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Aula 01 Objetivos Reconhecer e analisar os conceitos de Educação Física; Verificar as definições de atividade física e exercício físico, relacionando os termos entre si; Identificar o conceito e as dimensões do esporte (participação, educação e performance). conceito de Educação Física. apenas a partir do século XVII, esse termo foi utilizado pela primeira vez na Inglaterra, em 1693, pelo médico e filósofo John Locke, na sua obra “Ensaios sobre a educação”. Ele defendia a inclusão da educação física no processo educacional de meninos e meninas. Posteriormente, na França, em 1762, J. Ballexserd, médico suíço de tendência higienista. Segundo este autor, para vencer uma guerra, era preciso ter um corpo são, saudável (concepção médico-higienista). Até a publicação dessas obras, as atividades relacionadas aos movimentos corporais eram denominadas de “ginástica”, palavra utilizada desde a Grécia antiga. Já que estamos citando referências do Manifesto Mundial da Educação Física, podemos verificar o conceito contido na sua primeira versão, em 1970: “O elemento de Educação que utiliza, sistematicamente, as atividades físicas e a influência dos agentes naturais: ar, sol, água etc. como meios específicos”. Dessa definição, podemos perceber que os mais variados tipos de movimentos corporais fazem parte da Educação Física, quando se utiliza “atividades físicas” realizadas em ambientes diferentes. É, ainda, muito importante a associação direta com a Educação, pois o movimento é considerado um meio eficaz para a aprendizagem, para o convívio social e para o domínio afetivo (autoestima e autoconfiança, por exemplo). Na revisão do Manifesto Mundial, publicada em 2000, a Educação Física é considerada “um direito de todas as pessoas, e um processo de Educação, seja por vias formais ou não formais, e constitui-se num meio efetivo para a conquista de um estilo de vida ativo dos seres humanos”. Refletindo sobre essa definição, vemos que não é apenas na escola que a Educação Física contribui para a formação integral dos indivíduos, já que também está presente em vias não formais, como academias, clubes, projetos sociais, espaços de lazer, e outros locais onde o movimento nas suas diversas manifestações seja praticado. É fundamental que fiquemos atentos à possibilidade de se conquistar um estilo de vida ativo através da Educação Física: desde as aulas nas escolas, até as diversas atividades que podem ser praticadas por crianças e jovens. O incentivo à incorporação dos movimentos corporais deve ser feito sempre. Sabe-se que crianças mais ativas fisicamente têm menos riscos de apresentarem diversos problemas de saúde, como a obesidade (que vem crescendo muito no Brasil), e mais chances de serem adultos praticantes regulares de atividades físicas, o que é fundamental para prevenir doenças e garantir mais saúde e resistência para as atividades do dia a dia. Significados sugeridos pelo CONFEF - O Conselho Federal de Educação Física (CONFEF) estabelece alguns significados. A seguir, analisaremos três deles: “Conjunto de atividades físicas e desportivas” Podemos compreender que todos os movimentos corporais podem ser objeto de estudo e de aplicação da Educação Física junto à sociedade, incluindo modalidades de ginástica, esportes diversos, jogos e brincadeiras. “O corpo de conhecimentos, entendido como o conjunto de conceitos, teorias e procedimentos empregados para elucidar problemas teóricos e práticos, relacionados à esfera profissional e ao empreendimento científico, na área específica das atividades físicas, desportivas e similares” Esse conceito nos permite reconhecer que essa profissão já possui muitos conhecimentos específicos, geralmente obtidos através de pesquisas científicas, que possibilitam que apresentemos soluções para determinados “problemas” relacionados ao funcionamento do corpo, à situações emocionais e sociais. Por exemplo, sabemos, hoje, graças à Ciência, que os idosos se beneficiam muito com programas de exercícios de musculação, principalmente para a saúde dos seus ossos. Até 20 anos atrás, havia poucas evidências a esse respeito, não permitindo que afirmássemos e divulgássemos tal vantagem. Mais recentemente, os exercícios têm sido considerados muito importantes para o tratamento de transtornos mentais como a depressão e a ansiedade, pois ajudam na regulação e na liberação de substâncias químicas associadas ao bem-estar e ao prazer. Eles são, pois, vantajosos do ponto de vista emocional e social, já que muitas vezes pessoas com esses problemas tendem ao isolamento, evitando a convivência em sociedade. “Área de estudo e/ou disciplina no Ensino Superior” Essa definição se relaciona diretamente com a sua busca profissional. Aqui, a Educação Física se constitui em uma área de estudo no Ensino Superior, justamente o que você está fazendo agora. De maneira geral, encontraremos diversos conceitos em livros e na internet sobre a Educação Física, mas há um ponto comum que não podemos esquecer: os profissionais da área utilizam as atividades físicas nas suas diversas manifestações na sua intervenção profissional, e é muito importante que tal intervenção esteja pautada na responsabilidade e na qualidade, uma vez que lidamos diretamente com a integridade física e emocional dos indivíduos. Um fato importante a ser destacado no nosso estudo sobre a Educação Física é a sua inclusão na área da Saúde, juntamente com a Medicina, a Nutrição e a Fisioterapia, por exemplo. O Ministério da Saúde, após um grande debate no Conselho Nacional de Saúde, em 1997, baixou uma resolução determinando que nossa profissão pertencesse a essa área. Mais recentemente, em 2006, na promulgação da Política Nacional de Promoção da Saúde, houve a inclusão das práticas corporais e atividades físicas como temas prioritários, possibilitando que atuemos nos Núcleos de Apoio à Saúde da Família, projeto que intenciona monitorar, controlar e educar grupos e comunidades para uma vida mais saudável, graças à intervenção de uma equipe multidisciplinar. Práticas corporais - Expressão utilizada para designar os movimentos e seus significados. Entendem-se como práticas corporais gestos e expressões do corpo dentro do seu contexto cultural, político e social. Por exemplo, as danças regionais são analisadas, atualmente, na perspectiva das práticas corporais, buscando-se entender seu significado junto ao grupo social e à comunidade em que são praticadas. Atividade Física e Exercício Físico Para iniciarmos nosso estudo sobre esse termo, citamos Weineck (2003, p. 22): “Atividade física não é tudo, mas tudo não é nada sem atividade física”. Atividade física é uma expressão que se refere aos movimentos corporais voluntários que geram gasto calórico maior do que o de repouso e, portanto, inclui uma enorme variedade de gestos motores. Como exemplos muito diferentes de atividade física, podemos pensar em uma atividade de cuidados com o lar, como varrer a casa, até a repetição de um movimento esportivo específico, como o treinamento para melhoria do saque no tênis. Barbanti (s/d) cita um conceito do President’s Council on Physical Fitness and Sport, de 2000, que associa também a expressão ao gasto calórico: “Movimento corporal produzido pela contração dos músculos esqueléticos que substancialmente aumenta o nível energético sobre o básico”. Esse conceito indica que movimentos do dia a dia, feitos no tempo livre, no trabalho, em casa, uma vez que aumentam o gasto calórico se compararmos com um indivíduo parado, incluem-se nas atividades físicas. Porém, há conceitos e definições que apresentam “atividade física” não somente em função do maior gasto de energia para sua realização, mas, especialmente, relacionam-na ao que motivou a execução de determinado gesto; ou seja, sua intenção. Assim, Newell (1990ª, apud BARBANTI s/d) considera atividade física como “movimento intencional, voluntário e direcionado para a obtenção de um objetivo identificável”. Para esse autor, qualquer movimento reflexo ou feito sem um objetivo (como piscar os olhos)não deve ser considerado atividade física. O movimento sempre existirá na atividade física, mas, isoladamente, não bastará para que determinado gesto seja assim classificado, de acordo com Newell. Quando lemos os conceitos desse termo, vemos que a maioria dos autores o considera em relação ao gasto calórico. Guiselini (2004, p. 15) diz que “de forma geral, a atividade física envolve qualquer movimento corporal causado por uma contração muscular que resulta num gasto de energia”. Aí estão incluídas atividades no trabalho (laborais ou ocupacionais), da vida diária (como tomar banho e cuidar da casa – atividades domésticas), realizadas no tempo livre, como a prática de um esporte ou um exercício na academia, e também os movimentos de deslocamento (subir escadas, caminhar até o ponto de ônibus). Sedentarismo - É importante saber que, para classificarmos uma pessoa como sedentária, devemos considerar o gasto calórico dela com atividades físicas durante uma semana (que refletiria seu padrão habitual de movimento e estilo de vida). Há alguns instrumentos de pesquisa, especialmente questionários, que buscam estimar o dispêndio energético semanal para, assim, poderem definir se uma pessoa é ou não sedentária. A importância disso, como veremos ao longo do curso de Educação Física, é que o sedentarismo é considerado o quarto maior fator que predispõe um indivíduo à mortalidade no mundo. Exercício físico... faz parte de atividade física ou é um termo com outra aplicação? Segundo Nahas (2003, p. 259), exercício físico “representa uma das formas de atividade física, planejada, sistemática e repetitiva, que tem por objetivo a manutenção, desenvolvimento ou recuperação de um ou mais componentes da aptidão física”. Então, vemos que o exercício é uma forma de atividade física; porém, além do gasto calórico aumentado, seus movimentos são dotados de significado, têm um propósito pré-estabelecido e trarão algum tipo de resultado. EXERCÍCIO FÍSICO - Ao programar caminhadas estabelecendo uma frequência semanal (número de vezes), duração e intensidade para melhorar sua resistência, dizemos que essa caminhada é um exercício físico. ATIVIDADE FÍSICA - Quando uma pessoa caminha até a padaria para comprar pão, está fazendo uma atividade física. Se dissermos que todo exercício físico é uma atividade física, mas que nem toda atividade física é um exercício físico, estaremos certos. Esporte Você sabe o que significa esse termo? Segundo Tubino (1999), foi no século XV, na Inglaterra, que essa palavra começou a se popularizar, quando marinheiros, ao falarem sobre as atividades físicas que praticavam para passar o tempo, usavam as expressões “fazer esporte”, “desportar-se” ou “sair do porto”. No Brasil, utilizou-se primeiramente a palavra “desporto”, já que Portugal também a utilizava. Em 1941, João Lyra Filho, ao escrever a primeira lei (decreto-lei 3199) sobre esporte/desporto do país, preferiu utilizar “desporto”. Na Constituição de 1998, essa também é a palavra utilizada. Porém, “esporte” é considerado um termo mais universal, pois muitos países usam a palavra “Sport”. Assim, em nosso estudo, também vamos usar esse último termo. O esporte está vinculado ao jogo e à competição, e é praticado desde a Antiguidade (Jogos Gregos). Dessa época, os Jogos Olímpicos são considerados os mais importantes, e envolviam uma preparação específica e uma atenção muito especial sobre os competidores. Conheceremos mais sobre os Jogos e a visão grega quando estudarmos, mais à frente, a história da Educação Física. Esporte moderno - O esporte moderno “nasceu” na Inglaterra, no século XIX. Quando era diretor do Colégio Rugby, um senhor chamado Thomas Arnold viu no esporte três características: é jogo, é competição e é formação (aspecto educativo). Ele permitia que os alunos praticassem jogos definindo suas regras, buscando sempre o fair play. Com o tempo, tais jogos, com suas regulamentações específicas, começaram a ser praticados por todo o país. Como consequência, foram criadas federações e clubes para coordenar e organizar os jogos. No final do século XIX, Pierre de Coubertin iniciou um movimento para resgatar os Jogos Olímpicos, acreditando que o esporte seria fundamental para a paz entre os povos, para a integração e o respeito. Após os esforços iniciados em 1892, foram realizados os I Jogos Olímpicos da era moderna, em Atenas, 1896. Os esportes mais praticados até o final do século XIX eram o atletismo, o remo, o futebol e, de maneira mais discreta, a natação. Com o tempo, os ideais que impulsionaram a retomada dos Jogos Olímpicos, incluindo o caráter amador e o fair play, foram perdendo força e o esporte começou a ser usado com objetivos político-ideológicos (a partir da década de 30, mais precisamente dos Jogos Olímpicos de Berlim, 1936). Até a década de 70, diversos acontecimentos marcaram um enfraquecimento do Comitê Olímpico Internacional. O esporte esteve vinculado à detecção de talentos e, portanto, excluía aqueles que não demonstravam muitas habilidades atléticas nem possuíam biotipos favoráveis. Porém, em 1978, com a “Carta Internacional de Educação Física e Esporte”, a UNESCO estabeleceu que o esporte é um direito de todos, independentemente de suas condições físicas, talentos e idades. A partir desse documento, temos o que se denomina como “Esporte Contemporâneo” (TUBINO, 2006). O esporte é conceituado pelo CONFEF (2002) como: “atividade competitiva, institucionalizado, realizado conforme técnicas, habilidades e objetivos definidos pelas modalidades desportivas, determinado por regras preestabelecidas que lhe dão forma, significado e identidade, podendo também ser praticado com liberdade e finalidade lúdica estabelecida por seus praticantes, realizado em ambiente diferenciado, inclusive na natureza (jogos: da natureza, radicais, orientação, aventura e outros)”. Podemos observar que o esporte implica obrigatoriamente a presença de regras próprias que irão caracterizá-lo e diferenciarão as práticas esportivas umas das outras. O futebol de salão, por exemplo, tem como semelhança com o futebol de campo o objetivo principal: marcar gols, mas são muito diferentes quanto a sua organização e ao espaço físico. O mesmo vale para o voleibol de quadra e de areia, e assim podemos pensar em muitos outros esportes. Não podemos deixar de considerar como fundamental na prática esportiva a existência de federações, confederações e associações específicas para a sua organização, o que resulta em um dos pilares do esporte: o associacionismo. Weineck (2003, p.22) diz que não se pode separar atividade física e esporte, “pois o esporte é uma atividade física caracterizada por uma modalidade esportiva específica e, assim, por uma variedade infinita de formas”. Ainda de acordo com esse autor, enquanto a atividade física seria uma forma básica de movimentar-se, o esporte seria uma forma mais especial. O esporte pode ser praticado com diversos fins, desde a promoção da saúde, a integração entre pessoas, o alto rendimento, o auxílio na educação/formação do indivíduo, o relaxamento mental etc. Uma classificação muito interessante para a nossa discussão foi proposta pela Comissão de Reformulação do Esporte Brasileiro de 1985, presidida pelo professor Manoel Tubino: de acordo com a sua abrangência, há o esporte-educação, o esporte-lazer (participação) e o esporte de alto rendimento (performance). O esporte-educação é subdividido em esporte educacional e esporte escolar. Vamos, agora, verificar as características dessas concepções do esporte. O esporte-educação visa especialmente à formação para a cidadania e se apresenta de duas maneiras: o esporte educacional, praticado nas escolas e em comunidades, visando à participação, cooperação, inclusão, corresponsabilidade e coeducação; e o esporte escolar, que está relacionado às competições entre escolas sem abrir mão do aspecto formativo, da educação para a cidadania e do espírito esportivo que promova qualidades morais importantes. Um exemplo de esporte educacional seria a aplicaçãode uma determinada modalidade nas aulas de Educação Física, e, do esporte escolar, uma competição como os Jogos Escolares (regionais e nacionais). Também conhecido como Esporte-Comunitário, Esporte-Participação, Esporte-Ócio ou Esporte do Tempo Livre, o Esporte-Lazer é aquele praticado pelas pessoas após o trabalho ou o estudo, e está ligado à promoção da saúde, por facilitar a adoção de um estilo de vida saudável, como também à obediência a regras, que podem ser combinadas entre os participantes de uma determinada atividade. As atividades devem ser prazerosas, inclusivas e que possibilitem a participação de pessoas com diferentes condições. Para ilustrar o esporte-lazer, pense nas “peladas” praticadas por grupos de amigos no seu tempo livre. O Esporte-Performance (ou Esporte de Desempenho, Esporte de Competição e Esporte Institucionalizado) visa vitórias, títulos, recordes, destaque e prêmios. É praticado obedecendo-se regras específicas estabelecidas por instituições de âmbito internacional. Princípios éticos devem ser, idealmente, referências nos treinos e competições, e a superação e o desenvolvimento esportivo são seus rudimentos. O que devemos ter em mente é que o esporte é muito importante para a educação de crianças e jovens, e, em todas as idades, pode auxiliar na manutenção de uma boa saúde e na prevenção de doenças associadas ao sedentarismo e/ou à prática insuficiente de atividade física. O esporte tem nas competições de alto nível sua representação que beira à perfeição e que encanta a todos, jamais perdendo seu valor enquanto manifestação das possibilidades de evolução e aprimoramento do ser humano; porém, é direcionado a um número menor de indivíduos e não pode ser praticado num nível de excelência por toda a vida. Aula 2 - Apresentação da profissão – Regulamentação da profissão Você sabia que, até 1998, a Educação Física não era uma profissão regulamentada, ou seja, que não possuía leis e normas a ela diretamente relacionadas? Isso possibilitava, por exemplo, que um indivíduo que não tivesse feito um curso de graduação em Educação Física pudesse dar aulas em academias, clubes, praias e até mesmo colégios. A partir da regulamentação de uma profissão, documentos específicos, legislações e órgãos norteadores e fiscalizadores são criados para uma melhor organização dos profissionais daquela área. Possibilitando, assim, mais qualidade nos serviços prestados e a busca por melhores condições de trabalho e pela valorização dos que nela atuam. A história da regulamentação da Educação Física, que tem como um dos marcos a criação do sistema CONFEF-CREFs (Conselho Federal de Educação Física – Conselhos Regionais de Educação Física), e, a partir desse momento, a reflexão, discussão e elaboração de importantes documentos norteadores dos profissionais, será o assunto da nossa aula. Esse é um tema muito importante e que marcou a Educação Física no Brasil! Os primeiros esforços para que a Educação Física fosse uma profissão regulamentada são da década de 40. Projetos foram discutidos, elaborados e aperfeiçoados na primeira metade dos anos 80. Um fato interessante aconteceu na Assembleia Geral da FBAPEF (Belo Horizonte, 1984): o professor Inezil Penha Marinho sugeriu que fosse designado outro nome para os titulados na nossa área, já que o professor de Educação Física pertencia à profissão “professor”, não podendo haver Conselhos específicos. Alguns termos foram sugeridos, como “Cineantropólogo” e “Kinesiólogo”, mas a categoria não os aprovou. Nessa Assembleia, foi proposto que a categoria fosse denominada como “Profissional de Educação Física”, o que foi aprovado e, a partir daí, usado na defesa da regulamentação. Nesse mesmo ano, o projeto 4559/84, que solicitava a criação dos Conselhos, foi apresentado à Câmara dos Deputados, e é considerado o primeiro relacionado com a regulamentação. Aprovado pela Câmara em 1989, foi vetado pelo então presidente da República. Nos anos 90, no Rio de Janeiro, cresceu, entre profissionais da área, a preocupação quanto à atuação de pessoas sem formação superior; e o debate sobre a regulamentação ganhou força, tendo a APEF-RJ iniciado uma nova mobilização da categoria. Em 1995, no Congresso da FIEP (Federação Internacional de Educação Física, em português), foi lançado o “Movimento pela regulamentação do profissional de Educação Física”, abraçado por muitos profissionais influentes, por instituições de ensino superior e discutido amplamente para que fosse elaborado um projeto de lei. Após algumas alterações no texto inicial, o projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados em 30/06/1998, no Senado em 13/08/1998, e, finalmente, foi sancionado pelo então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em 01/09/1998, sendo publicado no Diário Oficial da União (D.O.U.) no dia seguinte. Criação do sistema CONFEF - O sistema CONFEF-CREF’s, conforme exposto no artigo 4º da lei, teve a permissão para ser criado, e, no dia 08/11/1998, representantes das APEF’s e de instituições de ensino superior elegeram os primeiros 18 membros do CONFEF. Em janeiro de 1999, no 14º Congresso da FIEP, em Foz do Iguaçu, tomaram posse oficialmente os primeiros conselheiros do Conselho Federal. Os Conselhos Regionais começaram a ser criados e, atualmente, são 18, e seus membros têm mandato de três anos, sendo eleitos por todos os profissionais inscritos em cada conselho regional, de maneira democrática e transparente. Os Conselhos Regionais foram implantados após a inscrição de pelo menos 2.000 profissionais graduados em cada estado da federação. De acordo com o Estatuto do CONFEF, no seu artigo 2º, “O CONFEF e os CREFs são órgãos de normatização, disciplina, defesa e fiscalização dos Profissionais de Educação Física, em prol da sociedade, atuando como órgãos consultivos do Governo”. Código de Ética do Profissional de Educação Física - Esse documento, extremamente importante para a profissão, foi publicado no ano de 2000, tendo sido organizado pela Comissão de Ética do CONFEF. Num primeiro momento, essa comissão organizou, no Rio de Janeiro, em 1999, o I Simpósio de Ética da Atividade Física, no qual, juntamente com outros profissionais, foi produzida uma primeira minuta sobre o tema, posteriormente disponibilizada no site do CONFEF para apreciação e sugestões. Consideradas algumas importantes colaborações ao texto inicial, o primeiro Código de Ética foi publicado em fevereiro de 2000, oficializado pela Resolução CONFEF 025/2000. De dois em dois anos, acontece o “Seminário de Ética” promovido pelo CONFEF, visando à discussão sobre a ética no exercício profissional, fato que culmina na atualização constante do nosso Código. Um fato interessante ocorrido em um dos Seminários (2005) foi a produção do Guia de Princípios de Conduta Ética do Estudante de Educação Física, visando orientar e conscientizar estudantes dos cursos de graduação para a importância de uma conduta correta, sem discriminações de qualquer natureza e associada ao compromisso de promoção do bem-estar das pessoas. A Carta Brasileira de Educação Física foi publicada em 2000, e acompanhou um movimento ocorrido ao longo do século XX de publicação de documentos para reflexões das áreas neles tratadas. Esse documento apresenta itens importantes para a reflexão dos profissionais e da sociedade, e para que você o conheça, vamos destacar alguns deles. Aula 3 - Apresentação da profissão – Intervenção profissional Em 2002, mais um documento muito importante foi publicado pelo Conselho Federal de Educação Física: “Intervenção do profissional de Educação Física”. Ele estabelece onde podemos atuar, além de descrever pontos importantes relacionados à nossa capacitação para um trabalho de qualidade. Curiosamente, esse documento foi publicado no mesmo ano de uma importante resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC), que estabelece para diversos cursos de nível superior, como a Educação Física, a obrigatoriedade de uma formação voltada à Licenciatura (área formal) ouao Bacharelado (área não formal). A partir de então, o ingressante no curso de Educação Física deve escolher uma habilitação, o que terá efeito direto na sua intervenção profissional. Em 2001, uma importante publicação do Conselho Nacional de Educação (CNE) trouxe mudanças para os currículos dos cursos de Educação Física (nível superior): Parecer CNE/CP nº 09 de 8 de maio de 2001, Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena, que estabeleceu caminhos e procedimentos para a elaboração de cursos específicos de Licenciatura; ou seja, voltados à preparação do professor para atuar nas escolas, na Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio). Um pouco depois, em 2002, a carga horária e a duração desses cursos foram publicadas na Resolução CNE/CP nº. 02/2002. Até então, quando um estudante procurava o curso de Educação Física, havia, na sua estrutura curricular, disciplinas que tinham relação direta com a área escolar, como “Esporte Educacional” e outras que preparavam para atuar na área não escolar, como “Metodologia da Musculação”, por exemplo. Os currículos eram bastante extensos, pois havia a necessidade de identificar vários conhecimentos para a futura intervenção profissional. Uma vez formado, o indivíduo era habilitado para “atuação plena”, o que era registrado na sua Cédula de Identidade Profissional emitida pelo sistema CONFEF-CREFs. Quanto ao bacharelado, orientações para a sua implantação foram dadas inicialmente pela Resolução CNE/CES nº 07 de 31 de março de 2004. Logo após, foi estipulado um prazo de dois anos para que as Instituições de Ensino Superior (IES) pensassem e mudassem seus currículos para a formação em Licenciatura (área escolar) ou em Bacharelado (área não escolar), adequando-se às determinações oriundas das resoluções. O último ano permitido para o oferecimento de cursos que resultavam na dupla habilitação foi 2006. Há pouco tempo, uma nova resolução do CNE/CES (nº. 04/2009) instituiu mudanças na carga horária dos cursos de Bacharelado, que devem ter no mínimo 3.200 horas em quatro anos de duração. Até que essas resoluções fossem publicadas, muitos cursos de Educação Física por todo o Brasil estavam apoiados no Parecer nº 215 de 11 de março de 1987, bem como nas diretrizes legais constantes na Resolução nº 03 de 16 de junho de 1987, do antigo Conselho Federal de Educação (CFE), atual Conselho Nacional de Educação (CNE). Os currículos objetivavam uma formação generalista, que era conhecida como “licenciatura ampliada”, pois, além da intervenção profissional na licenciatura plena, em todos os segmentos de ensino, também almejavam preparar para o bacharelado. Nova resolução para os cursos de Licenciatura - Recentemente, uma nova resolução foi divulgada para os cursos de Licenciatura: n° 02 de 1º de julho de 2015, alterando sua carga horária e a duração mínima (3.200 horas em no mínimo quatro anos, como no Bacharelado). É importante que você saiba que as Resoluções do Conselho Nacional de Educação, além de estabelecerem a carga horária mínima de um curso e os anos de duração, também incluem recomendações quanto às competências que devem ser desenvolvidas, aos conteúdos específicos e gerais que devem ser trabalhados. Resultam, portanto, na necessidade de discussão dos currículos e na organização dos estágios, das atividades acadêmicas complementares, das formas de avaliação; enfim, de todo o processo de formação profissional, nas instituições de ensino superior, por parte dos professores e gestores envolvidos. Agora, quando você ingressa em um curso superior de Educação Física, precisa escolher a habilitação inicial. Após concluí-la, pode voltar aos estudos para obter a “atuação plena”. É importante que você conheça as possibilidades de intervenção da Licenciatura e do Bacharelado. Essencialmente, quando você opta pela Licenciatura, seu futuro será a Regência/Docência em Educação Física, seja nas escolas ou nas Universidades/Faculdades, tanto em instituições privadas quanto em públicas. Além de estar à frente de diferentes turmas, você também poderá coordenar o setor de Educação Física ou até mesmo a instituição de ensino. Atuar diretamente nas escolas traz a possibilidade de conhecer diferentes valores familiares, personalidades, temperamentos e necessidades, tornando essa profissão muito desafiadora e recompensadora, já que os professores da escola e da faculdade/universidade são referências de conduta e relacionamento para seus alunos.Já o Bacharelado apresenta muitos rumos para a atuação profissional, alguns deles emergentes e que não existiam até 10, 15 anos atrás. Por que isso aconteceu? Uma das situações que nos ajudam a entender a expansão do mercado de trabalho não formal é justamente o reconhecimento da importância da prática de atividades físicas para a promoção da saúde e do bem-estar de pessoas e/ou grupos. Com certeza, a imensa quantidade de estudos científicos que comprovaram a relação direta entre maior aptidão física e menores taxas de morbidade e de mortalidade ajudou a impulsionar a procura por atividades físicas diversas, e em diferentes ambientes. Muito além da prescrição de exercícios em academias, os profissionais de Educação Física estão presentes dentro das empresas, na promoção da saúde do trabalhador, orientando e organizando atividades físicas variadas, como a ginástica laboral. A expansão de esportes na natureza, com e sem caráter competitivo, como a realização de trilhas e a participação em corridas de aventura, é outra possibilidade que apresenta expansão, assim como a condução de exercícios em espaços de turismo, como hotéis e navios. O profissional de Educação Física também pode estar presente nas equipes multiprofissionais que compõem o Programa de Saúde da Família, orientando quanto aos hábitos saudáveis de movimentação corporal que ajudam a prevenir e controlar diversas doenças da sociedade moderna, como a hipertensão e o diabetes. Reabilitação cardíaca, assessorias de corrida, exercícios para a população nas praças, parques e praias, treinamento de alto rendimento são também oportunidades de intervenção do Bacharelado. Documento de Intervenção do Profissional de Educação Física - Desde a criação do CONFEF, muitas conversas, reuniões, discussões e reflexões acerca da intervenção profissional na Educação Física aconteceram pelo país afora. Era considerada fundamental a definição não só dos espaços de intervenção, mas também de estratégias, competências e procedimentos compatíveis com a realidade nacional. Por muitos anos, o profissional de Educação Física atuou principalmente na área formal, fosse ministrando aulas da disciplina integrante do currículo escolar, fosse conduzindo equipes de competição em jogos escolares e torneios intercolegiais. O treinamento de alto rendimento também era uma área onde muitos profissionais se inseriam. Dos anos 90 para cá, novas atividades físicas surgiram, paradigmas foram quebrados e outras interessantes possibilidades de atuação profissional emergiram, o que foi muito benéfico a todos, pois o mercado de trabalho expandiu-se. No documento, encontramos seis capítulos: I. Profissional de Educação Física (cujo texto é idêntico ao artigo 1º da Resolução que você conheceu agora e estabelece a especialidade do profissional de Educação Física); II. Educação Física (onde são apresentados 5 diferentes significados para ela); III. Responsabilidade Social no Exercício Profissional (nele são citados os locais diversos para intervenção, os meios utilizados pelo profissional para atingir seus objetivos e princípios relacionados à intervenção, como a obrigatoriedade de registro junto ao sistema CONFEF-CREFs e a observação da Legislação e do Código de Ética); IV. Capacitação Profissional (nesse capítulo, estão descritas as competências que os indivíduos deverão ter para atuar de maneira adequada no mercado de trabalho); V. Especificidades da Intervenção Profissional (descrição das seteáreas de intervenção definidas no documento); VI. Conceituação de Termos (nessa seção, “atividade física”, “exercício físico”, e “desporto/esporte” são conceituados). Especificidades da intervenção profissional 1 - REGÊNCIA/DOCÊNCIA EM EDUCAÇÃO FÍSICA Intervenção: Identificar, planejar, programar, organizar, dirigir, coordenar, supervisionar, desenvolver, avaliar e lecionar os conteúdos do componente curricular/disciplina Educação Física, na Educação Infantil, nos Ensinos Fundamental, Médio e Superior e nas atividades de natureza técnico-pedagógicas (Ensino, Pesquisa e Extensão), no campo das disciplinas de formação técnico-profissional no Ensino Superior, objetivando a formação profissional. Essa área é específica do profissional com habilitação em Licenciatura, conforme conversamos no início desta aula. Como você pode ver, está descrito no documento que a função do professor não se restringe às quadras e demais espaços para a prática de atividades físicas, mas que ele também pode atuar em cargos de supervisão e coordenação. 2 - TREINAMENTO DESPORTIVO Intervenção: Identificar, diagnosticar, planejar, organizar, dirigir, supervisionar, executar, programar, ministrar, prescrever, desenvolver, coordenar, orientar, avaliar e aplicar métodos e técnicas de aprendizagem, aperfeiçoamento, orientação e treinamento técnico e tático, de modalidades desportivas, na área formal e não formal. Se você já praticou esportes em nível competitivo, talvez tenha sido esse o motivo pelo qual escolheu cursar Educação Física: trabalhar no meio esportivo. O treinador, ou técnico, é o indivíduo responsável pela orientação e pelo aperfeiçoamento de aspectos técnicos e táticos nos mais diversos esportes. Um técnico muito conhecido por todos os brasileiros e que tem a cédula de identidade profissional na cor verde (sendo, portanto, graduado em Educação Física) é o Bernardinho, que ajudou o Brasil a conquistar muitos e expressivos títulos de voleibol. 3 - PREPARAÇÃO FÍSICA Intervenção: Diagnosticar, planejar, organizar, supervisionar, coordenar, executar, dirigir, programar, ministrar, desenvolver, prescrever, orientar e aplicar métodos e técnicas de avaliação, prescrição e orientação de atividades físicas, objetivando promover, otimizar, reabilitar, maximizar e aprimorar o funcionamento fisiológico orgânico, o condicionamento e o desempenho físico dos praticantes das diversas modalidades esportivas, acrobáticas e artísticas. Na preparação física, o profissional objetiva maximizar o condicionamento específico para o alto desempenho em alguma modalidade competitiva. Nessa área, é fundamental conhecer as demandas da modalidade em que se atua, como os sistemas de energia predominantes e as qualidades físicas (que você conhecerá nas aulas 9 e 10) que devem ser aprimoradas para melhorar o rendimento e a execução dos gestos motores. Muitas vezes, especialmente no esporte amador, vemos que o preparador físico também é o treinador desportivo; ou seja, acumula duas funções, o que geralmente está relacionado com as condições socioeconômicas do clube/agremiação que ele representa. 4 - AVALIAÇÃO FÍSICA Intervenção: Diagnosticar, planejar, organizar, supervisionar, coordenar, executar, dirigir, programar, ministrar, desenvolver, prescrever, orientar, identificar necessidades, desenvolver coleta de dados, entrevistar, aplicar métodos e técnicas de medidas e avaliação cineantropométrica, biomecânica, motora, funcional, psicofisiológica e de composição corporal, em laboratórios ou no campo prático de intervenção, com o objetivo de avaliar o condicionamento físico, os componentes funcionais e morfológicos e a execução técnica de movimentos, objetivando orientar, prevenir e reabilitar o condicionamento, o rendimento físico, técnico e artístico dos beneficiários. Se alguém da sua família que está sem fazer exercícios regulares há algum tempo resolve mudar essa condição, e procura uma academia, por exemplo, para iniciar um programa supervisionado, é fundamental que essa pessoa faça uma avaliação física, que incluirá medidas da composição corporal e testes de aptidão física, além de questionários e medidas de repouso, em alguns locais. É importante que o profissional que irá montar o programa de exercícios tenha informações básicas sobre o estado atual de condicionamento, história pessoal e familiar de doenças, uso de medicamentos, composição corporal (especialmente o percentual de gordura), entre outros dados para que possa fazer um planejamento que atenda às características, necessidades, objetivos e preferências do indivíduo. Dessa maneira, é mais provável que essa pessoa goste do programa e permaneça realizando-o. 5- RECREAÇÃO EM ATIVIDADE FÍSICA Intervenção: Diagnosticar, identificar, planejar, organizar, supervisionar, coordenar, executar, dirigir, assessorar, dinamizar, programar, ministrar, desenvolver, prescrever, orientar, avaliar e aplicar atividades físicas de caráter lúdico e recreativo, objetivando promover, otimizar e restabelecer as perspectivas de lazer ativo e bem-estar psicossocial e as relações socioculturais da população. Ao elaborar, coordenar e aplicar atividades físicas diversas durante o tempo livre, muitas vezes preservando a identidade cultural de uma região (como nas rodas de capoeira ou em danças folclóricas), o profissional de Educação Física atua com a recreação, área que está associada à ludicidade e que pode servir como uma porta de entrada para um estilo de vida mais saudável. 6 - ORIENTAÇÃO DE ATIVIDADES FÍSICAS Intervenção: Diagnosticar, planejar, organizar, supervisionar, coordenar, executar, dirigir, assessorar, dinamizar, programar, desenvolver, prescrever, orientar, avaliar, aplicar métodos e técnicas motoras diversas, aperfeiçoar, orientar e ministrar os exercícios físicos, objetivando promover, otimizar, reabilitar e aprimorar o funcionamento fisiológico orgânico, o condicionamento e o desempenho fisiocorporal; orientar para o bem-estar e o estilo de vida ativo, o lazer, a sociabilização, a educação, a expressão e a estética do movimento, a prevenção de doenças, a compensação de distúrbios funcionais, o restabelecimento de capacidades fisiocorporais, a autoestima, a cidadania, a manutenção das boas condições de vida e da saúde da sociedade. O profissional que atua com orientação em atividades físicas está presente em diversos espaços como academias, clubes, praças, praias e estúdios. Talvez você tenha escolhido cursar Educação Física porque é frequentador assíduo de uma academia e sabe de todos os benefícios que os exercícios regulares proporcionam, além de gostar do ambiente e das modalidades oferecidas (musculação, ginástica localizada, jump, bike indoor, alongamento etc.). Pois bem, os profissionais que atuam nas academias ministrando aulas coletivas e prescrevendo programas de musculação para a população fazem parte dessa área de atuação. Outro exemplo: o professor que trabalha elaborando planilhas de corrida em assessorias específicas e aquele que ministra sessões de ginástica laboral em uma empresa. 7 - GESTÃO EM EDUCAÇÃO FÍSICA E DESPORTO Intervenção: Diagnosticar, identificar, planejar, organizar, supervisionar, coordenar, executar, dirigir, assessorar, dinamizar, programar, ministrar, desenvolver, prescrever, prestar consultoria, orientar, avaliar e aplicar métodos e técnicas de avaliação na organização, administração e/ou gerenciamento de instituições, entidades, órgãos e pessoas jurídicas cujas atividades fins sejam atividades físicas e/ou desportivas. Na gestão em Educação Fís ica e Desporto, há os coordenadores e supervisores, como os responsáveis técnicos por alguma modalidade ou setor. Em grandes academias, por exemplo, muitas vezes, há o coordenador de musculação, o de atividades coletivas, de atividades aquáticas etc. Nos clubes, podemos encontrar coordenadores e supervisores das escolinhas esportivas, das categorias de base, e também de equipes profissionais. Além da coordenação e da supervisão, o profissional de Educação Física também pode administrar seu próprionegócio. Há muitos profissionais que investiram para prestar serviços de atividades físicas por conta própria e que se tornam empregadores, contratando outros professores para atendimento da sua clientela. Ter seu próprio negócio requer mais do que conhecimentos técnicos, pois é importante conhecer as bases da legislação tributária (impostos) e trabalhista, além de noções de administração e marketing. Vamos escolher como exemplo "Preparação Física". Imagine que você é responsável por preparar fisicamente atletas de uma determinada modalidade. É fundamental dominar os conhecimentos de fisiologia do exercício e de biomecânica, compreendendo como o corpo reage aos esforços do esporte em questão e quais são as exigências a ele impostas. Além disso, os aspectos técnicos e táticos específicos influenciarão no tipo de treinamento físico, pois, se pensarmos em um goleiro de futebol, por exemplo, entenderemos que as demandas físicas a ele impostas são diferentes das de um atacante ou jogador de meio-campo. O preparador físico deve ater-se à sua área, evitando intromissões nos aspectos técnicos e táticos, salvo se consultado. Além disso, terá acesso a dados sobre a condição de cada atleta, não devendo divulgá-los sem a permissão deles. Aula 4 - Apresentação da profissão – Manifesto Mundial da Educação Física Desde 1923, temos um organismo que se preocupa com as questões relacionadas à Educação Física em âmbito mundial: a FIEP (Fédération Internationale d’Education Physique, originalmente). Além da organização de Congressos e da produção de documentos, a FIEP demonstra preocupação quanto aos rumos da profissão e atua no desenvolvimento científico, tecnológico, pedagógico e social da profissão. Em 1970, um importante documento foi redigido por esse órgão, o Manifesto Mundial da Educação Física, que teve seu conteúdo revisado e atualizado no ano de 2000, pelo professor Manoel José Gomes Tubino, e que sintetiza muitas discussões e posicionamentos a respeito da Educação Física, bem como a relaciona com importantes questões contemporâneas, como a preservação do meio ambiente, por exemplo. Fédération Internationale d’Education Physique – Federação Internacional de Educação Física (FIEP) Fundada em Bruxelas, na Bélgica, no dia 02/07/1923, a FIEP tem sua sede atual na cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná, e é presidida pelo professor Almir Adolfo Gruhn. A FIEP é um organismo mundial, que tem “delegados” (professores de e.f.) como representantes em diversos países, bem como diretorias e presidências regionais. Em cada país, há um delegado geral, e em cada estado, um delegado regional e delegados adjuntos, que desenvolvem ações educativas, sociais, pedagógicas e científicas, almejando a difusão da Educação Física e dos Esportes. Esse organismo sempre se preocupou com os rumos da profissão, realizando congressos (mais de 100) e publicando pesquisas no seu periódico “Bulletin FIEP (Boletim FIEP)”, que, desde 1931 se dedica à divulgação científica em quatro idiomas: português, espanhol, francês e inglês. O Congresso Internacional de Educação Física da FIEP é realizado desde 1986 em Foz do Iguaçu, e acontece anualmente, no mês de janeiro, sendo o maior evento promovido por esse organismo. Inclusive, foi no congresso realizado em 1999 que tomaram posse os primeiros membros do CONFEF. A FIEP é reconhecida por importantes organizações, como a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e o COI (Comitê Olímpico Internacional). Os delegados nacionais (um em cada país) representam a FIEP e promovem ações relacionadas com as “Seções Internacionais”, subdividas nos seguintes temas: 1. Seção Científica Internacional: foco na divulgação de pesquisas através de congressos e da seleção de estudos que serão publicados no Boletim FIEP. Esta seção busca a articulação entre teoria e prática; 2. Seção Escolar: relacionada à ação educativa da Educação Física nas escolas; 3. Seção Esporte para Todos: procura ajudar na implantação e na divulgação da prática de atividades físicas para todos no tempo livre (lembra-se do “Esporte-participação”?); 4. Seção de Educação Olímpica: visa divulgar os valores educativos do movimento olímpico; 5. Seção de Educação Física Adaptada: tem seu olhar direcionado ao potencial inclusivo da Educação Física para indivíduos com necessidades especiais; 6. Seção História da Educação Física e do Esporte: está voltada para a preservação da memória da FIEP e da história da educação física e do esporte; 7. Seção de Recreação e Lazer: em fase de implantação, seu foco recairá sobre a recreação e o lazer. Conheça o “Agita São Paulo”, uma ação muito importante na promoção da atividade física no Brasil, e é mais um programa divulgado pela FIEP. O “Agita São Paulo” surgiu a partir de uma iniciativa do Celafiscs (Centro de estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul), que objetiva promover a atividade física entre a população, estimulando a adoção de um estilo de vida ativo e o combate ao sedentarismo. O “Agita” foi lançado oficialmente em dezembro de 1996 e implantado em fevereiro de 1997, com o apoio de diversas instituições nacionais e internacionais. Manifesto Mundial da Educação Física - A FIEP apoia o sistema CONFEF-CREF’s e divulga, no seu site e nas suas ações, os documentos por ele emitidos, bem como de outras instituições. Entre as suas publicações, o Manifesto Mundial da Educação Física é considerado o mais importante, pois resume muitos debates, reflexões e posicionamentos sobre a Educação Física ao longo do último século. O Manifesto foi publicado primeiramente em 1970, mas, como a partir daí muitos encontros e congressos mundo afora incluíram as atividades físicas, esportivas e recreativas no centro de suas discussões, a FIEP identificou a necessidade de atualização e revisão do conteúdo desse documento, entregando essa missão ao ilustre professor doutor Manoel José Gomes Tubino. Assim, no ano de 2000, durante o Congresso Mundial, em janeiro, o Manifesto foi apresentado pelo professor Tubino e aprovado pela Assembleia Geral da FIEP. Esse documento é organizado em 23 capítulos e 26 artigos, sendo que, ao final de cada artigo, há uma conclusão da FIEP. Análise do Manifesto Mundial da Educação Física Nossa análise do Manifesto será feita pela identificação dos artigos, que resumem as discussões de cada capítulo. Capítulo I: O direito de todos à Educação Física - Art. 1 – A Educação Física, pelos seus valores, deve ser compreendida como um dos direitos fundamentais de todas as pessoas. A Educação Física compreende atividades físicas, esportivas e recreativas, e havia sido declarada como um direito de todos, sem nenhum tipo de discriminação, na “Carta Internacional da Educação Física e do Esporte”, da UNESCO (1978). Lembre-se: mesmo aqueles indivíduos que apresentem uma capacidade menor para a realização de movimentos têm como direito assegurado a prática de atividades físicas, pois estas irão ajudá-los no desenvolvimento de suas habilidades, na vida social e na preservação da sua saúde. Capítulo II: O conceito de Educação Física - Art. 2 – A Educação Física, como direito de todas as pessoas, é um processo de Educação, seja por vias formais ou não formais, que, ao Interagir com as influências culturais e naturais (água, ar, sol etc.) de cada região e instalações e equipamentos artificiais adequados; ao Utilizar atividades físicas na forma de exercícios ginásticos, jogos, esportes, danças, atividades de aventura, relaxamento e outras opções de lazer ativo, com propósitos educativos; ao Objetivar aprendizagem e desenvolvimento de habilidades motoras de crianças, jovens, adultos e idosos, aumentando as suas condições pessoais para a aquisição de conhecimentos e atitudes favoráveis para a consolidação de hábitos sistemáticos de prática física; ao Promover uma educação efetiva para a saúde e a ocupação saudável do tempo livre de lazer; ao Reconhecer que práticas corporais relacionadas ao desenvolvimento de valores, podem levar à participaçãode caminhos sociais responsáveis e à busca da cidadania, constitui-se num meio efetivo para a conquista de um estilo de vida ativo dos seres humanos. Podemos identificar uma característica muito importante da Educação Física defendida no Manifesto: além de ser um direito de todos, ela está associada à educação, seja na escola (vias formais) ou em outros espaços, como clubes, academias, praças, parques, praias, hotéis etc. (vias não-formais). Vale ficar atento à importância dada à Educação Física em 1997 pela Associação Europeia de Educação Física (EUPEA), que afirma ser ela a “única possibilidade de contribuição para todos os alunos, não existindo Educação na escola sem Educação Física” Capítulo III: O meio específico da Educação Física - Art. 3 – As atividades físicas, com fins educativos, nas suas possíveis formas de expressão, reconhecidas em todos os tempos como os meios específicos da Educação Física, constituem-se em caminhos privilegiados de Educação. De acordo com o Manifesto, são as atividades físicas nas suas mais variadas expressões e tipos, o meio específico que a Educação Física usa para atingir seus objetivos. Assim, se o objetivo de um professor na escola é ensinar seu aluno sobre a percepção do seu próprio esforço quando realiza uma caminhada ou uma corrida, ele pedirá ao aluno que pratique essa atividade e aplique os métodos que ele ensinou para verificação da intensidade do esforço, por exemplo. Se um aluno lhe procurar para aumentar a massa muscular, você indicará a atividade física “musculação” para que ele alcance esse objetivo, pois o treinamento com pesos é relacionado diretamente à hipertrofia (aumento do volume) muscular. Capítulo IV: A Educação Física como componente prioritário do processo de educação - Art. 4 – A Educação Física, pelo seu conceito e abrangência, deve ser considerada como parte do processo educativo das pessoas, seja dentro ou fora do ambiente escolar, por constituir-se na melhor opção de experiências corporais sem excluir a totalidade das pessoas, criando estilos de vida que incorporem o uso de variadas formas de atividades físicas. A partir da análise de documentos produzidos na Europa para o Congresso Mundial de Yokohama (1993) e da contribuição de americanos e canadenses para o Fórum Mundial sobre Atividade Física e Esporte (1995), a FIEP afirma que, devido ao seu potencial educacional, a Educação Física deve fazer parte da vida das pessoas, dentro e fora da escola, incluindo vivências corporais diversas que resultarão na adoção de um estilo de vida ativo. Capítulo V: A Educação Física e sua perspectiva de Educação Continuada - Art. 5 – A Educação Física deve ser assegurada e promovida durante toda a vida das pessoas, ocupando um lugar de importância nos processos de educação continuada, integrando-se com os outros componentes educacionais, sem deixar, em nenhum momento, de fortalecer o exercício democrático expresso pela igualdade de condições oferecidas nas suas práticas. É importante que você, aluno, compreenda que a educação não se resume aos anos escolares e de formação acadêmica. Diversas instituições e organismos internacionais declaram que a educação acontece ao longo de toda a nossa vida, pois, em qualquer idade e a qualquer hora, podemos aprender novas coisas, assimilar novos conhecimentos. Quando ensinamos a um idoso sobre a maneira correta de realizar um determinado movimento e quais são as áreas corporais nele trabalhadas, estamos oportunizando a ele uma informação nova e a possibilidade de percepção do próprio corpo e como ele pode movimentá-lo. Assim, a Educação Física pode estar presente na nossa vida nas suas diversas fases. Capítulo VI: A Educação Física na escola e o seu compromisso de qualidade - Art. 6 – A Educação Física, pelas suas possibilidades de desenvolver a dimensão psicomotora das pessoas, principalmente nas crianças e adolescentes, conjuntamente com os domínios cognitivos e sociais, deve ser disciplina obrigatória nas escolas primárias e secundárias, devendo fazer parte de um currículo longitudinal. Nesse capítulo, o professor Manoel Tubino revisa o posicionamento de diversos organismos internacionais que defendem a Educação Física escolar, preocupam-se com a carga horária dessa prática, com a interdisciplinaridade, e destacam os diversos benefícios da nossa profissão na área formal. Inclusive, na Declaração de Punta del Este, de 1999, verifica-se a preocupação com a redução da oferta dessa disciplina por aumentar gastos médicos e sociais, pois, nesse documento, afirma-se que “para cada dólar investido em atividades físicas corresponde uma diminuição de 3,8 dólares em despesas médicas”. Capítulo VII: A Educação Física como educação para a saúde - Art. 7 – A Educação Física, para que exerça sua função de Educação para a Saúde e possa atuar preventivamente na redução de enfermidades relacionadas com a obesidade, as enfermidades cardíacas, a hipertensão, algumas formas de câncer e depressões, contribuindo para a qualidade de vida de seus beneficiários, deve desenvolver nas pessoas os hábitos de prática regular de atividades físicas. Você verá, em algumas disciplinas ao longo do curso, que a Educação Física é considerada, atualmente, uma importante estratégia de prevenção de diversos problemas de saúde, agrupados sob o nome de “Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT)”, como a hipertensão, as doenças cardiovasculares, a osteoporose, o diabetes tipo 2 etc. Muitos estudos demonstraram a relação direta entre maior aptidão (condicionamento) física e prevenção das DCNT’s, e, nesse capítulo, o Manifesto reforça a importante missão da nossa profissão. Capítulo VIII: A Educação Física como a educação para o lazer - Art. 8 – A Educação Física deverá sempre constituir-se de práticas prazerosas para que possa criar hábitos e atitudes favoráveis nas pessoas quanto ao uso das diversas formas de atividades físicas no tempo para o lazer. Neste momento, estamos falando do Esporte-participação ou Esporte-lazer, uma das concepções do esporte que já vimos na aula 1. O Manifesto registra a importância de que o tempo livre seja ocupado com atividades físicas, indicando que a dança e os jogos são os principais conteúdos praticados, e que o esporte-participação é muito importante para a integração das pessoas e para a conquista de um estilo de vida ativo. Capítulo IX: A Educação Física como um meio de promoção cultural - Art. 9 – A Educação Física deverá eticamente ser utilizada sempre como um meio adequado de respeito e de reforço às diversidades culturais. Em muitos países, há jogos, danças e outras atividades físicas que fazem parte da história e da cultura daquela nação, sendo passadas de geração para geração. Exemplificando: Há situações em que determinadas atividades físicas representam algum momento histórico de um país, e podemos lembrar, no Brasil, da capoeira, atualmente muito praticada e apoiada, mas que surgiu com os escravos africanos e foi discriminada e associada à marginalidade. A capoeira está relacionada com importantes momentos da história do Brasil, desde a escravidão até o Brasil República e, assim, é um patrimônio cultural do país. Capítulo X: As relações da Educação Física com o esporte - Art. 10 – A Educação para o Esporte, pelo potencial humanístico e social que o fenômeno sociocultural esportivo representa, deve ser estimulada e promovida em todos os processos de Educação Física. Art. 11 – O Esporte Educacional e o Esporte – Lazer ou de Tempo Livre devem ser considerados como conteúdo da Educação Física pela similaridade de objetivos, meios e possibilidades de utilização ao longo da vida das pessoas. O Manifesto se apoia em diversos documentos para demonstrar que o esporte é uma estratégia muito importante para a educação, a integração, a cooperação, a participação, o desenvolvimento de potenciais e de importantes valores como a ética, devendo estar presente na vida das pessoas. Nesse capítulo, vale prestar atenção ao I Congresso Mundial de Educação Olímpica e para o Esporte (1997), no qualse recomenda que a prática do esporte enfatize a valorização dos ideais do Olimpismo, do espírito esportivo, do respeito aos direitos humanos, da solidariedade e da tolerância. Capítulo XI: A Educação Física e a necessidade de uma ciência de sustentação. - Art. 12 – A Educação Física, como campo de atuação essencial para as pessoas, necessita que todos os organismos e instituições que a consideram como objeto principal prossigam desenvolvendo eventos e estudos que permitam uma sustentação científica para a ação dos profissionais nela envolvidos. Nesse capítulo, destaca-se a necessidade de atualização constante, através da consulta a pesquisas científicas, participação em congressos, leituras diversas. Devemos lembrar que, atualmente, graças ao avanço tecnológico, podemos nos manter atualizados sem sair de casa, pois há várias fontes confiáveis de publicação de artigos científicos disponíveis gratuitamente. Capítulo XII: As relações da Educação Física com o Turismo Art.13 – A Educação Física, pelas suas características e potencial de oferecimento de atividades físicas nas suas diferentes formas, pode e deve constituir-se como uma das opções principais nos programas de Turismo. Se pensarmos nas ofertas de atividades físicas diversas em hotéis e pousadas, em navios, e também nos esportes de aventura, onde há empresas que organizam excursões a diferentes locais e que precisam de um profissional da nossa área para orientação das atividades, percebemos que há uma relação bastante próxima entre esse setor e a Educação Física. Capítulo XIII: Os professores como agentes principais da Educação Física - Art. 14 – A formação de profissionais, considerada necessária para a atuação na área da Educação Física, deve ser revista para que possa atender os novos sentidos conceituais desta área; Art. 15 – Os atuais professores de Educação Física precisam readaptar suas atuações e seus processos de aperfeiçoamento em função dos caminhos propostos por este Manifesto. Nesse capítulo, há ênfase na formação profissional, pois a qualidade na atuação é imprescindível para que a Educação Física alcance seus objetivos, contribuindo de maneira significativa para a educação integral de crianças e jovens. Além disso, também se fala sobre a valorização dos professores, que devem ter reconhecimento da sociedade como um todo. Capítulo XIV: A Educação Física e a adequação de instalações e equipamentos - Art. 16 – Todos os responsáveis pelos processos de Educação Física devem empenhar-se na busca de instalações e meios materiais adequados para que não seja prejudicada nos seus objetivos. Desde 1978, na Carta Internacional de Educação Física e Esporte (UNESCO), defende-se que “instalações e equipamentos adequados são elementos imprescindíveis para a Educação Física e o Esporte”. Infelizmente, sabemos que, em muitos países, como o Brasil, pessoas praticam atividades físicas em condições inadequadas quanto a esse item. Há histórias de atletas olímpicos que treinam em condições precárias, com equipamentos ultrapassados e locais improvisados para o treinamento. Há escolas que não têm espaços e nem recursos materiais para a Educação Física: essa também é uma realidade no nosso país. Porém, devemos observar que o Manifesto, enquanto documento norteador da nossa profissão, defende claramente que é fundamental que as pessoas responsáveis pelos programas de atividades físicas (incluindo os governos municipal, estadual e federal) devem buscar instalação e meios materiais de qualidade. Capítulo XV: A Educação Física para pessoas com necessidades especiais - Art. 17 – A Educação Física, ao ser reconhecida como meio eficaz de equilíbrio e melhoria em diversas situações, quando oferecida a pessoas com necessidades especiais, deverá ser cuidadosamente adaptada às características de cada caso. Nesse capítulo, o Manifesto se refere a todos os indivíduos que precisam de uma atenção especial quanto às suas condições físicas e/ou psicológicas para a realização de movimentos, ou seja, não se resume à atividade física adaptada (deficiências físicas, intelectuais ou visuais), mas inclui pessoas que apresentam uma doença ou condição que as diferencie, seja passageira ou definitiva. Exemplo: gestantes, cardiopatas e idosos devem ter orientação que considere prováveis limitações e restrições, sempre pensando na segurança e na eficiência (alcance de resultados). Capítulo XVI: A Educação Física e seu compromisso contra a discriminação e a exclusão social - Art. 18 – A Educação Física deve ser utilizada na luta contra a discriminação e a exclusão social de qualquer tipo, democratizando as oportunidades de participação das pessoas, com infraestruturas e condições favoráveis e acessíveis. Nesse capítulo, o Manifesto cita importantes documentos que defendem a prática de atividades físicas nas suas mais diversas manifestações para meninas, jovens e mulheres (que, historicamente, foram menos incentivadas a praticar exercícios) e enfatiza o poder social da Educação Física, que deve ser praticada por pessoas menos favorecidas economicamente, já que é um “excelente meio de integração social”. Capítulo XVII: A Educação Física nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento - Art. 19 – Os profissionais responsáveis pela Educação Física em países e nações subdesenvolvidas, em situações de escassez, deverão buscar competência e criatividade na busca de estratégias pedagógicas, para que os beneficiários, mesmo assim, possam atingir as intenções educativas propostas. Art. 20 – A Educação Física, pelo que representa na promoção das pessoas de acordo com este Manifesto, deve ser um foco de atenção dos países desenvolvidos, para que possam, através de programas desprovidos de assistencialismo, contribuir com os países subdesenvolvidos, procurando diminuir as desigualdades de condições entre os povos. Sabemos que as condições para a prática de atividades físicas, para a atualização profissional e para a aquisição de bons equipamentos dependem da situação financeira. Assim, países com maior poder econômico têm mais chances de implantar programas recreativos e esportivos de sucesso. Em vários encontros internacionais citados no Manifesto, fica clara a preocupação quanto às diferenças entre os países justamente por maior ou menor poder econômico, recomendando-se o apoio dos mais ricos e desenvolvidos aos menos favorecidos, tanto para a troca de informações, quanto para a implantação de programas esportivos e recreativos. Capítulo XVIII: A Educação Física como fator para uma Cultura da Paz - Art. 21 – A Educação Física deve contribuir para a Cultura da Paz, ao ser usada no sentido de uma sociedade pacífica de preservação da dignidade humana através de iniciativas de aproximação das pessoas e dos povos, com programas que promovam cooperações e intercâmbios nacionais e internacionais. O conceito de cultura da paz, pelo qual se objetiva mudar a cultura da guerra e da violência para uma cultura de tolerância, diálogo e não violência nasceu em Yamoussoukro, na Costa do Marfim, em 1995, e foi adotado pela UNESCO desde então. Considera-se a Educação Física importante na busca por uma cultura da paz, pois pode aproximar governos e pessoas no sentido de uma cooperação pelo desenvolvimento da prática esportiva e recreativa. Vamos refletir: os esportes estão recheados de exemplos de respeito às diferenças, tolerância e solidariedade: lembra-se do jogo que a seleção brasileira de futebol fez no Haiti, devastado pela guerra civil? Quantos confrontos pacíficos são realizados durante os Jogos Olímpicos entre países que têm rivalidades socioeconômicas históricas? Capítulo XIX: A Educação Física e as responsabilidades diante do meio ambiente - Art. 22 – Todos os responsáveis por qualquer manifestação de Educação Física deverão contribuir com efetividade para que ela seja desenvolvida e oferecida numa convivência saudável com o meio ambiente, sem causar impactos negativos, inclusive, utilizando instalações planejadas neste objetivo e equipamentos, preferencialmente, recicladossem materiais poluentes. A preservação do meio ambiente é outro tema contemporâneo muito discutido. Sempre ouvimos falar da importância da adoção de atitudes sustentáveis, preservando a natureza para as próximas gerações. O professor de Educação Física pode programar atividades na natureza, utilizar materiais recicláveis e, sempre que possível, priorizar instalações que não agridam o meio ambiente. Capítulo XX: A cooperação internacional pela Educação Física - Art. 23 – A cooperação internacional usando a Educação Física como meio, pela sua tradição e novas possibilidades, deve ser mais ainda incentivada e desenvolvida, através de intercâmbios de cooperação técnica, programas de bolsas e estágios, facilidades para participação em eventos, e outras formas que reforcem a cooperação, a amizade e a solidariedade entre os diferentes povos. A fim de reforçar o espírito de solidariedade e cooperação, vários encontros defenderam a implantação de intercâmbios, programas de bolsas e estágios, mais eventos internacionais e cooperação técnica, já que essas estratégias são importantes para o crescimento da Educação Física. Capítulo XXI: O papel dos meios de comunicação diante da Educação Física - Art. 24 – Os responsáveis pela Educação Física devem, nas suas estratégias de valorização da Educação Física para as pessoas, buscar todas as formas de comunicação que possam reforçar o conhecimento dos seus benefícios. Nesse capítulo, afirma-se ser muito importante divulgar todos os benefícios das atividades físicas para a população, e os meios de comunicação devem ser extensamente usados nesse sentido. Capítulo XXII: As responsabilidades das autoridades governamentais diante da Educação Física - Art. 25 – Os governos e as autoridades responsáveis pela Educação Física devem reforçar suas políticas e ações, reconhecendo os valores da Educação Física, priorizando os meios sociais desfavorecidos economicamente. Nesse capítulo, fica claro que muito já foi discutido sobre a necessidade de políticas públicas que facilitem o acesso à Educação Física pela a população, e que os governos devem planejá-las e executá-las. Capítulo XXIII: A FIEP e seu Manifesto Mundial da Educação Física - Art. 26 – A Fédération Internationale d’Education Physique, ao apresentar o Manifesto Mundial da Educação Física FIEP 2000, será a responsável pela tradução nos idiomas principais e pela sua difusão por todo o mundo, através da rede de seus delegados nacionais. Nesse último capítulo, a FIEP se compromete a divulgar o Manifesto pelo mundo, uma vez que é uma instituição presente em mais de 120 países e tem como representantes seus delegados nacionais. O Manifesto Mundial, além de ter sido impresso e distribuído em quatro idiomas, também está disponível no site da FIEP. Aula 05 A atividade física na Pré-história - A Pré-história corresponde ao período em que há a presença dos primeiros hominídeos até a invenção da escrita, aproximadamente em 3.500 a.C. Para se ter uma ideia da duração desse período histórico, os hominídeos mais antigos, dos gêneros Ardipithecus e Australopithecus viveram há cerca de 5 milhões de anos, de acordo com especialistas. O Homo Sapiens, semelhante a nós; ou seja, nosso ancestral direto, surgiu na Terra há mais ou menos 120 mil anos. Para a compreensão da vida nesse período, vemos uma subdivisão baseada no domínio do meio ambiente em: Período da Pedra Lascada (Paleolítico) e Período da Pedra Polida (Neolítico). Segundo historiadores, o último período dessa era foi a Idade dos Metais, quando o homem dominou completamente as técnicas para produzir fogo e começou a fundir metais. Período Paleolítico - Esse período é bastante extenso (de 2 a 3 milhões de anos atrás a aproximadamente 10.000 a.C.) e se subdivide em Paleolítico Inferior e Superior. Durante o Paleolítico, os hominídeos desenvolveram instrumentos com formas pontudas para a caça e a autodefesa a partir de chifres de animais e de rochas. Por isso, essa época também é denominada Idade da Pedra Lascada. É fundamental lembrarmos que a principal característica do modo de viver dos homens nessa época era o nomadismo. Para obter seu alimento e encontrar abrigo, os grupos se deslocavam a pé, percorrendo, muitas vezes, grandes distâncias. A atividade física, num primeiro momento, estava vinculada à sobrevivência do ser humano do período. Assim, você pode imaginar que os hominídeos, especialmente os homens, encarregados de caçar, pescar e lutar quando fosse preciso, eram muito fortes e resistentes, apresentando uma ótima condição física. A principal invenção do homem nesse período foi o fogo. Eles se organizavam em pequenos grupos: enquanto as mulheres cuidavam dos filhos e preparavam a comida, os homens iam em busca de caça, de pesca e deviam proteger o grupo de eventuais inimigos. Geralmente, abrigavam-se em cavernas para se protegerem do frio da época. No Paleolítico superior, uma importante migração ocorreu: o homem de Cro-Magnon, oriundo da Ásia, chegou à Europa passando pela África. Dotado de maior capacidade intelectual, esse hominídeo viveu na Europa e começou a elaborar armadilhas para caçar animais de grande porte. Com o tempo, passou a viver em grupos maiores e conseguia construir moradias bem rústicas, na ausência de cavernas, durante seu deslocamento. São desse período os registros em paredes de cavernas através de pinturas, conhecidos como “pintura rupestre”. Período Neolítico - O Neolítico compreende o período de 10.000 a.C. a 3.000 a.C. na Europa. Algumas mudanças climáticas resultaram em fauna, rios e florestas similares aos atuais, e o homem iniciou um contato maior com a natureza. O aperfeiçoamento de ferramentas e utensílios dessa época fez com que ele fosse denominado “Idade da Pedra Polida”. Esse período é de muito avanço na história da humanidade. O homem percebeu que viver coletivamente proporcionava uma vida melhor, e começou a morar nas proximidades de rios, pois verificou que a terra seria mais fértil, possibilitando o plantio de frutos, legumes e vegetais. De maneira rudimentar, os homens do Neolítico deram início à agricultura, bem como à domesticação de animais (gados, cabras, porcos), o que resultou num cardápio mais variado e numa organização social interessante: as mulheres continuavam a cuidar dos filhos, mas também eram incumbidas da coleta e dos cuidados com as plantações, enquanto os homens construíam os abrigos para a moradia e continuavam, agora em grupos maiores, caçando e pescando. Processo de sedentarização - Para nós, da Educação Física, é fundamental compreender que, ao construir moradias e obter seu alimento através do plantio e da colheita, bem como pela carne dos animais domesticados, o homem reduziu a quantidade de atividade física diária que praticava, pois já não precisava mais deslocar-se em busca deles. Essa redução foi denominada “processo de sedentarização”, que não deve ser confundido com sedentarismo. Com a moradia fixa, o homem, no seu cotidiano, diminuiu o gasto calórico com a movimentação corporal e, de maneira não intencional, perdeu um pouco do seu vigor e de sua força. Por outro lado, grupos de homens que ainda eram nômades representavam uma ameaça aos mais evoluídos, pois houve, a partir dessa fase, a disputa por território e por tudo o que ali existia (roupas, alimentos, utensílios). Dessa maneira, os grupos que estavam estabelecendo moradia fixa perceberam que era necessária uma preparação física para os combates que, porventura, acontecessem. Incluindo práticas de luta, lançamentos, corridas e outras formas de atividades físicas no seu dia a dia, no tempo livre. O exercício físico apareceu pela primeira vez no Período Neolítico. Caracterização das Atividades Físicas na Pré-história - Além de naturais e voltadas à sobrevivência (caráter utilitário), as atividades físicas apresentam uma característica guerreira. Outro aspecto importante é o caráter ritualístico de algumas atividades, especialmente de formas de dançar. A esse respeito, é bastante interessante a informação de Oliveira (2004,p. 8): “Uma das atividades físicas mais significativas para o homem antigo foi a dança. Utilizada como forma de exibir suas qualidades físicas e de expressar os seus sentimentos, era praticada por todos os povos, desde o paleolítico superior (60 000 a.C.). A dança primitiva podia ter características eminentemente lúdicas como também um caráter ritualístico, onde havia demonstrações de alegria pela caça e pesca feliz ou a dramatização de qualquer evento que merecesse destaque, como os nascimentos e funerais.” Também há registros de que as atividades físicas, especialmente no Neolítico, eram praticadas nos momentos de lazer (característica recreativa), especialmente sob a forma de jogos em que vencedores e vencidos conviviam harmoniosamente e os resultados eram bem aceitos por todos. Antiguidade - Diferentemente da Pré-História, os registros desse período vêm principalmente através da escrita, o que possibilita a identificação mais precisa dos hábitos e dos modos de vida dos povos antigos. Essa época se iniciou por volta de 3.500 a.C., e se estendeu até a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C. Para o nosso estudo, veremos a antiguidade oriental e, posteriormente, a ocidental, compreendendo as diferenças e os fatos marcantes da prática de atividades físicas desse período. Antiguidade Oriental - Grandes civilizações agrícolas e mercantis fizeram parte desse período, incluindo os egípcios, os mesopotâmios, os fenícios, os hindus, os japoneses e os chineses. Uma característica comum nessa época foi o poder político da religião e a economia baseada na agricultura. Quanto à religião, os povos eram politeístas (Povos que acreditavam em vários deuses.) e havia a divisão da sociedade em camadas sociais mais nobres e menos favorecidas, como os servos e os escravos. Aula 6 - Evolução histórica da Educação Física – Antiguidade Ocidental: Grécia e Roma A Antiguidade Ocidental compreende o período entre aproximadamente 2.000 a.C., com o início da civilização grega, até 476 d.C, ano em que houve a queda do Império Romano do Ocidente. Gregos e romanos nos deixaram muitos legados, e, com relação à prática de atividades físicas, a civilização grega era amante dos esportes, da ginástica, da força e da beleza física. E os Jogos Olímpicos? Aliás, e os outros jogos gregos (Nemeus, Píticos, Ístmicos), que homenageavam deuses diferentes, aconteciam em épocas e locais distintos uns dos outros e eram tão importantes que os conflitos internos cessavam para a sua realização? Vamos estudar um pouco sobre cada um deles, enfatizando a maior herança grega: as Olimpíadas. Os romanos, por outro lado, como grandes conquistadores e lutadores, consideravam o exercício físico fundamental para os meninos, os jovens e os homens, uma vez que todos deveriam ter resistência, força e muito vigor para servir ao exército romano, se assim fosse necessário. Vamos ao estudo da Antiguidade Ocidental, também denominada Clássica, e você verá que muitas particularidades da nossa área têm origem nesses dois importantes povos: gregos e romanos. As atividades físicas na Grécia antiga - Ocupando um território entre os mares Egeu, Jônico e Mediterrâneo, tribos nômades indo-europeias como os aqueus, eólios, jônios e dórios iniciaram a civilização grega por volta de 2.000 a.C. Os gregos nos deixaram legados culturais e esportivos muito importantes, como os Jogos Olímpicos, e viam a prática de exercícios como fundamental na educação e na preparação física de seus meninos, jovens e homens. A palavra “ginástica” é derivada da grega gymnádzein, que literalmente significava “exercitar-se nu” e se referia ao conjunto de exercícios realizados pelos homens gregos visando ao aumento da força e da flexibilidade corporal. Contudo, segundo Ramos (1983), é mais adequado classificar os exercícios realizados pelos gregos como “gímnicos”, pois não são como a nossa ginástica atual. Essa civilização estava organizada em “pólis”, nome dado as suas cidades-estados, que eram independentes entre si e tinham como suas principais representantes Esparta e Atenas. Essas duas cidades apresentavam pensamentos e visões diferentes quanto ao modo de viver, à educação e à organização dos seus habitantes. Os espartanos, descendentes dos dórios, tinham uma visão bastante militarista, e subdividiam sua sociedade em elite (esparciatas), periecos e hilotas. A elite era formada pelos cidadãos espartanos, e somente eles podiam controlar questões militares, políticas e religiosas. No processo educacional espartano, os meninos tinham sua formação para a guerra a partir dos sete anos, quando começavam a receber um rigoroso treinamento que incluía muitos exercícios físicos, como natação, saltos, lançamentos, corridas e lutas. Para os espartanos, uma boa educação estava vinculada totalmente à formação de um bom soldado, e eles permitiam a participação de mulheres em atividades de treinamento físico por acreditarem que, dessa maneira, elas seriam mais fortes e poderiam gerar filhos mais saudáveis que, posteriormente, serviriam ao exército. Logo que nasciam, as crianças eram examinadas: as saudáveis recebiam a proteção do Estado, as com problemas físicos ou mentais podiam ser assassinadas. Os atenienses, formados pelos jônios, estavam divididos em cidadãos (proprietários de terras e mais influentes e poderosos), metecos e escravos. A democracia como forma de governo surgiu em Atenas. A base de sua economia era o comércio, especialmente a exportação de artesanato, azeite e vinho. Para os atenienses, o exercício físico não servia somente para a preparação física, mas era vital no processo de educação integral de seus meninos e jovens. Na concepção educacional ateniense, o objetivo não era a formação de um cidadão-soldado, mas sim o desenvolvimento de todo o potencial e da capacidade de seus meninos e jovens, incluindo lições de música, ginástica, geografia, retórica, história, gramática e matemática, caracterizando a educação integral. “Paideia” é o nome dado para se referir a essa visão educacional ampla dos atenienses, que também foi adotada em outras cidades-estados. O povo grego admirava a beleza física. Os homens que tinham bastante tempo livre dedicavam-se até 8 horas por dia aos exercícios físicos, e gostavam muito de exibir seus corpos definidos e “sarados”. Concursos de beleza (kallisteia) para homens e mulheres eram organizados na Grécia Antiga, nas regiões de Olímpia e nas ilhas de Tenebos e Lesbos. Nas competições, muitas vezes, os homens amarravam fitas nas partes do corpo que queriam exibir mais, como ao redor do braço ou da coxa. Considerava-se que um homem bonito, com o corpo forte, também tinha uma mente brilhante, e ele era chamado de “kaloskagathos”. A ginástica era muito importante na Grécia Antiga, e o filósofo Platão dizia que ela “unia aos cuidados do corpo o aperfeiçoamento do pensamento elevado, honesto e justo” (PLATÃO, apud RAMOS, 1983, p. 19). Além disso, o exercício físico era inspiração para grandes artistas gregos, que o exaltavam em suas pinturas, esculturas, desenhos, poesias e outros textos. Um fato interessante sobre as heranças deixadas pelos gregos data do século VI a.C.: é a história de Milon, atleta de luta da cidade-estado de Croton (Crotona), várias vezes campeão nos Jogos Olímpicos e nos Jogos Píticos, que competia desde criança. Extremamente forte, Milon é considerado o “pai da musculação”, pois praticou levantamentos e deslocamentos com um boi, do seu nascimento até os quatro anos, iniciando o “princípio da sobrecarga”, que estabelece que, para aumentar sua força e outras qualidades da musculatura, esta deve vencer cargas progressivas. Quando o boi completou quatro anos, Milon colocou-o nas costas e correu 120 passos, matando-o em seguida. Milon é considerado o maior atleta da história da antiguidade, e apenas com mais de 40 anos, em 512 a.C., ainda exibindo muita força física, foi derrotado nos Jogos Olímpicos por um jovem chamado Timotheos. Mesmo com essa derrota, os gregos que assistiam aos jogos no ringue de areia erguerame homenagearam seu herói. Outro atleta considerado espetacular foi Leônidas, da cidade de Rhodes, que venceu as três distâncias de corridas em 4 Olimpíadas seguidas no século II a.C. As distâncias por ele vencidas corresponderiam, hoje, a 200, 400 e 5.000 metros, e devemos ressaltar que eram realizadas no mesmo dia. Jogos Gregos - Os jogos mais importantes da Grécia com certeza eram os Olímpicos; porém, outros jogos eram disputados em locais e épocas diferentes: Píticos, Nemeus e Ístmicos. Vamos conhecer um pouco sobre eles! Jogos Píticos - Com competições esportivas e artísticas, eram o segundo maior evento após os Jogos Olímpicos e aconteciam no santuário de Delfos, de 4 em 4 anos, no mês de setembro, em homenagem ao deus Apolo. Além de instalações religiosas, havia um ginásio, um estádio e um teatro no santuário. De acordo com a lenda, o próprio Apolo criou os jogos para comemorar sua vitória sobre uma serpente chamada Pítia, que habitava uma gruta antiga e era considerada um monstro que impedia o desenvolvimento da região. O primeiro dia dos jogos era dedicado às celebrações religiosas, com procissões em que todos os competidores participavam de sacrifícios. Compostos por competições esportivas e artísticas, esses jogos aconteceram durante muito tempo: do século VI a.C. ao século IV d.C., quando foram extintos pelo imperador romano Teodósio. Na programação dos Jogos Píticos, as competições artísticas aconteciam primeiramente e incluíam, entre outras provas, a execução de um hino a Apolo, provas de teatro e de poesia. Corrida a pé, pancrácio e corridas de carro eram as provas esportivas. Os vencedores desses jogos podiam erguer estátuas na região do santuário de Delfos e alcançavam a fama, como também acontecia com os campeões olímpicos. Jogos Nemeus - Realizados na cidade de Nemeia de 2 em 2 anos, em honra a Zeus de Kleonae, esses jogos tiveram seu início, também, no século VI a.C. De acordo com a lenda, inicialmente, os jogos foram uma homenagem feita pelo rei Adrasto ao menino Ofeltes, filho do rei de Nemeia, que morreu picado por uma cobra quando sua ama de leite o colocou no chão para dar uma informação a Adrasto, que por ali passava em campanha militar. Os Jogos Nemeus, em sua origem, foram jogos fúnebres; mais tarde foi que Adrasto os dedicou a Zeus. Além das esportivas (hipismo e provas ginásticas, como corridas e lutas), também havia competições artísticas. Jogos Ístmicos - Tiveram início em 582 a.C. e homenageavam Poseidon, o deus do mar. Assim como os Jogos Nemeus, aconteciam de 2 em 2 anos na cidade de Corinto, no santuário de Poseidon, que, além da instalação religiosa, possuía um estádio, um hipódromo e um teatro. Como os outros jogos, além de competições esportivas, havia eventos artísticos no seu programa. Entre as provas, pentatlo, corridas, concursos de música e de teatro. Outro ponto comum entre os jogos gregos era o tipo de premiação, que sempre incluía uma coroa. Nos Jogos Ístmicos, ela era feita de aipo ou de pinheiro. Jogos Olímpicos - O evento mais importante da história da Grécia Antiga foi realizado por cerca de 12 séculos, tendo sua primeira edição com o registro dos vencedores em 776 a.C. Eles começavam a ser organizados 10 meses antes da sua abertura, e eram a referência cronológica dos gregos. “Olimpíadas” era o nome dado para se referir ao período de quatro anos entre uma edição e outra. Para a organização dos Jogos, eram nomeados os “helenoices”, que também atuavam como juízes das competições. A atividade física em Roma - A civilização romana iniciou-se em 753 a.C. e foi até 476 d.C., e é muito importante para a História. Na Península Itálica, povos indo-europeus, etruscos, gregos e gauleses foram se misturando e formando a população romana. Diz a lenda que a cidade mais importante dessa civilização, Roma, foi criada por Rômulo e Remo, que teriam sido abandonados no berço do rio Tibre e amamentados inicialmente por uma loba, e depois criados por um pastor. Rômulo foi seu primeiro rei; posteriormente, a forma de governo foi a República. Depois de iniciada a expansão romana, generais disputaram o poder e, com suas conquistas, surgiu o Império (fundado por Otávio). Os romanos são conhecidos de todos nós pelo seu exército poderoso, que formou um grande império na Antiguidade. Como se apoderaram de diversos territórios, eles sofreram algumas influências dos povos conquistados, porém, tinham uma visão bastante militarista e guerreira da prática de atividades físicas. A Grécia foi conquistada pelos macedônios, mais tarde, Roma dominou todo o território, incorporando alguns costumes gregos, como a realização dos Jogos Olímpicos e dos banhos em locais específicos para esse fim, que tinham objetivos terapêuticos, recreativos, higiênicos e de integração social. Apesar de terem adotado alguns hábitos gregos, os romanos não carregavam o “romantismo” deles e a visão do exercício para o belo e para o bem; pelo contrário, eram autoritários, conquistadores impiedosos. A educação dos meninos romanos iniciava-se aos 14 anos e incluía uma rotina rigorosa de treinamento físico. Até essa idade, eles praticavam exercícios observando seus pais, e também tinham algumas atividades recreativas entre seus costumes, como empinar pipas e andar a cavalo. Segundo Ramos (1983), é possível analisarmos a história do exercício físico em Roma subdividindo-a em três períodos: Primeiro período - Na Monarquia, que vai da fundação da cidade em 573 a.C. até 510 a.C., os exercícios eram realizados pelos homens para defender a cidade e depois para a conquista de terras na própria Península Itálica. Praticavam marchas, corridas, saltos, arremessos, pugilismo, natação, exercícios equestres, esgrima e lutas. Segundo período - Época dos cônsules e do início da expansão territorial, de 516 a.C. até 30 a.C.: nessa fase, acentuou-se ainda mais a visão militarista da prática de exercícios, fundamental para a preparação física dos soldados. Mesmo com a influência recebida da Grécia, os romanos não conceberam, em nenhum momento, o exercício com ideais semelhantes aos dos gregos. Acredita-se que o Campo de Marte tenha surgido nessa época, e era um local para o treinamento dos homens romanos. Uma história interessante dessa época é a de Júlio César, um dos maiores generais romanos. Por ser ótimo nadador, salvou sua vida após um naufrágio na Campanha do Egito, conseguindo chegar à Alexandria. Ele acreditava que a natação também era importante na preparação dos soldados. Terceiro período - Do Império ao domínio germânico que marca o fim do Império Romano: os exercícios com caráter militar continuaram, mas, com o tempo, o povo romano também entrou em decadência nesse aspecto, cultuando os espetáculos sanguinários entre gladiadores, as batalhas navais denominadas “naumáquias”, as venações, além das corridas de carros e de exercícios de saltos sobre touros. Jogos de bola foram muito praticados por eles a partir de 186 d.C., mas não há certeza quanto à organização e às regras dos jogos. A música e a dança também tinham seus adeptos, mas consideravam esta última como diversão de camadas mais inferiores da população. As mulheres também realizavam exercícios, de acordo com mosaicos do século III d.C. Os romanos nunca reproduziram os ideais gregos, que vinculavam o exercício à formação integral do homem; na realidade, o pensamento espartano é o que parece ter mais semelhança com a visão romana sobre os desportos e a ginástica. A política do pão e circo - Principalmente com a decadência do Império Romano, bastante acentuada no século V d.C., a promoção de espetáculos sangrentos para o povo foi utilizada como um “analgésico social”, ou seja, para desviar o foco dos problemas e das desigualdades socioeconômicas, evitando revoltas das camadas menos favorecidas. Usando estádios com capacidade de público de até 50.000 pessoas, como o Coliseu, os imperadores promoviam lutas entre gladiadores, que eram escravos ou homens considerados desonrosos, ou com dívidas, condenando-os à morte, pois as lutas só acabavam quando um doscombatentes perdesse a vida. Durante essas lutas, pães eram jogados para os espectadores, e por isso essa estratégia, satirizada por Juvenal (Sátira X, 77-81), foi chamada “panis et circenses”, que significa “pães e jogos circenses”. Historiadores citam que a origem dessa política vem da Grécia Antiga, quando se obrigava a trégua sagrada antes dos Jogos Olímpicos, o que reduzia as desavenças internas. Banhos romanos e sua influência para o exercício aquático - Os romanos tinham entre seus hábitos a frequência a locais específicos para banhos, muitas vezes públicos e equipados com áreas para a prática de esportes, bibliotecas e piscinas. Esse hábito foi uma herança do povo grego, apesar de terem sido os caldeus o primeiro povo a adotá-lo. Os banhos romanos são considerados precursores da hidroterapia moderna, pois havia recomendações do uso de diferentes temperaturas de água com fins curativos e terapêuticos. Para a Educação Física e, portanto, para o seu conhecimento, a hidroginástica, modalidade de exercícios aquáticos recomendada para a melhoria da aptidão física, teve suas origens na hidroterapia moderna, instituída principalmente na Alemanha a partir do século XIX. Os locais para os banhos denominavam-se “thermae” e eram frequentados por toda a população, com exceção dos escravos. Os mais abastados financeiramente, inclusive, construíam locais para os banhos chamados de “balneum” nas suas residências. As “thermaes”, de propriedade do Estado, geralmente eram bastante extensas: a maior delas, a Termas de Diocleciano, abrigava até 3.000 pessoas. Aula 7 - Evolução histórica da Educação Física: Idades Média, Moderna e Contemporânea Nesta aula, estudaremos como a Educação Física, através da prática de atividades físicas, esteve presente em três momentos da História: a Idade Média, a Idade Moderna e a Idade Contemporânea. Na Idade Média, por muitos séculos, a ênfase recaiu sobre os aspectos religiosos, e os exercícios físicos, que já estavam em decadência juntamente com Roma, perderam muito a importância que tinham na Grécia, por exemplo. A Idade Moderna, caracterizada por um movimento social e cultural denominado “Renascimento”, questionou o modelo anterior e rediscutiu a importância das atividades físicas na educação e no lazer. Por último, a Idade Contemporânea, que se iniciou com a Revolução Industrial na Inglaterra e trouxe diversas consequências para a vida do homem. Uma das mais importantes para nós foi a redução da mão de obra no trabalho, gerando menor gasto calórico diário e muitas posturas corporais inadequadas. Idade Média - Esse período durou quase 1.000 anos, iniciando-se com as invasões bárbaras em Roma no século V d.C. (queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C.) e terminando no século XV, na transição para a Idade Moderna (1453), quando houve a retomada do crescimento urbano e do comércio, enfraquecendo o sistema político e econômico vigente e baseado nas propriedades de terras. Nessa época, a agricultura era a base da economia, e a sociedade estava dividida em nobreza (senhores feudais, nobres, cavaleiros, duques e viscondes), clero (máximo poder), servos e pequenos artesãos. Os senhores feudais detinham o poder político, econômico e jurídico, e o clero era responsável pela proteção espiritual e ditava normas de comportamento, possuindo também muitas terras (feudos). Não houve evolução no comércio e, mesmo havendo moeda, as relações comerciais eram, principalmente, à base de trocas de mercadorias e produtos. O senhor feudal era denominado suserano e poderia doar terras aos cavaleiros, chamados de vassalos, que, como “pagamento”, juravam prestar proteção militar aos seus senhores. Muitos renascentistas (pensadores que fazem parte da Idade Moderna) denominaram esse período “Idade das Trevas”, pois a humanidade estava submetida às normas da Igreja Católica, havia pouca possibilidade de ascensão social, e a população não tinha acesso à educação, sendo a maioria analfabeta. Apenas os filhos da nobreza recebiam educação formal, que incluía aulas de religião e atividades físicas para a preparação militar, basicamente. Apesar disso, foi na Idade Média que surgiram as primeiras universidades (França e Inglaterra), por volta do século XIII, já mais para o final desse período histórico. Nesses locais, criados por professores e alunos, havia liberdade de pensamento; as autoridades e a forma de condução da sociedade eram bastante criticados ali. Os primeiros cursos foram Direito, Medicina, Artes e Teologia. Uma outra palavra que você verá quando estudar a Idade Média é “Teocentrismo”, usada para designar um momento em que o foco está em Deus; ou seja, os aspectos religiosos têm extrema importância. Nesse período, houve muitas guerras entre senhores feudais, representados por seus cavaleiros, visando aumentar a posse de terras e o poder. Os cavaleiros tinham uma preparação física similar àquela dos romanos, ou seja, praticavam muitos exercícios e, como faziam parte da nobreza e deveriam proteger seus senhores, seguiam os seguintes passos: Aos sete anos, iniciavam sua formação, aprendendo equitação e manejo de armas, agindo como pajem; Aos doze anos, seu papel era de escudeiro, aprimorando as técnicas com espada e acompanhando o seu senhor nas batalhas. A partir dessa idade, melhorava sua condição pela prática de lutas, esgrima e corridas; O ritual de passagem para a vida adulta era entre 18 e 20 anos, quando, finalmente, tornavam-se cavaleiros, em uma cerimônia que, às vezes, contava com a presença do rei. Eles deveriam ficar em jejum na noite anterior e vigiar as armas; na solenidade, combates eram simulados para que eles pudessem demonstrar suas habilidades e técnicas. Após os juramentos, os cavaleiros montavam em seu cavalo e saíam do local, finalizando o ritual de passagem. Houve outras práticas relacionadas com os exercícios físicos, como os torneios, que, inicialmente, consistiam em lutas entre dois grupos de sol a sol, terminando com mortos, feridos e prisioneiros, vencedores e vencidos (torneios primitivos). Após a batalha, realizada em um local especificamente escolhido, havia um banquete e um baile para todos os sobreviventes. Posteriormente, por volta do século XIV, os torneios eram disputados com armas sem pontas, e os cavaleiros se protegiam com armaduras. Além disso, as disputas aconteciam dentro de pátios dos senhores feudais, e eram assistidas por muitas pessoas como um grande evento da época. Muitos golpes foram proibidos, e, se o cavaleiro caído levantasse a viseira do elmo, não poderia mais ser atacado. No final da Idade Média, surgiu o “carrossel”, jogo no qual os cavaleiros lançavam suas armas contra bonecos de madeira – seus alvos. Outra prática importante era a “justa”, disputas entre dois cavaleiros que, no começo, também eram sangrentas e levavam à morte, mas foram aperfeiçoadas com o tempo e tinham como objetivo verificar a melhor pontaria: os cavaleiros deveriam arremessar suas lanças contra o escudo ou a armadura do seu oponente. Na Idade Média, surgiram alguns esportes coletivos. Segundo Oliveira (2004), a Inglaterra foi o país que demonstrou uma vocação maior para o esporte. Jogos com bola atraíam bastante o povo medieval, mesmo não havendo incentivo por parte da classe dominante. O soule era jogado com as mãos e os pés e é considerado ancestral do futebol e do hóquei, porém, bastante violento. Acredita-se que tenha começado a ser praticado no século XII. Na Itália, havia um jogo similar, chamado de calcio. Como variação do soule, pois era jogado com um bastão, parecendo um pouco com o hóquei atual, havia o “jogo da malha”. Tanto no soule como no jogo da malha, o objetivo era levar uma bola de couro ou madeira até um ponto predeterminado. Para isso, permitia-se o uso da força física. Socos, chutes e pontapés faziam parte do jogo. Outro esporte bastante popular entre os homens medievais era “o jogo da palma” ou “jogo da pela”. Considerado a origem do tênis atual, teria iniciado no século XIII. Além desses jogos, há registros de práticas lúdicas dentrodos feudos, envolvendo atividades físicas. Idade Moderna - Esse período foi da tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, em 1453, até a Revolução Francesa (que derrubou a monarquia), em 1789. Como características principais, podemos destacar: A transição do feudalismo para o capitalismo; O fortalecimento da monarquia; O início das navegações (principalmente por Portugal e Espanha); As descobertas dos novos continentes (como as Américas); O enriquecimento europeu; O desenvolvimento cultural baseado no humanismo, graças à exploração das colônias na América; O movimento denominado Renascimento (Palavra que se refere ao período entre o fim do século XIII e meados do século XVII, quando se buscou o resgate de valores e hábitos da Antiguidade em oposição às referências católicas que predominaram na Idade Média).; O surgimento de novas igrejas (anglicana, luterana, calvinista); O início da Revolução Industrial, no final do período. Ao contrário do que ocorre no feudalismo, houve uma expansão do comércio, e a burguesia era a classe social que estava mais perto do rei. Inicialmente, muitos intelectuais questionaram os valores e os costumes da época medieval, opondo-se ao teocentrismo; depois, o foco passou ao desenvolvimento do ser humano (antropocentrismo). Houve muito questionamento sobre o poder do papa e da Igreja, e uma das marcas da Idade Moderna foi a reforma religiosa iniciada por Martinho Lutero, culminando na criação da igreja luterana. A leitura de textos de filósofos gregos ganhou destaque graças às traduções precisas e recheadas de comentários, logo no início desse período, e o humanismo, concepção que valorizava todo o potencial humano, dominava o cenário cultural da Europa. Um grande avanço desse período para a história da humanidade foi o aperfeiçoamento e a criação de instrumentos que permitiram uma observação científica da natureza, trazendo novos conhecimentos e concepções. Entre os séculos XIV e XVI, uma grande troca de conhecimentos entre países europeus possibilitou avanços fundamentais para a pesquisa, como o aperfeiçoamento da luneta usada nas navegações. Esta resultaria na criação, por Galileu Galilei, do telescópio, aparelho fundamental para reforçar a teoria do Heliocentrismo de Nicolau Copérnico. Quanto à Educação Física, Ramos (1983, p. 170) cita: “no campo prático, na primeira metade do século XVIII e nos que o antecederam, pouco foi feito, mas os intelectuais, sobretudo alguns professores objetivos, através de seus trabalhos, já apontavam um desenvolvimento promissor”. A educação ainda era privilégio da minoria burguesa, e os exercícios praticados estão relacionados à importância do belo, resgatando-se a importância do corpo, vista na Grécia Antiga: saltos, natação, equitação, corrida, lutas, jogo da pelota, dança e pesca estavam incluídas nos currículos escolares. Muitos pensadores e figuras importantes do Renascimento contribuíram de alguma maneira com a Educação Física. Vamos ver alguns exemplos: Entre os séculos XVII e XVIII (1632-1704), John Locke, filósofo inglês, defendeu bastante o jogo, a esgrima, a equitação e a música na educação de crianças e jovens. No século XVIII, Jean Jacques Rousseau, em sua obra Emílio ou Da Educação, de 1762, defendia, entre outras coisas, a prática dos exercícios e a necessidade de se fazer esforço. Conforme cita Ramos (1983, p. 175), é de Rousseau a frase: “Quem quiser ser forte espiritualmente deve cultivar as suas forças físicas”. Na transição da Idade Moderna para a Contemporânea, destacamos Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), da Suíça, bastante influenciado pelas ideias de Rousseau. Como educador, defendeu a prática dos exercícios, associando-a ao desenvolvimento intelectual e moral. Ele defendia a educação para os menos favorecidos, preocupava-se com a postura corporal na execução das atividades diárias e incluía a prática da natação e da ginástica nos estabelecimentos que criou, para ambos os sexos. Segundo Tubino (2010), nos séculos XVIII e XIX, provas de remo, corridas curtas e lutas iniciaram o sistema de apostas, o que motivou as disputas. Idade Contemporânea - Em termos cronológicos, esse período começou em 1789, com a Revolução Francesa (que resultou no fim da Monarquia) e se estendeu até os nossos dias. Entre suas principais características, destacam-se: A ascensão social da burguesia na Europa; A firmação do capitalismo como o principal sistema econômico e da democracia na política; O crescimento dos Estados Unidos como potência mundial; O avanço tecnológico, que nos permite, por exemplo, estudar pelo sistema de educação a distância. Para a Educação Física, há muitos fatos importantes para estudarmos, e vamos fazer isso separando cada um deles. Correntes de pensamento sobre a educação física na Europa - Durante o século XIX, na Alemanha, a ginástica teve, primeiramente, uma visão pedagógica, vinculada à formação integral do homem (similar aos ideais da Grécia Antiga). Recebeu, contudo, o nome de Turnkunst (a arte da ginástica) e estava associada à formação de homens fortes capazes de defender o país, sendo o seu criador Friederick Ludwig Jahn (1788-18259). A força era muito desenvolvida no modelo alemão, e aparelhos como o cavalo, a barra fixa e barras paralelas foram criados nesse período, cabendo aos alemães a origem da ginástica artística. É importante ressaltar que o exército brasileiro adotou esse método nas suas instituições de 1870 até 1912. Revolução Industrial - Esse é o nome dado à mudança nas formas de produção que ocorreu nos séculos XVIII e XIX na Europa. Basicamente, o trabalho tornou-se assalariado e as máquinas começaram a substituir a mão de obra humana. Até o final do século XVIII, a vida estava concentrada no campo, e os produtos eram artesanais. França e Inglaterra eram países manufatureiros, tinham grandes oficinas para produção em maior escala, pois diversos artesãos trabalhavam lá, subordinados aos donos desses locais. Pela proximidade com o mar e a força social da burguesia, a Inglaterra foi o país que iniciou esse processo de mudança na forma de produção, visando ao enriquecimento dos proprietários de manufaturas às custas da exploração da mão de obra. Num primeiro momento, surgiram as máquinas de tear para a produção de tecidos (algodão), depois, a máquina a vapor. Os artesãos se tornaram operários, incluindo mulheres e crianças, e eram submetidos a muitas horas de trabalho sob péssimas condições. Eles começaram a operar as máquinas, simplesmente, processo que, ao longo do tempo, trouxe duas consequências para a população: 1ª) Problemas posturais e dores em locais diversos, graças aos movimentos repetitivos em uma extensa carga horária de trabalho; 2ª) Redução da movimentação corporal para a realização do trabalho, com menor gasto calórico e, com o tempo, a evolução tecnológica nos trouxe o sedentarismo, condição associada ao surgimento de diversas doenças. O sedentarismo associado à tecnologia na vida diária é bastante negativo para a saúde da população, mas, por outro lado, ajudou-nos, principalmente, no final da década de 1960 e início da década de 1970. Nessa época, estudos científicos demonstraram que as pessoas que realizavam mais exercícios tinham menos risco de doenças, principalmente as cardiovasculares, e conseguiam ter melhor controle do peso corporal, evitando a obesidade. Isso impulsionou a Educação Física, surgindo novas possibilidades de trabalho, como academias, hospitais, centros de reabilitação cardíaca, espaços públicos e empresas. Ressurgimento dos Jogos Olímpicos - O francês Pierre de Fredy, barão de Coubertin, é o grande responsável pelo resgate dos Jogos Olímpicos. Tanto o esporte como a educação popular foram suas “frentes de batalha”: por elas lutou e graças, principalmente, ao esporte, inscreveu seu nome na história mundial e da Educação Física. Após ter conseguido implantar os esportes nas escolas francesas, começou a buscar apoio de outros países europeus, em 1892, para que fossem realizados os Jogos Olímpicos novamente. Preocupava-se,especialmente, com a paz entre as nações. Em um congresso realizado na Universidade de Sorbonne, a nova data para a retomada dos Jogos foi definida, e os fundamentos do amadorismo foram estabelecidos. Defendendo o fair-play, a primeira edição dos Jogos Olímpicos da era moderna realizou-se em Atenas (Grécia), em 1896, e contou com a participação de 285 atletas. Coubertin morreu na Suíça aos 62 anos, mas seu coração jaz sob uma coluna de mármore em Olímpia, na Grécia. Tubino (2004, p. 21) cita uma frase que demonstra claramente os ideais do Olimpismo por ele preconizados: "O importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas tomar parte; o importante na vida não é triunfar, mas esforçar-se; o essencial não é haver conquistado, mas haver lutado". A evolução do esporte na Idade Contemporânea tem também uma importante contribuição vinda dos Estados Unidos: as Associações Cristãs de Moços (ACM), que, no final do século XIX, introduziram diversos esportes coletivos no país, surgindo o basquete e o voleibol. Além disso, durante o século XX, ocorreu um intercâmbio maior entre os países em congressos internacionais de Educação Física, especialmente a partir da década de 1930. A tecnologia facilitou a troca de conhecimentos, a divulgação de estudos científicos, o desenvolvimento de equipamentos e instrumentos para a avaliação e a prática de exercícios. Isso resultou na expansão do mercado de trabalho e no maior reconhecimento da sociedade sobre a importância dos exercícios físicos e do profissional de Educação Física. Aula 8 - Evolução histórica da Educação Física no Brasil: Períodos Colonial, Império e República Brasil Colônia - Esse período vai do descobrimento do Brasil pelos portugueses, em 1500, até o início do Império, em 1822. Nesses três séculos, vivemos momentos econômicos diferentes, denominados “ciclo do pau-brasil”, “ciclo da cana-de-açúcar” e “ciclo do ouro”, dependendo da principal riqueza que era explorada por Portugal. E a prática de atividades físicas no Brasil Colônia? - Você deve imaginar que os indígenas, primeiros habitantes do nosso país, realizavam muitas atividades físicas no seu cotidiano, de caráter natural, utilitário, recreativo, ritualístico e, talvez, até para a sua preparação física e defesa de seu território. Os indígenas, portanto, tinham uma prática de atividades físicas similar à dos homens da Pré-História, vinculada diretamente à sua sobrevivência. Pero Vaz de Caminha escreveu, em uma de suas cartas à Coroa, que os indígenas saltavam, rodavam e dançavam alegres ao som de uma gaita tocada por um português. Vejamos alguns exemplos de atividades físicas desse período: O início oficial da Educação Física no Brasil se deu com a chegada dos padres jesuítas, em 1549, que tinham como missão catequizar os índios, dando-lhes “educação” e alterando seus hábitos. Pela manhã, tinham ensinamentos de ordem intelectual e, à tarde, realizavam exercícios físicos. Mas, na época colonial, houve pouco crescimento da educação brasileira, e os jesuítas não criaram mais do que vinte colégios para os filhos dos nobres. Brasil Império - Na linha do tempo a seguir, conheceremos o processo de desenvolvimento da Educação Física nas escolas do Brasil. A família real chegou ao Brasil em 1808 e tentou gerar um desenvolvimento da cultura, ainda que para as elites. Foram criadas a Biblioteca Nacional e a Imprensa Régia. Não havia uma estruturação do Ensino Básico (atuais Ensino Fundamental e Ensino Médio), mas demonstravam preocupação com a criação de universidades para que, aqui, também pudessem ser formados “doutores”. Somente a partir da emancipação política de Portugal, com a implantação do Império, em 1822, iniciou-se uma evolução, ainda que discreta, da educação brasileira. Por volta de 1824 (primeira Constituição do Brasil), chegaram ao país livros que, de alguma forma, falavam sobre a ginástica. Um pouco depois, no Ginásio Nacional (atual Pedro II, criado em 1837), os meninos tinham a ginástica incluída no currículo. A partir de 1850, alguns fatores econômicos fizeram com que houvesse um aumento das opções de entretenimento, especialmente na capital, o Rio de Janeiro. Assim, clubes esportivos, também denominados clubes ginásticos, despontaram pela cidade ao lado de bares, restaurantes e confeitarias, além do teatro. Em 1851, a ginástica tornou-se obrigatória nas escolas do município do Rio de Janeiro. E, no final do Império, a metodologia adotada para a ginástica foi a da escola alemã, utilizada nos meios militares e considerada por muitos extremamente rigorosa e voltada à preparação física, sem nenhum caráter educacional. Nessa fase do Império e até o início da República (aproximadamente 1920), o remo era o esporte mais popular. Algumas revistas dessa época dedicavam textos que associavam a prática de exercícios à promoção da saúde: Semanário de Saúde Pública, Revista Médica Fluminense, Arquivo Médico Brasileiro, Revista Médica Brasileira, Brasil Médico, entre outras. Em 1858, o exercício físico passou a ser obrigatório nas escolas militares. Em 1876, no decreto 6370, surgiu oficialmente, pela primeira vez no Brasil, a expressão “Educação Física” em vez de “ginástica” como referência aos exercícios praticados nas escolas. Finalmente, devemos citar Rui Barbosa, importante intelectual da época do Império que emitiu pareceres, em 1882, sobre a reforma de ensino Leôncio de Carvalho, nos quais demonstrava reconhecer a importância da ginástica e de outras formas de atividades físicas. Brasil República - O período atual que vivemos teve início com a proclamação da República em 15/11/1889, pelo Marechal Deodoro da Fonseca. Com a República, o sistema presidencialista e o federalismo foram implantados, houve aumento da população urbana graças, principalmente, à industrialização e a uma cena cultural bastante intensa, tendo como exemplo o Movimento Antropofágico de Oswald de Oliveira (1920). Vários esportes foram introduzidos no país nessa época: Alguns outros destaques do início da República foram o surgimento da primeira academia de ginástica no Rio de Janeiro (1908) e a publicação de um livro do professor Arthur Higgins, em 1896, defensor do método sueco e considerado uma figura importante da educação física escolar. Nas escolas brasileiras, a ginástica alemã também era adotada, até que, em 1921, um decreto aprovou o “Regulamento de Instrução Física Militar”, tornando o método francês o oficial para a ginástica militar. Posteriormente, em 1931, ele foi inserido obrigatoriamente nas escolas, fato que só começaria a mudar a partir da década de 1950. Em 1929, foi criado o Curso Provisório de Educação Física pelo Ministério da Guerra, substituído um ano depois pelo Centro Militar de Educação Física, inicialmente sediado na Urca e que se destinava à formação de instrutores da disciplina, sendo permitida a participação de civis também. O curso do Centro Militar durava cinco meses e deveria acontecer duas vezes por ano. Em 1933, foi substituído pela Escola de Educação Física do Exército, que, nesse primeiro momento, não se restringia somente aos militares. Atualmente, a EsEFEx continua com atividades de formação de instrutores de Educação Física, mas somente para militares. No dia 17 de abril de 1939, através do Decreto-Lei nº 1212, criou-se a Escola Nacional de Educação Física e Desportos, na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. A instituição deveria servir de modelo para as outras que viessem a surgir e tinha como missão capacitar pessoas para a atuação profissional, oferecendo os seguintes cursos: Curso Superior de Educação Física (Diploma de Licenciado em Educação Física) com a duração de dois anos; Curso Normal de Educação Física (Diploma de Normalista Especializada em Educação Física), com um ano letivo de duração; Curso de Técnica Desportiva (Diploma de Técnico Desportivo); Curso de Treinamento e Massagem (Diploma de Treinador e Massagista Desportivo); Curso de Medicina da Educação Física e dos Desportos (Diploma de Médico Especializado em EducaçãoFísica e Desportos). Após a conclusão do curso, os formados tinham seus diplomas registrados no Ministério da Educação e Saúde e eram considerados aptos para a intervenção profissional. Ainda na década de trinta, o futebol começou sua escalada rumo ao topo da preferência nacional, mas esportes como o atletismo, o basquete e a natação também despertavam o interesse da população. A ginástica ganhava cada vez mais adeptos, e o professor Oswaldo Diniz Magalhães criou um programa de rádio chamado “Hora da ginástica”, que foi ao ar de 1932 a 1983. Abordando temas relacionados à saúde, à educação moral e ao civismo, o programa começava às 6h com a saudação “Bom dia, radioginastas”. Ao longo do século XX, questões políticas influenciaram a maneira como a educação física escolar era concebida: se no início do século, com a industrialização e o êxodo rural, muitos consideravam que ela deveria servir à higiene e à prevenção de doenças infectocontagiosas, na ditadura (a partir da década de 1960 até o início dos anos 80), considerava-se que, nas aulas de Educação Física, era fundamental a identificação de talentos esportivos que pudessem representar o país, como modelos de um sistema de sucesso. Principalmente a partir da década de 1970, houve um expressivo avanço científico na Fisiologia do Exercício, na Biomecânica e no Treinamento Desportivo, enfatizando-se o esporte de alto rendimento, mas também trazendo novas possibilidades e evidências sobre os benefícios dos exercícios físicos. As pesquisas que comprovam que a prática de exercícios regulares faz muito bem para a saúde e auxilia na prevenção de doenças da sociedade moderna favorecem o surgimento de novas modalidades de atividades físicas, a melhoria de equipamentos, a criação de novos materiais e metodologias, diversificando o foco da Educação Física, que foi primeiramente nas escolas, depois no treinamento, e, mais recentemente, na promoção da saúde da população em geral. Como vimos anteriormente, muitos esforços foram feitos ao longo do século XX, mas somente em 1998 nossa profissão foi regulamentada, ganhando instituições que a organizam e defendem o exercício profissional, bem como documentos que norteiam nossa atuação. A Educação Física no Brasil pode ter “começado” com os jesuítas no século XVI, na sua missão de catequização dos indígenas, mas foi na República que ela de fato se consolidou e teve um grande crescimento. Aula 9 - Qualidades ou Valências Físicas relacionadas à aptidão física (saúde e qualidade de vida) Resistência Aeróbica - Também chamada de “aeróbia”, essa qualidade física é fundamental para os sistemas cardiovascular e respiratório. A aptidão e a condição de realizar determinados esforços dependem diretamente da resistência, e há maior proteção contra problemas cardiovasculares quando ela está bem desenvolvida. A resistência aeróbica reflete a condição apresentada por uma pessoa para realizar esforços durante períodos médios a longos, em intensidade submáxima. As contrações musculares para a realização de tais esforços são possíveis graças ao metabolismo aeróbio, ou seja, requerem a presença de uma quantidade adequada de oxigênio para que aconteçam. Quando a intensidade do exercício é submáxima, é possível obter oxigênio suficiente para a produção de energia. De maneira geral, esforços físicos mantidos por mais de 120 segundos começam a ter participação do metabolismo aeróbio. E, quanto maior a duração do exercício, maior é a contribuição dele. Nesse metabolismo, os combustíveis são o glicogênio (obtido através dos carboidratos) e os ácidos graxos livres (obtidos a partir da gordura). Vamos pensar na corrida: você já deve ter dado um “pique” (tiro) na sua vida em algum momento, na infância, numa brincadeira de pega-pega, ou para pegar um ônibus quando ainda não havia chegado ao ponto e ele já estava vindo. Após um pique, você deve perceber que fica ofegante e demora um pouco para se recuperar: esse não é um esforço aeróbico. Ao contrário, digamos que você gosta de correr como forma de exercício e faz isso pelo menos três vezes por semana, durante 20 minutos. O ritmo, ou seja, a velocidade é inferior à que você usa para correr até o ponto de ônibus. Você pode se sentir ofegante logo no início, mas, conforme mantém o exercício, consegue equilibrar a captação e a necessidade de oxigênio. E, assim, não entra em fadiga. A resistência aeróbica é vital para os exercícios mantidos por mais de alguns minutos até muitas horas. Quanto maior a resistência aeróbica, mais tempo um indivíduo consegue se exercitar antes de entrar em processo de fadiga. E por que essa qualidade física tem relação direta com a preservação e a melhoria da saúde? Bem, ao estimularmos nosso corpo em esforços que aumentam essa resistência, estamos sobrecarregando os sistemas respiratório (para captar o oxigênio), cardiovascular (para enviar e transportar o oxigênio até os músculos ativos) e muscular (para extrair o oxigênio circulante e providenciar a energia necessária para a contração muscular). Quando sobrecarregamos corretamente esses sistemas (sem exageros e com segurança), eles se tornam cada vez mais aptos na realização dessas funções, transformando um exercício que, inicialmente, era pesado em moderado com o tempo. Além disso, o sistema cardiovascular apresenta significativos e importantes aprimoramentos, sendo o fortalecimento do miocárdio um dos mais relevantes, facilitando os processos de contração para envio do sangue rico em oxigênio e nutrientes. Um músculo cardíaco mais forte suporta melhor não só os exercícios, mas situações emergenciais diárias, como aquele pique até o ônibus. Outro fator bastante interessante é a melhoria da circulação sanguínea, especialmente o surgimento de novos vasos a partir dos já existentes, pois a sobrecarga sobre o sistema cardiovascular e sua rede de vasos traz, ao longo do tempo, a formação de capilares. O que favorece a distribuição de sangue, inclusive para o próprio coração. Quando você ouvir “fulano tem ótima aptidão cardiorrespiratória”, isso significa que a resistência aeróbica dele está aprimorada. Diante de benefícios tão importantes para o organismo, você deve estar se perguntando: “Como eu consigo aprimorar a resistência aeróbica?”. Os exercícios que melhoram essa capacidade física (como alguns autores preferem dizer) são os aeróbicos. Eles envolvem uma significativa massa muscular, têm média a longa duração e intensidade submáxima, permitindo captação suficiente de oxigênio para que os processos de obtenção de energia para a contração muscular sejam realizados na sua presença. Talvez você esteja se perguntando: “se eu entrar na piscina e fizer exercícios apenas de braçadas, esse estímulo é suficiente?”. O ideal é que haja uma mobilização de mais grupos musculares, pois, assim, haverá maior necessidade de oxigênio, sobrecarregando adequadamente os sistemas respiratório, cardiovascular e muscular. Contudo, um iniciante, que está há algum tempo sem fazer exercícios físicos, pode, num primeiro momento, beneficiar-se de um programa com menor intensidade, movimentando mais os músculos do tronco e dos membros superiores. Outro exercício de baixa intensidade e recomendado para os “novatos” é a caminhada. Ela também tem como vantagem, em relação à corrida, o menor impacto. A duração e o número de dias por semana são outras variáveis que devem ser consideradas quando se intenciona aumentar a resistência aeróbica: de acordo com o Colégio Americano de Medicina Esportiva (2014), pelo menos vinte minutos, de 3 a 5 dias. É muito importante ter regularidade e manter o programa de exercícios. Os exercícios aeróbicos são muito interessantes também para a redução da gordura corporal, pois geram um alto gasto calórico devido à mobilização de grandes grupos musculares e à manutenção do exercício por períodos mais extensos. À medida que uma pessoa vai aumentando sua resistência aeróbica, pode realizar os esforços com mais intensidade. E essa é, também, uma boa estratégia para gastar mais calorias. Um detalhe interessantea respeito desse tipo de exercício é a maneira como ele se popularizou: em 1968, um médico norte-americano chamado Kenneth Cooper publicou seu primeiro best-seller, intitulado Aerobics. O livro originou-se após o autor ter criado um teste de campo, de aplicação relativamente simples, o “Teste de 12 Minutos”, que permite avaliar a aptidão cardiorrespiratória e classificar o indivíduo em algum nível de treinamento. Na obra, ele também demonstrava, graças aos seus estudos, realizados por treze anos na Força Aérea (Aerospace Medical Laboratory, em San Antonio), que, quanto maior era a resistência aeróbica, melhor era para a saúde (fortalecimento do sistema cardiovascular) e para a composição corporal (prevenção e/ou redução da obesidade). Considerado o “pai da aeróbica”, Cooper escreveu 18 livros e tem muitos artigos publicados. Ele revolucionou os exercícios no início da década de 1970 com as suas publicações, enfatizando o potencial de prevenção de doenças e de aumento da longevidade quando se adota uma vida fisicamente ativa; no caso dele, especificamente, realizando exercícios aeróbicos. Praticante assíduo de corrida, o Dr. Cooper, nascido em 04 de abril de 1931, tendo corrido mais de 8.000 milhas, dirige seu instituto, o Cooper Aerobics Center, em Dallas, e continua investigando os benefícios dos exercícios para a saúde. Aptidão Neuromuscular - Quando falamos em aptidão neuromuscular, estamos nos referindo a algumas capacidades específicas de um músculo ou grupo muscular importantes para a realização de atividades do dia a dia com eficiência e economia de energia. Tudo isso sem sensação de cansaço da musculatura que impeça a realização do movimento ou resulte em uma movimentação inadequada. As qualidades físicas que compõem a aptidão neuromuscular são a força dinâmica, a resistência muscular localizada (também denominada resistência de força) e a flexibilidade. Veremos, a partir de agora, os conceitos, as características, os benefícios e os tipos de exercícios que podem aprimorá-las. Antes de falarmos especificamente da força dinâmica, você deve saber que força é a qualidade física representada pela capacidade que a musculatura tem de exercer tensão para vencer uma resistência imposta a ela. Essa resistência pode ser um halter de ginástica que você levanta, uma mochila que você carrega nas costas, e até mesmo o corpo de um bebê que você pega no colo. Logicamente, quanto maior a tensão realizada, maior é a força dos músculos. A força máxima representa a capacidade máxima de exercer tensão, e não tem relação direta com a saúde, pois, raramente seremos solicitados a demonstrá-la numa atividade do dia a dia, como tomar banho, fazer compras, caminhar com uma sacola ou mochila, levantar pesos submáximos. A força tem outras subdivisões (veremos as demais na próxima aula), mas a que está relacionada à saúde é a dinâmica. A força dinâmica pode ser definida como a capacidade que o músculo tem de exercer tensão para vencer uma carga a ele imposta tendo como resultado a produção de movimento articular. Se você vai à academia e faz exercícios de agachamento, com algumas repetições em sequência, está demonstrando a capacidade de força dinâmica de alguns músculos dos membros inferiores. Da mesma maneira, ao empurrar um carrinho de supermercado ou balançar um bebê em seus braços. Conforme definido por Gobbi, Villar e Zago (2005, p. 158), na força dinâmica, há “contração com encurtamento muscular (concêntrica – trabalho “positivo”) ou alongamento muscular (excêntrica – trabalho “negativo”) com movimento articular e trabalho externo. É importante lembrar que há movimento sendo produzido na manifestação de força dinâmica. Sempre precisamos vencer resistências, seja um objeto que temos que segurar ou a ação da gravidade quando levantamos do sofá, ou o próprio peso do nosso corpo associado à gravidade (pense no exercício de agachamento). À medida que envelhecemos, se não fizermos atividades que estimulem nossos músculos a exercer tensões, ficamos fracos, pois há uma redução da massa muscular denominada sarcopenia. Talvez você já tenha visto um idoso com dificuldades para levantar da cama, subir escadas, segurar objetos por falta de força. Essa valência física, assim como as demais, é treinável, ou seja, podemos aprimorá-la e/ou mantê-la, e isso é muito importante para a vida diária. De maneira geral, atividades que sobrecarreguem o músculo ou grupo muscular são indicadas para isso. Mas, antes de vermos rapidamente quais são as recomendações para o treinamento de força dinâmica, você deve saber o que é “resistência muscular localizada (RML)”. A RML é, atualmente, mais citada como resistência de força e refere-se à capacidade da musculatura de manter repetidas contrações em um mesmo padrão, sem perder a eficiência. De acordo com Tubino (1979), “é a capacidade individual de realizar, durante um período longo, a repetição de um determinado movimento num mesmo ritmo e com a mesma eficiência”. Vamos pensar numa situação nada incomum: ao subir alguns lances de escada, muitas pessoas reclamam de cansaço e “moleza” nas pernas, e precisam parar após alguns degraus para descansar. Isso é falta de RML, ou resistência de força. Às vezes, sentimos um pouco de fadiga quando estamos repetindo um determinado movimento, indicando que precisamos aprimorar essa qualidade física. O tipo de treinamento recomendado para a força dinâmica também melhora nossa resistência muscular. São prescritos exercícios que implicam vencermos resistências impostas aos músculos, como a musculação, a ginástica localizada, o treinamento funcional, o pilates etc. A frequência semanal deve ser de pelo menos duas sessões, e é importante respeitar um intervalo entre uma sessão e outra (para iniciantes, 48 horas) para que os músculos possam se recuperar, evitando lesões. Quanto à resistência, são feitas mais repetições de um determinado exercício, quanto à força, a ideia é progredir com os tipos de cargas que devem ser vencidas. Flexibilidade - A flexibilidade é a qualidade física relacionada à amplitude dos movimentos. Segundo Gobbi, Villar e Zago (2005, p. 184), “é a amplitude máxima de movimento em uma ou mais articulações”. Apesar de existirem níveis máximos de mobilidade articular, para a saúde, são indicados índices moderados dessa qualidade física Não é necessário ter a flexibilidade de um contorcionista ou de um bailarino para pegar um objeto acima da linha da cabeça, por exemplo, mas se a articulação do ombro apresentar uma restrição na sua mobilidade que impeça a realização desse movimento, a pessoa precisará de ajuda, comprometendo sua independência e sua autonomia. Assim como foi visto sobre a força, com o envelhecimento, há uma redução da amplitude de movimentos, e observamos idosos que têm dificuldades para vestir uma blusa, amarrar um sapato, escovar os cabelos e outras atividades da vida diária. Vemos indivíduos jovens já demonstrando dificuldade para a realização de alguns movimentos que exigem um pouco mais de amplitude porque também não estimulam os músculos a se alongarem, deixando de trabalhar a elasticidade muscular e a mobilidade articular, os dois componentes da flexibilidade. Assim, é importante realizar exercícios de alongamento sempre. As atividades que levam os músculos a atingir amplitudes maiores do que as que eles estão habituados aprimoram essa qualidade física. As aulas de pilates, de yoga, de alongamento, e todos os movimentos amplos trarão esse benefício. Quando a pessoa opta por realizar os exercícios tradicionais de alongamento, a recomendação é não forçar muito os músculos, evitando a dor, mantendo a respiração regularmente, evitando movimentos rápidos e bruscos. Manter a posição de alongamento por cerca de 15 a 30 segundos é o suficiente, e duas ou três sessões semanais já trarão bons resultados para a amplitude de movimentos. Resistência aeróbica: caminhar por pelo menos 30 minutos diariamente e ser atleta maratonista; Força dinâmica: carregar sacolas de supermercado e ter uma boa performance em uma competiçãode natação de meio fundo (200m e 400m); Resistência muscular localizada: varrer a casa e manter o padrão e a eficiência das contrações musculares em uma maratona; Flexibilidade: vestir-se sem auxílio e ser atleta de ginástica artística. Aula 10 - Qualidades ou Valências Físicas relacionadas ao desempenho atlético Resistência Anaeróbica - A resistência anaeróbica é a qualidade física que possibilita a realização de esforços de curta duração e alta intensidade, que têm como fonte energética sistemas anaeróbios de produção de energia, como o ATP-CP e a glicólise anaeróbia. Nos exercícios dependentes dessa qualidade física, principalmente, há déficit de oxigênio, ou seja, o que se capta via respiração não supre a demanda imposta pela velocidade e/ou intensidade das contrações musculares. Quando falamos em resistência anaeróbica, certamente, vem à mente um corredor de 100 metros rasos, prova de altíssima intensidade e curtíssima duração (inferior a dez segundos para homens), o que está correto. Para exercícios de curtíssima duração (até 20 segundos) a energia é fornecida via sistema ATP-CP; após esse tempo e até cerca de 120 segundos, a glicólise anaeróbia é a principal responsável. Há alguns detalhes importantes: mesmo que você corra uma maratona, cuja fonte energética depende do metabolismo oxidativo, há uma pequena contribuição do sistema anaeróbio, pois o organismo é econômico, e, se há fontes energéticas disponíveis de maneira mais rápida e menos custosa, ele as usará primeiramente. Então, sempre que fazemos um exercício, mesmo que seja de média e longa duração, ele utilizará o metabolismo anaeróbio primeiro. Também devemos dizer que a execução de uma série de agachamentos na musculação depende do metabolismo anaeróbio, e envolve esse tipo de resistência. A série dura poucos segundos, e, no intervalo, o corpo consegue recuperar boa parte da energia despendida (ATP-CP). Um detalhe importante sobre o treinamento da resistência anaeróbica refere-se à idade: os esforços que solicitam o sistema anaeróbio lático (glicólise anaeróbia) não são recomendados para crianças e pré-adolescentes, pois eles ainda não têm condições de suportar altas concentrações de lactato. Força Estática - A força estática é solicitada sempre que um músculo ou grupo muscular exerce tensão para vencer uma resistência, mas não há trabalho articular, ou seja, não há movimento aparente. De acordo com Gobbi, Villar e Zago (2005, p. 158), “a resistência é maior que a força produzida, como, por exemplo, empurrar uma parede (...)”. Já que, na vida diária, deslocamo-nos e realizamos movimentos para suprir nossas necessidades, esse tipo de força não tem associação com a autonomia e a independência, e, portanto, com a saúde e qualidade de vida. Em muitas situações esportivas, vemos a manifestação dessa qualidade física, bem como em exercícios que são realizados para a melhoria do condicionamento físico de maneira geral. Força Explosiva - Popularmente conhecida como “potência”, a força explosiva é requerida em situações nas quais altos índices de velocidade e de força são necessários para a execução de um determinado movimento. Nos esportes, temos diversos momentos em que a força explosiva deve estar muito bem desenvolvida. Um exemplo são as partidas dos blocos de saída na natação e no atletismo: para que não se perca tempo e comprometimento do desempenho, especialmente em provas rápidas, o atleta deve realizar uma contração muscular máxima o mais rapidamente possível. Pense, também, nos golpes rápidos e fortes que levam ao nocaute no boxe: são exemplos de muita “explosão muscular”. Velocidade - A velocidade é representada pela distância percorrida, dividida pelo tempo que se leva para realizar determinada ação. Todos os movimentos que fazemos apresentam velocidade, então, não podemos associá-la apenas à velocidade máxima. Segundo Gobbi, Villar e Zago (2005, p. 129), ela “só é conseguida após o segmento corporal ou o corpo como um todo ter percorrido uma determinada distância em um período de tempo, objetivando o máximo de aceleração possível”. Os autores citam como exemplo com a prova de cem metros rasos, na qual a velocidade máxima só é obtida após o indivíduo ter corrido cerca de 30 metros. Talvez você encontre na literatura subdivisões para a velocidade, como “velocidade de deslocamento”, que representa a maior velocidade obtida de um ponto a outro, e “velocidade de deslocamento dos membros”, que está relacionada à velocidade que os membros superiores ou inferiores conseguem atingir na realização de uma determinada tarefa, como numa prova rápida de ciclismo, por exemplo. Outra importante classificação é a “velocidade de reação”, que, popularmente, é chamada de “reflexo”. Essa qualidade física pode ser definida como a condição que uma pessoa tem para reagir o mais rapidamente possível a um determinado estímulo e também é conhecida como tempo de reação. Exemplos: as esquivas de golpes nas lutas e as defesas “à queima roupa” no futebol e no handebol. Agilidade - Quando um indivíduo realiza uma mudança rápida de direção ou muda a altura do seu centro de gravidade, com aceleração e desaceleração, temos uma manifestação de agilidade. Nos esportes, temos muitos exemplos, como os “dribles ou fintas” no handebol e no futsal. Quando desviamos de alguém ou de um objeto rapidamente, também estamos demonstrando nossa agilidade. Um exercício bastante comum nas aulas de educação física que possibilita o aprimoramento dessa qualidade física é desviar de cones dispostos em colunas a certa distância uns dos outros. Tanto a agilidade como a velocidade máxima devem ser desenvolvidas a partir da infância, e ambas tendem a declinar com o envelhecimento. Equilíbrio - O equilíbrio pode ser definido como a capacidade que temos de sustentar nosso corpo contra a ação da gravidade, ou seja, de nos mantermos em pé, em movimento ou não. Nosso corpo possui um centro de gravidade, ponto imaginário que resulta das forças atuantes sobre ele e determina nossa estabilidade; quanto mais baixo ele está e quanto maior for a base que nos sustenta (pernas afastadas auxiliam mais do que pernas unidas), menos perturbação sofrerá nosso equilíbrio. O equilíbrio é subdividido em: É importante saber que alguns fatores se associam e geram uma redução na capacidade de manutenção de uma postura adequada, principalmente, a partir dos 60 anos e, de forma bem intensa, a partir dos 80 anos de idade, aumentando o risco de quedas e, consequentemente, de fraturas ósseas, consideradas um fator de risco para a mortalidade na maturidade. Assim, é fundamental que os profissionais que trabalham com essa faixa etária busquem estímulos adequados e seguros para o treinamento do equilíbrio (dinâmico, estático e recuperado). Coordenação Motora - A coordenação motora envolve a integração entre o sistema nervoso central e o sistema musculoesquelético, possibilitando uma adequada organização dos movimentos, com economia de energia e ótimo rendimento. A coordenação pode se manifestar, de maneira geral, quando os movimentos são diversificados e solicitam vários músculos, fazendo parte tanto de atividades esportivas como daquelas relacionadas com o cotidiano. E, de maneira específica, havendo uma aplicação associada diretamente à técnica de uma modalidade praticada. Outras subdivisões que você provavelmente conhecerá são “coordenação motora fina” e “coordenação visomotora”. A primeira se refere à execução mais precisa e envolve movimentos de pequenos grupos musculares, como vemos no manuseio de instrumentos musicais (um pianista, por exemplo) e de instrumentos cirúrgicos, como um bisturi. A segunda está relacionada à dependência da visão do objeto a ser manipulado, e também é denominada “óculo-manual”: ao rebater uma bola no beisebol e recepcionar um passe no handebol. Atividades com estímulos variados, com e sem manipulação de objetos diversificados, preferencialmente ministradas respeitando a complexidade (do fácil para o difícil) são interessantes para a melhoria dessa valência física.Ritmo - O ritmo está presente em todos os movimentos corporais, e reflete a capacidade que uma pessoa tem de “adaptar-se a uma sequência de movimentos, interiorizando-a e reproduzindo-a de forma repetitiva, em resposta a um mesmo estímulo” (GOBBI, VILLAR e ZAGO, 2005, p. 249). Esses autores ressaltam a presença do ritmo em nossas vidas, exemplificando com o ritmo cardíaco, ou seja, número de batimentos por minuto que o coração executa para fornecer o sangue rico em nutrientes e oxigênio aos tecidos e órgãos corporais. Muitas pessoas associam o ritmo às atividades de dança, mas ele está presente na nossa vida o tempo todo: quando caminhamos ou corremos mantendo uma determinada velocidade, diz-se que atingimos um “ritmo” do exercício. Descontração - A descontração é a valência física que possibilita o relaxamento muscular, podendo ser: Diferencial – quando um grupo muscular ou um segmento corporal relaxa enquanto outro se contrai; Total – quando o objetivo é relaxar a maior quantidade de músculos possível. Um exemplo de descontração diferencial ocorre quando você pega um par de pesos e flexiona os cotovelos, erguendo-os. O exercício é conhecido como “rosca bíceps” ou “flexão de cotovelos”. Os músculos da região anterior do braço se contraem para que o movimento ocorra, enquanto a região posterior relaxa. Na descontração total, imagine uma pessoa deitada intencionalmente percebendo os graus de tensão de diversas partes de seu corpo e buscando relaxá-las ao máximo! Pense num esporte e cite pelo menos três qualidades físicas estudadas nesta aula que são importantes para uma excelente participação no mesmo. Exemplo: Handebol Coordenação motora, agilidade, equilíbrio dinâmico, resistência anaeróbica e força explosiva.