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RESUMOS CONCURSO PROCURADOR DA REPÚBLICA Conteúdo programático base: Regulamento do XXV Concurso para Procurador da República – MPF – 2011/2012 Página 1 ÍNDICE ÍNDICE ........................................................................................................................................................................................................... 1 DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA ...................................................................................................... 2 DIREITO ADMINISTRATIVO E AMBIENTAL ........................................................................................................................... 103 DIREITO TRIBUTÁRIO E FINANCEIRO...................................................................................................................................... 175 DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO ........................................................................................................................................ 249 DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO ........................................................................................................................................ 304 PROTEÇÃO INTERNACIONAL DE DIREITOS HUMANOS ................................................................................................... 320 DIREITO ECONÔMICO E DO CONSUMIDOR ............................................................................................................................ 361 DIREITO CIVIL ...................................................................................................................................................................................... 396 DIREITO PROCESSUAL CIVIL ........................................................................................................................................................ 464 DIREITO ELEITORAL ......................................................................................................................................................................... 555 DIREITO PENAL ................................................................................................................................................................................... 591 DIREITO PROCESSUAL PENAL ..................................................................................................................................................... 695 BIBLIOGRAFIA ..................................................................................................................................................................................... 774 PARTICIPARAM DESTA OBRA Adriano Barros Fernandes Alessandro Rafael Bertollo de Alexandre Alisson Nelicio Cirilo Campos Ana Fabiola de Azevedo Ferreira Antonelia Carneiro Souza Antonio Marcos Martins Manvailer Bruno Barros de Assunção Bruno Jose Silva Nunes Caroline Santos Lima Cinthia Gabriela Borges Cleber de Oliveira Tavares Neto Daniel Azevedo Lôbo Daniel Dias Zanatta Daniel Luz Martins de Carvalho Daniella Mendes Daud Diego Fajardo Maranha Leão de Souza Diogo Castor de Mattos Douglas Guilherme Fernandes Eduardo da Silva Villas Boas Eduardo Henrique de Almeida Aguiar Eduardo Leandro Falcão Fabio de Oliveira Felipe Almeida Bogado Leite Felipe Augusto de Barros Carvalho Pinto Felipe d’Elia Camargo Fernanda Viana dos Santos Carneiro Fernando Antonio Alves de Oliveira Junior Fernando Carlos Dilen da Silva Fernando Henrique Berbert Fontes Fernando Machiavelli Pacheco Francisco Alexandre de Paiva Forte Gabriel Pimenta Alves Gabriela Cunha Melo Prados Gustavo Henrique Oliveira Indira Bolsoni Pinheiro Jacqueline Passos da Silveira Jorge Luis Lopes Manzur Jorge Munhós de Souza José Leite dos Santos Neto José Rubens Plates Julio Jose Araujo Junior Leandro Zedes Lares Fernandes Leonardo Andrade Macedo Leticia Carapeto Benrdt Lincoln Pereira da Silva Meneguim Luana Lopes Silva Luana Vargas Macedo Luiz Antonio Miranda Amorim Silva Manoel de Souza Mendes Junior Marcela Harumi Takahashi Pereira Marco Antonio Ghannage Barbosa Marco Frattezi Goncalves Marcos Nassar Marcus Vinicius Yamaue Romão Maria Marilia Oliveira Calado de Moura Marino Lucianelli Neto Mario Roberto dos Santos Martha Carvalho Dias de Figueiredo Melina Alves Tostes Natalia Lourenco Soares Patrick Aureo Emmanuel da Silva nilo Pedro Gabriel Siqueira Goncalves Raphael Nazareth Barbosa Renata Ribeiro Baptista Roberson Henrique Pozzobon Rodrigo Celestino Pinheiro menezes Sergio de Almeida Cipriano Sergio Valladao Ferraz Ticiana Andrea Sales Nogueira Valeria Etgeton de Siqueira Vitor Hugo Caldeira Teodoro Viviane Lages Pereira Walquiria Imamura Picoli DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | 25 tópicos | 75 subtópicos Página 2 DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA 1.a. Constitucionalismo: histórico. Modelos e ciclos constitucionais. Constitucionalismo principialista e neopositivismo. Constituição: concepções. Classificação. Supremacia. Liberalismo e Dirigismo. ............................................... 4 1.b. Poder Legislativo. Organização. Atribuições do Congresso Nacional. Competências do Senado e da Câmara. Legislativo e soberania popular. A crise da representação política. ............................................................................................................ 6 1.c. Ministério Público: História e princípios constitucionais. A tarefa de custos constitutionis: legitimidade e limitações. ... 7 2.a. Constituição e cosmopolitismo. O papel do direito comparado e das normas e jurisprudência internacionais na interpretação da Constituição. .............................................................. 8 2.b. Poder Executivo. Histórico. Presidencialismo e Parlamentarismo. Presidente da República: estatuto. Competências. Poder normativo autônomo, delegado e regulamentar. Ministros de Estado. ................................................... 9 2.c. Distrito Federal. Territórios Federais. Origens e evolução dos direitos fundamentais. .................................................................. 11 3.a. Divisão de poderes. Conceito e objetivos. História. Divisão orgânica de poderes. Divisão funcional de poderes. Independência e harmonia entre poderes. Balanceamento entre poderes............................................................................................. 13 3.b. Poder Judiciário: organização e competência. Normas constitucionais respeitantes à magistratura. Lei de Organização da Magistratura Nacional - LOMAN...................... 14 3.c. Estado-membro. Competência. Autonomia. Bens. Ministério Público como guardião do princípio federativo. 18 4.a. Direitos sociais: enunciação, garantias e efetividade. Princípio do não-retrocesso. Constitucionalismo dirigente. 20 4.b. Normas constitucionais. Definição. Estrutura. Classificações: normas formalmente e normas materialmente constitucionais; normas de organização, normas definidoras de direitos e normas programáticas; normas autoaplicáveis (preceptivas e proibitivas) e normas não autoaplicáveis; normas de eficácia contida, normas de eficácia limitada e normas de eficácia ilimitada; princípios e regras. Preâmbulos. Efeitos das normas da Constituição brasileira de 1988. .............................................................................................................. 21 4.c. União. Competência. Bens da União. Federalismo fiscal. Judiciário e Federação. .......................................................................... 22 5.a. Mudanças e permanência constitucionais. Poder Constituinte originário e Poder Constituinte derivado. Limitações expressas e implícitas ao poder de reforma constitucional. Experiência histórica. ............................................. 23 5.b. Supremo Tribunal Federal: organização e competência. Jurisdição constitucional. ..................................................................... 24 5.c. Município: criação, competência,autonomia. Convênios ou consórcios federativos: distinção, aplicação e crítica. ...... 25 6.a. Estado Federal. Concepções. Classificações. Sistemas de repartição de competência. Direito comparado. ....................... 26 6.b. Política agrária. Princípios. Objetivos. Instrumentos. Desapropriação para fins de reforma agrária. Política agrícola, usucapião e bens públicos. ............................................... 27 6.c. Direitos e garantias fundamentais. Concepções. Críticas e justificativas. Aspectos. Dimensões. Eficácia vertical e horizontal. Limites e conflitos. ........................................................... 29 7.a. Processo legislativo: objeto, ritos e peculiaridades. O devido processo legislativo. Questões políticas. Atos interna corporis. ....................................................................................................... 30 7.b. Garantias institucionais. Garantias de instituição. Crises constitucionais. Estado de defesa e estado de sítio. ................. 31 7.c. Justiça Comum Federal: organização e competência. ..... 32 8.a. Estado-membro. Poder constituinte estadual: autonomia e limitações. ................................................................................................ 33 8.b. Superior Tribunal de Justiça: organização e competência. Integridade normativa da ordem jurídica federal. ................... 34 8.c. Defesa do Estado e das instituições democráticas. Estado de defesa. Estado de sítio. Papel das Forças Armadas. ........... 36 9.a. Ordem social: comunicação social. Direitos políticos: esfera pública e discursividade. ........................................................ 37 9.b. Norma jurídica e enunciado normativo: identidade versus dualidade. Normas mais do que perfeitas, perfeitas, menos do que perfeitas e imperfeitas. Normas cogentes e normas dispositivas. ............................................................................... 39 9.c. Segurança Pública. Comunitarismo. História dos direitos fundamentais no Brasil ......................................................................... 40 10.a. Interpretação constitucional. Vigência das regras hermenêuticas tradicionais nesse domínio. Existência de critérios específicos nesse domínio. Neoconstitucionalismo: definição e características. Mutações constitucionais e seus limites. Interpretação constitucional, liberdade de configuração do legislador, jurisdição constitucional e controle concreto de constitucionalidade. ................................... 43 10.b. Elementos da relação jurídica: titular do direito, sujeito obrigado, direito subjetivo, dever jurídico e vínculo jurídico. Ficções legais e presunções legais. .................................................. 44 10.c. Municípios. Regiões metropolitanas. Intervenção federal nos Estados e intervenção estadual nos Municípios. .......................................................................................................................... 45 11.a. O Estado. Conceito. História. Elementos: território, população e poder estatal. Estado, direito e sociedade. Características dos Estados modernos. Tipos: monocracia (monarquia e ditadura) e república; teocracia, Estado policial-absolutista; Estado liberal, Estado totalitário moderno e o Estado de direito democrático e social. Características do Estado brasileiro na Constituição de 1988. .......................................................................................................................... 46 11.b. Administração Pública: princípios constitucionais. A Administração Pública dialógica. ...................................................... 47 11.c. Espécies de direitos subjetivos: direitos de personalidade direitos absolutos, direitos relativos, direitos potestativos ou de conformação; direitos de família; direitos disponíveis e direitos indisponíveis. Direitos coletivos e interesses difusos. Direitos individuais homogêneos. ............ 48 12.a. Controle de constitucionalidade: evolução histórica do sistema brasileiro. Legitimidade. ...................................................... 49 12.b. Nacionalidade brasileira. Condição jurídica do estrangeiro. Refugiados. Asilo político. .......................................... 50 12.c. Servidores públicos: princípios constitucionais. ............ 51 13.a. Disposições constitucionais transitórias: conceitos e limites. Recepção. Inconstitucionalidade superveniente. ..... 52 13.b. Regime constitucional da propriedade: função socioambiental. Direito adquirido, expectativa de direito e mudanças sociais. .................................................................................... 53 13.c. Princípio da isonomia. Ações afirmativas. O pluralismo. .......................................................................................................................... 54 14.a. Democracia. Conceito. História. Atributos: soberania popular, legitimação do poder pela expressão livre da maioria, igualdade de oportunidades, proteção de minorias, sufrágio universal, direto e igualitário, voto secreto, periodicidade do sufrágio, pluralismo. Democracia representativa. Instrumentos de democracia direta na Constituição de 1988.............................................................................. 55 DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | 25 tópicos | 75 subtópicos Página 3 14.b. Previdência social e assistência social: configuração constitucional e infraconstitucional. A seguridade social como mecanismo de igualdade social e como problema orçamentário. ............................................................................................ 56 14.c. A República: perspectiva histórica e concepções. Republicanismo. ....................................................................................... 57 15.a. Políticas Públicas. Conceito. Objetivos e âmbitos. Instrumentos. Ministério Público, Judiciário e políticas públicas. ....................................................................................................... 59 15.b. Responsabilidade civil do Estado. Responsabilidade subjetiva e objetiva. Atos ultra vires. Ação de regresso. ........ 60 15.c. Imunidades e incompatibilidades parlamentares. Direito comparado. ................................................................................. 61 16.a. Direito à educação: configuração constitucional e infraconstitucional. ................................................................................. 63 16.b. Princípios constitucionais do trabalho. Ciência e tecnologia. Democracia e sociedade de risco. ............................. 64 16.c. Arguição de descumprimento de preceito fundamental. .......................................................................................................................... 66 17.a. Configuração constitucional e infraconstitucional da proteção à família, a criança, ao adolescente e ao idoso. ....... 67 17.b. Silogismo jurídico clássico: subsunção, premissa maior normativa, verificação dos fatos, conclusão. ............................... 68 17.c. Igualdade de gênero. Direitos sexuais e reprodutivos. 69 18.a. Orçamento público voltado às políticas sociais: controle social e do Ministério Público Federal. .......................................... 70 18.b. Direitos das pessoas portadoras de deficiência: configuração constitucional e infraconstitucional. .................. 71 18.c. Ação Declaratória de constitucionalidade. ........................ 72 19.a. Liberdade de expressão, religiosa e de associação. Os direitos civis e a Constituição de 1988. ......................................... 74 19.b. Direitos e interesses das comunidades indígenas e das remanescentes de quilombos. Comunidades tradicionais. Papel do Ministério Público na defesa das minorias. .............. 75 19.c. Sistema Único de Saúde. Princípios e diretrizes norteadoras. ...............................................................................................76 20.a. Finanças públicas. Temas sujeitos à reserva de lei complementar. Emissão de moeda. Normas sobre o Banco Central. Orçamentos públicos: plano plurianual, diretrizes orçamentárias e orçamentos anuais. Vedações orçamentárias. Disponibilidade de recursos a órgãos dotados de autonomia. Normas sobre despesas de pessoal. ................. 77 20.b. Relatório de Prestação de Conta Institucional da Atuação do Ministério público na Defesa da Cidadania. ........ 78 20.c. Índios. Ocupação tradicional. Procedimento para reconhecimento e demarcação de terras indígenas. Usufruto. .......................................................................................................................... 79 21.a. Conselho Nacional do Ministério Público. História, composição, competência e funcionamento. Corregedoria Nacional. Legitimidade e críticas. ..................................................... 80 21.b. Critérios de interpretação da norma jurídica: gramatical, sistemático, histórico, teleológico, interpretação conforme a Constituição. Limites da interpretação, em especial o sentido literal possível. Conflitos aparentes de normas e os critérios para sua solução.......................................... 82 21.c. Ordem econômica. Atividade econômica em geral: fundamentos, objetivos, princípios, direito de iniciativa. Exploração de atividade econômica pelo Estado: regulação, fiscalização e planejamento. Diretivas para os regimes de concessão e permissão de serviços públicos. Propriedade e emprego de recursos minerais e de potenciais hidroelétricos. Monopólios federais: atividades monopolizadas e regime jurídico do monopólio. Abuso do poder econômico. Responsabilidade de pessoas jurídicas e de seus dirigentes nas infrações à ordem econômica e financeira e à economia popular. ........................................................................................................ 83 22.a. Subsistema de atenção à saúde indígena. Distritos sanitários e controle social. Financiamento. ............................... 87 22.b. Controle Difuso de Constitucionalidade. História. Direito comparado. Efeitos da declaração de inconstitucionalidade............................................................................. 88 22.c. Recurso Extraordinário. Arguição de repercussão geral das questões constitucionais. ............................................................. 89 23.a. Direitos fundamentais culturais. Multiculturalismo e interculturalidade. Direito à diferença e ao reconhecimento. .......................................................................................................................... 90 23.b. Súmula vinculante. Legitimidade e críticas. Mecanismos de distinção. ................................................................................................ 91 23.c. Ação direta de inconstitucionalidade: origem, evolução e estado atual. Efeitos da declaração de inconstitucionalidade............................................................................. 92 24.a. Atendimento do Ministério Público à comunidade. Estratégias de comunicação das ações do Ministério Público. .......................................................................................................................... 93 24.b. Estatuto constitucional dos agentes políticos. Limites constitucionais da investigação parlamentar. Crimes de responsabilidade. Controle social, político e jurisdicional. .. 94 24.c. As funções essenciais à Justiça: Advocacia privada e pública. Representação judicial e consultoria jurídica da União, dos Estados e do Distrito Federal. A Defensoria Pública. .......................................................................................................... 96 25.a. Direito à saúde e ordem constitucional. Fornecimento de medicamentos essenciais. .............................................................. 97 25.b. Inconstitucionalidade por omissão. Ação Direta e Mandado de Injunção. ......................................................................... 100 25.c. Conselho Nacional de Justiça. História, composição, competência e funcionamento. Corregedoria Nacional. ..... 101 DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 4 1.a. Constitucionalismo: histórico. Modelos e ciclos constitucionais. Constitucionalismo principialista e neopositivismo. Constituição: concepções. Classificação. Supremacia. Liberalismo e Dirigismo. Constitucionalismo: histórico. Constitucionalismo é a teoria (ou a ideologia) que ergue o princípio do governo limitado indispensável à garantia dos direitos em dimensão estruturante da organização político-social de uma comunidade. Em sentido histórico, desprovido de conteúdo material, constituição é o conjunto de regras (escritas ou consuetudinárias) e de estruturas institucionais conformadoras de uma dada ordem jurídico-política num determinado sistema político-social. Em sentido moderno, o conceito trazido pelo movimento constitucionalista do iluminismo, constituição é a ordenação sistemática e racional da comunidade política por meio de um documento escrito no qual se declaram os direitos e o modo de sua garantia, e se fixam os limites do poder político (Canotilho, 2003). Modelos e ciclos. Modelo historicista do constitucionalismo inglês: a) garantia dos direitos adquiridos de propriedade e liberdade; (b) estruturação corporativa por estamentos; (c) regulação desses direitos por meio de “contrato de domínio”, como a Magna Charta, de 1215, que evoluiu para outros momentos constitucionais como a Petition of Rights, de 1628, o Habeas Corpus Act, de 1679, e o Bill of Rights, de 1689, sedimentando algumas dimensões que estruturam o constitucionalismo. Modelo individualista-revolucionário francês. Direitos naturais do indivíduo (Déclaration Universelle des Droits de L’Homme e du Citoyen, de 1789). Além da propriedade e da liberdade, também se derruba todo o ancién régime, os privilégios de estamentos. A ordem política é querida e constituída através de um contrato social assente nas vontades individuais, expresso por meio do poder constituinte (poder originário da Nação – soberania nacional), que cria um documento escrito, a constituição (para a garantia dos direitos e a limitação do poder político). Modelo estadunidense: permitir ao corpo constituinte do povo fixar num texto escrito as regras disciplinadoras do poder – a constituição como lei superior hierarquicamente (limited government), interpretada pelo Poder Judiciário (judicial review e controle de constitucionalidade) (Canotilho, 2003). Ciclos: Estado Liberal não-democrático (sufrágio restrito, soberania nacional), séc. XIX; Estado Social democrático (sufrágio universal, soberania popular), séc. XX. Constitucionalismo principialista e neopositivismo. Neopositivismo (positivismo lógico, empirismo lógico) tem como marco o manifesto “Concepção científica do mundo”, publicado em 1929 pelo “Círculo de Viena”. Costa: o neopositivismo propõe uma radical cientificização dos discursos e conduziu, no âmbito jurídico, à Teoria Pura do Direito de Kelsen e ao Realismo Jurídico estadunidense. A ciência do direito deveria ser um conhecimento descritivo acerca do direito existente. É preciso desenvolver uma hermenêutica descritiva (que explique adequadamente o que os juristas efetivamente fazem quando interpretam as normas), em vez de uma hermenêutica prescritiva (que criava metodologias de interpretação para orientar as atividades dos juristas). Kelsen escolheu como objeto a norma (sua teoria é formalista e logicista); os realistas, os fatos envolvidos na aplicação judicial do direito (nova teoria sociológica do direito, adequada aos padrões de cientificidade do neopositivismo). Restava intocado o problema fundamental da prática jurídica, que era a de como regular a dimensão política de sua produção hermenêutica. O neopositivismo desafiou os juristas a elaborar discursos hermenêuticos dogmáticos que superassem o ceticismoradical quanto à racionalidade de qualquer metodologia de interpretação (Costa, 2011). Principialismo. Há pós-positivismo não-jusnaturalista (Friedrich Müller, Konrad Hesse) e o de viés jusnaturalista (Ronald Dworkin, Robert Alexy). Estes propugnam uma “normatividade dos princípios”, em que a justificação última do direito é moral (leitura moral da constituição). Barroso: princípios são a síntese dos valores contidos no ordenamento (ideologia), dão unidade e harmonia ao sistema, determinando a atividade hermenêutica. Normas são princípios ou regras. Regras são “tudo ou nada” (mandados de definição), se os fatos nela previstos ocorrerem, incidem de modo direto e automático (por subsunção), produzindo seus efeitos. Princípios contêm carga valorativa maior (fundamento ético e/ou decisão política), indicam direção a seguir; têm dimensão de peso (importância), e são “aplicáveis em maior ou menor intensidade” (mandados de otimização), mediante ponderação (concessões recíprocas para produzir um resultado socialmente desejável, sacrificando o mínimo cada um dos princípios ou direitos em oposição) (Barroso, 2011). Constituição: concepções. Conceito “jurídico” – Hans Kelsen: no sentido jurídico-positivo, a constituição é a norma suprema e fundamental de toda a ordem jurídica, no sentido lógico-jurídico, é a norma fundamental hipotética, pressuposta, lógico-transcendental, que é o fundamento de validade da constituição em sentido jurídico-positivo. Conceito sociológico – Ferdinand Lassalle: a constituição é a soma dos fatores reais de poder que existem de fato na sociedade. Conceito político – Carl Schmitt: identifica constituição com uma concreta decisão política fundamental sobre a essência do Estado. Há distinção entre constituição (decisão fundamental) e leis constitucionais (texto escrito). Conceito “culturalista”: “constituição total” em uma visão sintética e unificadora que abrangeria a constituição em toda a sua complexidade e sob todos os pontos de vista que sobre ela têm interesse, como os aspectos econômicos, sociológicos, políticos, jurídicos, filosóficos etc. (Ferraz, 2008). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 5 Classificação. Quanto: à forma: a) ESCRITAS – elaboradas sistematicamente e codificadas num único documento, através de processo solene de exteriorização da Constituição; b) NÃO-ESCRITAS – baseadas principalmente no direito consuetudinário e na jurisprudência, mas também em documentos esparsos que apresentam matéria de Constituição; ao modo de elaboração: a) DOGMÁTICAS – as escritas, racional e sistematicamente elaboradas, de uma só vez, por quem detém poder para tal (Poder Constituinte); b) HISTÓRICAS – as não-escritas, são criadas pela sedimentação e transformação dos costumes, da jurisprudência e dos textos com matéria de constituição (consuetudinárias); ao conteúdo: a) FORMAIS – São as escritas, dogmáticas. As únicas que se exteriorizam por um processo solene para criação da Constituição. b) MATERIAIS – São o conjunto de regras consideradas por uma sociedade como sendo materialmente constitucionais, estejam ou não codificadas em um único documento; à extensão: a) SINTÉTICAS –as de curta extensão; b) ANALÍTICAS – as extensas; à finalidade: a) NEGATIVAS (GARANTIA) – se restringem a garantir a preservação de direitos fundamentais de 1ª dimensão; b) DIRIGENTES (PROGRAMÁTICAS) – as que criam obrigações positivas de conduta ao Estado, para a consecução de finalidades sociais, criando objetivos para o Estado, um verdadeiro programa de governo; à origem: a) DEMOCRÁTICAS – aquelas cujo titular do Poder Constituinte é o povo. Derivam do trabalho de uma assembleia composta de representantes eleitos pelo povo; promulgada; b) AUTOCRÁTICAS – aquelas impostas ao povo, sem sua participação; outorgada; ao processo de alteração do texto: a) RÍGIDAS – só poderão ter seu texto alterado através de um processo mais dificultoso do que o processo de elaboração ou modificação das demais espécies normativas; b) FLEXÍVEIS – as que podem ser alteradas pelo mesmo processo de elaboração ou alteração das normas primárias; c) SEMIRÍGIDAS (SEMIFLEXÍVEIS) – aquelas, sempre escritas, que conjugam uma parte do texto com rigidez e outra com flexibilidade. Há autores, minoritários, segundo os quais as constituições poderiam ser super-rígidas, as rígidas que apresentassem um núcleo imutável; à efetividade (critério “ontológico” de Karl Loewenstein): a) NORMATIVAS – as que possuem efetividade de fato; as forças sociais se conduzem predominantemente conforme à Constituição; b) NOMINATIVAS (ou NOMINALISTAS) – as que não possuem efetividade de fato; os grupos e as pessoas não se conduzem de acordo as normas; c) SEMÂNTICAS – as que são elaboradas como mero instrumento da dominação dos detentores do poder de fato (Ferraz, 2008). Supremacia. Jurídico-formal: é a supremacia formal, atributo que surgiu com o constitucionalismo e só pode estar presente nas constituições escritas e rígidas. Sociológico-material: fato social, dado da realidade; duas acepções: (a) se a constituição é efetivamente cumprida pela sociedade, possuindo força normativa real, vinculando os fatores reais de poder, enfim, se possui, ou não, eficácia social – acepção em que apenas terão supremacia material aquelas cujos preceitos normativos efetivamente sejam cumpridos; e (b), invertendo-se a perspectiva, como as sociedades vivem em Estados organizados, todo Estado tem regras que efetivamente determinam o funcionamento do seu poder, regras essas que podem coincidir, ou não, com a constituição escrita formalizada. O cientista social pode pesquisar qual é a “constituição material” de determinado Estado, aquele núcleo de normas que efetivamente possuem força normativa, independentemente de ser a constituição formal, porque normas constitucionais existem de fato (Ferraz, 2008). Liberalismo e Dirigismo. O liberalismo engloba o aspecto político, ao qual estão associadas a primeira fase do constitucionalismo (revoluções burguesas e implantação do Estado Liberal – final do séc. XVIII e séc. XIX), caracterizado pelo “Estado mínimo”, separação de poderes, liberdades públicas (direitos fundamentais de 1ª dimensão); e econômico, calcado na propriedade privada e autonomia privada (absolutas, isto é, sem interferências do Estado/Direito), isto é, “livre mercado” (capitalismo “puro”). Ao Estado cabe apenas garantir a propriedade e a liberdade (autonomia da vontade/contratual) privadas, não devendo interferir na vida da “sociedade civil” (vista como separada do Estado). O dirigismo caracteriza o Estado Social, propugnando a intervenção do Estado na economia e na vida privada. A propriedade e a autonomia privadas passam a ser limitadas no interesse coletivo (função social) e mesmo reconfiguradas (alteração da própria natureza dos institutos, intrinsecamente; p.ex., “bem socioambiental”), com a “publicização do direito privado”. Não há mais a cisão entre Estado vs. sociedade civil. Direitos fundamentais de 2ª e 3ª dimensões. Ao Estado cabe dirigir a atividade econômica (e privada em geral) para atingir as finalidades estatais (democrática e constitucionalmente definidas, como “promover o bem de todos” e “construir uma sociedade livre, justa e solidária”), dentro de uma estrutura que garante a liberdade individual, isto é, os direitos de 1ª dimensão permanecem, ainda que reconfigurados, o sistema econômico é capitalista, ainda que não liberal, mas sim Democrático-Social. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 6 1.b. Poder Legislativo. Organização. Atribuições do Congresso Nacional. Competências do Senado e da Câmara. Legislativo e soberania popular. A crise da representação política. Introdução: “No quadro de divisão de funções entre os Poderes da República, tocam ao Legislativo as tarefas precípuas de legislar e fiscalizar. O Poder Legislativo, porém,de modo não típico, também exerce as funções de administrar e de julgar.” (MENDES et all., 2008, p. 853). Organização: o Legislativo possui organização bicameral. Opera pelo Congresso Nacional, o qual é composto por duas casas (CF, art. 44): 1) Câmara dos Deputados: representantes do povo, eleitos pelo sistema proporcional em cada Estado e no DF. 2) Senado Federal: 03 (três) representantes de cada Estado e do DF, eleitos pelo sistema majoritário. Atribuições do Congresso Nacional: Ver CF, art. 48 e 49. Segundo José Afonso da Silva (2010, p. 520), as atribuições do Congresso Nacional podem ser divididas em cinco grandes grupos: 1. Atribuições legislativas 2. Atribuições meramente deliberativas 3. Atribuições de fiscalização e controle 4. Atribuições de julgamento de crime de responsabilidade 5. Atribuições constituintes Competências do Senado: as competências privativas do Senado estão previstas na CF, art. 52 (“compete privativamente ao Senado Federal: ...”). Competências da Câmara dos Deputados: as competências privativas da Câmara dos Deputados estão previstas na CF, art. 51 (“compete privativamente à Câmara dos Deputados: ...”). Legislativo e Soberania Popular: Para José Afonso da Silva (2010, p. 131), a democracia repousa sobre dois princípios fundamentais: (a) soberania popular (o povo é a única fonte de poder) e (b) participação, direta ou indireta, do povo no poder (para que este seja a efetiva expressão da vontade popular). A forma pela qual o povo participa no poder dá origem a três tipos de democracia: direta, indireta (ou representativa) e semidireta. O Brasil adota o tipo semidireto, ou seja, democracia representativa, com alguns institutos de participação direta. Portanto, o Poder Legislativo, por meio dos representantes legitimamente eleitos pelo povo, é o veículo primordial para o exercício da soberania popular. “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição” (CF, art. 1º, parágrafo único) A Crise da Representação Política: Conforme Roberto Amaral (2003), o Brasil passa por uma crise de representação política¸ amplo processo caracterizado pela não identificação do eleitor com seus representantes, crescente desinteresse do cidadão pela vida política e descompassos entre a vontade do representados e a geração de políticas públicas pelo legislador. São apontadas como principais causas da crise de representação: a) Exclusão política e social de milhões de cidadãos. b) Características inerentes ao sistema, que tem como foco os indivíduos políticos e não os partidos. c) Fragilidade do sistema de partidos, composto por siglas sem identidade ideológica e sem distinção programática clara. d) Submissão do Legislativo aos impérios do Executivo (ex: medidas provisórias). e) Conduta dos parlamentares (desinteresse, esvaziamento dos plenários, corrupção, nepotismo e corporativismo). PALAVRAS-CHAVE: poder legislativo; organização; atribuições; soberania popular; crise da representação política. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 7 1.c. Ministério Público: História e princípios constitucionais. A tarefa de custos constitutionis: legitimidade e limitações. Ministério Público. História. Há controvérsia sobre a origem do Ministério Público (MP). Várias categorias de agentes com funções de determinar o cumprimento da lei são apontados como “precursores” do que hoje é o Ministério Público. Tais agentes existiriam desde a Idade Antiga (funcionários do Faraó do Egito, Tesmoteti, na Grécia; Praefectus urbi, em Roma) ou a Idade Média. Mas foi na França, em 1302, que foi institucionalizado o MP, por meio da ordonnance do Rei Felipe, constituindo os procureurs du roi. Em 1690, os membros do Parquet passaram a ter vitaliciedade. Há autores que, com razão, consideram que o MP só passou a ter um perfil mais parecido com o atual a partir da Revolução Francesa. No Brasil, não tendo sido mencionado na Constituição de 1824, o MP surgiu no Código de Processo Criminal de 1832, e seus membros eram livremente escolhidos e demitidos. Em 1890, o MP é considerado instituição necessária (Decreto nº 1.030). A CF 1891 limita-se a dizer que o Presidente da República designará, dentre os Ministros do STF, o PGR. A CF 1934 institucionalizou o MP como órgão de cooperação nas atividades governamentais, na União, no DF, nos Territórios e nos Estados. O PGR é escolhido livremente pelo Presidente da República, com aprovação do Senado, entre cidadãos que preencham os requisitos para ser Ministros do STF, e é demissível ad nutum. Seus membros são estáveis e escolhidos por concurso público. A CF 1937 só se refere ao MP a respeito da designação do PGR e do quinto constitucional. A CF 1946 volta a organizar o MP, e, agora, em título especial, fora da estrutura dos demais Poderes. Ao MPF compete também a representação judicial da União. Seus membros têm estabilidade, inamovibilidade e são escolhidos por concurso público. A CF 1967 recolocou o MP dentro da estrutura do Poder Judiciário, mantendo as demais regras. A CF 1969 voltou a posicionar o MP no Poder Executivo. A CF 1988 representa uma forte ascensão do MP, que passa a estar situado fora da estrutura dos demais Poderes. Princípios constitucionais. Unidade. Indivisibilidade. Exatamente como o Poder Judiciário e a jurisdição são unos e indivisíveis, também é o MP e a atuação ministerial. A CF expressamente declara os princípios da unidade e da indivisibilidade do MP, e não do Judiciário, em razão da profunda mudança paradigmática que ela, CF, operou sobre o MP, (a) dotando-o das mesmas características de independência e autonomia que o Judiciário; e (b) expurgando de suas funções as relativas à advocacia pública ou de defensoria pública, passando a atuar exclusivamente de maneira independente em relação a quem quer que seja, imparcialmente; enquanto o Judiciário já era revestido de tais características anteriormente. Independência funcional. O membro do MP é independente no exercício funcional, não se submetendo às ordens de quem quer que seja, fora ou dentro do MP. A hierarquia interna é meramente administrativa. A tarefa de custos constitutionis: legitimidade e limitações. Em um sentido amplíssimo, pode-se considerar que o MP funciona como fiscal da Constituição por meio de todas as suas atitudes, judiciais ou extrajudiciais, na medida em que todas caminham no sentido de proteção direta ou ao menos indireta das normas da Constituição Federal. Num sentido mais específico, fala-se em custos constitutionis como atividade do MP no âmbito do controle de constitucionalidade. E em sentido restritíssimo – em simetria à designação de custos legis como sendo apenas a tarefa de intervenção no processo, sem ter sido o autor da ação –, custos constitutionis é a tarefa de opinar nos processos de controle de constitucionalidade em que não seja parte. O PGR detém legitimidade para interpor ADIn, ADC e ADPF perante o STF, tendo como parâmetro a CF, sendo sua legitimidade “universal”, abrangendo qualquer matéria passível de ser objeto de tais ações, independentemente de pertinência temática. O PGR será previamente ouvido em todos os processos de competência do STF, inclusive nas ações diretas de controle de constitucionalidade e naquelas em que a questão constitucional chega ao STF pela via recursal, destacando-se o Recurso Extraordinário, devendo o PGR opinar livremente, atuando com independência para defender a Constituição. Além disso, o MP pode manifestar-se em qualquer incidente de inconstitucionalidade (observados os prazos e condições fixados no Regimento do Tribunal, CPC, art. 482, §1º), o que faz com igual independência. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 8 2.a. Constituição e cosmopolitismo. O papel do direito comparado e das normas e jurisprudência internacionaisna interpretação da Constituição. O Estado constitucional cooperativo deve substituir o Estado constitucional nacional, defende Häberle. Para isso, o recurso ao direito comparado e às normas e jurisprudência internacionais deve ser empregado como método de interpretação, de modo a promover a abertura da sociedade para fora. “‘Estado Constitucional Cooperativo’ é o Estado que justamente encontra a sua identidade também no Direito Internacional, no entrelaçamento das relações internacionais e supranacionais, na percepção da cooperação e responsabilidade internacional, assim como no campo da solidariedade. Ele corresponde, com isso, à necessidade internacional de políticas de paz” (HÄBERLE, 2007, p. 4). Eis o que requer a interpretação pluralista da Constituição, para moldar uma cidadania que combina a igualdade de oportunidades com respeito à diferença, superando a cidadania homogeneizante e negadora das diferenças: abertura para dentro, isto é, o reconhecimento da sociedade aberta dos intérpretes da Constituição —todos os que vivem a norma, e não só os juízes constitucionais, acabam por interpretá-la ou pelo menos cointerpretá-la—; abertura ao mundo (ou cooperação), isto é, a interpretação do texto constitucional como aberto, cooperante e integrante de uma rede de outros textos constitucionais e internacionais com o mesmo propósito (especialmente no âmbito dos direitos fundamentais). A importância do direito comparado e das normas e jurisprudência internacionais na interpretação da Constituição decorre da constatação de que, hoje, o direito constitucional não começa onde termina o direito internacional, e o contrário também é válido. Lembre-se, a propósito, o par. 3º do art. 5º da CRFB. Como diz Häberle (2007, p. 61): “A ideologia do monopólio estatal das fontes jurídicas torna-se estranha ao Estado constitucional quando ele muda para o Estado constitucional cooperativo. Ele não mais exige monopólio na legislação e interpretação: ele se abre —de forma escalonada— a procedimentos internacionais ou de Direito Internacional de legislação, e a processos de interpretação.” A CRFB abre-se ao mundo e ao Estado constitucional cooperativo em diversos dispositivos: (1) no art. 4º, inc. IX, que erige a "cooperação entre os povos para o progresso da humanidade" em princípio reitor das relações internacionais do País e, no parágrafo único, diz: "A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações."; (3) nos §§ 2º, 3º e 4º do art. 5º, segundo os quais: "Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes [...] dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte", "Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais"; "O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão." PALAVRAS-CHAVE: Abertura ao mundo na CRFB. Princípio da cooperação entre os povos para o progresso da humanidade. Tratados de direitos humanos no art. 5º. TPI. Estado constitucional cooperativo de Häberle. Superação do monopólio nacional na legislação e interpretação. CFRB em rede com outros textos estrangeiros e internacionais com mesmos propósitos. Método comparativo de interpretação constitucional. Pluralismo para dentro e para fora de Häberle. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 9 2.b. Poder Executivo. Histórico. Presidencialismo e Parlamentarismo. Presidente da República: estatuto. Competências. Poder normativo autônomo, delegado e regulamentar. Ministros de Estado. Sistema de governo é o modo como se dá a relação entre os Poderes dentro de um Estado; sobretudo entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo. Diferencia-se da forma de governo, que é definida como o modo em que se dá a relação entre governantes e governados. As principais espécies de sistema de governo são: presidencialismo e parlamentarismo. O parlamentarismo surgiu na Inglaterra, a partir dos séculos XII e XIII, como resposta contra os privilégios monárquicos. O presidencialismo remete ao sistema implantado em 1787 nos EUA, com a criação de um Executivo independente do Legislativo, e, ao mesmo tempo, sujeito ao sistema de pesos e contrapesos de Montesquieu. Quadro comparativo apresentado por Bernardo Gonçalves Fernandes: Presidencialismo Parlamentarismo Identidade entre chefia de estado e chefia de governo (são a mesma pessoa). Chefe de estado exerce função simbólica de representar internacionalmente o país e de corporificar a sua unidade interna. Chefe de governo executa as políticas públicas. Ou seja, é quem efetivamente governa e também exerce a liderança da política nacional. Há uma não identidade entre chefia de estado e chefia de governo. O chefe de estado pode ser um rei (um monarca) ou um presidente, ao passo que o chefe de governo é o 1º ministro, que exerce o governo conjuntamente com o seu gabinete (conselho de Ministros). Estabilidade de governo. Há a figura dos mandatos fixos para o cargo de presidente. Estabilidade democrática, construída pelo povo nos processos democráticos. Pode até existir a figura do mandato mínimo e do mandato máximo, todavia ele não é fixo. Nesse sentido, tem por fundamento a existência dos institutos: I) possibilidade de queda do gabinete pelo parlamento (através da “moção de censura” ou “voto de desconfiança”) e II) possibilidade cotidiana de dissolução do parlamento pelo gabinete. Poder Executivo Poder Executivo é o órgão constitucional em que se concentram as funções de cunho executivo nos moldes explicitados no art. 2º da Constituição de 1988, que delimita os poderes da União, cuja função está atrelada ao exercício da atividade executiva na República Federativa do Brasil. O Executivo, além de administrar a coisa pública (função típica), também legisla (art. 62 da Constituição) e julga (contencioso administrativo), no exercício de suas funções atípicas. Basicamente, suas funções estão estabelecidas no art. 84 da Constituição.1 O Poder Executivo, nos termos do art. 76 da Constituição, é exercido pelo Presidente da República com o auxílio dos Ministros de Estado (cargos de livre nomeação e exoneração do Presidente da República). O chefe do Poder Executivo é o Presidente da República, cujas condições de elegibilidade estão no art. 14, § 5º, é eleito mediante sufrágio universal, a partir do princípio da maioria absoluta. A reeleição é possível parar um único período subseqüente, a partir da EC n. 16/97. A linha sucessória do Presidente da República será: Vice-Presidente, Presidente da Câmara, Presidente do Senado e Presidente do STF (arts. 78 e ss. da Constituição). Na hipótese de a vacância do cargo operar-se nos dois primeiros anos do mandato, far-se-á uma eleição 90 dias depois de aberta a última vaga (eleição direta); ocorrendo nos últimos dois anos do período presidencial, haverá a eleição indireta promovida, em 30 dias, pelo Congresso Nacional. A perda do mandato ocorrerá nas seguintes hipóteses: 1. Cassação (decorrente de decisão do Senado nos processos por crime de responsabilidade2, ou de decisão do STF em caso de crime comum); 2. Declaração de vacância do cargo pelo Congresso Nacional; 1 José Afonso da Silva classifica as atribuições do Presidente da República em três funções básicas: a) Chefia do Estado: art. 84, VII, VIII, XVIII, segunda parte, XV, XVI, primeira parte, XIX, XX, XXI e XXII. b) Chefia do Governo: art. 84, I, III, IV, V, IX, X, XI, XII, XIII, XIV,XVII, XVIII, primeira parte, XXIII, XXIV e XXVII. c) Chefia da Administração Federal: art. 84, II, VI, XVI, segunda parte, XXIV,eXXV. 2 Constituição, art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra: I - a existência da União; II - o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação; III - o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais; IV - a segurança interna do País; V - a probidade na administração; VI - a lei orçamentária; VII - o cumprimento das leis e das decisões judiciais. Parágrafo único. Esses crimes serão definidos em lei especial, que estabelecerá as normas de processo e julgamento. A definição e o procedimento estão disciplinados na Lei n. 1079/50. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 10 3. Extinção (renúncia, morte, suspensão dos direitos políticos); 4. Ausência do país, sem licença do Congresso, por mais de 15 dias. Estatuto: imunidades e prerrogativas.3 Imunidade formal: só poderá ser processado por crime comum ou de responsabilidade após o juízo de admissibilidade da Câmara dos Deputados. E enquanto não sobrevier sentença condenatória, nas infrações comuns, não se sujeita à prisão. Prerrogativa de foro: só poderá ser processado e julgado pelo STF no caso de crimes comuns, e pelo Senado nos crimes de responsabilidade. Por fim, cabe referir a previsão constante do § 4º do art. 86, o qual estabelece a irresponsabilidade pelas infrações que não se relacionam com o exercício de suas funções. Poder Normativo Autônomo: a EC n. 32/2001 positivou a figura dos decretos autônomos, estabelecendo que compete ao Presidente da República dispor, mediante decreto, sobre: a) a organização e funcionamento da administração federal, quando não implicar aumento de despesa nem criação ou extinção de órgãos públicos; b) extinção de funções ou cargos públicos, quando vagos (art. 84, inciso VI, da Constituição). A doutrina (veja-se Celso Antônio Bandeira de Mello) criticou duramente essa inovação, mas o STF a respaldou4. Poder Regulamentar: previsto no art. 84, IV, da Constituição. O regulamento de execução explicita a lei sem inovar a ordem jurídica, sem criar direitos e obrigações, em face do princípio constitucional da legalidade. Segundo a doutrina, fixa as regras destinadas a colocar em execução os princípios institucionais delimitados e estabelecidos na lei. Poder delegado: a delegação legislativa ao Presidente da República tem seus limites e contornos previstos no art. 68 da Constituição. Segundo Manoel Gonçalves Ferreira Filho, a delegação pode ser retirada pelo Congresso Nacional a qualquer momento. PALAVRAS-CHAVE: presidencialismo, parlamentarismo, presidente. 3. Constituição, art. 86. Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de responsabilidade. § 1º - O Presidente ficará suspenso de suas funções: I - nas infrações penais comuns, se recebida a denúncia ou queixa-crime pelo Supremo Tribunal Federal; II - nos crimes de responsabilidade, após a instauração do processo pelo Senado Federal. § 2º - Se, decorrido o prazo de cento e oitenta dias, o julgamento não estiver concluído, cessará o afastamento do Presidente, sem prejuízo do regular prosseguimento do processo. § 3º - Enquanto não sobrevier sentença condenatória, nas infrações comuns, o Presidente da República não estará sujeito a prisão. § 4º - O Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções. 4 "Ação direta de inconstitucionalidade. Decreto 4.010, de 12-11-2001. Pagamento de servidores públicos da administração federal. Liberação de recursos. Exigência de prévia autorização do Presidente da República. Os arts. 76 e 84, I, II e VI, a, todos da CF, atribuem ao Presidente da República a posição de chefe supremo da administração pública federal, ao qual estão subordinados os Ministros de Estado. Ausência de ofensa ao princípio da reserva legal, diante da nova redação atribuída ao inciso VI do art. 84 pela EC 32/2001, que permite expressamente ao Presidente da República dispor, por decreto, sobre a organização e o funcionamento da administração federal, quando isso não implicar aumento de despesa ou criação de órgãos públicos, exceções que não se aplicam ao decreto atacado." (ADI 2.564, Rel. Min. Ellen Gracie, julgamento em 8-10-2003, Plenário, DJ de 6-2-2004.) DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 11 2.c. Distrito Federal. Territórios Federais. Origens e evolução dos direitos fundamentais. Distrito Federal: O Distrito Federal foi criado em razão da necessidade de existência de um território neutro, não pertencente a nenhum dos Estados, para a instalação do governo federal. Criado após a Constituição de 1891, sucedeu o denominado “município neutro”, existente na época que o Estado brasileiro era unitário (NOVELINO/ 2010, p. 557). Como ente federativo, possui autonomia organizatória, política, administrativa e de Governo (artigos 1º e 18 da CF), ficando a sede do Governo Federal em Brasília, Capital Federal (art. 18, §1º, da CF). Também é sede do Governo do DF (Lei Orgânica, 6º) Natureza jurídica: trata-se de ente federativo, discutindo-se se possui natureza jurídica de Estado, Município ou entidade sui generis (híbrida). Prevalece tratar-se de entidade híbrida, não sendo Estado, nem Município, devendo ser concebido como “unidade federada com autonomia parcialmente tutelada”, segundo José Afonso da Silva. Ver STF, ADI 3.756. Isso porque possui as mesmas competências dos Estados e Municípios (art. 32, §1º, CF), mas a competência para legislar sobre a organização, Poder Judiciário, Ministério Público e a Defensoria Pública, polícias civil e militar e corpo de bombeiros é da União (arts. 22, XVII, e 48, IX, CF). Esse aspecto limita o poder de auto-organização, autolegislação, autogoverno e autoadministração, quando envolvidas essas instituições. Não dispõe de autonomia para a utilização das polícias civil e militar, sujeitando-se aos limites e à forma estatuídos em lei federal. A Procuradoria-Geral do DF obedece a auto-organização (MENDES/ 2008). Ver Súmula 647 STF. Auto-organização: através de Lei Orgânica, verdadeira Constituição Distrital, com quorum de 2/3 para aprovação e votação em dois turnos, com interstício mínimo de 10 dias entre eles. É vedada a divisão em Municípios (art. 32), bem como devem ser observados os princípios da CF (Poder Constituinte Decorrente). Autolegislação: mesmas competências Estados e Muncípios (art. 32, §1º, CF), exceto competências atribuídas à União. Autogoverno: Governador DF e Deputados Distritais eleitos diretamente, sem ingerência da União (CF, 32, §§ 2º e 3º). Elege representantes para a Câmara dos Deputados (art. 45, CF) e Senado (art. 46). Competência Tributária: instituir e arrecadar impostos estaduais e municipais (artigos 145, 155 e 147, todos da CF). Territórios Federais: “O território é definido por Michel TEMER como uma pessoa de direito público, de capacidade administrativa e de nível constitucional, ligada à União, tendo nesta a fonte de seu regime jurídico infraconstitucional” (NOVELINO/2010, p. 560). Não integram a federação, integram a administração descentralizada da União, sem autonomia organizatória e política (legislativa e de governo), mas possuem personalidade jurídica (autarquia), conforme art. 18, §2º, CF. Não existem atualmente no Brasil. Até 1988 existiram Roraima, Amapá e Fernando de Noronha. O primeiro a ser criado foi o do Acre, em 1904, mas não existia previsão na CF de 1891, passando a ser previsto na CF de 1934 e seguintes. Fernando de Noronha foi incorporado aoterritório de Pernambuco e transformado em Distrito Estadual. É possível a criação de territórios através de Lei Complementar (art. 18, §3, CF), devendo ser realizado plebiscito. Podem ser divididos em municípios (art. 33, §1º, CF). Direção por Governador nomeado pelo Presidente da república (art. 84, XIV), após aprovação Senado Federal (art. 84, XIV, CF). Elege número fixo de 04 Deputados Federais, exceção ao princípio proporcional. Se tiver mais de 100.000 habitantes, terá órgãos judiciários de 1ª e 2ª instância, membros do MP e defensores públicos federais (art. 33, §2º, e 21, XIII, CF). Delegação da competência da JF para os juízes locais nessa hipótese (art. 100, parágrafo único). A lei disporá sobre eleições para a Câmara Territorial e sua competência deliberativa (art. 33, §3º, CF) e o sistema de ensino será organizado pela União (art. 211, §1º, CF) (LENZA/2009, p. 319/321). Origens e evolução dos direitos fundamentais: Apesar de inicial inspiração jusnaturalista, costuma-se afirmar serem os direitos fundamentais frutos de longo processo histórico, marcado por avanços e retrocessos, passaram a compor o ordenamento jurídico-positivo, daí por que se pode afirmar a historicidade desses direitos, que têm hoje reconhecido o caráter universal, inalienável, imprescritível e irrenunciável. Dirley da Cunha Júnior salienta que “Costuma-se indicar a doutrina antiga do cristianismo como antecedente básico dos direitos humanos. Isto se deve ao fato ao fato de que homens, por serem criados à imagem e semelhança de Deus, possuem alto valor interno e liberdade própria inerente à sua natureza, encerrando uma ideia de que eles têm direitos que devem ser respeitados por todos e pela sociedade política (…). Daí haverem acentuado as teorias contratualistas, sobretudo nos séculos XVII e XVIII, que os soberanos deveriam exercer a sua autoridade com submissão ao direito natural do homem, derivando dessa concepção a primazia do indivíduo sobre o Estado”. Contribuíram para o surgimento e afirmação dos direitos fundamentais: século XII, Magna Charta Libertatum; Declarações inglesas do século XVII, Petition of Rights, de 1628, firmada por Calos I; o Habeas Corpus Act, de 1679, assindo por Calos II, e o Bill of rights, de 1969, promulgado pelo Parlamento, sendo a mais importante das declarações inglesas. “Mas foi no século XVIII, com a vitória da revolução liberal na França e a independência das colônias DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 12 inglesas na América do Norte, que nasceram definitivamente os direitos fundamentais, a partir da Declaração do Bom Povo da Virgínia de 1776, seguida pela Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Após essas Declarações, quase todas as Constituições no mundo passaram a dispor de uma Declaração de direitos, a começar pela Constituição norte-americana de 17 de setembro de 1787, em face das suas primeiras dez emendas, promulgadas em 1791”(CUNHA JUNIOR/2011, p. 572/574). Como os direitos fundamentais não surgiram simultaneamente, costuma-se referir a classificação dos direitos fundamentais em quatro gerações ou dimensões (para evitar a ideia de sucessão de direitos). Primeira geração/dimensão: consagra direitos fundamentais referentes ao valor liberdade (direitos civis e políticos), decorrentes das revoluções liberais (francesa e norte-americana) ocorridas no final do século XVIII, impondo ao Estado, preponderantemente, dever de abstenção (caráter negativo). Segunda geração/dimensão: ligados à igualdade material, surgiram a partir da Revolução Industrial (século XX), a partir da luta do proletariado pela conquista de direitos sociais, econômicos e culturais. Dizem respeito à assistência social, saúde, educação, trabalho, lazer, liberdade sindical e direito de greve etc. Necessita de prestações materiais e jurídicas (incluindo garantias institucionais) por parte do Estado, concretizando-se na medida dos recursos financeiros disponíveis (“reserva do possível”), tendo por isso menor concretude que os direitos de primeira geração. São chamados direitos sociais, por reivindicarem justiça social, isto é, igualdade de fato. Terceira geração/dimensão: são ligados ao valor fraternidade (ou solidariedade), visando a atenuar as diferenças entre nações desenvolvidas e subdesenvolvidas, por meio da colaboração de países ricos com os pobres. Paulo BONAVIDES destaca os relacionados ao desenvolvimento (ou progresso), ao meio ambiente, à autodeterminação dos povos, bem como o direito de propriedade sobre o patrimônio comum da humanidade. São direitos transindividuais (titularidade difusa ou coletiva) destinados à proteção do gênero humano. Gilmar Mendes enquadra o direito à paz nessa categoria, ao passo que Paulo Bonavides reviu sua classificação para incluí-lo entre os direitos de quinta geração, sob o argumento de que faz parte da democracia participativa. Quarta geração/dimensão: associam-se à pluralidade. Ex: democracia, informação e o pluralismo, introduzidos no âmbito jurídico em razão da globalização política. (NOVELINO/2010, p. 356). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 13 3.a. Divisão de poderes. Conceito e objetivos. História. Divisão orgânica de poderes. Divisão funcional de poderes. Independência e harmonia entre poderes. Balanceamento entre poderes. O poder político – ou a soberania – do Estado é uno e indivisível. A expressão “divisão (ou separação) de poderes” não indica cisão no poder; denota a dupla ideia organizatória de divisão (a) de órgãos e (b) de funções do poder (singular) estatal. Divisão orgânica do poder - estrutura estatal em centros de decisão e ação titularizados por agentes públicos cuja conduta é imputada ao Estado; a divisão funcional do poder - atividades a serem desempenhadas pelo Estado. A divisão funcional de poderes remonta a Aristóteles, em “Política”, que identificou três funções básicas exercidas pelo poder político: assembleia-geral, corpo de magistrados e corpo judiciário; hoje equivalentes às funções legislativa, administrativa e jurisdicional. Respectivamente, (a) inovar a ordem jurídica por meio de normas gerais, impessoais e abstratas; (b) atuar concreta e individualizadamente, excetuada a função jurisdicional, por meio das funções de governo e de administração; e (c) resolver conflitos intersubjetivos imparcial e desinteressadamente, com potencial de definitividade. A distinção de funções, que remonta à Antiguidade, prosseguiu durante a Idade Média e a modernidade. Aqui já com Grotius e Puffendorf, Bodin e Locke, antes de Montesquieu. No absolutismo, à especialização funcional não correspondia a independência de órgãos especializados. A par da experiência parlamentarista inglesa, que não correspondia exatamente à uma separação de poderes, foi a obra de Montesquieu, de 1746, que sistematizou a separação orgânica do poder como técnica de salvaguarda da liberdade “dos modernos” (concepção burguesa-liberal). Todo homem que detém o poder tende a dele abusar, e o abuso vai até onde se lhe deparam limites; e apenas o poder contém o poder. Então, a separação orgânica do poder consiste em se atribuir cada uma das funções estatais básicas a um órgão (corpo funcional) distinto, separado e independente dos demais. Combina-se a especialização funcional com a independência orgânica. No liberalismo, a separação de funções entre os órgãos independentes deveria ser bastante rígida, mas mesmo Montesquieu já previa que o constante movimento dos órgãos os compele a atuar em concerto, harmônicos, e as faculdades de estatuir (p.ex., aprovar um projeto de lei) e de impedir (veto presidencial) são prenúncios dos mecanismos de freios e contrapesos desenvolvidos posteriormente. A rígida separação de poderes do liberalismo foi inicialmente inserida nas constituições das ex-colônias inglesas na América, que seguiam a Declaração de Direitosde Virginia, de 1776. Após, constituição dos EUA, art. 16 da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão e constituições francesas seguintes, espalhando-se pelo “ocidente”. Benjamin Constant teorizou um quarto poder neutro, que faça com os demais o que o poder judiciário faz com os indivíduos, que seria exercido pelo rei. A 1ª constituição do Brasil criou o “poder moderador” do Imperador; porém, distorceu a teoria ao atribui-lo também o executivo (para Constant, o poder neutro não poderia jamais coincidir com um dos demais), assim foi até surgir o parlamentarismo em 1846. Com o declínio do liberalismo e a ascensão do Estado Social, a rígida separação dos poderes tornou-se “um desses pontos mortos do pensamento político, incompatível com as formas mais adiantadas do processo democrático contemporâneo” (Bonavides, 2000) (a democracia efetivamente só surgiu no século XX com o sufrágio universal). No estado atual, há uma divisão de funções do poder, de forma não exclusiva (não-incomunicável), entre órgãos relativamente independentes entre si, que devem atuar em cooperação, harmonia e equilíbrio. Independência: não-subordinação de um órgão aos demais e autonomia para exercer por si próprio suas funções. Cada órgão tem funções típicas (que lhe caracterizam; eventualmente podem constituir controle sobre os demais, p.ex., judicial review) e atípicas (para que sejam independentes, p.ex., autoadministração; e para controlar os demais órgãos). A separação vai ao nível pessoal, de maneira a impedir quaisquer “uniões pessoais” dos órgãos, razão porque há regras de incompatibilidade que impedem que uma pessoa possa titularizar órgãos reciprocamente independentes. Harmonia: respeito aos demais e às suas funções, e aos mecanismos de balanceamento (freios e contrapesos). Estes são instrumentos de interdependência e de controle recíproco entre os órgãos, pelos quais (a) cada um interfere diretamente em aspectos do outro órgão; ou (b) cada um exerce funções que seriam típicas dos demais, mas que lhe são conferidas como atípicas. Justeza funcional: atribui-se a cada órgão as funções que ele pode desempenhar de maneira mais adequada. Núcleo essencial: a interpenetração das funções entre os órgãos é limitada pelo núcleo duro essencial; porém, quem estabelece esse desenho é a própria constituição, que em seu texto originário é que define o que é o núcleo. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 14 3.b. Poder Judiciário: organização e competência. Normas constitucionais respeitantes à magistratura. Lei de Organização da Magistratura Nacional - LOMAN. Tem por função típica o exercício da jurisdição, bem como funções atípicas de natureza legislativa (art. 96, I, CF) e administrativa (art. 96, I, b, c e d, CF). O Poder Judiciário é uno e indivisível, tendo caráter nacional. Seus órgãos estão elencados no artigo 92 da CF: STF, CNJ, STJ, Tribunais e Juízes Federais, Tribunais e Juízes do Trabalho, Tribunais e Juízes Eleitorais, Tribunais e Juízes Militares. São órgãos de superposição o STF, STJ e Tribunais Superiores da União. CNJ: Apesar do CNJ integrar a estrutura do Poder Judiciário Nacional, não dispõe de função jurisdicional. Foi criado pela EC n. 45/04 (Reforma do Judiciário), que o incluiu no art. 92 e especificou competências no art. 103-B. Cuida-se de órgão administrativo de controle da atuação administrativa, financeira e disciplinar do Poder Judiciário, exceto STF, e de correição acerca do cumprimento dos deveres funcionais dos juízes. Não pode interferir na independência funcional dos membros e órgãos do Poder Judiciário, nem na autonomia administrativa e financeira. Podem ser ser conferidas outras atribuições pelo Estatuto da Magistratura (art. 103-B, §4º, CF). Não possui competência sobre o STF, que, na condição de órgão máximo do Judiciário, tem preeminência sobre o CNJ, cujos atos e decisões estão sujeitos a seu controle jurisdicional (art. 102, I, r, e art. 103-B, §4º, CF). É composto por 15 membros, sendo 09 magistrados, 02 membros do MP, 02 advogados e 02 cidadãos (art. 103-B, CF). O STF decidiu que a instituição do CNJ é constitucional, não ferindo o princípio da separação dos poderes (cláusula pétrea), pois se trata de órgão de natureza exclusivamente administrativa. Na mesma oportunidade, decidiu que Estados-membros não possuem competência constitucional para instituir, como órgão interno ou externo, conselho destinado ao controle da atividade administrativa, financeira ou disciplinar da respectiva Justiça (ver ADI 3.367). STF: Órgão de cúpula do Poder Judiciário, cuja principal função é garantir a supremacia da Constituição, com competência adstrita a matérias constitucionais. A CF/88 e a EC 45/04 operaram inovações na jurisdição constitucional. É o intérprete maior da Constituição, mas “(...) não é um Tribunal Constitucional, seja porque a Constituição não lhe reservou essa natureza, seja porque integra o Poder Judiciário, sendo em muitos casos órgão recursal” (CUNHA JUNIOR/2011, p. 1092). Possui competência originária (art. 102, I, CF), recursal ordinária (art. 102, II, CF) e recursal extraordinária (art. 102, III, CF). Esse rol de competências é exaustivo, não podendo ser ampliado por norma infraconstitucional. A EC 45/04 passou a exigir demonstração de repercussão geral das questões constitucionais discutidas como requisito intrínseco de admissibilidade recursal do RE, julgando apenas questões relevantes do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico, que transcendam os interesses subjetivos da causa. A mesma EC introduziu a possibilidade de edição de enunciado de súmula com efeito vinculante (art. 103-A, CF), regulamentado pela Lei n. 11.417/06). O STF tem competência, ainda, para apreciar a Reclamação Constitucional, que teve origem na jurisprudência a partir da teoria dos poderes implícitos (implied powers), tendo sido incorporada ao Regimento Interno do tribunal em 1957 (ver art. 102, I, CF). Obs.: STF: organização e competência são tratados no ponto 5.b. STJ: compete-lhe uniformizar a interpretação da lei federal e garantir sua observância e aplicação. Foi criado pela atual CF para compreender a competência do ex-TFR e parte da competência do STF. Possui competência originária (art. 105, I), recursal (105, II) e especial (105, III). Anote-se a competência para julgar o incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal, nos termos do artigo 109, §5º, CF. Obs.: STJ: organização e competência são tratados no ponto 8.b. Tribunais e Juízes Federais: artigos 108 e 109 da CF. Ver Súmula 428 do STJ: compete ao tribunal regional federal decidir os conflitos de competência entre juizado especial federal e juízo federal da mesma seção judiciária. Obs. Justiça Comum Federal: organização e competência são tratados no ponto 7.c. Justiça do Trabalho: Trata-se de Justiça especializada em razão da matéria, portanto com competência taxativamente prevista na Constituição. Prevista pela Carta de 1934 e efetivamente instalada em 01/05/1941, como órgão do Poder Executivo ligado ao Ministério do Trabalho. Passou a ter os contornos hoje consagrados a partir da Constituição Federal de 1946, que a colocou como órgão do Poder Judiciário. A CF/88 estruturou a Justiça do trabalho com os seguintes órgãos: 1) TST; 2) TRT's; 3) Juntas de Conciliação e Julgamento. Com o advento da EC 24/99, as Juntas de Conciliação e Julgamento foram substituídas por Juízes do Trabalho, os quais exercem sua jurisdição nas Varas do Trabalho (CF, art. 116). As Varas do Trabalho são criadas por lei, podendo ser atribuída jurisdição aos Juízes de Direito nas comarcas não abrangidas por elas, mas o recurso será para o TRT respectivo. Tribunal Superior do Trabalho A composição da Justiça do Trabalho foi alterada pela EC 24 de 9/12/99, que eliminou a representação classista e substituiu as Juntas de Conciliação e Julgamento por Varas do Trabalho. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICAGI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 15 Os juízes dos TRT's não são mais indicados em lista tríplice, contentando-se o inciso II do novo art. 111-A da CF que eles sejam indicados pelo próprio TST, sem exigir formação de lista tríplice.; Tribunais Regionais do Trabalho Juizes do Trabalho A lei instituirá as Varas do Trabalho, podendo, nas comarcas onde não forem instituídas, atribuir sua jurisdição aos juizes de direito. Nas Varas do Trabalho, a jurisdição será exercida por um juiz singular. Observação: O art 2º da Emenda Constitucional nº 24, de 9.12.99 assegura o cumprimento dos mandatos dos atuais ministros classistas temporários do Tribunal Superior do Trabalho e dos atuais juízes classistas temporários dos Tribunais Regionais do Trabalho e das Juntas de Conciliação e Julgamento. Competência da Justiça do Trabalho: Compete à Justiça do Trabalho o processo e julgamento de ações decorrentes de relação de trabalho entendida esta como toda aquela submetida ao regime jurídico celetista. Na ADI n. 3.395, o STF deu interpretação conforme ao artigo 114, I, da CF, com a redação dada pela EC 45/04, para suspender toda e qualquer interpretação dada ao inciso, que inclua na competência da Justiça do Trabalho a apreciação de causas que sejam instauradas entre o Estado e seus servidores, a ele vinculados por típica relação de ordem estatutária ou de caráter jurídico-administrativo. Da mesma foram, excluem-se contratos de prestação de serviço regidos pelo CDC ou CC. Importante observar o disposto no §3º do artigo 1114, no sentido de que em caso de greve em atividade essencial, com possibilidade de lesão do interesse público, o Ministério Público do Trabalho poderá ajuizar dissídio coletivo, competindo à Justiça do Trabalho decidir o conflito. A EC 45/04 incluiu na competência da Justiça do Trabalho julgar as ações que versem sobre representação sindical, entre sindicatos, entre sindicatos e trabalhadores, e entre sindicatos e empregadores, não mais se aplicando a Orientação Jurisprudencial n. 04, da Seção Especializada em Dissídios Coletivos do TST, que tinha a seguinte redação: “A disputa intersindical pela representatividade de certa categoria refoge ao âmbito da competência material da Justiça do Trabalho”. A partir da emenda, a competência abrange ações entre sindicato de categoria econômica e a empresa por ele representada, desde que decorrentes de relação de trabalho (regime celetista). Acresceu a competência do trabalho para julgar mandados de segurança quando envolver relação de trabalho, independente de quem seja a autoridade coatora. Antes o STJ entendia que a competência para o julgamento de mandado de segurança se verificava em razão da autoridade coatora, e não da matéria veiculada, o que restou alterado pela EC 45/04. A citada emenda também acrescentou a competência da Justiça do Trabalho para julgar habeas corpus e habeas data, quando o ato questionado envolver matéria sujeita à sua jurisdição. No caso do habeas corpus, a hipótese mais comum é a de ordem de prisão do depositário infiel, já que falta à Justiça do Trabalho competência criminal. Antes da EC o STF e STF entendiam que o habeas corpus, por ter natureza criminal, ainda que impetrado em face de decisão proferida por juiz do trabalho em execução de sentença, em ação de natureza civil. Merece destaque a Súmula Vinculante n. 22: “A Justiça do Trabalho é competente para processar e julgar as ações de indenização por danos morais e patrimoniais decorrentes de acidente de trabalho propostas por empregado contra empregador, inclusive aquelas que ainda não possuíam sentença de mérito em primeiro grau quando da promulgação da EC N. 45/04”. A Justiça do Trabalho também passou a ser competente para julgar as ações relativas às penalidades administrativas impostas aos empregadores pelos órgãos de fiscalização das relações de trabalho. Antes da EC 45 essa competência era atribuída aos Juízes Federais, que julgavam as ações propostas em face de autuações lavradas pelos fiscais do trabalho, por violação da legislação trabalhista pelo empregador. Importante ressaltar, também, a competência da Justiça do Trabalho para a execução, de ofício, das contribuições sociais previstas no art. 195, I, “a”, e II, e seus acréscimos legais, decorrentes das sentenças que proferir. Essa competência foi conferida pela EC 20/98 – antes exercida pela Justiça Federal -, passando os juízes do trabalho a executar as contribuições sociais devidas pelo empregador e incidentes sobre a folha de salário de seus empregados e as contribuições sociais devidas pelo empregado, quando decorrentes das sentenças que proferirem. Não será competente no caso de acordo extrajudicial não homologado em juízo. Se houver homologação, sim (STJ, CC n. 41233/RJ, Rel. Min. Luiz Fux, DJ 29.11.2004). Justiça Eleitoral: São órgãos da Justiça Eleitoral: o Tribunal Superior Eleitoral; os Tribunais Regionais Eleitorais; os Juizes Eleitorais e as Juntas Eleitorais. Lei complementar disporá sobre a organização e competência dos tribunais, dos juizes de direito e das juntas eleitorais. Tribunal Superior Eleitoral O Tribunal Superior Eleitoral compor-se-á, no mínimo, de sete membros, escolhidos: DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 16 * mediante eleição, pelo voto secreto de seus próprios membros: a) três juízes dentre os Ministros do Supremo Tribunal Federal; b) dois juízes dentre os Ministros do Superior Tribunal de Justiça; * por nomeação do Presidente da Republica, dois juízes dentre seis advogados de notável saber jurídico e idoneidade moral, indicados pelo Supremo Tribunal Federal, sem participação da OAB. O Tribunal Superior Eleitoral elegera seu Presidente e o Vice-Presidente dentre os Ministros do Supremo Tribunal Federal, e o Corregedor Eleitoral dentre os Ministros do Superior Tribunal de Justiça. São irrecorríveis as decisões do Tribunal Superior Eleitoral, salvo as que contrariarem esta Constituição e as denegatórias de habeas-corpus ou mandado de segurança, que se sujeitam a recurso extraordinário e ordinário para o STF, respectivamente. Tribunais Regionais Eleitorais Haverá um Tribunal Regional Eleitoral na Capital de cada Estado e no Distrito Federal. Compor-se-ão mediante eleição, pelo voto secreto, de dois juizes dentre os desembargadores do Tribunal de Justiça e de dois juizes, dentre juizes de direito, escolhidos pelo Tribunal de Justiça; de um juiz do Tribunal Regional Federal com sede na Capital do Estado ou no Distrito Federal, ou, não havendo, de juiz federal, escolhido, em qualquer caso, pelo Tribunal Regional Federal respectivo. Alem disso, por nomeação, pelo Presidente da Republica, de dois juizes dentre seis advogados de notável saber jurídico e idoneidade moral, indicados pelo Tribunal de Justiça. O Tribunal Regional Eleitoral elegerá seu Presidente e o Vice-Presidente dentre os desembargadores. Os juizes dos tribunais eleitorais, salvo motivo justificado, servirão por dois anos, no minimo, e nunca por mais de dois biênios consecutivos, sendo os substitutos escolhidos na mesma ocasião e pelo mesmo processo, em numero igual para cada categoria. Das decisões dos Tribunais Regionais Eleitorais somente caberá recurso quando: a) forem proferidas contra disposição expressa desta Constituição ou de lei; b) ocorrer divergência na interpretação de lei entre dois ou mais tribunais eleitorais; c) versarem sobre inelegibilidade ou expedição de diplomas nas eleições federais ou estaduais; d) anularem diplomas ou decretarem a perda de mandatos eletivos federais ou estaduais ou e) denegarem habeas corpus, mandado de segurança, habeas-data ou mandado de injunção. Obs.: O MP não participa da composição dos tribunais eleitorais. Justiça Militar: A Justiça Militar se compõe do Superior Tribunal Militar, os Tribunais e Juizes Militares instituídos por lei, que disporá sobre a organização, o funcionamento e a competência. O Superior Tribunal Militar compor-se-á de quinzeMinistros vitalícios, nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a indicação pelo Senado Federal, sendo três dentre oficiais-generais da Marinha, quatro dentre oficiais-generais do Exercito, três dentre oficiais-generais da Aeronáutica, todos da ativa e do posto mais elevado da carreira, e cinco dentre civis. Os Ministros civis serão escolhidos pelo Presidente da Republica dentre brasileiros maiores de trinta e cinco anos, sendo três dentre advogados de notório saber jurídico e conduta ilibada, com mais de dez anos de efetiva atividade profissional e dois, por escolha paritária, dentre juizes auditores e membros do Ministério Publico da Justiça Militar. A Justiça Militar compete processar e julgar os crimes militares definidos em lei Justiça Estadual Artigos 125 a 126 da CF. A competência da Justiça Estadual é residual, compreendendo tudo o que não for de atribuição da Justiça Federal, do Trabalho ou Eleitoral. Juizados Especiais e de Paz: A União, no Distrito Federal e nos Territórios, e os Estados criarão juizados especiais, providos por juizes togados, ou togados e leigos, competentes para a conciliação, o julgamento e a execução de causas cíveis de menor complexidade e infrações penais de menor potencial ofensivo, mediante os procedimentos oral e sumaríssimo, permitidos, nas hipóteses previstas em lei, a transação e o julgamento de recursos por turmas de juizes de primeiro grau. Lei federal disporá sobre a criação de juizados especiais no âmbito da Justiça Federal. Também criarão justiça de paz, remunerada, composta de cidadãos eleitos pelo voto direto, universal e secreto, com mandato de quatro anos e competência para, na forma da lei, celebrar casamentos, verificar, de oficio ou em face de impugnação apresentada, o processo de habilitação e exercer atribuições conciliatórias, sem caráter jurisdicional, alem de outras previstas na legislação. (art. 98) Estatuto da Magistratura: Dirley da Cunha Júnior leciona que “O Estatuto da Magistratura consiste num conjunto de normas constitucionais e legais, destinadas à disciplina da carreira da magistratura, forma e requisitos de acesso, critérios de promoção, aposentadoria, subsídio, vantagens, direitos, deveres, responsabilidades, impedimentos e outros aspectos relacionados à atividade do magistrado” (CUNHA JÚNIOR/2011, p. 1073). Lei Complementar, de iniciativa do STF, disporá sobre o Estatuto da Magistratura (art. 93, CF). Lei Complementar 35/79 trata do Estatuto da Magistratura Nacional. Importante a leitura do Código de Ética DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 17 da Magistratura Nacional, aprovado pelo CNJ. Garantias do Poder Judiciário: O Poder Judiciário restou fortalecido pela CF/88, sendo-lhe asseguradas garantias institucionais e funcionais. São garantias institucionais a autonomia orgânico-administrativa (art. 96) e autonomia financeira (art. 99, §§ 1º a 5º). De outro lado, as garantias funcionais ou da magistratura visam a assegurar a independência e imparcialidade dos juízes (art. 95), quais sejam: vitaliciedade, estabilidade, inamovibilidade e irredutibilidade de subsídios. São igualmente garantias dos magistrados as três vedações constitucionais: Impossibilidade do exercício, ainda que em disponibilidade, de outro cargo ou função, salvo uma de magistério (inclusive de natureza privada, Resolução n. 10/2005, CNJ); veda receber, a qualquer título ou pretexto, custas ou participação em processo; proíbe o exercício de atividade político-partidária. Para exercer atividade político-partidária, deverá o magistrado filiar-se à partido político e afastar-se definitivamente de suas funções (exoneração ou aposentadoria) até seis meses antes das eleições, prazo de desincompatibilização previsto na LC 64/90. A EC 45/04 acrescentou duas novas vedações, consistente na impossibilidade de receber, a qualquer t´tulo ou pretexto, auxílios ou contribuições de pessoas físicas, entidades públicas ou privadas, ressalvadas as exceções previstas em lei; e exercer a advocacia no juízo ou tribunal do qual se afastou, antes de decorridos 3 anos do afastamento do cargo por aposentadoria ou exoneração. Para ingresso na carreira da magistratura é exigido o tempo mínimo de três anos de atividade jurídica do bacharel em Direito (art. 93, I, CF), após a conclusão do curso. A comprovação da prática jurídica é disciplinada pela Resolução n. 75/2009 do CNJ. Quinto constitucional: A CF reserva 1/5 dos lugares dos TRF's, TJ's, TST e TRT's aos membros do MP com mais de 10 anos de carreira e aos advogados, indicados em lista sêxtupla, com notório saber jurídico, reputação ilibada e mais de 10 anos de efetiva atividade profissional. São requisitos exaustivos, vedada a estipulação de outros por Constituições Estaduais (ver artigos 94, 111-A,I, e 115, I, todos da CF). Para o STF, seu número total não for divisível por cinco, arredonda-se a fração restante para o número inteiro seguinte. O STF também decidiu que o Tribunal pode recusar a indicação de um ou mais dos componentes da lista sêxtupla, no caso de faltar requisito para a investidura, com base em razões objetivas, declinadas na deliberação do Tribunal. O que não pode é o Tribunal substituir a lista encaminhada pela respectiva entidade. A solução é a devolução motivada da lista sêxtupla à corporação para que refaça total ou parcialmente. No STJ, 1/3 da composição deve caber, em partes iguais, aos advogados e membros do MP (art. 104, parágrafo único, CF). Órgão especial: pode ser criado nos Tribunais com mais de 25 julgadores para exercer atribuições administrativa e jurisdicionais delegadas da competência do pleno (art. 93, XI, CF). Não podem ser delegadas atribuições políticas, com eleições de dirigente, e legislativas, como elaboração de regimento interno (art. 96, I, “a”, CF). Essa composição poderá variar entre 11 e 25 membros, sendo metade das vagas providas por antiguidade e a outra por eleição do Tribunal pleno. Regime dos Precatórios: Precatório judicial é uma ordem de pagamento emanada do Poder Judiciário e dirigida às Fazendas Públicas Federal, Estaduais, Distrital e Municipais, em virtude de sentença condenatória transitada em julgado que impõe a estas entidades uma obrigação de pagar. O regime dos precatórios decorre da impenhorabilidade dos bens públicos, devendo a execução da obrigação de pagar imposta às fazendas públicas seguir o procedimento previsto no art. 100 da CF. A EC 62/2009 promoveu diversas alterações no artigo 100 e acrescentou o artigo 97 do ADCT (regime especial de parcelamento). Confiram-se informativos que tratam de ADI's propostas em face da referida emenda: INFORMATIVO Nº 631 INFORMATIVO Nº 643 DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 18 3.c. Estado-membro. Competência. Autonomia. Bens. Ministério Público como guardião do princípio federativo. I - ESTADO-MEMBRO I.I Natureza jurídica dos Estados-membros Os Estados-membros são organizações jurídicas das coletividades regionais para o exercício, em caráter autônomo, das competências que lhes são deferidas pela Constituição Federal, por isso se diz que são coletividades federais autônomas. Os Estados-membros não possuem soberania (que é um dos fundamentos da República), mas mera autonomia, como ocorre com a própria União. Entre Estados e União não há hierarquia, convivendo todos em um mesmo nível jurídico. I.II Formação dos Estados A divisão político-administrativa interna do país poderá ser alterada com a constituição de novos Estados-membros, pois a estrutura territorial interna não é perpétua. A Constituição prevê essa possibilidade no art. 18, §3º. Portanto, temos as seguintes hipóteses: Fusão (ou incorporação entre si): dois ou mais Estados se unem com outro nome, perdendo sua personalidade por integrarem um novo Estado. Cisão: um Estado divide-se em vários novos Estados-membros, todos com personalidades diferentes,desaparecendo por completo o Estado originário. Desmembramento: consiste em separar uma ou mais partes de um Estado-membro, sem que ocorra a perda da identidade do ente federativo primitivo. O Estado originário será desfalcado de parte de seu território e de parte de sua população, mas NÃO desaparece. Temos duas modalidades de desmembramento: Desmembramento anexação: a parte desmembrada anexa-se a um outro Estado-membro, quando então não haverá criação de um novo ente federativo, mas somente alteração de seus limites territoriais; Desmembramento formação: decorre da possibilidade da parte desmembrada constituir um novo Estado ou formar um Território Federal. Para a formação de Estados há requisitos no art. 18, § 3º, que devem ser conjugados com outro requisito do art.48, VI: (i) realização de plebiscito (condição prévia, essencial e prejudicial à 2ª fase); (ii) lei complementar; (iii) audiência das Assembléias Legislativas (cujo parecer não é vinculativo, ao contrário da consulta plebiscitária); (iv) aprovação pelo Congresso Nacional (quorum de maioria absoluta – lei complementar). A concordância dos interessados permite que o projeto de lei complementar seja discutido no Congresso Nacional, sem, contudo, vinculá-lo, pois esse deverá zelar pelo interesse geral da República e não somente pelos interesses das populações diretamente interessadas. II. COMPETÊNCIA A competência dos Estados-membros divide-se em: Não legislativa, administrativa ou material Comum, cumulativa ou paralela: trata-se de competência não legislativa comum aos quatro entes federativos. Residual, remanescente ou reservada: são as que não lhes sejam vedadas, que não sejam próprias dos outros entes federativos. Legislativa Expressa: capacidade de auto-organização, pela Constituição e leis que adotarem. Art. 25 caput. Residual, remanescente ou reservada: são as que não lhes sejam vedadas, que não sejam próprias dos outros entes federativos. Art.25 § 1°. Delegada pela União: Tal autorização dar-se-á através de lei complementar. Art. 22, parág. único. Concorrente: cabe à União legislar sobre normas gerais e aos Estados sobre normas específicas. Art. 24. Suplementar: No caso da legislação concorrente, se houver inércia legislativa da União, os Estados poderão suplementá-la, regulamentando as regras gerais sobre o assunto, sendo que na superveniência de lei federal, a aludida norma estadual geral suplementar terá sua eficácia SUSPENSA, no que for contrária. Desse modo, subdivide-se essa competência em SUPLEMENTAR COMPLEMENTAR, na hipótese de já existir lei federal sobre a matéria, cabendo aos Estados e DF na competência estadual apenas completá-las e em SUPLEMENTAR SUPLETIVA, na hipótese da inexistência da lei federal. Tributária expressa: art. 155. Pedro Lenza afirma ainda que os serviços de gás canalizado serão explorados diretamente pelos Estados, ou mediante concessão, na forma da lei, vedando-se a regulamentaçãoda referida matéria por MP, conforme expressamente previsto no art. 25 § 2° e em decorrência do art. 246. II.I Regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 19 Os Estados poderão, mediante lei complementar, instituir regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas por agrupamentos de Municípios limítrofes, para integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum. Regiões metropolitanas: A região metropolitana é um conjunto de municípios cujas sedes se unem com certa homogeneidade urbana em torno de um município-pólo. Microrregiões: São formadas de grupos de municípios com certa homogeneidade e problemas administrativos comuns, cujas sedes não estão unidas por continuidade urbana. Aglomerações urbanas: Segundo José Afonso da Silva, a expressão carece de conceituação, mas pode-se perceber que se trata de áreas urbanas, sem um pólo de atração urbana, quer tais áreas sejam das cidades sedes dos municípios. Segundo Alexandre de Moraes, são requisitos comuns às três hipóteses: (i) lei complementar estadual; (ii) tratar-se de um conjunto de municípios limítrofes; (iii) finalidade: organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum. III. AUTONOMIA A autonomia dos Estados federados se consubstancia na sua capacidade de auto-organização, autogoverno, autolegislação e auto-administração. III.I Auto-organização Derivada do Poder Constituinte Decorrente, com lastro no qual são promulgadas as Constituições Estaduais. Está consagrada no caput do art. 25, segundo o qual “os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e leis que adotarem, observados os princípios desta Constituição”. Os referidos princípios são: Princípios constitucionais sensíveis – assim denominados, pois sua inobservância pelos Estados no exercício de suas competências legislativas, administrativas ou tributárias, pode acarretar a sanção politicamente mais grave existente em um Estado Federal, a intervenção na autonomia política. Estão previstos no art. 34, VII da CF. Princípios federais extensíveis – são normas centrais comuns à União, Estados, Distrito Federal e Municípios, portanto de observância obrigatória no poder de organização do Estado. A Constituição vigente, em prestígio do federalismo, praticamente eliminou estes princípios, restando apenas a regra segundo a qual os vencimentos dos magistrados não podem exceder aos dos Ministros do STF. Princípios constitucionais estabelecidos – consistem em determinadas normas que se encontram espalhadas pelo texto da Constituição, e, além de organizarem a própria federação, estabelecem preceitos centrais de observância obrigatória aos Estados-membros em sua auto-organização. Subdividem-se em normas de competência (ex.: arts. 23; 24; 25 etc.) e normas de preordenação (ex.: arts. 27; 28; 37, I a XXI etc.). Segundo Raul Machado Horta, são os que limitam a autonomia organizatória dos Estados. Exemplo: preceitos constantes dos arts. 37 a 41, referentes à administração pública. III.II Autogoverno: Os Estados possuem Poder Legislativo, que se expressa por Assembléias Legislativas; Poder Executivo, exercido pelo Governador; e Poder Judiciário, que repousa no Tribunal de Justiça e outros tribunais e juízes, com fundamento explícito nos arts. 27, 28 e 125 da Constituição. III.II IAuto-administração e autolegislação. Regras de competência legislativas e não-legislativas. Arts. 18 e 25-28. IV. BENS DOS ESTADOS Artigo 26 da CF/88. V. MINISTÉRIO PÚBLICO COMO GUARDIÃO DO PRINCÍPIO FEDERATIVO Segundo o art. 129 da Constituição, é função institucional do Ministério Público, dentre outras, promover a ação de inconstitucionalidade ou representação para fins de intervenção da União nos Estados. Como regra, a Constituição estabelece a autonomia na organização político-administrativa dos entes federados. No entanto, de forma excepcional, poderá haver intervenção federal ou estadual caso se configure situação de anormalidade, suprimindo-se, temporariamente, a autonomia do ente. A intervenção federal pode visar, por exemplo, repelir invasão de uma unidade da Federação em outra, pôr termo a grave comprometimento da ordem pública ou garantir o livre exercício de qualquer dos Poderes, com a finalidade maior de defender o princípio federativo.No caso de violação de princípios constitucionais sensíveis (art. 34, VII), a intervenção federal dependerá de provimento, pelo STF, de representação do Procurador-Geral da República. Para o Ministro Celso de Mello, “o mecanismo de intervenção constitui instrumento essencial à viabilização do próprio sistema federativo, e, não obstante o caráter excepcional de sua utilização – necessariamente limitada às hipóteses taxativamente definidas na Carta Política -, mostra-se impregnado de múltiplas funções de ordem político-jurídica, destinadas (a) a tornar efetiva a intangibilidade do vínculo federativo; (b) a fazer respeitar a integridadeterritorial das unidades federadas; (c) a promover a unidade do Estado Federal e (d) a preservar a incolumidade dos princípios fundamentais proclamados pela Constituição da República”. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 20 4.a. Direitos sociais: enunciação, garantias e efetividade. Princípio do não-retrocesso. Constitucionalismo dirigente. Historicamente os direitos sociais se inserem entre aqueles de segunda dimensão (direitos de igualdade), cujo marco histórico é a constituição mexicana de 1917 e a de Weimar de 1919. A construção mostra-se bastante artificial e merece críticas. (o melhor argumento nesse sentido foi o surgimento de tratados e instituições internacionais de proteção dos direitos sociais dos trabalhadores – OIT – antes de qualquer preocupação internacional com a enunciação de direitos básicos de liberdade). Em nosso histórico constitucional apenas a Constituição de 1891 não declarou nenhum direito social. A Constituição de 1834 inaugurou entre nós o constitucionalismo social, associando-o ao autoritarismo e ao populismo da Era Vargas. A CF foi pródiga na declaração de direitos sociais5, elencando-os formalmente dentre as 5 espécies de direitos e garantias fundamentais do Título II da CF (Capítulo I – Direitos e deveres individuais e coletivos; Capítulo II – Direitos sociais; Capítulo III – Direitos de nacionalidade; Capítulo IV – Direitos políticos e Capítulo V – Partidos políticos). Também tratou heterotopicamente de alguns direitos sociais específicos no Titulo VIII, que cuida da ordem social, destacando-se o trato da seguridade e da educação. Há 3 posições sobre a fundamentalidade dos direito sociais:6 a) todos os direitos sociais são formal e materialmente fundamentais: por isso a sua mera enunciação na CF seria suficiente lhes atribuir um regime diferenciado de aplicabilidade imediata (art. 5º, § 1º) e de limite material para a reforma da constituição (art. 60, § 4º, IV); b) todos os direitos sociais são apenas formalmente fundamentais, e, por isso, são normas programáticas que não geram direitos subjetivos e não limitam o constituinte derivado; c) direitos sociais são apenas formalmente fundamentais, sendo materialmente fundamentais apenas no que tange ao seu núcleo essencial (mínimo existencial): posição amplamente aceita pela maior parte da doutrina e jurisprudência.7 GARANTIAS: Conforme clássica classificação de Barroso (BARROSO, 2006, p. 119), há 3 espécies de garantias para a efetivação dos direitos sociais: a) sociais: relacionam-se com a participação do indivíduo no controle do processo político e no exercício do direito de petição (art. 5º, XXIV); b) políticas: destaca-se principalmente o controle externo da administração pelo Congresso, com auxílio do Tribunal de Contas (art. 70 CF); e c) jurídicas: são aqueles buscados principalmente pela via jurisdicional, destacando-se o mandado de segurança (art. 5o, LXIX e LXX); a ação popular (Art. 5o, LXXIII); o dissídio coletivo (art. 114, § 2º); o mandado de injunção (art. 5o, LXXI); o habeas data (art. 5o, LXXII); a ação civil pública (art. 129, inc. III) as ações diretas de constitucionalidade ou de inconstitucionalidade (art. 102, I, a), a ADPF (art. 102, § 1º), a ação de declaratória de inconstitucionalidade de por omissão (art. 103, § 2º). EFETIVIDADE NORMATIVA: É a perfeita correspondência entre a prescrição normativa e a realidade fática. Não se confunde com os planos da existência, validade e eficácia jurídica (aptidão genérica para produzir efeitos). Equivale à eficácia social da norma, dimensão disprezada como não jurídica pela tradição positivista que prevaleceu entre nós. CONSTITUCIONALISMO DIRIGENTE: No plano internacional o constitucionalismo dirigente é atribuido, apenas dentre nós brasileiro e de forma equivocada, a Canotilho e seus escritos no contexto da Constituição portuguesa socialista de 1976. Trata-se de uma proposta de constituição que pretende estabelecer um projeto social compreensivo para o futuro, vinculando a totalidade das decisões, no âmbito social, político e econômico, das gerações futuras, motivo pelo qual impõe deveres positivos/prestacionais para o Estado. A constituição dirigente contrapõe-se a constituição garantia, modelo clássico do sec. XVIII, cuja função é proteger o status negativus e os direitos de liberdade dos indivíduos contra o arbítrio estatal. No Brasil o movimento ganhou força na discussão sobre a efetividade das normas consitucionais, primeiramente na formulação de José Afonso da Silva e depois com Barroso e seus seguidores. Conquanto ainda muito difundido na jurisprudência não especializada, o movimento tende a perder força, não apenas em função da revisão que Canotilho fez de suas teses, mas também em decorrência dos influxos neoconsitucionalista. PRINCÍPIO DO NÃO RETROCESSO:8 A discussão sobre a vedação de retrocesso está diratamente relacionada com os direitos sociais, mas não apenas com eles.9 Em essência traz mais uma limitação à liberdade de conformação do legislador, de modo que o núcleo essencial dos direitos sociais, efetivados por medidas legislativas, não mais poderia ser violado, sem o oferecimento de medidas compensatórias. No STF o princípio não ganha força, tendo sido refutado na ADI 2.065/DF, na qual se questionava a constitucionalidade de MP que, dentre outras coisas, revogava dispositivos da lei de custeio de seguridade social (Lei 8.213/91), extinguindo o Conselho Estadual e Municipal da previdência social. 5 O art. 6º traz 11 direitos: educação, a saúde, alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados. Os artigos 7º e seguintes tratam dos direitos dos trabalhadores. 6 Direito formalmente constitucional: é aquele assim declarado pela constituição. Direito materialmente constitucional: é aquele que se relaciona com as decisões políticas fundamentais da comunidade política, não precisando necessariamente estar declarado. A diferenciação remonta a Carl Schmitt, para quem somente os direitos materialmente constitucionais seriam constituição e teriam um regime diferenciado. 7 Apesar de retórica ser coincidente, vale mencionar que todo o problema, para esta correte, gira em torno de definir o que é o mínimo existencial, sendo alguns mais pródigos (SARLET) e outros mais restritivos (RICARDO LOBO TORRES). 8 Também se usam expressões como princípio da não reversibilidade, princípio da proibição de regressividade, princípio da proibição/vedação de retrocesso, efeito cliquet (essa última usada por José Adércio Sampaio Leite e cobrada em teste objetivo de provas anteriores do MPF). 9 No âmbito do MPF o argumento foi explicitamente utilizado na ADI promovida pelo PGR contra a lei estadual de Santa Catarina que previa áreas de reserva legal inferiores àquelas do Código Florestal. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 21 4.b. Normas constitucionais. Definição. Estrutura. Classificações: normas formalmente e normas materialmente constitucionais; normas de organização, normas definidoras de direitos e normas programáticas; normas autoaplicáveis (preceptivas e proibitivas) e normas não autoaplicáveis; normas de eficácia contida, normas de eficácia limitada e normas de eficácia ilimitada; princípios e regras. Preâmbulos. Efeitos das normas da Constituição brasileira de 1988. Normas materialmente constitucionais, segundo a doutrina majoritária, são as que regulam os seguintes temas: forma de governo, forma de Estado, separação de poderes, obtenção e exercício do poder e direitos fundamentais; Normas formalmente constitucionais são aquelas que, sem regular os aspectos acima mencionados, são consideradas constitucionais pelo simples fato de terem sido consignadas no texto da Constituição pelo legislador,adquirindo assim status constitucional. Ex.: Art. 242, § 2º - “O Colégio Pedro II, localizado na cidade do Rio de Janeiro, será mantido na órbita federal. Normas definidoras de direito e normas de organização: “(...) refletindo a clássica dicotomia Estado/indivíduo, as disposições constitucionais podem ser classificadas em normas de organização, de estrutura ou de competência, e normas definidoras de direitos, sendo as primeiras aquela que dispõe sobre a ordenação dos poderes do Estado, sua estrutura, competência, articulação recíproca e o estatuto dos seus titulares; as outras, as que definem os direitos fundamentais dos jurisdicionados.” (MENDES, COELHO e BRANCO, 2008: 30). Normas autoaplicáveis (autoexecutáveis, segundo MENDES, COELHO e BRANCO): “(...) consideram-se auto-executáveis as disposições constitucionais bastantes em si, completas e suficientemente precisas na sua hipótese de incidência e na sua disposição, aquelas que ministram os meios pelos quais se possa exercer ou proteger o direito que conferem, ou cumprir o dever e desempenhar o encargo que elas impõe; não-aplicáveis, ao contrário, são as disposições constitucionais incompletas ou insuficientes, para cuja execução se faz indispensável a mediação do legislador, editando normas infraconstitucionais regulamentadoras.” Normas de eficácia limitada: “são aquelas que apresentam aplicabilidade indireta, mediata e reduzida, porque somente incidem totalmente sobre esses interesses, após uma normatividade ulterior que lhes desenvolva a aplicabilidade.” (SILVA, 1999). Norma de eficácia contida (ou restringível, segundo Maria Helena Diniz e Michel Temer): "normas de eficácia contida (...) são aquelas em que o legislador constituinte regulou suficientemente os interesses relativos a determinada matéria, mas deixou margem à atuação restritiva da competência discricionária do poder público, nos termos que a lei estabelecer ou nos termos de conceitos gerais nelas enunciando" (SILVA, 1999). Normas de eficácia plena: “aquelas que, desde a entrada em vigor da Constituição, produzem ou têm possibilidade de produzir todos os efeitos essenciais, relativamente aos interesses, comportamentos e situações que o legislador constituinte, direta e normativamente, quis regular.” (SILVA, 1999). Normas programáticas: “definem objetivos cuja concretização depende de providências situadas fora ou além do texto constitucional.” (MENDES, COELHO e BRANCO, 2008: 28). Observar que esta classificação, trazida para o Brasil por José Afonso da Silva, vem sofrendo críticas da moderna hermenêutica constitucional e do movimento neoconstitucionalista, que afirma, grosso modo, que todas as normas constitucionais são dotadas de algum grau de eficácia, ao mesmo tempo que nenhuma possui eficácia plena, já que sempre são passíveis de restrição em face de outras normas constitucionais, situação em que ocorre colisão de direitos. Luis Roberto Barroso e Virgílio Afonso da Silva (filho de José Afonso) são alguns dos críticos da classificação apontada alhures. Link. Princípios, regras e postulados: Diversas teorias e concepções buscam estabelecer distinção entre princípios e regras. As mais comumente aceitas afirmam as normas constitucionais distinguem-se em princípios e regras e que “aquilo que caracteriza particularmente o princípio – e isto constitui sua diferença com a regra de direito (...) – é, de um lado, a falta de precisão e, de outro, a generalização e abstração lógica.” (STARI, apud MENDES, COELHO e BRANCO: 31). Some-se a isto o fato de que os princípios são aplicados segundo juízo de ponderação, ao passo que as regras segundo critério do “tudo ou nada”. Ao lado das normas (gênero que divide-se em princípios e regras), há também os postulados10, os quais, segundo ÁVILA (2003: 80), distingue-se dos princípios pois estes “estabelecem fins a serem buscados”. Para Ávila, os postulados não seriam normas, mas sim metanormas, “situam-se num segundo grau e estabelecem a estrutura de aplicação de outras normas, princípios e regras”, ou seja, os postulados “(...) não impõe a promoção de um fim, mas, em vez disso, estruturam a aplicação do dever de promover um fim”, além disso “(...) não prescrevem comportamentos, mas modos de raciocínio e de argumentação relativamente a normas que indiretamente prescrevem comportamentos.” (Idem). Para Ávila, são exemplos de postulados a ponderação, a concordância prática e a proibição de excesso, bem como a igualdade, razoabilidade e proporcionalidade. Preâmbulo: “Na expressão de Peter Häberle, os preâmbulos são ‘pontes do tempo’, exteriorizando as origens, os sentimentos, os desejos e esperanças que palmilharam o ato constituinte originário” (BULOS, 2008: 283). Portanto, o preâmbulo não possui força normativa, não servindo, portanto, como parâmetro para o exercício do controle de constitucionalidade. Esta tese já foi sedimentada pelo STF: ADI 2.076. 10 Observar que a examinadora cobrou esta distinção na dissertação da prova subjetiva, mencionando, na correção, que os candidatos deveriam abordar a dicotomia princípio/postulado da proporcionalidade. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 22 4.c. União. Competência. Bens da União. Federalismo fiscal. Judiciário e Federação. Introdução: “A União é fruto da junção dos Estados entre si, é a aliança indissolúvel destes. É quem age em nome da Federação. No plano legislativo, edita tanto leis nacionais, como leis federais” (MENDES et all., 2008, p. 802). Competências: 1) Competência Geral (Competência Administrativa ou Material Exclusiva): “o art. 21 da Carta dispõe sobre a competência geral da União, que é consideravelmente ampla, abrangendo temas que envolvem o exercício de soberano, ou que, por motivo de segurança ou eficiência devem ser objeto de atenção do governo central” (MENDES et all., 2008, p. 817-818). 2) Competência Legislativa Privativa: Listadas na CF, art. 22. O parágrafo único do art. 22 prevê a possibilidade de lei complementar federal vir a autorizar que os Estados-membros legislem sobre questões específicas das matérias relacionadas no artigo. 3) Competência Comum Material (Competências Concorrentes Administrativas): exercida pela União, Estados, DF e Municípios. CF, art. 23. 4) Competência Legislativa Concorrente: CF, art. 24. “A Constituição Federal prevê, além de competências privativas, um condomínio legislativo, de que resultarão normas gerais a serem editadas pela União e normas específicas, a serem editadas pelos Estados-membros” (MENDES et all., 2008, p. 820). Bens da União: Ver CF, art. 20. Federalismo Fiscal: Conforme Germana de Oliveira Moraes (2003, p. 306-307), o Federalismo usualmente “resulta dos esforços para integrar sem destruir a diversidade ou para descentralizar sem abandonar a unidade”. “Subjaz à concepção de Federalismo fiscal essa idéia de que, não obstante a existência de várias ordens estatais – central e periféricas, com autonomia para criar e cobrar seus tributos e decidir sobre os destino do produto de suas arrecadações -, estas permanecem unidas por um sistema fiscal comum”. Características do Federalismo fiscal brasileiro: a) Sistema fiscal comum. b) Obediência a um conjunto de diretrizes políticas, princípios e regras contidas na Constituição Federal e nas Leis Complementares. c) Repartição constitucional de competências tributárias. d) Discriminação e distribuição constitucional de rendas. Judiciário e Federação: Para José Afonso da Silva (2010, p. 556), a ordem judiciária do país compreende: (a) um órgão de cúpula, como guarda da Constituição e Tribunal da Federação, que é o STF; (b) um órgão de articulação e defesa do direito objetivo federal, que é o STJ; (c) as estruturas e sistemas judiciários da União e (d) os sistemas judiciários dos Estados, Distrito Federal e Territórios. PALAVRAS-CHAVE: União; competência; bensda união; federalismo fiscal; judiciário e federação. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 23 5.a. Mudanças e permanência constitucionais. Poder Constituinte originário e Poder Constituinte derivado. Limitações expressas e implícitas ao poder de reforma constitucional. Experiência histórica. PODER CONSTITUINTE ORIGINÁRIO O poder constituinte originário é a força política capaz de estabelecer e manter em vigor uma Constituição. Ele dá início a um novo ordenamento jurídico. Quem, em nome do povo, o exerce rompe com o passado, instituindo uma nova ordem jurídica. Trata-se de competência de fato, baseada na legitimidade e respaldo popular. É a força política – e não jurídica – que resolve disciplinar os fundamentos do modo de convivência na comunidade política. Costuma aparecer em momentos de viragem histórica, porém há momentos em que ele surge sob a aparência de uma reforma política, sem derramamento de sangue. Características principais: inicial, ilimitado (do ponto de vista jurídico), incondicionado, Caráter permanente (questão controversa): O Poder Constituinte Originário não se esgota quando edita uma CF, subsistindo fora dela. Pode se expressar a qualquer momento, vindo a estabelecer uma nova CF para a sociedade. Tem caráter permanente. Ele existe em estado latente. CR/88 E PODER CONSTITUINTE ORIGINÁRIO: O fato de uma emenda ter convocado a CF/88 não é suficiente para afastar a ideia de que há, ali, poder constituinte originário. A CF 88 se inspirou em ideais e objetivos evidentemente distintos daqueles que levaram à elaboração da CF/67 (autodissolução da ordem anterior). PODER CONSTITUINTE DE REFORMA Ao contrário do poder constituinte originário, o poder constituinte de reforma não é um poder de fato, não é inicial, não é ilimitado, não é incondicionado. Ao contrário, é um poder jurídico, limitado e condicionado. Demanda uma CF rígida. LIMITES AO PODER DE REFORMA LIMITAÇÕES PROCEDIMENTAIS: quórum especialmente qualificado, com maioria de 3/5 dos integrantes de cada uma das Casas, em 2 turnos de votação. LIMITAÇÕES CIRCUNSTANCIAIS: proíbe-se a alteração do texto em certas circunstâncias, tais como intervenção federal, estado de sítio ou estado de defesa. LIMITAÇÕES TEMPORAIS: algumas CFs estabelecem tais limitações, no sentido de impedir a mudança dentro de um certo período de tempo. Ex: CF do império.A CF/88 não tem limitação temporal. LIMITAÇÕES MATERIAIS: são restrições de conteúdo, temas que são intangíveis pelo poder constituinte de reforma. Alcance da proteção da cláusula pétrea: evitar que haja uma ruptura com princípios da CF por ação do poder reformador. Por isso, uma alteração meramente redacional de um preceito incluído no rol de cláusulas pétreas não gera, necessariamente, inconstitucionalidade, desde que não afetada a essência do princípio protegido e o sentido da norma. Até mesmo uma mudança de um assunto que compõe a cláusula pétrea é possível, desde que não se atinja o seu núcleo essencial. Cláusulas pétreas expressas: forma federativa do Estado, separação de poderes, direitos e garantias individuais e voto direto, secreto, universal e periódico. CLÁUSULAS PÉTREAS IMPLÍCITAS a) norma que contém o rol de cláusulas pétreas (art. 60, § 4º); b) normas que tratam da titularidade do poder constituinte originário (inalienabilidade da soberania popular); c) normas que tratam da titularidade do poder reformador, porque ele não pode fazer delegação dos poderes que recebeu, sem cláusula expressa que o autorize; d) normas que disciplinam o próprio procedimento de emenda, já que o poder delegado não pode alterar as condições da delegação que recebeu. MUTAÇÃO CONSTITUCIONAL A mutação constitucional é a separação entre o preceito constitucional e a realidade (Hsu Dau-Lin). É uma forma de mudança do sentido do texto da Constituição sem sua alteração formal. Isso decorre principalmente das expressões abertas utilizadas pela CF. Quando um determinado sentido do texto muda com o tempo, ocorre esse fenômeno. Só ocorre quando o texto constitucional a permitir, não podendo violentar os princípios estruturantes da CF. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 24 5.b. Supremo Tribunal Federal: organização e competência. Jurisdição constitucional. I. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL O STF é órgão de cúpula do poder judiciário, exercendo primordialmente a função de guardião da constituição, tendo a atribuição de julgar questões constitucionais, a fim de que prevaleça a supremacia Constitucional em todo o Brasil. Entretanto, a corte não é exclusivamente constitucional, pois outras matérias também lhes foram atribuídas pela Carta Magna. I.I. COMPOSIÇÃO E INVESTIDURA Composição – 11 Ministros Investidura – O Presidente da República escolhe e indica o nome para compor o STF, devendo ser aprovado pelo Senado Federal, pela maioria absoluta (sabatina no Senado Federal). Aprovado, passa-se à nomeação, momento em que o Ministro é vilaliciado. Requisitos para ocupar o cargo de Ministro do STF * Ser brasileiro nato (art. 12, § 3º, IV da CF) * Ter mais de 35 e menos de 65 anos de idade (art. 101 CF) * Ser Cidadão (art. 101, estando em pleno gozo dos direitos políticos) * Ter notável saber jurídico e reputação ilibada (art. 101) I.II. ORGANIZAÇÃO Segundo o Regimento interno do STF, este organiza-se através do plenário, turmas e do presidente. Cada turma tem 5 ministros, sendo que o mais antigo, integrante da turma, preside a mesma. Ressalte-se que o Presidente e o Vice são eleitos pelo Tribunal. II. COMPETÊNCIA – ART. 102 CF As competências do STF podem ser divididas, em: “a) originária (art. 102, I, “a” até “r”); b) recursal ordinária (art. 102, II) e c) recursal extraordinária (art. 102, III)”. Em relação as competências, destacam-se as modificações introduzidas pela EC nº 45/2004. 1) A transferência de competência do STF para o STJ no tocante à homologação de sentenças estrangeiras e a concessão de exequatur às cartas rogatórias (art. 102, I, “h”, revogada; 105, I, “i” e art. 9º da EC 45/2004) 2) A criação do requisito da repercussão geral das questões constitucionais discutidas no caso para o conhecimento do recurso extraordinário III. JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL A jurisdição constitucional emergiu historicamente como um instrumento de defesa da Constituição, não da Constituição considerada apenas em sentido formal, mas da Constituição tida como expressão de valores sociais e políticos. O Brasil adotou inicialmente o sistema norte-americano, evoluindo para um sistema misto e peculiar que combina o critério de controle difuso por via de defesa com critério de controle concentrado por via de ação direta. III.I. ÓRGÃOS DE CONVERGÊNCIA E SUPERPOSIÇÃO O Supremo Tribunal Federal (STF) e os Tribunais Superiores (STJ, TST, TSE e STM) são órgãos de convergência, têm sede na Capital Federal e exercem jurisdição sobre todo o território nacional, nos termos do art. 92 § 2º da CRFB/88. Denominam-se órgãos ou centros de convergência na medida em que, conforme ensina Dinamarco, “cada uma das Justiças Especiais da União (Trabalhista, Eleitoral e Militar), tem por cúpula seu próprio Tribunal Superior, que é o responsável pela última decisão nas causas de competência dessa Justiça, ressalvado o controle de constitucionalidade, que sempre cabe ao Supremo Tribunal Federal. Quanto às causas processadas na Justiça Federal ou nas locais,em matéria infraconstitucional a convergência conduz ao Superior Tribunal de Justiça, que é um dos Tribunais Superiores da União embora não integre Justiça alguma; em matéria constitucional, convergem diretamente ao STF. Todos Tribunais Superiores convergem unicamente ao STF, como órgão máximo da Justiça brasileira e responsável final pelo controle de constitucionalidade de leis, atos normativos e decisões judiciárias. O STJ e o STF sãotambém denominados de órgãos de superposição, na medida que não pertencem a qualquer Justiça. Isso porque, embora não pertençam a qualquer Justiça, as suas decisões se sobrepõem às decisões proferidas pelos órgãos inferiores das Justiças comum e especial. As decisões do STJ se sobrepõem àquelas da Justiça Federal comum, da Estadual e daquela do Distrito Federal e Territórios (o único que existia acabou, pois anexou-se a Pernambuco), ao passo que as decisões do STJ se sobrepõem a todas as Justiças e Tribunais. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 25 5.c. Município: criação, competência, autonomia. Convênios ou consórcios federativos: distinção, aplicação e crítica. Natureza jurídica do Município: Pessoa jurídica de direito público interno. Arts.1º e 18 da CF estabelecem que o Município integra a Federação. Mas há divisão na doutrina quanto ao seu papel, José Afonso estabelece que não se trata de entidade territorial essencial ao conceito de Federação (os motivos para o referido entendimento são: a Federação não é de Municípios, mas sim de Estados; A intervenção neles é estadual e não federal; Sua criação, incorporação, fusão e desmembramento se dá por lei estadual, não há Câmara de representantes dos Municípios)11. Em sentido contrário, Hely Lopes12, L.A. David Araújo e Vidal Serrano13. Hely Lopes entende que a CF de 88 outorgou ao Município, dentro do âmbito da Federação, a qualificação de “entidade político-administrativa de terceiro grau”. Criação: previsão no art.18, §4º, da CF (lei complementar federal, estudo de viabilidade municipal, plebiscito (é condição de procedibilidade) e lei estadual). Trata, ainda, da incorporação, fusão e desmembramento. Trata-se de procedimento administrativo vinculado – pode ser alvo de controle pelo Judiciário. A Lei Estadual que cria o Município pode ser objeto de ADI “Ainda que não seja em si mesma uma norma jurídica, mas ato com forma de lei, que outorga status municipal a uma comunidade territorial, a criação de Município, pela generalidade dos efeitos que irradia, é um dado inovador, com força prospectiva, do complexo normativo em que se insere a nova entidade política: por isso, a validade da lei criadora, em face da Lei Fundamental, pode ser questionada por ação direta de inconstitucionalidade (MC na ADI 2.381-RS, rel. Min. Sepulveda Pertence, j. 20/06/2001). EC 57/08 (art.96 dos ADCT) convalidou os Municípios (criados até 31/12/06), embora fosse inexistente a lei complementar federal regulamentadora (ADI 2381 AgR/RS). Lei que altera limites geográficos do município também tem que se submeter ao plebiscito (ADI 1262). Competência: Legislativa se divide em duas: interesse local (art.30, I, da CF, ex. tempo máximo de fila em banco – RE 610221 RG/SC) e suplementar a legislação federal e estadual (II). Materiais estão previstas no art.23 (comum) e III a IX, do art.30 (privativa), da CF. Autonomia: é a capacidade ou poder de gerir os próprios negócios, dentro de um círculo prefixado por entidade superior (difere de soberania). O município detém auto-organização (elaboração de lei orgânica), autogoverno, autolegislação e auto-administração. Assim, detém autonomia política, normativa, administrativa e financeira. Elaboração de lei orgânica: requisitos no art.29, caput, da CF. Lei Orgânica não representa Poder Constituinte Decorrente. Autonomia Municipal é princípio sensível (art.34, VII, “c”, da CF). Convênios ou consórcios federativos: art.241 da CF – objetiva consolidar a gestão associada entre os entes federados para consecução de fins de interesse comum. Os dois são espécies de acordos de vontade da Administração Pública. Lei 11.107/05 dispõe sobre os consórcios. Distinção: Consórcios só podem participar entes federativos, se afigura como sujeito de direito (personalidade jurídica de direito privado ou público), depende de autorização legislativa. Os Convênios podem ser formados por entes públicos (pelo menos uma parte tem que ser integrante da Adm.Pública) ou privados (Celso Antônio defende que só aqueles sem fins lucrativos podem14, não gera a criação de uma personalidade jurídica própria e não dependem de autorização legislativa. Aplicação: Ambos se prestam às relações de cooperação federativa. Quando esta apresenta natureza contínua e permanente, recomenda-se o uso do Consórcio. Quando não há esta necessidade, surge o Convênio. Crítica: Maria Sylvia diz que não deveria haver a criação de uma personalidade jurídica própria nos Consórcios, seria suficiente a criação de uma Comissão15. Também se critica o fato de uma mesma pessoa jurídica pertencer à Adm. Indireta de diversos entes, estando submetido ao controle de todos. O art.9, par. único, da Lei, tenta limitar o controle do Trib. de Contas àquele competente para fiscalizar as contas do Chefe do Executivo representante legal do consórcio, mas isso ofenderia as disposições constitucionais acerca do tema. 11 SILVA, José Afonso. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Malheiros, 2007. Pág. 475. 12 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Municipal Brasileiro. São Paulo: Malheiros, 2009. 13 ARAÚJO, Luiz Alberto David e NUNES JR, Vidal Serrano. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2010. 14 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. CURSO DE DIREITO ADMINISTRATIVO. 28 ed. São Paulo: Malheiros, 2011. Pág.673. 15 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. DIREITO ADMINISTRATIVO. 24 ed. São Paulo: Atlas, 2011. Pág. 486. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 26 6.a. Estado Federal. Concepções. Classificações. Sistemas de repartição de competência. Direito comparado. À vista de suas características essenciais, é correto afirmar que o Estado Federal expressa um modo de ser do Estado (daí se dizer que é uma forma de Estado) em que se divisa uma organização descentralizada, tanto administrativa quanto politicamente, erigida sobre uma repartição de competências entre o governo central e os locais, consagrada na Constituição Federal, em que os Estados federados participam das deliberações da União, sem dispor do direito de secessão. No Estado Federal, de regra, há uma Suprema Corte, com jurisdição nacional e é previsto um mecanismo de intervenção federal, como procedimento assecuratório da unidade física e da identidade jurídica da Federação. A soberania é atributo do Estado Federal como um todo. Os Estados-membros dispõem de autonomia, que importa, necessariamente, a descentralização administrativa e política. Eles não apenas podem, por suas próprias autoridades, executar leis, como também é-lhes reconhecido elaborá-las. Isso resulta em que se perceba no Estado Federal uma dúplice esfera de poder normativo – a da União e a do Estado-membro - sobre um mesmo território e sobre as pessoas que nele se encontram. A autonomia política dos Estados-membros abrange também a capacidade de dotar-se de uma Constituição própria, sujeita embora a certas diretrizes impostas pela Constituição Federal. O fato de eles se acharem unidos em função de uma Carta Federal, e não de um tratado de direito internacional, designa fator diferenciador em relação à confederação. Dada a existência de ordens central e parciais, a repartição de competência (e de rendas) entre essas esferas, realizada pela Constituição Federal, favorece a eficácia da ação estatal. O modo de repartição indica que tipo de federalismo é adotado. A concentração de competências no ente central aponta para um modelo centralizador (centrípeto); uma opção pela distribuição mais ampla de poderes em favor dos Estados-membros configura um modelo descentralizador (centrífugo). Havendo uma dosagem contrabalançada de competências, fala-se em federalismo de equilíbrio. No direito comparado, as formulações constitucionais em torno da repartição de competências podem se associadas a dois modelosbásicos – o clássico, vindo da Constituição norte-americana de 1787, e o modelo moderno, que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. O modelo clássico conferiu à União poderes enumerados e reservou aos Estados-membros os poderes não especificados. Para mitigar os rigores dessa fixação taxativa, nos EUA elaborou-se a doutrina dos poderes implícitos. O modelo moderno responde às contingências da crescente complexidade da vida social, exigindo ação dirigente e unificada do Estado, em especial para enfrentar crises sociais e guerras. Isso favoreceu uma dilatação dos poderes da União com nova técnica de repartição de competências, em que se discriminam competências legislativas exclusivas do poder central e também competência comum ou concorrente, mista, a ser explorada tanto pela União como pelos Estados-membros. Outra classificação dos modelos de repartição cogita das modalidades de repartição horizontal e repartição vertical. Na primeira não se admite concorrência de competência entre os entes federados. Esse modelo apresenta três soluções possíveis para o desafio de distribuição de poderes entre as órbitas do Estado Federal. Uma delas efetua a enumeração exaustiva da competência de cada esfera da Federação; outra discrimina a competência da União deixando aos Estados-membros os poderes reservados (ou não enumerados); a última discrimina os poderes dos Estados-membros, deixando o que restar para a União. Na repartição vertical de competências, realiza-se a distribuição da mesma matéria entre a União e os Estados-membros. Essa técnica, no que tange às competências legislativas, deixa para a União os temas gerais, os princípios de certos institutos, permitindo aos Estados-membros afeiçoar a legislação às suas peculiaridades locais. A técnica da legislação concorrente estabelece um verdadeiro condomínio legislativo. Outra característica do federalismo é a de que os Estados-membros tenham voz ativa na formação da vontade da União – vontade que se expressa sobretudo por meio das leis. Para esse fim, historicamente foi concebido o Senado Federal, com representação paritária, em homenagem ao princípio da igualdade jurídica dos Estados-membros. Esses Estados participam da formação da vontade federal, na mesma linha, quando são admitidos a apresentar emendas à Constituição Federal. Na medida em que os Estados-membros não são soberanos, é comum impedir que se desliguem da União, no que o Estado federal se distingue da confederação. Como regra inexiste, portanto, no federalismo, o direito de secessão. Os conflitos que venham a existir entre os Estados-membros ou entre qualquer deles com a União, assumindo feição judiciária, são levados ao deslinde de uma corte nacional. Falhando a solução judiciária ou não sendo o conflito de ordem jurídica meramente, o Estado dispõe do instituto da intervenção federal, para se autopreservar da desagregação, bem como para proteger a autoridade da Constituição Federal. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 27 6.b. Política agrária. Princípios. Objetivos. Instrumentos. Desapropriação para fins de reforma agrária. Política agrícola, usucapião e bens públicos. Política é um conjunto de diretrizes, princípios e instrumentos destinados a uma finalidade. A política agrária é diferente da política agrícola. Na primeira, há uma dimensão mais ampla, englobando a política agrícola. Nesta, há uma maior predominância de interesses econômicos (reforma agrária pelo imóvel ser improdutivo). A política agrária possui uma perspectiva mais social, tratando de questões trabalhistas e previdenciárias no campo. A CF optou pela palavra agrícola, evidenciando o eixo econômico da relação do homem no campo. A doutrina critica esta denominação, tendo em vista que o Direito que regula estas relações possui fortes contornos sociais. Elemento ou eixo econômico da política agrária: melhoria da utilização da terra. Ex: Previsão na CF da desapropriação por improdutividade. Elemento ou eixo social na política agrária: melhoria da qualidade de vida do homem do campo. Ex: previsão no ET de dispositivos sobre colonização, contratos. A reforma agrária é o principal instrumento da política agrícola, pois atua sob um eixo econômico, bem como sob um eixo social. Instrumentos da PA: os instrumentos creditícios e fiscais; os preços compatíveis com os custos de produção e a garantia de comercialização (subsídios); o incentivo à pesquisa e à tecnologia; a assistência técnica e extensão rural (assistência técnica pelo INCRA); o seguro agrícola; o cooperativismo; a eletrificação rural e irrigação; a habitação para o trabalhador rural. Os instrumentos constitucionais do art. 187 não são taxativos, mas garantem a implementação mínima do projeto constitucional de política agrícola. Princípios da PA: Definição: Princípio é uma norma de maximização do sistema, utilizado como baliza hermenêutica (Robert Alexy). Princípio da função social da propriedade: a função social é tratada na CF e é o centro gravitacional do estudo da propriedade no direito moderno. Surgimento da função social: 1ª fase: O primeiro dado histórico da função social remonta a Aristóteles, para ele a apropriação individual de bens não se justifica se os mesmos não tiverem uma destinação social. Ter-se algo só para ter é pernicioso. 2ª fase: São Tomás de Aquino desenvolve a tese da função social em sua Suma Teológica, nela, é desenvolvida a noção do bem comum. É direito de todos adquirir coisas para garantir sua dignidade desde que o bem comum seja atendido. 3ª fase: Para Leon Duguit, todo o direito está subordinado a uma finalidade. Se o direito possuído pelo indivíduo não tiver finalidade, cabe desapropriação. A CF trata da função social em seu art. 186 e para estar caracterizada deve preencher todos os requisitos constantes naquele dispositivo: 1º requisito: aproveitamento racional e adequado da terra. Para ser atingido, devem ser atendidos níveis fixados pelo órgão responsável quanto à eficiência na exploração e o grau de utilização da terra. (obs: são garantidos os incentivos fiscais referentes ao Imposto Territorial Rural relacionado com os graus de utilização e de eficiência na exploração. Obs2: não são consideradas áreas aproveitáveis no cálculo do grau de utilização da terra as áreas de efetiva preservação permanente e demais áreas protegidas por legislação ambiental). 2º requisito: adequada utilização dos recursos naturais e da preservação do meio ambiente. Isto tem por finalidade o respeito à vocação natural da terra, através da manutenção do seu potencial produtivo. A preservação do meio ambiente é a manutenção das características próprias do meio natural e da qualidade dos recursos ambientais, na medida adequada à manutenção do equilíbrio ecológico da propriedade e da saúde e qualidade de vida das comunidades vizinhas. 3º requisito: observância às normas relativas às relações de trabalho. Estas possuem abrangência elástica, pois permitem a inclusão de relações de emprego e de contratos agrários (parceria e arrendamento). 4º requisito: bem estar dos proprietários (ou possuidores) e dos trabalhadores. O bem estar está ligado à dignidade da pessoa humana. É cumprido pelo atendimento das necessidades básicas dos que trabalham a terra, pela observância das normas de segurança do trabalho e por não provocar conflitos e tensões sociais no imóvel. A função social na CF tem uma perspectiva econômica, social e ecológica. Princípio da justiça social: é a justiça distributiva. A política agrária visa à alteração da estrutura fundiária vigente. Princípio da prevalência do interesse coletivo sobre o individual: A política agrária é composta por normas cogentes de forte interferência no domínio privado. A política agrária visa ao atingimento de interesses coletivos sobre interesses individuais. Princípio da reformulação da estrutura fundiária: É base da política agrícola, permitindo ao Estado uma série de programas para alteração do homem nocampo. Há órgãos específicos para cuidar desta reformulação. Ex: INCRA e Ministério da Reforma Agrária. Princípio do progresso econômico e social: visa ao aumento da produtividade da propriedade rural, garantindo uma melhoria das condições de vida do proprietário/possuidor e um aumento na produção primária do país. Desapropriação: Art. 184. Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização será definida em lei. As benfeitorias úteis e necessárias serão indenizadas em dinheiro (O STF entende que devem ser pagos por precatório. RE 247866). O decreto que declarar o imóvel como de interesse social, para fins de reforma agrária, autoriza a União a propor a ação de DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 28 desapropriação. Cabe à lei complementar estabelecer procedimento contraditório especial, de rito sumário, para o processo judicial de desapropriação. (O STF entende que prescinde da intimação feita pessoalmente a ambos os cônjuges para validade da vistoria no imóvel). São isentas de impostos federais, estaduais e municipais as operações de transferência de imóveis desapropriados para fins de reforma agrária. São insuscetíveis de desapropriação para fins de reforma agrária: a propriedade produtiva e a pequena (de 1 a 4 módulos fiscais) e média (de 4 a 15 módulos fiscais) propriedade rural (ainda que improdutiva), assim definida em lei, desde que seu proprietário não possua outra. Não se confunde latifúndio e minifúndio com pequena e média propriedade, pois estas são fixadas em módulos fiscais e aquelas em módulos rurais. Para ser latifúndio, basta ter no mínimo 1 MR e ser improdutiva. É preciso que o proprietário da pequena ou média propriedade não possua outro imóvel RURAL. Se o sujeito tiver 40 imóveis urbanos e 1 média propriedade, ela não poderá ser desapropriada, pois a lei veda este benefício àquele que possuir outro imóvel rural e não urbano. (Na usucapião especial rural, não pode o indivíduo ter qualquer outro imóvel). termos constitucionais. Usucapião: será usucapido aquele imóvel rural não superior a cinqüenta hectares, desde que o seu possuidor não tiver o domínio de outro imóvel, seja rural ou urbano, e que nele morasse e trabalhasse com sua família a fim de garantir a sua subsistência, tornando-o produtivo. Exigiu a Constituição que a posse fosse contínua e sem oposição, mas prescindiu o justo título e a boa-fé. Veja-se que a intenção da usucapião agrária, ao lado da conotação social de se garantir a manutenção na terra daqueles que nela labutam, também foi a de estimular a produtividade no setor agrícola. Diz-se especial este tipo de usucapião, pois o prazo para a sua constituição é bem inferior à usucapião geral, a qual, segundo o Código Civil, necessita de um prazo de 15 anos, no caso de inexistir título ou boa-fé, podendo ser reduzido para 10 anos se o possuidor constituir atividade produtiva ou estabelecer moradia no imóvel. Conforme a lei substantiva civil, caso o possuidor detenha título e boa fé, o prazo é reduzido de 15 para 10 anos, salvo, se o possuidor detinha título expedido por Cartório e que foi anulado, pois reduzirá para 5 anos. A lei 6969/81 não foi totalmente recepcionada pela CF/88, mas sim a parte que dispõe acerca das normas processuais para o reconhecimento da usucapião judicialmente. Previu esta norma o foro como o da situação do imóvel, a adoção de rito sumaríssimo, com participação do Ministério Público e possibilidade de realização de audiência preliminar em que, constatada a posse do requerente, seria ele nela mantido liminarmente até final decisão. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 29 6.c. Direitos e garantias fundamentais. Concepções. Críticas e justificativas. Aspectos. Dimensões. Eficácia vertical e horizontal. Limites e conflitos. DIREITOS FUNDAMENTAIS: Canotilho diz que os direitos fundamentais são a reserva de justiça da CF. Há várias concepções: direitos fundamentais, humanos, naturais. O critério da divisão em gerações é histórico. Já a classificação em direitos de defesa ou prestacionais é relacionada à estrutura do direito. Direitos naturais: expressão jusnaturalista. Para estes, os direitos humanos são direitos naturais – compõem uma ordem de valores suprapositiva. Direitos humanos x direitos fundamentais: os direitos humanos são utilizados nas previsões de tratados internacionais ou como designação genérica. A expressão “direitos fundamentais” é utilizada para designar os direitos previstos em cada CF. Direitos civis e políticos: são os direitos de 1ª geração. Direitos econômicos, sociais e culturais: são os de 2ª geração. As nomenclaturas se referem aos dois pactos firmados em âmbito internacional. 1ª GERAÇÃO: Limitam o poder do Estado. São, em regra, direitos de defesa. Ex: liberdade de expressão. 2ª GERAÇÃO: O Estado chama para si a atividade de prover o mínimo de condição social. Possuem, em regra, natureza de direitos de prestação (prestacionais). 3ª GERAÇÃO: direitos difusos e coletivos. Distinguem-se pela transindividualidade (titularidade coletiva) – seu titular é a coletividade. Fala-se em direitos de 4ª (participação, para Paulo Bonavides, e bioética, para outros) e 5ª geração (direito à paz, para Paulo Bonavides). CONFLITOS ENTRE DIREITOS FUNDAMENTAIS: As regras são normas de definição “tudo ou nada” (Ronald Dworkin). Já os princípios se aplicam por uma lógica do “mais ou menos”, pois estão sujeitos a uma dimensão de peso.Os conflitos entre regras são resolvidos no plano da validade, segundo os critérios cronológico, hierárquico ou especialidade. Para os princípios, incide o princípio da proporcionalidade PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE: Adequação é a aferição da idoneidade do meio eleito pelo Poder Público para o atingimento do fim colimado. Necessidade é a inexistência de um meio menos gravoso dentre os igualmente aptos para a realização de um fim ou de um princípio. Proporcionalidade em sentido estrito: é a formula da ponderação (Alexy). Consiste numa análise, grosso modo, de custo-benefício. Analisa-se qual o grau de promoção de P1. Alexy vai analisar se o grau de proteção de P1 por M1 é fraco, médio ou forte; posteriormente, vai analisar o grau de restrição de P2 por M1 (fraco, médio ou forte). Depois, fará o mesmo com M2. CONFLITO ENTRE REGRA E PRINCÍPIO: A prioridade prima facie é da regra, pois ela já é fruto de ponderação, feita pelo constituinte ou pelo legislador. Pode ser, no entanto, que a aplicação de uma regra gere, no caso concreto, resultados injustos – aí entra o princípio, em caráter excepcional. Isso se chama, em doutrina, superabilidade ou derrotabilidade das regras. DUPLA DIMENSÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS Dimensão subjetiva: direito fundamental como um direito subjetivo público – pretensão em face do Estado. Dimensão objetiva: origem no caso Luth (ALE). Decidiu-se que a CF é uma ordem objetiva de valores; além de conter direitos, contém valores – o catálogo de direitos fundamentais contém os valores morais mais importantes da CF. Consequências lógicas (corolários) da dimensão objetiva: eficácia irradiante dos direitos fundamentais, dever de filtragem constitucional, fomento ao pluralismo e eficácia horizontal dos direitos fundamentais. EFICÁCIA HORIZONTAL: Significa a aplicação dos direitos fundamentais às relações entre particulares. Tradicionalmente, a relação era vertical (Estado e indivíduo, com aquele em posição de relativa supremacia). Existem basicamente duas teorias: a – teoria indireta (ALE): os direitos fundamentais não se aplicam diretamente a indivíduos. Eles só se aplicam diretamenteao Estado (aos seus 3 poderes). Necessária a intermediação legal ou por cláusulas gerais e conceitos indeterminados; b – teoria direta (majoritária no Brasil): os direitos fundamentais podem ser aplicados de forma direta às relações jurídicas entre particulares, sem intermediação. A aplicação da teoria direta não afasta a utilização da teoria indireta, em certos casos. Doutrina das liberdades preferenciais: o constituinte tratou as liberdades existenciais como atividades preferenciais, devendo haver, quanto a estas, menor restrição do Estado; nas liberdades econômicas, o Estado poderia intervir um pouco mais. State action (EUA): a eficácia horizontal estende-se àqueles entes que exercem a função pública delegada. Ex: caso UBC (STF) – Gilmar Mendes se aproximou dessa teoria. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 30 7.a. Processo legislativo: objeto, ritos e peculiaridades. O devido processo legislativo. Questões políticas. Atos interna corporis. O processo legislativo tem início quando alguém ou algum ente toma a iniciativa de apresentar uma proposta de criação de novo direito. O projeto de lei deve ter início na Câmara dos Deputados, se não resulta de iniciativa de senador ou de comissão do Senado. A iniciativa pode ser comum (ou concorrente), se a proposição normativa puder ser apresentada por qualquer membro do Congresso Nacional ou por comissão de qualquer de suas Casas, bem assim pelo Presidente da República, e, ainda, pelos cidadãos, no caso de iniciativa popular; ou reservada, que visa subordinar ao seu titular a conveniência e oportunidade da deflagração do debate legislativo em torno do assunto. Depois de apresentado, o projeto é debatido (fase da discussão) nas comissões e nos plenários das Casas Legislativas. Podem ser formuladas emendas (proposições alternativas) aos projetos. A emenda cabe ao parlamentar e, em alguns casos, sofre restrições. Uma delas, colhida na jurisprudência do STF, é a de que, nos projetos de iniciativa reservada do Chefe do Executivo, a emenda deve guardar pertinência o tema proposto, para prevenir fraude a essa mesma reserva. Findo o período de debates, segue-se a votação, que deverá seguir o quorum estabelecido especificamente para a proposição a ser debatida. Em não se exigindo quorum especial, a proposição será aprovada por maioria simples. Não há aprovação de projeto sem votação, tampouco se prevê hipótese de aprovação por decurso de prazo, mas o prazo para a votação pode ser acelerado, a requerimento do Presidente da República, nos projetos da sua iniciativa. Nesse rito de urgência, o projeto terá prazo de 45 dias de tramitação em cada Casa, para que seja incluído na ordem do dia, sob pena de sobrestamento da deliberação de outros assuntos, exceto os que também tenham prazo constitucional determinado. O regime de urgência, que caracteriza esse procedimento sumário, não se aplica a projeto de código. O Presidente da República participa do processo legislativo tanto quanto toma a iniciativa de provocar o Congresso Nacional a deliberar como também ao ser chamado para, terminada a votação, sancionar ou vetar ou projeto. A sanção pode ser expressa ou tácita (se o projeto não é vetado no prazo constitucional). Hoje, tem-se por certo que a súmula 5 do STF não é aplicável, de modo que, mesmo vindo o Chefe do Executivo a sancionar lei com vício de iniciativa, o diploma será inválido. O veto, que é irretratável, deve ser expresso e fundamentado na inconstitucionalidade do projeto (veto jurídico) ou na contrariedade ao interesse público (veto político). O Presidente dispõe de 15 dias úteis para apor o veto, que pode ser total, quando abarca todo o projeto, ou parcial, desde que não recaia apenas sobre palavras ou conjunto de palavras de uma unidade normativa (a menor é a alínea). É possível a rejeição do veto, em sessão conjunta, pela maioria absoluta dos deputados e maioria absoluta dos senadores. Não há veto ou sanção na emenda à Constituição, em decretos legislativos e em resoluções, nas leis delegadas e na lei resultante da conversão, sem alterações, de medida provisória. Com a promulgação se atesta a existência da lei, que passou a existir com a sanção ou com a rejeição do veto, e se ordena a sua aplicação. A publicação torna de conhecimento geral a existência do novo ato normativo, sendo relevante para fixar o momento da vigência da lei. Quanto a questões políticas, não se reconhece indenidade aos atos ou decisões políticas se elas afetam ou ameaçam direitos individuais. Essa é orientação pacífica do Supremo Tribunal Federal desde os primórdios da Republica. A doutrina das questões políticas chegou ao Supremo Tribunal com o famoso e polêmico julgamento do HC 300, impetrado por Rui Barbosa em 1892, em que o jurista se amparou na doutrina norte-americana da political questions, criada por influência da decisão do Justice Marshall no caso Marbury vs Madison. Apesar da derrota naquele julgamento, os ensinamentos de Rui Barbosa influenciaram decisivamente a formulação do art. 141, §4°, da Constituição de 1946, precedente remoto do atual art. 5º, XXXV, da CRFB/88. Alternando momentos de maior e menor ativismo judicial, o STF, ao longo de sua história, tem entendido que a discricionariedade das medidas políticas não impede o seu controle judicial, desde que haja violação a direitos assegurados pela Constituição. Nesse sentido, a Corte admite o exame jurisdicional de atos de CPI sempre que, de seu eventual exercício abusivo, derivarem injustas lesões ao regime de liberdades públicas. Em igual linha, é reconhecida a sindicabilidade judicial dos atos da Comissão de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados, quando, em processo disciplinar e de cassação de parlamentar, não se observam as garantias da ampla defesa, do contraditório e do devido processo legal. Quanto ao tema das medidas provisórias, por outro lado, o Tribunal tem admitido o controle judicial dos pressupostos de relevância e urgência apenas nos casos em que esteja objetivamente evidenciado patente excesso de poder por parte do Executivo. Igualmente, a Corte evita, em regra, interferir na competência do Congresso para conceder anistia a seus próprios membros, dada a natureza interna corporis da matéria, sujeita à avaliação política do Parlamento. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 31 7.b. Garantias institucionais. Garantias de instituição. Crises constitucionais. Estado de defesa e estado de sítio. Intimamente relacionada com a estabilidade e a defesa do Estado de Direito é a chamada organização constitucional dos períodos de crise, que outra coisa não é senão uma tentativa, até certo ponto utópica ou, talvez, desesperada dos regimes democráticos para conjurar os seus abalos políticos com um mínimo de sacrifício aos direitos e garantias constitucionais. Essa legalidade excepcional, em que pesem seus custos, vem a se constituir importante instrumento de preservação do Estado de Direito e de suas instituições. Optou-se, dentro da tradição brasileira, em termos de excepcionalidade constitucional, por um sistema do tipo rígido, assim caracterizado como aquele que, em oposição ao tipo flexível, melhor se harmoniza com o Estado de Direito porque não permite restrições às garantias constitucionais além das expressamente enumeradas na ordenação das crises. Alçando-os, em seu Título V, à dignidade de instrumentos de defesa do Estado e das instituições democráticas, a CF/88 contempla apenas dois mecanismos de proteção do regime democrático – o estado de defesa e o estado de sítio. O estado de defesa é uma medida excepcional menos gravosa que o estado de sítio, decretada pelo Presidente da República com posterior aprovação do Congresso Nacional, e que visa a restabelecer a normalidade em locais restritos e determinados. São duas as suas hipóteses: (i) questão estrita do restabelecimento da normalidade,no que diz respeito à ordem pública ou paz social ameaçada por grave instabilidade institucional no país; (ii) calamidade pública, de grandes proporções na natureza. A determinação do estado de defesa tem seu ato de instauração por iniciativa e titularidade do Presidente da República, que determina que sejam ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa (manifestações meramente opinativas). Se o decretar, o ato deverá ser submetido ao Congresso em 24 hs (em caso de recesso, ele deverá ser convocado em 5 dias para se reunir). Na sequência, o Parlamento terá 10 dias para votar a medida, cuja aprovação requer maioria absoluta de seus membros. Se não aprovada, a medida tem de ser cessada imediatamente, sob pena de o Presidente ser responsabilizado (crime de responsabilidade – impeachment). O estado de defesa terá duração de no máximo 30 dias, que podem ser prorrogados por igual período. A prorrogação deverá ser submetida ao Congresso. Não resolvida a situação, é possível a utilização do remédio mais gravoso (estado de sítio). O estado de defesa não tem abrangência nacional, e, sim, restrita a logradouros especificados pelo decreto presidencial. Poderá haver medidas restritivas de direito de (a) reunião; (b) sigilo de correspondência; (c) sigilo de comunicação telegráfica e telefônica. Poderá haver, ainda, ocupação e uso temporário de bens e serviços públicos, na hipótese de calamidade, bem como prisão por crime contra o Estado, determinada pelo executor da medida e que será por este comunicada imediatamente ao juiz. O estado de sítio, por sua vez, assume feição de maior gravidade. Estamos falando de situações (i) que acarretam grave comoção nacional, (ii) conflito armado envolvendo um Estado estrangeiro, ou quando for detectado (iii) que as medidas assumidas no estado de defesa se mostraram insuficientes ou inadequadas. A providência é tão gravosa que, em regra, o Presidente dependerá de autorização prévia do Congresso. Veja-se o procedimento. Após ouvir os Conselhos da República e de Defesa Nacional, que emitirão posição não vinculante, o Presidente enviará solicitação fundamentada ao Congresso, para manifestar-se pela maioria absoluta de seus membros. O decreto presidencial deverá trazer a duração do estado de sítio (no caso de comoção de grave repercussão nacional ou ocorrência de fatos que comprovem a ineficácia das medidas tomadas durante o estado de defesa), as medidas necessárias à sua execução e as garantias constitucionais que deverão estar suspensas. Após a publicação do decreto, o Presidente da República irá designar o executor das medidas e as áreas abrangidas (é possível abrangência nacional). O prazo do estado de sítio ante ineficácia do estado de defesa será de no máximo 30 dias, sempre prorrogáveis por no máximo 30 dias (quantas vezes forem necessárias). Toda prorrogação depende de autorização do Congresso. Na hipótese de guerra, o estado de sítio poderá ter a duração do conflito. Certos direitos e garantias podem sofrer restrições, v.g., (a) obrigação de permanência em localidade determinada; (b) detenção em edifício não destinado a acusados ou condenados por crimes comuns; (c) restrições relativas à inviolabilidade de correspondência, ao sigilo das comunicações, à prestação de informações e à liberdade de imprensa, radiodifusão e televisão, na forma da lei; (d) suspensão de liberdade de reunião; (e) busca e apreensão em domicílio; (f) intervenção nas empresas de serviços públicos; (g) requisição de bens. Apenas no estado de sítio as imunidades parlamentares podem ser relativamente suspensas, observados os requisitos constitucionais. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 32 7.c. Justiça Comum Federal: organização e competência. A Constituição de 1988 não só manteve a Justiça Federal, que fora reinstituída sob o Governo Militar, por meio do Ato Institucional n. 2, de 1965, como também ampliou as suas competências. Os Tribunais Regionais Federais são compostos por, no mínimo, sete juízes, recrutados, se possível, na respectiva região, e nomeados pelo Presidente da República dentre brasileiros com mais de 35 e menos de 65 anos, sendo: (a) um quinto dentre advogados com mais de dez anos de efetiva atividade profissional e membros do Ministério Público Federal com mais de dez anos de carreira; (b) e os demais mediante promoção de juízes federais com mais de cinco anos de exercício, por antiguidade e merecimento, alternadamente. Cada Estado, bem como o Distrito Federal, constituiu uma seção judiciária da Justiça Federal, que terá por sede a capital, e varas localizadas segundo o estabelecido em lei. A partir da Constituição de 1988, vem-se implementando a interiorização da Justiça Federal. A Emenda Constitucional n. 45/2004 autoriza, nesse sentido, que os TRFs instalem a Justiça itinerante, em locais situados nos limites territoriais de sua jurisdição. Facultou-se, igualmente, o funcionamento descentralizado dos TRFs, com a possibilidade de constituição de Câmaras regionais. A Justiça Federal é, por definição, o órgão judicial competente para as causas que tenham com partes a União, suas autarquias e empresas públicas federais. Em linhas gerais, compete-lhe julgar: (a) as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou opoentes, exceto as de falência, as de acidente de trabalho e as sujeitas à Justiça Eleitoral e à Justiça do Trabalho; (b) as causas entre Estado estrangeiro ou organismo internacional e Município ou pessoa domiciliada ou residente no País; (c) as causas fundadas em tratado ou contrato da União com Estado estrangeiro ou organismo internacional; (d) a execução de carta rogatória, após o exequatur, e de sentença estrangeira, após a homologação; as causas referentes à nacionalidade, inclusive a respectiva opção e à naturalização; (e) as causas relativas a direitos humanos deslocadas da Justiça estadual para a Justiça Federal (IDC); (f) os crimes políticos e as infrações penais praticadas em detrimento de bens, serviços ou interesse da União ou de suas entidades autárquicas ou empresas públicas, excluídas as contravenções e ressalvada a competência da Justiça Militar e da Justiça Eleitoral; (g) os crimes: 1) previstos em tratado ou convenção, quando, iniciada a execução no País, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro, ou reciprocamente; 2) contra a organização do trabalho e, nos casos determinados por lei, contra o sistema financeiro e a ordem econômico-financeira; 3) cometidos a bordo de navios ou aeronaves, ressalvada a competência da Justiça Militar; 4) de ingresso ou permanência irregular de estrangeiros; (h) os habeas corpus, em matéria criminal de sua competência ou quando o constrangimento provier de autoridade cujos atos não estejam diretamente sujeitos a outra jurisdição, os mandados de segurança e os habeas datas contra ato de autoridade federal, excetuados os casos de competência dos tribunais federais; (i) a disputa sobre direitos indígenas. Dentre as competências eminentes da Justiça Federal insere-se a de decidir sobre a existência de interesse jurídico que justifique a presença, no processo, da União, de suas autarquias ou empresas públicas (Súmula 150 do STJ). A decisão de juiz federal que excluir da relação processual ente da federação não pode ser reexaminada no juízo estadual. Mencione-se, também, a atuação dos juizados especiais federais, competentes para julgar as causas cíveis de menor complexidade (até 60 salários mínimos) e as infrações penais de menor potencial ofensivo. Quanto à competência dos TRFs, além dos recursos nas causas decididas pelos juízes federais e pelos juízes estaduais no exercício de competência federal, na área de sua jurisdição, ela abrange: (a) o processo e julgamento de juízes federais da área de sua jurisdição, incluídos os da Justiça Militar e da Justiça do Trabalho, nos crimes comuns e de responsabilidade, e os membros doMinistério Público da União, ressalvada a competência da Justiça Eleitoral; (b) as revisões criminais e as ações rescisórias de julgados seus ou dos juízes federais da região; (c) os mandados de segurança e os habeas data contra ato do próprio Tribunal ou de juiz federal e os habeas corpus, quando a autoridade coatora for juiz federal; (d) os conflitos de competência entre juízes federais vinculados ao Tribunal. Reconhece-se, igualmente, serem os TRFs os órgãos jurisdicionais originariamente competentes para processar e julgar, no caso de crimes da competência da Justiça Federal, autoridades estaduais e municipais, que gozam de prerrogativa de foro junto ao Tribunal de Justiça estadual. Assim, os parlamentares estaduais, os prefeitos municipais e os secretários de Estado deverão ser julgados, em caso de crime da competência da Justiça Federal, pelos TRFs. Configuram também competências não expressas dos TRFs o processo e julgamento das ações rescisórias movidas por ente federal contra acórdão de Tribunais de Justiça ou sentença de juiz de direito e os mandados de segurança impetrados por ente federal contra ato de juiz estadual. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 33 8.a. Estado-membro. Poder constituinte estadual: autonomia e limitações. Constituição assegura AUTONOMIA aos Estados, como entes federativos, que se consubstancia na sua capacidade de auto-organização, autolegislação, autogoverno e auto-administração. (arts. 18, 25 e 28) Auto-organização: Poder Constituinte Estadual: capacidade de dar-se a própria Constituição. (art.25) Poder Constituinte Decorrente: constituinte de segundo grau, limitado juridicamente, subordinado, secundário e condicionado. Poder Constituinte Originário é soberano enquanto o Poder Constituinte Decorrente é AUTÔNOMO. Autonomia é o poder próprio dentro de um círculo traçado por outro, pressupõe ao mesmo tempo uma zona de autodeterminação, que é propriamente autônomo e um conjunto de limitações e determinantes jurídicas extrínsecas, que é heterônomo. Forma de expressão do Constituinte Estadual: Assembléia Constituinte Estadual (art. 11 ADCT). LIMITES: (por limitarem a autonomia organizatória devem ser interpretados restritivamente) 1) Princípios constitucionais SENSÍVEIS: art. 34, VII CF. 2) Princípios constitucionais EXTENSÍVEIS: consubstanciam regras de organização da União cuja aplicação se estende aos Estados. (ex. art. 93, V). 3) Princípios constitucionais ESTABELECIDOS: limitam a autonomia organizatória dos Estados, regras que revelam, previamente, a matéria de sua organização e as normas constitucionais de caráter vedatório, e princípios de organização política, social e econômica. Assim, se subdividem em: 3.1) Limitações EXPRESSAS: são consubstanciadas em dois tipos de regra: umas de natureza vedatória e outras de natureza mandatória. As primeiras proíbem explicitamente os Estados de adotar certos atos ou procedimentos (ex. arts. 19, 150 e 152). As segundas consistem em disposições que determinam aos Estados a observância de princípios que limitam sua liberdade organizatória (ex. arts. 29, 18§4°, 31, 37, 42, 98, 125) 3.2) Limitações IMPLÍCITAS: também se subdividem em regras vedatórias e mandatórias. (ex. art. 21, 22, 30) 3.3) Limitações DECORRENTES do sistema constitucional adotado: geradas pelos princípios que defluem do sistema constitucional adotado: a) do princípio federativo (da igualdade das unidades federadas); b) do mesmo princípio federativo (uma unidade não pode exercer coerção sobre outra) c) do Estado Democrático de Direito; d) do princípio democrático; e) dos princípios da ordem econômica e social. Súmula 637/STF E Súmula 721/ STF ADI 541: Constituição Estadual ao estabelecer a competência dos tribunais, podem estabelecer competência originária para processar e julgar em crimes comuns ou de responsabilidade certos agentes públicos. STF: Constituições Estaduais não podem tornar os governadores imunes à perseguição criminal por atos estranhos ao exercício da suas funções. ADI 1.060: os Estados são obrigados a seguir as regras básicas do processo legislativo, notadamente as regras referentes a iniciativa reservada previstas na Constituição Federal. ADI 276: se a Constituição Federal estabelece matérias de iniciativa exclusiva do Presidente da República, não podem elas serem versadas na Constituição Estadual. ADI 676: não se pode subordinar a eficácia dos convênios celebradas por secretários de Estado ou de seus atos e contratos à aprovação da Assembléia Legislativa. ADI 41: a Constituição do Estado não pode exigir autorização legislativa para que o Estado contraísse dívida. ADI-MC 1.2228: Constituição estadual não pode determinar a participação da Assembléia Legislativa na escolha do Procurador-Geral da Justiça. ADI 687: Constituição estadual não pode impor ao prefeito dever de comparecimento perante a Câmara de Vereadores. ADI 978: Constituição estadual não pode prever imunidade a prisão cautelar a governadores. ADI 1.722: Constituição estadual não pode prever revisão constitucional. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 34 8.b. Superior Tribunal de Justiça: organização e competência. Integridade normativa da ordem jurídica federal. I. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA O Superior Tribunal de Justiça (STJ) é órgão integrante do Poder Judiciário brasileiro (art. 92, II, CF), possuindo regulamentação constitucional na Seção III (Do Superior Tribunal de Justiça), do Capítulo III (Do Poder Judiciário), do Título IV (Da Organização dos Poderes) da Constituição da República. É o órgão de cúpula da Justiça Comum, ou seja, da Justiça Estadual e da Justiça Federal (não-especializada). Trata-se de criação da Constituição de 1988, concebido com o propósito de se tentar superar a propalada “crise do Recurso Extraordinário” (nas palavras do Min. Moreira Alves), já que o Supremo Tribunal Federal, antes da Carta de Outubro, cumulava as competências de uniformização da interpretação da Constituição de 1967/69 e do direito federal ordinário. Aliás, para tentar desafogar a Corte Suprema, utilizava-se da argüição de relevância no julgamento dos recursos extraordinários que alegavam ofensa à legislação federal, o que ensejava severas críticas da doutrina. Assim, ao STJ foi atribuída a relevante missão constitucional de ser o Guardião do ordenamento jurídico federal. Para José Afonso da Silva, “o que dá característica própria ao STJ são as suas atribuições de controle da inteireza positiva, da autoridade e da uniformidade de interpretação da lei federal”. Como ressalta o Prof. Gilmar Mendes, compõe o ethos do Superior Tribunal de Justiça o julgamento de recurso especial contra decisão de Tribunal, “tendo em vista a função que lhe foi confiada como órgão de uniformização da interpretação do direito federal ordinário”. A composição inicial do STJ foi feita pelo aproveitamento dos Ministros do antigo e extinto Tribunal Federal de Recursos – TFR e pela nomeação de Membros necessários para completar o número mínimo de 33 (trinta e três) Ministros (art. 27, § 2º, ADCT). Esses foram indicados em lista tríplice pelo próprio TFR, conforme a regra do art. 104, parágrafo único, da CF (art. 27, § 5.º, ADCT), sendo que para efeitos desse dispositivo, os Ministros do TFR foram considerados pertencentes à classe de que provieram, quando de sua nomeação (art. 27, § 3.º, ADCT). O STJ foi instalado sob a Presidência do STF (art. 27, caput, ADCT). Até a sua instalação o STF exerceu plenamente as atribuições e competências definidas na ordem constitucional precedente (art. 27, § 1º, ADCT). I.I ORGANIZAÇÃO = COMPOSIÇÃO, INVESTIDURA, COMPOSIÇÃO, PROCEDIMENTO Composição - O STJ compõe-se de, no mínimo, 33 (trinta e três) Ministros, tem sede na Capital Federal e jurisdição em todo o território nacional (art. 92, parágrafo único, c/c art. 104, caput, CF). O número mínimode 33 Ministros poderá ser elevado por meio de lei. Investidura - Os seus Ministros são nomeados pelo Presidente da República, após serem sabatinados pelo Senado Federal e aprovados pelo voto da maioria absoluta (art. 104 § U), igualando-se ao quorum da sabatina para os Ministros do STF; Requisitos para o cargo: ser brasileiro nato ou naturalizado, ter mais de 35 e menos de 65 anos, ter notável saber jurídico e reputação ilibada; Composição dos Ministros: 1/3 de juízes dos Tribunais Regionais Federais; 1/3 de desembargadores dos Tribunais de Justiça; 1/6 de advogados e 1/6 de membros do Ministério Público Federal, Estadual, do Distrito Federal e Territórios, alternadamente; Procedimento: No caso dos juízes dos Tribunais Regionais Federais e dos desembargadores dos Tribunais de Justiça, o STJ elaborará lista tríplice, enviando-a ao Presidente da República, que indicará um e o nomeará após aprovação do Senado Federal. No caso dos advogados e membros do MP, serão eles indicados na forma das regras para o quinto constitucional do art. 94 CF. II. COMPETÊNCIA O Superior Tribunal de Justiça é dotado de um feixe significativo de competências. Basicamente, podem ser elas divididas em 3 espécies: competência originária, competência recursal ordinária e competência recursal especial. Apenas no exercício desta última competência é que o STJ atuará como Corte ou Tribunal de Sobreposição (com as suas respectivas conseqüências, tais como a exigência de prequestionamento, impossibilidade de revolvimento do contexto fático-probatório e sobrestamento de recursos repetitivos – Lei nº 11.672/08). As competências do STJ podem ser divididas, em: “a) originária (art. 105, I, “a” até “i”); b) recursal ordinária (art. 105, II) e c) recursal extraordinária – recurso especial (art. 105, III)”. Embora não conste expressamente no rol de competências do art. 105 da Carta Maior, outra competência originária outorgada ao STJ pela Emenda Constitucional nº 45/04 foi a competência para o julgamento do incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal (art. 109, §5º), a ser suscitada pelo Procurador-Geral da República, nas “causas relativas a direitos humanos federalizados”, na feliz expressão do Professor e Dr. José Adércio (O Conselho Nacional de Justiça e a indepedência do Judiciário, p. 97). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 35 III. INTEGRIDADE NORMATIVA DA ORDEM JURÍDICA FEDERAL A abordagem do tema deve ter como premissa a própria missão constitucional do STJ, qual seja, assegurar uma aplicação uniforme do direito federal. As dificuldades causadas por uma federação tão diversificada e ampla como a brasileira impõe a fixação de um único órgão unificador da exegese da legislação federal, nos limites impostos pela Carta Republicana, sob pena de esvaziamento e ruptura do conteúdo normativo do pacto federativo. A plena e uniforme observância dos comandos normativos emanados da União pelos demais entes políticos representa a concretização do Estado de Direito e a implementação de importante fator de estabilidade (isonomia política entre as unidades federadas), já que, na elaboração da lei federal, o Congresso Nacional deverá atentar para eventuais desigualdades sociais e regionais, a fim de reduzi-las (art. 3º, inciso III, CRFB). A manutenção da integridade normativa da ordem jurídica federal pode se dar em 2 âmbitos: externo e interno. O primeiro já foi alvo de nossos comentários, servindo os recursos ordinário/especial e a reclamação constitucional como fundamentais instrumentos para o exercício de tal mister. Já na conjuntura interna do STJ ganham realce os embargos de divergência. Em inúmeras situações, os Órgãos fracionários (Turmas e Seções) do STJ acabam por fixar interpretação colidente sobre um mesmo dispositivo legal. Caberá então ao Órgão colegiado imediatamente superior uniformizar, na seara interna, a exegese da ordem jurídica federal, mantendo sua integridade. III.I OBSERVAÇÕES SOBRE A EC 45/2004 Em relação à competência do STJ, destacam-se as novidades introduzidas pela EC nº45/2004, quais sejam, a homologação de sentenças estrangeiras e a concessão do exequatur, e a preservação da competência para o julgamento de recurso especial quando a decisão recorrida julgar válido ato de governo local contestado em face de lei federal. Perfeita a preservação desta competência já que, nessa hipótese, no fundo, estamos diante da questão de legalidade e não constitucionalidade. Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados – Prescreveu o funcionamento, junto ao STJ, da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados, cabendo-lhe, dentre outras funções, regulamentar os cursos oficiais para o ingresso e promoção na carreira (Art. 105, p.u., inciso I, CF). Conselho de Justiça Federal – Previu, também, o funcionamento, junto ao STJ, do Conselho de Justiça Federal, cabendo-lhe exercer, na forma da lei, a supervisão administrativa e orçamentária da Justiça Federal de primeiro e segundo graus, como órgão central do sistema e com poderes correicionais, cujas decisões terão caráter vinculante (Art. 105, p.u., inciso II, CF). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 36 8.c. Defesa do Estado e das instituições democráticas. Estado de defesa. Estado de sítio. Papel das Forças Armadas. A Constituição de 1988 trouxe dois grupos: um voltado para fornecer instrumentos (medidas excepcionais) para manutenção ou restabelecimento da ordem em momentos de anormalidade, e, com isso, configurou o sistema constitucional de crises, composto tanto pelo estado de defesa quanto pelo estado de sítio; assim como se preocupou em institucionalizar a defesa do país por meio das forças armadas e da segurança pública. Em monografia especializada, Aricê Moacyr Amaral Santos identificou que o sistema constitucional de crise é amparado por um conjunto de princípios, com destaque para a excepcionalidade, a necessidade, a temporalidade, a obediência estrita à Constituição e o controle político/judicial. O estado de defesa é uma medida excepcional menos gravosa que o estado de sítio, decretada pelo Presidente da República com posterior aprovação do Congresso Nacional, e que visa a restabelecer a normalidade em locais restritos e determinados. São duas as suas hipóteses: (i) questão estrita do restabelecimento da normalidade, no que diz respeito à ordem pública ou paz social ameaçada por grave instabilidade institucional no país; (ii) calamidade pública, de grandes proporções na natureza. A determinação do estado de defesa tem seu ato de instauração por iniciativa e titularidade do Presidente da República, que determina que sejam ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa (manifestações meramente opinativas). Se o decretar, o ato deverá ser submetido ao Congresso em 24 hs (em caso de recesso, deverá ser convocado em 5 dias para se reunir). Na sequência, o Parlamento terá 10 dias para votar a medida, cuja aprovação requer maioria absoluta de seus membros. Se não aprovada, a medida tem de ser cessada imediatamente, sob pena de o Presidente ser responsabilizado (crime de responsabilidade – impeachment). O estado de defesa terá duração de no máximo 30 dias, que podem ser prorrogados por igual período. A prorrogação deverá ser submetida ao Congresso. Não resolvida a situação, é possível a utilização do remédio mais gravoso (estado de sítio). O estado de defesa não tem abrangência nacional, e, sim, restrita a logradouros especificados pelo decreto presidencial. Poderá haver medidas restritivas de direito de (a) reunião; (b) sigilo de correspondência; (c) sigilo de comunicação telegráfica e telefônica. Poderá haver, ainda, ocupação e uso temporário de bens e serviços públicos, na hipótese de calamidade, bem como prisão por crime contra o Estado, determinada pelo executor da medida e que serápor este comunicada imediatamente ao juiz. O estado de sítio, por sua vez, assume feição de maior gravidade. Estamos falando de situações (i) que acarretam grave comoção nacional, (ii) conflito armado envolvendo um Estado estrangeiro, ou mesmo quando for detectado (iii) que as medidas assumidas no estado de defesa se mostraram insuficientes ou inadequadas. A providência é tão gravosa que, em regra, o Presidente dependerá de autorização prévia do Congresso. Veja-se o procedimento. Após ouvir os Conselhos da República e de Defesa Nacional, que emitirão posição não vinculante, o Presidente enviará solicitação fundamentada ao Congresso, para manifestar-se pela maioria absoluta de seus membros. O decreto presidencial deverá trazer a duração do estado de sítio (no caso de comoção de grave repercussão nacional ou ocorrência de fatos que comprovem a ineficácia das medidas tomadas durante o estado de defesa), as medidas necessárias à sua execução e as garantias constitucionais que deverão estar suspensas. Após a publicação do decreto, o Presidente da República irá designar o executor das medidas e as áreas abrangidas (é possível abrangência nacional). O prazo do estado de sítio ante ineficácia do estado de defesa será de no máximo 30 dias, sempre prorrogáveis por no máximo 30 dias (quantas vezes forem necessárias). Toda prorrogação depende de autorização do Congresso. Na hipótese de guerra, o estado de sítio poderá ter a duração do conflito. Certos direitos e garantias podem sofrer restrições, v.g., (a) obrigação de permanência em localidade determinada; (b) detenção em edifício não destinado a acusados ou condenados por crimes comuns; (c) restrições relativas à inviolabilidade de correspondência, ao sigilo das comunicações, à prestação de informações e à liberdade de imprensa, radiodifusão e televisão, na forma da lei; (d) suspensão de liberdade de reunião; (e) busca e apreensão em domicílio; (f) intervenção nas empresas de serviços públicos; (g) requisição de bens. Apenas no estado de sítio as imunidades parlamentares podem ser relativamente suspensas, observados os requisitos constitucionais. Sob o título de Forças Armadas se integram a Marinha, a Aeronáutica e o Exército, instituições nacionais, regulares e de caráter permanente, destinadas à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem. A organização militar tem por base a hierarquia e a disciplina, sob autoridade e comando supremos do Presidente da República, que tem a atribuição constitucional de nomear seus comandantes, além de promover os oficiais-generais e nomeá-los para os cargos que lhes são privativos. As punições disciplinares não estão sujeitas a habeas corpus no que concerne aos aspectos materiais (de mérito), restringindo-se o cabimento do writ aos questionamentos de natureza formal. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 37 9.a. Ordem social: comunicação social. Direitos políticos: esfera pública e discursividade. Conceito de COMUNICAÇÃO SOCIAL. Estudo de causas, forma e efeitos dos “mass media”, por meios sonoros (rádio), audiovisuais (cinema, televisão aberta) e escritos (jornais, revistas), e “é verdadeiro corolário da [...] liberdade de expressão [...] Essas normas, apesar de não se confundirem, completam-se, pois a liberdade de comunicação social se refere aos meios específicos” (Moraes:2007, p. 792), e nem todo o conteúdo da comunicação social é alvo da liberdade de expressão (publicidade). Publicidade e propaganda. A propaganda tem conteúdo ideológico, religioso, político-partidário, e “enquanto [...] afasta-se do fim lucrativo, a publicidade objetiva estimular uma necessidade existente – ou criar uma que ainda não existe – com o inequívoco objetivo do [...] lucro” (Fernandes:2004, p. 43).A CF limita a publicidade do tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias (art. 220, § 4º), denominando-as impropriamente de propaganda comercial (leia-se publicidade). Principais classificações do direito de expressão. (i) Direito de informar, se informar, e ser informado: O §1º do art. 220 da CF prevê o direito de informar; tem relação com o direito de “ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber” (art. 206, II, da CF) e com o direito de antena, pois “através das ondas eletromagnéticas a pessoa humana encontra uma nova possibilidade de repartir, partilhar e trocar informações” (Fiorillo:2004, p. 22). O direito de se informar é pressuposto lógico do direito de informar, e tem previsão no art. 5º, XIV, da CF: “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”. O direito de ser informado se refere ao dever do Estado de dar publicidade aos seus atos (art. 5º, XXXIII, art. 37, “caput”, e § 3º, II), e ao dever-poder de informação que recai sobre os veículos de comunicação em atenção à sua função social. A função social dos veículos de radiodifusão, direito difuso que pode ser objeto de ACP (Barbosa Moreira:1995, p. 45-56) tutelável pelo MP (art. 129, III, da CF), e que pode afetar outros direitos de dimensão coletiva (meio ambiente cultural, art. 216 da CF), é expressamente prevista no art. 221 da CF, que adotou o “fairness doctrine” (Supreme Court of the US:Red Lion Broadcasting Co. v. FCC), alvo de tutela administrativa pela classificação indicativa (art. 220, § 3º, da CF). Entretanto, na ADI 2404, em 30/11/2011, houve quatro votos a favor da inconstitucionalidade da expressão "em horário diverso do autorizado" do art. 254 do ECA, o que tornará a classificação indicativa meramente informativa. (ii) Direito de crônica, crítica, de expressão de ideias, de expressão artística. Trata-se da “tradicional distinção das mensagens informativas em fatos, opiniões e idéias, para os quais corresponderiam diferentes modalidades de liberdade de expressão: liberdade de crônica, liberdade de crítica e liberdade de expressão de idéias” (Döring Pereira:2002, p. 15). A crônica consiste na narrativa de fatos, sua tônica é a veracidade das informações, e o seu desvirtuamento característico consiste na inidoneidade da informação, embora inexista obrigação de resultado: “não se considera que houve desobediência ao critério da verdade, se demonstrado que o comunicador fez uso de todos os meios que estavam ao seu alcance para difundir uma informação correta” (Edilsom Farias:2004, p. 92), admitindo-se a verdade putativa e o erro de boa-fé (Pereira:2002, p. 99). Na liberdade de crítica há um “predomínio de ‘contextualização’ das informações e de valoração dos dados de uma determinada realidade” (Idem, p. 236), sendo assegurado “ao jornalista, o direito de expender crítica, ainda que desfavorável e em tom contundente, contra quaisquer pessoas ou autoridades [...] por mais dura que seja, [desde que] revele-se inspirada pelo interesse público e decorra da prática de legítima de uma liberdade pública” (Celso de Mello:ADPF 130-7/DF). Na liberdade de crítica, o ilícito decorre dos excessos e da inobservância de outros valores constitucionais (v.g., racismo, injúria etc.): “publicações que extravasam, abusiva e criminosamente, o exercício ordinário da liberdade de expressão e de comunicação, degradando-se ao nível primário do insulto, da ofensa e, sobretudo, do estímulo à intolerância e ao ódio público, não merecem a dignidade da proteção constitucional [...] pois o direito à livre expressão não pode compreender [...] exteriorizações revestidas de ilicitude penal ou de ilicitude civil” (Mello:ADPF 130-7). A liberdade de expressão de ideias consiste em conteúdos mais abstratos: “concepções gerais, como teorias, doutrinas, opiniões, não sobre o particular e concreto, mas precisamente sobre o não-particular e abstrato” (Pereira:2002, p. 246), sua licitude apura-se pelo conteúdo, cuja abstração pode inclusive afetar uma coletividade de pessoas (causando danos morais coletivos). O direitode expressão artística é voltado ao lazer e criação artística (Pereira:2002, p. 52), não sendo dado ao Estado definir o que é arte, mas este direito não compreende o conteúdo obsceno (Supreme Court of the US: Miller v. Califórnia). Direito de resposta: é de um lado tutela específica dos direitos individuais, oriunda da “eficácia horizontal dos direitos fundamentais nas relações entre particulares” (Celso de Mello:ADPF 130-7), que exige contraditório e ampla defesa; e de outro é uma tutela do direito difuso de acesso à verdade (de ser informado), pois a informação inverídica que afeta a coletividade pode ser corrigida por meio do direito de resposta. Censura: trata-se do exame prévio e de caráter administrativo do conteúdo. Decisões judiciais não configuram tecnicamente censura: “afirma-se, muitas vezes de forma categórica, que tendo a constituição estabelecido a proibição de censura, não poderia a autoridade pública, no caso, órgão do Poder Judiciário, intervir para evitar a divulgação de notícias ou obra artística lesiva aos direitos de personalidade de qualquer cidadão [...] Diante dos termos peremptórios em que se encontra formulado o art. 5º, X, da Constituição – são invioláveis à intimidade, à vida privada, à honra e imagem das pessoas [...] A referência que consta da parte final do dispositivo – assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação – somente pode dizer respeito aos casos em que não foi possível obstar a divulgação ou a publicação da matéria lesiva aos direitos da personalidade" (Gilmar Mendes:1994, p. 297-301). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 38 Colisão dos direitos fundamentais: “Alexy argumenta em favor de uma teoria que considera vários princípios que, embora não possam ser rigidamente hierarquizados, podem ser colocados em ordem mediante uma relação de prioridade “prima facie”. Ou seja, não é possível hierarquizar os princípios de modo a permitir a que se chegue a um único resultado – ou se ter uma “ordem dura”-, mas é viável uma “ordem mole” [...] Admite-se, assim, que os princípios da liberdade e da igualdade jurídicas têm uma prioridade prima facie” (Marinoni: 2010, p. 72). É por este motivo que, “quando, por exemplo, o direito de liberdade de expressão colide com o direito à honra, já existe em favor do direito da liberdade uma carga argumentativa implícita. Assim, caso a argumentação em favor do direito da personalidade não seja capaz de demonstrar que o direito de liberdade deva ceder, isso não ocorrerá. Para que um princípio possa se sobrepor ao princípio da liberdade é preciso uma argumentação mais forte do que a necessária para sustentá-lo” (Idem, p. 130). Liberdade empresa jornalística: como não há democracia em uma economia planificada (sem mercado e autonomia privada), e só há liberdade de expressão em uma democracia, a liberdade de expressão depende necessariamente da garantia de liberdade de empresa jornalística, tutelada pela liberdade de associação; porém, a própria CF limita esta liberdade ao dispor que a empresa jornalística e de radiodifusão sonora ou audiovisual compete privativamente aos brasileiros natos, ou aos naturalizados há mais de dez anos, ou às pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras com “pelo menos setenta por cento do capital total e do capital votante das empresas jornalísticas e de radiodifusão [...] deverá pertencer, direta ou indiretamente, a brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos” (art. 222, § 1º, da CF). Relação entre liberdade de reunião e de expressão: consoante a ADI 4274 (j. em 23/11/2011), decidiu-se que a “marcha da maconha” não pode ser considerado crime pelo art. 33, § 2º, da Lei de Drogas, pois seria afrontoso aos direitos de reunião e de livre expressão do pensamento, previstos na Constituição Federal; outrossim, na ADPF 187 (j. em 15/06/2011) já se havia estabelecido que o art. 287 do CP mereceria interpretação conforme a constituição. Jurisprudência do STF: (1) ADPF 130-7/DF: não recepção “in totum” da Lei de Imprensa, porquanto a não recepção dos seus institutos centrais descaracterizaria o microsistema; (2) RE 511961: dispensou o diploma para o exercício profissional do jornalismo, aplicando o princípio da proporcionalidade; (3) RE 414426: a profissão de músico não está condicionada ao prévio registro ou licença de entidade de classe, em razão do direito de expressão artística; (3) ADI 4274 e ADPF 187: liberdade de reunir e expressar-se pela abolição penal sem que configure alusão criminosa; (4) ADI 2404: classificação indicativa informativa (pendente de julgamento). Esfera pública e discursividade: “O regime democrático é uma garantia geral à realização dos direitos humanos fundamentais” (Afonso da Silva:2001, p. 237), inclusive a liberdade de expressão, mas esta também é ao mesmo tempo uma garantia recíproca da democracia: “[...] a locução liberdade de expressão e comunicação denota um direito fundamental de dimensões subjetiva (garante a auto-realização da dignidade da pessoa humana) e institucional (assegura a formação da opinião pública independente, o pluralismo político e o bom funcionamento do regime democrático)” (Farias:2004, p. 17-18); “é convicção comum [...] que esse papel [papel político da imprensa] tem duas vertentes principais: de um lado, subministrar aquele conjunto de informações acerca da coisa pública, em todos os seus aspectos, necessárias para um responsável exercício dos direitos de cidadania, muito especialmente o de voto; e de outro, exercer constante monitoramente do poder, isto é, atuar como fiscal permanente do governo” (Pereira:2002, p. 42). Liberdade religiosa: “compreende três formas de expressão [...]: (a) liberdade de crença [...] mas também compreende a liberdade de não aderir a religião alguma [...]. (b) liberdade de culto [...] na prática dos ritos, no culto, com suas cerimônias, manifestações [...] na forma indicada pela religião escolhida [...]. (c) Liberdade de organização religiosa [...] diz respeito à possibilidade de estabelecimento e organização das igrejas e suas relações com o Estado” (Silva:2001, p. 251-254). Neste último aspecto, impende destacar a característica laica do Estado e a imunidade tributária como garantia da liberdade religiosa. Resguarda-se o ensino fundamental religioso com matrícula facultativa (art. 210, § 1º)”. Liberdade de associação: objeto do art. 5º, XVII até XXI, da CF. Conceito: “no dizer de Pontes de Miranda – ‘toda coligação voluntária de algumas ou de muitas pessoas físicas, por tempo longo, com o intuito de alcançar algum fim (lícito), sob direção unificante’ [...] Seus elementos são: base contratual, permanência (ao contrário da reunião), fim lícito [...] a ausência de fim lucrativo não parece ser elemento da associação [...] inclui tanto as associações em sentido estrito ([...] de fim não lucrativo) e as sociedades [...] contém quatro direitos: o de criar associação (e cooperativas), que não depende de autorização; o de aderir a qualquer associação [...]; o de desligar-se [...]; o de dissolver espontaneamente a associação [...] Duas garantias coletivas [...]: (a) veda-se a interferência estatal no funcionamento [...] (b) as associações só poderão ser compulsoriamente dissolvidas ou ter suas atividades suspensas por decisão judicial, exigindo-se, no primeiro caso, trânsito em julgado [...] Há duas restrições expressas: [...] não seja para fins lícitos ou de caráter militar. E é aí que [...] autoriza a dissolução por via judicial” (Silva:2001, p. 269-271). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 39 9.b. Norma jurídica e enunciado normativo: identidade versus dualidade. Normas mais do que perfeitas, perfeitas, menos do que perfeitas e imperfeitas. Normas cogentes e normas dispositivas. NORMA JURÍDICA v. ENUNCIADO NORMATIVO: “enunciado normativo correspondea uma proposição jurídica no papel, a uma expressão linguística, a um discurso prescritivo que se extrai de um ou mais dispositivos. Enunciado normativo é o texto ainda por interpretar. Já a norma é o produto da incidência do enunciado normativo sobre os fatos da causa, fruto da interação entre texto e realidade. Da aplicação do enunciado normativo à situação da vida objeto de apreciação é que surge a norma” (Roberto Barroso: 2009, p. 194). O Edital utilizou o termo “enunciado normativo” como equivalente a “texto legal”, disto isto, “norma jurídica é a significação que obtemos a partir da leitura dos textos do direito positivo. Trata-se de algo que se produz em nossa mente [...] Por analogia aos símbolos linguísticos quaisquer podemos dizer que o texto escrito está para a norma jurídica tal qual o vocábulo está para sua significação. Nas duas situações, encontraremos o suporte físico que se refere algum objeto do mundo (significado) do qual extratamos um conceito ou juízo (significação) [...] a norma é um juízo hipotético-condicional (se ocorrer o fato X, então deve ser a prestação Y)” (Barros Carvalho:2007, p. 8-9). Segundo a concepção clássica, “a norma funciona como esquema de interpretação [...] Com o termo ‘norma’ se quer significar que algo deve ser ou acontecer, especialmente que um homem se deve conduzir de determinada maneira [...]” (Kelsen:2000, p. 4-6). Hodiernamente, a norma é vista sob uma realidade dúplice: “Alexy afirma que os princípios são normas que ordenam que algo seja realizado na maior medida possível, dentro das possibilidades jurídicas e fáticas existentes, ao passo que as regras são normas que podem ser cumpridas ou não, uma vez que, se uma regra é valida, há de ser feito exatamente o que ela exige [...] Os princípios apresentam razões que podem ser superadas por razões opostas. A realização dos princípios depende das possibilidades jurídicas e fáticas, que são condicionadas pelos princípios opostos, e assim exigem consideração dos pesos dos princípios em colisão segundo as circunstâncias do caso concreto” (Marinoni: 2010, p. 49-50); “em suma, os princípios são mandados de otimização que se caracterizam pelo fato de poderem ser cumpridos proporcionalmente às condições reais e jurídicas existentes” (Edilsom Farias:2004, p. 48). CLASSIFICAÇÃO DAS LEIS. Quanto à imperatividade: (a) são cogentes as normas que excluem “qualquer arbítrio individual. São aplicadas ainda que pessoas eventualmente beneficiadas não desejasse delas valer-se” (Venosa:2010, p. 13), não podendo ser derrogadas pela vontade das partes; (b) as normas dispositivas podem ser permissivas, quando delegam aos beneficiados o regramento integral da questão por convenção particular; ou supletivas em relação a eventual omissão das partes, caso em que estas normas assumirão caráter de obrigatoriedade, como que reproduzindo uma vontade presumida em razão da omissão. Obs.: (1) a distinção por vezes depende da objetividade jurídica; (2) uma das características do fenômeno da publicização do direito civil refere-se à imperatividade. Classificação quanto à sanção ou autorizamento: (a) são perfeitas as normas que importam em sanção de nulidade ou de anulação do ato jurídico; (b) são mais que perfeitas quando estabelecem tanto a nulidade absoluta ou relativa (que possibilitam o retorno ao “status quo ante”), como importam em aplicação de pena ao infrator, como é o caso dos ilícitos civis que constituem infração penal; (c) menos que perfeitas “são as que autorizam, na sua violação, a aplicação de uma sanção ao violador, mas não a nulidade do ato” (Gagliano e Pamplona:2004, p. 15); (d) as leis imperfeitas “prescrevem uma conduta sem impor sanção. Não existe nulidade para o ato, nem qualquer punição [...] exemplo é o das dívidas prescritas e de jogo (obrigações naturais). Essas dívidas devem ser pagas, porém o ordenamento não concede meio jurídico de obrigar o pagamento” (Venosa:2010, p. 15). Obs.: O art. 166, VII, do CC, estabelece hipótese de nulidade virtual quando a lei “proibir-lhe a prática, sem cominar sanção”. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 40 9.c. Segurança Pública. Comunitarismo. História dos direitos fundamentais no Brasil Segurança pública é a manutenção da ordem pública interna do Estado. A ordem pública interna é o inverso da desordem, do caos, desarmonia social. Ao contrário das Cartas anteriores16, a Constituição de 1988 lhe destinou capítulo específico (art. 144), em que a consta como “dever do Estado” e como “direito e responsabilidade de todos”, com finalidade na “preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio”. Por essa razão, o conceito adequado de segurança pública deve se harmonizar com o princípio republicano e democrático, com os direitos fundamentais e com a dignidade da pessoa humana. O art. 5º da Constituição Federal (caput) eleva a segurança à condição de direito fundamental, que, como os demais listados, devem ser universal 17, igual, não seletivo e não sujeitos ao retrocesso social; e passível de atuação jurisdicional nas políticas públicas de segurança. Das atividades policiais: O texto constitucional de 1988 faz referência a seis modalidades, nas respectivas funções: a) a polícia ostensiva: prevenir e de reprimir de forma imediata a prática de delitos18; b) a polícia de investigação: realiza investigação criminal;19 c) polícia judiciária: executar as diligências solicitadas pelos órgãos judiciais; d) polícia de fronteiras, marítima, aeroportuária: controle do fluxo de pessoas e de bens.20 Dos órgãos: plano federal: a) a Polícia Federal21, b) a Polícia Rodoviária Federal e c) a Polícia Ferroviária Federal22; Estadual: Polícia Civil, Polícia Militar e Corpos de bombeiros militares (incêndios e defesa civil). Do rol de órgãos policiais: o rol do art. 144 é taxativo. Aos Estados é vedado atribuir função policial, por exemplo, ao departamento policial ou criar polícia penitenciária.23 A participação das Forças Armadas: A Constituição não prevê sua participação. Contudo, pela interpretação sistemática dos arts. 142 e 144 e outros dispositivos, conclui-se que a execução, pelas Forças Armadas, nas políticas segurança está destinada a seguintes circunstancias excepcionais: a) estado de defesa ( art. 136); b) estado de sítio (art. 137); c) intervenção federal(art. 34, III); d) a realização de investigações criminais no âmbito de inquérito policial militar (artigos 7º e 8º, b, do Código de Processo Penal Militar (CPPM); e) operações de policiamento ostensivo no interesse nacional, em casos de visitas de chefes de estados estrangeiros(no art. 5º do Decreto nº 3.897/2001)24; f) ações de policiamento ostensivo por solicitação do Governador de Estado, quando os meios no Estado se mostrarem indisponíveis, inexistentes ou insuficientes.(LC nº 97/1999, art. 15, §2)º25 26. Destinação constitucional principal: a defesa da soberania territorial, e de forma subsidiaria lhe cabe a defesa da lei e da ordem. Das guardas municipais:. Não são de órgãos policiais, e têm a função de guarda patrimonial, destinadas à proteção de seus bens, serviços e instalações. Além dessa prerrogativa, os municípios podem atuar na segurança por meio de restrições administrativas: horário de fechamento de bares e restaurantes ou espaços de venda de bebidas alcoólicas. 16 Constituições de 1891 e 1824 eram omissas. As Constituições de 1934, no seu art. 159 e a de 1937, no seu Art. 162, especificavam o seguinte: "Todas as questões relativas à Segurança Nacional serão estudadas e coordenadas pelo Conselho Superior de Segurança Nacional e pelos órgãos especiais criados para atender às necessidades da mobilização.. A Constituição de 1946, no seu Art. 179 especificava que: "Os problemas relativos à defesa do país serão estudados pelo Conselho de Segurança Nacional pelos órgãos especiais das Forças Armadas incumbidosde prepará-las para a mobilização e as operações militares.". A Constituição de 1967, Art. 89 e a Emenda Constitucional nº 1, de 1969, Art. 86 dizia que: "Toda pessoa natural ou jurídica é responsável pela Segurança Nacional, nos limites definidos em lei 17 Por se um serviço universal, inespecífico e indivisível, seu financiamento deve ser por impostos, não de taxas(ADI nº 2.424- STF) 18 A atividade de polícia ostensiva é desempenhada, em geral, pelas polícias militares estaduais (CF, art. 144, §5º)Mas o patrulhamento ostensivo das rodovias e ferrovias federais deve ser realizado, respectivamente, pela Polícia Rodoviária Federal (art. 144, §2º) e pela Polícia Ferroviária Federal (art. 144, §3º). 19 A função é confiada às polícias civis estaduais e à Polícia Federal, no que se refere aos crimes comuns (art. 144, §1º, I, e §4º). 20 Todas exercidas pela Polícia Federal. 21 Art. 144 § 1º: A polícia federal, instituída por lei como órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se a: I - apurar infrações penais contra a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme, segundo se dispuser em lei; II - prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o contrabando e o descaminho, sem prejuízo da ação fazendária e de outros órgãos públicos nas respectivas áreas de competência; III - exercer as funções de polícia marítima, aeroportuária e de fronteiras; IV - exercer, com exclusividade, as funções de polícia judiciária da União.(Para ELA WIECKO a polícia estadual não pode investigar crime federal, mas o contrário é possível – vide questão 113 da prova objetiva) 22 patrulhamento ostensivo de rodovias e ferrovias federais, respectivamente. 23 STF: ADI nº 1.182, Rel. Min. Eros Grau, DJ 10 03. 2006; ADI nº 236, Rel. Min. Octavio Gallotti, DJ 01.06 2001. No entanto, isso não impede os Estados de instituírem órgão de coordenação de políticas de segurança. 24 Art. 5º- O emprego das Forças Armadas na garantia da lei e da ordem, que deverá ser episódico, em área previamente definida e ter a menor duração possível, abrange, ademais da hipótese objeto dos arts. 3º e 4º, outras em que se presuma ser possível a perturbação da ordem, tais como as relativas a eventos oficiais ou públicos, particularmente os que contem com a participação de Chefe de Estado, ou de Governo, estrangeiro, e à realização de pleitos eleitorais, nesse caso quando solicitado.Parágrafo único. Nas situações de que trata este artigo, as Forças Armadas atuarão em articulação com as autoridades locais, adotando-se, inclusive, o procedimento previsto no art. 4º. 25 § 2o A atuação das Forças Armadas, na garantia da lei e da ordem, por iniciativa de quaisquer dos poderes constitucionais, ocorrerá de acordo com as diretrizes baixadas em ato do Presidente da República, após esgotados os instrumentos destinados à preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, relacionados no art. 144 da Constituição Federal. 26 Essa hipótese tem sua constitucionalidade questionada por alguns juristas. Segundo Barroso (2007) a atuação das Forças Armadas nas ações de segurança deve ser interpretada de forma restritiva. A LC 97/1999, art. 15, não prevê o controle pelo Poder Legislativa, tal como para os casos os casos de estado de defesa, estado de sítio e intervenção federal. Por essa razão, significa permitir medidas excepcionais sem observâncias de restrições constitucionais definidas e sem adoção de veículos formais adequados.( BARROSO, Luís Roberto. Forças Armadas e ações de segurança pública: possibilidades e limites à luz da Constituição, Revista de Direito do Estado, v.2 n. 7, 2007). O Ministro Lewandowski (2004,pag.4), quando então desembargador do TJ/SP, em entrevista, disse que o emprego das Forças Armadas deve se limitar às hipóteses de decretação de estado de defesa, estado de sítio e intervenção federal: “A utilização das Forças Armadas para combater a violência urbana, em caráter permanente, é, portanto, inconstitucional, embora seja lícito o seu emprego temporário e limitado, em situações de emergência, claramente caracterizadas. A decisão, entretanto, subordina-se ao prudente arbítrio do Presidente da República, que deverá buscar o respaldo do Legislativo, assim que possível, sob pena de incorrer em crime de responsabilidade. (...) Não se pode esquecer que a função primordial da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, segundo o texto constitucional, é assegurar a defesa da Pátria. A rigor, só quando os órgãos constitucionalmente responsáveis pela preservação da lei e da ordem entrarem em colapso é que as Forças Armadas poderão incumbir-se da tarefa”. (Forças Armadas no combate à violência, RT Informa, n. 31, maio-jun., 2004, p.4). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 41 Da participação popular: por ser “direito e responsabilidade de todos”, a sociedade pode participar na formulação e no controle da gestão das políticas de segurança. É o que acontece, por exemplo, nos conselhos de segurança pública. O tema no Supremo: “O direito a segurança é prerrogativa constitucional indisponível, garantido mediante a implementação de políticas públicas, impondo ao Estado a obrigação de criar condições objetivas que possibilitem o efetivo acesso a tal serviço. É possível ao Poder Judiciário determinar a implementação pelo Estado, quando inadimplente, de políticas públicas constitucionalmente previstas, sem que haja ingerência em questão que envolve o poder discricionário do Poder Executivo.” (RE 559.646-AgR, Rel. Min. Ellen Gracie, julgamento em 7-6-2011, Segunda Turma, DJE de 24-6-2011); “Lei 18.721/2010 do Estado de Minas Gerais, que dispõe sobre o fornecimento de informações por concessionária de telefonia fixa e móvel para fins de segurança pública. Competência privativa da União para legislar sobre telecomunicações. Violação ao art. 22, IV, da Constituição. Precedentes." (ADI 4.401-MC, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 23-6- 2010, Plenário, DJE de 1º-10-2010). Vide: ADI 4.369-MC-REF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 23-6-2010,Plenário, DJE de 4-5-2011. PALAVRAS-CHAVE: segurança - ordem pública e direito fundamental Comunitarismo O tema se insere em um debate filosófico- político entre “liberais” e “comunitarista”. Os liberais são representados por John Rawls (1997,2000) e proclamam a primazia do indivíduo; enquanto os comunitaristas, representados por Charles Taylor (2000) Michael Walzer (1990,2003), defendem a importância das identidades sociais. Sustentam a configuração de valores compartilhados por uma comunidade política, o que justificaria um envolvimento por parte do cidadão, além do momento de participação nas eleições. Segundo Ximenes (2010, p. 7) a Constituição de 1988 possui caráter comunitarista, na medida em que ela expressa os valores e princípios que norteiam a sociedade brasileira. Incorporou-se esta influência comunitarista no próprio preâmbulo da CF/88: os “valores supremos” de uma sociedade “fraterna, plaralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social: direitos sociais e individuais, liberdade, segurança, bem-estar, desenvolvimento, a igualdade e justiça O livro de John Rawls, Uma teoria da Justiça (A Theory of Justice, 1971), é a origem do debate liberal- comunitário e marco do debate sobre as relações entre ética, direito e política. A premissa comunitarista referente ao sujeito é diversa- não se reconhece a pessoa como livre e igual perante as outras, mas se admite o direito à diferença, e da reivindicação política de bens em nome dessa diferença. Reivindica-se uma liberdade participativa do cidadão, da qual se trata de um patriotismo de tradição humanista e cívica, que não é imposta, externamente, como coerção, mas autoimposta, noexercício da diversidade mantida por ideais motivadores, os quais resultam na participação. Nesse contexto, a base crítica comunitarista ao liberalismo é a noção de justiça distributiva, priorizando o bem27, e não os direitos como fazem os liberais. E como para os comunitaristas o bem é determinado a partir de sua especificidade histórica e cultural, surge o conceito de comunidade e o seu vinculo com a noção de participação política. No âmbito dessa concepção filosófica-político, surge o “movimento comunitarista” brasileiro, denominada de “ comunitarismo jurídico. A relação entre eles se dá, no qual a participação do cidadão pode se verificar em três premissas: na abertura constitucional (comunidade de intérpretes)28, na valorização do texto constitucional29 e na noção de Constituição Dirigente, preocupada com as liberdades positivas. O constitucionalismo comunitarista compreende a Constituição como uma estrutura normativa que envolve um conjunto de valores – há uma conexão de sentido entre valores compartilhados por uma determinada comunidade política e a ordenação jurídica fundamental e suprema representada pela constituição, cujo sentido jurídico só pode ser apreciado em relação à totalidade da vida coletiva. Portanto, fica claro a tentativa de criar vínculos “ comunitários” entre os indivíduos. 27 A definição de justiça distributiva a partir do conceito de bem significa a forma pela qual uma comunidade se associa para produzir, compartilhar, dividir e intercambiar bens sociais ( produto dos seus significados sociais) (WALZER,1993). 28 Essa expressão está ligada a teoria da “ sociedade aberta dos intérpretes da Constituição” de PeterH Haberle( 1997), que rejeita uma interpretação exclusivamente, inserindo todos, mesmo aqueles não são diretamente afetados por ela. 29 É o valor atribuído a ao texto constitucional. O próprio surgimento do controle de constitucionalidade concentrado o remete a uma valorização das constituições, a ponto de se exigir a criação de um órgão específico para sua proteção, o Tribunal Constitucional DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 42 O constitucionalismo comunitarista brasileiro deixou suas marcas na CF/88, a partir da previsão de mecanismos de uma cidadania juridicamente participativa para assegurar a efetivação do amplo sistema de direitos. Essa participação seria por meio dos institutos jurídicos, dentre os quais ADI. No âmbito do STF, ao restringir o acesso de cidadãos, representados em suas entidades de classe, não contribui para a concretização do pensamento. O ideal comunitarista pressupõe a “atitude” do cidadão; “todo cidadão é participante em potencial, um político em potencial” (WALZER, 2003, p.425). Conforme ainda Ximenes (2010, p. 99), fecha-se um “ciclo vicioso”: a sociedade se manifesta de forma tímida na defesa de direito de cunho comunitarista, e o Supremo a “ reprime”mais ainda ao interpretar de forma restritiva esta mesma possibilidade de participação e de debate político sobre temas relevantes à idea de cidadania “participativa. PALAVRAS-CHAVE: comunitarismo e participação política História dos direitos fundamentais no Brasil A evolução dos direitos fundamentais, no Brasil, é compreendida pelas constituições brasileiras anteriores, que reflete a positivação deles no âmbito interno. Constituição do Império do Brasil de 1824: a primeira constituição do Brasil e do no mundo a positivar os direitos do homem30. Ocorreu com base no constitucionalismo clássico ou histórico, movimento de idéias em torno do art. 16 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789: Toda sociedade na qual a garantia dos direitos não for assegurada, nem a separação dos poderes determinada, não tem Constituição. Por essa razão, a Carta assegurou a inviolabilidade dos direitos civis e políticos a partir da liberdade, da segurança individual e da propriedade. Constituição de 1891: a primeira republicana, também enumerou os direitos, porém o fez por meio do título Declaração de Direitos e de forma não exaustiva. Inspirada na Carta americana, ampliou os Direitos Fundamentais, dentre os quais estavam a liberdade religiosa; a liberdade de associação sem armas; garantia da ampla defesa aos acusados; abolição das penas de galés, banimento judicial e morte; criação do habeas corpus. No entanto, não havia uma política que efetivasse a proteção desses direitos. Constituição de 1934: inspirada na Constituição de Weimar, promulgando legislação social e do trabalho, porém com traços da Constituição Fascista da Polônia de 1935. Embora de caráter liberal, assegurava os trabalhistas, e também previa os direitos e garantias individuais, os direitos de nacionalidade, os direitos políticos e os direitos sociais e econômicos e sociais do homem, bem como os direitos de subsistência. Constituição de 1937: outorgada após o golpe de Estado, de influência fascista, houve o desaparecimento da democracia e principais direitos fundamentais, como liberdade de imprensa e o direito à livre associação. O art. 123 declarava que os direitos e garantias tinham por "limite o bem público, as necessidades de defesa, do bem estar, da paz e da ordem coletiva, bem como as exigências da segurança da Nação e do Estado em nome dela constituído e organizado nesta Constituição". Assim, todos os direitos fundamentais e garantias constitucionais estavam subordinados aos interesses do Estado, à ordem coletiva e a segurança da Nação, o que legitimava as ações contrárias à dignidade da pessoa humana, Constituição de 1946: com o movimento de redemocratização é retomada as conquista da Constituição de 1934, assegurando o direito à liberdade, segurança individual e propriedade, e acrescenta o direito à vida. Acentuou o sentido social da ordem econômica dispondo que deveria "ser organizada conforme os princípios da justiça social, conciliando a liberdade de iniciativa com a valorização do trabalho humano". Os direitos econômicos e sociais recebem tratamento mais adequado. Constituição de 1967: época da ditadura Militar, em que houve suspensão e supressão de direitos, da mesma forma que a Emenda de 1969; Constituição de 1988(“Constituição Cidadã): em um processo de redemocratização, significa a ruptura com o regime militar (1964 a 1985), havendo "redefinição do Estado brasileiro", bem como de seus direitos fundamentais. Em uma técnica moderna, trata dos direitos e garantias fundamentais, neles incluídos os direitos e deveres individuais e coletivos, os direitos sociais, os direitos da nacionalidade, os direitos políticos e os partidos políticos, além dos títulos da ordem econômica e financeira e da ordem social. PALAVRAS-CHAVE: História e Direitos Fundamentais. 30 E não a da Bélgica de 1831 DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 43 10.a. Interpretação constitucional. Vigência das regras hermenêuticas tradicionais nesse domínio. Existência de critérios específicos nesse domínio. Neoconstitucionalismo: definição e características. Mutações constitucionais e seus limites. Interpretação constitucional, liberdade de configuração do legislador, jurisdição constitucional e controle concreto de constitucionalidade. Neoconstitucionalismo: não se trata de um modelo consolidado. O termo é usado na Espanha e Itália. Duas vertentes: a) modelo constitucional (conjunto de mecanismos normativos e institucionais) – é o constitucionalismo democrático pós-guerra, com a expansão da jurisdição constitucional; e b) teoria, ideologia e método do direito. Neoconstitucionalismo: b.1) teórico: limita-se a descrever os resultados da constitucionalização. Caracterizado por uma constituição ‘invasora’, catálogo de direitos fundamentais, onipresença de princípios e regras,peculiaridades na interpretação/aplicação das suas normas. Afasta a estatalidade, o legicentrismo (a constituição passa a ser norma jurídica vinculante) e o formalismo interpretativo. Há duas vertentes: mantém o método positivista com objeto parcialmente modificado ou propõe uma mudança radical de método (pós-posivismos); b.2) ideológico: põe em 1º plano a garantia dos direitos fundamentais, em detrimento do objetivo da limitação do poder estatal (traço do constitucionalismo ‘clássico’), porque o poder estatal não é visto mais com temor, mas como aliado e necessário à implementação dos direitos fundamentais. Não se limita a descrever, valora positivamente e defende sua ampliação; b.3) Metodológico: especialmente em Alexy e Dworkin, conexão necessária entre direito e moral (leitura moral da constituição). Entronização de valores na interpretação jurídica com o reconhecimento da normatividade dos princípios, reabilitação da razão prática e da argumentação jurídica (Comanducci, 2005). Mutação constitucional. É a alteração da constituição sem alteração de seu texto, em razão de mudanças fáticas (dados da realidade subjacentes ou âmbito normativo) ou hermenêuticas (percepção do Direito); procedida (a) pela jurisprudência lato sensu (diretamente por órgãos públicos), (b) pela edição de atos normativos infraconstitucionais (que alterem o sentido até então conferido à constituição), ou (c) pelos costumes (pela ação das pessoas em sociedade, chancelada expressamente ou não pelo Poder Público). É exercício de um poder constituinte difuso, cuja legitimidade depende de que (a) não ultrapasse os sentidos possíveis do texto e (b) respeite a identidade da constituição (os limites às mudanças formais do texto, que também se aplicam aqui). Interpretação constitucional. As regras hermenêuticas tradicionais aplicar-se-iam nos “casos fáceis”, em que a resposta pode ser encontrada por meio de ato cognitivo pela subsunção, utilizando-se dos cânones gramatical, sistemático, histórico, genético e teleológico. Já os “casos difíceis”, que envolvem normas de conteúdo “aberto” ou princípios antagônicos, de modo em que há respostas diferentes para o mesmo caso, além das regras tradicionais, aplicar-se-iam também critérios específicos da interpretação constitucional, não aplicáveis à interpretação jurídica em geral. Mesmo no âmbito da dogmática tradicional, já havia critérios específicos da interpretação constitucional: supremacia da constituição, presunção de constitucionalidade, interpretação conforme, unidade, razoabilidade/proporcionalidade, máxima eficácia/ efetividade. A “nova hermenêutica” propõe também outros critérios específicos: 1) conceitos jurídicos indeterminados – expressões abertas com início de significação a ser complementado pelo intérprete; 2) normatividade dos princípios – normas que consagram valores ou fins públicos; que indicam estados ideais realizáveis por meio de variáveis condutas; e são mandados de otimização, devendo ser aplicados na maior intensidade possível. Podem ter (a) eficácia direta – positiva, simétrica, quando se aplica sobre os fatos à semelhança de uma regra; (b) eficácia interpretativa – para fixar a correta interpretação das normas em geral; (c) eficácia negativa – invalidade da interpretação contrária; 3) colisões entre normas constitucionais – o intérprete cria a norma jurídica para a resolução do caso a partir dos dados fáticos e das balizas normativas por meio de ponderação, em que fará concessões recíprocas – concordância prática – procurando preservar ao máximo o conteúdo dos interesses em conflito; ou, no limite, escolherá qual prevalecerá no caso, à luz da razoabilidade (que normalmente é um “instrumento para a medida”, a par de às vezes fornecer um critério material); Esquema da ponderação: (a) Selecionar as normas relevantes e identificar eventuais conflitos; (b) examinar os fatos e sua interação com os elementos normativos; (c) ponderar os pesos a serem atribuídos aos elementos normativos e fáticos envolvidos para decidir qual grupo de normas deve prevalecer no caso e, se for possível, graduar a intensidade da solução escolhida; a ponderação é vista como integrante da proporcionalidade ou como princípio autônomo; 4) argumentação jurídica – quando é feita ponderação, aumenta-se a exigência de rigor na argumentação (justificação), segundo uma “razão prática”, devendo o intérprete (a) fundamentar-se em norma jurídica; (b) manter a integridade do sistema (poder generalizar a norma criada para casos equiparáveis); (c) considerar as consequências práticas no mundo fenomênico (Barroso, 2010). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 44 10.b. Elementos da relação jurídica: titular do direito, sujeito obrigado, direito subjetivo, dever jurídico e vínculo jurídico. Ficções legais e presunções legais. RELAÇÃO JURÍDICA: CONCEITO: vínculo abstrato, segundo o qual, por força da imputação normativa, uma pessoa chamada de sujeito ativo, tem o direito subjetivo de exigir de outra, denominada sujeito passivo, o cumprimento de certa prestação, sendo que esta última tem o dever jurídico de adimpli-la. Para Reale é espécie de relação social e tem 2 requisitos: a) vínculo entre 2 pessoas; b) que esse vínculo decorra de uma hipótese normativa. O direito prescreve condutas, estabelecendo relações entre os sujeitos, em virtude da verificação de certos acontecimentos. Jhering: a relação jurídica está para o direito como o alfabeto está para a palavra. ELEMENTOS DA RELAÇÃO JURÍDICA: 1) sujeito ativo; 2) direito subjetivo, 3) sujeito passivo, 4) dever jurídico; 5) vínculo jurídico; 6) objeto. TITULAR DO DIREITO: SUJEITO ATIVO: titular ou beneficiário principal da relação: SUJEITO OBRIGADO: SUJEITO PASSIVO: devedor da prestação principal DIREITO SUBJETIVO: possibilidade jurídica de que é titular o sujeito ativo de exigir o cumprimento da prestação. TEORIAS explicativas: 1) Teoria Individualista (Rousseau); 2) Teoria da Vontade (Savigny, Windscheid); 3) Teoria do Interesse (Jhering); 4) Teoria Eclética ou Mista (Jellinek). DEVER JURÍDICO: obrigatoriedade de que é investido o sujeito passivo de adimplir a prestação. VÍNCULO JURÍDICO: vínculo de atributividade capaz de ligar uma pessoa a outra, de maneira recíproca. OBJETO: razão de ser do vínculo constituído, sobre o que recai a relação. PRESUNÇÃO LEGAL: suposição ou hipótese de conjuntura estabelecida pela lei. Presume uma ocorrência um abstrato. Estabelece como um fato verdadeiro algo que provavelmente é. Lembrar: presunção de constitucionalidade das lei. FICCÇÃO LEGAL: a lei estabelece como verdadeiro um fato que provavelmente é falso. Direito cria sua própria realidade. Ex: aeronave como bem imóvel para fins de hipoteca, horário de verão. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 45 10.c. Municípios. Regiões metropolitanas. Intervenção federal nos Estados e intervenção estadual nos Municípios. Regiões Metropolitanas: Art.25, §3º, da CF. Instituição por meio de lei complementar estadual. Não constitui ente federativo, sendo apenas uma “área de serviços especiais”, de natureza meramente administrativa 31. Não pode invadir a competência/autonomia de entes federados, mormente os Municípios. Pode atingir vários Municípios limítrofes, de um ou mais Estados da Federação, devendo, neste último caso, ser organizada por norma das entidades interessadas. Sua administração pode ser feita por autarquia, estatal, órgão do Estado (Secretarias) ou colegiado de representantes dos entes federados (Comissão ou Conselho). Fere o art.25, §3º, da CF, a previsão, por CE, da necessidade de consulta à população interessada (plebiscito) para a instituição de região metropolitana (ADI 796/ES, 1841/RJ). Intervenção Federal nos Estados, DF: hipóteses previstas taxativamente no art.34, da CF, devem ser interpretadas restritivamente, por tratarem de situação excepcional.Espécies: - espontânea – Presidente da República age de ofício (art.34, I, II, III e V); - provocada por solicitação (art.34, IV e 36, I, primeira parte) – depende de solicitação do Poder Legislativo ou Executivo. - provocada por requisição (art.34, IV, VI, segunda parte, e 36, I, segunda parte) – depende de requisição do STF , STJ ou TSE. Decisão judicial não precisa ter transitado em julgado (STF, IF 94). Se for decisão da Just. Trabalho é competente o STF (IF 230,231,232). Se a decisão não tiver sido apreciada em instância extraordinária, deve ser requerida ao Presidente do TJ, que, se entender for o caso, remete ao STF (IF 105-QO). - ADI Interventiva: (art.34, VII e 36, III, primeira parte): tutela os chamados princípios sensíveis. STF entende que o princípio da dignidade da pessoa humana pode servir de base, no entanto o desrespeito não pode tratar de fato isolado (IF 114/MT). Diferenças com as demais ações de controle de constitucionalidade: Legitimidade apenas do PGR (Gilmar Mendes entende que atua como representante judicial da União32). Não se trata de processo de controle abstrato de normas. Não é processo objetivo, há uma relação processual contraditória entre União e Estado-membro. - Provimento de representação do PGR perante o STF (art.34, VI, 1ª parte e 36, III, 2ª parte): Não é qualquer descumprimento, a intervenção para execução de lei federal se refere àquela recusa à aplicação da lei que gera prejuízo generalizado e em que não cabe solução judiciária para o problema. Competência para decretação: privativa do Presidente da República (art.84, X), previsão de oitiva (sem vinculação) dos Conselhos de República (art.90, I) e Defesa Nacional (art.91, §1º, II). Controle Político: exercido em 24 horas pelo Congresso Nacional, se rejeitar vincula o Presidente, que se descumprir incorre em crime de responsabilidade. Este controle é dispensado nas hipóteses do art.36, §3º. Nestas hipóteses, o decreto limita-se a suspender o ato impugnado, se esta medida for suficiente. Caso não seja, decreta-se a intervenção federal e, neste caso, incide o controle. Nas hipóteses de solicitação e espontânea, o Presidente exerce juízo discricionário, nas demais se encontra vinculado. Intervenção estadual nos Municípios: as hipóteses estão previstas nos incisos do art.35. Em regra, o procedimento é o mesmo da intervenção federal (aplicado o princípio da simetria, ex. competência privativa do Governador). Súmula 637 do STF: não cabe recurso extraordinário contra acórdão de TJ que defere pedido de intervenção estadual em município. ADI Interventiva Estadual: competência do TJ local. Legitimidade Ativa do PGJ. *Intervenção da União nos Municípios sediados em Territórios Federais: embora caracterize intervenção federal, as suas hipóteses de incidência são as mesmas da intervenção estadual (art.35, caput, CF). 31 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Municipal Brasileiro. São Paulo: Malheiros, 2009, pág.84. 32 MENDES, Gilmar Ferreira e outros. Curso de Direito Constitucional. 2 ed. São Paulo: Saraiva, 2008. Pág.1226. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 46 11.a. O Estado. Conceito. História. Elementos: território, população e poder estatal. Estado, direito e sociedade. Características dos Estados modernos. Tipos: monocracia (monarquia e ditadura) e república; teocracia, Estado policial-absolutista; Estado liberal, Estado totalitário moderno e o Estado de direito democrático e social. Características do Estado brasileiro na Constituição de 1988. Conceito: nação politicamente organizada. Elementos constitutivos: povo, território, governo. Estado de direito: institucionalização racional do poder. Monopólio da violência legítima. (WEBER, v. MENDES) Estado de direito: construção linguística alemã (Rechtstaat). Concepção ligada à organização do Estado sob princípios racionais, cujos objetivos são prover liberdade e segurança, afastando ideias transcendentais da origem do estado. Formas de governo: monarquia (hereditariedade e vitaliciedade da chefia do Estado) x república (alteração periódica do chefe de Estado). Classificação dualista que remonta a Maquiavel. Aristóteles dividia as formas de governo em três (monarquia, aristocracia e república, que poderiam se degenerar em tirania, oligarquia e demagogia) – SILVA. República foi utilizada na CR/88 com o sentido de coisa do povo e para o povo, característica específica de uma coletividade política, não apenas oposição à monarquia (SILVA). Sistemas de governo: parlamentarismo x presidencialismo. Formas de Estado: estado unitário x estado federal (repartição do poder dentro de um mesmo território, em que há mais de uma ordem jurídica incidente num mesmo momento – autonomia dos entes federados, oposta à soberania do entre central). Regimes políticos: autocracia (organizada de cima para baixo, princípio do chefe, soberania do governante) x democracia (organizada de baixo para cima, soberania popular). Formação do estado moderno. Início: crise do sistema feudal europeu: concentração do poder político na mão do governante absoluto. Antigo regime: identificação entre o soberano e o estado. Despotismo esclarecido: soberano é o melhor servidor do Estado. Revoluções burguesas: oposição ao absolutismo. Estado liberal: liberação política dos cidadãos. Direitos e garantias individuais. Poder de polícia, defesa externa, administração da Justiça. Privilegia o privado. Estado social: contraste com o individualismo e abstencionismo do Estado liberal. Objetivos sociais do Estado: previdência e saúde públicas, realização de igualdade material, desenvolvimento econômico, intervenção econômica, limitação dos direitos individuais em favor da coletividade, justiça distributiva. Privilegia o público. Estado socialista é um tipo de estado social. Estado de direito democrático e social. Síntese entre constitucionalismo (limitação do poder e supremacia da lei) e democracia (soberania popular e governo da maioria) – BARROSO. Mudança de paradigma, contrário ao paternalismo do estado-providência. Novas articulações entre o público e o privado. Incorpora e supera dialeticamente os estados liberal e social. Estado brasileiro: república federal, estado democrático, plural, inclusivo, fundado na cidadania, na dignidade da pessoa humana e nos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. Participação política efetiva, em todos os níveis da vida social. Respeito à diferença e coexistência de diferentes projetos de vida dignos. Reconhecimento de um núcleo de individualidade intocável e busca da igualdade material. Regime de livre mercado (liberdade no âmbito econômico), com atuação corretiva e de fomento do Estado. Reconhecimento dos direitos da coletividade como um todo. Outros conceitos: Monocracia (centro único de força política): negada pelo pluralismo (liberdade de dissenso). Autocracia (concentração de poder político em uma única pessoa): negada pela participação. As duas negações definem atual democracia (BOBBIO). Ditadura: conceito ligado à onipotência do Estado, ao governo sem suporte popular e à concentração de poder em um grupo ou pessoa. Teocracia: submissão das instituições políticas a uma religião. Governo sob influência direta de uma divindade. Exemplos: Vaticano, Irã. Diferente de estados com religião oficial. Estado policial: tipo de organização baseada no controle rígido e repressivo da população, notadamente por meio de policia política. Limitação de liberdades individuais. Estado totalitário moderno: mobilização da população em torno de uma ideologia oficial. Pretensão de população hegemônica, organizada em torno de um mesmo fim. Estado tendente a controlar todos os aspectos da vida social e privada dos cidadãos. Forte carisma do líder. Exemplos: Alemanha nazista, URSS sob Stálin. Críticos importantes: Popper e Arendt. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICAGI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 47 11.b. Administração Pública: princípios constitucionais. A Administração Pública dialógica. A Constituição consagra, no art. 37, a ideia de que a Administração Pública está submetida, entre outros, ao princípio da legalidade, que abrange o postulado da supremacia da lei e o princípio da reserva legal. A supremacia da lei expressa a vinculação da Administração ao Direito, o postulado de que o ato administrativo que contraria norma legal é inválido. O princípio da reserva legal exige que qualquer intervenção na esfera individual (restrições ao direito de liberdade ou ao direito de propriedade) seja autorizada por lei (art. 5°, II). A utilização de fórmulas legais exageradamente genéricas e a outorga de competência para a sua concretização a órgãos administrativos, mediante expedição de atos regulamentares, podem configurar ofensa ao princípio da legalidade estrita, caracterizando, ademais, ilegítima delegação legislativa. O princípio da impessoalidade consubstancia, por sua vez, consubstancia a ideia de que a Administração, enquanto estrutura composta de órgãos e de pessoas incumbidos de gerir a coisa pública, tem de desempenhar esse munus sem levar em conta interesses pessoais, próprios ou de terceiros, a não ser quando o atendimento de pretensões parciais constitua concretização do interesse geral. Afinal de contas, a otimização da ordem jurídica objetiva não raro se concretiza, precisamente, no respeito e na satisfação de pretensões subjetivas albergadas pelo ordenamento. A reverência que o direito positivo presta ao princípio da moralidade decorre da necessidade de pôr em destaque que, em determinados setores da vida social, não basta que o a agir seja juridicamente correto; deve, antes, ser também eticamente inatacável. Sendo o direito o mínimo ético indispensável à convivência humana, a obediência ao princípio da moralidade, em relação a determinados atos, significa que eles só serão considerados válidos se forem duplamente conformes à eticidade, ou seja, se forem adequados não apenas às exigências jurídicas, mas também às de natureza moral, sob pena da possibilidade de configuração de improbidade administrativa, com as sanções daí decorrentes (art. 37, §4°, da CRFB/88). Norberto Bobbio proclama que, idealmente, democracia é o governo do poder visível ou o governo cujos atos se desenvolvem em público, sob controle da opinião pública. No plano jurídico-formal, o princípio da publicidade aponta para a necessidade de que todos os atos administrativos estejam expostos ao público, que se pratiquem à luz do dia, até porque os agentes estatais não atuam para a satisfação de interesses pessoais, nem sequer da própria Administração, que, sabidamente, é apenas um conjunto de pessoas, órgãos, entidades e funções, uma estrutura, enfim, a serviço do interesse público. Introduzido no texto da Constituição de 1988 pela Emenda n. 19/98, o princípio da eficiência consubstancia a exigência de que os gestores da coisa pública não economizem esforços no desempenho dos seus encargos, de modo a otimizar o emprego dos recursos que a sociedade destina para a satisfação das suas múltiplas necessidades; numa palavra, que pratiquem a "boa administração”, de que falam os publicistas italianos. Nos Estados burocráticos-cartoriais, o princípio da eficiência configura um brado de alerta, uma advertência mesmo, contra os vícios da máquina administrativa, sabidamente tendente a privilegiar-se, na medida em que sobrevaloriza os meios, em que, afinal, ela consiste, sacrificando os fins, em razão dos quais vem a ser instituída. Ao lado dos princípios gerais expostos, a doutrina reconhece os princípios da livre concorrência aos cargos públicos; da licitação/concorrência para a realização de obras e serviços públicos; e da responsabilidade civil do Estado. Quanto à natureza contratual e dialógica da Administração, Gustavo Justino de Oliveira e Cristiane Schwanka explicam que, “com a ascensão de fenômenos como o Estado em rede e a Governança Pública, emerge uma nova forma de administrar, cujas referências são o diálogo, a negociação, o acordo, a coordenação, a descentralização, a cooperação e a colaboração. Assim, o processo de determinação do interesse público passa a ser desenvolvido a partir de uma perspectiva consensual e dialógica, a qual contrasta com a dominante perspectiva imperativa e monológica, avessa à utilização de mecanismos comunicacionais internos e externos à organização administrativa. “Trata-se da Administração Consensual, a qual marca a evolução de um modelo centrado no ato administrativo (unilateralidade) para um modelo que passa a contemplar os acordos administrativos (bilateralidade e multilateralidade). Sua disseminação tem por fim nortear a transição de um modelo de gestão pública fechado e autoritário para um modelo aberto e democrático, habilitando o Estado contemporâneo a bem desempenhar suas tarefas e atingir os seus objetivos, preferencialmente, de modo compartilhado com os cidadãos.” DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 48 11.c. Espécies de direitos subjetivos: direitos de personalidade direitos absolutos, direitos relativos, direitos potestativos ou de conformação; direitos de família; direitos disponíveis e direitos indisponíveis. Direitos coletivos e interesses difusos. Direitos individuais homogêneos. 1 - Espécies de direito subjetivo em sentido estrito (poder de exigir de outrem um comportamento). 1.1 - direitos de personalidade: direitos subjetivos que irradiam da personalidade, sem expressão econômica intrínseca, e permitem que a pessoa defenda o que lhe é próprio, no aspecto físico, moral e intelectual. Cláusula geral de tutela da personalidade: princípio da dignidade humana (art. 1º, III, CR). 1.2 - direito absoluto vs. direito relativo: quanto à eficácia, o poder de agir e legitimamente exigir determinado comportamento pode impor-se a todos (direito subjetivo absoluto), ou a apenas certa(s) pessoa(s). 1.3 - direitos de família: direitos subjetivos privados que exprimem direitos e deveres da pessoa em razão de sua posição na família. 1.4 - direitos disponíveis vs. direitos indisponíveis: diversamente dos últimos, os primeiros podem ser objeto de atos de disposição por parte do titular. 2 - Direito potestativo ou de conformação (sinônimo): “O direito potestativo distingue-se do direito subjetivo [em sentido estrito]. A este contrapõe-se um dever, o que não ocorre com aquele, espécie de poder jurídico a que [...] corresponde [...] uma sujeição [...]. Como não lhe corresponde um dever, não é suscetível de violação e, por isso, não gera pretensões.” Também chamado de “direito de (con)formação”, porque permite ao titular “modificar, de modo unilateral, uma situação subjetiva de outrem, que [...] deve apenas sujeitar-se” ou conformar-se (p. 237). Exemplo: revogar procuração. 3 - Direitos coletivos vs. interesses difusos: “Interesses difusos são aqueles que abrangem número indeterminado de pessoas unidas pelas mesmas circunstâncias de fato e coletivos aqueles pertencentes a grupos, categorias ou classes de pessoas determináveis, ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica base. A indeterminidade é a característica fundamental dos interesses difusos e a determinidade a daqueles interesses que envolvem os coletivos.” (RE 163.231, Rel. Min. Maurício Corrêa, julgamento em 26-2-1997, Plenário, DJ de 29-6-2001.) 4 - Direitos individuais homogêneos: “O Ministério Público tem legitimidade ativa para a defesa, em juízo, dos direitos e interesses individuais homogêneos, quando impregnados de relevante natureza social, como sucede com o direito de petição e o direito de obtenção de certidão em repartições públicas” (RE 472.489-AgR). Súmula 643 do STF: “O MINISTÉRIO PÚBLICO TEM LEGITIMIDADE PARA PROMOVER AÇÃO CIVIL PÚBLICA CUJO FUNDAMENTO SEJA A ILEGALIDADE DE REAJUSTEDE MENSALIDADES ESCOLARES.” “Certos direitos individuais homogêneos podem ser classificados como interesses ou direitos coletivos, ou identificar-se com interesses sociais e individuais indisponíveis. Nesses casos, [...] legitimado o Ministério Público para a causa. CF, art. 127, caput, e art. 129. O Ministério Público não tem legitimidade para aforar ação civil pública para o fim de impugnar a cobrança e pleitear a restituição de imposto [...] pago indevidamente, [...] dado que, tratando-se de tributos, não há, entre o sujeito ativo (poder público) e o sujeito passivo (contribuinte) uma relação de consumo [...], nem seria possível identificar o direito do contribuinte com 'interesses sociais e individuais indisponíveis'.” (CF, art. 127, caput). (RE 195.056). PALAVRAS-CHAVE: Poder de exigir um comportamento. Direito de a pessoa defender o que lhe é próprio. Poder de sujeição. Indeterminabilidade e fato comum. Determinabilidade e relação jurídica base. Direito individual homogêneo indisponível ou com relevo social (mensalidade escolar). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 49 12.a. Controle de constitucionalidade: evolução histórica do sistema brasileiro. Legitimidade. A Constituição de 1824 não contemplava qualquer sistema assemelhado aos modelos hodiernos de controle de constitucionalidade. A influência francesa ensejou que se outorgasse ao Poder Legislativo a atribuição de “fazer leis, interpretá-las, suspendê-las e revogá-las”, bem como “velar na guarda da Constituição” (art. 15, n. 8° e 9°). Era a consagração de dogma da soberania do Parlamento, à sombra da existência do Poder Moderador. Não havia lugar, nesse sistema, para o mais incipiente modelo de controle judicial de constitucionalidade. O regime republicano inaugura uma nova concepção. A influência do direito norte-americano parece ter sido decisiva para a consolidação do modelo difuso, consagrado já na chamada Constituição provisória de 1890 (Decreto n. 848, de 11-10-1890), e incorporado na Constituição de 1891. Consolidou-se amplo sistema de controle difuso no Direito brasileiro, sendo inequívoca, à época, a consciência de que esse exame não se havia de fazer in abstracto. A Constituição de 1934 introduziu profundas e significativas alterações no nosso sistema de controle de constitucionalidade. A par de manter as disposições contidas na Constituição de 1891, o constituinte determinou que a declaração de inconstitucionalidade somente poderia ser realizada pela maioria da totalidade dos membros dos tribunais (reserva de plenário). Por outro lado, consagrava a competência do Senado para “suspender a execução, no todo ou em parte, de qualquer lei ou ato, deliberação ou regulamento, quando hajam sido declarados inconstitucionais pelo Poder Judiciário”, emprestando efeito erga omnes à decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal. Talvez a mais fecunda e inovadora alteração introduzida pelo Texto Magno de 1934 se refira à declaração de inconstitucionalidade para evitar a intervenção federal, i.e., a representação interventiva, confiada ao Procurador-Geral da República, nas hipóteses de ofensa a específicos princípios elencados na Constituição. A Carta de 1937 traduz um inequívoco retrocesso no sistema de controle de constitucionalidade. Embora não tenha introduzido qualquer modificação no modelo difuso de controle, o constituinte rompeu com a tradição jurídica brasileira, consagrando princípio segundo o qual, no caso de ser declarada a inconstitucionalidade de uma lei que, a juízo do Presidente da República, fosse necessária ao bem-estar do povo, à promoção ou defesa do interesse nacional de alta monta, poderia o Chefe do Executivo submetê-la novamente ao Parlamento. Confirmada a validade da lei por 2/3 dos votos em cada uma das Câmaras, tornava-se insubsistente a decisão do Tribunal. O Texto Magno de 1946 restaura a tradição do controle judicial no Direito brasileiro. Preservou-se a exigência da maioria absoluta dos membros do Tribunal para a eficácia da decisão declaratória de inconstitucionalidade. Manteve-se, também, a atribuição do Senado para suspender a execução da lei declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal. A Constituição de 1946 emprestou, ademais, nova conformação à ação direta de inconstitucionalidade, introduzida, inicialmente, no Texto Magno de 1934. Atribuiu-se ao Procurador-Geral da República a titularidade da representação de inconstitucionalidade, para os efeitos de intervenção federal, no caso de violação de princípios sensíveis. A intervenção subordinava-se, nessa hipótese, à declaração de inconstitucionalidade do ato pelo Supremo Tribunal Federal. A Emenda n. 16, de 26-11-1965, instituiu, ao lado da representação interventiva, e nos mesmos moldes, o controle abstrato das normas estaduais e federais. Consagrou-se o modelo de exame in abstracto, sob a forma de uma representação que haveria de ser proposta pelo Procurador-Geral da Republica. Somou-se, pois, aos mecanismos já existentes um instrumento destinado a defender diretamente o sistema jurídico objetivo. A Constituição de 1967 não trouxe grandes inovações ao sistema de controle de constitucionalidade. Manteve-se incólume o controle difuso. A ação direta de inconstitucionalidade subsistiu, tal como prevista na Constituição de 1946, com a Emenda n. 16/65. A Constituição de 1988 amplia significativamente os mecanismos de proteção judicial, e assim também o controle de constitucionalidade das leis. Preservou a representação interventiva, destinada à aferição da compatibilidade de direito estadual com os princípios sensíveis. Combina o modelo tradicional de controle incidental de normas, os vários instrumentos de defesa de direitos individuais, como o habeas corpus, mandado de segurança, habeas data, mandado de injunção, com as ações diretas de inconstitucionalidade e de constitucionalidade, a ação direta por omissão e a arguição de descumprimento de preceito fundamental. A grande mudança vai-se verificar no âmbito do controle abstrato de normas, com a criação da ação direta de inconstitucionalidade de lei ou ato normativo estadual ou federal. O constituinte ampliou o rol de legitimados ativos, de modo a contemplar o Presidente da República, a Mesa do Senado Federal, a Mesa da Câmara dos Deputados, a Mesa de uma Assembleia Legislativa, o Governador do Estado, o Procurador-Geral da República o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, partido político com representação no Congresso Nacional, as confederações sindicais e as entidades de classe de âmbito nacional. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 50 12.b. Nacionalidade brasileira. Condição jurídica do estrangeiro. Refugiados. Asilo político. Nacionalidade brasileira. A nacionalidade é um vínculo político e pessoal entre o Estado e o indivíduo. O direito à nacionalidade, consagrado como direito humano na DUDH (art. 15) e na Convenção de São José da Costa Rica (art. 20), é matéria constitucional no plano doméstico. A Convenção de Haia (1930) proclama a liberdade do Estado para determinar quais são seus nacionais, contudo, tal determinação só é oponível aos demais Estados quando revestida de um mínimo de efetividade (idioma, filiação, residência, etc), sob pena de poder ser negado o reconhecimento do vínculo patrial (caso Nottebohm) (REZEK, 2010, p. 293). A CR/88, fundada no critério territorial (jus soli), considera brasileiros natos (nacionalidade originária) os nascidos no Brasil, ainda que de pais estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país (o serviço deve ser público e afeto ao país da nacionalidade dos pais). Adotou o sistema jus sanguinis ao prever como brasileiros natos os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço do Brasil (compreende todo encargo derivado dos poderes da União, Estados eMunicípios, suas autarquias, e o serviço de organização internacional de que a República faça parte – REZEK, 2010, p. 192-3). São, ainda, brasileiros natos os nascidos no estrangeiro de pai ou mãe brasileira, desde sejam registrados em repartição brasileira competente ou venham a residir no Brasil e optem, a qualquer tempo, pela nacionalidade brasileira (EC 54/2007). São brasileiros naturalizados (nacionalidade derivada) aqueles que venham a adquirir a nacionalidade brasileira, possuindo todos os direitos do brasileiro nato, salvo o acesso a cargos públicos eminentes (CF, art. 12, §3º) e a garantia de não extraditabilidade (CF, art. 5º, LI). Para a naturalização, exigem-se dos originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral (CF, art. 12, II, a); dos estrangeiros de qualquer nacionalidade, residência no Brasil há mais de 15 anos ininterruptos e inexistência de condenação criminal (CF, art. 12, II, b); dos estrangeiros que não cumprirem tais requisitos, reclamam-se quatro anos de residência no Brasil, idoneidade, boa saúde e domínio do idioma, podendo o prazo de residência ser reduzido para 1 ano se o naturalizado tiver filho ou cônjuge brasileiro, for filho de brasileiro ou houver prestado ou puder prestar serviço relevante ao Brasil (Lei 6.815/80, art. 113). A perda da nacionalidade, que pode atingir brasileiro nato e naturalizado, ocorre com a aquisição voluntária de outra nacionalidade, salvo no caso de imposição de naturalização, pela norma estrangeira, ao brasileiro residente no exterior como condição de permanência em seu território ou para exercício de direitos civis. O naturalizado pode perder sua nacionalidade em razão de exercício de atividade contrária ao interesse nacional, mediante decisão judicial transitada em julgado. Aos portugueses com residência permanente no Brasil, se houver reciprocidade em favor de brasileiros (Decreto 3.927/01), serão atribuídos os direitos inerentes aos brasileiros, ressalvados os casos nele previstos (MENDES, 2010, p. 845). Condição jurídica do estrangeiro. Além dos direitos e garantias da pessoa humana, reconhece-se ao estrangeiro o gozo dos direitos civis, com exceção do direito a trabalho remunerado - restrito aos estrangeiros residentes -, e dos direitos políticos. A EC 19/98 permitiu a admissão de estrangeiros no serviço público nos termos da lei, especialmente nas instituições universitárias de ensino e pesquisa (CF, art. 37, I, e 207, §1º). A aquisição de imóvel por estrangeiro, embora condicionada, é assegurada até mesmo na faixa de fronteira (CF, art. 190). O direito de pesquisa e lavra de recursos minerais e aproveitamento dos potenciais de energia hidráulica é exclusivo de brasileiro ou empresa constituída sob as leis brasileiras e que tenha sua sede e administração no país (CF, art. 176, §1º). Da mesma forma, a propriedade de empresa de radiodifusão sonora de sons e imagens restringe-se a brasileiro nato ou naturalizado há mais de 10 anos (CF, art. 222) ou a pessoa jurídica constituída sob as leis brasileiras e que tenha sede no país. Refúgio: é medida de caráter humanitário, que confere proteção de um Estado a estrangeiro, vítima de perseguição baseada em motivos religiosos, raciais, de nacionalidade, de grupo social e de opiniões políticas (Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951 e seu Protocolo). É aplicado a casos em que a perseguição tem aspecto generalizado. Para sua concessão, basta o fundado temor de perseguição. A Lei 9.474/97 dispõe sobre o Comitê Nacional para os Refugiados – CONARE e o processo de refúgio no Brasil. Asilo político: é medida de caráter político, em que o Estado confere acolhimento a estrangeiro perseguido em virtude de dissidência política, de delitos de opinião, ou de crimes que não configuram quebra do direito penal comum. Normalmente, é empregado em casos de perseguição política individualizada. O asilo político, na sua forma acabada, é territorial: concede-o o Estado àquele estrangeiro que, havendo cruzado a fronteira, colocou-se no âmbito espacial de sua soberania e aí requereu o benefício. Seus pressupostos são a natureza política dos delitos atribuídos ao fugitivo e a atualidade da persecução (estado de urgência). O asilo diplomático tem os mesmos pressupostos, mas é forma provisória de asilo político, só praticado na América Latina. A autoridade asilante reclamará da autoridade local a expedição de um salvo-conduto com que o asilado possa deixar em condições de segurança o Estado territorial para encontrar abrigo definitivo no Estado que se dispõe a recebê-lo (REZEK, 2010, p. 221-5). A concessão tanto de asilo como de refúgio é decisão discricionária do Estado e não está sujeita à reciprocidade. PALAVRAS-CHAVE: DIREITO HUMANO; JUS SANGUINIS; JUS SOLI; NATURALIZAÇÃO; PERSERGUIÇÃO GENERALIZADA /INDIVIDUAL; TERRITORIAL/DIPLOMÁTICO. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 51 12.c. Servidores públicos: princípios constitucionais. Servidores públicos: princ. constitucionais. Além dos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, que devem pautar os atos dos servidores públicos (CF, art. 37, caput), a Constituição previu princípios específicos a esses agentes. 1) Regime Jurídico Único (CF, art. 39, caput): segundo entendimento majoritário33, confere à pessoa federativa a opção pelo regime estatutário ou trabalhista, mas, uma vez feita a opção, o regime deverá ser o mesmo para a Adm. Direta, autarquias e fundações de direito público. Previsto na redação originária da CF/88, foi abolido pela EC 19/98, mas retornou com a concessão de medida cautelar na ADI 2135. 2) Acessibilidade por concurso público (CF, art. 37, I): baseada nos princípios da igualdade, da moralidade e da competição, a Constituição determina o acesso aos cargos, funções e empregos públicos, da Adm. Direta e Indireta34, mediante concurso público35 de provas ou de provas e títulos, com validade de até dois anos, prorrogáveis uma vez, por igual período (art. 37, III). São exceções constitucionais ao examinado princípio: a nomeação para cargos de provimento em comissão (art. 37, II); a investidura dos integrantes do quinto constitucional nos Tribunais (art. 94), dos membros dos Tribunais de Contas (art. 73, §§2º e 3º), dos Ministros do STF (art. 101, par. único) e do STJ (art. 104, par. único); o aproveitamento e ex-combatentes que tenham efetivamente participado de operações bélicas durante a 2ª Guerra Mundial (ADCT, art. 53, I) e a contratação para o atendimento de necessidade temporária de excepcional interesse público (art. 37, IX). 3) Proibição de acumulação remunerada (CF, art. 37, XVI e XVII): veda-se a acumulação remunerada de cargos, funções ou empregos na Adm. Direta e Indireta, ressalvada a acumulação de dois cargos de professor; de um cargo de professor com outro técnico ou científico; de dois cargos ou empregos privativos de profissionais de saúde com profissões regulamentadas; de juiz e de membro do MP com outro de magistério (CF, art. 95, par. único, e art. 128, §5º, II, “d”), desde que haja compatibilidade de horários e respeito ao teto de remuneração. 4) Estabilidade (CF, art. 41): é o direito de permanência no serviço público, adquirido pelo servidor estatutário após três anos de efetivo exercício e aprovação em avaliação especial de desempenho (art. 41, §4º). Adquirida a estabilidade, o servidor só pode ser demitido36 através de sentença judicial transitada em julgado (art. 41, §1º, I), processo administrativo (art. 41, §1º, II) ou procedimento de avaliação periódica de desempenho (art. 41, §1º, III), assegurada sempre a ampla defesa O servidor estável pode ser exonerado por excesso de quadro, quando forem insuficientes a redução de 20% das despesas com cargos em comissão ou função de confiança e a exoneração de servidores não estáveis com vistas a adequar as despesas de pessoal à LC 101/2000 (CF, art. 169, §4º). 5) Sistema constitucionalde remuneração: a) a remuneração dos servidores públicos, inclusive sob a forma de subsídio, somente poderá ser fixada ou alterada por lei específica, observada a iniciativa privativa em cada caso, assegurada a revisão geral anual sempre na mesma data, sem distinção de índices (CF, art. 37, X); b) a garantia de irredutibilidade protege o servidor contra a redução direta de seus vencimentos37, não se estendendo, contudo, às reduções indiretas decorrentes da inflação e incidência de tributos (CF, art. 37, XV); c) para evitar aumentos em cadeia, veda-se a vinculação ou equiparação de qualquer espécie remuneratória para o efeito de remuneração de pessoal do serviço público (CF, art. 37, XIII); d) a EC 41/03 estabeleceu limites máximos para a remuneração e o subsídio dos ocupantes de cargos, funções e empregos públicos, percebidos cumulativamente ou não e incluídas as vantagens pessoais ou de qualquer outra natureza38 (CF, art. 37, XI), aplicáveis à Adm. Direta e Indireta, abrangendo as empresas públicas, sociedades de economia mista e suas subsidiárias, desde que recebam recursos públicos para pagamento de despesas com pessoal ou custeio em geral. Fixou-se como teto geral para todos os Poderes da União, Estados, DF e Municípios o subsídio mensal dos Ministros do STF. Como subtetos foram fixados, nos Municípios, o subsídio do Prefeito; nos Estados e DF39, varia conforme se trate de servidor do Legislativo (Deputados estaduais), do Executivo (Governador) ou do Judiciário (Desembargadores do TJ), este último aplicável ao MP, Procuradores e Defensores Públicos. e) proíbe-se que os acréscimos pecuniários percebidos por servidor sejam computados ou acumulados para fins de concessão de acréscimos ulteriores (CF, art. 37, XIV). 6) Direito de greve e sindicalização (art. 37, VI e VII40): reconhece-se aos servidores direito à livre associação sindical e de greve a ser exercido nos termos e limites definidos em lei específica. PALAVRAS-CHAVE: RJU; CONCURSO; ACUMULAÇÃO; REMUNERAÇÃO 33 Adotado, dentre outros, por Maria Sylvia Z. Di Pietro, Celso Antônio B. de Mello e José dos Santos Carvalho Filho 34 Apesar de as empresas públicas e as sociedades e economia mista estarem sujeitas à admissão por concurso, na hipótese de serem constituídas para exploração de atividade econômica, devem dispor de liberdade para a contratação direta de seus empregados quando o concurso tolher a possibilidade de captarem profissionais especializados ou quando bloquear o desenvolvimento de suas normais atividades (CF, art. 173, §1º, II). (MELLO, p. 280-6 e CARVALHO FILHO, p. 572-602) 35 A EC 51/06 previu a admissão de agentes comunitários de saúde e agentes de combate a endemias mediante processo seletivo público (CF, art. 198, §5º), que terá de apresentar características similares as de um concurso público, podendo apenas simplificá-lo naquilo que não interfira com a necessária publicidade, igualdade e possibilidade de aferirem a lisura do certame. (MELLO, p. 280-6 e CARVALHO FILHO, p. 572-602) 36 Se for irregularmente demitido, tem direito à reintegração, e quem lhe ocupava o lugar será reconduzido ao cargo de origem, sem direito a indenização, aproveitado em outro ou posto em disponibilidade com remuneração proporcional ao tempo de serviço (CF, art. 42, §2º). De acordo com a Súmula 21 do STF, o desligamento de servidor ainda não estável, isto é, em estágio probatório, não é livre, pois depende de inquérito ou formalidades legais de apuração de sua capacidade (MELLO, 290-1). 37 Não se incluem os adicionais e gratificações de caráter específico e transitório (CARVALHO, 2011, p. 682). 38 Conforme a EC 47/05, não se computam no teto as parcelas de caráter indenizatório previstas em lei (art. 37, §11º) 39 Com a EC 47/05, foi facultado aos Estados e ao DF, mediante emenda às CE e LO, adotarem um único paradigma como limite: os subsídios dos desembargadores do TJ salvo para os Deputados e Vereadores que seguem a regra do art. 37, XI, da CF. 40 Norma esta que era tida como de eficácia limitada pelo STF até julgamento do MI 708, em que se propôs solução à omissão legislativa com a aplicação da Lei 7.783/89 (MELLO, 286-7). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 52 13.a. Disposições constitucionais transitórias: conceitos e limites. Recepção. Inconstitucionalidade superveniente. ADCT: natureza jurídica de norma constitucional (elemento formal de aplicabilidade, segundo José Afonso da Silva). Poderá, assim, trazer exceções às regras colocadas no corpo da Constituição, já que têm a mesma natureza destas. RECEPÇÃO: é a revalidação de normas que não desafiam materialmente a Constituição. Segundo Kelsen, apenas o conteúdo dessas normas permanece o mesmo, não o fundamento de sua validade. (As leis não continuam válidas, e sim passam a ser leis novas, com fundamento de validade na nova CF). A recepção pode ser expressa (art. 183 da CF/37) ou implícita. A diferença de forma não repercute negativamente quanto a um juízo de recepção. A forma é regida pela lei da época do ato (tempus regit actum), sendo irrelevante para a recepção. Basta, assim, que o tema, quanto ao seu conteúdo, seja acolhível sob o prisma da nova ordem constitucional. Por isso, apesar de não existir mais o decreto-lei, ainda são aplicáveis várias normas que foram concebidas sob esta forma. Ex: CP, CPP. Da mesma forma, o CTN, que cuida de normas gerais de direito tributário por lei ordinária (quando nem havia previsão de LC na CF então vigente), foi recepcionado. Fala-se que o CTN foi recebido como lei complementar, o que significa dizer que ele, no que concerne a normas gerais de direito tributário, só pode ser modificado por lei complementar. Importante: deve haver compatibilidade formal e material da lei pré-constitucional à CF anterior. INCONSTITUCIONALIDADE SUPERVENIENTE Lei pós-88 que nasceu constitucional, mas que deixa de ser compatível com a CF em função de emenda. Com a emenda, ocorre uma aparente inconstitucionalidade superveniente. A doutrina discute também a possibilidade de inconstitucionalidade superveniente em razão de mutação constitucional, ou seja, em função de mudança do sentido interpretativo de uma norma. Ou seja, a lei permanece, mas muda-se a interpretação. Ex: mudança no entendimento do conceito de mulher honesta. Para Gilmar Mendes, haveria inconstitucionalidade somente. NÃO-RECEPÇÃO: REVOGAÇÃO OU INCONSTITUCIONALIDADE SUPERVENIENTE? Entende o STF que a hipótese de não-recepção corresponde a uma revogação (ADI nº 2, Rel. Min. Paulo Brossard). O raciocínio do ministro se baseou no fato de que não há nulidade absoluta, pois a lei anterior não é nula desde sempre, já que ela era válida sob a égide da CF anterior, mas passou a ser incompatível com a nova CF; logo, não caberia falar em inconstitucionalidade. O voto vencido foi o do Min. Sepúlveda Pertence, que sustentava ser caso de inconstitucionalidade superveniente, já que a incompatibilidade da lei anterior com a nova CF não se resolveria pelo critério cronológico, e sim pelo critério hierárquico (posição do direito italiano e português). A importância desse entendimento reside nas seguintes consequências práticas: a - Não cabe ADI contra a lei anterior à nova CF. Como a ADI se presta a declarar a inconstitucionalidade, não se mostra instrumento apto para atacar aquela lei anterior; b – Não é necessária a apreciação da não-recepção por quórum especial (art. 97 da CF – cláusula de reserva de plenário). Se fosse caso de inconstitucionalidade, toda vez que houvesse essa possibilidade, deveria ser suscitada a inconstitucionalidade para deslocamento ao plenário. Considerando ser caso de revogação, o problema se resumirá a um juízo sobre a persistência da norma no tempo; c - Outro efeito está ligado à questão da modulação de efeitos. Por se tratar de revogação, o STF entende que não é cabívela modulação. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 53 13.b. Regime constitucional da propriedade: função socioambiental. Direito adquirido, expectativa de direito e mudanças sociais. DIREITO DE PROPRIEDADE: direito fundamental de âmbito marcadamente normativo. Necessidade de conformação legal. A função social da propriedade assume relevo no estabelecimento na conformação ou limitação desse direito. Apresenta-se como garantia institucional e como direito subjetivo. Âmbito de proteção: a base da subsistência e do poder de autodeterminação do homem moderno não é mais a propriedade em sentido tradicional, mas o próprio trabalho e o sistema previdenciário e assistencial instituído e gerido pelo Estado (Hesse). Proteção que vai além da propriedade privada em sentido estrito, abrangendo também relações patrimoniais de uma maneira geral. Definição e limitação: disposições legais têm caráter constitutivo (conformação). O poder de conformação não é absoluto por parte do legislador, deve observar o núcleo essencial desse direito (limites dos limites – proporcionalidade). Núcelo essencial: utilidade privada e poder de disposição. PRINCÍPIO DA FUNÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA PROPRIEDADE Pode ser extraído da CF e do Código Civil (art. 1228, § 1º). Propõe que o exercício da propriedade não pode gerar prejuízos a terceiros e, muito menos, ao meio ambiente. Permite-se a estipulação de limitações administrativas. Segundo o art. 186 da CR/88, por exemplo, a função social da propriedade rural é cumprida quando ela atende à utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente. STF: A própria Constituição da República, ao impor ao poder público o dever de fazer respeitar a integridade do patrimônio ambiental, não o inibe, quando necessária a intervenção estatal na esferal dominial privada, de promover a desapropriação de imóveis rurais para fins de reforma agrária, especialmente porque um dos instrumentos de realização da função social da propriedade consiste, precisamente, na submissão do domínio à necessidade de o seu titular utilizar adequadamente os recursos naturais disponíveis e de fazer preservar o equilíbrio do meio ambiente (CF, art. 186, II), sob pena de, em descumprindo esses encargos, expor-se à desapropriação-sanção a que se refere o art. 184 da Lei Fundamental." (MS 22.164, Rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 30-10-95, DJ de 17-11-95) DIREITO ADQUIRIDO, EXPECTATIVA DE DIREITO E MUDANÇAS SOCIAIS DIREITO ADQUIRIDO: consideram-se adquiridos os direitos que o seu titular, ou alguém por ele, possa exercer, como aqueles cujo começo de exercício tenha termo prefixo, ou condição preestabelecida inalterável a arbítrio de outrem (art. 6º da LICC). Garantia constitucional ou infraconstitucional? Sustentam alguns que seria infraconstitucional, por haver previsão no art. 6º da LICC (Limongi França). O STF decidiu em sentido diverso: a questão é puramente constitucional, pois não se pode interpretar a CR com base na lei, dado que o nosso sistema de vedação da retroatividade é de cunho constitucional (RE 226.855). A doutrina do direito adquirido não preserva as posições pessoais contra as alterações estatutárias, as revisões ou até mesmo a supressão de institutos jurídicos. O princípio do direito adquirido é insuficiente para proteger situações relacionadas a direitos de perfil marcadamente institucional (ex: liberdade de associação) ou real, por exemplo. Ex: não há direito adquirido a regime jurídico. A segurança jurídica, ao revés, mais ampla, vem sendo bastante acolhida, e abrange as expectativas legítimas. Assim, uma alteração legislativa que implique a mudança de situações consolidadas, mesmo quando não ofenda o direito adquirido (ex: alteração de regime jurídica) deve preocupar-se com regras de transição, sob pena de haver uma omissão inconstitucional grave. Não é possível invocar o direito adquirido contra a Constituição, pois o Poder Constituinte Originário é inicial, ilimitado. As normas constitucionais são dotadas de eficácia retroativa mínima, alcançando efeitos futuros de um fato passado. Respeitam-se apenas – exceto se a CF expressamente declarar o contrário – os efeitos que ocorreram antes da vigência do novo texto constitucional. Ex: situação era permitida, ato produz efeitos ao longo do tempo – quando vem a nova CF, que proíbe este ato, mesmo que ele tenha sido praticado antes, os seus efeitos não poderão ser mais observados a partir da promulgação da segunda. Expectativa de direito: configura-se por uma conseqüência de elementos constitutivos, cuja aquisição é feita gradativamente, por isso não se trata de um fato jurídico que provoca instantaneamente a aquisição de um direito. O direito está em formação e constitui-se quando o ultimo elemento advém. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 54 13.c. Princípio da isonomia. Ações afirmativas. O pluralismo. PRINCÍPIO DA ISONOMIA 1ª fase: igualdade formal; 2ª fase: igualdade material; 3ª fase: igualdade como reconhecimento. Igualdade formal: prevaleceu no constitucionalismo liberal – igualdade perante a lei. É a ideia de lei igual para todos – não existem mais distinções em razão de privilégios de berço. (Deu-se primeiro no plano das ideias, depois no plano prático). Igualdade material: prevaleceu no constitucionalismo social – igualdade na lei (no seu conteúdo). Exemplo clássico de luta em torno da igualdade: direitos do trabalhador. É uma lógica de desigualar, de forma a equiparar aquele econômica ou culturalmente mais fraco. Há mudança profunda acerca do conceito de pessoa. Tratam-se desigualmente os desiguais, observado o princípio da proporcionalidade. Vem sendo cogitada uma terceira fase da igualdade: igualdade como reconhecimento. Segundo essa visão, há direito a ser igual quando a desigualdade inferioriza. Fala-se em um direito à equiparação. Por outro lado, há o direito a ser diferente quando a igualdade descaracteriza. Aqui está o fundamento da proteção dos índios. Tratá-los como iguais descaracteriza sua cultura. AÇÕES AFIRMATIVAS: Sobre ações afirmativas, há 2 teses: i – cota promove a isonomia porque é uma reparação por injustiça histórica.Além disso, há necessidade de promoção de igualdade de oportunidades; ii – a cota estimula o ódio racial. Só existe uma raça. Outro argumento: o critério meritocrático é o que envolve o acesso à universidade pública. Outro problema: como definir quem é negro? DEBORAH DUPRAT: A CR/88 insere-se no modelo do constitucionalismo social, no qual não basta, para observância da igualdade, que o Estado se abstenha de instituir privilégios ou discriminações arbitrárias. Pelo contrário, “parte-se da premissa de que a igualdade é um objetivo a ser perseguido através de ações ou políticas públicas, que, portanto, ela demanda iniciativas concretas em proveito dos grupos desfavorecidos” (Sarmento). Muitos dos preceitos relacionados com a igualdade foram redigidos de forma a denotar a necessidade de ação. A própria Constituição, aliás, consagrou expressamente políticas de ação afirmativa em favor de segmentos sociais em situação de maior vulnerabilidade. Para citar os dois exemplos mais evidentes, o art. 7º, XX, da Carta (incentivo para inserção da mulher), bem como o seu art. 37, VIII (reserva de vagas a pessoas com deficiência). DIREITO ANTIDISCRIMINAÇÃO: PERSPECTIVAS Perspectiva antidiferenciação: combater discriminação, com tratamento neutro – sem ações afirmativas. Perspectiva antisubordinação: combater a discriminação com atuação efetiva a superá-la, com ações afirmativas. Esta é mais harmônica com o sistema de valores em que se assenta a Constituição e com a nossa realidade. COTAS PARA NEGROS NAS UNIVERSIDADES: O fato de haver uma única raça não significa que o racismo não existe. Isso porque ele remanesce a partir de concepçõessociais, culturais e políticas. Promoção do pluralismo: vivemos em um país que tem como uma das suas maiores riquezas a diversidade étnica e cultural. Porém, para que todos se beneficiem dessa valiosa riqueza, é preciso que haja um contato real e paritário entre pessoas de diferentes etnias. É necessário romper com o modelo informal de segregação, que exclui o negro da universidade, confinando-o a posições subalternas na sociedade, especialmente no ensino. As políticas de ação afirmativa baseadas em critérios raciais no ensino superior também são positivas na medida em que quebram estereótipos negativos. Ativismo judicial: quando o Judiciário se depara com normas e medidas que visam a favorecer grupos minoritários e hipossuficientes, a sua postura deve ser diferente. Não deve o Poder Judiciário frear as iniciativas inclusivas, convertendo-se no guardião de um status quo de assimetria e opressão, a não ser quando haja patente afronta à Constituição. Portanto, as políticas de cotas não ofendem a nenhum dos subprincípios em que se desdobra o princípio da proporcionalidade. Quanto à adequação, é evidente que, se o objetivo é promover a inclusão dos negros no ensino superior, a medida encetada é idônea, porque se propõe exatamente a tal fim. No que tange à necessidade, não se vislumbra, a priori, qualquer outra medida que promova, com a mesma intensidade, a finalidade perseguida. Quanto à proporcionalidade em sentido estrito, cumpre atentar para o valor que tem o acesso ao ensino suerior na emancipação real dos afrodescendentes no Brasil. Em um quadro social de brutal exclusão do negro, e no marco de uma Constituição que tem como obsessão a conquista do pluralismo e da igualdade material e o combate ao preconceito e ao racismo, deve-se reconhecer a extraordinária importância da promoção dos interesses subjacentes à medida em discussão, na escala dos valores constitucionais. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 55 14.a. Democracia. Conceito. História. Atributos: soberania popular, legitimação do poder pela expressão livre da maioria, igualdade de oportunidades, proteção de minorias, sufrágio universal, direto e igualitário, voto secreto, periodicidade do sufrágio, pluralismo. Democracia representativa. Instrumentos de democracia direta na Constituição de 1988. Democracia. Conceito histórico. Evolução no tempo. Princípio básico: regime político em que o poder repousa na vontade do povo (SILVA). Princípio da soberania popular: o poder emana do povo. Ideia de autogoverno. Discussões acerca do conceito do povo e sua evolução histórica. Regra da maioria (premissa majoritária). Igualdade de voto (um homem, um voto). Releitura do conceito de democracia: respeito às minorias, limites à vontade da maioria. Direitos fundamentais e controle de constitucionalidade como instrumentos de preservação da democracia. Democracia participativa (sentido contemporâneo): democracia representativa (participação popular indireta, periódica e formal, eleição de representantes) + instrumentos de democracia direta (SILVA). Eleição representa instrumento por meio do qual o povo adere a uma política governamental, outorgando legitimidade à autoridade. Mais do que simples escolha de representante. Sufrágio: direito político subjetivo de participar ativamente nos destinos políticos da nação. É universal (abrange a todos). Voto: exercício concreto do direito de sufrágio. Direto (eleitor escolhe pessoalmente seus representantes). Periódico (se dá em espaços definidos de tempo). Igualitário (não há diferença de “peso” entre os votos/voto de qualidade). Escrutínio: forma de exercício do sufrágio (secreto). Pluralismo: diversas concepções de mundo e projetos de vida, que devem conviver sem pretensão de hegemonia. Conceito próximo de diversidade (diferença: respeito à diversidade = aceitação do outro). Tensão constitucionalismo X democracia: Debate procedimentalistas (John Hart Ely, Habermas), que dão mais ênfase ao princípio democrático, e substancialistas (Dworkin, Rawls), que dão ênfase aos princípios materiais (direitos fundamentais). Para DWORKIN, se resolve com a igualdade: a jurisdição constitucional, ao barrar a maioria contra a minoria, realiza o princípio ‘um homem um voto’, que só pode existir se todos são iguais. Logo a jurisdição constitucional não está em tensão com a democracia, a complementar; é pressuposto/garantia. No mesmo sentido BARROSO. Para os procedimentalistas, deve-se fiscalizar o funcionamento adequado do processo deliberativo; os resultados da deliberação devem “permanecer em aberto”. Instrumentos de democracia direta na CR/88: plebiscito (consulta prévia direta ao povo sobre uma questão), referendo (submissão de ato do poder público a aprovação popular), iniciativa popular (apresentação de projeto de lei pelo povo diretamente ao órgão legislativo). Sob uma certa ótica, também o tribunal do júri. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 56 14.b. Previdência social e assistência social: configuração constitucional e infraconstitucional. A seguridade social como mecanismo de igualdade social e como problema orçamentário. A seguridade social —organizada pelo Poder Público com base nos princípios do par. ún. do art. 194— compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos à saúde, à previdência e à assistência social (art. 194). A Seguridade Social é um mecanismo de igualdade social, alimentado por todos, na medida de suas possibilidades, para a proteção social dos doentes, inativos e desamparados. É um instrumento de promoção da justiça distributiva, pela qual se repartem, proporcionalmente, segundo as necessidades, os benefícios e malefícios da vida comum. A CR não se limitou a declarar os direitos sociais visados pela Seguridade Social, mas previu recursos mínimos para sua efetividade (art. 195). De fato, a efetividade dos direitos sociais exige significativo gasto de recursos públicos, os quais são escassos em face das necessidades humanas (reserva do possível). “Ao Parlamento incumbe definir as ‘escolhas trágicas’ e delimitar a ‘reserva do possível’ para o atendimento das necessidades públicas através do uso dos recursos públicos” (NUNES e SCAFF, 2011, p. 101). Mas a discricionariedade parlamentar é limitada pelas vinculações obrigatórias da receita às despesas sociais previstas na Constituição. Também é limitada a discricionariedade do Poder Público pela obrigação de o Estado garantir direitos fundamentais sociais quanto ao mínimo existencial. Ver, p. ex.: art. 203, V; 201, § 2º; 195, II; 40, § 18 (contribuição social não incide sobre os proventos de aposentadoria e pensão até o limite do RGPS) (LOBO TORRES, 2009, p. 258). O direito ao mínimo existencial tem por conteúdo as “condições mínimas de existência humana digna que não pode ser objeto de intervenção do Estado na via dos tributos (= imunidade) e que ainda exige prestações estatais positivas” (LOBO TORRES, 2009, p. 35). Enquanto a previdência social garante recursos ao trabalhador e dependentes quando ausente a capacidade laboral e tem por base um sistema solidário e contributivo, devendo ser observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial, a assistência social objetiva —de forma subsidiária à previdência e, também, à assistência privada— a proteção de todos os desamparados, independentemente de contribuição. Proteção previdenciária obrigatória: “O art. 201 da CF traz o desenho do regime geral de previdência social, aplicado, obrigatoriamente, a todos os trabalhadores, excetuando-se os servidores públicos titulares de cargos efetivos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, que possuem preceito específico no art. 40, e os militares, que também são excetuados do regime geral, haja vista o inc. X do art. 142 da CF e art.42, §§ 1º e 2º” (PIERDONÁ, 2007, 297). Já a proteção facultativa se faz pelo regime de previdência privada, com organização autônoma. Enquanto a proteção facultativa visa a manter o padrão de vida do trabalhador, a obrigatória visa a amenizar as situações de necessidade pelos benefícios previdenciários, preservando o mínimo existencial. “A assistência social, direito do cidadão e dever do Estado, é Política de Seguridade Social não contributiva, que provê os mínimos sociais, realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas. [...] A assistência social realiza-se de forma integrada às políticas setoriais, visando ao enfrentamento da pobreza, à garantia dos mínimos sociais, ao provimento de condições para atender contingências sociais e à universalização dos direitos sociais” (arts. 1º e 2º da LOAS). PALAVRAS-CHAVE: Seguridade social: justiça distributiva. Reserva do possível. Vinculações constitucionais e mínimo existencial. Sistema previdenciário: solidário e contributivo. Sistema assistencial: solidário, independentemente de contribuição. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 57 14.c. A República: perspectiva histórica e concepções. Republicanismo. A República: perspectiva histórica e concepções A noção de República é encontrada nas Repúblicas Clássicas (cidades-estados da Grécia antiga- Atenas e Esparta) e República Romanas, humanismo cívico da Itália renascentista, o radicalismo inglês e o constitucionalismo norte-americano, em que a ela é utilizada como opção diante da necessidade de dirimir uma realidade caracterizada em termos de ordem e conflito. A concepção de republica não é inequívoca, pois há diferentes significados, conforme o contexto em que é aplicada. Hoje, o termo é utilizado como forma de governo em oposição à monarquia. No art. 1º da CF/88 indica a forma de governo, com características da res publica (coisa do povo e para o povo). A forma de governo é o modo como se estabelece o poder na sociedade e a relação entre governantes e governados. Constitui a definição da titularidade e exercício do poder. Nas três formas idealizadas de governo, por Aristóteles: a monarquia (governo de um só); a aristocracia (governo de mais de um, mas de poucos); e a república (governo em que o povo governa no interesse do povo). Ele alerta que essas três formas, podem degenerar-se: a monarquia, em tirania; a aristocracia, em oligarquia; a república, em democracia. Essa concepção predominou até que Maquiavel defendeu que todos os Estados, todos os domínios que exerceram e exercem poder sobre os homens, foram, e são, ou repúblicas ou principados. Por essa razão, prevalece a classificação dualista de formas de governo em república e monarquia, ou governo republicano e governo monárquico. A república caracterizada por eleições periódicas do chefe de Estado, enquanto a monarquia por sua hereditariedade e vitaliciedade. Ressalta-se que o princípio republicano, não deve ser analisado sob aspecto puramente formal, como simples oposição à monarquia. Ruy Barbosa já ensinava que o que diferenciava a forma republicana não é apenas a coexistência dos três poderes, indispensáveis em todos os governos constitucionais, mas, sim, a condição de que, sobre existirem os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, os dois primeiros derivem, realmente, de eleições populares. Isso significa que a forma republicana implica a necessidade de legitimidade popular do Presidente da República, Governadores de Estado e Prefeitos Municipais (arts. 28, 29, I e 11, e 77), eleições periódicas por tempo limitado que se traduz na temporariedade dos mandatos eletivos (arts. cits.) e, conseqüentemente, não vitaliciedade dos cargos políticos e prestação de contas da administração pública (arts. 30, III, 31, 34, VII, d, 35, II, e 70 a 75). Desde a Constituição de 1891, a forma republicana de governo figura como princípio constitucional. Segundo José Afonso da Silva, “hoje não mais protegido contra emenda constitucional, como nas constituições anteriores, já que a forma republicana não mais constitui núcleo imodificável por essa via; só a forma federativa continua a sê-lo (art. 60, § 42, I)”. REPUBLICANISMO O republicanismo, ou humanismo cívico41, consiste na doutrina ou pensamento político, de inspiração clássica, que remonta o ideal aristotélico do homem como animal político e à res publica romana, a qual ressurge na modernidade com destaque a Maquiavel.42 Desenvolveu-se com Harrington, Montesquieu, Rousseau, com os ideais jacobinos da Revolução Francesa e cívicos da Revolução Americana. O humanismo cívico presente no humanismo florentino, destaca a natureza política do homem e a definição dos seus para a realização do bem comum: a participação ativa no governo pela consagração dos cidadãos à coisa pública. O republicanismo pretende um entendimento mais amplo da política, por meio de elementos de natureza comunitária, tais como: i) a liberdade como não-dominação; ii) a dimensão social do viver político do homem; iii) o reconhecimento da legitimidade e da igualdade de todos; iv) a idea da comunidade política como auto-governo dos cidadão na criação de leis que efetivem a liberdade; v) a atuação política do cidadão por meio de virtudes políticas. O retorno do republicanismo, ou neorepublicanismo, contém motivação crítica, consistente em no reexame de sua origem, estrutura e função. Nos Estados Unidos, o renascimento do republicanismo também se caracterizou por uma reinterpretação da história revolucionária. Isso demostrou que na revolução idealizada havia muitos elementos republicanos e que as origens dela não possuía suas bases exclusivamente no pensamento liberal de Locke. Nesse contexto, a retomada ao republicanismo é à volta á tradição, cujo objetivo principal está na participação política do cidadão, disciplinada por leis e instituições não arbitrárias, bem como o debate sobre a liberdade. Outro aspecto relevante no republicanismo é a busca do bem comum. Nessa circunstância, não significa realizar a vontade de todos ou preterir as pretensões individuais em prol da República. Charles Taylor43, o bem comum, ou interesse comum, consiste simplesmente aquilo que 41 “Republicanismo”, “Republicanismo Clássico”, “Humanismo Cívico são palavras que tem a mesma origem. 42 Na questão 03- 24º Concurso ( Examinador José Adércio), a resposta correta era referente a essa doutrina, letra “d”: a teoria política de Maquiavel pode ser identificada como o humanismo cívico. 43 Argumentos filosóficos. São Paulo: Edições Loyola, 2000, edição original de 1995. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 58 decidimos fazer juntos e que oferece algum proveito para a comunidade. Por essa razão, a participação pública do cidadão é importante, bem como a criação e valorização dos mecanismos coletivos de decisão. Por isso o republicanismo é vinculado a cidadania, da participação ativa no cenário públicos como forma de resguardar o que é comum. Dessa forma, ele compreende a cidadania como atribuição de virtudes cívicas. Por esta razão, ela passa a adquirir um valor normativo substancial, condição indispensável para a afirmação dos direitos e liberdades individuais e para o viver bem da comunidade, e não pode ser vista como instrumento ou meio para alcançar determinados fins, mesmo que politicamente legítimos, como o reconhecimento dos direitos individuais. PALAVRAS-CHAVE: republicanismo, participação política e bem comum DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 59 15.a. Políticas Públicas. Conceito. Objetivos e âmbitos. Instrumentos. Ministério Público, Judiciário e políticas públicas. Na clássica definiçãode Dworkin as normas podem ser classificadas como princípios, regras e políticas (policy). Estas últimas caracterizar-se-iam por estabelecem metas a serem alcançadas, geralmente relacionados a um incremento econômico, político ou social de exigências da sociedade. Isso as diferenciariam dos princípios, cuja observância decorre do fato de serem exigências da moralidade e não por incrementar bem-estar social. A classificação tricotômica não foi adotada por Alexy, que abandonou a categoria das policies, cuja obra influenciou toda a tradição brasileira, o que explica, parcialmente, o atraso no estudo do tema. Na tradição de Dworkin, o art. 3º III CF traz um claro exemplo de política, ao passo que os direitos individuais do art. 5º CF seriam exemplos de princípios. A Política pública é instituto multidisciplinar, geralmente estudado entre os cientistas políticos. BUCCI oferece um conceito operacional para o campo do direito: “Política pública é o programa de ação governamental que resulta de um processo ou conjunto de processo juridicamente regulados – processo eleitoral, processo de planejamento, processo de governo, processo orçamentário, processo legislativo, processo administrativo, processo judicial – visando coordenar os meio dispostos à disposição do Estado e as atividades privadas, para a realização de objetivos socialmente relevantes e politicamente determinados. Como tipo ideal, a política pública deve visar a realização de objetivos definidos, expressando a seleção de prioridades, a reserva de meios necessários à sua consecução e o intervalo de tempo em que se espera o atingimento dos resultados.” (BUCCI, 2006, p. 39) Em resumo: i) conjunto organizado e planejado de ações; ii) visando a consecução de objetivos coletivos relevantes. CICLO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS: Em ciência política divide-se as fases de desenvolvimento das políticas públicas em: i) formulação (definição de necessidades e projetos); ii) execução ; iii) fiscalização (que pode ser prévia, concomitante e posterior). INSTRUMENTOS: Do ponto de vista jurídico as políticas públicas são um conjunto heterogêneo de medidas, podendo se expressar em distintos suportes, v.g, disposições constitucionais, leis, em normas infralegais (decretos, portarias) e até mesmo em instrumentos jurídicos de outra natureza como contratos de concessão. OBJETIVOS E ÂMBITO: Na CF, o Capítulo II do Título VI, que cuida das finanças públicas, trazendo as normas gerais sobre os instrumentos orçamentários, é considerado expressão jurídica de políticas públicas por excelência; b) O Título VII também traz regras gerais sobre campos de manifestação das políticas públicas, quer seja no tocante à política urbana (art. 182 e ss), que seja em relação à política rural (art. 184 e ss); c) o Título VIII (Da ordem social), delineia, ratione materiae, diversas políticas públicas no campo social. (seguridade, educação, cultura e desporto, ciência e tecnologia...). MINISTÉRIO PÚBLICO, JUDICIÁRIO E POLÍTICAS PÚLBICAS: Sendo as políticas públicas instrumento por excelência para a promoção dos direitos fundamentais e incumbindo ao MP a proteção dos direitos sociais e individuais indisponíveis, assim como zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços de relevância pública aos direitos assegurados nesta Constituição, promovendo as medidas necessárias a sua garantia (art. 127 e 129, II CF), afigura-se clara a importante missão do MP na fiscalização, controle e promoção das políticas públicas estatais. No campo não judicial destacam-se os instrumentos de negociação/preventivos do MP, tais quais: a) instauração inquéritos civis e de procedimento administrativos correlatos (art. 129, inc. III CF, art. 7o, inc. I da LC 75/93, art. 9o da Lei 7.347/85 e Res. 23 CNMP); b) expedição de notificação a autoridades (art. 8º, I, LC 75/93), c) requisição de instauração de providências investigatórias e procedimentos administrativos (art. 7º, II e III LC 75/93) e de informações e documentos de entidades pública e privadas (Art. 8, II e IV da LC 75/93), d) expedição de recomendações (6º, inc. XX da LC 75/93 e art. 80 da Lei 8.625/93), e) celebração de Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) (art. 5o, § 6o da Lei 7.347/85 LACP), f) realização de audiências públicas e participação em grupos interinstitucionais, além do diálogo e interlocução direta com parlamentares, representantes da sociedade civil e demais setores interessados. (FRISCHEISEN, 2000, p. 132 ss). No campo judicial, o STF, inicialmente, não se mostrou favorável ao controle de políticas públicas, sob vários argumentos: normas programáticas44, violação à separação dos poderes, teoria das questões políticas e discricionariedade administrativa45, inutilizando o mandado de injunção.46 Desde a ADPF 45 a corte firmou o entendimento pela possibilidade de controle das políticas públicas, o que chegou ao paroxismo no caso da saúde. Exatamente nesse campo verifica-se hoje em dia uma tentativa de maior diálogo com a administração e o estabelecimento de standards capazes de não permitir uma judicialização excessiva. (cf. tópico 19 c) 44 STF, RE 264.269. (Corroborou entendimento do STJ, manifestado no ROMS 6.564/RS, no sentido de que o direito à saúde é norma programática de eficácia limitada, não gerando direito subjetivo). 45 STF, ADI 4/DF que considerou não auto-aplicável a norma do art. 192, § 3º, que limitava a taxa de juros reais em 12% a.a. 46 STF, MI 107 (Entendeu o STF que, reconhecida a ausência de norma regulamentadora, o único efeito possível da decisão seria a conferição de ciência ao órgão legislativo responsável). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 60 15.b. Responsabilidade civil do Estado. Responsabilidade subjetiva e objetiva. Atos ultra vires. Ação de regresso. Responsabilidade civil do Estado: Responsabilidade Extracontratual: obrigação de indenizar um dano patrimonial ou moral causado. Art. 37 §6° CF/88: responsabilidade objetiva. PRESSUPOSTOS da RESPONSABILIDADE OBJETIVA: 1) fato administrativo (conduta comissiva ou omissiva atribuída ao poder público); 2) dano; 3) nexo causal. Como a culpa não é exigida, decisões lícitas do Estado podem ensejar responsabilidade Modalidades de risco na responsabilidade objetiva: a) Teoria do Risco Integral: não admite excludentes, adotada em matéria ambiental; b)TEORIA DO RISCO ADMINISTRATIVO: admite excludentes do nexo causal (culpa exclusiva da vítima, força maior e caso fortuito). É a regra no direito administrativo. EVOLUÇÃO HISTÓRICA: 1) Estado Absolutista: irresponsabilidade do estado: nunca foi consagrada no Brasil; 2) Constituições de 1824, 1891, 1934, 1937: responsabilidade civil do Estado; 3) a partir da Constituição de 1946: responsabilidade objetiva. TEORIA DA CULPA ADMINISTRATIVA: fase de transição entre a responsabilidade subjetiva e a responsabilidade objetiva. Dever do Estado de indenizar o dano sofrido pelo particular somente existe caso seja comprovada a existência do falta do serviço. Falta do serviço: inexistência do serviço; mau funcionamento do serviço ou retardamento do serviço. TEORIA DO RISCO SOCIAL: espécie da teoria do risco integral. Fundamentada na socialização dos riscos. O foco da responsabilidade é a vítima e não o autor do dano, a reparação está a cargo de toda a coletividade. Não adotada no Brasil. CONDUTAS OMISSIVAS: para a jurisprudência do STF e STJ,o Estado só responde se houver CULPA: descumpre um dever legal de impedir a ocorrência de um dano – a omissão é jurídica e não fática. Logo a responsabilidade é SUBJETIVA. EXCEÇÃO: No caso de pessoas ou coisas que se encontrem legalmente sob a custódia ou guarda do Estado – Estado na posição de garante- a responsabilidade é objetiva (Inf. 567/STF). Nesse caso, Celso Antonio fala que há uma OMISSÃO ESPECÍFICA. Porém, a maior parte da doutrina como Celso Antonio, Helly Lopes Meirelles e José dosSantos, defende que A responsabilidade é a comum e não a subjetiva, isto é, mesmo na omissão a responsabilidade do Estado é objetiva. A Constituição não diferenciou. O Estado deve agir com boa-fé e quando causa dano ao particular, ainda que de forma omissiva, frustra seu dever de confiança. ATOS ULTRA VIRES: ainda que o agente estatal atue fora de suas funções, mas a pretexto de exercê-las, o fato é tido como administrativo, pela má escolha do agente (culpa in eligende) ou pela má fiscalização de sua conduta (culpa in vigilando). PRESCRIÇÃO: divergência do prazo: 3 anos (Código Civil) ou 5 anos (decreto 20.910/32) AÇÃO DE REGRESSO: art. 37 §5°: é imprescritível se for em face de agente do Estado. O ressarcimento na via administrativa só pode ocorrer mediante acordo com o agente. Cabe ao Estado, autor da ação de regresso, o ônus de provar a culpa de seu agente. STJ afirma que não é necessário o deslinde da ação indenizatória contra o Estado para que este possa buscar o ressarcimento (REsp. 236.837) e que a denunciação da lide do servidor na ação indenizatória é facultativa. A imprescritibilidade não alcança as pessoas jurídicas de direito privado. SITUAÇÕES ESPECÍFICAS: a) obras públicas; b) atos de multidão; c) atos judiciais; d) atos legislativos. TERRORISMO: Lei 10.744/03, art.1°: assunção, pela União, de responsabilidades civis perante terceiros no caso de atentados terroristas, atos de guerra ou eventos correlatos, contra aeronaves de matrícula brasileira operadas por empresas brasileiras de transporte aéreo público, excluídas as empresas de táxi aéreo. Particularidade: nesse caso, o fato de terceiro não é excludente da responsabilidade do Estado. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 61 15.c. Imunidades e incompatibilidades parlamentares. Direito comparado. O Estatuto dos congressistas representa o regime jurídico dos membros do Congresso Nacional, em que a Constituição estabelece um conjunto de normas instituidoras de direitos e prerrogativas e também deveres e incompatibilidades. Na descrição dos elementos que compõem esse Estatuto, as imunidades ocupam posição relevante, uma vez que os membros do Legislativo devem atuar com ampla independência no desempenho de suas atribuições constitucionais, bem como para preservar a independência entre os Poderes. As imunidades apresentam dupla figuração: i) imunidade material ( substancial ou de conteúdo) ou denominada de inviolabilidade: garante a liberdade de opinião, palavras e votos dos parlamentares. Elas podem tornar o parlamentar insuscetível de ser punido por certos fatos; ii) imunidade formal (processual, instrumental ou de rito): evita prisões, oriunda de processos. Como bem pontua Mendes (2010, 899), torna o congressista “livre de certos constrangimentos processuais penais”. O fundamento delas não consiste na proteção do parlamentar nas relações privadas, porque não são privilégios pessoais, muito menos abrigo para práticas ilícitas, mas sim pela função exercida no Poder Legislativo. Como, aliás, diversas vezes decidiu o Supremo Tribunal Federal, sobre a imunidade,”.47 48 Características: a) imunidade material: i) histórico: desde da Constituição do Império, de 1824. A Imunidade civil tornou-se expressa com EC 35/2001, embora já fosse admitida pelo STF49 ii) objeto: de inviolabilidade quanto ao cometimento de crimes e contravenções; iii) objetivo: proteger a função parlamentar, em nome da representatividade do povo ( art. CR/88, art. 1º , parágrafo único); iv) natureza jurídica: a doutrina diverge, considera como causa excludente do delito ( Pontes de Miranda e Nelson Hungria); causa pessoa ou funcional de isenção de penal( Aníbal Bruno); causa pessoal de exclusão de pena ( Heleno Cláudio Fragoso); causa de irresponsabilidade penal por motivos políticos ( José Frederico Marques) e causa de exclusão da tipicidade(Zaffaroni e Pierangeli, Fernando Capez).v) funcionamento: excluI a responsabilidade penal, civil, disciplinar e política do congressista, ou ex- congressista, por suas opiniões palavras e votos. vi) nexo de causalidade: deve-se comprovar o liame entre as manifestações políticas e o exercício do mandato; vii) extensão: abrange opiniões palavras e votos.50 viii) âmbito espacial: recinto parlamentar (tribuna); externa corporis, é necessário vinculo com a atividade política; na CPI, na divulgação pela imprensa de fatos protegidos pela inviolabilidade; ix) irrenunciável: por ser garantia institucional deferida ao Poder Legislativo e, portanto, por decorrer da função que os seus membros exercem, a imunidade é irrenunciável. Seu início ocorre com a diplomação, perdurando até o término do mandato; x) efeitos temporais: se prolonga no tempo, o que significa que o deputado/senador não poderá sofrer sanção. xi) abuso da prerrogativa: sujeitar-se-á o parlamentar as regras disciplinares da Casa a que pertencer ( CF, art. 55, p; 1º). b) imunidade processual: i) histórico: desde da Carta de 11824 (art.27); ii) objetivo: garante ao parlamentar não ser ou permanecer preso, bem como a possibilidade de sustar o processo penal em curso contra ele. iii) termo inicial: data da diplomação; vi) conteúdo:, os parlamentares, assim que forem diplomados, podem ser processados sem prévia licença da Casa a que pertence. Eles podem ser presos em flagrante por crime inafiançável. Nesse caso, os autos serão remetidos dentro de24 horas à Casa respectiva, para que a maioria absoluta dos parlamentares, delibere sobre a prisão. v) abrangência: impede a prisão penal e a civil, o que significa que o parlamentar não poderá sofrer constrição privativa de liberdade, salvo em crime inafiançável. No entanto, nada impede a execução dessa pena, se definitivamente imposta.51 vi) desnecessidades de licença: embora não necessite de autorização da Casa para o processo, essa pode determinar a sustação dele, depois de acolhida a denúncia ou queixa pelo Tribunal. 52vii) aspecto temporal: ao contrário da material, ela é limitada, porque protege o congressista somente no período do exercício do mandato; viii) prerrogativa de foro por infrações penais comuns: desde a expedição do diploma, os parlamentares serão submetidos ao julgamento pelo STF. Cessado o mandato, termina também a missão da Corte.53 ix) isenção de testemunho: os deputados/senadores não 47 “A República aborrece privilégios e abomina a formação de castas’ ADIN 1828-MC, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJ de 7.8.1998. 48 A prerrogativa indisponível da imunidade material - que constitui garantia inerente ao desempenho da função parlamentar, não traduzindo, por isso mesmo, qualquer privilégio de ordem pessoal ( STF, RE 299109 AgR / RJ, DJe 01.0611) 49 RE 210.917, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, j.12.8.1998, DJ 18.6.2001. 50 Assim, a responsabilidade criminal ( não constitui crime seus atos), a responsabilidade civil ( não pode ser responsabilizado por perdas e danos a responsabilidade administrativa (nãosofrerá sanções disciplinares) e a responsabilidade política ( não poderá ser destituído pelos eleitores ou pelo partido que o elegeu 51 Inq.510/DF, Min. Celso De Mello, DJ 19.04.1991: - Dentro do contexto normativo delineado pela Constituição, a garantia jurídico-institucional da imunidade parlamentar formal não obsta, observado o "due process of law", a execução de penas privativas da liberdade definitivamente impostas ao membro do Congresso Nacional. Precedentes: RTJ 70/607 52 Enquanto o processo estiver suspenso a prescrição penal não corre, voltando o seu curso no dia que o mandato encerra. Nos casos em que o processo estava suspenso antes da EC 35, o prazo prescricional torna a correr da data da promulgação da emenda. 53 Sobre a extinção do mandato pela Renúncia: o STF entende como ato legítimo, do qual produz efeito de declinar a competência da Corte para o juízo criminal de primeiro grau (AP 333 / PB, Rel. Joaquim Barbosa, DJe-065 DIVULG10-04-2008). No entanto, a renúncia não pode ser utilizada como subterfúgio para deslocamento de competências DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 62 são obrigados a testemunhar sobre informações recebidas ou prestadas em razão do mandado, nem sobre as pessoas que lhes confiaram ou delas receberam informações ( CF, art. 53, p. 6º ); x) durante o Estado de sítio: as imunidades material e formal podem ser suspensas por meio do voto de 2/3 dos membros da Casa respectiva, nos casos de atos praticados fora do Congresso, que sejam incompatíveis com a execução da medida ( CF, art. 53, p. 8º ) Deputados estaduais e distritais: seguem a mesma sistemática de imunidades ( art. 27, p 1º ). Vereadores somente possuem imunidade material( art. 29, VIII), porém é limitada territorialmente à circunscrição do Município.54 Incompatibilidades (CF, art. 54): são impedimentos ou restrições relacionados a atividade política, que impedem o parlamentar de exercer certas funções ou praticar atos sucessivos com o mandato. A finalidade é evitar que o parlamentar se comprometa com interesses distintos daquele que o elegeu, ou que ele obtenha favorecimentos especiais em razão desse mandato. Classificação das incompatibilidades: i) contratuais ou negociais ( art. 54, I, a): não poderão, desde a expedição do diploma, firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público, salvo quando o contrato obedecer a cláusulas uniformes; ii) funcionais( art. 54, I, b e II b): não poderão, desde a expedição do diploma, aceitar ou exercer cargo, função ou emprego remunerado, inclusive os de que sejam demissíveis ad nutum, nas entidades constantes no item anterior. Também não poderão ocupar cargo ou função de que sejam demissíveis ad nutum, nas entidades referidas no item “i”; iii) profissionais ( art. 54, II, a e II c, ): não poderão, desde a posse, ser proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada. Do igual modo, não poderão patrocinar causa em que seja interessada qualquer das entidades citadas no item “i”; iv) políticas ( art.54, II, d); não poderão, desde a posse, ser titulares de mais de um cargo ou mandato eletivo. Direito comparado e origem imunidades parlamentares Originada na Inglaterra, no século XVII, as imunidades possibilitaram aos políticos discursarem sem o arbítrio sob a monarquia. A partir de então o instituto se disseminou em todas as nações democráticas do mundo, como decorrência de dois corolários do direito constitucional inglês: o freedom of spech (liberdade de palavra) e o freedom from arrest (liberdade à prisão arbitrária). Ambos incluídos no Bill of Rights de 1688, transmitiam a mensagem de que a liberdade de expressão e o debate de opiniões no Parlamento são invioláveis. Depois,mais tarde, as imunidades parlamentares foram inscritas na Constituição dos Estados Unidos da América de 1787 (art. 1º seção 6). Nesse país, se um congressista cometesse crime fora do exercício da atividade, recebia o mesmo tratamento de qualquer cidadão comum, sendo investigado, indiciado, processado e julgado, porque a inviolabilidade só alcança os estritos limites do cargo. Fora da função parlamentar todos são iguais. Nos países latinos, o instituto sofre distorções, sendo desfigurado. Enquanto na Inglaterra, nos EUA, no Canadá e na Alemanha a imunidade parlamentar se restringe ao âmbito de atuações políticas, no Brasil, na Itália, na Espanha, na Argentina, ela figura como abrigo de criminosos, protegendo os parlamentares nos delitos comuns. constitucionalmente definidas, que não podem ser objeto de escolha pessoal. No caso, a renúncia foi apresentada à Casa Legislativa em 27 .10.2010, véspera do julgamento pelo Plenário, o que fez o STF concluir que: pretensões nitidamente incompatíveis com os princípios e as regras constitucionais porque exclui a aplicação da regra de competência deste Supremo Tribunal. Por essa razão reconheceu a subsistência da competência deste Supremo Tribunal Federal para continuidade do julgamento.( AP 396 / RO, Min. CÁRMEN LÚCIA, DJe- 27-04-2011, Noticiados nos Informativos 606 e 624. 54 Tratando-se de Vereador, a inviolabilidade constitucional que o ampara no exercício da atividade legislativa estende-se às opiniões, palavras e votos por ele proferidos, mesmo fora do recinto da própria Câmara Municipal, desde que nos estritos limites territoriais do Município a que se acha funcionalmente vinculado. Precedentes (RE 140.867/MS, Rel. p/ o acórdão Min. MAURÍCIO CORRÊA (Pleno) – Inq 1.958/AC, Rel. p/ o acórdão Min. AYRES BRITTO (Pleno) AI 631276/SP, Noticiado no Informativo 615/2011. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 63 16.a. Direito à educação: configuração constitucional e infraconstitucional. Trata-se de direito fundamental social, previsto no art. 6º e nos art. 205 ss. CF, regulado no plano infraconstitucional pela Lei 9.394/96 (LDB, Lei de Diretrizes e Bases) e pela Lei 10.172/01 (PNE, Plano Nacional de Educação, de duração decenal), este último em atenção ao art. 214 CF. A justificativa de sua fundamentalidade normalmente é instrumental, ou seja: trata-se de pré-condição para a autonomia pública (Habbermas) ou pré-condição para a autonomia privada (Rawls). O art. 205 vai nesse sentido ao afirmar que a educação visa o pleno desenvolvimento da pessoa, de modo a prepará-la para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. COMPOSIÇÃO DOS NÍVEIS DE ENSINO:55 A LDB divide a educação escolar em básica e superior. A educação básica é obrigatória e gratuita, estendendo-se àqueles em idade própria (4-17 anos) ou não. (art. 208). O acesso à educação básica é direito público subjetivo e o seu não oferecimento importa responsabilidade da autoridade responsável (art.208, §§ 1º e 2º). Importante: Até a EC 59/09 apenas era direito público subjetivo o acesso ao ensino fundamental. Após a emenda ampliou-se a obrigatoriedade e a gratuidade para toda educação básica, de modo que é possível afirmar que o mínimo existencial em matéria de educação estendeu-se. Frisa-se que não basta a mera matrícula, porquanto a CF confere direito a várias prestações acessórias, como oferecimento de material escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. (art. 208, VII). Há abundante jurisprudência do STF e STJ afirmando a obrigatoriedade dos municípios oferecerem o ensino infantil, configurando hipótese legítima de controle de políticas públicas a ingerência do Judiciário nas demandas que pleiteiam a construção de creches. (RE 410.715-5; REsp 511.645/SP). O acesso à educação superior se faz de acordo com a capacidade de cada um (art. 208, V) devendo ser oferecido a todos igualdade de condições para o acesso e permanência (art. 206, I).56 REPARTIÇÃO DE COMPETÊNCIAS: É competência comum propiciar meios de acesso à educação (art. 23 CF) e competência concorrente legislar sobre educação e ensino (art. 24, IX CF). Vigora o princípo do federalismo cooperativo entre os entes federados (art. 211 caput e § 4º CF). Municípios atuam propritariamente no ensino fundamental e infantil. Estados atuam propritariamente no ensino médio e fundamental. Cabe á união função redistributiva e supletiva. (art. 211, §§ 1º, 2º e 3º CF) DIMENSÃO NEGATIVA DO DIRIETO À SAÚDE: O art. 206, II explicita que uma dimensão do direito à saúde é a liberdade de aprender e ensinar. Quesão controvérsa é a possibilidade de homeschooling (ensino doméstico), prática comum nos EUA, onde é aceitacom algumas restrições (State of Wisconsin, Petitioner vs. Jonas Yoder et al). No STJ há manifestação, de questionável constitucionalidade, não admitindo (MS 7.407), valendo destacar os seguintes dispositivos: art. 229 CF, art. 22 ECA e 246 CP. A liberdade de ensinar relaciona-se com a dimensão existência do professor expressar suas ideas, mas também com necessidade de manutenção do pluralismo (art. 206, III). A autonomia das universidades é garantia institucional para a efetivação da liberdade de ensinar. O ensino religioso é opcional e as comunidades indígenas têm direito de utilização de sua lingua materna no processo de apendizagem (art. 210). GRATUIDADE: A CF impõe a gratuidade do ensino público nos estabelecimentos particulares (art. 206, IV), motivo pelo qual é inconstitucional a combrança de taxa de matrícula (Súmula vinculante 12 STF). EXPLORAÇÃO PRIVADA: A exploração privada e onerosa é possível, não sendo necessário qualquer tipo de outorga pelo poder público, nos moldes do que ocorre no campo da saúde. (art. 209). FINANCIAMENTO: Se faz de forma direta pelas receitas orçamentárias dos entes federados, havendo sistemática de vinculação que excepciona o princípio da não afetação.57 É possível instituir contribuição social do salário educação, de competência da União, cujas cotas são distribuíds proporcionalmente ao número de alunos matriculados nas redes públicas de ensino. (art. 212, §§ 5º e 6º) 55 BÁSICA (art. 208 CF) Obrigatória e gratuita. SUPERIOR a) Infantil (até 6 anos): art. 30 LDB - creches (até 3) - pré-escola (4-6) b) Fundamental: (art. 32 LDB) - A partir de 6 anos; - Duração de 9 anos. c) Médio: (art. 35 LDB) - 3 anos de duração mínima - Acesso e permanência de acordo com a capacidade de cada um. - MS contra diretor de faculdade privada (Competência da Justiça Federal); - Outras ações contra faculdade privada (Competência da Justiça Estadual) 56 O ponto importa uma reflexão à luz da discussão das ações afirmativas (PONTO 13, c). 57 UNIÃO ESTADOS MUNICÍPIOS No mínimo 18% da receita de impostos. No mínimo 25 % de impostos, compreendida as transferências. No mínimo 25 % de impostos, compreendida as transferências. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 64 16.b. Princípios constitucionais do trabalho. Ciência e tecnologia. Democracia e sociedade de risco. A Constituição da República elegeu o valor social do trabalho como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1º, inciso IV) e um dos pilares da ordem econômica (art. 170, caput), reconhecendo o trabalho como um direito social do ser humano (art. 6º, caput). Atualmente, não resta mais dúvida que os direitos sociais previstos no Capítulo II, do Título II, da Constituição compõem o denominado catálogo de direitos fundamentais previstos na Carta Magna, o direito a um trabalho digno caracteriza-se como um direito fundamental de 2ª dimensão, exigindo, para a sua implementação, uma atuação positiva por parte do Estado (caráter prestacional). E foi justamente com essa finalidade, qual seja, assegurar o direito a um trabalho digno, que a Constituição estabeleceu uma série de princípios aplicáveis à relação de trabalho. De acordo o Ministro do TST Maurício Godinho Delgado, os princípios constitucionais do trabalho pode ser classificados em três grandes grupos: O primeiro rol diz respeito a efetivos princípios constitucionais do trabalho. Trata-se de diretrizes afirmativas do labor humano na ordem jurídico-cultural brasileira: a da valorização do trabalho, em especial do emprego; a da justiça social; a da submissão da propriedade à sua função socioambiental; a diretriz da dignidade da pessoa humana. O segundo rol diz respeito a princípios constitucionais de amplo espectro, não exatamente originados em função da idéia e realidade do trabalho, porém que hoje também atuam, de modo importante, no plano justrabalhista. Não se construíram e se desenvolveram, é certo, em função do temário juslaborativo, elaborando-se, originalmente, em torno de matérias distintas daquelas específicas ao ramo especializado do Direito do Trabalho. Contudo, por diferentes razões passaram a ter influência no campo trabalhista contemporâneo, afetando, muitas vezes com significativa força, sua realidade normativa. Trata-se, em especial, das diretrizes da proporcionalidade, da não-discriminação e da inviolabilidade do direito à vida. O terceiro rol abrange, finalmente, princípios clássicos do Direito do Trabalho, preexistentes à Carta de 1988, mas que foram por ela absorvidos. Na medida desta absorção, tais diretrizes adquiriram status constitucional, fortalecendo seu poder de projeção na ordem jurídica do País. Este grupo de princípios diz respeito não somente à dimensão coletiva como também à individual trabalhista. Trata-se dos princípios da liberdade e autonomia associativas e sindicais e da interveniência sindical na negociação coletiva, no plano do Direito Coletivo do Trabalho. No plano do Direito Individual do Trabalho, os princípios da norma mais favorável, da continuidade da relação de emprego e da irredutibilidade salarial. Verifica-se, portanto, que a Constituição, ao estabelecer uma série de princípios informadores da relação de trabalho procura proteger a parte hipossuficiente na relação empregatícia (o empregado), visando atenuar, no plano jurídico, o desequilíbrio existente no plano fático. Ciência e Tecnologia: a Constituição, em seu art. 218, estabelece que o Estado promoverá e incentivará o desenvolvimento científico, a pesquisa e a capacitação tecnológicas. Como refere Bernardo Gonçalves Fernandes, isso reflete uma preocupação mundial, mas que não vira as costas para as particularidades da realidade brasileira, pois a pesquisa tecnológica deve voltar-se para as soluções de problemas nacionais e para o desenvolvimento da produção nacional e regional, como asseguram os parágrafos do citado dispositivo constitucional58. Releva mencionar o seguinte precedente do STF: "O termo ‘ciência’, enquanto atividade individual, faz parte do catálogo dos direitos fundamentais da pessoa humana (inciso IX do art. 5º da CF). Liberdade de expressão que se afigura como clássico direito constitucional-civil ou genuíno direito de personalidade. Por isso que exigente do máximo de proteção jurídica, até como signo de vida coletiva civilizada. Tão qualificadora do indivíduo e da sociedade é essa vocação para os misteres da Ciência que o Magno Texto Federal abre todo um autonomizado capítulo para prestigiá-la por modo superlativo (capítulo de nº IV do título VIII). A regra de que ‘O Estado promoverá e incentivará o desenvolvimento científico, a pesquisa e a capacitação tecnológicas’ (art. 218, caput) é de logo complementada com o preceito (§ 1º do mesmo art. 218) que autoriza a edição de normas como a constante do art. 5º da Lei de Biossegurança. A compatibilização da liberdade de expressão científica com 58 § 1º - A pesquisa científica básica receberá tratamento prioritário do Estado, tendo em vista o bem público e o progresso das ciências. § 2º - A pesquisa tecnológica voltar-se-á preponderantemente para a solução dos problemas brasileiros e para o desenvolvimento do sistema produtivo nacional e regional. § 3º - O Estado apoiará a formação de recursos humanos nas áreas de ciência, pesquisa e tecnologia, e concederá aos que delas se ocupem meios e condições especiais de trabalho. § 4º - A lei apoiará e estimulará as empresas que invistam em pesquisa, criação de tecnologia adequada ao País, formação e aperfeiçoamento de seus recursos humanos e que pratiquem sistemas de remuneração que assegurem ao empregado, desvinculada do salário, participação nos ganhos econômicos resultantes da produtividade de seu trabalho. § 5º - É facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincularparcela de sua receita orçamentária a entidades públicas de fomento ao ensino e à pesquisa científica e tecnológica. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 65 os deveres estatais de propulsão das ciências que sirvam à melhoria das condições de vida para todos os indivíduos. Assegurada, sempre, a dignidade da pessoa humana, a CF dota o bloco normativo posto no art. 5º da Lei 11.105/2005 do necessário fundamento para dele afastar qualquer invalidade jurídica (Ministra Cármen Lúcia)." (ADI 3.510, Rel. Min. Ayres Britto, Plenário, DJE de 28-5-2010). DEMOCRACIA E SOCIEDADE DE RISCO Segundo Armando Albuquerque, a democracia é um tema que remonta há 2.500. contemporânea das primeiras sistematizações do pensamento político, a democracia traz consigo aos dias atuais um percurso de inesgotáveis possibilidades59. Embora seja produto da cultura grega do século VI a.C., existem muitas nuances que distinguem suas primeiras configurações daquelas que ressurgem nas democracias modernas e, principalmente, nas contemporâneas. Bernardo Gonçalves Fernandes afirma que mais do que referirmos ao “governo do povo”, seria correto afirmar que a democracia é uma lógica na qual o povo participa do Governo e do Estado. Hoje a democracia não se restringe à escolha dos atores políticos, mas inclui ainda uma proteção constitucional que afirma: a superioridade da Constituição; a existência de direitos fundamentais; a legalidade das ações estatais; um sistema de garantias jurídicas e processuais. A partir da Teoria dos Sistemas de Niklas Luhmann, pode-se concluir que o sistema, para ser democrático, precisa conviver com o risco da alta complexidade do ambiente, viabilizando a contínua mudança, suscetível aos influxos comunicativos do ambiente. Nesse contexto, insere-se o tema da sociedade de risco, abordado pelo sociólogo alemão Ulrich Beck, que se relaciona com a ausência de previsibilidade das consequências das “novas tecnologias” apresentadas pela ciência. Aqui se insere a degradação ambiental no centro da teoria social, como os acidentes nucleares, a liberação de substâncias químicas em grande escala, a alteração e manipulação da composição genética da flora e da fauna, os quais podem comprometer a própria existência da humanidade. A concepção de Estado de Segurança desenvolvida por Ulrich Beck vincula a legitimidade das instituições estatais na manutenção da segurança dos cidadãos em termos ecológicos. O sociólogo alemão traz o conceito de irresponsabilidade organizada para explicar como e porque as instituições da sociedade moderna devem reconhecer inevitavelmente a realidade da catástrofe, ao mesmo tempo em que também a negam, evitando a indenização e o controle. Assim, a consciência do perigo em grande escala e de riscos catastróficos provoca uma dinâmica de transformação política e cultural que abala as burocracias do Estado, desafia o predomínio da ciência e traça de novo as fronteiras e linhas de combate da política contemporânea. PALAVRAS-CHAVE: princípios, constitucionais, trabalho, democracia, ciência. 59 Robert Dahl, citado por Armando Albuquerque, afirma: “ que nós compreendemos por democracia não é o que um ateniense no tempo de Péricles compreendia por este termo. As noções gregas, romana, medieval e da renascença se misturam com aquelas de séculos mais tarde produzindo uma confusão de teorias e práticas que são muitas vezes profundamente contraditórias”. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 66 16.c. Arguição de descumprimento de preceito fundamental. ADPF. Mesmo com as mudanças ocorridas a partir de 1988, que reforçaram o controle concentrado em detrimento do difuso em virtude da criação da ADC e da ampliação do rol de legitimados das ações de controle abstrato, subsistiu um espaço residual expressivo para o controle difuso, diante das matérias insuscetíveis de exame no controle abstrato (direito pré-constitucional, normas revogadas, direito municipal em face da CF). É exatamente nesse espaço, responsável pela repetição de processos e consequente demora na definição de controvérsias constitucionais relevantes, pois apenas poderiam ser levadas ao STF através de RE, que se inseriu a ADPF, prevista no art. 102, §1º, da CF e regulamentada pela Lei 9.882/99. Modalidades: A doutrina reconhece a existência de duas modalidades de ADPF, ambas propostas perante o STF: (i) autônoma: processo de natureza objetiva, que visa a evitar ou reparar lesão a preceito fundamental, representando típica modalidade de jurisdição constitucional abstrata, desvinculada de qualquer caso concreto; (ii) incidental60: processo de natureza objetivo-subjetiva, que pressupõe a existência de uma lide intersubjetiva, na qual tenha surgido controvérsia constitucional relevante sobre a aplicação da lei ou do ato do Poder Público questionado em face de algum preceito fundamental. Subsidiariedade: “O art. 4º, §1º, da Lei 9.882/99 instituiu o “princípio da subsidiariedade” da ADPF, fonte de acirrada controvérsia61. Contudo, quando se trata de ADPF autônoma, parece fora de dúvida que o juízo sobre o atendimento do princípio em questão deve ter em vista a existência de outros processos objetivos de fiscalização de constitucionalidade, que possam corrigir de maneira adequada a lesão a preceito fundamental62”. Objeto: qualquer ato ou omissão do Poder Público63, seja normativo ou não normativo64; abstrato ou concreto; anterior ou posterior à CF; federal, estadual ou municipal; proveniente de qualquer órgão ou entidade do Legislativo, Executivo ou Judiciário (não imunizado pela coisa julgada); mesmo o já revogado ou cujos efeitos se tenham exaurido. Parâmetro de controle: sem embargo do postulado da unidade da Constituição, pelo qual não se cogita hierarquia entre as normas constitucionais, os preceitos fundamentais devem ser identificados a partir da compreensão da CF como uma ordem de valores (hierarquia axiológica), por meio da qual se pode vislumbrar as normas mais relevantes da Constituição, ligadas aos valores supremos do Estado e da sociedade. Apesar de ser difícil indicá-los a priori, há certo consenso quanto aos princípios fundamentais (CF, arts. 1º a 4º); aos direitos e garantias fundamentais; às cláusulas pétreas (CF, art. 60, §4º); aos princípios sensíveis (CF, art. 34, VII) (MENDES, 2010, p. 1333-6). Legitimados: os mesmos da ADI (ver resumo ADI/ADC). A versão aprovada pelo Congresso, atenta à modalidade incidental, que visa justamente à abertura da jurisdição constitucional aos cidadãos, admitia a legitimidade de qualquer indivíduo afetado por ato do Poder Público, mas o dispositivo foi vetado, fazendo com que a argüição incidental perdesse aplicabilidade65. Procedimento: A petição inicial deve conter a indicação do preceito fundamental violado, a indicação do ato questionado, a prova da violação e o pedido com suas especificações. Cuidando-se de argüição incidental, exige-se ainda a comprovação da controvérsia judicial relevante sobre o preceito fundamental. Admitida a argüição e examinado o pedido de liminar, se houver, o relator poderá ouvir as autoridades responsáveis pelo ato questionado, possibilitar a audiência das partes nos processos que ensejaram a argüição, requisitar informações adicionais, designar perito e determinar audiências públicas com experts. Os amici curiae podem apresentar manifestação escrita e fazer sustentação oral. O relator lançará relatório, com cópia para todos os Ministros, e pedirá dia para julgamento. Na ADPF incidental, operar-se-á uma “cisão” entre a questão constitucional e as demais questões suscitadas no caso concreto, subindo para apreciação do STF apenas a primeira delas, pois remanesce a competência dos órgãos judiciários ordinários para decidir a respeito da pretensão deduzida (CUNHA JR., 2011, p. 610). Medida cautelar: A concessãoopera efeitos ex nunc, salvo quando o STF entender que deva conceder-lhe eficácia retroativa. Pode visar à suspensão do ato impugnado, do andamento de processos ou dos efeitos de decisões judiciais ou de qualquer medida relacionada com a matéria discutida. A concessão de liminar depende de decisão da maioria absoluta dos membros do STF, ressalvados os casos de extrema urgência, de perigo de lesão grave ou de período de recesso, em que pode ser concedida pelo relator ad referendum do Pleno. Decisão definitiva: depende da presença de 8 ministros, com voto de pelo menos 6 deles. Exige-se que o STF independentemente de julgar procedente ou improcedente a argüição, fixe as condições e o modo de interpretação e aplicação do preceito fundamental. Os efeitos da decisão são ex tunc (passíveis de modulação - art. 11), erga omnes e vinculantes, alcançando “os demais órgãos do Poder Público”, o que torna a decisão em ADPF mais ampla que a proferida em ADI ou ADC, sendo cabível reclamação nos casos de descumprimento. PALAVRAS-CHAVE: AUTÔNOMA/INCIDENTAL; LESÃO/CONTROVÉRSIA: HIERARQUIA AXIOLÓGICA; SUBSIDIARIEDADE. 60 O relator da ADI 2231 deu interpretação conforme ao art. 1º, par. único, I, da Lei 9.882, a fim de excluir de sua aplicação controvérsias constitucionais concretamente postas em juízo. No entanto, o julgamento final da medida liminar encontra-se suspenso em virtude de pedido de vista (Informativo STF, n. 253, de 3 a 7 de dez./2001). 61 André Ramos Tavares e Dirley da Cunha Jr. entendem, minoritariamente, que o pressuposto da subsidiariedade somente se aplica à argüição incidental. Em relação à ADPF incidental, também há discussão sobre a possibilidade de a subsidiariedade ser aferida em face de mecanismos ordinários de controle difuso. 62 Excerto das ADPFs 187 e 207, subscritas por Deborah Duprat. 63 Daniel Sarmento defende que a expressão Poder Público compreende os atos de particulares praticados em razão do desempenho de função pública delegada (SARMENTO, 2002, p. 92). 64 Na incidental, prevalece a posição de que só é cabível contra ato normativo. 65 Dificilmente os legitimados se valerão da argüição incidental, pois podem lançar mão da modalidade autônoma, que não se submete ao requisito da prévia demonstração de controvérsia constitucional relevante. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 67 17.a. Configuração constitucional e infraconstitucional da proteção à família, a criança, ao adolescente e ao idoso. É a base da sociedade e terá especial proteção do Estado (art. 226 CF), havendo deveres constitucionalmente estabelecidos entre seus membros, tais quais o dos pais de criar, educar e assistir filhos menores e o dos filhos de ajudá-los e ampará-los na velhice, carência ou enfermidade (art. 229 CF). Trata-se da expressão mais eloquente da adoção de características comunitaristas em nosso ordenamento, havendo regulamentação infraconstitucional do dispositivo, como na criminalização de condutas que atentem contra a família (Título VII do CP) e na regulamentação da obrigação alimentar entre familiares (art. 1.696 e 1.697 CC). A Constituição de 1988 abandonara a concepção tradicional de família formada apenas pelo casamento, reconhecendo a proteção de arranjos monoparentais (art. 226, § 4º). Também reconheceu a proteção pelo Estado da união estável (art. 226, § 3º). A despeito de a redação do art. 226, § 6º falar de união estável entre homem e mulher, e de uma interpretação histórica demonstrar que o constituinte não pretendeu estender aos casais homossexuais a proteção conferida à união estável, o STF reconheceu que os casais formados de pessoas do mesmo sexo podem constituir união estável e, por conseguinte, fazer jus aos mesmos direitos conferidos às famílias heterossexuais.66 Os principais argumentos foram: a) a igualdade entre homo e heterossexuais e a liberdade de manifestar a respectiva sexualidade (art. 5º CF); b) a família é núcleo de afetividade, que não se diferencia entre pessoas de diferentes sexualidades; c) o art. 226, § 3º traz norma de inclusão, que não visa restringir a proteção das famílias homoafetivas. (ADI 4277 e ADPF 132). CRIANÇA, ADOLESCENTE E JOVEM: A proteção constitucional antes dedicada à criança e ao adolescente foi estendida ao jovem (EC 65/2010). Crianças são aqueles com idade de 0 a 12 anos incompletos; adolescentes são aqueles com idade de 12 anos completos aos 18 incompletos. O ECA regula o tema em sede infraconstitucional e se aplica às crianças e aos adolescentes. Excepcionalmente o ECA se aplica àqueles que já completaram 18 anos, como na aplicação de medidas sócio educativas e de proteção, antes do advento dos 21 anos (art. 122, § 5º e STJ HC 27.363). Dentre os princípios, destacam-se: Princípio da proteção integral: Impõe ao Estado, à família e à sociedade, com absoluta prioridade, assegurar ao jovem, à criança e ao adolescente o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência comunitária, à proteção contra a negligência, à discriminação, à exploração, à discriminação,à violência, à crueldade e à opressão; Princípio do melhor interesse da criança: Impõe que no caso concreto o aplicador do direito deve buscar a solução que proporcione maior benefícios para a criança, adolescente ou jovem e não para os demais envolvidos nos conflitos de interesse. O princípio do melhor interesse foi argumento decisivo na decisão do STJ sobre a possibilidade de casal homossexual adotar menor (STJ 889.852), porquanto atenderia ao melhor interesse da criança. Com a manifestação contrária da PGR, o art. 254 do ECA, que dispõe sobre a infração administrativa de transmitir espetáculos fora do horário indicado pelo Ministério da Justiça, está sendo considerado inconstitucional pelo STF, matéria ainda pendente de julgamento com o Min. Joaquim Barbosa. (ADI 2404). No âmbito da cooperação jurídica internacional em matéria civil destaca-se a convenção de Haia de 1980 sobre o aspecto civil do seqüestro internacional de crianças, que toma como objetivo concretizador do melhor interesse da criança o retorno imediato da criança ilicitamente transferida para qualquer estado contratante. (art. 1º). A autoridade central brasileira para o tema é a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência. INIMPUTABILIDADE: Por disposição constitucional os menores são inimputáveis (art. 228), aplicando-se aos menores que praticam atos equiparados a crimes medidas de proteção e aos adolescentes medidas de proteção e medidas sócio-educativas. Muito se discute na doutrina se o art. 228 é cláusula pétrea que impediria a redução da maioridade penal. IDOSO: Ao idoso, considerado para fins legais o maior de 60 anos, foi conferida especial proteção pela constituição, tema regulamentado pela Lei 10.741/03. Dentre os direitos garantidos, vários deles para os maiores de 65 anos, destaca-se: a) o recebimento de benefício de prestação continuada (LOAS), quando não possuir meios para sua manutenção (art. 34); b) o direito de gratuidade nos transportes coletivos urbanos (art. 39 c/c 230, § 2º CF), dispositivo cuja constitucionalidade já foi afirmada pelo STF (ADI 3.768); c) direito, nos termos do regulamento, a certas vantagens nos transportes coletivos interestaduais (art. 40). 66 Há uma série de direitos, desde aqueles de cunho patrimonial como pensões e concorrer na sucessão, até direitos de cunho existencial, como o direito ao casamento, cuja possibilidade foi recentemente corroborada pelo STJ. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 68 17.b. Silogismo jurídico clássico: subsunção, premissa maior normativa, verificação dos fatos, conclusão. Segundo uma concepção formalistade Direito, a atividade jurisdicional consistiria em dizer qual é o Direito in concreto, por meio de um processo de dedução lógica. Assim, a aplicação da lei poderia ser reduzida à estrutura de um silogismo, no qual a norma legal seria a premissa maior, a enunciação do fato a premissa menor e a decisão da sentença a conclusão. Não se admitia qualquer oposição entre a vontade do intérprete e a do legislador, cabendo ao jurista tão somente explicar a lei e não reformá-la, subsumindo os fatos concretos à determinação abstrata da lei. Essa concepção prevaleceu nos séculos XVIII e XIX, durante a época da codificação do direito francês, que resultou no Código de Napoleão em 1804, tendo sido adotada, entre outras, pela Escola da Exegese francesa (Proudhon, Melville, Pothier, Blondeau, etc,), pelo pandectismo alemão (Windcheid, Brinz, Glück) e pela Escola Analítica da Inglaterra (Austin, Blackstone, Beale). Miguel Reale critica essa doutrina, afirmando que “as coisas são bem mais complexas, implicando uma séria de atos de caráter lógico e axiológico, a começar pela determinação prévia da norma aplicável à espécie, dentre as várias possíveis, o que desde logo exige uma referência preliminar ao elemento fático”. Na realidade, “a norma não fica antes, nem o fato vem depois no raciocínio do juiz, pois este não raro vai da norma ao fato e vice-versa, cotejando-os e aferindo-os repetidas vezes até formar a sua convicção jurídica.” Ainda segundo REALE, “o ato de subordinação ou subsunção do fato à norma não é um ato reflexo e passivo, mas antes um ato de participação criadora do juiz, com sua sensibilidade e tato, sua intuição e prudência, operando a norma como substrato condicionador de suas indagações teóricas e técnicas”. As ideias do legalismo exegético foram também combatidas por várias escolas interpretativas, dentre elas: o utilitarismo de Jeremy Bentham, o teleologismo de Ihering, a teoria da concreção jurídica de Engisch, Esser e Larenz, a experiência prática de Oliver Wendell Holmes, a livre investigação científica de François Geny, a ofensiva sociologista de Eugen Ehrlich, o movimento do direito livre, a jurisprudência dos interesses, a jurisprudência sociológica dos Estados Unidos, a lógica experimental de John Dewey, a teoria egológica de Carlos Cossio, o rácio-vitalismo de Recaséns Siches, a teoria da argumentação de Perelman e o realismo norte-americano e escandinavo. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 69 17.c. Igualdade de gênero. Direitos sexuais e reprodutivos. “O controle da sexualidade sempre esteve presente no ordenamento jurídico brasileiro como garantidor da constituição da família heterossexual e da procriação legítima (..). Tal controle levou à criminalização de um conjunto de comportamentos considerados ‘atentatórios’ à família (adultério), à saúde (contágio de doença venérea) e liberdade sexual, assim como acarretou a criminalização da prática do aborto, exceto quando resulta de violência sexual.” (BARSTED, 2010: 247). “O direito brasileiro, em linhas gerais, apresenta duas possibilidades no que refere ao exercício da sexualidade: um exercício estimulado para procriação e constrangido ao âmbito familiar, e um exercício proibido e, por consequência, criminalizado.” (Idem, p. 248). Essa realidade sofreu, e sofre, questionamentos por parte de movimentos feministas e GLBTs, passando o Estado, paulatinamente, a incorporar nas políticas públicas cuidados com temas como a prevenção e promoção da saúde, contra o contágio de DSTs; a aprovação de lei de planejamento familiar (Lei 9.263/96) e o acolhimento, pelo Ministério da Saúde e pelo SUS, da cirurgia de mudança de sexo, fruto de Ação Civil Pública movida pelo MPF, que resultou na edição da Portaria do Ministério da Saúde nº 1.707, de 19 agosto de 2008, fixando que a cirurgia para mudança de sexo (transgenitalização) faria parte da lista de procedimentos do SUS. Mais recentemente, importante passo foi dado com o reconhecimento, pelo STF, da união civil de pessoas do mesmo sexo, tema que dispensa aprofundamento pela sua atualidade. “Em relação especificamente às mulheres, a Constituição Federal de 1988 as discriminações na vida familiar e, em 2003, o novo Código Civil suprimiu as referências ‘as expressões ‘comportamento desonesto da filha’ e ‘ virgindade da mulher’, inseridas no Código Civil de 1916.” (BARSTED: 248). “No campo da proteção contra violação de direitos, a ratificação de diversas convenções internacionais, como a Convenção de Belém do Pará para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher (...). A partir de 2003, novas demandas por proteção foram introduzidas na legislação penal, que implicaram o reconhecimento da ilicitude do assédio sexual, do tráfico de pessoas, da tipificação explícita do estupro marital e de maior severidade para os crimes sexuais.” (Idem). “Em 2005, a Lei 11.106 (...) alterou diversos artigos do Código Penal, na mioria claramente discriminatórios. Assim, por exemplo, o art. 5º dessa lei declara revogados os incisos VII e VIII do art. 107, que considerava extinta a punibilidade do estuprador que se casasse com a vítima. “No terreno da descriminalização, os avanços foram poucos. Assim, a legislação penal restringiu-se apenas à descriminalização do adultério, deixando de fora a demanda pela descriminalização do aborto voluntário.” (idem). Reconhecimento dos direitos sexuais e reprodutivos: “(...) importa admitir que as demandas por direitos sexuais significam a normatização da sexualidade (...). Isso, por um lado, significa o reconhecimento de direitos, de garantias e proteções e, por outro, abre espaço para que o ordenamento jurídico exerça a sua função na definição de possibilidades e limites. Esse controle não é isento de intenções e valores.” (idem) “(...) o conceito de direitos sexuais aponta duas vertentes diversas e complementares. Uma aponta para o campo da liberdade e da autodeterminação individual, compreendendo o livre exercício da sexualidade, sem discriminação coerção ou violência e sem a interferência do Estado, a não ser para garantir o exercício desses direitos. A segunda vertente indica a necessidade de formulação e implementação de políticas públicas de qualidade, acesso à informação e ao avanço científico que possibilitem seu efetivo exercício e, nesse caso, a interferência do Estado se faz necessária.” Quatro princípios, segundo Piovesan, devem orientar os direitos sexuais e reprodutivos, são eles: a universalidade, a indivisibilidade, a diversidade e o democrático. SIEGEL (2010: 281), afirma que “(...) a abordagem baseada na igualdade de gênero para direitos reprodutivos considera o controle sobre quando ser mãe como crucial para o status e bem-estar das mulheres (...)” “O controle sobre se e quando dar à luz é também de crucial dignidade e importância para as mulheres. Investir as mulheres do controle sobre se e quando dar à luz rompe com a presunção costumeira de que as mulheres existem para cuidar dos outros. E reconhece as mulheres como agentes que se auto-governam (...)” (SIEGEL, 2010: 281). “(...) A abordagem baseada na igualdade de gênero para os direitos reprodutivos se opõe a leis que restringem o aborto e a contracepção na medida em que tais leis pressupõem ou reforçam normas do costume (...)”(SIEGEL, 2010: 283). “Hoje, a maior parte de quem abraça a abordagem baseada na igualdade de gênero para os direitos reprodutivos opõe-se a restrições legais ao aborto porque: (...) essas restrições têm punido mulheres por atividade sexual sem responsabilizar os homens na mesma medida.” DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 70 18.a. Orçamento público voltado às políticas sociais: controle social e do Ministério Público Federal. Se direitos não nascem em árvores e todos demandam custos para a sua implementação, é preciso contextualizar o tema da efetividade dos direito sociais àluz dos problemas orçamentários. A escassez moderada de recursos é um fato da vida que não pode ser desprezado pelo jurista, motivo pelo qual não se revela fantasioso o argumento da reserva do possível, conquanto seja patente a possibilidade do judiciário controlar excessos (ex: invertendo o ônus da prova - REsp 764.085). O orçamento é o local por excelência para a realização de escolhas trágicas, tanto no que toca às fontes de financiamento dos direitos sociais, quanto no que se refere às prioridades de gastos, cabendo-as, em uma democracia representativa, precipuamente ao povo, por meio de seus representantes. Orçamento prevê receitas e autoriza gastos, sendo meramente autorizativo no Brasil. O orçamento é instrumento de intervenção do Estado na economia, por meio do qual o Estado exerce função planejadora (art. 174 da CF), determinante para o setor público e indicativa para o setor privado. Além disso, o orçamento é instrumento poderoso para a realização das atividades redistributivas do Estado, concretizando princípios tributários de equidade como a progressividade fiscal e as imunidades, na medida em que destina as verbas arrecadadas aos mais pobres. Na sistemática orçamentária constitucional (PPA, LDO e LOA), destaca-se o orçamento da seguridade social, que integra finalisticamente a LOA (princípio da unidade orçamentária, art. 165, § 5º). FINANCIAMENTO: As principais fontes de financiamento dos direitos sociais são os tributos, receitas derivadas e correntes. O financiamento pode se dar de forma direta, por meio da receita dos impostos que vão para o caixa único de cada ente federativo, ou de forma direita, por meio das contribuições sociais, de competência da União (art. 149 CF). DESPESAS, VINCULAÇÃO E DESVINCULAÇÃO: Para garantir a destinação dos recursos arrecadados para a efetivação dos direitos sociais utiliza-se a técnica da afetação, o que representa exceção constitucionalmente autorizada (art. 167, IV CF). Sobre os percentuais para saúde e educação cf. tópicos 19 c e 16 a. Sob o argumento de que a maior parte do orçamento é engessado pelas vinculações constitucionais e pelas despesas correntes de caráter obrigatório, o que impede o Governo de executar seus programas, criou-se a DRU (desvinculações de receitas da União), por meio da qual se desvinculam recursos de impostos e contribuições sociais e de intervenção afetados, no percentual de 20% (art. 76 ADCT). O STF já se manifestou pela sua constitucionalidade (RE 537.310). A prorrogação da DRU, que se encerrava este ano, foi aprovada em 7 de dezembro de 2011. CONTROLE SOCIAL: Indiretamente o controle social do orçamento se dá por meio da comissão mista, composta de deputados e senadores (art. 166, § 1º CF), a quem cabe exercer o acompanhamento e fiscalização orçamentária. De forma direta podemos mencionar todos os mecanismos de participação política, como a presença em audiências públicas, o voto, o direito de petição e de ajuizar ação popular. A LRF foi alterada em 2009 com o intuito de incentivar a transparência e fomentar a participação popular na gestão fiscal. Há obrigação estatal de divulgação (inclusive na internet) de diversos documentos fiscais (art. 48 LRF); a faculdade de participação popular em audiências públicas (art. 48, I); o amplo direito de petição de informações (art. 48-A). CONTROLE DO MP: cf. tópico 5.a. (MP, judiciário e políticas públicas). O STJ já realizou controle de política pública determinando a inclusão de verba na LOA do ano seguinte (REsp. 493.811) DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 71 18.b. Direitos das pessoas portadoras de deficiência: configuração constitucional e infraconstitucional. A história da construção dos direitos humanos das pessoas com deficiência compreende quatro fases: a fase da intolerância, a fase da invisibilidade, a fase assistencialista, marcada pela perspectiva médica e biológica de que a deficiência era uma “doença a ser curada”, e uma quarta fase, orientada pelo paradigma dos direitos humanos, em que emerge o direito à inclusão social e a necessidade de eliminar obstáculos e barreiras culturais, físicas e sociais que embaraçam a dignidade dos portadores de deficiência. Sob essa inspiração, foi adotada pela ONU a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006), reconhecendo que todas as pessoas devem ter a oportunidade de alcançar de forma plena o seu potencial. Note-se que essa Convenção e seu Protocolo Facultativo foram os primeiros tratados internacionais de direitos humanos aprovados nos termos do art. 5º, §3º, da CR/88, possuindo, desta forma, status material e formalmente constitucional. A Convenção contempla as vertentes repressiva (proibição de discriminação) e promocional (promoção de igualdade), enunciando deveres aos Estados para viabilizar a dignidade, a autonomia individual, a efetiva participação e inclusão na sociedade, a não discriminação, o respeito pela diferença, a igualdade de oportunidades e a acessibilidade da pessoa com deficiência (PIOVESAN, 2011, p. 277-281). Em sede doméstica, após o texto constitucional contemplar diversas regras e princípios de proteção dos portadores de deficiência, adveio a Lei 7.853/89, que criou a Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência - CORDE, instituindo, ainda, diversos direitos e garantias. Posteriormente, o Decreto 3.298/99 regulamentou a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, consolidando normas conceituais, de proteção, organização e assistência, além de dispor sobre aspectos institucionais e formas de incentivo ao acesso de portadores de deficiência à educação e ao trabalho. Objetivando inserir o deficiente no mercado de trabalho, como agente co-participante da produção nacional, a Lei Maior, além de vedar qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão (CF, art. 7º, XXXI), prescreve a reserva de mercado de trabalho para os portadores de deficiência (CF, art. 37, VIII). Na seara pública, a Lei 8.112/90 (art. 5º, § 2º) conferiu o percentual máximo de 20% das vagas de cada concurso público às pessoas com desde que as atribuições do cargo postulado sejam compatíveis com a deficiência de que são portadoras. No campo da iniciativa privada, a Lei 8.213/91 (art. 93) prevê a obrigatoriedade de as empresas preencherem percentuais de seus cargos com beneficiários reabilitados e pessoas portadoras de deficiência habilitadas. Para tanto, a assistência social dispõe de serviços de habilitação e reabilitação de pessoas com deficiência, garantindo aos que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família o benefício mensal de um salário mínimo (CF, art. 203, IV e V; LOAS, art. 20 a 21-A). A aposentadoria do portador de deficiência, tanto no regime próprio como no regime geral de previdência, foi ressalvada da vedação constitucional contida nos arts. 40, §4º, e 201, §1º, podendo lei complementar prever a adoção de requisitos e critérios diferenciados para sua concessão (Lei 8.213/91, art. 57, extensível aos servidores públicos cf. STF: MI 1613, MI 1737, MI 1967). O constituinte garantiu o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino (CF, art. 208, III), tendo a Lei 9.394/96 (arts. 58 a 60), ao regulamentar a educação especial, atentado para currículos, métodos, técnicas e recursos educativos específicos, bem como professores especializados e capacitados para a integração dos educandos portadores de deficiências nas classes comuns. O direito à integração social e à acessibilidade também foram previstos na CF/88, que determina a criação de programas estatais de prevenção, atendimento especializado, treinamento para o trabalho e a convivência e a facilitação do acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de obstáculos arquitetônicos e de todas as formas de discriminação dos portadores de deficiência (CF,art. 227, §1º, II). Considerando que a falta de acessibilidade traduz forma de preconceito contra as pessoas com deficiência, pois lhes retira a autonomia e independência inerentes à dignidade humana, a Carta Republicana incumbiu o legislador infraconstitucional da elaboração de normas sobre construção e adaptação de logradouros, de edifícios de uso público e de fabricação de veículos de transporte coletivo (CF, arts. 227, §2º, e 244). Papel este cumprido pela Lei 10.098/00, que trouxe critérios básicos para a promoção da acessibilidade, mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias e espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma dos edifícios e nos meios de transporte e de comunicação. A Lei 8.899/94 dispõe sobre a concessão de passe livre às pessoas com deficiência no transporte coletivo interestadual e é regulamentada pelo Decreto 3.691/00. A Lei 10.048/00, por sua vez, prioriza o atendimento às pessoas portadoras de deficiência, exigindo a prestação de um serviço diferenciado oferecido pelas repartições públicas e concessionárias de serviço público, incluindo-se as instituições financeiras. A Lei 10.216/01 regulamenta a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais, redimensionando o modelo de assistência à saúde mental no Brasil (BOLONHINI JUNIOR, 2010). PALAVRAS-CHAVE: DIREITOS HUMANOS; FASES; CONVENÇÃO DA ONU - STATUS CONSTITUCIONAL; IGUALDADE; TRABALHO; APOSENTADORIA; EDUCAÇÃO; ACESSIBILIDADE. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 72 18.c. Ação Declaratória de constitucionalidade. ADC. 1) Antecedentes históricos (MENDES, 2009, p. 369-399): Desde a Constituição de Weimar e, posteriormente, a Lei Fundamental de Bonn, reconhece-se a dupla função do controle abstrato de normas, como instrumento de defesa da Constituição, permitindo eliminar do ordenamento jurídico as leis inconstitucionais, e de manutenção da segurança jurídica, quando infirma a existência de inconstitucionalidade, espancando dúvidas sobre a higidez da situação jurídica. No Brasil, a discussão sobre a natureza dúplice do controle abstrato tem seus primórdios na representação interventiva instituída pela CF/34 e aperfeiçoada pela CF/46, em que se permitia ao PGR argüir a inconstitucionalidade do ato estadual, se dela tivesse convencido, ou encaminhar junto ao pedido de argüição um parecer no qual opinava pela constitucionalidade do ato. Com o advento da EC 16/65, que introduziu o controle de constitucionalidade abstrato em sede constitucional, embora se tenha positivado no Reg. Interno do STF a possibilidade de o PGR encaminhar parecer contrário junto com a representação de inconstitucionalidade, mantiveram-se as controvérsias sobre o caráter ambivalente do controle, que somente se solucionaram com a introdução da ADC na CF/88 pela EC 3/93. 2) Objeto: lei ou ato normativo federal, que abrange, além das espécies normativas do art. 59 da CF, resoluções de tribunais, do CNJ e do CNMP, atos do Poder Executivo com força normativa e tratados internacionais, desde que ligados diretamente à Constituição. Por não ser admitida constitucionalização superveniente, a norma deve ter sido produzida posteriormente ao parâmetro constitucional invocado. Apesar de a ADC ter sido criada por emenda, em 17/03/93, o STF admite como objeto leis e atos normativos anteriores à EC 3/93. Exige-se que o ato normativo esteja em vigor no momento da propositura da ação. Excluem-se da ADC perante o STF: normas constitucionais originárias; atos normativos secundários; leis declaradas inconstitucionais em decisão definitiva do STF, cuja eficácia tenha sido suspensa pelo Senado (CF, art. 52, X); leis ou atos normativos revogados; leis temporárias após o término de sua vigência; medida provisória revogada, havida por prejudicada ou não convertida em lei; as leis e atos normativos estaduais e municipais, que poderão, contudo, ser objeto de ADC no âmbito do TJ, desde que exista previsão na respectiva CE. 3) Parâmetro de controle: alcança todo o bloco de constitucionalidade, abrangendo as regras e os princípios constitucionais, explícitos e implícitos, assim como as disposições materialmente constitucionais alheias ao texto constitucional, valendo ressaltar os tratados internacionais de direitos humanos aprovados nos termos do art. 5º, §3º. Podem ser invocadas como parâmetro tanto as normas do texto permanente quanto as transitórias (ADCT) cuja eficácia não esteja exaurida, desde que vigentes no momento da propositura da ação. 4) Características: cuida-se de típico processo objetivo, unilateral, não contraditório, sem partes, no qual há um requerente, porém, inexiste requerido. Esse caráter objetivo repercute nas regras procedimentais: o requerente não pode desistir da ação proposta; a causa petendi não se adstringe aos fundamentos constitucionais invocados pelo requerente, mas abarca todas as normas que integram a CF; não se admite intervenção de terceiros; as decisões são irrecorríveis, salvo os embargos de declaração e o agravo contra decisão do relator; é incabível ação rescisória, exceção de suspeição e de impedimento (ADI 2321); não há prazo prescricional ou decadencial. 5) Legitimados: originariamente (EC n. 3/93), eram legitimados apenas o Pres. da República, as Mesas do Senado e da Câmara e o PGR. A EC n. 45/04 estendeu a legitimidade aos legitimados para propor ADI (CF, art. 103). O STF, contudo, estabeleceu o vínculo de pertinência temática como critério de verificação da representatividade adequada das confederações sindicais, entidades de classe de âmbito nacional, Mesas de Assembléias Legislativas ou da Câmara Legislativa do DF, Governadores dos Estados ou do DF. Logo, esses órgãos/entidades devem demonstrar a existência de um nexo de afinidade entre seus objetivos institucionais e o conteúdo material da norma impugnada. O partido político deve ter pelo menos um representante no Congresso Nacional; a organização sindical que congregue, pelo menos, três federações representativas da categoria atingida pela norma impugnada; a entidade de classe de âmbito nacional que congregue integrantes de categoria econômica/profissional represente toda essa categoria e conte com associados em, no mínimo, 9 Estados. Vale destacar: os requisitos da legitimidade devem ser aferidos no momento da propositura da ação; a legitimidade do Pres. da República independe do exercício de seu poder de veto; partidos políticos, confederações sindicais e entidades de classe devem estar acompanhados por advogado com poderes específicos (os demais possuem capacidade postulatória); admite-se a legitimidade das associações de associações (ADI-AgR 3153). 6) Procedimento: a petição inicial deve ser apresentada em duas vias, trazendo cópia do ato normativo questionado e dos documentos comprobatórios do pedido. Em razão do princípio da presunção de constitucionalidade das leis, a ADC tem como pressuposto de admissibilidade a legitimação para agir in concreto (assim denominado por G. MENDES), consistente na existência de um estado de incerteza, gerado por dúvidas ou controvérsias relevantes sobre a legitimidade da lei, que ponham em risco aquela DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 73 presunção. Verificada a admissibilidade da ação, o relator, após o julgamento do pedido cautelar, se houver, determina a audiência do PGR, sendo dispensada a manifestação do AGU. Emitido o parecer ministerial, o relator poderá apresentar relatório com cópia a todos os ministros e pedir dia para julgamento. Embora tenham sido vetadas as disposições que previam a participação de amicus curiae na ADC, dado o seu caráter ambivalente, é de se lhe aplicar o disposto no art. 7º, § 2º, da Lei 9.869, que admite, na ADI, a manifestação de amici curiae, inclusive por sustentação oral, considerada a relevância da matéria e a representatividade dos postulantes. É majoritário o entendimentode que descabe a intervenção de co-legitimado, mesmo como assistente litisconsorcial. O relator pode solicitar informações a Tribunais sobre a aplicação da norma no âmbito de sua jurisdição, designar peritos e ouvir depoimentos. O julgamento exige quorum de deliberação de, pelo menos, oito ministros (desnecessário que seja atingido numa mesma sessão), sendo proclamada a constitucionalidade com votação de seis deles. 7) Medida Cautelar: diferentemente da ADI, em que a liminar suspende a eficácia da norma questionada, a concessão da cautelar na ADC objetiva paralisar, em instâncias inferiores, o julgamento dos processos que envolvam a aplicação da lei ou do ato normativo questionado até seu julgamento definitivo. 8) Efeitos: os efeitos da decisão final da ADC, seja ela procedente ou improcedente, são em regra ex tunc, erga omnes e vinculantes quanto aos atos dos órgãos judiciários, da Adm. Pública direta e indireta da União, Estados, DF e Municípios. O decisum passa a valer a partir da publicação da ata da sessão de julgamento no DJU. É possível que o STF restrinja os efeitos temporais da decisão, fixando outro termo a partir do qual será eficaz, desde que haja deliberação de no mínimo 2/3 de seus membros e seja fundada em razões de segurança jurídica ou de excepcional interesse social (modulação temporal). O efeito vinculante não atinge o STF, que poderá reexaminar a norma67, nem o legislador, de cuja atividade pode derivar nova lei com idêntico conteúdo ou a revogação da norma reputada constitucional (evita-se, assim, a “fossilização da Constituição”). A eficácia vinculante abrange a parte dispositiva da decisão e os fundamentos determinantes do julgado (transcendência dos motivos determinantes). Nos processos judiciais que estiverem em curso, seja na instância ordinária ou extraordinária, caberá ao órgão jurisdicional considerar a decisão proferida pelo STF no momento de julgar (arts. 462, 475-L, §1º, 741, par. único, do CPC). A inobservância pelos magistrados, bem como pela Administração, da diretriz firmada em controle abstrato de normas enseja a propositura de reclamação constitucional por qualquer sujeito atingido. PALAVRAS-CHAVE: NATUREZA DÚPLICE; EC 03/93; BLOCO DE CONSTITUCIONALIDADE; PROCESSO OBJETIVO; PERTINÊNCIA TEMÁTICA; CONTROVÉRSIA JUDICIAL RELEVANTE; TRANSCENDÊNCIA; RECLAMAÇÃO; MODULAÇÃO. 67 Luís Roberto Barroso e Lênio Streck sustentam que a decisão que conclui pela constitucionalidade do ato não se reveste da autoridade da coisa julgada material, podendo o STF reapreciar questão já definitivamente julgada se ela retornar à sua análise sob nova roupagem. Outros, como Fredie Didier, afirmam que isso se dá porquanto a decisão se submete à cláusula “rebus sic stantibus”. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 74 19.a. Liberdade de expressão, religiosa e de associação. Os direitos civis e a Constituição de 1988. Colisão dos direitos fundamentais: “Alexy argumenta em favor de uma teoria que considera vários princípios que, embora não possam ser rigidamente hierarquizados, podem ser colocados em ordem mediante uma relação de prioridade “prima facie”. Ou seja, não é possível hierarquizar os princípios de modo a permitir a que se chegue a um único resultado – ou se ter uma “ordem dura”-, mas é viável uma “ordem mole” [...] Admite-se, assim, que os princípios da liberdade e da igualdade jurídicas têm uma prioridade prima facie” (Marinoni: 2010, p. 72). É por este motivo que, “quando, por exemplo, o direito de liberdade de expressão colide com o direito à honra, já existe em favor do direito da liberdade uma carga argumentativa implícita. Assim, caso a argumentação em favor do direito da personalidade não seja capaz de demonstrar que o direito de liberdade deva ceder, isso não ocorrerá. Para que um princípio possa se sobrepor ao princípio da liberdade é preciso uma argumentação mais forte do que a necessária para sustentá-lo” (Idem, p. 130). Liberdade empresa jornalística: como não há democracia em uma economia planificada (sem mercado e autonomia privada), e só há liberdade de expressão em uma democracia, a liberdade de expressão depende necessariamente da garantia de liberdade de empresa jornalística, tutelada pela liberdade de associação; porém, a própria CF limita esta liberdade ao dispor que a empresa jornalística e de radiodifusão sonora ou audiovisual compete privativamente aos brasileiros natos, ou aos naturalizados há mais de dez anos, ou às pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras com “pelo menos setenta por cento do capital total e do capital votante das empresas jornalísticas e de radiodifusão [...] deverá pertencer, direta ou indiretamente, a brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos” (art. 222, § 1º, da CF). Relação entre liberdade de reunião e de expressão: consoante a ADI 4274 (j. em 23/11/2011), decidiu-se que a “marcha da maconha” não pode ser considerado crime pelo art. 33, § 2º, da Lei de Drogas, pois seria afrontoso aos direitos de reunião e de livre expressão do pensamento, previstos na Constituição Federal; outrossim, na ADPF 187 (j. em 15/06/2011) já se havia estabelecido que o art. 287 do CP mereceria interpretação conforme a constituição. Jurisprudência do STF: (1) ADPF 130-7/DF: não recepção “in totum” da Lei de Imprensa, porquanto a não recepção dos seus institutos centrais descaracterizaria o microsistema; (2) RE 511961: dispensou o diploma para o exercício profissional do jornalismo, aplicando o princípio da proporcionalidade; (3) RE 414426: a profissão de músico não está condicionada ao prévio registro ou licença de entidade de classe, em razão do direito de expressão artística; (3) ADI 4274 e ADPF 187: liberdade de reunir e expressar-se pela abolição penal sem que configure alusão criminosa; (4) ADI 2404: classificação indicativa informativa (pendente de julgamento). Esfera pública e discursividade: “O regime democrático é uma garantia geral à realização dos direitos humanos fundamentais” (Afonso da Silva:2001, p. 237), inclusive a liberdade de expressão, mas esta também é ao mesmo tempo uma garantia recíproca da democracia: “[...] a locução liberdade de expressão e comunicação denota um direito fundamental de dimensões subjetiva (garante a auto-realização da dignidade da pessoa humana) e institucional (assegura a formação da opinião pública independente, o pluralismo político e o bom funcionamento do regime democrático)” (Farias:2004, p. 17-18); “é convicção comum [...] que esse papel [papel político da imprensa] tem duas vertentes principais: de um lado, subministrar aquele conjunto de informações acerca da coisa pública, em todos os seus aspectos, necessárias para um responsável exercício dos direitos de cidadania, muito especialmente o de voto; e de outro, exercer constante monitoramente do poder, isto é, atuar como fiscal permanente do governo” (Pereira:2002, p. 42). Liberdade religiosa: “compreende três formas de expressão [...]: (a) liberdade de crença [...] mas também compreende a liberdade de não aderir a religião alguma [...]. (b) liberdade de culto [...] na prática dos ritos, no culto, com suas cerimônias, manifestações [...] na forma indicada pela religião escolhida [...]. (c) Liberdade de organização religiosa [...] diz respeito à possibilidade de estabelecimento e organização das igrejas e suas relações com o Estado” (Silva:2001, p. 251-254). Neste último aspecto, impende destacar a característica laica do Estado e a imunidade tributária como garantia da liberdade religiosa. Resguarda-se o ensino fundamental religioso com matrícula facultativa (art. 210, § 1º)”. Liberdade de associação: objeto do art. 5º, XVII até XXI, da CF. Conceito: “no dizer de Pontes de Miranda – ‘toda coligação voluntária de algumas ou de muitas pessoas físicas, por tempo longo, com o intuito de alcançar algum fim (lícito), sob direção unificante’ [...] Seus elementossão: base contratual, permanência (ao contrário da reunião), fim lícito [...] a ausência de fim lucrativo não parece ser elemento da associação [...] inclui tanto as associações em sentido estrito ([...] de fim não lucrativo) e as sociedades [...] contém quatro direitos: o de criar associação (e cooperativas), que não depende de autorização; o de aderir a qualquer associação [...]; o de desligar-se [...]; o de dissolver espontaneamente a associação [...] Duas garantias coletivas [...]: (a) veda-se a interferência estatal no funcionamento [...] (b) as associações só poderão ser compulsoriamente dissolvidas ou ter suas atividades suspensas por decisão judicial, exigindo-se, no primeiro caso, trânsito em julgado [...] Há duas restrições expressas: [...] não seja para fins lícitos ou de caráter militar. E é aí que [...] autoriza a dissolução por via judicial” (Silva:2001, p. 269-271). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 75 19.b. Direitos e interesses das comunidades indígenas e das remanescentes de quilombos. Comunidades tradicionais. Papel do Ministério Público na defesa das minorias. Além das múltiplas e heterogêneas comunidades indígenas e quilombolas, temos inúmeras comunidades tradicionais, destacando-se as extrativistas, as comunidades ribeirinhas e os ciganos. Todos esses grupos têm em comum um modo de vida tradicional distinto da sociedade nacional de grande formato. O grande desafio para a 6ª CCR e para os Procuradores que militam em sua área temática é assegurar a pluralidade do Estado brasileiro na perspectiva étnica e cultural, tal como constitucionalmente determinada. Não deve existir qualquer distinção entre índios, seja no contexto urbano, aldeamento, beira de estrada ou processo de demarcação. O art. 68 do ADCT é direito fundamental, ligado à moradia, à igualdade substantiva e justiça social, à medida reparatória a resgatar dívida histórica, ao direito coletivo das comunidades de manterem sua identidade etno-cultural (já que a terra é o elo que mantém a coesão do grupo) e ao direito difuso de toda a sociedade brasileira à sobrevivência cultural das específicas formas de viver dos quilombolas. O art. 68 é suficientemente denso a permitir sua aplicação imediata. Duas leituras são possíveis: (a) a transferência da propriedade depende de desapropriação: a própria CF operou a afetação das terras ocupadas pelos quilombolas a uma finalidade pública de máxima relevância, eis que relacionadas a direitos fundamentais de uma minoria étnica vulnerável: o seu uso, pelas próprias comunidades, de acordo com seus costumes e tradições, de forma a garantir a reprodução física, social, econômica e cultural. Os proprietários particulares não podem reivindicar a posse da terra ou buscar proteção possessória antes da desapropriação ou da imissão provisória na posse. Diante da privação da posse, só podem postular indenização, tal qual na desapropriação indireta. Já os quilombolas podem se valer de todos os instrumentos processuais adequados à efetivação e à proteção do seu direito à posse, mesmo antes da desapropriação e até independentemente dela, contra o proprietário ou terceiros; (b) a própria CF já transferiu a propriedade: o ato de reconhecimento tem caráter declaratório, daí porque o gozo do direito de propriedade coletiva é imediato (a partir do art. 68), podendo ser tutelado em juízo independentemente de prévia desapropriação. A desnecessidade de desapropriação não impede o pagamento de indenização a eventual exproprietário privado, para melhor acomodar os interesses em jogo. O Decreto 4.887/03, que regulamenta o procedimento administrativo de titulação das terras quilombolas e, se for o caso, sua desapropriação, (a) não é autônomo, pois baseado na Convenção 169 da OIT e na Lei nº 9.784/99 e, ademais, ainda que fosse, é válido decreto que regulamenta diretamente norma constitucional consagradora de direito fundamental suficientemente densa e de aplicabilidade imediata (superação do modelo legicêntrico) (parecer na ADIn 3239, Sarmento). 1740, Conselho Ultramarino: quilombo é “toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e não se achem pilões nele”. Almeida: no Império, basta que passem de dois, mas mantém-se a mesma definição. Com a proclamação da República, o quilombo desaparece do Direito por quase 100 anos até a CF/88. Para esta, o quilombo é uma autonomia construída no tempo; não é o local onde se encontra vestígios, mas onde os agentes sociais estão (critério da autoatribuição – o grupo se autodefine). Duprat: remanescentes de quilombos, índios e diversos outros grupos étnicos, uma vez que sabidamente não foram tratados na CF por falta de conhecimento do constituinte, mas estão também amparados, e, no momento em que se revelarem, terão o mesmo tratamento jurídico que os grupos étnicos expressamente referidos estão a ter. Quando a CF prestigia os modos de viver, fazer e sentir desses grupos e as sua formas de expressão, está dando a esses grupos a capacidade de autodefinição. Cabe ao Judiciário verificar se há, a partir dessa auto-identificação, pertinência ou não com o direito que é referido, mas jamais cabe ao Judiciário, ao administrador ou a qualquer outro grupo étnico diverso dizer o que aquele grupo é. A autodefinição também é o critério da Convenção 169 da OIT. Norma emancipatória não pode ser interpretada à luz de concepções da época escravocrata. A questão dos remanescentes dos quilombos não difere em nada da questão indígena, a propriedade de suas terras é como “território cultural” (Almeida e Duprat, 2003). DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 76 19.c. Sistema Único de Saúde. Princípios e diretrizes norteadoras. A saúde é direito fundamental previsto no art. 6º e 196 CF, de cuja feição institucional se preocupou o constituinte nos artigos 197 ao 200 da CF. Pode se manifestar em uma dimensão positiva/prestacional (fornecimento estatal de insumos terapêuticos) ou negativa (deveres de abstenção).68 O principal mecanismo de efetivação do direito à saúde é o sistema brasileiro de saúde, conceito amplo que abrange o sistema único (público) e o sistema privado (suplementar, art. 199 CF) e se encontra inserido em um sistema maior, a seguridade social, motivo pelo qual a ele se aplicam todos os objetivo previstos no art. 194 CF. SUS (Lei 8.080/90): É a principal política pública em matéria de saúde, visando, na forma do art. 196 CF, à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. A fonte constitucional o SUS é o art. 198, que o conceitua como uma rede regionalizada e hierarquizada de ações e serviços públicos, de acordo com as diretrizes da descentralização (com direção única em cada esfera de governo); do atendimento integral (com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais) e da participação da comunidade. PRINCÍPIO DA UNIDADE: determina que os serviços e ações de saúde devem pautar-se nas mesmas políticas, diretrizes e comandos. Enfatiza que o SUS deve articular todos os serviços existentes no país, coordenando-os para que haja otimização dos escassos recursos e ganho de escala, evitando-se a sobreposição de estruturas. Da unidade decorre: a) inevitabilidade de integração dos entes subnacionais ao SUS, dentro da lógica de um federalismo cooperativo; b) total legitimidade de que um cidadão, na falta de recursos adequados em sua cidade, recorra aos serviços da municipalidade vizinha, cabendo ao gestor estadual adotar as medidas necessárias para que o município faltoso passe a cumprir as obrigações que lhe cabem. REGIONALIZAÇÃO E HIERARQUIZAÇÃO: A regionalização indica a necessidade de que haja organização por circunscrições territoriais, que devem levar em conta o dinamismo e a complexidadedo sistema, adaptando as ações e serviços ao perfil epidemiológico local. A hierarquização se relaciona com a necessidade de organização do atendimento em distintos níveis de complexidade, assinalando que o acesso aos serviços de saúde deve ocorrer a partir dos mais simples em direção aos níveis mais altos de complexidade. (primário, secundário e terciário). DESCENTRALIZAÇÃO: Os serviços devem ser primordialmente executados pelos municípios, em atenção ao princípio da subsidiariedade, de modo que somente devem ser atribuídas ao Estado e à União as tarefas que os Municípios e Estados não puderem executar satisfatoriamente, ou que requeiram dimensão regional ou nacional. Aqueles que se opõem á tese da responsabilidade solidária em demandas de fornacimento de medicamentos, prevalecente no STF, apontam que a desconsideração das competências e responsabilidades estatuídas pelos entes federados, com a consequente condenação da União, prejudica a diretriz da descrentralização. UNIVERSALIDADE: A universalidade horizontal (aspeco subjetivo) impõe a necessidade de que o acesso ao SUS esteja aberto a todos, independentemente de prévia vinculação a qualquer sistema contributivo, como ocorria antes da Constituição de 1988. Difere-se da universalidade vertical (aspecto objetivo), que se relaciona com as prestações oferecidas. Universalidade não implica desnecessidade de fontes de financiamento, aplicando-se as regras gerais do art. 195 CF. Nesse campo foi adotada a estratégia de vinculação constitucional de receitas pela EC 29/2000, que alterou a redação do art. 198 CF, constituindo exceção ao princípio da não-afetação orçamentária.69 Há discussão se a universalidade implica gratuidade.70 INTEGRALIDADE / IGUALDADE / SELETIVIDADE / DISTRIBUTIVIDADE: A integralidade impõe a assistência em quaisquer dos níveis de complexidade, incluindo atividades de prevenção epidemiológica (vacinação), o mais amplo espectro de atendimentos (consultas, cirurgias, internações), de assistência farmacêutica e de prestação de serviços e de fornecimento de insumos necessários à integração ou reintegração do indivíduo à vida social (próteses). Embora alguns pretendam ignorar, como fez o STF enquanto influenciada pelo voto do Min. Celso de Melo na ADPF 54, a integralidade esbarra na escassez de recursos. Por isso deve ser compatibilizada com os princípios da igualdade/seletividade/distributividade (art. 194, III e 196 CF), cuja principal função é bitolar a integralidade e compatibilizá-la com a reserva do possível. Sobre o controle judicial, o STF vem entendendo: a) pela necessidade de atentar para as políticas públicas já formuladas pelo SUS; b) pela necesidade de verificar a existência de registro da prestação de saúde na ANVISA (Recomendação 31 CNJ); c) que a lentidão administrativa para atualizar suas listas de medicamentos e seus protocolos pode justificar a concessão das prestações pleiteadas nelas não constantes; d) que não pode o Judiciário determinar o fornecimento pelo Estado de medicamentos experimentais sem eficácia comprovada. (STA 175). 68 Acredito que o exemplo da Revolta da Vacina ocorrida no Rio no início do século passada reflete bem um dever de abstenção estatal no campo sanitário. Outros exemplos da jurisprudência são a vedação à utilização de produtos que contenham amianto ou absesto (STF, ADI MC 3.937) ou a proibição de importação de pneus usados (STF, ADPF 101). 69 Estados devem destinar 12% e os municípios 15% de suas receitas próprias para o financiamento de ações e serviços públicos de saúde, ao passo que a União deve despender o valor apurado no ano anterior, corrigido pela variação nominal do PIB. Em 7/12/11 foi aprovada a lei que regula a EC 29, destacando-se a definição do que pode ser considerado gastos com saúde e a vedação da criação de uma contribuição substitutiva da CPMF. 70 Pela gratuidade WEICHERT (integrante do MPF). Pela possibilidade de instituição de taxa para quem tenha capacidade contributiva SARLET e TORRES. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 77 20.a. Finanças públicas. Temas sujeitos à reserva de lei complementar. Emissão de moeda. Normas sobre o Banco Central. Orçamentos públicos: plano plurianual, diretrizes orçamentárias e orçamentos anuais. Vedações orçamentárias. Disponibilidade de recursos a órgãos dotados de autonomia. Normas sobre despesas de pessoal. Temas sujeitos à reserva de lei complementar (art. 163, CR/88): finanças públicas; dívida pública externa e interna, incluída a das autarquias, fundações e demais entidades controladas pelo Poder Público; concessão de garantias pelas entidades públicas; emissão e resgate de títulos da dívida pública; fiscalização das instituições financeiras; fiscalização financeira da administração pública direta e indireta; operações de câmbio realizadas por órgãos e entidades da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; compatibilização das funções das instituições oficiais de crédito da União, resguardadas as características e condições operacionais plenas das voltadas ao desenvolvimento regional. Emissão de moeda: competência da União, exclusivamente pelo banco central. Banco Central: vedação para conceder, direta ou indiretamente, empréstimos ao Tesouro Nacional e a qualquer órgão ou entidade que não seja instituição financeira; possibilidade de comprar e vender títulos de emissão do Tesouro Nacional, com o objetivo de regular a oferta de moeda ou a taxa de juros; depositário das disponibilidades de caixa da União. Orçamentos Públicos (art. 165, CR/88, §1°, §2° e §5°): são três leis que compõem o orçamento, mas a idéia de orçamento é UNA: I) PPA (4 anos); II) LDO (1 ano); III) LOA (1 ano). Elaborar o orçamento significa planejar. Essas três leis são ordinárias e temporárias, que deveriam ser elaboradas de acordo com LC geral que iria auxiliar todos os entes federativos (art. 165, §9°, CR/88). São elaboradas de forma harmônica, regidos de principio da unidade, se integrando finalisticamente. Os prazos para envio estão no art. 35, §2°, ADCT: PPA (agosto do primeiro exercício financeiro), LDO (abril de cada ano) e LOA (agosto de cada ano). Os prazos para Estados e Municípios podem ser definidos nas Constituições Estaduais ou Leis Orgânicas, respectivamente. A iniciativa das leis é do chefe do executivo. Princípios constitucionais orçamentários: a) exclusividade em matéria orçamentária (art. 165, §8°, CR/88): orçamento não pode conter dispositivo estranho à fixação de despesa e previsão de receita e não pode comportar caudas orçamentárias (dispositivo de lei material), exceções ao principio da exclusividade: autorização dirigida ao chefe do executivo para que ele possa abrir por decreto, acredito suplementar, e autorização para contratação de operações de crédito. b) Especialidade/ Especialização: orçamentos devem especificar e discriminar os créditos, os órgãos a que se destinam e o tempo em que deve realizar as despesas. Espécies: I) quantitativa (art. 167, VII, CR/88): determina a fixação do montante de gastos, proibindo a concessão e a utilização de créditos ilimitados. II) qualitativa (art. 5, c/c art. 15,§1° c/c art. 20, parágrafo único, Lei 4320/64): esta recomenda a vinculação dos créditos aos órgãos públicos, as rubricas orçamentárias devem ser especificadas de acordo com sua natureza. III) temporal (art. 167, §2°, CR/88): limita a vigência dos créditos especiais e extraordinários ao exercício financeiro a que forem autorizados, salvo se o ato de autorização que tiver sido promulgado dos quatro últimos meses do ano. c) Legalidade. Espécies (sub-princípios) I) super-legalidade: tem haver com a supremacia da constituição, as leis orçamentárias devem se coadunar com as normas constitucionais; II) reserva de lei: o orçamento deve ser aprovado por meio de lei formal; III) primado da lei: o poder regulamentar da administração pública só se pode manifestarnos espaços deixados pelo legislador quando aprova os orçamentos. d) Não vinculação de imposto a fundo, órgão ou despesa (art. 167, IV, CR/88): em regra, a receita dos impostos vai para custear os serviços uti universi. Exceções: vinculação de recursos para ensino, fundo de combate a erradicação da pobreza, para realização de atividades da administração tributária, para a prestação de garantias às operações de crédito em antecipação de receitas. É possível vincular receitas de taxas e contribuições de melhoria. e) Universalidade (art. 165, §5°, CR/88): todas as receitas e todas as despesas devem estar previstas na lei orçamentária. Exceção: os tributos que podem ser cobrados de um ano para outro, sem que estejam previstos na lei orçamentária, pois para eles vigoram a anterioridade (vide súmula 66, STF). f) Anualidade: para cada ano deve haver um orçamento, permite o controle. g) Unidade (art. 165, §5°, CR/88): a peça orçamentária deve ser única e uma só, contendo todos os gastos e receitas, cuida-se de princípio formal, isto é, o documento é único. Disponibilidade de recursos a órgãos dotados de autonomia (art. 168, CR/88): serão entregues no dia 20 de cada mês por duodécimos. Limites com despesa de pessoal (art. 169, CR/88 com alteração pela EC/19 – reforma administrativa- e art. 19, LC 101/00): a soma dos gastos de pessoal de cada ente federativo deve ser ater aos limites estabelecidos em LC (LC101/00), art. 19 e 20. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 78 20.b. Relatório de Prestação de Conta Institucional da Atuação do Ministério público na Defesa da Cidadania. Relatório de atividades 2010, da PFDC: 1. Deficientes – Há grupo de trabalho (GT). Integra o CONADE. Acessibilidade (desenho universal) nas obras do PAC; nas agências bancárias (execução judicial, via PRDC nos Estados, de TAC não cumprido); nas unidades do MPF; contratação de empregados no MPF; Política do livro acessível (agilizar tramitação do decreto); vaga em concurso (sugestões ao novo decreto). 2. Alimentação adequada – superação de barreiras ao acesso. Há GT. Integra Comissão Especial do CDDPH e, como observador, o Consea. Recebidas informações sobre fiscalizações in loco do Bolsa Família; acompanhamento, junto ao FNDE, no repasse direto de valores à alimentação escolar. 3. Comunicação social –Há GT. Workshop Marco Regulatório das Comunicações; consulta pública sobre classificação indicativa; parecer técnico ao CFP sobre merchandising ao público infanto-juvenil; violação de DH pelas TVs; reabertura de unidades do MC para autorização de rádios comunitárias. 4. Criança e adolescente (CA) – Campanha contra exploração sexual de CA; informações sobre execução do orçamento; voto na medida socioeducativa; reunião sobre diversidade e bullying; reuniões sobre depoimento de vítimas e testemunhas de violência sexual e de proteção na internet. 5. Memória e verdade – criou-se GT em set/2010. Ao Arquivo Nacional, que sejam suprimidas exigências de autorização de terceiros para acesso a informações; busca de restos mortais no Araguaia, Comissão da Verdade, acesso aos arquivos do Estado e decisão da CorteADH que condenou o Brasil. 6. Direitos sexuais e reprodutivos – livre e responsável decisão sobre reprodução, exercício da sexualidade sem discriminações. Há GT. Inclusão de companheiro do mesmo sexo como dependente na DIRPF e benefícios previdenciários; uso do nome social de travestis e transexuais; proibição de doação de sangue a não-heterossexuais é grave violação a seus DH. 7. Educação –não-cobrança de contribuições em colégios militares; minuta de TAC sobre ENEM; revalidação de diplomas de médicos formados em Cuba. 8. Igualdade – quotas para negros em estágios no MPF; e cursos para preparação para o concurso para PR; ensino de história e cultura afro. 9. Integridade física e psíquica – tráfico de pessoas – PFDC coordena o GT de DH dos MP do Mercosul. 10. Interlocução com organismos internacionais de defesa dos DH – nota técnica sobre projeto de lei sobre efeitos jurídicos das decisões de OIDDH; impropriedades dos projetos de lei sobre Conselho Nacional de DH; 11. Condição análoga à de escravo – participa da Conatrae; Carta de Marabá; recebeu visita da Relatora da ONU sobre escravidão contemporânea. 12. Megaeventos e moradia – Criado GT em out/2010. 13. Mulher – enviou aos PGJ ofício sobre dificuldade de ações articuladas nos Est e Mun devido à carência de visões integradas sobre segurança pública. 14. Idosos – influiu na Lei 12.213 (Fundo Nacional do Idoso); sugere cartaz para divulgar gratuidade e desconto de 50% no transporte coletivo. 15. Previdência e Assistência Social – Há GT. Proposto TAC ao INSS para revisão periódica das aposentadorias por invalidez, não acatado; acompanhamento do movimento dos médicos-peritos e da instituição de controle de ponto dos servidores das agências do INSS; enunciados do GT. 16. Saúde – redução da mortalidade infantil; melhoria da saúde materna, eliminação da hanseníase, inclusão de novos medicamentos, atualização de protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas. 17. Saúde mental – Reforma Psiquiátrica Antimanicomial (Lei 10.216/01), rede de atenção em saúde mental (recuperação) e medida de segurança. 18. Segurança pública –DH no Complexo do Alemão; à CSSPH informações sobre tentativa de criminalização de movimentos sociais e ações da PM-RS; reunião com agentes distritais sobre violência da PM-DF; seminários sobre Tortura, Proteção a defensores de DH, e Testemunhas. 19. Sistema prisional – direito de voto aos presos provisórios; propôs cooperação entre CNPG e PFDC para saúde, educação e sistema prisional; inspeção à cadeia pública; assistência jurídica ao preso; nota técnica sobre projeto de lei que altera CP para elevar o período para livramento condicional. 20. Terra/Reforma agrária – atualização dos índices de produtividade, combate à violência/despejos forçados, assistência. Há GT; desapropriação, assentamento, regularização e crédito fundiário, educação rural. 21. Outras – Hidrelétrica Belo Monte (representou à vice-PGR para ADPF contra Dec. 788/05, pois comunidades indígenas não foram ouvidas); pleiteou ao CSMPF a inclusão de DH no 25º concurso para PR. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 79 20.c. Índios. Ocupação tradicional. Procedimento para reconhecimento e demarcação de terras indígenas. Usufruto. Ocupação tradicional não é caracterizada (a) pela imemorialidade; (b) nem pela ocupação pré-colombiana; não há laudo arqueológico porque a territorialidade dos povos indígenas é constantemente redefinida por múltiplos aspectos; desde (a) a ação (expropriatória) do colonizador (“não há como recuperar Copacabana para os índios”); até (b) a própria ação dos povos indígenas, com perspectivas de vida atuais e futuras. O conceito de terras tradicionalmente ocupadas exige uma compreensão narrativa das vidas dos povos indígenas, que não é mera repetição do passado que as originou, mas participação num sentido presente da experiência história de sua reafirmação e transformação. Exige-se laudo antropológico, que permite a compreensão e a tradução linguístico-cultural das maneiras como o grupo se vê ao longo de sua trajetória existencial, como vê o mundo e nele se organiza. Esse laudo não é “neutro” ou “objetivo” e deve conferir “força normativa” ao grupo (Duprat, 2011) Não descaracteriza o animus possidendi dos índios terem sido forçados a se retirar de suas terras (STF, ACO 323/93). Indigenato, desde 1680, com o Alvará de 01.04, “reservado o direito dos índios, primários e naturais senhores dela”; na Lei de Terras – Lei 601/1850, constitucionalizado em 1934, na CF/67, bens da União, em 88, direitos “originários”. Os territórios indígenas são propriedade da União e de posse (permanente) privada, mas coletiva, cabendo exclusivamente aos índios o usufruto das riquezas do solo, dos riose dos lagos. Usufruto exclusivo quer dizer que não é transferível para qualquer apropriação individual e que os resultados de qualquer uso ou trabalho será sempre coletivo. Logo, é possível o uso indireto, como o trabalho alheio ou o contrato que explore riqueza do território. É vedado o exercício do direito de propriedade (brasileiro) nas terras indígenas, onde é cogente o direito consuetudinário indígena, que pode permitir apropriação individual segundo seus costumes (Marés, 1998). “Salvaguardas institucionais” – STF no Caso Raposa Serra do Sol: o usufruto exclusivo: (a) pode ser relativizado por relevante interesse público da União em LC; (b) não abrange (b.1) o aproveitamento dos recursos hídricos e potenciais energéticos (autorização do CN); (b.2) pesquisa e lavra de riquezas minerais (índios têm participação nos resultados, e idem); (b.3) garimpagem nem faiscação (exige permissão); (c) Política de Defesa Nacional, cujas ações são implementadas independentemente de consulta às comunidades e à Funai; idem para as ações das Forças Armadas e a Polícia Federal; (d) não impede a instalação pela União de equipamentos públicos; (e) em unidade de conservação fica sob responsabilidade do ICMBio, que administra a UC e deve ouvir as comunidades; nas UC admite-se visitantes e pesquisadores não-índios; no restante da área, idem mas administrado pela Funai; sempre sem cobrança; (f) terras indígenas não podem ser objeto de arrendamento ou qualquer ato ou negócio que restrinja o pleno exercício do usufruto e da posse direta pela comunidade; (g) são vedadas aos não-índios a caça, pesca, coleta ou agropecuária extrativa. Terra, usufruto e rendas gozam de imunidade tributária plena. É vedada a ampliação de terra já demarcada (certamente contra posição do MPF). Direitos às terras são imprescritíveis, inalienáveis e indisponíveis. É assegurada a participação das UF em todas as etapas do processo de demarcação. Demarcação de terras indígenas – é declaratório; a proteção jurídica deve existir mesmo antes da demarcação (não é assim na renitente jurisprudência retrógada-civilista-liberal), já que baseada na mera ocupação tradicional, isto é, na posse (relação fática) conforme a visão (direito consuetudinário) do próprio povo indígena (assim determina o art. 231, §1º, da CF). Roteiro – Dec. 1.775/96: 1. Iniciativa – Funai; 2. Identificação e delimitação – Funai; 3. Ato de declaração dos limites da terra indígena de “ocupação tradicional” e determinando a demarcação – MJ; 4. Demarcação física – Funai; 5. Confirmação dos limites demarcados – decreto do Presidente da República; 6. Registro no RGI e na SPU - Funai; pós-demarcação: análise da boa-fé das benfeitorias dos não-índios: Funai. A comunidade é envolvida diretamente em todas as fases do procedimento. Antropólogo faz estudo antropológico de identificação e coordena grupo técnico que realiza estudos complementares de natureza etno-histórica, sociológica, jurídica, cartográfica, ambiental e levantamento fundiário; com trabalhos de campo, em centros de documentação, órgãos fundiários, registros de imóveis, etc.; após aprovado o relatório pelo Presidente da Funai, seu resumo é publicado no DOU e no DOE. Estatuto do Índio: Executivo deve demarcar as terras em até 5 anos (até 19.12.1978); o art. 67 do atual ADCT: até 05.10.1993. Não houve cumprimento. Prazos não aplicáveis para áreas não conhecidas. Cabe ação declaratória para exigir a demarcação. Contra a demarcação processada não cabe interdito possessório, facultado aos interessados a via petitória ou demarcatória. DIREITO CONSTITUCIONAL E METODOLOGIA JURÍDICA GI | Direito Constitucional e Metodologia | Sumário | Índice Página 80 21.a. Conselho Nacional do Ministério Público. História, composição, competência e funcionamento. Corregedoria Nacional. Legitimidade e críticas. I. CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO Instituído pela EC 45/04 –Reforma do Judiciário, com atribuição de controle da atuação administrativa e financeira do Ministério Público e do cumprimento dos deveres funcionais de seus membros. Sua disciplina constitucional é traçada no artigo 130-A. De qualquer forma, o CNMP é composto por quatorze membros, incluindo-se o Procurador-Geral da República, que o preside, quatro membros do Ministério Público da União, três membros do Ministério Público dos Estados, dois juízes, indicados um pelo Supremo Tribunal Federal e outro pelo Superior Tribunal de Justiça, dois advogados, indicados pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil e dois cidadãos de notável saber jurídico e reputação ilibada, indicados um pela Câmara dos Deputados e outro pelo Senado Federal (incisos I a VI). Logo, nota-se que a maioria (8) é advinda do próprio MP. A existência de membros vindos de outras carreiras, pode ser vista como a conjugação da “legimitidade burocrático-corporarativa” (expressão de José Adércio em relação à composição do CNJ;2007:252) de duas categorias de imediata interação com o MP com a legitimidade democrática, de dois cidadãos de notável saber jurídico e reputação ilibada. Cabe destacar que é da competência do Senado Federal o processo e julgamento dos membros do CNMP nos crimes de responsabilidade e do STF para julgar ações contra o Conselho (arts. 52, II, e 102, I, r). II. ATRIBUIÇÕES. As atribuições do CNMP, conforme artigo 130-A, §2º, da Constituição Federal, podem ser dividas de acordo com a classificação adotada por José Adércio ao tratar das atribuições do CNJ (2007:274 e ss.), ou seja, atribuições políticas, administrativas, correicionais, disciplinares, informativas e propositiva ou opinativa. As opiniões do autor são preservadas quando podem ser utilizadas também em relação ao CNMP. II.I. Atribuições políticas: Zelar pela autonomia funcional e administrativa do Ministério Público, podendo expedir atos regulamentares, no âmbito de sua competência, ou recomendar providências; Divide-se em: Atribuição de planejamento: zela pela autonomia de adotar o papel de gestor estratégico dos recursos administrativos, humanos, logísticos e financeiros do Judiciário. Atribuição de defesa da soberania (no original fala-se de soberania judiciária): deve adotar todas as medidas necessárias contra as ameaças e a s violações advindas dos outros Poderes e, com certas cautelas, de setores da sociedade, em defesa da “soberania” do MP. “Não se trata de atitude corporativa, mas institucional, pois o Conselho não é sindicato de classe e sim órgão de poder”. Atribuição de poder regulamentar: todavia, sem poder inovar na ordem jurídica. “Não pode, por conseguinte, permitir o que a lei proíbe ou ordenar o que a lei não obriga; nem alterar, restringir ou ampliar direitos, deveres, ações ou exceções; tampouco é dado exemplificar o que o legislador definiu por taxativo, ou suspender ou adiar a execução da lei, instituir tribunais ou criar autoridades públicas, nem tampouco estabelecer formar de exteriorização de um ato, diferentes daquelas determinadas por lei”. Atribuições mandamentais: recomendar providências, no sentido de ordem para integrantes e servidores do MP, acompanhada das sanções cabíveis a todo descumprimento de mandado de autoridade competente. Para autoridades públicas externas, tem a natureza de representação, que, se não vincula aos resultados, obriga, ao menos, a diligências e respostas; sanção, todavia, política e difusa (“pressão por persuasão”). Atribuições de economia interna: elaborar seu regimento, prover os cargos necessários à sua administração; fixar critérios para promoção de seus servidores, conceder licenças etc. II.II. Atribuições de controle administrativo: Zelar pela observância do art. 37 da Constituição Federal e apreciar a legalidade dos atos administrativos praticados por membros ou órgãos do Ministério Público da União e dos Estados; II.III. Atribuições de ouvidoria: Receber reclamações contra membros ou órgãos do Ministério Público da União ou dos Estados, inclusive contra seus serviços auxiliares, sem prejuízo da competência disciplinar e