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Alguns aspectos observados no comportamento de crianças vítimas de abuso sexual

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e ao menos cinco anos mais do que a criança. Para 
indivíduos no final da adolescência, não se especifica a diferença precisa de idade, e deve ser 
usado o julgamento clínico; tanto a maturidade sexual da criança como a diferença de idade devem 
ser levadas em conta." (American Psychiatric Association, 1994, pp. 527-528). 
Existem ainda outras situações de abuso sexual na infância e adolescência. Uma delas é o alto 
índice de envolvimento de crianças em pornografia (Kaplan & Sadock, 1990). Outra categoria 
bastante comum são os diversos casos de prostituição infantil, amplamente divulgados pela 
imprensa (conforme Pereira, 1993). 
Incidência 
Sabe-se que o abuso sexual vem sendo reconhecido nos últimos tempos como um relevante 
problema social e de saúde pública. Contudo, deve-se fazer um levantamento dos dados a respeito 
de sua ocorrência, a fim de propiciar um conhecimento sobre a dimensão do fenômeno. De acordo 
com Knutson (1995), os dados epidemiológicos disponíveis sobre maus-tratos na infância são 
determinados pelas definições adotadas pelos pesquisadores. Dessa forma, uma definição limitada 
tende a reduzir a real ocorrência de abuso sexual (Kalichman, 1993). Assim sendo, faz-se necessária 
uma capacitação especial de modo a observar a real ocorrência do abuso sexual infantil. 
De acordo com as estimativas do National Committee for the Prevention of Child Abuse, a cada ano 
são relatados aproximadamente 150.000 a 200.000 novos casos de abuso sexual infantil (Kaplan, 
Sadock, & Grebb, 1997). Entretanto, as taxas de ocorrência reais são provavelmente mais elevadas 
do que as estimativas existentes, já que muitas crianças maltratadas não são reconhecidas nem 
diagnosticadas (Kaplan & Sadock, 1990). Ainda, outros fatores podem influenciar os dados, como a 
amostra escolhida, o método utilizado para perguntar questões relacionadas ao abuso sexual, bem 
como a atitude da família em denunciar ou não a ocorrência do abuso (Kristensen, 1996). 
Conforme Kaplan e Sadock (1990), a maioria dos casos de abuso sexual envolvendo crianças nunca 
é revelada devido aos sentimentos de culpa, vergonha, ignorância e tolerância da vítima. 
Combinados a isso observa-se a relutância de alguns profissionais em reconhecer e relatar o abuso 
sexual, a insistência dos tribunais em regras estritas de evidência e o medo por parte das famílias, da 
dissolução das mesmas, se o fato for descoberto. 
Um estudo com mulheres adultas em São Francisco, dirigido por Russell (1984), demonstrou que 
mesmo após excluir eventos menores (vítima de exibicionismo sem contato físico), 16% da amostra 
reportou abuso sexual intrafamiliar antes dos 18 anos e 12% antes dos 14 anos. Abuso sexual 
extrafamiliar envolvendo sexo genital antes dos 18 anos foi referido por 31% da amostra, e 20% 
reportou tais atividades antes dos 14 anos. Dentre o abuso sexual extrafamiliar antes dos 18 anos, 
somente 15% foi perpetrado por um estranho. Raramente as mulheres eram identificadas como 
perpetradoras. 
Knutson (1995) cita um estudo realizado com estudantes universitários de New England, o qual 
revelou que mais de 19% das mulheres e 8,6% dos homens haviam sofrido vitimação sexual. A 
maior parte dos casos eram ocorrências únicas, mas 40% dos mesmos caracterizaram-se por 
períodos mais longos. Segundo outro estudo de Finkelhor, Hotaling, Lewis e Smith (1990), nos 
Essados Unidos, 27% das mulheres e 16% dos homens apontaram pelo menos uma experiência de 
abuso sexual na infância. Abuso cometido por estranhos era mais prevalente nos meninos (40%) do 
que nas meninas (21%), e abuso intrafamiliar acontecia mais com garotas (29%) do que com 
garotos (11%). Os homens eram a maioria dos abusadores tanto contra meninas (98%) como contra 
meninos (83%). 
Finkelhor (1994) realizou um estudo epidemiológico com 21 países, e concluiu que o abuso sexual 
de crianças é, de fato, um problema internacional. Em todos os locais em que foi estudado, os 
pesquisadores demonstraram sua existência em níveis altos o suficiente para ser detectados com 
uma amostra de apenas 100 sujeitos na população em geral. O estudo não incluía o Brasil, mas 
acredita-se que, aqui, os dados sejam semelhantes. Mulheres sofreram abuso sexual na infância 
numa variação de freqüência entre 7% a 36% e para os homens a variação oscilava entre 3% a 29%. 
Essa variação entre os países seria explicada pelas diferentes concepções de abuso sexual de 
crianças, bem como pelas distintas abordagens metodológicas utilizadas. 
Quanto ao incesto, Finkelhor (1994) observou nos diversos estudos que o abuso intrafamiliar 
apresentava-se entre um terço à metade das experiências de abuso sexual da menina. Porém, a 
incidência de casos entre meninos também é significativa (American Academy of Pediatrics, 1988). 
Outros autores (DePanfilis & Salus, 1992; Kaplan & Sadock, 1990; Watson, 1994) confirmam que 
o incesto é a forma mais comum de abuso sexual na infância. 
Quanto à relação entre abuso de meninos e meninas, o estudo de Finkelhor (1994) demonstrou que 
as meninas, em relação aos meninos, são abusadas em uma razão de 1,5 a 3 vezes. Os dados 
epidemiológicos não permitem que se faça uma afirmação absoluta da verdade da prevalência do 
abuso sexual, mas nos indicam que o problema é de magnitude suficiente para ser considerado um 
risco significativo para a saúde da criança (Knutson, 1995). 
 
Abuso Intrafamiliar 
Já que o tema principal desse estudo é entender o impacto do abuso sexual para a criança, faz-se 
necessário abordar a dinâmica do abuso intrafamiliar, tendo em vista que é o abuso sexual mais 
freqüente e que apresenta conseqüências mais danosas às vítimas (Flores & Caminha, 1994). 
Aproximadamente 50% do abuso é cometido por membros da família (Kaplan & Sadock, 1990). 
Flores e Caminha (1994), comentam que a violência sexual na espécie humana, em especial contra 
os filhotes, é usualmente produzida por homens. DePanfilis e Salus (1992) sustentam que o tipo de 
incesto mais comum é aquele que envolve pai ou padrasto e filha. Segundo um estudo realizado em 
Porto Alegre, por Flores e cols. (1992), o quadro é semelhante para os meninos: em 50% dos casos 
o pai é o abusador, enquanto que em 25% dos casos o padrasto é o abusador. 
Um estudo sobre incesto em São Paulo (Cohen, 1993), revelou que o pai era o abusador em 41,6% 
dos casos, seguido pelo padrasto (20,6%), tio (13,8%), primo (10,9%) e irmão (3,7%). Entretanto, o 
incesto também pode ocorrer entre mãe-filha e mãe-filho (DePanfilis & Salus, 1992), mas esse tipo 
de incesto está associado com psicopatologia materna mais manifessamente grave que no incesto 
pai-filha (Kaplan & Sadock, 1990). 
Um estudo recente (Rudin, Zalewski, & Bodmer-Turner, 1995) comparou as características das 
vítimas de acordo com o gênero do abusador. Foi encontrado que não há diferenças quanto à 
severidade. No entanto, as mulheres tendem a abusar de crianças menores e geralmente estão em 
maior proximidade das vítimas. Considerando as mulheres abusadoras, as mães corresponderam à 
categoria mais significativa, constituindo 19,5% dos casos. 
Um aspecto importante deve ser levado em conta no abuso entre irmãos: a diferença de idade. 
Quando o irmão abusador é significativamente mais velho do que a vítima, supõe-se que o primeiro 
esseja numa posição de autoridade parental, enquanto que o segundo encontra-se numa situação de 
imaturidade e dependência. Em contraste, na relação sexual entre irmãos com idades próximas, 
pode ser inadequado utilizar as denominações de abusador e vítima, visto que não há uma relação 
de dependência estrutural entre eles. O que ocorre é uma confusão de relacionamento emocional e 
de relacionamento sexual, na qual a excitação sexual é substituta do carinho (Furniss, 1993). 
Dinâmica do abuso intrafamiliar 
As famílias nas quais acontece o incesto são bastante disfuncionais (Flores & Caminha, 1994). 
Segundo

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