Trieste, Soljenitsin,
Guerra Kane, dirigido a revista esmagada da resistência E publicado o livro Um a Revolução e operários métodos de Prêmio Nobel
Mundial. por Orson Cahiers pelas forças antinazista dia na vida de Ivan Cultural na ocupam as atendimento nos de Literatura
Welles, marco duCinéma. do bloco na França, Denissovitch, denúncia China. ruas em casos de saúde de 1970, é
da história do socialista. é eleito dos campos de gigantescas mental que servirão deportado da
cinema. presidente concentração stalinistas manifestações. de modelo e inspiração União Soviéticé
da República. escrita por Alexandre para o Movimento
Soljenitsin. antimanicomial.
FOUCAIJIJ
I
RECUSA AO HUMANISMO
Com o lançamento de As palavras e as
coisas (966), Foucault vaCainda mais
longe nas suas elaborações teóricas, e
torna-se conhecido do grande público
cultivado. O autor suscitou a renovação
da epistemologia das ciências humanas, e
trouxe uma série de contribuições, nessa
fase, ao debate histórico-crítico. Dentre
as hipóteses levantadas no grande e
denso volume, talvez as mais dignas de
nota sejam: 1) todo o pensamento, toda
a prática, toda a fala de uma época são
coordenados, em última instância, por
um conjunto pequeno e restrito de idéias
fundamentais, que o pensador francês
chama de enunciados, e que constituem
matrizes anônimas de toda a intelecção
desse tempo determinado; 2) tais matri-
zes sofrem grandes transformações de
tempos em tempos, e modificam toda
a configuração de saber, o que faz com
que, entre as épocas, diferentes camadas
Uma proposição
polêmica de Foucault:
o homem, invenção
recente da arqueologia
_dopensamento,
deixará de existir
em futuro próximo
de discursos e práticas se superponham
(uma vez que são produtos da influência
de diferentes enunciados), tornando pos-
sível uma arqueologia do saber; 3) nossa
época leva a marca do aparecimento des-
sa nova noção, o homem, que não existia
até o século XVIII,uma vez que até então
ele era senhor da representação, con-
dição prévia de todo conhecimento; 4)
para passar a existir como objeto de co-
nhecírnento, o homem torna-se nebuloso
e desconhecido, compreensível somente
a partir do impensado com o qual faz par
- e é disso que tratam as novas ciências
ou saberes que estudam o homem; 5)
finalmente, uma das proposições mais
polêmicas: o homem, invenção recente
da arqueologia do pensamento, deixará
de existir em futuro próximo.
O par inevitável homem e impensado
põe em cena saberes privilegiados: a
psicanálise e a etnologia ocupam lugar
central na configuração arqueológica de
nosso tempo. A razão de ser desse lugar
ímpar perante os demais saberes é o
fato de que ambas estudam, ainda que
de forma diversa, a ação do campo do
HITLER E MUSSOLlNI em Munique. Foucault
estuda como o poder 'se faz obedecer
impensado sobre a consciência. No caso
da psicanálise, uma vez que deixa fluir o
discurso do inconsciente através da cons-
ciência, é o jogo do desejo, da lei e da
morte que sempre afeta o sujeito, e que
faz dele um efeito de um campo estrutu-
ral, aberto e estranho à consciência, mas
ainda assim sobredeterminante do sujeito.
No caso da etnologia, somos postos por
ela no interior da historicidade, mas de
um modo todo particular, o da presença
de formas culturais que nos precedem e
nas quais nos enraizamos. Mas sem dú-
vida, dentre as duas, a psicanálise é mais
importante, devido à sua posição episte-
rnológica: constituindo-se como uma prá-
tica, por uma relação de escuta do desejo
entre dois indivíduos, a psicanálise não
pode se prestar a converter-se numa teo-
ria geral do homem ou numa outra forma
de antropologia. Lacan, para Foucault, é
extremamente importante por ter escla-
recido este ponto, por desvincular a psi-
canálise do humanismo, por impedir que
a psicanálise seja vista como uma teoria
do homem, ao fazer do sujeito um efeito
de determinações que ocorrem nele, mas
alhures, no inconsciente, onde a cons-
ciência não reina nem poderá ter livre
acesso, tanto quanto o conhecimento.
Nos anos 60, bem ao sabor das novas
vagas do pensamento, Foucault partílha
de algumas idéias do grupo estruturalis-
ta, dentre elas a de que existem conheci-
mentos e discursos, realizados de forma
não-autoral (ainda que exista alguém ~
capaz de postular um direito de autoria), ~
advindos de um campo de pensamento ~
que prescinde do sujeito do conheci- ;1
mento cartesíano, Nesse novo espírito ~
metodológico e teórico, no lugar antes
ocupado pelo Cogito passa a vigorar Q
On. Ou seja, o &quot;eu penso&quot; é substituído
pelo &quot;algo pensa em mim&quot;. Desse modo,
a obra do jovem Foucault inaugura-se
pela recusa sistemática do humanismo.
Pois até mesmo a política pode ser
feita sem o álibi de que é o homem que
é centro e finalidade da ação política;
antes disso, para Foucault, os problemas
que são levantados aos que fazem política
são questões como a de saber se seria
mais interessante aumentar o índice de
crescimento demográfico, se é melhor
apoiar a indústria pesada ou a pequena
indústria, se o aumento de consumo
pode apresentar numa conjuntura deter-
minada vantagens econômicas ou não.
~esse plano da política, os &quot;homens&quot;
não estão concernidos. Ademais, lembra
o jovem pensador, a humanidade é uma
espécie dotada de um sistema nervoso
de tal ordem que lhe é possível, sob
certas condições, controlar seu próprio
funcionamento. Ora, essa possibilidade
de controle induz à crença de que a hu-
manidade deva ter uma finalidade, mas
a humanidade, na realidade, não dispõe
de nenhuma finalidade; ela funciona; ela
controla seu próprio funcionamento, e
faz surgir a todo momento justificativas
desse controle. A tese de Foucault, nesse
particular, é digna de nota: são eles, os
j@ burocratas, que são humanistas. A tecno-
~ cracia - não deixa de ser uma interessante= provocação - é uma forma de humanis-
-c
~ mo. Pois são os tecnocratas que imaginam