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See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/305767674 A ARQUEOLOGIA COMO UMA PRÁTICA INTERPRETATIVA SOBRE O PASSADO NO PRESENTE: PERSPECTIVAS... Chapter · January 2008 CITATIONS 0 READS 100 6 authors, including: Some of the authors of this publication are also working on these related projects: Arqueologia e Pré-história do Planalto Sul Brasileiro (Archéologie e Prehistoire du plateau sud brésiliénn) View project Silvia Moehlecke Copé Universidade Federal do Rio Grande do Sul 10 PUBLICATIONS 63 CITATIONS SEE PROFILE All content following this page was uploaded by Silvia Moehlecke Copé on 02 August 2016. The user has requested enhancement of the downloaded file. A ARQUEOLOGIA COMO UMA PRÁTICA INTERPRETATIVA SOBRE O PASSADO NO PRESENTE: PERSPECTIVAS TEÓRICO-METODOLÓGICAS Dra. Silvia Moehlecke Copé Me. Carolina Aveline Deitos Rosa Introdução Todo conhecimento acerca do passado remoto é produzido pela arqueologia. É resultado de um processo ativo desempenhado por um sujeito no presente, que através do seu empenho em compreender como viviam os grupos humanos em tempos antigos, constitui uma forma de saber. Este conhecimento não é dado ou refletido pelos objetos, mas é elaborado a partir do seu resgate e do seu estudo por pesquisadores situados em uma dada sociedade. Ao compreender a arqueologia enquanto uma prática interpretativa, que constrói socialmente e de forma ativa o passado no presente (e não meramente como um reflexo passivo das coisas que ocorreram em tempo remoto), esta disciplina deixa de tratar apenas de eventos ou de cultura material. Passa a ser compreendida enquanto um evento e uma produção material, pois elabora todo o conhecimento sobre o modo de viver de sociedades antigas. Seguindo este enfoque, produto das abordagens pós-processualistas adotadas nos anos 80 e hoje cognominadas de arqueologias interpretativas, presente e passado não são concebidos de forma oposta ou dicotômica, pois um se constitui em relação ao outro num processo ativo e dialético. O passado não é visto como completo, acabado, ele está vivo de alguma forma no presente, através da presença física dos vestígios materiais (Hodder, 1992; Shanks e Tilley, 1987, Tilley, s/d). Assim sendo, os arqueólogos devem mediar passado e presente, pois o trabalho arqueológico une estes dois tempos. Com o objetivo de mostrar como o conhecimento arqueológico é produzido pelos investigadores a partir da cultura material, neste artigo nos propomos analisar como este processo ocorre através das atividades que resultam na constituição dos dados e na elaboração dos discursos. Professora e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Arqueológica – NuPArq, Depto de História, IFCH/UFRGS Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Arqueológica – NuPArq, Depto de História, IFCH/UFRGS 2 A produção dos dados arqueológicos A natureza dos dados arqueológicos Quando o arqueólogo escava, ele não produz ‘dados’ no sentido literal do termo, estes não estão prontos à espera de observadores que apenas os coletam no registro arqueológico. Os dados são construções contemporâneas, frutos da prática interpretativa dos arqueólogos ao escavar os sítios e ao analisar os restos materiais obtidos a partir de determinados métodos de análise. Então, a essência dos dados é como representação dos fatos e os métodos da arqueologia é que produzem tais informações (Tomaskova, 2003). Dessa forma, os dados arqueológicos são constituídos em grande parte de acordo com a maneira como são vistos por uma lente moderna, baseada em uma leitura teórica. Dados e teoria estão fortemente ligados, os primeiros podem ser vistos como forma de apropriação teórica do real, enquanto que os últimos trabalham com estes dados através da conceitualização (Shanks e Tilley, 1987). Com isso, há pretensão de desmantelar o argumento de alguns pesquisadores de que uma investigação pode ter uma base teórica desvinculada da pesquisa prática. Uma teoria arqueológica não tem sentido algum se não estiver ligada a prática, da mesma forma, os dados são sempre elaborados de acordo com alguma noção teórica. A práxis arqueológica A prática arqueológica envolve pesquisa de campo e laboratório, muitas vezes realizada concomitante ou alternadamente, e compreende, como em qualquer outra disciplina, três momentos distintos e inter-relacionados: a elaboração de projeto e planejamento, a execução do projeto e a divulgação de resultados. A elaboração do projeto exige a eleição do tema e a problemática, o levantamento bibliográfico, gráfico e a análise das coleções existentes de pesquisas anteriores, a definição do recorte espaço- temporal, a orientação teórico-metodológica, o cronograma, o financiamento. Além disso, como a legislação brasileira determina que tudo que está no subsolo brasileiro pertence à União, os projetos arqueológicos devem ser aprovados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e a autorização da pesquisa ser publicada no Diário Oficial da União (D.O.U.), em cuja portaria consta o nome do arqueólogo, o prazo em que deve ser realizado o trabalho e a instituição que ficará responsável pela guarda do material proveniente da pesquisa. 3 A execução do projeto compreende etapas também inter-relacionadas de campo e de laboratório. O campo compreende atividades de prospecção e de escavação e, o laboratório, a curadoria do material arqueológico segundo sua matéria prima, a limpeza, a numeração e o acondicionamento, a análise macroscópica e microscópica segundo atributos estipulados, a tabulação dos dados produzidos e a interpretação do conjunto das evidências. A divulgação dos resultados da pesquisa deve abranger diversas modalidades e públicos: as publicações e apresentação à comunidade científica nos fóruns específicos e ao grande público. Como o objeto do arqueólogo está desaparecendo devido à expansão das malhas urbanas, da abertura de novas fronteiras agropecuárias, ou ainda, de grandes obras de engenharia, é de extrema importância a constituição e a preservação dos acervos arqueológicos, assim como a realização de projetos de educação patrimonial junto à população, exigida pelo IPHAN através de uma Portaria de 2004. O trabalho em campo Quando os atores da história não estão ao alcance das mãos do historiador, este se volta para os locais depositários dos registros das ações humanas passadas como os arquivos municipais, estaduais, nacionais, públicos ou privados, em busca de suas fontes. Assim também o arqueólogo prospecta e escava os arquivos depositados no solo, em busca de dados sobre sociedades pretéritas. A experiência em campo ou ‘o estar em campo’ não significa meramente definir a logística, as estratégias ou os métodos mais adequados, ou ainda, as técnicas pertinentes para abordar o registro arqueológico e o como documentar as nossas descobertas. Hoje, seguindo as tendências dos últimos anos na arqueologia, o campo é uma instância de reflexão teórica e interpretação e não simplesmente um momento de execução das diversas técnicas de coleta. O campo significa também as relações com as comunidades locais, suas interpretações do passado e seus interesses políticos e sociais. O momento da descoberta O cinema, entre outros meios mediáticos, desenvolveu no imaginário popular a imagem do arqueólogo desbravador de lugares desconhecidos, por vezes inacessíveis, em busca de magníficos objetos e de templos escondidos. Na verdade, a maioria dos achados arqueológicos ocorre de maneira acidental:agricultores arando a terra, aventuras infanto-juvenis exploratórias de novos lugares, edificações de todo tipo desde a colocação de um simples moirão até a construção de uma hidroelétrica. Todavia, somente o arqueólogo possui o treinamento e a autorização para fazer o registro 4 sistemático destes achados. Aliás, nem todos os sítios precisam ser descobertos, pois sua existência material é inquestionável como as pirâmides mesoamericanas e as cidades e estradas andinas. No Brasil, alguns sítios arqueológicos possuem dimensões monumentais como os conhecidos sambaquis ao longo das costas marítima e fluvial, as estruturas semi-subterrâneas e as estruturas em alto relevo no planalto sul brasileiro, os grandes abrigos sob rocha com pinturas e gravuras produzidas por grupos caçadores e coletores existentes em quase todo o território nacional, as grandes aldeias anelares do centro-oeste brasileiro e da Amazônia, os ‘tesos’ da cultura marajoara, as igrejas, os centros históricos urbanos, as fortalezas, entre outros. Provavelmente, alguns desses sítios foram edificados não exclusivamente para atender necessidades materiais, mas sim com a intenção de legar à posteridade elementos de representação de dada sociedade. Entretanto, a grande maioria dos sítios arqueológicos é fruto das ações cotidianas das diversas sociedades e está enterrado ou é visível na superfície do solo somente em forma de objetos dispersos e precisam, portanto, de um exame mais minucioso – o que Renfrew & Bahn (1993) chamam de prospecção de reconhecimento, para ser detectado. Nos últimos anos os arqueólogos, em razão de estarem se interessando pela reconstrução do uso humano global da paisagem, deram-se conta que há dispersões apenas perceptíveis de artefatos, que não poderíamos qualificar de sítios, mas que representam atividades humanas significativas, geralmente articuladas a assentamentos. Alguns investigadores como Dunnel & Dancey (1983) sugeriram que estas áreas fora dos sítios, com uma baixa densidade de artefatos, não constituem sítios propriamente ditos e que deveriam ser localizadas e registradas, o que somente pode ser feito mediante um trabalho sistemático de prospecção que implique procedimentos de amostragens cuidadosos. Cabe lembrar que áreas vazias possuem um potencial informativo importante, como por exemplo, as praças centrais de aldeias ou de estruturas cerimoniais. Este enfoque é útil, sobretudo, em áreas onde viveram povos com um modo de vida itinerante que deixaram um registro arqueológico disperso, como em grande parte da América e África (Renfrew & Bahn, 1993). A prospecção arqueológica Tradicionalmente, a imagem do arqueólogo trabalhando em campo está associada à minuciosa escavação de sítios individuais, sejam pré-históricos ou históricos. Atualmente a escavação ainda possui sua importância, porém, a prospecção tem ganhado destaque devido ao desenvolvimento de estudos regionais que pressupõe 5 um programa de prospecção, o qual muitas vezes é mais barato, mais rápido e relativamente pouco destrutivo. Portanto, a prospecção objetiva obter a maior quantidade de informações possível acerca de uma determinada área e identificar todos os sítios arqueológicos e evidências isoladas fornecendo, dessa maneira, uma visão do contexto onde os mesmos estão inseridos. Há várias maneiras de prospectar uma área as quais podem ser utilizadas isoladas ou preferencialmente concomitantes: a prospecção aérea, a prospecção sob a superfície e geofísica, e a prospecção superficial. A prospecção aérea (as fotografias aéreas oblíquas são boas para descobrir sítios e as verticais são boas para elaborar plantas e mapas) avançou muito com a popularização dos micro-computadores, as imagens e mapas digitalizados, os filmes infravermelhos, a prospecção térmica e todos os recursos do sensoriamento remoto de alta resolução como as imagens de satélites e os programas de georeferenciamento como o SIG (Sistema de Informação Geográfica ou, em inglês, GIS – Geographic Information Systems) e o fácil acesso a programas livres como o Google Earth. A prospecção sob a superfície é a busca por evidências arqueológicas enterradas, realizada comumente através de sondagens (tradagens, cortes estratigráficos em quadrículas e/ou trincheiras), ou através da prospecção geofísica que emprega métodos mais caros de teledetecção que inclui métodos sísmicos e acústicos; ondas de radio e impulsos elétricos; métodos de prospecção magnética; detectores de metais; entre outras técnicas (Clark, 1990). A prospecção na superfície (superficial) consiste no percurso a pé da área a ser prospectada, observando as modificações da paisagem e a superfície do solo, em busca de evidências arqueológicas. É o tipo mais utilizado, eficiente, barato e pode ser feito de diversas formas segundo a disponibilidade de tempo e dinheiro. Em pequenas áreas é possível, e sempre recomendável, fazer a prospecção total (full coverage), porém, em grandes áreas isto é praticamente impossível exigindo a estratégia da prospecção por amostragem. Esta pode ser tradicional (também chamada de oportunista porque se baseia nas informações obtidas junto à população e, a partir dos sítios conhecidos, a procura por outros no entorno) ou probabilística (utilizada geralmente em prospecção de grande escala ou quando não se possui nenhuma informação sobre a área a ser investigada ou, ainda, quando o tempo e o dinheiro disponível são escassos). Nesta última modalidade de prospecção, a área é dividida em linhas eqüidistantes (transects) ou em quadrados (squares) que, por sua vez, serão percorridas de forma aleatória 6 simples ou estratificada (a diferenciação de estratos pode estar ligada a diferenças na cobertura vegetal ou a acidentes topográficos) ou sistemática e sistemática estratificada, segundo as propostas de Haggett (1965) e reproduzidas em Renfrew & Bahn (1993) e em Drewett (1999). Após definida e executada a estratégia da prospecção superficial e localizados os sítios, estes deverão estar ou ser posicionados em mapas com as coordenadas geográficas, trabalho este facilitado pelo uso de um GPS (Global Positional System), aparelho que rastreia os satélites mais próximos e através de um sistema de triangulação (exige no mínimo três satélites) dá a posição exata do sítio em coordenadas geográficas (em graus) e em UTM (Universal Transversal Mercator) (em centímetros). Para cada sítio deverá ser elaborado um mapa topográfico (que representa as diferenças na elevação ou altura mediante curvas de nível, medidas com ajuda de um nível, teodolito ou estação total, e ajuda a relacionar as estruturas com a paisagem circundante) e um planimétrico (que representa as dimensões do sítio e as suas estruturas, sua posição em relação aos pontos cardeais, a cobertura vegetal, o uso da terra atual, etc. e ajuda a explicar a inter-relação entre as distintas estruturas ou entre os artefatos). O ideal é que a posição das estruturas e dos artefatos também seja sinalizada nos mapas, entretanto, se são muitos os artefatos, o registro pode ser feito por seleção de artefatos ou por amostragem. O arqueólogo deve decidir se irá coletar ou não o material arqueológico e como, pois dependendo dos seus objetivos e a densidade do material arqueológico, a coleta será total ou parcial (amostragem). Se parcial, a coleta será assistemática (coleta aleatória dentro do perímetro do sítio) ou sistemática (coleta na área do sítio dividido em um sistema de rede quadricular ou uma série de linhas de percursos eqüidistantes; o tamanho dos quadrados assim como a distância entre as linhas dependerá do grau de intensidade dado à coleta). Nossa equiperealizou duas experiências de coleta por amostragem em sítios superficiais com perímetros aproximados de 1 km de diâmetro. No sítio RS-PE-31 1 , após o quadriculamento total do sítio em quadras de 5 x 5 m, elegemos as quadrículas centrais do eixo norte-sul e do eixo leste-oeste, as quais se cruzavam no centro do sítio formando uma cruz, para efetuar a coleta total do material arqueológico (Figura 1). No sítio RS-PE-22 fizemos o mesmo quadriculamento, porém a coleta se deu na forma de 1 RS-PE-01 é a sigla do sítio que nos diz sobre a localização do mesmo: RS = Rio Grande do Sul, PE = bacia hidrográfica do rio Pelotas e o 01 é o nº seqüencial dos achados na região. Esta forma de registro é nacional e segue as regras do Cadastro Nacional dos Sítios Arqueológicos – CNSA, banco de dados acessível no site do IPHAN. 7 um tabuleiro de xadrez, sendo que em cada quadra selecionada, a escavação de quadrículas de 1x 1m também foi na forma de tabuleiro. Para agilizar o trabalho desenvolvemos uma malha móvel de 5 m² dividida em quadrículas de 1 x 1 m (Figura 2). Este sistema de coleta superficial nos propiciou, a partir de plotagem do nº dos artefatos por quadrículas em um mapa elaborado manualmente ou por meio digital, as áreas do sítio com maior densidade de artefatos e onde, consequentemente, maior trabalho deveria ser investido. Além disso, indicou os locais mais adequados para a escavação na busca de estratigrafia para obter cronologia e observar outros momentos de ocupação humana no local (Figura 3). Cabe lembrar que a prospecção e a escavação são complementares e não excludentes: a prospecção nos diz um pouco de uma grande quantidade de sítios e pode repetir-se a qualquer momento enquanto a escavação nos diz muito de uma pequena parte de um sítio e somente pode realizar-se uma vez (Renfrew & Bahn, 1993). A escavação arqueológica A escavação é a principal forma de produção de documentação arqueológica. É a única maneira de comprovar a confiabilidade dos dados superficiais, confirmar a exatidão das técnicas de teledetecção e ver na realidade o que resta no sítio arqueológico. A escavação dá os dois tipos de informação que mais interessam os arqueólogos: as atividades humanas desenvolvidas em um determinado momento no passado e as mudanças nestas atividades de uma época a outra (Renfrew & Bahn, 1993). Um dos propósitos da prospecção é a escolha do(s) sítio(s) a ser(em) escavado(s), que além de depender dos objetivos do projeto de pesquisa, deve contemplar a variabilidade de sítios identificada na área prospectada e o grau de relevância e significância dos mesmos. A necessidade de determinar o grau de relevância (dado pelo valor humanístico e científico) de um sítio arqueológico advém da impossibilidade de salvar todos os bens arqueológicos da nação, assim há que se estabelecer critérios para seu estudo e preservação (Dunnel, 1984 apud Caldarelli, 2002). A significância é dada pela singularidade do sítio, seu estado de conservação, seu papel como elemento definidor de identidades sociais, seu potencial para explanação de processos sócio-culturais passados, etc. (McMillan, Grady & Lipe, 1984 apud Caldarelli, 2002). A escolha também é definida por questões logísticas e pragmáticas como acesso ao sítio, infra-estrutura (equipe e equipamento, alojamento, alimentação) 8 disponível que, por sua vez, novamente dependem das variáveis tempo e recursos financeiros. Como em todo trabalho arqueológico, os procedimentos iniciais no sítio compreendem o registro documental e fotográfico da situação encontrada e do seu estado de conservação, assim como, o percurso de sua área observando-se a sua extensão, a sua forma e a sua implantação no relevo. Durante a prospecção de reconhecimento realizada na área a ser investigada geralmente são feitas as medições e anotações quanto à distância dos recursos d’água mais próximos, a distância, acesso, visibilidade entre os sítios localizados, as possíveis fontes de matérias-primas e realizadas amostras. Após a escolha do sítio a ser escavado e o registro de sua situação original, o primeiro passo para a escavação é a escolha de um local com boa visibilidade da área total do sítio, onde será colocado o Ponto Zero (= P0, que poderá ser também o Ponto de Referência de Alturas = PR) que servirá para amarrar todos os demais pontos de controle do trabalho como as demais estações topográficas e as linhas de base e referência. Após a seleção dos pontos de controle e o local - o Ponto 100/100 – da intersecção das linhas de orientação e de base para implantação da malha de quadriculamento, procede à elaboração do croqui planimétrico e do perfil topográfico do sítio e seu entorno imediato (Figura 4). O sítio está pronto para ser escavado. É clássico nos manuais de arqueologia distinguir dois métodos principais de escavação. O primeiro deles, a escavação “estratigráfica”, “vertical”, “temporal”, “diacrônica”, ou ainda, a chamada “micro-história” tem como preocupação maior as mudanças que se produzem no tempo, verificada na superposição dos níveis de ocupação e com a datação relativa dos artefatos. A arqueologia apropriou-se do princípio estratigráfico da geologia que se baseia na superposição dos estratos acumulados com o passar do tempo através de processos que prosseguem até hoje (Harris, 1991). Os estratos arqueológicos (os níveis com restos culturais) abarcam períodos de tempo muito mais curtos que os geológicos, porém o princípio é o mesmo: quando um estrato se sobrepõe a outro, o que está em cima é sempre mais recente que o anterior, portanto, nos dão uma seqüência vertical dos eventos que se acumularam naquele local e um controle de eventuais anomalias que poderiam comprometer a escavação como inversões estratigráficas muito comuns quando ocorrem enterramentos ou quando há fatores de bioperturbação. O método da escavação estratigráfica foi utilizado desde o século XVII, porém é identificado com Mortimer Wheeler que o 9 sistematizou, racionalizou e divulgou. No método Wheeler destacam-se seis características essenciais: 1. delimitação no terreno da área a ser escavada por quadrículas, 2. preservação de testemunhos entre as quadrículas; 3. transcrição gráfica do corte estratigráfico a partir das duas paredes preservadas em cada quadrícula; 4. numeração dos estratos no corte da parede; 5. atribuição dos artefatos aos estratos numerados; 6. preservação ou escavação dos testemunhos estratigráficos (Wheeler, 1989). Em contraposição, o segundo método seria a escavação “horizontal”, “espacial”, “sincrônica”, cuja principal preocupação é as atividades humanas que se desenvolvem simultaneamente (contemporâneas) em um determinado espaço, a escavação de unidades sociologicamente significativas. Este método surgiu em decorrência das críticas feitas às limitações do método anteriormente descrito e foi chamado de escavação em áreas amplas ou método arqueo-etnográfico de Leroi-Gourhan, que propõe 1. a escavação em grande superfície, 2. notação tridimensional detalhada dos vestígios encontrados nos estratos, 3. o uso da técnica da decapagem, ou seja, cada objeto é cuidadosamente solto (desprendido) até sua base com a ajuda de uma espátula de dentista, um pincel ou uma colher de pedreiro. A decapagem sobre uma grande superfície restitui uma visão do solo de habitação muito próximo daquele que tinham seus habitantes no momento de sua partida, advindo daí a visão etnográfica, sincrônica e cotidiana da estratigrafia (estratigrafia horizontal). A principal premissa epistemológica da escavação de grandes superfícies refere-se à caracterizaçãode cada unidade estratigráfica como resultante de uma ação social (Leroi-Gourhan & Brézillion, 1972; Leroi-Gourhan, 1984). Estes dois conjuntos de técnicas são na verdade as duas faces de uma mesma moeda: a compreensão do passado nas suas dimensões espaço-temporal. As técnicas de escavação não são universalmente válidas possuindo características diversas em épocas e ambientes culturais diferentes. Há três questões centrais: as técnicas não são neutras, pois derivam dos pressupostos epistemológicos e, em última análise, político-culturais subjacentes à prática arqueológica; as técnicas são diferentes tendo em vista a satisfação de objetivos diversos e objetos (tipos de sítios) diferentes; não há técnicas corretas (o que levou à afirmação extremada de Wheeler (1989) de que não havia técnicas corretas de fazer arqueologia, mas muitas erradas). Assim como na prospecção, os métodos e técnicas definidos no projeto de pesquisa devem ser permanentemente re-avaliados à medida que prossegue a escavação, 10 pois o esperado pode não ser o encontrado. Aqui, reportamos-nos ao texto clássico de Redman (1973) sobre a pesquisa em multi-estágios onde destaca a necessidade de constante retro-alimentação. Independentemente das técnicas e métodos empregados, uma escavação só será boa no momento que o registro dos métodos de recuperação seja bem feito, pois toda escavação é única porque na sua execução destruímos uma boa parcela do suporte material dos nossos dados. O registro de cada fase da intervenção deve ser meticuloso, ou seja, pode-se pecar por excesso jamais por omissão. O ato de escavar propriamente dito é a separação dos artefatos e ecofatos, através do uso de um pincel ou de uma colher de pedreiro, da terra que os envolvem. A terra retirada será ou não peneirada e colocada num monte suficientemente afastado do sítio para não atrapalhar a escavação e razoavelmente perto para facilitar o seu uso para tapá-la no seu final. As peças arqueológicas são deixadas no local até o final do nível artificial ou da camada natural, para efetuar o registro da sua distribuição espacial através da técnica de triangulação (McIntosh, 1987: 83). Em cada quadrícula o escavador fará um diário de quadrícula, onde constará a posição exata de cada objeto e de seu estrato arqueológico, ou seja, um registro tridimensional do objeto. A estratigrafia será documentada de forma gráfica (fotografia e desenho dos cortes e perfis) e escrita através da descrição dos níveis/camadas com sua espessura, composição, cor (com auxílio do código de Munsell), inclinação do terreno, etc., ao longo do trabalho ou no seu final. Ao longo da escavação e à medida que são encontradas as evidências arqueológicas deverão ser coletadas amostras de sedimentos para análise sedimentológica, palinológica ou, ainda, micro morfológica e micro estratigráfica do solo, bem como de carvões para datação radiocarbônica e análise antracológica. Igualmente, de acordo com o tipo de sítio, os objetivos da pesquisa e as dificuldades encontradas no registro arqueológico, decisões deverão ser tomadas sobre o tipo de peneiramento da terra, com ou sem água, e o uso de peneiras com malhas especiais (no caso de restos de microorganismos vegetais e animais); sobre a adoção da técnica de flotação, sobre as técnicas a serem empregadas no caso de restos humanos, entre outras. Observamos que os projetos de longo prazo geralmente dão mais resultados, com equipes diferentes e com normatização das formas de registro para toda a equipe. O trabalho em laboratório 11 A espécie humana tem sido definida muitas vezes em função de sua especial habilidade para fabricar ferramentas e muitos arqueólogos têm explicado o progresso humano em grande parte sob o ponto de vista dos avanços tecnológicos. Os restos dos artefatos feitos pelo homem ao longo do tempo constituem a maior parte do registro arqueológico e eles nos permitem estabelecer tipologias, cronologias, conhecer mais sobre a dieta alimentar, descobrir antigos padrões de comércio e intercâmbio e inclusive conhecer sistemas de crenças (Renfrew & Bahn, 1993). Os primeiros utensílios reconhecíveis remontam a 2,5 milhões de anos e, até a adoção da cerâmica em torno de 12.000 anos, a pedra foi a matéria-prima predominante nas descobertas arqueológicas. Somente em condições favoráveis como sítios pantanosos, gelados ou secos, os objetos construídos com matéria orgânica podem sobreviver e, em vista desta escassa capacidade de conservação, lembramos que inclusive aqueles que já se decompuseram por completo podem ser detectados ocasionalmente pelos ocos, mudanças no solo ou marcas/impressões que deixaram. A existência de um artefato pode ser detectada também pelas marcas deixadas nas coisas ou locais alterados pela ação do mesmo. Portanto, o arqueólogo deve levar em conta que o universo empírico é incompleto. Durante a escavação ou em laboratório, o arqueólogo deve determinar primeiro se o objeto foi feito e/ou utilizado pelo homem no passado, pois nem sempre é óbvio. Por isso, foi necessário estabelecer critérios para estipular a mediação humana como no material feito sobre pedra (o material lítico) os bulbos resultantes da percussão intencional de um seixo sobre outro. A mediação humana é analisada em laboratório através de uma série de encaminhamentos metodológicos que dependem da orientação teórico-metodológica do arqueólogo. Na interpretação das evidências podemos contar com a utilização da análise arqueológica propriamente dita, da analogia etnográfica e da arqueologia experimental (reviver o passado através da experimentação). Neste artigo, nos ateremos à análise arqueológica. Quando não realizada em campo, em laboratório processa-se a triagem do material segundo a matéria-prima. O material é revisado, separado, lavado, secado, acondicionado e enviado para os laboratórios especializados. No caso do laboratório ou da equipe não possuir integrantes especializados, os ossos pertencentes a esqueletos humanos serão remetidos para um laboratório de Antropologia Física; os ossos de animais para um laboratório de Paleontologia ou para um zooarqueólogo; o pólen irá 12 para um laboratório de Palinologia; os sedimentos para a Geologia; o carvão para um laboratório de Física que faz datações do Carbono 14, etc. Na análise arqueológica dos objetos, é conveniente diferenciar duas bases sobre os quais os artefatos são construídos: as matérias-primas disponíveis na natureza e apropriadas e modificadas pelo homem segundo suas especificidades como a pedra, o osso, o chifre, a madeira, entre outros, e aquelas que dependem do domínio da tecnologia do fogo (pirotecnologia) como a cerâmica, a faiança, a louça, o vidro e os metais em geral, muitas vezes denominadas matérias-primas artificiais (Renfrew & Bahn, 1993). Em geral, as primeiras foram transformadas com o auxílio de instrumentos líticos: perfuradores, alisadores, etc. e foram usadas concomitantemente ao lítico. A análise do material lítico Os artefatos líticos (a pedra é a matéria-prima) eram elaborados a partir da percussão de um seixo que possuía a função de batedor/martelo sobre um bloco ou outro seixo de pedra. A partir desta percussão eram extraídas lascas até a obtenção da forma desejada, que dependia da função que se pretendia dar ao objeto. O núcleo (o bloco/seixo original trabalhado) transformava-se no artefato/instrumento principal e as lascas produzidas poderiam ser descartadas ou também utilizadas na produção de artefatos como facas, raspadores, perfuradores, pontas de flecha. A habilidade do fabricante e a qualidade do artefato dependiam muito do tipo e da qualidade de matéria-prima disponível. De modo geral, a história da tecnologia lítica européia mostra que os instrumentos tornaram-se cada vez mais complexos e eficientes, enquanto em algumas regiões da América, as indústrias líticas mais elaboradas são as mais antigas. Na análise do material lítico, os itens que devem ser considerados são referentes à: 1. Matéria-prima: tipo (silex, calcedônia, basalto, arenito, quatzo, etc.), propriedades (frágeis ou resistentes), tipo de suporte (seixo, calhau, bloco, etc); fontes (tipo: leitos de rios, afloramentos de rochas nas montanhas, minas e pedreiras, distância do sitio, abundância, facilidade de extração), formas de extração, transporte, tratamento térmico. Se a matéria-prima não é local, o objeto ou a matéria-prima foi intercambiada. 2. Manufatura: morfologia, tecnologia de produção dos artefatos (lascado ou polido, sobre núcleos ou sobre lascas/lâminas, técnicas de percussão direta, indireta, bipolar; com ou sem retoques, retoques por percussão ou pressão, percutor duro ou mole,etc.) e aplicada a técnica da remontagem. 13 3. Classificação tecno-tipológica dos artefatos: criação de tipos de instrumentos e/ou adornos e aplicação da tipologia estatística, ou seja, um objeto ou um conjunto de objetos é típico de uma determinada cultura quando está estatisticamente bem representado. 4. Identificação da função dos artefatos líticos a) através dos seus atributos manufaturais (instrumentos = pontas de flechas, machados, facas, raspadores, etc.; adornos = contas, braceletes, pingentes, tembetás, etc.; cerimoniais = zoólitos, bastões de mando,etc.); b) através do estudo de micro-desgaste: mesmo sendo uma matéria- prima dura descobriu-se, através do uso de microscópios, marcas de uso e a partir daí estabeleceu-se 6 categorias no emprego do lítico: na madeira, osso, pele, carne, chifres e plantas não lenhosas. Outras marcas mostram o movimento do utensílio, por exemplo, perfurar, cortar ou raspar. Para a pergunta de como foi feito o desgaste, utiliza-se da c) arqueologia experimental (reprodução das cadeias operatórias, uso/desgaste, comparação). 5. A utilização e a evolução dos artefatos e tecnologias de produção através do tempo. No Velho Mundo, a sofisticação das técnicas de lascamento e polimento permitiu a divisão da pré-história nos períodos Paleolítico inferior, médio, superior, Mesolítico e Neolítico. Entre os autores que elaboraram manuais com metodologias de análise do material lítico podemos citar Semenov (1982), Luedtke (1992), Andrefsky (1998), Odell (2004), Whittaker (2005), além de coletâneas como as organizadas por Swanson (1975) com proeminentes nomes da análise lítica (Bradley, Crabtree, Collins) e de Hayden (1979), entre outros. Na corrente francesa, devemos citar Bordes (1961), Brézillon (1968), Tixier, Inizan & Roche (1976), Dauvois (1976). Para o Brasil, temos os manuais de Laming-Emperaire (1967) e Prous (2005). A análise do material cerâmico A beleza singela de uma vasilha cerâmica esconde um grande desenvolvimento tecnológico ligado ao domínio do fogo. A pirotecnologia começa a 1,5 milhões de anos com o controle do fogo pelo homem que o utiliza para aquecer-se, proteger-se de outros predadores, cozinhar e conservar seus alimentos, para trabalhar as pedras, endurecer a madeira. Há 26.000 anos, o homem usa desta tecnologia para fazer estatuetas de argila cozidas a uma temperatura de 500 a 800 º C. Em torno de 10.000 anos constrói fornos para secar grãos e cozinhar pães, primeira forma controlada de aumentar a temperatura. 14 Há grupos de caçadores e coletores nômades que possuem cerâmica, porém, em geral, a sua aparição coincide com a adoção de um modo de vida mais sedentário e/ou com uma dieta baseada em produtos agrícolas, onde há necessidade de recipientes mais resistentes e duradouros. Como no lítico, entre as técnicas analíticas necessárias para o estudo da cerâmica está a análise arqueológica propriamente dita que através da observação dos fragmentos cerâmicos, a olho nu e/ou com lupa binocular, permite identificar os tipos de matérias- primas utilizadas, detectar as técnicas de construção dos recipientes, de acabamento, de secagem/queima e do tratamento pós-queima. Cabe ao arqueólogo também escolher e aplicar técnicas para a reconstrução das formas e do sistema classificatório das mesmas, selecionando as variáveis tecnológicas relacionadas com a forma/tamanho e a função que os recipientes desempenharam na sociedade. As funções das vasilhas também podem ser identificadas através do estudo do contexto dos recipientes - usos múltiplos, reciclagens e marcas de uso. Podemos acrescentar a esta análise um tratamento estatístico. Os elementos decorativos da cerâmica possuem um alto potencial informativo sobre organização social, aspectos ideológicos, cosmovisão do grupo, etc. O uso dos recipientes pode ser verificado através de vestígios encontrados como fósforo, pólen, sais, resinas, borrachas, carboidratos, gordura animal e vegetal, além das marcas de uso causadas por desgastes mecânicos (desgastes por atividades de mexer, misturar e socar, apoiar - observáveis no interior, nas bases interna e externa, na borda abaixo do lábio; no afloramento do núcleo, nas depressões circulares formadas através de desgastes por líquidos), por fogo e fuligem (indica maneiras de usar: nas bases indica uso suspenso sobre o fogo e nas paredes indica uso dentro do fogo) (Wüst, 1996). A vida útil dos recipientes varia conforme os seguintes aspectos: a função, a resistência, o tamanho, a freqüência de uso, os hábitos motores, a presença de animais domésticos. O estudo da vida útil dos recipientes permite compreender a formação do refugo, estimar demografia, estimar tempo de permanência, número de recipientes por unidade doméstica (status), proporção das categorias de recipientes (subsistência). As literaturas etnológicas e etno-arqueológicas nos permitem inferir os processos cognitivos envolvidos nas diversas escolhas e o possível contexto social da produção da cerâmica. A arqueologia experimental, através da coleta de amostras de argila nos pode informar sobre a localização das fontes de matérias-primas, o modo de extração e o processo seletivo, e ainda permite a repetição das possíveis cadeias operatórias na 15 produção cerâmica, a experimentação de secagem/queima de recipientes cerâmicos, além de outros testes experimentais. Entre os manuais que propõem metodologias de análise da cerâmica podemos citar clássicos como Shepard (1965) e Meggers & Evans (1970), as propostas por Rye (1981), Anderson (1984), Nelson (1985), Arnold (1988), Kolb (1989), Sinopoli (1991), Skibo (1992), e Rice (1995), assim como, as compilações de textos encontrados em Chilton (1999) e em Neff (2005), entre outros. A análise da arte rupestre Arte Rupestre é chamada toda expressão gráfica - gravura ou pintura - que utiliza como suporte uma superfície rochosa, independentemente de sua qualidade e de suas dimensões, que tanto pode ser as paredes de abrigos, de grutas ou de penhascos, como também de rochas isoladas ou agrupadas em campo aberto, ou ainda, os lajedos nas margens de rios. Em campo, a primeira tarefa é contemplar e estudar em detalhe as representações nas paredes, nos tetos e nos blocos caídos de um abrigo sob rocha ou outro suporte rochoso. Após a análise do conjunto de representações, deve-se verificar se constitui painéis, ou seja, conjuntos de representações que se caracterizam por sua proximidade no espaço. A separação entre os painéis pode ser realizada quando são identificados espaços vazios entre os grupos de figuras, seja por acidentes topográficos do suporte rochosoresultando uma concentração de figuras em nichos ou em protuberâncias, sejam por temas, figuras, cenas diferenciadas. O objetivo desta divisão é facilitar a cópia das representações de arte no sítio. Esquematicamente, as etapas a serem efetuadas a seguir são a análise dos painéis; a numeração dos painéis e das figuras; a localização sobre as plantas e perfis topográficos do sítio; a descrição das representações de forma isolada e por painéis; a cópia sobre um plástico fino, flexível e transparente com pincéis de tinta indelével; as fotografias, assim como filmes de vídeo. Para as gravuras, pode ser feito um molde em látex. Ainda em campo devem ser verificadas as técnicas de cada representação. No caso das gravuras: a técnica de realização (picotagem ou raspagem), a largura e a profundidade do traço. Nas pinturas: a técnica do desenho (tipo de contorno, a largura do traço); a técnica empregada para preenchimento da figura; a análise, ao microscópio, do traço do contorno e do interior para descobrir quais instrumentos foram utilizados; a análise de superposições; a ação do sol sobre as representações e suas conseqüências; a observação da alteração devida às intempéries ou a outros fatores que possam ter 16 modificado as pinturas. Além da análise das condições físicas do suporte rochoso, amostras de pinturas podem ser realizadas de forma adequada para a identificação, em laboratórios especializados, do tipo de pigmentos empregados, e ainda verificar a possibilidade de datação por AMS. Em laboratório, é feita a análise minuciosa de todos os painéis e a análise de cada representação em detalhe. Nos dois casos, a análise é feita em diferentes níveis: ao nível descritivo são considerados os elementos morfológicos da figura; as regras de composição, de perspectiva e os dados técnicos de realização; ao nível interpretativo, podemos determinar o universo cultural contido no grafismo a partir do universo cultural do pesquisador. A partir das fotografias e das cópias em plástico, são reproduzidos os painéis sobre planos topográficos (em dimensões reduzidas) feitos sobre folhas de papel vegetal. Isto permite fácil manipulação da totalidade dos painéis em laboratório (Guidon, 1986). Os atributos técnicos (a maneira do desenho, a morfologia das figuras) e/ou as variações temáticas são empregadas para definir unidades estilísticas e proceder com uma série de classificações. Os pesquisadores classificam a arte rupestre de diferentes formas, os quais deram um nome particular às suas tradições, sub-tradições, estilos e fácies. As tradições são definidas segundo o tipo de figuras representadas e sua freqüência no interior desta classe; as sub-tradições são estabelecidas de acordo com as diferentes representações gráficas de um tema e sua distribuição geográfica e os estilos são ligados às técnicas de execução dos grafismos (Pessis, 1983). No Brasil, apesar de reconhecida desde o período colonial, a arte rupestre começou a ser estudada de maneira mais séria somente no século XX. Durante as décadas de 1930 a 1960, as publicações sobre o tema eram descritivas e compunham-se de listas de nomes dos sítios, onde muitas vezes estavam ausentes as localizações geográficas. É a partir da década de 1970 que uma série de projetos de pesquisa arqueológica voltou-se ao estudo mais sistemático da arte parietal, principalmente nos estados onde existe uma abundância de sítios com pinturas e gravuras como Minas Gerais, Piauí, Goiás. Durante os anos 1980, outros programas iniciaram-se nos estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (Guidon, 1986) e produziram as primeiras tentativas de classificação da arte rupestre por regiões com cartas de distribuição dos fenômenos e de sínteses como aquelas de Albano (1979/80), Prous (1979/1980, 1983, 1991), Guidon (1975, 1981/1982, 1984, 1986), Schmitz (1981, 1984) ou Monzon (1987). 17 Apesar de alguns arqueólogos dissonantes (Meneses, 1983, Wüst, 1991 e Prous, 2002), a maioria das publicações recentes sobre a arte rupestre no Brasil continua a tratá-la como uma manifestação cultural a parte das demais no registro arqueológico. Não é nosso propósito discutir as interpretações e significados da arte rupestre, porém elas estão em perfeita sintonia com o desenvolvimento das orientações teórico- metodológicas que abordaremos abaixo e da própria compreensão do fenômeno da cultura (Wüst, 1991). Será somente a partir da década de 1990 que as análises contextuais e da arqueologia da paisagem serão aplicadas à arte rupestre (Callahan, 2003, Chippindale & Nash, 2004). A interpretação dos dados A mediação entre passado e presente é muito particular na arqueologia, pois no seu exercício evidencia-se seu caráter intrinsecamente multidisciplinar. Oriunda das ciências humanas, a arqueologia incorpora o arcabouço teórico-metodológico destas, mimetizando-se, segundo a ênfase, em uma arqueologia social ou arqueologia política. É uma ciência histórica quando privilegia a diversidade das sociedades humanas no tempo e uma ciência antropológica quando se volta para a diversidade humana no espaço. A interdisciplinaridade com a etnologia e etnografia gerou um novo ramo de conhecimento, a etnoarqueologia, resultado da recorrente busca de explicações para as evidências arqueológicas na analogia etnográfica. Segundo Renfrew & Bahn, (1993) etnoarqueologia é o estudo das culturas contemporâneas com o fim de compreender as relações de comportamento que subjazem a produção da cultura material e a diferença fundamental é que agora são os arqueólogos que pesquisam as sociedades vivas. Os trabalhos de Richard Gould entre os aborígenes australianos (1969), de Richard Lee entre os !Kung San do sul da África (1972), de Lewis Binford entre os esquimós Nunamiut (1978), de Ian Hodder entre as tribos da região do lago Baringo (1982), de Lewis-William sobre o xamanismo na interpretação da arte rupestre na África do Sul (1986), converteu a etnoarqueologia em um dos avanços mais significativos da arqueologia antropológica. No Brasil, esta linha de vanguarda na virada da década de 1980 ganhou adeptos e a equipe do Museu Paranaense reuniu profissionais que propuseram e apresentaram na 38ª Reunião da SPBC em Curitiba um ‘Programa de formação e pesquisa em etnoarqueologia no estado do Paraná’ (Gaissler, Neves, Andrade Lima, Wüst, Miller, Meneses, 1986) que incluiu um curso sobre etnoarqueologia (1987) e a proposta de 18 elaboração de projetos etnoarqueológicos. A disciplina evoluiu e diversos projetos foram executados. Em 2000, o Núcleo de Pesquisa Arqueológica da UFRGS promoveu um Ciclo de Conferência sobre Etnoarqueologia (2000) e, em 2002, um volume do periódico Horizontes Antropológicos foi dedicado a esta área de conhecimento (Silva & Souza, 2002). A arqueologia encontra seus arquivos sob e/ou na superfície do solo exigindo dos arqueólogos o conhecimento de suas propriedades (Pedologia), seja para entender o porquê as antigas sociedades escolhem um determinado local para viverem (Geografia, Geomorfologia), seja porque algumas características do solo preservam e outras destroem os registros (Geologia, Climatologia, Sedimentologia), seja para entender o porquê do abandono do local e o que aconteceu após o seu abandono = os processos pós-deposicionais. O método geológico da estratigrafia, junto com alguns fenômenos resultantes das glaciações do Quaternário, nos permite obter datações relativas, ou seja, nos dá relações de contemporaneidade, anterioridade e posterioridade entre objetos, eventos, níveis arqueológicos e geológicos. As ciências da Terra permitem entender a composiçãoambiental atual, assim como a análise de paleopaisagens e os processos diferenciados de adaptação dos grupos humanos ao ambiente. O aporte das Geociências é tão importante no exercício e na interpretação dos dados arqueológicos que deu origem a um novo campo científico, a Geoarqueologia (Goldberg & MacPhail, 2006). Na prospecção arqueológica, a Geoarqueologia provê o arqueólogo com informações sobre solos enterrados, áreas favoráveis para a ocupação humana e um modelo preditivo para a locação de sítios. Na escavação, pode contribuir para avaliar o potencial de conservação do contexto cultural e da estratigrafia arqueológica dentro dos diferentes depósitos. Procedem das Ciências Exatas as técnicas que permitem a localização e ordenação temporal dos fatos que compõem a pretendida reconstrução histórica = a datação absoluta. Entre os diversos métodos de datação podemos citar o Carbono 14 utilizado para eventos recentes de milhares de anos e o Potássio-Argônio para eventos que atingem até milhões de anos. As ciências duras auxiliam nas atividades de campo como, na prospecção, com o uso das técnicas de teledetecção geofisica e na análise do material arqueológico proveniente das escavações. A análise traceológica obtida através do microscópio de varredura permite o estudo dos micro-desgastes do material lítico, a análise dos pigmentos de pinturas rupestres permite conhecer a sua composição, a análise cerâmica pela ativação dos nêutrons fornece dados sobre a composição dos 19 elementos químicos e permite a identificação das jazidas, a difração do Raio X fornece uma listagem dos minerais presentes na argila e pode revelar padrões de manufatura e captar categorias êmicas. A análise com microscópio polarizado permite a contagem qualitativa e quantitativa dos elementos minerais e os testes químicos podem detectar vestígios orgânicos como através da espectroscopia infravermelha (açúcar, peixe, pinturas orgânicas, vinho); do gás cromatográfico (leite, manteiga, óleo de oliva, peixe, porco); da espectrometria de ressonância magnética do próton (menos comum), entre muito outros (Wüst, 1996). A intersecção destas áreas de conhecimento deu origem a um novo campo, a Arqueometria, termo criado em Oxford em 1958 (Hackens, 1997). Nos sítios arqueológicos encontramos, além das estruturas e de artefatos, os chamados ecofatos: os restos vegetais (sementes, grãos, raízes, caules, frutos, madeira, e carvão) estudados pela Botânica e os restos ósseos de animais estudados pela Zoologia. Os ecofatos nos contam como era a dieta alimentar dos grupos humanos estudados. A subsistência, a necessidade mais elementar de todas, é um dos campos da arqueologia tecnicamente mais avançado. Para questões mais complexas como a dieta alimentar (que implica um padrão de consumo durante um longo período de tempo), alguns métodos centram-se nos ossos humanos: as análises isotópicas dos esqueletos de uma população humana podem indicar p.ex., o balanço dos alimentos marinhos ou terrestres de sua dieta e inclusive mostrar as diferenças nutricionais entre os membros mais avantajados da mesma sociedade. Entretanto, a maior parte de nossa informação sobre subsistência primitiva procede diretamente dos restos do que foi consumido, estudados por novos campos do saber das Biociências como a zooarqueologia e a paleobotânica que recuperam não somente as espécies consumidas, mas o modo pelo qual elas foram manipuladas. A interpretação dos restos de alimentos requer procedimentos bastante sofisticados, pois a única prova inquestionável de que uma espécie vegetal ou animal foi realmente consumido é a presença de suas provas nos conteúdos estomacais ou em coprólitos (fezes fossilizadas). Em todos os demais casos temos que deduzí-lo do contexto ou das circunstâncias do achado como um grão carbonizado em uma fogueira, ossos cortados ou queimados ou resíduos em uma vasilha (Renfrew & Bahn, 1993). As Ciências Biológicas, além da longamente utilizada antropologia física e paleoantropologia que nos conta a trajetória evolutiva humana, desenvolveu novas linhas interpretativas nos campos da paleopatologia e da paleoparasitologia. A paleopatologia, através da análise dos restos esqueletais humanos, de fatores bioculturais e ambientais, permite discutir os processos tafonômicos num sítio 20 arqueológico, definir mudanças populacionais ao longo do tempo, demarcar atividades físicas, tensão social, estilo de vida, dieta e indicar práticas culturais ligadas ao ritual da morte e seus desdobramentos (Mendonça de Souza, 1999). A paleoparasitologia, através da técnica de reidratação dos coprólitos, mostra que os achados de parasitos em material arqueológico trazem contribuições importantes para teorias de migrações humanas pré- históricas e, através da técnica da biologia molecular, permitiram diagnosticar a tuberculose e a doença de Chagas em múmias sul-americanas pré-colombianas e constatar que os parasitos possuem maior freqüência em sociedades sedentárias do que em nômades (Sianto, Fernandes, Lobo, Ferreira, Gonçalves, Araújo, 2003). Um último, porém não conclusivo, exemplo da soma profícua da multidisciplinariedade da arqueologia e de suas particularidades científicas (que fazem o arqueólogo assemelhar-se a um detetive) é a arqueologia forense. O surgimento de um novo tipo de direito com a criação dos conceitos de crimes de guerra e de direitos humanitários instituído com o processo de Nuremberg (1945/46), a procura no governo de Raul Alfonsín dos desaparecidos da ditadura militar (1983-1984), os genocídios no Iraque (1991-1992), na ex-Iugoslávia (1993-1994) e Ruanda (1995-1996) entre outros, e a fundação em 2002 da Corte Penal Internacional, exigiu profissionais com competência para exumar os corpos. O emprego das técnicas e dos métodos da osteologia antropológica e da arqueologia está sendo fundamental para esclarecer questões da história recente através da obtenção de provas e dando aos mortos a possibilidade de testemunharem as atrocidades de que foram vitimas (Haglund, 2007). A multidisciplinariedade da arqueologia está a serviço da busca de explicações para questões locais como a reconstituição da sucessão de sociedades e de seus modos de vida em um determinado território, assim como para questões mais amplas como o surgimento do homem e a reconstituição de sua trajetória sobre o nosso planeta. Além disso, serve ao entendimento de temas transversais, como o colapso/abandono das grandes civilizações, cuja explicação mais recente enfatiza a reorganização/mudança das relações ecológicas e sociais, usando a emergente perspectiva da teoria da resiliência (Nelson, Hegmon, Kolov, Schollmeyer, 2006). Independente da aplicação da “teoria do caos” ou de “modelos não lineares” para interpretar o registro arqueológico, as explicações mais convincentes estão justamente na intersecção de numerosos fatores e de diversos campos do saber. Portanto, através da aplicação dos avanços científicos realizados nestes campos de conhecimento, as limitações inerentes à disciplina arqueológica são minoradas e os 21 alcances interpretativos são potencializados. O quadro abaixo sintetiza as interações entre as diferentes áreas do conhecimento. Ciências Humanas Arqueologia enquanto História (ênfase na diacronia) = Arqueologia pré-histórica, histórica (oriental, clássica, moderna, contemporânea) Arqueologia enquanto Antropologia (ênfase na sincronia) Intersecção de áreas de conhecimento: Etnoarqueologia,Ciências da Terra Arquivos no solo – Estratigrafia Reconstituição ambiental através da sedimentologia, geologia, geomorfologia, geografia – Análise de paleopaisagens e processos diferenciados de adaptação Cronologia relativa: estratigrafia e estruturas pleistocênicas Interseção de áreas de conhecimento: Geoarqueologia Ciências Biológicas Estudos dos ecofatos: macro restos vegetais = botânica, microflora = palinologia, restos animais = zoologia Antropologia Física: restos ósseos humanos = Anatomia Comparada, Fisiologia, Genética Intersecção de áreas de conhecimento: Paleobotânica, Zooarqueologia, Paleopatologia,Paleoparasitologia = Bioarqueologia Ciências Exatas Métodos físico-químicos para obter datação absoluta Análises bioquímicas: fosfatos, cálcio, sedimentos, etc. Intersecção de áreas de conhecimento: Arqueometria (ex: análise da cerâmica através da difratometria do Raio X, traceologia do lítico através do microscópio de varredura, análise de pigmentos de pinturas) Arqueologia 22 O processo de construção dos dados na arqueologia brasileira Considerando que os dados são gerados pelos arqueólogos, devemos levar em conta a influência dos contextos históricos, sociais e políticos específicos nos quais estão inseridos os pesquisadores e as suas escolhas por determinados métodos de trabalho. Aqui desejamos relacionar as diversas práticas interpretativas, teórica e metodologicamente embasadas, desenvolvidas na produção do conhecimento, com aquelas que se efetuaram no contexto da arqueologia brasileira da última metade do século passado. Considerando aspectos como as diversas ênfases ou unidades de análise, as metodologias utilizadas em campo e laboratório, o entendimento das relações homem versus natureza, o alcance interpretativo e conhecimento produzido, identificamos três momentos diferentes na construção dos dados arqueológicos: a corrente empirista evolucionista e histórica culturalista, a corrente processualista/positivista e a corrente pós-processualista/interpretativista. O empiricismo evolucionista e histórico culturalista: Predominantes nas décadas de 1960 e 1970, as tendências empiricista evolucionista e empirista histórico culturalista 2 colocam a ênfase das análises nos artefatos e possuem como objetivo recolher uma quantidade significativa de objetos em um grande número de sítios e, no caso dos pesquisadores que atuaram ou adotaram as premissas do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (PRONAPA), classificá- los em fases e tradições arqueológicas. Assim, para os evolucionistas, o simples achado de algumas pontas de projétil entre centenas de outras peças líticas era suficiente para intuir o seu uso para atividades de caça e, portanto, concluir que se tratava de sociedades caçadoras e coletoras de vegetais. As pontas eram consideradas o fóssil-guia ou o elemento diagnóstico e o seu uso e seu estilo tecnológico definiriam o tipo e o nível de desenvolvimento da sociedade sob investigação. Com raras exceções, os demais artefatos e restos de debitagem não eram considerados e, muitas vezes, somente contabilizados. Nesta abordagem, os artefatos tinham uma natureza passiva, eram vistos como conseqüência da ação humana ou, ainda, como um mero reflexo do seu comportamento. 2 Estas duas correntes possuem corpos teóricos diametralmente opostos, entretanto, como na arqueologia brasileira as duas foram colocados em prática no mesmo período e usados de forma combinada por alguns profissionais, discutiremos sob o mesmo título. 23 O trabalho de campo arqueológico constituía um registro objetivo de dados, como uma simples observação de informações na qual o sujeito – o arqueólogo que trabalha em campo – é visto como um fornecedor e não como um produtor dos dados (Hodder, 1999; Berggren e Hodder, 2003). Através de numerosas prospecções rápidas com coleta de material de superfície para ser estudado como amostras e de cortes estratigráficos realizados no centro das estruturas ou do sítio (era presumido que qualquer parte do sítio era típica do conjunto) buscavam obter cronologia. Quanto mais artefatos e sítios conhecidos, mais dados eram fornecidos, assim havendo um grande acúmulo de peças para a montagem do quebra-cabeça de “reconstruir o passado” 3. A análise laboratorial privilegiava, entre os artefatos, os instrumentos e através da tabulação dos seus atributos criavam-se tipos de instrumentos (método tipológico) que eram comparados entre si (método comparativo) e com o material de outros sítios. Para obter cronologia relativa, os atributos e os tipos de artefatos eram seriados (seriação de ocorrência e de freqüência) (Trigger, 2004: 194). O alcance interpretativo da aplicação desta abordagem era limitado aos fatores econômicos e sociais definidos a partir dos artefatos: quando eram achados somente artefatos líticos tratava-se de sociedades de caçadores e coletores, quando aparecia cerâmica, os grupos humanos eram detentores da horticultura ou agricultura. Através do uso da analogia etnográfica com sociedades de caçadores e coletores e agricultores do período colonial inferiam a forma de organização social e associavam as culturas arqueológicas a grupos étnicos específicos. O meio ambiente físico era semelhante ao atual e servia como cenário ou determinava as ações humanas. Enfim, o principal objetivo era obter seqüências espaço-temporal dos artefatos para definir culturas arqueológicas e procurar as suas origens recorrendo a fatores externos como difusão e migração para explicar as mudanças no registro arqueológico. A primazia eram os dados empíricos e as reflexões teóricas estavam implícitas. O processualismo positivista: Nas décadas de 1980 e 1990 observamos uma gradual adoção das tendências processualistas/positivistas e neo-evolucionistas onde, concebendo a arqueologia como uma ciência social, a abordagem teórico-metodológica deveria sempre estar explicitada. 3 O tipo de coleta do material arqueológico e a idéia de reconstruir o passado estão relacionados com a abordagem histórica culturalista, onde o conceito de cultura, adotado por Franz Boas, seria de um padrão de normas mantido implicitamente pelos membros da cultura e obtida através da tradição e difusão. 24 A partir do surgimento da vertente processual na arqueologia em alguns países, principalmente nos Estados Unidos (Binford, 1962, 1968), algumas coisas começaram a mudar na elaboração dos dados arqueológicos. A partir de uma visão sistêmica da cultura, emprestada dos funcionalistas e neo-evolucionistas, a arqueologia se julgava capaz de desvendar sistemas e processos sociais, políticos, econômicos e mesmo ideológicos, desde que se empregassem métodos e técnicas analíticas adequadas. A meta principal consistia na busca de leis gerais de comportamento. O trabalho de campo passou a ser encarado como uma atividade bem planejada, com projetos bem definidos e voltados para responder problemas de pesquisa sobre o passado. As coleções começaram a ser obtidas a partir de rigorosos métodos de amostragens regionais, prospecção intensiva e escavação seletiva, tratadas com testes estatísticos para permitir generalizações. Porém, embora aceitando que os dados não eram por si só evidentes e que a teoria era necessária, esta nova abordagem continuava defendendo os dados como objetivos, observados pelo arqueólogo a partir de uma neutralidade científica. Esta forma de ver as coisas foi influenciada pelo enfoquepositivista, baseado na objetividade e na neutralidade do profissional na realização das pesquisas. Os arqueólogos adeptos desta corrente teórico-metodológica passaram a registrar de forma sistemática os locais onde os artefatos eram encontrados (grande importância era dada ao contexto), a realizar mapas da distribuição espacial dos objetos para procurar áreas de atividades diferenciadas dentro dos sítios (análise intra-sítios) e a verificar a sucessão estratigráfica, pois a maior preocupação estava em explicar como ocorriam as mudanças de um modo de ocupação para outro, a dinâmica ou processo cultural. A distribuição espacial dos sítios e sua forma de implantação no relevo permitiram verificar padrões de assentamento dos grupos humanos na paisagem (análise inter-sítios), a qual era vista como também se alterando com a passagem do tempo. O estudo das paleopaisagens mesuraria o grau de adaptação dos grupos humanos ao ecossistema (um dos produtos da aplicação da teoria dos sistemas na interpretação dos dados). Segundo Trigger (2004:198), o objetivo principal de semelhante pesquisa era reconstruir uma impressão visual da vida no passado: como eram as casas, que tipo de roupas as pessoas vestiam, que utensílios usavam e em que atividades se envolviam. Para tanto, toda a informação era importante e todos os dados deveriam ser recolhidos sejam os dejetos de debitagem sejam os remanescentes da fauna e da flora. Em 25 laboratório, propostas metodológicas de análises tecno-funcionais privilegiaram os restos de debitagem ignorados até então. A tabulação das séries de atributos permitiu tratamentos estatísticos elaborados. O tratamento dos sítios como objeto analítico permitiu verificar padrões de assentamentos e as análises regionais levaram a identificar sistemas de assentamentos, bem como a discutir questões de contato cultural e áreas de fronteiras. Este novo enfoque, baseado na compreensão sistêmica do comportamento humano e na análise espacial dos eventos (hierarquia no uso do espaço) aumentou sensivelmente o alcance interpretativo da arqueologia, acrescentando à reconstituição da economia dos grupos humanos pretéritos, a sua organização social e política. O pós-processualismo interpretativista 4 : O contextualizar A unidade de análise desta corrente não são os artefatos ou os sítios arqueológicos, mas sim o contexto. O contexto aqui não é considerado, como na corrente processualista, o meio ambiente ou o espaço que abriga os artefatos, os sítios ou uma cultura. O contextualizar é compreendido como o ato de entrelaçar, conectar as coisas, os lugares, as pessoas. Um objeto ou um sítio arqueológico nunca significa nada por si mesmo, mas sim uma teia de relações com outras coisas que compõem um contexto, um campo de significações (Thomas, 1996). A interpretação arqueológica requer que as coisas sejam relacionadas com outras para fazer sentido ao que restou do passado. Desta maneira, um artefato sem proveniência tem valor limitado, visto que os significados somente podem ser abordados se os contextos de uso são considerados, se as diferenças e as semelhanças entre as coisas são levadas em conta (Hodder, 1986). A interpretação do significado será alcançada quanto mais ricamente forem tramados os dados, uma vez que uma grande quantidade de informações permite descobrir mais semelhanças e diferenças entre os materiais. Assim, a análise contextual implica movimentos constantes entre teoria e dados, entre objetos e contextos (Hodder, 1992). A partir do momento em que os contextos dos objetos são conhecidos eles deixam de ser completamente mudos, pois as associações que estabelecem com outros 4 Há diversas correntes sob o cognome de arqueologias interpretativas, algumas incompatíveis entre si como a marxista e a teoria da desconstrução. Nossa intenção não é discorrer sobre elas, porém cabe lembrar que esta linha teórica deu voz aos segmentos minoritários (mulheres, escravos, índios, etc.) trazendo o conflito social como um tema privilegiado. 26 elementos fornecem as chaves para sua significação. Neste sentido, toda interpretação deste tipo de conteúdo se vê restringida pela análise do contexto (Hodder, 1986). Tendo em vista que a arqueologia é uma disciplina histórica, é importante considerar que todas as ações humanas são localizadas em contextos históricos que são específicos para cada cultura. Assim, quando se analisa alguma relação estabelecida entre uma cultura material e um grupo de pessoas, necessariamente deve-se inseri-la dentro do contexto histórico e cultural específico 5 . Apenas para exemplificar, os objetos têm atributos materiais universais, como um machado para cortar árvore necessariamente deve ser elaborado com uma determinada matéria-prima e deve apresentar marcas de uso específicas com a realização desta atividade. Entretanto, este mesmo machado está ligado a um contexto histórico particular, no qual pode estar associado a esqueletos femininos em um enterramento. Neste sentido, significa mais do que uma ferramenta utilitária, pois remete a outro tipo de significação, vinculada a questões como gênero (Hodder, 1992). Dando significado à cultura material ou ‘o colocar em palavras o que não é verbal’ O contextualizar é dar significado a cultura material. Cultura material é o termo comumente utilizado nesta e em outras disciplinas para se referir aos produtos materiais da ação humana, os quais são as principais fontes que conduzem à presença humana no passado mais remoto. Refere-se à transformação da matéria inerte em um objeto cultural. Desta forma, toda prática de indivíduos é escrita e impressa no mundo com as coisas (Shanks e Tilley, 1987). De acordo com Glassie (1999), a “cultura material é cultura feita material”, começando necessariamente com as coisas, mas não terminando com elas, o estudo da cultura material usa os objetos para abordar o pensamento e a ação humana. Na troca com a natureza, homens e mulheres fazem coisas, deixam rastros na terra, estas são as coisas da cultura material (Glassie, 1999: 41-44). Conforme Hodder (1992) a cultura material é fascinante para muitas pessoas pelo seu caráter dual, uma vez que aproxima elementos de ciências distintas. Abarca as ciências sociais (humanas) e as naturais (exatas) num mesmo conceito, que captura esta dualidade. As primeiras preocupam-se com os significados conceituais que não são puramente abstratos e que existem em relação a uma determinada cultura, enquanto que as últimas ocupam-se de analisar as características físicas dos objetos, suas propriedades materiais observáveis. Logo, o arqueólogo depara-se com uma fonte de estudo que é 5 É oportuno ressaltar que, em contraposição à corrente anterior que pretendia identificar leis gerais, esta abordagem possui uma natureza particularizante. 27 uma conjunção de elementos abstratos e concretos presentes em todas as culturas, representadas contemporaneamente pelos objetos materiais. Além disso, diferentemente de outras formas de expressão cultural, os objetos têm uma maneira própria de expressar-se. Entender a cultura material vai além de interpretar uma linguagem, por exemplo, porque relata pensamentos e ações que resistem à formulação verbal (Glassie, 1999). Assim, a significação da cultura material é difícil de ser colocada em palavras, como destaca Glassie, “... o artefato tem seu próprio meio de significar, e em apreendê-lo começamos a ouvir vozes nas coisas, gritos dos deuses atrás dos vidros dos museus. Então aceitamos a estranha responsabilidade de colocar em palavraso que não é verbal” (Glassie, 1999:47). Glassie (1999) propõe um modo de esquematizar a variedade contextual e organizar as categorias de informação dentro das quais os artefatos absorvem significância específica. Seu método compreende em considerar as coisas como textos, conjuntos de partes, nos quais os significados são trazidos quando os colocamos de volta aos seus contextos e os analisamos como partes de conjuntos. Um texto, um objeto, um sítio não tem apenas um contexto - têm muitos a cada movimento de associação. Dentro desta metodologia de análise, este autor sugere que os artefatos absorvem significância ao visionar contextos enquanto séries de ocasiões pertencendo a três classes mestres – criação, comunicação e consumo – as quais foram arranjadas por este autor, desta maneira, para contar de forma cumulativa as histórias de vida dos artefatos. Portanto, a cultura material é constituída por significados. Não é um reflexo direto do comportamento humano, pois existem idéias, crenças e significados interpostos entre as pessoas e as coisas, estruturados em relação a processos sociais (Hodder, 1982, 1986, 1992). Durante o processo de modificação da matéria natural em produto cultural, significações surgem no desencadeamento das relações entre os sujeitos e os objetos. Os significados podem ser entendidos como a soma dos relacionamentos entre as pessoas e as coisas (Glassie, 1999). Não fornecem um espelho para as condições materiais de existência e para as relações sociais para reprodução social, pois são constitutivos desta existência e, desta maneira, não estão amarrados aos objetos. Por este motivo, como afirma Thomas, os significados abstratos não devem de forma alguma ser separado da materialidade dos objetos, exatamente porque eles são constitutivos deste mundo material (Thomas 1995, 1996). 28 Os envolvimentos entre os seres humanos e os objetos estão constantemente em movimento. Há uma pluralidade de significados presentes na vida cotidiana, na medida em que os artefatos significam diferentes coisas para diferentes pessoas e são comumente reavaliados e repensados com o passar do tempo. Deste modo, não são somente propriedade do passado, em razão de que também tem uma existência significativa no presente (Thomas, 1996). As pessoas geralmente incorporam itens materiais produzidos em outros períodos de tempo estabelecendo significados muitas vezes diferentes daqueles que eles possuíam em outras sociedades, em outras culturas. Em resumo, a cultura material possui múltiplos significados de acordo com as pessoas (codificações culturais, inconscientes, significados não intencionais), com o contexto e com o tempo, e não são produtos de necessidades práticas ou de ações dos indivíduos que a originaram, mas sim significados simbólicos e ideológicos que excedem os elementos físicos e externos. O caráter ativo das coisas, das pessoas, dos lugares. Os seres humanos são sujeitos ativos. Produzem objetos não apenas para subsistir, mas igualmente para formar, manter e transformar relações sociais complexas. Os artefatos, de forma similar, desempenham um papel ativo na constituição da sociedade, pois também estão envolvidos nas práticas sociais. São necessários para compor as relações entre os indivíduos, bem como para mantê-las sendo de grande relevância, pois podem armazenar e preservar informação de ordem social, formando assim um componente da realidade. Os lugares constituem locais de significados humanos. Toda existência humana envolve existência em algum lugar. As relações estabelecidas entre as pessoas e as coisas sempre ocorrem em um determinado local. Os indivíduos, de um modo geral, ligam-se aos espaços de diferentes formas, de diversos sentidos, tornando-os significativos em virtude de seu envolvimento humano com eles. Os arqueólogos tradicionalmente dirigem atenção aos espaços, aos lugares, às paisagens que possuem alguma relação com a vida das pessoas que existiram remotamente. Espaço é um termo comumente utilizado na arqueologia para se referir de um modo geral aos locais relacionados à habitação humana. Segundo autores associados às abordagens pós-processuais como Tilley (1994) e Thomas (1996), o espaço não é um pano de fundo passivo, mas sim uma entidade ativa e complexa em relação às vidas humanas. É formado por relações sociais estabelecidas entre os indivíduos e entre os 29 indivíduos e os objetos culturais. Neste sentido, pode ser visto como socialmente produzido pelas pessoas, estando sempre centrado em relação à atividade humana. Thomas (1996) sugere a utilização do termo lugar para referir-se aos locais relacionados a um mundo humano. Para ele, o espaço pode ser transformado em um lugar pela ação humana, ao serem usados e consumidos e, igualmente, por envolvimento em estruturas de pensamento. Não é necessário, todavia, que este seja alterado fisicamente para que isso aconteça. Os lugares envolvem uma paisagem específica, um conjunto de atividades sociais, teias de significados e rituais – todos inseparavelmente entrelaçados. Como os seres humanos que viveram no passado não habitam mais os lugares, é preciso colocá-los de volta através das análises arqueológicas, incluindo-os nas interpretações (Thomas, 1996). O papel ativo do pesquisador O conhecimento sobre o passado é sempre produzido de forma ativa pelo pesquisador, um sujeito ativamente interpretante que faz constantemente perguntas de uma forma dinâmica à cultura material. O arqueólogo, portanto, é um sujeito real que escava e pensa sobre um passado que também é real (Shanks e Tilley, 1987). A escavação e a análise dos artefatos, como vimos anteriormente, são em essência atividades de construção de elementos sobre o passado, que embora tenham uma materialidade empírica real, trata-se de formas de representação dos fatos realizadas no presente. Segundo Shanks e Tilley (1987) um passado observado é um passado problemático, no sentido de que concebe a arqueologia como uma observação de objetos separados do observador. No entanto, parece-nos claro que as fontes materiais arqueológicas são constituídas na prática, uma vez que os sítios são escavados. A partir da proposta de Hodder (1999) de ‘escavar de forma contraditória’, de um modo alternativo aos paradigmas amplamente difundidos na arqueologia, concordamos com o fato de que a interpretação ocorre em toda a prática de campo, pois descrever e medir são atos interpretativos. O próprio registro arqueológico já seria uma leitura, em razão de que diz respeito ao que o pesquisador vê em vez do que simplesmente há (Barker, 1989: 146 apud Hodder, 1999: 692). Da mesma forma, os métodos selecionados para a escavação dependem do entendimento a priori do sítio, da mesma forma que do conhecimento prévio do arqueólogo ou dos arqueólogos responsáveis. Logo, ambos os métodos de escavação e de registros de dados dependem 30 da forma como as coisas são vistas pelos profissionais. Acreditamos que devemos tentar acabar com as barreiras que opõem interpretação e prática e, ao fazermos isto, acabaremos aceitando o papel central da interpretação no real processo de construção dos dados. O investigador deve ser capaz de afirmar ‘isto é a minha forma de compreender as coisas’ e não se esconder atrás da descrição objetiva de artefatos. Como a escavação é uma atividade produtiva de dados, mas também destrutiva, ela mostra-se como o melhor momento para serem exploradas visões alternativas sobre os dados. Cabe então fazer com que este trabalho seja produtivo e esteja aberto a outras formas de dar sentido ao passado. Com o resgate da cultura material encontrada sob determinadaorientação metodológica, o pesquisador investiga estes objetos em laboratório com o intuito de obter um conjunto de dados. Para Tomaskova, os vestígios pré-históricos recuperados (...) podem somente se tornar dados através da representação por meio de algumas convenções relativamente pertinentes na documentação. Os métodos produzem um produto específico, tangível e muito real - um banco de dados que pode ser controlado, examinado e comparado por outros investigadores. (Tomaskova, 2003:496) Certamente a classificação é o método mais conhecido e aplicado na arqueologia para o estudo dos artefatos, o qual se baseia em determinadas convenções para guiar a análise. Há várias formas de classificar os objetos, mas todas elas baseiam-se em convenções, atributos escolhidos de acordo com a aplicação de uma metodologia específica, a qual está sempre situada num contexto também particular. Assim, conforme Tomaskova (2003:50), tais convenções “não são regras infinitas, mas acordos bastantes locais baseados numa lógica particular”. Uma leve variação nos aspectos valorizados, até mesmo num nível básico de tamanho, é capaz de produzir padrões bastante diferentes de dados. Um exemplo disto pode ser encontrado na classificação tipológica de artefatos líticos, que dá primazia aos instrumentos na representação dos fatos pré-históricos. Outros vestígios abarcados em outras formas de estudo representariam uma gama mais ampla de ocorrência de transformações naturais e culturais num sítio, e assim constituiria um banco de dados mais inclusivo para a reconstituição de toda a história da ocupação humana no lugar estudado (Tomaskova, 2003). 31 A elaboração de discursos arqueológicos A arqueologia é uma meta-linguagem do passado. Compreende a realização de pesquisas empíricas que resultam na descoberta e no estudo de objetos materiais da mesma forma que resulta na escrita sobre esta cultura material, na sua transcrição em palavras. Estuda as coisas elaboradas pelos seres humanos no passado através da linguagem escrita, tornando-as inteligíveis de outra maneira ao serem transferidas para os textos (Olsen, 1990). Ao conceber o conhecimento arqueológico enquanto uma forma de discurso sobre o passado através da escrita dos textos, Tilley defende que a arqueologia não é “ler os sinais do passado, mas um processo de escrever estes sinais no presente” e salienta que a arqueologia trata-se de uma prática que vai além de ler o passado, representado pela cultura material, uma vez que o produz ao escrever sobre ele, elaborando os discursos arqueológicos (Tilley, 1989, Tilley, s./d). Os objetos materiais são modificados com a escrita e tornam-se objetos discursivos nos textos, que compreendem afirmações, conceitos, problemas forjados pelos arqueólogos. Este processo de colocar as coisas nos textos pode ser visto ao mesmo tempo como uma violência a estas coisas e como um exercício produtivo e criativo. Antes de serem transformados, os artefatos são objetos com uma pluralidade de significados, são coisas com uma materialidade física e real elaboradas pelas pessoas no passado. Depois de transcritos, estes mesmos artefatos tornam-se textos de estrutura argumentativa teórica com conotações materiais (Shanks e Tilley, 1987). No texto escrito, os objetos aparecem na forma pela qual foram entendidos pelo autor, em uma determinada conjuntura. Um exemplo disto pode ser percebido na forma em que os autores vinculados à vertente processual e pós-processual criaram seus próprios objetos discursivos – os primeiros como objeto adaptativo e os últimos enquanto parte de um sistema significativo (Tilley, 1990). Um texto escrito, do mesmo modo que as outras formas de representação da realidade passada, não deve ser entendido nem como uma expressão direta do real nem como divorciado dele. Da mesma forma nunca abarca todas as relações entre a cultura material e as pessoas que a produziram, pois sempre há seleções e escolhas realizadas pelo autor. É neste sentido que Tilley caracteriza os textos arqueológicos enquanto 32 ‘artefatos contemporâneos’, visto que são ativamente construídos pelo arqueólogo no presente (Tilley, 1998). O leitor, por sua vez, não é um consumidor passivo do conhecimento, pois auxilia a criá-lo dando outros significados ao relato, entendendo-o de uma forma particular (Tilley, s./d). O autor está fazendo claramente uma referência ao estudo da cultura material através da metáfora do texto, discussão inicialmente suscitada pelo trabalho Reading the Past, de Hodder (1986) onde, ‘ler a cultura material’ da mesma forma que um texto escrito, permitiria a cultura material ser lida e interpretada de várias maneiras, possuindo não apenas um, mas vários significados. Finalizando: a produção do conhecimento sobre o passado no presente Como procuramos mostrar até aqui, defendemos a arqueologia enquanto uma prática interpretativa, desenvolvida por atividades de campo e de laboratório (com o rigor processualista) que resultam na produção de dados e de discursos arqueológicos e, que desta forma é responsável por construir socialmente e de forma ativa o passado no presente. Entretanto, ao mesmo tempo em que concordamos com a idéia de que o passado é construído socialmente no presente, ressaltamos que tal processo somente é possível de ser realizado com base nos objetos materiais, os quais têm uma materialidade empírica que deve ser levada em consideração. Não podemos aceitar o relativismo extremo da moda pós-moderna. Neste sentido, pelo fato de que os arqueólogos realizam suas pesquisas através da cultura material, acreditamos que não há um idealismo no sentido de que o passado é inventado. Como afirmam alguns autores, este de alguma forma pode resistir às construções modernas, restringindo o que se pode dizer sobre ele e permitindo a determinadas teorias se ajustarem melhor ou não (Hodder, 1992; Shanks e Tilley, 1987; Tilley, s./d). Logo, torna-se perigoso para o arqueólogo defendê-lo somente como tendo sido construído no seu tempo, pois acaba correndo o risco de fechar-se na perspectiva do presente, negando assim, a existência de tudo que aconteceu remotamente e que é comprovado pela presença das evidências materiais. Certamente é difícil para uma ciência humana, como a arqueologia, afirmar com certeza tudo o que aconteceu no passado. Esta é uma questão que deve incomodar a maioria dos que trabalham nesta área, os quais certamente já se perguntaram se os resultados de seu trabalho condizem com a realidade passada, se conseguiram alcançar 33 os significados contidos nos objetos ou se podem afirmar alguma coisa com grau elevado de certeza sobre os eventos passados. Após refletir bastante sobre esta questão, percebemos que este debate gira em torno de dar ou não dar certezas, e é exatamente neste ponto que nos parece oportuno que a questão deva ser discutida. Uma vez que se conceba esta disciplina como uma ciência social produzida por pessoas no presente, que de forma ativa constroem o conhecimento sobre o passado, tais dúvidas parecem ficar mais claras. As certezas que podem ser dadas, a nosso ver, são de que pessoas viveram no passado remoto e elaboraram coisas - objetos reais em determinados locais - os quais foram trocados, usados, descartados. Cabe aos estudiosos partir dessas e de outras informações para realizar suas pesquisas e elaborar suas interpretações na tentativa de atribuir significados. Uma perspectiva contextual pode auxiliar nesta tarefa, pelo fato de que, ao estabelecer relações entre os vestígios materiais, o investigador pode aproximar-se das significações contidas nos objetos. Tilley (s./d)propõe que para manter uma posição materialista e defender o passado como uma construção, algo socialmente produzido e feito aqui e agora, no presente, este assunto deve ser abordado a partir de três materialidades que estão intrinsecamente entrelaçadas: a materialidade do passado (a realidade física dos objetos materiais), a materialidade do presente (a partir de onde é produzido o conhecimento sobre o passado pelo arqueólogo) e a materialidade do processo de produzir discursos (a escrita de textos sobre o passado no presente). Ao considerar estas três instâncias da materialidade, o arqueólogo respeita a existência material dos objetos e a sua relação com o tempo remoto e também situa a sua produção enquanto historicamente e socialmente situada no período em que se encontra. Ainda, ressalta a importância de compreender os textos arqueológicos enquanto formações discursivas, elaboradas pelo investigador no seu contexto atual. Tal forma de ver as coisas permite que a arqueologia seja reconhecida em toda sua complexidade, pois os relatos realizados sob esta abordagem são “construções que não são menos reais, sinceras ou autênticas por serem construídas”, pois são frutos de uma ciência social (Hodder, 1992). Referências Bibliográficas: 34 ALBANO, R. S. 1979/1980. Bibliografia sobre arte rupestre brasileira. Arquivos do Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais. V.4/5, pp. 185-189. ANDREFSKY, W. 1998. Lithics: Macroscopic approaches to analysis. Cambridge: Cambridge University Press. ANDERSON, A. 1984. Interpreting Pottery. London: Batsford. ARNOLD, D. 1988. Ceramics Theory and Cultural Process. New York: Cambridge University Press. BERGGREN, A. & HODDER, I. 2003. Social Practice, Method, and some Problems of Field Archaeology. American Antiquity, 68, pp. 421-434. BINFORD, L. 1962. 88 [1983] En busca del passado. Barcelona: Crítica. 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Novas perspectivas para o estudo dos ceramistas pré-coloniais do Centro-Oeste Brasileiro: a análise espacial do sítio Guará 1 (GO-NI-100), Goiás. Revista do MAE-USP, N° 6. São Paulo: USP. WÜST, I. 1996. Sistemas de procura, produção, uso, reciclagem e descarte e técnicas de análise da cerâmica. Porto Alegre: Datiloscrito. Texto preparado para o Curso A análise e interpretação dos fragmentos cerâmicos. NUPArq/IFCH/UFRGS. « Cette pratique [l’archéologie], sur le terrain, est faite de laborieuses négociations avec les aménageurs susceptibles de détruire un site archéologique, de fouilles minutieuses et souvent ingrates par tous les temps, de longues analyses en laboratoire et de dépouillements de listings, d’austères rapports documentaires, de publications fort savantes... Peu de sciences humaines ont un rapport aussi déséquilibré entre le temps d’accumulation de l’information et celui du traitement et de la synthèse. D’une certaine façon, vingt années de fouilles systématiques sur un site équivalent un peu, pour l’historien, à prende simplement un registre d’archives sur un rayonnage ». DEMOULE, J-P, 2007. Silvia Moehlecke Copé, doutora pela Universidade de Paris I Panthéon Sorbonne, é coordenadora do Núcleo de Pesquisa Arqueológica – NuPArq do Depto de História/IFCH e fundadora e coordenadora do Museu de Arqueologia e Etnologia – MUAE/IFCH, professora de Pré-história geral, Pré-história americana, Pré-história brasileira e Arqueologia I e II. Carolina Aveline Deitos Rosa, graduada em História pela UFRGS e mestre em História pela PUCRS, é pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Arqueológica – NuPArq do Depto de História/IFCH/UFRGS. View publication statsView publication stats