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O negro na Bahia

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pensa nas pequenas embarcações. 
A mortandade dos negros, porém, pelo menos no 
século XIX, quando temos elementos para á avaliar com 
segurança, não parece ter chegado aos índices aterra-
dores com que a dramatizaram alguns escritores. Câló-
geras chegou a afirmar que "a percentagem de mortali-
dade ascendia regularmente a 30% nas cargas 
vivas" (32) Fosse pela dispensa de maiores cuidados 
na travessia, fosse por uma prolongada experiência na 
exploração de tal comércio, o certo é que no início do 
século XIX as cifras são relativamente muito mais bai-
xas do que as fazem supor alguns depoimentos. A 
experiência fizera dos portugueses traficantes excelen-
tes. Morthamer, em 1643, comparando-os com os nego-
ciantes holandeses, dizia serem aqueles "muito melhores 
carregadores de escravos do que nós. Eles acomodam 
numa pequena caravela com facilidade 500 negros, ao 
passo que, os nossos grandes navios apenas podem trans-
portar de uma vez 300. Pelo asseio de bordo, pela boa 
alimentação, fornecimento de cobertores aos negros, 
conseguem os Portugueses que em seus navios os casos 
de óbito se tornem um tanto mais raros". (Cf. Wãtgen, 
O Domínio Colonial Holandês no Brasil). 
É verdade que exportando para o Brasil uma série 
de doenças até então desconhecidas na América, os 
negros eram as primeiras vítimas dos males que se 
desenvolviam e prosperavam no "habitat" favorável 
dos porões dos "tumbeiros". Ò maculo, as boubas, as 
(31) Idem — Carta de 23-6-1802. 
(32) Galogeras, Formação Histórica do Brasil, 3.* ed., 
pag. 189. 
O NEGRO NA BAHIA 37 
sarnas, o tracoma, o gundu, o inhaum, as febres malig-
nas, as bexigas, (33) antes de chegarem- ao Brasil, já 
haviam cobrado dos próprios escravos o seu tributo. 
No entanto, os casos, como o que narra o Gons. Rodri-
gues de Brito (Cartas Econômicas e Políticas) sobre a 
Corveta "Joaquim Augusto", chegada na Bahia "com 
216 mortos na viagem, fora os que faleceram depois da 
entrada", — não constituem a regra geral. São casos 
excepcionais como o daquele tumbeiro tristemente 
famoso por se terem esquecido da provisão de água, e 
cuja "carga" foi toda lançada ao mar. 
Tivemos oportunidade de encontrar no Arquivo da 
Prefeitura da Bahia o livro de "Visita em embarcações 
vindas da África", e onde estão completas as informa-
ções entre 1803 e 1810. É um valioso subsídio para a 
imigração africana daquela época. É o livro da "Saú-
de Publica" do tempo, e feito pelos médicos que exami 
navam as embarcações. Se traziam moléstias contagio-
sas iam para a quarentena em Mont Serrat, o que mais 
freqüentemente acontecia quando vinham os escravos 
com "bexiga", "sarna" e "doenças nos olhos". 
Sobre esse documento levantamos uma pequena 
estatística. O maior índice que encontramos isolada-
mente pertence à Costa da Mina. De 570 negros embar-
cados, morreram, na travessia, 230. A proporção é de 
40,5% de mortos. Segue-se uma embarcação procedente 
de Angola. De 616 escravos sucumbiram 207, equiva-
lentes a 34. Da Costa da Mina aportou outro "tumbei-
ro" com 26% de perdas. De 512 cativos, 133 haviam 
perecido. 
Fruto das pesquisas ultimamente realizadas pelo Sr. 
Osvaldo Valente no precioso arquivo da Prefeitura da 
capital baiana, tivemos em mãos quatros petições em 
que importadores de escravos pedem lhes sejam entre-
gues alguns negros retidos em quarentena devido a 
moléstias de que eram portadores ao aportarem à Bahia. 
(33) Para pormenores sobre o assunto convém consul-
tar Otávio de Freitas, "Doenças Africanas no Brasil". Quanto 
à -oercentagem de mortos na travessia muito variam os cál-
culos. Afrânio Peixoto estimou-a em 65% (Minha Terra e 
Minha Gente), enquanto Afonso Bandeira de Melo não vai 
além de 10% (O trabalho «ervil no Brasil, in Boletim do Mi-
nistério do Trab., n-° 22), 
3 
38 LTJIZ VIANÜTA FILHO 
São todas elas do ano de 1822. E, embora não bastem, 
graças ao seu número restrito, para permitir uma 
conclusão, é interessante assinalar que três delas se 
reportam a embarcações procedentes do porto africano 
de Loanda, e outra ao porto de Angola. Provinham, 
portanto, de regiões de população bântu. E, como nota 
capaz de reviver um dos aspectos brutais do tráfico, 
cada qual daquelas petições traz à margem a reprodu-
ção da marca impressa com ferro em brasa nos infelizes 
negros. 
São, porém, cifras isoladas e sem valor para uma 
apreciação de conjunto. Casos esporádicos, poderia-
mos mesmo dizer raros. Os índices médios são incom-
paravelmente mais baixos. Excetuados os casos em que 
se manifestava a bordo alguma epidemia, sobretudo de 
"bexigas", — o que não era freqüente — a percentagem 
de mortos raramente alcançava a 10%. 
A estatística que damos abaixo melhor esclarece 
a matéria: 
A N O 
1803 
3804 
1805 
1S06 
1807 
1808 
1809 
1810 
Embarcações 
da C. da Mina 
21 
15 
18 
26 
26 
19 
20 
25 
Total j{ 
1803—1810 1 
Percentagem 
de mortos 
8, % 
5,1% 
7% 
7% 
5,6% 
3,5% 
1,9% 
5,8% 
5,4% 
Embarcações 
de Angola 
8 
2 
5 
8 
5 
0 
1 
2 
31 
Perrentagem 
de mortos 
3,3% 
3,4% 
6,8% 
16,8% 
' 17% 
33% 
5,8% 
10% 
A primeira observação a fazer nessa estatística é 
a menor mortandade verificada nos navios procedentes 
da Costa da Mina do que nos de Angola. Enquanto 
estes atingem a 10% — o que é muito pouco diante das 
cifras geralmente atribuídas aos "tumbeiros" — aqueles 
não passam de 5,4%, percentagem quase insignificante, 
e que em 1809 chegou mesmo a baixar a 1,9%. Seria 
interessante saber-se das causas dessa disparidade entre 
as duas regiões africanas, sobretudo tendo-se em conta 
O NEGKO NA BAHIA 39 
que a travessia de Angola era muito mais curta e rápi-
da (34). Nesta se gastariam cerca de 35 dias, ao passo 
que a da Costa da Mina era feita no dobro do tempo. A 
lógica seria que as perdas estivessem em proporção à 
demora da viagem. Mais tempo = mais mortos. No 
entanto, a estatística demonstra o contrário. Por que? 
A pergunta vai para o terreno das hipóteses. Duas, 
porém, nos parecem subsistentes. A menor mortandade 
dos escravos vindos da Costa da Mina pode ser levada 
à conta ou da maior salubridade dessa zona da África, 
ou ao menor número de "peças" transportadas em cada 
embarcação. É que, justamente devido às delongas da 
travessia das regiões super-equatoriais, os traficantes 
viam-se na contingência de reservar, nos navios dessa 
procedência, uma área maior para as provisões de água 
e de gêneros, o que, talvez, os obrigasse a trazerem 
menor número de negros, enquanto na viagem curta de 
Angola um espaço maior era ocupado pela "mercado-
ria". Issso podemos, aliás, avaliar, com segurança, pela 
estatística levantada sobre os informes do " l iv ro de 
Visitas" e que acusa, de 1803 a 18Í0, a média de 279 
escravos por embarcação vinda da Costa da Mina e de 
370 para os provenientes de Angola, Concorreria o 
maior desafogo daquelas, melhorando-lhes, portanto, as 
condições higiênicas, para o menor número de perdas? 
Não eram, porém, apenas os negros que morriam. 
Também a tripulação corria os seus perigos. Muitas 
embarcações desapareceram tragadas pelos temporais. 
Outras foram vítimas das revoltas dos escravos. Era a 
vingança dos negros. 
Com a ilegalidade do tráfico tornaram-se mais 
cruéis as penas impostas aos infelizes negros. Cotegipe 
observou que com a luta pela extinção do tráfico desa-
pareceram "os cuidados que dantes tomavâo os trafi-
cantes pela comodidade e pela saúde dos passagei-
ros". (35) 
Mas, em todos os tempos, o tráfico foi sempre mais 
bárbaro do que o regime de vida dos escravos na Bahia. 
(34) Reclus aponta como uma das causas de preferên-
cia pelos negros da Costa da Mina o fato de não sofrerem de-
dengo, que tantos negros vitimou. 
(35) W. Pinho, obr. cit., pág. 206. 
40 LTTIZ VIANNA FILHO 
Esta