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PROFESSOR Dr. Diego Luiz Miiller Fascina Filosofia da Linguagem ACESSE AQUI O SEU LIVRO NA VERSÃO DIGITAL! EXPEDIENTE Coordenadora de Conteúdo Priscilla Campiolo Manesco Paixão Projeto Gráfico e Capa André Morais, Arthur Cantareli e Matheus Silva Editoração Dario Claros Mercado Design Educacional Giovana Vieira Cardoso Curadoria Cleber Rafael Lopes Lisboa Revisão Textual Ana Caroline Canuto de Sousa Ba- niogli Ilustração André Azevedo Fotos Shutterstock DIREÇÃO UNICESUMAR NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Executiva Chrystiano Mincoff, James Prestes, Tiago Stachon Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho Diretoria de Cursos Híbridos Fabricio Ricardo Lazilha Diretoria de Permanência Leonardo Spaine Diretoria de Design Educacional Paula R. dos Santos Ferreira Head de Graduação Marcia de Souza Head de Metodologias Ativas Thuinie M.Vilela Daros Head de Recursos Digitais e Multimídia Fernanda S. de Oliveira Mello Gerência de Planejamento Jislaine C. da Silva Gerência de Design Educacional Guilherme G. Leal Clauman Gerência de Tecnologia Educacional Marcio A. 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Reflexões Filosóficas. 4. EaD. I. Título. CDD - 22 ed. 401 FICHA CATALOGRÁFICA 02511191 Diego Luiz Miiller Fascina Sou o prof. Diego Luiz Miiller Fascina, responsável pela es- crita de Filosofia da Linguagem, livro que chega agora até você. Esse material foi preparado com bastante rigor e amor, marcas que tento sinalizar em todos os meus traba- lhos. Você perceberá que para além dos inúmeros concei- tos, discussões e reflexões abordadas há uma de minhas grandes paixões enlaçando e, de certa maneira, explicando o conteúdo: a arte. As músicas de Caetano Veloso, os textos de Clarice Lispector, os filmes de Bergman e Tarkovsky, além de tantas outras referências que foram comentadas estão sempre comigo dando sentido para a minha vida. Se tudo é linguagem, a artística é uma das minhas preferidas. Não é à toa que me formei em Letras e fiz especiali- zação em História da Arte. Depois, realizei Mestrado em Letras (Estudos Literários) com uma dissertação sobre a obra de Clarice Lispector. Esse estudo tornou-se um livro cujo título é Clarice Lispector: uma leitura materialista laca- niana, trabalho que muito me orgulha. A base da análise está ancorada no pensamento de Slavoj Zizek, rapidamen- te discutido em uma das unidades. Na sequência, realizei Doutorado em Letras (Estudos Literários) com uma tese sobre a obra do cantor e com- positor Cazuza, lenda e legenda dos anos 1980. Além da obra de Cazuza, a tese também abordou o rock e o Brasil daquela década. Novamente, o escopo para leitura se centrou no materialismo lacaniano de Zizek que, como deve ter ficado explícito, é um dos temas fundamentais de minhas pesquisas. Posteriormente, realizei um estágio de Pós-Doutorado em Ciências da Linguagem, com estudo a respeito de pro- gramas de auditório dos anos 1980, e outro estágio em Psicanálise, com estudo a respeito das obras de Cazuza e de Renato Russo. Na última década, venho realizando formação continuada em Psicanálise com ênfase na obra de Jacques Lacan. Como você pode perceber, esse livro, que agora se inicia, espelha uma faceta daquilo que sou, tanto na vida privada, quanto na vida profissional. Espero que ele seja uma boa companhia. Desejo bons estudos! Um abraço, http://lattes.cnpq.br/5927151835285131 http://lattes.cnpq.br/5927151835285131 “No Início era o Verbo, e o Verbo estava voltado para Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no início voltado para Deus. Tudo foi feito por meio dele; e sem ele nada se fez do que foi feito”. Esses são os versículos do prólogo do belo Evangelho de João. O Ver- bo, mais do que uma categoria gramatical, pode ser entendido como a palavra, aquilo que nomeia uma coisa. No sentido bíblico, o Verbo é a palavra de Deus. E a palavra de Deus tudo criou, inclusive, Jesus que é o Verbo feito carne. Observemos, com mais atenção, a citada passagem evangelística: se tudo é feito pela palavra, se ela é categoria básica da comunicação, se nada se faz sem ela, então é a linguagem o nosso elemento fundador, a nossa fonte da vida, e a nossa tábua de salvação. A linguagem é, também, um oráculo, um Cavalo de Tróia, uma pedra no caminho, uma via de mão dupla. É símbolo da nossa vida primitiva e da nossa mais profunda civilização. Esse é, apenas, o nosso princípio de reflexão acerca da potência da linguagem. Nas cinco unidades de seu material didático, você, estudante, percorrerá comigo, mo- mentos de grande importância para a compreensão desse vasto campo de estudo. O enfoque está nas relações da Linguagem com a Filosofia. É por esse motivo que a Filosofia da Linguagem se tornou uma disciplina com estatuto próprio que enlaça, definitivamente, esses dois campos. Nesse percurso, iniciaremos com os primórdios das reflexões filosóficas a respeito da linguagem até contribuições feitas na época do Iluminismo: o Crátilo, de Platão, alguns textos de Aristóteles até atingir a visão de Locke e de Rousseau. Verificaremos que, gradativamente, essas contribuições foram se injetando, cada vez mais, de preo- cupações de cunho filosófico. É a partir de Frege, Russell e Wittgenstein que temos, pois a sistematização da disciplina conhecida como Filosofia da Linguagem. Essa trindade enlaça filosofia e lin- guagem por meio de conceitos que envolvem o sentido e referência, o atomismo lógico e, de modo mais amplo, em torno de análises que se baseiam nas relações existentes entre linguagem, pensamento e mundo. FILOSOFIA DA LINGUAGEM A Linguagem, por intermédio da Ciência Linguística, também merece destaque: des- de os estudos clássicos, passando pela Idade Média até o Renascimento, no entanto, o foco recai, no pensamento de Saussure e nos desdobramentos de sua contribuição no decorrer do século XX: o gerativismo de Chomsky, as funções da linguagem propostas por Jakobson, a sociolinguística etc. Posteriormente, a Psicanálise é comentada: se, para essa terapêutica, a cura se dá por meio da palavra falada, algumas das contribuições de Freud e de Lacan, seu mais prolífico herdeiro, serão sumariamente expostas: de qual linguagem é feita nossos sonhos? O Inconsciente é estruturado como uma linguagem? E, de fato, a linguagem dá conta de explicitar o que eu desejo? Essas são algumas das reflexões discutidas no decorrer do material. Por fim, mas muito longe de esgotarem as relações entre filosofia e linguagem, o pensamento de Heidegger traz à baila, em um primeiro momento, por meio de Ser e o tempo, a ontologia do ser e, posteriormente, a compreensão da clareira do ser. É a linguagem, o élan e o resultado dessa análise. Como anunciamos anteriormente, é impossível esgotar a compatibilidade existente entre filosofia e linguagem. Dizemos mais: é tarefa ingrata tentar estabelecer um sim- ples mapeamento entre essas relações. Com o conteúdo desse livro não foi diferente:não se assuste, estudante, se em muitos momentos, você sentir falta de referências importantes ou sentir a necessidade de alguma reflexão mais acurada que não veio. É preciso fazer escolhas. E, quando escolhemos, algo é deixado para trás. Esse livro tem o intuito de trazer uma notícia acerca da filosofia da linguagem. Ele deve ser um farol, um trampolim para estudos mais amplos e específicos a respeito dessa área tão significativa e fundamental para a sua formação acadêmica. Espero que ele cumpra essa simples função. Um abraço, O Autor. IMERSÃO RECURSOS DE Ao longo do livro, você será convida- do(a) a refletir, questionar e trans- formar. Aproveite este momento. PENSANDO JUNTOS NOVAS DESCOBERTAS Enquanto estuda, você pode aces- sar conteúdos online que amplia- ram a discussão sobre os assuntos de maneira interativa usando a tec- nologia a seu favor. Sempre que encontrar esse ícone, esteja conectado à internet e inicie o aplicativo Unicesumar Experien- ce. Aproxime seu dispositivo móvel da página indicada e veja os recur- sos em Realidade Aumentada. Ex- plore as ferramentas do App para saber das possibilidades de intera- ção de cada objeto. REALIDADE AUMENTADA Uma dose extra de conhecimento é sempre bem-vinda. Posicionando seu leitor de QRCode sobre o códi- go, você terá acesso aos vídeos que complementam o assunto discutido. PÍLULA DE APRENDIZAGEM OLHAR CONCEITUAL Neste elemento, você encontrará di- versas informações que serão apre- sentadas na forma de infográficos, esquemas e fluxogramas os quais te ajudarão no entendimento do con- teúdo de forma rápida e clara Professores especialistas e convi- dados, ampliando as discussões sobre os temas. RODA DE CONVERSA EXPLORANDO IDEIAS Com este elemento, você terá a oportunidade de explorar termos e palavras-chave do assunto discu- tido, de forma mais objetiva. Quando identificar o ícone de QR-CODE, utilize o aplicativo Unicesumar Experience para ter acesso aos conteúdos on-line. O download do aplicativo está disponível nas plataformas: Google Play App Store https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/3881 APRENDIZAGEM CAMINHOS DE 1 2 3 4 5 ASPECTOS DA LINGUAGEM NOS PRIMÓRDIOS DA FILOSOFIA 11 FREGE, RUSSELL E WITTGENSTEIN: A LINGUAGEM NO CENTRO DA REFLEXÃO FILOSÓFICA 47 77 A CIÊNCIA LINGUÍSTICA 125 PSICANÁLISE E LINGUAGEM 163 OS CAMINHOS DA LINGUAGEM EM MARTIN HEIDEGGER 1Aspectos da Linguagem nos Primórdios da Filosofia Dr. Diego Luiz Miiller Fascina Na I unidade de seu material de estudos, você entrará em contato com alguns momentos fundamentais para compreendermos a evo- lução da Filosofia da Linguagem. Trata-se de comentários a respeito de alguns dos maiores filósofos, não apenas da Antiguidade Clássica, mas da História da Filosofia: Platão, Aristóteles e, também, Porfírio, Boécio, Guilherme de Ockham, Rousseau, dentre outros. Esses filó- sofos, embora não trouxessem para o núcleo de suas preocupações a questão da linguagem, ela aparece de maneira transversal em suas contribuições filosóficas. Dessa maneira, ficará claro para você que, mesmo antes da Filosofia da Linguagem se tornar uma disciplina for- mal, a natureza da linguagem e algumas de suas particularidades já eram discutidas por vários filósofos. UNIDADE 1 12 “Palavras não têm capacidade de traduzir sentimentos. As palavras são moles”. Essa frase foi proferida por Aleksei, personagem do filme O espelho, lançado em 1975, e considerado uma das principais obras do cineasta russo Andrei Tarkovski. A película possui um complexo trabalho estrutural que rompe com a linearidade e permite que o espectador mergulhe em fases distintas da vida do personagem: o pré (1935), o durante (anos 1940) e o pós-guerra (anos 1960 em diante). Nesse turbilhão temporal, símbolos, alegorias, mensagens cifradas, elementos oníricos e espaços distintos vão construindo uma narrativa fílmica repleta de reflexão filosófica e psicanalítica. Uma hipótese de interpretação do título seria, pois, que o espelho é o reflexo do percurso não apenas de Aleksei, mas de todos nós, isto é, enxergamos a nossa própria história, nossos dramas humanos, na tela. E, no caso específico, a própria história da Rússia. Posto isto, de que modo O espelho, especialmente, a frase citada se relaciona com a proposta deste livro? Tanto a frase quanto o filme e, também, a Filosofia da Linguagem compreendem que o homem é um ser de linguagem. Absoluta- mente, tudo que fazemos é linguagem: pensar, expressar sensações e sentimentos, descrever as coisas, elaborar a comunicação. 13 Linguagem é a ponte que conduz o homem ao mundo e o homem a si mesmo. E as palavras moles? Em que sentido essa combinação tão inusitada nos auxilia no entendimento da proposta? A primeira parte da frase explica: as palavras não dão conta de explicar tudo, sempre há muito por se dizer. E é possível que nunca seja dito. Essa possibilidade parece fazer referência a esse que, talvez, seja o grande dra- ma humano: falhar na comunicação. Seríamos, todos nós, seres do engano? Seres atropelados pela linguagem? Afinal, qual é o trabalho da Filosofia da Linguagem? Segundo Frédéric Nef (1995, p. 8-9), uma reflexão de caráter filosófico deve com- binar os seguintes traços: I - Superação do conceito empírico de língua por um conceito geral da lingua- gem, passagem da diversidade das línguas para a unidade da linguagem. II - Existência de uma problemática da origem da linguagem. III - Estabelecimento de uma relação entre a linguagem e as operações do espírito (linguagem e pensamento). IV - Problematização da representação da realidade pela linguagem. V - Avaliação da linguagem como instrumento de ações cognitivas (racio- cínio, expressão das emoções etc.). Partindo destas reflexões iniciais, escolha um texto, um filme ou uma música que problematize a natureza ou outras questões que envolvem a linguagem. Sabemos que tudo é feito de linguagem, mas nesse caso a obra selecionada precisa colocar, em relevo, a problematização citada. Verifique, na obra escolhida, como a linguagem está construída, qual é o nível de comunicação existente entre os envolvidos, quais os efeitos que ela causa. Anote as impressões que tal obra lhe causou, focando a atenção no campo da linguagem. Lembre-se de citar a autoria, o ano de lançamento/ publicação e aspectos do contexto, pois ele auxiliará na compreensão da proposta. NOVAS DESCOBERTAS A seguir, para aguçar sua curiosidade, segue uma crítica de O espelho, feita por Arthur Tuoto: UNICESUMAR UNIDADE 1 14 Agora que já percorremos alguns aspectos pelos primórdios das discussões a respeito da Linguagem, sugiro que você anote, de modo organizado, quais são as principais contribuições de Platão e de Aristóteles, e de que maneira, Porfírio, Boé- cio e Ockham, dentre outros filósofos citados revisam o pensamento aristotélico. Certamente, depois desse trabalho feito, suas reflexões serão mais claras e objetivas. 15 “Dizer algo falso não será dizer o que não é?”: Os impasses com a linguagem em Crátilo, de Platão. Descrição da Imagem: Descrição de imagem: a imagem trata-se de um mosaico romano colorido do século I a.C. Há sete figuras masculinas, formando um semicírculo. O da esquerda está mais à frente da imagem, tem barba e cabelo grisalhos, está com suas mãos levantadas na altura do peito, como se estivesse falando e ges- ticulando, ele veste uma túnica amarela com seu ombro e peito direito desnudo. Perto do seu pé esquerdo, há uma caixa amarela entreaberta. Os outros homens estão sentados e outros em pé, também com túnicas e seus rostos estão voltados para o homem de túnica amarela. Há outra caixa amarela aberta no centro da imagem. Algumas colunas, objetos e árvores no fundo constituem o cenário que é a Academia de Platão. Figura 1 – A academia de Platão Fonte: Wikimedia Commons ([2022]a, on-line). UNICESUMAR UNIDADE 1 16 A linguagem possui papel de atravessamento no desenvolvimento do sujeito, poisé por meio dela que as sociedades se estruturam, criam identidades, organizam pensamentos, além de ser o instrumento da comunicação. Não é à toa que ela tenha chamado a atenção da Filosofia desde os primórdios. A sociedade grega sempre foi afetada pelos efeitos da linguagem, todavia, essa sociedade precisou passar por um processo de negação do uso corrente da oralidade, presente, sobretudo, nas tradições poéticas e religiosas para dar início a técnica da Era Escrita e para estudar, mais profundamente, a linguagem e suas inúmeras habilidades. Monteiro Jr (2010) nos lembra que o século V a.C é um marco expressivo no quesito intelectual para o mundo grego, pois foi nesse período que a linguagem escrita foi propagada. Nessa mesma época, houve o auge do sistema democrático em Atenas, tornando a cidade o centro do mundo antigo. E nesse turbilhão, os primeiros relatos a respeito dos estudos técnicos envolvendo a linguagem apa- recem, sobretudo com os sofistas. Para o crítico anteriormente citado, os sofistas são conhecidos como mestres da oratória ou da retórica e foi por meio deles que a linguagem ganhou caráter autônomo e tornou-se fértil campo de investigação. Os pré-socráticos eram muito interessados na linguagem. Parmênides (530 a. C - 560 a. C), por exemplo, formulou o princípio da correspondência entre o pensamento e o ser. O trecho seguinte é muito explorado: “o que é, é, e não pode não ser; o que não é, não é, e não pode ser; O que é, pode ser pensado ou conhecido, expresso ou realmente nomeado; o que não é, não o pode” (LOPES, 1991, p. 98). Górgias (485 a.C - 380 a. C) também se preocupou com a linguagem, embora não tenha se debruçado exaustivamente sobre o assunto. Acompanhe o fragmento e observe como o filósofo reflete sobre a questão semântica da linguagem: “ Pois se existem seres visíveis, audíveis e universalmente sensíveis, e de uma existência que nos é exterior, desses seres, os visíveis são percebidos pela vista, os audíveis pelo ouvido, e esses sentidos não podem trocar os seus papéis. Assim sendo, como se poderá revelar a outrem esse ser? Pois o meio que temos de revelar é o discurso; e o discurso não é nem as substâncias nem os seres: não são, pois, os seres que nós revelamos àqueles que nos cercam; nós só lhes reve- 17 lamos um discurso que é diferente das substâncias. Assim como o visível não pode tornar-se audível, ou o contrário, assim também o ser que subsiste exteriormente a nós não poderia tornar-se nosso discurso: não sendo discurso, ele não poderia ser manifestado a outrem. Quanto ao discurso [...], sua constituição resulta das im- pressões vindas dos objetos exteriores, isto é, dos objetos da sen- sação: do encontro com o seu saber nasce em nós o discurso que será proferido com relação a essa qualidade, e da impressão da cor, o discurso referente à cor. Se é assim, o discurso não manifesta o objeto exterior; pelo contrário, é o objeto exterior que se manifesta no discurso (NEF, 1995, p. 12). Ainda na Antiguida- de Clássica, uma das primeiras referências à questão advém de Platão (428/427 a. C - 348.347 a. C), um dos filósofos centrais do mundo ocidental: tra- ta-se, mais especifica- mente de Crátilo, um de seus diálogos mais cômicos e difusos. Os estudiosos de Platão afirmam que esse diálogo faz parte da fase intermediária da obra do filósofo, pelo fato de que o texto possui uma es- trutura narrativa que se aproxima dos diálogos aporéticos (da primeira fase), em que Sócrates, com base em seu elenchos, debate os elementos da tese de seu interlocutor, mas se afasta tematicamente, pois trata de linguagem, verdade e significação que eram temas recorrentes da fase anterior. UNICESUMAR UNIDADE 1 18 Em linhas gerais, o Crátilo, de Platão, aborda uma análise “de cada nome- de seu sentido – individualmente, visando o melhor uso das palavras” (MONTEI- RO JR, 2012, p.14). Ademais, além desse estudo individual, havia também, uma espécie de estabelecimento das categorias gramaticais. E “ [...] no que diz respeito a tal investigação, costuma-se dizer que Pro-tágoras teria sido o primeiro a fazer uma distinção das partes do dis-curso (logos) em desejo, questão, resposta e ordem. Teria, também, o mesmo sofista sustentado a distinção dos nomes em três gêneros: masculino, feminino e o que se refere a objetos inanimados. No caso de Górgias, temos um relato de que ele escreveu um onomastikon que visava estudar detalhadamente alguns nomes. Ainda poderíamos falar de outros sofistas, como Pródico, citado por Sócrates, que se ocupou, sobretudo, da distinção entre sinônimos, e Hípias, que tratou do valor das letras e sílabas, dos ritmos e dos modos. Enfim, percebemos que esse estudo acerca das propriedades das palavras era, poderíamos di- zer, um modismo na época dos sofistas (MONTEIRO JR, 2012, p.17). Feito esses comentários, passemos para questões estruturais: podemos dividir essa obra em duas partes, de acordo com os interlocutores de Sócrates: Her- mógenes, que ocupa três partes do diálogo e Crátilo, que ocupa o quarto final. No entanto, a rigor, a obra possui três movimentos: uma rápida apresentação do tema (383a-384e); seguido da primeira parte, composta pelo diálogo entre Sócrates e Hermógenes (385a-427d), contando ainda, na primeira parte, uma longa seção a respeito das etimologias (396d-421c); e, finalmente, o diálogo entre Sócrates e Crátilo (428b-fim). Inicialmente, Hermógenes expõe para Sócrates as questões que se confrontam em relação ao fundamento da linguagem: Hermógenes afirma que os nomes são usados corretamente quando seguem convenção (syntheke) ou acordo (homo- logia) e dependem do uso e do costume (nomos e ethos). Já para Crátilo, cada coisa tem apenas um nome por natureza (physis) e tal denominação é a mesma para todos, gregos e bárbaros. Em outras palavras, para Crátilo, as coisas têm um nome apropriado que fogem da denominação que lhes foram convencionadas, se aproximando, dessa maneira, da teoria naturalista dos nomes. Já para Hermó- genes, os nomes são convenções humanas. 19 Frente às duas posições, Sócrates decide examiná-las. É interessante perceber que Platão traz à baila um debate comum na época dos sofistas: a oposição entre nomos e physis; e em Crátilo há duas figuras cujas correntes de pensamentos são diferentes: Hermógenes que se relaciona com as inovações temáticas tratadas pe- los sofistas e Crátilo, que segue a linhagem tradicional dos primeiros pensadores gregos, sobretudo Heráclito. Em um primeiro momento, o diálogo se funda em sua crítica, pois a “conse- quência mais imediata seria a total impossibilidade de conhecimento por meio da linguagem, devido ao seu caráter completamente arbitrário, dando nesse caso razão aos sofistas, para os quais basta falar para dizer a verdade” (PIQUÉ, 1996, p.172). Sócrates busca reduzir essa questão arbitrária ressaltando a importância da convenção para a coletividade em detrimento do subjetivo. Posteriormente, no decorrer do diálogo, ele “limita a convenção a convencionar o verdadeiro” (PIQUÉ, 1996, p.172). Como Hermógenes se põe resistente, Sócrates critica a tese de Protágoras da não-existência nas próprias coisas de uma essência de algum modo permanente” (PIQUÉ, 1996, p.172), pois para o sofista, não há essência, só aparência, isto é, não há verdade absoluta, porque todo conhecimento é pessoal. UNICESUMAR UNIDADE 1 20 Dessa maneira, para Sócrates, as coisas são em si mesmas, possuem essência permanente, não dependem da relação estabelecida co- nosco e não podem ser deslocadas de sua essência para explicar nossas fantasias. Nessa esteira, Piqué (1996, p.172) conclui: “ Assim, o Mundo, sejam os objetos, sejam as ações, tem uma organização permanente. A diferença ne-cessária entre o bom e o mau, o judicioso e o insen- sato, a razão e a sem-razão, diferença esta herdada por Platão do socratismo puro, implica nisso. Da mesma forma que a natureza de um corte depende da nature- za do objeto cortante e da naturezado objeto cortado, o dizer humano deve procurar recortar o Mundo se- gundo a natureza desse mesmo Mundo. Toda técnica humana, techne, se apoia na physis e age conforme sua própria natureza. Exemplificando: se uma tesoura corta uma folha de papel, é porque a folha é “cortável”, isso faz parte de sua natureza. O Mundo também, “se é recortado” pela linguagem, é devido a sua natureza, da qual faz parte ser recortável assim, ou dizendo o mesmo de outro modo, “conjuntizável” assim, já que o que existe é uma única operação: separar-reunir. Mas isso não significa que o seja de qualquer maneira. O Mundo não admite qualquer sentido. No desenvolvimento do diálogo, mais especificamente na terceira parte, Hermógenes se põe resistente à crítica de Sócrates e solicita um exemplo da natural exatidão dos nomes. Sócrates corrige, afirman- do que, na verdade, trata-se de uma certa correção e não de nomes exatos, concluindo que há algo de certo no que Crátilo afirma, em outras palavras, que os nomes das coisas derivam de sua natureza. A partir daí, Sócrates cita 140 nomes para criticar o natura- lismo linguístico e para expor as falhas do método etimológico. Inclusive, Sócrates sugere que Hermógenes observe os poemas homéricos, pois neles há uma distinção entre os nomes dados por 21 deuses e os nomes dados pelos homens, como é o caso do rio Xan- to-Escamandro ou Astianax-Escamandrio para o filho de Heitor. Na quarta e última parte do diálogo, Platão faz uma crítica fer- renha à teoria naturalista e suas teses. Ele refuta, conforme Piqué (1996), que a correta aplicação dos nomes consiste em observar como a coisa é constituída, pois a criação desses nomes primi- tivos implica erros e falsidade entre as palavras. Para Sócrates (1973), os nomes não são reproduções exatas e a sua natureza é a de apresentar semelhanças, uma vez que a própria representação não deixa de ser uma representação. Ou seja, “não é como dizia Hermógenes, nem falsas nem verdadeiras, e nem como Crátilo, para o qual eram sempre verdadeiras” (PIQUÉ, 1996, p.179). Dessa forma, para Platão, um objeto só seria bem nominado se os seus traços estivessem presentes no onoma. Como não é possí- vel, uma vez que há letras sem semelhanças que transmitem outros sentidos, a comunicação precisa de elementos da convenção para constituir a naturalidade da coisa. Platão (1973) também critica a tese de que a enunciação dos nomes tem por finalidade a instrução sendo seu único método verdadeiro, pois, como já foi salientado, os nomes podem trazer em si um elemento da convenção que é arbitrário ou porque pode haver erros na denominação e porque só é possível conhecer as coisas pelos nomes. Como os primeiros responsáveis por nomearem as coisas no- mearam as coisas sem os nomes primitivos ainda fixados? Para resolver essa questão, Platão descarta rapidamente uma explicação divina e afirma que o estudo das coisas deve vir da própria coisa e não por meio de seus nomes. A questão da mobilidade das coisas sensíveis, traz para o cen- tro da roda a impossibilidade de se pensar em um discurso ver- dadeiro ou até conhecido. Crátilo, que acreditava piamente em sua teoria, preferia apontar o dedo quando fosse fazer referência para algo. Acompanhemos um trecho do diálogo: UNICESUMAR UNIDADE 1 22 Crátilo – De que modo, Sócrates, dizendo a alguém o que diz, poderá não dizer o que é? Dizer algo falso não será dizer o que não é? Sócrates – Esse conceito, camarada, é por demais sutil, tanto para mim como para minha idade. Não obstante, responde-me ao seguinte: admites que não se possa dizer falsidade, mas que se possa falar? Crátilo – Penso que nem falar, também! Sócrates – Nem chamar ou saudar alguém? Por exemplo, se alguém te encontrasse no estrangeiro e, tomando-te da mão, te dissesse: Salve, fo- rasteiro Ateniense, Hermógenes, filho de Esmicrio! Essa pessoa diria, ou falaria, ou se dirigiria, ou saudaria, não a ti, mas ao nosso amigo Hermó- genes? Ou a ninguém? Crátilo – No meu modo de pensar, Sócrates, o que essa pessoa dissesse careceria inteiramente de sentido. Sócrates – Com isso fico satisfeito. Porém, falando desse jeito, quem as- sim falasse teria dito verdade ou mentira? Ou parte do que dissesse seria verdade, e parte mentira? Isso também me bastará. Crátilo – Diria que essa pessoa só produzi- ra um ruído, e que se agitara inutilmente, como se dá com o objeto de metal que percutimos. (PLATÃO, 1973, p.170-171) 23 Observe, no fragmento anterior, que Platão aponta que o discurso possui nature- za híbrida, ou seja, é falso e verdadeiro. A palavra, no sentido platônico, é a repre- sentação do inteligível e mesmo que problemáticas, as duas teses, de Hermógenes e de Crátilo, se convergem, pois possuem algo do verdadeiro eidos do onoma. Nos aproximando mais especificamente do interesse desse tópico, a per- gunta que insiste é a seguinte: de que maneira, o Crátilo, de Platão, é um texto importante para pensarmos a filosofia da linguagem e situá-lo, aqui, nos primórdios dessa discussão? Essa resposta é, deveras, complexa. Que o Crá- tilo traz a linguagem e seus usos é um fato incontestável, ademais, apresenta algumas linhas de pensamento e suas possíveis falhas e faz menções aos pen- sadores fundamentais para o estudo da linguagem, inclusive, algumas dessas bases aparecerão, mais pormenorizadamente, em outro diálogo platônico, o Sofista. Mas foquemos em mais alguns pontos da última parte do diálogo. Na argumentação que tem o intuito de desmontar o posicionamento de Crá- tilo, há um certo pessimismo com a linguagem. Esse pessimismo está relaciona- do com a afirmação de que se, de fato quisermos conhecer as coisas, devemos nos focar nelas e não em seus nomes, uma vez que elas são imagens imperfeitas. Platão parece querer propor outro tipo de contato quando desvaloriza o nome como canal de acesso, mas esse novo contato não é mencionado no Crátilo. Esse posicionamento abre margem para que alguns estudiosos pontuem que não há uma filosofia da linguagem em Platão. É o caso, por exemplo, de Aubenque (1974), que afirma que para Platão a filosofia não se deve tornar uma ciência das palavras, mas um estudo a respeito das coisas tais como elas são. Já Goldschmidt (1940) compreende que o Crátilo é uma vitrine que demonstra pontos de algumas teorias da linguagem daquela época, e que Platão tinha em mente um projeto mais audacioso: a construção de uma linguagem ideal em que os estudos de todos os nomes serviriam para uma verdadeira filosofia. Esse crítico, afirma, ainda, que Platão reconhecia o limite dos nomes, e que também reconhecia que a dialética transcende os nomes, mas como atividade, depende deles e, por esse motivo, é preciso criar uma terminologia que atenda às necessidades filosóficas. UNICESUMAR UNIDADE 1 24 Dessa maneira, a resposta para a pergunta feita, se há ou não filosofia da linguagem em Crátilo, essa aula não pretende entrar na disputa. O intuito aqui é explicitar que Platão tratou a linguagem. Esse tratamento foi feito de modo inovador, pois Platão se afastou de duas teses recorrentes nos estudos lin- guísticos do período: o relativismo-subjetivista dos Sofistas e o pensamento naturalista dos Pré-Socráticos. Ademais, esse diálogo platônico nos dá uma dimensão bastante interessante a respeito do desenvolvimento da linguística no mundo grego, além de nos deixar um material importante para compreen- dermos a linguística dos gregos. Borba (1971) contribui e esclarece a discussão afirmando que, sendo três interlocutores - Crátilo, Hermógenes e Sócrates, “ O primeiro defende o entranhamneto entre a palavra e o objeto; o segundo discorda e diz que a dominação precede consoante o uso e pede a opinião de Sócrates. Este concorda com Crátilo e cita uma série de exem- plos – os heróis (gr. heroes) recebem tal nome porque são filhos do amor (eros) entre um deus ou deusa e um mortal ou porque são hábeis oradores (gr. réto- res); ou deuses (gr.theoi) se identificam com astros,e o sol, a lua e a terra têm por natureza girar (gr. gyreuo). Acrescenta também que as letras têm determinadas propriedades e por meio delas se pode chegar a uma correlação entre o nome e a coisa: r denota vibração – rheo (fluir), rhóe (corrente); l é brando e fluido – leios (liso), lícarós (untuoso) etc. Não se sabe se Sócrates brincava ou falava a sério porque logo depois diz que tal não é exato como se vê em sklerós (duro) apesar do l. (BORBA, 1971, p.13) Pensemos, a partir de agora, no posicionamento aristotélico a respeito da linguagem e nos embates estabelecidos com o pensamento platônico. 25 A Questão da Linguagem em Aristóteles Embora não haja, em Aristóteles (384 aC - 322 a. C), um tratado específico a respeito da linguagem, ela é ponto fundamental de sua filosofia, pois é relacionada com as questões que envolvem à lógica e como possibilidades de diferentes formas de ex- pressão, tais como a poesia, a retórica, o teatro etc., basta pensarmos, por exemplo, em alguns de seus mais famosos textos: a Metafísica, a Poética, a Retórica, o con- junto enfeixado em Órganon. Em outras palavras, para esse filósofo, a realidade só pode ser examinada por meio da compreensão do funcionamento da linguagem. Descrição da Imagem: na tela vemos Aristóteles. Ele está sentado, com as pernas semicruzadas, veste túnica marrom e sandálias. Possui barba e é ligeiramente calvo. E faz anotações em um papel enquanto observa fixamente algum ponto que não é apresentado ao espectador da tela. Figura 2 - Aristóteles, de Francesco Hayez (1811) / Fonte: Wikimedia Commons ([2022]b, on-line). UNICESUMAR UNIDADE 1 26 Diferentemente de Platão, Aristóteles não pensa na “doutrina semântica da decomposição da proposição em nome e verbo (em onoma e rhema), e sim da decomposição da proposição em sujeito, cópula e predicado” (NEF, 1995, p.18). Ademais, como já salientamos, “ [...]não encontramos em Aristóteles uma obra específica sobre a linguagem ou semântica. Encontramos, sim, em várias obras, o exa-me da linguagem visando outros temas (lógica, inferência, a disputa contra os sofistas). Pode-se dizer que é nos textos lógicos, retóricos, sobre a argumentação, que se descobrirão as suas opiniões sobre a linguagem (NEF ,1995, p. 20). Descrição da Imagem: : a imagem é uma fotografia das ruínas de uma antiga biblioteca romana cons- truída em mármore, o ângulo da foto está de baixo para cima, voltada um pouco na diagonal para a esquerda. Na direita, há um texto talhado em uma parede estreita na língua grega com aproximadamente vinte linhas. Logo do lado direito, há uma base de uma coluna, há uma frase talhada em grego. Na parte esquerda da foto, tem cinco colunas Coríntias, e mais quatro colunas do mesmo estilo na parte cima das ruínas. No centro ao fundo, há uma parede com uma janela e o que parece ser uma estátua. Figura 3 - Inscrição de um texto em grego na Biblioteca de Celsus, na antiga cidade grega de Éfeso, atual Turquia 27 Na Poética, por exemplo, Aristóteles traz os enunciados e os elementos que o compõem, a citar: sílaba, conjunção, nome, verbo e as flexões nominais e verbais. Ademais, para o estagirita, um enunciado ou é uma coisa apenas ou é o resultado da junção de várias partes, o importante é diferenciar quais elementos possuem sentido e indicam referência. Por exemplo, nomes como Luís indicam referência, pois demarcam uma singularidade, enquanto conjunções do tipo “de agora em diante” não demarcam referência. E, como sabemos, a conjunção é elemento fun- damental em um enunciado, pois é a responsável pela ligação entre nome e verbo. Ainda sobre a Poética, é importante mencionar que ela se tornou, com o de- correr dos séculos, um marco fundamental para os estudos literários. Conceitos como os de arte, poesia, imitação, catarse, verossimilhança, dentre tantos outros, possuem imensa repercussão na história da arte e são renovadas e expandidas até os dias de hoje pelas modernas teorias. Na Poética, Aristóteles examina os gêneros literários e afirma que todos eles têm um ponto em comum: o caráter mimético, isto é, a recriação poético-ficcional da realidade. O filósofo vai afirmar, conforme Abrão (1999), que a poesia é o gênero que mais se aproxima da filosofia. Em uma sucinta comparação, enquanto o historiador narra fatos particulares, a poesia “encadeia os acontecimentos imaginados segundo suas causas necessárias. Nesse sentido, a poesia tende para o conhecimento do universal, que é o objetivo máximo da filosofia” (ABRÃO, 1999, p.67-68). Em Da interpretação, há a diferenciação entre nome, que é o som que possui sig- nificação, e o verbo, aquilo que acrescenta à sua própria significação. Faz-se impor- tante salientar que tanto o nome quanto o verbo possuem significação determinada, por esse motivo o verbo “sempre indica algo afirmado a respeito de alguma outra coisa [...] o verbo é sempre signo daquilo que se diz de outra coisa, saber de coisas pertencentes a um sujeito ou contidas em um sujeito (16b8-16b10)” (NEF, 1995, p. 24). A partir daí está estabelecida a relação entre as palavras, as ideias e as coisas postas no mundo, porém, como saber se um enunciado é verdadeiro ou equivocado? “ O homem real se reciproca segundo a consecução de existência com a asserção que é verdadeira a seu respeito. Efetivamente, se o homem existe, a asserção pela qual dizemos que o homem existe também é verdadeira; e, reciprocamente, se a asserção pela qual nós dizemos que o homem existe é verdadeira, o homem também existe. Entretanto, a asserção verdadeira não é, de modo algum, causa da UNICESUMAR UNIDADE 1 28 existência da coisa (pragma); pelo contrário, é a coisa que parece ser, de certa forma, a causa da verdade da asserção, pois é da existência da coisa ou da sua não existência que depende a verdade ou a falsi- dade da asserção (Categorias, 14b14-22) (NEF, 1995, p. 26) Ademais, como salienta Neves (1981), Aristóteles analisa o suporte biológico da função linguística quando fala da voz como um som ouvido. O filósofo observa que não há um órgão para a fala, uma vez que para que a voz seja produzida é necessária a ação de órgãos já capazes de funções biológicas determinadas. “A voz é condição para a linguagem, mas não é a linguagem. A capacidade de articular sons implica a capacidade de emitir sons, mas a recíproca não é verdadeira” (NEVES, 1981, p.57). NOVAS DESCOBERTAS Para saber mais a respeito do pensamento de Aristóteles, assista ao vídeo Pensadores - Quem somos nós?, elaborado pelo prof. Dr. Roberto Bolzani Filho. Segue o link: Na Política, Aristóteles explica a natureza da linguagem. O zôon politikón está ir- remediavelmente ligado à faculdade do falar, porque sem linguagem não haveria sociedade política. Portanto, o homem é um animal político que, naturalmente, vive em sociedade. Ao tratar desse tema, Aristóteles, contrariando Platão, não se interessa pela idealização de uma cidade justa. Ele revela uma marca muito forte de seu tempo: “o ideal da pólis já é letra morta, perante a expansão militar da vizinha Macedônia” (ABRÃO, 1999, p. 67). De acordo com Neves (1981, p.58), “ A natureza não faz nada em vão e, dentre os animais, o homem é o único que ela dotou de linguagem. Sem dúvida a voz (phoné) é uma indicação de prazer ou de dor, e também se encontra nos outros animais; o lógos, porém, tem por fim dizer o que é conveniente ou inconveniente e, consequentemente, o que é justo ou injusto. Isso é, com efeito, o que é característico do homem em face dos outros animais: que só ele tenha o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto ou outros valores semelhantes. E é a possessão comum desses valores que faz uma família e um Estado. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/11156 29 Aristóteles (1968) afirma que a linguagem se faz presente no homem pelo fato de ele ser um animal político, e essa vocação poderá ser cumprida por causa de tal recurso. É por meio da articulação entre voz e da palavra que é possível distinguiro bem do mal, aquilo que é justo do que é injusto e assim por diante. Na relação estabelecida entre a questão biológica e a questão do homem como animal político, Neves (1981) salienta alguns pontos em que o logos é posto: além da linguagem ser natural ao homem, pois corresponde à sua racionalidade e a finalidade de animal político, a crítica afirma que a linguagem é um exercício político e, por esse motivo, existe acordo (nomos, synthékc) na fundação da lin- guagem. Esse acordo é ainda propiciado pela capacidade intelectual do sujeito, que tem a capacidade de entender a referência ao campo da linguagem. Por fim, assim como existe o Estado, Neves (1981) informa que existe uma forma de lin- guagem acabada que também expressa a verdade e atinge um discurso que reflete a possessão comum da sociedade política perfeita. A respeito das palavras e das coisas, há duas definições aristotélicas que apa- recem em Categorias: os homônimos e sinônimos. Homónyma são aquelas coisas nas quais apenas o nome é comum, enquanto a noção do nome é ampla; e Si- nónyma são coisas que possuem comunidade de nome e identidade de noção. “ Assim, os nomes são símbolos das coisas, mas a relação entre o conceito (noéma) e o sinal (semeion) ou entre a coisa (prâgma) e o nome (onoma) não é sempre de congruência. Não se cobrem sempre inteiramente con- ceito e palavra. O que está no som é símbolo do que está na alma, mas não necessariamente o conceito que está no som, o significado, é congruente com o conceito que está na alma, embora só sob as formas de linguagem possam ser apreendidos os conteúdos mentais (NEVES, 1981, p. 59). Conforme aponta o fragmento anterior, embora haja correspondência entre a tríade conceito, palavra e objeto, não há, obrigatoriamente, congruência. Em ou- tras palavras, a expressão expõe a relação conceitual e, por isso, a coisa, mas entre a coisa e o nome não há uma relação de semelhança. O estagirita desenvolve essa questão, com mais propriedade, em Da inter- pretação, texto em que afirma que o está emitido nos sons da voz é símbolos dos estados da alma e as palavras são símbolos do que é emitido pela voz. Neves (1981, p.60) completa afirmando que: UNICESUMAR UNIDADE 1 30 “ [...]do mesmo modo que a escrita não é a mesma para todos os ho-mens, as palavras faladas não são também as mesmas, se bem que os estados de alma dos quais essas expressões são signos imediatos sejam idênticos para todos, como são idênticas também as coisas das quais esses estados são as imagens. Além disso, Dinucci (2009) afirma que a teoria da linguagem de Aristóteles possui uma visão diferente daquela proposta pelos sofistas, principalmente, no que se refere à natureza do diálogo entre os sujeitos. Basta pensarmos em Górgias para quem a palavra tem uma profunda função persuasiva e não há espaço para fun- ções de expressão e transmissão do discurso. Para Aristóteles, conforme expõe Dinucci (2009), as palavras postas no discurso são dirigidas a alguém e também falam de algo determinado. Na relação dialética, os dois interlocutores poderiam se contradizer e falar de coisas distintas a respeito do mesmo tema. A partir daí, o filósofo analisa dois pontos que poderiam ameaçar a significação uma no âmbito da própria teoria da linguagem. Segue um fragmento de sua Metafísica: “ E nada importa que alguém diga que [o nome] significa várias coisas, contanto que sejam em número limitado, pois a cada con-ceito se poderia dar um nome diferente; por exemplo, se se dis- sesse que “homem” não significa uma coisa única, mas várias, das quais uma seria “animal bípede”, havendo, porém, vários outros enunciados, ainda que em número limitado; pois se colocaria um nome particular a cada conceito, e se não se colocasse, mas se se dissesse que significava infinitas coisas, é claro que não poderia haver raciocínio; pois não significar alguma coisa é não significar coisa alguma, e, se os nomes não significam nada, é impossível dialogar uns com os outros, e, em verdade, também consigo mes- mo; não é possível, com efeito, que pense nada aquele que não pensa uma coisa [...] O nome [portanto] tem uma significação [...] única (ARISTÓTELES, 1970, p.11) Se aproximarmos esse fragmento de um trecho das Refutações sofísticas, ele ficará mais claro: 31 “ Ora, entre nomes e coisas não há semelhança completa: os nomes são em número limitado, assim como a pluralidade das definições, enquanto as coisas são em número indeterminado. É, por conse- guinte, inevitável que muitas coisas sejam significadas por uma mes- ma definição e por um mesmo nome (ARISTÓTELES, 1977, p.11). Na esteira dessa discussão, Dinucci (2009) aponta que em Aristóteles não é pos- sível estabelecer uma correspondência biunívoca entre coisas e palavras, isso porque as primeiras são em número indeterminado, e as segundas em número limitado. A consequência é que a mesma palavra pode significar várias coisas, e isso nos guia para a questão da equivocidade. Essa questão é rapidamente resolvida por Aristóteles. Ele afirma que é preciso distinguir as diferentes significações dando um nome diferente para cada uma delas. Dinucci (2009) traz um exemplo muito elucidativo: homem e cavalo são animais, e o termo “animal” parece um equívoco, no sentido de que parece não significar algo específico, no entanto, se for acrescentado uma diferença específica a questão do equívoco se dissipa: homem será “animal racional” e cavalo “animal” mais a sua de- vida diferença específica. Essa diferenciação resolve a discussão, se a palavra possuir um número determinado de significações, caso contrário não seria possível falar essa palavra e ser compreendido, pois sua significação seria sempre um equívoco. Merece comentário, a partir de agora, as opiniões que Platão e Aristóteles emitiram a respeito da atividade oratória. Ambos elaboraram intensa crítica à sofística, no entanto cada um deles tinha um posicionamento diferente em face dessa mesma questão. Esse contraste tem sua raiz na divisão do próprio sistema filosófico platônico e aristotélico ao relacionar a linguagem e o ser. Platão condena a oratória com base em uma negação do próprio estatuto da linguagem como elemento que media a consciência e a realidade. Em Crátilo, Sócrates afirma: “ Saber de que maneira deve-se conhecer ou descobrir as coisas que existem está talvez acima de minhas e de tuas forças. Contentemo--nos por convir que não é dos nomes que se deve partir, mas que é necessário buscar as coisas partindo antes delas próprias do que dos nomes (PLATÃO, 1961, p.439). UNICESUMAR UNIDADE 1 32 Já Aristóteles, mesmo sabendo do caráter precário da linguagem mediante a reali- dade que ele pretende representar, uma vez que ele já havia afirmado a infinidade do número das coisas, aponta a condição indispensável da linguagem para o pro- cesso comunicativo e, por esse motivo, as palavras precisam significar uma coisa só, pois “se as palavras não possuem significado será impossível toda discussão ou conversa com os que nos cercam: mais ainda, será impossível entender-se a si mesmo” (ARISTÓTELES, 1970, p.20). Se em Platão o uso da linguagem funciona como uma espécie de degradação do ser pelo fato de que ela o afasta do contato direto com o mundo das ideias, em Aris- tóteles, o poder e a faculdade de simbolizar por meio da fala, dá ao homem uma di- mensão própria que se define, sobretudo, pelo uso da linguagem e não pelo emprego da força. É por isso que ele afirmou que “se é vergonhoso não poder defender-se com o corpo, seria absurdo não envergonhar-se por não fazê-lo através da palavra, cujo emprego é mais próprio ao homem do que o corpo” (ARISTÓTELES, 1973, p.38). O fato é que a problemática da linguagem coloca Aristóteles em uma posição distante à de Platão e dos sofistas. Ele não concorda que Platão desconfie das palavras e não concorda que os sofistas neguem a identificação pura e simples com a verdade. Para Aristóteles, a linguagem é um poderoso suporte de reflexão filosóficae um importante veículo por onde se expressam os valores do homem. E essas duas funções são legítimas e merecem atenção. Por esse motivo, Aristóteles ataca, sobretudo, os sofistas: “ E seu combate vai travar-se dentro do próprio campo daqueles: o discurso. Nesse sentido, ao refutar os que sustentavam a legitimidade de afirmações contraditórias do tipo “uma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo”, ele os alinha em dois grupos, uns assim pensam por ignorância, outros por convicção. Aos primeiros, declara que “não se deve combater sua maneira de falar, mas simplesmente dirigir-se à sua inteligência”. Referindo-se aos segundos, diz: “Ao contrário, o re- médio daqueles que professam esta opinião por sistema é a refutação, devolver-lhes seus argumentos tanto no que diz respeito ao som e voz de seu sistema quanto no que diz respeito às próprias palavras que pronunciam”. O desmascaramento do raciocínio sofístico, portanto, só será possível através do estudo dos processos linguísticos com que aqueles constroem seu pensamento (BRANDÃO, 1976, p.21) 33 No desenrolar dessa discussão, Aristóteles vai defendendo a retórica como ele- mento fundamental para persuasão e que, parecida com a dialética, ela também versa sobre questões que são comuns a quaisquer homens. Ela faz parte, desse modo, do campo das opiniões humanas e se constrói como instrumento de afir- mação da liberdade de opinião. É importante frisar que a questão da opinião ser vista como objeto de discurso não deve ser compreendida como uma concessão aos sofistas, mas apenas um aspecto importante da realidade humana. Platão discorda frontalmente, porque se interessa tão somente pela verdade como objeto de investigação, inclusive, conforme expõe Brandão (1976, p.23), há o confronto entre duas espécies de retórica: “uma reveladora da essência das coi- sas, outra (esta condenável) produtora de aparências; portanto criadora de ilusão”. Após essa breve discussão, passamos, agora, para algumas considerações a respeito da linguagem na Antiguidade tardia e na Idade Média. De Porfírio a Rousseau: Mais Alguns Aspectos da Linguagem De maneira geral, nossa Era se inicia com o Ocidente sendo dominado pela po- lítica do Império Romano e com a estruturação da Igreja Católica, seus dogmas e teses fundantes. Quando pensamos na Idade Média, nunca é demais destacar que os primeiros padres tinham como fonte de pesquisa, a tradição antiga para estruturar seus estudos. Isso quer dizer que as questões vão se alinhavando no raio da história e entrando para a tradição filosófica devido a revisão, a reapro- priação e ressignificação do que quer que seja. Com a questão da linguagem não foi diferente. É nesse período que se faz presente o “problema dos universais”, questão importante para o estudo da linguagem. Porfírio (234-304/309), filóso- fo neoplatônico, em Isagoge, comenta o estudo das Categorias, em Aristóteles, elaborado no final da segunda aula. Porfírio (apud LEITE JR, 2001, p. 17) afirma: “ Antes de mais, no que se refere aos gêneros e às espécies, a questão é saber se eles são realidades em si mesmas, ou apenas simples con-cepções do intelecto, e, admitindo que sejam realidades substanciais, se são corpóreas ou incorpóreas, se enfim, estão separadas ou se apenas subsistem nos sensíveis e segundo estes. UNICESUMAR UNIDADE 1 34 Porfírio (apud LEITE JR, 2001, p. 17) com- plementa afirmando que “é um assunto de que evitarei falar; é um problema muito complexo, que requer uma indagação em tudo diferente e mais extensa”. Todavia, ele expõe a questão de maneira clara. Median- te aos gêneros e as espécies, conhecidos como termos universais, eles são realidade subsistente em si mesma (res, coisa), e se for o caso: a) são corpóreas ou incorpóreas; b) ou se estão separadas ou subsistentes nas coisas visíveis. Elas podem ser, ainda, con- cepções do espírito, neste caso são vox, isto é, apenas vocábulos. A questão do “problema dos univer- sais” começa, de acordo com Simon (1990, p.33), da “dúvida relativa ao ser dos uni- versais”. Em outras palavras, se a classifica- ção dos universais, gêneros e espécies em que as coisas são classificadas, no sentido linguístico, como “homem” e “cavalo”, para retomar o exemplo aristotélico, possuem status ontológico. Nef (1995, p.63) com- plexifica a discussão ao solicitar que pen- semos no termo humanidade. “ O termo “humanidade” é um termo universal ao qual recorremos para fa- lar de “todos os homens”. Sabemos que existe o homem singular (eu, o professor da faculdade, o padeiro da esquina etc.) e que este é um indivíduo Descrição da Imagem: na gravação, feita em preto e branco, está Porfírio. Ele está sentado e uma bancada, cujo centro possui uma placa intitulada Por- phire Sophiste (Porfírio Sofista), impede que observemos a parte inferior de seu corpo, a parte inferior de seu corpo. Ele usa um turbante na cabeça, veste uma espécie de túnica de mangas longas e tem barba de tamanho médio. Nela há alguns livros e Porfírio faz anotações. Figura 4 – Porfírio sofista, em uma grava- ção francesa do século XVI / Fonte: Wiki- media Commons ([2022]c, on-line). 35 concreto. Agora, o termo “humanidade” se refere a uma coisa con- creta ou não? Esta é a questão de fundo do problema dos univer- sais e que tem implicações nas diversas áreas do conhecimento. As respostas a esta questão variam conforme a opção que é tomada. Entretanto, “todas essas perguntas giram, pois, em torno de uma interrogação sobre a possibilidade de nomear o universal e sobre a natureza dos meios linguísticos e conceituais que tornam possível uma tal nomeação” (NEF, 1995, p. 63). Boécio (480-524/525) foi um dos primeiros filósofos que retomou essa questão. Ele tinha interesse em traduzir os textos de Aristóteles e de Platão, pois desejava comentar a similitude entre o pensamento dos dois filósofos. A questão das universais possui duas vertentes, uma platônica e outra aristotélica, e Boécio deu duas contribuições diferentes ao tema. Na introdução para as Categorias, de Aristóteles, Boécio (apud GILSON, 2001) informa que os termos universais não são coisas individuais, pois são comuns a muitos indivíduos, e o termo da espécie “animal” é um desses exemplos. E o gênero está relacionado à espécie, o que torna impossível que um universal seja res. Essa proposta gera conflitos. E Gilson (2001, p.164) expõe esses conflitos: “ Mas suponhamos, ao contrário, que os gêneros e as espécies re-presentados por nossas ideias gerais (universais) não sejam mais que simples noções do espírito. Em outras palavras, suponhamos que absolutamente nada corresponda, na realidade, às ideias que temos deles; nessa segunda hipótese, nosso pensamento não pen- sa nada pensando-as. Mas um pensamento sem objeto é tão só um pensamento de nada; não é sequer um pensamento. Se todo pensamento digno desse nome tem um objeto, é preciso que os universais sejam pensamentos de alguma coisa, de modo que o problema de sua natureza recomeça imediatamente a se colocar. Boécio tenta resolver esse engodo, afirmando que o espírito, em seu processo de recomposição dos dados que chegam até ele, pode encontrar nos seres corpóreos os gêneros e as espécies. E quando estão nos seres incorpóreos são tidos como abstratos. Ademais, Gilson (2001, p.166), afirma que esse posicionamento está diferente do que aparece no livro V, da Consolação da Filosofia. Nesse livro, Boé- cio afirma que “a inteligência vai além dos dados do sentido e contempla a forma pura e simples em si mesma, a ideia (ou o universal) configurando-se na visão UNICESUMAR UNIDADE 1 36 pura do pensamento”. Dessa maneira, fica claro que essa revisão do pensamento está intimamente relacionada com a filosofia de Platão, na qual o universal existe por si, independente da coisa sensível. Na esteira das discussões a respeito dos problemas das universais, merece desta- que a contribuição de Pedro Abelardo (1079-1142), cuja vida, inclusive o romance escandalosocom a abadessa Heloísa de Argenteuil, foi contada na História de mi- nhas calamidades. Abelardo nega que o universal seja uma coisa ou que ele subsista nas coisas corpóreas, e com essa afirmação ele contraria o posicionamento de Boécio. E ele diz isso porque parece confuso afirmar que o mesmo universal “animal” possa ser tranquilamente aplicado ao “homem” e ao “cavalo”, uma vez que tratam-se de es- pécies diferentes. Para Abelardo, professor e exímio lógico, tal afirmação invalidaria o princípio da identidade da lógica. A proposta estaria pois em pensar o universal não como uma coisa, mas como predicado. Gilson (2001, p.436) explica o posicio- namento de Abelardo a respeito dessa questão: “ A fonte de todas essas dificuldades é a ilusão de que os universais sejam coisas reais, senão em si mesmo, pelo menos nos indivíduos. Não é a realidade em si das ideias de Platão que Abelardo ataca, mas a realidade do universal do gênero em suas espécies, ou do universal da espécie em seus indivíduos. O motivo disso é simples. O universal é o que se pode predicar de várias coisas; ora, não há coisas, tomadas individual ou coletivamente, que se possam predicar de várias outras: cada uma delas não é mais do que ela mesma e o que ela é. Donde a conclusão decisiva de Abelardo: já que esse gênero de universalidade não pode ser atribuído às coisas, resta atribuí-lo às palavras. Os gramáticos dis- tinguem os termos universais dos termos particulares ou singulares. Um termo particular é predicável de um só e único indivíduo, Sócrates, por exemplo; um termo universal é aquele que se escolhe para predicar uma pluralidade de indivíduos, tomados um a um aos quais se aplica devido à sua natureza. A universalidade não é, portanto, nada mais que a função lógica de certas palavras. Em outras palavras, os universais só existem no intelecto, mas, simultanea- mente, estabelecem relação com as coisas particulares na medida em que os significados são dados. Assim sendo, “é como significado que os universais subsistem às coisas” (ABRÃO, 1999, p.108). Todas essas considerações que, 37 de certo modo, impulsionaram os estudos lógicos, foram feitas sem vínculos com a teologia. Paradoxalmente, elas fornecem à teologia um modelo de ar- gumentação fundamental para a escolástica: o confronto entre duas opiniões com o intuito de extrair uma solução satisfatória. “Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo”. (Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus, § 5.6) PENSANDO JUNTOS Realizando mais um salto temporal, chegamos a Guilherme de Ockham (1285-1347), no século XIV, que dará mais uma contribuição para essa discussão. Ele não aceita que os universais possam existir fora da mente, uma vez que são conceitos com significa- dos convencionais, sem status ontológico. Isso quer dizer que podemos mencionar relações, quantidades sem precisar assumir que os termos universais sejam entidades reais. O já citado exemplo da palavra “humanidade” não é uma entidade real que está fora da mente do sujeito, mas um vocábulo que a convenção permite que utilizemos para fazer referência a “qualidade do homem” ou “a todos os homens”. “ Os gêneros e as espécies não subsistem fora da alma, mas estão somente no intelecto, porque são apenas intenções ou conceitos formados pelo intelecto; eles exprimem as essências das coisas e as significam, mas não são as coisas, assim como o signo não é o seu significado. Eles não são parte das coisas, como também a pala- vra (vox) não é uma parte do seu significado. Eles podem servir de predicados para as coisas, mas não por aquilo que eles são: de fato, quando um gênero é atribuído a uma espécie, gêneros e espécies não se apresentam por si mesmos porque não se apresentam sim- plesmente (simpliciter), mas pessoalmente (personaliter) e assim se apresentam em lugar de seus significados, que são coisas singulares; mas esses gêneros e espécies são atribuídos às coisas representando as próprias coisas que eles significam. Assim, na proposição ‘Sócrates é um animal’, a palavra ‘animal’ não se apresenta por si mesma, mas em lugar de outra coisa: o próprio Sócrates. Mas, embora o que contém o intelecto, segundo o pensamento dos filósofos e segundo a verdade, sejam os gêneros e as espécies, além delas, as próprias pa- UNICESUMAR UNIDADE 1 38 lavras que lhe correspondem podem, de certo modo, ser chamadas gêneros e espécies, na medida em que tudo o que é significado por um conceito ou intenção na alma é significado por uma palavra, e inversamente; isso porém segue unicamente a decisão do instaura- dor da linguagem [Suma Lógica] (NEF, 1995, p. 77). Ockham também desenvolve a teoria da suposição. Essa teoria explica como uma proposição possui objetos que significam as coisas por meio de termos. Em outras palavras: o conceito é o signo mental que faz as vezes às coisas que existem na realidade. Gilson (2001, p.81) afirma que há três casos de suppositio: “ 1- Suppositio materialis: o termo significa a própria palavra que o constitui; exemplo: homem é uma palavra. 2- Suppositio personalis: o termo significa indivíduos reais; exemplo: o homem corre. 3- Su- ppositio simplex: o termo significa algo comum; exemplo: homem é uma espécie. “Homem” não é um indivíduo, mas uma comunidade, aquilo que é comum. De acordo com Morujão (2006, p.317), a suppositio simplex é a convenção de “um termo resultante de um ato mental que abstraiu das características particulares de todos os indivíduos pelos quais supõe”. Isso quer dizer que para Ockham, o significado de uma proposição com termos universais poderá ser explicado por meio de proposições que possuam termos singulares. Desse modo, a proposição “o homem é um animal” é verdadeira se puder afirmar a proposição “isto é um animal”. Ou seja, “um conceito universal, portanto, é um signo”. A chegada do Renascimento é marcada por um forte interesse nas questões que envolvem a teoria do conhecimento e da filosofia prática. Os estudos sobre a significação da linguagem acabam perdendo a força, bem como as discussões acerca da Lógica. Todavia, com o Humanismo e com a expansão das línguas vernáculas, as investigações no campo da linguagem se associam à origem do conhecimento e à gênese das ideias. Dentre as várias contribuições, pelo menos três filósofos merecem destaque: Hobbes, Locke e Rousseau. Thomas Hobbes (1588-1679) tem como ponto de partida de suas reflexões filosóficas a “devoradora” natureza humana ou o homem no estado de natureza. É dele o célebre pensamento: “que ninguém se engane: os homens não são ir- mãos. Ao contrário, são inimigos, capazes de matar um ao outro. O homem, na 39 verdade, é o lobo do homem” (ABRÃO, 1999, p.233). No campo das reflexões a respeito da linguagem, esse filósofo inglês, afirma que não há entidades reais universais, mas nomes que podem ser atribuídos a várias coisas. Um universal é tão somente um nome que, às vezes, é determinado por afetação direta ou por pronomes demonstrativos. Hobbes (2008) também foi um profundo analista do Estado. Para ele, a origem do poder político e do próprio Estado deveriam ser procurados na natureza, e não em Deus, mesmo que este seja o resultado da criação de Deus. A questão da linguagem aparece nessa análise, pois ele distingue o uso da palavra no discurso verbal e no mental: “ O uso geral da palavra é transformar nosso discurso mental em dis-curso verbal e o encadeamento dos nossos pensamentos em enca-deamento de palavras; isso em vista de duas vantagens: primeiro, a consecução dos nossos pensamentos [...] o outro uso consiste, quando muitos se servem das mesmas palavras, no fato de que os homens significam um ao outro, pela organização e relação dessas palavras, o que eles concebem ou pensam de cada questão (HOBBES, 2008, p. 25). De acordo com o fragmento do Leviatã, anteriormente exposto, a primeira van- tagem refere-se às marcas determinantes na mente do agente com o intuito de que ele se lembre de alguma coisa e, na segunda,são os signos. Estes expressam os sentimentos dos homens - portanto, também as mentiras, as possíveis mani- pulações, ofensas etc. Tais expressões são dirigidas a outros homens. Na esteira dessas discussões, Abrão (1999) afirma que a linguagem é, em Hob- bes, um instrumento visto para diminuir a perda das sensações. Ele compreende que as palavras são meras convenções, mas servem para fixar a imaginação e a memória. E nesse processo de realizar operações de associações e decomposições de conteúdos pode resultar em possibilitar o armazenamento de conhecimento. A leitura que John Locke (1632-1704), filósofo inglês conhecido como pai do Liberalismo, faz do homem é muito mais complacente que a de Hobbes. Para Locke, o que importa é a “soberania indivisível que garanta a paz” (ABRÃO, 1999, p.239). Não importa se essa paz é representada por Carlos I ou por Cromwell. Em Ensaio sobre o entendimento humano, de 1689, ele afirma que a expe- riência é a única fonte de ideias. Uma criança, por exemplo, só diferencia o doce UNICESUMAR UNIDADE 1 40 do amargo por causa da experiência. Dessa forma, a palavra exprime uma ideia. A relação é tão tênue que ele afirma: “ Há uma relação tão estreita entre as ideias e as palavras, e nossas ideias abstratas e nossas palavras gerais têm uma relação tão cons-tante que é impossível falar clara e distintamente do nosso conhe- cimento, que consiste inteiramente em preposições, sem conside- rar primeiramente a natureza, o uso e a significação da linguagem (LOCKE apud NEF, 1995, p. 110) Como se observa, Locke tem interesse pela linguagem, tanto é que na citada obra, ele apresenta uma divisão das ciências em: (1) física ou filosofia natural; (2) em prática; e em (3) semiótica ou conhecimento dos signos. Essa última estuda “a natureza dos signos dos quais o espírito se serve para entender as coisas, ou para comunicar o seu conhecimento aos outros” (NEF, 1995, p. 110). Nessa esteira, Locke compreende que a efetivação dos sons articulados necessita do uso de signos mentais, cunhado por ele como concepção interior. Tais signos sinalizam, conforme Nef (1995), as marcas que temos no espírito a fim de estabelecer a comunica- ção com outros homens. É por meio das palavras que essa expressão é possível: “ Por conseguinte, é das ideias daquele que fala que as palavras são sig-nos, e ninguém pode aplicá-las imediatamente como signos a nenhu-ma outra coisa, senão às ideias que ele próprio tem no espírito, pois usá-las de outra forma seria torná-las signos das nossas próprias con- cepções e aplicá-las, entretanto, a outras ideias, isto é, fazer ao mesmo tempo com que elas fossem e não fossem os signos de nossas ideias, e por isso mesmo que elas não significassem nada (NEF, 1995, p. 110). As discussões que Locke empreende a respeito da linguagem podem nos levar a pensar que ele a trata como privada, isto é, limitada ao falante, pois, como afirma- mos anteriormente, para esse filósofo as palavras são signos das próprias ideias. Problematizamos: como haveria, então, comunicação entre os indivíduos se a linguagem está a serviço da representação mental do falante? Locke resolve esse engodo afirmando que a palavra tem a função de fazer referências às coisas, isto é, além de ideias, as palavras representam coisas no mundo. 41 Outra questão se desprende dessa argumentação: como são formadas as ideias gerais ou universais? A respeito disso, “ Conceitos universais são, para Locke, ideias abstratas que são for-madas a partir de ideias particulares. Uma coisa ainda que pode mostrar que essas ideias abstratas, designadas por certos nomes, são as essências que concebemos nas coisas, é que tem o hábito de dizer que elas são inengendráveis e incorruptíveis, o que não pode ser verdadeiro sobre as constituições reais das coisas, que come- çam e perecem com elas. [...] Pois seja o que for que aconteça com Alexandre e com Bucéfalo, sempre se supõe que as ideias as quais ligamos aos nomes de homem e de cavalo continuam as mesmas, e por conseguinte, as essências dessas espécies são conservadas em sua integridade, quaisquer que sejam as mudanças que aconteçam a algum indivíduo, ou mesmo a todos os indivíduos dessas espécies. [...] Daí se segue, evidentemente, que as essências não são imutáveis; que essa doutrina da imutabilidade das essências é fundada sobre a relação que é estabelecida entre essas ideias abstratas e certos fun- dos considerados como signos dessas ideias, e que ela será sempre verdadeira, enquanto o mesmo nome pode ter a mesma significação (Ensaio, III – 19) (LOCKE, 1999 apud NEF, 1995, p. 110). Esse posicionamento de Locke abriu margem para inúmeras discussões sobre a origem da linguagem. Duas correntes de pensamento se instauraram: uma mais ra- cionalista e outra mais emotiva. De visão mais racional, destacamos a contribuição de Pierre de Maupertuis (1698-1759), filósofo francês, que recorreu a uma análise metafísica e propôs a seguinte situação: após um sono, o sujeito acordaria sem ne- nhuma lembrança e classificaria tudo o que via a seu redor. Como isso seria feito? “ Suponho que, com as mesmas faculdades que tenho de perceber e raciocinar, tivesse perdido as lembranças de todas as percepções que eu tivesse tido até aqui, e de todos os raciocínios que eu fiz; que depois de um sono que me teria feito esquecer tudo, eu me encontrasse subitamente atingido por percepções que o acaso me apresentaria; que a minha primeira percepção fosse, por exemplo, aquela que experimentou hoje, quando digo vejo uma árvore; que UNICESUMAR UNIDADE 1 42 depois eu tivesse a mesma percepção que eu tenho hoje quando digo vejo um cavalo; logo que eu recebesse essas percepções, eu veria imediatamente que uma não é a outra, procuraria distingui- -las, e como eu não teria imediatamente que uma não é a outra, procuraria distingui-las, e como eu não teria linguagem formada, eu as distinguiria por algumas marcas e poderia me contentar com essas expressões A e B, para as mesmas coisas que eu entendo hoje, quando eu digo vejo uma árvore, vejo um cavalo (NEF, 1995, p. 119). De linhagem mais emotiva, merece destaque a visão de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), cuja contribuição encerra, longe de esgotar, esse nosso percurso acerca dos estudos filosóficos da linguagem. No Ensaio sobre as origens da lín- gua, esse filósofo e político genebrino, também conhecido por ser uma das prin- cipais figuras do Iluminismo e um precursor do Romantismo, discorre a respeito da linguagem relacionando as línguas humanas, com a paixão e com a história. Acompanhemos um trecho: “ Com as primeiras vozes, formaram-se as primeiras articulações ou os primeiros sons, segundo o gênero da paixão que ditava uns ou outros. A cólera arranca gritos ameaçadores, que a língua e o palato articulam, mas a voz da ternura é mais suave, é a glote que a modifica e essa voz se torna um som. Só os seus tons são mais frequentes e mais raros, as inflexões mais ou menos agudas segundo o sentimen- to que acrescenta. Assim, a cadência e os sons que nascem com as sílabas; a paixão faz falar todos os órgãos, e adorna a voz com todo o seu brilho. Assim, os versos, os cantos, a palavra têm uma origem comum (ROUSSEAU, 1999, p. 303). A linguagem poética que ele utiliza para escrever esse ensaio filosófico será uma marca forte do Romantismo. Rousseau (1999) afirma que a linguagem se associa, intimamente, às paixões. E que a primordial linguagem humana, universal e enér- gica é o grito da natureza. Para finalizar, ele não se propõe a explicar o surgimento das ideias gerais que possuímos, todavia afirma que tais ideias resultam de um processo que envolve a capacidade da fala para depois estabelecer ideias e é por isso que “os nomes próprios precedem os substantivos” (NEF, 1995, p. 127). 43 Todas essas contribuições, como se pode imaginar, foram fundamentais para que a Linguagem ganhasse verdadeiro estatuto de discussão filosófica. A respeito dessa questão, trataremos na próximaunidade. No diálogo Sofista, Platão aborda a possibilidade do discurso falso, distinguindo dois níveis: i) O de nomear (seria o nível de sintaxe, combinação de nomes [onomata] e verbos [rhema]); ii) E o de dizer (seria o âmbito da semântica, das condições em que um enunciado [logos] é verdadeiro e significativo). A preocupação está no não ser. Pode-se negar um verbo, mas não um nome. A negação de “João joga futebol” é “João não joga futebol”; não faria sentido dizer “Não João joga fute- bol”. O que seria “não joão”?! Por isso, o ser deve ser enunciado. Platão afirma que temos, para exprimir o ser (ousia), algo como dois gêneros de signos, eles são chamados nomes ou verbos. O verbo ‘exprime as ações’ e o nome se aplica aos ‘sujeitos que fazem essas ações’ (262a). Com isso, temos um discurso, mesmo que seja breve, ele está completo. Este discurso é o que chamamos de “proposição atômica”, sem disjunção (o nosso “ou”) ou conjunção (palavras que conectam orações; exemplo: “que”, “contudo”, “logo” etc.). SILVA, L. D. Filosofia da Linguagem. Indaial: Uniasselvi, 2013. EXPLORANDO IDEIAS Escolástica e o estudo da linguagem O podcast consiste em uma breve explicação a respeito da Escolástica e o estudo da linguagem (de que trata o trivium), para depois examinar a realidade das coisas (o quadrivium). A partir daí, haverá a problematização acerca da relação entre as palavras e as coisas. Por fim, consider- ações e leitura de fragmentos do romance O nome da rosa, de Umberto Eco, serão feitas. NOVAS DESCOBERTAS O espelho (1975), de Andrei Tarkovski, filme citado na abertura dessa unidade de estudos, merece ser apreciado por você. Sugiro que, para aguçar a sua curiosidade, assista a crítica A força encantatória e som- bria de O espelho, elaborada pelo crítico Arthur Tuoto, conforme link abaixo: https://www.youtube.com/watch?v=JtvX7BB_ZD8 UNICESUMAR https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13570 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/9715 UNIDADE 1 44 Prezado (a) Acadêmico (a), agora que chegamos ao final da primeira unidade de estudos, ficou explícito que o intuito dela foi norteá-lo(a) pelas discussões iniciais a respeito da Filosofia da Linguagem. Nas próximas unidades, nos deteremos, mais pormenorizadamente, na contribuição de alguns nomes que, de fato, trans- formaram esse assunto em uma área específica de reflexão e, por conseguinte, transformaram a Filosofia da Linguagem em uma disciplina com corpo próprio. No entanto, você já possui capacidade de refletir, mesmo que inicialmente, sobre a natureza e algumas características da Linguagem. Pensando nisso, é hora de partir para a prática: leia o fragmento a seguir: “Subsistunt ergo circa sensibiliza intelliguntur autem praeter corpora, eles subsistem em ligação com as coisas sensíveis, mas os conhecemos à parte dos corpos” (GILSON, 2001, p. 164) De que maneira você entende que esse fragmento discute aspectos do conteúdo apresentado no decorrer da unidade, e de que maneira há relação entre esse frag- mento e o poema Memória, de Carlos Drummond de Andrade, que segue abaixo? Memória Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão. ANDRADE, C. D. d. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2002. 45 Que tal avaliar os conhecimentos adquiridos na unidade? 1. O Crátilo, de Platão, pode ser dividido em duas partes: Hermógenes e Sócrates ocupam três partes do diálogo, e Crátilo e Sócrates, a última parte. A respeito dessa obra e das discussões a respeito da linguagem, considere as afirmativas a seguir: I - A oposição entre nomos e physis era comum na época e Platão traz a questão nesse diálogo; II - No decorrer do diálogo, Sócrates cita mais de uma centena de nomes com o intuito de criticar o naturalismo linguístico; III - Para Platão, o discurso possui caráter único e, por esse motivo, é sempre as- sertivo e correto; IV - Para Platão, o estudo das coisas deve vir da própria coisa e não por meio de seus nomes. Está correto o que se afirma em: a) I e II, apenas. b) I e III, apenas. c) I, II e IV, apenas. d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 2. De modo geral, a obra de Aristóteles, além de ser uma das bases da filosofia ociden- tal, é sempre relida e reinterpretada. Com a contribuição desse filósofo a respeito do campo da linguagem não é diferente. No decorrer dos séculos, muitas foram as inves- tiduras acerca do tema. Sobre essa questão, considere as afirmações que seguem: I - Crátilo, de Platão, é uma releitura da Metafísica aristotélica, com o estabeleci- mento das categorias gramaticais; II - Górgias se baseou em vários diálogos aristotélicos para construir a noção se- mântica de sua proposta; III - Porfírio, ao reler Categorias, de Aristóteles, traz à baila, em Isagoge, o problema dos universais; IV - Boécio afirma em sua leitura de Aristóteles que os termos universais não são coisas individuais; V - Segundo Guilherme de Ockham, os termos universais são significados conven- cionais e não possuem status ontológico. 46 É correto apenas o que se afirma em: a) I, II e III. b) I, II e IV. c) I, III e IV. d) II, IV e V. e) III, IV e V. 3. A linguagem é uma preocupação constante em Aristóteles, embora ela não tenha recebido um tratado específico. No entanto, se pensarmos, por exemplo, em suas discussões a respeito da lógica ou da literatura, essas considerações ganham espaço. A respeito da questão da linguagem, em Aristóteles, considere as afirmativas a seguir: I - Em sua Poética, o estagirita traz o enunciado e os elementos que o compõe; II - O nome e o verbo são diferenciações feitas por Aristóteles em Da interpretação; III - O zôon politikón, discutido na Política, está totalmente ligado ao ato de falar; IV - A homónyma e a sinónyma são duas definições que aparecem em Categorias. Está correto o que se afirma em: a) I e II, apenas b) I e III, apenas c) I, II e III, apenas d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 2Frege, Russell e Wittgenstein: a Linguagem no Centro da Reflexão Filosófica Dr. Diego Luiz Miiller Fascina Oportunidades de aprendizagem: nesta Unidade de seu material de estudos, um salto significativo é dado quando elaboramos uma com- paração com a Unidade I: nesse momento, aspectos do pensamento de três filósofos, a citar Gottlob Frege, Bertrand Russell e Ludwig Witt- genstein serão comentados, pois algumas de suas obras representam as preocupações com o estudo da linguagem no âmbito da investiga- ção filosófica. É a partir dessa tríade, cujas obras dialogam, em alguns momentos entre si, que a Filosofia da Linguagem ganha estatuto de disciplina e passa a ser um campo rico e vasto para análise. UNIDADE 2 48 Leia o poema a seguir: Ou isto ou aquilo Ou se tem chuva e não se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva! Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares. É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo nos dois lugares! Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro. Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… e vivo escolhendo o dia inteiro! Não sei se brinco, não sei se estudo, e saio correndo ou fico tranquilo. Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo. MEIRELES, C. Ou isto ou aquilo. Ilustrações de Thais Linhares. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. 49 O poema é de autoria de Cecília Meireles, escritora modernista que dedi- cou parte de sua produção ao público infantil. Nesse poema, notamos alguns possíveis dilemas, talvez relacionados a alguma criança: fazer escolha sempre envolve perder algo. A estrutura do poema, formada por estrofes de dois ver- sos, reforça esse esquema dual, dialético e pouco conclusivo. Assim é, também, com a Linguagem. As palavrassão objetos momentâneos e dependendo do contexto, elas possuem significados distintos. Aliás, elas só significam algo dependendo do contexto em que estão inseridas. Você já parou para pensar sobre isso? Se não, esse, talvez, seja um bom ponto de partida para refletir a respeito dos assuntos abordados nesta unidade. Quantas espécies de frases existem? Afirmação, pergunta e comando, talvez? – Há inúmeras de tais espécies: inúmeras espécies diferentes de emprego daquilo que chamamos de “signo”, “palavras” e “frases”. E essa pluralidade não é nada fixo, um dado para sempre; mas novos tipos de linguagem, como poderíamos dizer, nascem e outros envelhecem e são esquecidos. (Uma imagem aproximada disto pode nos dar as modificações da matemática). O termo “jogo de linguagem” deve aqui salientar que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida. Imagine a multiplicidade dos jogos de linguagem por meio destes exemplos e outros, segundo Wittgenstein (1999, p. 35): ■ Comandar, e agir segundo comandos; ■ Descrever um objeto conforme a aparência ou conforme medidas; ■ Produzir um objeto segundo uma descrição (desenho); ■ Relatar um acontecimento; ■ Conjeturar sobre o acontecimento; ■ Expor uma hipótese e prová-la; ■ Apresentar os resultados de um experimento por meio de tabelas e dia- gramas; ■ Inventar uma história ou ler. Prezado (a) Acadêmico (a), para iniciarmos nossas discussões a respeito da Unidade II, leia, a seguir, O quereres, música de Caetano Veloso, lançada em 1984, no disco Velô. Observe as relações ambíguas existentes entre o desejo do eu lírico. Aliás, é a marca do desejo a ambiguidade. Verifique como a linguagem constrói essas relações duais e tente estabelecer, por meio de uma análise, um sentido para a composição. UNICESUMAR UNIDADE 2 50 Onde queres revólver, sou coqueiro E onde queres dinheiro, sou paixão Onde queres descanso, sou desejo E onde sou só desejo, queres não E onde não queres nada, nada falta E onde voas bem alta, eu sou o chão E onde pisas o chão, minha alma salta E ganha liberdade na amplidão Onde queres família, sou maluco E onde queres romântico, burguês Onde queres Leblon, sou Pernambuco E onde queres eunuco, garanhão Onde queres o sim e o não, talvez E onde vês, eu não vislumbro razão Onde queres o lobo, eu sou o irmão E onde queres cowboy, eu sou chinês Ah! bruta flor do querer Ah! bruta flor, bruta flor Onde queres o ato, eu sou o espírito E onde queres ternura, eu sou tesão Onde queres o livre, decassílabo E onde buscas o anjo, sou mulher Onde queres prazer, sou o que dói E onde queres tortura, mansidão Onde queres um lar, revolução E onde queres bandido, sou herói Eu queria querer-te amar o amor Construir-nos dulcíssima prisão Encontrar a mais justa adequação Tudo métrica e rima e nunca dor Mas a vida é real e de viés E vê só que cilada o amor me armou Eu te quero (e não queres) como sou Não te quero (e não queres) como és Ah! bruta flor do querer Ah! bruta flor, bruta flor Onde queres comício, flipper-vídeo E onde queres romance, rock’n roll Onde queres a lua, eu sou o sol E onde a pura natura, o inseticídio Onde queres mistério, eu sou a luz O quereres (Caetano Veloso) 51 E onde queres um canto, o mundo inteiro Onde queres quaresma, fevereiro E onde queres coqueiro, eu sou obus O quereres e o estares sempre a fim Do que em mim é de mim tão desigual Faz-me querer-te bem, querer-te mal Bem a ti, mal ao quereres assim Infinitivamente pessoal E eu querendo querer-te sem ter fim E, querendo-te, aprender o total Do querer que há e do que não há em mim Fonte: Letras ([2022], on-line). Após a leitura de O quereres, reflita a respeito do desejo do eu-lírico. Afinal, o que é que ele quer? Essas discussões ficarão mais claras na próxima unidade, no entanto, parta da relação pouco usual existente entre desejos que parecem con- traditórios e reflita: a linguagem funciona de uma única maneira? Ela é capaz de nomear o que de fato, desejamos? UNICESUMAR UNIDADE 2 52 A lógica de Frege Descrição da Imagem: trata-se do filósofo Gottlob Frege em foto preto e bran- co que cobre o rosto até pouco abaixo dos ombros. O filósofo é jovem, está vestido de terno, apresenta cabelos lisos e vasta barba. Olha, fixamente, para um ponto que não é revelado ao espectador. Conforme vimos na primeira unidade, a linguagem era tratada de modo trans- versal pelos filósofos, embora ela tenha sido, desde sempre, uma base para as discussões de cunho filosófico. É, apenas, com Gottlob Frege (1848-1925), Ber- trand Russell (1872-1970) e Ludwig Wittgenstein (1889-1951) que a filosofia da linguagem se torna uma disciplina em torno de uma temática: sentido e referência e, de modo mais amplo, em torno das relações existentes entre linguagem, pensa- mento e mundo. Pensemos, mesmo que concisamente, na contribuição de cada um desses filósofos e em alguns aspectos do diálogo existente entre suas obras em relação à temática aqui estudada. “A palavra é o meu domínio sobre o mundo” (Clarice Lispector) PENSANDO JUNTOS Figura 1 – Gottlob Frege Fonte: Wikimedia Commons ([2022]a, on-line). 53 Frege foi um matemático e filósofo alemão que lecionou, até o seu falecimento, na Universidade de Jena. As publicações de Frege são poucas: há, dentre outros, Conceitografia (1879), Fundamentos da Aritmética (1884) e alguns artigos cien- tíficos que incluem textos clássicos que nos interessam nesse momento: Sobre o Sentido e a Referência (1892) e O pensamento (1918). “ Apesar disso, a obra de Frege é fundamental para o desenvolvimento da filosofia no século XX, podendo ser considerada um marco inicial da filosofia analítica. Frege exerceu enorme influência sobre o pen- samento de autores importantes dessa tradição, como, por exemplo, admitem explicitamente Wittgenstein e Carnap. Ele é também o res- ponsável por inovações técnicas e conceituais que permitiram o gran- de desenvolvimento da lógica no século passado, desenvolvimento esse que é indissociável da história da tradição analítica. Além disso, a sua obra introduziu as questões e inaugurou o modo contemporâneo de fazer filosofia em diversas áreas, como, por exemplo, filosofia da lógica, filosofia da matemática e filosofia da linguagem, além de ter enriquecido sensivelmente o debate filosófico em áreas centrais como a epistemologia e a metafísica (MIRANDA, 2011, p.11). Miller (2010) colabora com a discussão anteriormente pontuada, afirmando que Frege estabelece, no campo da filosofia da linguagem, a sua maior contribuição: a invenção da linguagem da lógica simbólica moderna. A lógica, como bem sabe- mos, é o estudo do argumento. Nessa esteira, o argumento considerado válido é aquele cujas premissas, se forem verdadeiras, asseguram a validade da conclusão. É impossível que todas as premissas sejam verdadeiras e mesmo assim falsa a conclusão. O contrário dessa situação é o seguinte: o argumento considerado inválido é aquele cujas premissas não garantem a validade da conclusão, ou seja, há circunstâncias possíveis em que todas as premissas são consideradas verda- deiras e falsa a conclusão. A Lógica nos oferece métodos para observar esses dados e classificá-los como válidos ou inválidos. Pensemos no argumento abaixo, seguindo as orientações de Miller (2010): 1. Se Maria tomou o remédio, então ela se sentirá melhor; 2. Maria tomou o remédio, portanto; 3. Ela se sentirá melhor. UNICESUMAR UNIDADE 2 54 Podemos transpor o argumento anterior para a lógica fregeana, em que as letras P e Q abreviam as sentenças da argumentação: P: Maria tomou o remédio; Q: Maria se sentirá melhor. A situação condicional, assevera Miller (2010), isto é, o “se” e “então” é simbolizada pela flecha “->” e é dessa forma que o argumento é simbolizado: P -> Q, portanto, Q. Miller (2010) informa que o condicional, cujo símbolo é uma flecha, é também conhecido como um conectivo sentencial, pois permite o estabelecimento de uma sentença complexa (P ->Q) ao enlaçar duas maissimples (P, Q). Por meio da exposição desse rápido vocabulário, é possível vários argumentos da linguagem natural para a estrutura lógica. Por exemplo: 4. Se o Rangers venceu e o Celtic perdeu, então Fergus está infeliz; 5. Fergus não está infeliz; portanto, 6. Ou o Rangers não venceu ou o Celtic não perdeu. As proposições para essas sentenças a seguir: P: O Rangers venceu; Q: O Celtic perdeu; R: Fergus está infeliz. A tradução desse elemento se daria, pois da seguinte maneira: (P&Q) ->R; portanto –P v –Q Esse vocabulário rapidamente descrito anteriormente pertence à lógica propor- cional. Isso se dá pelo fato de que os blocos que constroem o argumento são sentenças que apresentam completude nas proposições. Todavia, é preciso ter em mente que há, como assevera Miller (2010), muitos argumentos da linguagem natural que são válidos, mas que não são “capturados” pela tradução da linguagem lógica proposicional. O exemplo, a seguir, ilustra essa discussão: 55 7. João é homem; 8. Todos os homens são mortais, portanto; 9. João é mortal. Observe que essas sentenças apresentam proposições dife- rentes, a tradução para a lógica das proposições seria feita dessa maneira: P; Q; portanto R Isso nos mostra que enquanto a validade de um argumento necessita de sua estrutura interna, a formalização da lógica ignora essa organização, basta observarmos, por exemplo, a própria repetição do nome João: ele é importante para a construção intuitiva do argumento, mas é ignorado pela lógica proposicional. Essa discussão anteriormente exposta serve para que observemos que uma gramática consiste, grosso modo, de dois pontos: “uma especificação do vocabulário da lingua- gem e um conjunto de regras que determina quais sequên- cias de expressões construídas a partir desse vocabulário são gramaticais e quais não são” (MILLER, 2010, p.18). Toda essa reflexão serviu para que Frege mostrasse que as bases de sua Lógica que, como deve ficar claro, difere-se da Lógica clássica - pelo fato de que esta última se mostrava insuficiente tanto pelo fato de que as propriedades eram bem mais complexas do que era possível de representar e porque não havia formalização suficiente permitindo que a houvesse uma espécie de contaminação da linguagem comum – era utilizado para mostrar que as leis da Aritmética se funda- mentam nas leis lógicas. O sistema lógico axiomático que exemplificamos anteriormente era utilizado para transcrever toda lei aritmética. No entanto, é importante saber que Russell apontou uma inconsistência nesse modelo: UNICESUMAR UNIDADE 2 56 “ Segundo Bertrand Russell, a partir desse axioma (conceitos F e G subsumem os mesmos objetos se, e somente se, têm a mesma extensão) pode-se deduzir que (1) para todo conceito F e todo objeto X, F subsume X e se, e somente se, X pertence à extensão de F. Pode-se deduzir também que a todo conceito corresponde uma extensão. Tomando-se, então, o conceito “extensão de conceito que não pertence a si próprio”, como F em (1), e tomando com X a extensão desse conceito, obtém-se o seguinte resultado (2): o conceito “extensão de conceito que não pertence a si próprio” subsume sua extensão se, e somente se, essa extensão pertence a si própria. Mas dizer que F subsume X é dizer que X é F, o que converte (2) na contradição: a extensão do conceito “extensão de conceito que não pertence a si própria” não pertence a si própria se, e somente se, pertence a si própria (SANTOS, 1983, p.184). Em outras palavras, Santos (1983), baseado em Russell, aponta que o axioma fregeano se mostrava falso. Dessa forma, não era possível pensar no caráter lógico dos números e também na possibilidade de estender esse conceito. Na esteira das contribuições de Frege, outro ponto que muito nos interessa é a distinção entre sentido e significado. Essa questão aparece, mais especifica- mente, quando o filósofo se debruça na questão da identidade. No aclamado ensaio Sentido e Significado, Frege (1983) questiona se a identidade seria uma relação estabelecida entre objetos ou entre os sinais dos objetos. Se tomarmos a primeira opção como verdadeira, o filósofo nos mostra que a afirmação “a=b” deveria significar o mesmo que “a=a”, se “a=b” é verdadeira. Isso se dá pelo fato de que se “a=b” forma uma proposição verdadeira, então “a” e “b” são dois nomes para o mesmo objeto e isso também quer dizer que “a=b” informa a mesma coisa que “a=a”. Nesse sentido, a identidade seria, conforme Santos (1983, p.185), uma relação que uma coisa mantém consigo e com nenhuma outra: “assim, essa interpretação das afirmações de identidade apresenta gran- des dificuldades, pois afirmações do tipo “a=b” são algumas vezes sumamente informativas, e “a=a” jamais o é”. A segunda hipótese também é rejeitada por Frege, ou seja, de que a iden- tidade é uma relação que se dá entre nomes ou entre sinais de objetos. Con- forme informa Santos, 57 “ Em tal caso, “a=b” afirmaria que o nome “a” e o nome “b” são nomes da mesma coisa. Essa análise não pode estar correta, segundo Frege, pois o fato de que “a” é um nome para a e “b” é também um nome para a resulta de um acordo puramente arbitrário acerca dessas marcas ou sons, nada tendo a ver com as propriedades das coisas designadas. Também neste caso não se poderia explicar que “a=b” tenha valor de conhecimento, transmita informação sobre a coisa nomeada para “a” e “b” (SANTOS, 1983, p.185) A partir desse engodo, Frege distingue sentido e significado dos sinais. O “signifi- cado seria o objeto denominado ou denotado pela expressão; já o sentido conteria o modo de apresentação pelo qual o sinal fornece seu significado” (SANTOS, 1983, p.185). Um exemplo que clarifica essa distinção é pensarmos, por exemplo, nas linhas a, b e c que ligam os vértices de um triângulo com os pontos médios dos lados opostos; nesse caso, teríamos que o ponto que liga a e b é o mesmo que o de b e c. Isso aponta para resultados diferentes e para diferentes modos de apresentação. Assim sendo, as duas expressões (“ponto de intersecção de a e b” e “ponto de intersecção de b e c”) possuem o mesmo significado, mas são dife- rentes enquanto sentido. Da mesma maneira, por exemplo, “estrela da manhã” e “Vênus” também tem o mesmo significado, mas diferem em relação ao sentido: se dissermos “Vênus é a estrela da manhã” há a expressão de um conhecimento verdadeiro, e se afirmarmos “Vênus é Vênus” não há como saber que a estrela que irrompe pela manhã é a mesma que aparece à tarde. Frege informa, ainda, que em certas construções frasais, o significado das palavras refere-se não ao seu significado habitual, mas ao sentido habitual. Por exemplo: ao supormos na afirmação “João sabe que Vênus é a estrela da manhã”, que a expressão “Vênus” tem seu significado habitual, deveria haver a possibili- dade de substituir por qualquer outra que fizesse referência a Vênus. Todavia, se substituirmos “estrela da manhã” por “estrela da tarde”, a afirmação se torna falsa, pois não há indicação de que João saiba que ambas são a mesma coisa, isto é, Vênus. Dessa maneira, Frege afirma que “é necessário distinguir entre o significado costumeiro de uma expressão e seu significado indireto; da mesma forma, é necessário distinguir entre o sentido costumeiro e o sentido indireto” (SANTOS, 1983, p.185). Lembremos que, para o filósofo, o significado indireto de uma palavra corresponde, diretamente, ao seu sentido costumeiro. UNICESUMAR UNIDADE 2 58 Embora o foco de Frege sempre tenha sido problemas envolvendo a Matemática, todas essas distinções foram fundamentais para o de- senvolvimento da Semântica da Linguagem. Miguens (2007) afirma que em Frege há uma preocupação maior com as questões semânticas, quando se compara com as questões epistemológicas. Para o crítico, Frege solicita que não devemos perguntar se conhecemos algo antes de compreendermos como a linguagem utilizada para exprimir esse conhecimento funciona. Para completar essa questão, nunca é demais salientarque não podemos pensar absolutamente nada senão por meio da linguagem e que as línguas naturais (o português, o inglês, o francês etc.) são imperfeitas e não é possível expressar a completude do pensamento. É preciso, de acordo com Frege, uma espécie de de- puração da linguagem natural para extrair dela todo aspecto vago e ambíguo e tratá-la, a partir daí, como um problema filosófico. Não podemos deixar de lado a primazia do contexto em Fre- ge, pois essa é uma revolução metodológica quando pensamos na filosofia da linguagem. Para o filósofo, as palavras não possuem significados isolados, ou seja, precisam estar contextualizadas em uma frase. Frege, de acordo com Miguens (2007) afirmava que a sua preocupação teórica era com o pensamento e com a verdade e não com a linguagem propriamente dita. No âmago da discussão há uma sentença clara: para se entender o pensamento é necessário olhar para a linguagem e para a sua prática dedutiva que, por sua vez, ancora-se na estrutura. E para entender a estrutura é preciso observar os componentes da frase. Os pensamentos são expressos em frases, então é necessário compreender a estrutura lógica das frases e suas partes menores. Tal estrutura se revela, de acordo com Miguens (2007) na forma como a prática dedutiva depende da estrutura. Para analisar as frases é preciso observar como elas combinam entre si de maneira inferen- cial. Como já vimos anteriormente, o propósito da inferência é a preservação da verdade em transição de premissas verdadeiras para conclusões que também são verdadeiras. 59 O atomismo de Russell Descrição da Imagem: tra- ta-se de uma foto preto e branco do filósofo. Ele está com o corpo inclinado para a lateral. Veste terno es- curo com camisa branca e gravata preta com detalhes. Os cotovelos, embora não apareçam, estão apoiados em algum lugar e as mãos estão abraçadas. Entre os dedos estão os óculos. O filósofo possui cabelos gri- salhos, nariz adunco e não possui barba. Bertrand Russell nasceu em 1872, no seio de uma família de nobres liberais, e inclusive alguns de seus antepassados exerceram funções importantes na vida pública inglesa. Durante toda a sua vida, foi interessado por política, seja como estudioso ou militante, também colocou sua importância enquanto intelectual a serviço de causas liberais. Quando observamos o seu trabalho, é notório que ele produziu fecundamente e com muita regularidade: escreveu mais de sessenta livros e inúmeros artigos. Além de filosofia e política, escreveu sobre educação, história e até produziu textos ficcionais. Vale a pena destacar, dentro de sua prolí- fica produção, alguns títulos: Principia Mathematica (1913), Misticismo e lógica (1918) e Conhecimento Humano (1948). Russell, que faleceu em 1970, deixou sua autobiografia escrita, em três volumes, no final dos anos 1960. É curioso saber que Russell, famoso no meio filosófico, inicialmente, por seu trabalho com análise lógica e, muito tempo depois, por seu trabalho com filosofia social humanista, não via conexão direta entre essas duas correntes de seu próprio Figura 2 – Bertrand Russell UNICESUMAR UNIDADE 2 60 pensamento. Stokes (2009) citando o filósofo, dizia que Russell escreveu a respeito desses assuntos não com a capacidade filosófica, mas como ser humano que sofria e que desejava encontrar uma maneira de melhorar o mundo. Fazendo uma leitura concisa de seu atomismo proposicional, Abrão (1999) afirma que Russell começou rejeitando o monismo idealista cuja base advém de Hegel. Isso foi possível pelo caminho de investigação proposta pelos empi- ristas ingleses dos séculos XVII e XVIII. A rigor, inicialmente, para esse filósofo o mundo era visto como uma pluralidade de elementos que eram organizados em indivíduos, relações, classes e assim por diante, expressos por palavras que podem remeter a alguma coisa. Depois, ele reviu essa afirmação, ao introduzir uma diferença à denotação, isto é, ao fato de as palavras remeterem às coisas ou fatos. Nessa esteira, Abrão (1999) diz que para o filósofo, as expressões “O atual rei da França” e “A rainha da Inglaterra” são frases denotativas, todavia não remetem da mesma maneira àquilo que, a rigor, descrevem. Em uma tentativa de resolver esse engodo, Russell utiliza a lógica e considera que nomes de pessoas, objetos e descrições como as de cima, são construções lógicas, portanto, entidades com- plexas que precisam ser reduzidas em suas partículas elementares. “ No universo de Russell não existem verdadeiramente objetos tais como livros ou casas, nem pessoas como Churchill ou Marx, mas apenas da-dos sensoriais, que são os elementos dessas construções simbólicas ou lógicas. Se digo, por exemplo, “O autor de Waverley era escocês”, devo traduzir a frase numa sequência de sentenças logicamente depuradas, o que resultaria em: 1. “X escreveu Waverley” não é sempre falsa; 2. Se X e Y escreveram Waverley, X e Y são idênticos; 3. “Se X escreveu Waver- ley, X era escocês” é sempre verdadeira. Isso, em linguagem ordinária, significa que ao menos uma pessoa escreveu Waverley e que quem quer que tenha escrito Waverley era escocês. Essas proposições atômicas es- clarecem o sentido da frase original, que é de uma complexidade lógica que só se revela na análise (ABRÃO, 1999, p.427). Nota-se, de acordo com o fragmento anterior, que é possível substituir os nomes e as descrições por dados que eles encobrem sem, com isso, modificar a propo- sição, pelo contrário: ela ganhará um rigor lógico que a linguagem comum não contém. É por isso que Abrão (1999) afirma que, para Russell, a linguagem deve corresponder ao conhecimento adquirido, respeitando a sua complexidade, e, 61 também, orações e sentenças devem expressar o mundo e permitir a ordenação e multiplicidade dos fatos observados. Na esteira dessas discussões, Russell, diferentemente de Frege, teve uma com- preensão distinta dos termos singulares. Enquanto Frege os divide em nomes próprios (por exemplo, Brasília) e descrições definidas (por exemplo, a capital do Brasil), Russell afirmava que os nomes próprios são os termos singulares que fazem referência direta a realidade, sem nenhum tipo de mediação de descrição que formam suas características. Para esse filósofo, a linguagem deve estar sempre relacionada à lógica, pois ele “acredita que análise lógica da linguagem é capaz de ‘pôr a nu’ a forma lógica como esqueleto, correspondendo esta forma lógica, então, à estrutura da própria realidade” (MIGUENS, 2007, p. 104). Dois pontos da filosofia de Russell merece destaque: o atomismo lógico e a teoria das descrições definidas. Foquemos no primeiro e, a respeito dele, [...] entendemos que o atomismo lógico constitui uma teoria filosófica sobre a estrutura fundamental da realidade a partir de um método de análise lógica de proposições. Assim, o atomismo lógico considera que a análise lógica nos mostra, como resultado, os constituintes lógicos mais simples da proposição – os átomos lógicos – e que estes correspondem exatamente aos constituintes da realidade. Pensamos que ao menos três ideias estão aqui subtendidas: (i) há uma correspondência geral entre lin- guagem e realidade, e isso garante que a análise completa das palavras irá coincidir com a análise completa das coisas , (ii) a realidade não é única e indivisível, mas sim composta por uma multiplicidade de coisas separadas e (iii) os átomos lógicos não podem ser analisados em partes mais simples (AMARAL, p.35-36, 2015). É preciso esclarecer que os átomos lógicos não são físicos, como o próprio Russell faz questão de esclarecer: “A razão pela qual eu chamo minha doutrina de ato- mismo lógico é por que os átomos que eu desejo alcançar como o tipo de resíduo último na análise são átomos lógicos, e não átomos físicos” (RUSSELL, 2010, p.3) Para o filósofo, os átomos lógicos são particulares, qualidades e relações. Nessa esteira, Russell afirma que a realidade se constrói a partir de uma multiplicidade de particularesque exibem qualidades e sustentam relações. Para Russell, “alguns deles [os átomos lógicos] serão o que eu chamo de “particulares” – coisas como UNICESUMAR UNIDADE 2 62 pequenas manchas de cores, sons, coisas momentâneas – e alguns deles serão predicados e relações e assim por diante” (RUSSELL, 2010, p.3) Russell afirma que a nossa linguagem simples dá conta de comportar palavras que fazem referência aos átomos lógicos. Por exemplo, as palavras “isto” e “aquilo” que apontam para objetos momentâneos, que já conhecemos por familiaridade a partir de um conhecimento prévio. O filósofo afirma, também, que nomes de pessoas, de objetos não são nomes simples em um sentido lógico, mas uma reu- nião de descrições que remetem a uma série de classes particulares. “ Uma cadeira apresenta uma aparência diferente a cada momento. Cada aparência que ela apresenta em cada momento determina certa classe. Todos estes conjuntos de aparências variam periodi- camente. Se eu pego a cadeira e a quebro, ela apresentará todo um conjunto de aparências diferente do que ela apresentava antes e, sem ir tão longe, ela sempre seguirá mudando conforme as mudanças de iluminação, e assim por diante. Então você tem agora uma série de diferentes conjuntos de aparências, e isso é o que eu quero dizendo que uma cadeira é uma série de classes (RUSSELL, 2010, p.117) Conforme o fragmento anterior, para Russell, a realidade não pode ser construí- da a partir de um mundo exterior que é composto por objetos físicos que não dependem de nosso olhar subjetivo. Pelo contrário: o atomismo de Russel parte, justamente, da epistemologia, campo que investiga a linguagem, a realidade e a subjetividade. Dessa forma, concluímos que a realidade não é o mundo concreto, objetivo, permanente, mas o mundo subjetivo. Em outras palavras, “a realidade não é o objeto físico em contraposição à mera aparência dos dados dos sentidos, mas sim os próprios dados dos sentidos, mais tudo aquilo que pertence ao campo da subjetividade” (RUSSELL, 2010, p.17). Posta a questão da realidade para o atomismo de Russell, pensemos, agora, a respeito da argumentação de Russell sobre esta realidade: “ Livingston (2001) propõe que o átomo lógico tem três sentidos dife-rentes: um sentido lógico, um sentido epistemológico e um sentido ontológico. Até aqui, vimos Russell fazer uma arguição epistemo- lógica na definição do átomo lógico. Vimos que alguns átomos ló- 63 gicos são particulares, ou seja, entidades que conhecemos de forma imediata, por familiaridade, sem a inferência a partir de um co- nhecimento prévio. Livingston (2001) diz que, quando definimos o átomo lógico desta maneira, devemos entender que, na verdade, esta definição é de um átomo epistemológico. Quanto ao átomo lógico, propriamente, ele define-se por ser portador de um nome em uma proposição completamente analisada. Ora, ao perceber que há duas definições em jogo, precisamos saber se o átomo epistemológico coincide com o átomo lógico (AMARAL, 2015, p.38). Isto quer dizer que é necessário saber se as entidades que conhecemos portam um nome em uma proposição que é completamente analisada. Se não for assim, a epistemologia de Russell não funcionaria completamente, quando acionamos o modelo dos átomos, uma vez que não poderíamos afirmar que as entidades que conhecemos de forma imediata compõem as partes mais simples da realidade. De acordo com Livingston (2001), átomo lógico e epistemológico coincidem. Pensemos na seguinte situação: x não é um átomo epistemológico, dessa maneira, nosso conhecimento de x não é dado por familiaridade, mas sim por uma infe- rência que partem de entidades anteriores que chamaremos, agora, de E’s. Assim sendo, uma sentença sobre x poderia ser substituída por uma sentença formal que menciona apenas E’s. Todavia, como informa Amaral (2015, p.38) “ [...]então x não pode ser portador de um nome, pois nomes só apare-cem em proposições completamente analisadas; ou seja, x não é um átomo lógico. Isso mostra que se x não é um átomo epistemológico, então x não é um átomo lógico. Ora, por equivalência lógica, temos que se x é um átomo lógico, então x é um átomo epistemológico. Tam- bém podemos dizer que todo átomo epistemológico é átomo lógico. Basta considerar que, se nós estamos familiarizados com algum objeto, então nós podemos dar um nome y a este objeto por ostensão; e uma vez que o nosso conhecimento deste objeto não depende de nenhum conhecimento anterior, então este nome não pode ser analisado em partes mais simples. Destarte, conclui-se que y é um átomo lógico. Russell é adepto de uma abordagem empírica, em detrimento de uma a priori, isso significa que ele defende que encontramos átomos lógicos justamente no momento em que nos damos conta que as constituintes da proposição não podem ser divididas em UNICESUMAR UNIDADE 2 64 partes lógicas simples. É por isso que, quando questionado se há várias coisas, ele afirma: “ Eu não entendo “Há várias coisas” como um postulado. Eu deveria entender que, na medida em que isso pode ser pro-vado, a prova é empírica e que as refutações que têm sido feitas são a priori. O sujeito empírico diria naturalmente que há várias coisas. [...] Eu não considero que há necessidade lógica para que há várias coisas, nem para que não há (RUSSELL, 2010, p.14). A questão é que Russell busca encontrar o átomo lógico como resultado da análise lógica. E o fim de uma análise lógica se dá quando se percebe estar diante das partes mais simples da proposição, os nomes, as entidades que conhecemos etc. A lógica parece simples, mas algumas dificuldades se instalam, algumas delas: “como sabemos que a análise irá em algum momento esbarrar nos átomos lógicos?; como sabemos se a análise de uma proposição está completa?; como sabemos se aquilo que percebemos como nomes lógicos são, de fato, nomes lógicos?” Para essas dúvidas, Rus- sel não dá garantias, isto é, nem que os nomes lógicos serão os mesmos encontrados em determinados momentos de análise e tampouco oferta critérios para decidir o fim do processo analítico da proposição. Ele diz, apenas, que é provável que os nomes lógicos serão encontrados e que a análise terá uma conclusão. Em uma posição contrária, Wittgenstein afirma que a questão não está em encontrar as partes logicamente simples de uma preposição, mas em admitir que a análise tem um fim, caso contrário, a proposição teria um sentido indeterminado. Dessa maneira, contrário a Russell, ele apresenta uma abordagem a priori e mesmo que ele não utilize o termo atomismo lógico, sua abordagem, sobretudo no Tractatus é atomista, conforme segue: I - Toda proposição tem uma análise final que revela que a proposi- ção é uma função de verdade das proposições elementares (3.25, 4.221, 4.51, 5); 65 II - Estas proposições elementares afirmam a existência de estados de coisas (3.25, 4.21); III - Proposições elementares são mutuamente independentes, ou seja, uma proposição elementar pode ser verdadeira ou falsa in- dependentemente da verdade ou falsidade das outras proposi- ções elementares (4.211); IV - Proposições elementares são símbolos simples – ou nomes – em ligação imediata (4.221); V - Os nomes se referem a coisas totalmente desprovidas de comple- xidade, ou seja, se referem aos objetos (2.02, 3.22); VI - Os estados de coisas são combinações de objetos (2.01). (WIT- TGENSTEIN, 2008, p.42). Wittgenstein, conforme exposto no fragmento anterior, não fala em exem- plos lógicos em nossa linguagem simples e também não discute a respeito de os objetos lógicos serem ou não conhecidos de modo empírico. Ade- mais, ele acrescenta, afirmando que não é trabalho da filosofia nominar essas coisas, todavia, de acordo com o Tractatus, devemos admiti-los, conforme o argumento que segue: “ (2.021) Os objetos constituem a substância do mundo. Por isso não podem ser compostos. – (2.0211) Se o mundo não tivesse substância, ter ou não ter sentido uma pro- posição dependeria de ser ou nãoverdadeira uma outra proposição. – (2.0212) Seria então impossível traçar uma figuração do mundo (verdadeira ou falsa) (WITTGENS- TEIN, 2008, p.30) O argumento poderia ser da seguinte forma: “uma vez que podemos fazer figurações do mundo (F), então a proposição não deve depender da verda- de de outra proposição para ter sentido, ou seja, as proposições devem ser independentes entre si (I); e, assim, tomando como premissa o aforismo 2.0211, o mundo tem substância (S)” (AMARAL, 2015, p. 42). UNICESUMAR UNIDADE 2 66 Descrição da Imagem: trata-se de uma foto preto e branco, estilo 3x4, do filó- sofo Wittgenstein, no qual aparece seu busto. Ele está com o olhar fixado para a câmera e usa uma espécie de blazer. Tem a expressão ligeiramente triste, possui cabelos pretos e está sem barba. Coisas e nomes em Wittgenstein Uma anedota muito inusitada, descrita por Russell, em seu Retratos de Memória, envolve Wittgenstein e merece destaque aqui. Segue a versão relida por D’Oliveira (1996, p.5). Russel conta que, “ [...] por volta de 1913, tinha entre seus alunos da Universidade de Cam-bridge um tão esquisito, a ponto de, após todo um período letivo, o filósofo não saber dizer se tratava apenas de um excêntrico ou de um homem de gênio. Sua perplexidade aumentou ainda mais quando foi procurado pelo estranho aluno, que lhe fez uma insólita pergunta: “O senhor poderia fazer a fineza de me dizer se sou ou não um completo idiota?”. Russell respondeu que não sabia e perguntou-lhe das razões de sua dúvida. O aluno replicou: “Caso seja um completo idiota, me dedicarei à aeronáutica; caso contrário, Figura 3 – Wittgenstein Fonte: Wikimedia Commons ([2022]c, on-line). 67 tornar-me-ei-filósofo”. Russell não encontrou outra saída para se desfazer da embaraçosa questão, a não ser pedindo-lhe que escrevesse um assunto filosófico qualquer e, depois lhe mostrasse. Passado algum tempo, o aluno retornou com o trabalho e o filósofo depois de ler apenas uma linha, sen- tenciou: “Não, você não deve se tornar um aeronauta”. A partir daí Witt- genstein, o aluno excêntrico, abandonou totalmente qualquer preocupação com a engenharia de aviões, tornando-se apenas mais um filósofo entre outros, mas uma das principais figuras da filosofia do século XX. O fato é que Wittgenstein teve uma vida bastante agitada: aos oito anos ele cons- truiu, sozinho, uma máquina de costura, provocando imensa admiração da família, o que fez com que seus pais o enviassem para uma escola especializada em estudos matemáticos e físicos. Depois, seu interesse recaiu para a Engenharia Mecânica e durante três anos dedicou-se às pesquisas aeronáuticas. Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, alistou-se no exército austríaco como voluntário e nesse período redigiu, intensamente, o Tractatus Logico-Philosophicus, sua obra mais conhecida. Em agosto de 1918, finalizou-o e foi capturado pelas tropas italianas. Após doar sua fortuna pessoal a duas irmãs, o filósofo tornou-se um modesto professor, trabalhou como ajudante de jardineiro em um mosteiro, foi escultor e, em 1929, retornou a Cambridge para dedicar-se à filosofia. Em 1941, durante a Segunda Guerra, Wittgenstein trabalhou no Guy’s Hospital e desempenhou funções simples. Anos depois, renunciou à sua cátedra de filosofia e buscou tran- quilidade para escrever suas Investigações Lógicas. Descobriu um câncer e tempos depois, sem se sentir deprimido, mudou-se para a casa de seu médico. Dois dias antes de morrer declarou: “diga-lhes que eu tive uma vida maravilhosa”. Além do Tractatus e de Investigações, o filósofo também escreveu as Observa- ções Filosóficas, os Cadernos Azul e Marrom, escritos entre 1933 e 1955, e as Con- ferências e Discussões sobre Estética, Psicologia e Crença Religiosa, notas reunidas por alguns de seus amigos. Os estudiosos de Wittgenstein dividem sua obra em duas fases: a primeira corresponde ao Tractatus e a segunda engloba as demais obras. Pensando, mais especificamente, na contribuição que Wittgenstein deu à filoso- fia da linguagem, importa salientar, para começarmos, que ele se ergueu contra uma tradição filosófica que afirmava a filosofia como “busca geral da verdade”. Para ele, a filosofia não é teoria de coisa alguma, é, na verdade, uma prática, uma atividade que busca esclarecer o sentido das palavras que usamos para dizer algo significativo. UNICESUMAR UNIDADE 2 68 Ele deu um salto importante entre a primeira e segunda fase de sua obra: na primeira, a base de sua crítica da linguagem era a lógica (regras sintáticas e se- mânticas), pois acreditava que se fosse delimitado a forma lógica das proposições, os problemas de significação seriam resolvidos através do uso dessa base lógica matemática. O erro dessa proposição está, justamente, em acreditar que a essência da linguagem pode ser estabelecida de uma vez por meio de um único modelo. Na segunda fase, finalmente, ele reconhece que a linguagem não pode funcio- nar de uma única maneira. Ele troca a preocupação da forma estrutural da lingua- gem (de caráter sintático e semântico) para uma preocupação que se baseia no uso e nos contextos de aplicação (de caráter pragmático). Dessa forma, o que passa a valer para esse filósofo é a máxima: “o significado é o uso”, isto é, para sabermos o que uma expressão significa é necessário observar o seu contexto de aplicação. A partir dessa compreensão, Wittgenstein dá um salto: deixa de lado a noção central de Lógica para uma noção muito mais ampla e polimórfica que ele chama de Gramática. Isso quer dizer que as regras que antes eram estabele- cidas a partir da lógica, agora são estabelecidas a partir de regras gramaticais e, portanto, não podem ser estipuladas de antemão de uma vez por todas. É preciso estabelecer uma análise filosófica de descrição e comparação daquilo que ficou conhecido como os jogos de linguagem que nada mais são do que as regras que seguimos quando queremos dizer algo com sentido. No entanto, para acompanharmos aspectos do pensamento de Wittgenstein, voltemos a algumas considerações sobre o Tractatus. A preocupação central dessa obra é a relação entre linguagem, pensamento e realidade. Stokes (2009, p. 289) afirma que para esse filósofo, a linguagem “é a forma perceptível do pensamento unida à realidade por uma forma ou estrutura lógica comum”. Na linhagem de Frege, Wittgenstein afirmava que o significado das expressões linguísticas tinha de ser determinado pelo mundo, caso contrário seria contaminado pela incerteza. E de Russell, ele se valeu da afirmação de que tanto a linguagem quanto o mundo precisam ser compreendidos em suas partes atômicas. Porém, ele foi além e se tornou independente de seus mestres ao argumentar que “a estrutura lógica das sentenças tem que refletir exatamente a estrutura essencial do mundo” (STOKES, 2009, p.289). Dessa forma, se a ordem lógica é essencial para que se tenha o sen- tido, a linguagem comum não poderia ser imperfeita logicamente, ela precisaria ser ordenada de forma que “nada que pode ser dito disso pode ser dito claramente e o que não pode ser dito claramente merece o silêncio” (STOKES, 2009, p. 289). 69 No Tractatus, as proposições e a linguagem são tidas como “nome” que, para o filósofo, é um signo simples utilizado nas sentenças. Ademais, o nome deve representar o “objeto”, descrito, na supracitada obra, como absolutamente sim- ples, mas não simples em relação a algum sistema de notação. São os objetos que formam a substância do mundo e é justamente por esse motivo que não podem ser compostos; “a substância é o que subsiste independentemente do que ocorre; o fixo, o subsistente e o objeto são um só, enquanto a configuração constitui o mutável, o instável” (D’OLIVEIRA, 1996, p.10). Wittgenstein não acredita que o nome sozinho seja uma figuração do objeto. Só o nome não diz nada. É preciso que ele esteja combinado com outros nomes para que a realidade se configure. Dessa maneira, as sentenças constroem sua teoria da linguagem.Ele afirma, ainda, que muitas das proposições de linguagem parecem não parecem figurações da realidade, o que exige uma análise rigorosa para que venha à tona o caráter figurativo. A partir dessa análise, surgem as pro- posições que configuram a representação de um objeto simples. No Tractatus, Wittgenstein propõe sete proposições que se ramificam em inú- meros pontos e subpontos cujo intuito é explicar a proposição inicial. Vejamos: 1. sobre o mundo (o mundo é tudo aquilo que é o caso, que acontece); 2. o caso é a existência de estados de coisas; 3. o pensamento como a imagem lógica dos fatos; 4. o pensamento é a proposição com sentido; 5. a proposição é uma função de verdade das proposições elementares; 6. a forma geral de uma função de verdade é [p, ξ, N (ξ)]; 7. daquilo de que não se pode falar, deve-se calar. (SILVA, 2013, p.40). A ideia de proposições elementares decorre das preocupações do filósofo em anali- sar, como já salientamos, as relações entre o pensamento e a linguagem e, também, a realidade. Para ele, a realidade é afigurada pela linguagem e, por isso, seria preciso admitir as proposições. E das proposições elementares derivam-se todas as outras. Para Nef (1995, p.146), a partir dessa teoria, “formamos quadros dos fatos por meio do pensamento e da linguagem. As proposições descrevem os estados de coisas, mas não podem descrever seu modo de descrição”. Além disso, as proposições também não descrevem sua própria estrutura, mas podem ser mostradas: UNICESUMAR UNIDADE 2 70 “ Aquilo que o quadro deve ter comum com a realidade, a fim de poder representá-la à sua maneira – verdadeira ou falsamente – é a forma da representação. 2.172 Entretanto, o quadro não poderia representar a sua própria forma de representação: ele apenas mostra (MIGUENS, 2007, p. 146) É preciso destacar que há um limite naquilo que se diz, isto é, há o inexprimível. Quando pensamos nas proposições da ética e da estética, por exemplo, não po- demos falar. É daí que advém o fato de que os limites da linguagem são, na ver- dade, os limites do mundo. De acordo com Wittgenstein, “sobre o mundo, posso dizer como ele é, por meio de uma conjunção de proposições que formam uma linguagem, mas não posso dizer, a rigor, que ele é” (NEF, 1995, p. 147). A partir, sobretudo, das Investigações Filosóficas, Wittgenstein trilha um novo caminho a respeito de suas reflexões. Ele passa a afirmar que a linguagem fun- ciona em seu uso, em sua prática. Retomamos, aqui, o já exposto conjunto que forma os “jogos da linguagem”, dentre os quais, destacamos os empregos utiliza- dos para consolar, indignar-se, descrever e assim por diante. A linguagem é uma ferramenta, não há, portanto, uma única função. Nessa segunda fase, fica explícito que a linguagem não pode mais ser uni- ficada segundo uma estrutura lógica e formal. Uma proposição, ao contrário do exposto no Tractatus, não traz em si o todo da linguagem, uma vez que ela é repleta de pequenos segmentos diferentes e múltiplos. Essa colocação se aproxima, decisivamente, do estruturalismo de Ferdinand de Saussure, um dos temas discutidos na próxima unidade. Agora, o filósofo repudia a afirmação de que o significado é dependente da realidade e de que a linguagem se preocupa, essencialmente, com a representação. Ele afirma que os objetos não são, literalmente, o significado dos nomes, pelo contrário, elucidam o significado, basta pensarmos, por exemplo, que apontar para uma cadeira ajuda a explicar o que ela significa. A partir dessa compreensão, o filósofo percebeu a funcionalidade abrangente da linguagem e compreendeu que as palavras são instrumentos cujos empregos dependem de situações, fina- lidades e contextos diferentes. O que uma palavra significa depende do contexto em que ela se insere e depende para o que está sendo usada e advém daí a noção de jogos de linguagem. 71 Em termos técnicos, pode-se afirmar que nessa virada, a linguagem não pode ser unificada de acordo com uma única estrutura lógica e formal. Diferentemente do Tractatus, em Investigações filosóficas, fica explícito que uma proposição não traz em si o todo da linguagem. Esta procede por meio de segmentos plurais e múltiplos, criando semelhança, apenas, por meio dos jogos de linguagem. Penco (2006) afirma que esse segundo Wittgenstein procura aprofundar os diferentes usos da linguagem já descritos por Frege e em desenvolver a ideia de que o sentido sempre necessita do contexto de ação ou de uso. Junta-se a essas duas ideias, a necessidade do aprendizado de regras. O significado é o uso da palavra em determinado contexto. No uso da palavra temos o tom, isto é, a intenção do falante e a força de sua expressão. Não há como separá-las, pois estão envolvidas em um determinado contexto. A respeito disso, Wittgenstein propõe um exemplo: “ Pense agora no seguinte emprego da linguagem: mando alguém fazer compras. Dou-lhe um pedaço de papel, no qual estão os signos: “cinco maçãs vermelhas”. Ele leva o papel ao negociante; este abre o caixote sobre o qual se encontra o signo ‘maçãs’; depois, procu- ra numa tabela a palavra ‘vermelho’ e encontra na frente desta um modelo da cor; a seguir, enuncia a série dos numerais – suponho que saiba de cor – até a palavra ‘cinco’ e tira do caixote uma maçã da cor do modelo. – Assim, e de modo semelhante, opera-se com palavras. – ‘Mas como ele sabe onde e como procurar a palavra ‘ver- melho’, e o que vai fazer com a palavra ‘cinco’? – Ora, suponho que ele aja como eu descrevi. As explicações têm em algum lugar um fim. – Mas qual é a significação da palavra ‘cinco’? – De tal signifi- cação nada foi falado aqui; apenas, de como a palavra ‘cinco’ é usada (WITTGENSTEIN, 1999, p. 28). Em linhas gerais, como fica exposto na presente unidade, as três contribuições sumariamente comentadas possuem concepções diferentes e, em determinadas situações, até opostas. Todavia, essas propostas têm um ponto em comum: pen- sam em um método de análise lógico da linguagem. Como supracitado na unidade anterior, Platão já se questionou no Crátilo, o fundamento da significação das palavras. E Aristóteles analisou a linguagem já UNICESUMAR UNIDADE 2 72 antecipando as questões que envolvem a lógica. Depois, no século XVII, Leibniz se interessou pelo aspecto formal da linguagem e a lista não tem fim. No fim do século XIX surgiu a necessidade de expressar os fatos com uma lógica perfeita que sobressaísse àquela proposta pela estrutura da gramática das línguas naturais, uma vez que o foco era o alcance significativo da linguagem. Abrão (1999) afirma que essa atitude possuía o intuito de verificar, filosofica- mente, até que ponto os problemas derivam do caráter complexo da linguagem. Quando Frege, Russell e Wittgenstein pensam na linguagem para formular problemas precisos e não apenas para transmitir o teor do pensamento, as pala- vras e a própria sintaxe tornam-se fonte de problemas. Isso se dá pelo fato de que a forma assume grande importância. A forma, assevera Abrão (1999), pertence ao domínio da lógica e é papel da lógica traduzir a linguagem comum em proposições e sentenças, como muito bem vimos. Russell e Wittgenstein propõem, justamente, que a lógica assuma esse papel, não apenas com o intuito de clarificar a forma da linguagem, mas também, pelo fato de que as proposições são expressões de fatos, a análise lógica contribui para a forma lógica. A partir daí um problema se desprende: “ A tarefa de elucidar a forma proposicional da linguagem foi segura-mente aquela que a lógica tradicional cumpriu de maneira mais de-ficiente, talvez porque se tenha julgado, durante séculos, que a lógica formal deveria tematizar o pensamento e não as suas formas concre- tas de expressão. O domínio da expressão ficou relegado à gramática, que, entretanto, não se ajusta sempre às exigências lógico-formais. Seria preciso perguntar também se a lógica tradicional, que perma- neceu durante séculos com a estrutura básica que lhe dera Aristóteles,constituía um instrumento realmente adequado para uma análise formal em profundidade da linguagem (ABRÃO, 1999, p.424-425). Para além da lógica tradicional, que é atributiva, basta pensarmos, por exemplo, na proposição já citada: “Sócrates é mortal” é preciso não se esquecer que há outros fatos e proposições que fogem desse modelo, principalmente, as proposi- ções que descrevem relações. E é aí que a obra dos três filósofos aqui comentadas se enquadram: elas propõem uma extensão da lógica tradicional, o que não a invalida: só a renova e a expande. 73 Prezado (a) Acadêmico (a), agora que chegamos ao final da segunda unidade de estudos, algumas das contribuições específicas da Filosofia da Linguagem foram colocadas em discussão. Nas próximas unidades, deteremos o nosso olhar para outra direção: a ciência linguística e suas possíveis relações com a filosofia da lin- guagem. No entanto, você já possui capacidade de refletir sobre aspectos básicos da Filosofia da Linguagem. Pensando nisso, é hora de partir para a prática: faça um fichamento contemplando os principais pontos das contribuições de Frege, Russell e Wittgenstein, explicitando os possíveis contatos entre a obra desses filósofos. Wittgenstein O podcast tem o intuito de trazer breves comentários a res- peito das duas fases da obra de Wittgenstein: das discussões acerca da linguagem no Tractatus até as Investigações filosó- ficas. Posteriormente, alguns trechos da obra Investigações filosóficas serão lidos e devidamente discutidos. NOVAS DESCOBERTAS Adeus à Linguagem é um dos mais recentes filmes do sempre inventivo ci- neasta francês Jean-Luc Godard. Neste filme, lançado em 2014, são explora- das questões que envolvem a perspectiva filosófica da linguagem. Segue o link para o trailer do filme. UNICESUMAR https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13571 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/9716 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13571 74 1. Gottlob Frege, filósofo e matemático, foi um dos primeiros nomes a contribuir, de- cisivamente, para que a Filosofia da Linguagem ganhasse estatuto de disciplina. A respeito de sua obra, considere as assertivas a seguir: I - Frege inventou a linguagem da lógica simbólica moderna, ponto fundamental para a base de seus estudos no campo da Filosofia da Linguagem; II - A lógica fregeana, uma continuação da lógica clássica, era utilizada para mostrar que as leis da Aritmética se fundamentam nas leis platônicas; III - Em Sentido e Significado, o filósofo problematiza a questão da identidade e se ela seria uma relação estabelecida entre objetos ou entre os sinais dos objetos; IV - O contexto não é elemento primordial na filosofia de Frege, uma vez que as palavras possuem significados isolados. Está correto o que se afirma em: a) I e II, apenas. b) I e III, apenas. c) I, II e IV, apenas. d) I, III e IV, apenas. e) I, II, III e V. 2. O atomismo de Russell é uma contribuição importante para os rumos da Filosofia da Linguagem. A respeito desse modelo e de outras discussões do filósofo a respeito da linguagem, analise as assertivas a seguir: LIVINGSTON, P. Russellian and Wittgensteinian Atomism. Investigações Filosóficas, n. 24, v. 1, p. 30-54, 2001. Disponível em: https://philpapers.org/rec/LIVRAW-2. Acesso em: 23 mar. 2022. I - O atomismo desse filósofo advém da epistemologia, campo que investiga a lin- guagem, a realidade e a subjetividade; II - Os átomos lógicos não são átomos físicos, isto é, são particulares, qualidades e relações; III - Para Russell, a realidade não é o mundo concreto, e sim os próprios dados dos sentidos, ou seja, o mundo subjetivo; IV - O atomismo constitui uma teoria sobre a estrutura fundamental da realidade a partir de um método que analisa, logicamente, as proposições; V - Livingston (2001) propõe que o átomo lógico tem três sentidos diferentes: um sentido lógico, um sentido epistemológico e um sentido ontológico. 75 É correto o que se afirma em: a) I, II e III, apenas. b) I, II e IV, apenas c) I, III e IV, apenas d) II, IV e V, apenas e) I, II, III, IV e V. 3. Wittgenstein se constituiu um dos principais filósofos do século XX. Sua obra, embora curta, possibilitou novas discussões para o campo da linguagem. A respeito dela e de aspectos do estilo do filósofo, analise as assertivas que seguem: I - Wittgenstein se posicionava contra a afirmação de que a filosofia era uma busca geral da verdade; II - A obra do filósofo possui duas fases e é na primeira que ele desenvolve sua maior contribuição para o campo da filosofia da linguagem; III - Wittgenstein abandona a noção central de Lógica e adota uma noção mais ampla que ele chama de Gramática; IV - Para o filósofo, o nome sozinho não é uma figuração do objeto. Ele precisa estar combinado com outros nomes. Está correto o que se afirma em: a) I e II, apenas b) I e III, apenas c) I, II e III, apenas d) I, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 3A Ciência Linguística Dr. Diego Luiz Miiller Fascina Nesta Unidade, o foco recai em alguns apontamentos a respeito da Linguística, ciência que, em suas inúmeras ramificações, estuda a língua, a fala, a linguagem e o discurso. Um percurso histórico será realizado com o intuito de apontar mais uma faceta dos estudos da linguagem: iniciaremos com a contribuição dos clássicos, passaremos pela Idade Média, pelo Renascimento até chegarmos aos modelos comparativistas. A partir daí, haverá um ponto de ruptura: os estudos de Ferdinand de Saussure e suas contribuições que sistematizam o Estruturalismo. A partir desses estudos, a Linguística torna-se uma ciência. Após Saussure, comentaremos alguns desdobramentos dos estudos linguísticos, tais como o Gerativismo de Chomsky, as funções da linguagem de Jakobson, o pensamento de Benveniste e os atos de fala de Austin. UNIDADE 3 78 A estrofe acima faz parte de Língua, canção de Caetano Veloso, lançada no disco Velô, de 1984. Tais versos servem muito bem para problematizar a nossa discus- são. Neles, o eu-lírico usa o termo pátria, que vem de pai e, dessa forma, a língua, que representa a pátria, seria também, uma espécie de pai, mas, histórica e cul- turalmente, conhecemos o português como “língua mãe”, não é à toa que até no Hino Nacional Brasileiro, tal questão é posta, nos versos “Dos filhos deste solo/ mãe gentil/ Pátria amada Brasil”. Apesar disso, pai e mãe podem ser entendidos, à luz da Psicanálise, como figuras autoritárias que traumatizam, daí a necessidade de querer que a língua se torne “frátria”, isto é, irmã para que haja uma relação de equilíbrio e igualdade. Essa é uma das possibilidades de leitura desses versos que são repletos de sím- bolos e cifras, como é comum no cancioneiro de Veloso. Afinal, por que eles nos interessam? Como afirmado anteriormente, eles aju- dam na problematização das questões que são refletidas no decorrer de nossos estudos. Convido você a algumas reflexões: de que maneira podemos entender a língua como mãe? Se, de fato, ela for vista como pai ou como mãe, a língua nos protege ou nos pune? E, se vista como irmã, ela é nossa aliada, é feita do mesmo material que nós, sujeitos, somos feitos? E, para finalizar, de que maneira esses versos ilustram momentos distintos da história do pensamento linguístico? "A língua não se confunde com a linguagem; é somente uma parte determina- da, essencial dela. É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade de lingua- gem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos. A linguagem é multiforme e heteróclita; a língua, ao contrário, é um todo por si e um princípio de classifica- ção. Ela é a parte da linguagem, exterior ao indivíduo” (SAUSSURE, 1971, p.12) Partindo da Problematização inicial, leia, na íntegra, Língua, de Caetano Ve- loso, e elabore uma análise contemplando as inúmeras referências que aparecem no incipit da letra, bem como o que o eu-lírico compreende como língua. Gostode sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões “A língua é minha pátria E eu não tenho pátria, tenho mátria E quero frátria” LETRAS. Língua Caetano Veloso. Letras, [2022]. Disponível em: https://www.letras.mus.br/caetano- -veloso/44738/. Acesso em: 25 mar. 2022. 79 Língua (Caetano Veloso Gosto de ser e de estar E quero me dedicar a criar confusões de prosódia E uma profusão de paródias Que encurtem dores E furtem cores como camaleões Gosto do Pessoa na pessoa Da rosa no Rosa E sei que a poesia está para a prosa Assim como o amor está para a amizade E quem há de negar que esta lhe é superior? E deixe os Portugais morrerem à míngua “Minha pátria é minha língua” Fala Mangueira! Fala! Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó O que quer O que pode esta língua? Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas E o falso inglês relax dos surfistas Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas! Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate E – xeque-mate – explique-nos Luanda Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo Sejamos o lobo do lobo do homem Lobo do lobo do lobo do homem Adoro nomes Nomes em ã De coisas como rã e ímã Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã Nomes de nomes Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé e Maria da Fé Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó O que quer O que pode esta língua? Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção Está provado que só é possível filosofar em alemão Blitz quer dizer corisco Hollywood quer dizer Azevedo E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo UNICESUMAR UNIDADE 3 80 A língua é minha pátria E eu não tenho pátria, tenho mátria E quero frátria Poesia concreta, prosa caótica Ótica futura Samba-rap, chic-left com banana (– Será que ele está no Pão de Açúcar? – Tá craude brô – Você e tu – Lhe amo – Qué queu te faço, nego? – Bote ligeiro! – Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado! – Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho! – I like to spend some time in Mozambique – Arigatô, arigatô!) Nós canto-falamos como quem inveja negros Que sofrem horrores no Gueto do Harlem Livros, discos, vídeos à mancheia LETRAS. Língua Caetano Veloso. Letras, [2022]. Disponível em: https://www.letras.mus.br/caetano- -veloso/44738/. Acesso em: 25 mar. 2022. Confira no QRcode ao lado. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/11792 81 No caldeirão de vastas referências que a letra de Língua traz, selecione e comente aquelas que são conhecidas por você e faça uma pesquisa a respeito daquelas que são desconhecidas. Trago, aqui, alguns exemplos: quando ele cita “Pessoa” e “Rosa”, será que, de fato, a referência é tão somente aos substantivos femininos? De onde vem a referência “lobo, do lobo do homem”? Quem foi Scarlet Moon de Chevalier? Qual é a relação existente entre todas essas referências? DIÁRIO DE BORDO UNICESUMAR UNIDADE 3 82 O que é Linguística? Descrição da Imagem: a imagem é uma pintura de óleo sobre madeira, em tons marrom, amarelo, bran- co, azul, vermelho e preto. A obra mostra um vilarejo do fim da idade média e início da idade moderna, com pessoas animais e objetos ilustrando provérbios da língua holandesa, bem como expressões do idioma. Na parte de baixo, da esquerda para a direita, há uma mulher amarrando com um pano branco uma criatura acinzentada com olhos e bocas grandes, com chifres, ele está deitado, ele tem os braços e as pernas amarrados com cordas. Um pouco mais acima, há um homem abraçado e mordendo um pilar quebrado com um chapéu em cima. Na direita, uma mulher carrega fogo em uma mão, água na outra, e logo ao lado, um homem bate a cabeça contra uma parede de tijolos e tem um pé calçado, o outro, descalço. Do lado direito, há um homem sentado tosando os pelos de uma ovelha em seu colo, do lado direito tem uma ovelha branca deitada com as patas amarradas por uma corda, logo acima há outro homem sentado tosa os pelos de um leitão marrom. Figura 1 – Provérbios neerlandeses (1559), de Pieter Bruegel, o velho Fonte: Wikimedia Commons ([2022]a, on-line). 83 A Linguística é a disciplina que estuda cientificamente a linguagem. Al- gumas questões podem ser problematizadas a partir dessa conceituação: a Linguística, tal como será comentada aqui possui relação direta com a Filosofia da Linguagem? Ou trata-se de mais um ramo do conhecimento que se interessa em compreender a linguagem? Se é uma ciência, difere- -se da compreensão filosófica? Tais questionamentos serão comentados, mesmo que indiretamente, no decorrer da unidade. Alguns esclarecimentos precisam ser feitos, uma vez que sabe- mos que a tradição escolar tende a identificar o estudo da linguagem com o estudo da gramática. A Linguística rema para outra direção e distingue-se da gramática normativa, aquela que dita regras para o uso da linguagem. Para a Linguística, tudo o que faz parte da língua é interessante e merece reflexão. O termo linguagem apresenta sentidos diferentes. Geralmente, uti- lizamos para fazer referência a qualquer processo de comunicação, tais como a linguagem corporal, a linguagem artística, a linguagem escrita e assim por diante. Isso quer dizer que as línguas naturais, como a portu- guesa, por exemplo, é uma forma de linguagem, pois possui elementos que possibilitam a comunicação entre seus falantes. Ademais, a linguagem possui caráter de designação e expressão. A concepção designativa, de acordo com Medina (2007), possui relação direta com a filosofia, uma vez que focaliza as relações entre a palavra e o objeto e, por tal motivo, a linguagem funciona como dispositivo para representar o mundo; a concepção expressiva relaciona a linguagem com a subjetividade humana, pois constitui o eu. Enquanto a primeira fundamenta-se no objetivismo e na epistemologia, a segunda funciona como “a chave para resolver quebra-cabeças filosóficos a respeito de nossa humanidade, por seu poder de constituir emoções e relações sociais especificamente humanas” (MEDINA, 2007, p. 53). Os linguistas, ou seja, os cientistas da linguística, estabelecem uma relação diferente entre linguagem e língua. A linguagem é uma habilidade que os seres humanos possuem para se comunicar por meio das línguas. Já a língua é um sistema de signos vocais utilizado como meio de comunicação. UNICESUMAR UNIDADE 3 84 Embora os linguistas observem a estrutura das línguas naturais, o interesse deles não está apenas nessa questão, mas nos processos que baseiam os instrumentos de comunicação. Dito de outro modo, o interesse se concentra, principalmente, na reflexão que as línguas carregam em sua estrutura a respeito de aspectos universais do homem. Ferdinand de Saussure, o pai da Linguística Moderna, afirma que: “ Tomada em seu todo, a linguagem é multiforme e heteróclita; ca-valeiro de diferentes domínios, ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica, ela pertence além disso ao domínio individual e social; não se deixa classificar em nenhuma categoria de fatos humanos, pois não se sabe como inferir sua unidade (SAUSSURE, 1971, p.17) Uma das características mais salientadas da linguística é o seu caráter científico. Como não poderia deixar de ser, precisamos problematizar esse ponto: o que é que faz ou quais são os fatores que tornam esse campo do saber, isto é, a lingua- gem, uma ciência? Ele não era até então visto como um interesse filosófico? A resposta para essa questão leva em consideração a trindade objeto, objetivo e método. Borba (1998) nos lembra que para que algo se torne uma ciência é preci- so delimitar um objeto de estudo, uma proposição de objetivos e, também, a cria- ção de uma metodologia que seja adequada para a análise do objeto selecionado. O grande problema está em delimitar um objeto para o estudo da Lin- guística, pelo fato de que a linguagem humana é complexa, repleta de facetas distintas, as quais incluem as perspectivas filosófica, sociológica, psicológica/psicanalítica e assim por diante. Nesse engodo, Saussure (1971) afirma que ou- tras ciências trabalham com objetos dados, mas não é o caso de nosso interesse, pelo fato de que “bem longe de dizer que o objeto precede o ponto de vista [...] é o ponto de vista que cria o objeto” (SAUSSURE, 1971, p.15). O enfoque quem dará, portanto, é o estudioso da linguagem. Portanto, nosso olhar, na presente unidade, observa a linguagem a partir do fenômeno linguístico. Cronologicamente, cada momento da Linguística se inte- ressou por delimitar a compreensão desse objeto o que, evidentemente, determina análises específicas, escolhas e exclusões de objetivos e métodos. Acompanhemos, a partir de agora, alguns desses principais momentos e contribuições. 85 Um Pouco de História Descrição da Imagem: a imagem é uma pintura em óleo sobre tela, que demonstra traços de pinceladas fortes e contornos bem marcados. Há cinco homens sentados em cadeiras conversando em uma sala na diagonal da esquerda mais à frente do observador para a direita mais ao fundo. O piso é marrom, as paredes cinza, na esquerda há uma janela marrom aberta e na direita ao fundo uma porta marrom que aparece só a metade. O primeiro homem à esquerda, mais próximo do observador, está de perfil com a face voltada para a direita, olhando para dois homens um pouco mais ao fundo à direita. Ele tem a barba e cabelo curtos na cor preta e usa calça e paletó tom de caqui, usa um camisa branca por baixo, tem um chapéu marrom nos joelhos e usa sapatos marrons. Outro homem um pouco mais ao fundo e a direita, está de perfil com o corpo voltado para a direita, olhando para outro homem à sua direita. Ele tem cabelo grisalhos curtos, barba longa branca, usa um terno azul bordô, camisa branca por baixo e suas pernas não aparecem por causa da pintura do primeiro homem. O terceiro homem está no centro da tela, com o corpo de frente para o observador, com a cabeça e ombros voltados à esquerda em direção ao segundo homem, ele cabelo pretos curtos e barba grisalha, usa um terno azul bordô, um colete em tom de caqui, calça e sapatos cinzas, e ele segura um chapéu marrom com as duas mãos nas suas coxas. No fundo à direita, há dois homens sentados com o corpo e face voltados para a direita. O homem da esquerda tem cabelo curto e braba longa grisalhos, usa um sobretudo em tom de caqui, colete preto e camisa branca, calça azul bordô e sapato preto. O homem do seu lado direito tem cabelo curto e barba longa ruivos, usa uma camisa azul bordô, calça marrom e sapato preto e ele segura um chapéu azul com as mãos na altura do joelho. Figura 1 – A conversação (1935), de Arnold Lakhovsky / Fonte: Wikimedia ([2022]b, on-line). UNICESUMAR UNIDADE 3 86 Se acionarmos o fio histórico, como já previamente elaboramos na Unidade I, verificaremos que há relatos de estudos linguísticos já na Antiguidade. Como afirma Orlandi (1999, p. 8), “a sedução que a linguagem exerce sobre o homem existe desde sempre”. A título de ilustração, pensemos na Antiga Mesopotâmia, conforme informa a Encyclopaedia (1993): no ano 2000 a.C a língua falada acá- dia tinha substituído a língua suméria, no entanto, o sumério ainda era utilizado na escrita de textos legais e religiosos. Para a leitura desses textos, foram criadas uma porção de listas de palavras com a correspondência entre as duas línguas. De acordo com Lopes e Antonio (2010, p.35), “ Deve-se observar que o sumério foi a primeira língua escrita conhe-cida. Tratava-se da escrita cuneiforme, a qual era feita com auxílio de objetos em forma de cunha. A escrita acádia também era cunei- forme e teve origem no sumério. Por volta de 1700 a. C., o código de Hamurabi, um dos mais antigos e conhecidos conjuntos de leis, foi escrito em acádio. Observe, a seguir, alguns elementos da escrita cuneiforme: Descrição da Imagem: inscrição suméria no monumento de estilo arcaico. Figura 1 – A escrita cuneiforme / Fonte: Borges ([2022], on-line). https://conhecimentocientifico.com/escrita-cuneiforme/ 87 Câmara Jr (1975) informa que no século V a. C., na Índia, o gramático Pãnini, detalhou, de maneira descritiva, o sânscrito, pois a tradição religiosa exigia que os Vedas, textos sagrados do hinduísmo, formados por mantras que in- cluíam hinos, orações, fórmulas etc., fossem declamados da forma como foram criados, por volta de 1200 a.C. A seguir, a título de ilustração, uma imagem do Riguevedas (também conhecido como Livro dos Hinos), o primeiro dos quatro livros que compõem os Vedas. Descrição da Imagem: a imagem é uma digitalização de uma página do Rigueveda, edição do século 19. O texto está escrito em sânscrito na cor preta em 18 linhas na horizontal. A página está amarelada devido a ação do tempo. Figura 4 - Rigueveda / Fonte: Wikimedia Commons ([2022]c, on-line). UNICESUMAR UNIDADE 3 88 Adiantando o fluxo histórico, chegamos na Antiguidade Clássica e, sem dúvidas, uma de suas maiores contribuições para os estudos da linguagem está naquilo que hoje conhecemos como a gramática tradicional. Mattos e Silva (1989) afirmam que a gênese da gramática está no já comentado diálogo Crátilo, de Platão. Lyons (1979) afirma que para os gregos, tudo o que era natural era, também, imutável, uma vez que não havia sido estabelecido pelo homem. Já o que era con- vencional, era o resultado de algum contrato que, porventura, poderia ser quebrado. Os fundamentos da gramática grega foram lançados por Platão e, depois, ampliados por Aristóteles. Lyons (1979) afirma que foi feita a divisão das partes do discurso ou das classes de palavras: Platão fez a divisão entre substantivos e verbos, mesmo que hoje haja outro entendimento a respeito dessa divisão, e Aristóteles contribuiu com a divisão das conjunções. Por sua vez, os estoicos agregaram a classe dos artigos e propuseram a divisão dos substantivos em pró- prios e comuns, além da voz ativa e passiva e a transitividade e intransitividade dos verbos. Tempos depois, os gramáticos alexandrinos – e merece destaque Dionísio da Trácia – acrescentaram novas classes, tais como advérbio, pronome e preposição. Nesse período, Lyons (1979) afirma que tais gramáticos cometeram um “erro clássico” que se perpetua até os dias de hoje: consideravam a língua es- crita como mais correta e superior à língua falada. Os romanos também tiveram importância para a construção da gramática tradicional: “ Os gramáticos romanos aplicaram ao latim as categorias e classes de-finidas pelos gregos. É consenso entre os estudiosos que Varrão, que viveu no século II a. C. e escreveu uma gramática de 24 livros chamada De Língua Latina, é o gramático de maior destaque entre os romanos. Outros gramáticos latinos de destaque são Donato, que viveu no século IV d. C., e Prisciano, que viveu no século V. d. C. A grande preocupação dos gramáticos romanos, no entanto, dizia respeito à manutenção da “pureza” do latim clássico em relação ao chamado “latim vulgar”. Assim, as gramáticas da língua latina tinham como objetivo estabelecer uma norma que deveria ser considerada a “correta” e promover a unidade linguística no Império Romano (LOPES & ANTONIO, 2010, p.37). É na Idade Média que ocorrem dois acontecimentos importantes, quando pen- samos nos estudos a respeito da linguagem: o ensino do latim de maneira normativa e o surgimento de uma gramática de cunho filosófico. 89 Lyons (1979) informa que o latim tinha um papel preponderante na Idade Média, pois era a língua utilizada pela religião e pela cultura. Na época, quem sabia latim tinha chance de obter algum sucesso na sociedade. Vários manuais de ensino de latim foram criados nesse período. Além disso, o surgimento de outras línguas nos países que formavam o Império Romano preocupava em relação à “pureza” do latim, o que abria frente para o ensino normativo da língua. De acordo com Campbell (2002), a descoberta da obra dos filósofos gregos, no século XII, influenciou o surgimento da gramática especulativa, isto é, aquela que deveriaser um espelho que reflete a realidade (BORBA, 1998). A importância estava em explicar a gramática como produto da razão humana e a língua como reflexo do pensamento. É a recuperação do pensamento de Aristóteles de que o conhecimento é universal e que surge a crença de uma gramática universal. Esse pensamento levou os estudiosos a crer que todas as línguas possuíam a mesma gramática e que o fato de falantes de línguas distintas não se entenderem se devia ao fato da distinção na formação das palavras. Nos Modistae, havia o interesse em construir uma teoria geral da linguagem, que partia da autonomia da Gramática em relação à Lógica. Orlandi (1999) afirma que eles consideravam “três tipos de modalidades (modus) manifestados pela linguagem natural: o modus essendi (de ser) o intelligendi (de pensamento) e o significandi (de significar). Orlandi (1999) afirma que, na história da constituição da Linguística, dois momentos-chave precisam ser comentados: o século XVII, conhecido como a das gramáticas gerais, e o XIX, século das gramáticas comparadas. No primeiro momento, os estudos a respeito da linguagem são marcados pelo racionalismo e os estudiosos da época afirmavam que a linguagem era a representação do pen- samento, além de tentar mostrar que as línguas obedecem aos princípios lógicos. “ A gramática que constroem deve funcionar como uma máquina que possa separar automaticamente o que é válido e o que não é. Uma espécie de autômato, regido pela Lógica. O alvo que esses estudio- sos querem atingir é a língua-ideal – língua universal, lógica, sem ambiguidades, capaz de assegurar a unidade da comunicação do gênero humano. Não é difícil reconhecer já aí o sonho do homem moderno em ter o controle do mundo através das máquinas. Esse ideal, traduzido para a atualidade, é a língua metálica, a dos compu- tadores, universal e sem “falhas” (ORLANDI, 1999, p.12) UNICESUMAR UNIDADE 3 90 Eram esses tipos de textos que, recorrentemente, eram estudados nas escolas e nas universidades. Retorna, no século XVII, aos valores escolásticos com a Gra- maire génerale et raisonnée de Port-Royal, de A. Arnauld e C. Lancelot. Campbell (2002) afirma que essa gramática mesclava uma prática pedagógica de explicar latim embasada em exemplos de línguas vernáculas, o que exigia bastante clareza e precisão no uso da linguagem pelos falantes. No século XIX, baseados nos ideais do Romantismo, os estudos linguísticos passaram a refutar a perfeição dos clássicos e se interessaram pela origem das línguas vernáculas. A descoberta creditada ao inglês Sir William Jones, no final do século XVII, das semelhanças do sânscrito com o latim e com o grego e também com a maioria das línguas europeias foi fator decisivo para o surgimento da chama- da gramática comparada. Os estudiosos comparavam formas gramaticais das línguas europeias, do latim, do grego e do sânscrito em busca de uma língua que teria dado origem a todas elas, o indo-europeu. Embora não haja documentos que comprovem a existência dessa língua mãe, os compara- tivista reconstruíram teoricamente formas dessa língua e até chegaram a escrever textos nessa língua. Orlandi (1990) apresenta um exemplo de uma dessas reconstruções hipotéticas: a comparação do latim “centum”, do grego εxατov, do antigo irlandês “cët”, do gótico “hund”, do antigo hindu “satam” e do lituano “simtas” levou à reconstrução da forma “*Kmto-m”, cujo signifi- cado, em português, seria “cem”. (LOPES & ANTONIO, 2010, p.39). De acordo com Benveniste (1995), desde os pré-socráticos, passando pelos ale- xandrinos, pelo Renascimento até o fim da Idade Média Latina, a língua tornou- -se precioso objeto de especulação. Essa situação se altera, apenas no final do século XVIII, com a descoberta do sânscrito, reconhecida língua indiana que estava preservada em livros sagrados. O século XIX é, também, o das gramáticas comparadas. Muitos estudiosos reconheceram esse período, também cunhado de histórico-comparativista, como o primeiro momento paradigmático da Linguística. Foi nesse período que a linguagem humana passou a ser observada e analisada por si mesma e a partir do século XIX, conforme mencionado, os estudos comparados ganharam atenção. 91 Weedwood (2002) afirma que o método comparativo permitia que línguas particulares fossem comparadas colocando em destaque as questões fonéticas, as estruturas gramaticais e os vocabulários, concluindo que elas eram “genea- logicamente” parentes. Nesse período, a ênfase estava na faceta histórica das línguas e havia uma aposta na evolução das formas linguísticas a partir de suas reconstituições e comparações. É, também, nesse período que é possível distinguir um objeto, isto é, as línguas a partir de uma perspectiva histórica, bem como um objetivo que, neste caso, é o estabelecimento de relação entre elas e, por fim, um método, neste caso, a comparação de dados que avaliavam esses estudos como científicos. Todavia, nunca é demais salientar que essa é uma visão da questão: havia, nessa época, discordância entre os estudiosos por causa de diferentes objetivos e metodologias. E é justamente essas diferenças que deram um caráter complexo ao objeto analisado. Em outras palavras, “ Este século tem movimentos, perspectivas e interesses bem di-ferentes do século XVII. Já não tem validade o ideal universal, e o que vai chamar a atenção dos que trabalham com a linguagem é o fato de que as línguas se transformam com o tempo. Não é mais a precisão, mas a mudança o que importa. É a época dos estudos históricos, em que se procura mostrar que a mudança das línguas não depende da vontade dos homens, mas segue uma necessidade da própria língua, e tem uma regularidade, isto é, não se faz de qualquer jeito (ORLANDI, 1999, p.13). Um nome de destaque é o do alemão F. Bopp. Orlandi (1999) assinala que a sua importância é tamanha que a data de nascimento da linguística histórica é a data de sua obra (1816) sobre a língua sânscrita comparada ao grego, latim, persa e germânico. E é no século XIX que os parentescos entre boa parte das línguas europeias e o sânscrito são descobertas. Esse conjunto de línguas ficou conhecido como indo-europeias. Todas essas línguas possuem relações e são vistas como transformações naturais de uma língua de origem que, nesse caso, é o indo-europeu. Para se chegar a essa constatação, comparam-se as línguas e verificam suas correspondências. UNICESUMAR UNIDADE 3 92 “ O alvo visado, então, não é mais a língua ideal, mas a língua-mãe. O ideal racionalista cedeu seu lugar ao ideal romântico: não se busca a perfeição, se busca a origem. Essa língua de origem, o chamado indo-europeu, não é uma língua da qual se tenham documentos. É uma reconstrução teórica, um conceito. Mas a vontade de recons- truir a língua-mãe é tal que chegam mesmo a escrever fábulas nessa “língua” (ORLANDI, 1999, p.14) No século XIX, os chamados neogramáticos anunciaram leis fonéticas para ex- plicar a evolução das línguas. Construíram uma escrita própria para mapear essa evolução e “colocaram essas formas como matrizes para o conjunto de formas existentes nas línguas indo-europeias, em relação à inexistente língua-mãe” (OR- LANDI, 1999, p.15). Por meio dessa escrita, é possível verificar, conforme Orlandi (1999), por exemplo, que o espanhol “lluvia” e o português “chuva” possuem cor- respondência com a palavra latina “pluviam”. Os principais nomes da Linguística antes de Saussure basearam seus estudos no pensamento de estudiosos do século XIX. Dentre eles, é preciso destacar o norte-americano William Dwight Whitney e o alemão Whilhelm von Humboldt. Para o primeiro, a língua é vista como uma atividade social e “um tipo de código de sinais cujo escopo é a comunicação entre os homens” (CÂMARA JÚNIOR, 1975, p.59). Essa constatação influenciou Saussure que, tempos depois, afirmaria que “Whitney insistiu, com razão, no caráter arbitrário dos signos; com isso, co- locou a linguística em seu verdadeiro eixo” (SAUSSURE,1989, p.90). Já o teórico alemão lançou a base para o que viria a ser a Linguística des- critiva. É o gerativismo de Chomsky que beberá, mais profundamente, nessa fonte, pois Humboldt dizia que a linguagem é uma atividade, uma criação sem cessar da mente. Ademais, “ Humboldt afirmou que a linguagem é uma teia de itens interligados, e que a malha desses elementos interligados é produzida por nos-sas ações linguísticas ou atos de fala. De acordo com Humboldt, é essencial a uma compreensão adequada da linguagem que reconhe- çamos que a teia da linguagem está sendo perpetuamente recriada na fala, isto é, continuamente expandida, alterada e reconfigurada em nossas atuações e práticas linguísticas (MEDINA, 2007, p.53-54) 93 Há uma constelação de fatos que mostram a atenção que o homem deu, em diferentes épocas, para a linguagem. Foi somente com a criação da Linguística, ciência recente, inaugurada no início do século XX, que essas manifestações to- mam forma científica com objeto e método. É sobre Saussure, verdadeiro marco nos estudos linguísticos, que trataremos a seguir. Ferdinand de Saussure: o marco nos estudos linguísticos Descrição da Imagem: na foto em preto e branco está Ferdinand de Saussure, pai da Linguística moderna. Saussure está posicionado de perfil, usa uma espécie de casaco por cima de uma camisa com gravata. Saussure tem bigode e cabelos curtos, e fixa o olhar em um ponto em que o espectador não pode ver. Figura 5 – Ferdinand de Saussure / Fonte: Wikimedia ([2022]d, on-line) UNICESUMAR UNIDADE 3 94 É a partir da proposta de Ferdinand de Saussure, linguista genebrino nascido em 1857 e falecido em 1913, que há a sintetização e organização de uma variedade de questões já postas a respeito dos estudos da linguagem. Foi ele quem definiu os objetivos e determinou algumas abordagens a respeito desse fenômeno. O Curso da Linguística Geral, obra fundamental sobre todo o edifício da Linguís- tica, publicada em 1916, é o resultado das anotações das aulas de Saussure que foram reunidas e publicadas por dois de seus discípulos: C. Bally e A. Sechehaye. Esta ciência constituída por Saussure possui quatro disciplinas: a fonologia (que estuda as unidades sonoras), a sintaxe (que estuda a estrutura das frases) e a morfologia (que estuda a forma das palavras) e que formam a gramática; e, por fim, a semântica (que estuda os significados). De forma geral, para Saussure, “ [...]a matéria da Linguística é constituída inicialmente por todas as manifestações da linguagem humana, quer se trata de povos selvagens ou de nações civilizadas, de épocas arcaicas, clássicas ou de decadência, considerando-se em cada período não só a lingua- gem correta e a “bela linguagem”, mas todas as formas de expressão (SAUSSURE, 1971, p.13) Conforme exposto anteriormente, Saussure salientou, desde o início de suas con- tribuições, que a linguagem humana era múltipla, repleta de vertentes, além disso, ela seria uma faculdade própria do ser humano, pois permitia a comunicação (verbal e não verbal). Portanto, sua abrangência é universal e pertencia tanto ao domínio individual quanto ao social. Veremos, no decorrer da unidade, que Saussure organiza uma série de con- ceitos que instituem a Linguística como ciência. Esta organização que o linguista genebrino chamaria de sistema, seus sucessores chamariam de estrutura. Isso significa que cada elemento da língua só ganha valor na medida em que se rela- ciona com o todo do qual faz parte. “ Saussure exemplifica isso com o jogo de xadrez, em que uma peça (o cavalo, por exemplo) tira sua identidade não do material de que é feito (pode ser de madeira, osso, marfim etc.), e nem mesmo de sua figura aparente (pode até ser substituído por um botão) mas da re- lação de oposição que tem com as outras peças e da sua posição em 95 relação ao todo. Sua identidade depende do seu lugar no tabuleiro, do seu valor no jogo. Assim, qualquer unidade linguística também se define pela posição que ocupa na rede de relações que constitui o sistema total da língua (ORLANDI, 1999, p.25) O Estruturalismo foi um dos campos que floresceram devido às ideias de Saus- sure. Neste campo, inúmeras estruturas e funcionamento da linguagem foram pensadas. Os estruturalistas viam a língua como um sistema autônomo, homogê- neo e também rompiam com a visão histórica e comparada comum no século XIX. Antes de discutirmos algumas ideias dos sucessores de Saussure, vamos centrar nossa atenção em aspectos fundamentais do pensamento do mestre genebrino. Para estudar a linguagem, seria preciso colocar-se no terreno da língua (lan- gue), pois apenas ela, a langue, seria passível de uma definição autônoma princi- palmente por se constituir como um objeto definido dentro desse conjunto tão amplo que é a linguagem. A partir daí, é a língua que passa a ser o objeto mais importante da Linguística. A langue constitui, para o genebrino, um sistema de valores cujos elementos só se determinam a partir das relações estabelecidas com outros elementos do mesmo sistema. Em termos específicos, o que significa afirmar que a língua forma um sistema de valores? Saussure (1971, p.130) explica essa afirmação informando que há uma relação tênue entre língua e pensamento, ou seja, “não existem ideias preestabelecidas, e nada é distinto antes do aparecimento da língua”. Ademais, o pa- pel da língua não está em criar um meio fônico para exprimir uma ideia, mas servir como intermediação entre o pensamento e o som. Dessa forma, sendo um vínculo entre produção do som e a parte significativa, a língua organizaria o pensamento. Todavia, um conjunto de unidades sonoras não pode ser definido simples- mente como a união direta de determinado som a determinado conceito. Saussure (1971) afirma que a língua não se reduz a uma lista de termos que correspondem a outras coisas que nos são apresentadas. Para que haja comunicação linguística não basta existir uma porção de sons produzidos e uma massa de pensamentos, ideias, emoções etc., que são expostos por meio de formas linguísticas: é preciso levar em consideração a atualização do material de natureza fônica de maneira que ele seja revestido de um valor semântico. Em outras palavras, a significação é alcançada por meio da organização das unidades que estão articulados no plano de expressão sonora da língua. Essa expressão é oriunda pela mediação da língua ou pelo sistema UNICESUMAR UNIDADE 3 96 de signos, e não da ligação direta do pensamento aos sons da fala. A massa amorfa de nossos pensamentos se “formam” no interior do sistema em que se atualizam. Saussure (1971) afirma que a langue é forma e não substância. É por isso que o valor resulta sempre de oposições funcionais (relações associativas e sintagmá- ticas). Isto quer dizer que as diferentes substâncias sonoras que possuímos para fazer referência a um único conceito não afetam a comunicação pelo fato de que a langue é essência e não aparência. Portanto, a noção de valor não se constitui fora da noção de sistema. Além disso, a noção de valor, bem como outras, tais como forma e substância, relações associa- tivas e sintagmáticas, diferença entre significado e significante, além da noção de arbitrariedade são fundamentais para a consolidação da Linguística como ciência. Nessa esteira, pensemos na noção de signo linguístico, importante para esse momento e, posteriormente, para algumas discussões que serão realizadas na próxima unidade. Carneiro & Barros (2010) afirmam que o nosso universo é formado por um conjunto de elementos de natureza simbólica que povoam de significados a vida dos seres. Trata-se, especificamente, dos diferentes tipos de signos que estão na base dos processos significativos. Às vezes, a significação é natural: por exemplo, quando olhamos para o céu e vemos nuvens cor de chum- bo e relâmpagos, compreendemos que pode chover. Esse tipo de acontecimento torna-se significado por causa de nossa experiência. Às vezes, a significação é nãonatural, isto é, se sustenta no princípio da intencionalidade e do acordo entre os indivíduos: por exemplo, um grupo de jovens brancos que raspam a cabeça, intitula-se skinheads e se une em torno de princípios nazistas. A cabeça raspada é um elemento que, nesse contexto, funciona como um meio de comunicação. É a partir disso que, de acordo com Carneiro & Barros (2010), a base da significação, seja natural ou não natural, se sustenta nos sistemas de signos cujo intuito é transmitir mensagens. E os signos podem ser classificados em três tipos: índice, ícone e símbolo. De acordo com as críticas anteriormente citadas, “ O índice é o signo que mantém com o referente uma relação direta, existencial, causal e real. Há, portanto, aí uma relação de contigui-dade com a realidade exterior, tal como na indicação da direção do vento por um cata-vento ou da fumaça que atesta presença do fogo. O índice, como se vê, permite um raciocínio por inferência. 97 O ícone é o signo que mantém com o referente uma relação de semelhança. As imagens que costumamos retratar por meio de foto- grafias, bem como a maquete de um edifício em construção, servem de exemplos desse tipo de signo. Diferentemente do índice e do ícone, o símbolo é aquele signo que de- signa seu objeto independentemente das relações causais ou de seme- lhança com a realidade denotada. É um signo arbitrário resultante de uma convenção social. Isso quer dizer que o laço que se estabelece entre o referente e a coisa ou a realidade referenciada é imotivado. A título de exemplo, podemos citar a balança, a cruz e a toga que, em nossa cultura ocidental, são interpretadas respectivamente como símbolos da justiça, do cristianismo e da magistratura. (CARNEIRO; BARROS, 2010, p.65). A partir do fragmento, compreendemos que o signo linguístico saussuriano é aquele constituído pelo símbolo, uma vez que há o caráter convencional e arbitrário. Saussu- re (1971) inicia suas considerações a respeito do signo linguístico, fazendo uma crítica à concepção de língua como nomenclatura. Dessa forma, o signo linguístico “une não uma coisa a uma palavra, mas um conceito a uma imagem acústica” (SAUSSURE, 1971, p.80). Para usar os termos de Saussure: une um significado a um significante. O significante ou imagem acústica não se refere ao som material, físico, mas “a impressão psíquica desse som, a representação que dele nos dá o testemunho de nossos sentidos” (SAUSSURE, 1971, p.80). É por esse motivo que não devemos aventar que o significado depende da livre escolha do falante, pois “não está ao alcance do indivíduo trocar coisa alguma num signo, uma vez esteja ele estabele- cido num grupo linguístico” (SAUSSURE, 1971, p.90). Para fechar, Saussure nos informa que os elementos que formam o signo linguístico são psíquicos e estariam unidos, de modo associativo, em nosso cérebro. Exemplificando essas discussões: “ Não importa que ao dizer “rio”, nas várias vezes em que repetir essa palavra, eu possa modificar um pouco o modo com que a pro-nuncio, com um r mais alveolar (rrr) ou mais velar (h). A imagem acústica é que interessa, e ela será sempre a mesma. Assim como não interessam as várias formas dos diferentes “rios” que existem, é sempre o mesmo significado “rio” que me vem à mente quando pronuncio “rio” (ORLANDI, 1999, p.23). UNICESUMAR UNIDADE 3 98 Saussure informa que há outras características fundamentais que pertencem ao signo linguístico. Uma delas é a arbitrariedade. Saussure (1971) considera que o laço que une o significante ao significante é arbitrário, além disso “convencional e imotivado, quer dizer, esse sistema que é a língua é formado de unidades abstratas e convencionais” (ORLANDI, 1999, p.23). Não há motivo para que caneta se cha- me caneta, mas uma vez que esse nome é atribuído, ela passa a ter valor na língua e, a partir daí, associamos em nosso cérebro com a ideia de caneta, e não se pode chamar “caneta” de “lápis”. É a partir dessa relação de diferenças que os signos cons- tituem o sistema da língua. Por isso, que se afirma que o valor do signo é relativo e negativo: “caneta” significa “caneta” porque não significa “lápis”, não significa “pincel”, e assim por diante. Na continuidade da discussão a respeito do caráter arbitrário, é preciso distinguir a arbitrariedade absoluta da arbitrariedade relativa: “ Nesse raciocínio, teríamos signos totalmente arbitrários e outros em que atuaria um fenômeno que permitiria reconhecer graus de arbi-trariedade, sem suprimi-la totalmente. Alguns numerais e palavras derivadas e compostas servem de exemplo para essa “arbitrariedade relativa”. Observe a diferença existente entre as palavras roupa e guar- da-roupa. A primeira é totalmente imotivada e arbitrária; a segunda, por sua vez, não é imotivada e arbitrária no mesmo grau. O signo linguístico guarda-roupa parece evocar os termos dos quais o signi- ficante se compõe (guardar + roupa), assim, quando reconhecemos os significados das partes que constituem esse signo, podemos com- preender sua significação como um todo. O mesmo fato pode ser observado em outras palavras compostas tais como beija-flor, e em palavras derivadas e numerais (CARNEIRO; BARROS, 2010, p.69) Em outras palavras, para Saussure, o significado e o significante não estão pac- tuados com nenhum fator considerado externo à língua, mas, tão somente, “ao fato de que estão em oposição a todos os demais significados e significantes previstos pela língua” (ILARI, 2004, p.63). Dessa forma, para compreender o funcionamento dos signos é preciso colocá-los em relação de oposição e relação com os demais signos da mesma língua. Outra característica fundamental do signo linguístico é a linearidade. Saussure (1971) afirma que pelo fato dos significantes possuírem natureza essencialmente auditiva, eles se desenvolvem no tempo e agregam características que emprestam do 99 tempo: “os significantes acústicos dispõem apenas da linha do tempo; seus elemen- tos se apresentam um após outro; formam uma cadeia” (SAUSSURE, 1971, p.84). A partir disso, decorre a última característica fundamental do signo saus- suriano: a sua organização sistêmica. Estamos nos referindo, mais especificamen- te, as relações associativas e as relações sintagmáticas. Importa lembrar que essas relações são oriundas da compreensão de que a língua não comporta nem ideias e nem sons preexistentes ao sistema linguístico, apenas diferenças resultantes de uma organização sistêmica. Nas relações associativas, a seleção é feita dentre aqueles signos linguísticos que possuem alguma característica em comum ou que possuem algum vínculo. Em determinado contexto, os signos menino, guri e piá possuem relações associativas. Carneiro e Barros (2010, p.70-71) afirmam que as relações associativas formam “um relacionamento in absentia, uma vez que os elementos não estão numa relação jus- taposta, mas numa relação mnemônica virtual”. Saussure (1971) afirma, ainda, que os elementos que compõem uma associação não se apresentam de forma definida ou determinada. Sobre isso, podemos pensar, por exemplo, nas relações existentes entre desej-oso, calor-oso, medr-oso, ou, ainda, nas diferentes formas de se conjugar um verbo, como o beber (bebo, bebe, bebemos, beberemos, bebereis, beberia, etc.). UNICESUMAR UNIDADE 3 100 Já com as relações sintagmáticas, as relações acontecem por meio da combinação. Nesse tipo de relação, o foco está na posição ocupada por um signo na cadeia, o que importa é a relação do signo com os precedentes e subsequentes. Saussure (1971, p.143) afirma que o importante é a relação que os elementos linguísticos estabelecem entre si e, por isso, esse tipo de relação é considerada in praesentia, pois “repousa em dois ou mais termos de uma série efetiva”. A frase é o tipo por excelência de sintagma, mas há, ainda, outras formas, tais como a relação entre segmentos fônicos ou entre morfemas. Salientamos que tanto as relações associativas quanto as sintagmáticas estãodentro do domínio da língua, e a fala seria a atualização desse sistema de signos. Quando a língua está em uso é que podemos observar esses enunciados de modo concreto. Como visto, a língua é, para Saussure, um sistema de valores formado por alguns elementos que se relacionam com outros elementos do mesmo sistema. A partir desse conceito, o teórico cria um ponto de vista sincrônico a respeito do fenômeno linguístico, o que destoa da visão histórica conhecida até o momento. Nesse tipo de abordagem, o estudo da língua é isolado de suas mudanças no fluxo do tempo e é observado como um sistema compacto, homogêneo, que possui uma organização própria, independente de tudo o que lhe é exterior. É importante ressaltar que a conceituação de langue, na visão saussuriana, é tam- bém compreendida como parte social da linguagem, uma vez que é produto do trabalho coletivo dos sujeitos falantes. A língua, seria, pois, “ Um tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes a mesma comunidade, um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro ou, mais exatamente, nos cé- rebros dum conjunto de indivíduos, pois a língua não está completa em nenhum, só em massa ela existe de modo completo (SAUSSU- RE, 1971, p.21) É preciso, nesse momento, fazer uma diferenciação: o conceito de língua se opõe ao conceito de fala (parole). O ato individual dos falantes colocarem em uso o sistema da língua com o intuito de exprimir seu pensamento é a fala. No entanto, para Saussure, embora sejam diferentes, língua e fala estão interligadas, pois, “a 101 língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos; mas esta é necessária para que a língua se estabeleça” (SAUSSURE, 1971, p.27). Como ficou clarificado, Saussure fez escolhas: escolheu a língua e renunciou a fala e a linguagem como objeto de estudo, também optou por uma visão sincrônica e abandonou a histórica (diacrônica) do fenômeno linguístico. Isso quer dizer que, para Saussure (1971), a Linguística teria dois caminhos para se estabelecer como ciência: a) o estudo da língua retirado de qualquer refe- rência temporal ou b) o estudo da língua em seu contínuo processo de transfor- mação na roda da história. O mestre genebrino idealizou uma ciência sincrônica e imanente da linguagem e estabeleceu que um “determinado da língua deveria ser isolado de suas mudanças através do tempo e examinado exclusivamente como um sistema homogêneo, possuidor de ordem própria, completamente indepen- dente de sua exterioridade” (CARNEIRO; BARROS, 2010, p.79). O que isso, na prática, significa? Saussure (1971) acreditava que com a pers- pectiva diacrônica, o objeto do estudioso não seria, propriamente, a língua, mas a sequência de acontecimentos que a modificam. Pensemos em um clássico exemplo: o pronome da segunda pessoa do singular, tu, tem sido, quase sempre, substituído por você e, mais recentemente, por cê. Por sua vez, a origem de você está em Vossa mercê que, em tempos remotos, significava A vosso favor. Hoje, observamos as transformações no plano significante: vossa mercê -> vosmecê -> vossuncê-> suncê-> você -> cê. Se pensarmos de acordo com Saussure, essas transformações - tanto no plano do significado quanto no do significante - não constituem uma realidade para os falantes. A sucessão desses fatos, no tempo, não existe para os falantes. O que, de fato, interessa para Saussure, no exemplo anteriormente citado, é o papel de- sempenhado pela forma cê, e não o processo histórico que levou a sua formação. Dessa forma, “ Os fatos diacrônicos seriam, então, exteriores ao sistema linguístico – seriam, também, heterogêneos, particulares e isolados. Embora reconheça que a sincronia é condicionada pela diacronia, ou seja, que os fatos do sistema derivam dos fatos históricos e que as mu- danças têm repercussão no sistema da língua, Saussure defende que o estudo da linguagem humana deveria voltar-se para a face estática da língua, negligenciada pelos estudiosos da época, cujas investi- UNICESUMAR UNIDADE 3 102 gações voltavam-se exclusivamente para a dimensão histórica das línguas, ou, mais propriamente, para as mudanças que nelas podem ser observadas (CARNEIRO; BARROS, 2010, p.80) É preciso levar em consideração que as escolhas e as renúncias feitas por Saussure foram fundamentais para o desenvolvimento da Linguística contemporânea. Por esse motivo, acompanharemos, na sequência, alguns dos principais desdobra- mentos oriundos do pensamento saussuriano. Descrição da Imagem: na foto em preto e branco está Jakobson, no qual apa- rece apenas o seu busto de perfil. O linguista é jovem, ele está olhando para a es- querda da imagem, tem os cabelos pretos, veste uma roupa preta e usa pince- -nez (óculos sem hastes). Figura 6 – Roman Jakobson, expoente do Círculo Linguísti- co de Praga / Fonte: Wikimedia ([2022]e, on-line). 103 Depois de Saussure Conforme expõe Lepschy (1975), as pesquisas que englobam o Estruturalismo podem ser compreendidas, sobretudo, a partir dos estudos que enfatizam o ca- ráter sistemático e arbitrário da língua e, também, e mais especificamente, para designar a linguística distribucional americana, de Bloomfield. Merece destaque, neste momento, o Círculo Linguístico de Praga, fundado em 1926. Para os linguistas tchecos e russos, que compunham o círculo, nenhum fenômeno linguístico pode ser avaliado com rigor fora de sua estrutura. Mais do que se preocupar com sistemas e estruturas, tais estudiosos investigavam as funções e tarefas que as estruturas desempenham. Roman Jakobson, um dos principais nomes, conseguiu enlaçar, com bastante propriedade, os estudos a respeito de língua e literatura. Pensemos no modelo das funções da linguagem proposto por Jakobson (2010), relido aqui por Martelotta (2008). UNICESUMAR UNIDADE 3 104 Para Jakobson (2010), a linguagem possui várias funções, mas para que pos- samos apreendê-las, é preciso compreender os elementos que constituem o ato de comunicação. Para existir comunicação é preciso que haja não apenas um remetente que envie uma mensagem qualquer para um destinatário. Para que haja sucesso nesse ato é preciso observar, por exemplo, um contexto que seja com- preensível para o destinatário. Martelotta (2008) afirma que a noção de contexto está relacionada ao conteúdo da mensagem, às informações que estão ligadas à nossa realidade biossocial e que aparecem na mensagem enviada. Isso quer dizer que não necessariamente as informações contextuais estejam todas explícitas na mensagem, podendo fazer referência às informações ditas anteriormente ou mesmo ao tipo de relação estabelecida entre os interlocutores. Amplificando essa discussão, a noção de contexto também envolve todas as informações referentes à produção da mensagem. Por exemplo, se ouvirmos a frase: “Passei muitos exercícios na aula de hoje”, certamente, ela possui sentidos diferentes se fosse dita por um professor de língua portuguesa ou por um pro- fessor de musculação. Resumidamente, para que o destinatário compreenda a mensagem, ele precisa entender o contexto em que ela está inserida, levando em consideração assuntos que não estão postos na mensagem. O código é o conjunto de sinais utilizados para construir a mensagem. O có- digo pode ser as línguas faladas ou escritas, a língua de sinais, as placas de trânsito etc. Nunca é demais reforçar que a comunicação só acontece efetivamente se o remetente e o destinatário conhecerem, mesmo que razoavelmente, o mesmo código. É muito difícil, por exemplo, imaginar a comunicação entre um japonês que não conheça o português e um brasileiro que não conheça o japonês. Eles terão que utilizar sinais, gestos etc. O canal é o meio pelo qual a mensagem é transmitida. Presencialmente, o ar permite a comunicação entre os falantes. A distância, o telefone, as mensagens de aplicativos, e-mails dentre outras tecnologias viabilizam a comunicação. Marte- lotta (2008, p.33) nos lembra,ao analisar a noção de contexto, que “a comunicação é uma atividade essencialmente cooperativa. É fundamental, portanto, algum tipo de interesse comum que crie uma conexão psicológica entre os participantes, sem a qual a comunicação seria prejudicada”. Com base nesses elementos que constituem o ato comunicativo, Jakobson (2010) propôs seis funções da linguagem, cada uma delas focada em um desses elementos. 105 A função referencial é focada em transmitir as informações do remetente ao destinatário. O foco dessa função está no contexto, uma vez que a preocupação está em viabilizar conhecimentos que fazem referência às pessoas, objetos, acon- tecimentos etc. Basta pensarmos nas notícias de jornal, em textos científicos, em livros didáticos como exemplos desse tipo de função. A função emotiva é baseada no remetente, isto é, na emoção, na subjetivida- de, na pessoalidade que ele deixa transparecer por meio da mensagem. Alguns exemplos como diário, relato pessoal, cartas carregam essa função. Martelotta (2000) lembra que, por exemplo, a entonação utilizada na narração de um jogo de futebol tem o intuito de, também, passar emoção e as escolhas vocabulares: entre as frases “ele saiu do lar” e “aquele canalha abandonou o lar”, a segunda é mais emotiva porque envolve o falante com a situação. A função conativa influencia o comportamento do destinatário. A atenção está no destinatário, pois ele é o alvo da informação. Pensemos nas inúmeras propagandas, palestras, discursos que tentam influenciar ou chamar a atenção de quem recebe. A função fática tem o intuito de começar, prolongar ou finalizar um ato de co- municação. O foco é o canal, já que não visa a comunicação propriamente dita, mas o estabelecimento do contato, o recebimento da mensagem. O alô que a gente diz quan- do telefona para alguém e os inícios de conversas são bons exemplos dessa função. A função metalinguística usa a linguagem para fazer referência à própria lin- guagem. Centrada no código, ela se justifica porque os sujeitos não se referem tão somente a sua realidade biossocial, mas aos próprios mecanismos relacionados à linguagem utilizada para esse fim. Os dicionários e as gramáticas são exemplos dessas funções, no entanto, podemos encontrar vários textos, inclusive literários, que focam a atenção em comentar ou refletir a respeito da própria linguagem. A função poética está centrada na própria mensagem e na sua forma. Se- gundo Jakobson (2010), nesse caso, há uma projeção do eixo da seleção sobre o eixo da comunicação dos elementos linguísticos. Martelotta (2008) explica essa definição retomando os dois tipos de arranjos utilizados no processo verbal: seleção e combinação. “ Ao formar uma frase, inicialmente o falante seleciona as palavras que melhor expressam suas ideias naquela situação de comunicação. Além disso, o falante combina, de acordo com as regras sintáticas de UNICESUMAR UNIDADE 3 106 sua língua, as palavras selecionadas, de modo que elas constituam um enunciado que faça sentido para o interlocutor. (MARTELOT- TA, 2008, p.88) No entanto, como se constrói essa ideia de projeção do eixo de seleção sobre o de combinação? Martelotta (2008) responde afirmando que é preciso levar em consideração que a combinação das palavras está na superfície da frase, tornan- do-se perceptível ao leitor/ouvinte. Já a seleção é um processo psicológico que, geralmente, não é superficialmente perceptível na estrutura da frase. Isso ocorre em textos caracterizados por rimas, jogos de palavras, aliterações. Observe o poe- ma A onda, de Manuel Bandeira: A ONDA A O N D A a onda anda aonde anda a onda? a onda ainda ainda onda ainda anda aonde? aonde? a onda a onda. (Fonte: BANDEIRA, s/d, p.267). Realizando uma rápida análise, é fácil observar que o poema possui muitas re- petições de vocábulos e de rimas. A escolha não foi por acaso: o intuito é criar o efeito estético, característica basilar do texto poético (literário). Por meio de paranomásias (palavras com significados diferentes, mas com grafia ou som simi- lares), anáforas (repetição de palavras) e a disposição dos versos – que não estão colocados de maneira regular na folha -, o poeta sugere o movimento de uma 107 onda. A musicalidade do poema confere repetição e uma espécie de embriaguez que, inclusive, pode confundir o leitor. A repetição de consoantes (n e d) e o abuso de vogais (a e o) criam o ritmo das águas e do vai e vem das ondas. Jakobson (2010) salienta que a função poética não está apenas em textos literários. De alguma maneira, ela também pode aparecer em ditados popula- res, por exemplo no tão conhecido “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, em slogans e em propagandas. Além disso, o crítico deixa explícito de que embora ele tenha estabelecido essas seis funções da linguagem, isso não quer dizer que elas são estáticas, muito pelo contrário: uma mesma mensagem pode apresentar mais de uma dessas funções, ao passo que é preciso apenas verificar a hierarquia delas. Ainda a respeito da linguagem literária, Jakobson (1921 apud SCHNAIDER- MAN, 1976) afirma que “a poesia é linguagem em sua função estética. Deste modo, o objeto do estudo literário não é a literatura, mas a literariedade, isto é, aquilo que torna determinada obra uma obra literária”. Em outras palavras, de acordo com esses estudiosos, é preciso distinguir a natureza da linguagem poética (entenda-se aqui poética em um sentido mais amplo, envolvendo todos os textos de ordem literária) e a natureza da linguagem cotidiana, porque nela a função referencial não se reduz ao utilitarismo banal nem ao automatismo que é característica desta última. Dessa forma, o que há, na linguagem poética é uma desautomatização da percepção existentes no pragmatismo que caracterizam a linguagem cotidiana. “ E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reco- nhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singula- rização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção; a arte é um meio de experimentar o devir do objeto, o que é já “passado” não importa para a arte (CHKLOVSKI, 1976, p.45). Clarificando o que foi citado anteriormente, é preciso que visualizamos as dife- renças existentes entre reconhecimento e visão, a oposição existente entre au- tomatismo e percepção desautomatizada. Uma das características basilares da Arte é permitir ao destinatário uma percepção mais rica em informações acerca UNICESUMAR UNIDADE 3 108 dos temas tratados. Essa visão é construída pelo artista por meio dos recursos de linguagem que se constituem verdadeiros procedimentos de singularização cuja função é permitir “novas informações sobre temas e objetos que integram a expe- riência cotidiana, mas se encontram como que neutralizados pelo automatismo da percepção” (FRANCO JR, 2009, p.117). Esse procedimento de singularização cria uma espécie de “crise” em nossos hábitos que são regulados pela linguagem coti- diana, obrigando o espectador a rever seus conceitos, perspectivas e concepções de mundo. É por meio dessa singularização que a linguagem poética é definida. De acordo com Paveau e Sarfati (2006), as funções propostas por Jakobson apontam para a relação entre estrutura e função, com ênfase na afirmação da importância da estrutura da língua, na função social da linguagem, na oposição entre a função da linguagem para comunicação e para a literatura e o modo de manifestação da linguagem escrita e oral, bem como as características da lingua- gem do texto literário. Caminhando mais um pouco, é pertinente comentarmos que os norte-america- nos, no raiar do século XX, se interessavam pela linguagem no intuito de descrever algumas línguas indígenas americanas, que eram desprovidas de uma tradição escrita. O Mentalismo, lideradopor Edward Sapir (1884-1939), e o Mecanismo, liderado por Leonard Bloomfield (1887-1949), foram duas correntes estruturalistas bastante utilizadas nesse período: a primeira relaciona o fato linguístico com “os estados men- tais respectivos ou com as concepções mentais coletivas” (LOPES, 2010, p.43), en- quanto a segunda realiza uma espécie de abstração do conteúdo mental, como ocorre nos próprios fatos linguísticos e, desse modo, estuda a forma do sistema linguístico. Sapir, conforme afirma Câmara Jr (1975), investigava a forma linguística no in- tuito de observar os seus padrões intrínsecos. Todavia, Sapir não se detém no caráter coletivo da língua e concentra sua atenção nos padrões dela. Além disso, para esse linguista, a língua interfere na atividade mental de uma comunidade linguística e de como ela vê o mundo. É o caso, por exemplo, das diferentes denominações dadas ao mesmo pássaro: em português, os usuários da língua ressaltam a atividade (beija- -flor); em francês, o enfoque é no tamanho, isto é, oiseau-mouche (pássaro mosca) e, por fim, em inglês, o foco é no barulho: humming bird, ou seja, pássaro que zumbe. Já o Mecanismo de Bloomfield gira o interesse em afirmar que a linguagem é uma consequência natural de ações e reações dos elementos que compõem o corpo humano. De acordo com Lopes e Antonio (2010, p.44), 109 “ Da mesma forma que os behavioristas faziam com as ações hu-manas, Bloomfield buscou colocar a linguagem em um nível de observação puramente objetivo das formas linguísticas. Bloom- field desenvolveu, para a morfologia, o conceito de “forma mínima” (morfema, segundo seus seguidores), como a unidade estrutural básica do discurso. Dividiu-a em formas livres e formas presas e chegou a uma doutrina do vocábulo bastante funcional [...] Formas livres são aquelas que constituem uma sequência que pode ocorrer isoladamente e constituem comunicação suficiente, ou seja, não se ligam obrigatoriamente a outras formas. A forma livre pode ser sim- ples, se for indivisível em unidades mórficas menores, como “mar”, por exemplos, ou compostas, se for divisível. Assim, “cantar” é uma forma livre composta de cant, -a, -r. Estas três formas denominam- -se presas, pois constituem parte integrante do vocábulo. Elas não ocorrem sozinhas, mas funcionam ligadas a outras. Para se contrapor ao Estruturalismo, nos anos 1950, nos Estados Unidos, surgiu um movimento capitaneado por Noam Chomsky, que trazia nova maneira de compreender o objeto de estudo da Linguística e, por conseguinte, apresentava novos métodos e objetivos. Chomsky nasceu em 1928, na Filadélfia, e, além de linguista, é filósofo, sociólogo, cientista cognitivo e ativista político. É professor emérito em Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Sua contribuição ficou conhecida como Gramática Gerativa, cujo marco é a publicação, em 1957, de Syntatic Struture. A gramática ficou conhecida como Gerativa porque, segundo Orlandi (1999, p.38), ela permite, “a partir de um número limitado de regras, gerar um número infinito de sequências que são frases, associando-lhes uma descrição”. O mecanismo dessa teoria é dedutivo: ela parte do abstrato, ou seja, de um axioma e de um sistema de regras e atinge o concreto, isto é, frases existentes na língua. A preocupação dessa obra era a de verificar a existência de algo que é tido como anterior à língua como era entendido pelos estruturalistas. Em outras palavras, todos os falantes possuem “um conhecimento partilhado sobre os enunciados que podem e não podem ser produzidos, e é justamente esse conhecimento que precisa ser descrito e explicado pela teoria linguística” (BORGES NETO, 2004, p.99). UNICESUMAR UNIDADE 3 110 Descrição da Imagem: na foto em preto e branco está Noam Chomsky, no qual aparece apenas o seu busto de forma inclinada para a esquerda. O linguis- ta é um idoso com cabelos curtos, que tem uma das mãos apoiadas na região entre pescoço e cabeça, usa óculos, veste um sué- ter e está olhando para a esquerda da imagem. Figura 7 - Noam Chomsky Fonte: Wikimedia Commons ([2022]f, on-line). Chomsky afirma que os falantes possuem a criatividade linguística, isto é, têm a capacidade de produzir sentenças até então desconhecidas por eles. Também pertence a essa capacidade, o saber que o falante tem a respeito das frases: “ele sabe comparar estruturas sintáticas semelhantes, sabe separar frases que fazem parte da língua das que não fazem, etc.” (ORLANDI, 1999, p.39), sem se preocupar, com isso, com o desempenho de falantes específicos em seus usos concretos. Para ele, “ A linguagem humana se baseia numa propriedade elementar que também parece ser uma propriedade biologicamente isolada: a pro-priedade da infinidade discreta, manifestada da forma mais pura pelos números naturais 1, 2, 3.... As crianças não aprendem essa propriedade do sistema numeral. A menos que a mente já possua os princípios básicos, nenhuma quantidade de evidências poderia fornecê-lo; [...] Do mesmo modo, nenhuma criança tem de aprender que há sentenças de três palavras e sentenças de quatro palavras, mas não sentenças de três palavras e meia, e que é sempre possível 111 construir uma mais complexa, com uma forma e significados defi- nidos. Tal conhecimento tem que nos chegar pela “mão original da natureza” (the original hand of nature), segundo expressão de David Hume, como parte do nosso dote biológico (CHOMSKY, 1998, p.18). Em outras palavras, esse linguista acredita em uma espécie de conhecimento que é compartilhado. A natureza desse conhecimento é universal e biológica e está fundamentada na capacidade de adquirir uma língua. Chomsky (1998) afirma que a aquisição da língua é um processo precário, uma vez que as crian- ças possuem acesso limitado e pobre aos dados linguísticos, bem como a uma fala truncada e incompleta. Mesmo assim adquirem rapidamente a sua língua materna e o conhecimento que adquirem é bastante sofisticado. “ Como o que está em causa é um falante ideal, e não locutores reais do uso concreto da linguagem, essa teoria chomskiana conduz ao universalismo. A faculdade da linguagem aparece aí como intrín- seca à espécie humana: o homem já nasce com ela. A linguagem é inata. Faz parte da natureza do homem. E como o homem é carac- terizado pela racionalidade, a relação fundamental para essa linha de estudos é a relação entre a linguagem e o pensamento. Prevalece o percurso psíquico da linguagem como o central e, em consequên- cia, o domínio da razão. Assim como se concentra o interesse nos processos cognitivos (ORLANDI, 1999, p.40-41) Nessa esteira, para Chomsky (1998), o nosso conhecimento linguístico é interno à mente, e para estudá-lo, com rigor, seria necessário tratar o construto mental da linguagem. A gramática gerativa, também conhecida como gramática uni- versal, tem o intuito de gerar “regras de boa-formação de uma língua qualquer e de relacionar esse aparato formal a algum conjunto de princípios gerais (que determinem o que pode valer como ‘gramática gerativa’ para as línguas em geral)” (BORGES NETO, 2004, p.100-101). A visão desse linguista é a de que “todas as línguas são variações de um mesmo tema” (CHOMSKY, 1998, p.24). É preciso explicar as propriedades da língua, observando o que o falante sabe. Ademais, ele adota uma postura inatista da linguagem e a considera a partir de uma visão cognitiva e bioló- gica. O que importa para o Gerativismo não é observar o uso concreto da UNICESUMAR UNIDADE 3 112 linguagem em situações também concretas. Dessa forma, diferentemente do Estruturalismo, a perspectiva de Chomsky não busca “descrever os dados que se revelam à percepção dos linguistas, mas trata-se de encontrar princípios gerais a partir dos quais as descrições dos dados observáveis possam ser logi- camente derivadas” (BORGES NETO, 2004, p.100). Ainda, para Borges Neto, essas são algumas das propostas do Gerativismo: “ A história da GG [Gramática Gerativa] conhece três grandes “es-tratégias”na delimitação do conhecimento sobre a língua presente na mente/cérebro dos falantes. Num primeiro momento (Teoria de SS [Syntactic Struture]), a gramática deveria gerar diretamente as sentenças da língua (em suas formas superficiais). [...] No se- gundo momento (Teoria-padrão), a gramática passa a gerar objetos abstratos que são interpretados nas sentenças das línguas (na sua forma fonética e no seu significado), ou seja, o conjunto de objetos abstratos gerados pela gramática é projeto na língua, descrevendo- -a enquanto um conjunto de significantes possíveis relacionados a um conjunto de significados possíveis [...]. Aqui, a noção de gra- mática gerativa sofre uma pequena modificação com relação ao sentido anterior [...]. Permanece, no entanto, o compromisso com a noção de língua, uma vez que a gramática vai gerar tantos objetos abstratos quantas forem as sentenças da língua e nenhum a mais. [...]. No terceiro momento (P&P [Princípios e Parâmetros]), a gra- mática gera objetos abstratos que explicitam as propriedades que os falantes levam em consideração no momento de emitir juízos de gramaticalidade sobre objetos linguísticos. As sentenças de uma língua qualquer constituem apenas um subconjunto desse conjun- to de objetos linguísticos e, portanto, em nenhum momento, e sob nenhum critério, é possível dizer que a gramática gera as sentenças da língua – no máximo, é possível dizer que a gramática permi- te (licencia), entre outras coisas, as sentenças de uma língua dada (BORGES NETO, 2004, p.124-125). Roulet (1978) afirma que não era interesse de Chomsky estabelecer uma me- todologia para o ensino de línguas, no entanto, fez isso ao deslocar o foco do ensino para as estratégias de aprendizagem. Ademais, o linguista contribuiu para 113 algumas formas pedagógicas que estavam abandonadas, tais como compreender a utilidade dos erros por parte dos alunos, o uso de exemplos agramaticais, a importância da expressão livre e assim por diante. Importa, a título de ilustração, mencionar que Chomsky foi reformulando seu modelo de gramática: em certa altura aparece a Gramática Transformacional, vista como a mais adequada para se pensar nas estruturas sintáticas da linguagem, posteriormente, em Aspects os the Theory of Syntax (1965), o linguista falou em teoria-padrão ou modelo-aspects. Em linhas gerais, “ Na teoria-padrão, o modelo tem três componentes: um central (o sin-tático), e dois interpretativos (o semântico e o fonológico). O compo-nente sintático é constituído pela base, que gera as estruturas profun- das, e pelas transformações que levam às estruturas superficiais. Os dois componentes interpretativos se articulam sobre o componente sintático: a interpretação semântica incide sobre a EP, e a fonológica incide sobre a ES [...] A vantagem, em relação ao distribucionalismo, de incluir a estrutura profunda, dizem os seguidores desse modelo, está em que ela pode tratar de relações gramaticais ocultas que são semanticamente significativas. Por exemplo: a sentença “Eduardo pediu a para sair” é ambígua, pois tem duas estruturas profundas diferentes (“Eduardo pediu a Patrícia para Eduardo sair”/ “Eduardo pediu a Patrícia para Patrícia sair”) que convergem para a mesma es- trutura superficial (“Eduardo pediu a Patrícia para sair”). No entanto, a inclusão da noção de estrutura profunda no modelo é um ponto crítico que estará sempre em discussão, já que esta noção traz consigo a questão do significado (ORLANDI, 1999, p.44-45). Posteriormente, Orlandi (1999) nos aponta para uma dissidência e problematiza: qual é a relação entre sintaxe e semântica? Chomsky afirma que a sintaxe é autô- noma e que a semântica, por sua vez, não gera estruturas. Os dissidentes queriam mostrar, justamente, que é a semântica, e não sintaxe, que possui a capacidade gerativista. Para isso, “tornam as estruturas profundas cada vez mais abstratas e mais distantes das estruturas superficiais, reforçando a necessidade das transfor- mações para chegar às frases realizadas” (ORLANDI, 1999, p.46). Depois desses embates, Chomsky propôs, em 1972, a teoria-padrão ampliada e, na sequência, UNICESUMAR UNIDADE 3 114 em 1976, a teoria-padrão ampliada revista. Todas essas propostas, de algum modo, valorizam cada vez mais a ES e atribuem menor importância para a EP. Até o presente momento, tratamos, rapidamente, de alguns tópicos básicos das principais teorias linguísticas que pertencem ao Estruturalismo e ao Gerativismo. Há, no entanto, outros paradigmas que merecem destaque. Alguns desses para- digmas lançam um olhar mais específico para os falantes reais em um contexto que também é real. Para Koch (1998), os estruturalistas foram responsáveis por desenvolver os estudos a respeito dos sons e do nível morfológico, já os gerativistas se preocuparam, mais especificamente, com a sintaxe e, posteriormente, os estudos a respeito da semântica também foram contemplados. Todavia, até esse ponto, a Linguística se debruçava no estudo de enunciados isolados ou em frases. Com o apoio de outras áreas do saber, como a antropologia, a psicologia da comunicação, a filosofia da linguagem, dentre outras ciências, a Linguística so- freu, nas palavras de Koch (1998), um significativo salto qualitativo. A partir desse salto, o que entra em discussão e análise é o texto, o discurso e as condições de pro- dução dos enunciados. Falaremos, a partir de agora, de algumas dessas abordagens. A partir dos anos 1960, Dell Hymes, etnolinguista norte-americano, começou a estabelecer críticas severas às teorias formalistas. Para ele, o método de Chomsky omitia toda a relevância sociocultural pelo fato de considerar um falante ideal em uma comunidade linguística homogênea. É sabido que a língua possui inúmeras variantes. Por exemplo, não podemos construir um texto acadêmico/científico com a mesma variedade linguística, que respondemos os amigos em conversas de aplicativos de mensagens. Ou seja, para Hymes (2009, p.60), "há regras de uso sem as quais as regras de gramática seriam inúteis”. É por esse motivo, que esse estudioso não dissocia a teoria linguística das teorias de comunicação e cultural e só pode ser compreendida a partir da vida social. Hymes afirma, ainda, que a competência linguística proposta por Chomsky, é apenas uma das capacidades de um falante. Por exemplo, uma criança no proces- so de adquirir a língua materna aprende, além de criar frases, compreendê-las e “quando usá-las e quando não usá-las, sobre o que falar, com quem, onde, de que maneira” (HYMES, 2009, p.60). Dessa maneira, competência linguística envolve a capacidade de compreender as variantes sociolinguísticas, bem como um saber pragmático a respeito das convenções enunciativas etc. Nessa esteira, é Emile Benveniste (1902-1976) uma das primeiras vozes teóri- cas/críticas a compreender que, de fato, não é possível dissociar a língua da ativi- 115 dade do falante. Ele se contrapõe a significação, princípio estruturalista e afirma que ela não se limita ao signo, mas à situação de fala e contexto. É justamente a abordagem da dêixis, isto é, da “faculdade que tem a linguagem de designar mostrando, em vez de conceituar” (CÂMARA JÚNIOR, 1978, p.90), que permite o início de Benveniste a respeito do discurso. Em Problemas de Linguística Geral, Benveniste (1995) traz, para o centro da teoria da enunciação, o sujeito visto como um indivíduo autônomo, cujas inten- ções são postas em palavras e que se apropria das formas da língua. “ A partir da evocação da oposição efetuada pelos árabes entre “aquele que fala”, “aquele a quem nos dirigimos”, e “aquele que está ausen-te”, Benveniste propõe a correlação de pessoalidade, que separa as pessoas (eu/tu) da não pessoa (ele). As primeiras são efetivamente pessoas e estão presentes na situação de comunicação, enquanto a última não é necessariamente um ser humano e se encontra sempre ausente da situação de fala. Mas, a pessoa eu se opõe a tu, segundo a correção de subjetividadejá que para o autor, eu é a pessoa-sujeito e tu, a pessoa-não sujeito. Sua noção de subjetividade consiste no traço linguístico que opõe aquele que fala (eu) a aquele a quem o falante se dirige (tu) (LOPES; ANTONIO, 2010, p.48) Em outras palavras, a teoria da enunciação coloca o sujeito da linguagem, isto é, o locutor e sua relação com o destinatário no âmago da discussão. O que importa é o processo de enunciação: o enunciado já foi realizado e a enunciação é ação de produzir o enunciado. Para Benveniste (1995), é por meio da linguagem que o homem se torna um sujeito. E é a subjetividade que permite compreender o exercício da língua em seu emprego no discurso. “ Os estudos feitos a respeito das marcas de enunciação mostram que há formas na língua que só podem ser definidas a partir de seu uso pelo sujeito. Esses estudos inauguram uma reflexão teórica explícita e sistemática a respeito da subjetividade na linguagem. A comunicação aparece então apenas como uma consequência de uma propriedade mais fundamental da linguagem: a da constituição do sujeito. Propriedade que demonstra a capacidade do locutor, ao dizer, de se propor como sujeito (ORLANDI, 1999, p.59). UNICESUMAR UNIDADE 3 116 Isso quer dizer que a linguagem não é, conforme Orlandi (1999) tão somente instrumento do pensamento ou da comunicação, ela também auxilia na consti- tuição da identidade do sujeito. Essas questões serão discutidas, com mais vigor, na próxima unidade. Já é possível verificar que uma língua falada não é falada da mesma forma por todos os membros de uma comunidade linguística. Os fatores externos - idade, sexo, grau de escolaridade etc. - são elementos que influenciam diretamente o uso da língua. Na década de 60, no auge das repercussões gerativistas, William Labov, dentre outros linguistas, se baseiam na visão antropológica linguística proposta por Sapir e Whorf para “investigar como a estrutura social influencia a maneira como as pessoas falam e como variedades linguísticas e padrões de uso se correlacionam com atributos sociais, como classe social, sexo, idade, etnia” (COULMAS, 2002, p.427). Essa investigação ficou conhecida como Sociolinguística. Tal corrente tem o intuito de sistematizar a variação existente na linguagem. De acordo com Orlandi (1999), ela toma a sociedade como causa e analisa na linguagem as estruturas sociais. “ O falante real é levado em conta e os sociolinguistas analisam as formas linguísticas usadas pelos falantes em suas comunidades. Considerando, portanto, que a língua é diretamente observável, a Sociolinguística centra a sua análise nos dados. Deriva daí seu gran- de empenho metodológico em construir procedimentos cada vez mais sofisticados, adequados e precisos para a coleta e tratamento dos dados, já que estes são determinantes para a direção e o sucesso de qualquer trabalho nessa área (ORLANDI, 1999, p.50-51). Dentre os inúmeros exemplos de variantes, no caso da língua portuguesa, temos um recorrente: a marcação de plural. Por exemplo: as camisetas azuis/ as camiseta azul/ as camisetas azul; ou as noções de registro alto (nós vamos) ou baixo (nóis vai) e de estilo formal (vossa senhoria) ou informal (você). No escopo dessa discussão, o que a Socio- linguística reforça é que, conforme expõe Camacho (2001), toda variedade linguística é regida por regras e, dessa forma, não há variedades superiores e nem inferiores. Por fim, mas muito longe de esgotar as contribuições a respeito das correntes linguísticas, a Análise do Discurso também merece comentário. Charaudeuau e Maingueneu (2008, p.43) afirmam que não é fácil marcar, claramente, o início da 117 Análise do Discurso (AD), pois “não se pode fazê-la depender de um ato funda- dor, já que ela resulta, ao mesmo tempo, da convergência de correntes recentes e da renovação de práticas de estudos muito antigos de textos (retóricos, filológicos ou hermenêuticos”. No entanto, duas publicações são importantes para a funda- ção da teoria: trata-se de Análise Automática do Discurso, de Michel Pêcheux (1938-1983), e do volume XIII da revista Langages, ambas em 1969. Aprofundando a visão sociolinguística, a teoria da enunciação, dentre ou- tras ramificações, a Análise do Discurso, tem o intuito de discutir a relação da linguagem com a exterioridade. Orlandi (1999, p. 60-61) afirma que é preciso entender que a exterioridade são as “condições de produção do discurso: o falante, o ouvinte, o contexto da comunicação e o contexto histórico-social (ideológico). Essas condições estão representadas por formações imaginárias: a imagem que o falante tem de si, a que tem do seu ouvinte, etc.”. Com o estabelecimento da Análise do Discurso, temos um salto significati- vo nos estudos linguísticos: da teoria descritiva (Estruturalismo) para a teoria científica explicativa (Gerativismo), culminando, agora, em uma teoria crítica da produção da linguagem. Trata-se, portanto, de uma teoria da leitura, da interpre- tação do texto em relação às condições de sua produção: o texto quando se soma a sua produção constitui o discurso. Fica nítido que a relação entre ideologia, história e linguagem é a base dessa corrente, e que possui um caráter subjetivista, uma vez que não considera que o sujeito controla tudo o que diz, ao contrário, possui vários atos falhos que deixa escapar o funcionamento de seu Inconsciente. Há divergências na construção do estatuto da Análise do Discurso, por esse motivo é possível pensar em duas linhas: a americana e a francesa. “ Para a linha americana, para se passar da análise da frase para o texto basta uma extensão da análise distribucional: “uma frase é um discurso curto, um discurso é uma frase complexa”. Desse modo, se muda a unidade de análise sem mudar significativamente a teoria ou o método. Nessa linha americana não se fala do significado do texto, mas apenas se determina como são organizados os elementos que o constituem. Quando entra em consideração o significado, eles propõem adicionar outro componente na gramática, em geral chamado componente comunicativo. Este apenas é acrescentado ao modelo já estabelecido (ORLANDI, 1999, p.61-62) UNICESUMAR UNIDADE 3 118 Já a linha francesa (ou europeia) mira sua atenção para outro foco: ela afirma que para analisar textos é preciso mudar o terreno, romper metodologicamente, uma vez que o estudo da significação é muito importante e supõe a intervenção de certos conceitos que fazem parte da reflexão acerca das formações sociais. Nesse caso, o discurso “desloca a reflexão para além da dicotomia língua/fala ou competência/desempenho” (ORLANDI, 1999, p.62). Em outras palavras, o discurso não é visto como geral assim como a língua e tampouco individual como a fala. Portanto, por ser uma prática, o discurso é visto “não como transmissor de informação, mas como efeito de sentido entre locutores” (ORLANDI, 1999, p.63). A noção de interdiscurso, isto é, memória discursiva, é muito importante para os estudos do discurso. Para Pêcheux (1999, p.52), ante um texto, ele “vem estabelecer os implícitos de que sua leitura necessita”. A partir disso é fácil compreender que os sentidos não brotam da língua, mas no relacionamento, no diálogo entre palavras e expressões. Possenti (2004) esclarece que, portanto, a Análise do Discurso está interessada no campo do sentido e que as regras fonológicas, morfológicas, sintáticas funcionam de diversas maneiras, conforme o processo discursivo vai se construindo e que, por tal motivo, “não há AD sem linguística. Ela apenas coloca a língua em seu lugar, ou seja, re- conhece sua especificidade, mas lhe limita o domínio” (POSSENTI, 2004, p.360-361). Ao encerrarmos este panorama pelos estudos linguísticos, o intuito foi, além de nortear historicamente as discussões, compreender que há uma orga- nização e relação entre o que foi discutido. A visão saussuriana, ponto nodal dos estudos científicos, já havia assinalado de que é o ponto de vista que cria o objeto e, por essemotivo, observamos os impasses e avanços da Linguística. Ademais, a unidade trouxe a possibilidade de compreendermos que a lingua- gem possui aberturas e investiduras analíticas inesgotáveis. “A Linguística só pôde se constituir como disciplina autônoma ao opor-se aos diferentes discursos que tinham até então falado da linguagem: o discurso filosófico, com as gra- máticas lógicas; o discurso físico-fisiológico, com a fonética articulatória e acústica; e o discurso sociológico, os comentários de textos etc.” (Mitsou Ronat). CHOMSKY, N. Diálogos com Mitsou Ronat. Tradução de Álvaro Lorencini e Sandra Nitrini. São Paulo: Cultrix, 1977. PENSANDO JUNTOS 119 É John Austin (1911-1960), quem vai conceber a linguagem como forma de ação ao distinguir enunciações constatativas, que relatam e descrevem algum fato, das enunciações performativas que, independentemente de sua verdade, fazem alguma coisa, muito mais do que apenas dizê-las. É o caso da teoria dos atos de fala. Para Austin (1990), os atos da fala podem ser locucional, ou seja, o dizer, a parte material do ato; bem como o ilucocional que é o que se faz ao dizer e o perlocucional, referente ao efeito produzido. Por exemplo, se alguém pergunta no telefone: “o dono da casa se encontra? ”, é elaborado um ato locucional com entonação interrogativa. O que ele faz ao dizer é o ato ilocucional, ou seja, a frase interrogativa é um pedido para falar com o dono da casa. O ato será bem-sucedido se o efeito pretendido for alcançado (ato perlocucional) e o dono for chamado para falar. O que Austin (1990),portanto, trata de que não é a tradição semântica que pensa em valor de verdade, mas das condições de sucesso para os atos de fala. Leia, a seguir, um trecho da entrevista que Noam Chomsky concedeu a Mitsou Ronat. Conforme fica explícito, o linguista gerativista discute as rela- ções entre Linguística e Filosofia da Linguagem. Uma Filosofia da Linguagem? Mitsou Ronat: suas descobertas linguísticas levaram-no a tomar uma p diante da filosofia da linguagem e do que se chama de filosofia do conhecimento. Em particular, no seu último livro, Reflexões sobre a linguagem, o senhor foi levado a determinar os limites do conhecível-pelo-pensamento: consequentemente, a reflexão sobre a linguagem quase que se transforma numa filosofia da ciência. Noam Chomsky: bem entendido, não é o estudo da linguagem que dita a de- finição de uma abordagem científica; mas, de fato, tal estudo constitui um mo- delo ao qual podemos nos referir a fim de abordar a natureza do conhecimento humano. No caso da linguagem, deve-se explicar como indivíduo, a partir de dados muito limitados, desenvolve um saber extremamente rico: a criança, imersa numa comunidade linguística, confronta-se com um conjunto muito limitado de frases, na maioria das vezes imperfeitas, inacabadas, etc.; entretanto, ela chega, UNICESUMAR UNIDADE 3 120 num tempo relativamente curto, a “construir”, a interiorizar a gramática de sua língua, a desenvolver um saber bastante complexo e que não pode ser induzido só dos dados de sua experiência. Concluímos, disso, que o saber interiorizado deve ser estreitamente limitado por uma propriedade biológica; e sempre que nos defrontarmos com uma tal situação, em que um saber é construído a partir de dados limitados e imperfeitos (e isto de maneira uniforme e homogênea entre os indivíduos), poderemos concluir que um conjunto de coerções apriorísticas determina o saber (sistema cognitivo) obtido. Encontramo-nos diante de um paradoxo que de fato não o é: onde um saber rico e complexo pode ser obtido, construído como o saber de uma língua, devem existir coerções, limitações, im- postas biologicamente ao tipo de saber a ser obtido e adquirido. Isto significa que o campo do saber está fundamentalmente ligado aos seus limites. CHOMSKY, N. Diálogos com Mitsou Ronat. Tradução de Álvaro Lorencini e Sandra Nitrini. São Paulo: Cultrix, 1977. Sociolinguística Para ampliarmos as discussões a respeito da Sociolin- guística, ramo mais recente dos Estudos Linguísticos, o presente podcast consiste na leitura de fragmentos da obra Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno. Alguns mitos que estabelecem esse tipo de preconceito serão comentados e, na medida do possível, desconstruídos NOVAS DESCOBERTAS Assista, a seguir, ao vídeo Objeto língua, com o linguista Marcos Bagno. O vídeo trata de variados assuntos, dentre eles: ensino de língua, política lin- guística etc. Confira o QRcode ao lado. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/9717 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/11796 121 NOVAS DESCOBERTAS Livro: Preconceito Linguístico Autor: Marcos Bagno Editora: Parábola Ano: 2015 Sinopse: o preconceito linguístico é, segundo o professor, linguista e filó- logo Marcos Bagno, todo juízo de valor negativo (de reprovação, de repulsa ou mesmo de desrespeito) às variedades linguísticas de menor prestígio social. Ele está diretamente ligado aos outros preconceitos (regional, cultu- ral, socioeconômico etc.). Fala, canção composta por João Ricardo e Luhli, é um dos grandes sucessos de Secos e Molhados, banda de carreira meteórica nos anos 1970, mas de grande im- portância até os dias de hoje. Com base nas discussões realizadas no decorrer da Unidade e com ênfase nas teorias da fala, de Austin, faça uma análise da letra observando se há o ato locucional, ilucocional e per- locucional na letra que segue a seguir: Eu não sei dizer Nada por dizer Então eu escuto Se você disser Tudo o que quiser Então eu escuto Fala Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá Fala Se eu não entender Não vou responder Então eu escuto Eu só vou falar Na hora de falar Então eu escuto Fala Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá Fala Para ouvir Fala: UNICESUMAR https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13610 122 Agora que concluiu a leitura e estudo da unidade, que tal aproveitar e verificar os conhecimentos adquiridos? 1. A respeito dos primórdios dos estudos envolvendo a língua, analise as assertivas a seguir: I - O sumério foi a primeira língua escrita conhecida. A escrita era cuneiforme, isto é, feita com auxílio de objetos em forma de cunha. II - Na Índia, no século V a. C., Pãnini estabeleceu, com rigor, a gramática normativa do sânscrito para a compreensão dos Vedas. III - Os gramáticos alexandrinos cometeram um erro clássico: consideravam a língua escrita como mais correta e superior à língua falada. IV - Com o Romantismo, os estudos da língua refutaram a perfeição dos clássicos e se interessaram pela origem das línguas vernáculas. Está correto o que se afirma em: a) I e II, apenas. b) II, apenas. c) I, II e IV, apenas. d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 2. A obra de Ferdinand de Saussure é um verdadeiro marco para os Estudos Linguísti- cos. Com suas contribuições, a Linguística ganha a marca de ciência. Sobre tal obra, considere as afirmações que seguem: I - Saussure considera material para a Linguística todas as manifestações de lin- guagem, de todos os povos e épocas. II - A langue, passível de uma definição autônoma, portanto um objeto definido, foi o centro de atenção das pesquisas saussurianas. III - Para o linguista genebrino, a língua é um sistema gramatical que existe virtual- mente nos cérebros dum conjunto de indivíduos. IV - Parole, diferente de langue, é o ato individual de colocar em uso o sistema da língua com o intuito de expressar o pensamento. V - O foco de Saussure está na língua em detrimento da fala e também abandonou a visão diacrônica em voga até então. 123 É correto apenas o que se afirma em: a) I, II e III. b) I, II e IV. c) I, III e IV. d) II, IV e V. e) III, IV e V. 3. Depois da contribuição de Saussure, os estudos linguísticos se proliferaram em inú- meras facetas, algumas dialogando e outras contrapondo o pensamento do gene- brino. A respeito de algumas dessas teorias, considere as afirmativas a seguir: I - Para os membros do Círculo Linguístico de Praga, não era possível analisarqual- quer fenômeno linguístico sem levar em consideração a sua estrutura; II - A visão bloomfieldiana está em afirmar que a linguagem é uma consequência natural de ações e reações dos elementos que compõem o corpo humano; III - Para Chomsky, o interesse recaia em investigar algo que é anterior à língua e, por esse motivo, os falantes possuem a criatividade linguística; IV - Benveniste é categórico ao afirmar que é impossível dissociar a língua da ativi- dade do falante, daí a importância da situação da fala e do contexto. Está correto o que se afirma em: a) I e II, apenas b) I e III, apenas c) I, II e III, apenas d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 4Psicanálise e Linguagem Dr. Diego Luiz Miiller Fascina na unidade 4 de seu material de estudos, o foco recai nas relações estabelecidas entre Linguagem e Psicanálise. Essa área do saber, instau- rada a partir da descoberta do inconsciente, feita pelo médico vienense Sigmund Freud, causou uma drástica transformação na compreensão da subjetividade humana, na posição que o sujeito ocupa na sociedade e na maneira como ele lida com seus dramas pessoais. A linguagem é a ferramenta do fazer psicanalítico: a cura se faz por meio da palavra falada. É por esse motivo que, nessa unidade, desviamos um pouco do foco filosófico e enlaçamos os inesgotáveis estudos da linguagem com a contribuição psicanalítica: alguns pontos do pensamento freudiano e de seu mais famoso “herdeiro”, Jacques Lacan, serão comentados com o intuito de demonstrar como a teoria psicanalítica dialoga com o estru- turalismo saussuriano, com o surrealismo e com outras áreas do saber. UNIDADE 4 126 Che vuoi? Em 1772, o escritor francês Jacques Cazotte lançou O Diabo Enamorado, um pequeno romance que causou bastante furor na época do lançamento. Na obra, Alvare, profundo estudioso da cabala, evoca o diabo que lhe aparece em formato grotesco, com cabeça de camelo (e, depois se transforma em cão, posteriormente em um pajem hermafrodita e, também, na forma da bela Biondetta) e lhe faz uma pergunta definitiva: che vuoi? Ora, o que isso significa? Simplesmente “o que queres?”. A seguir, um trecho do texto literário: Algum tempo sossegado por aquelas reflexões, aprumei-me, impe- tifiquei-me, firmei o pé, e proferi o esconjuro com voz alta, clara e rija, engrossando-a cavamente quando com três brados, a intervalos curtos, chamei Belzebuth. Corria-me às veias um calafrio, ao passo que os cabelos se me eriçavam. Mal acabei a evocação, abre-se de par em par uma janela em frente de mim, no alto da abóbada. Um golfo de lumeeira mais esplendente que do sol jorra por aquela abertura; uma cabeça de camelo, horren- da no tamanho e no feitio, surge na janela; as orelhas principalmente eram descompassadas! O fantasma hediondo escancara as fauces, e com um ronco próprio de tal monstro, responde-me! - Che vuoi? As abóbadas e subterrâneos em volta ecoaram a porfia o horrobi- líssimo che vuoi. Não sei descrever o meu estado; nem sei como a minha coragem se teve, que eu não caísse fulminado pelo espetáculo e ainda mais pelo estridor que me ribombava nos ouvidos. (CAZOTTE, 1979, s/p). Lacan retirou do texto essa expressão para afirmar que essa pergunta é a que melhor encaminha o sujeito ao seu desejo. O psicanalista francês nos informa que o desejo do homem é o desejo do Outro. E isso significa duas coisas: primeiro que o desejo do sujeito é estruturado pelo Grande Outro, espaço simbólico em que habito; e segundo que o sujeito deseja na medida em que ele experimenta o Outro como lugar de insondável desejo. 127 Em outras palavras, o Outro se endereça a mim como desejo enigmático e, também, me interpela com o fato de que eu não sei o que realmente desejo. É por isso que o Che vuoi?, de Lacan, ultra- passa “o que queres?” e deve ser aberto para “o que está enlouque- cendo você? O que é isso em você que te faz tão insuportável não apenas para nós, mas também para você mesmo, que você mesmo obviamente não domina?”. ( ŽIŽEK, 2010, p. 50). Com base na pergunta central - Che vuoi? - e no desdobra- mento proposto por Lacan, reflita: é possível que nós, seres feitos de linguagem, não saibamos, de fato, o que desejamos? E o que há em nós que nos desequilibra profundamente e que foge de nosso con- trole? Não é possível colocar todas as nossas agruras em palavras? A angústia é, antes de tudo, um afeto que possui relação direta com a constituição do sujeito. Lacan nos assevera que a angústia é um afeto que não engana: quando ela aparece, irremediavelmente há algo aí. Para Lacan, a angústia possui relação com o desejo do Outro. Esse Outro é uma espécie de lugar do significante para a definição do conceito de angústia. Freud afirma que a angústia é uma espécie de reação ou sinal à perda de objeto (no caso, a mãe). Já Lacan afirma que o que provoca a angústia não é a saudade do seio materno e nem a ausência da alternância/presença da mãe, pelo contrário: o que angustia é a quando não há a possibilidade de falta, isto é, quando a mãe está em cima o tempo todo. Com base nessas reflexões iniciais, convido você, caro (a) aluno (a), a assistir o vídeo As Feridas Narcísicas: Copérnico, Darwin e Freud (QR Code ao lado), elaborado pelo prof. Andrei Martins, e, a partir do vídeo, refletir a respeito do conteúdo e construir um pequeno texto resumindo cada um desses três grandes sofrimentos humanos. A partir da experiência proposta, quais reflexões você pretende despertar no estudante? Como vimos, Che vuoi?, é uma diabólica pergunta que nos guia para a questão fundamental de nosso desejo. Assista ao documentá- rio Um encontro com Lacan (QR code ao lado), dirigido por Gérard Miller, e tente refletir, com base no vídeo, a respeito dessa pergunta. UNIDADE 4 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13206 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13814 UNIDADE 4 128 DIÁRIO DE BORDO 129 Descrição da Imagem: Descrição de imagem: na imagem, há uma figura central com contornos bastante expressivos e distorcidos. A figura está com as duas mãos no rosto, tem a boca escancarada, em um grito, e sua fisionomia revela espanto e dor. A figura central está em uma ponte e há, mais distante, duas outras figuras, cujas fisionomias não estão destacadas. Na tela há, também, um lago e o céu pintado com cores quentes. As cores predominantes são o azul, vermelho, laranja, branco e preto. Figura 1 - O grito (1893), de Edvard Munch UNIDADE 4 UNIDADE 4 130 O aclamado e controverso filósofo esloveno Slavoj Žižek afirma na introdução de sua obra Como ler Lacan, que no ano 2000, em comemoração ao centenário de lança- mento de A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud, uma onda de discussões a respeito da morte da Psicanálise se levantou. Algumas vozes diziam que com o avanço das ciências do cérebro, a Psicanálise seria trancafiada no quarto de despejo de ideias obscuras e significados ocultos, outras diziam que Freud foi uma das figuras mais equivocadas na história do pensamento humano e por aí vai. O fato é que Freud, quando descobriu o Inconsciente, desenvolveu a ideia das três doenças narcísicas ou três grandes humilhações sofridas pelo homem. Relendo Freud, o esloveno afirma que, “ Primeiro Copérnico demonstrou que a Terra gira em torno do Sol, e assim privou-nos a nós, seres humanos, do lugar central no Universo. Depois, Darwin demonstrou que emergimos da evolução cega, e nos tomou nosso lugar de honra entre os seres vivos. Finalmente, quando Freud descobriu o papel predominante do inconsciente em processos psíquicos, revelou-se que nosso eu não manda nem mesmo em sua própria casa. Hoje, um século depois, um quadro mais implacável está emergindo. Os últimos avanços científicos parecem infligir uma série de humilhações adicionais à imagem narcísica do homem: nossa mente é uma mera máquina de calcular, processando dados; nosso senso de liberdade e autonomia é a ilusão do usuário dessa máqui- na. À luz das ciências do cérebro,a própria psicanálise, longe de ser subversiva, parece antes pertencer ao campo humanista tradicional ameaçado pelas mais recentes humilhações (ŽIŽEK, 2010, p.7-8) Žižek (2010) complementa essa afirmação, problematizando: estaria, pois, a Psicanálise realmente ultrapassada nos dias de hoje? E a resposta é bastante provocadora: sim! E em três níveis entrelaçados: “ [...]humana parece suplantar o modelo freudiano; 2) o da clínica psiquiátrica, em que o tratamento psicanalítico está perdendo ter-reno rapidamente para pílulas e terapia comportamental; 3) o do contexto social, em que a imagem freudiana de uma sociedade e de normas sociais que reprimem as pulsões sexuais do indivíduo não soa mais como uma explicação válida para a permissividade hedonística que hoje predomina (ŽIŽEK, 2010, p. 8) 131 Contrariamente ao que possa parecer em um nível superficial, Žižek contrasta essas verdades que aparentam estar estabelecidas ao afirmar que, de fato, só agora o tempo da Psicanálise está chegando. E essa chegada está relacionada ao retorno a Freud que o fran- cês Jacques Lacan empreende. O retorno está em não aquilo que o pai da Psicanálise disse, mas ao âmago da revolução freudiana, da qual nem o próprio tinha total consciência. No entanto, façamos uma parada aqui. Se continuássemos, teríamos de comen- tar como Lacan solidifica seu edifício psicanalítico e quais são os pontos de contato e de avanço entre a obra de Freud e do psicanalista francês e isso é uma discussão para depois. Vale a pena citar que o retorno a Freud feito por Lacan vem de fora do campo psicanalítico: a linguística de Saussure, as filosofias de Platão, Hegel e Heidegger, a antropologia de Lévi-Strauss etc. Todavia, merece, a título de es- clarecimento, que a visão de Lacan, observada por Žižek, seja exposta aqui, uma vez que ela dá um entendimento geral a respeito do papel da Psicanálise: “ Para ele [Lacan], fundamentalmente, a psicanálise não é uma teoria e técnica de tratamento de distúrbios psíquicos, mas uma teoria e prática que põe os indivíduos diante da dimensão mais radical da existência humana. Ela não mostra a um indivíduo como ele pode se acomodar às exigências da realidade social; em vez disso, explica de que modo, antes de mais nada, algo como “realidade” se constitui. Ela não capacita simplesmente um ser humano a aceitar a verdade reprimida sobre si mesmo; ela explica como a dimensão da verdade emerge na realidade humana. Na visão de Lacan, formações patológicas como neuroses, psicoses e perversões têm a dignidade de atitudes filosóficas funda- mentais em face da realidade. Quando sofro de neurose obsessiva, essa “doença” colore toda a minha relação com a realidade e define a estrutura global de minha personalidade. A principal crítica de Lacan a outras abordagens psicanalíticas diz respeito à sua orientação clínica: para Lacan, o objetivo do tratamento psicanalítico não é o bem-estar, a vida social bem-sucedida ou a realização pessoal do paciente, mas levar o paciente a enfrentar as coordenadas e os impasses essenciais de seu desejo (ŽIŽEK, 2010, p.10) Posta essa concisa compreensão a respeito do que é e como se movimenta o discurso e a prática psicanalítica, pensemos, mais especificamente e de modo sumário, em algumas das relações existentes entre Psicanálise e Linguagem. UNIDADE 4 UNIDADE 4 132 Freud explica? Para começar, é importante frisar que a Psicanálise tem uma relação imediata e obrigatória com a linguagem, uma vez que o processo terapêutico se baseia numa troca de palavras. E é a partir da linguagem que a cura acontece. O Inconsciente – uma parte de nossa subjetividade humana, aquilo que ha- bita em nós e que nos governa – se expressa na fala sem o nosso consentimento consciente: a outra parte de nossa subjetividade. O Inconsciente é o ponto central da teoria psicanalítica, a grande descoberta feita por Freud. O psicanalista, ao des- cobrir o inconsciente, afirmou que o psiquismo não se reduz ao consciente e que, inclusive, alguns conteúdos só se tornam conscientes após superarem algumas resistências. O inconsciente não é um lugar anatômico, e sim um lugar psíquico Descrição da Imagem: fotografia de um boneco de cera em tamanho real de Sigmund Freud, pai da Psicanálise. O boneco está sentado em uma poltrona marrom, está levemente inclinado para a esquerda, olha fixamente para a câmera, tem a mão direita apoiada na coxa direita e a mão esquerda, flexionada, com um charuto entre os dedos. O boneco usa terno cinza, tem uma corrente abotoada nos bolsos do colete, usa uma camisa social branca por baixo e usa uma gravata listrada nas cores preta, roxa e branca. O boneco é ligeiramente calvo e usa cavanhaque. Figura 2 – Sigmund Freud, o pai da Psicanálise 133 que possui conteúdos, mecanismos, energia própria que produz sintomas. Em outras palavras, um lugar que possui sua própria gramática. O sujeito diz mais do que gostaria de dizer, e como já afirmou Lacan (1999), o discurso entre humanos é, fundamentalmente, um mal-entendido. Ou, em outras palavras, a linguagem humana é “o termo entre o eu e o outro. Entre o sujeito que fala e seu ouvinte existe um anteparo, uma proteção, uma espécie de muralha que se ergue, mesmo quando há silêncio” (LONGO, 2006, p.7). Entre dois sujeitos há, inevitavelmente, a muralha da linguagem. Na verdade, sabemos que não há absolutamente nada no mundo que não passe pela linguagem. A própria realidade só se constitui a partir dessa habilida- de dinâmica. Longo (2006), informa que os fenômenos simbólicos, como os da linguagem são importantes para a vida subjetiva (do espírito) e relacionam-se com a descoberta do Inconsciente. Para a crítica, “ Por meio da linguagem, a incansável insistência de fazer sentido ancora-se por um tempo, ainda que precariamente. Por meio dela, podemos dotar de significação o mundo e a natureza, ambos de existência enigmática e absurda, pois não são criações humanas. E, quaisquer que tenham sido o momento e as circunstâncias de seu aparecimento na escala da vida animal, a linguagem deve ter nascido de uma só vez. É pouco provável que as coisas tenham pas- sado a significar progressivamente; o mais plausível é que, após uma transformação (cujo estudo não compete às ciências da linguagem, à psicanálise ou às ciências sociais, mas à biologia), tenha sido efe- tuada uma passagem de um estágio em que nada tinha sentido a um outro em que tudo tinha sentido (LONGO, 2006, p.8) O artifício logrado próprio da estrutura da linguagem está em sua estrutura de rombo, igual à do sujeito que a criou. É por esse motivo que, nas chamadas lín- guas naturais (o português, o espanhol, o inglês), há sempre três elementos: o eu (o sujeito que fala), o tu (o sujeito que ouve) e o ele (o assunto de que se fala). É o último elemento que, conforme diz Longo (2006), aponta para a simbolização inerente à existência de uma linguagem: “a simbolização que está no lugar de uma ausência, da falta que também é do sujeito que fala” (LONGO, 2006, p.10). Dito de outra forma, as línguas naturais estão presentes na ordem ternária, isto é, a que permite a existência das três pessoas do discurso. É isso que UNIDADE 4 UNIDADE 4 134 possibilita o liame social, uma vez que sem essa ordem não há socialização. Nessa esteira, a ordem unária é a que registra o Inconsciente, e como nos lembra Freud, no Inconsciente não há contradições, tudo é possível e irrompe nas formações que aparecem no consciente, tais como os atos falhos, os chistes, os sonhos e o sintoma. Longo (2006, p.11), informa que: “ Os enunciados do unário não são organizados como alteridade e como relação de causa e efeito. Como faltam dados à “explicação” linear causal, surge o não-senso; por isso os temas do inconsciente sempre se repetem. A ordem do unário é a lógica do não-saber, do paradoxo, da errância da verdade e de qualquer simetria. O unário, contraditório por princípio, se configurará privilegiadamente na arte. Ele funciona nalógica da multiplicidade, campo da conjunção aditiva inclusiva, do ser e não ser simultaneamente, na possibilidade de tran- sição de um lado a outro — esse é o campo do simbólico inconsciente. Por outro lado, a ordem binária evita a desordem, a falta de elementos causais. Trata-se de uma lógica regida pelo ser ou não ser, isto é, conforme Longo (2006), um campo da conjunção alternativa exclusiva. É a expulsão, via ciência do unário, tornando a realidade organizada e, portanto, binária. “ Esse é o campo do imaginário — da imagem que aparentemente se encaixa com a realidade — e dos nossos computadores, que funcio-nam binariamente: um sentido para cada sinal e vice-versa, elimi- nando a possibilidade de equívoco. Pelo pânico do caos, que causa enorme desconforto, essa ordem binária se impõe, necessariamente. No consciente, a inteligência é uma instância que “vive de plantão”, que nunca descansa: ela formula juízos, aponta as identidades, ana- logias, causalidades, organiza o caos, faz conexões. Se a inteligência não encontrar as conexões que exige, não hesitará em fabricar uma falsa (LONGO, 2006, p.12) É na linguagem que o sujeito encontra estofo de significações para suportar a crueza e a hostilidade da realidade. O homem é um ser de linguagem e a urgência de sentido erige a criação de inúmeros sistemas simbólicos, o que faz com que a 135 linguagem seja a mais humana das formas de se apreender o mundo. É só a partir dela que o homem consegue dar integridade às suas fantasias, medos e sonhos. Quando a criança vem ao mundo, logo percebe que todos ao seu redor falam e a sua aquisição da linguagem se dá de forma natural: com tropeços, pausas, mudanças de assuntos, sem uma organização; basta que ela ouça a língua falada que, em pouco tempo, ela aprende a falar. Como sabemos, aprender uma língua é entrar em contato direto com aspectos culturais, históricos, sociais e individuais que essa língua carrega em seu bojo. Como nos lembra Longo (2006, p.14), “ao aprender uma língua, conhecemos como se organiza o campo de significações que ela reflete, tanto do indivíduo (campo da psicanálise) quanto de uma comunidade linguística (campo da sociolinguística)”. Diferente da comunicação existente entre animais não humanos (que é fecha- da e binária), a comunicação humana é ambígua, difusa, heterogênea e falha. É inacabada e inatingível. Essa constatação é assunto de profunda reflexão no campo filosófico, psicanalítico e também no literário. A escritora Clarice Lispector é uma das mais potentes vozes a refletir a respeito da revelação e da opacidade da lingua- gem, conforme excerto de um de seus mais instigantes textos, Água Viva, a seguir: UNIDADE 4 UNIDADE 4 136 “ Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas: as que existem já devem dizer o que se consegue dizer e o que é proibido. E o que é proibido eu adivinho. Se houver força. Atrás do pensamento não há palavras: é-se. Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento. Nesse terreno do é-se sou puro êxtase cristalino. É-se. Sou-me. Tu te és (LISPECTOR, 1978, p.33) Posteriormente, na mesma obra, a narradora fará um discurso que dialoga diretamente com a nossa discussão sobre o Inconsciente: “Não dirijo nada. Nem as minhas próprias palavras” (LISPECTOR, 1978, p.38). E, na sequência, discorre a respeito da heterogeneidade da linguagem: “Esta palavra a ti é pro- míscua? Gostaria que não fosse, eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópi- ca: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro” (LISPECTOR, 1978, p.38). “A palavra é o meu domínio sobre o mundo” (Clarice Lispector) PENSANDO JUNTOS Conforme os fragmentos apontam é esse curto-circuito na linguagem que nos impulsiona a criar ficções, tecnologia, arte e, em larga escala, a construir ou destruir as coisas, criar e solucionar problemas e, acima de tudo, a nunca se satisfazer e acomodar o desejo. O próprio título do texto, Água Viva, faz relação à medusa gelatinosa, plasmática, que provoca queimaduras: aquilo que borbulha na fonte - talvez o inconsciente? - como as questões concernentes à linguagem. O título também pode se referir a água batismal, fonte de vida, a própria linguagem que encaminha os sujeitos para o simbólico. Pensando especificamente no campo psicanalítico, Freud não construiu uma teoria da linguagem de modo sistematizado, porém fica claro que as preocupações sobre a linguagem permeiam toda a sua obra. Quando, em 1881, Joseph Breuer contou a Freud a respeito da dificuldade de uma de suas pacientes, Anna O., em falar hipnoti- zada, a própria, para tentar explicar o seu tratamento, criou o termo talking cure, isto é, cura pela palavra. A partir da compreensão de Anna O., anos depois a Psicanálise seria criada. Tudo passa pela linguagem. Tudo acontece por meio da linguagem. 137 Ao estudar a histeria, o estopim da investigação psicanalítica, o mestre elaborou uma análise das afasias, que é a perda do poder de expressão pela fala ou pela escrita e/ou perda da compreensão da palavra – e a partir daí, forma- lizou seu interesse pela linguagem. “ Em Sobre a concepção das afasias, Freud propõe que a palavra, que, do ponto de vista psicológico, é a unidade funcional da lingua-gem, é um complexo constituído por um intrincado processo de associações, no qual estão presentes quatro elementos: a “imagem acústica”, a “imagem visual da letra”, a “imagem cinestésica da fala” ou “imagem glossocinestésica” e a “imagem cinestésica da escrita” ou “imagem quirocinestésica”. O primeiro passo na aprendizagem da fala, ou seja, na constituição da representação de palavra, consiste em associar a imagem acústica, resultante da fala de outra pessoa, a uma imagem cinestésica, resultante da nossa própria fala. Quando o sujeito fala surge uma segunda imagem acústica, decorrente do som pronunciado, que se associa às duas impressões anteriores. Nessa fase inicial da linguagem, as palavras produzidas não são idênticas às pronunciadas pelos outros, fazendo com que se empregue uma linguagem própria, decorrente da associação de diversos sons de palavras ouvidas com sons que o sujeito mesmo produz. A fala seria, então, aperfeiçoada através de uma tentativa de aproximar e fazer coincidir essas duas imagens acústicas. A imagem visual da palavra e a imagem cinestésica da escrita são acrescentadas ao complexo associativo, posteriormente, com a aprendizagem da leitura e da escrita. Na aquisição da linguagem, cada novo elemento que é acres- centado ao complexo associativo provoca uma reorganização das associações que o compõem, pois a aprendizagem, segundo o que Freud propõe, se dá por um processo de “sobreassociação”. Com isso, ele quer dizer que a associação não é um processo mecânico, pois cada nova associação que se estabelece modifica a significação funcional das conexões anteriormente constituídas. Por exemplo, se há uma associação entre a imagem acústica e a imagem cinestésica de uma palavra, e esta ainda não foi vinculada a uma representação de objeto, tal associação exerce inicialmente a função de possibilitar a repetição de palavras ouvidas (CAROPRESO, 2001, p.30). UNIDADE 4 UNIDADE 4 138 Embora extensa, a citação nos mostra que a palavra se dá a partir de um processo que imiscuem elementos visuais, acústicos e cinestésicos. E ela só adquire significado se relacionar a representação de um objeto, que também é formado por uma imensa variedade de representações visuais, táteis, acús- ticas etc. Os problemas patológicos referentes à fala estão relacionados, por suas imagens sonoras, a representações de objetos. Há, de acordo com Longo (2006), uma afasia verbal, que se refere às perturbações entre os elementos separados da representação da palavra; posteriormente, uma afasia assimbó- lica, que cria um curto circuito entre a representação da palavra e do objeto e, por fim, uma afasia agnóstica, em casos de lesão bilateral, ocasionandoperturbações na fala, uma vez que toda a incitação espontânea ao falar advém do campo associativo de objeto. Outro ponto que merece destaque, quando pensamos na importância da linguagem para a constituição da prática psicanalítica referem-se ao desloca- mento e a condensação, isto é, a metáfora e a metonímia, já comentadas por Aristóteles em sua Poética. A metáfora é uma figura de linguagem que faz relação com à semelhança de sentidos, como se fosse uma comparação subentendida, isto é, condensada, pois atributos de um segundo elemento são projetados num primeiro desde que os dois elementos possuem algo em comum. Por exemplo, na metáfora “Meu coração é uma pedra” há dois conjuntos: coração e pedra. O primeiro pode compartilhar atributos com o segundo e isso significa que a pedra, por ser um objeto inanimado passa a ideia de que a pessoa é fria e insensível. Em outras palavras há uma condensação de sentidos e, portanto, surge esse terceiro sentido a partir do deslizamento dos sentidos dos conjuntos coração e pedra. Já a metonímia está relacionada à contiguidade e toma “a parte pelo todo” o “continente pelo conteúdo”. Na metonímia, a palavra que designa “deslizar” de uma parte do objeto para a outra, faz um deslizamento de sentido que permite o surgimento de vários sentidos e associações. Por exemplo, quan- do afirmo “Eu leio Machado de Assis”, eu substituo o autor pela obra. Tanto o deslizamento metonímico quanto a condensação metafórica acontecem constantemente, pois dão base para o funcionamento da linguagem. Os sonhos são dignos de um comentário. Para Freud, eles são elementos fundamentais para a compreensão do inconsciente. Tanto nos sonhos quanto nos chistes, nos sintomas, nos atos falhos, isto é, nas formações do inconscien- 139 te, o recalque vai se manifestar. Para a psicanálise, o sonho é a realização de um desejo inconsciente, mas isso quer dizer que o desejo nem sempre se apresenta de maneira clara, por isso, muitos de nossos sonhos são repletos de códigos, linguagem cifrada, inversões e contradições e, apesar de parecerem estranhos, tais atos psíquicos têm um sentido e uma intenção para quem o sonha. “ Nos sonhos, há certos elementos que não devem ser interpre-tados, pois têm a função de estabelecer o significado de algum outro. Em suma, a linguagem dos sonhos é o método pelo qual a atividade mental inconsciente se expressa. O inconsciente, po- rém, fala um dialeto próprio e cabe ao sonhador decifrá-lo. Na Interpretação dos sonhos fica claro que um sonho pode sofrer inúmeras interpretações, que cada elemento do sonho é uma representação e — mais ainda! — que, pelo seu processo de for- mação, não se pode atribuir um significado definitivo e último a um sonho ou a uma parte dele. Quando se submete o sonho à interpretação, descobre-se que a disposição errática e irregular de suas partes não tem a menor importância para sua compreensão. Os elementos essenciais do sonho são os pensamentos oníricos que têm significado, conexão e ordem. Essa ordem, entretanto, é diferente da que é lembrada no sonho manifesto. Os elemen- tos do sonho, à parte de serem condensados, quase sempre são dispostos numa nova ordem, mais ou menos independente de sua disposição primitiva. Isso quer dizer que o material original dos pensamentos oníricos é submetido à influência da revisão secundária, cuja finalidade é livrar-se da desconexão e ininte- ligibilidade produzidas pela elaboração onírica e substituí-las por um novo “significado”, que não é mais o dos pensamentos oníricos.(LONGO, 2006, p.23-24). Em outras palavras, a interpretação de um sonho requer a tradução da lin- guagem desse sonho para a fala, sempre levando em consideração que essa é, apenas, uma possibilidade e uma poderosa via para a compreensão do con- teúdo inconsciente. As parapraxias também merecem menção, quando o assunto é a linguagem observada pelo viés psicanalítico. Elas nada mais são do que falhas normais do UNIDADE 4 UNIDADE 4 140 aparelho psíquico: consistem em esquecimento de palavras, de no- mes, lapsos, cometer enganos e, ainda, o ato de guardar objetos em determinados lugares e depois se esquecer. Freud (1913) assevera que esses acontecimentos denunciam conflitos que tentam evitar ou desprazer ou ocultar alguma informação. “ Nos lapsos de língua, por exemplo, sucumbimos à transposição de fonemas (dizer “ivorregável” em vez de “irrevogável”, por exemplo), amalgamação (isto é, mesclar sílabas: o falante quer dizer “creme” e diz “cleme”, mesclando as palavras “creme” e “clima”, por exemplo) e distorções (dizer “pêsames” quando deve dizer “parabéns”). A formação de substituições e contaminações nos lapsos de língua é o começo do trabalho de condensação encontrado em atividade febril no sonho (LONGO, 2006, p.26). Importa salientar, nessa esteira, a importância dos chistes. Freud dedicou uma obra para tratar desse assunto: Os Chistes e sua Rela- ção com o Inconsciente, publicado em 1905. Na obra, o psicanalista trouxe inúmeras definições, de teóricos diferentes, a respeito do tema, dentre eles, que o chiste é um juízo lúdico, que é também uma habilidade de fundir ideias diferentes umas das outras, além de salientar o contraste entre essas ideias e um certo caráter nonsense. Chiste é uma tradução do termo witz, cujas raízes estão no Romantismo alemão. Embora a tradução seja difícil, seria algo similar ao dom de contar acertadamente algo alegre e, ainda, a graça de espírito, a esperteza. Tanto as piadas quanto o humor são representações de chistes. Para Freud, o humor “é um meio de obter prazer, apesar dos afetos dolorosos que interferem com ele; atua como um substitutivo para a liberação destes afetos, coloca-se no lugar deles [...] O prazer do humor [...] procede de uma economia na despesa do afeto, ao custo de uma liberação de afeto que não ocorre” (FREUD, 1980, p. 257). 141 NOVAS DESCOBERTAS Título: Sigmund Freud: na sua época e em nosso tempo. Autor: Elisabeth Roudinesco Ano de Lançamento: 2014 Elisabeth Roudinesco é uma das maiores psicanalistas da França, e nessa biografia reconstitui a vida de Freud por meio das intensas relações que ele manteve com seus mestres e discípulos, familiares e amigos, além dos pa- cientes. E fornece novos insights sobre a vida do homem que modificou para sempre nossa visão da humanidade e da cultura: retifica crenças arraigadas, corrige erros históricos, ressalta precisões biográficas, propõe interpretações. Freud surge ao longo das páginas como um verdadeiro turbilhão: construindo sua época e sendo construído por ela; amando e odiando intensamente; to- cando a todos com sua palavra salutar e sua desconstrução das ilusões. Completamos essa questão, afirmando que o chiste é fei- to de material linguístico, enquanto o sonho é feito de imagens (figuras), embora o sonho também possa ser sonhado em forma linguística. A atividade chistosa tem o intuito de trazer prazer em seus ouvintes, ou seja, um chiste requer alguém que o faça, uma segunda pessoa que é tomada como objeto de agressividade (seja hostil ou sexual) e uma terceira, na qual se cumpre o objeto da produção de prazer. Longo (2006, p.29) informa que “dife- rente das outras formações do inconsciente (atos falhos, sonhos, sintomas), que são privativas do sujeito, o chiste é partilhado socialmente, é a única expressão social do sujeito do inconsciente”. UNIDADE 4 UNIDADE 4 142 Façamos um parêntese aqui para comentarmos, a título de ilustração, algumas das relações existentes entre Psicanálise e Surrealismo, importante vanguarda artística que surgiu em Paris no começo do século XX. As aproximações entre essas duas áreas são muito frutíferas. Roudinesco (1998) afirma que Freud não entendia o porquê os surrealistas se interessavam tanto por sua teoria: ele não supôs que era o trabalho da linguagem na descoberta do inconsciente. NOVAS DESCOBERTAS Para saber um pouco mais a respeito do pensamento de Roudinesco, segue o link de uma entrevistaque ela concedeu ao Programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1999: André Breton, escritor e teórico do surrealismo, foi também médico. Em deter- minado momento de sua carreira, se interessou por poesia e loucura e, a partir daí, pela escrita automática. Tal escrita tem o intuito de registrar tudo o que vem à cabeça. Para ele, o automatismo deixa claro que a relação do sujeito com a rea- lidade se constrói a partir da enunciação. Antes mesmo de escrever o Manifesto Surrealista, em 1924, Breton, finalmente, se encontrou com Freud: “ Num dia de outubro de 1921, ele bate à porta de Freud, muito excita-do com a ideia de encontrar o inovador a quem remeteu uma carta entusiástica. Freud o recebe em seu horário vespertino e o faz aguardar em meio a seus pacientes (...) Quando chega sua vez, ele entra no célebre gabinete e se encontra diante de um velhinho sem ares de importância, que não se interessa pelo movimento dadaísta. Breton tenta animar a conversa, fala em Charcort e Babinski, mas Freud lhe responde com banalidades. Ao final este o saúda ama- velmente, dizendo: “Felizmente contamos muito com a juventude”. Breton leva anos para se refazer da decepção experimentada. Num relato enraivecido e elogioso, ele narra seu encontro em termos vio- lentamente dadaístas: “Aos jovens e aos espíritos românticos, que por ser a psicanálise a moda deste inverno, precisam imaginar um dos escritórios mais prósperos do rastaquerismo moder- no, o consultório do Dr. Freud, com aparelho para transformar coelhos em chapéus e com o determinismo cego para qualquer https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13611 143 mata-borrão, não me aborrece informar que o maior psicólogo de nossa época mora numa casa de aparência medíocre num bairro perdido de Viena. (ROUDINESCO, 1988, p.37-38) O fracasso desse encontro certamente se deu pelo fato de que Freud sabia que Paris não via com bons olhos a Psicanálise e, também, porque o próprio psica- nalista não se interessava pelos movimentos de vanguarda. Freud buscava mes- mo o reconhecimento da comunidade científica e não da comunidade artística. Pensando na definição do conceito Surrealismo, utilizemos o verbete proposto por Breton, presente no Primeiro Manifesto da vanguarda: UNIDADE 4 UNIDADE 4 144 “ Surrealismo: n. m. Automatismo psíquico puro pelo qual propõe--se exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra forma, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral. (BRETON, 1924, p. 40) É notório que Breton se baseia em Freud para construir a sua compreensão a respeito do automatismo. Ou seja, o núcleo está na ideia de inconsciente, no pen- samento livre fora das amarras da consciência. Em seus primórdios, o surrealismo se baseia, então, na Psicanálise, na associação livre, no sonho e no trabalho de decifração. Em outras palavras, ele colocou o desejo inconsciente em primeiro plano por meio da diluição do eu, que se conforma às normas estabelecidas pelas relações sociais. Essa situação prevaleceu até meados dos anos 1930, pois a partir daí, com o surgimento de Salvador Dalí, o tema paranoia entrou em discussão. A paranoia-crítica foi um método criado por Dalí para descredibilizar to- talmente a realidade. Diferentemente do sonho e do automatismo, a paranoia interpretava a realidade de modo menos passivo. Cria-se, de acordo com Dalí (1971), a noção de irracional concreto que seria mais precisa do que a de ir- racionalidade geral extraída do aspecto delirante dos sonhos e dos resultados automáticos. Continuemos: “ Na primeira fase do surrealismo há uma aposta no encadeamen-to significante, ou seja, no trabalho da linguagem onde temos o privilégio não do Eu, mas do inconsciente, do Isso fala. Dalí propõe o fortalecimento justamente do Eu, o irracional que se trata de alcançar é o irracional concreto, aquele que se apoia num sistema de razões, a razão paranoica. Este irracional não seria o mesmo dos estados delirantes do sonho e do auto- matismo. A irracionalidade concreta defendida por Dalí não está em antinomia com a consciência, mas ao contrário, ela é uma espécie de “hiperconsciência”. Assim Dalí busca a sistematização se afastando da fragmentação, do enigma e do ciframento do sonho (SANTOS, 2017, p.9). Dalí compreende que a criatividade está na imagem e não, necessariamente, no significante. Um leão, por exemplo, pode também, representar um cavalo, uma mulher e assim por diante. Léger (1995, p.85) afirma que, em Dalí, “estas ima- 145 gens guardam a imagem do desejo de coisas ideais, nisto elas são agalmáticas: é o ouro escondido na merda de passarinho, a idade de ouro da masturbação, do exibicionismo, do crime e do amor, a idade das teorias sexuais infantis”. Em outras palavras, o pintor surrealista se interessava mesmo pelo poder da interpretação das imagens e a força do despertar da cena paranoica em que o desejo do Outro é interpretado. Vejamos um de seus mais curiosos trabalhos: Acesse o Qr Code e veja a arte Salvador Dalí intitulada O gran- de Masturbador (1929): Como analisar uma pintura tão polimórfica e aberta a múltiplos significados como essa? Aliás, quais são as imagens construídas e, de que maneira elas se imiscuem? O Surrealismo, por se distanciar da visão clássica de pintura, exige, de modo diferente, a participação do espectador. Novas realidades são instauradas, o mundo evolui e a obra de arte acompanha essa transmutação. A tela dialoga diretamente com a Psicanálise. Observe a atmosfera onírica, a complexidade imagética que se relaciona, diretamente, com o inconsciente, com os desejos reprimidos, com a falta de lógica e que, por conseguinte, se desligam da orga- nização consciente e da arrumação linear. Como já informamos, Dalí se interessava, sobretudo, pela potência da imagem. E o que temos aí é uma leitura menos passiva da realidade: um rosto petrificado parece estar atado a algo que se assemelha a uma cabeça – possivelmente, a do grande masturbador. Dessa cabeça parecem fluir a (i) lógica do inconsciente: além desse rosto feminino com longos cabelos, um tronco em que a mulher parece realizar sexo oral. Há, também, um lírio que brota da mulher, símbolo da pureza, porém o pistilo da flor possui conotação sexual. A cabeça do grande masturbador parece estar presa por um anzol. Formigas, pedras, insetos, conchas, grandes cílios, galhos, um ovo, rolha, um enorme gafanho- Descrição da Imagem: a tela de Dalí possui figuras de difícil co- dificação: um rosto petrificado parece estar atado a algo que se assemelha a uma cabeça - possivelmente a do grande masturbador. Além desse rosto feminino com longos cabelos, um tronco em que a mulher parece realizar sexo oral. Há, também, um lírio que brota da mulher. A cabeça do grande masturbador parece estar presa por um anzol. Formigas, pedras, insetos, conchas, grandes cílios, galhos, um ovo, rolha, um enorme gafanhoto, a cabeça de um leão com a língua para fora compõem o cenário. Fora da cabeça há um homem que, de longe, observa a cena, e outro está abraçado a uma pedra. UNIDADE 4 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13815 UNIDADE 4 146 to, a cabeça de um leão com a língua para fora compõem o cenário e são imagens oníricas cifradas que podem fazer relação a algo da infância do masturbador. Fora da cabeça há um homem que, de longe, observa a cena, e outro está abraçado a uma pedra. Como bem aponta Freud, os sonhos possuem interpretações distintas. É certo que há conexão entre as imagens que vão aparecendo e é papel do analista auxiliar no entrecruzamento delas. A obra de arte surrealista funciona como um espelho do Inconsciente e, justamente, por esse motivo choca, desautomatiza a percepção do espectador e exige uma visão mais arguta da realidade. A partir deagora, retomemos as formações da linguagem e suas relações com a Psicanálise. A denegação é outro ponto fundamental na teoria freudiana e merece comentário. Tal fenômeno, que consiste em algo dito negativamente, deve ser compreendido como uma afirmação e é justamente neste momento que toda a complexidade da linguagem se evidencia, pois é uma maneira da verdade do inconsciente aparecer e se ocultar simultaneamente. Quando um analisando, deitado em um divã, diz que teve um sonho e que a mulher presente no sonho não era a sua mãe, essa frase deve ser compreendida como se fosse uma afirmação. Essa negativa é um indício de que uma ideia ou um desejo inconsciente começa a emergir e, muitas vezes, tal conteúdo só consegue aparecer por meio da negação. Importa clarificar que, de acordo com a terminologia utilizada, negation seria a negação propriamente dita, e verneinung a denegação, no sentido de recusa. A denegação é tema que interessou Freud desde os primórdios. Ela já estava presente, por exemplo, em Estudos sobre Histeria, de 1894, quando o psicanalista afirma que “o não saber da paciente histérica era de fato um “não querer saber” – um não querer que podia, em maior ou menor medida, ser consciente” (FREUD, 1974, p. 326). No célebre caso d’ O Homem dos Ratos, de 1909, após relatar o centro de seu sintoma obsessivo, o paciente afirma: “mas não é isso que eu penso” (FREUD, 1974, p. 199). No inconsciente não há não. Em A Interpretação dos Sonhos, de 1900, Freud traz para a discussão os sonhos nos quais a negação aparece explicitamente, por exemplo, um pai falecido do sonhador que aparece como estando vivo e se comportando naturalmente, mas ele “havia realmente morrido, só que não sabia” (FREUD, 1974, p. 459). Dessa forma, se não existe “não” no inconsciente é por meio desse “não” que o material inconsciente aflora. Como já salientamos anteriormente, a análise dos sonhos é inesgotável. Freud já havia afirmado que: 147 “ O mesmo sonho admite outra e mais sutil interpretação, que de fato se torna inevitável se levarmos em conta um detalhe sub-sidiário. As duas interpretações não são mutuamente contradi- tórias, mas ambas abrangem o mesmo terreno; constituem um bom exemplo do fato de que os sonhos, como todas as estrutu- ras psicopatológicas, regularmente têm mais de um significado (FREUD, 1974, p.158) Em suma, toda proposição, seja positiva ou negativa, deve ser observada a partir do prazer que ela visa obter ou do desprazer que tenta evitar. Sabendo da plasticidade da linguagem e dos possíveis engodos existentes na comuni- cação, Freud assevera, em A Interpretação dos Sonhos, que “as palavras, visto serem os pontos nodais de numerosas ideias, podem ser consideradas como predestinadas à ambiguidade” (FREUD, 1974, p.392). Ainda pensando na importância do fenômeno da denegação e o re- lacionando, mais claramente, com a linguagem, trouxemos o exemplo da brincadeira infantil que aparece em Além do Princípio do Prazer, de 1920. Freud observa um de seus netos que, na ocasião, tinha pouco mais de um ano e era uma criança saudável e bem-comportada. A brincadeira consistia, de maneira repetida, “ Em atirar longe seus brinquedos e outros objetos. Esse movi-mento era acompanhado pelo som ó-ó, que representava o pre-núncio da palavra fort, que significa longe, ter ido embora. Em seguida, a criança passou a brincar com um carretel amarrado por um barbante, que, jogado por cima do berço, desaparecia dentro do cortinado; quando era puxado para fora e reaparecia, ela dizia alegremente á-á, que substituía o vocábulo da (eis aí). (CASTRO, 1986, p.26). Dessa brincadeira que pode representar o circuito pulsional – e, nesse caso, as saídas da mãe certamente trariam grande desprazer, ocorreram sem quei- xas, no entanto a criança se compensava por meio da representação lúdica. Freud nos mostra, com esse exemplo, que a brincadeira ilustra o acesso à linguagem, calcada numa renúncia: a ausência da mãe era repetida por meio de um carretel e a criança tinha o papel ativo de dominar a situação. UNIDADE 4 UNIDADE 4 148 Similar ao exemplo é a denegação, pois possui uma dimensão de negatividade. Ela transforma a presença – do recalcado – em uma ausência, ou melhor dizen- do, em uma presença negada, mas é pela fala que essa ausência se faz presente. De modo geral, na linguagem a palavra é uma presença construída por meio da ausência, é, portanto, uma negatividade. E Lacan complica? Descrição da Ima- gem: fotografia, com aspecto de pintura em preto e branco, de Jacques Lacan. O psicanalista olha fi- xamente para o lado, com a cabeça voltada para a esquerda, ele tem cabelos brancos, usa óculos, a boca está semiaberta, a testa franzida e o queixo é pontiagudo Figura 4 - Jacques Lacan, psicanalista francês Fonte: Wikimedia ([2022] a, on-line). 149 Para compreendermos o posicionamento lacaniano é importante que a con- tribuição da linguística estruturalista de Saussure esteja bem sedimentada, uma vez que o psicanalista francês se baseia nela para a sua compreensão do inconsciente. Já citamos que, na verdade, ao retornar a Freud, Lacan utiliza a contribuição de áreas diferentes da psicanálise, tais como a linguística, a antropologia, a teoria matemática, a filosofia etc. garantindo uma maior mo- bilidade ao campo, estabelecendo, inclusive, relações entre psicanálise e o campo estético, político e o social. Em seu retorno a Freud, Lacan propõe uma de suas afirmações mais icô- nicas: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Ora, o que isso significa? Como pode o inconsciente, pouco revelado, espaço de inúmeras especulações, estudos e poucas certezas ser organizado como uma linguagem? O psicanalista francês afirmará que o inconsciente funciona de acordo com as mesmas regras da linguagem, todavia essa afirmação, embora seja baseada na linguística de Saussure – e, também em Kojève e Lévi-Strauss -, se espraia dela e se transforma em “linguisteria”, isto é, linguística + histeria pelo fato de que a histeria faz parte do discurso do analisando. “ Ao retornarmos a Freud, encontramos a fala em associação livre como princípio da prática psicanalítica e como via de acesso ao inconsciente. E a grande descoberta freudiana é entender que as formações do in- consciente (sonhos, chistes, sintomas, atos falhos) seguem uma lógica de linguagem, que operam pelo deslocamento e condensação de repre- sentações inconscientes. A articulação entre inconsciente e linguagem, manifesta em Freud, é retomada por Lacan com o intuito de situar o devido lugar da linguagem em sua relação com o inconsciente, uma vez que o movimento psicanalítico posterior a Freud deturpa a leitu- ra do inconsciente de modo a situá-lo num campo psicologizante e subjetivado. Esta é a denúncia feita por Lacan: inconsciente e verdade foram lançados pelos psicanalistas como mais um destes conceitos que parecem estar tão atrelados ao seu sentido e que ficam fora de ques- tão, pressupõem quase que instantaneamente um entendimento, uma compreensão atrelada ao próprio conceito (MORESCHI, 2013, p.13). O psicanalista francês reconhece que é a partir da fala que o problema do campo simbólico é, devidamente, instaurado. O Simbólico é o campo da linguagem: UNIDADE 4 UNIDADE 4 150 é o estágio no qual os códigos, leis e proibições que permitem a nossa sadia so- cialização são instaurados. Silva (2009) afirma que: “ O simbólico surge através da internalização do “Nome-do-pai” (em francês, Nom-du-Pére, trocadilho entre “nome” e “não”, de modo que “Nome-do-Pai” também significa a proibição paterna original: o in- cesto edípico.), portanto através da ruptura com o tempo idílico de comunhão absoluta com a mãe (notemos que mãe e pai, para Lacan, não são necessariamente a mãe e o pai biológicos, mas quaisquer entidades que operem funcionalmente como tais; são categorias simbólicas). Essa ruptura se cristaliza como uma “falta”, um Éden perdido, sentida agudamente pelo indivíduo. Uma castração,me- taforicamente falando. O indivíduo, traumatizado por essa ruptura, projeta essa integração absoluta para sempre perdida em objetos di- versos, que Lacan chamou de “objeto a” (object petit a), que passam a funcionar ao mesmo tempo como objetos de desejo e como dolorosa evidência da falta de integração harmoniosa (SILVA, 2009, p.213). Isso quer dizer que tratar do Simbólico por meio da Psicanálise é impedir qual- quer tipo de objetivação que se possa fazer dela. Em outras palavras, no processo analítico, o que interessa é tratar não a passagem para a consciência, mas para a fala – a fala precisa ser lida por alguém que até aquele momento não era ouvida por ninguém, uma vez que se trata de uma mensagem que teve o código ou o des- tinatário perdido. Os fundamentos da linguagem, no processo analítico, operam em uma relação dialética: há a pessoa deitada no divã, o sujeito, somada àquela pessoa que escuta e ao endereçar a fala ao outro, o sujeito alcança uma verdade de sua história. De acordo com Lacan, “ [...]a função da linguagem não é informar, mas evocar. O que busco na fala é a resposta do outro. O que me constitui como sujeito é a minha pergunta. Para me fazer reconhecer pelo outro, só profiro aquilo que foi com vistas ao que será. Para encontrá-lo, chamo-o por um nome que ele deve assumir ou recusar para me responder.” (LACAN, 2003, p.300). Lacan (2003) elabora um percurso bastante interessante: ele pensa na função da palavra, no campo da linguagem, e a maneira como ela alcança a fala, pois 151 é por meio do discurso, isto é, da ação da fala, que o sujeito se funda. A fala é o instrumento e material do trabalho analítico, diria o psicanalista francês. É por isso que o estruturalismo de Saussure e de Jakobson permitem a reto- mada dos fundamentos da fala via Psicanálise. Aprofundando as discussões a respeito do Simbólico, trazemos, a partir de agora, os outros dois elementos que compõem a tríade lacaniana que, além do conceito já citado, incluem ainda, o Real e o Imaginário e, posteriormente, o Grande Outro. A leitura de tais conceitos parte do prisma de Žižek que, em sua releitura, transcende o olhar clínico e pretende observar o social, o coletivo. Parte dessa conceituação foi extraída da tese de doutorado de Fascina (2018). Para Lacan, o que chamamos de realidade é a articulação entre a signifi- cação (Simbólico) e as imagens (Imaginário). Daly (2009, p.14) os diferen- cia afirmando que o Simbólico é aberto e o Imaginário “procura domesticar essa abertura pela imposição de uma paisagem fantasística peculiar a cada indivíduo”. Em outras palavras, o Simbólico, como já comentado, é o estágio no qual o indivíduo estruturou uma série de elementos que permitem sua saudável socialização via campo da linguagem. Uma vez que o Simbólico é a ordem do significante, o Imaginário corresponde ao significado, ao cam- po visual. Como se evidencia, o psicanalista francês baseou-se em Saussure para moldar esses conceitos: “a linguagem, portanto, tem relação tanto com o Simbólico quanto com o Imaginário” (SILVA, 2009, p.213). Já o Real é algo que não pode ser incorporado nessa ordem. Embora inerente ao processo de estruturação do indivíduo, esse conceito persiste como uma dimensão eterna da falta, isto é, “funciona de modo a impor limites de negação a qualquer ordem significante (discursiva), mas – pela própria imposição desses limites – serve, simultaneamente, para constituir tal ordem” (DALY, 2009, p.15). Trata-se de uma instância traumática, indizível, algo entre um vazio e um excesso, por sua característica de estar para além da significação, ainda que possa ser aludido em certas situações de excesso e horror. Nesses momentos de contato, “a vida perde o sentido, por assim dizer, os laços simbólicos se desatam, deixando que mergulhemos no caos” (SILVA, 2009, p.213). Os exemplos citados por Žižek são inúmeros, sendo alguns no mínimo bastante inusitados. Citaremos quatro: em O Amor Impiedoso ou: sobre a Crença (2012), o teórico afirma que os debates em torno do Sudário de Turim acomodam tranquilamente essa tríade, de maneira que o Imaginário ques- UNIDADE 4 UNIDADE 4 152 tiona se a imagem discernível ali é a verdadeira reprodução da face de Jesus Cristo, o Real encaixa-se nas inquietações a respeito de quando o material foi feito e se o teste que mostrou que o linho fora tecido no século XIV é con- clusivo e, por fim, o Simbólico narra o complicado percurso do Sudário por meio dos séculos. Em A Visão em Paralaxe (2008), o esloveno afirma que o fundamentalismo encena um curto-circuito entre o Simbólico e o Real, isto é, algum fragmento simbólico (por exemplo, o texto sagrado, a Bíblia no caso dos fundamentalistas cristãos) é postulado em si mesmo como Real (para ser lido “literalmente”, para não se brincar com ele, em resumo: dispensado de qualquer dialética de leitura). Já na obra Em Defesa das Causas Perdidas (2011), Žižek afirma que de- terminados comportamentos na internet podem funcionar como a encenação Real de fantasias sádicas, enquanto na vida pública o Simbólico-Imaginário do indivíduo é bem-educado e cumpridor de regras. Para concluirmos, em Como ler Lacan (2010), essa complexa tríade é vista de uma maneira bastante simples, refletida em um jogo de xadrez: “ As regras que temos de seguir para jogar são sua dimensão sim-bólica: do ponto de vista simbólico puramente formal, “cavalo” é definido apenas pelos movimentos que essa figura pode fa- zer. Esse nível é claramente diferente do imaginário, a saber, o modo como as diferentes peças são moldadas e caracterizadas por seus nomes (rei, rainha e cavalo), e é fácil imaginar um jogo com as mesmas regras, mas com um imaginário diferente, em que esta figura seria chamada de “mensageiro” ou “corredor”, ou de qualquer outro nome. Por fim, o real é toda a série complexa de circunstâncias contingentes que afetam o curso do jogo: a inteligência dos jogadores, os acontecimentos imprevisíveis que podem confundir um jogador ou encerrar imediatamente o jogo (ŽIŽEK, 2010, p.17) Especificamente, a respeito do dinâmico conceito do Real, Žižek aponta, em Um Mapa da Ideologia (1996), por meio do termo “espectro”, que o cerne “pré-ideoló- gico” da ideologia consiste na aparição espectral que preenche o buraco do Real. 153 Dito de outro modo, não existe realidade sem o espectro, pelo fato de que, ao tentar delimitar uma “verdadeira” realidade de uma ilusão, deve ser levado em conta que “para que emerja (o que vivenciamos como) a “realidade”, algo tem que ser foracluído dela [...] e a realidade, tal como a verdade, nunca é, por definição toda” (ŽIŽEK, 1996, p.26). Dessa forma, o Real, que é a parte não simbolizada da realidade, apa- rece em forma de espectrais, justamente nessa rachadura que separa a realidade do Real. O conceito marxista de luta de classes ilustra de maneira in- quietante uma aparição do Real, pois se configura como um empe- cilho simbólico que nos esforçamos para integrar, mas que, ao mes- mo tempo, condena esses esforços ao fracasso. Assim, é impossível objetivá-la, já que ela mesma nos impede de conceber a sociedade como uma totalidade fechada. Em Lacrimae Rerum (2009) o esloveno analisa Matrix. O fil- me dos irmãos Wachowski “funciona como a tela que nos separa da realidade, que torna tolerável o deserto do real” (ŽIŽEK, 2009, p.159). Nesse filme, o Real lacaniano não funciona apenas como algo que deve ser reformado pela fantasia; é também a própria tela como o obstáculo que já distorce nossa visão de realidade lá fora. UNIDADE 4 UNIDADE 4 154 Em outras palavras, a Matrix em si é o Real que desconexa nossa percepção de realidade. Žižek (2009) afirma ainda que o problema em Matrix não está na ingenuidade científica de seus truques, pois a ideia de passar de um mundo real para um virtual por meio de um telefone faz sentido, há apenas a necessidade de um buraco, por onde se possa escapar. O problema se encontra numa “in- consistência fantasmática”,que fica mais clara quando Morpheus tenta explicar a Neo o que é a Matrix, relacionando-a a uma falha na estrutura do universo. Com essa situação, o filme propõe que essa experiência do vazio confirma que a realidade que vivemos é simplesmente uma farsa. Outro conceito de grande valor, quando pensamos nos estudos psicanalíticos a respeito da linguagem, é o Grande Outro, que está inserido na ordem Simbóli- ca. Pelo fato de todos os indivíduos serem construídos e dominados pela lingua- gem, eles operam em níveis simbólicos governados por uma espécie de superego autoritário, que Lacan chama de Big Other. Segundo Silva (2009, p.214), trata-se de “uma instância onipresente, criada pelo indivíduo no processo de separar a si próprio do resto do mundo, ou seja, no processo de individuação. Ele é invisível, mas está sempre em torno de nós”. E é ele que nos ensina a desejar. “ O espaço simbólico funciona como um padrão de comparação contra o qual posso me medir. É por isso que o grande Outro pode ser personificado ou reificado como um agente único: o Deus que vela por mim do além, e sobre todos os indivíduos reais, ou a Causa que me envolve (Liberdade, Comunismo, Nação) e pela qual estou pronto a dar minha vida. Enquanto falo, nunca sou meramente um “pequeno outro” (indivíduo) interagindo com outros “pequenos outros”: o grande Outro deve estar sempre lá (ŽIŽEK, 2010, p. 17). Žižek lança mão de um exemplo cômico para explicar este conceito: trata-se da piada de um camponês náufrago, que se depara ilhado com a modelo e atriz Cindy Crawford. Depois de fazerem sexo, ele pede a ela mais um favor, ques- tionando se ela poderia se vestir como seu melhor amigo, usar calças e pintar um bigode no rosto. O camponês afirma não ser um pervertido enrustido e, após ela aceitar o pedido, ele se aproxima do “amigo” e diz que fez sexo com Cindy Crawford. Esse terceiro que se eleva acima das interações dos indivíduos e funciona como testemunha é o Grande Outro e, como bem aponta a piada, 155 ele é subjetivamente virtual, ou seja, “só existe na medida em que sujeitos agem como se ele existisse” (ŽIŽEK, 2010, p.18). Fascina e Silva (2015) apontam para um exemplo literário: o conto Feliz aniver- sário, da coletânea Laços de família, de Clarice Lispector. No conto, a matriarca da família, D. Anita, completa 89 anos. A família vai se juntando aos poucos para come- morar a data. A festa é descrita como uma tarefa mecânica, totalmente sem afeto, puro pretexto para reunir a família num ato burocrático e vazio: “Vim para não deixar de vir” (LISPECTOR, 1998, p.54), afirma uma das noras. A decoração com “guardanapos de papel colorido e copos de papelão alusivos à data” (p. 55) e ainda “balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito “Happy Birthday!” e, em outros “Feliz Aniversário”! (p.55), infantilizam e ridicularizam o ambiente. As personagens pare- cem encenar papéis, num misto de disfarces e dissimulações: “– Oitenta e nove anos!, ecoou Manoel que era sócio de José. É um brotinho!, disse espirituoso e nervoso” (p. 56), “ – Nada de negócios, gritou José, hoje é o dia da mãe!” (p. 57). Em determinado momento, o narrador com sua postura divina, descarna o pensamento da idosa e o leitor fica a par da insatisfação da matriarca, por ter dado “à luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos” (p.60), “pareciam ratos se acotovelando, a sua família” (p.61). Colérica e insatisfeita, a velha cospe no chão. Ora, o ato de cuspir, mais do que afrontar a família, por contrariar as normas de civilidade e o espírito festivo que a ocasião demandava, contrapondo às aparências mantidas pelos parentes uma consciência, por parte da idosa, da falsa harmonia e das podridões escamoteadas pela família, pode ser lido como a maneira de informar esse engodo ao Grande Outro. Além da cusparada, ela exige um copo de vinho e insulta os convidados com palavras bastante pesadas: “ma- ricas, cornos e vagabundas” (p. 62), inesperadas no vocabulário de uma senhora de boa família no contexto em que decorre o conto. Nesse caso, o mal-estar momentâneo não decorre de uma súbita tomada de consciência, por parte dos familiares, da verdadeira situação: todos sabiam que estavam representando - mas essa consciência ficava relativamente acomodada desde que o Grande Outro - a instância responsável pelo decoro das relações sociais- não fosse informado da realidade: os elos fraternais foram substituídos por relações instrumentais. Apesar de surpresa, a família constrangida prefere dissimular o acontecido, pois “a velha não passava agora de uma criança” (p.61), ou seja, retirando do ato da idosa sua autonomia e significado, “acalmando” o Grande Outro. A festa continua, com planos para o próximo ano. UNIDADE 4 UNIDADE 4 156 Nessa esteira, não é possível deixar de lado a importância da proposição da Letra no Inconsciente. Lacan, à revelia dos pós-freudianos, recoloca o inconsciente em seu devido lugar, devolvendo seu estatuto de “Wo Es war, soll Ich werden”, ou, traduzindo, “ali onde Isso era, devo (eu) advir”. É importante notar que alguns herdeiros de Freud interpretaram essa frase como se o “Eu” devesse desalojar o Isso, deixando de lado o valor do isso para a associação livre. Lacan se valeu da linguística para fazer o “Eu” falar, não a partir da pers- pectiva do instinto, mas como estrutura da linguagem. O estruturalismo faz com que o psicanalista francês compreenda a diferença entre a experiência da linguagem vivida como uma espécie de drama próprio de cada história e a linguagem como elemento fundante de uma cultura. É em Saussure que Lacan abstrai o algoritmo que caracteriza o significante sobre o significado: S s Note que Lacan inverte os elementos S (significante) e s (significado). Na Lin- guística, como já observamos em unidade anterior, os dois elementos instauram ordens diferentes que são separadas por uma barreira que resiste à significação. Lacan (2003) mostra que é possível ir além do debate relativo à arbitrariedade do signo e, por conseguinte, do impasse entre a palavra e a coisa. Lacan põe o significante acima da barra e o grafa com maiúscula, uma vez que a sua pre- sença na fala é prevalente: o sujeito falante vai deslizando de significante em significante, alienado do sentido daquilo que diz. São raros os momentos em que o falante consegue atravessar a barra e atingir o sentido daquilo que fala e é justamente por esse motivo que o “s” é grafado com letra minúscula. Observe, também, que não é estabelecida a relação entre significante e significado como há na visão saussuriana. O significado é tomado pelas for- mações do inconsciente já comentadas, tais como os chistes, os sintomas, sonhos e atos falhados. De certo modo, o significante de Lacan engloba o signo linguístico pensado pelo linguista genebrino. Pense, por exemplo, nas inúmeras frases que proferimos todos os dias. Uma provocação precisa ser feita: será que, de fato, sabemos o que estamos dizendo? Será que muitas das nossas palavras não são vazias de significados? É certo que desperdiçamos palavras simplesmente porque somos seres falantes. É justamente a barra, 157 resistente à significação, que importa para Lacan e que sinaliza o desvio do espírito na procura de sentido. Relembramos: para pensarmos na conceituação do sujeito lacaniano, preci- samos compreender, antes de mais nada, a abordagem do significante. Sabemos que o signo linguístico possui dupla face: o significado (conceito) + o significante (imagem acústica). Sabemos, também, que um não existe sem o outro e estão circunscritos a partir de uma elipse. A relação estabelecida entre os dois cria a significação e o valor é determinado, conforme Longo (2009), dentro do sistema de signos. Observe a imagem, a seguir, e note que as setas apontadas para cima e para baixo informam que é indiferente à significação a troca de lugares. CONCEITO IMAGEM ACÚSTICA SIGNIFICADO SIGNIFICANTE ALGORITMO SAUSSURIANO OU Descrição daImagem: há o algoritmo saussuriano. A esquerda, há uma seta apontando para cima, ao lado, temos um desenho oval na horizontal em cujo centro há as palavras significado e significante sepa- rados por uma barra. À direita, há uma seta apontando para baixo. Ao lado, a palavra “ou” que conecta a imagem descrita a outra imagem e o mesmo esquema se repete, no entanto, no centro do novo desenho oval as palavras conceito e imagem acústica é que são separadas por uma barra. Conforme a imagem, o questionamento lacaniano recai no sujeito que produz o signo linguístico. Como já citamos, é um sujeito que fala, ou seja, que é subme- tido à linguagem e, portanto, ao equívoco da função simbólica, pois a palavra é, naturalmente, ambígua. Lacan faz a diferença entre o algoritmo saussuriano e a psicanálise: conforme Longo (2009), ele elimina a elipse e quebra a unidade do signo. De acordo com a imagem 1, Lacan inverte os termos, tornando resistente à significação a barra que separava o significante do significado. No seminário 3, cujo título é As psicoses, Lacan (1988) alinhava essa discussão: Figura 5 - Algoritmo saussuriano / Fonte: LONGO (2006, p.44) UNIDADE 4 UNIDADE 4 158 “ Na análise da relação entre significante e significado, aprendemos a insistir na sincronia e na diacronia, e isso se acha na análise estrutu-ral. No fim de contas, ao olhá-las de perto, a noção de estrutura e a do significante aparecem inseparáveis. De fato, quando analisamos uma estrutura, é sempre, pelo menos idealmente, do significante que se trata. O que melhor nos satisfaz numa análise estrutural é a extração tão radical quanto possível do significante (LACAN, 1988, p.215). Pensemos, mesmo que concisamente, a partir de agora, nas relações entre o su- jeito e o saber inconsciente. Partimos de uma questão muito simples: por que um sujeito se dispõe a procurar um analista? A resposta é óbvia: pelo fato de que algo está dando errado e ele quer saber os possíveis motivos. Não é à toa que, no processo analítico, o sujeito demanda um saber a respeito de si. Esse saber só virá quando ele começar a se ouvir: as palavras vãs serão deixadas de lado e algo fará sentido. Esse saber vem, justamente, como um equívoco, isto é, quando o sujeito, de fato, não se entende porque ele fala mais do que conscientemente sobre si. Isso acontece porque ao encontrar o seu caminho por meio da linguagem e suas formações, o sujeito não é mais o mesmo, pois sabe que algum saber sobre si foi revelado. É por esse motivo que, em termos psicanalíticos, o sujeito do inconsciente é um efeito do significante e, por conseguinte, está apagado nos significantes que com ele vão se encadeando e se dirige ao Outro: o inconsciente. James Joyce James Joyce é um dos escritores mais inventivos da huma- nidade. Ulysses, sua obra magna, é um verdadeiro aconteci- mento na literatura moderna. As leituras analíticas que esse texto recebeu são incalculáveis e vêm de áreas distintas do saber: da crítica literária, da filosofia, da antropologia, da sociologia e, dentre outras, também da psicanálise. Jacques Lacan, inclusive, dedicou um de seus seminários, o 23, intitulado o Sinthoma, para abordar a obra de Joyce. Nesse podcast, traremos algumas considerações a respeito do ol- har lacaniano para o trabalho de Joyce e também faremos a leitura de alguns fragmentos de Ulysses que, recentemente, completou 100 anos de publicação. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/9718 159 Descrição da Imagem: a tela é uma das obras mais conhecidas de Salvador Dalí. Há uma paisagem que, no lado esquerdo, contém um bloco marrom e nele há um galho seco de árvore com um relógio derretido. Na borda do bloco há outro relógio derretido com uma mosca no centro. Ao lado, um relógio vermelho está cheio de formigas. No chão, ao lado do bloco, um ser branco, longo, com uma espécie de nariz e cílios, de aparência indescritível, também possui um relógio em seu dorso. Ao fundo, há uma formação de pedras, um mar azul e um céu com aspecto de entardecer. Com base nos conhecimentos adquiridos no decorrer da unidade, analise A Per- sistência da Memória, icônico trabalho de Salvador Dalí, lançado em 1931. Os es- tudos a respeito do sonho e do Surrealismo serão importantes para esse momento. Fonte: Wikimedia ([2022]b, on-line). UNIDADE 4 160 1. O filósofo esloveno Slavoj Žižek, releitor da psicanálise lacaniana, comenta sobre as três grandes feridas narcísicas postuladas por Freud. A respeito delas e do papel da Psicanálise, leia as assertivas que seguem: I - Ao provar que o planeta Terra gira em torno do sol, Copérnico retira do ser hu- mano o lugar central no Universo; II - O Inconsciente, descoberta freudiana, também é uma dessas feridas, pois desa- possa o eu de sua própria casa; III - A psiquiatria, por meio da medicação, e as terapias do comportamento “roubam” o lugar da Psicanálise; IV - Para Žižek, só agora o tempo da Psicanálise está chegando e isso se deve ao retorno que Lacan faz a Freud. Está correto o que se afirma em: a) II, apenas. b) I e II, apenas. c) I, II e IV, apenas. d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 2. Sigmund Freud, pai da Psicanálise, embora não tenha construído uma teoria espe- cífica a respeito da linguagem, as discussões a respeito dela perpassam por toda a sua obra. Sobre essa questão, analise as assertivas a seguir: I - O interesse pela linguagem foi, de fato formalizado, a partir dos estudos sobre os sonhos e chistes, isto é, a perda da expressão pela fala ou escrita ou da com- preensão da palavra; II - Na visão freudiana, a metáfora é a unidade funcional da linguagem que se constitui a partir de um processo de associações. A parapraxia faz parte desse processo; III - A metáfora (condensação) e a metonímia (deslocamento), já comentadas por Aristóteles em sua Poética, são figuras de linguagem fundamentais para a com- preensão da prática psicanalítica; IV - Para a psicanálise, os sonhos são realizações de um desejo inconsciente, todavia a linguagem deles nem sempre é clara: há códigos, inversões, cifras, o que exige interpretação cuidadosa do analista; 161 V - Parapraxia é o termo técnico utilizado para fazer referência ao esquecimento de palavras, lapsos, enganos e para o ato de guardar objetos em determinados lugares e depois se esquecer; É correto apenas o que se afirma em: a) I, II e III. b) I, II e IV. c) I, III e IV. d) II, IV e V. e) III, IV e V. 3. Jacques Lacan, famoso e polêmico psicanalista francês, estabeleceu seu pensamento baseado na obra de Sigmund Freud. A respeito da teoria lacaniana, considere as afirmativas a seguir: I - Lacan retorna a Freud utilizando contribuições de áreas diferentes da Psicanálise, tais como a linguística saussuriana e a antropologia de Lévi-Strauss; II - Ao afirmar que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, Lacan afirma, também, que a descoberta freudiana possui uma gramática própria; III - Para Lacan, o sujeito do inconsciente é um efeito do significante e ao encontrar seu caminho através da linguagem nunca mais é o mesmo; IV - Em seus estudos, Lacan inverte o algoritmo saussuriano e prova que a discussão ultrapassa a arbitrariedade do signo e, também, a relação palavra e coisa. Está correto o que se afirma em: a) I e II, apenas b) I e III, apenas c) I, II e III, apenas d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 5Os Caminhos da Linguagem em Martin Heidegger Dr. Diego Luiz Miiller Fascina Caro(a) estudante, nesta unidade, estudaremos as contribuições de Martin Heidegger para a Filosofia da Linguagem. Esse pensador, ao se valer da perspectiva existencialista, reconfigura o Ser, conceito impor- tante para o pensamento filosófico. Nessa unidade, vamos compreen- der alguns aspectos a respeito de como o Ser se constitui, se põe no tempo, molda suas experiências e lida com a linguagem. Partiremos de Ser e Tempo, texto base do pensamento heideggeriano, verificando como a linguagem parte de uma leitura ontológica e atinge,num Hei- degger mais tardio, a compreensão da clareira do ser. UNIDADE 5 164 As diversas manifestações artísticas tentam, desde sempre, transmitir a ideia, den- tre várias outras funções de que, embora a realidade seja dura e dramaticamente rica em vivências, pode ser que, talvez, nós, seres humanos, sejamos algo a mais do que simples poeira cósmica: há a fantasia, o mistério e o amor. Se entender como humano, lidar com o tempo e com a finitude são questões imperiosamente exigentes. Não é à toa que Caetano Veloso, nos interpela já no primeiro verso de Cajuína, uma de suas mais belas canções: “Existirmos: a que será que se destina”? Por isso, convido você a refletir a respeito dessa pergunta e a elaborar um texto com essa possível resposta. Para ouvir Cajuína, confira o QRcode ao lado. Ingmar Bergman (1918-2007) é um dos maiores nomes da história do cinema. Esse diretor, que foi também teatrólogo, escritor e produtor, soube como poucos penetrar nos recôndi- tos da alma humana, nas experiências do ser e descreveu, com profunda beleza, os grandes dramas de nossa vida. A morte, a velhice, a complexidade das relações interpessoais, o silêncio de Deus, o passado e os laços de família são alguns dos temas que perpassam por sua obra: todos eles ganham tônica e são apresentados ao espectador de modo terrivelmente cruel. De sua vasta e premiada obra, alguns títulos são obrigatórios: Monika e o desejo (1952), O sétimo selo (1956), O silêncio (1963), Persona (1966), Gritos e sussurros (1972), Sonata de outono (1978), Fanny e Alexander (1982), dentre tantos outros. Para darmos continuidade a problematização inicial, convido você a assistir Morangos Silvestres (1957), filme que retrata a vida de Isak Borg, um velho pro- fessor universitário que está prestes a receber o título de doutor honoris causa, importante honraria em reconhecimento ao seu trabalho. Para receber o prêmio, ele precisará se deslocar até outra cidade. Durante a viagem, ele é acompanhado pela nora e mais três jovens, o que, de certo modo, desencadeia no professor uma profun- da reflexão existencial: saudade e imagens da infância, da família, angústias perenes, sua atual condição de velho e a presença da morte são temas que incomodam o professor e o colocam nessa posição de análise minuciosa de sua realidade. Convido você a viajar com o prof. Borg e a captar importantes reflexões que são postas no filme! Elas ajudarão na compreensão dessa unidade de estudos. Na viagem realizada pelo prof. Borg, a questão temporal é elemento de grande questionamento. O ser se faz no tem- https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13495 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13496 165 po, se projeta a partir de suas experiências no tempo. O velho professor parece ter noção dessa questão e da finitude da vida ao dar atenção ao sonho e ao reviver o passado. Com base nisso, reflita: o que o prof. Borg já foi? O que ele é? O que, de fato, o angustia? Ele experimenta a morte apenas no sonho? E, por fim, qual o signifi- cado dos morangos silvestres? Use o diário de bordo para anotar suas percepções. UNICESUMAR UNIDADE 5 166 A linguagem em Martin Heidegger “ Quem é Heidegger? Terá sido ele o rei oculto do reino do pensa-mento, como atesta Arendt; um místico carismático, como sugere a comparação de Saffanski com Meister Eckhart; um pseudo-filósofo, na apreciação de Husserl; um louco, conforme o parecer do seu censor nazista, o psicólogo Jaensch; um montanhês tomado de au- tismo, se dermos ouvidos ao psiquiatra desnazificador Jaspers; um pensador inviável, por querer dizer o indizível, segundo a avaliação de Wittgenstein, de Carnap e de Hilbert, ou um ser diabólico que, desde o início, teria feito um conluio com o Mal absoluto, como parece recear Levinas? (LOPARIC, 2004, p.16) Iniciamos nossos estudos desta última unidade com essa descrição biográfica bastante provocadora. Certamente, o alemão Martin Heidegger (1889-1976) foi um pouco de tudo isso, mas, de fato, tentarmos entender quem foi essa figura tão controversa e brilhante, basta acompanharmos, como sugere Loparic (2014), seu percurso bibliográfico, pois o essencial de sua vida aparece, mesmo que diluído, em sua obra. É importante salientar que: “ Toda a elite intelectual jovem da Alemanha, da França, do Japão e de vários outros países procurou estudar com Heidegger. Os judeus também, entre eles — além de Arendt — Hans Jonas, Karl Lowith, Herbert Marcuse e vários outros membros da futura Escola de Frankfurt. Jürgen Habermas, aluno de Hans-Georg Gadamer que, por sua vez, foi aluno de Heidegger, destacou um ponto central do efeito-Heidegger: Ser e tempo, pela sua crítica do sujeito cartesia- no, oferece um novo ponto de partida, constituindo a “cesura mais profunda na filosofia alemã desde Hegel [...] Nem mesmo Ludwig Wittgenstein, outro poderoso pensador com raízes judaicas, ficou imune ao contágio da obra-prima de Heidegger. Ao mesmo tempo que propunha uma teoria da linguagem como imagem do mundo dos fatos (estados de coisas subsistentes), Wittgenstein fazia a dis- tinção entre dizer e mostrar. Essa distinção lhe permitia fazer uma outra, correlata, entre fatos naturais que podem ser mostrados (num certo sentido de mostrar) e também ditos, e coisas que só podem ser 167 mostradas, mas não ditas. Que coisas são essas? Que se pense, por exemplo, no espanto diante do fato de que algo existe. Aqui está o gancho para Heidegger. Em dezembro de 1929, depois de ter lido Ser e tempo Wittgenstein admite, diante de seus interlocutores atônitos do Círculo de Viena — todos de orientação positivista e empenha- dos na busca de uma linguagem unificada da ciência e da filosofia na qual seria possível, como dirá Rudolf Carnap, construir logicamente o mundo —, que pode muito bem entender o que Heidegger quer dizer com ser e angústia. O ser humano tem o impulso de ir contra os limites da linguagem, uma tendência paradoxal de ultrapassar o afigurável. Esse mesmo impulso estaria movendo Heidegger. A sua pergunta pelo sentido do ser não pode ser posta numa expressão verbal gramaticalmente correta e tampouco admite uma resposta bem formulada. Tudo o que poderia ser verbalizado sobre esse as- sunto seria a priori um sem-sentido. No entanto, a angústia pode dar o sentido ao que aqui está em questão. (LOPARIC, 2004, p. 9-10). Como o fragmento aponta, Heidegger foi uma figura que despertou a atenção de intelectuais de áreas indiferentes, inclusive, de teóricos especializados na filosofia da linguagem. Sua obra é um dos mais importantes pontos da filosofia moderna e base para boa parte das discussões do século XX, uma vez que ela reflete a respeito da existência humana ao interrogar o sentido do Ser, e porto de passagem para os estudos da linguagem. Antes de nos adentrarmos, de fato, no foco de nosso estudo, pensemos em pontos fulcrais a respeito do pensamento heideggeriano. UNICESUMAR UNIDADE 5 168 “Já que sou o jeito é ser”: O Dasein O Ser é um dos conceitos mais espinhosos da filosofia. Para Heidegger (2012), que traz uma análise existencial por meio de sua ontologia, o Ser é um conceito universal, pois está presente em todas as questões cotidianas. Tradicionalmente, a filosofia ocidental tratava o Ser como algo dado: ele se manifesta no ente e era visto como um ente entre outros. Ao ser interrogado, a tradição pressupunha no conceito de Ser um caráter imutável, cuja essência fixa não ultrapassava a aparên- cia. O filósofo alemão propõe outra leitura: ele questiona o Ser em seu sentido, o que é primordial para a compreensão das coisas cotidianas. Descrição da Imagem: na pintura, que possui estilo xilogravura, um homem está de perfil na esquerda da imagem, com uma das mãos apoiando o rosto, em posição de reflexão. Ele veste roupas na cor preta, e tem os olhos semicerrados e, como o título da obra sugere, possui aspecto melancólico. A sua frente está o mar e o céu tem cor vermelha. Figura 2 - Melancolia da Noite I (1896),de Edvard Munch / Fonte: Wikimedia Commons ([2022]a, on-line). 169 As discussões a respeito do Ser trazem duas dimensões: a ôntica, que se refere às manifestações do ente, e a ontológica, que se refere às possibilidades de ser de um ente. Heidegger (2012) denominará o modo de ser do homem como Dasein, palavra alemã que significa Ser-aí. Esse termo dá conta de colocar em discussão a maneira pela qual a questão do Ser se apresenta para o próprio ente que somos, pois diferente de outros entes, que residem na dimensão ontológica, o Ser está onticamente marcado a ser ele mesmo. Essa afirmação faz um eco com a literatura da já citada Clarice Lispector que, em A Hora da Estrela, afirmou: “já que sou o jeito é ser” (LISPECTOR, 1999, p.41). Em outras palavras, enlaçando a afirmação filosófica com a literária tornar-se ou vir a ser o que se é resulta em uma relação muito íntima que cria uma relação-de-ser com aquilo que somos. Ao mesmo tem- po, nos entendemos em nosso ser e abrimo-nos para aquilo que estamos sendo. Heidegger (2012) utiliza a palavra Dasein para denominar o ser humano: “o Dasein não é um subsistente que possui além disso como dote adjetivo o poder de fazer algo, mas ele é primariamente ser-possível. O Dasein é cada vez o que ele pode ser e como ele é sua possibilidade” (HEIDEGGER, 2012, p.409). Isto é, tal conceito clama pelo processo de constituição ontológica do homem e aponta para o próprio movimento das inúmeras realizações dentro das nossas possibilidades de ser. Ontologicamente falando, o homem é um ser temporal, pois ele se constitui na configuração do passado, presente e futuro: é um projeto, uma possibilidade. Complementando essa informação, Dasein é o ente que questiona o sentido do Ser e é a partir dele que as questões todas se desvelam. É importante que uma diferenciação seja feita entre ente e ser. De acordo com Critelli, na tradição filosófica, o ser foi compreendido como coisa em si, todavia: “ Esqueceu-se que ser não é uma substância, nem mesmo abstrata; que não é um objeto, uma coisa; que ser é simplesmente o modo daquilo que é. O ser não é uma forma substantiva, mas verbal. Ser não é um substantivo, apenas o verbo ser na sua forma infinitiva. Ser é movimento; ser é sendo. Por ser modo de estar sendo do ente, por ser possibilidade em aberto, o ser não pode ser precisado, ob- jetivado, aprisionado num único sentido. (CRITELLI, 1981, p. 14) O humano é o único ente capaz de se interrogar, pelo simples fato de que a condi- ção ontológica se põe em seu horizonte. Há muitas possibilidades e tentativas de UNICESUMAR UNIDADE 5 170 autocompreensão e de compreensão (Verstehen) do mundo, de modo que nada faz sentido isoladamente: onde há “Ser” há ente. Heidegger (2012, p.51) afirma que: “ Ser é cada vez o ser de um ente. O todo do ente pode se tornar o campo em que se põem em liberdade e se delimitam determinados domínios de coisa, segundo seus diversos âmbitos. Domínios de coisa que de sua parte, por exemplo, história, natureza, espaço, vida, Dasein, linguagem, etc. podem ser tematizados como objetos das correspondentes investigações científicas. A própria existência é algo que se manifesta e se desvela. Pasqua (1993) explica o que o filósofo alemão compreende a respeito desse conceito e a relação que ela estabelece com o Dasein: “ A existência (Existenz), tal como Heidegger a entende, não tem o sentido medieval de existentia. Para ele, esta significa literalmente ser subsistente, aquilo que está perante a mão (...). Caracteriza os entes que estão fechados sobre si próprios, cristalizados como uma pedra: a existentia é algo de estático. A existência de que nos fala Heidegger é ek-stática. Caracteriza esse ente denominado Dasein, capaz de ser aquilo que projeta ser, de sair de si próprio, de ek-sistir (...) o Dasein é aquilo que ele pode ser. Ser, para ele, é poder ser este ente concreto, empenhado no mundo, cujo ser é permanentemente posto em jogo e como que arrancado de si próprio. A essência do Dasein não signi- fica, portanto, o caráter estável e invariante daquilo que é, não é uma definição abstrata definitivamente válida. (PASQUA, 1993, p. 36). Ek, do grego, significa aquilo que está fora, e sistere significa o que está em mo- vimento. Dessa maneira, apenas o homem existe, uma vez que o movimento que se cria em direção aos entes, no entendimento diário de ser, é algo próprio do Dasein. É por isso que: 171 “ [...]a “essência” do Dasein reside em sua existência. Os caracteres que podem ser postos à mostra nesse ente não são, portanto, “pro-priedades” subsistentes de um ente que subsiste com este ou com aquele “aspecto”, mas modos-de-ser cada vez possíveis para ele e somente isso. Todo ser-assim desse ente é primariamente ser. Por isso, o termo “Dasein” com que designamos esse ente não exprime o seu que, como é o caso de mesa, casa, árvore, mas o ser (...) O ente, cujo ser está em jogo esse ser ele mesmo, se comporta em relação a seu ser como em relação a sua possibilidade mais própria (...) E porque o Dasein é, cada vez, sua possibilidade, esse ente em seu ser pode se “escolher” (...). (HEIDEGGER, 2012, p. 140-1) Na esteira dessas discussões, o filósofo alemão entende que as relações que o Dasein desenvolve a cada momento em sua vida são determinan- tes. Daí advém a compreen- são de que o “ser-aí” é um ser- -para-a-morte uma vez que é apenas com a vinda dela que finalizamos nossas inúmeras possibilidades enquanto ser. Vivos, somos abertura, em constante devir, podemos ser muitas coisas: o Dasein é contínuo, nunca total, cuja completude advém apenas com a morte. A morte é pes- soal, não pode ser transferida e com ela o ser volta a ser o que era: nada. UNICESUMAR UNIDADE 5 172 Silêncio das pedras é o início das palavras? Descrição da Imagem: na pintura, são visíveis marcações de fortes pinceladas e poucos contornos. As cores predominantes são o azul escuro, o preto, o branco e o amarelo. No plano superior, há o céu. Nele, vemos traços de pinceladas que formam nuvens. Também há um fundo azul e formas arredondadas que indicam ser as estrelas e a lua. No canto esquerdo, em uma perspectiva mais próxima ao espectador, é exposto um cipreste. No plano inferior da imagem, há formas mais quadradas e cores que formam construções. Figura 3 - A noite estrelada (1889), de Van Gogh 173 Heidegger impõe uma reflexão ontológica para a linguagem desde os seus primei- ros escritos. Mas é a partir de Ser e Tempo, obra magna, porém nunca terminada, publicada em 1927, que a problematização com a linguagem ganha tônica e passa a ser observada como o instrumento na qual o homem se dispõe a elaborar sua comunicação e a informar sobre si mesmo e sobre o estado de coisas do mundo. Em linhas muito gerais, em Heidegger, a linguagem possibilita a abertura por meio da apropriação silenciosa de si mesmo ou a abertura enquanto clareira do ser, local em que habitam os pensadores, os poetas, figuras que revelam, por meio de seu dizer, a correspondência silenciosa com o ser. De certa maneira, há uma leitura tradicional que compreende a linguagem como uma espécie de veículo que transporta o que está no interior do sujeito para o exterior. A concepção ontológica, a qual Heidegger defende, entende que não é a linguagem que pertence ao homem, mas o contrário: é o homem, ser- para-a-morte, que pertence a ela. O que isso significa? É muito simples: basta pensarmos que não é o homem, um ente, que possui a linguagem no sentido de ter a capacidade de falar, mas é a capacidade ontológica que pensa o homem como sendo tão somente por meio da linguagem. E isso quer dizer que a linguagem não é apenas uma capacidade de transmitir informações, mas de manifestar a própria existência humana. Acompanhemos, mesmo que sumariamente, como Heidegger vai construin- do, cronologicamente, sua compreensão a respeito da linguagem. Vamos partir de Ser e Tempo, mais especificamente do parágrafo 34, momento em que ele concebeontologicamente a linguagem. Tal parágrafo é deveras espinhoso, porque ele traz a diferenciação entre discurso (rede) e linguagem (sprache). Essa distinção permite que Heidegger estabeleça suas críticas a respeito das concepções do homem como animal racional, além de sua concepção ôntica da linguagem e da filosofia da lin- guagem. Em sua supracitada obra, Heidegger já afirma que a base da linguagem, diferentemente do que vimos nas unidades anteriores, não está na lógica, nem na gramática e nem no aparelho fonador, mas na constituição do ser-aí. Loparic (2014) afirma que Heidegger possui duas teses fundamentais, já apre- sentadas no início de seu percurso filosófico, mas respondidas em Ser e Tempo: UNICESUMAR UNIDADE 5 174 “ (1) que a vida humana é a interpretação espontânea da realidade de si mesma e de todas as coisas (a “luz natural”);(2) que a característica ontológica fundamental do homem é a de ser um ser-no-mundo, isto é, alguém que habita um mundo. Se é assim, responder à pergunta quem é Heidegger conduz necessariamente à pergunta: Como Heidegger se interpretou a si mesmo morando onde morava e da maneira como o fazia? A idéia é tentar contar o essencial da vida de Heidegger visitando os lugares nos quais ele habitou, vendo como ele os habitou. De fato, onde vivia Heidegger enquanto escrevia tudo aquilo que escreveu? Numa torre de mar- fim? Num mundo interior secreto? Numa mente cindida? No alto da montanha? Nos limites da linguagem? Na companhia do Mal? (LOPARIC, 2014, p.17) Heidegger (1988, p.365) afirma que “há linguagem porque há discurso”, isto é, a linguagem é uma espécie de pronunciamento do discurso. Em outras palavras, o filósofo quer dizer que o ser-aí só se expressa por meio da linguagem, porque a abertura que ele tem garante essa possibilidade. Isso é diferente de achar que o discurso seja entendido como um tipo de faculdade ou propriedade que permitiria a enunciação linguística, uma vez que Heidegger não se preocupa em tentar localizar a origem da linguagem no interior do ente e tampouco restringe a questões apofânticas. O discurso é uma instância que permite às questões ônticas em várias línguas históricas, pelo fato de que articula significações compartilhadas e as preocupações do ser-aí. É daí que advém a compreensão heideggeriana, que o ato comunicativo linguístico não é uma transmissão de vivências íntimas de um sujeito para outro, mas uma partilha de sentidos com outros. A comu- nicação é sempre complexa e não deve ser minimizada ao ato de pronunciar atos apofânticos entre sujeitos isolados, pelo contrário: “a comunicação tem de ser compreendida a partir da estrutura do ser-aí como ser com o outro” (HEIDEGGER 1988b, p. 362-363). E isso, inevitavelmente, compreende a aná- lise da linguagem a partir de sua coexistência. O filósofo alemão também faz a diferenciação entre linguagem e dis- curso. Para ele, o discurso possui uma condição ontológica e possui função importantíssima na analítica da filosofia da existência: o de ser a “articulação ‘significativa’ da compreensibilidade do ser-no-mundo a que pertence o ser- 175 -com, e que já sempre se mantém num determinado modo da convivência ocupacional” (HEIDEGGER, 1988a, p. 220). Para Heidegger (1967, p.161), “ Existencialmente, o discurso está igualmente originário para com o sentir-se situado e a compreensão. Antes da interpretação apropriante, compreensibilidade já também está sempre articu- lada. Discurso é a articulação da compreensibilidade. Ele está situado aquém, já está na base da interpretação e da declaração. Aí, na interpretação, nós nomeamos o sentido já articulado no discurso, pois mais originário. Aí, na articulação articulada, fa- lante enquanto tal, nós nomeamos o todo de significado Em outras palavras, sendo o discurso a articulação da significância, a coexistência pode ser canalizada pela comunicação. Além disso, Heidegger (1988) afirma que a base existencial da linguagem é o discurso, que ele é uma articulação em significa- ções e que isso impede que ela possa ser corretamente compreendida de maneira lógica ou formal. Isso quer dizer que “a totalidade significativa da compreensibi- lidade vem à palavra. Das significações brotam palavras. Estas, porém, não são coisas-palavras dotadas de significados” (HEIDEGGER, 1988a, p. 219). Dessa maneira, sendo o núcleo existencial da linguagem a significância, o dis- curso permite a possibilidade da enunciação linguística, bem como a compreensão colocada na escuta e no silêncio. O ato de ouvir está inserido no escutar silencioso e em seu processo de compreensão e só aquele que se cala pode se escutar a si e ao outro. Da mesma maneira que falar não é apenas emitir sons vocais, a percep- ção acústica não é simplesmente a de ouvir ruídos sonoros as quais sentidos são aplicados, e silenciar, também não é o mero emudecer: o falar e o silenciar estão pavimentados na compreensão de ser do ser-no-mundo e em sua coexistência. No parágrafo 35, de Ser e Tempo, Heidegger se detém na questão do falatório (Gerede) como uma espécie de discurso que vai determinar a comunicação cotidia- na do ser. É o falatório que organiza o que e como se fala rotineiramente, pois define a compreensão e as disposições da linguagem. Ele também organiza a nossa escuta, nossa fala e compreensão do mundo, de nós mesmos, de nossos semelhantes. O falatório também oculta aquilo do que se fala e também pode se referir a um escutar que não se atenta, verdadeiramente, ao que se escutou. Ele é, dessa forma, o oposto de uma apropriação segura e original do que se fala, uma espécie de repetir e UNICESUMAR UNIDADE 5 176 passar adiante aquilo que se fala, sem nada dizer propriamente. Por se tratar de um falar sem conteúdo original, temos nele, a falta de solidez no que é dito e escutado. No entanto, é preciso diferenciar o falatório do erro e do engano. Não se trata, também, de questões enodadas do consciente. Tanto o falatório quanto a escri- vinhação são fenômenos primitivos de abertura que ao explicitar encobre a coisa sobre a qual se fala. É válido se lembrar, agora, das palavras iniciais que foram profe- ridas na abertura da primeira unidade deste livro: “as palavras são moles”, frase dita por Alexei, do filme de Tarkovski. Em outras palavras, o falatório e a escrivinhação ao encobrir o que se fala, jamais permite a apropriação pelo dizer e escrever: e “como ser-no-mundo, o ser-aí que se mantém no falatório rasgou suas remissões ontológi- cas primordiais, originárias e genuínas com o mundo, com a coexistência e com o próprio ser-em” (HEIDEGGER, 1988a, p. 230). De toda forma, o falatório não pode ser suprimido, pois ele constitui, existencialmente, o ser-aí, pois toda compreensão, interpretação e o próprio processo comunicativo se dá a partir do falatório. Nesse ponto, é interessante retomar, mesmo que rapidamente, a relação que Heidegger estabelece entre o silêncio e a escuta com um poema de Rainer Maria Rilke. O poema, um soneto, a seguir: Então elevou-se uma árvore. Pura elevação! Orfeu está cantando! Uma grande árvore no ouvido! E tudo silenciou. Mas mesmo no silêncio unânime, Nasceu novo princípio, gesto e transformação. Animais do silêncio se precipitaram Da floresta livre e clara de ninhos e moradias: E apareceu que, se estavam tão quietos Não era por medo ou astúcia, Mas por escutar. Bramir, gritar, gemer Pareciam pequenos em seus corações. E onde Mal havia uma choupana para receber, Um abrigo nascido do mais obscuro desejo, Com um acesso de pilares trepidantes, Aí criaste um templo na escuta. (RILKE, 1989, p.21) 177 Note que o eu-lírico cria uma espécie de atenção muito arguta em relação aos fenômenos da escuta e do silêncio que se espraia para uma dimensão ética do questionamento ontológico. É por meio da escuta, que se pressupõe o silêncio bastante atencioso, que o ser se manifesta como aberto a seu ser mais profundo, mais próprio e também aberto ao outro, compreendendo-o amplamente. Nosanos 1950, Heidegger proferiu algumas conferências que foram enfeixa- das na obra A Caminho para a Linguagem. Em uma delas, ele afirmou que falar não é a mesma coisa que dizer, uma vez que é possível falar muita coisa e não dizer nada. Ao contrário disso, ao se calar e silenciar muita coisa pode ser dita. O silêncio é repleto de significados. A respeito da linguagem e da importância da fala, o filósofo afirma: “ A linguagem pertence, em todo caso, à vizinhança mais próxima do humano. A linguagem encontra-se por toda parte. Não é, portanto, de admirar que, tão logo o homem faça uma ideia do que se acha ao seu redor, ele encontre imediatamente também a linguagem, de maneira a determiná-la numa perspectiva condizente com o que a partir dela se mostra. O pensamento busca elaborar uma represen- tação universal da linguagem. O universal, o que vale para toda e qualquer coisa, chama-se essência. Prevalece a opinião de que o tra- ço fundamental do pensamento é representar de maneira universal o que possui validade universal. Lidar, de maneira pensante, com a linguagem significaria, nesse sentido: fornecer uma representação da essência da linguagem, distinguindo-a com pertinência de outras representações [...] Pois falar da linguagem talvez seja ainda pior do que escrever sobre o silêncio. Não queremos assaltar a linguagem para obrigá-la a cair nas presas de representações já prontas e acaba- das. Não queremos alcançar um conceito da essência da linguagem capaz de propiciar uma concepção da linguagem a ser usada por toda parte e, assim, satisfazer todo esforço de representação. Fazer uma colocação sobre a linguagem não significa tanto conduzir a linguagem mas conduzir a nós mesmos para o lugar de seu modo de ser, de sua essência: recolher-se no acontecimento apropriador. Queremos pensar a linguagem ela mesma e somente desde a lin- guagem. A linguagem ela mesma: a linguagem e nada além dela. A linguagem ela mesma é linguagem. O entendimento escolado na UNICESUMAR UNIDADE 5 178 lógica, habituado a empreender cálculos sobre tudo e isso quase sempre com arrogância e exaltação, considera essa frase uma tau- tologia vazia, uma frase que nada diz. Dizer o mesmo duas vezes: linguagem é linguagem, para onde isso haveria de nos levar? Não queremos, porém, ir a lugar nenhum. Queremos ao menos uma vez chegar no lugar em que já estamos. Por isso perguntamos: o que há com a linguagem ela mesma? Por isso indagamos: como vigora a linguagem como linguagem? Nos- sa resposta é: a linguagem fala. Deve-se levar a sério uma resposta assim? Talvez, isto é, se ficar claro o que significa falar. Para pensar a linguagem é preciso penetrar na fala da linguagem a fim de con- seguirmos morar na linguagem, isto é, na sua fala e não na nossa. Somente assim é possível alcançar o âmbito no qual pode ou não acontecer que, a partir desse âmbito, a linguagem nos confie o seu modo de ser, a sua essência. Entregamos a fala à linguagem. Não queremos fundamentar a linguagem com base em outra coisa do que ela mesma nem esclarecer outras coisas através da linguagem (HEIDEGGER, 2003, p. 8-9). Em outras palavras, falar, sobretudo com os outros, significa dizer algo em conjun- to, mostrar uma relação de reciprocidade, e tomar posse de si na escuta que im- plode o falatório totalmente dispersivo que nos rodeia cotidianamente. É a partir desse ponto que o ser-aí passa a ouvir e a dizer algo rico a respeito de si mesmo. Nesse momento é importante retomar a ideia de que, para Heidegger, o dis- curso é uma estrutura ontológica que permite a abertura do ser-no-mundo com os outros e, portanto, a comunicação. O discurso está na base da interpretação e da proposição de tudo, e não é à toa que Gelven (1989, p.104) afirmou que “as sentenças são apenas a expressão formal do modo existencial por meio do qual o Dasein se relaciona com o mundo e, enquanto tal, são derivadas e não carregam consigo a fundação da comunicação humana”. Isso não quer dizer que Heidegger renega as análises formais da linguagem, mas que ele embute uma base existencial na construção das preposições. Com base nisso, para Heidegger, toda e qualquer análise de cunho filosófico a respeito da linguagem prevê um olhar existencial a respeito do ser-aí, por isso a “própria linguagem tem o modo de ser do ser-aí” (HEIDEGGER, 1988b, p. 373). 179 Acompanhando o vivo pensamento de Heidegger no decorrer de sua produção, ele redefine a relação entre o ser do ser-aí e o ser enquanto tal. No primeiro período, como vimos até o presente momento, a leitura ontológi- ca da linguagem se baseava na análise existencial que observava a abertura do ser-aí e seu comportamento, após o Kehre, ele passa a ser pensado como ente extático, isto é, aquele que é visto como a guarda protetora do aberto da clareira do ser, cuja proteção advém da linguagem poética e meditativa e não objetiva ou representacional. Em outras palavras, o ser para de se questio- nar no raio temporal, cujo horizonte de sentido recai na ekstática do Dasein para pensar em uma perspectiva aletheiológica-eksistencial em que o Dasein precisa corresponder. Dessa forma, a partir de agora, a essência da linguagem é pensada, também, como a essência do humano, como “recolhimento no acontecimento-apropriador” (HEIDEGGER, 1959, p.12). Nessa virada, aparece a questão que envolve o ser, o pensamento meditativo e a linguagem, discussão que ainda não se fazia presente em Ser e Tempo. Todavia, mesmo que indiretamente, persistem em suas análises tardias a questão onto- lógica concedida à escuta e ao silêncio, a visão da linguagem que transcende a transmissão de informações e a crítica ao ser como mero animal racional dotado de fala. Prosseguindo o caminho da linguagem na obra do filósofo, “ Na Carta sobre o Humanismo, texto no qual Heidegger dá teste-munho público da viragem por que passara seu pensamento ao longo dos anos 30 e início dos anos 40, ele afirma que o pensa- mento perfaz a relação do ser para com a essência do homem; isto é o mesmo que afirmar que é no pensamento meditativo, não calculador, que o ser vem à linguagem, a qual é, a partir de agora, concebida como a casa do ser em que habitam os mortais. Com- preender a linguagem como a casa do ser, isto é, pensar a lingua- gem em sua essência, que em si mesma nada tem de linguístico, é pensar a linguagem como aquilo que acontece essencialmente (west) na proximidade velada entre homem-ser. Se a terminologia empregada em Ser e Tempo já apresentava muitas dificuldades e estranhezas, aquela empregada nos textos posteriores é ainda mais estranha e dá margem a muitos mal-entendidos, tal como o de que o filósofo teria substituído os conceitos filosóficos pelo emprego idiossincrático de metáforas de duvidoso valor estético. UNICESUMAR UNIDADE 5 180 De fato, observa-se um afastamento com relação aos conceitos e problemas legados pela tradição filosófica, mas tal afastamento é ele mesmo filosoficamente medido, isto é, dá-se por motivos filosóficos e não tem nada a ver com o emprego de metáforas, pois não se trata aí de um pensamento que se valha de representações. Assim, afirmar que a linguagem é a casa do ser não pode implicar nenhuma representação de objeto, não pode nos levar a pensar em qualquer casa concreta, em qualquer habitação já dada na qual se poderia alojar o ser, que tampouco é um conceito genérico ou universal. A afirmação heideggeriana de que a linguagem é a casa do ser concerne à essência da linguagem e não intenta produzir um conceito acerca da essência da linguagem. A respeito da essência da linguagem, só se podem encontrar indícios ou acenos (Winke) que a manifestam de maneira enigmática e não signos ou conceitos que possam remetê-la a um significado já previamente estabelecido e fixado pela tradição. (DUARTE, 2005, p. 144). Sendo assim, um olhar para a linguagem a partir da perspectiva meditativa preci- sa ser iniciada com o processo de desacostumar a ouvir e dar ouvidos àquilo que já foidito. Heidegger (2003) nos lembra que estabelecer uma experiência com a linguagem é diferente de ter conhecimento científico a respeito dela. Acrescen- ta-se, nesse vasto caldo de informações, a ideia de que a linguagem essencial e o pensamento poético são estranhos (Unheimlich), porque não estão preocu- pados, formalmente, em trazer informações aos entes, não procuram resolver os negócios do ser e, por isso, escapam a teorização formal. Em outras palavras, para acessar a linguagem que é conveniente à escuta do Zuspruch é necessário ir além do emprego mecânico do pensar, pois só aí é possível trazer aquilo que nunca aparece, o que foge à ordem do ente: a clareira aberta e sem nome em que absolutamente tudo se dá. É só aí, longe da práxis ou da poiésis, que o apelo do próprio ser é correspondido. Note que estamos a falar de um pensamento e de uma linguagem que, em um nível radical, descentra a subjetividade e sua capacidade de representar de modo objetivo as experiências do ser. Muito mais do que expor o apelo do ser, trata-se de corresponder à sua verdade epocal. É escutar o grito de uma linguagem que não co- munica nada, que não está expressa. Heidegger faz, a partir dessa visão, uma profunda crítica à época metafísica da técnica que tapa seus ouvidos para o ser da linguagem. 181 Para Heidegger (2003), a linguagem passa a ser compreendida como o abrigo da essência humana, o lar em que mora o ek-sistente, um veículo de comunicação que é um dizer que mostra. A partir disso, o filósofo alemão cunha o ser da linguagem como a saga (die Sage), ou seja, aquele dotado de uma capacidade indicativa da linguagem, isto é, “o essenciante da linguagem é a saga enquanto a mostração” (HEIDEGGER, 1959, p. 254). O mostrar é sempre um processo de deixar mostrar-se, daquilo que apare- ce ou desaparece. A linguagem, nessa esfera, fala na medida em que engloba a dimensão daquilo que se apresenta. E escutar a linguagem a partir daí é sempre um ato de deixar-se dizer. A saga é o que nos encaminha, aquilo que nos revela o sentido mais profundo da linguagem. O poeta, por exemplo, escuta o que está além do mundo da técnica. Pensemos, a título de ilustração, no poema de Manoel de Barros, que abre a presente seção: Silêncio das pedras é o início das palavras? (BARROS, 2011, s/p) Ora, não é um belo exemplo de texto artístico que desvela a linguagem em seus caráteres filosófico e poético? O silêncio e a fala, postos nesse singelo poema de apenas três versos não dão conta de refletir o que estamos discutindo no presente momento? Não se trata, pois, da proteção, por excelência, do aberto? O eu-lírico não cuida aqui para que se cumpra a manifestação do ser, conservando-o na linguagem? Heidegger (2012) nos lembra que velar pela morada em pensamento e lingua- gem é lembrar o ser de sua essência, preservar sua humanidade. Como já citamos, o pensador e o poeta vivem aí na vizinhança do ser, nesse lugar tão misterioso descrito por Manoel de Barros, que é linguagem e homem. Não se pode deixar que a linguagem poética caia do plano de expressões de vivências e nem que o pensamento se converta numa mera instrumentalização de representações. Se pensarmos em posicionamentos éticos, a partir de suas reflexões no campo da linguagem, é preciso levar em consideração a relação entre lin- guagem e morte, uma vez que ambas constituem o ser do homem. O ser fala UNICESUMAR UNIDADE 5 182 e ao falar tira do oculto o ente e os trazem para a presença. Sobre essa ideia, lembramos dos versos finais da composição Um índio, de Caetano Veloso: “E aquilo que nesse momento se revelará aos povos/ Surpreenderá a todos não por ser exótico/ Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto/ Quando terá sido o óbvio”. O homem morre e morrer significa ser capaz da morte enquanto morte, nos assevera Heidegger (2000). Em consonância com o que já fora abordado em Ser e Tempo, o filósofo define, também, agora, o humano como aquele que é capaz de experimentar a morte enquanto possibilidade contínua de morrer: a morte é uma doação do ser ao ek- -sistente que vive na clareira aberta do ser. Há, mesmo que Heidegger não tenha se debruçado nessa questão, uma relação muito curiosa entre linguagem, a morte e o próprio ser. Para Heidegger (2000), nem todo morrer faz diferença do perecer e os homens só se tornam mortais na medida em que deixam de ser seres dotados de razão. Ademais, parece que os homens se expõem ao pensamento do ser na medida em que experimentam o dom que é a possibilidade de morrer: tornar-se mortal é ter, também, a capacidade de um dizer verdadeiramente desocultador. “A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho”. (Clarice Lispector em A paixão segundo G.H.) EXPLORANDO IDEIAS No fio condutor dessas discussões, em Ser e Tempo, Heidegger afirma que o ser-para-a-morte remodela o ser-no-mundo, e agora pode-se afirmar que a resposta que o homem dá para a morte também modifica a relação da ek-sistência com os outros, a partir da abertura da clareira do ser, e isso só pode ser feito por meio da linguagem. Marx (1987) usa a hermenêutica para explicar a importância da morte para Hei- degger. Na obra do filósofo alemão, a morte: 183 “ [...]desestabiliza, desaloja os mortais de seus hábitos e relações costumeiras com as coisas. Acima de tudo, entretanto, ela os ar-ranca de seu modo cotidiano de ‘ser-com-outros’”. A morte isola e singulariza, bem como desestabiliza, desequilibra, na medida em que conduz o homem de volta a si mesmo a fim de que ele se assuma como aquele que deve “suportar a morte sem a ajuda dos outros enquanto vive (MARX, 1987, p. 51). A experiência da morte ou do humano enquanto ser capaz de morrer, faz com que o ser divida com o outro o seu desamparo fundamental, gerando solidarie- dade. Pode-se criar, a partir daí, uma relação de responsabilidade, porque um se põe no lugar do outro, há uma espécie de compartilhamento do mundo. “ Cotidianamente, não temos tempo para o outro e sequer lhe concedemos espaço, não velamos pela proximidade na distân-cia nem deixamos que o outro seja o mortal que ele é, pois não o reconhecemos em sua alteridade como o outro que ele é na proximidade. Antes, tratamos o outro com indiferença ou hos- tilidade: seja porque ele não é um dos nossos, isto é, porque ele não é um nacional, não nasceu num mesmo solo comum; seja porque encarna em si mesmo uma diferença que a comunidade ou parcelas representativas dela não toleram e buscam excluir por meio do preconceito e da discriminação; seja porque, em função da miséria, ainda quando o outro é formalmente reco- nhecido como um dos “nossos”, ele já se encontra de antemão excluído das instâncias institucionais mundanas e privilegiadas nas quais acontece cotidianamente a co-ek-sistência. Ao pensar originariamente o ethos como morada, como abrigo comum na proximidade velada da clareira do ser – sem designar qualquer espaço, tempo ou atitude definidos e localizáveis; sem mencionar quaisquer hábitos ou costumes históricos socialmente compar- tilhados, passíveis de repetição e ensino, bem como sem se ater a quaisquer procedimentos de universalização normativa – Hei- degger não se afasta da possibilidade de repensar a ética. Muito pelo contrário, ele nos ajuda a redefini-la, ao nos desvencilhar das determinações tradicionais, espaço temporais, a partir das quais não pensamos e não exercitamos nossa co-eksistência na UNICESUMAR UNIDADE 5 184 Os fundamentos do problema ontológico devem ser procurados do lado da relação do ser com o mundo e não da relação com outrem. É na relação com a minha situação, na compreensão fundamental de minha posição no ser, que está implicada, a título principal, a compreensão. [...]Não se trata do ser-com um outro, que duplicaria nossa subjetividade, mas do ser-no mundo. Esse deslocamento do lugar filosófico é tão im- portante quanto a transferência do problema de método sobre o problema do ser. A questão mundotoma o lugar da questão outrem. Ao mundanizar, assim, o compreen- der, Heidegger o despsicologiza. Esse deslocamento ficou inteiramente desconhecido nas interpretações ditas existencialistas de Heidegger. As análises da preocupação, da angústia, do ser-para-a-morte foram tomadas no sentido de uma psicologia existen- cial requintada, aplicada a estados de alma raros. Não se deu a devida atenção ao fato de essas análises pertencerem a uma meditação sobre a mundanidade do mundo e de pretenderem, essencialmente, arruinar a pretensão do sujeito cognoscente de eri- gir-se em medida da objetividade. [...] O que se deve precisamente reconquistar, sobre essa pretensão do sujeito, é a condição de habitante desse mundo, a partir da qual há situação, compreensão, interpretação. RICOEUR, Paul. Interpretação e Ideologias. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990. p. 31-32. EXPLORANDO IDEIAS abertura do ser. Ao mesmo tempo, ao nos definir como os mor- tais, como os que são capazes de experimentar o dom da morte enquanto morte, Heidegger também renova as possibilidades da reflexão ética ao recuperar a indeterminação e finitude consti- tutivas do agir e pensar humanos. (DUARTE, 2005, p. 154-155). Além de Martin Heidegger, outro importante expoente da filosofia da existência é Jean-Paul Sartre. Um de seus textos mais conhecidos é a conferência O existencialismo é um humanismo. O intuito desse podcast é ler fragmentos e co- mentar, brevemente, alguns pontos presentes nesse texto. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/9719 185 Eticamente pensando, trata-se de um deixar-ser, isto é, deixar o outro ser li- vre para que ele possa desenvolver seu poder-ser mais profundamente. Agir é pensar e ação desse pensamento quanto o pensamento dessa ação escapam, completamente, de uma conceituação. NOVAS DESCOBERTAS Título: A paixão segundo G.H. Autor: Clarice Lispector Ano de Lançamento: 1964 Em A Paixão segundo G.H., Clarice Lispector constrói um enredo banal: G.H., a protagonista, despede a empregada, Janair, e resolve fazer uma limpeza em seu apartamento. A faxina é iniciada pelo quarto da empregada, local que G.H. julga estar mais sujo. Para sua surpresa, tudo está asséptico, no entanto, do guarda-roupas sai uma barata. G.H. amassa a barata, come a massa branca dela e, a partir dessa cena, inicia-se uma infernal trajetória da protagonista ao mais profundo de si. Convido você a realizar essa leitura e a se questionar: a linguagem consegue acompanhar essa complexa sonda- gem psicológica realizada pela personagem? Será que as iniciais - G.H. - não significam Gênero Humano e o romance narra a experiência traumática que todos nós, seres, so- mos empurrados a experimentar enquanto Dasein? Boa leitura! UNICESUMAR UNIDADE 5 186 Leia os dois textos a seguir: Viver Ele teve a sensação de ser. Não poderia explicar, tão profundo, nítido e largo que era. A sensação de ser era uma visão aguda, calma e instantânea de se ser o próprio representante da vida e da morte. Então, ele não quis dormir, para não perder a sensação da vida. LISPECTOR, C. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004. O que é angústia Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondi- da. Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é a palavra que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria - o que também é uma forma de angústia. Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar nem a si próprio. Ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia - e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai. Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda. LISPECTOR, C. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004. 187 Com base nas discussões heideggerianas apresentadas no decorrer da unidade, faça uma análise crítica dos dois textos anteriormente citados. 1. A respeito de conceitos fundamentais do pensamento heideggeriano, analise as assertivas a seguir: I - O Ser é um conceito já existente na filosofia antes de Heidegger, mas a perspec- tiva ontológica dada por ele questiona o Ser em seu sentido. II - Para Heidegger, o Ser só se torna Dasein após a sua morte, pois é o momento em que ele encerrou suas experiências humanas. III - De acordo com uma leitura ontológica, o homem se faz no curso do tempo e é, por isso, um projeto, uma possibilidade. IV - Dasein é o ente que questiona o sentido do Ser e é a partir dele que as questões aparecem. Correto o que se afirma em: a) II, apenas. b) I e II, apenas. c) I, III e IV, apenas. d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 2. Ser e Tempo, texto fundamental para a compreensão do pensamento de Martin Heidegger, foi publicado em 1927. A respeito das discussões sobre a linguagem, presentes na obra, analise as assertivas a seguir: I - Para Heidegger, a base da linguagem está na estrutura gramatical e na emissão realizada pelo aparelho fonador. II - O ser-aí se expressa o da linguagem, pois a abertura que ele tem garante essa possibilidade. III - Para Heidegger, o ato comunicativo nunca é solitário: trata-se de uma intensa partilha com o outro. IV - A base existencial da linguagem é o discurso e por ela ser uma rede de signifi- cações não pode ser compreendida de modo formal. V - O Gerede é um discurso que determina a comunicação diária do ser humano, uma vez que ele compreende e organiza a linguagem. 188 É correto apenas o que se afirma em: a) I, II, III e V. b) I, II, III e IV. c) II, III, IV e V. d) I, II, IV e V. e) I, III, IV e V. 3. O pensamento de Heidegger foi sofrendo alterações no decorrer de sua produção. E isso inclui o tratamento dado à linguagem. A respeito dessa mudança de perspectiva, analise as assertivas a seguir: I - Em Ser e Tempo, a perspectiva ontológica da linguagem se baseava na leitura existencial que analisava a abertura do ser-aí e seu comportamento. II - A virada na análise da linguagem está após o Kehre, pois o ser passa a ser é visto como a guarda protetora do aberto da clareira do ser. III - Pensar na linguagem como a casa do ser é pensar a essência e tal atitude não estabelece relação com a Linguística. IV - Na mudança de perspectiva a respeito da linguagem, ela passa a ser vista como o abrigo da essência humana, o lar em que mora o ek-sistente. Está correto o que se afirma em: a) I e II, apenas b) I e III, apenas c) I, II e III, apenas d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 189 UNIDADE 1 ABRÃO, B. História da Filosofia. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999. ARISTÓTELES. Les Réfutations Sophistiques. Paris: Vrin, 1977. ARISTÓTELES. Metafísica. Madri: Editorial Gredos, 1970. ARISTÓTELES. Politique. Texte établi et traduit par Jean Aubonnet. Paris: Les Belles Lettres, 1968. ARISTÓTELES. Rhétorique. Paris: Les Belles Lettres, 1973. AUBENQUE, P. El problema del ser en Aristoteles. Madrid: Taurus Ediciones, 1974. BORBA, F. Introdução aos Estudos Linguísticos. São Paulo: Editora Nacional, 1971. BRANDÃO, R. A tradição sempre nova. São Paulo: Ática, 1976. 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Górgias se baseou em vários diálogos aristotélicos para construir a noção semântica de sua proposta; Górgias não se baseou em Aristóteles. 3. 3. E. Todas as assertivas estão corretas. UNIDADE 2 1. 1. B. I e III, apenas. A assertiva II está incorreta, pois a lógica de Frege rompe com a visão clássica e pelo fato de que ela não é influenciada por Platão. A assertiva IV também está incorreta, pois a localização do contexto é fundamental para a com- preensão do significado. 2. 2. E. Todas as assertivas estão corretas. 3. 3. D. I, III e IV, apenas. A assertiva II está incorreta, pois a discussão acerca da Lingua- gem aparece, decisivamente, na segunda fase. 197 UNIDADE 3 1. E. I, II, III e IV. 2. E. III, IV e V. 3. E. I, II, III e IV. UNIDADE 4 1. E. I, II, III e IV. 2. E. III, IV e V. 3. E. I, II, III e IV. UNIDADE 5 1. C. I, III e IV, apenas. 2. C. II, III, IV e V. 3. E. I, II, III e IV. _GoBack Aspectos Da Linguagem Nos Primórdios Da Filosofia Frege, Russell e Wittgenstein: a Linguagem no Centro da Reflexão Filosófica A Ciência Linguística Psicanálise e Linguagem Os Caminhos da Linguagem em Martin Heidegger _GoBack _30j0zll _1fob9te _3znysh7 Button 14: Button 26: Button 15: Página 8: Botão 22: Botão 23: Botão 25: Botão 26: Botão 21: Botão 24: