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Filosofia da Física Clássica

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1. Há Juízos Sintéticos A Priori? 
 
Será que apenas através do raciocínio (antes da observação) a gente consegue chegar a 
alguma verdade sobre o mundo real? Vimos que Descartes considerou que sim (seção III.5): 
partiu de princípios a priori, atingíveis pela razão pura (sem experiência ou observação), de 
que o “eu” existe, de que Deus existe, de que ele é perfeito e invariável, e teria deduzido a lei 
de conservação da quantidade do movimento. Como esta lei descreve o movimento dos 
corpos do mundo, diz-se que é um enunciado sintético ou factual. 
Os empiristas britânicos rejeitaram essa pretensão dos metafísicos (como Descartes e 
Leibniz) de que se pudesse conhecer o mundo apenas através da razão, sem observação. 
David Hume (1711-76) foi o mais importante crítico desta concepção, salientando que 
existem “verdades analíticas a priori”, mas não sintéticas a priori. Uma verdade analítica é ou 
uma verdade lógica, como ‘Dentro de uma hora choverá aqui ou não choverá aqui’, ou uma 
verdade por definição, como ‘Nenhum casado é solteiro’. A negação de uma verdade analítica 
é uma contradição lógica, mas a negação de uma verdade sintética é uma possibilidade lógica 
(por exemplo, que a grandeza m·e–v se conserva, ao invés de mv). 
Em suma, para o empirismo não há verdades sintéticas a priori. No entanto, 
influenciado por Hume, o alemão Immanuel Kant (1724-1804) buscou fazer uma síntese do 
racionalismo dos metafísicos e do empirismo britânico (que ganhara adeptos na França), 
salientando que o nosso conhecimento do mundo envolve uma construção mental, e que a 
estrutura comum a tudo o que observamos (como o espaço euclidiano, a relação de 
causalidade, etc.) é algo que nosso intelecto constrói, e não algo que possamos dizer que 
existe na realidade. Para Kant, a geometria euclidiana exprime como o mundo é de fato, mas 
tal geometria pode ser conhecida de maneira a priori! Assim, para Kant, haveria verdades 
sintéticas a priori. A diferença com Descartes é que tais verdades não se refeririam a algo “lá 
fora”, no mundo real, pois para Kant tal mundo das coisas-em-si é inatingível pela razão pura, 
pela a ciência. Para o filósofo de Königsburg, as verdades mais gerais de nosso conhecimento 
exprimem a maneira como nós (ou qualquer ser inteligente que tenha experiência do mundo) 
inevitavelmente organizamos nossa experiência. E estas verdades podem, para Kant, serem 
conhecidas de maneira a priori. 
No final de sua vida, Kant procurou mostrar que as próprias três leis da mecânica 
newtoniana são sintéticas a priori, ou seja, deriváveis teoricamente, sem necessidade de 
observar o mundo. Esse projeto deixa claro a certeza que se tinha da veracidade da mecânica 
clássica, a noção de que a ciência atinge verdades definitivas. 
No séc. XX, o positivismo lógico herdou a concepção empirista de que não há 
verdades sintéticas a priori, mas a partir da década de 1950, críticos como Quine 
argumentaram que a própria distinção entre enunciados analíticos e sintéticos é mal 
formulada. 
Hoje em dia, a questão se coloca em um contexto “naturalizado”, ou seja, levando em 
conta que nossa mente é fruto de um cérebro que evoluiu biologicamente, de maneira a se 
adaptar de forma muito fina com o ambiente. Será que o fato de termos evoluído por seleção 
natural, dentro de um mundo físico-químico-biológico, permite que possamos conhecer 
verdades a respeito de nós mesmos e do mundo (do qual fazemos parte) sem termos que 
observar o mundo exterior? 
FLF0472 Filosofia da Física (USP- 2008) Cap. V: Experimento do Balde e Espaço Absoluto 
 
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2. Referenciais Inerciais e Não-Inerciais 
 
Um dos conceitos que surgem da mecânica de Newton é o de referencial inercial. 
Trata-se de um referencial (sistema de referência) em movimento retilíneo uniforme (i.e., com 
velocidade constante) em relação ao referencial do espaço absoluto. As leis da mecânica 
clássica são invariantes ante mudanças de referenciais inerciais: eis o princípio de relatividade 
“galileano”. 
Se o referencial não for inercial, a sua aceleração gerará forças “fictícias” nos objetos 
do sistema. Por exemplo, quando um carro faz uma curva para a esquerda, o passageiro “cai” 
para a direita, não porque exista uma força real atraindo ele para a direita, mas porque, por 
inércia, sua tendência natural é permanecer em movimento retilíneo uniforme, e quando o 
carro vira para a esquerda, o passageiro tende a permanecer em linha reta, o que resulta num 
movimento aparente para a direita, aparente em relação ao carro. No referencial do carro, a 
força para a direita é fictícia, pois não há fontes que ocasionam esta força, e porque há um 
referencial inercial externo que explica esta força fictícia a partir da aceleração do carro. 
Mas como podemos descobrir se um certo referencial é ou não inercial? Uma proposta 
inicial seria a seguinte. Analisam-se todas as acelerações dos corpos que compõem o sistema 
de estudo, e buscam-se as forças responsáveis por essas acelerações, ou seja, as fontes das 
forças, como massas (que geram forças gravitacionais), cargas elétricas, imãs, molas, mesas 
(fonte da força “normal”), pressões, atritos, etc. Se ao final deste estudo, houver alguma 
aceleração que não pode ser atribuída a uma interação física, então o referencial é considerado 
não inercial. Ao se soltar uma pedra para o fundo de um poço, observa-se uma pequena 
aceleração para leste. Como essa aceleração não pode ser atribuída à força gravitacional ou a 
um movimento do ar, conclui-se que vivemos num referencial não inercial. De fato, a 
aceleração para leste é devida à força fictícia de Coriolis, que se origina da rotação da Terra. 
Tal receita apresenta alguns problemas, pois ela depende de quais interações (que 
geram as forças) a teoria física aceita. Poder-se-ia talvez, a princípio, postular uma nova 
interação para explicar a origem da força considerada fictícia. Como saber com certeza? 
 
 
3. O Experimento do Balde 
 
Newton apresentou o seguinte argumento em favor da existência de um referencial 
inercial absoluto, que constituiria um “espaço absoluto”. Não seguiremos à risca seu 
argumento, mas o ampliaremos a partir das análises feitas por outros autores.32 
Considere um balde parcialmente cheio de água, que repousa a mil quilômetros acima 
do pólo Sul. Consideremos quatros estágios do experimento-de-pensamento, ilustrados pela 
Fig. V.1. (a) Inicialmente o balde está em repouso, e a água também. (b) A seguir, o balde é 
girado a uma velocidade angular constante, mas neste primeiro instante a água permanece 
parada, no seu estado inicial (apenas a camada em contato com a parede do balde se 
movimenta, mas esse movimento é desprezado). (c) Após algum tempo, a água passa a girar 
com a mesma velocidade angular que o balde, e sua superfície deixa de ser plana, e passa a ter 
a forma de um parabolóide de revolução. (d) Por fim, o balde é parado, mas a água, num 
primeiro instante, continua girando, com sua superfície em forma de parabolóide. 
 
 
32 NEWTON, I. (1990), Princípios Matemáticos de Filosofia Natural, v. 1, trad. T.S.F. Ricci, L.G. Brunet, S.T. 
Gherin & M.H.C. Celia, Nova Stella/Edusp, São Paulo, pp. 11-12 (orig. em latim: 1687). MACH, E. (1960), The 
Science of Mechanics, Open Court, La Salle (EUA), pp. 271-97, 336-41 (orig. em alemão: 1883). Ver também o 
relato geral de NAGEL (1961), op. cit. (nota 28), pp. 203-14, e o relato mais pungente de ASSIS, A.K.T. (1998), 
Mecânica Relacional, Coleção CLE 22, CLE-Unicamp, pp. 45-54, 68-9, 134-43. 
FLF0472 Filosofia da Física (USP- 2008) Cap. V: Experimento do Balde e Espaço Absoluto 
 
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Figura V.1: (a) Balde e água parados. (b) Balde girando e água ainda parada. (c) Balde girando e 
água girando junto. (d) Balde é parado, mas