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O negro na Bahia

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56 LUIZ VIANNA FILHO 
as cousas de maneira que hoje regeifão totalmente os 
de Angola pelo mesmo valor que então os compravão 
e comprão os da Costa por cento e vinte e cento e cin-
coenta mil réis e dahí para cima". (85) O testemunho 
prova de sobejo a importância da exportação bântu, 
para a Bahia, no século XVII, quando os seus engenhos, 
as suas fazendas, as suas vilas, e a capital encheram-se 
de escravos vindos de Angola, de Loanda, de Mossame-
des, de Cahinda. 
Por isso dissemos que o fato já não deve ser igno-
rado, considerando-se a Bahia um ponto de maior, senão 
exclusiva, influência sudanesa. Do mesmo modo que 
no século seguinte os escravos super-equatoriais, pela 
sua evidente superioridade numérica, tornaram-se o 
centro preponderante, e impondo mesmo o "nagô" como 
uma língua-geral dos negros da Bahia, no século XVII 
os bântus foram os donos da Bahia. De Angola, segun-
do o Padre Antônio Vieira, vinham os navios com qui-
nhentos, seíscentos e até mil negros! E era em língua 
de Angola que se catequizavam e doutrinavam, na 
Bahia, informa ainda Antônio Vieira, 25.000 escra-
vos. (86) Para se ver a importância de cada um dos 
dois grandes grupos, bântu e sudanês, respectivamente 
nos séculos XVII e XVIII, vale a pena fazer um con-
fronto entre a utilidade das duas línguas na Bahia. No 
primeiro, se catequizavam os negros falando em língua 
de Angola, quimbundo provavelmente. No último, dois 
missionários tentaram, sem êxito, falar aos negros 
baianos em nagô. 
É, porém, sobretudo em torno do sincretismo reli-
gioso que podemos surpreender a larga influência bântu, 
na Bahia, nesse século II. São dessa origem as festas 
religiosas que promoviam os negros baianos, nessa 
época. Mais aptos à integração, o sincretismo religioso 
dos bântus logo se verificou no culto a S. Benedito e 
Nossa Senhora do Rosário, santos de sua preferência, 
na observação de quase todos os autores. Sob a invo-
(85) Col. Ms. do Arç. Pub. da Bahia. Ordens Regias. Vol. 
1738. (Vide nota "c", no fim do volume). 
(86) Antônio Vieira, Sermões, vol. 6, pag. 391, e vol. 
8, pag. 522. Cf. Southey, Hist. do Brasil, vol. 4, pag. 444. 
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cação desses Santos fundaram-se as "Irmandades dos 
Homens Pretos", que tanto proliferaram na Bahia. 
E, de permeio com os santos católicos, havia sempre 
um Rei Gongo, uma Rainha, as "cheganças" com os seus 
almirantes, jogos de capoeira, que os batuques anima-
vam numa lembrança da Pátria distante e perdida. Os 
folguedos dos africanos lembravam sempre Angola. 
Vem daí esse gosto de darem aos deuses "altas funções 
guerreiras". (87) Essa idéia do Rei, do reinado, nas 
solenidade s religiosas é um fato que assinala de logo a 
presença do bântu. É peculiar aos negros dessa ori-
gem. 
Antonil, que, no Brasil, parece ter vivido o maior 
fempo na Bahia, advertiu aos Senhores de Engenho: 
"Portanto, não lhes estranhe os Senhores o criarem seus 
reis, cantar e bailar por algumas horas honestamente 
em alguns dias do ano". Isso "depois de terem, feito 
pela manhã suas festas de N. S. do Rosário, de S. Bene-
dito e do o-rago da Capela do engenho". (88) Não há 
quem não surpreenda aí o elemento bântu. Sempre a 
mesma figura do Rei, que é uma constante do seu sin-
cretismo religioso. O cronista contemporâneo, fixando 
o aspecto dos costumes religiosos dos negros, deixou um 
precioso subsídio para se avaliar da importância, na 
época, do grupo sub-equatorial. Como grupo numeri-
camente dominante, impunha sobre quaisquer outros 
os seus sentimentos. Amando as exterioridades visto-
sas, as festas em plena rua, as danças públicas, trans-
formava a cidade num grande "Reinado", onde derra-
mava. _as notas alegres do seu temperamento. Apesar 
dos rigores religiosos da época, o português assistia sem 
repugnância a essa mistura, essa confusão de santos 
católicos com reis e danças pagas. Era ingênuo, curio-
so, divertido. Apenas os Jesuítas, menos amigos dos 
negros, pareciam lastimar não se dar aos índios a 
mesma liherdade de culto. O Padre Plácido Nunes, 
S. J., respondendo a uma proposta de Diogo da Concei-
ção, escreveria em 1738: "Se nas cidades e Povoacôes 
como se não impedem nem castigão estes mesmos delitos 
[religiosos] , nos negros que são hoje no Brasil muito 
(87) E. Carneiro, Negros Bântus, pag. 61. 
(88) Àntonil, obr. cit., pag. 96. 
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mais em número que os índios e por esta razão muito 
mais os delitos de feitiçarias, malefícios, calundus, dan-
ças a seu modo e com instrumentos que uzão nas suas 
terras, nas ruas e praças mais públicas das Cida-
des". (89) Provavelmente o pernicioso "Reynado dos 
Negros" de que nos fala a carta do Conde de Sabugosa 
de 14 de Abril de 1729. 
Eram os "Reinados" que se desenvolviam à sombra 
protetora de S. Benedito e de Nossa Senhora do Rosá-
rio, congregando negros bântus nas Irmandades. Tal-
vez a elas não fossem estranhos alguns negros sudane-
ses já assimilados, integrados no mesmo sincretismo 
religioso. Tais Irmandades fizeram época. Espalha-
ram-se pelo interioir. Em Camamú havia a de Nossa 
Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Em Valença 
a de S. Benedito dos Homens Pretos. Mas, sobretudo 
na Capital é que se multiplicavam. A mais importante 
era a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, 
às Portas do Carmo. E, ainda sob a mesma invocação, 
as da Conceição da Praia, SanfAna, Santo Antônio Além 
do Carmo e S. Pedro Velho. De S. Benedito havia a 
da igreja de S. Francisco. Nina Rodrigues identificou 
ainda a de Nossa Senhora do Rosário, na Baixa dos 
Sapateiros, cujo "templo edificado em longínqua data 
colonial, pertenceu igualmente aos Angolas". 
Ao se comemorarem, na Bahia, as bodas do Infante 
D. Pedro-, em 1780, aos festejos estavam presentes os 
negros. Na narração das festas, diz o Padre Manuel de 
Cerqueira Torres: "No domingo doze [Outubro] occor-
reo a festa de Nossa Senhora do Rosário da confraria 
dos pretos, na sua igreja cita ás portas do Carmo, com 
magestosa pompa festejavão o sempre vitorioso Rosário 
de Maria Sanctissima, estava a capella ricamente orna-
da. Houve missa solene, com musica, sacramento 
exposto e sermão. De tarde sahirão com sua procissão 
com igual aceio e primor, e sendo esta hüa das procis-
sões mais plausíveis, que faz esta cidade pelo muito em 
que se empenha esta devota confraria". . . (90) Nas 
festas ainda houve "discretos e divertidos mascaras, que 
(89) Gol. Ms. do Arq. Pub. da Bahia. Ordens Regias. 
Vol. 35. (90) Anais Bib. Nacional, vol. 31, pag. 413. 
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com vários gêneros de figuras fizerão tão jocundas 
representações que geralmente alegravão a todos". As 
comemorações, religiosas com "mascarados" parece ter 
sido um hábito dos Angolas. Hábito vindo natural-
mente do período em que tiveram o predomínio sobre 
a. população negra da Bahia e que se prolongou, pelo 
menos, até as fins do século XVIII. Ainda em 1786 
requeriam os pretos devotos de Nossa Senhora do1 Rosá-
rio que lhes fosse dada licença para realizarem, durante 
3 ou 8 dias, festas mascaradas com "danças e cantos no 
idioma de Angola'*. (91) O fato, num período em que 
a Bahia estava saturada de negros sudaneses, não se 
explica sen ao pela sobrevivência de influência bântu no 
século anterior. Eram os últimos marcos ostensivos 
duma cultura, que tendia a se dissolver integrada na 
sociedade nova. Isso, aliás, sem que desaparecesse 
inteiramente o comércio' com Angola no século XVIII. 
Refugados os seus negros, quando as Minas é que regu-
lavam as cotações do mercado escravo, continuavam a 
vir de Lá escravos de preços mais accessíveis e também 
por isso muitas vezes preferidos pelos homens do cam-
po. O Conde dos Arcos, informando a Pombal sobre 
a Companhia Geral da Guiné, (1756) escrevia: "por-
que como os de Angola não se compreendem no privi-
légio privativo e