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FILOSOFIA DA LINGUAGEM

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Prévia do material em texto

PROFESSOR
Dr. Diego Luiz Miiller Fascina
Filosofia da 
Linguagem
ACESSE AQUI O SEU 
LIVRO NA VERSÃO 
DIGITAL!
EXPEDIENTE
Coordenadora de Conteúdo 
Priscilla Campiolo Manesco Paixão
Projeto Gráfico e Capa
André Morais, Arthur Cantareli e 
Matheus Silva
Editoração
Dario Claros Mercado
Design Educacional
Giovana Vieira Cardoso
Curadoria
Cleber Rafael Lopes Lisboa
Revisão Textual
Ana Caroline Canuto de Sousa Ba-
niogli
Ilustração
André Azevedo
Fotos
Shutterstock
DIREÇÃO UNICESUMAR
NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Diretoria Executiva Chrystiano Mincoff, James Prestes, Tiago Stachon Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia 
Coelho Diretoria de Cursos Híbridos Fabricio Ricardo Lazilha Diretoria de Permanência Leonardo Spaine Diretoria de 
Design Educacional Paula R. dos Santos Ferreira Head de Graduação Marcia de Souza Head de Metodologias Ativas 
Thuinie M.Vilela Daros Head de Recursos Digitais e Multimídia Fernanda S. de Oliveira Mello Gerência de 
Planejamento Jislaine C. da Silva Gerência de Design Educacional Guilherme G. Leal Clauman Gerência de Tecnologia 
Educacional Marcio A. Wecker Gerência de Produção Digital e Recursos Educacionais Digitais Diogo R. Garcia 
Supervisora de Produção Digital Daniele Correia Supervisora de Design Educacional e Curadoria Indiara Beltrame
Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de 
Matos Silva Filho Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva Pró-Reitor de Ensino 
de EAD Janes Fidélis Tomelin Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi
NEAD - Núcleo de Educação a Distância
Av. Guedner, 1610, Bloco 4 Jd. Aclimação - Cep 87050-900 | Maringá - Paraná
www.unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 
Impresso por: 
Bibliotecário: João Vivaldo de Souza CRB- 9-1679
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. 
Núcleo de Educação a Distância. FASCINA, Diego Luiz Miiller.
Filosofia da Linguagem. Diego Luiz Miiller Fascina. 
Maringá - PR: Unicesumar, 2022. Reimpresso em 2023.
200 p.
ISBN 978-65-5615-901-0
“Graduação - EaD”. 
1. Linguagem 2. Filosofia 3. Reflexões Filosóficas. 4. EaD. I. 
Título. 
CDD - 22 ed. 401 
FICHA CATALOGRÁFICA
02511191
Diego Luiz Miiller Fascina
Sou o prof. Diego Luiz Miiller Fascina, responsável pela es-
crita de Filosofia da Linguagem, livro que chega agora até 
você. Esse material foi preparado com bastante rigor e 
amor, marcas que tento sinalizar em todos os meus traba-
lhos. Você perceberá que para além dos inúmeros concei-
tos, discussões e reflexões abordadas há uma de minhas 
grandes paixões enlaçando e, de certa maneira, explicando 
o conteúdo: a arte. As músicas de Caetano Veloso, os textos 
de Clarice Lispector, os filmes de Bergman e Tarkovsky, 
além de tantas outras referências que foram comentadas 
estão sempre comigo dando sentido para a minha vida. Se 
tudo é linguagem, a artística é uma das minhas preferidas. 
Não é à toa que me formei em Letras e fiz especiali-
zação em História da Arte. Depois, realizei Mestrado em 
Letras (Estudos Literários) com uma dissertação sobre a 
obra de Clarice Lispector. Esse estudo tornou-se um livro 
cujo título é Clarice Lispector: uma leitura materialista laca-
niana, trabalho que muito me orgulha. A base da análise 
está ancorada no pensamento de Slavoj Zizek, rapidamen-
te discutido em uma das unidades. 
Na sequência, realizei Doutorado em Letras (Estudos 
Literários) com uma tese sobre a obra do cantor e com-
positor Cazuza, lenda e legenda dos anos 1980. Além da 
obra de Cazuza, a tese também abordou o rock e o Brasil 
daquela década. Novamente, o escopo para leitura se 
centrou no materialismo lacaniano de Zizek que, como 
deve ter ficado explícito, é um dos temas fundamentais 
de minhas pesquisas.
Posteriormente, realizei um estágio de Pós-Doutorado 
em Ciências da Linguagem, com estudo a respeito de pro-
gramas de auditório dos anos 1980, e outro estágio em 
Psicanálise, com estudo a respeito das obras de Cazuza 
e de Renato Russo. Na última década, venho realizando 
formação continuada em Psicanálise com ênfase na obra 
de Jacques Lacan. 
Como você pode perceber, esse livro, que agora se 
inicia, espelha uma faceta daquilo que sou, tanto na vida 
privada, quanto na vida profissional. Espero que ele seja 
uma boa companhia.
Desejo bons estudos!
Um abraço,
http://lattes.cnpq.br/5927151835285131
http://lattes.cnpq.br/5927151835285131
“No Início era o Verbo, e o Verbo estava voltado para Deus, e o Verbo era Deus. Ele 
estava no início voltado para Deus. Tudo foi feito por meio dele; e sem ele nada se fez 
do que foi feito”. Esses são os versículos do prólogo do belo Evangelho de João. O Ver-
bo, mais do que uma categoria gramatical, pode ser entendido como a palavra, aquilo 
que nomeia uma coisa. No sentido bíblico, o Verbo é a palavra de Deus. E a palavra de 
Deus tudo criou, inclusive, Jesus que é o Verbo feito carne.
Observemos, com mais atenção, a citada passagem evangelística: se tudo é feito 
pela palavra, se ela é categoria básica da comunicação, se nada se faz sem ela, então 
é a linguagem o nosso elemento fundador, a nossa fonte da vida, e a nossa tábua de 
salvação. A linguagem é, também, um oráculo, um Cavalo de Tróia, uma pedra no 
caminho, uma via de mão dupla. É símbolo da nossa vida primitiva e da nossa mais 
profunda civilização.
Esse é, apenas, o nosso princípio de reflexão acerca da potência da linguagem. 
Nas cinco unidades de seu material didático, você, estudante, percorrerá comigo, mo-
mentos de grande importância para a compreensão desse vasto campo de estudo. 
O enfoque está nas relações da Linguagem com a Filosofia. É por esse motivo que 
a Filosofia da Linguagem se tornou uma disciplina com estatuto próprio que enlaça, 
definitivamente, esses dois campos.
Nesse percurso, iniciaremos com os primórdios das reflexões filosóficas a respeito 
da linguagem até contribuições feitas na época do Iluminismo: o Crátilo, de Platão, 
alguns textos de Aristóteles até atingir a visão de Locke e de Rousseau. Verificaremos 
que, gradativamente, essas contribuições foram se injetando, cada vez mais, de preo-
cupações de cunho filosófico.
É a partir de Frege, Russell e Wittgenstein que temos, pois a sistematização da 
disciplina conhecida como Filosofia da Linguagem. Essa trindade enlaça filosofia e lin-
guagem por meio de conceitos que envolvem o sentido e referência, o atomismo lógico 
e, de modo mais amplo, em torno de análises que se baseiam nas relações existentes 
entre linguagem, pensamento e mundo.
FILOSOFIA DA LINGUAGEM
A Linguagem, por intermédio da Ciência Linguística, também merece destaque: des-
de os estudos clássicos, passando pela Idade Média até o Renascimento, no entanto, o 
foco recai, no pensamento de Saussure e nos desdobramentos de sua contribuição no 
decorrer do século XX: o gerativismo de Chomsky, as funções da linguagem propostas 
por Jakobson, a sociolinguística etc.
Posteriormente, a Psicanálise é comentada: se, para essa terapêutica, a cura se dá 
por meio da palavra falada, algumas das contribuições de Freud e de Lacan, seu mais 
prolífico herdeiro, serão sumariamente expostas: de qual linguagem é feita nossos 
sonhos? O Inconsciente é estruturado como uma linguagem? E, de fato, a linguagem 
dá conta de explicitar o que eu desejo? Essas são algumas das reflexões discutidas no 
decorrer do material.
Por fim, mas muito longe de esgotarem as relações entre filosofia e linguagem, o 
pensamento de Heidegger traz à baila, em um primeiro momento, por meio de Ser e 
o tempo, a ontologia do ser e, posteriormente, a compreensão da clareira do ser. É a 
linguagem, o élan e o resultado dessa análise.
Como anunciamos anteriormente, é impossível esgotar a compatibilidade existente 
entre filosofia e linguagem. Dizemos mais: é tarefa ingrata tentar estabelecer um sim-
ples mapeamento entre essas relações. Com o conteúdo desse livro não foi diferente:não se assuste, estudante, se em muitos momentos, você sentir falta de referências 
importantes ou sentir a necessidade de alguma reflexão mais acurada que não veio. 
É preciso fazer escolhas. E, quando escolhemos, algo é deixado para trás. Esse livro 
tem o intuito de trazer uma notícia acerca da filosofia da linguagem. Ele deve ser um 
farol, um trampolim para estudos mais amplos e específicos a respeito dessa área tão 
significativa e fundamental para a sua formação acadêmica.
Espero que ele cumpra essa simples função.
Um abraço,
O Autor.
IMERSÃO
RECURSOS DE
Ao longo do livro, você será convida-
do(a) a refletir, questionar e trans-
formar. Aproveite este momento.
PENSANDO JUNTOS
NOVAS DESCOBERTAS
Enquanto estuda, você pode aces-
sar conteúdos online que amplia-
ram a discussão sobre os assuntos 
de maneira interativa usando a tec-
nologia a seu favor.
Sempre que encontrar esse ícone, 
esteja conectado à internet e inicie 
o aplicativo Unicesumar Experien-
ce. Aproxime seu dispositivo móvel 
da página indicada e veja os recur-
sos em Realidade Aumentada. Ex-
plore as ferramentas do App para 
saber das possibilidades de intera-
ção de cada objeto.
REALIDADE AUMENTADA
Uma dose extra de conhecimento 
é sempre bem-vinda. Posicionando 
seu leitor de QRCode sobre o códi-
go, você terá acesso aos vídeos que 
complementam o assunto discutido.
PÍLULA DE APRENDIZAGEM
OLHAR CONCEITUAL
Neste elemento, você encontrará di-
versas informações que serão apre-
sentadas na forma de infográficos, 
esquemas e fluxogramas os quais te 
ajudarão no entendimento do con-
teúdo de forma rápida e clara
Professores especialistas e convi-
dados, ampliando as discussões 
sobre os temas.
RODA DE CONVERSA
EXPLORANDO IDEIAS
Com este elemento, você terá a 
oportunidade de explorar termos 
e palavras-chave do assunto discu-
tido, de forma mais objetiva.
Quando identificar o ícone de QR-CODE, utilize o aplicativo Unicesumar 
Experience para ter acesso aos conteúdos on-line. O download do 
aplicativo está disponível nas plataformas: Google Play App Store
https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/3881
APRENDIZAGEM
CAMINHOS DE
1 2
3 4
5
ASPECTOS DA 
LINGUAGEM NOS 
PRIMÓRDIOS DA 
FILOSOFIA 
11
FREGE, RUSSELL 
E WITTGENSTEIN: 
A LINGUAGEM 
NO CENTRO 
DA REFLEXÃO 
FILOSÓFICA
47
77
A CIÊNCIA 
LINGUÍSTICA
125
PSICANÁLISE E 
LINGUAGEM
163
OS CAMINHOS 
DA LINGUAGEM 
EM MARTIN 
HEIDEGGER
1Aspectos da Linguagem nos Primórdios da 
Filosofia 
Dr. Diego Luiz Miiller Fascina
Na I unidade de seu material de estudos, você entrará em contato 
com alguns momentos fundamentais para compreendermos a evo-
lução da Filosofia da Linguagem. Trata-se de comentários a respeito 
de alguns dos maiores filósofos, não apenas da Antiguidade Clássica, 
mas da História da Filosofia: Platão, Aristóteles e, também, Porfírio, 
Boécio, Guilherme de Ockham, Rousseau, dentre outros. Esses filó-
sofos, embora não trouxessem para o núcleo de suas preocupações 
a questão da linguagem, ela aparece de maneira transversal em suas 
contribuições filosóficas. Dessa maneira, ficará claro para você que, 
mesmo antes da Filosofia da Linguagem se tornar uma disciplina for-
mal, a natureza da linguagem e algumas de suas particularidades já 
eram discutidas por vários filósofos.
UNIDADE 1
12
“Palavras não têm capacidade de traduzir sentimentos. As palavras são moles”. 
Essa frase foi proferida por Aleksei, personagem do filme O espelho, lançado em 
1975, e considerado uma das principais obras do cineasta russo Andrei Tarkovski. 
A película possui um complexo trabalho estrutural que rompe com a linearidade 
e permite que o espectador mergulhe em fases distintas da vida do personagem: 
o pré (1935), o durante (anos 1940) e o pós-guerra (anos 1960 em diante). 
Nesse turbilhão temporal, símbolos, alegorias, mensagens cifradas, elementos 
oníricos e espaços distintos vão construindo uma narrativa fílmica repleta de 
reflexão filosófica e psicanalítica. Uma hipótese de interpretação do título seria, 
pois, que o espelho é o reflexo do percurso não apenas de Aleksei, mas de todos 
nós, isto é, enxergamos a nossa própria história, nossos dramas humanos, na tela. 
E, no caso específico, a própria história da Rússia. 
Posto isto, de que modo O espelho, especialmente, a frase citada se relaciona 
com a proposta deste livro? Tanto a frase quanto o filme e, também, a Filosofia 
da Linguagem compreendem que o homem é um ser de linguagem. Absoluta-
mente, tudo que fazemos é linguagem: pensar, expressar sensações e sentimentos, 
descrever as coisas, elaborar a comunicação. 
13
Linguagem é a ponte que conduz o homem ao mundo e o homem a si mesmo. 
E as palavras moles? Em que sentido essa combinação tão inusitada nos auxilia no 
entendimento da proposta? A primeira parte da frase explica: as palavras não dão 
conta de explicar tudo, sempre há muito por se dizer. E é possível que nunca seja 
dito. Essa possibilidade parece fazer referência a esse que, talvez, seja o grande dra-
ma humano: falhar na comunicação. Seríamos, todos nós, seres do engano? Seres 
atropelados pela linguagem? Afinal, qual é o trabalho da Filosofia da Linguagem?
Segundo Frédéric Nef (1995, p. 8-9), uma reflexão de caráter filosófico deve com-
binar os seguintes traços: 
I - Superação do conceito empírico de língua por um conceito geral da lingua-
gem, passagem da diversidade das línguas para a unidade da linguagem. 
II - Existência de uma problemática da origem da linguagem. 
III - Estabelecimento de uma relação entre a linguagem e as operações do 
espírito (linguagem e pensamento). 
IV - Problematização da representação da realidade pela linguagem. 
V - Avaliação da linguagem como instrumento de ações cognitivas (racio-
cínio, expressão das emoções etc.).
Partindo destas reflexões iniciais, escolha um texto, um filme ou uma música que 
problematize a natureza ou outras questões que envolvem a linguagem. Sabemos 
que tudo é feito de linguagem, mas nesse caso a obra selecionada precisa colocar, 
em relevo, a problematização citada. Verifique, na obra escolhida, como a linguagem 
está construída, qual é o nível de comunicação existente entre os envolvidos, quais 
os efeitos que ela causa. Anote as impressões que tal obra lhe causou, focando a 
atenção no campo da linguagem. Lembre-se de citar a autoria, o ano de lançamento/
publicação e aspectos do contexto, pois ele auxiliará na compreensão da proposta.
NOVAS DESCOBERTAS
A seguir, para aguçar sua curiosidade, segue uma crítica de O espelho, feita 
por Arthur Tuoto: 
UNICESUMAR
UNIDADE 1
14
Agora que já percorremos alguns aspectos pelos primórdios das discussões a 
respeito da Linguagem, sugiro que você anote, de modo organizado, quais são as 
principais contribuições de Platão e de Aristóteles, e de que maneira, Porfírio, Boé-
cio e Ockham, dentre outros filósofos citados revisam o pensamento aristotélico. 
Certamente, depois desse trabalho feito, suas reflexões serão mais claras e objetivas.
15
“Dizer algo falso não será dizer o que não é?”: Os 
impasses com a linguagem em Crátilo, de Platão.
Descrição da Imagem: Descrição de imagem: a imagem trata-se de um mosaico romano colorido do século I 
a.C. Há sete figuras masculinas, formando um semicírculo. O da esquerda está mais à frente da imagem, tem 
barba e cabelo grisalhos, está com suas mãos levantadas na altura do peito, como se estivesse falando e ges-
ticulando, ele veste uma túnica amarela com seu ombro e peito direito desnudo. Perto do seu pé esquerdo, 
há uma caixa amarela entreaberta. Os outros homens estão sentados e outros em pé, também com túnicas 
e seus rostos estão voltados para o homem de túnica amarela. Há outra caixa amarela aberta no centro da 
imagem. Algumas colunas, objetos e árvores no fundo constituem o cenário que é a Academia de Platão.
Figura 1 – A academia de Platão Fonte: Wikimedia Commons ([2022]a, on-line).
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UNIDADE 1
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A linguagem possui papel de atravessamento no desenvolvimento do sujeito, poisé por meio dela que as sociedades se estruturam, criam identidades, organizam 
pensamentos, além de ser o instrumento da comunicação. Não é à toa que ela 
tenha chamado a atenção da Filosofia desde os primórdios.
A sociedade grega sempre foi afetada pelos efeitos da linguagem, todavia, essa 
sociedade precisou passar por um processo de negação do uso corrente da oralidade, 
presente, sobretudo, nas tradições poéticas e religiosas para dar início a técnica da Era 
Escrita e para estudar, mais profundamente, a linguagem e suas inúmeras habilidades.
Monteiro Jr (2010) nos lembra que o século V a.C é um marco expressivo no 
quesito intelectual para o mundo grego, pois foi nesse período que a linguagem 
escrita foi propagada. Nessa mesma época, houve o auge do sistema democrático 
em Atenas, tornando a cidade o centro do mundo antigo. E nesse turbilhão, os 
primeiros relatos a respeito dos estudos técnicos envolvendo a linguagem apa-
recem, sobretudo com os sofistas. Para o crítico anteriormente citado, os sofistas 
são conhecidos como mestres da oratória ou da retórica e foi por meio deles que 
a linguagem ganhou caráter autônomo e tornou-se fértil campo de investigação.
Os pré-socráticos eram muito interessados na linguagem. Parmênides (530 
a. C - 560 a. C), por exemplo, formulou o princípio da correspondência entre o 
pensamento e o ser. O trecho seguinte é muito explorado: 
“o que é, é, e não pode não ser; o que não é, não é, e não pode ser; O que é, 
pode ser pensado ou conhecido, expresso ou realmente nomeado; o que não 
é, não o pode” (LOPES, 1991, p. 98). 
Górgias (485 a.C - 380 a. C) também se preocupou com a linguagem, embora não 
tenha se debruçado exaustivamente sobre o assunto. Acompanhe o fragmento e 
observe como o filósofo reflete sobre a questão semântica da linguagem:
 “ Pois se existem seres visíveis, audíveis e universalmente sensíveis, e de uma existência que nos é exterior, desses seres, os visíveis são percebidos pela vista, os audíveis pelo ouvido, e esses sentidos não 
podem trocar os seus papéis. Assim sendo, como se poderá revelar 
a outrem esse ser? Pois o meio que temos de revelar é o discurso; e 
o discurso não é nem as substâncias nem os seres: não são, pois, os 
seres que nós revelamos àqueles que nos cercam; nós só lhes reve-
17
lamos um discurso que é diferente das substâncias. Assim como o 
visível não pode tornar-se audível, ou o contrário, assim também o 
ser que subsiste exteriormente a nós não poderia tornar-se nosso 
discurso: não sendo discurso, ele não poderia ser manifestado a 
outrem. Quanto ao discurso [...], sua constituição resulta das im-
pressões vindas dos objetos exteriores, isto é, dos objetos da sen-
sação: do encontro com o seu saber nasce em nós o discurso que 
será proferido com relação a essa qualidade, e da impressão da cor, 
o discurso referente à cor. Se é assim, o discurso não manifesta o 
objeto exterior; pelo contrário, é o objeto exterior que se manifesta 
no discurso (NEF, 1995, p. 12).
Ainda na Antiguida-
de Clássica, uma das 
primeiras referências 
à questão advém de 
Platão (428/427 a. C - 
348.347 a. C), um dos 
filósofos centrais do 
mundo ocidental: tra-
ta-se, mais especifica-
mente de Crátilo, um 
de seus diálogos mais 
cômicos e difusos.
Os estudiosos de 
Platão afirmam que esse 
diálogo faz parte da fase 
intermediária da obra do 
filósofo, pelo fato de que 
o texto possui uma es-
trutura narrativa que se 
aproxima dos diálogos 
aporéticos (da primeira fase), em que Sócrates, com base em seu elenchos, debate 
os elementos da tese de seu interlocutor, mas se afasta tematicamente, pois trata 
de linguagem, verdade e significação que eram temas recorrentes da fase anterior.
UNICESUMAR
UNIDADE 1
18
Em linhas gerais, o Crátilo, de Platão, aborda uma análise “de cada nome- de 
seu sentido – individualmente, visando o melhor uso das palavras” (MONTEI-
RO JR, 2012, p.14). Ademais, além desse estudo individual, havia também, uma 
espécie de estabelecimento das categorias gramaticais. E 
 “ [...] no que diz respeito a tal investigação, costuma-se dizer que Pro-tágoras teria sido o primeiro a fazer uma distinção das partes do dis-curso (logos) em desejo, questão, resposta e ordem. Teria, também, 
o mesmo sofista sustentado a distinção dos nomes em três gêneros: 
masculino, feminino e o que se refere a objetos inanimados. No caso 
de Górgias, temos um relato de que ele escreveu um onomastikon que 
visava estudar detalhadamente alguns nomes. Ainda poderíamos falar 
de outros sofistas, como Pródico, citado por Sócrates, que se ocupou, 
sobretudo, da distinção entre sinônimos, e Hípias, que tratou do valor 
das letras e sílabas, dos ritmos e dos modos. Enfim, percebemos que 
esse estudo acerca das propriedades das palavras era, poderíamos di-
zer, um modismo na época dos sofistas (MONTEIRO JR, 2012, p.17).
Feito esses comentários, passemos para questões estruturais: podemos dividir 
essa obra em duas partes, de acordo com os interlocutores de Sócrates: Her-
mógenes, que ocupa três partes do diálogo e Crátilo, que ocupa o quarto final. 
No entanto, a rigor, a obra possui três movimentos: uma rápida apresentação 
do tema (383a-384e); seguido da primeira parte, composta pelo diálogo entre 
Sócrates e Hermógenes (385a-427d), contando ainda, na primeira parte, uma 
longa seção a respeito das etimologias (396d-421c); e, finalmente, o diálogo 
entre Sócrates e Crátilo (428b-fim).
Inicialmente, Hermógenes expõe para Sócrates as questões que se confrontam 
em relação ao fundamento da linguagem: Hermógenes afirma que os nomes são 
usados corretamente quando seguem convenção (syntheke) ou acordo (homo-
logia) e dependem do uso e do costume (nomos e ethos). Já para Crátilo, cada 
coisa tem apenas um nome por natureza (physis) e tal denominação é a mesma 
para todos, gregos e bárbaros. Em outras palavras, para Crátilo, as coisas têm um 
nome apropriado que fogem da denominação que lhes foram convencionadas, 
se aproximando, dessa maneira, da teoria naturalista dos nomes. Já para Hermó-
genes, os nomes são convenções humanas.
19
Frente às duas posições, Sócrates decide examiná-las. É interessante perceber 
que Platão traz à baila um debate comum na época dos sofistas: a oposição entre 
nomos e physis; e em Crátilo há duas figuras cujas correntes de pensamentos são 
diferentes: Hermógenes que se relaciona com as inovações temáticas tratadas pe-
los sofistas e Crátilo, que segue a linhagem tradicional dos primeiros pensadores 
gregos, sobretudo Heráclito.
Em um primeiro momento, o diálogo se funda em sua crítica, pois a “conse-
quência mais imediata seria a total impossibilidade de conhecimento por meio 
da linguagem, devido ao seu caráter completamente arbitrário, dando nesse caso 
razão aos sofistas, para os quais basta falar para dizer a verdade” (PIQUÉ, 1996, 
p.172). Sócrates busca reduzir essa questão arbitrária ressaltando a importância 
da convenção para a coletividade em detrimento do subjetivo. Posteriormente, 
no decorrer do diálogo, ele “limita a convenção a convencionar o verdadeiro” 
(PIQUÉ, 1996, p.172). Como Hermógenes se põe resistente, Sócrates critica a tese 
de Protágoras da não-existência nas próprias coisas de uma essência de algum 
modo permanente” (PIQUÉ, 1996, p.172), pois para o sofista, não há essência, só 
aparência, isto é, não há verdade absoluta, porque todo conhecimento é pessoal.
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Dessa maneira, para Sócrates, as coisas são em si mesmas, possuem 
essência permanente, não dependem da relação estabelecida co-
nosco e não podem ser deslocadas de sua essência para explicar 
nossas fantasias. Nessa esteira, Piqué (1996, p.172) conclui:
 “ Assim, o Mundo, sejam os objetos, sejam as ações, tem uma organização permanente. A diferença ne-cessária entre o bom e o mau, o judicioso e o insen-
sato, a razão e a sem-razão, diferença esta herdada por 
Platão do socratismo puro, implica nisso. Da mesma 
forma que a natureza de um corte depende da nature-
za do objeto cortante e da naturezado objeto cortado, 
o dizer humano deve procurar recortar o Mundo se-
gundo a natureza desse mesmo Mundo. Toda técnica 
humana, techne, se apoia na physis e age conforme 
sua própria natureza. Exemplificando: se uma tesoura 
corta uma folha de papel, é porque a folha é “cortável”, 
isso faz parte de sua natureza. O Mundo também, “se 
é recortado” pela linguagem, é devido a sua natureza, 
da qual faz parte ser recortável assim, ou dizendo o 
mesmo de outro modo, “conjuntizável” assim, já que o 
que existe é uma única operação: separar-reunir. Mas 
isso não significa que o seja de qualquer maneira. O 
Mundo não admite qualquer sentido.
No desenvolvimento do diálogo, mais especificamente na terceira 
parte, Hermógenes se põe resistente à crítica de Sócrates e solicita um 
exemplo da natural exatidão dos nomes. Sócrates corrige, afirman-
do que, na verdade, trata-se de uma certa correção e não de nomes 
exatos, concluindo que há algo de certo no que Crátilo afirma, em 
outras palavras, que os nomes das coisas derivam de sua natureza.
A partir daí, Sócrates cita 140 nomes para criticar o natura-
lismo linguístico e para expor as falhas do método etimológico. 
Inclusive, Sócrates sugere que Hermógenes observe os poemas 
homéricos, pois neles há uma distinção entre os nomes dados por 
21
deuses e os nomes dados pelos homens, como é o caso do rio Xan-
to-Escamandro ou Astianax-Escamandrio para o filho de Heitor.
Na quarta e última parte do diálogo, Platão faz uma crítica fer-
renha à teoria naturalista e suas teses. Ele refuta, conforme Piqué 
(1996), que a correta aplicação dos nomes consiste em observar 
como a coisa é constituída, pois a criação desses nomes primi-
tivos implica erros e falsidade entre as palavras. Para Sócrates 
(1973), os nomes não são reproduções exatas e a sua natureza é a 
de apresentar semelhanças, uma vez que a própria representação 
não deixa de ser uma representação. Ou seja, “não é como dizia 
Hermógenes, nem falsas nem verdadeiras, e nem como Crátilo, 
para o qual eram sempre verdadeiras” (PIQUÉ, 1996, p.179). 
Dessa forma, para Platão, um objeto só seria bem nominado se 
os seus traços estivessem presentes no onoma. Como não é possí-
vel, uma vez que há letras sem semelhanças que transmitem outros 
sentidos, a comunicação precisa de elementos da convenção para 
constituir a naturalidade da coisa.
Platão (1973) também critica a tese de que a enunciação dos 
nomes tem por finalidade a instrução sendo seu único método 
verdadeiro, pois, como já foi salientado, os nomes podem trazer 
em si um elemento da convenção que é arbitrário ou porque pode 
haver erros na denominação e porque só é possível conhecer as 
coisas pelos nomes. 
Como os primeiros responsáveis por nomearem as coisas no-
mearam as coisas sem os nomes primitivos ainda fixados? Para 
resolver essa questão, Platão descarta rapidamente uma explicação 
divina e afirma que o estudo das coisas deve vir da própria coisa e 
não por meio de seus nomes.
A questão da mobilidade das coisas sensíveis, traz para o cen-
tro da roda a impossibilidade de se pensar em um discurso ver-
dadeiro ou até conhecido. Crátilo, que acreditava piamente em 
sua teoria, preferia apontar o dedo quando fosse fazer referência 
para algo. Acompanhemos um trecho do diálogo:
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 Crátilo – De que modo, Sócrates, dizendo a alguém o que diz, poderá não 
dizer o que é? Dizer algo falso não será dizer o que não é?
Sócrates – Esse conceito, camarada, é por demais sutil, tanto para mim 
como para minha idade. Não obstante, responde-me ao seguinte: admites 
que não se possa dizer falsidade, mas que se possa falar?
Crátilo – Penso que nem falar, também!
Sócrates – Nem chamar ou saudar alguém? Por exemplo, se alguém te 
encontrasse no estrangeiro e, tomando-te da mão, te dissesse: Salve, fo-
rasteiro Ateniense, Hermógenes, filho de Esmicrio! Essa pessoa diria, ou 
falaria, ou se dirigiria, ou saudaria, não a ti, mas ao nosso amigo Hermó-
genes? Ou a ninguém?
Crátilo – No meu modo de pensar, Sócrates, o que essa pessoa dissesse 
careceria inteiramente de sentido.
Sócrates – Com isso fico satisfeito. Porém, falando desse jeito, quem as-
sim falasse teria dito verdade ou mentira? Ou parte do que dissesse seria 
verdade, e parte mentira? Isso também me bastará.
Crátilo – Diria que essa pessoa só produzi-
ra um ruído, e que se agitara inutilmente, 
como se dá com o objeto de metal que 
percutimos. (PLATÃO, 1973, p.170-171)
23
Observe, no fragmento anterior, que Platão aponta que o discurso possui nature-
za híbrida, ou seja, é falso e verdadeiro. A palavra, no sentido platônico, é a repre-
sentação do inteligível e mesmo que problemáticas, as duas teses, de Hermógenes 
e de Crátilo, se convergem, pois possuem algo do verdadeiro eidos do onoma.
Nos aproximando mais especificamente do interesse desse tópico, a per-
gunta que insiste é a seguinte: de que maneira, o Crátilo, de Platão, é um 
texto importante para pensarmos a filosofia da linguagem e situá-lo, aqui, nos 
primórdios dessa discussão? Essa resposta é, deveras, complexa. Que o Crá-
tilo traz a linguagem e seus usos é um fato incontestável, ademais, apresenta 
algumas linhas de pensamento e suas possíveis falhas e faz menções aos pen-
sadores fundamentais para o estudo da linguagem, inclusive, algumas dessas 
bases aparecerão, mais pormenorizadamente, em outro diálogo platônico, o 
Sofista. Mas foquemos em mais alguns pontos da última parte do diálogo.
Na argumentação que tem o intuito de desmontar o posicionamento de Crá-
tilo, há um certo pessimismo com a linguagem. Esse pessimismo está relaciona-
do com a afirmação de que se, de fato quisermos conhecer as coisas, devemos 
nos focar nelas e não em seus nomes, uma vez que elas são imagens imperfeitas. 
Platão parece querer propor outro tipo de contato quando desvaloriza o nome 
como canal de acesso, mas esse novo contato não é mencionado no Crátilo.
Esse posicionamento abre margem para que alguns estudiosos pontuem 
que não há uma filosofia da linguagem em Platão. É o caso, por exemplo, de 
Aubenque (1974), que afirma que para Platão a filosofia não se deve tornar 
uma ciência das palavras, mas um estudo a respeito das coisas tais como 
elas são. Já Goldschmidt (1940) compreende que o Crátilo é uma vitrine 
que demonstra pontos de algumas teorias da linguagem daquela época, e 
que Platão tinha em mente um projeto mais audacioso: a construção de uma 
linguagem ideal em que os estudos de todos os nomes serviriam para uma 
verdadeira filosofia. Esse crítico, afirma, ainda, que Platão reconhecia o limite 
dos nomes, e que também reconhecia que a dialética transcende os nomes, 
mas como atividade, depende deles e, por esse motivo, é preciso criar uma 
terminologia que atenda às necessidades filosóficas.
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Dessa maneira, a resposta para a pergunta feita, se há ou 
não filosofia da linguagem em Crátilo, essa aula não pretende 
entrar na disputa. O intuito aqui é explicitar que Platão tratou 
a linguagem. Esse tratamento foi feito de modo inovador, pois 
Platão se afastou de duas teses recorrentes nos estudos lin-
guísticos do período: o relativismo-subjetivista dos Sofistas 
e o pensamento naturalista dos Pré-Socráticos. Ademais, esse 
diálogo platônico nos dá uma dimensão bastante interessante 
a respeito do desenvolvimento da linguística no mundo grego, 
além de nos deixar um material importante para compreen-
dermos a linguística dos gregos.
Borba (1971) contribui e esclarece a discussão afirmando 
que, sendo três interlocutores - Crátilo, Hermógenes e Sócrates,
 “ O primeiro defende o entranhamneto entre a palavra e o objeto; o segundo discorda e diz que a dominação precede consoante o uso e pede a opinião de Sócrates. 
Este concorda com Crátilo e cita uma série de exem-
plos – os heróis (gr. heroes) recebem tal nome porque 
são filhos do amor (eros) entre um deus ou deusa e 
um mortal ou porque são hábeis oradores (gr. réto-
res); ou deuses (gr.theoi) se identificam com astros,e o 
sol, a lua e a terra têm por natureza girar (gr. gyreuo). 
Acrescenta também que as letras têm determinadas 
propriedades e por meio delas se pode chegar a uma 
correlação entre o nome e a coisa: r denota vibração – 
rheo (fluir), rhóe (corrente); l é brando e fluido – leios 
(liso), lícarós (untuoso) etc. Não se sabe se Sócrates 
brincava ou falava a sério porque logo depois diz que 
tal não é exato como se vê em sklerós (duro) apesar 
do l. (BORBA, 1971, p.13)
Pensemos, a partir de agora, no posicionamento aristotélico 
a respeito da linguagem e nos embates estabelecidos com o 
pensamento platônico.
25
A Questão da Linguagem em Aristóteles
Embora não haja, em Aristóteles (384 aC - 322 a. C), um tratado específico a respeito 
da linguagem, ela é ponto fundamental de sua filosofia, pois é relacionada com as 
questões que envolvem à lógica e como possibilidades de diferentes formas de ex-
pressão, tais como a poesia, a retórica, o teatro etc., basta pensarmos, por exemplo, 
em alguns de seus mais famosos textos: a Metafísica, a Poética, a Retórica, o con-
junto enfeixado em Órganon. Em outras palavras, para esse filósofo, a realidade só 
pode ser examinada por meio da compreensão do funcionamento da linguagem.
Descrição da Imagem: na tela vemos Aristóteles. Ele está sentado, com as pernas semicruzadas, veste 
túnica marrom e sandálias. Possui barba e é ligeiramente calvo. E faz anotações em um papel enquanto 
observa fixamente algum ponto que não é apresentado ao espectador da tela.
Figura 2 - Aristóteles, de Francesco Hayez (1811) / Fonte: Wikimedia Commons ([2022]b, on-line).
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Diferentemente de Platão, Aristóteles não pensa na “doutrina semântica da 
decomposição da proposição em nome e verbo (em onoma e rhema), e sim da 
decomposição da proposição em sujeito, cópula e predicado” (NEF, 1995, p.18). 
Ademais, como já salientamos,
 “ [...]não encontramos em Aristóteles uma obra específica sobre a linguagem ou semântica. Encontramos, sim, em várias obras, o exa-me da linguagem visando outros temas (lógica, inferência, a disputa 
contra os sofistas). Pode-se dizer que é nos textos lógicos, retóricos, 
sobre a argumentação, que se descobrirão as suas opiniões sobre a 
linguagem (NEF ,1995, p. 20).
Descrição da Imagem: : a imagem é uma fotografia das ruínas de uma antiga biblioteca romana cons-
truída em mármore, o ângulo da foto está de baixo para cima, voltada um pouco na diagonal para a 
esquerda. Na direita, há um texto talhado em uma parede estreita na língua grega com aproximadamente 
vinte linhas. Logo do lado direito, há uma base de uma coluna, há uma frase talhada em grego. Na parte 
esquerda da foto, tem cinco colunas Coríntias, e mais quatro colunas do mesmo estilo na parte cima das 
ruínas. No centro ao fundo, há uma parede com uma janela e o que parece ser uma estátua.
Figura 3 - Inscrição de um texto em grego na Biblioteca de Celsus, na antiga cidade grega de Éfeso, 
atual Turquia
27
Na Poética, por exemplo, Aristóteles traz os enunciados e os elementos que o 
compõem, a citar: sílaba, conjunção, nome, verbo e as flexões nominais e verbais. 
Ademais, para o estagirita, um enunciado ou é uma coisa apenas ou é o resultado 
da junção de várias partes, o importante é diferenciar quais elementos possuem 
sentido e indicam referência. Por exemplo, nomes como Luís indicam referência, 
pois demarcam uma singularidade, enquanto conjunções do tipo “de agora em 
diante” não demarcam referência. E, como sabemos, a conjunção é elemento fun-
damental em um enunciado, pois é a responsável pela ligação entre nome e verbo.
Ainda sobre a Poética, é importante mencionar que ela se tornou, com o de-
correr dos séculos, um marco fundamental para os estudos literários. Conceitos 
como os de arte, poesia, imitação, catarse, verossimilhança, dentre tantos outros, 
possuem imensa repercussão na história da arte e são renovadas e expandidas 
até os dias de hoje pelas modernas teorias. Na Poética, Aristóteles examina os 
gêneros literários e afirma que todos eles têm um ponto em comum: o caráter 
mimético, isto é, a recriação poético-ficcional da realidade. O filósofo vai afirmar, 
conforme Abrão (1999), que a poesia é o gênero que mais se aproxima da filosofia. 
Em uma sucinta comparação, enquanto o historiador narra fatos particulares, a 
poesia “encadeia os acontecimentos imaginados segundo suas causas necessárias. 
Nesse sentido, a poesia tende para o conhecimento do universal, que é o objetivo 
máximo da filosofia” (ABRÃO, 1999, p.67-68).
Em Da interpretação, há a diferenciação entre nome, que é o som que possui sig-
nificação, e o verbo, aquilo que acrescenta à sua própria significação. Faz-se impor-
tante salientar que tanto o nome quanto o verbo possuem significação determinada, 
por esse motivo o verbo “sempre indica algo afirmado a respeito de alguma outra 
coisa [...] o verbo é sempre signo daquilo que se diz de outra coisa, saber de coisas 
pertencentes a um sujeito ou contidas em um sujeito (16b8-16b10)” (NEF, 1995, 
p. 24). A partir daí está estabelecida a relação entre as palavras, as ideias e as coisas 
postas no mundo, porém, como saber se um enunciado é verdadeiro ou equivocado?
 “ O homem real se reciproca segundo a consecução de existência com a asserção que é verdadeira a seu respeito. Efetivamente, se o homem existe, a asserção pela qual dizemos que o homem existe 
também é verdadeira; e, reciprocamente, se a asserção pela qual nós 
dizemos que o homem existe é verdadeira, o homem também existe. 
Entretanto, a asserção verdadeira não é, de modo algum, causa da 
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existência da coisa (pragma); pelo contrário, é a coisa que parece ser, 
de certa forma, a causa da verdade da asserção, pois é da existência 
da coisa ou da sua não existência que depende a verdade ou a falsi-
dade da asserção (Categorias, 14b14-22) (NEF, 1995, p. 26)
Ademais, como salienta Neves (1981), Aristóteles analisa o suporte biológico da 
função linguística quando fala da voz como um som ouvido. O filósofo observa que 
não há um órgão para a fala, uma vez que para que a voz seja produzida é necessária 
a ação de órgãos já capazes de funções biológicas determinadas. “A voz é condição 
para a linguagem, mas não é a linguagem. A capacidade de articular sons implica a 
capacidade de emitir sons, mas a recíproca não é verdadeira” (NEVES, 1981, p.57).
NOVAS DESCOBERTAS
Para saber mais a respeito do pensamento de Aristóteles, assista ao vídeo 
Pensadores - Quem somos nós?, elaborado pelo prof. Dr. Roberto Bolzani 
Filho. Segue o link: 
Na Política, Aristóteles explica a natureza da linguagem. O zôon politikón está ir-
remediavelmente ligado à faculdade do falar, porque sem linguagem não haveria 
sociedade política. Portanto, o homem é um animal político que, naturalmente, 
vive em sociedade. Ao tratar desse tema, Aristóteles, contrariando Platão, não se 
interessa pela idealização de uma cidade justa. Ele revela uma marca muito forte 
de seu tempo: “o ideal da pólis já é letra morta, perante a expansão militar da 
vizinha Macedônia” (ABRÃO, 1999, p. 67). De acordo com Neves (1981, p.58),
 “ A natureza não faz nada em vão e, dentre os animais, o homem é o único que ela dotou de linguagem. Sem dúvida a voz (phoné) é uma indicação de prazer ou de dor, e também se encontra nos outros 
animais; o lógos, porém, tem por fim dizer o que é conveniente ou 
inconveniente e, consequentemente, o que é justo ou injusto. Isso 
é, com efeito, o que é característico do homem em face dos outros 
animais: que só ele tenha o sentimento do bem e do mal, do justo e 
do injusto ou outros valores semelhantes. E é a possessão comum 
desses valores que faz uma família e um Estado.
https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/11156
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Aristóteles (1968) afirma que a linguagem se faz presente no homem pelo fato de 
ele ser um animal político, e essa vocação poderá ser cumprida por causa de tal 
recurso. É por meio da articulação entre voz e da palavra que é possível distinguiro bem do mal, aquilo que é justo do que é injusto e assim por diante. 
Na relação estabelecida entre a questão biológica e a questão do homem como 
animal político, Neves (1981) salienta alguns pontos em que o logos é posto: além 
da linguagem ser natural ao homem, pois corresponde à sua racionalidade e a 
finalidade de animal político, a crítica afirma que a linguagem é um exercício 
político e, por esse motivo, existe acordo (nomos, synthékc) na fundação da lin-
guagem. Esse acordo é ainda propiciado pela capacidade intelectual do sujeito, 
que tem a capacidade de entender a referência ao campo da linguagem. Por fim, 
assim como existe o Estado, Neves (1981) informa que existe uma forma de lin-
guagem acabada que também expressa a verdade e atinge um discurso que reflete 
a possessão comum da sociedade política perfeita.
A respeito das palavras e das coisas, há duas definições aristotélicas que apa-
recem em Categorias: os homônimos e sinônimos. Homónyma são aquelas coisas 
nas quais apenas o nome é comum, enquanto a noção do nome é ampla; e Si-
nónyma são coisas que possuem comunidade de nome e identidade de noção.
 “ Assim, os nomes são símbolos das coisas, mas a relação entre o conceito (noéma) e o sinal (semeion) ou entre a coisa (prâgma) e o nome (onoma) não é sempre de congruência. Não se cobrem sempre inteiramente con-
ceito e palavra. O que está no som é símbolo do que está na alma, mas não 
necessariamente o conceito que está no som, o significado, é congruente 
com o conceito que está na alma, embora só sob as formas de linguagem 
possam ser apreendidos os conteúdos mentais (NEVES, 1981, p. 59).
Conforme aponta o fragmento anterior, embora haja correspondência entre a 
tríade conceito, palavra e objeto, não há, obrigatoriamente, congruência. Em ou-
tras palavras, a expressão expõe a relação conceitual e, por isso, a coisa, mas entre 
a coisa e o nome não há uma relação de semelhança.
O estagirita desenvolve essa questão, com mais propriedade, em Da inter-
pretação, texto em que afirma que o está emitido nos sons da voz é símbolos 
dos estados da alma e as palavras são símbolos do que é emitido pela voz. Neves 
(1981, p.60) completa afirmando que:
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 “ [...]do mesmo modo que a escrita não é a mesma para todos os ho-mens, as palavras faladas não são também as mesmas, se bem que os estados de alma dos quais essas expressões são signos imediatos 
sejam idênticos para todos, como são idênticas também as coisas 
das quais esses estados são as imagens.
Além disso, Dinucci (2009) afirma que a teoria da linguagem de Aristóteles possui 
uma visão diferente daquela proposta pelos sofistas, principalmente, no que se 
refere à natureza do diálogo entre os sujeitos. Basta pensarmos em Górgias para 
quem a palavra tem uma profunda função persuasiva e não há espaço para fun-
ções de expressão e transmissão do discurso. Para Aristóteles, conforme expõe 
Dinucci (2009), as palavras postas no discurso são dirigidas a alguém e também 
falam de algo determinado. Na relação dialética, os dois interlocutores poderiam 
se contradizer e falar de coisas distintas a respeito do mesmo tema. A partir daí, o 
filósofo analisa dois pontos que poderiam ameaçar a significação uma no âmbito 
da própria teoria da linguagem. Segue um fragmento de sua Metafísica:
 “ E nada importa que alguém diga que [o nome] significa várias coisas, contanto que sejam em número limitado, pois a cada con-ceito se poderia dar um nome diferente; por exemplo, se se dis-
sesse que “homem” não significa uma coisa única, mas várias, das 
quais uma seria “animal bípede”, havendo, porém, vários outros 
enunciados, ainda que em número limitado; pois se colocaria um 
nome particular a cada conceito, e se não se colocasse, mas se se 
dissesse que significava infinitas coisas, é claro que não poderia 
haver raciocínio; pois não significar alguma coisa é não significar 
coisa alguma, e, se os nomes não significam nada, é impossível 
dialogar uns com os outros, e, em verdade, também consigo mes-
mo; não é possível, com efeito, que pense nada aquele que não 
pensa uma coisa [...] O nome [portanto] tem uma significação 
[...] única (ARISTÓTELES, 1970, p.11)
Se aproximarmos esse fragmento de um trecho das Refutações sofísticas, ele ficará 
mais claro:
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 “ Ora, entre nomes e coisas não há semelhança completa: os nomes são em número limitado, assim como a pluralidade das definições, enquanto as coisas são em número indeterminado. É, por conse-
guinte, inevitável que muitas coisas sejam significadas por uma mes-
ma definição e por um mesmo nome (ARISTÓTELES, 1977, p.11).
 Na esteira dessa discussão, Dinucci (2009) aponta que em Aristóteles não é pos-
sível estabelecer uma correspondência biunívoca entre coisas e palavras, isso 
porque as primeiras são em número indeterminado, e as segundas em número 
limitado. A consequência é que a mesma palavra pode significar várias coisas, e 
isso nos guia para a questão da equivocidade.
Essa questão é rapidamente resolvida por Aristóteles. Ele afirma que é preciso 
distinguir as diferentes significações dando um nome diferente para cada uma delas. 
Dinucci (2009) traz um exemplo muito elucidativo: homem e cavalo são animais, e 
o termo “animal” parece um equívoco, no sentido de que parece não significar algo 
específico, no entanto, se for acrescentado uma diferença específica a questão do 
equívoco se dissipa: homem será “animal racional” e cavalo “animal” mais a sua de-
vida diferença específica. Essa diferenciação resolve a discussão, se a palavra possuir 
um número determinado de significações, caso contrário não seria possível falar 
essa palavra e ser compreendido, pois sua significação seria sempre um equívoco.
Merece comentário, a partir de agora, as opiniões que Platão e Aristóteles 
emitiram a respeito da atividade oratória. Ambos elaboraram intensa crítica à 
sofística, no entanto cada um deles tinha um posicionamento diferente em face 
dessa mesma questão. Esse contraste tem sua raiz na divisão do próprio sistema 
filosófico platônico e aristotélico ao relacionar a linguagem e o ser.
Platão condena a oratória com base em uma negação do próprio estatuto da 
linguagem como elemento que media a consciência e a realidade. Em Crátilo, 
Sócrates afirma:
 “ Saber de que maneira deve-se conhecer ou descobrir as coisas que existem está talvez acima de minhas e de tuas forças. Contentemo--nos por convir que não é dos nomes que se deve partir, mas que 
é necessário buscar as coisas partindo antes delas próprias do que 
dos nomes (PLATÃO, 1961, p.439).
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Já Aristóteles, mesmo sabendo do caráter precário da linguagem mediante a reali-
dade que ele pretende representar, uma vez que ele já havia afirmado a infinidade 
do número das coisas, aponta a condição indispensável da linguagem para o pro-
cesso comunicativo e, por esse motivo, as palavras precisam significar uma coisa 
só, pois “se as palavras não possuem significado será impossível toda discussão 
ou conversa com os que nos cercam: mais ainda, será impossível entender-se a si 
mesmo” (ARISTÓTELES, 1970, p.20).
Se em Platão o uso da linguagem funciona como uma espécie de degradação do 
ser pelo fato de que ela o afasta do contato direto com o mundo das ideias, em Aris-
tóteles, o poder e a faculdade de simbolizar por meio da fala, dá ao homem uma di-
mensão própria que se define, sobretudo, pelo uso da linguagem e não pelo emprego 
da força. É por isso que ele afirmou que “se é vergonhoso não poder defender-se com 
o corpo, seria absurdo não envergonhar-se por não fazê-lo através da palavra, cujo 
emprego é mais próprio ao homem do que o corpo” (ARISTÓTELES, 1973, p.38).
O fato é que a problemática da linguagem coloca Aristóteles em uma posição 
distante à de Platão e dos sofistas. Ele não concorda que Platão desconfie das 
palavras e não concorda que os sofistas neguem a identificação pura e simples 
com a verdade. Para Aristóteles, a linguagem é um poderoso suporte de reflexão 
filosóficae um importante veículo por onde se expressam os valores do homem. 
E essas duas funções são legítimas e merecem atenção. Por esse motivo, Aristóteles 
ataca, sobretudo, os sofistas:
 “ E seu combate vai travar-se dentro do próprio campo daqueles: o discurso. Nesse sentido, ao refutar os que sustentavam a legitimidade de afirmações contraditórias do tipo “uma coisa pode ser e não ser ao 
mesmo tempo”, ele os alinha em dois grupos, uns assim pensam por 
ignorância, outros por convicção. Aos primeiros, declara que “não se 
deve combater sua maneira de falar, mas simplesmente dirigir-se à 
sua inteligência”. Referindo-se aos segundos, diz: “Ao contrário, o re-
médio daqueles que professam esta opinião por sistema é a refutação, 
devolver-lhes seus argumentos tanto no que diz respeito ao som e voz 
de seu sistema quanto no que diz respeito às próprias palavras que 
pronunciam”. O desmascaramento do raciocínio sofístico, portanto, 
só será possível através do estudo dos processos linguísticos com que 
aqueles constroem seu pensamento (BRANDÃO, 1976, p.21)
33
No desenrolar dessa discussão, Aristóteles vai defendendo a retórica como ele-
mento fundamental para persuasão e que, parecida com a dialética, ela também 
versa sobre questões que são comuns a quaisquer homens. Ela faz parte, desse 
modo, do campo das opiniões humanas e se constrói como instrumento de afir-
mação da liberdade de opinião. É importante frisar que a questão da opinião ser 
vista como objeto de discurso não deve ser compreendida como uma concessão 
aos sofistas, mas apenas um aspecto importante da realidade humana.
Platão discorda frontalmente, porque se interessa tão somente pela verdade 
como objeto de investigação, inclusive, conforme expõe Brandão (1976, p.23), há 
o confronto entre duas espécies de retórica: “uma reveladora da essência das coi-
sas, outra (esta condenável) produtora de aparências; portanto criadora de ilusão”. 
Após essa breve discussão, passamos, agora, para algumas considerações a 
respeito da linguagem na Antiguidade tardia e na Idade Média.
De Porfírio a Rousseau: 
Mais Alguns Aspectos da Linguagem
De maneira geral, nossa Era se inicia com o Ocidente sendo dominado pela po-
lítica do Império Romano e com a estruturação da Igreja Católica, seus dogmas 
e teses fundantes. Quando pensamos na Idade Média, nunca é demais destacar 
que os primeiros padres tinham como fonte de pesquisa, a tradição antiga para 
estruturar seus estudos. Isso quer dizer que as questões vão se alinhavando no 
raio da história e entrando para a tradição filosófica devido a revisão, a reapro-
priação e ressignificação do que quer que seja. Com a questão da linguagem não 
foi diferente. É nesse período que se faz presente o “problema dos universais”, 
questão importante para o estudo da linguagem. Porfírio (234-304/309), filóso-
fo neoplatônico, em Isagoge, comenta o estudo das Categorias, em Aristóteles, 
elaborado no final da segunda aula. Porfírio (apud LEITE JR, 2001, p. 17) afirma:
 “ Antes de mais, no que se refere aos gêneros e às espécies, a questão é saber se eles são realidades em si mesmas, ou apenas simples con-cepções do intelecto, e, admitindo que sejam realidades substanciais, 
se são corpóreas ou incorpóreas, se enfim, estão separadas ou se 
apenas subsistem nos sensíveis e segundo estes.
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34
 Porfírio (apud LEITE JR, 2001, p. 17) com-
plementa afirmando que “é um assunto de 
que evitarei falar; é um problema muito 
complexo, que requer uma indagação em 
tudo diferente e mais extensa”. Todavia, ele 
expõe a questão de maneira clara. Median-
te aos gêneros e as espécies, conhecidos 
como termos universais, eles são realidade 
subsistente em si mesma (res, coisa), e se 
for o caso: a) são corpóreas ou incorpóreas; 
b) ou se estão separadas ou subsistentes nas 
coisas visíveis. Elas podem ser, ainda, con-
cepções do espírito, neste caso são vox, isto 
é, apenas vocábulos.
A questão do “problema dos univer-
sais” começa, de acordo com Simon (1990, 
p.33), da “dúvida relativa ao ser dos uni-
versais”. Em outras palavras, se a classifica-
ção dos universais, gêneros e espécies em 
que as coisas são classificadas, no sentido 
linguístico, como “homem” e “cavalo”, para 
retomar o exemplo aristotélico, possuem 
status ontológico. Nef (1995, p.63) com-
plexifica a discussão ao solicitar que pen-
semos no termo humanidade. 
 “ O termo “humanidade” é um termo universal ao qual recorremos para fa-
lar de “todos os homens”. 
Sabemos que existe o 
homem singular (eu, o 
professor da faculdade, o 
padeiro da esquina etc.) e 
que este é um indivíduo 
Descrição da Imagem: na gravação, 
feita em preto e branco, está Porfírio. 
Ele está sentado e uma bancada, cujo 
centro possui uma placa intitulada Por-
phire Sophiste (Porfírio Sofista), impede 
que observemos a parte inferior de seu 
corpo, a parte inferior de seu corpo. Ele 
usa um turbante na cabeça, veste uma 
espécie de túnica de mangas longas e 
tem barba de tamanho médio. Nela há 
alguns livros e Porfírio faz anotações.
Figura 4 – Porfírio sofista, em uma grava-
ção francesa do século XVI / Fonte: Wiki-
media Commons ([2022]c, on-line).
35
concreto. Agora, o termo “humanidade” se refere a uma coisa con-
creta ou não? Esta é a questão de fundo do problema dos univer-
sais e que tem implicações nas diversas áreas do conhecimento. As 
respostas a esta questão variam conforme a opção que é tomada. 
Entretanto, “todas essas perguntas giram, pois, em torno de uma 
interrogação sobre a possibilidade de nomear o universal e sobre a 
natureza dos meios linguísticos e conceituais que tornam possível 
uma tal nomeação” (NEF, 1995, p. 63).
Boécio (480-524/525) foi um dos primeiros filósofos que retomou essa questão. Ele 
tinha interesse em traduzir os textos de Aristóteles e de Platão, pois desejava comentar 
a similitude entre o pensamento dos dois filósofos. A questão das universais possui 
duas vertentes, uma platônica e outra aristotélica, e Boécio deu duas contribuições 
diferentes ao tema. Na introdução para as Categorias, de Aristóteles, Boécio (apud 
GILSON, 2001) informa que os termos universais não são coisas individuais, pois são 
comuns a muitos indivíduos, e o termo da espécie “animal” é um desses exemplos. E 
o gênero está relacionado à espécie, o que torna impossível que um universal seja res. 
Essa proposta gera conflitos. E Gilson (2001, p.164) expõe esses conflitos:
 “ Mas suponhamos, ao contrário, que os gêneros e as espécies re-presentados por nossas ideias gerais (universais) não sejam mais que simples noções do espírito. Em outras palavras, suponhamos 
que absolutamente nada corresponda, na realidade, às ideias que 
temos deles; nessa segunda hipótese, nosso pensamento não pen-
sa nada pensando-as. Mas um pensamento sem objeto é tão só 
um pensamento de nada; não é sequer um pensamento. Se todo 
pensamento digno desse nome tem um objeto, é preciso que os 
universais sejam pensamentos de alguma coisa, de modo que o 
problema de sua natureza recomeça imediatamente a se colocar.
Boécio tenta resolver esse engodo, afirmando que o espírito, em seu processo de 
recomposição dos dados que chegam até ele, pode encontrar nos seres corpóreos 
os gêneros e as espécies. E quando estão nos seres incorpóreos são tidos como 
abstratos. Ademais, Gilson (2001, p.166), afirma que esse posicionamento está 
diferente do que aparece no livro V, da Consolação da Filosofia. Nesse livro, Boé-
cio afirma que “a inteligência vai além dos dados do sentido e contempla a forma 
pura e simples em si mesma, a ideia (ou o universal) configurando-se na visão 
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UNIDADE 1
36
pura do pensamento”. Dessa maneira, fica claro que essa revisão do pensamento 
está intimamente relacionada com a filosofia de Platão, na qual o universal existe 
por si, independente da coisa sensível.
Na esteira das discussões a respeito dos problemas das universais, merece desta-
que a contribuição de Pedro Abelardo (1079-1142), cuja vida, inclusive o romance 
escandalosocom a abadessa Heloísa de Argenteuil, foi contada na História de mi-
nhas calamidades. Abelardo nega que o universal seja uma coisa ou que ele subsista 
nas coisas corpóreas, e com essa afirmação ele contraria o posicionamento de Boécio. 
E ele diz isso porque parece confuso afirmar que o mesmo universal “animal” possa 
ser tranquilamente aplicado ao “homem” e ao “cavalo”, uma vez que tratam-se de es-
pécies diferentes. Para Abelardo, professor e exímio lógico, tal afirmação invalidaria 
o princípio da identidade da lógica. A proposta estaria pois em pensar o universal 
não como uma coisa, mas como predicado. Gilson (2001, p.436) explica o posicio-
namento de Abelardo a respeito dessa questão:
 “ A fonte de todas essas dificuldades é a ilusão de que os universais sejam coisas reais, senão em si mesmo, pelo menos nos indivíduos. Não é a realidade em si das ideias de Platão que Abelardo ataca, mas a realidade 
do universal do gênero em suas espécies, ou do universal da espécie 
em seus indivíduos. O motivo disso é simples. O universal é o que se 
pode predicar de várias coisas; ora, não há coisas, tomadas individual 
ou coletivamente, que se possam predicar de várias outras: cada uma 
delas não é mais do que ela mesma e o que ela é. Donde a conclusão 
decisiva de Abelardo: já que esse gênero de universalidade não pode 
ser atribuído às coisas, resta atribuí-lo às palavras. Os gramáticos dis-
tinguem os termos universais dos termos particulares ou singulares. 
Um termo particular é predicável de um só e único indivíduo, Sócrates, 
por exemplo; um termo universal é aquele que se escolhe para predicar 
uma pluralidade de indivíduos, tomados um a um aos quais se aplica 
devido à sua natureza. A universalidade não é, portanto, nada mais que 
a função lógica de certas palavras.
Em outras palavras, os universais só existem no intelecto, mas, simultanea-
mente, estabelecem relação com as coisas particulares na medida em que os 
significados são dados. Assim sendo, “é como significado que os universais 
subsistem às coisas” (ABRÃO, 1999, p.108). Todas essas considerações que, 
37
de certo modo, impulsionaram os estudos lógicos, foram feitas sem vínculos 
com a teologia. Paradoxalmente, elas fornecem à teologia um modelo de ar-
gumentação fundamental para a escolástica: o confronto entre duas opiniões 
com o intuito de extrair uma solução satisfatória.
“Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo”.
(Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus, § 5.6)
PENSANDO JUNTOS
Realizando mais um salto temporal, chegamos a Guilherme de Ockham (1285-1347), 
no século XIV, que dará mais uma contribuição para essa discussão. Ele não aceita que 
os universais possam existir fora da mente, uma vez que são conceitos com significa-
dos convencionais, sem status ontológico. Isso quer dizer que podemos mencionar 
relações, quantidades sem precisar assumir que os termos universais sejam entidades 
reais. O já citado exemplo da palavra “humanidade” não é uma entidade real que está 
fora da mente do sujeito, mas um vocábulo que a convenção permite que utilizemos 
para fazer referência a “qualidade do homem” ou “a todos os homens”. 
 “ Os gêneros e as espécies não subsistem fora da alma, mas estão somente no intelecto, porque são apenas intenções ou conceitos formados pelo intelecto; eles exprimem as essências das coisas e as 
significam, mas não são as coisas, assim como o signo não é o seu 
significado. Eles não são parte das coisas, como também a pala-
vra (vox) não é uma parte do seu significado. Eles podem servir de 
predicados para as coisas, mas não por aquilo que eles são: de fato, 
quando um gênero é atribuído a uma espécie, gêneros e espécies 
não se apresentam por si mesmos porque não se apresentam sim-
plesmente (simpliciter), mas pessoalmente (personaliter) e assim se 
apresentam em lugar de seus significados, que são coisas singulares; 
mas esses gêneros e espécies são atribuídos às coisas representando 
as próprias coisas que eles significam. Assim, na proposição ‘Sócrates 
é um animal’, a palavra ‘animal’ não se apresenta por si mesma, mas 
em lugar de outra coisa: o próprio Sócrates. Mas, embora o que 
contém o intelecto, segundo o pensamento dos filósofos e segundo 
a verdade, sejam os gêneros e as espécies, além delas, as próprias pa-
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lavras que lhe correspondem podem, de certo modo, ser chamadas 
gêneros e espécies, na medida em que tudo o que é significado por 
um conceito ou intenção na alma é significado por uma palavra, e 
inversamente; isso porém segue unicamente a decisão do instaura-
dor da linguagem [Suma Lógica] (NEF, 1995, p. 77).
Ockham também desenvolve a teoria da suposição. Essa teoria explica como uma 
proposição possui objetos que significam as coisas por meio de termos. Em outras 
palavras: o conceito é o signo mental que faz as vezes às coisas que existem na 
realidade. Gilson (2001, p.81) afirma que há três casos de suppositio:
 “ 1- Suppositio materialis: o termo significa a própria palavra que o constitui; exemplo: homem é uma palavra. 2- Suppositio personalis: o termo significa indivíduos reais; exemplo: o homem corre. 3- Su-
ppositio simplex: o termo significa algo comum; exemplo: homem é 
uma espécie. “Homem” não é um indivíduo, mas uma comunidade, 
aquilo que é comum.
De acordo com Morujão (2006, p.317), a suppositio simplex é a convenção de “um 
termo resultante de um ato mental que abstraiu das características particulares 
de todos os indivíduos pelos quais supõe”. Isso quer dizer que para Ockham, o 
significado de uma proposição com termos universais poderá ser explicado por 
meio de proposições que possuam termos singulares. Desse modo, a proposição 
“o homem é um animal” é verdadeira se puder afirmar a proposição “isto é um 
animal”. Ou seja, “um conceito universal, portanto, é um signo”.
A chegada do Renascimento é marcada por um forte interesse nas questões 
que envolvem a teoria do conhecimento e da filosofia prática. Os estudos sobre 
a significação da linguagem acabam perdendo a força, bem como as discussões 
acerca da Lógica. Todavia, com o Humanismo e com a expansão das línguas 
vernáculas, as investigações no campo da linguagem se associam à origem do 
conhecimento e à gênese das ideias. Dentre as várias contribuições, pelo menos 
três filósofos merecem destaque: Hobbes, Locke e Rousseau.
Thomas Hobbes (1588-1679) tem como ponto de partida de suas reflexões 
filosóficas a “devoradora” natureza humana ou o homem no estado de natureza. 
É dele o célebre pensamento: “que ninguém se engane: os homens não são ir-
mãos. Ao contrário, são inimigos, capazes de matar um ao outro. O homem, na 
39
verdade, é o lobo do homem” (ABRÃO, 1999, p.233). No campo das reflexões 
a respeito da linguagem, esse filósofo inglês, afirma que não há entidades reais 
universais, mas nomes que podem ser atribuídos a várias coisas. Um universal 
é tão somente um nome que, às vezes, é determinado por afetação direta ou por 
pronomes demonstrativos.
Hobbes (2008) também foi um profundo analista do Estado. Para ele, a origem do 
poder político e do próprio Estado deveriam ser procurados na natureza, e não em Deus, 
mesmo que este seja o resultado da criação de Deus. A questão da linguagem aparece 
nessa análise, pois ele distingue o uso da palavra no discurso verbal e no mental:
 “ O uso geral da palavra é transformar nosso discurso mental em dis-curso verbal e o encadeamento dos nossos pensamentos em enca-deamento de palavras; isso em vista de duas vantagens: primeiro, a 
consecução dos nossos pensamentos [...] o outro uso consiste, quando 
muitos se servem das mesmas palavras, no fato de que os homens 
significam um ao outro, pela organização e relação dessas palavras, o 
que eles concebem ou pensam de cada questão (HOBBES, 2008, p. 25).
De acordo com o fragmento do Leviatã, anteriormente exposto, a primeira van-
tagem refere-se às marcas determinantes na mente do agente com o intuito de 
que ele se lembre de alguma coisa e, na segunda,são os signos. Estes expressam 
os sentimentos dos homens - portanto, também as mentiras, as possíveis mani-
pulações, ofensas etc. Tais expressões são dirigidas a outros homens.
Na esteira dessas discussões, Abrão (1999) afirma que a linguagem é, em Hob-
bes, um instrumento visto para diminuir a perda das sensações. Ele compreende 
que as palavras são meras convenções, mas servem para fixar a imaginação e a 
memória. E nesse processo de realizar operações de associações e decomposições 
de conteúdos pode resultar em possibilitar o armazenamento de conhecimento.
A leitura que John Locke (1632-1704), filósofo inglês conhecido como pai 
do Liberalismo, faz do homem é muito mais complacente que a de Hobbes. Para 
Locke, o que importa é a “soberania indivisível que garanta a paz” (ABRÃO, 1999, 
p.239). Não importa se essa paz é representada por Carlos I ou por Cromwell.
Em Ensaio sobre o entendimento humano, de 1689, ele afirma que a expe-
riência é a única fonte de ideias. Uma criança, por exemplo, só diferencia o doce 
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do amargo por causa da experiência. Dessa forma, a palavra exprime uma ideia. 
A relação é tão tênue que ele afirma:
 “ Há uma relação tão estreita entre as ideias e as palavras, e nossas ideias abstratas e nossas palavras gerais têm uma relação tão cons-tante que é impossível falar clara e distintamente do nosso conhe-
cimento, que consiste inteiramente em preposições, sem conside-
rar primeiramente a natureza, o uso e a significação da linguagem 
(LOCKE apud NEF, 1995, p. 110)
Como se observa, Locke tem interesse pela linguagem, tanto é que na citada obra, 
ele apresenta uma divisão das ciências em: (1) física ou filosofia natural; (2) em 
prática; e em (3) semiótica ou conhecimento dos signos. Essa última estuda “a 
natureza dos signos dos quais o espírito se serve para entender as coisas, ou para 
comunicar o seu conhecimento aos outros” (NEF, 1995, p. 110). 
Nessa esteira, Locke compreende que a efetivação dos sons articulados necessita do 
uso de signos mentais, cunhado por ele como concepção interior. Tais signos sinalizam, 
conforme Nef (1995), as marcas que temos no espírito a fim de estabelecer a comunica-
ção com outros homens. É por meio das palavras que essa expressão é possível:
 “ Por conseguinte, é das ideias daquele que fala que as palavras são sig-nos, e ninguém pode aplicá-las imediatamente como signos a nenhu-ma outra coisa, senão às ideias que ele próprio tem no espírito, pois 
usá-las de outra forma seria torná-las signos das nossas próprias con-
cepções e aplicá-las, entretanto, a outras ideias, isto é, fazer ao mesmo 
tempo com que elas fossem e não fossem os signos de nossas ideias, e 
por isso mesmo que elas não significassem nada (NEF, 1995, p. 110).
As discussões que Locke empreende a respeito da linguagem podem nos levar a 
pensar que ele a trata como privada, isto é, limitada ao falante, pois, como afirma-
mos anteriormente, para esse filósofo as palavras são signos das próprias ideias. 
Problematizamos: como haveria, então, comunicação entre os indivíduos se a 
linguagem está a serviço da representação mental do falante? Locke resolve esse 
engodo afirmando que a palavra tem a função de fazer referências às coisas, isto 
é, além de ideias, as palavras representam coisas no mundo.
41
Outra questão se desprende dessa argumentação: como são formadas as 
ideias gerais ou universais? A respeito disso,
 “ Conceitos universais são, para Locke, ideias abstratas que são for-madas a partir de ideias particulares. Uma coisa ainda que pode mostrar que essas ideias abstratas, designadas por certos nomes, 
são as essências que concebemos nas coisas, é que tem o hábito de 
dizer que elas são inengendráveis e incorruptíveis, o que não pode 
ser verdadeiro sobre as constituições reais das coisas, que come-
çam e perecem com elas. [...] Pois seja o que for que aconteça com 
Alexandre e com Bucéfalo, sempre se supõe que as ideias as quais 
ligamos aos nomes de homem e de cavalo continuam as mesmas, 
e por conseguinte, as essências dessas espécies são conservadas em 
sua integridade, quaisquer que sejam as mudanças que aconteçam 
a algum indivíduo, ou mesmo a todos os indivíduos dessas espécies. 
[...] Daí se segue, evidentemente, que as essências não são imutáveis; 
que essa doutrina da imutabilidade das essências é fundada sobre a 
relação que é estabelecida entre essas ideias abstratas e certos fun-
dos considerados como signos dessas ideias, e que ela será sempre 
verdadeira, enquanto o mesmo nome pode ter a mesma significação 
(Ensaio, III – 19) (LOCKE, 1999 apud NEF, 1995, p. 110).
Esse posicionamento de Locke abriu margem para inúmeras discussões sobre a 
origem da linguagem. Duas correntes de pensamento se instauraram: uma mais ra-
cionalista e outra mais emotiva. De visão mais racional, destacamos a contribuição 
de Pierre de Maupertuis (1698-1759), filósofo francês, que recorreu a uma análise 
metafísica e propôs a seguinte situação: após um sono, o sujeito acordaria sem ne-
nhuma lembrança e classificaria tudo o que via a seu redor. Como isso seria feito?
 “ Suponho que, com as mesmas faculdades que tenho de perceber e raciocinar, tivesse perdido as lembranças de todas as percepções que eu tivesse tido até aqui, e de todos os raciocínios que eu fiz; 
que depois de um sono que me teria feito esquecer tudo, eu me 
encontrasse subitamente atingido por percepções que o acaso me 
apresentaria; que a minha primeira percepção fosse, por exemplo, 
aquela que experimentou hoje, quando digo vejo uma árvore; que 
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depois eu tivesse a mesma percepção que eu tenho hoje quando 
digo vejo um cavalo; logo que eu recebesse essas percepções, eu 
veria imediatamente que uma não é a outra, procuraria distingui-
-las, e como eu não teria imediatamente que uma não é a outra, 
procuraria distingui-las, e como eu não teria linguagem formada, 
eu as distinguiria por algumas marcas e poderia me contentar com 
essas expressões A e B, para as mesmas coisas que eu entendo hoje, 
quando eu digo vejo uma árvore, vejo um cavalo (NEF, 1995, p. 119).
De linhagem mais emotiva, merece destaque a visão de Jean-Jacques Rousseau 
(1712-1778), cuja contribuição encerra, longe de esgotar, esse nosso percurso 
acerca dos estudos filosóficos da linguagem. No Ensaio sobre as origens da lín-
gua, esse filósofo e político genebrino, também conhecido por ser uma das prin-
cipais figuras do Iluminismo e um precursor do Romantismo, discorre a respeito 
da linguagem relacionando as línguas humanas, com a paixão e com a história. 
Acompanhemos um trecho:
 “ Com as primeiras vozes, formaram-se as primeiras articulações ou os primeiros sons, segundo o gênero da paixão que ditava uns ou outros. A cólera arranca gritos ameaçadores, que a língua e o palato 
articulam, mas a voz da ternura é mais suave, é a glote que a modifica 
e essa voz se torna um som. Só os seus tons são mais frequentes e 
mais raros, as inflexões mais ou menos agudas segundo o sentimen-
to que acrescenta. Assim, a cadência e os sons que nascem com as 
sílabas; a paixão faz falar todos os órgãos, e adorna a voz com todo 
o seu brilho. Assim, os versos, os cantos, a palavra têm uma origem 
comum (ROUSSEAU, 1999, p. 303).
A linguagem poética que ele utiliza para escrever esse ensaio filosófico será uma 
marca forte do Romantismo. Rousseau (1999) afirma que a linguagem se associa, 
intimamente, às paixões. E que a primordial linguagem humana, universal e enér-
gica é o grito da natureza. Para finalizar, ele não se propõe a explicar o surgimento 
das ideias gerais que possuímos, todavia afirma que tais ideias resultam de um 
processo que envolve a capacidade da fala para depois estabelecer ideias e é por 
isso que “os nomes próprios precedem os substantivos” (NEF, 1995, p. 127).
43
Todas essas contribuições, como se pode imaginar, foram fundamentais para 
que a Linguagem ganhasse verdadeiro estatuto de discussão filosófica. A respeito 
dessa questão, trataremos na próximaunidade.
No diálogo Sofista, Platão aborda a possibilidade do discurso falso, distinguindo dois níveis:
i) O de nomear (seria o nível de sintaxe, combinação de nomes [onomata] e verbos [rhema]); 
ii) E o de dizer (seria o âmbito da semântica, das condições em que um enunciado [logos] 
é verdadeiro e significativo). 
A preocupação está no não ser. Pode-se negar um verbo, mas não um nome. A negação 
de “João joga futebol” é “João não joga futebol”; não faria sentido dizer “Não João joga fute-
bol”. O que seria “não joão”?! Por isso, o ser deve ser enunciado. Platão afirma que temos, 
para exprimir o ser (ousia), algo como dois gêneros de signos, eles são chamados nomes 
ou verbos. O verbo ‘exprime as ações’ e o nome se aplica aos ‘sujeitos que fazem essas 
ações’ (262a). Com isso, temos um discurso, mesmo que seja breve, ele está completo. 
Este discurso é o que chamamos de “proposição atômica”, sem disjunção (o nosso “ou”) 
ou conjunção (palavras que conectam orações; exemplo: “que”, “contudo”, “logo” etc.).
SILVA, L. D. Filosofia da Linguagem. Indaial: Uniasselvi, 2013.
EXPLORANDO IDEIAS
Escolástica e o estudo da linguagem
O podcast consiste em uma breve explicação a respeito 
da Escolástica e o estudo da linguagem (de que trata o 
trivium), para depois examinar a realidade das coisas (o 
quadrivium). A partir daí, haverá a problematização acerca 
da relação entre as palavras e as coisas. Por fim, consider-
ações e leitura de fragmentos do romance O nome da rosa, 
de Umberto Eco, serão feitas.
NOVAS DESCOBERTAS
O espelho (1975), de Andrei Tarkovski, filme citado na abertura dessa 
unidade de estudos, merece ser apreciado por você. Sugiro que, para 
aguçar a sua curiosidade, assista a crítica A força encantatória e som-
bria de O espelho, elaborada pelo crítico Arthur Tuoto, conforme link 
abaixo: https://www.youtube.com/watch?v=JtvX7BB_ZD8 
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https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13570
https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/9715
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Prezado (a) Acadêmico (a), agora que chegamos ao final da primeira unidade de 
estudos, ficou explícito que o intuito dela foi norteá-lo(a) pelas discussões iniciais 
a respeito da Filosofia da Linguagem. Nas próximas unidades, nos deteremos, 
mais pormenorizadamente, na contribuição de alguns nomes que, de fato, trans-
formaram esse assunto em uma área específica de reflexão e, por conseguinte, 
transformaram a Filosofia da Linguagem em uma disciplina com corpo próprio. 
No entanto, você já possui capacidade de refletir, mesmo que inicialmente, sobre 
a natureza e algumas características da Linguagem. Pensando nisso, é hora de 
partir para a prática: leia o fragmento a seguir: “Subsistunt ergo circa sensibiliza 
intelliguntur autem praeter corpora, eles subsistem em ligação com as coisas 
sensíveis, mas os conhecemos à parte dos corpos” (GILSON, 2001, p. 164)
De que maneira você entende que esse fragmento discute aspectos do conteúdo 
apresentado no decorrer da unidade, e de que maneira há relação entre esse frag-
mento e o poema Memória, de Carlos Drummond de Andrade, que segue abaixo?
Memória
Amar o perdido 
deixa confundido 
este coração.
Nada pode o olvido 
contra o sem sentido 
apelo do Não.
As coisas tangíveis 
tornam-se insensíveis 
à palma da mão.
Mas as coisas findas, 
muito mais que lindas, 
essas ficarão.
ANDRADE, C. D. d. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2002.
45
Que tal avaliar os conhecimentos adquiridos na unidade? 
1. O Crátilo, de Platão, pode ser dividido em duas partes: Hermógenes e Sócrates 
ocupam três partes do diálogo, e Crátilo e Sócrates, a última parte. A respeito dessa 
obra e das discussões a respeito da linguagem, considere as afirmativas a seguir:
I - A oposição entre nomos e physis era comum na época e Platão traz a questão 
nesse diálogo;
II - No decorrer do diálogo, Sócrates cita mais de uma centena de nomes com o 
intuito de criticar o naturalismo linguístico;
III - Para Platão, o discurso possui caráter único e, por esse motivo, é sempre as-
sertivo e correto;
IV - Para Platão, o estudo das coisas deve vir da própria coisa e não por meio de 
seus nomes.
 Está correto o que se afirma em:
a) I e II, apenas.
b) I e III, apenas.
c) I, II e IV, apenas.
d) II, III e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.
2. De modo geral, a obra de Aristóteles, além de ser uma das bases da filosofia ociden-
tal, é sempre relida e reinterpretada. Com a contribuição desse filósofo a respeito do 
campo da linguagem não é diferente. No decorrer dos séculos, muitas foram as inves-
tiduras acerca do tema. Sobre essa questão, considere as afirmações que seguem:
I - Crátilo, de Platão, é uma releitura da Metafísica aristotélica, com o estabeleci-
mento das categorias gramaticais;
II - Górgias se baseou em vários diálogos aristotélicos para construir a noção se-
mântica de sua proposta;
III - Porfírio, ao reler Categorias, de Aristóteles, traz à baila, em Isagoge, o problema 
dos universais;
IV - Boécio afirma em sua leitura de Aristóteles que os termos universais não são 
coisas individuais;
V - Segundo Guilherme de Ockham, os termos universais são significados conven-
cionais e não possuem status ontológico.
46
 É correto apenas o que se afirma em: 
a) I, II e III.
b) I, II e IV.
c) I, III e IV.
d) II, IV e V.
e) III, IV e V.
3. A linguagem é uma preocupação constante em Aristóteles, embora ela não tenha 
recebido um tratado específico. No entanto, se pensarmos, por exemplo, em suas 
discussões a respeito da lógica ou da literatura, essas considerações ganham espaço. 
A respeito da questão da linguagem, em Aristóteles, considere as afirmativas a seguir:
I - Em sua Poética, o estagirita traz o enunciado e os elementos que o compõe;
II - O nome e o verbo são diferenciações feitas por Aristóteles em Da interpretação;
III - O zôon politikón, discutido na Política, está totalmente ligado ao ato de falar;
IV - A homónyma e a sinónyma são duas definições que aparecem em Categorias.
Está correto o que se afirma em:
a) I e II, apenas
b) I e III, apenas
c) I, II e III, apenas
d) II, III e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.
2Frege, Russell e Wittgenstein: a Linguagem no 
Centro da Reflexão 
Filosófica
Dr. Diego Luiz Miiller Fascina
Oportunidades de aprendizagem: nesta Unidade de seu material de 
estudos, um salto significativo é dado quando elaboramos uma com-
paração com a Unidade I: nesse momento, aspectos do pensamento 
de três filósofos, a citar Gottlob Frege, Bertrand Russell e Ludwig Witt-
genstein serão comentados, pois algumas de suas obras representam 
as preocupações com o estudo da linguagem no âmbito da investiga-
ção filosófica. É a partir dessa tríade, cujas obras dialogam, em alguns 
momentos entre si, que a Filosofia da Linguagem ganha estatuto de 
disciplina e passa a ser um campo rico e vasto para análise.
UNIDADE 2
48
Leia o poema a seguir:
Ou isto ou aquilo
 
Ou se tem chuva e não se tem sol, 
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel, 
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão, 
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa 
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, 
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… 
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo, 
e saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda 
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
MEIRELES, C. Ou isto ou aquilo. Ilustrações de Thais Linhares. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.
49
O poema é de autoria de Cecília Meireles, escritora modernista que dedi-
cou parte de sua produção ao público infantil. Nesse poema, notamos alguns 
possíveis dilemas, talvez relacionados a alguma criança: fazer escolha sempre 
envolve perder algo. A estrutura do poema, formada por estrofes de dois ver-
sos, reforça esse esquema dual, dialético e pouco conclusivo. Assim é, também, 
com a Linguagem. As palavrassão objetos momentâneos e dependendo do 
contexto, elas possuem significados distintos. Aliás, elas só significam algo 
dependendo do contexto em que estão inseridas. Você já parou para pensar 
sobre isso? Se não, esse, talvez, seja um bom ponto de partida para refletir a 
respeito dos assuntos abordados nesta unidade.
Quantas espécies de frases existem? Afirmação, pergunta e comando, talvez? 
– Há inúmeras de tais espécies: inúmeras espécies diferentes de emprego daquilo 
que chamamos de “signo”, “palavras” e “frases”. E essa pluralidade não é nada fixo, 
um dado para sempre; mas novos tipos de linguagem, como poderíamos dizer, 
nascem e outros envelhecem e são esquecidos. (Uma imagem aproximada disto 
pode nos dar as modificações da matemática).
O termo “jogo de linguagem” deve aqui salientar que o falar da linguagem é 
uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida.
Imagine a multiplicidade dos jogos de linguagem por meio destes exemplos 
e outros, segundo Wittgenstein (1999, p. 35):
 ■ Comandar, e agir segundo comandos;
 ■ Descrever um objeto conforme a aparência ou conforme medidas;
 ■ Produzir um objeto segundo uma descrição (desenho);
 ■ Relatar um acontecimento;
 ■ Conjeturar sobre o acontecimento;
 ■ Expor uma hipótese e prová-la;
 ■ Apresentar os resultados de um experimento por meio de tabelas e dia-
gramas;
 ■ Inventar uma história ou ler. 
Prezado (a) Acadêmico (a), para iniciarmos nossas discussões a respeito da Unidade 
II, leia, a seguir, O quereres, música de Caetano Veloso, lançada em 1984, no disco 
Velô. Observe as relações ambíguas existentes entre o desejo do eu lírico. Aliás, é a 
marca do desejo a ambiguidade. Verifique como a linguagem constrói essas relações 
duais e tente estabelecer, por meio de uma análise, um sentido para a composição.
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UNIDADE 2
50
Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
O quereres (Caetano Veloso)
51
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
Fonte: Letras ([2022], on-line). 
Após a leitura de O quereres, reflita a respeito do desejo do eu-lírico. Afinal, o 
que é que ele quer? Essas discussões ficarão mais claras na próxima unidade, no 
entanto, parta da relação pouco usual existente entre desejos que parecem con-
traditórios e reflita: a linguagem funciona de uma única maneira? Ela é capaz de 
nomear o que de fato, desejamos?
UNICESUMAR
UNIDADE 2
52
A lógica de Frege
Descrição da Imagem: 
trata-se do filósofo Gottlob 
Frege em foto preto e bran-
co que cobre o rosto até 
pouco abaixo dos ombros. 
O filósofo é jovem, está 
vestido de terno, apresenta 
cabelos lisos e vasta barba. 
Olha, fixamente, para um 
ponto que não é revelado 
ao espectador. 
Conforme vimos na primeira unidade, a linguagem era tratada de modo trans-
versal pelos filósofos, embora ela tenha sido, desde sempre, uma base para as 
discussões de cunho filosófico. É, apenas, com Gottlob Frege (1848-1925), Ber-
trand Russell (1872-1970) e Ludwig Wittgenstein (1889-1951) que a filosofia da 
linguagem se torna uma disciplina em torno de uma temática: sentido e referência 
e, de modo mais amplo, em torno das relações existentes entre linguagem, pensa-
mento e mundo. Pensemos, mesmo que concisamente, na contribuição de cada 
um desses filósofos e em alguns aspectos do diálogo existente entre suas obras 
em relação à temática aqui estudada.
“A palavra é o meu domínio sobre o mundo” 
(Clarice Lispector)
PENSANDO JUNTOS
Figura 1 – Gottlob Frege
Fonte: Wikimedia Commons 
([2022]a, on-line).
53
Frege foi um matemático e filósofo alemão que lecionou, até o seu falecimento, 
na Universidade de Jena. As publicações de Frege são poucas: há, dentre outros, 
Conceitografia (1879), Fundamentos da Aritmética (1884) e alguns artigos cien-
tíficos que incluem textos clássicos que nos interessam nesse momento: Sobre o 
Sentido e a Referência (1892) e O pensamento (1918).
 “ Apesar disso, a obra de Frege é fundamental para o desenvolvimento da filosofia no século XX, podendo ser considerada um marco inicial da filosofia analítica. Frege exerceu enorme influência sobre o pen-
samento de autores importantes dessa tradição, como, por exemplo, 
admitem explicitamente Wittgenstein e Carnap. Ele é também o res-
ponsável por inovações técnicas e conceituais que permitiram o gran-
de desenvolvimento da lógica no século passado, desenvolvimento 
esse que é indissociável da história da tradição analítica. Além disso, a 
sua obra introduziu as questões e inaugurou o modo contemporâneo 
de fazer filosofia em diversas áreas, como, por exemplo, filosofia da 
lógica, filosofia da matemática e filosofia da linguagem, além de ter 
enriquecido sensivelmente o debate filosófico em áreas centrais como 
a epistemologia e a metafísica (MIRANDA, 2011, p.11).
Miller (2010) colabora com a discussão anteriormente pontuada, afirmando que 
Frege estabelece, no campo da filosofia da linguagem, a sua maior contribuição: a 
invenção da linguagem da lógica simbólica moderna. A lógica, como bem sabe-
mos, é o estudo do argumento. Nessa esteira, o argumento considerado válido é 
aquele cujas premissas, se forem verdadeiras, asseguram a validade da conclusão. 
É impossível que todas as premissas sejam verdadeiras e mesmo assim falsa a 
conclusão. O contrário dessa situação é o seguinte: o argumento considerado 
inválido é aquele cujas premissas não garantem a validade da conclusão, ou seja, 
há circunstâncias possíveis em que todas as premissas são consideradas verda-
deiras e falsa a conclusão. A Lógica nos oferece métodos para observar esses 
dados e classificá-los como válidos ou inválidos. Pensemos no argumento abaixo, 
seguindo as orientações de Miller (2010):
1. Se Maria tomou o remédio, então ela se sentirá melhor;
2. Maria tomou o remédio, portanto;
3. Ela se sentirá melhor.
UNICESUMAR
UNIDADE 2
54
 Podemos transpor o argumento anterior para a lógica fregeana, em que as letras 
P e Q abreviam as sentenças da argumentação:
P: Maria tomou o remédio;
Q: Maria se sentirá melhor.
A situação condicional, assevera Miller (2010), isto é, o “se” e “então” é simbolizada 
pela flecha “->” e é dessa forma que o argumento é simbolizado:
P -> Q, portanto, Q.
Miller (2010) informa que o condicional, cujo símbolo é uma flecha, é também 
conhecido como um conectivo sentencial, pois permite o estabelecimento de 
uma sentença complexa (P ->Q) ao enlaçar duas maissimples (P, Q). Por meio da 
exposição desse rápido vocabulário, é possível vários argumentos da linguagem 
natural para a estrutura lógica. Por exemplo:
4. Se o Rangers venceu e o Celtic perdeu, então Fergus está infeliz;
5. Fergus não está infeliz; portanto,
6. Ou o Rangers não venceu ou o Celtic não perdeu.
As proposições para essas sentenças a seguir:
P: O Rangers venceu;
Q: O Celtic perdeu;
R: Fergus está infeliz.
 A tradução desse elemento se daria, pois da seguinte maneira:
(P&Q) ->R; portanto –P v –Q
Esse vocabulário rapidamente descrito anteriormente pertence à lógica propor-
cional. Isso se dá pelo fato de que os blocos que constroem o argumento são 
sentenças que apresentam completude nas proposições. Todavia, é preciso ter em 
mente que há, como assevera Miller (2010), muitos argumentos da linguagem 
natural que são válidos, mas que não são “capturados” pela tradução da linguagem 
lógica proposicional. O exemplo, a seguir, ilustra essa discussão:
55
7. João é homem;
8. Todos os homens são mortais, portanto;
9. João é mortal.
 Observe que essas sentenças apresentam proposições dife-
rentes, a tradução para a lógica das proposições seria feita 
dessa maneira:
P; Q; portanto R
Isso nos mostra que enquanto a validade de um argumento 
necessita de sua estrutura interna, a formalização da lógica 
ignora essa organização, basta observarmos, por exemplo, 
a própria repetição do nome João: ele é importante para a 
construção intuitiva do argumento, mas é ignorado pela 
lógica proposicional.
Essa discussão anteriormente exposta serve para que 
observemos que uma gramática consiste, grosso modo, de 
dois pontos: “uma especificação do vocabulário da lingua-
gem e um conjunto de regras que determina quais sequên-
cias de expressões construídas a partir desse vocabulário 
são gramaticais e quais não são” (MILLER, 2010, p.18).
Toda essa reflexão serviu para que Frege mostrasse que 
as bases de sua Lógica que, como deve ficar claro, difere-se 
da Lógica clássica - pelo fato de que esta última se mostrava 
insuficiente tanto pelo fato de que as propriedades eram bem 
mais complexas do que era possível de representar e porque 
não havia formalização suficiente permitindo que a houvesse 
uma espécie de contaminação da linguagem comum – era 
utilizado para mostrar que as leis da Aritmética se funda-
mentam nas leis lógicas. O sistema lógico axiomático que 
exemplificamos anteriormente era utilizado para transcrever 
toda lei aritmética. No entanto, é importante saber que Russell 
apontou uma inconsistência nesse modelo:
UNICESUMAR
UNIDADE 2
56
 “ Segundo Bertrand Russell, a partir desse axioma (conceitos F e G subsumem os mesmos objetos se, e somente se, têm a mesma extensão) pode-se deduzir que (1) para todo conceito F e todo 
objeto X, F subsume X e se, e somente se, X pertence à extensão de 
F. Pode-se deduzir também que a todo conceito corresponde uma 
extensão. Tomando-se, então, o conceito “extensão de conceito 
que não pertence a si próprio”, como F em (1), e tomando com 
X a extensão desse conceito, obtém-se o seguinte resultado (2): 
o conceito “extensão de conceito que não pertence a si próprio” 
subsume sua extensão se, e somente se, essa extensão pertence 
a si própria. Mas dizer que F subsume X é dizer que X é F, o que 
converte (2) na contradição: a extensão do conceito “extensão de 
conceito que não pertence a si própria” não pertence a si própria 
se, e somente se, pertence a si própria (SANTOS, 1983, p.184).
Em outras palavras, Santos (1983), baseado em Russell, aponta que o axioma 
fregeano se mostrava falso. Dessa forma, não era possível pensar no caráter lógico 
dos números e também na possibilidade de estender esse conceito.
Na esteira das contribuições de Frege, outro ponto que muito nos interessa 
é a distinção entre sentido e significado. Essa questão aparece, mais especifica-
mente, quando o filósofo se debruça na questão da identidade. No aclamado 
ensaio Sentido e Significado, Frege (1983) questiona se a identidade seria uma 
relação estabelecida entre objetos ou entre os sinais dos objetos. Se tomarmos 
a primeira opção como verdadeira, o filósofo nos mostra que a afirmação 
“a=b” deveria significar o mesmo que “a=a”, se “a=b” é verdadeira. Isso se dá 
pelo fato de que se “a=b” forma uma proposição verdadeira, então “a” e “b” são 
dois nomes para o mesmo objeto e isso também quer dizer que “a=b” informa 
a mesma coisa que “a=a”. Nesse sentido, a identidade seria, conforme Santos 
(1983, p.185), uma relação que uma coisa mantém consigo e com nenhuma 
outra: “assim, essa interpretação das afirmações de identidade apresenta gran-
des dificuldades, pois afirmações do tipo “a=b” são algumas vezes sumamente 
informativas, e “a=a” jamais o é”.
A segunda hipótese também é rejeitada por Frege, ou seja, de que a iden-
tidade é uma relação que se dá entre nomes ou entre sinais de objetos. Con-
forme informa Santos,
57
 “ Em tal caso, “a=b” afirmaria que o nome “a” e o nome “b” são nomes da mesma coisa. Essa análise não pode estar correta, segundo Frege, pois o fato de que “a” é um nome para a e “b” é também um nome 
para a resulta de um acordo puramente arbitrário acerca dessas 
marcas ou sons, nada tendo a ver com as propriedades das coisas 
designadas. Também neste caso não se poderia explicar que “a=b” 
tenha valor de conhecimento, transmita informação sobre a coisa 
nomeada para “a” e “b” (SANTOS, 1983, p.185)
A partir desse engodo, Frege distingue sentido e significado dos sinais. O “signifi-
cado seria o objeto denominado ou denotado pela expressão; já o sentido conteria 
o modo de apresentação pelo qual o sinal fornece seu significado” (SANTOS, 
1983, p.185). Um exemplo que clarifica essa distinção é pensarmos, por exemplo, 
nas linhas a, b e c que ligam os vértices de um triângulo com os pontos médios 
dos lados opostos; nesse caso, teríamos que o ponto que liga a e b é o mesmo 
que o de b e c. Isso aponta para resultados diferentes e para diferentes modos de 
apresentação. Assim sendo, as duas expressões (“ponto de intersecção de a e b” 
e “ponto de intersecção de b e c”) possuem o mesmo significado, mas são dife-
rentes enquanto sentido. Da mesma maneira, por exemplo, “estrela da manhã” e 
“Vênus” também tem o mesmo significado, mas diferem em relação ao sentido: 
se dissermos “Vênus é a estrela da manhã” há a expressão de um conhecimento 
verdadeiro, e se afirmarmos “Vênus é Vênus” não há como saber que a estrela que 
irrompe pela manhã é a mesma que aparece à tarde.
Frege informa, ainda, que em certas construções frasais, o significado das 
palavras refere-se não ao seu significado habitual, mas ao sentido habitual. Por 
exemplo: ao supormos na afirmação “João sabe que Vênus é a estrela da manhã”, 
que a expressão “Vênus” tem seu significado habitual, deveria haver a possibili-
dade de substituir por qualquer outra que fizesse referência a Vênus. Todavia, 
se substituirmos “estrela da manhã” por “estrela da tarde”, a afirmação se torna 
falsa, pois não há indicação de que João saiba que ambas são a mesma coisa, 
isto é, Vênus. Dessa maneira, Frege afirma que “é necessário distinguir entre o 
significado costumeiro de uma expressão e seu significado indireto; da mesma 
forma, é necessário distinguir entre o sentido costumeiro e o sentido indireto” 
(SANTOS, 1983, p.185). Lembremos que, para o filósofo, o significado indireto 
de uma palavra corresponde, diretamente, ao seu sentido costumeiro.
UNICESUMAR
UNIDADE 2
58
Embora o foco de Frege sempre tenha sido problemas envolvendo 
a Matemática, todas essas distinções foram fundamentais para o de-
senvolvimento da Semântica da Linguagem. Miguens (2007) afirma 
que em Frege há uma preocupação maior com as questões semânticas, 
quando se compara com as questões epistemológicas. Para o crítico, 
Frege solicita que não devemos perguntar se conhecemos algo antes 
de compreendermos como a linguagem utilizada para exprimir esse 
conhecimento funciona. Para completar essa questão, nunca é demais 
salientarque não podemos pensar absolutamente nada senão por 
meio da linguagem e que as línguas naturais (o português, o inglês, o 
francês etc.) são imperfeitas e não é possível expressar a completude 
do pensamento. É preciso, de acordo com Frege, uma espécie de de-
puração da linguagem natural para extrair dela todo aspecto vago e 
ambíguo e tratá-la, a partir daí, como um problema filosófico.
Não podemos deixar de lado a primazia do contexto em Fre-
ge, pois essa é uma revolução metodológica quando pensamos na 
filosofia da linguagem. Para o filósofo, as palavras não possuem 
significados isolados, ou seja, precisam estar contextualizadas em 
uma frase. Frege, de acordo com Miguens (2007) afirmava que a sua 
preocupação teórica era com o pensamento e com a verdade e não 
com a linguagem propriamente dita.
No âmago da discussão há uma sentença clara: para se entender o 
pensamento é necessário olhar para a linguagem e para a sua prática 
dedutiva que, por sua vez, ancora-se na estrutura. E para entender a 
estrutura é preciso observar os componentes da frase.
Os pensamentos são expressos em frases, então é necessário 
compreender a estrutura lógica das frases e suas partes menores. Tal 
estrutura se revela, de acordo com Miguens (2007) na forma como 
a prática dedutiva depende da estrutura. Para analisar as frases é 
preciso observar como elas combinam entre si de maneira inferen-
cial. Como já vimos anteriormente, o propósito da inferência é a 
preservação da verdade em transição de premissas verdadeiras para 
conclusões que também são verdadeiras.
59
O atomismo de Russell
Descrição da Imagem: tra-
ta-se de uma foto preto e 
branco do filósofo. Ele está 
com o corpo inclinado para 
a lateral. Veste terno es-
curo com camisa branca e 
gravata preta com detalhes. 
Os cotovelos, embora não 
apareçam, estão apoiados 
em algum lugar e as mãos 
estão abraçadas. Entre os 
dedos estão os óculos. O 
filósofo possui cabelos gri-
salhos, nariz adunco e não 
possui barba.
Bertrand Russell nasceu em 1872, no seio de uma família de nobres liberais, e 
inclusive alguns de seus antepassados exerceram funções importantes na vida 
pública inglesa. Durante toda a sua vida, foi interessado por política, seja como 
estudioso ou militante, também colocou sua importância enquanto intelectual 
a serviço de causas liberais. Quando observamos o seu trabalho, é notório que 
ele produziu fecundamente e com muita regularidade: escreveu mais de sessenta 
livros e inúmeros artigos. Além de filosofia e política, escreveu sobre educação, 
história e até produziu textos ficcionais. Vale a pena destacar, dentro de sua prolí-
fica produção, alguns títulos: Principia Mathematica (1913), Misticismo e lógica 
(1918) e Conhecimento Humano (1948). Russell, que faleceu em 1970, deixou 
sua autobiografia escrita, em três volumes, no final dos anos 1960.
É curioso saber que Russell, famoso no meio filosófico, inicialmente, por seu 
trabalho com análise lógica e, muito tempo depois, por seu trabalho com filosofia 
social humanista, não via conexão direta entre essas duas correntes de seu próprio 
Figura 2 – Bertrand Russell
UNICESUMAR
UNIDADE 2
60
pensamento. Stokes (2009) citando o filósofo, dizia que Russell escreveu a respeito 
desses assuntos não com a capacidade filosófica, mas como ser humano que sofria 
e que desejava encontrar uma maneira de melhorar o mundo.
Fazendo uma leitura concisa de seu atomismo proposicional, Abrão (1999) 
afirma que Russell começou rejeitando o monismo idealista cuja base advém 
de Hegel. Isso foi possível pelo caminho de investigação proposta pelos empi-
ristas ingleses dos séculos XVII e XVIII. A rigor, inicialmente, para esse filósofo 
o mundo era visto como uma pluralidade de elementos que eram organizados 
em indivíduos, relações, classes e assim por diante, expressos por palavras que 
podem remeter a alguma coisa. Depois, ele reviu essa afirmação, ao introduzir 
uma diferença à denotação, isto é, ao fato de as palavras remeterem às coisas ou 
fatos. Nessa esteira, Abrão (1999) diz que para o filósofo, as expressões “O atual rei 
da França” e “A rainha da Inglaterra” são frases denotativas, todavia não remetem 
da mesma maneira àquilo que, a rigor, descrevem. Em uma tentativa de resolver 
esse engodo, Russell utiliza a lógica e considera que nomes de pessoas, objetos e 
descrições como as de cima, são construções lógicas, portanto, entidades com-
plexas que precisam ser reduzidas em suas partículas elementares. 
 “ No universo de Russell não existem verdadeiramente objetos tais como livros ou casas, nem pessoas como Churchill ou Marx, mas apenas da-dos sensoriais, que são os elementos dessas construções simbólicas ou 
lógicas. Se digo, por exemplo, “O autor de Waverley era escocês”, devo 
traduzir a frase numa sequência de sentenças logicamente depuradas, 
o que resultaria em: 1. “X escreveu Waverley” não é sempre falsa; 2. Se X 
e Y escreveram Waverley, X e Y são idênticos; 3. “Se X escreveu Waver-
ley, X era escocês” é sempre verdadeira. Isso, em linguagem ordinária, 
significa que ao menos uma pessoa escreveu Waverley e que quem quer 
que tenha escrito Waverley era escocês. Essas proposições atômicas es-
clarecem o sentido da frase original, que é de uma complexidade lógica 
que só se revela na análise (ABRÃO, 1999, p.427).
Nota-se, de acordo com o fragmento anterior, que é possível substituir os nomes 
e as descrições por dados que eles encobrem sem, com isso, modificar a propo-
sição, pelo contrário: ela ganhará um rigor lógico que a linguagem comum não 
contém. É por isso que Abrão (1999) afirma que, para Russell, a linguagem deve 
corresponder ao conhecimento adquirido, respeitando a sua complexidade, e, 
61
também, orações e sentenças devem expressar o mundo e permitir a ordenação 
e multiplicidade dos fatos observados.
Na esteira dessas discussões, Russell, diferentemente de Frege, teve uma com-
preensão distinta dos termos singulares. Enquanto Frege os divide em nomes 
próprios (por exemplo, Brasília) e descrições definidas (por exemplo, a capital 
do Brasil), Russell afirmava que os nomes próprios são os termos singulares que 
fazem referência direta a realidade, sem nenhum tipo de mediação de descrição 
que formam suas características. Para esse filósofo, a linguagem deve estar sempre 
relacionada à lógica, pois ele “acredita que análise lógica da linguagem é capaz 
de ‘pôr a nu’ a forma lógica como esqueleto, correspondendo esta forma lógica, 
então, à estrutura da própria realidade” (MIGUENS, 2007, p. 104).
Dois pontos da filosofia de Russell merece destaque: o atomismo lógico e a 
teoria das descrições definidas. Foquemos no primeiro e, a respeito dele, 
[...] entendemos que o atomismo lógico constitui uma teoria filosófica 
sobre a estrutura fundamental da realidade a partir de um método de 
análise lógica de proposições. Assim, o atomismo lógico considera que a 
análise lógica nos mostra, como resultado, os constituintes lógicos mais 
simples da proposição – os átomos lógicos – e que estes correspondem 
exatamente aos constituintes da realidade. Pensamos que ao menos três 
ideias estão aqui subtendidas: (i) há uma correspondência geral entre lin-
guagem e realidade, e isso garante que a análise completa das palavras irá 
coincidir com a análise completa das coisas , (ii) a realidade não é única e 
indivisível, mas sim composta por uma multiplicidade de coisas separadas 
e (iii) os átomos lógicos não podem ser analisados em partes mais simples 
(AMARAL, p.35-36, 2015).
É preciso esclarecer que os átomos lógicos não são físicos, como o próprio Russell 
faz questão de esclarecer: “A razão pela qual eu chamo minha doutrina de ato-
mismo lógico é por que os átomos que eu desejo alcançar como o tipo de resíduo 
último na análise são átomos lógicos, e não átomos físicos” (RUSSELL, 2010, p.3)
Para o filósofo, os átomos lógicos são particulares, qualidades e relações. Nessa 
esteira, Russell afirma que a realidade se constrói a partir de uma multiplicidade 
de particularesque exibem qualidades e sustentam relações. Para Russell, “alguns 
deles [os átomos lógicos] serão o que eu chamo de “particulares” – coisas como 
UNICESUMAR
UNIDADE 2
62
pequenas manchas de cores, sons, coisas momentâneas – e alguns deles serão 
predicados e relações e assim por diante” (RUSSELL, 2010, p.3)
Russell afirma que a nossa linguagem simples dá conta de comportar palavras 
que fazem referência aos átomos lógicos. Por exemplo, as palavras “isto” e “aquilo” 
que apontam para objetos momentâneos, que já conhecemos por familiaridade 
a partir de um conhecimento prévio. O filósofo afirma, também, que nomes de 
pessoas, de objetos não são nomes simples em um sentido lógico, mas uma reu-
nião de descrições que remetem a uma série de classes particulares.
 “ Uma cadeira apresenta uma aparência diferente a cada momento. Cada aparência que ela apresenta em cada momento determina certa classe. Todos estes conjuntos de aparências variam periodi-
camente. Se eu pego a cadeira e a quebro, ela apresentará todo um 
conjunto de aparências diferente do que ela apresentava antes e, sem 
ir tão longe, ela sempre seguirá mudando conforme as mudanças de 
iluminação, e assim por diante. Então você tem agora uma série de 
diferentes conjuntos de aparências, e isso é o que eu quero dizendo 
que uma cadeira é uma série de classes (RUSSELL, 2010, p.117)
 Conforme o fragmento anterior, para Russell, a realidade não pode ser construí-
da a partir de um mundo exterior que é composto por objetos físicos que não 
dependem de nosso olhar subjetivo. Pelo contrário: o atomismo de Russel parte, 
justamente, da epistemologia, campo que investiga a linguagem, a realidade e a 
subjetividade. Dessa forma, concluímos que a realidade não é o mundo concreto, 
objetivo, permanente, mas o mundo subjetivo. Em outras palavras, “a realidade 
não é o objeto físico em contraposição à mera aparência dos dados dos sentidos, 
mas sim os próprios dados dos sentidos, mais tudo aquilo que pertence ao campo 
da subjetividade” (RUSSELL, 2010, p.17).
Posta a questão da realidade para o atomismo de Russell, pensemos, agora, a 
respeito da argumentação de Russell sobre esta realidade:
 “ Livingston (2001) propõe que o átomo lógico tem três sentidos dife-rentes: um sentido lógico, um sentido epistemológico e um sentido ontológico. Até aqui, vimos Russell fazer uma arguição epistemo-
lógica na definição do átomo lógico. Vimos que alguns átomos ló-
63
gicos são particulares, ou seja, entidades que conhecemos de forma 
imediata, por familiaridade, sem a inferência a partir de um co-
nhecimento prévio. Livingston (2001) diz que, quando definimos o 
átomo lógico desta maneira, devemos entender que, na verdade, esta 
definição é de um átomo epistemológico. Quanto ao átomo lógico, 
propriamente, ele define-se por ser portador de um nome em uma 
proposição completamente analisada. Ora, ao perceber que há duas 
definições em jogo, precisamos saber se o átomo epistemológico 
coincide com o átomo lógico (AMARAL, 2015, p.38).
Isto quer dizer que é necessário saber se as entidades que conhecemos portam 
um nome em uma proposição que é completamente analisada. Se não for assim, 
a epistemologia de Russell não funcionaria completamente, quando acionamos o 
modelo dos átomos, uma vez que não poderíamos afirmar que as entidades que 
conhecemos de forma imediata compõem as partes mais simples da realidade.
De acordo com Livingston (2001), átomo lógico e epistemológico coincidem. 
Pensemos na seguinte situação: x não é um átomo epistemológico, dessa maneira, 
nosso conhecimento de x não é dado por familiaridade, mas sim por uma infe-
rência que partem de entidades anteriores que chamaremos, agora, de E’s. Assim 
sendo, uma sentença sobre x poderia ser substituída por uma sentença formal 
que menciona apenas E’s. Todavia, como informa Amaral (2015, p.38)
 “ [...]então x não pode ser portador de um nome, pois nomes só apare-cem em proposições completamente analisadas; ou seja, x não é um átomo lógico. Isso mostra que se x não é um átomo epistemológico, 
então x não é um átomo lógico. Ora, por equivalência lógica, temos 
que se x é um átomo lógico, então x é um átomo epistemológico. Tam-
bém podemos dizer que todo átomo epistemológico é átomo lógico. 
Basta considerar que, se nós estamos familiarizados com algum objeto, 
então nós podemos dar um nome y a este objeto por ostensão; e uma 
vez que o nosso conhecimento deste objeto não depende de nenhum 
conhecimento anterior, então este nome não pode ser analisado em 
partes mais simples. Destarte, conclui-se que y é um átomo lógico.
Russell é adepto de uma abordagem empírica, em detrimento de uma a priori, isso 
significa que ele defende que encontramos átomos lógicos justamente no momento em 
que nos damos conta que as constituintes da proposição não podem ser divididas em 
UNICESUMAR
UNIDADE 2
64
partes lógicas simples. É por isso que, quando questionado se há várias coisas, 
ele afirma:
 “ Eu não entendo “Há várias coisas” como um postulado. Eu deveria entender que, na medida em que isso pode ser pro-vado, a prova é empírica e que as refutações que têm sido 
feitas são a priori. O sujeito empírico diria naturalmente que 
há várias coisas. [...] Eu não considero que há necessidade 
lógica para que há várias coisas, nem para que não há 
(RUSSELL, 2010, p.14).
A questão é que Russell busca encontrar o átomo lógico como resultado 
da análise lógica. E o fim de uma análise lógica se dá quando se percebe 
estar diante das partes mais simples da proposição, os nomes, as entidades 
que conhecemos etc. A lógica parece simples, mas algumas dificuldades 
se instalam, algumas delas: “como sabemos que a análise irá em algum 
momento esbarrar nos átomos lógicos?; como sabemos se a análise de 
uma proposição está completa?; como sabemos se aquilo que percebemos 
como nomes lógicos são, de fato, nomes lógicos?” Para essas dúvidas, Rus-
sel não dá garantias, isto é, nem que os nomes lógicos serão os mesmos 
encontrados em determinados momentos de análise e tampouco oferta 
critérios para decidir o fim do processo analítico da proposição. Ele diz, 
apenas, que é provável que os nomes lógicos serão encontrados e que a 
análise terá uma conclusão.
Em uma posição contrária, Wittgenstein afirma que a questão não está 
em encontrar as partes logicamente simples de uma preposição, mas em 
admitir que a análise tem um fim, caso contrário, a proposição teria um 
sentido indeterminado. Dessa maneira, contrário a Russell, ele apresenta 
uma abordagem a priori e mesmo que ele não utilize o termo atomismo 
lógico, sua abordagem, sobretudo no Tractatus é atomista, conforme segue:
I - Toda proposição tem uma análise final que revela que a proposi-
ção é uma função de verdade das proposições elementares (3.25, 
4.221, 4.51, 5);
65
II - Estas proposições elementares afirmam a existência de estados 
de coisas (3.25, 4.21);
III - Proposições elementares são mutuamente independentes, ou 
seja, uma proposição elementar pode ser verdadeira ou falsa in-
dependentemente da verdade ou falsidade das outras proposi-
ções elementares (4.211);
IV - Proposições elementares são símbolos simples – ou nomes – em 
ligação imediata (4.221);
V - Os nomes se referem a coisas totalmente desprovidas de comple-
xidade, ou seja, se referem aos objetos (2.02, 3.22);
VI - Os estados de coisas são combinações de objetos (2.01). (WIT-
TGENSTEIN, 2008, p.42).
Wittgenstein, conforme exposto no fragmento anterior, não fala em exem-
plos lógicos em nossa linguagem simples e também não discute a respeito 
de os objetos lógicos serem ou não conhecidos de modo empírico. Ade-
mais, ele acrescenta, afirmando que não é trabalho da filosofia nominar 
essas coisas, todavia, de acordo com o Tractatus, devemos admiti-los, 
conforme o argumento que segue:
 “ (2.021) Os objetos constituem a substância do mundo. Por isso não podem ser compostos. – (2.0211) Se o mundo não tivesse substância, ter ou não ter sentido uma pro-
posição dependeria de ser ou nãoverdadeira uma outra 
proposição. – (2.0212) Seria então impossível traçar uma 
figuração do mundo (verdadeira ou falsa) (WITTGENS-
TEIN, 2008, p.30)
O argumento poderia ser da seguinte forma: “uma vez que podemos fazer 
figurações do mundo (F), então a proposição não deve depender da verda-
de de outra proposição para ter sentido, ou seja, as proposições devem ser 
independentes entre si (I); e, assim, tomando como premissa o aforismo 
2.0211, o mundo tem substância (S)” (AMARAL, 2015, p. 42).
UNICESUMAR
UNIDADE 2
66
Descrição da Imagem: 
trata-se de uma foto preto 
e branco, estilo 3x4, do filó-
sofo Wittgenstein, no qual 
aparece seu busto. Ele está 
com o olhar fixado para a 
câmera e usa uma espécie 
de blazer. Tem a expressão 
ligeiramente triste, possui 
cabelos pretos e está sem 
barba.
Coisas e nomes em Wittgenstein
Uma anedota muito inusitada, descrita por Russell, em seu Retratos de Memória, 
envolve Wittgenstein e merece destaque aqui. Segue a versão relida por D’Oliveira 
(1996, p.5). Russel conta que,
 “ [...] por volta de 1913, tinha entre seus alunos da Universidade de Cam-bridge um tão esquisito, a ponto de, após todo um período letivo, o filósofo não saber dizer se tratava apenas de um excêntrico ou de um homem de 
gênio. Sua perplexidade aumentou ainda mais quando foi procurado pelo 
estranho aluno, que lhe fez uma insólita pergunta: “O senhor poderia fazer 
a fineza de me dizer se sou ou não um completo idiota?”. Russell respondeu 
que não sabia e perguntou-lhe das razões de sua dúvida. O aluno replicou: 
“Caso seja um completo idiota, me dedicarei à aeronáutica; caso contrário, 
Figura 3 – Wittgenstein
Fonte: Wikimedia Commons 
([2022]c, on-line).
67
tornar-me-ei-filósofo”. Russell não encontrou outra saída para se desfazer 
da embaraçosa questão, a não ser pedindo-lhe que escrevesse um assunto 
filosófico qualquer e, depois lhe mostrasse. Passado algum tempo, o aluno 
retornou com o trabalho e o filósofo depois de ler apenas uma linha, sen-
tenciou: “Não, você não deve se tornar um aeronauta”. A partir daí Witt-
genstein, o aluno excêntrico, abandonou totalmente qualquer preocupação 
com a engenharia de aviões, tornando-se apenas mais um filósofo entre 
outros, mas uma das principais figuras da filosofia do século XX.
O fato é que Wittgenstein teve uma vida bastante agitada: aos oito anos ele cons-
truiu, sozinho, uma máquina de costura, provocando imensa admiração da família, 
o que fez com que seus pais o enviassem para uma escola especializada em estudos 
matemáticos e físicos. Depois, seu interesse recaiu para a Engenharia Mecânica e 
durante três anos dedicou-se às pesquisas aeronáuticas. Quando a Primeira Guerra 
Mundial eclodiu, alistou-se no exército austríaco como voluntário e nesse período 
redigiu, intensamente, o Tractatus Logico-Philosophicus, sua obra mais conhecida. 
Em agosto de 1918, finalizou-o e foi capturado pelas tropas italianas.
Após doar sua fortuna pessoal a duas irmãs, o filósofo tornou-se um modesto 
professor, trabalhou como ajudante de jardineiro em um mosteiro, foi escultor 
e, em 1929, retornou a Cambridge para dedicar-se à filosofia. Em 1941, durante 
a Segunda Guerra, Wittgenstein trabalhou no Guy’s Hospital e desempenhou 
funções simples. Anos depois, renunciou à sua cátedra de filosofia e buscou tran-
quilidade para escrever suas Investigações Lógicas.
Descobriu um câncer e tempos depois, sem se sentir deprimido, mudou-se 
para a casa de seu médico. Dois dias antes de morrer declarou: “diga-lhes que eu 
tive uma vida maravilhosa”.
Além do Tractatus e de Investigações, o filósofo também escreveu as Observa-
ções Filosóficas, os Cadernos Azul e Marrom, escritos entre 1933 e 1955, e as Con-
ferências e Discussões sobre Estética, Psicologia e Crença Religiosa, notas reunidas 
por alguns de seus amigos. Os estudiosos de Wittgenstein dividem sua obra em duas 
fases: a primeira corresponde ao Tractatus e a segunda engloba as demais obras.
Pensando, mais especificamente, na contribuição que Wittgenstein deu à filoso-
fia da linguagem, importa salientar, para começarmos, que ele se ergueu contra uma 
tradição filosófica que afirmava a filosofia como “busca geral da verdade”. Para ele, a 
filosofia não é teoria de coisa alguma, é, na verdade, uma prática, uma atividade que 
busca esclarecer o sentido das palavras que usamos para dizer algo significativo.
UNICESUMAR
UNIDADE 2
68
Ele deu um salto importante entre a primeira e segunda fase de sua obra: na 
primeira, a base de sua crítica da linguagem era a lógica (regras sintáticas e se-
mânticas), pois acreditava que se fosse delimitado a forma lógica das proposições, 
os problemas de significação seriam resolvidos através do uso dessa base lógica 
matemática. O erro dessa proposição está, justamente, em acreditar que a essência 
da linguagem pode ser estabelecida de uma vez por meio de um único modelo.
Na segunda fase, finalmente, ele reconhece que a linguagem não pode funcio-
nar de uma única maneira. Ele troca a preocupação da forma estrutural da lingua-
gem (de caráter sintático e semântico) para uma preocupação que se baseia no uso 
e nos contextos de aplicação (de caráter pragmático). Dessa forma, o que passa a 
valer para esse filósofo é a máxima: “o significado é o uso”, isto é, para sabermos 
o que uma expressão significa é necessário observar o seu contexto de aplicação.
A partir dessa compreensão, Wittgenstein dá um salto: deixa de lado a 
noção central de Lógica para uma noção muito mais ampla e polimórfica que 
ele chama de Gramática. Isso quer dizer que as regras que antes eram estabele-
cidas a partir da lógica, agora são estabelecidas a partir de regras gramaticais e, 
portanto, não podem ser estipuladas de antemão de uma vez por todas. É preciso 
estabelecer uma análise filosófica de descrição e comparação daquilo que ficou 
conhecido como os jogos de linguagem que nada mais são do que as regras que 
seguimos quando queremos dizer algo com sentido.
No entanto, para acompanharmos aspectos do pensamento de Wittgenstein, 
voltemos a algumas considerações sobre o Tractatus. A preocupação central dessa 
obra é a relação entre linguagem, pensamento e realidade. Stokes (2009, p. 289) 
afirma que para esse filósofo, a linguagem “é a forma perceptível do pensamento 
unida à realidade por uma forma ou estrutura lógica comum”. Na linhagem de 
Frege, Wittgenstein afirmava que o significado das expressões linguísticas tinha 
de ser determinado pelo mundo, caso contrário seria contaminado pela incerteza. 
E de Russell, ele se valeu da afirmação de que tanto a linguagem quanto o mundo 
precisam ser compreendidos em suas partes atômicas. Porém, ele foi além e se 
tornou independente de seus mestres ao argumentar que “a estrutura lógica das 
sentenças tem que refletir exatamente a estrutura essencial do mundo” (STOKES, 
2009, p.289). Dessa forma, se a ordem lógica é essencial para que se tenha o sen-
tido, a linguagem comum não poderia ser imperfeita logicamente, ela precisaria 
ser ordenada de forma que “nada que pode ser dito disso pode ser dito claramente 
e o que não pode ser dito claramente merece o silêncio” (STOKES, 2009, p. 289).
69
No Tractatus, as proposições e a linguagem são tidas como “nome” que, para 
o filósofo, é um signo simples utilizado nas sentenças. Ademais, o nome deve 
representar o “objeto”, descrito, na supracitada obra, como absolutamente sim-
ples, mas não simples em relação a algum sistema de notação. São os objetos que 
formam a substância do mundo e é justamente por esse motivo que não podem 
ser compostos; “a substância é o que subsiste independentemente do que ocorre; 
o fixo, o subsistente e o objeto são um só, enquanto a configuração constitui o 
mutável, o instável” (D’OLIVEIRA, 1996, p.10).
Wittgenstein não acredita que o nome sozinho seja uma figuração do objeto. 
Só o nome não diz nada. É preciso que ele esteja combinado com outros nomes 
para que a realidade se configure. Dessa maneira, as sentenças constroem sua 
teoria da linguagem.Ele afirma, ainda, que muitas das proposições de linguagem 
parecem não parecem figurações da realidade, o que exige uma análise rigorosa 
para que venha à tona o caráter figurativo. A partir dessa análise, surgem as pro-
posições que configuram a representação de um objeto simples. 
No Tractatus, Wittgenstein propõe sete proposições que se ramificam em inú-
meros pontos e subpontos cujo intuito é explicar a proposição inicial. Vejamos:
1. sobre o mundo (o mundo é tudo aquilo que é o caso, que acontece);
2. o caso é a existência de estados de coisas;
3. o pensamento como a imagem lógica dos fatos;
4. o pensamento é a proposição com sentido;
5. a proposição é uma função de verdade das proposições elementares;
6. a forma geral de uma função de verdade é [p, ξ, N (ξ)];
7. daquilo de que não se pode falar, deve-se calar. (SILVA, 2013, p.40).
A ideia de proposições elementares decorre das preocupações do filósofo em anali-
sar, como já salientamos, as relações entre o pensamento e a linguagem e, também, 
a realidade. Para ele, a realidade é afigurada pela linguagem e, por isso, seria preciso 
admitir as proposições. E das proposições elementares derivam-se todas as outras. 
Para Nef (1995, p.146), a partir dessa teoria, “formamos quadros dos fatos por meio 
do pensamento e da linguagem. As proposições descrevem os estados de coisas, 
mas não podem descrever seu modo de descrição”. Além disso, as proposições 
também não descrevem sua própria estrutura, mas podem ser mostradas:
UNICESUMAR
UNIDADE 2
70
 “ Aquilo que o quadro deve ter comum com a realidade, a fim de poder representá-la à sua maneira – verdadeira ou falsamente – é a forma da representação.
2.172 Entretanto, o quadro não poderia representar a sua própria 
forma de representação: ele apenas mostra (MIGUENS, 2007, p. 146)
É preciso destacar que há um limite naquilo que se diz, isto é, há o inexprimível. 
Quando pensamos nas proposições da ética e da estética, por exemplo, não po-
demos falar. É daí que advém o fato de que os limites da linguagem são, na ver-
dade, os limites do mundo. De acordo com Wittgenstein, “sobre o mundo, posso 
dizer como ele é, por meio de uma conjunção de proposições que formam uma 
linguagem, mas não posso dizer, a rigor, que ele é” (NEF, 1995, p. 147).
A partir, sobretudo, das Investigações Filosóficas, Wittgenstein trilha um novo 
caminho a respeito de suas reflexões. Ele passa a afirmar que a linguagem fun-
ciona em seu uso, em sua prática. Retomamos, aqui, o já exposto conjunto que 
forma os “jogos da linguagem”, dentre os quais, destacamos os empregos utiliza-
dos para consolar, indignar-se, descrever e assim por diante. A linguagem é uma 
ferramenta, não há, portanto, uma única função.
Nessa segunda fase, fica explícito que a linguagem não pode mais ser uni-
ficada segundo uma estrutura lógica e formal. Uma proposição, ao contrário 
do exposto no Tractatus, não traz em si o todo da linguagem, uma vez que 
ela é repleta de pequenos segmentos diferentes e múltiplos. Essa colocação se 
aproxima, decisivamente, do estruturalismo de Ferdinand de Saussure, um dos 
temas discutidos na próxima unidade.
Agora, o filósofo repudia a afirmação de que o significado é dependente da 
realidade e de que a linguagem se preocupa, essencialmente, com a representação. 
Ele afirma que os objetos não são, literalmente, o significado dos nomes, pelo 
contrário, elucidam o significado, basta pensarmos, por exemplo, que apontar 
para uma cadeira ajuda a explicar o que ela significa. A partir dessa compreensão, 
o filósofo percebeu a funcionalidade abrangente da linguagem e compreendeu 
que as palavras são instrumentos cujos empregos dependem de situações, fina-
lidades e contextos diferentes. O que uma palavra significa depende do contexto 
em que ela se insere e depende para o que está sendo usada e advém daí a noção 
de jogos de linguagem.
71
Em termos técnicos, pode-se afirmar que nessa virada, a linguagem não pode 
ser unificada de acordo com uma única estrutura lógica e formal. Diferentemente 
do Tractatus, em Investigações filosóficas, fica explícito que uma proposição não 
traz em si o todo da linguagem. Esta procede por meio de segmentos plurais e 
múltiplos, criando semelhança, apenas, por meio dos jogos de linguagem.
Penco (2006) afirma que esse segundo Wittgenstein procura aprofundar os 
diferentes usos da linguagem já descritos por Frege e em desenvolver a ideia de 
que o sentido sempre necessita do contexto de ação ou de uso. Junta-se a essas 
duas ideias, a necessidade do aprendizado de regras.
O significado é o uso da palavra em determinado contexto. No uso da palavra 
temos o tom, isto é, a intenção do falante e a força de sua expressão. Não há como 
separá-las, pois estão envolvidas em um determinado contexto. A respeito disso, 
Wittgenstein propõe um exemplo:
 “ Pense agora no seguinte emprego da linguagem: mando alguém fazer compras. Dou-lhe um pedaço de papel, no qual estão os signos: “cinco maçãs vermelhas”. Ele leva o papel ao negociante; este abre 
o caixote sobre o qual se encontra o signo ‘maçãs’; depois, procu-
ra numa tabela a palavra ‘vermelho’ e encontra na frente desta um 
modelo da cor; a seguir, enuncia a série dos numerais – suponho 
que saiba de cor – até a palavra ‘cinco’ e tira do caixote uma maçã 
da cor do modelo. – Assim, e de modo semelhante, opera-se com 
palavras. – ‘Mas como ele sabe onde e como procurar a palavra ‘ver-
melho’, e o que vai fazer com a palavra ‘cinco’? – Ora, suponho que 
ele aja como eu descrevi. As explicações têm em algum lugar um 
fim. – Mas qual é a significação da palavra ‘cinco’? – De tal signifi-
cação nada foi falado aqui; apenas, de como a palavra ‘cinco’ é usada 
(WITTGENSTEIN, 1999, p. 28).
Em linhas gerais, como fica exposto na presente unidade, as três contribuições 
sumariamente comentadas possuem concepções diferentes e, em determinadas 
situações, até opostas. Todavia, essas propostas têm um ponto em comum: pen-
sam em um método de análise lógico da linguagem.
Como supracitado na unidade anterior, Platão já se questionou no Crátilo, o 
fundamento da significação das palavras. E Aristóteles analisou a linguagem já 
UNICESUMAR
UNIDADE 2
72
antecipando as questões que envolvem a lógica. Depois, no século XVII, Leibniz 
se interessou pelo aspecto formal da linguagem e a lista não tem fim.
No fim do século XIX surgiu a necessidade de expressar os fatos com uma 
lógica perfeita que sobressaísse àquela proposta pela estrutura da gramática das 
línguas naturais, uma vez que o foco era o alcance significativo da linguagem. 
Abrão (1999) afirma que essa atitude possuía o intuito de verificar, filosofica-
mente, até que ponto os problemas derivam do caráter complexo da linguagem.
Quando Frege, Russell e Wittgenstein pensam na linguagem para formular 
problemas precisos e não apenas para transmitir o teor do pensamento, as pala-
vras e a própria sintaxe tornam-se fonte de problemas. Isso se dá pelo fato de que 
a forma assume grande importância.
A forma, assevera Abrão (1999), pertence ao domínio da lógica e é papel da 
lógica traduzir a linguagem comum em proposições e sentenças, como muito 
bem vimos. Russell e Wittgenstein propõem, justamente, que a lógica assuma esse 
papel, não apenas com o intuito de clarificar a forma da linguagem, mas também, 
pelo fato de que as proposições são expressões de fatos, a análise lógica contribui 
para a forma lógica. A partir daí um problema se desprende:
 “ A tarefa de elucidar a forma proposicional da linguagem foi segura-mente aquela que a lógica tradicional cumpriu de maneira mais de-ficiente, talvez porque se tenha julgado, durante séculos, que a lógica 
formal deveria tematizar o pensamento e não as suas formas concre-
tas de expressão. O domínio da expressão ficou relegado à gramática, 
que, entretanto, não se ajusta sempre às exigências lógico-formais. 
Seria preciso perguntar também se a lógica tradicional, que perma-
neceu durante séculos com a estrutura básica que lhe dera Aristóteles,constituía um instrumento realmente adequado para uma análise 
formal em profundidade da linguagem (ABRÃO, 1999, p.424-425).
Para além da lógica tradicional, que é atributiva, basta pensarmos, por exemplo, 
na proposição já citada: “Sócrates é mortal” é preciso não se esquecer que há 
outros fatos e proposições que fogem desse modelo, principalmente, as proposi-
ções que descrevem relações. E é aí que a obra dos três filósofos aqui comentadas 
se enquadram: elas propõem uma extensão da lógica tradicional, o que não a 
invalida: só a renova e a expande.
73
Prezado (a) Acadêmico (a), agora que chegamos ao final da segunda unidade de 
estudos, algumas das contribuições específicas da Filosofia da Linguagem foram 
colocadas em discussão. Nas próximas unidades, deteremos o nosso olhar para 
outra direção: a ciência linguística e suas possíveis relações com a filosofia da lin-
guagem. No entanto, você já possui capacidade de refletir sobre aspectos básicos 
da Filosofia da Linguagem. Pensando nisso, é hora de partir para a prática: faça um 
fichamento contemplando os principais pontos das contribuições de Frege, Russell 
e Wittgenstein, explicitando os possíveis contatos entre a obra desses filósofos. 
Wittgenstein
O podcast tem o intuito de trazer breves comentários a res-
peito das duas fases da obra de Wittgenstein: das discussões 
acerca da linguagem no Tractatus até as Investigações filosó-
ficas. Posteriormente, alguns trechos da obra Investigações 
filosóficas serão lidos e devidamente discutidos.
NOVAS DESCOBERTAS
Adeus à Linguagem é um dos mais recentes filmes do sempre inventivo ci-
neasta francês Jean-Luc Godard. Neste filme, lançado em 2014, são explora-
das questões que envolvem a perspectiva filosófica da linguagem. Segue o 
link para o trailer do filme.
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1. Gottlob Frege, filósofo e matemático, foi um dos primeiros nomes a contribuir, de-
cisivamente, para que a Filosofia da Linguagem ganhasse estatuto de disciplina. A 
respeito de sua obra, considere as assertivas a seguir:
I - Frege inventou a linguagem da lógica simbólica moderna, ponto fundamental 
para a base de seus estudos no campo da Filosofia da Linguagem;
II - A lógica fregeana, uma continuação da lógica clássica, era utilizada para mostrar 
que as leis da Aritmética se fundamentam nas leis platônicas;
III - Em Sentido e Significado, o filósofo problematiza a questão da identidade e se 
ela seria uma relação estabelecida entre objetos ou entre os sinais dos objetos;
IV - O contexto não é elemento primordial na filosofia de Frege, uma vez que as 
palavras possuem significados isolados.
Está correto o que se afirma em:
a) I e II, apenas.
b) I e III, apenas.
c) I, II e IV, apenas.
d) I, III e IV, apenas.
e) I, II, III e V.
2. O atomismo de Russell é uma contribuição importante para os rumos da Filosofia da 
Linguagem. A respeito desse modelo e de outras discussões do filósofo a respeito 
da linguagem, analise as assertivas a seguir:
LIVINGSTON, P. Russellian and Wittgensteinian Atomism. Investigações Filosóficas, 
n. 24, v. 1, p. 30-54, 2001. Disponível em: https://philpapers.org/rec/LIVRAW-2. Acesso 
em: 23 mar. 2022.
I - O atomismo desse filósofo advém da epistemologia, campo que investiga a lin-
guagem, a realidade e a subjetividade;
II - Os átomos lógicos não são átomos físicos, isto é, são particulares, qualidades e 
relações;
III - Para Russell, a realidade não é o mundo concreto, e sim os próprios dados dos 
sentidos, ou seja, o mundo subjetivo;
IV - O atomismo constitui uma teoria sobre a estrutura fundamental da realidade a 
partir de um método que analisa, logicamente, as proposições;
V - Livingston (2001) propõe que o átomo lógico tem três sentidos diferentes: um 
sentido lógico, um sentido epistemológico e um sentido ontológico.
75
É correto o que se afirma em: 
a) I, II e III, apenas.
b) I, II e IV, apenas
c) I, III e IV, apenas
d) II, IV e V, apenas
e) I, II, III, IV e V.
3. Wittgenstein se constituiu um dos principais filósofos do século XX. Sua obra, embora 
curta, possibilitou novas discussões para o campo da linguagem. A respeito dela e 
de aspectos do estilo do filósofo, analise as assertivas que seguem:
I - Wittgenstein se posicionava contra a afirmação de que a filosofia era uma busca 
geral da verdade;
II - A obra do filósofo possui duas fases e é na primeira que ele desenvolve sua maior 
contribuição para o campo da filosofia da linguagem;
III - Wittgenstein abandona a noção central de Lógica e adota uma noção mais ampla 
que ele chama de Gramática;
IV - Para o filósofo, o nome sozinho não é uma figuração do objeto. Ele precisa estar 
combinado com outros nomes.
Está correto o que se afirma em:
a) I e II, apenas
b) I e III, apenas
c) I, II e III, apenas
d) I, III e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.
3A Ciência 
Linguística
Dr. Diego Luiz Miiller Fascina
Nesta Unidade, o foco recai em alguns apontamentos a respeito da 
Linguística, ciência que, em suas inúmeras ramificações, estuda a 
língua, a fala, a linguagem e o discurso. Um percurso histórico será 
realizado com o intuito de apontar mais uma faceta dos estudos da 
linguagem: iniciaremos com a contribuição dos clássicos, passaremos 
pela Idade Média, pelo Renascimento até chegarmos aos modelos 
comparativistas. A partir daí, haverá um ponto de ruptura: os estudos 
de Ferdinand de Saussure e suas contribuições que sistematizam o 
Estruturalismo. A partir desses estudos, a Linguística torna-se uma 
ciência. Após Saussure, comentaremos alguns desdobramentos dos 
estudos linguísticos, tais como o Gerativismo de Chomsky, as funções 
da linguagem de Jakobson, o pensamento de Benveniste e os atos de 
fala de Austin.
UNIDADE 3
78
A estrofe acima faz parte de Língua, canção de Caetano Veloso, lançada no disco 
Velô, de 1984. Tais versos servem muito bem para problematizar a nossa discus-
são. Neles, o eu-lírico usa o termo pátria, que vem de pai e, dessa forma, a língua, 
que representa a pátria, seria também, uma espécie de pai, mas, histórica e cul-
turalmente, conhecemos o português como “língua mãe”, não é à toa que até no 
Hino Nacional Brasileiro, tal questão é posta, nos versos “Dos filhos deste solo/ 
mãe gentil/ Pátria amada Brasil”. 
Apesar disso, pai e mãe podem ser entendidos, à luz da Psicanálise, como 
figuras autoritárias que traumatizam, daí a necessidade de querer que a língua 
se torne “frátria”, isto é, irmã para que haja uma relação de equilíbrio e igualdade. 
Essa é uma das possibilidades de leitura desses versos que são repletos de sím-
bolos e cifras, como é comum no cancioneiro de Veloso. 
Afinal, por que eles nos interessam? Como afirmado anteriormente, eles aju-
dam na problematização das questões que são refletidas no decorrer de nossos 
estudos. Convido você a algumas reflexões: de que maneira podemos entender 
a língua como mãe? Se, de fato, ela for vista como pai ou como mãe, a língua nos 
protege ou nos pune? E, se vista como irmã, ela é nossa aliada, é feita do mesmo 
material que nós, sujeitos, somos feitos? E, para finalizar, de que maneira esses 
versos ilustram momentos distintos da história do pensamento linguístico?
"A língua não se confunde com a linguagem; é somente uma parte determina-
da, essencial dela. É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade de lingua-
gem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para 
permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos. A linguagem é multiforme 
e heteróclita; a língua, ao contrário, é um todo por si e um princípio de classifica-
ção. Ela é a parte da linguagem, exterior ao indivíduo” (SAUSSURE, 1971, p.12)
Partindo da Problematização inicial, leia, na íntegra, Língua, de Caetano Ve-
loso, e elabore uma análise contemplando as inúmeras referências que aparecem 
no incipit da letra, bem como o que o eu-lírico compreende como língua.
Gostode sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
“A língua é minha pátria 
E eu não tenho pátria, tenho mátria 
E quero frátria”
LETRAS. Língua Caetano Veloso. Letras, [2022]. Disponível em: https://www.letras.mus.br/caetano-
-veloso/44738/. Acesso em: 25 mar. 2022.
79
Língua (Caetano Veloso
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé
Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
UNICESUMAR
UNIDADE 3
80
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
LETRAS. Língua Caetano Veloso. Letras, [2022]. Disponível em: https://www.letras.mus.br/caetano-
-veloso/44738/. Acesso em: 25 mar. 2022.
Confira no QRcode ao lado.
https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/11792
81
No caldeirão de vastas referências que a letra de Língua traz, selecione e comente 
aquelas que são conhecidas por você e faça uma pesquisa a respeito daquelas 
que são desconhecidas. Trago, aqui, alguns exemplos: quando ele cita “Pessoa” e 
“Rosa”, será que, de fato, a referência é tão somente aos substantivos femininos? 
De onde vem a referência “lobo, do lobo do homem”? Quem foi Scarlet Moon de 
Chevalier? Qual é a relação existente entre todas essas referências?
DIÁRIO DE BORDO
UNICESUMAR
UNIDADE 3
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O que é Linguística?
Descrição da Imagem: a imagem é uma pintura de óleo sobre madeira, em tons marrom, amarelo, bran-
co, azul, vermelho e preto. A obra mostra um vilarejo do fim da idade média e início da idade moderna, 
com pessoas animais e objetos ilustrando provérbios da língua holandesa, bem como expressões do 
idioma. Na parte de baixo, da esquerda para a direita, há uma mulher amarrando com um pano branco 
uma criatura acinzentada com olhos e bocas grandes, com chifres, ele está deitado, ele tem os braços e 
as pernas amarrados com cordas. Um pouco mais acima, há um homem abraçado e mordendo um pilar 
quebrado com um chapéu em cima. Na direita, uma mulher carrega fogo em uma mão, água na outra, 
e logo ao lado, um homem bate a cabeça contra uma parede de tijolos e tem um pé calçado, o outro, 
descalço. Do lado direito, há um homem sentado tosando os pelos de uma ovelha em seu colo, do lado 
direito tem uma ovelha branca deitada com as patas amarradas por uma corda, logo acima há outro 
homem sentado tosa os pelos de um leitão marrom.
Figura 1 – Provérbios neerlandeses (1559), de Pieter Bruegel, o velho
Fonte: Wikimedia Commons ([2022]a, on-line).
83
A Linguística é a disciplina que estuda cientificamente a linguagem. Al-
gumas questões podem ser problematizadas a partir dessa conceituação: 
a Linguística, tal como será comentada aqui possui relação direta com a 
Filosofia da Linguagem? Ou trata-se de mais um ramo do conhecimento 
que se interessa em compreender a linguagem? Se é uma ciência, difere-
-se da compreensão filosófica? Tais questionamentos serão comentados, 
mesmo que indiretamente, no decorrer da unidade.
Alguns esclarecimentos precisam ser feitos, uma vez que sabe-
mos que a tradição escolar tende a identificar o estudo da linguagem 
com o estudo da gramática. A Linguística rema para outra direção e 
distingue-se da gramática normativa, aquela que dita regras para o 
uso da linguagem. Para a Linguística, tudo o que faz parte da língua 
é interessante e merece reflexão.
O termo linguagem apresenta sentidos diferentes. Geralmente, uti-
lizamos para fazer referência a qualquer processo de comunicação, tais 
como a linguagem corporal, a linguagem artística, a linguagem escrita e 
assim por diante. Isso quer dizer que as línguas naturais, como a portu-
guesa, por exemplo, é uma forma de linguagem, pois possui elementos 
que possibilitam a comunicação entre seus falantes. 
Ademais, a linguagem possui caráter de designação e expressão. A 
concepção designativa, de acordo com Medina (2007), possui relação 
direta com a filosofia, uma vez que focaliza as relações entre a palavra e 
o objeto e, por tal motivo, a linguagem funciona como dispositivo para 
representar o mundo; a concepção expressiva relaciona a linguagem 
com a subjetividade humana, pois constitui o eu. Enquanto a primeira 
fundamenta-se no objetivismo e na epistemologia, a segunda funciona 
como “a chave para resolver quebra-cabeças filosóficos a respeito de 
nossa humanidade, por seu poder de constituir emoções e relações 
sociais especificamente humanas” (MEDINA, 2007, p. 53).
Os linguistas, ou seja, os cientistas da linguística, estabelecem 
uma relação diferente entre linguagem e língua. A linguagem é uma 
habilidade que os seres humanos possuem para se comunicar por 
meio das línguas. Já a língua é um sistema de signos vocais utilizado 
como meio de comunicação.
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UNIDADE 3
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Embora os linguistas observem a estrutura das línguas naturais, o interesse deles 
não está apenas nessa questão, mas nos processos que baseiam os instrumentos de 
comunicação. Dito de outro modo, o interesse se concentra, principalmente, na 
reflexão que as línguas carregam em sua estrutura a respeito de aspectos universais 
do homem. Ferdinand de Saussure, o pai da Linguística Moderna, afirma que:
 “ Tomada em seu todo, a linguagem é multiforme e heteróclita; ca-valeiro de diferentes domínios, ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica, ela pertence além disso ao domínio individual e social; 
não se deixa classificar em nenhuma categoria de fatos humanos, 
pois não se sabe como inferir sua unidade (SAUSSURE, 1971, p.17)
 Uma das características mais salientadas da linguística é o seu caráter científico. 
Como não poderia deixar de ser, precisamos problematizar esse ponto: o que é 
que faz ou quais são os fatores que tornam esse campo do saber, isto é, a lingua-
gem, uma ciência? Ele não era até então visto como um interesse filosófico? A 
resposta para essa questão leva em consideração a trindade objeto, objetivo e 
método. Borba (1998) nos lembra que para que algo se torne uma ciência é preci-
so delimitar um objeto de estudo, uma proposição de objetivos e, também, a cria-
ção de uma metodologia que seja adequada para a análise do objeto selecionado.
O grande problema está em delimitar um objeto para o estudo da Lin-
guística, pelo fato de que a linguagem humana é complexa, repleta de facetas 
distintas, as quais incluem as perspectivas filosófica, sociológica, psicológica/psicanalítica e assim por diante. Nesse engodo, Saussure (1971) afirma que ou-
tras ciências trabalham com objetos dados, mas não é o caso de nosso interesse, 
pelo fato de que “bem longe de dizer que o objeto precede o ponto de vista 
[...] é o ponto de vista que cria o objeto” (SAUSSURE, 1971, p.15). O enfoque 
quem dará, portanto, é o estudioso da linguagem.
Portanto, nosso olhar, na presente unidade, observa a linguagem a partir do 
fenômeno linguístico. Cronologicamente, cada momento da Linguística se inte-
ressou por delimitar a compreensão desse objeto o que, evidentemente, determina 
análises específicas, escolhas e exclusões de objetivos e métodos. Acompanhemos, 
a partir de agora, alguns desses principais momentos e contribuições.
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Um Pouco de História
Descrição da Imagem: a imagem é uma pintura em óleo sobre tela, que demonstra traços de pinceladas 
fortes e contornos bem marcados. Há cinco homens sentados em cadeiras conversando em uma sala 
na diagonal da esquerda mais à frente do observador para a direita mais ao fundo. O piso é marrom, 
as paredes cinza, na esquerda há uma janela marrom aberta e na direita ao fundo uma porta marrom 
que aparece só a metade. O primeiro homem à esquerda, mais próximo do observador, está de perfil 
com a face voltada para a direita, olhando para dois homens um pouco mais ao fundo à direita. Ele 
tem a barba e cabelo curtos na cor preta e usa calça e paletó tom de caqui, usa um camisa branca por 
baixo, tem um chapéu marrom nos joelhos e usa sapatos marrons. Outro homem um pouco mais ao 
fundo e a direita, está de perfil com o corpo voltado para a direita, olhando para outro homem à sua 
direita. Ele tem cabelo grisalhos curtos, barba longa branca, usa um terno azul bordô, camisa branca 
por baixo e suas pernas não aparecem por causa da pintura do primeiro homem. O terceiro homem 
está no centro da tela, com o corpo de frente para o observador, com a cabeça e ombros voltados à 
esquerda em direção ao segundo homem, ele cabelo pretos curtos e barba grisalha, usa um terno azul 
bordô, um colete em tom de caqui, calça e sapatos cinzas, e ele segura um chapéu marrom com as duas 
mãos nas suas coxas. No fundo à direita, há dois homens sentados com o corpo e face voltados para 
a direita. O homem da esquerda tem cabelo curto e braba longa grisalhos, usa um sobretudo em tom 
de caqui, colete preto e camisa branca, calça azul bordô e sapato preto. O homem do seu lado direito 
tem cabelo curto e barba longa ruivos, usa uma camisa azul bordô, calça marrom e sapato preto e ele 
segura um chapéu azul com as mãos na altura do joelho.
Figura 1 – A conversação (1935), de Arnold Lakhovsky / Fonte: Wikimedia ([2022]b, on-line).
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UNIDADE 3
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Se acionarmos o fio histórico, como já previamente elaboramos na Unidade I, 
verificaremos que há relatos de estudos linguísticos já na Antiguidade. Como 
afirma Orlandi (1999, p. 8), “a sedução que a linguagem exerce sobre o homem 
existe desde sempre”. A título de ilustração, pensemos na Antiga Mesopotâmia, 
conforme informa a Encyclopaedia (1993): no ano 2000 a.C a língua falada acá-
dia tinha substituído a língua suméria, no entanto, o sumério ainda era utilizado 
na escrita de textos legais e religiosos. Para a leitura desses textos, foram criadas 
uma porção de listas de palavras com a correspondência entre as duas línguas. 
De acordo com Lopes e Antonio (2010, p.35),
 “ Deve-se observar que o sumério foi a primeira língua escrita conhe-cida. Tratava-se da escrita cuneiforme, a qual era feita com auxílio de objetos em forma de cunha. A escrita acádia também era cunei-
forme e teve origem no sumério. Por volta de 1700 a. C., o código 
de Hamurabi, um dos mais antigos e conhecidos conjuntos de leis, 
foi escrito em acádio.
Observe, a seguir, alguns elementos da escrita cuneiforme:
Descrição da Imagem: inscrição suméria no monumento de estilo arcaico.
Figura 1 – A escrita cuneiforme / Fonte: Borges ([2022], on-line).
https://conhecimentocientifico.com/escrita-cuneiforme/
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Câmara Jr (1975) informa que no século V a. C., na Índia, o gramático Pãnini, 
detalhou, de maneira descritiva, o sânscrito, pois a tradição religiosa exigia 
que os Vedas, textos sagrados do hinduísmo, formados por mantras que in-
cluíam hinos, orações, fórmulas etc., fossem declamados da forma como foram 
criados, por volta de 1200 a.C. A seguir, a título de ilustração, uma imagem do 
Riguevedas (também conhecido como Livro dos Hinos), o primeiro dos quatro 
livros que compõem os Vedas. 
Descrição da Imagem: a imagem é uma digitalização de uma página do Rigueveda, edição do século 
19. O texto está escrito em sânscrito na cor preta em 18 linhas na horizontal. A página está amarelada 
devido a ação do tempo.
Figura 4 - Rigueveda / Fonte: Wikimedia Commons ([2022]c, on-line).
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UNIDADE 3
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Adiantando o fluxo histórico, chegamos na Antiguidade Clássica e, sem dúvidas, 
uma de suas maiores contribuições para os estudos da linguagem está naquilo que 
hoje conhecemos como a gramática tradicional. Mattos e Silva (1989) afirmam 
que a gênese da gramática está no já comentado diálogo Crátilo, de Platão.
Lyons (1979) afirma que para os gregos, tudo o que era natural era, também, 
imutável, uma vez que não havia sido estabelecido pelo homem. Já o que era con-
vencional, era o resultado de algum contrato que, porventura, poderia ser quebrado.
Os fundamentos da gramática grega foram lançados por Platão e, depois, 
ampliados por Aristóteles. Lyons (1979) afirma que foi feita a divisão das partes 
do discurso ou das classes de palavras: Platão fez a divisão entre substantivos 
e verbos, mesmo que hoje haja outro entendimento a respeito dessa divisão, e 
Aristóteles contribuiu com a divisão das conjunções. Por sua vez, os estoicos 
agregaram a classe dos artigos e propuseram a divisão dos substantivos em pró-
prios e comuns, além da voz ativa e passiva e a transitividade e intransitividade 
dos verbos. Tempos depois, os gramáticos alexandrinos – e merece destaque 
Dionísio da Trácia – acrescentaram novas classes, tais como advérbio, pronome 
e preposição. Nesse período, Lyons (1979) afirma que tais gramáticos cometeram 
um “erro clássico” que se perpetua até os dias de hoje: consideravam a língua es-
crita como mais correta e superior à língua falada. Os romanos também tiveram 
importância para a construção da gramática tradicional:
 “ Os gramáticos romanos aplicaram ao latim as categorias e classes de-finidas pelos gregos. É consenso entre os estudiosos que Varrão, que viveu no século II a. C. e escreveu uma gramática de 24 livros chamada 
De Língua Latina, é o gramático de maior destaque entre os romanos. 
Outros gramáticos latinos de destaque são Donato, que viveu no século 
IV d. C., e Prisciano, que viveu no século V. d. C. A grande preocupação 
dos gramáticos romanos, no entanto, dizia respeito à manutenção da 
“pureza” do latim clássico em relação ao chamado “latim vulgar”. Assim, 
as gramáticas da língua latina tinham como objetivo estabelecer uma 
norma que deveria ser considerada a “correta” e promover a unidade 
linguística no Império Romano (LOPES & ANTONIO, 2010, p.37). 
É na Idade Média que ocorrem dois acontecimentos importantes, quando pen-
samos nos estudos a respeito da linguagem: o ensino do latim de maneira 
normativa e o surgimento de uma gramática de cunho filosófico.
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Lyons (1979) informa que o latim tinha um papel preponderante na Idade 
Média, pois era a língua utilizada pela religião e pela cultura. Na época, quem 
sabia latim tinha chance de obter algum sucesso na sociedade. Vários manuais de 
ensino de latim foram criados nesse período. Além disso, o surgimento de outras 
línguas nos países que formavam o Império Romano preocupava em relação à 
“pureza” do latim, o que abria frente para o ensino normativo da língua.
De acordo com Campbell (2002), a descoberta da obra dos filósofos gregos, 
no século XII, influenciou o surgimento da gramática especulativa, isto é, aquela 
que deveriaser um espelho que reflete a realidade (BORBA, 1998). A importância 
estava em explicar a gramática como produto da razão humana e a língua como 
reflexo do pensamento. É a recuperação do pensamento de Aristóteles de que o 
conhecimento é universal e que surge a crença de uma gramática universal. Esse 
pensamento levou os estudiosos a crer que todas as línguas possuíam a mesma 
gramática e que o fato de falantes de línguas distintas não se entenderem se devia 
ao fato da distinção na formação das palavras. Nos Modistae, havia o interesse em 
construir uma teoria geral da linguagem, que partia da autonomia da Gramática 
em relação à Lógica. Orlandi (1999) afirma que eles consideravam “três tipos de 
modalidades (modus) manifestados pela linguagem natural: o modus essendi (de 
ser) o intelligendi (de pensamento) e o significandi (de significar).
Orlandi (1999) afirma que, na história da constituição da Linguística, dois 
momentos-chave precisam ser comentados: o século XVII, conhecido como a 
das gramáticas gerais, e o XIX, século das gramáticas comparadas. No primeiro 
momento, os estudos a respeito da linguagem são marcados pelo racionalismo e 
os estudiosos da época afirmavam que a linguagem era a representação do pen-
samento, além de tentar mostrar que as línguas obedecem aos princípios lógicos.
 “ A gramática que constroem deve funcionar como uma máquina que possa separar automaticamente o que é válido e o que não é. Uma espécie de autômato, regido pela Lógica. O alvo que esses estudio-
sos querem atingir é a língua-ideal – língua universal, lógica, sem 
ambiguidades, capaz de assegurar a unidade da comunicação do 
gênero humano. Não é difícil reconhecer já aí o sonho do homem 
moderno em ter o controle do mundo através das máquinas. Esse 
ideal, traduzido para a atualidade, é a língua metálica, a dos compu-
tadores, universal e sem “falhas” (ORLANDI, 1999, p.12)
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UNIDADE 3
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Eram esses tipos de textos que, recorrentemente, eram estudados nas escolas e 
nas universidades. Retorna, no século XVII, aos valores escolásticos com a Gra-
maire génerale et raisonnée de Port-Royal, de A. Arnauld e C. Lancelot. Campbell 
(2002) afirma que essa gramática mesclava uma prática pedagógica de explicar 
latim embasada em exemplos de línguas vernáculas, o que exigia bastante clareza 
e precisão no uso da linguagem pelos falantes.
No século XIX, baseados nos ideais do Romantismo, os estudos linguísticos 
passaram a refutar a perfeição dos clássicos e se interessaram pela origem das 
línguas vernáculas. 
A descoberta creditada ao inglês Sir William Jones, no final do século XVII, 
das semelhanças do sânscrito com o latim e com o grego e também com a 
maioria das línguas europeias foi fator decisivo para o surgimento da chama-
da gramática comparada. Os estudiosos comparavam formas gramaticais 
das línguas europeias, do latim, do grego e do sânscrito em busca de uma 
língua que teria dado origem a todas elas, o indo-europeu. Embora não haja 
documentos que comprovem a existência dessa língua mãe, os compara-
tivista reconstruíram teoricamente formas dessa língua e até chegaram a 
escrever textos nessa língua. Orlandi (1990) apresenta um exemplo de uma 
dessas reconstruções hipotéticas: a comparação do latim “centum”, do grego 
εxατov, do antigo irlandês “cët”, do gótico “hund”, do antigo hindu “satam” e 
do lituano “simtas” levou à reconstrução da forma “*Kmto-m”, cujo signifi-
cado, em português, seria “cem”. (LOPES & ANTONIO, 2010, p.39).
De acordo com Benveniste (1995), desde os pré-socráticos, passando pelos ale-
xandrinos, pelo Renascimento até o fim da Idade Média Latina, a língua tornou-
-se precioso objeto de especulação. Essa situação se altera, apenas no final do 
século XVIII, com a descoberta do sânscrito, reconhecida língua indiana que 
estava preservada em livros sagrados. O século XIX é, também, o das gramáticas 
comparadas. Muitos estudiosos reconheceram esse período, também cunhado 
de histórico-comparativista, como o primeiro momento paradigmático da 
Linguística. Foi nesse período que a linguagem humana passou a ser observada 
e analisada por si mesma e a partir do século XIX, conforme mencionado, os 
estudos comparados ganharam atenção.
91
Weedwood (2002) afirma que o método comparativo permitia que línguas 
particulares fossem comparadas colocando em destaque as questões fonéticas, 
as estruturas gramaticais e os vocabulários, concluindo que elas eram “genea-
logicamente” parentes. Nesse período, a ênfase estava na faceta histórica das 
línguas e havia uma aposta na evolução das formas linguísticas a partir de 
suas reconstituições e comparações. É, também, nesse período que é possível 
distinguir um objeto, isto é, as línguas a partir de uma perspectiva histórica, 
bem como um objetivo que, neste caso, é o estabelecimento de relação entre 
elas e, por fim, um método, neste caso, a comparação de dados que avaliavam 
esses estudos como científicos. Todavia, nunca é demais salientar que essa é 
uma visão da questão: havia, nessa época, discordância entre os estudiosos por 
causa de diferentes objetivos e metodologias. E é justamente essas diferenças 
que deram um caráter complexo ao objeto analisado. Em outras palavras,
 “ Este século tem movimentos, perspectivas e interesses bem di-ferentes do século XVII. Já não tem validade o ideal universal, e o que vai chamar a atenção dos que trabalham com a linguagem 
é o fato de que as línguas se transformam com o tempo. Não é 
mais a precisão, mas a mudança o que importa. É a época dos 
estudos históricos, em que se procura mostrar que a mudança 
das línguas não depende da vontade dos homens, mas segue uma 
necessidade da própria língua, e tem uma regularidade, isto é, não 
se faz de qualquer jeito (ORLANDI, 1999, p.13).
Um nome de destaque é o do alemão F. Bopp. Orlandi (1999) assinala que a 
sua importância é tamanha que a data de nascimento da linguística histórica 
é a data de sua obra (1816) sobre a língua sânscrita comparada ao grego, latim, 
persa e germânico. E é no século XIX que os parentescos entre boa parte das 
línguas europeias e o sânscrito são descobertas. Esse conjunto de línguas ficou 
conhecido como indo-europeias. Todas essas línguas possuem relações e são 
vistas como transformações naturais de uma língua de origem que, nesse caso, 
é o indo-europeu. Para se chegar a essa constatação, comparam-se as línguas 
e verificam suas correspondências.
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 “ O alvo visado, então, não é mais a língua ideal, mas a língua-mãe. O ideal racionalista cedeu seu lugar ao ideal romântico: não se busca a perfeição, se busca a origem. Essa língua de origem, o chamado 
indo-europeu, não é uma língua da qual se tenham documentos. É 
uma reconstrução teórica, um conceito. Mas a vontade de recons-
truir a língua-mãe é tal que chegam mesmo a escrever fábulas nessa 
“língua” (ORLANDI, 1999, p.14)
No século XIX, os chamados neogramáticos anunciaram leis fonéticas para ex-
plicar a evolução das línguas. Construíram uma escrita própria para mapear essa 
evolução e “colocaram essas formas como matrizes para o conjunto de formas 
existentes nas línguas indo-europeias, em relação à inexistente língua-mãe” (OR-
LANDI, 1999, p.15). Por meio dessa escrita, é possível verificar, conforme Orlandi 
(1999), por exemplo, que o espanhol “lluvia” e o português “chuva” possuem cor-
respondência com a palavra latina “pluviam”.
Os principais nomes da Linguística antes de Saussure basearam seus estudos 
no pensamento de estudiosos do século XIX. Dentre eles, é preciso destacar o 
norte-americano William Dwight Whitney e o alemão Whilhelm von Humboldt. 
Para o primeiro, a língua é vista como uma atividade social e “um tipo de código 
de sinais cujo escopo é a comunicação entre os homens” (CÂMARA JÚNIOR, 
1975, p.59). Essa constatação influenciou Saussure que, tempos depois, afirmaria 
que “Whitney insistiu, com razão, no caráter arbitrário dos signos; com isso, co-
locou a linguística em seu verdadeiro eixo” (SAUSSURE,1989, p.90).
Já o teórico alemão lançou a base para o que viria a ser a Linguística des-
critiva. É o gerativismo de Chomsky que beberá, mais profundamente, nessa 
fonte, pois Humboldt dizia que a linguagem é uma atividade, uma criação sem 
cessar da mente. Ademais, 
 “ Humboldt afirmou que a linguagem é uma teia de itens interligados, e que a malha desses elementos interligados é produzida por nos-sas ações linguísticas ou atos de fala. De acordo com Humboldt, é 
essencial a uma compreensão adequada da linguagem que reconhe-
çamos que a teia da linguagem está sendo perpetuamente recriada 
na fala, isto é, continuamente expandida, alterada e reconfigurada 
em nossas atuações e práticas linguísticas (MEDINA, 2007, p.53-54)
93
Há uma constelação de fatos que mostram a atenção que o homem deu, em 
diferentes épocas, para a linguagem. Foi somente com a criação da Linguística, 
ciência recente, inaugurada no início do século XX, que essas manifestações to-
mam forma científica com objeto e método. É sobre Saussure, verdadeiro marco 
nos estudos linguísticos, que trataremos a seguir.
Ferdinand de Saussure: o marco nos estudos 
linguísticos
Descrição da Imagem: na foto em preto e branco está Ferdinand de Saussure, pai da Linguística moderna. 
Saussure está posicionado de perfil, usa uma espécie de casaco por cima de uma camisa com gravata. 
Saussure tem bigode e cabelos curtos, e fixa o olhar em um ponto em que o espectador não pode ver.
Figura 5 – Ferdinand de Saussure / Fonte: Wikimedia ([2022]d, on-line)
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É a partir da proposta de Ferdinand de Saussure, linguista genebrino nascido em 
1857 e falecido em 1913, que há a sintetização e organização de uma variedade 
de questões já postas a respeito dos estudos da linguagem. Foi ele quem definiu 
os objetivos e determinou algumas abordagens a respeito desse fenômeno. O 
Curso da Linguística Geral, obra fundamental sobre todo o edifício da Linguís-
tica, publicada em 1916, é o resultado das anotações das aulas de Saussure que 
foram reunidas e publicadas por dois de seus discípulos: C. Bally e A. Sechehaye. 
 Esta ciência constituída por Saussure possui quatro disciplinas: a fonologia 
(que estuda as unidades sonoras), a sintaxe (que estuda a estrutura das frases) 
e a morfologia (que estuda a forma das palavras) e que formam a gramática; e, 
por fim, a semântica (que estuda os significados). De forma geral, para Saussure,
 “ [...]a matéria da Linguística é constituída inicialmente por todas as manifestações da linguagem humana, quer se trata de povos selvagens ou de nações civilizadas, de épocas arcaicas, clássicas ou 
de decadência, considerando-se em cada período não só a lingua-
gem correta e a “bela linguagem”, mas todas as formas de expressão 
(SAUSSURE, 1971, p.13)
Conforme exposto anteriormente, Saussure salientou, desde o início de suas con-
tribuições, que a linguagem humana era múltipla, repleta de vertentes, além disso, 
ela seria uma faculdade própria do ser humano, pois permitia a comunicação 
(verbal e não verbal). Portanto, sua abrangência é universal e pertencia tanto ao 
domínio individual quanto ao social.
Veremos, no decorrer da unidade, que Saussure organiza uma série de con-
ceitos que instituem a Linguística como ciência. Esta organização que o linguista 
genebrino chamaria de sistema, seus sucessores chamariam de estrutura. Isso 
significa que cada elemento da língua só ganha valor na medida em que se rela-
ciona com o todo do qual faz parte. 
 “ Saussure exemplifica isso com o jogo de xadrez, em que uma peça (o cavalo, por exemplo) tira sua identidade não do material de que é feito (pode ser de madeira, osso, marfim etc.), e nem mesmo de sua 
figura aparente (pode até ser substituído por um botão) mas da re-
lação de oposição que tem com as outras peças e da sua posição em 
95
relação ao todo. Sua identidade depende do seu lugar no tabuleiro, 
do seu valor no jogo. Assim, qualquer unidade linguística também 
se define pela posição que ocupa na rede de relações que constitui 
o sistema total da língua (ORLANDI, 1999, p.25)
 O Estruturalismo foi um dos campos que floresceram devido às ideias de Saus-
sure. Neste campo, inúmeras estruturas e funcionamento da linguagem foram 
pensadas. Os estruturalistas viam a língua como um sistema autônomo, homogê-
neo e também rompiam com a visão histórica e comparada comum no século XIX. 
Antes de discutirmos algumas ideias dos sucessores de Saussure, vamos centrar 
nossa atenção em aspectos fundamentais do pensamento do mestre genebrino.
Para estudar a linguagem, seria preciso colocar-se no terreno da língua (lan-
gue), pois apenas ela, a langue, seria passível de uma definição autônoma princi-
palmente por se constituir como um objeto definido dentro desse conjunto tão 
amplo que é a linguagem. A partir daí, é a língua que passa a ser o objeto mais 
importante da Linguística.
A langue constitui, para o genebrino, um sistema de valores cujos elementos 
só se determinam a partir das relações estabelecidas com outros elementos do 
mesmo sistema. Em termos específicos, o que significa afirmar que a língua forma 
um sistema de valores? Saussure (1971, p.130) explica essa afirmação informando 
que há uma relação tênue entre língua e pensamento, ou seja, “não existem ideias 
preestabelecidas, e nada é distinto antes do aparecimento da língua”. Ademais, o pa-
pel da língua não está em criar um meio fônico para exprimir uma ideia, mas servir 
como intermediação entre o pensamento e o som. Dessa forma, sendo um vínculo 
entre produção do som e a parte significativa, a língua organizaria o pensamento.
Todavia, um conjunto de unidades sonoras não pode ser definido simples-
mente como a união direta de determinado som a determinado conceito. Saussure 
(1971) afirma que a língua não se reduz a uma lista de termos que correspondem a 
outras coisas que nos são apresentadas. Para que haja comunicação linguística não 
basta existir uma porção de sons produzidos e uma massa de pensamentos, ideias, 
emoções etc., que são expostos por meio de formas linguísticas: é preciso levar em 
consideração a atualização do material de natureza fônica de maneira que ele seja 
revestido de um valor semântico. Em outras palavras, a significação é alcançada 
por meio da organização das unidades que estão articulados no plano de expressão 
sonora da língua. Essa expressão é oriunda pela mediação da língua ou pelo sistema 
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de signos, e não da ligação direta do pensamento aos sons da fala. A massa amorfa 
de nossos pensamentos se “formam” no interior do sistema em que se atualizam.
Saussure (1971) afirma que a langue é forma e não substância. É por isso que 
o valor resulta sempre de oposições funcionais (relações associativas e sintagmá-
ticas). Isto quer dizer que as diferentes substâncias sonoras que possuímos para 
fazer referência a um único conceito não afetam a comunicação pelo fato de que 
a langue é essência e não aparência.
Portanto, a noção de valor não se constitui fora da noção de sistema. Além disso, 
a noção de valor, bem como outras, tais como forma e substância, relações associa-
tivas e sintagmáticas, diferença entre significado e significante, além da noção de 
arbitrariedade são fundamentais para a consolidação da Linguística como ciência.
Nessa esteira, pensemos na noção de signo linguístico, importante para esse 
momento e, posteriormente, para algumas discussões que serão realizadas na 
próxima unidade. Carneiro & Barros (2010) afirmam que o nosso universo é 
formado por um conjunto de elementos de natureza simbólica que povoam de 
significados a vida dos seres. Trata-se, especificamente, dos diferentes tipos de 
signos que estão na base dos processos significativos. Às vezes, a significação é 
natural: por exemplo, quando olhamos para o céu e vemos nuvens cor de chum-
bo e relâmpagos, compreendemos que pode chover. Esse tipo de acontecimento 
torna-se significado por causa de nossa experiência. Às vezes, a significação é 
nãonatural, isto é, se sustenta no princípio da intencionalidade e do acordo entre 
os indivíduos: por exemplo, um grupo de jovens brancos que raspam a cabeça, 
intitula-se skinheads e se une em torno de princípios nazistas. A cabeça raspada 
é um elemento que, nesse contexto, funciona como um meio de comunicação.
É a partir disso que, de acordo com Carneiro & Barros (2010), a base da 
significação, seja natural ou não natural, se sustenta nos sistemas de signos cujo 
intuito é transmitir mensagens. E os signos podem ser classificados em três tipos: 
índice, ícone e símbolo. De acordo com as críticas anteriormente citadas, 
 “ O índice é o signo que mantém com o referente uma relação direta, existencial, causal e real. Há, portanto, aí uma relação de contigui-dade com a realidade exterior, tal como na indicação da direção do 
vento por um cata-vento ou da fumaça que atesta presença do fogo. 
O índice, como se vê, permite um raciocínio por inferência.
97
O ícone é o signo que mantém com o referente uma relação de 
semelhança. As imagens que costumamos retratar por meio de foto-
grafias, bem como a maquete de um edifício em construção, servem 
de exemplos desse tipo de signo.
Diferentemente do índice e do ícone, o símbolo é aquele signo que de-
signa seu objeto independentemente das relações causais ou de seme-
lhança com a realidade denotada. É um signo arbitrário resultante de 
uma convenção social. Isso quer dizer que o laço que se estabelece entre 
o referente e a coisa ou a realidade referenciada é imotivado. A título de 
exemplo, podemos citar a balança, a cruz e a toga que, em nossa cultura 
ocidental, são interpretadas respectivamente como símbolos da justiça, 
do cristianismo e da magistratura. (CARNEIRO; BARROS, 2010, p.65).
A partir do fragmento, compreendemos que o signo linguístico saussuriano é aquele 
constituído pelo símbolo, uma vez que há o caráter convencional e arbitrário. Saussu-
re (1971) inicia suas considerações a respeito do signo linguístico, fazendo uma crítica 
à concepção de língua como nomenclatura. Dessa forma, o signo linguístico “une não 
uma coisa a uma palavra, mas um conceito a uma imagem acústica” (SAUSSURE, 
1971, p.80). Para usar os termos de Saussure: une um significado a um significante.
O significante ou imagem acústica não se refere ao som material, físico, mas 
“a impressão psíquica desse som, a representação que dele nos dá o testemunho 
de nossos sentidos” (SAUSSURE, 1971, p.80). É por esse motivo que não devemos 
aventar que o significado depende da livre escolha do falante, pois “não está ao 
alcance do indivíduo trocar coisa alguma num signo, uma vez esteja ele estabele-
cido num grupo linguístico” (SAUSSURE, 1971, p.90). Para fechar, Saussure nos 
informa que os elementos que formam o signo linguístico são psíquicos e estariam 
unidos, de modo associativo, em nosso cérebro. Exemplificando essas discussões:
 “ Não importa que ao dizer “rio”, nas várias vezes em que repetir essa palavra, eu possa modificar um pouco o modo com que a pro-nuncio, com um r mais alveolar (rrr) ou mais velar (h). A imagem 
acústica é que interessa, e ela será sempre a mesma. Assim como 
não interessam as várias formas dos diferentes “rios” que existem, 
é sempre o mesmo significado “rio” que me vem à mente quando 
pronuncio “rio” (ORLANDI, 1999, p.23).
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UNIDADE 3
98
Saussure informa que há outras características fundamentais que pertencem ao 
signo linguístico. Uma delas é a arbitrariedade. Saussure (1971) considera que o 
laço que une o significante ao significante é arbitrário, além disso “convencional e 
imotivado, quer dizer, esse sistema que é a língua é formado de unidades abstratas 
e convencionais” (ORLANDI, 1999, p.23). Não há motivo para que caneta se cha-
me caneta, mas uma vez que esse nome é atribuído, ela passa a ter valor na língua 
e, a partir daí, associamos em nosso cérebro com a ideia de caneta, e não se pode 
chamar “caneta” de “lápis”. É a partir dessa relação de diferenças que os signos cons-
tituem o sistema da língua. Por isso, que se afirma que o valor do signo é relativo e 
negativo: “caneta” significa “caneta” porque não significa “lápis”, não significa “pincel”, 
e assim por diante. Na continuidade da discussão a respeito do caráter arbitrário, é 
preciso distinguir a arbitrariedade absoluta da arbitrariedade relativa:
 “ Nesse raciocínio, teríamos signos totalmente arbitrários e outros em que atuaria um fenômeno que permitiria reconhecer graus de arbi-trariedade, sem suprimi-la totalmente. Alguns numerais e palavras 
derivadas e compostas servem de exemplo para essa “arbitrariedade 
relativa”. Observe a diferença existente entre as palavras roupa e guar-
da-roupa. A primeira é totalmente imotivada e arbitrária; a segunda, 
por sua vez, não é imotivada e arbitrária no mesmo grau. O signo 
linguístico guarda-roupa parece evocar os termos dos quais o signi-
ficante se compõe (guardar + roupa), assim, quando reconhecemos 
os significados das partes que constituem esse signo, podemos com-
preender sua significação como um todo. O mesmo fato pode ser 
observado em outras palavras compostas tais como beija-flor, e em 
palavras derivadas e numerais (CARNEIRO; BARROS, 2010, p.69)
Em outras palavras, para Saussure, o significado e o significante não estão pac-
tuados com nenhum fator considerado externo à língua, mas, tão somente, “ao 
fato de que estão em oposição a todos os demais significados e significantes 
previstos pela língua” (ILARI, 2004, p.63). Dessa forma, para compreender o 
funcionamento dos signos é preciso colocá-los em relação de oposição e relação 
com os demais signos da mesma língua.
Outra característica fundamental do signo linguístico é a linearidade. Saussure 
(1971) afirma que pelo fato dos significantes possuírem natureza essencialmente 
auditiva, eles se desenvolvem no tempo e agregam características que emprestam do 
99
tempo: “os significantes acústicos dispõem apenas da linha do tempo; seus elemen-
tos se apresentam um após outro; formam uma cadeia” (SAUSSURE, 1971, p.84).
A partir disso, decorre a última característica fundamental do signo saus-
suriano: a sua organização sistêmica. Estamos nos referindo, mais especificamen-
te, as relações associativas e as relações sintagmáticas. Importa lembrar que essas 
relações são oriundas da compreensão de que a língua não comporta nem ideias 
e nem sons preexistentes ao sistema linguístico, apenas diferenças resultantes de 
uma organização sistêmica.
Nas relações associativas, a seleção é feita dentre aqueles signos linguísticos que 
possuem alguma característica em comum ou que possuem algum vínculo. Em 
determinado contexto, os signos menino, guri e piá possuem relações associativas. 
Carneiro e Barros (2010, p.70-71) afirmam que as relações associativas formam “um 
relacionamento in absentia, uma vez que os elementos não estão numa relação jus-
taposta, mas numa relação mnemônica virtual”. Saussure (1971) afirma, ainda, que 
os elementos que compõem uma associação não se apresentam de forma definida 
ou determinada. Sobre isso, podemos pensar, por exemplo, nas relações existentes 
entre desej-oso, calor-oso, medr-oso, ou, ainda, nas diferentes formas de se conjugar 
um verbo, como o beber (bebo, bebe, bebemos, beberemos, bebereis, beberia, etc.).
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UNIDADE 3
100
Já com as relações sintagmáticas, as relações acontecem por meio da combinação. 
Nesse tipo de relação, o foco está na posição ocupada por um signo na cadeia, o 
que importa é a relação do signo com os precedentes e subsequentes. Saussure 
(1971, p.143) afirma que o importante é a relação que os elementos linguísticos 
estabelecem entre si e, por isso, esse tipo de relação é considerada in praesentia, 
pois “repousa em dois ou mais termos de uma série efetiva”. A frase é o tipo por 
excelência de sintagma, mas há, ainda, outras formas, tais como a relação entre 
segmentos fônicos ou entre morfemas.
Salientamos que tanto as relações associativas quanto as sintagmáticas 
estãodentro do domínio da língua, e a fala seria a atualização desse sistema de 
signos. Quando a língua está em uso é que podemos observar esses enunciados 
de modo concreto.
Como visto, a língua é, para Saussure, um sistema de valores formado por 
alguns elementos que se relacionam com outros elementos do mesmo sistema. 
A partir desse conceito, o teórico cria um ponto de vista sincrônico a respeito do 
fenômeno linguístico, o que destoa da visão histórica conhecida até o momento. 
Nesse tipo de abordagem, o estudo da língua é isolado de suas mudanças no 
fluxo do tempo e é observado como um sistema compacto, homogêneo, que 
possui uma organização própria, independente de tudo o que lhe é exterior. É 
importante ressaltar que a conceituação de langue, na visão saussuriana, é tam-
bém compreendida como parte social da linguagem, uma vez que é produto do 
trabalho coletivo dos sujeitos falantes. A língua, seria, pois,
 “ Um tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes a mesma comunidade, um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro ou, mais exatamente, nos cé-
rebros dum conjunto de indivíduos, pois a língua não está completa 
em nenhum, só em massa ela existe de modo completo (SAUSSU-
RE, 1971, p.21)
É preciso, nesse momento, fazer uma diferenciação: o conceito de língua se opõe 
ao conceito de fala (parole). O ato individual dos falantes colocarem em uso o 
sistema da língua com o intuito de exprimir seu pensamento é a fala. No entanto, 
para Saussure, embora sejam diferentes, língua e fala estão interligadas, pois, “a 
101
língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos; 
mas esta é necessária para que a língua se estabeleça” (SAUSSURE, 1971, p.27).
Como ficou clarificado, Saussure fez escolhas: escolheu a língua e renunciou 
a fala e a linguagem como objeto de estudo, também optou por uma visão 
sincrônica e abandonou a histórica (diacrônica) do fenômeno linguístico. 
Isso quer dizer que, para Saussure (1971), a Linguística teria dois caminhos 
para se estabelecer como ciência: a) o estudo da língua retirado de qualquer refe-
rência temporal ou b) o estudo da língua em seu contínuo processo de transfor-
mação na roda da história. O mestre genebrino idealizou uma ciência sincrônica e 
imanente da linguagem e estabeleceu que um “determinado da língua deveria ser 
isolado de suas mudanças através do tempo e examinado exclusivamente como 
um sistema homogêneo, possuidor de ordem própria, completamente indepen-
dente de sua exterioridade” (CARNEIRO; BARROS, 2010, p.79).
O que isso, na prática, significa? Saussure (1971) acreditava que com a pers-
pectiva diacrônica, o objeto do estudioso não seria, propriamente, a língua, mas 
a sequência de acontecimentos que a modificam. Pensemos em um clássico 
exemplo: o pronome da segunda pessoa do singular, tu, tem sido, quase sempre, 
substituído por você e, mais recentemente, por cê. Por sua vez, a origem de você 
está em Vossa mercê que, em tempos remotos, significava A vosso favor. Hoje, 
observamos as transformações no plano significante: vossa mercê -> vosmecê -> 
vossuncê-> suncê-> você -> cê. 
Se pensarmos de acordo com Saussure, essas transformações - tanto no plano 
do significado quanto no do significante - não constituem uma realidade para 
os falantes. A sucessão desses fatos, no tempo, não existe para os falantes. O que, 
de fato, interessa para Saussure, no exemplo anteriormente citado, é o papel de-
sempenhado pela forma cê, e não o processo histórico que levou a sua formação. 
Dessa forma, 
 “ Os fatos diacrônicos seriam, então, exteriores ao sistema linguístico – seriam, também, heterogêneos, particulares e isolados. Embora reconheça que a sincronia é condicionada pela diacronia, ou seja, 
que os fatos do sistema derivam dos fatos históricos e que as mu-
danças têm repercussão no sistema da língua, Saussure defende que 
o estudo da linguagem humana deveria voltar-se para a face estática 
da língua, negligenciada pelos estudiosos da época, cujas investi-
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UNIDADE 3
102
gações voltavam-se exclusivamente para a dimensão histórica das 
línguas, ou, mais propriamente, para as mudanças que nelas podem 
ser observadas (CARNEIRO; BARROS, 2010, p.80)
É preciso levar em consideração que as escolhas e as renúncias feitas por Saussure 
foram fundamentais para o desenvolvimento da Linguística contemporânea. Por 
esse motivo, acompanharemos, na sequência, alguns dos principais desdobra-
mentos oriundos do pensamento saussuriano. 
Descrição da Imagem: 
na foto em preto e branco 
está Jakobson, no qual apa-
rece apenas o seu busto de 
perfil. O linguista é jovem, 
ele está olhando para a es-
querda da imagem, tem os 
cabelos pretos, veste uma 
roupa preta e usa pince-
-nez (óculos sem hastes).
Figura 6 – Roman Jakobson, 
expoente do Círculo Linguísti-
co de Praga / Fonte: Wikimedia 
([2022]e, on-line).
103
Depois de Saussure
Conforme expõe Lepschy (1975), as pesquisas que englobam o Estruturalismo 
podem ser compreendidas, sobretudo, a partir dos estudos que enfatizam o ca-
ráter sistemático e arbitrário da língua e, também, e mais especificamente, para 
designar a linguística distribucional americana, de Bloomfield.
Merece destaque, neste momento, o Círculo Linguístico de Praga, fundado 
em 1926. Para os linguistas tchecos e russos, que compunham o círculo, nenhum 
fenômeno linguístico pode ser avaliado com rigor fora de sua estrutura. Mais 
do que se preocupar com sistemas e estruturas, tais estudiosos investigavam as 
funções e tarefas que as estruturas desempenham. Roman Jakobson, um dos 
principais nomes, conseguiu enlaçar, com bastante propriedade, os estudos a 
respeito de língua e literatura. Pensemos no modelo das funções da linguagem 
proposto por Jakobson (2010), relido aqui por Martelotta (2008).
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UNIDADE 3
104
 Para Jakobson (2010), a linguagem possui várias funções, mas para que pos-
samos apreendê-las, é preciso compreender os elementos que constituem o ato 
de comunicação. Para existir comunicação é preciso que haja não apenas um 
remetente que envie uma mensagem qualquer para um destinatário. Para que 
haja sucesso nesse ato é preciso observar, por exemplo, um contexto que seja com-
preensível para o destinatário. Martelotta (2008) afirma que a noção de contexto 
está relacionada ao conteúdo da mensagem, às informações que estão ligadas à 
nossa realidade biossocial e que aparecem na mensagem enviada. Isso quer dizer 
que não necessariamente as informações contextuais estejam todas explícitas 
na mensagem, podendo fazer referência às informações ditas anteriormente ou 
mesmo ao tipo de relação estabelecida entre os interlocutores.
Amplificando essa discussão, a noção de contexto também envolve todas as 
informações referentes à produção da mensagem. Por exemplo, se ouvirmos a 
frase: “Passei muitos exercícios na aula de hoje”, certamente, ela possui sentidos 
diferentes se fosse dita por um professor de língua portuguesa ou por um pro-
fessor de musculação. Resumidamente, para que o destinatário compreenda a 
mensagem, ele precisa entender o contexto em que ela está inserida, levando em 
consideração assuntos que não estão postos na mensagem.
O código é o conjunto de sinais utilizados para construir a mensagem. O có-
digo pode ser as línguas faladas ou escritas, a língua de sinais, as placas de trânsito 
etc. Nunca é demais reforçar que a comunicação só acontece efetivamente se o 
remetente e o destinatário conhecerem, mesmo que razoavelmente, o mesmo 
código. É muito difícil, por exemplo, imaginar a comunicação entre um japonês 
que não conheça o português e um brasileiro que não conheça o japonês. Eles 
terão que utilizar sinais, gestos etc.
O canal é o meio pelo qual a mensagem é transmitida. Presencialmente, o ar 
permite a comunicação entre os falantes. A distância, o telefone, as mensagens de 
aplicativos, e-mails dentre outras tecnologias viabilizam a comunicação. Marte-
lotta (2008, p.33) nos lembra,ao analisar a noção de contexto, que “a comunicação 
é uma atividade essencialmente cooperativa. É fundamental, portanto, algum tipo 
de interesse comum que crie uma conexão psicológica entre os participantes, sem 
a qual a comunicação seria prejudicada”.
Com base nesses elementos que constituem o ato comunicativo, Jakobson (2010) 
propôs seis funções da linguagem, cada uma delas focada em um desses elementos.
105
A função referencial é focada em transmitir as informações do remetente ao 
destinatário. O foco dessa função está no contexto, uma vez que a preocupação 
está em viabilizar conhecimentos que fazem referência às pessoas, objetos, acon-
tecimentos etc. Basta pensarmos nas notícias de jornal, em textos científicos, em 
livros didáticos como exemplos desse tipo de função.
A função emotiva é baseada no remetente, isto é, na emoção, na subjetivida-
de, na pessoalidade que ele deixa transparecer por meio da mensagem. Alguns 
exemplos como diário, relato pessoal, cartas carregam essa função. Martelotta 
(2000) lembra que, por exemplo, a entonação utilizada na narração de um jogo 
de futebol tem o intuito de, também, passar emoção e as escolhas vocabulares: 
entre as frases “ele saiu do lar” e “aquele canalha abandonou o lar”, a segunda é 
mais emotiva porque envolve o falante com a situação.
A função conativa influencia o comportamento do destinatário. A atenção está no 
destinatário, pois ele é o alvo da informação. Pensemos nas inúmeras propagandas, 
palestras, discursos que tentam influenciar ou chamar a atenção de quem recebe.
A função fática tem o intuito de começar, prolongar ou finalizar um ato de co-
municação. O foco é o canal, já que não visa a comunicação propriamente dita, mas o 
estabelecimento do contato, o recebimento da mensagem. O alô que a gente diz quan-
do telefona para alguém e os inícios de conversas são bons exemplos dessa função.
A função metalinguística usa a linguagem para fazer referência à própria lin-
guagem. Centrada no código, ela se justifica porque os sujeitos não se referem tão 
somente a sua realidade biossocial, mas aos próprios mecanismos relacionados 
à linguagem utilizada para esse fim. Os dicionários e as gramáticas são exemplos 
dessas funções, no entanto, podemos encontrar vários textos, inclusive literários, 
que focam a atenção em comentar ou refletir a respeito da própria linguagem.
A função poética está centrada na própria mensagem e na sua forma. Se-
gundo Jakobson (2010), nesse caso, há uma projeção do eixo da seleção sobre o 
eixo da comunicação dos elementos linguísticos. Martelotta (2008) explica essa 
definição retomando os dois tipos de arranjos utilizados no processo verbal: 
seleção e combinação.
 “ Ao formar uma frase, inicialmente o falante seleciona as palavras que melhor expressam suas ideias naquela situação de comunicação. Além disso, o falante combina, de acordo com as regras sintáticas de 
UNICESUMAR
UNIDADE 3
106
sua língua, as palavras selecionadas, de modo que elas constituam 
um enunciado que faça sentido para o interlocutor. (MARTELOT-
TA, 2008, p.88)
No entanto, como se constrói essa ideia de projeção do eixo de seleção sobre o 
de combinação? Martelotta (2008) responde afirmando que é preciso levar em 
consideração que a combinação das palavras está na superfície da frase, tornan-
do-se perceptível ao leitor/ouvinte. Já a seleção é um processo psicológico que, 
geralmente, não é superficialmente perceptível na estrutura da frase. Isso ocorre 
em textos caracterizados por rimas, jogos de palavras, aliterações. Observe o poe-
ma A onda, de Manuel Bandeira:
A ONDA
A O N D A
a onda anda
 aonde anda
 a onda?
a onda ainda
 ainda onda
 ainda anda
 aonde?
aonde?
a onda a onda.
(Fonte: BANDEIRA, s/d, p.267).
Realizando uma rápida análise, é fácil observar que o poema possui muitas re-
petições de vocábulos e de rimas. A escolha não foi por acaso: o intuito é criar 
o efeito estético, característica basilar do texto poético (literário). Por meio de 
paranomásias (palavras com significados diferentes, mas com grafia ou som simi-
lares), anáforas (repetição de palavras) e a disposição dos versos – que não estão 
colocados de maneira regular na folha -, o poeta sugere o movimento de uma 
107
onda. A musicalidade do poema confere repetição e uma espécie de embriaguez 
que, inclusive, pode confundir o leitor. A repetição de consoantes (n e d) e o abuso 
de vogais (a e o) criam o ritmo das águas e do vai e vem das ondas.
Jakobson (2010) salienta que a função poética não está apenas em textos 
literários. De alguma maneira, ela também pode aparecer em ditados popula-
res, por exemplo no tão conhecido “água mole em pedra dura, tanto bate até 
que fura”, em slogans e em propagandas. Além disso, o crítico deixa explícito 
de que embora ele tenha estabelecido essas seis funções da linguagem, isso não 
quer dizer que elas são estáticas, muito pelo contrário: uma mesma mensagem 
pode apresentar mais de uma dessas funções, ao passo que é preciso apenas 
verificar a hierarquia delas.
Ainda a respeito da linguagem literária, Jakobson (1921 apud SCHNAIDER-
MAN, 1976) afirma que “a poesia é linguagem em sua função estética. Deste modo, 
o objeto do estudo literário não é a literatura, mas a literariedade, isto é, aquilo que 
torna determinada obra uma obra literária”. Em outras palavras, de acordo com 
esses estudiosos, é preciso distinguir a natureza da linguagem poética (entenda-se 
aqui poética em um sentido mais amplo, envolvendo todos os textos de ordem 
literária) e a natureza da linguagem cotidiana, porque nela a função referencial 
não se reduz ao utilitarismo banal nem ao automatismo que é característica desta 
última. Dessa forma, o que há, na linguagem poética é uma desautomatização da 
percepção existentes no pragmatismo que caracterizam a linguagem cotidiana. 
 “ E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reco-
nhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singula-
rização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer 
a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção; a arte 
é um meio de experimentar o devir do objeto, o que é já “passado” 
não importa para a arte (CHKLOVSKI, 1976, p.45).
Clarificando o que foi citado anteriormente, é preciso que visualizamos as dife-
renças existentes entre reconhecimento e visão, a oposição existente entre au-
tomatismo e percepção desautomatizada. Uma das características basilares da 
Arte é permitir ao destinatário uma percepção mais rica em informações acerca 
UNICESUMAR
UNIDADE 3
108
dos temas tratados. Essa visão é construída pelo artista por meio dos recursos de 
linguagem que se constituem verdadeiros procedimentos de singularização cuja 
função é permitir “novas informações sobre temas e objetos que integram a expe-
riência cotidiana, mas se encontram como que neutralizados pelo automatismo da 
percepção” (FRANCO JR, 2009, p.117). Esse procedimento de singularização cria 
uma espécie de “crise” em nossos hábitos que são regulados pela linguagem coti-
diana, obrigando o espectador a rever seus conceitos, perspectivas e concepções 
de mundo. É por meio dessa singularização que a linguagem poética é definida.
De acordo com Paveau e Sarfati (2006), as funções propostas por Jakobson 
apontam para a relação entre estrutura e função, com ênfase na afirmação da 
importância da estrutura da língua, na função social da linguagem, na oposição 
entre a função da linguagem para comunicação e para a literatura e o modo de 
manifestação da linguagem escrita e oral, bem como as características da lingua-
gem do texto literário.
Caminhando mais um pouco, é pertinente comentarmos que os norte-america-
nos, no raiar do século XX, se interessavam pela linguagem no intuito de descrever 
algumas línguas indígenas americanas, que eram desprovidas de uma tradição escrita. 
O Mentalismo, lideradopor Edward Sapir (1884-1939), e o Mecanismo, liderado 
por Leonard Bloomfield (1887-1949), foram duas correntes estruturalistas bastante 
utilizadas nesse período: a primeira relaciona o fato linguístico com “os estados men-
tais respectivos ou com as concepções mentais coletivas” (LOPES, 2010, p.43), en-
quanto a segunda realiza uma espécie de abstração do conteúdo mental, como ocorre 
nos próprios fatos linguísticos e, desse modo, estuda a forma do sistema linguístico.
Sapir, conforme afirma Câmara Jr (1975), investigava a forma linguística no in-
tuito de observar os seus padrões intrínsecos. Todavia, Sapir não se detém no caráter 
coletivo da língua e concentra sua atenção nos padrões dela. Além disso, para esse 
linguista, a língua interfere na atividade mental de uma comunidade linguística e de 
como ela vê o mundo. É o caso, por exemplo, das diferentes denominações dadas ao 
mesmo pássaro: em português, os usuários da língua ressaltam a atividade (beija-
-flor); em francês, o enfoque é no tamanho, isto é, oiseau-mouche (pássaro mosca) e, 
por fim, em inglês, o foco é no barulho: humming bird, ou seja, pássaro que zumbe.
Já o Mecanismo de Bloomfield gira o interesse em afirmar que a linguagem 
é uma consequência natural de ações e reações dos elementos que compõem o 
corpo humano. De acordo com Lopes e Antonio (2010, p.44),
109
 “ Da mesma forma que os behavioristas faziam com as ações hu-manas, Bloomfield buscou colocar a linguagem em um nível de observação puramente objetivo das formas linguísticas. Bloom-
field desenvolveu, para a morfologia, o conceito de “forma mínima” 
(morfema, segundo seus seguidores), como a unidade estrutural 
básica do discurso. Dividiu-a em formas livres e formas presas e 
chegou a uma doutrina do vocábulo bastante funcional [...] Formas 
livres são aquelas que constituem uma sequência que pode ocorrer 
isoladamente e constituem comunicação suficiente, ou seja, não se 
ligam obrigatoriamente a outras formas. A forma livre pode ser sim-
ples, se for indivisível em unidades mórficas menores, como “mar”, 
por exemplos, ou compostas, se for divisível. Assim, “cantar” é uma 
forma livre composta de cant, -a, -r. Estas três formas denominam-
-se presas, pois constituem parte integrante do vocábulo. Elas não 
ocorrem sozinhas, mas funcionam ligadas a outras.
Para se contrapor ao Estruturalismo, nos anos 1950, nos Estados Unidos, surgiu 
um movimento capitaneado por Noam Chomsky, que trazia nova maneira de 
compreender o objeto de estudo da Linguística e, por conseguinte, apresentava 
novos métodos e objetivos. Chomsky nasceu em 1928, na Filadélfia, e, além de 
linguista, é filósofo, sociólogo, cientista cognitivo e ativista político. É professor 
emérito em Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. 
Sua contribuição ficou conhecida como Gramática Gerativa, cujo marco é a 
publicação, em 1957, de Syntatic Struture. A gramática ficou conhecida como Gerativa 
porque, segundo Orlandi (1999, p.38), ela permite, “a partir de um número limitado de 
regras, gerar um número infinito de sequências que são frases, associando-lhes uma 
descrição”. O mecanismo dessa teoria é dedutivo: ela parte do abstrato, ou seja, de um 
axioma e de um sistema de regras e atinge o concreto, isto é, frases existentes na língua.
A preocupação dessa obra era a de verificar a existência de algo que é tido como 
anterior à língua como era entendido pelos estruturalistas. Em outras palavras, 
todos os falantes possuem “um conhecimento partilhado sobre os enunciados que 
podem e não podem ser produzidos, e é justamente esse conhecimento que precisa 
ser descrito e explicado pela teoria linguística” (BORGES NETO, 2004, p.99).
UNICESUMAR
UNIDADE 3
110
Descrição da Imagem: 
na foto em preto e branco 
está Noam Chomsky, no 
qual aparece apenas o seu 
busto de forma inclinada 
para a esquerda. O linguis-
ta é um idoso com cabelos 
curtos, que tem uma das 
mãos apoiadas na região 
entre pescoço e cabeça, 
usa óculos, veste um sué-
ter e está olhando para a 
esquerda da imagem.
Figura 7 - Noam Chomsky
Fonte: Wikimedia Commons 
([2022]f, on-line).
Chomsky afirma que os falantes possuem a criatividade linguística, isto é, têm 
a capacidade de produzir sentenças até então desconhecidas por eles. Também 
pertence a essa capacidade, o saber que o falante tem a respeito das frases: “ele sabe 
comparar estruturas sintáticas semelhantes, sabe separar frases que fazem parte 
da língua das que não fazem, etc.” (ORLANDI, 1999, p.39), sem se preocupar, com 
isso, com o desempenho de falantes específicos em seus usos concretos. Para ele,
 “ A linguagem humana se baseia numa propriedade elementar que também parece ser uma propriedade biologicamente isolada: a pro-priedade da infinidade discreta, manifestada da forma mais pura 
pelos números naturais 1, 2, 3.... As crianças não aprendem essa 
propriedade do sistema numeral. A menos que a mente já possua 
os princípios básicos, nenhuma quantidade de evidências poderia 
fornecê-lo; [...] Do mesmo modo, nenhuma criança tem de aprender 
que há sentenças de três palavras e sentenças de quatro palavras, 
mas não sentenças de três palavras e meia, e que é sempre possível 
111
construir uma mais complexa, com uma forma e significados defi-
nidos. Tal conhecimento tem que nos chegar pela “mão original da 
natureza” (the original hand of nature), segundo expressão de David 
Hume, como parte do nosso dote biológico (CHOMSKY, 1998, p.18).
Em outras palavras, esse linguista acredita em uma espécie de conhecimento 
que é compartilhado. A natureza desse conhecimento é universal e biológica 
e está fundamentada na capacidade de adquirir uma língua. Chomsky (1998) 
afirma que a aquisição da língua é um processo precário, uma vez que as crian-
ças possuem acesso limitado e pobre aos dados linguísticos, bem como a uma 
fala truncada e incompleta. Mesmo assim adquirem rapidamente a sua língua 
materna e o conhecimento que adquirem é bastante sofisticado.
 “ Como o que está em causa é um falante ideal, e não locutores reais do uso concreto da linguagem, essa teoria chomskiana conduz ao universalismo. A faculdade da linguagem aparece aí como intrín-
seca à espécie humana: o homem já nasce com ela. A linguagem é 
inata. Faz parte da natureza do homem. E como o homem é carac-
terizado pela racionalidade, a relação fundamental para essa linha 
de estudos é a relação entre a linguagem e o pensamento. Prevalece 
o percurso psíquico da linguagem como o central e, em consequên-
cia, o domínio da razão. Assim como se concentra o interesse nos 
processos cognitivos (ORLANDI, 1999, p.40-41)
Nessa esteira, para Chomsky (1998), o nosso conhecimento linguístico é interno 
à mente, e para estudá-lo, com rigor, seria necessário tratar o construto mental 
da linguagem. A gramática gerativa, também conhecida como gramática uni-
versal, tem o intuito de gerar “regras de boa-formação de uma língua qualquer 
e de relacionar esse aparato formal a algum conjunto de princípios gerais (que 
determinem o que pode valer como ‘gramática gerativa’ para as línguas em geral)” 
(BORGES NETO, 2004, p.100-101).
A visão desse linguista é a de que “todas as línguas são variações de um 
mesmo tema” (CHOMSKY, 1998, p.24). É preciso explicar as propriedades 
da língua, observando o que o falante sabe. Ademais, ele adota uma postura 
inatista da linguagem e a considera a partir de uma visão cognitiva e bioló-
gica. O que importa para o Gerativismo não é observar o uso concreto da 
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UNIDADE 3
112
linguagem em situações também concretas. Dessa forma, diferentemente do 
Estruturalismo, a perspectiva de Chomsky não busca “descrever os dados que 
se revelam à percepção dos linguistas, mas trata-se de encontrar princípios 
gerais a partir dos quais as descrições dos dados observáveis possam ser logi-
camente derivadas” (BORGES NETO, 2004, p.100). Ainda, para Borges Neto, 
essas são algumas das propostas do Gerativismo:
 “ A história da GG [Gramática Gerativa] conhece três grandes “es-tratégias”na delimitação do conhecimento sobre a língua presente na mente/cérebro dos falantes. Num primeiro momento (Teoria 
de SS [Syntactic Struture]), a gramática deveria gerar diretamente 
as sentenças da língua (em suas formas superficiais). [...] No se-
gundo momento (Teoria-padrão), a gramática passa a gerar objetos 
abstratos que são interpretados nas sentenças das línguas (na sua 
forma fonética e no seu significado), ou seja, o conjunto de objetos 
abstratos gerados pela gramática é projeto na língua, descrevendo-
-a enquanto um conjunto de significantes possíveis relacionados 
a um conjunto de significados possíveis [...]. Aqui, a noção de gra-
mática gerativa sofre uma pequena modificação com relação ao 
sentido anterior [...]. Permanece, no entanto, o compromisso com 
a noção de língua, uma vez que a gramática vai gerar tantos objetos 
abstratos quantas forem as sentenças da língua e nenhum a mais. 
[...]. No terceiro momento (P&P [Princípios e Parâmetros]), a gra-
mática gera objetos abstratos que explicitam as propriedades que 
os falantes levam em consideração no momento de emitir juízos 
de gramaticalidade sobre objetos linguísticos. As sentenças de uma 
língua qualquer constituem apenas um subconjunto desse conjun-
to de objetos linguísticos e, portanto, em nenhum momento, e sob 
nenhum critério, é possível dizer que a gramática gera as sentenças 
da língua – no máximo, é possível dizer que a gramática permi-
te (licencia), entre outras coisas, as sentenças de uma língua dada 
(BORGES NETO, 2004, p.124-125).
Roulet (1978) afirma que não era interesse de Chomsky estabelecer uma me-
todologia para o ensino de línguas, no entanto, fez isso ao deslocar o foco do 
ensino para as estratégias de aprendizagem. Ademais, o linguista contribuiu para 
113
algumas formas pedagógicas que estavam abandonadas, tais como compreender 
a utilidade dos erros por parte dos alunos, o uso de exemplos agramaticais, a 
importância da expressão livre e assim por diante. 
Importa, a título de ilustração, mencionar que Chomsky foi reformulando seu 
modelo de gramática: em certa altura aparece a Gramática Transformacional, 
vista como a mais adequada para se pensar nas estruturas sintáticas da linguagem, 
posteriormente, em Aspects os the Theory of Syntax (1965), o linguista falou em 
teoria-padrão ou modelo-aspects. Em linhas gerais,
 “ Na teoria-padrão, o modelo tem três componentes: um central (o sin-tático), e dois interpretativos (o semântico e o fonológico). O compo-nente sintático é constituído pela base, que gera as estruturas profun-
das, e pelas transformações que levam às estruturas superficiais. Os 
dois componentes interpretativos se articulam sobre o componente 
sintático: a interpretação semântica incide sobre a EP, e a fonológica 
incide sobre a ES [...] A vantagem, em relação ao distribucionalismo, 
de incluir a estrutura profunda, dizem os seguidores desse modelo, 
está em que ela pode tratar de relações gramaticais ocultas que são 
semanticamente significativas. Por exemplo: a sentença “Eduardo 
pediu a para sair” é ambígua, pois tem duas estruturas profundas 
diferentes (“Eduardo pediu a Patrícia para Eduardo sair”/ “Eduardo 
pediu a Patrícia para Patrícia sair”) que convergem para a mesma es-
trutura superficial (“Eduardo pediu a Patrícia para sair”). No entanto, 
a inclusão da noção de estrutura profunda no modelo é um ponto 
crítico que estará sempre em discussão, já que esta noção traz consigo 
a questão do significado (ORLANDI, 1999, p.44-45).
Posteriormente, Orlandi (1999) nos aponta para uma dissidência e problematiza: 
qual é a relação entre sintaxe e semântica? Chomsky afirma que a sintaxe é autô-
noma e que a semântica, por sua vez, não gera estruturas. Os dissidentes queriam 
mostrar, justamente, que é a semântica, e não sintaxe, que possui a capacidade 
gerativista. Para isso, “tornam as estruturas profundas cada vez mais abstratas e 
mais distantes das estruturas superficiais, reforçando a necessidade das transfor-
mações para chegar às frases realizadas” (ORLANDI, 1999, p.46). Depois desses 
embates, Chomsky propôs, em 1972, a teoria-padrão ampliada e, na sequência, 
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UNIDADE 3
114
em 1976, a teoria-padrão ampliada revista. Todas essas propostas, de algum 
modo, valorizam cada vez mais a ES e atribuem menor importância para a EP.
Até o presente momento, tratamos, rapidamente, de alguns tópicos básicos das 
principais teorias linguísticas que pertencem ao Estruturalismo e ao Gerativismo. 
Há, no entanto, outros paradigmas que merecem destaque. Alguns desses para-
digmas lançam um olhar mais específico para os falantes reais em um contexto 
que também é real. Para Koch (1998), os estruturalistas foram responsáveis por 
desenvolver os estudos a respeito dos sons e do nível morfológico, já os gerativistas 
se preocuparam, mais especificamente, com a sintaxe e, posteriormente, os estudos 
a respeito da semântica também foram contemplados. Todavia, até esse ponto, a 
Linguística se debruçava no estudo de enunciados isolados ou em frases.
Com o apoio de outras áreas do saber, como a antropologia, a psicologia da 
comunicação, a filosofia da linguagem, dentre outras ciências, a Linguística so-
freu, nas palavras de Koch (1998), um significativo salto qualitativo. A partir desse 
salto, o que entra em discussão e análise é o texto, o discurso e as condições de pro-
dução dos enunciados. Falaremos, a partir de agora, de algumas dessas abordagens.
A partir dos anos 1960, Dell Hymes, etnolinguista norte-americano, começou 
a estabelecer críticas severas às teorias formalistas. Para ele, o método de Chomsky 
omitia toda a relevância sociocultural pelo fato de considerar um falante ideal em 
uma comunidade linguística homogênea. É sabido que a língua possui inúmeras 
variantes. Por exemplo, não podemos construir um texto acadêmico/científico 
com a mesma variedade linguística, que respondemos os amigos em conversas 
de aplicativos de mensagens. Ou seja, para Hymes (2009, p.60), "há regras de uso 
sem as quais as regras de gramática seriam inúteis”. É por esse motivo, que esse 
estudioso não dissocia a teoria linguística das teorias de comunicação e cultural 
e só pode ser compreendida a partir da vida social.
Hymes afirma, ainda, que a competência linguística proposta por Chomsky, é 
apenas uma das capacidades de um falante. Por exemplo, uma criança no proces-
so de adquirir a língua materna aprende, além de criar frases, compreendê-las e 
“quando usá-las e quando não usá-las, sobre o que falar, com quem, onde, de que 
maneira” (HYMES, 2009, p.60). Dessa maneira, competência linguística envolve 
a capacidade de compreender as variantes sociolinguísticas, bem como um saber 
pragmático a respeito das convenções enunciativas etc.
Nessa esteira, é Emile Benveniste (1902-1976) uma das primeiras vozes teóri-
cas/críticas a compreender que, de fato, não é possível dissociar a língua da ativi-
115
dade do falante. Ele se contrapõe a significação, princípio estruturalista e afirma 
que ela não se limita ao signo, mas à situação de fala e contexto. É justamente 
a abordagem da dêixis, isto é, da “faculdade que tem a linguagem de designar 
mostrando, em vez de conceituar” (CÂMARA JÚNIOR, 1978, p.90), que permite 
o início de Benveniste a respeito do discurso.
Em Problemas de Linguística Geral, Benveniste (1995) traz, para o centro da 
teoria da enunciação, o sujeito visto como um indivíduo autônomo, cujas inten-
ções são postas em palavras e que se apropria das formas da língua.
 “ A partir da evocação da oposição efetuada pelos árabes entre “aquele que fala”, “aquele a quem nos dirigimos”, e “aquele que está ausen-te”, Benveniste propõe a correlação de pessoalidade, que separa as 
pessoas (eu/tu) da não pessoa (ele). As primeiras são efetivamente 
pessoas e estão presentes na situação de comunicação, enquanto a 
última não é necessariamente um ser humano e se encontra sempre 
ausente da situação de fala. Mas, a pessoa eu se opõe a tu, segundo a 
correção de subjetividadejá que para o autor, eu é a pessoa-sujeito 
e tu, a pessoa-não sujeito. Sua noção de subjetividade consiste no 
traço linguístico que opõe aquele que fala (eu) a aquele a quem o 
falante se dirige (tu) (LOPES; ANTONIO, 2010, p.48)
Em outras palavras, a teoria da enunciação coloca o sujeito da linguagem, isto é, 
o locutor e sua relação com o destinatário no âmago da discussão. O que importa 
é o processo de enunciação: o enunciado já foi realizado e a enunciação é ação 
de produzir o enunciado. Para Benveniste (1995), é por meio da linguagem que 
o homem se torna um sujeito. E é a subjetividade que permite compreender o 
exercício da língua em seu emprego no discurso.
 “ Os estudos feitos a respeito das marcas de enunciação mostram que há formas na língua que só podem ser definidas a partir de seu uso pelo sujeito. Esses estudos inauguram uma reflexão teórica 
explícita e sistemática a respeito da subjetividade na linguagem. A 
comunicação aparece então apenas como uma consequência de 
uma propriedade mais fundamental da linguagem: a da constituição 
do sujeito. Propriedade que demonstra a capacidade do locutor, ao 
dizer, de se propor como sujeito (ORLANDI, 1999, p.59). 
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UNIDADE 3
116
Isso quer dizer que a linguagem não é, conforme Orlandi (1999) tão somente 
instrumento do pensamento ou da comunicação, ela também auxilia na consti-
tuição da identidade do sujeito. Essas questões serão discutidas, com mais vigor, 
na próxima unidade. 
Já é possível verificar que uma língua falada não é falada da mesma forma por 
todos os membros de uma comunidade linguística. Os fatores externos - idade, 
sexo, grau de escolaridade etc. - são elementos que influenciam diretamente o 
uso da língua. Na década de 60, no auge das repercussões gerativistas, William 
Labov, dentre outros linguistas, se baseiam na visão antropológica linguística 
proposta por Sapir e Whorf para “investigar como a estrutura social influencia 
a maneira como as pessoas falam e como variedades linguísticas e padrões de 
uso se correlacionam com atributos sociais, como classe social, sexo, idade, etnia” 
(COULMAS, 2002, p.427).
Essa investigação ficou conhecida como Sociolinguística. Tal corrente tem o 
intuito de sistematizar a variação existente na linguagem. De acordo com Orlandi 
(1999), ela toma a sociedade como causa e analisa na linguagem as estruturas sociais.
 “ O falante real é levado em conta e os sociolinguistas analisam as formas linguísticas usadas pelos falantes em suas comunidades. Considerando, portanto, que a língua é diretamente observável, a 
Sociolinguística centra a sua análise nos dados. Deriva daí seu gran-
de empenho metodológico em construir procedimentos cada vez 
mais sofisticados, adequados e precisos para a coleta e tratamento 
dos dados, já que estes são determinantes para a direção e o sucesso 
de qualquer trabalho nessa área (ORLANDI, 1999, p.50-51).
Dentre os inúmeros exemplos de variantes, no caso da língua portuguesa, temos um 
recorrente: a marcação de plural. Por exemplo: as camisetas azuis/ as camiseta azul/ as 
camisetas azul; ou as noções de registro alto (nós vamos) ou baixo (nóis vai) e de estilo 
formal (vossa senhoria) ou informal (você). No escopo dessa discussão, o que a Socio-
linguística reforça é que, conforme expõe Camacho (2001), toda variedade linguística 
é regida por regras e, dessa forma, não há variedades superiores e nem inferiores.
Por fim, mas muito longe de esgotar as contribuições a respeito das correntes 
linguísticas, a Análise do Discurso também merece comentário. Charaudeuau e 
Maingueneu (2008, p.43) afirmam que não é fácil marcar, claramente, o início da 
117
Análise do Discurso (AD), pois “não se pode fazê-la depender de um ato funda-
dor, já que ela resulta, ao mesmo tempo, da convergência de correntes recentes e 
da renovação de práticas de estudos muito antigos de textos (retóricos, filológicos 
ou hermenêuticos”. No entanto, duas publicações são importantes para a funda-
ção da teoria: trata-se de Análise Automática do Discurso, de Michel Pêcheux 
(1938-1983), e do volume XIII da revista Langages, ambas em 1969.
Aprofundando a visão sociolinguística, a teoria da enunciação, dentre ou-
tras ramificações, a Análise do Discurso, tem o intuito de discutir a relação da 
linguagem com a exterioridade. Orlandi (1999, p. 60-61) afirma que é preciso 
entender que a exterioridade são as “condições de produção do discurso: o falante, 
o ouvinte, o contexto da comunicação e o contexto histórico-social (ideológico). 
Essas condições estão representadas por formações imaginárias: a imagem que 
o falante tem de si, a que tem do seu ouvinte, etc.”. 
Com o estabelecimento da Análise do Discurso, temos um salto significati-
vo nos estudos linguísticos: da teoria descritiva (Estruturalismo) para a teoria 
científica explicativa (Gerativismo), culminando, agora, em uma teoria crítica da 
produção da linguagem. Trata-se, portanto, de uma teoria da leitura, da interpre-
tação do texto em relação às condições de sua produção: o texto quando se soma 
a sua produção constitui o discurso. Fica nítido que a relação entre ideologia, 
história e linguagem é a base dessa corrente, e que possui um caráter subjetivista, 
uma vez que não considera que o sujeito controla tudo o que diz, ao contrário, 
possui vários atos falhos que deixa escapar o funcionamento de seu Inconsciente.
Há divergências na construção do estatuto da Análise do Discurso, por esse 
motivo é possível pensar em duas linhas: a americana e a francesa.
 “ Para a linha americana, para se passar da análise da frase para o texto basta uma extensão da análise distribucional: “uma frase é um discurso curto, um discurso é uma frase complexa”. Desse modo, se 
muda a unidade de análise sem mudar significativamente a teoria 
ou o método. Nessa linha americana não se fala do significado do 
texto, mas apenas se determina como são organizados os elementos 
que o constituem. Quando entra em consideração o significado, 
eles propõem adicionar outro componente na gramática, em geral 
chamado componente comunicativo. Este apenas é acrescentado ao 
modelo já estabelecido (ORLANDI, 1999, p.61-62)
UNICESUMAR
UNIDADE 3
118
Já a linha francesa (ou europeia) mira sua atenção para outro foco: ela afirma 
que para analisar textos é preciso mudar o terreno, romper metodologicamente, 
uma vez que o estudo da significação é muito importante e supõe a intervenção 
de certos conceitos que fazem parte da reflexão acerca das formações sociais. 
Nesse caso, o discurso “desloca a reflexão para além da dicotomia língua/fala 
ou competência/desempenho” (ORLANDI, 1999, p.62). Em outras palavras, o 
discurso não é visto como geral assim como a língua e tampouco individual como 
a fala. Portanto, por ser uma prática, o discurso é visto “não como transmissor de 
informação, mas como efeito de sentido entre locutores” (ORLANDI, 1999, p.63).
A noção de interdiscurso, isto é, memória discursiva, é muito importante 
para os estudos do discurso. Para Pêcheux (1999, p.52), ante um texto, ele “vem 
estabelecer os implícitos de que sua leitura necessita”. A partir disso é fácil 
compreender que os sentidos não brotam da língua, mas no relacionamento, 
no diálogo entre palavras e expressões.
Possenti (2004) esclarece que, portanto, a Análise do Discurso está interessada no 
campo do sentido e que as regras fonológicas, morfológicas, sintáticas funcionam de 
diversas maneiras, conforme o processo discursivo vai se construindo e que, por tal 
motivo, “não há AD sem linguística. Ela apenas coloca a língua em seu lugar, ou seja, re-
conhece sua especificidade, mas lhe limita o domínio” (POSSENTI, 2004, p.360-361).
Ao encerrarmos este panorama pelos estudos linguísticos, o intuito foi, 
além de nortear historicamente as discussões, compreender que há uma orga-
nização e relação entre o que foi discutido. A visão saussuriana, ponto nodal 
dos estudos científicos, já havia assinalado de que é o ponto de vista que cria 
o objeto e, por essemotivo, observamos os impasses e avanços da Linguística. 
Ademais, a unidade trouxe a possibilidade de compreendermos que a lingua-
gem possui aberturas e investiduras analíticas inesgotáveis.
“A Linguística só pôde se constituir como disciplina autônoma ao opor-se aos diferentes 
discursos que tinham até então falado da linguagem: o discurso filosófico, com as gra-
máticas lógicas; o discurso físico-fisiológico, com a fonética articulatória e acústica; e o 
discurso sociológico, os comentários de textos etc.” (Mitsou Ronat).
CHOMSKY, N. Diálogos com Mitsou Ronat. Tradução de Álvaro Lorencini e Sandra Nitrini. 
São Paulo: Cultrix, 1977.
PENSANDO JUNTOS
119
É John Austin (1911-1960), quem vai conceber a linguagem como forma de 
ação ao distinguir enunciações constatativas, que relatam e descrevem algum 
fato, das enunciações performativas que, independentemente de sua verdade, 
fazem alguma coisa, muito mais do que apenas dizê-las. É o caso da teoria 
dos atos de fala.
Para Austin (1990), os atos da fala podem ser locucional, ou seja, o dizer, a 
parte material do ato; bem como o ilucocional que é o que se faz ao dizer e o 
perlocucional, referente ao efeito produzido. Por exemplo, se alguém pergunta 
no telefone: “o dono da casa se encontra? ”, é elaborado um ato locucional com 
entonação interrogativa. O que ele faz ao dizer é o ato ilocucional, ou seja, 
a frase interrogativa é um pedido para falar com o dono da casa. O ato será 
bem-sucedido se o efeito pretendido for alcançado (ato perlocucional) e o 
dono for chamado para falar. O que Austin (1990),portanto, trata de que não 
é a tradição semântica que pensa em valor de verdade, mas das condições de 
sucesso para os atos de fala.
Leia, a seguir, um trecho da entrevista que Noam Chomsky concedeu a 
Mitsou Ronat. Conforme fica explícito, o linguista gerativista discute as rela-
ções entre Linguística e Filosofia da Linguagem.
Uma Filosofia da Linguagem?
Mitsou Ronat: suas descobertas linguísticas levaram-no a tomar uma p diante 
da filosofia da linguagem e do que se chama de filosofia do conhecimento. Em 
particular, no seu último livro, Reflexões sobre a linguagem, o senhor foi levado 
a determinar os limites do conhecível-pelo-pensamento: consequentemente, a 
reflexão sobre a linguagem quase que se transforma numa filosofia da ciência.
Noam Chomsky: bem entendido, não é o estudo da linguagem que dita a de-
finição de uma abordagem científica; mas, de fato, tal estudo constitui um mo-
delo ao qual podemos nos referir a fim de abordar a natureza do conhecimento 
humano. No caso da linguagem, deve-se explicar como indivíduo, a partir de 
dados muito limitados, desenvolve um saber extremamente rico: a criança, imersa 
numa comunidade linguística, confronta-se com um conjunto muito limitado 
de frases, na maioria das vezes imperfeitas, inacabadas, etc.; entretanto, ela chega, 
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UNIDADE 3
120
num tempo relativamente curto, a “construir”, a interiorizar a gramática de sua 
língua, a desenvolver um saber bastante complexo e que não pode ser induzido 
só dos dados de sua experiência. Concluímos, disso, que o saber interiorizado 
deve ser estreitamente limitado por uma propriedade biológica; e sempre que 
nos defrontarmos com uma tal situação, em que um saber é construído a partir 
de dados limitados e imperfeitos (e isto de maneira uniforme e homogênea entre 
os indivíduos), poderemos concluir que um conjunto de coerções apriorísticas 
determina o saber (sistema cognitivo) obtido. Encontramo-nos diante de um 
paradoxo que de fato não o é: onde um saber rico e complexo pode ser obtido, 
construído como o saber de uma língua, devem existir coerções, limitações, im-
postas biologicamente ao tipo de saber a ser obtido e adquirido. Isto significa que 
o campo do saber está fundamentalmente ligado aos seus limites.
CHOMSKY, N. Diálogos com Mitsou Ronat. Tradução de Álvaro Lorencini e Sandra Nitrini. 
São Paulo: Cultrix, 1977.
Sociolinguística
Para ampliarmos as discussões a respeito da Sociolin-
guística, ramo mais recente dos Estudos Linguísticos, o 
presente podcast consiste na leitura de fragmentos da obra 
Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno. Alguns mitos que 
estabelecem esse tipo de preconceito serão comentados e, 
na medida do possível, desconstruídos
NOVAS DESCOBERTAS
Assista, a seguir, ao vídeo Objeto língua, com o linguista Marcos Bagno. O 
vídeo trata de variados assuntos, dentre eles: ensino de língua, política lin-
guística etc. Confira o QRcode ao lado.
https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/9717
https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/11796
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NOVAS DESCOBERTAS
Livro: Preconceito Linguístico
Autor: Marcos Bagno
Editora: Parábola
Ano: 2015
Sinopse: o preconceito linguístico é, segundo o professor, linguista e filó-
logo Marcos Bagno, todo juízo de valor negativo (de reprovação, de repulsa 
ou mesmo de desrespeito) às variedades linguísticas de menor prestígio 
social. Ele está diretamente ligado aos outros preconceitos (regional, cultu-
ral, socioeconômico etc.).
Fala, canção composta por João Ricardo e Luhli, é um 
dos grandes sucessos de Secos e Molhados, banda de 
carreira meteórica nos anos 1970, mas de grande im-
portância até os dias de hoje. Com base nas discussões 
realizadas no decorrer da Unidade e com ênfase nas 
teorias da fala, de Austin, faça uma análise da letra 
observando se há o ato locucional, ilucocional e per-
locucional na letra que segue a seguir:
Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala
Lá, lá, lá, lá, lá, lá,
lá, lá, lá
Fala
Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto
Fala
Lá, lá, lá, lá, lá, lá,
lá, lá
Fala
Para ouvir Fala: 
UNICESUMAR
https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13610
122
Agora que concluiu a leitura e estudo da unidade, que tal aproveitar e verificar os 
conhecimentos adquiridos?
1. A respeito dos primórdios dos estudos envolvendo a língua, analise as assertivas a 
seguir:
I - O sumério foi a primeira língua escrita conhecida. A escrita era cuneiforme, isto 
é, feita com auxílio de objetos em forma de cunha.
II - Na Índia, no século V a. C., Pãnini estabeleceu, com rigor, a gramática normativa 
do sânscrito para a compreensão dos Vedas.
III - Os gramáticos alexandrinos cometeram um erro clássico: consideravam a língua 
escrita como mais correta e superior à língua falada.
IV - Com o Romantismo, os estudos da língua refutaram a perfeição dos clássicos e 
se interessaram pela origem das línguas vernáculas.
Está correto o que se afirma em:
a) I e II, apenas.
b) II, apenas.
c) I, II e IV, apenas.
d) II, III e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.
2. A obra de Ferdinand de Saussure é um verdadeiro marco para os Estudos Linguísti-
cos. Com suas contribuições, a Linguística ganha a marca de ciência. Sobre tal obra, 
considere as afirmações que seguem:
I - Saussure considera material para a Linguística todas as manifestações de lin-
guagem, de todos os povos e épocas.
II - A langue, passível de uma definição autônoma, portanto um objeto definido, foi 
o centro de atenção das pesquisas saussurianas.
III - Para o linguista genebrino, a língua é um sistema gramatical que existe virtual-
mente nos cérebros dum conjunto de indivíduos.
IV - Parole, diferente de langue, é o ato individual de colocar em uso o sistema da 
língua com o intuito de expressar o pensamento.
V - O foco de Saussure está na língua em detrimento da fala e também abandonou 
a visão diacrônica em voga até então.
123
 É correto apenas o que se afirma em: 
a) I, II e III.
b) I, II e IV.
c) I, III e IV.
d) II, IV e V.
e) III, IV e V.
3. Depois da contribuição de Saussure, os estudos linguísticos se proliferaram em inú-
meras facetas, algumas dialogando e outras contrapondo o pensamento do gene-
brino. A respeito de algumas dessas teorias, considere as afirmativas a seguir:
I - Para os membros do Círculo Linguístico de Praga, não era possível analisarqual-
quer fenômeno linguístico sem levar em consideração a sua estrutura;
II - A visão bloomfieldiana está em afirmar que a linguagem é uma consequência 
natural de ações e reações dos elementos que compõem o corpo humano;
III - Para Chomsky, o interesse recaia em investigar algo que é anterior à língua e, 
por esse motivo, os falantes possuem a criatividade linguística;
IV - Benveniste é categórico ao afirmar que é impossível dissociar a língua da ativi-
dade do falante, daí a importância da situação da fala e do contexto.
Está correto o que se afirma em:
a) I e II, apenas
b) I e III, apenas
c) I, II e III, apenas
d) II, III e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.
4Psicanálise e 
Linguagem
Dr. Diego Luiz Miiller Fascina
na unidade 4 de seu material de estudos, o foco recai nas relações 
estabelecidas entre Linguagem e Psicanálise. Essa área do saber, instau-
rada a partir da descoberta do inconsciente, feita pelo médico vienense 
Sigmund Freud, causou uma drástica transformação na compreensão 
da subjetividade humana, na posição que o sujeito ocupa na sociedade 
e na maneira como ele lida com seus dramas pessoais. A linguagem é 
a ferramenta do fazer psicanalítico: a cura se faz por meio da palavra 
falada. É por esse motivo que, nessa unidade, desviamos um pouco do 
foco filosófico e enlaçamos os inesgotáveis estudos da linguagem com 
a contribuição psicanalítica: alguns pontos do pensamento freudiano e 
de seu mais famoso “herdeiro”, Jacques Lacan, serão comentados com 
o intuito de demonstrar como a teoria psicanalítica dialoga com o estru-
turalismo saussuriano, com o surrealismo e com outras áreas do saber.
UNIDADE 4
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Che vuoi? 
Em 1772, o escritor francês Jacques Cazotte lançou O Diabo Enamorado, um 
pequeno romance que causou bastante furor na época do lançamento. Na obra, 
Alvare, profundo estudioso da cabala, evoca o diabo que lhe aparece em formato 
grotesco, com cabeça de camelo (e, depois se transforma em cão, posteriormente 
em um pajem hermafrodita e, também, na forma da bela Biondetta) e lhe faz 
uma pergunta definitiva: che vuoi? Ora, o que isso significa? Simplesmente “o 
que queres?”. A seguir, um trecho do texto literário:
Algum tempo sossegado por aquelas reflexões, aprumei-me, impe-
tifiquei-me, firmei o pé, e proferi o esconjuro com voz alta, clara e 
rija, engrossando-a cavamente quando com três brados, a intervalos 
curtos, chamei Belzebuth.
Corria-me às veias um calafrio, ao passo que os cabelos se me eriçavam.
Mal acabei a evocação, abre-se de par em par uma janela em frente 
de mim, no alto da abóbada. Um golfo de lumeeira mais esplendente 
que do sol jorra por aquela abertura; uma cabeça de camelo, horren-
da no tamanho e no feitio, surge na janela; as orelhas principalmente 
eram descompassadas! O fantasma hediondo escancara as fauces, e 
com um ronco próprio de tal monstro, responde-me!
- Che vuoi?
As abóbadas e subterrâneos em volta ecoaram a porfia o horrobi-
líssimo che vuoi.
Não sei descrever o meu estado; nem sei como a minha coragem se 
teve, que eu não caísse fulminado pelo espetáculo e ainda mais pelo 
estridor que me ribombava nos ouvidos.
(CAZOTTE, 1979, s/p).
Lacan retirou do texto essa expressão para afirmar que essa pergunta é a que 
melhor encaminha o sujeito ao seu desejo. O psicanalista francês nos informa 
que o desejo do homem é o desejo do Outro. E isso significa duas coisas: primeiro 
que o desejo do sujeito é estruturado pelo Grande Outro, espaço simbólico em 
que habito; e segundo que o sujeito deseja na medida em que ele experimenta o 
Outro como lugar de insondável desejo.
127
Em outras palavras, o Outro se endereça a mim como desejo 
enigmático e, também, me interpela com o fato de que eu não sei o 
que realmente desejo. É por isso que o Che vuoi?, de Lacan, ultra-
passa “o que queres?” e deve ser aberto para “o que está enlouque-
cendo você? O que é isso em você que te faz tão insuportável não 
apenas para nós, mas também para você mesmo, que você mesmo 
obviamente não domina?”. ( ŽIŽEK, 2010, p. 50).
Com base na pergunta central - Che vuoi? - e no desdobra-
mento proposto por Lacan, reflita: é possível que nós, seres feitos de 
linguagem, não saibamos, de fato, o que desejamos? E o que há em 
nós que nos desequilibra profundamente e que foge de nosso con-
trole? Não é possível colocar todas as nossas agruras em palavras?
A angústia é, antes de tudo, um afeto que possui relação direta 
com a constituição do sujeito. Lacan nos assevera que a angústia é 
um afeto que não engana: quando ela aparece, irremediavelmente 
há algo aí. Para Lacan, a angústia possui relação com o desejo do 
Outro. Esse Outro é uma espécie de lugar do significante para a 
definição do conceito de angústia. Freud afirma que a angústia é 
uma espécie de reação ou sinal à perda de objeto (no caso, a mãe). 
Já Lacan afirma que o que provoca a angústia não é a saudade do 
seio materno e nem a ausência da alternância/presença da mãe, 
pelo contrário: o que angustia é a quando não há a possibilidade 
de falta, isto é, quando a mãe está em cima o tempo todo.
Com base nessas reflexões iniciais, convido você, caro (a) aluno (a), 
a assistir o vídeo As Feridas Narcísicas: Copérnico, Darwin e Freud 
(QR Code ao lado), elaborado pelo prof. Andrei Martins, e, a partir 
do vídeo, refletir a respeito do conteúdo e construir um pequeno texto 
resumindo cada um desses três grandes sofrimentos humanos.
A partir da experiência proposta, quais reflexões você pretende 
despertar no estudante?
Como vimos, Che vuoi?, é uma diabólica pergunta que nos guia 
para a questão fundamental de nosso desejo. Assista ao documentá-
rio Um encontro com Lacan (QR code ao lado), dirigido por Gérard 
Miller, e tente refletir, com base no vídeo, a respeito dessa pergunta.
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https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13206
https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13814
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DIÁRIO DE BORDO
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Descrição da Imagem: Descrição de imagem: na imagem, há uma figura central com contornos bastante 
expressivos e distorcidos. A figura está com as duas mãos no rosto, tem a boca escancarada, em um grito, 
e sua fisionomia revela espanto e dor. A figura central está em uma ponte e há, mais distante, duas outras 
figuras, cujas fisionomias não estão destacadas. Na tela há, também, um lago e o céu pintado com cores 
quentes. As cores predominantes são o azul, vermelho, laranja, branco e preto.
Figura 1 - O grito (1893), de Edvard Munch
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O aclamado e controverso filósofo esloveno Slavoj Žižek afirma na introdução de sua 
obra Como ler Lacan, que no ano 2000, em comemoração ao centenário de lança-
mento de A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud, uma onda de discussões 
a respeito da morte da Psicanálise se levantou. Algumas vozes diziam que com o 
avanço das ciências do cérebro, a Psicanálise seria trancafiada no quarto de despejo 
de ideias obscuras e significados ocultos, outras diziam que Freud foi uma das figuras 
mais equivocadas na história do pensamento humano e por aí vai. O fato é que Freud, 
quando descobriu o Inconsciente, desenvolveu a ideia das três doenças narcísicas ou 
três grandes humilhações sofridas pelo homem. Relendo Freud, o esloveno afirma que,
 “ Primeiro Copérnico demonstrou que a Terra gira em torno do Sol, e assim privou-nos a nós, seres humanos, do lugar central no Universo. Depois, Darwin demonstrou que emergimos da evolução cega, e nos 
tomou nosso lugar de honra entre os seres vivos. Finalmente, quando 
Freud descobriu o papel predominante do inconsciente em processos 
psíquicos, revelou-se que nosso eu não manda nem mesmo em sua 
própria casa. Hoje, um século depois, um quadro mais implacável 
está emergindo. Os últimos avanços científicos parecem infligir uma 
série de humilhações adicionais à imagem narcísica do homem: nossa 
mente é uma mera máquina de calcular, processando dados; nosso 
senso de liberdade e autonomia é a ilusão do usuário dessa máqui-
na. À luz das ciências do cérebro,a própria psicanálise, longe de ser 
subversiva, parece antes pertencer ao campo humanista tradicional 
ameaçado pelas mais recentes humilhações (ŽIŽEK, 2010, p.7-8)
 Žižek (2010) complementa essa afirmação, problematizando: estaria, pois, a 
Psicanálise realmente ultrapassada nos dias de hoje? E a resposta é bastante 
provocadora: sim! E em três níveis entrelaçados:
 “ [...]humana parece suplantar o modelo freudiano; 2) o da clínica psiquiátrica, em que o tratamento psicanalítico está perdendo ter-reno rapidamente para pílulas e terapia comportamental; 3) o do 
contexto social, em que a imagem freudiana de uma sociedade e 
de normas sociais que reprimem as pulsões sexuais do indivíduo 
não soa mais como uma explicação válida para a permissividade 
hedonística que hoje predomina (ŽIŽEK, 2010, p. 8)
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Contrariamente ao que possa parecer em um nível superficial, Žižek contrasta essas 
verdades que aparentam estar estabelecidas ao afirmar que, de fato, só agora o tempo da 
Psicanálise está chegando. E essa chegada está relacionada ao retorno a Freud que o fran-
cês Jacques Lacan empreende. O retorno está em não aquilo que o pai da Psicanálise disse, 
mas ao âmago da revolução freudiana, da qual nem o próprio tinha total consciência.
No entanto, façamos uma parada aqui. Se continuássemos, teríamos de comen-
tar como Lacan solidifica seu edifício psicanalítico e quais são os pontos de contato 
e de avanço entre a obra de Freud e do psicanalista francês e isso é uma discussão 
para depois. Vale a pena citar que o retorno a Freud feito por Lacan vem de fora do 
campo psicanalítico: a linguística de Saussure, as filosofias de Platão, Hegel e 
Heidegger, a antropologia de Lévi-Strauss etc. Todavia, merece, a título de es-
clarecimento, que a visão de Lacan, observada por Žižek, seja exposta aqui, uma vez 
que ela dá um entendimento geral a respeito do papel da Psicanálise:
 “ Para ele [Lacan], fundamentalmente, a psicanálise não é uma teoria e técnica de tratamento de distúrbios psíquicos, mas uma teoria e prática que põe os indivíduos diante da dimensão mais radical da existência 
humana. Ela não mostra a um indivíduo como ele pode se acomodar 
às exigências da realidade social; em vez disso, explica de que modo, 
antes de mais nada, algo como “realidade” se constitui. Ela não capacita 
simplesmente um ser humano a aceitar a verdade reprimida sobre si 
mesmo; ela explica como a dimensão da verdade emerge na realidade 
humana. Na visão de Lacan, formações patológicas como neuroses, 
psicoses e perversões têm a dignidade de atitudes filosóficas funda-
mentais em face da realidade. Quando sofro de neurose obsessiva, 
essa “doença” colore toda a minha relação com a realidade e define a 
estrutura global de minha personalidade. A principal crítica de Lacan 
a outras abordagens psicanalíticas diz respeito à sua orientação clínica: 
para Lacan, o objetivo do tratamento psicanalítico não é o bem-estar, a 
vida social bem-sucedida ou a realização pessoal do paciente, mas levar 
o paciente a enfrentar as coordenadas e os impasses essenciais de seu 
desejo (ŽIŽEK, 2010, p.10)
Posta essa concisa compreensão a respeito do que é e como se movimenta o 
discurso e a prática psicanalítica, pensemos, mais especificamente e de modo 
sumário, em algumas das relações existentes entre Psicanálise e Linguagem.
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Freud explica?
Para começar, é importante frisar que a Psicanálise tem uma relação imediata e 
obrigatória com a linguagem, uma vez que o processo terapêutico se baseia numa 
troca de palavras. E é a partir da linguagem que a cura acontece.
O Inconsciente – uma parte de nossa subjetividade humana, aquilo que ha-
bita em nós e que nos governa – se expressa na fala sem o nosso consentimento 
consciente: a outra parte de nossa subjetividade. O Inconsciente é o ponto central 
da teoria psicanalítica, a grande descoberta feita por Freud. O psicanalista, ao des-
cobrir o inconsciente, afirmou que o psiquismo não se reduz ao consciente e que, 
inclusive, alguns conteúdos só se tornam conscientes após superarem algumas 
resistências. O inconsciente não é um lugar anatômico, e sim um lugar psíquico 
Descrição da Imagem: fotografia de um boneco de cera em tamanho real de Sigmund Freud, pai da 
Psicanálise. O boneco está sentado em uma poltrona marrom, está levemente inclinado para a esquerda, 
olha fixamente para a câmera, tem a mão direita apoiada na coxa direita e a mão esquerda, flexionada, 
com um charuto entre os dedos. O boneco usa terno cinza, tem uma corrente abotoada nos bolsos do 
colete, usa uma camisa social branca por baixo e usa uma gravata listrada nas cores preta, roxa e branca. 
O boneco é ligeiramente calvo e usa cavanhaque.
Figura 2 – Sigmund Freud, o pai da Psicanálise
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que possui conteúdos, mecanismos, energia própria que produz sintomas. Em 
outras palavras, um lugar que possui sua própria gramática.
O sujeito diz mais do que gostaria de dizer, e como já afirmou Lacan (1999), o 
discurso entre humanos é, fundamentalmente, um mal-entendido. Ou, em outras 
palavras, a linguagem humana é “o termo entre o eu e o outro. Entre o sujeito que 
fala e seu ouvinte existe um anteparo, uma proteção, uma espécie de muralha que 
se ergue, mesmo quando há silêncio” (LONGO, 2006, p.7). Entre dois sujeitos há, 
inevitavelmente, a muralha da linguagem.
Na verdade, sabemos que não há absolutamente nada no mundo que não 
passe pela linguagem. A própria realidade só se constitui a partir dessa habilida-
de dinâmica. Longo (2006), informa que os fenômenos simbólicos, como os da 
linguagem são importantes para a vida subjetiva (do espírito) e relacionam-se 
com a descoberta do Inconsciente. Para a crítica,
 “ Por meio da linguagem, a incansável insistência de fazer sentido ancora-se por um tempo, ainda que precariamente. Por meio dela, podemos dotar de significação o mundo e a natureza, ambos de 
existência enigmática e absurda, pois não são criações humanas. 
E, quaisquer que tenham sido o momento e as circunstâncias de 
seu aparecimento na escala da vida animal, a linguagem deve ter 
nascido de uma só vez. É pouco provável que as coisas tenham pas-
sado a significar progressivamente; o mais plausível é que, após uma 
transformação (cujo estudo não compete às ciências da linguagem, 
à psicanálise ou às ciências sociais, mas à biologia), tenha sido efe-
tuada uma passagem de um estágio em que nada tinha sentido a um 
outro em que tudo tinha sentido (LONGO, 2006, p.8)
O artifício logrado próprio da estrutura da linguagem está em sua estrutura de 
rombo, igual à do sujeito que a criou. É por esse motivo que, nas chamadas lín-
guas naturais (o português, o espanhol, o inglês), há sempre três elementos: o 
eu (o sujeito que fala), o tu (o sujeito que ouve) e o ele (o assunto de que 
se fala). É o último elemento que, conforme diz Longo (2006), aponta para a 
simbolização inerente à existência de uma linguagem: “a simbolização que está 
no lugar de uma ausência, da falta que também é do sujeito que fala” (LONGO, 
2006, p.10). Dito de outra forma, as línguas naturais estão presentes na ordem 
ternária, isto é, a que permite a existência das três pessoas do discurso. É isso que 
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possibilita o liame social, uma vez que sem essa ordem não há socialização. Nessa 
esteira, a ordem unária é a que registra o Inconsciente, e como nos lembra Freud, 
no Inconsciente não há contradições, tudo é possível e irrompe nas formações 
que aparecem no consciente, tais como os atos falhos, os chistes, os sonhos e o 
sintoma. Longo (2006, p.11), informa que:
 “ Os enunciados do unário não são organizados como alteridade e como relação de causa e efeito. Como faltam dados à “explicação” linear causal, surge o não-senso; por isso os temas do inconsciente 
sempre se repetem. A ordem do unário é a lógica do não-saber, do 
paradoxo, da errância da verdade e de qualquer simetria. O unário, 
contraditório por princípio, se configurará privilegiadamente na arte. 
Ele funciona nalógica da multiplicidade, campo da conjunção aditiva 
inclusiva, do ser e não ser simultaneamente, na possibilidade de tran-
sição de um lado a outro — esse é o campo do simbólico inconsciente.
Por outro lado, a ordem binária evita a desordem, a falta de elementos causais. 
Trata-se de uma lógica regida pelo ser ou não ser, isto é, conforme Longo (2006), 
um campo da conjunção alternativa exclusiva. É a expulsão, via ciência do unário, 
tornando a realidade organizada e, portanto, binária.
 “ Esse é o campo do imaginário — da imagem que aparentemente se encaixa com a realidade — e dos nossos computadores, que funcio-nam binariamente: um sentido para cada sinal e vice-versa, elimi-
nando a possibilidade de equívoco. Pelo pânico do caos, que causa 
enorme desconforto, essa ordem binária se impõe, necessariamente. 
No consciente, a inteligência é uma instância que “vive de plantão”, 
que nunca descansa: ela formula juízos, aponta as identidades, ana-
logias, causalidades, organiza o caos, faz conexões. Se a inteligência 
não encontrar as conexões que exige, não hesitará em fabricar uma 
falsa (LONGO, 2006, p.12)
É na linguagem que o sujeito encontra estofo de significações para suportar a 
crueza e a hostilidade da realidade. O homem é um ser de linguagem e a urgência 
de sentido erige a criação de inúmeros sistemas simbólicos, o que faz com que a 
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linguagem seja a mais humana das formas de se apreender o mundo. É só a partir 
dela que o homem consegue dar integridade às suas fantasias, medos e sonhos.
Quando a criança vem ao mundo, logo percebe que todos ao seu redor falam 
e a sua aquisição da linguagem se dá de forma natural: com tropeços, pausas, 
mudanças de assuntos, sem uma organização; basta que ela ouça a língua falada 
que, em pouco tempo, ela aprende a falar.
Como sabemos, aprender uma língua é entrar em contato direto com aspectos 
culturais, históricos, sociais e individuais que essa língua carrega em seu bojo. 
Como nos lembra Longo (2006, p.14), “ao aprender uma língua, conhecemos 
como se organiza o campo de significações que ela reflete, tanto do indivíduo 
(campo da psicanálise) quanto de uma comunidade linguística (campo 
da sociolinguística)”.
Diferente da comunicação existente entre animais não humanos (que é fecha-
da e binária), a comunicação humana é ambígua, difusa, heterogênea e falha. É 
inacabada e inatingível. Essa constatação é assunto de profunda reflexão no campo 
filosófico, psicanalítico e também no literário. A escritora Clarice Lispector é uma 
das mais potentes vozes a refletir a respeito da revelação e da opacidade da lingua-
gem, conforme excerto de um de seus mais instigantes textos, Água Viva, a seguir:
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 “ Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas: as que existem já devem dizer o que se consegue dizer e o que é proibido. E o que é proibido eu 
adivinho. Se houver força. Atrás do pensamento não há palavras: 
é-se. Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento. 
Nesse terreno do é-se sou puro êxtase cristalino. É-se. Sou-me. 
Tu te és (LISPECTOR, 1978, p.33)
Posteriormente, na mesma obra, a narradora fará um discurso que dialoga 
diretamente com a nossa discussão sobre o Inconsciente: “Não dirijo nada. 
Nem as minhas próprias palavras” (LISPECTOR, 1978, p.38). E, na sequência, 
discorre a respeito da heterogeneidade da linguagem: “Esta palavra a ti é pro-
míscua? Gostaria que não fosse, eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópi-
ca: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente 
registro” (LISPECTOR, 1978, p.38).
“A palavra é o meu domínio sobre o mundo”
(Clarice Lispector)
PENSANDO JUNTOS
Conforme os fragmentos apontam é esse curto-circuito na linguagem que nos 
impulsiona a criar ficções, tecnologia, arte e, em larga escala, a construir ou 
destruir as coisas, criar e solucionar problemas e, acima de tudo, a nunca se 
satisfazer e acomodar o desejo. O próprio título do texto, Água Viva, faz relação 
à medusa gelatinosa, plasmática, que provoca queimaduras: aquilo que borbulha 
na fonte - talvez o inconsciente? - como as questões concernentes à linguagem. O 
título também pode se referir a água batismal, fonte de vida, a própria linguagem 
que encaminha os sujeitos para o simbólico.
Pensando especificamente no campo psicanalítico, Freud não construiu uma 
teoria da linguagem de modo sistematizado, porém fica claro que as preocupações 
sobre a linguagem permeiam toda a sua obra. Quando, em 1881, Joseph Breuer contou 
a Freud a respeito da dificuldade de uma de suas pacientes, Anna O., em falar hipnoti-
zada, a própria, para tentar explicar o seu tratamento, criou o termo talking cure, isto 
é, cura pela palavra. A partir da compreensão de Anna O., anos depois a Psicanálise 
seria criada. Tudo passa pela linguagem. Tudo acontece por meio da linguagem.
137
Ao estudar a histeria, o estopim da investigação psicanalítica, o mestre 
elaborou uma análise das afasias, que é a perda do poder de expressão pela fala 
ou pela escrita e/ou perda da compreensão da palavra – e a partir daí, forma-
lizou seu interesse pela linguagem.
 “ Em Sobre a concepção das afasias, Freud propõe que a palavra, que, do ponto de vista psicológico, é a unidade funcional da lingua-gem, é um complexo constituído por um intrincado processo de 
associações, no qual estão presentes quatro elementos: a “imagem 
acústica”, a “imagem visual da letra”, a “imagem cinestésica da fala” 
ou “imagem glossocinestésica” e a “imagem cinestésica da escrita” ou 
“imagem quirocinestésica”. O primeiro passo na aprendizagem da 
fala, ou seja, na constituição da representação de palavra, consiste 
em associar a imagem acústica, resultante da fala de outra pessoa, a 
uma imagem cinestésica, resultante da nossa própria fala. Quando o 
sujeito fala surge uma segunda imagem acústica, decorrente do som 
pronunciado, que se associa às duas impressões anteriores. Nessa 
fase inicial da linguagem, as palavras produzidas não são idênticas 
às pronunciadas pelos outros, fazendo com que se empregue uma 
linguagem própria, decorrente da associação de diversos sons de 
palavras ouvidas com sons que o sujeito mesmo produz. A fala seria, 
então, aperfeiçoada através de uma tentativa de aproximar e fazer 
coincidir essas duas imagens acústicas. A imagem visual da palavra 
e a imagem cinestésica da escrita são acrescentadas ao complexo 
associativo, posteriormente, com a aprendizagem da leitura e da 
escrita. Na aquisição da linguagem, cada novo elemento que é acres-
centado ao complexo associativo provoca uma reorganização das 
associações que o compõem, pois a aprendizagem, segundo o que 
Freud propõe, se dá por um processo de “sobreassociação”. Com 
isso, ele quer dizer que a associação não é um processo mecânico, 
pois cada nova associação que se estabelece modifica a significação 
funcional das conexões anteriormente constituídas. Por exemplo, se 
há uma associação entre a imagem acústica e a imagem cinestésica 
de uma palavra, e esta ainda não foi vinculada a uma representação 
de objeto, tal associação exerce inicialmente a função de possibilitar 
a repetição de palavras ouvidas (CAROPRESO, 2001, p.30).
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Embora extensa, a citação nos mostra que a palavra se dá a partir de um 
processo que imiscuem elementos visuais, acústicos e cinestésicos. E ela só 
adquire significado se relacionar a representação de um objeto, que também 
é formado por uma imensa variedade de representações visuais, táteis, acús-
ticas etc. Os problemas patológicos referentes à fala estão relacionados, por 
suas imagens sonoras, a representações de objetos. Há, de acordo com Longo 
(2006), uma afasia verbal, que se refere às perturbações entre os elementos 
separados da representação da palavra; posteriormente, uma afasia assimbó-
lica, que cria um curto circuito entre a representação da palavra e do objeto 
e, por fim, uma afasia agnóstica, em casos de lesão bilateral, ocasionandoperturbações na fala, uma vez que toda a incitação espontânea ao falar advém 
do campo associativo de objeto.
Outro ponto que merece destaque, quando pensamos na importância da 
linguagem para a constituição da prática psicanalítica referem-se ao desloca-
mento e a condensação, isto é, a metáfora e a metonímia, já comentadas por 
Aristóteles em sua Poética.
A metáfora é uma figura de linguagem que faz relação com à semelhança 
de sentidos, como se fosse uma comparação subentendida, isto é, condensada, 
pois atributos de um segundo elemento são projetados num primeiro desde 
que os dois elementos possuem algo em comum. Por exemplo, na metáfora 
“Meu coração é uma pedra” há dois conjuntos: coração e pedra. O primeiro 
pode compartilhar atributos com o segundo e isso significa que a pedra, por 
ser um objeto inanimado passa a ideia de que a pessoa é fria e insensível. Em 
outras palavras há uma condensação de sentidos e, portanto, surge esse terceiro 
sentido a partir do deslizamento dos sentidos dos conjuntos coração e pedra. 
Já a metonímia está relacionada à contiguidade e toma “a parte pelo todo” 
o “continente pelo conteúdo”. Na metonímia, a palavra que designa “deslizar” 
de uma parte do objeto para a outra, faz um deslizamento de sentido que 
permite o surgimento de vários sentidos e associações. Por exemplo, quan-
do afirmo “Eu leio Machado de Assis”, eu substituo o autor pela obra. Tanto 
o deslizamento metonímico quanto a condensação metafórica acontecem 
constantemente, pois dão base para o funcionamento da linguagem.
Os sonhos são dignos de um comentário. Para Freud, eles são elementos 
fundamentais para a compreensão do inconsciente. Tanto nos sonhos quanto 
nos chistes, nos sintomas, nos atos falhos, isto é, nas formações do inconscien-
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te, o recalque vai se manifestar. Para a psicanálise, o sonho é a realização de um 
desejo inconsciente, mas isso quer dizer que o desejo nem sempre se apresenta 
de maneira clara, por isso, muitos de nossos sonhos são repletos de códigos, 
linguagem cifrada, inversões e contradições e, apesar de parecerem estranhos, 
tais atos psíquicos têm um sentido e uma intenção para quem o sonha.
 “ Nos sonhos, há certos elementos que não devem ser interpre-tados, pois têm a função de estabelecer o significado de algum outro. Em suma, a linguagem dos sonhos é o método pelo qual 
a atividade mental inconsciente se expressa. O inconsciente, po-
rém, fala um dialeto próprio e cabe ao sonhador decifrá-lo. Na 
Interpretação dos sonhos fica claro que um sonho pode sofrer 
inúmeras interpretações, que cada elemento do sonho é uma 
representação e — mais ainda! — que, pelo seu processo de for-
mação, não se pode atribuir um significado definitivo e último 
a um sonho ou a uma parte dele. Quando se submete o sonho à 
interpretação, descobre-se que a disposição errática e irregular de 
suas partes não tem a menor importância para sua compreensão. 
Os elementos essenciais do sonho são os pensamentos oníricos 
que têm significado, conexão e ordem. Essa ordem, entretanto, 
é diferente da que é lembrada no sonho manifesto. Os elemen-
tos do sonho, à parte de serem condensados, quase sempre são 
dispostos numa nova ordem, mais ou menos independente de 
sua disposição primitiva. Isso quer dizer que o material original 
dos pensamentos oníricos é submetido à influência da revisão 
secundária, cuja finalidade é livrar-se da desconexão e ininte-
ligibilidade produzidas pela elaboração onírica e substituí-las 
por um novo “significado”, que não é mais o dos pensamentos 
oníricos.(LONGO, 2006, p.23-24).
Em outras palavras, a interpretação de um sonho requer a tradução da lin-
guagem desse sonho para a fala, sempre levando em consideração que essa é, 
apenas, uma possibilidade e uma poderosa via para a compreensão do con-
teúdo inconsciente.
As parapraxias também merecem menção, quando o assunto é a linguagem 
observada pelo viés psicanalítico. Elas nada mais são do que falhas normais do 
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aparelho psíquico: consistem em esquecimento de palavras, de no-
mes, lapsos, cometer enganos e, ainda, o ato de guardar objetos em 
determinados lugares e depois se esquecer. Freud (1913) assevera 
que esses acontecimentos denunciam conflitos que tentam evitar 
ou desprazer ou ocultar alguma informação.
 “ Nos lapsos de língua, por exemplo, sucumbimos à transposição de fonemas (dizer “ivorregável” em vez de “irrevogável”, por exemplo), amalgamação 
(isto é, mesclar sílabas: o falante quer dizer “creme” 
e diz “cleme”, mesclando as palavras “creme” e “clima”, 
por exemplo) e distorções (dizer “pêsames” quando 
deve dizer “parabéns”). A formação de substituições 
e contaminações nos lapsos de língua é o começo do 
trabalho de condensação encontrado em atividade 
febril no sonho (LONGO, 2006, p.26).
Importa salientar, nessa esteira, a importância dos chistes. Freud 
dedicou uma obra para tratar desse assunto: Os Chistes e sua Rela-
ção com o Inconsciente, publicado em 1905. Na obra, o psicanalista 
trouxe inúmeras definições, de teóricos diferentes, a respeito do 
tema, dentre eles, que o chiste é um juízo lúdico, que é também uma 
habilidade de fundir ideias diferentes umas das outras, além de 
salientar o contraste entre essas ideias e um certo caráter nonsense.
Chiste é uma tradução do termo witz, cujas raízes estão no 
Romantismo alemão. Embora a tradução seja difícil, seria algo 
similar ao dom de contar acertadamente algo alegre e, ainda, a 
graça de espírito, a esperteza. Tanto as piadas quanto o humor são 
representações de chistes. Para Freud, o humor “é um meio de obter 
prazer, apesar dos afetos dolorosos que interferem com ele; atua 
como um substitutivo para a liberação destes afetos, coloca-se no 
lugar deles [...] O prazer do humor [...] procede de uma economia 
na despesa do afeto, ao custo de uma liberação de afeto que não 
ocorre” (FREUD, 1980, p. 257).
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NOVAS DESCOBERTAS
Título: Sigmund Freud: na sua época e em nosso tempo.
Autor: Elisabeth Roudinesco
Ano de Lançamento: 2014
Elisabeth Roudinesco é uma das maiores psicanalistas da França, e 
nessa biografia reconstitui a vida de Freud por meio das intensas relações que 
ele manteve com seus mestres e discípulos, familiares e amigos, além dos pa-
cientes. E fornece novos insights sobre a vida do homem que modificou para 
sempre nossa visão da humanidade e da cultura: retifica crenças arraigadas, 
corrige erros históricos, ressalta precisões biográficas, propõe interpretações. 
Freud surge ao longo das páginas como um verdadeiro turbilhão: construindo 
sua época e sendo construído por ela; amando e odiando intensamente; to-
cando a todos com sua palavra salutar e sua desconstrução das ilusões.
Completamos essa questão, afirmando que o chiste é fei-
to de material linguístico, enquanto o sonho é feito de 
imagens (figuras), embora o sonho também possa ser 
sonhado em forma linguística. A atividade chistosa tem 
o intuito de trazer prazer em seus ouvintes, ou seja, um 
chiste requer alguém que o faça, uma segunda pessoa 
que é tomada como objeto de agressividade (seja hostil 
ou sexual) e uma terceira, na qual se cumpre o objeto da 
produção de prazer. Longo (2006, p.29) informa que “dife-
rente das outras formações do inconsciente (atos falhos, 
sonhos, sintomas), que são privativas do sujeito, o chiste 
é partilhado socialmente, é a única expressão social do 
sujeito do inconsciente”.
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Façamos um parêntese aqui para comentarmos, a título de ilustração, algumas 
das relações existentes entre Psicanálise e Surrealismo, importante vanguarda 
artística que surgiu em Paris no começo do século XX. As aproximações entre 
essas duas áreas são muito frutíferas. Roudinesco (1998) afirma que Freud não 
entendia o porquê os surrealistas se interessavam tanto por sua teoria: ele não 
supôs que era o trabalho da linguagem na descoberta do inconsciente.
NOVAS DESCOBERTAS
Para saber um pouco mais a respeito do pensamento de Roudinesco, segue 
o link de uma entrevistaque ela concedeu ao Programa Roda Viva, da TV 
Cultura, em 1999: 
André Breton, escritor e teórico do surrealismo, foi também médico. Em deter-
minado momento de sua carreira, se interessou por poesia e loucura e, a partir 
daí, pela escrita automática. Tal escrita tem o intuito de registrar tudo o que vem 
à cabeça. Para ele, o automatismo deixa claro que a relação do sujeito com a rea-
lidade se constrói a partir da enunciação. Antes mesmo de escrever o Manifesto 
Surrealista, em 1924, Breton, finalmente, se encontrou com Freud:
 “ Num dia de outubro de 1921, ele bate à porta de Freud, muito excita-do com a ideia de encontrar o inovador a quem remeteu uma carta entusiástica. Freud o recebe em seu horário vespertino e o faz 
aguardar em meio a seus pacientes (...) Quando chega sua vez, ele 
entra no célebre gabinete e se encontra diante de um velhinho sem 
ares de importância, que não se interessa pelo movimento dadaísta. 
Breton tenta animar a conversa, fala em Charcort e Babinski, mas 
Freud lhe responde com banalidades. Ao final este o saúda ama-
velmente, dizendo: “Felizmente contamos muito com a juventude”. 
Breton leva anos para se refazer da decepção experimentada. Num 
relato enraivecido e elogioso, ele narra seu encontro em termos vio-
lentamente dadaístas: “Aos jovens e aos espíritos românticos, que 
por ser a psicanálise a moda deste inverno, precisam imaginar 
um dos escritórios mais prósperos do rastaquerismo moder-
no, o consultório do Dr. Freud, com aparelho para transformar 
coelhos em chapéus e com o determinismo cego para qualquer 
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mata-borrão, não me aborrece informar que o maior psicólogo de 
nossa época mora numa casa de aparência medíocre num bairro 
perdido de Viena. (ROUDINESCO, 1988, p.37-38)
O fracasso desse encontro certamente se deu pelo fato de que Freud sabia que 
Paris não via com bons olhos a Psicanálise e, também, porque o próprio psica-
nalista não se interessava pelos movimentos de vanguarda. Freud buscava mes-
mo o reconhecimento da comunidade científica e não da comunidade artística. 
Pensando na definição do conceito Surrealismo, utilizemos o verbete proposto 
por Breton, presente no Primeiro Manifesto da vanguarda:
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 “ Surrealismo: n. m. Automatismo psíquico puro pelo qual propõe--se exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra forma, o funcionamento real do pensamento. Ditado do 
pensamento, na ausência de todo controle exercido pela razão, fora 
de toda preocupação estética ou moral. (BRETON, 1924, p. 40)
É notório que Breton se baseia em Freud para construir a sua compreensão a 
respeito do automatismo. Ou seja, o núcleo está na ideia de inconsciente, no pen-
samento livre fora das amarras da consciência. Em seus primórdios, o surrealismo 
se baseia, então, na Psicanálise, na associação livre, no sonho e no trabalho de 
decifração. Em outras palavras, ele colocou o desejo inconsciente em primeiro 
plano por meio da diluição do eu, que se conforma às normas estabelecidas pelas 
relações sociais. Essa situação prevaleceu até meados dos anos 1930, pois a partir 
daí, com o surgimento de Salvador Dalí, o tema paranoia entrou em discussão. 
A paranoia-crítica foi um método criado por Dalí para descredibilizar to-
talmente a realidade. Diferentemente do sonho e do automatismo, a paranoia 
interpretava a realidade de modo menos passivo. Cria-se, de acordo com Dalí 
(1971), a noção de irracional concreto que seria mais precisa do que a de ir-
racionalidade geral extraída do aspecto delirante dos sonhos e dos resultados 
automáticos. Continuemos:
 “ Na primeira fase do surrealismo há uma aposta no encadeamen-to significante, ou seja, no trabalho da linguagem onde temos o privilégio não do Eu, mas do inconsciente, do Isso fala. Dalí 
propõe o fortalecimento justamente do Eu, o irracional que 
se trata de alcançar é o irracional concreto, aquele que se apoia 
num sistema de razões, a razão paranoica. Este irracional não 
seria o mesmo dos estados delirantes do sonho e do auto-
matismo. A irracionalidade concreta defendida por Dalí não 
está em antinomia com a consciência, mas ao contrário, ela é 
uma espécie de “hiperconsciência”. Assim Dalí busca a 
sistematização se afastando da fragmentação, do enigma e do 
ciframento do sonho (SANTOS, 2017, p.9).
Dalí compreende que a criatividade está na imagem e não, necessariamente, no 
significante. Um leão, por exemplo, pode também, representar um cavalo, uma 
mulher e assim por diante. Léger (1995, p.85) afirma que, em Dalí, “estas ima-
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gens guardam a imagem do desejo de coisas ideais, nisto elas são agalmáticas: é 
o ouro escondido na merda de passarinho, a idade de ouro da masturbação, do 
exibicionismo, do crime e do amor, a idade das teorias sexuais infantis”. Em outras 
palavras, o pintor surrealista se interessava mesmo pelo poder da interpretação 
das imagens e a força do despertar da cena paranoica em que o desejo do Outro 
é interpretado. Vejamos um de seus mais curiosos trabalhos:
Acesse o Qr Code e veja a arte 
Salvador Dalí intitulada O gran-
de Masturbador (1929):
Como analisar uma pintura tão polimórfica e aberta a múltiplos significados 
como essa? Aliás, quais são as imagens construídas e, de que maneira elas se 
imiscuem? O Surrealismo, por se distanciar da visão clássica de pintura, exige, de 
modo diferente, a participação do espectador. Novas realidades são instauradas, 
o mundo evolui e a obra de arte acompanha essa transmutação. 
A tela dialoga diretamente com a Psicanálise. Observe a atmosfera onírica, a 
complexidade imagética que se relaciona, diretamente, com o inconsciente, com os 
desejos reprimidos, com a falta de lógica e que, por conseguinte, se desligam da orga-
nização consciente e da arrumação linear. Como já informamos, Dalí se interessava, 
sobretudo, pela potência da imagem. E o que temos aí é uma leitura menos passiva 
da realidade: um rosto petrificado parece estar atado a algo que se assemelha a uma 
cabeça – possivelmente, a do grande masturbador. Dessa cabeça parecem fluir a (i)
lógica do inconsciente: além desse rosto feminino com longos cabelos, um tronco em 
que a mulher parece realizar sexo oral. Há, também, um lírio que brota da mulher, 
símbolo da pureza, porém o pistilo da flor possui conotação sexual. 
A cabeça do grande masturbador parece estar presa por um anzol. Formigas, 
pedras, insetos, conchas, grandes cílios, galhos, um ovo, rolha, um enorme gafanho-
Descrição da Imagem: a tela de Dalí possui figuras de difícil co-
dificação: um rosto petrificado parece estar atado a algo que se 
assemelha a uma cabeça - possivelmente a do grande masturbador. 
Além desse rosto feminino com longos cabelos, um tronco em que 
a mulher parece realizar sexo oral. Há, também, um lírio que brota 
da mulher. A cabeça do grande masturbador parece estar presa por 
um anzol. Formigas, pedras, insetos, conchas, grandes cílios, galhos, 
um ovo, rolha, um enorme gafanhoto, a cabeça de um leão com a 
língua para fora compõem o cenário. Fora da cabeça há um homem 
que, de longe, observa a cena, e outro está abraçado a uma pedra.
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to, a cabeça de um leão com a língua para fora compõem o cenário e são imagens 
oníricas cifradas que podem fazer relação a algo da infância do masturbador. Fora 
da cabeça há um homem que, de longe, observa a cena, e outro está abraçado a 
uma pedra. Como bem aponta Freud, os sonhos possuem interpretações distintas. 
É certo que há conexão entre as imagens que vão aparecendo e é papel do analista 
auxiliar no entrecruzamento delas. A obra de arte surrealista funciona como um 
espelho do Inconsciente e, justamente, por esse motivo choca, desautomatiza a 
percepção do espectador e exige uma visão mais arguta da realidade.
A partir deagora, retomemos as formações da linguagem e suas relações 
com a Psicanálise. A denegação é outro ponto fundamental na teoria freudiana 
e merece comentário. Tal fenômeno, que consiste em algo dito negativamente, 
deve ser compreendido como uma afirmação e é justamente neste momento que 
toda a complexidade da linguagem se evidencia, pois é uma maneira da verdade 
do inconsciente aparecer e se ocultar simultaneamente. Quando um analisando, 
deitado em um divã, diz que teve um sonho e que a mulher presente no sonho 
não era a sua mãe, essa frase deve ser compreendida como se fosse uma afirmação. 
Essa negativa é um indício de que uma ideia ou um desejo inconsciente começa a 
emergir e, muitas vezes, tal conteúdo só consegue aparecer por meio da negação.
Importa clarificar que, de acordo com a terminologia utilizada, negation seria 
a negação propriamente dita, e verneinung a denegação, no sentido de recusa. A 
denegação é tema que interessou Freud desde os primórdios. Ela já estava presente, 
por exemplo, em Estudos sobre Histeria, de 1894, quando o psicanalista afirma que 
“o não saber da paciente histérica era de fato um “não querer saber” – um não querer 
que podia, em maior ou menor medida, ser consciente” (FREUD, 1974, p. 326). No 
célebre caso d’ O Homem dos Ratos, de 1909, após relatar o centro de seu sintoma 
obsessivo, o paciente afirma: “mas não é isso que eu penso” (FREUD, 1974, p. 199).
No inconsciente não há não. Em A Interpretação dos Sonhos, de 1900, Freud 
traz para a discussão os sonhos nos quais a negação aparece explicitamente, 
por exemplo, um pai falecido do sonhador que aparece como estando vivo e 
se comportando naturalmente, mas ele “havia realmente morrido, só que não 
sabia” (FREUD, 1974, p. 459). Dessa forma, se não existe “não” no inconsciente 
é por meio desse “não” que o material inconsciente aflora. Como já salientamos 
anteriormente, a análise dos sonhos é inesgotável. Freud já havia afirmado que:
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 “ O mesmo sonho admite outra e mais sutil interpretação, que de fato se torna inevitável se levarmos em conta um detalhe sub-sidiário. As duas interpretações não são mutuamente contradi-
tórias, mas ambas abrangem o mesmo terreno; constituem um 
bom exemplo do fato de que os sonhos, como todas as estrutu-
ras psicopatológicas, regularmente têm mais de um significado 
(FREUD, 1974, p.158)
Em suma, toda proposição, seja positiva ou negativa, deve ser observada a 
partir do prazer que ela visa obter ou do desprazer que tenta evitar. Sabendo 
da plasticidade da linguagem e dos possíveis engodos existentes na comuni-
cação, Freud assevera, em A Interpretação dos Sonhos, que “as palavras, visto 
serem os pontos nodais de numerosas ideias, podem ser consideradas como 
predestinadas à ambiguidade” (FREUD, 1974, p.392).
Ainda pensando na importância do fenômeno da denegação e o re-
lacionando, mais claramente, com a linguagem, trouxemos o exemplo da 
brincadeira infantil que aparece em Além do Princípio do Prazer, de 1920. 
Freud observa um de seus netos que, na ocasião, tinha pouco mais de um 
ano e era uma criança saudável e bem-comportada. A brincadeira consistia, 
de maneira repetida,
 “ Em atirar longe seus brinquedos e outros objetos. Esse movi-mento era acompanhado pelo som ó-ó, que representava o pre-núncio da palavra fort, que significa longe, ter ido embora. Em 
seguida, a criança passou a brincar com um carretel amarrado 
por um barbante, que, jogado por cima do berço, desaparecia 
dentro do cortinado; quando era puxado para fora e reaparecia, 
ela dizia alegremente á-á, que substituía o vocábulo da (eis aí). 
(CASTRO, 1986, p.26).
Dessa brincadeira que pode representar o circuito pulsional – e, nesse caso, 
as saídas da mãe certamente trariam grande desprazer, ocorreram sem quei-
xas, no entanto a criança se compensava por meio da representação lúdica. 
Freud nos mostra, com esse exemplo, que a brincadeira ilustra o acesso à 
linguagem, calcada numa renúncia: a ausência da mãe era repetida por meio 
de um carretel e a criança tinha o papel ativo de dominar a situação.
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Similar ao exemplo é a denegação, pois possui uma dimensão de negatividade. 
Ela transforma a presença – do recalcado – em uma ausência, ou melhor dizen-
do, em uma presença negada, mas é pela fala que essa ausência se faz presente. 
De modo geral, na linguagem a palavra é uma presença construída por meio da 
ausência, é, portanto, uma negatividade.
E Lacan complica?
Descrição da Ima-
gem: fotografia, com 
aspecto de pintura 
em preto e branco, 
de Jacques Lacan. O 
psicanalista olha fi-
xamente para o lado, 
com a cabeça voltada 
para a esquerda, ele 
tem cabelos brancos, 
usa óculos, a boca está 
semiaberta, a testa 
franzida e o queixo é 
pontiagudo
Figura 4 - Jacques Lacan, 
psicanalista francês
Fonte: Wikimedia ([2022]
a, on-line).
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Para compreendermos o posicionamento lacaniano é importante que a con-
tribuição da linguística estruturalista de Saussure esteja bem sedimentada, 
uma vez que o psicanalista francês se baseia nela para a sua compreensão do 
inconsciente. Já citamos que, na verdade, ao retornar a Freud, Lacan utiliza 
a contribuição de áreas diferentes da psicanálise, tais como a linguística, a 
antropologia, a teoria matemática, a filosofia etc. garantindo uma maior mo-
bilidade ao campo, estabelecendo, inclusive, relações entre psicanálise e o 
campo estético, político e o social.
Em seu retorno a Freud, Lacan propõe uma de suas afirmações mais icô-
nicas: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Ora, o que 
isso significa? Como pode o inconsciente, pouco revelado, espaço de inúmeras 
especulações, estudos e poucas certezas ser organizado como uma linguagem? 
O psicanalista francês afirmará que o inconsciente funciona de acordo com 
as mesmas regras da linguagem, todavia essa afirmação, embora seja baseada 
na linguística de Saussure – e, também em Kojève e Lévi-Strauss -, se espraia 
dela e se transforma em “linguisteria”, isto é, linguística + histeria pelo fato de 
que a histeria faz parte do discurso do analisando.
 “ Ao retornarmos a Freud, encontramos a fala em associação livre como princípio da prática psicanalítica e como via de acesso ao inconsciente. E a grande descoberta freudiana é entender que as formações do in-
consciente (sonhos, chistes, sintomas, atos falhos) seguem uma lógica 
de linguagem, que operam pelo deslocamento e condensação de repre-
sentações inconscientes. A articulação entre inconsciente e linguagem, 
manifesta em Freud, é retomada por Lacan com o intuito de situar o 
devido lugar da linguagem em sua relação com o inconsciente, uma 
vez que o movimento psicanalítico posterior a Freud deturpa a leitu-
ra do inconsciente de modo a situá-lo num campo psicologizante e 
subjetivado. Esta é a denúncia feita por Lacan: inconsciente e verdade 
foram lançados pelos psicanalistas como mais um destes conceitos que 
parecem estar tão atrelados ao seu sentido e que ficam fora de ques-
tão, pressupõem quase que instantaneamente um entendimento, uma 
compreensão atrelada ao próprio conceito (MORESCHI, 2013, p.13).
O psicanalista francês reconhece que é a partir da fala que o problema do campo 
simbólico é, devidamente, instaurado. O Simbólico é o campo da linguagem: 
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é o estágio no qual os códigos, leis e proibições que permitem a nossa sadia so-
cialização são instaurados. Silva (2009) afirma que:
 “ O simbólico surge através da internalização do “Nome-do-pai” (em francês, Nom-du-Pére, trocadilho entre “nome” e “não”, de modo que “Nome-do-Pai” também significa a proibição paterna original: o in-
cesto edípico.), portanto através da ruptura com o tempo idílico de 
comunhão absoluta com a mãe (notemos que mãe e pai, para Lacan, 
não são necessariamente a mãe e o pai biológicos, mas quaisquer 
entidades que operem funcionalmente como tais; são categorias 
simbólicas). Essa ruptura se cristaliza como uma “falta”, um Éden 
perdido, sentida agudamente pelo indivíduo. Uma castração,me-
taforicamente falando. O indivíduo, traumatizado por essa ruptura, 
projeta essa integração absoluta para sempre perdida em objetos di-
versos, que Lacan chamou de “objeto a” (object petit a), que passam a 
funcionar ao mesmo tempo como objetos de desejo e como dolorosa 
evidência da falta de integração harmoniosa (SILVA, 2009, p.213).
 Isso quer dizer que tratar do Simbólico por meio da Psicanálise é impedir qual-
quer tipo de objetivação que se possa fazer dela. Em outras palavras, no processo 
analítico, o que interessa é tratar não a passagem para a consciência, mas para a 
fala – a fala precisa ser lida por alguém que até aquele momento não era ouvida 
por ninguém, uma vez que se trata de uma mensagem que teve o código ou o des-
tinatário perdido. Os fundamentos da linguagem, no processo analítico, operam 
em uma relação dialética: há a pessoa deitada no divã, o sujeito, somada àquela 
pessoa que escuta e ao endereçar a fala ao outro, o sujeito alcança uma verdade 
de sua história. De acordo com Lacan, 
 “ [...]a função da linguagem não é informar, mas evocar. O que busco na fala é a resposta do outro. O que me constitui como sujeito é a minha pergunta. Para me fazer reconhecer pelo outro, só profiro aquilo que foi 
com vistas ao que será. Para encontrá-lo, chamo-o por um nome que 
ele deve assumir ou recusar para me responder.” (LACAN, 2003, p.300).
Lacan (2003) elabora um percurso bastante interessante: ele pensa na função 
da palavra, no campo da linguagem, e a maneira como ela alcança a fala, pois 
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é por meio do discurso, isto é, da ação da fala, que o sujeito se funda. A fala 
é o instrumento e material do trabalho analítico, diria o psicanalista francês. 
É por isso que o estruturalismo de Saussure e de Jakobson permitem a reto-
mada dos fundamentos da fala via Psicanálise.
Aprofundando as discussões a respeito do Simbólico, trazemos, a partir de 
agora, os outros dois elementos que compõem a tríade lacaniana que, além do 
conceito já citado, incluem ainda, o Real e o Imaginário e, posteriormente, o 
Grande Outro. A leitura de tais conceitos parte do prisma de Žižek que, em 
sua releitura, transcende o olhar clínico e pretende observar o social, o coletivo. 
Parte dessa conceituação foi extraída da tese de doutorado de Fascina (2018).
Para Lacan, o que chamamos de realidade é a articulação entre a signifi-
cação (Simbólico) e as imagens (Imaginário). Daly (2009, p.14) os diferen-
cia afirmando que o Simbólico é aberto e o Imaginário “procura domesticar 
essa abertura pela imposição de uma paisagem fantasística peculiar a cada 
indivíduo”. Em outras palavras, o Simbólico, como já comentado, é o estágio 
no qual o indivíduo estruturou uma série de elementos que permitem sua 
saudável socialização via campo da linguagem. Uma vez que o Simbólico é 
a ordem do significante, o Imaginário corresponde ao significado, ao cam-
po visual. Como se evidencia, o psicanalista francês baseou-se em Saussure 
para moldar esses conceitos: “a linguagem, portanto, tem relação tanto com 
o Simbólico quanto com o Imaginário” (SILVA, 2009, p.213).
Já o Real é algo que não pode ser incorporado nessa ordem. Embora inerente 
ao processo de estruturação do indivíduo, esse conceito persiste como uma 
dimensão eterna da falta, isto é, “funciona de modo a impor limites de negação 
a qualquer ordem significante (discursiva), mas – pela própria imposição desses 
limites – serve, simultaneamente, para constituir tal ordem” (DALY, 2009, 
p.15). Trata-se de uma instância traumática, indizível, algo entre um vazio e 
um excesso, por sua característica de estar para além da significação, ainda que 
possa ser aludido em certas situações de excesso e horror. Nesses momentos de 
contato, “a vida perde o sentido, por assim dizer, os laços simbólicos se desatam, 
deixando que mergulhemos no caos” (SILVA, 2009, p.213).
Os exemplos citados por Žižek são inúmeros, sendo alguns no mínimo 
bastante inusitados. Citaremos quatro: em O Amor Impiedoso ou: sobre a 
Crença (2012), o teórico afirma que os debates em torno do Sudário de Turim 
acomodam tranquilamente essa tríade, de maneira que o Imaginário ques-
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tiona se a imagem discernível ali é a verdadeira reprodução da face de Jesus 
Cristo, o Real encaixa-se nas inquietações a respeito de quando o material foi 
feito e se o teste que mostrou que o linho fora tecido no século XIV é con-
clusivo e, por fim, o Simbólico narra o complicado percurso do Sudário por 
meio dos séculos. Em A Visão em Paralaxe (2008), o esloveno afirma que o 
fundamentalismo encena um curto-circuito entre o Simbólico e o Real, isto 
é, algum fragmento simbólico (por exemplo, o texto sagrado, a Bíblia no caso 
dos fundamentalistas cristãos) é postulado em si mesmo como Real (para ser 
lido “literalmente”, para não se brincar com ele, em resumo: dispensado de 
qualquer dialética de leitura).
Já na obra Em Defesa das Causas Perdidas (2011), Žižek afirma que de-
terminados comportamentos na internet podem funcionar como a encenação 
Real de fantasias sádicas, enquanto na vida pública o Simbólico-Imaginário 
do indivíduo é bem-educado e cumpridor de regras. Para concluirmos, em 
Como ler Lacan (2010), essa complexa tríade é vista de uma maneira bastante 
simples, refletida em um jogo de xadrez:
 “ As regras que temos de seguir para jogar são sua dimensão sim-bólica: do ponto de vista simbólico puramente formal, “cavalo” é definido apenas pelos movimentos que essa figura pode fa-
zer. Esse nível é claramente diferente do imaginário, a saber, o 
modo como as diferentes peças são moldadas e caracterizadas 
por seus nomes (rei, rainha e cavalo), e é fácil imaginar um jogo 
com as mesmas regras, mas com um imaginário diferente, em 
que esta figura seria chamada de “mensageiro” ou “corredor”, ou 
de qualquer outro nome. Por fim, o real é toda a série complexa 
de circunstâncias contingentes que afetam o curso do jogo: a 
inteligência dos jogadores, os acontecimentos imprevisíveis que 
podem confundir um jogador ou encerrar imediatamente o jogo 
(ŽIŽEK, 2010, p.17)
Especificamente, a respeito do dinâmico conceito do Real, Žižek aponta, em Um 
Mapa da Ideologia (1996), por meio do termo “espectro”, que o cerne “pré-ideoló-
gico” da ideologia consiste na aparição espectral que preenche o buraco do Real. 
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Dito de outro modo, não existe realidade sem o espectro, pelo fato 
de que, ao tentar delimitar uma “verdadeira” realidade de uma ilusão, 
deve ser levado em conta que “para que emerja (o que vivenciamos 
como) a “realidade”, algo tem que ser foracluído dela [...] e a realidade, 
tal como a verdade, nunca é, por definição toda” (ŽIŽEK, 1996, p.26). 
Dessa forma, o Real, que é a parte não simbolizada da realidade, apa-
rece em forma de espectrais, justamente nessa rachadura que separa 
a realidade do Real.
O conceito marxista de luta de classes ilustra de maneira in-
quietante uma aparição do Real, pois se configura como um empe-
cilho simbólico que nos esforçamos para integrar, mas que, ao mes-
mo tempo, condena esses esforços ao fracasso. Assim, é impossível 
objetivá-la, já que ela mesma nos impede de conceber a sociedade 
como uma totalidade fechada.
Em Lacrimae Rerum (2009) o esloveno analisa Matrix. O fil-
me dos irmãos Wachowski “funciona como a tela que nos separa 
da realidade, que torna tolerável o deserto do real” (ŽIŽEK, 2009, 
p.159). Nesse filme, o Real lacaniano não funciona apenas como 
algo que deve ser reformado pela fantasia; é também a própria tela 
como o obstáculo que já distorce nossa visão de realidade lá fora.
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Em outras palavras, a Matrix em si é o Real que desconexa nossa percepção 
de realidade. Žižek (2009) afirma ainda que o problema em Matrix não está na 
ingenuidade científica de seus truques, pois a ideia de passar de um mundo real 
para um virtual por meio de um telefone faz sentido, há apenas a necessidade 
de um buraco, por onde se possa escapar. O problema se encontra numa “in-
consistência fantasmática”,que fica mais clara quando Morpheus tenta explicar 
a Neo o que é a Matrix, relacionando-a a uma falha na estrutura do universo. 
Com essa situação, o filme propõe que essa experiência do vazio confirma que 
a realidade que vivemos é simplesmente uma farsa.
Outro conceito de grande valor, quando pensamos nos estudos psicanalíticos 
a respeito da linguagem, é o Grande Outro, que está inserido na ordem Simbóli-
ca. Pelo fato de todos os indivíduos serem construídos e dominados pela lingua-
gem, eles operam em níveis simbólicos governados por uma espécie de superego 
autoritário, que Lacan chama de Big Other. Segundo Silva (2009, p.214), trata-se 
de “uma instância onipresente, criada pelo indivíduo no processo de separar a si 
próprio do resto do mundo, ou seja, no processo de individuação. Ele é invisível, 
mas está sempre em torno de nós”. E é ele que nos ensina a desejar.
 “ O espaço simbólico funciona como um padrão de comparação contra o qual posso me medir. É por isso que o grande Outro pode ser personificado ou reificado como um agente único: o Deus que 
vela por mim do além, e sobre todos os indivíduos reais, ou a Causa 
que me envolve (Liberdade, Comunismo, Nação) e pela qual estou 
pronto a dar minha vida. Enquanto falo, nunca sou meramente um 
“pequeno outro” (indivíduo) interagindo com outros “pequenos 
outros”: o grande Outro deve estar sempre lá (ŽIŽEK, 2010, p. 17).
Žižek lança mão de um exemplo cômico para explicar este conceito: trata-se 
da piada de um camponês náufrago, que se depara ilhado com a modelo e atriz 
Cindy Crawford. Depois de fazerem sexo, ele pede a ela mais um favor, ques-
tionando se ela poderia se vestir como seu melhor amigo, usar calças e pintar 
um bigode no rosto. O camponês afirma não ser um pervertido enrustido e, 
após ela aceitar o pedido, ele se aproxima do “amigo” e diz que fez sexo com 
Cindy Crawford. Esse terceiro que se eleva acima das interações dos indivíduos 
e funciona como testemunha é o Grande Outro e, como bem aponta a piada, 
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ele é subjetivamente virtual, ou seja, “só existe na medida em que sujeitos agem 
como se ele existisse” (ŽIŽEK, 2010, p.18).
Fascina e Silva (2015) apontam para um exemplo literário: o conto Feliz aniver-
sário, da coletânea Laços de família, de Clarice Lispector. No conto, a matriarca da 
família, D. Anita, completa 89 anos. A família vai se juntando aos poucos para come-
morar a data. A festa é descrita como uma tarefa mecânica, totalmente sem afeto, puro 
pretexto para reunir a família num ato burocrático e vazio: “Vim para não deixar de 
vir” (LISPECTOR, 1998, p.54), afirma uma das noras. A decoração com “guardanapos 
de papel colorido e copos de papelão alusivos à data” (p. 55) e ainda “balões sungados 
pelo teto em alguns dos quais estava escrito “Happy Birthday!” e, em outros “Feliz 
Aniversário”! (p.55), infantilizam e ridicularizam o ambiente. As personagens pare-
cem encenar papéis, num misto de disfarces e dissimulações: “– Oitenta e nove anos!, 
ecoou Manoel que era sócio de José. É um brotinho!, disse espirituoso e nervoso” (p. 
56), “ – Nada de negócios, gritou José, hoje é o dia da mãe!” (p. 57).
Em determinado momento, o narrador com sua postura divina, descarna o 
pensamento da idosa e o leitor fica a par da insatisfação da matriarca, por ter dado 
“à luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos” (p.60), “pareciam 
ratos se acotovelando, a sua família” (p.61). Colérica e insatisfeita, a velha cospe 
no chão. Ora, o ato de cuspir, mais do que afrontar a família, por contrariar as 
normas de civilidade e o espírito festivo que a ocasião demandava, contrapondo 
às aparências mantidas pelos parentes uma consciência, por parte da idosa, da 
falsa harmonia e das podridões escamoteadas pela família, pode ser lido como a 
maneira de informar esse engodo ao Grande Outro. Além da cusparada, ela exige 
um copo de vinho e insulta os convidados com palavras bastante pesadas: “ma-
ricas, cornos e vagabundas” (p. 62), inesperadas no vocabulário de uma senhora 
de boa família no contexto em que decorre o conto.
Nesse caso, o mal-estar momentâneo não decorre de uma súbita tomada de 
consciência, por parte dos familiares, da verdadeira situação: todos sabiam que 
estavam representando - mas essa consciência ficava relativamente acomodada 
desde que o Grande Outro - a instância responsável pelo decoro das relações 
sociais- não fosse informado da realidade: os elos fraternais foram substituídos 
por relações instrumentais. Apesar de surpresa, a família constrangida prefere 
dissimular o acontecido, pois “a velha não passava agora de uma criança” (p.61), 
ou seja, retirando do ato da idosa sua autonomia e significado, “acalmando” o 
Grande Outro. A festa continua, com planos para o próximo ano.
UNIDADE 4
UNIDADE 4
156
Nessa esteira, não é possível deixar de lado a importância da proposição 
da Letra no Inconsciente. Lacan, à revelia dos pós-freudianos, recoloca o 
inconsciente em seu devido lugar, devolvendo seu estatuto de “Wo Es war, soll 
Ich werden”, ou, traduzindo, “ali onde Isso era, devo (eu) advir”. É importante 
notar que alguns herdeiros de Freud interpretaram essa frase como se o “Eu” 
devesse desalojar o Isso, deixando de lado o valor do isso para a associação 
livre. Lacan se valeu da linguística para fazer o “Eu” falar, não a partir da pers-
pectiva do instinto, mas como estrutura da linguagem. O estruturalismo faz 
com que o psicanalista francês compreenda a diferença entre a experiência 
da linguagem vivida como uma espécie de drama próprio de cada história 
e a linguagem como elemento fundante de uma cultura. É em Saussure que 
Lacan abstrai o algoritmo que caracteriza o significante sobre o significado:
S
s
Note que Lacan inverte os elementos S (significante) e s (significado). Na Lin-
guística, como já observamos em unidade anterior, os dois elementos instauram 
ordens diferentes que são separadas por uma barreira que resiste à significação. 
Lacan (2003) mostra que é possível ir além do debate relativo à arbitrariedade 
do signo e, por conseguinte, do impasse entre a palavra e a coisa. Lacan põe o 
significante acima da barra e o grafa com maiúscula, uma vez que a sua pre-
sença na fala é prevalente: o sujeito falante vai deslizando de significante em 
significante, alienado do sentido daquilo que diz. São raros os momentos em 
que o falante consegue atravessar a barra e atingir o sentido daquilo que fala e 
é justamente por esse motivo que o “s” é grafado com letra minúscula.
Observe, também, que não é estabelecida a relação entre significante e 
significado como há na visão saussuriana. O significado é tomado pelas for-
mações do inconsciente já comentadas, tais como os chistes, os sintomas, 
sonhos e atos falhados. De certo modo, o significante de Lacan engloba o 
signo linguístico pensado pelo linguista genebrino. Pense, por exemplo, nas 
inúmeras frases que proferimos todos os dias. Uma provocação precisa ser 
feita: será que, de fato, sabemos o que estamos dizendo? Será que muitas das 
nossas palavras não são vazias de significados? É certo que desperdiçamos 
palavras simplesmente porque somos seres falantes. É justamente a barra, 
157
resistente à significação, que importa para Lacan e que sinaliza o desvio do 
espírito na procura de sentido.
Relembramos: para pensarmos na conceituação do sujeito lacaniano, preci-
samos compreender, antes de mais nada, a abordagem do significante. Sabemos 
que o signo linguístico possui dupla face: o significado (conceito) + o significante 
(imagem acústica). Sabemos, também, que um não existe sem o outro e estão 
circunscritos a partir de uma elipse. A relação estabelecida entre os dois cria a 
significação e o valor é determinado, conforme Longo (2009), dentro do sistema 
de signos. Observe a imagem, a seguir, e note que as setas apontadas para cima e 
para baixo informam que é indiferente à significação a troca de lugares.
CONCEITO
IMAGEM ACÚSTICA
SIGNIFICADO
SIGNIFICANTE
ALGORITMO SAUSSURIANO
OU
Descrição daImagem: há o algoritmo saussuriano. A esquerda, há uma seta apontando para cima, ao 
lado, temos um desenho oval na horizontal em cujo centro há as palavras significado e significante sepa-
rados por uma barra. À direita, há uma seta apontando para baixo. Ao lado, a palavra “ou” que conecta a 
imagem descrita a outra imagem e o mesmo esquema se repete, no entanto, no centro do novo desenho 
oval as palavras conceito e imagem acústica é que são separadas por uma barra.
 Conforme a imagem, o questionamento lacaniano recai no sujeito que produz 
o signo linguístico. Como já citamos, é um sujeito que fala, ou seja, que é subme-
tido à linguagem e, portanto, ao equívoco da função simbólica, pois a palavra é, 
naturalmente, ambígua. Lacan faz a diferença entre o algoritmo saussuriano e a 
psicanálise: conforme Longo (2009), ele elimina a elipse e quebra a unidade do 
signo. De acordo com a imagem 1, Lacan inverte os termos, tornando resistente 
à significação a barra que separava o significante do significado.
No seminário 3, cujo título é As psicoses, Lacan (1988) alinhava essa discussão:
Figura 5 - Algoritmo saussuriano / Fonte: LONGO (2006, p.44)
UNIDADE 4
UNIDADE 4
158
 “ Na análise da relação entre significante e significado, aprendemos a insistir na sincronia e na diacronia, e isso se acha na análise estrutu-ral. No fim de contas, ao olhá-las de perto, a noção de estrutura e a do 
significante aparecem inseparáveis. De fato, quando analisamos uma 
estrutura, é sempre, pelo menos idealmente, do significante que se 
trata. O que melhor nos satisfaz numa análise estrutural é a extração 
tão radical quanto possível do significante (LACAN, 1988, p.215).
Pensemos, mesmo que concisamente, a partir de agora, nas relações entre o su-
jeito e o saber inconsciente. Partimos de uma questão muito simples: por que 
um sujeito se dispõe a procurar um analista? A resposta é óbvia: pelo fato de que 
algo está dando errado e ele quer saber os possíveis motivos. Não é à toa que, no 
processo analítico, o sujeito demanda um saber a respeito de si. Esse saber só virá 
quando ele começar a se ouvir: as palavras vãs serão deixadas de lado e algo fará 
sentido. Esse saber vem, justamente, como um equívoco, isto é, quando o sujeito, 
de fato, não se entende porque ele fala mais do que conscientemente sobre si.
Isso acontece porque ao encontrar o seu caminho por meio da linguagem e 
suas formações, o sujeito não é mais o mesmo, pois sabe que algum saber sobre 
si foi revelado. É por esse motivo que, em termos psicanalíticos, o sujeito do 
inconsciente é um efeito do significante e, por conseguinte, está apagado nos 
significantes que com ele vão se encadeando e se dirige ao Outro: o inconsciente.
James Joyce
James Joyce é um dos escritores mais inventivos da huma-
nidade. Ulysses, sua obra magna, é um verdadeiro aconteci-
mento na literatura moderna. As leituras analíticas que esse 
texto recebeu são incalculáveis e vêm de áreas distintas 
do saber: da crítica literária, da filosofia, da antropologia, da 
sociologia e, dentre outras, também da psicanálise. Jacques 
Lacan, inclusive, dedicou um de seus seminários, o 23, 
intitulado o Sinthoma, para abordar a obra de Joyce. Nesse 
podcast, traremos algumas considerações a respeito do ol-
har lacaniano para o trabalho de Joyce e também faremos a 
leitura de alguns fragmentos de Ulysses que, recentemente, 
completou 100 anos de publicação.
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Descrição da Imagem: a tela é uma das obras mais conhecidas de Salvador Dalí. Há uma paisagem que, 
no lado esquerdo, contém um bloco marrom e nele há um galho seco de árvore com um relógio derretido. 
Na borda do bloco há outro relógio derretido com uma mosca no centro. Ao lado, um relógio vermelho 
está cheio de formigas. No chão, ao lado do bloco, um ser branco, longo, com uma espécie de nariz e 
cílios, de aparência indescritível, também possui um relógio em seu dorso. Ao fundo, há uma formação 
de pedras, um mar azul e um céu com aspecto de entardecer.
Com base nos conhecimentos adquiridos no decorrer da unidade, analise A Per-
sistência da Memória, icônico trabalho de Salvador Dalí, lançado em 1931. Os es-
tudos a respeito do sonho e do Surrealismo serão importantes para esse momento.
Fonte: Wikimedia ([2022]b, on-line).
UNIDADE 4
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1. O filósofo esloveno Slavoj Žižek, releitor da psicanálise lacaniana, comenta sobre as 
três grandes feridas narcísicas postuladas por Freud. A respeito delas e do papel da 
Psicanálise, leia as assertivas que seguem:
I - Ao provar que o planeta Terra gira em torno do sol, Copérnico retira do ser hu-
mano o lugar central no Universo;
II - O Inconsciente, descoberta freudiana, também é uma dessas feridas, pois desa-
possa o eu de sua própria casa;
III - A psiquiatria, por meio da medicação, e as terapias do comportamento “roubam” 
o lugar da Psicanálise;
IV - Para Žižek, só agora o tempo da Psicanálise está chegando e isso se deve ao 
retorno que Lacan faz a Freud.
 Está correto o que se afirma em:
a) II, apenas.
b) I e II, apenas.
c) I, II e IV, apenas.
d) II, III e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.
2. Sigmund Freud, pai da Psicanálise, embora não tenha construído uma teoria espe-
cífica a respeito da linguagem, as discussões a respeito dela perpassam por toda a 
sua obra. Sobre essa questão, analise as assertivas a seguir:
I - O interesse pela linguagem foi, de fato formalizado, a partir dos estudos sobre 
os sonhos e chistes, isto é, a perda da expressão pela fala ou escrita ou da com-
preensão da palavra;
II - Na visão freudiana, a metáfora é a unidade funcional da linguagem que se constitui 
a partir de um processo de associações. A parapraxia faz parte desse processo;
III - A metáfora (condensação) e a metonímia (deslocamento), já comentadas por 
Aristóteles em sua Poética, são figuras de linguagem fundamentais para a com-
preensão da prática psicanalítica;
IV - Para a psicanálise, os sonhos são realizações de um desejo inconsciente, todavia 
a linguagem deles nem sempre é clara: há códigos, inversões, cifras, o que exige 
interpretação cuidadosa do analista;
161
V - Parapraxia é o termo técnico utilizado para fazer referência ao esquecimento 
de palavras, lapsos, enganos e para o ato de guardar objetos em determinados 
lugares e depois se esquecer;
É correto apenas o que se afirma em: 
a) I, II e III.
b) I, II e IV.
c) I, III e IV.
d) II, IV e V.
e) III, IV e V.
3. Jacques Lacan, famoso e polêmico psicanalista francês, estabeleceu seu pensamento 
baseado na obra de Sigmund Freud. A respeito da teoria lacaniana, considere as 
afirmativas a seguir:
I - Lacan retorna a Freud utilizando contribuições de áreas diferentes da Psicanálise, 
tais como a linguística saussuriana e a antropologia de Lévi-Strauss;
II - Ao afirmar que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, Lacan afirma, 
também, que a descoberta freudiana possui uma gramática própria;
III - Para Lacan, o sujeito do inconsciente é um efeito do significante e ao encontrar 
seu caminho através da linguagem nunca mais é o mesmo;
IV - Em seus estudos, Lacan inverte o algoritmo saussuriano e prova que a discussão 
ultrapassa a arbitrariedade do signo e, também, a relação palavra e coisa.
 Está correto o que se afirma em:
a) I e II, apenas
b) I e III, apenas
c) I, II e III, apenas
d) II, III e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.
5Os Caminhos da Linguagem em 
Martin Heidegger
Dr. Diego Luiz Miiller Fascina
Caro(a) estudante, nesta unidade, estudaremos as contribuições de 
Martin Heidegger para a Filosofia da Linguagem. Esse pensador, ao se 
valer da perspectiva existencialista, reconfigura o Ser, conceito impor-
tante para o pensamento filosófico. Nessa unidade, vamos compreen-
der alguns aspectos a respeito de como o Ser se constitui, se põe no 
tempo, molda suas experiências e lida com a linguagem. Partiremos 
de Ser e Tempo, texto base do pensamento heideggeriano, verificando 
como a linguagem parte de uma leitura ontológica e atinge,num Hei-
degger mais tardio, a compreensão da clareira do ser.
UNIDADE 5
164
As diversas manifestações artísticas tentam, desde sempre, transmitir a ideia, den-
tre várias outras funções de que, embora a realidade seja dura e dramaticamente 
rica em vivências, pode ser que, talvez, nós, seres humanos, sejamos algo a mais 
do que simples poeira cósmica: há a fantasia, o mistério e o amor. Se entender 
como humano, lidar com o tempo e com a finitude são questões imperiosamente 
exigentes. Não é à toa que Caetano Veloso, nos interpela já no primeiro verso de 
Cajuína, uma de suas mais belas canções: “Existirmos: a que será que se destina”? 
Por isso, convido você a refletir a respeito dessa pergunta e a elaborar um texto 
com essa possível resposta.
Para ouvir Cajuína, confira o QRcode ao lado. 
Ingmar Bergman (1918-2007) é um dos maiores nomes 
da história do cinema. Esse diretor, que foi também teatrólogo, 
escritor e produtor, soube como poucos penetrar nos recôndi-
tos da alma humana, nas experiências do ser e descreveu, com 
profunda beleza, os grandes dramas de nossa vida. A morte, a 
velhice, a complexidade das relações interpessoais, o silêncio de Deus, o passado 
e os laços de família são alguns dos temas que perpassam por sua obra: todos eles 
ganham tônica e são apresentados ao espectador de modo terrivelmente cruel. De 
sua vasta e premiada obra, alguns títulos são obrigatórios: Monika e o desejo (1952), 
O sétimo selo (1956), O silêncio (1963), Persona (1966), Gritos e sussurros (1972), 
Sonata de outono (1978), Fanny e Alexander (1982), dentre tantos outros.
Para darmos continuidade a problematização inicial, convido você a assistir 
Morangos Silvestres (1957), filme que retrata a vida de Isak Borg, um velho pro-
fessor universitário que está prestes a receber o título de doutor honoris causa, 
importante honraria em reconhecimento ao seu trabalho. Para receber o prêmio, 
ele precisará se deslocar até outra cidade. Durante a viagem, ele é acompanhado pela 
nora e mais três jovens, o que, de certo modo, desencadeia no professor uma profun-
da reflexão existencial: saudade e imagens da infância, da família, angústias perenes, 
sua atual condição de velho e a presença da morte são temas que incomodam o 
professor e o colocam nessa posição de análise minuciosa 
de sua realidade. Convido você a viajar com o prof. Borg e 
a captar importantes reflexões que são postas no filme! Elas 
ajudarão na compreensão dessa unidade de estudos.
Na viagem realizada pelo prof. Borg, a questão temporal 
é elemento de grande questionamento. O ser se faz no tem-
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po, se projeta a partir de suas experiências no tempo. O velho professor parece ter 
noção dessa questão e da finitude da vida ao dar atenção ao sonho e ao reviver o 
passado. Com base nisso, reflita: o que o prof. Borg já foi? O que ele é? O que, de fato, 
o angustia? Ele experimenta a morte apenas no sonho? E, por fim, qual o signifi-
cado dos morangos silvestres? Use o diário de bordo para anotar suas percepções.
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UNIDADE 5
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A linguagem em Martin Heidegger
 “ Quem é Heidegger? Terá sido ele o rei oculto do reino do pensa-mento, como atesta Arendt; um místico carismático, como sugere a comparação de Saffanski com Meister Eckhart; um pseudo-filósofo, 
na apreciação de Husserl; um louco, conforme o parecer do seu 
censor nazista, o psicólogo Jaensch; um montanhês tomado de au-
tismo, se dermos ouvidos ao psiquiatra desnazificador Jaspers; um 
pensador inviável, por querer dizer o indizível, segundo a avaliação 
de Wittgenstein, de Carnap e de Hilbert, ou um ser diabólico que, 
desde o início, teria feito um conluio com o Mal absoluto, como 
parece recear Levinas? (LOPARIC, 2004, p.16) 
 Iniciamos nossos estudos desta última unidade com essa descrição biográfica 
bastante provocadora. Certamente, o alemão Martin Heidegger (1889-1976) foi 
um pouco de tudo isso, mas, de fato, tentarmos entender quem foi essa figura tão 
controversa e brilhante, basta acompanharmos, como sugere Loparic (2014), seu 
percurso bibliográfico, pois o essencial de sua vida aparece, mesmo que diluído, 
em sua obra. É importante salientar que:
 “ Toda a elite intelectual jovem da Alemanha, da França, do Japão e de vários outros países procurou estudar com Heidegger. Os judeus também, entre eles — além de Arendt — Hans Jonas, Karl Lowith, 
Herbert Marcuse e vários outros membros da futura Escola de 
Frankfurt. Jürgen Habermas, aluno de Hans-Georg Gadamer que, 
por sua vez, foi aluno de Heidegger, destacou um ponto central do 
efeito-Heidegger: Ser e tempo, pela sua crítica do sujeito cartesia-
no, oferece um novo ponto de partida, constituindo a “cesura mais 
profunda na filosofia alemã desde Hegel [...] Nem mesmo Ludwig 
Wittgenstein, outro poderoso pensador com raízes judaicas, ficou 
imune ao contágio da obra-prima de Heidegger. Ao mesmo tempo 
que propunha uma teoria da linguagem como imagem do mundo 
dos fatos (estados de coisas subsistentes), Wittgenstein fazia a dis-
tinção entre dizer e mostrar. Essa distinção lhe permitia fazer uma 
outra, correlata, entre fatos naturais que podem ser mostrados (num 
certo sentido de mostrar) e também ditos, e coisas que só podem ser 
167
mostradas, mas não ditas. Que coisas são essas? Que se pense, por 
exemplo, no espanto diante do fato de que algo existe. Aqui está o 
gancho para Heidegger. Em dezembro de 1929, depois de ter lido Ser 
e tempo Wittgenstein admite, diante de seus interlocutores atônitos 
do Círculo de Viena — todos de orientação positivista e empenha-
dos na busca de uma linguagem unificada da ciência e da filosofia na 
qual seria possível, como dirá Rudolf Carnap, construir logicamente 
o mundo —, que pode muito bem entender o que Heidegger quer 
dizer com ser e angústia. O ser humano tem o impulso de ir contra 
os limites da linguagem, uma tendência paradoxal de ultrapassar o 
afigurável. Esse mesmo impulso estaria movendo Heidegger. A sua 
pergunta pelo sentido do ser não pode ser posta numa expressão 
verbal gramaticalmente correta e tampouco admite uma resposta 
bem formulada. Tudo o que poderia ser verbalizado sobre esse as-
sunto seria a priori um sem-sentido. No entanto, a angústia pode 
dar o sentido ao que aqui está em questão. (LOPARIC, 2004, p. 9-10).
Como o fragmento aponta, Heidegger foi uma figura que despertou a atenção de 
intelectuais de áreas indiferentes, inclusive, de teóricos especializados na filosofia 
da linguagem. Sua obra é um dos mais importantes pontos da filosofia moderna e 
base para boa parte das discussões do século XX, uma vez que ela reflete a respeito 
da existência humana ao interrogar o sentido do Ser, e porto de passagem para 
os estudos da linguagem. Antes de nos adentrarmos, de fato, no foco de nosso 
estudo, pensemos em pontos fulcrais a respeito do pensamento heideggeriano. 
UNICESUMAR
UNIDADE 5
168
 “Já que sou o jeito é ser”: O Dasein
O Ser é um dos conceitos mais espinhosos da filosofia. Para Heidegger (2012), 
que traz uma análise existencial por meio de sua ontologia, o Ser é um conceito 
universal, pois está presente em todas as questões cotidianas. Tradicionalmente, 
a filosofia ocidental tratava o Ser como algo dado: ele se manifesta no ente e era 
visto como um ente entre outros. Ao ser interrogado, a tradição pressupunha no 
conceito de Ser um caráter imutável, cuja essência fixa não ultrapassava a aparên-
cia. O filósofo alemão propõe outra leitura: ele questiona o Ser em seu sentido, o 
que é primordial para a compreensão das coisas cotidianas.
Descrição da Imagem: na pintura, que possui estilo xilogravura, um homem está de perfil na esquerda 
da imagem, com uma das mãos apoiando o rosto, em posição de reflexão. Ele veste roupas na cor preta, 
e tem os olhos semicerrados e, como o título da obra sugere, possui aspecto melancólico. A sua frente 
está o mar e o céu tem cor vermelha.
Figura 2 - Melancolia da Noite I (1896),de Edvard Munch / Fonte: Wikimedia Commons ([2022]a, on-line).
169
As discussões a respeito do Ser trazem duas dimensões: a ôntica, que se refere 
às manifestações do ente, e a ontológica, que se refere às possibilidades de ser de 
um ente. Heidegger (2012) denominará o modo de ser do homem como Dasein, 
palavra alemã que significa Ser-aí. Esse termo dá conta de colocar em discussão 
a maneira pela qual a questão do Ser se apresenta para o próprio ente que somos, 
pois diferente de outros entes, que residem na dimensão ontológica, o Ser está 
onticamente marcado a ser ele mesmo. Essa afirmação faz um eco com a literatura 
da já citada Clarice Lispector que, em A Hora da Estrela, afirmou: “já que sou o 
jeito é ser” (LISPECTOR, 1999, p.41). Em outras palavras, enlaçando a afirmação 
filosófica com a literária tornar-se ou vir a ser o que se é resulta em uma relação 
muito íntima que cria uma relação-de-ser com aquilo que somos. Ao mesmo tem-
po, nos entendemos em nosso ser e abrimo-nos para aquilo que estamos sendo.
Heidegger (2012) utiliza a palavra Dasein para denominar o ser humano: 
“o Dasein não é um subsistente que possui além disso como dote adjetivo o 
poder de fazer algo, mas ele é primariamente ser-possível. O Dasein é cada vez 
o que ele pode ser e como ele é sua possibilidade” (HEIDEGGER, 2012, p.409). 
Isto é, tal conceito clama pelo processo de constituição ontológica do homem e 
aponta para o próprio movimento das inúmeras realizações dentro das nossas 
possibilidades de ser. Ontologicamente falando, o homem é um ser temporal, 
pois ele se constitui na configuração do passado, presente e futuro: é um projeto, 
uma possibilidade. Complementando essa informação, Dasein é o ente que 
questiona o sentido do Ser e é a partir dele que as questões todas se desvelam.
É importante que uma diferenciação seja feita entre ente e ser. De acordo com 
Critelli, na tradição filosófica, o ser foi compreendido como coisa em si, todavia:
 “ Esqueceu-se que ser não é uma substância, nem mesmo abstrata; que não é um objeto, uma coisa; que ser é simplesmente o modo daquilo que é. O ser não é uma forma substantiva, mas verbal. Ser 
não é um substantivo, apenas o verbo ser na sua forma infinitiva. 
Ser é movimento; ser é sendo. Por ser modo de estar sendo do ente, 
por ser possibilidade em aberto, o ser não pode ser precisado, ob-
jetivado, aprisionado num único sentido. (CRITELLI, 1981, p. 14)
O humano é o único ente capaz de se interrogar, pelo simples fato de que a condi-
ção ontológica se põe em seu horizonte. Há muitas possibilidades e tentativas de 
UNICESUMAR
UNIDADE 5
170
autocompreensão e de compreensão (Verstehen) do mundo, de modo que nada 
faz sentido isoladamente: onde há “Ser” há ente. Heidegger (2012, p.51) afirma que:
 “ Ser é cada vez o ser de um ente. O todo do ente pode se tornar o campo em que se põem em liberdade e se delimitam determinados domínios de coisa, segundo seus diversos âmbitos. Domínios de 
coisa que de sua parte, por exemplo, história, natureza, espaço, vida, 
Dasein, linguagem, etc. podem ser tematizados como objetos das 
correspondentes investigações científicas.
A própria existência é algo que se manifesta e se desvela. Pasqua (1993) explica 
o que o filósofo alemão compreende a respeito desse conceito e a relação que ela 
estabelece com o Dasein:
 “ A existência (Existenz), tal como Heidegger a entende, não tem o sentido medieval de existentia. Para ele, esta significa literalmente ser subsistente, aquilo que está perante a mão (...). Caracteriza os entes 
que estão fechados sobre si próprios, cristalizados como uma pedra: 
a existentia é algo de estático. A existência de que nos fala Heidegger 
é ek-stática. Caracteriza esse ente denominado Dasein, capaz de ser 
aquilo que projeta ser, de sair de si próprio, de ek-sistir (...) o Dasein 
é aquilo que ele pode ser. Ser, para ele, é poder ser este ente concreto, 
empenhado no mundo, cujo ser é permanentemente posto em jogo 
e como que arrancado de si próprio. A essência do Dasein não signi-
fica, portanto, o caráter estável e invariante daquilo que é, não é uma 
definição abstrata definitivamente válida. (PASQUA, 1993, p. 36).
Ek, do grego, significa aquilo que está fora, e sistere significa o que está em mo-
vimento. Dessa maneira, apenas o homem existe, uma vez que o movimento que 
se cria em direção aos entes, no entendimento diário de ser, é algo próprio do 
Dasein. É por isso que:
171
 “ [...]a “essência” do Dasein reside em sua existência. Os caracteres que podem ser postos à mostra nesse ente não são, portanto, “pro-priedades” subsistentes de um ente que subsiste com este ou com 
aquele “aspecto”, mas modos-de-ser cada vez possíveis para ele e 
somente isso. Todo ser-assim desse ente é primariamente ser. Por 
isso, o termo “Dasein” com que designamos esse ente não exprime 
o seu que, como é o caso de mesa, casa, árvore, mas o ser (...) O ente, 
cujo ser está em jogo esse ser ele mesmo, se comporta em relação 
a seu ser como em relação a sua possibilidade mais própria (...) E 
porque o Dasein é, cada vez, sua possibilidade, esse ente em seu ser 
pode se “escolher” (...). (HEIDEGGER, 2012, p. 140-1) 
Na esteira dessas discussões, 
o filósofo alemão entende 
que as relações que o Dasein 
desenvolve a cada momento 
em sua vida são determinan-
tes. Daí advém a compreen-
são de que o “ser-aí” é um ser-
-para-a-morte uma vez que é 
apenas com a vinda dela que 
finalizamos nossas inúmeras 
possibilidades enquanto ser. 
Vivos, somos abertura, em 
constante devir, podemos 
ser muitas coisas: o Dasein 
é contínuo, nunca total, cuja 
completude advém apenas 
com a morte. A morte é pes-
soal, não pode ser transferida 
e com ela o ser volta a ser o 
que era: nada.
UNICESUMAR
UNIDADE 5
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Silêncio das pedras é o início das palavras?
Descrição da Imagem: na pintura, são visíveis marcações de fortes pinceladas e poucos contornos. As cores 
predominantes são o azul escuro, o preto, o branco e o amarelo. No plano superior, há o céu. Nele, vemos 
traços de pinceladas que formam nuvens. Também há um fundo azul e formas arredondadas que indicam 
ser as estrelas e a lua. No canto esquerdo, em uma perspectiva mais próxima ao espectador, é exposto um 
cipreste. No plano inferior da imagem, há formas mais quadradas e cores que formam construções.
Figura 3 - A noite estrelada (1889), de Van Gogh 
173
Heidegger impõe uma reflexão ontológica para a linguagem desde os seus primei-
ros escritos. Mas é a partir de Ser e Tempo, obra magna, porém nunca terminada, 
publicada em 1927, que a problematização com a linguagem ganha tônica e passa 
a ser observada como o instrumento na qual o homem se dispõe a elaborar sua 
comunicação e a informar sobre si mesmo e sobre o estado de coisas do mundo. 
Em linhas muito gerais, em Heidegger, a linguagem possibilita a abertura por 
meio da apropriação silenciosa de si mesmo ou a abertura enquanto clareira do 
ser, local em que habitam os pensadores, os poetas, figuras que revelam, por meio 
de seu dizer, a correspondência silenciosa com o ser.
De certa maneira, há uma leitura tradicional que compreende a linguagem 
como uma espécie de veículo que transporta o que está no interior do sujeito 
para o exterior. A concepção ontológica, a qual Heidegger defende, entende que 
não é a linguagem que pertence ao homem, mas o contrário: é o homem, ser-
para-a-morte, que pertence a ela. O que isso significa? É muito simples: basta 
pensarmos que não é o homem, um ente, que possui a linguagem no sentido de 
ter a capacidade de falar, mas é a capacidade ontológica que pensa o homem como 
sendo tão somente por meio da linguagem. E isso quer dizer que a linguagem 
não é apenas uma capacidade de transmitir informações, mas de manifestar a 
própria existência humana.
Acompanhemos, mesmo que sumariamente, como Heidegger vai construin-
do, cronologicamente, sua compreensão a respeito da linguagem. Vamos partir de 
Ser e Tempo, mais especificamente do parágrafo 34, momento em que ele concebeontologicamente a linguagem. Tal parágrafo é deveras espinhoso, porque ele traz a 
diferenciação entre discurso (rede) e linguagem (sprache). Essa distinção permite 
que Heidegger estabeleça suas críticas a respeito das concepções do homem como 
animal racional, além de sua concepção ôntica da linguagem e da filosofia da lin-
guagem. Em sua supracitada obra, Heidegger já afirma que a base da linguagem, 
diferentemente do que vimos nas unidades anteriores, não está na lógica, nem na 
gramática e nem no aparelho fonador, mas na constituição do ser-aí.
Loparic (2014) afirma que Heidegger possui duas teses fundamentais, já apre-
sentadas no início de seu percurso filosófico, mas respondidas em Ser e Tempo:
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UNIDADE 5
174
 “ (1) que a vida humana é a interpretação espontânea da realidade de si mesma e de todas as coisas (a “luz natural”);(2) que a característica ontológica fundamental do homem é a de ser 
um ser-no-mundo, isto é, alguém que habita um mundo. Se é assim, 
responder à pergunta quem é Heidegger conduz necessariamente 
à pergunta: Como Heidegger se interpretou a si mesmo morando 
onde morava e da maneira como o fazia? A idéia é tentar contar o 
essencial da vida de Heidegger visitando os lugares nos quais ele 
habitou, vendo como ele os habitou. De fato, onde vivia Heidegger 
enquanto escrevia tudo aquilo que escreveu? Numa torre de mar-
fim? Num mundo interior secreto? Numa mente cindida? No alto 
da montanha? Nos limites da linguagem? Na companhia do Mal? 
(LOPARIC, 2014, p.17)
Heidegger (1988, p.365) afirma que “há linguagem porque há discurso”, isto é, a 
linguagem é uma espécie de pronunciamento do discurso. Em outras palavras, 
o filósofo quer dizer que o ser-aí só se expressa por meio da linguagem, porque 
a abertura que ele tem garante essa possibilidade. Isso é diferente de achar que 
o discurso seja entendido como um tipo de faculdade ou propriedade que 
permitiria a enunciação linguística, uma vez que Heidegger não se preocupa 
em tentar localizar a origem da linguagem no interior do ente e tampouco 
restringe a questões apofânticas.
O discurso é uma instância que permite às questões ônticas em várias 
línguas históricas, pelo fato de que articula significações compartilhadas e as 
preocupações do ser-aí. É daí que advém a compreensão heideggeriana, que 
o ato comunicativo linguístico não é uma transmissão de vivências íntimas 
de um sujeito para outro, mas uma partilha de sentidos com outros. A comu-
nicação é sempre complexa e não deve ser minimizada ao ato de pronunciar 
atos apofânticos entre sujeitos isolados, pelo contrário: “a comunicação tem 
de ser compreendida a partir da estrutura do ser-aí como ser com o outro” 
(HEIDEGGER 1988b, p. 362-363). E isso, inevitavelmente, compreende a aná-
lise da linguagem a partir de sua coexistência.
O filósofo alemão também faz a diferenciação entre linguagem e dis-
curso. Para ele, o discurso possui uma condição ontológica e possui função 
importantíssima na analítica da filosofia da existência: o de ser a “articulação 
‘significativa’ da compreensibilidade do ser-no-mundo a que pertence o ser-
175
-com, e que já sempre se mantém num determinado modo da convivência 
ocupacional” (HEIDEGGER, 1988a, p. 220). Para Heidegger (1967, p.161),
 “ Existencialmente, o discurso está igualmente originário para com o sentir-se situado e a compreensão. Antes da interpretação apropriante, compreensibilidade já também está sempre articu-
lada. Discurso é a articulação da compreensibilidade. Ele está 
situado aquém, já está na base da interpretação e da declaração. 
Aí, na interpretação, nós nomeamos o sentido já articulado no 
discurso, pois mais originário. Aí, na articulação articulada, fa-
lante enquanto tal, nós nomeamos o todo de significado
 Em outras palavras, sendo o discurso a articulação da significância, a coexistência 
pode ser canalizada pela comunicação. Além disso, Heidegger (1988) afirma que a 
base existencial da linguagem é o discurso, que ele é uma articulação em significa-
ções e que isso impede que ela possa ser corretamente compreendida de maneira 
lógica ou formal. Isso quer dizer que “a totalidade significativa da compreensibi-
lidade vem à palavra. Das significações brotam palavras. Estas, porém, não são 
coisas-palavras dotadas de significados” (HEIDEGGER, 1988a, p. 219).
Dessa maneira, sendo o núcleo existencial da linguagem a significância, o dis-
curso permite a possibilidade da enunciação linguística, bem como a compreensão 
colocada na escuta e no silêncio. O ato de ouvir está inserido no escutar silencioso 
e em seu processo de compreensão e só aquele que se cala pode se escutar a si e 
ao outro. Da mesma maneira que falar não é apenas emitir sons vocais, a percep-
ção acústica não é simplesmente a de ouvir ruídos sonoros as quais sentidos são 
aplicados, e silenciar, também não é o mero emudecer: o falar e o silenciar estão 
pavimentados na compreensão de ser do ser-no-mundo e em sua coexistência.
No parágrafo 35, de Ser e Tempo, Heidegger se detém na questão do falatório 
(Gerede) como uma espécie de discurso que vai determinar a comunicação cotidia-
na do ser. É o falatório que organiza o que e como se fala rotineiramente, pois define 
a compreensão e as disposições da linguagem. Ele também organiza a nossa escuta, 
nossa fala e compreensão do mundo, de nós mesmos, de nossos semelhantes.
O falatório também oculta aquilo do que se fala e também pode se referir a um 
escutar que não se atenta, verdadeiramente, ao que se escutou. Ele é, dessa forma, o 
oposto de uma apropriação segura e original do que se fala, uma espécie de repetir e 
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passar adiante aquilo que se fala, sem nada dizer propriamente. Por se tratar de um 
falar sem conteúdo original, temos nele, a falta de solidez no que é dito e escutado.
No entanto, é preciso diferenciar o falatório do erro e do engano. Não se trata, 
também, de questões enodadas do consciente. Tanto o falatório quanto a escri-
vinhação são fenômenos primitivos de abertura que ao explicitar encobre a coisa 
sobre a qual se fala. É válido se lembrar, agora, das palavras iniciais que foram profe-
ridas na abertura da primeira unidade deste livro: “as palavras são moles”, frase dita 
por Alexei, do filme de Tarkovski. Em outras palavras, o falatório e a escrivinhação 
ao encobrir o que se fala, jamais permite a apropriação pelo dizer e escrever: e “como 
ser-no-mundo, o ser-aí que se mantém no falatório rasgou suas remissões ontológi-
cas primordiais, originárias e genuínas com o mundo, com a coexistência e com o 
próprio ser-em” (HEIDEGGER, 1988a, p. 230). De toda forma, o falatório não pode 
ser suprimido, pois ele constitui, existencialmente, o ser-aí, pois toda compreensão, 
interpretação e o próprio processo comunicativo se dá a partir do falatório.
Nesse ponto, é interessante retomar, mesmo que rapidamente, a relação que 
Heidegger estabelece entre o silêncio e a escuta com um poema de Rainer Maria 
Rilke. O poema, um soneto, a seguir:
Então elevou-se uma árvore. Pura elevação! 
Orfeu está cantando! Uma grande árvore no ouvido! 
E tudo silenciou. Mas mesmo no silêncio unânime, 
Nasceu novo princípio, gesto e transformação.
Animais do silêncio se precipitaram 
Da floresta livre e clara de ninhos e moradias: 
E apareceu que, se estavam tão quietos 
Não era por medo ou astúcia,
Mas por escutar. Bramir, gritar, gemer 
Pareciam pequenos em seus corações. E onde 
Mal havia uma choupana para receber,
Um abrigo nascido do mais obscuro desejo, 
Com um acesso de pilares trepidantes, 
Aí criaste um templo na escuta. 
(RILKE, 1989, p.21)
177
 Note que o eu-lírico cria uma espécie de atenção muito arguta em relação aos 
fenômenos da escuta e do silêncio que se espraia para uma dimensão ética do 
questionamento ontológico. É por meio da escuta, que se pressupõe o silêncio 
bastante atencioso, que o ser se manifesta como aberto a seu ser mais profundo, 
mais próprio e também aberto ao outro, compreendendo-o amplamente.
Nosanos 1950, Heidegger proferiu algumas conferências que foram enfeixa-
das na obra A Caminho para a Linguagem. Em uma delas, ele afirmou que falar 
não é a mesma coisa que dizer, uma vez que é possível falar muita coisa e não 
dizer nada. Ao contrário disso, ao se calar e silenciar muita coisa pode ser dita. O 
silêncio é repleto de significados. A respeito da linguagem e da importância 
da fala, o filósofo afirma:
 “ A linguagem pertence, em todo caso, à vizinhança mais próxima do humano. A linguagem encontra-se por toda parte. Não é, portanto, de admirar que, tão logo o homem faça uma ideia do que se acha 
ao seu redor, ele encontre imediatamente também a linguagem, de 
maneira a determiná-la numa perspectiva condizente com o que a 
partir dela se mostra. O pensamento busca elaborar uma represen-
tação universal da linguagem. O universal, o que vale para toda e 
qualquer coisa, chama-se essência. Prevalece a opinião de que o tra-
ço fundamental do pensamento é representar de maneira universal 
o que possui validade universal. Lidar, de maneira pensante, com a 
linguagem significaria, nesse sentido: fornecer uma representação 
da essência da linguagem, distinguindo-a com pertinência de outras 
representações [...] Pois falar da linguagem talvez seja ainda pior do 
que escrever sobre o silêncio. Não queremos assaltar a linguagem 
para obrigá-la a cair nas presas de representações já prontas e acaba-
das. Não queremos alcançar um conceito da essência da linguagem 
capaz de propiciar uma concepção da linguagem a ser usada por 
toda parte e, assim, satisfazer todo esforço de representação. Fazer 
uma colocação sobre a linguagem não significa tanto conduzir a 
linguagem mas conduzir a nós mesmos para o lugar de seu modo 
de ser, de sua essência: recolher-se no acontecimento apropriador.
Queremos pensar a linguagem ela mesma e somente desde a lin-
guagem. A linguagem ela mesma: a linguagem e nada além dela. A 
linguagem ela mesma é linguagem. O entendimento escolado na 
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lógica, habituado a empreender cálculos sobre tudo e isso quase 
sempre com arrogância e exaltação, considera essa frase uma tau-
tologia vazia, uma frase que nada diz. Dizer o mesmo duas vezes: 
linguagem é linguagem, para onde isso haveria de nos levar? Não 
queremos, porém, ir a lugar nenhum. Queremos ao menos uma vez 
chegar no lugar em que já estamos.
Por isso perguntamos: o que há com a linguagem ela mesma? Por 
isso indagamos: como vigora a linguagem como linguagem? Nos-
sa resposta é: a linguagem fala. Deve-se levar a sério uma resposta 
assim? Talvez, isto é, se ficar claro o que significa falar. Para pensar 
a linguagem é preciso penetrar na fala da linguagem a fim de con-
seguirmos morar na linguagem, isto é, na sua fala e não na nossa. 
Somente assim é possível alcançar o âmbito no qual pode ou não 
acontecer que, a partir desse âmbito, a linguagem nos confie o seu 
modo de ser, a sua essência. Entregamos a fala à linguagem. Não 
queremos fundamentar a linguagem com base em outra coisa do 
que ela mesma nem esclarecer outras coisas através da linguagem 
(HEIDEGGER, 2003, p. 8-9).
Em outras palavras, falar, sobretudo com os outros, significa dizer algo em conjun-
to, mostrar uma relação de reciprocidade, e tomar posse de si na escuta que im-
plode o falatório totalmente dispersivo que nos rodeia cotidianamente. É a partir 
desse ponto que o ser-aí passa a ouvir e a dizer algo rico a respeito de si mesmo.
Nesse momento é importante retomar a ideia de que, para Heidegger, o dis-
curso é uma estrutura ontológica que permite a abertura do ser-no-mundo com 
os outros e, portanto, a comunicação. O discurso está na base da interpretação 
e da proposição de tudo, e não é à toa que Gelven (1989, p.104) afirmou que “as 
sentenças são apenas a expressão formal do modo existencial por meio do qual o 
Dasein se relaciona com o mundo e, enquanto tal, são derivadas e não carregam 
consigo a fundação da comunicação humana”. Isso não quer dizer que Heidegger 
renega as análises formais da linguagem, mas que ele embute uma base existencial 
na construção das preposições.
Com base nisso, para Heidegger, toda e qualquer análise de cunho filosófico 
a respeito da linguagem prevê um olhar existencial a respeito do ser-aí, por isso a 
“própria linguagem tem o modo de ser do ser-aí” (HEIDEGGER, 1988b, p. 373).
179
Acompanhando o vivo pensamento de Heidegger no decorrer de sua 
produção, ele redefine a relação entre o ser do ser-aí e o ser enquanto tal. No 
primeiro período, como vimos até o presente momento, a leitura ontológi-
ca da linguagem se baseava na análise existencial que observava a abertura 
do ser-aí e seu comportamento, após o Kehre, ele passa a ser pensado como 
ente extático, isto é, aquele que é visto como a guarda protetora do aberto da 
clareira do ser, cuja proteção advém da linguagem poética e meditativa e não 
objetiva ou representacional. Em outras palavras, o ser para de se questio-
nar no raio temporal, cujo horizonte de sentido recai na ekstática do Dasein 
para pensar em uma perspectiva aletheiológica-eksistencial em que o Dasein 
precisa corresponder. Dessa forma, a partir de agora, a essência da linguagem 
é pensada, também, como a essência do humano, como “recolhimento no 
acontecimento-apropriador” (HEIDEGGER, 1959, p.12).
Nessa virada, aparece a questão que envolve o ser, o pensamento meditativo e 
a linguagem, discussão que ainda não se fazia presente em Ser e Tempo. Todavia, 
mesmo que indiretamente, persistem em suas análises tardias a questão onto-
lógica concedida à escuta e ao silêncio, a visão da linguagem que transcende a 
transmissão de informações e a crítica ao ser como mero animal racional dotado 
de fala. Prosseguindo o caminho da linguagem na obra do filósofo,
 “ Na Carta sobre o Humanismo, texto no qual Heidegger dá teste-munho público da viragem por que passara seu pensamento ao longo dos anos 30 e início dos anos 40, ele afirma que o pensa-
mento perfaz a relação do ser para com a essência do homem; 
isto é o mesmo que afirmar que é no pensamento meditativo, não 
calculador, que o ser vem à linguagem, a qual é, a partir de agora, 
concebida como a casa do ser em que habitam os mortais. Com-
preender a linguagem como a casa do ser, isto é, pensar a lingua-
gem em sua essência, que em si mesma nada tem de linguístico, 
é pensar a linguagem como aquilo que acontece essencialmente 
(west) na proximidade velada entre homem-ser. Se a terminologia 
empregada em Ser e Tempo já apresentava muitas dificuldades 
e estranhezas, aquela empregada nos textos posteriores é ainda 
mais estranha e dá margem a muitos mal-entendidos, tal como 
o de que o filósofo teria substituído os conceitos filosóficos pelo 
emprego idiossincrático de metáforas de duvidoso valor estético. 
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180
De fato, observa-se um afastamento com relação aos conceitos e 
problemas legados pela tradição filosófica, mas tal afastamento 
é ele mesmo filosoficamente medido, isto é, dá-se por motivos 
filosóficos e não tem nada a ver com o emprego de metáforas, pois 
não se trata aí de um pensamento que se valha de representações. 
Assim, afirmar que a linguagem é a casa do ser não pode implicar 
nenhuma representação de objeto, não pode nos levar a pensar 
em qualquer casa concreta, em qualquer habitação já dada na qual 
se poderia alojar o ser, que tampouco é um conceito genérico ou 
universal. A afirmação heideggeriana de que a linguagem é a casa 
do ser concerne à essência da linguagem e não intenta produzir um 
conceito acerca da essência da linguagem. A respeito da essência da 
linguagem, só se podem encontrar indícios ou acenos (Winke) que 
a manifestam de maneira enigmática e não signos ou conceitos que 
possam remetê-la a um significado já previamente estabelecido e 
fixado pela tradição. (DUARTE, 2005, p. 144).
 Sendo assim, um olhar para a linguagem a partir da perspectiva meditativa preci-
sa ser iniciada com o processo de desacostumar a ouvir e dar ouvidos àquilo que 
já foidito. Heidegger (2003) nos lembra que estabelecer uma experiência com a 
linguagem é diferente de ter conhecimento científico a respeito dela. Acrescen-
ta-se, nesse vasto caldo de informações, a ideia de que a linguagem essencial e 
o pensamento poético são estranhos (Unheimlich), porque não estão preocu-
pados, formalmente, em trazer informações aos entes, não procuram resolver 
os negócios do ser e, por isso, escapam a teorização formal. Em outras palavras, 
para acessar a linguagem que é conveniente à escuta do Zuspruch é necessário 
ir além do emprego mecânico do pensar, pois só aí é possível trazer aquilo que 
nunca aparece, o que foge à ordem do ente: a clareira aberta e sem nome em que 
absolutamente tudo se dá. É só aí, longe da práxis ou da poiésis, que o apelo do 
próprio ser é correspondido.
Note que estamos a falar de um pensamento e de uma linguagem que, em 
um nível radical, descentra a subjetividade e sua capacidade de representar de modo 
objetivo as experiências do ser. Muito mais do que expor o apelo do ser, trata-se de 
corresponder à sua verdade epocal. É escutar o grito de uma linguagem que não co-
munica nada, que não está expressa. Heidegger faz, a partir dessa visão, uma profunda 
crítica à época metafísica da técnica que tapa seus ouvidos para o ser da linguagem.
181
Para Heidegger (2003), a linguagem passa a ser compreendida como o 
abrigo da essência humana, o lar em que mora o ek-sistente, um veículo de 
comunicação que é um dizer que mostra. A partir disso, o filósofo alemão 
cunha o ser da linguagem como a saga (die Sage), ou seja, aquele dotado de 
uma capacidade indicativa da linguagem, isto é, “o essenciante da linguagem 
é a saga enquanto a mostração” (HEIDEGGER, 1959, p. 254).
O mostrar é sempre um processo de deixar mostrar-se, daquilo que apare-
ce ou desaparece. A linguagem, nessa esfera, fala na medida em que engloba a 
dimensão daquilo que se apresenta. E escutar a linguagem a partir daí é sempre 
um ato de deixar-se dizer. A saga é o que nos encaminha, aquilo que nos revela 
o sentido mais profundo da linguagem. O poeta, por exemplo, escuta o que está 
além do mundo da técnica. Pensemos, a título de ilustração, no poema de Manoel 
de Barros, que abre a presente seção:
Silêncio das pedras
é o início
das palavras?
(BARROS, 2011, s/p)
Ora, não é um belo exemplo de texto artístico que desvela a linguagem em seus 
caráteres filosófico e poético? O silêncio e a fala, postos nesse singelo poema de 
apenas três versos não dão conta de refletir o que estamos discutindo no presente 
momento? Não se trata, pois, da proteção, por excelência, do aberto? O eu-lírico não 
cuida aqui para que se cumpra a manifestação do ser, conservando-o na linguagem?
Heidegger (2012) nos lembra que velar pela morada em pensamento e lingua-
gem é lembrar o ser de sua essência, preservar sua humanidade. Como já citamos, 
o pensador e o poeta vivem aí na vizinhança do ser, nesse lugar tão misterioso 
descrito por Manoel de Barros, que é linguagem e homem. Não se pode deixar 
que a linguagem poética caia do plano de expressões de vivências e nem que o 
pensamento se converta numa mera instrumentalização de representações.
Se pensarmos em posicionamentos éticos, a partir de suas reflexões no 
campo da linguagem, é preciso levar em consideração a relação entre lin-
guagem e morte, uma vez que ambas constituem o ser do homem. O ser fala 
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UNIDADE 5
182
e ao falar tira do oculto o ente e os trazem para a presença. Sobre essa ideia, 
lembramos dos versos finais da composição Um índio, de Caetano Veloso: “E 
aquilo que nesse momento se revelará aos povos/ Surpreenderá a todos não 
por ser exótico/ Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto/ Quando 
terá sido o óbvio”. O homem morre e morrer significa ser capaz da morte 
enquanto morte, nos assevera Heidegger (2000).
Em consonância com o que já fora abordado em Ser e Tempo, o filósofo define, 
também, agora, o humano como aquele que é capaz de experimentar a morte 
enquanto possibilidade contínua de morrer: a morte é uma doação do ser ao ek-
-sistente que vive na clareira aberta do ser. Há, mesmo que Heidegger não tenha se 
debruçado nessa questão, uma relação muito curiosa entre linguagem, a morte e o 
próprio ser. Para Heidegger (2000), nem todo morrer faz diferença do perecer e os 
homens só se tornam mortais na medida em que deixam de ser seres dotados de 
razão. Ademais, parece que os homens se expõem ao pensamento do ser na medida 
em que experimentam o dom que é a possibilidade de morrer: tornar-se mortal é 
ter, também, a capacidade de um dizer verdadeiramente desocultador.
“A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho”.
(Clarice Lispector em A paixão segundo G.H.)
EXPLORANDO IDEIAS
No fio condutor dessas discussões, em Ser e Tempo, Heidegger afirma que 
o ser-para-a-morte remodela o ser-no-mundo, e agora pode-se afirmar que 
a resposta que o homem dá para a morte também modifica a relação da 
ek-sistência com os outros, a partir da abertura da clareira do ser, e isso só 
pode ser feito por meio da linguagem.
Marx (1987) usa a hermenêutica para explicar a importância da morte para Hei-
degger. Na obra do filósofo alemão, a morte:
183
 “ [...]desestabiliza, desaloja os mortais de seus hábitos e relações costumeiras com as coisas. Acima de tudo, entretanto, ela os ar-ranca de seu modo cotidiano de ‘ser-com-outros’”. A morte isola 
e singulariza, bem como desestabiliza, desequilibra, na medida 
em que conduz o homem de volta a si mesmo a fim de que ele 
se assuma como aquele que deve “suportar a morte sem a ajuda 
dos outros enquanto vive (MARX, 1987, p. 51).
 A experiência da morte ou do humano enquanto ser capaz de morrer, faz com 
que o ser divida com o outro o seu desamparo fundamental, gerando solidarie-
dade. Pode-se criar, a partir daí, uma relação de responsabilidade, porque um se 
põe no lugar do outro, há uma espécie de compartilhamento do mundo.
 “ Cotidianamente, não temos tempo para o outro e sequer lhe concedemos espaço, não velamos pela proximidade na distân-cia nem deixamos que o outro seja o mortal que ele é, pois não 
o reconhecemos em sua alteridade como o outro que ele é na 
proximidade. Antes, tratamos o outro com indiferença ou hos-
tilidade: seja porque ele não é um dos nossos, isto é, porque ele 
não é um nacional, não nasceu num mesmo solo comum; seja 
porque encarna em si mesmo uma diferença que a comunidade 
ou parcelas representativas dela não toleram e buscam excluir 
por meio do preconceito e da discriminação; seja porque, em 
função da miséria, ainda quando o outro é formalmente reco-
nhecido como um dos “nossos”, ele já se encontra de antemão 
excluído das instâncias institucionais mundanas e privilegiadas 
nas quais acontece cotidianamente a co-ek-sistência. Ao pensar 
originariamente o ethos como morada, como abrigo comum na 
proximidade velada da clareira do ser – sem designar qualquer 
espaço, tempo ou atitude definidos e localizáveis; sem mencionar 
quaisquer hábitos ou costumes históricos socialmente compar-
tilhados, passíveis de repetição e ensino, bem como sem se ater 
a quaisquer procedimentos de universalização normativa – Hei-
degger não se afasta da possibilidade de repensar a ética. Muito 
pelo contrário, ele nos ajuda a redefini-la, ao nos desvencilhar 
das determinações tradicionais, espaço temporais, a partir das 
quais não pensamos e não exercitamos nossa co-eksistência na 
UNICESUMAR
UNIDADE 5
184
Os fundamentos do problema ontológico devem ser procurados do lado da relação do 
ser com o mundo e não da relação com outrem. É na relação com a minha situação, 
na compreensão fundamental de minha posição no ser, que está implicada, a título 
principal, a compreensão. [...]Não se trata do ser-com um outro, que duplicaria nossa 
subjetividade, mas do ser-no mundo. Esse deslocamento do lugar filosófico é tão im-
portante quanto a transferência do problema de método sobre o problema do ser. A 
questão mundotoma o lugar da questão outrem. Ao mundanizar, assim, o compreen-
der, Heidegger o despsicologiza. Esse deslocamento ficou inteiramente desconhecido 
nas interpretações ditas existencialistas de Heidegger. As análises da preocupação, da 
angústia, do ser-para-a-morte foram tomadas no sentido de uma psicologia existen-
cial requintada, aplicada a estados de alma raros. Não se deu a devida atenção ao fato 
de essas análises pertencerem a uma meditação sobre a mundanidade do mundo e 
de pretenderem, essencialmente, arruinar a pretensão do sujeito cognoscente de eri-
gir-se em medida da objetividade. [...] O que se deve precisamente reconquistar, sobre 
essa pretensão do sujeito, é a condição de habitante desse mundo, a partir da qual há 
situação, compreensão, interpretação.
RICOEUR, Paul. Interpretação e Ideologias. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990. p. 31-32.
EXPLORANDO IDEIAS
abertura do ser. Ao mesmo tempo, ao nos definir como os mor-
tais, como os que são capazes de experimentar o dom da morte 
enquanto morte, Heidegger também renova as possibilidades da 
reflexão ética ao recuperar a indeterminação e finitude consti-
tutivas do agir e pensar humanos. (DUARTE, 2005, p. 154-155).
Além de Martin Heidegger, outro importante expoente da 
filosofia da existência é Jean-Paul Sartre. Um de seus textos 
mais conhecidos é a conferência O existencialismo é um 
humanismo. O intuito desse podcast é ler fragmentos e co-
mentar, brevemente, alguns pontos presentes nesse texto.
https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/9719
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Eticamente pensando, trata-se de um deixar-ser, isto é, deixar o outro ser li-
vre para que ele possa desenvolver seu poder-ser mais profundamente. Agir é 
pensar e ação desse pensamento quanto o pensamento dessa ação escapam, 
completamente, de uma conceituação.
NOVAS DESCOBERTAS
Título: A paixão segundo G.H.
Autor: Clarice Lispector
Ano de Lançamento: 1964
Em A Paixão segundo G.H., Clarice Lispector constrói um enredo banal: 
G.H., a protagonista, despede a empregada, Janair, e resolve fazer uma limpeza em seu 
apartamento. A faxina é iniciada pelo quarto da empregada, local que G.H. julga estar 
mais sujo. Para sua surpresa, tudo está asséptico, no entanto, do guarda-roupas sai uma 
barata. G.H. amassa a barata, come a massa branca dela e, a partir dessa cena, inicia-se 
uma infernal trajetória da protagonista ao mais profundo de si. Convido você a realizar 
essa leitura e a se questionar: a linguagem consegue acompanhar essa complexa sonda-
gem psicológica realizada pela personagem? Será que as iniciais - G.H. - não significam 
Gênero Humano e o romance narra a experiência traumática que todos nós, seres, so-
mos empurrados a experimentar enquanto Dasein? Boa leitura!
UNICESUMAR
UNIDADE 5
186
Leia os dois textos a seguir:
Viver
Ele teve a sensação de ser. Não poderia explicar, tão 
profundo, nítido e largo que era. A sensação de ser 
era uma visão aguda, calma e instantânea de se ser o 
próprio representante da vida e da morte. Então, ele 
não quis dormir, para não perder a sensação da vida.
LISPECTOR, C. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
O que é angústia
Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondi-
da. Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, 
inclusive, é a palavra que se orgulham de pronunciar 
como se com ela subissem de categoria - o que também 
é uma forma de angústia.
Angústia pode ser não ter esperança na esperança. 
Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar 
nem a si próprio. Ou não ser o que realmente se é, 
e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar 
vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia 
- e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: 
o que é vivo, por ser vivo, se contrai.
Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há 
um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera 
que o coração entenda.
LISPECTOR, C. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
187
Com base nas discussões heideggerianas apresentadas no decorrer da unidade, 
faça uma análise crítica dos dois textos anteriormente citados.
1. A respeito de conceitos fundamentais do pensamento heideggeriano, analise as 
assertivas a seguir:
I - O Ser é um conceito já existente na filosofia antes de Heidegger, mas a perspec-
tiva ontológica dada por ele questiona o Ser em seu sentido.
II - Para Heidegger, o Ser só se torna Dasein após a sua morte, pois é o momento 
em que ele encerrou suas experiências humanas.
III - De acordo com uma leitura ontológica, o homem se faz no curso do tempo e é, 
por isso, um projeto, uma possibilidade.
IV - Dasein é o ente que questiona o sentido do Ser e é a partir dele que as questões 
aparecem.
Correto o que se afirma em:
a) II, apenas.
b) I e II, apenas.
c) I, III e IV, apenas.
d) II, III e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.
2. Ser e Tempo, texto fundamental para a compreensão do pensamento de Martin 
Heidegger, foi publicado em 1927. A respeito das discussões sobre a linguagem, 
presentes na obra, analise as assertivas a seguir:
I - Para Heidegger, a base da linguagem está na estrutura gramatical e na emissão 
realizada pelo aparelho fonador.
II - O ser-aí se expressa o da linguagem, pois a abertura que ele tem garante essa 
possibilidade.
III - Para Heidegger, o ato comunicativo nunca é solitário: trata-se de uma intensa 
partilha com o outro.
IV - A base existencial da linguagem é o discurso e por ela ser uma rede de signifi-
cações não pode ser compreendida de modo formal.
V - O Gerede é um discurso que determina a comunicação diária do ser humano, 
uma vez que ele compreende e organiza a linguagem.
188
É correto apenas o que se afirma em: 
a) I, II, III e V.
b) I, II, III e IV.
c) II, III, IV e V.
d) I, II, IV e V.
e) I, III, IV e V.
3. O pensamento de Heidegger foi sofrendo alterações no decorrer de sua produção. E 
isso inclui o tratamento dado à linguagem. A respeito dessa mudança de perspectiva, 
analise as assertivas a seguir:
I - Em Ser e Tempo, a perspectiva ontológica da linguagem se baseava na leitura 
existencial que analisava a abertura do ser-aí e seu comportamento.
II - A virada na análise da linguagem está após o Kehre, pois o ser passa a ser é visto 
como a guarda protetora do aberto da clareira do ser.
III - Pensar na linguagem como a casa do ser é pensar a essência e tal atitude não 
estabelece relação com a Linguística.
IV - Na mudança de perspectiva a respeito da linguagem, ela passa a ser vista como 
o abrigo da essência humana, o lar em que mora o ek-sistente.
Está correto o que se afirma em:
a) I e II, apenas
b) I e III, apenas
c) I, II e III, apenas
d) II, III e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.
189
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196
UNIDADE 1
1. C. A resposta errada é: III. Para Platão, o discurso possui caráter único e, por esse 
motivo, é sempre assertivo e correto. Conforme o texto, o discurso possui caráter 
dúbio, híbrido, podendo ser falso ou verdadeiro.
2. E. As respostas erradas são: I.Crátilo, de Platão, é uma releitura da Metafísica aristo-
télica, com o estabelecimento das categorias gramaticais; Crátilo não é uma releitura 
da Metafísica. II. Górgias se baseou em vários diálogos aristotélicos para construir a 
noção semântica de sua proposta; Górgias não se baseou em Aristóteles.
3. 3. E. Todas as assertivas estão corretas.
UNIDADE 2
1. 1. B. I e III, apenas. A assertiva II está incorreta, pois a lógica de Frege rompe com 
a visão clássica e pelo fato de que ela não é influenciada por Platão. A assertiva IV 
também está incorreta, pois a localização do contexto é fundamental para a com-
preensão do significado.
2. 2. E. Todas as assertivas estão corretas.
3. 3. D. I, III e IV, apenas. A assertiva II está incorreta, pois a discussão acerca da Lingua-
gem aparece, decisivamente, na segunda fase.
197
UNIDADE 3
1. E. I, II, III e IV.
2. E. III, IV e V.
3. E. I, II, III e IV.
UNIDADE 4
1. E. I, II, III e IV.
2. E. III, IV e V.
3. E. I, II, III e IV.
UNIDADE 5
1. C. I, III e IV, apenas.
2. C. II, III, IV e V.
3. E. I, II, III e IV.
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