CONSIDERAÇÕES ACERCA DO PROCEDIMENTO COMUM ORDINÁRIO
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CONSIDERAÇÕES ACERCA DO PROCEDIMENTO COMUM ORDINÁRIO


DisciplinaProcedimento Sumário e Ordinário2 materiais42 seguidores
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1 O PROCEDIMENTO COMUM ORDINÁRIO
1.1 Distinção entre processo e procedimento
Não se confunde processo com procedimento. O primeiro é um instrumento por meio do qual o julgador pesquisa e interpreta os fatos que são submetidos pelas partes à sua apreciação, colimando aplicar o direito material ao caso concreto (no caso do processo penal, a aplicação da pena, quando do cometimento de um delito, depende do prévio \u2013 e devido \u2013 processo legal).
Já o procedimento é o caminho por meio do qual o processo irá se desenvolver. É a exteriorização do processo em atos formais. É o modus faciendi com que a atividade jurisdicional se realiza, se desenvolve.
O CPP prevê que o procedimento será COMUM ou ESPECIAL (art. 394).
O procedimento COMUM classifica-se de acordo com a pena privativa de liberdade cominada ao crime:
a) se cominada pena IGUAL OU SUPERIOR A QUATRO ANOS, o procedimento será ORDINÁRIO;
b) se cominada pena INFERIOR A QUATRO ANOS, E SUPERIOR A DOIS o procedimento será SUMÁRIO;
c) se cominada pena IGUAL OU INFERIOR A DOIS ANOS, o procedimento será SUMARÍSSIMO (atenção para o fato de que o delito também deve ser considerado de menor potencial ofensivo, segundo alteração introduzida no art. 394, CPP pela Lei Maria da Penha).
O § 2º do art. 394, CPP, prevê que se aplica o procedimento comum a qualquer processo em andamento, salvo disposição em sentido contrário do próprio CPP ou legislação especial.
Por seu turno, o §3º dispõe que a todos os procedimentos que tramitam perante o primeiro grau de jurisdição, inclusive os especiais e exceto o do júri, aplicam-se os arts. 395, 396 e 397, CPP, que tratam, respectivamente, da rejeição preliminar da denúncia, do seu recebimento, citação e resposta escrita, e da absolvição sumária.
1.2 FLUXOGRAMA DO PROCEDIMENTO ORDINÁRIO
1.3 O início do processo: oferecimento da denúncia ou queixa
O oferecimento da denúncia ou queixa deflagra o início do processo penal. 
A DENÚNCIA é a petição inicial que dá início à ação penal de iniciativa pública (condicionada ou incondicionada). Deve ser oferecida pelo Ministério Público no prazo de 5 dias (réu preso) ou 15 dias (réu solto), nos termos do art. 46, CPP.
A QUEIXA é a peça inicial da ação penal de iniciativa privada. Deve ser oferecida pelo ofendido ou seu representante legal, por meio de advogado, dentro do prazo de 6 meses a contar: a) da data em que o ofendido souber quem foi o autor do crime (art. 38, CPP); b) da data de esgotamento do prazo de oferecimento da denúncia, nos casos de ação penal de iniciativa privada subsidiária (art. 29, CPP).
A denúncia e a queixa devem observar os requisitos do art. 41, CPP. Além disso, por analogia, devem ser também observados os requisitos do art. 319, CPC. Esses requisitos são:
O Juízo ou Tribunal para o qual a peça é dirigida;
Introito, com a qualificação do órgão (MP) ou pessoa que está oferecendo a peça acusatória;
Qualificação do acusado, com atenção ao disposto no art. 259, CPP;
Exposição do fato criminoso de forma correta e clara;
Capitulação do crime;
Pedido para que o réu seja citado e regularmente processado;
Rol da prova oral permitida (até oito testemunhas para cada parte, com a ressalva da posição jurisprudencial que entende que podem ser até oito para cada fato);
Requerimento de diligências (como, por exemplo, esclarecimento de peritos);
Data e assinatura.
1.4 Recebimento da denúncia ou queixa
O recebimento da denúncia ocorre por ato do juiz que, nesse momento, deve se ocupar somente dos requisitos formais essenciais. Vigora nesse ato o princípio in dubio pro societate: no caso de dúvida sobre a autoria, a inicial deve ser recebida. 
Para a jurisprudência majoritária, o recebimento da denúncia é um mero despacho, que prescinde de fundamentação.
Já para a doutrina majoritária, o recebimento da denúncia é uma decisão interlocutória simples, e representa um juízo de admissibilidade da acusação. Essa posição parece mais acertada, até porque o art. 581, inciso I, CPP, prevê o cabimento de recurso em sentido estrito da decisão de não recebimento da denúncia.
Caso a denúncia seja recebida, considera-se iniciada a ação penal. A prescrição por consequência se interrompe passando a correr novo prazo prescricional a partir da decisão (art. 117,I, do CP).
QUESTÕES CONTROVERTIDAS:
Quantos recebimentos da denúncia existem no processo penal?
Três posições:
1ª \u2013 Existe apenas um recebimento da denúncia, o primeiro (Guilherme Nucci).
2ª \u2013 Existe apenas um recebimento da denúncia, mas o último, aquele que acontece depois da resposta à acusação (Gustavo Badaró).
3ª \u2013 Existem dois recebimentos da denúncia: o primeiro após a denúncia e o segundo depois da resposta à acusação. Dois recebimentos da denúncia em regime progressivo de admissibilidade (Antonio Scarance Fernandes).
É possível a mutatio libelli in limine (recebimento da denúncia por outra definição jurídica)?
Parte da doutrina defende que sim, ou seja, que o magistrado, já por ocasião do recebimento da inicial acusatória, pode dar ao fato descrito definição jurídica diversa da constante na queixa ou denúncia.
No entanto, como regra, isso não é possível, pois cabe ao MP, como titular da ação penal, a definição jurídica dos fatos, sendo proibido ao juiz, no ato do recebimento da denúncia, dar-lhes classificação diversa. Isso porque o enquadramento penal sugerido na denúncia é provisório, podendo ser alterado pelo órgão ministerial ao longo do processo, nos termos do art. 569, CPP e, pelo magistrado, no momento em que prolatar a sentença, mediante a aplicação dos arts. 383 e 384, CPP.
EXEMPLO: um acusado, passando-se por comprador de uma moto, ilude o vendedor, que lhe entrega o bem para experimentação. O acusado sai e não volta mais com a moto. Isso é furto mediante fraude ou estelionato??? A dúvida persiste na jurisprudência. Se for furto qualificado, o acusado deixará de ter direito a uma série de benefícios, mas se for estelionato, poderá, inclusive, ter direito à suspensão condicional do processo. Nesse caso, pode o juiz divergir do Promotor de Justiça no momento do recebimento da denúncia e não recebê-la por furto qualificado, mas sim pelo estelionato? Entende-se que não, ou seja, que o juiz deve receber a denúncia pela imputação feita pelo MP, que é o titular da ação penal. Eventual correção, se for o caso, deverá ser feita no momento da sentença, nos termos do art. 383, CPP.
1.5 Rejeição liminar da denúncia ou queixa
As hipóteses de rejeição liminar da denúncia ou queixa são previstas no art. 395, CPP:
quando a inicial acusatória for manifestamente inepta: a inépcia é caracterizada pela ausência de formalidades previstas no art. 41, CPP, além dos requisitos exigidos pelo art. 282, CPC. ATENÇÃO: a omissão de requisitos considerados não essenciais à peça pórtico não pode implicar sua rejeição, pois pode ser suprida a qualquer tempo antes da prolação da sentença final (art. 569, CPP);
quando faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação penal: I) pressupostos de existência (jurisdição, partes e demanda); II) pressupostos de validade (competência e imparcialidade do juiz, capacidade das partes e respeito ao formalismo processual); III) falta de condição para o exercício da ação penal (possibilidade jurídica do pedido, interesse de agir, legitimidade ad causam).
quando faltar justa causa para a ação penal: a justa causa é definida como a existência de um conjunto probatório mínimo, que indique a viabilidade da acusação, ou, em outras palavras, a existência de um fumus comissi deliciti, consubstanciado em prova da materialidade e indícios suficientes de que o acusado é seu autor ou partícipe.
1.6 Citação do acusado
O art. 396, CPP, prevê que se o juiz não rejeitar liminarmente a denúncia, recebê-la-á, designando dia e hora para a