A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
15 pág.
Texto 8   O aconselhamento como processo

Pré-visualização | Página 1 de 6

O ACONSELHAMENTO COMO PROCESSO
“ Aconselhamento” é um termo que pode ser usado para descrever diversas atividades. O “ Random House Dictionary of the English Language” define aconselhamento como: “ conselho; opinião ou instrução dada para dirigir o julgamento ou conduta de outro” *. Tal definição aplica-se razoavelmente bem à atividade dos procuradores, vendedores de seguros ou ainda vendedores de cosméticos. Inicialmente, nas escolas, a prática de aconselhamento consistia em oferecer aos jovens e pessoas inexperientes conselho e instrução sobre o que deveriam fazer.
Após a publicação de Counseling and Psychotherapy (1942), de Carl Rogers, o aconselhamento, como um serviço de ajuda humana, começou a transformar-se e a aliar-se à psicologia e ao serviço social, embora conservando alguns de seus vínculos históricos com a educação. O trabalho embrionário de Rogers propunha que as soluções de uma pessoa talvez não se ajustassem às capacidades, valores ou objetivos de outra, e que para ser um conselheiro efetivo era necessário conhecer o cliente inteiramente. A partir do momento em que se percebeu que pessoas diferentes poderiam desenvolver respostas distintas à mesma situação e estar igualmente satisfeitas com os resultados, o papel do conselho propriamente dito e do ensino no aconselhamento foi reduzido drasticamente e o foco do aconselhamento passou a ser ajudar as pessoas a clarificarem seus próprios objetivos e construírem planos de ação de acordo com os mesmos. 
Tal abordagem enfatiza o potencial único de cada indivíduo e define o papel do conselheiro como facilitador do crescimento pessoal. Uma vez que o aconselhamento profissional como um serviço de ajuda humana não se ajusta ao uso convencional da palavra, é necessário darmos uma definição ampla de aconselhamento. Abordamos também os objetivos resultantes e os objetivos processuais do aconselhamento. Segue-se uma discussão sobre esses objetivos que serve de orientação para os capítulos 3, 4 e 5, os quais descrevem, em detalhe, as fases do aconselhamento.
Aconselhamento — Definição
O aconselhamento é um processo interativo, caracterizado por uma relação única entre conselheiro e cliente, que leva este último a mudanças em uma ou mais das seguintes áreas:
1. Comportamento.
2. Construtos pessoais (modos de elaborar a realidade, incluindo o eu) ou preocupações emocionais relacionadas a essas percepções.
3. Capacidade para ser bem-sucedido nas situações da vida, de forma a aumentar ao máximo as oportunidades e reduzir ao mínimo as condições ambientais adversas.
4. Conhecimento e habilidade para tomada de decisão.
Em todos os casos, o aconselhamento deverá resultar em comportamento livre e responsável por parte do cliente, acompanhado de capacidade para compreender e controlar sua ansiedade.
Objetivos resultantes do aconselhamento
Deve ocorrer mudança. Afirmamos, na definição, que o aconselhamento leva o cliente a mudar. Isso é verdadeiro, se nos referimos ao aconselhamento individual ou em grupo e se o objetivo expresso do aconselhamento estiver relacionado ao desenvolvimento (orientado para o crescimento pessoal) ou for terapêutico (orientado para a solução de problemas). A mudança pode ser clara e comovente ou imperceptível para os outros, mas não para os próprios clientes. Ter consciência de que o aconselhamento deve levar à mudança diminui o risco de o cliente considerá-lo “ apenas uma conversa agradável” e cria condições para o trabalho árduo e algumas vezes penoso necessário ao processo. Existem muitas formas de mudança do cliente em conseqüência do aconselhamento, e a discussão da extensão da mudança possível mostrará que qualquer tipo de mudança é um objetivo resultante racional.
Categorias da mudança possível A mudança de comportamento é provavelmente a mais fácil de ser reconhecida porque é evidente e observá-vel. Poderá ser a solução de um problema, como no caso de uma criança que aprende a conseguir dos outros o que ela quer, empregando a amabilidade em vez de brigas; ou poderá ser o aumento do potencial para crescimento pessoal, como no caso de uma pessoa de meia-idade que inicia uma nova carreira. Muitos conselheiros acreditam que mudanças de pensamentos e atitudes devem preceder mudanças de comportamento, e trabalham para compreendê-las. Os adeptos da escola behaviorista pura sustentam que nunca podemos conhecer realmente os pensamentos e atitudes íntimos de um cliente e que apenas mudanças de comportamento observáveis servem para indicar o sucesso do aconselhamento.
Embora não observável diretamente, é possível que a mudança em construtospessoais ocorra no aconselhamento, podendo ser avaliada pela produção verbal do cliente. Um objetivo comum do aconselhamento é que o cliente melhore o seu próprio autoconceito e passe a julgar-se uma pessoa mais competente, amável ou merecedora. Kelley (1955) descreve os construtos pessoais como uma visão particular da realidade pelo indivíduo (Patterson, 1980). Afirma que as pessoas se comportam com base no que acreditam ser verdade; portanto, se pensam que são incapazes e sentem-se embaraçadas para atuar diante de outras pessoas, seguirão esses construtos pessoais, evitando qualquer desafio. Mudanças em construtos pessoais muitas vezes levam à mudança de comportamento, mas podem também levar a mudanças de percepção que tornam o comportamento atual mais satisfatório.
Ellis (1979) também desenvolveu um sistema para compreensão de como os pensamentos de um indivíduo podem levar à insatisfação em relação ao estado de sua vida. Explica que as pessoas adquirem pensamentos que conduzem a expectativas que nunca poderão ser cumpridas, como, por exemplo: “ Devo ser perfeitamente competente em tudo o que fizer, ou não serei uma boa pessoa.” Através do aconselhamento, o cliente pode conseguir abandonar tal pensamento e, ao contrário, passar a apreciar o que realiza satisfatoriamente, enquanto procura se aperfeiçoar em outras áreas.
No estudo do caso a seguir, o cliente finalmente muda seu pensamento e comportamento. Observe como suas mudanças de pensamento libertam-no para um comportamento mais efetivo.
O caso de Thad
Thad, um jovem de 25 anos, procurou o serviço de orientação da universidade, porque tinha problemas para concentrar-se em seus estudos e sentia-se sob tensão constante. Dois meses antes, ele mudara para seu próprio apartamento, deixando pela primeira vez a casa de seus pais. Sentia-se culpado por “ abandoná-los, quando precisavam dele” . Seu pai tinha um sério problema degenerativo de saúde e requeria algum cuidado especial, embora não fosse um inválido. Sua mãe era ativa e saudável, capaz e desejosa de ajudar a tornar confortável a vida de seu marido.
À medida que o aconselhamento prosseguiu, Thad veio a compreender que seus pais necessitavam de sua afeição e envolvimento, mas não de seu auxílio físico e presença. Suas visitas diárias estavam, realmente, interrompendo outras coisas que eles queriam fazer. Thad mudou a percepção pessoal de seu papel na família, e a nova visão permitiu-lhe viver fora de casa sem culpa. Passou a fazer das visitas para a família ocasiões especiais, e ele e os pais voltaram a apreciar a companhia uns dos outros. 
A sensação de tensão desapareceu e Thad tornou-se capaz de concentrar-se no trabalho escolar e em outros aspectos de sua vida pessoal. 
Questões para mais reflexão
1. Que pensamentos levaram Thad a ter os sentimentos de culpa em relação ao tratamento que dispensava a seus pais?
2. Que pensamentos substituíram os anteriores, à medida que o aconselhamento prosseguiu?
3. Como a mudança de pensamento de Thad afetou seu comportamento?

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.