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Introdução Você está iniciando uma nova etapa de seus estudos de Filosofia. O trajeto que você já percorreu até aqui, na disciplina, foi muito bem traçado! Isso te credencia a estudar esta Unidade, que, com toda a certeza, te exigirá muita atenção. Tenha um ótimo estudo! O que pode a linguagem? Fonte: http://bit.ly/1HKI535 O ser humano é o único ser que diz. Ou seja, é o único ser que se expressa de muitas maneiras além da produção de palavras comunicadas através de sons vocais e símbolos de variadas naturezas. À multiplicidade de formas de comunicação desenvolvida pelo homem em sua história e na singularidade de cada cultura dá-se o nome de linguagem. SAIBA MAIS! No site da Revista Signumvocê poderá ler muitos estudos sobre a temática em questão. Aristóteles, filósofo grego que já estudamos em alguns momentos, afirmou que o homem é um animal racional e é, também, um animal social. A realização das necessidades humanas em função do existir é, portanto, relacional. Não dá para ser sem o outro. Evidentemente, daqui nasce uma grande questão de necessidade de se comunicar. E essa dimensão relacional do existir humano envolve todo o contexto de realidade, imediatamente chamada natureza, sociedade etc. No grande esforço de conviver com todas essas mesmas realidades e principalmente com os demais seres humanos, o homem desenvolveu a linguagem. Num primeiro momento, a linguagem se caracteriza por essa questão imediata: a grande necessidade de comunicação do homem com o meio e os outros com os quais deve existir em função da grande necessidade de se situar no mundo como pessoa, isto é, tendo consciência do seu contexto de existência e ao mesmo tempo resguardando-se na sua condição de poder ser humano. Antes de preocupar-se com o que se pode fazer ou alcançar com a linguagem, seria interessante saber o que ela é, embora a questão da utilidade não possa ser ignorada. “A linguagem é um sistema de signos ou sinais usados para indicar coisas, para a comunicação entre pessoas e para a expressão de ideias, valores e sentimentos” (Chauí, 1997, p. 141). Signo é algo que pode estar no lugar de outra coisa e representá-la sob algum aspecto (Chauí, 1997). Fonte: http://bit.ly/1G6dOiy Por exemplo, apresentar-se com a cabeça baixa pode ser expressão de humildade ou humilhação pela qual alguém esteja passando em determinado momento de sua vida. Daí a linguagem apresentar uma função conotativa, pela qual é capaz de indicar coisas, interpretações e definições. O uso das palavras, por exemplo, apresenta essa função denotativa (emprego de palavras no seu sentido próprio). Pode também apresentar uma função conotativa (sentido referencial, literal, cada palavra remete a inúmeros outros sentidos), pela qual a linguagem pode expressar sentidos ou significados diferenciados, de acordo com a visão de quem a exerce ou do contexto no qual ela é exercida. Por exemplo: a expressão “martelar os ouvidos” pode indicar um sentido conotativo de pedir para alguém parar de ficar falando alguma coisa repetidamente: Fonte: http://bit.ly/1G6dOiy -Ah, pai, por favor!!! -Não! Para de martelar meus ouvidos! SAIBA MAIS! Para você recordar a denotação e a conotação, leia a seguinte aula: http://www.soportugues.com.br Ainda sobre o conhecimento do que é a linguagem, desde a Antiguidade grega, sua origem é concebida a partir de dois pontos de vista. Primeiro, o surgimento da linguagem é atribuído a uma causa natural, recebida de uma divindade. Segundo, originada pela ação do próprio homem, que mediante uma convenção poderia ter inventado um ou outro termo para designar as coisas. Nesse segundo caso, a linguagem se torna arbitrária, pois os homens que criam a linguagem e, talvez, nesse caso, esteja a explicação para a diferenciação das várias línguas. Nesse contexto, a linguagem surgiu quando o homem começa a imitar, pela voz, os sons da natureza (onomatopeia). Também teria surgido quando o homem, através de gestos, procura interpretar as coisas à sua volta, colocando depois os sons naquilo que já mostrava através de suas expressões corporais. Ao desejo de satisfação das necessidades humanas também é atribuída a origem da linguagem, já que o ser humano teria criado um vocabulário rudimentar a partir de sons expressos nas várias situações de busca da sobrevivência e que depois teria se tornado mais complexo. Nesse sentido, a origem da língua também poderia estar atrelada a sons colocados na maneira de o homem reagir emocionalmente em relação às várias situações da vida – medo, prazer etc (Rousseau, 1997). De certo modo, a função da linguagem já está presente em sua definição: Possibilitar ao homem a comunicação com o meio onde vive e situá-lo em sua existência no mundo. De forma um tanto mais didática e fazendo aprofundamento, destacaríamos essas funções na tabela a seguir, como: Função Descritiva Função Comunicativa Função de Valor Existencial Pela função descritiva, ao fazer uso da linguagem o ser humano denota, descreve de modo real o que uma coisa é, no alcance de sua verdade. Essa função foi muito buscada pela corrente filosófica neopositiva e pela filosofia analítica, colocando a linguagem da ciência como a linguagem primordial e verdadeira do homem, desvalorizando outras formas de linguagem - como a artística, por exemplo. Wittgestein defende essa posição em sua obra Tractatus Logico Philosoficus; essa posição foi contestada por outros filósofos, que na esteira de Kant, mostraram que existem dimensões da realidade que estão além da possibilidade de compreensão da razão científica, de base lógico-matemática. Pela função comunicativo, ao fazer uso da linguagem, o homem, além da sua dimensão cognoscitiva, de conhecimento, desenvolve também sua capacidade de ser presença diante do outro e acolher o outro como presença diante de si (Mondin, 1980, p.42), tanto em sentido positivo como negativo. A linguagem, portanto, permite ao ser humano que se abra diante da realidade, que saia do seu invólucro próprio do eu e chegue a possibilidade de existência do outro, como confirmação ou negação do seu existir. Nesse sentido, a linguagem pode até desenvolver uma realidade ambígua, pois a confirmação si pode não ser a sua verdade, e a negação de si pode não ser a sua falsidade. Mas, independentemente desses resultados, a linguagem tem grande valor de não permitir qe o ser humano esteja alheio as coisas e aos outros que o circunda. A ambiguidade da linguagem sempre esteve presente nos grandes questionamentos sobre a busca da verdade desde os sofistas, e com Sócrates, Platão, Santo Agostinho, Descartes até os dias de hoje. Pela função de valor existencial, quando o ser humano faz uso da linguagem, além da função descritiva ou comunicativa, descrevendo objetos ou comunicando sentimentos, ela surge com a possibilidade se comunicar aos outros sua existência. A palavra dá um significado mais exato às expressões de existência e a seus significados. O ser humano desenvolve sons específicos e até palavras próprias, os ditos palavrões, com os quais se comunica de modo mais exato e real uma atitude de agrado ou desagrado em relação a um fato de existência, no sentido da afirmação ou da negação, de modo imediato, independente de uma análise cognitiva desse mesmo fato. A contribuição grega dos sofistas A Filosofia nasceu na antiga Grécia com o propósito de buscar um fundamento que pudesse resolver a questão do caos da realidade, tido como aparente, e situar o homem em relação ao mundo onde vive. Foi a busca pelo famoso princípio primeiro (arqué) da realidade; a busca de um universal a partir do qual tudo pudesse ser explicado e resolver o problema do absurdo gerado pelo caos: uma justificativa de existência. Um pouco mais tarde, a partir de Sócrates, essa questão tornou-se, em sentido mais estritamente filosófico, a busca da sabedoria pela busca da verdade, descrita como absoluta na demonstração filosófica socrática e perseguida tenaz e metodologicamente pela maiêutica (diálogo irônico entre o mestre e o discípulo– já estudamos sobre a maiêutica no tópico 3 – “As formas de conhecer o mundo”, constante na Unidade II, Filosofia e conhecimento); a busca da sabedoria através de um diálogo crítico sobre as aparentes e “falsas verdades”. Anteriormente ao posicionamento de Sócrates, os sofistas estavam presentes na cultura grega. Eram homens que desenvolveram habilmente a capacidade de uso da razão de modo instrumental, isto é, com o objetivo de realizar determinados interesses. Eram capazes de usar a razão independentemente do compromisso de busca da verdade no sentido socrático, mas sim no desenvolvimento de uma atitude prático-utilitarista: Prático no sentido do imediatismo e utilitarista no sentido de tirar proveito imediato da capacidade humana de argumentar no uso correto da linguagem, sabendo organizar e expressar pela fala os pensamentos, convencendo sempre alguém sobre algo. ORIGENS DA SOFÍSTICA Sofista é um termo que designa “sábio”. A sofística, embora aparentemente interessante, não usufruiu de uma boa fama, sobretudo pelas constantes referências de Sócrates, Platão e Aristóteles. Estes entendiam a sofística como um falso saber, bem como sem interesse real de buscar pela verdade, acusando os sofistas de procurarem apenas lucro. Segundo Werner Jaeger: “Os sofistas são um fenômeno tão necessário quanto Sócrates e platão; aliás, sem eles, estes são absolutamente impensãveis”. Os sofistas, embora criticados por essa atitude, não podem ser desprezados como pessoas de cultura que foram, capazes de desenvolver o uso da razão no exercício da linguagem. Interessante é que, na elaboração de sofismas (argumento com aparência lógica correta e conteúdo falso), os sofistas já antecipavam o uso da estrutura da razão (lógica) na construção de demonstrações sobre aquilo que se queria mostrar anteriormente no Organum (obra em que Aristóteles mostrou o conhecimento sobre a estrutura da razão: a lógica). De certo modo, está aí presente um grande valor humano de uso da linguagem como possibilidade de produção e comunicação de conhecimento, embora independente das conclusões a que se pudesse ter chegado. A FINALIDADE DA SOFÍSTICA Os sofistas operam uma importante revolução espiritual no homem grego, deslocando o eixo da reflexão filosófica da physys e do cosmos para o homem e para aquilo que conceme a vida do homem como membro de uma sociedade. Seus temas preponderantes são a ética, a política, a retórica, a arte, a linguagem, a religião e a educação. INÍCIO DO PERÍODO HUMANISTA Há três grupos de sofistas: 1) o primeiro grupo de sofistas tem o reconhecimento de platão por serem dignos do ponto de vista moral, por terem justamente uma rígida moral; 2) os "erísticos", que perderam o apego moral e levam o aspecto formal do método a esxasperação, perdendo interesse pelo conteúdo; 3) os "políticos-sofistas", são ideólogos, usam suas ideias com finalidades políticas. IMPORTANTES ASPECTOS DA SOFÍSTICA 1) Os sofistas visavamobjetivos práticos - com os sofistas,o problemas educacional emerge para o primeiro plano e assume um novo significado. Afirmavam que o areté, isto é, a virtude, funda-se no saber. 2) Mostravam uma grande confiança no uso da razão. 3) realmente os sofistas exigiam pagamento por seus ensinamentos. Para os antigos, isso era um escândalo, pois assim, apenas os aristocratas poderia ter a possibilidade de uma melhor educação. A reabilitação contemporânea dessa modalidade de discurso A atitude sofista no uso da linguagem, mais tarde reforçada por Aristóteles, influenciou largamente a cultura ocidental. O ser humano passou, já a partir de Sócrates e na sequência de toda a filosofia e, mais tarde, da ciência, a usar a capacidade humana de pensar com ordem, com lógica, na desafiante missão do uso da linguagem para a construção do conhecimento e consequente busca do que poderia ser “o verdadeiro”. Na tradição cultural do Ocidente, o desenvolvimento da filosofia praticamente até o século XIX tornou-se acentuadamente marcado com forte racionalismo, cujo ápice se realiza na visão de mundo hegeliana: “A razão idealisticamente se projeta como espírito absoluto guiando todo o processo histórico de realização da humanidade” (Hegel, 1985). APROFUNDANDO! Estudaremos mais sobre o espírito absoluto de Hegel no tópico 2, “Tópicos sobre o pensamento político moderno”, constante na unidade IV- Filosofia e Política. A linguagem da ciência, por sua vez, junto com o sucesso cultural, ao qual se agrega o sucesso econômico da produção de bens e serviços na atividade socioeconômica pelo desenvolvimento tecnológico, se impõe de modo imediato como o exercício humano da capacidade de comunicação pela linguagem de modo acentuadamente utilitarista. Além disso, a ciência se torna presença marcante e preponderante na cultura, ditando uma forma de expressão – e, portanto linguagem – a partir da onipotência da objetividade científica, presumidamente tida como realização antiga de um grande anseio da humanidade que vem desde a Grécia antiga, em que o ser humano quer ter um posicionamento de segurança e certeza diante do aparente caos da realidade. A linguagem, nas suas vertentes de língua, fala (dizer) e palavra, e mais ainda como expressão existencial total, se afirma na perspectiva instrumental de condição de produção para a satisfação de necessidades imediatas, obscurecendo a visão mais total de realização existencial. Aí surge a linguagem da exatidão, do fundamento lógico-matemático, da determinação da objetividade e da certeza do homem como dominador da realidade e de si mesmo. Fonte: http://bit.ly/1KNlo4o A linguagem se acentua de forma cada vez mais instrumental, e, como na própria ideia do que é um instrumento, passa a ter valor e justificativa de existência a partir de determinada função. A linguagem se torna rigorosa, técnica. Talvez aqui pudéssemos, entre tantos exemplos, admitir a possibilidade de exercício de: Uma linguagem tecnicamente jurídica, que não fosse humana, uma linguagem econômica em que a questão humana não é discutida, uma linguagem política em que a questão humana não fosse contemplada, uma linguagem pedagógica em que o ser humano não conta... Essa atitude instrumental atribuída à linguagem se impõe na cultura ocidental. Vários pensadores se posicionam na busca de entendimento dessa característica emergente no exercício da linguagem, seja para entendê-la e corroborá-la, seja para criticamente refutá-la ou simplesmente colocá-la em seus devidos limites. Terminamos nosso primeiro tópico. A partir do próximo tópico, deve-se começar a aprofundar mais a temática. Então, vamos estudar!