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1 IF229 - MELHORAMENTO FLORESTAL I - 2017 Prof. Rogério Luiz da Silva - DS rogeriosilva@ufrrj.br 1. INTRODUÇÃO O Brasil possui uma ampla biodiversidade, porém, é reduzido o número de espécies florestais nativas que têm o potencial pleno utilizado em programas de melhoramento genético e manejo. Considerando a diversidade dos ecossistemas brasileiros, é preciso que sejam estabelecidas estratégias para conhecimento das variações genéticas e ambientais que considerem as demandas atuais e futuras de produtos da floresta, tendo em vista o uso racional dos recursos florestais, em benefício dos ecossistemas e do homem. A intensa degradação da natureza que vem ocorrendo de forma crescente nas últimas décadas requer a adoção imediata de ações de proteção e conservação. Por outro lado, a conscientização do homem sobre a importância dos recursos naturais e a necessidade de revegetação de áreas marginais ou degradadas, bem como a expansão dos reflorestamentos comerciais com espécies de Eucalyptus e Pinus, tem aumentado a demanda por sementes e mudas de alta qualidade de uma maneira geral. Deve-se enfatizar, entretanto, que a baixa disponibilidade de sementes e mudas, aliada ao pouco conhecimento da silvicultura das espécies nativas, em particular, de sementes que tenham algum grau de melhoramento genético, constituem restrições ao reflorestamento com essas espécies, ao contrário do que acontece com as espécies dos gêneros Eucalyptus e Pinus. Estas últimas apresentam programas de produção de sementes e propágulos em diferentes níveis de melhoramento, chegando até mesmo a materiais melhorados de terceira geração para algumas espécies. A qualidade de uma floresta ou das árvores individualmente depende tanto da semente quanto do manejo. As sementes devem ser vistas, tanto do ponto de vista fisiológico como genético, pois é através delas que o potencial produtivo será 2 passado à geração seguinte, isto é, por meio do processo sexuado, o que normalmente se consegue através dos programas de melhoramento genético. Sendo assim, medidas capazes de garantir a produção de sementes e propágulos de espécies florestais, particularmente de nativas, devem ser tomadas, visando disponibilizar material propagativo de alto padrão de qualidade física, fisiológica, sanitário e genética, em quantidades suficientes para atender a demanda, observadas as normas legais estabelecidas através da Lei 10.711 de agosto de 2003 e sua regulamentação em fase de construção, podendo-se encontrar maiores detalhes em www.agricultura.gov.br . 2. CONCEITOS BÁSICOS Em se tratando de genética e melhoramento, não se poderia deixar de dar alguns conceitos básicos indispensáveis ao bom entendimento dos diversos assuntos que serão discutidos nos tópicos adiante. Portanto, serão apresentadas a seguir breves definições dos principais termos relacionados à genética e ao melhoramento. 2.1. Terminologia em genética e melhoramento genética: é a ciência que trata das semelhanças e diferenças entre os indivíduos de uma população. cromossomos: são unidades estruturais do núcleo celular, portadoras de genes, apresentando em geral forma linear. O número é fixo para cada espécie. genes: são as unidades de herança situadas em locos fixos nos cromossomos, podendo existir em uma série de formas alternativas chamadas alelos. alelo: é uma das alternativas de um par ou uma série de formas do gene. Os alelos são alternativos na herança pelo fato de estarem situados no mesmo loco, em cromossomos homólogos. cromossomos homólogos: são cromossomos que emparelham durante o processo de divisão celular (meiose), possuindo os mesmos genes dispostos em igual seqüência. herança: refere-se à transmissão de características dos pais aos filhos. Ocorre no processo de meiose. dominância: manifestação total de um alelo sobre o outro quando em heterozigose (completa, parcial ou sobredominância). 3 Exemplo: Aa (azul) x Aa (azul) Filhos: AA – Azul, Aa - azul aa - branco gene recessivo: refere-se aquele membro de um par de alelos que não é capaz de expressar-se na presença do alelo dominante. haplóide: possui uma série completa de cromossomos (n). diplóide: possui duas séries completas de cromossomos (2n). poliplóide: possui mais de duas séries completas de cromossomos. F1: primeira geração resultante de um dado cruzamento. F2: segunda geração resultante do cruzamento de indivíduos da geração F1. S1: primeira geração de auto-fecundação. Portanto, F1, F2, S1 constituem conjuntos de indivíduos aparentados (irmãos). família S1: irmãos oriundos de auto-fecundação família de meio-irmãos (FMI): conjunto de indivíduos provenientes de uma mãe conhecida e pais desconhecidos. família de irmãos completos (FIC): conjunto de indivíduos provenientes de mãe e pai conhecidos. retrocruzamento: cruzamento de uma descendência (progênie) com um dos pais. cruzamento recíproco: cruzamento de um conjunto de indivíduos como machos e fêmeas simultaneamente. alogamia: refere-se às espécies de reprodução cruzada; autogamia: refere-se às espécies de auto-fecundação; endogamia: refere-se ao cruzamento de indivíduos aparentados, tendo como conseqüência a perda de vigor. heterose: é o vigor resultante do cruzamento de materiais genéticos distintos. epistasia: refere-se à dominância de um gene sobre o outro não alélico. freqüência gênica: trata-se da proporção entre a freqüência dos alelos alternativos de um gene e a freqüência total de todos os alelos naquele loco. potencial genético: refere-se ao valor genético intrínseco total de uma população, que pode ser explorado. carga genética: refere-se ao acúmulo de genes recessivos (deletérios) em uma população até o limite da sua sobrevivência. genótipo: trata-se da constituição genética do indivíduo. fenótipo: é a expressão do indivíduo. É resultante do genótipo associado aos efeitos ambientais. plasticidade: capacidade de adaptação de um indivíduo devido a mudanças fisiológicas internas. escape: indivíduo aparentemente resistente a pragas e doenças, ou outro fator, pela ausência do agente naquele ambiente. população: conjunto de indivíduos de uma mesma espécie que apresentam uma continuidade no tempo e uma capacidade de se cruzarem ao acaso, ou seja, de trocarem alelos entre si. raça: população adaptada a um dado ambiente ecológico, que apresenta uma ou mais características particulares. raça ecológica: população ou conjunto de populações com distribuição restrita e que está estritamente adaptada às condições de um habitat local. Na prática, pode ser difícil caracterizar uma população como ecótipo ou raça 4 ecológica, especialmente na ausência de testes de cultivo experimental. Veja ecótipo; genecologia (Fonte: Valois et al., 2005). raça edáfica: população adaptada para as condições físicas e químicas do solo local. Raças edáficas são uma modalidade de raça ecológica e geralmente seus indivíduos apresentam características morfológicas peculiares. A especiação edáfica é vista hoje como preeminente no grupo das angiospermas (Fonte: Valois et al., 2005). raça geográfica: população ou populações de uma espécie que ocorre(m) numa determinada região geográfica da distribuição da espécie. Geralmente, são populações alopátricas isoladas e que mostram uma diferenciação fenotípica para um ou mais caracteres, habilitam-se como categoria taxonômica formal. Geralmente, a subespécie em botânica corresponde à raça geográfica em zoologia (Fonte: Valois et al., 2005). raça local: forma antiga e primitiva de um cultivo agrícola, cultivada em sistemasagrícolas tradicionais por agricultores, indígenas e populações rurais, e cuja evolução é principalmente direcionada pela seleção artificial que o homem lhe impõe (Fonte: Valois et al., 2005). recombinação gênica: formação de novas combinações de genes através dos mecanismos de troca de partes e segregação durante a meiose no ciclo sexual de organismos. O fenômeno de segregação dos cromossomos, com sua inclusão nos gametas masculino e feminino, é o responsável por tornar esta variação genética disponível para a fase posterior de fecundação; reorganização do sequenciamento de genes e partes de cromossomos como resultado do sobrecruzamento ocorrido na meiose (Fonte: Valois et al., 2005). recurso fitogenético: corresponde ao recurso genético vegetal. Veja recurso genético (Fonte: Valois et al., 2005). recurso genético: variabilidade de espécies de plantas, animais e microrganismos integrantes da biodiversidade, de interesse sócio-econômico atual e potencial para utilização em programas de melhoramento genético, biotecnologia e outras ciências afins (Fonte: Valois et al., 2005). regeneração: reprodução de um acesso para manutenção de sua integridade genética. Na coleção base e coleção ativa é feita no campo quando as sementes armazenadas perdem a viabilidade para cerca de 80% do poder germinativo inicial. Na conservação “in vitro”, refere-se à transferência para casa de vegetação e/ou campo das plântulas componentes do acesso com a finalidade de permitir o revigoramento das mesmas. O intervalo de tempo entre uma regeneração e outra deve ser determinado experimentalmente para cada espécie (Fonte: Valois et al., 2005). reprodução assexuada: aquela que ocorre sem a participação de gametas, isto é, não acontece o fenômeno de fertilização entre os gametas masculino e feminino. A reprodução assexuada compreende dois tipos básicos: apomixia e propagação vegetativa (Fonte: Valois et al., 2005). reprodução sexuada: aquela que ocorre a participação de gametas, isto é, acontece o fenômeno de fertilização entre os gametas masculino e feminino. reserva genética: unidade dinâmica de conservação da variabilidade genética de populações de determinadas espécies para uso presente e potencial. Tem a finalidade de proteger em caráter permanente as espécies ou comunidades ameaçadas de extinção, dispor de material genético para pesquisa e determinar a necessidade de manejo das espécies-alvo, dentre outras (Fonte: Valois et al., 2005). 5 reservatório gênico: totalidade dos genes presentes em uma determinada população de um organismo de reprodução sexuada, em um determinado momento. Geralmente, o conceito se aplica aos membros de populações de uma mesma espécie com fertilidade comum maior devido ao relacionamento filogenético, mas situações desviantes podem ocorrer com a fertilidade comum atingindo outras espécies e até mesmo gêneros. O reservatório gênico de uma espécie cultivada é composto por três níveis de trocas gênicas possíveis entre os participantes. O reservatório gênico primário (GP1) compreende os estoques domesticados da cultura e as formas parentais silvestres que lhe deram origem ou influenciaram sua formação. O reservatório gênico secundário (GP2) compreende as espécies silvestres que cruzam com a cultura principal e produzem prole, embora geralmente o processo se dê com alguma dificuldade e os níveis de fertilidade sejam relativamente baixos. O reservatório gênico terciário (GP3) compreende as espécies silvestres que só cruzam com a cultura principal mediante tratamentos especiais, como fusão de protoplastos etc. Aqui, o relacionamento genético é baixo e a progênie F1 é geralmente estéril (Fonte: Valois et al., 2005). resistência completa: resistência de plantas a doenças que não proporciona nenhum nível de reprodução do patógeno. Não é permanente, pois pode ser quebrada (Fonte: Valois et al., 2005). resistência horizontal: resistência de plantas a doenças geralmente poligênica, não diferencial e muito influenciada pelo meio ambiente, sendo as raças do patógeno denominadas de agressivas (Fonte: Valois et al., 2005). resistência vertical: resistência de plantas a doenças geralmente oligogênica, diferencial e pouco influenciada pelo meio ambiente, sendo as raças do patógeno denominadas de virulentas (Fonte: Valois et al., 2005). 2.2. Citogenética: Mitose e Meiose O processo de crescimento, reprodução e propagação das plantas está intimamente associado à divisão celular e compreende duas situações uma denominada mitose e a outra meiose. A mitose é o processo de divisão celular onde, a partir de um núcleo são originados dois outros núcleos, cada um com o mesmo número de cromossomos e os mesmos genes do núcleo que se dividiu. Ou ainda, considerando mitose seguida de citocinese (divisão citoplasmática), de uma única célula são formadas outras duas, cada uma com o mesmo número de cromossomos e os mesmos genes da célula que se dividiu. Em decorrência deste mecanismo celular, todas as células, com possíveis exceções, que compõem um eucarioto multicelular são idênticas, pois derivam de uma única célula inicial, chamada célula-ovo ou zigoto. Fonte: Viana et al. (2003). 6 A mitose compreende quatro fases: 1. prófase: ao longo deste período, ocorre gradual condensação ou espiralização dos cromossomos; em seu final, há degeneração da membrana nuclear, o que permite a associação das fibras do fuso mitótico às regiões centroméricas das cromátides de cada cromossomo duplicado (Figura 1a); 2. metáfase: o que caracteriza esta fase é a presença dos cromossomos no plano mediano da célula; as cromátides-irmãs estão com seus centrômeros voltados para pólos opostos (Figura 1b); 3. anáfase: neste período ocorre a separação das cromátides-irmãs, devido ao tracionamento pelas fibras do fuso mitótico (Figura 1c); 4. telófase: esta fase inicia-se quando os cromossomos atingem o pólo; a partir de então, ocorre gradual descondensação ou desespiralização dos cromossomos; há regeneração da membrana nuclear em torno dos conjuntos cromossômicos filhos (Figura 1d). A Figura 1 refere-se às fases da mitose em uma célula de um organismo diplóide com 2n cromossomos, em que n é o número de diferentes cromossomos que a espécie possui. Figura 1: Representação do comportamento de um par de cromossomos homólogos, bem como de um de seus genes, durante a mitose. (a) prófase, (b) metáfase, (c) anáfase, e (d) telófase. (Fonte: Viana et al., 2003). Durante a prófase os cromossomos estão duplicados e as cromátides-irmãs são iguais, em relação aos genes presentes. As ilustrações (b) e (c) da Figura 1, correspondem à célula em metáfase e anáfase. Em conseqüência da separação das cromátides, os núcleos-filhos recebem dois exemplares de cada diferente cromossomo da espécie, mantendo-se constante o número de cromossomos, e, conseqüentemente, uma cópia do gene A e uma do gene a, garantindo que os núcleos-filhos tenham a mesma informação genética do núcleo que se dividiu. (a) a a A A (b) a a A A (c) A A a a (d) A a A a 7 A meiose é o processo de divisão celular em que tem como produto final a formação de gameta, tanto em animais como vegetais superiores. Nas espécies diplóides e naquelas com número par de conjuntos cromossômicos, uma célula se divide, originando quatro, cada uma com metade do número de cromossomos da célula que se dividiu. Por reduzir à metade o número de cromossomos nos gametas, garante a manutenção do número de cromossomos nestas espécies. Compreende duas divisões nucleares e, pelo menos, uma divisão citoplasmática. Em relação à maioriados eucariotos, a primeira divisão da meiose, ou meiose I, é denominada reducional, pois o número de cromossomos nos núcleos-filhos é a metade do presente no núcleo que se dividiu. A segunda divisão ou meiose II, é denominada equacional, pois não há alteração do número de cromossomos. Ambas são divididas, como a mitose, em prófase, metáfase, anáfase e telófase (Viana et al. 2003). As fases da meiose I são: 1. prófase I: ao longo deste período os cromossomos vão, gradualmente, espiralizando ou condensando; em seu final, há degeneração da membrana nuclear, o que vai permitir a ligação das fibras do fuso com as regiões centroméricas dos cromossomos; é subdividida nas seguintes fases: leptóteno: período inicial de condensação dos cromossomos; zigóteno: nesta fase os cromossomos homólogos se aproximam, ocorrendo o fenômeno chamado sinapse, que é o pareamento de cromossomos homólogos; paquíteno: nesta fase, depois de completado o pareamento dos homólogos, ocorre o fenômeno de ‘crossing-over’, que é a troca de segmentos cromossômicos entre homólogos; cada par de homólogos parece ser um só cromossomo e é denominado de bivalente; diplóteno: a partir desta fase, até o final da prófase I, os cromossomos homólogos vão gradualmente afastando-se; à medida que os homólogos separam-se, pode-se perceber algumas regiões, ao longo de seu comprimento, em que os mesmos parecem estar sobrepostos ou em contato; tais regiões são denominadas de quiasmas e são evidência citológica de que ocorreu ‘crossing- over’; diacinese: nesta fase os homólogos acham-se ainda mais separados; como a separação ocorre da região centromérica para as extremidades, os quiasmas parecem se mover no mesmo sentido; 2. metáfase I: os bivalentes, na forma de anel de dois ou de cadeia de dois, estão dispostos no plano mediano da célula; as regiões centroméricas dos homólogos estão voltadas para pólos opostos; a orientação de um bivalente é independente da orientação de qualquer outro par, ou seja, nesta fase os bivalentes estão dispostos ao acaso no plano equatorial da célula; 3. anáfase I: ocorre a separação dos homólogos; 4. telófase I: após atingirem o pólo da célula, os cromossomos desespiralizam-se; há regeneração da membrana nuclear em torno dos conjuntos cromossômicos- filhos. 8 As fases da meiose II são: 1. prófase II: se houve uma telófase I típica, torna-se necessário, novamente, que os cromossomos se individualizem; durante toda esta fase, os cromossomos espiralizam-se, ou seja, aumentam de diâmetro e reduzem de comprimento; ao seu final, a membrana nuclear desaparece; 2. metáfase II: os cromossomos estão dispostos no plano equatorial da célula, com as regiões centroméricas de suas cromátides voltadas para pólos opostos; 3. anáfase II: ocorre a separação das cromátides-irmãs; 4. telófase II: após atingirem o pólo da célula, os cromossomos descondensam-se; há reaparecimento da membrana nuclear em torno de cada conjunto cromossômico. As ilustrações na Figura 2, obtidas descrevem o comportamento, durante a meiose, de dois pares de cromossomos homólogos e de dois genes neles localizados, em relação a uma célula germinativa de uma espécie diplóide, com 2n cromossomos. Para simplificação, podemos considerar que estão representados apenas quatro cromossomos. Um dos genes da espécie, localizado em um metacêntrico, é representado pela letra A. Em seu homólogo, está localizado, na mesma posição, o gene a. No par de homólogos acrocêntricos, estão simbolizados os genes B e b. Em metáfase I foi considerado estarem orientados para um mesmo pólo, o metacêntrico com o gene A e o acrocêntrico com o gene B. Conseqüentemente, ficaram orientados, para o pólo oposto, o metacêntrico com o gene a e o acrocêntrico com o gene b. Contudo, outra orientação seria possível na célula considerada. Esta seria, estarem orientados para o mesmo pólo, os cromossomos com os genes A e b, e estarem orientados para o pólo oposto, os cromossomos com os genes a e B. É fácil perceber porque a primeira divisão da meiose é, para a maioria dos eucariotos, reducional. Cada núcleo-filho possui apenas n (dois) cromossomos. As ilustrações correspondentes à meiose II, referem-se apenas a uma das duas células-filhas, resultantes da primeira divisão. Ao final, estão representados os quatro núcleos- filhos. Observe que estes continuam com n (dois) cromossomos. A segunda divisão da meiose não altera o número de cromossomos presentes nos núcleos que se dividiram. É importante enfatizar que cada produto meiótico contém um exemplar de cada diferente cromossomo da espécie (Viana et al. 2003). 9 Figura 2 - Representação diagramática das possíveis fases da meiose. (a) leptóteno, (b) zigóteno, (c) paquíteno, (d) diplóteno, (e) diacinese, (f) metáfase I, (g) anáfase I, (h) telófase I, (i) prófase II, (j) metáfase II, (k) anáfase II e (l) produtos meióticos, após telófase II. (Fonte: Viana et al., 2003). A a B b B b A a B b A a (f) (e ) (d ) B A B b A a B A a b (i) (h ) (g ) (l) (k ) (j) B A A A B B a b A B A B a b B A a b A a B b B b A a (a ) (c ) (b ) 10 2.3. Base molecular da Herança O material genético primário da maioria dos seres vivos é o ácido desoxirribonucléico (DNA), exceto os vírus TMV que possuem o ácido ribonucléico (RNA). A organização do material genético difere nos organismos eucariotos (organismos com células com membrana nuclear e carioteca) e procariotos (organismos com células sem membrana nuclear). Os vírus possuem apenas um dos tipos de ácidos nucléicos, ou o DNA ou o RNA. Os organismos eucariotos e procariotos possuem ambos os tipos. Os procariotos são representados pelas bactérias e algas cianofíceas. Os eucariotos se dividem em dois grupos: (i) eucariotos inferiores: organismos sem capacidade de formar tecidos, como os fungos, mixomicetos, algas superiores e protozoários; (ii) eucariotos superiores: organismos com capacidade de formar tecidos, como plantas e animais. A seguir são apresentadas algumas diferenças entre células procarióticas e eucarióticas. Estrutura Célula Procariótica Célula Eucariótica Estrutura Nuclear Ausência de membrana Presença de membrana DNA circular DNA linear Não contém histona Contém histona Ausência de nucléolo Preseça de nucléolo DNA em organelas Ausente Presente Mitocôndrias Ausente Presente Cloroplastos Ausente Presente Retículo endoplasmático Ausente Presente às vezes Estrutura flagelar Ausente Presente Ribossomos citoplasmáticos 70 S 80 S Estrutura de Golgi Ausente Presente Movimento amebóide Ausente Presente às vezes Pinocitose Ausente Presente às vezes Fagocitose Ausente Presente às vezes 11 O cromossomo bacteriano é constituído de uma única molécula de DNA circular. Os genes de eucariotos e procariotos são segmentos de DNA de dupla hélice. O RNA desses organismos são também de dupla fita e hélice. Em 1953, Watson e Crick relataram o modelo do DNA como uma estrutura tridimensional e sugeriram também o processo de replicação semiconservativa da molécula de DNA de dupla hélice. Esse processo foi confirmado cinco anos após por Meselson e Stahl. Os ácidos nucléicos são moléculas compostas por nucleotídeos constituídos por uma molécula de açúcar com cinco carbonos (pentose), uma base nitrogenada ligada ao carbono1’ da pentose e um grupamento fosfato ligado ao carbono 5’ da pentose. As bases nitrogenadas geralmente encontradas no DNA são a adenina (A), guanina (G), timina (T) e citosina (C). No RNA são encontradas a adenina, guanina, uracila (U) e citosina (C). A e G são denominadas bases púricas e T e C são bases pirimídicas. A estrutura tridimensional da molécula de DNA revela que a mesma é formada por duas fitas de nucleotídeos que se entrelaçam, formando uma estrutura em espiral. Nessa configuração a adenina de uma fita pareia-se com uma timina da outra fita e a guanina de uma fita pareia-se com uma citosina da outra fita. Tem-se então essa complementação de bases. No RNA de dupla hélice (presente em um dado vírus) o pareamento (feito por pontes de hidrogênio) de bases é A com U e G com C. Atualmente, marcadores genéticos moleculares do tipo SNP (polimorfismo de um único nucleotídeo), os quais baseiam-se na detecção de polimorfismos resultantes da alteração de uma única base no genoma, têm sido usados. Os marcadores SNPs apresentam natureza bialélica, conforme ilustrado a seguir: Indivíduo 1: TCACCGCG Indivíduo 2: TCATCGCG Verifica-se polimorfismo de SNPs entre os dois indivíduos. Na seqüência especificada na fita simples de DNA ocorre troca de uma única base, caracterizando o referido polimorfismo. 12 O DNA consiste de monômeros chamados nucleotídeos. O açúcar que compõe esse nucleotídeo é a desoxirribose, a qual, ligada a uma base nitrogenada compõe um nucleosídeo. O RNA é similar ao DNA e as três principais diferenças são: (i) o açúcar é a ribose; (ii) a uracila substitui a timina; (iii) apresenta uma única fita, e, portanto, a relação entre os números de cada base é diferente de 1( no DNA tem-se A/T e G/C próximos de 1). Existem 3 tipos de RNA, cada um com uma função específica. (i) RNA mensageiro - mRNA: formado a partir da transcrição de uma das fitas de DNA; carrega a informação do núcleo para o citoplasma; apresenta maior estabilidade em organismos superiores e é instável em bactérias; apresenta maior peso molecular que o tRNA. (ii) RNA ribossômico - rRNA: constitui a maior porção do RNA celular; ocorre nos ribossomos e seu papel está associado com o fenômeno da tradução. (iii) RNA transportador - tRNA: são moléculas pequenas de RNA que servem como receptores e transportadores de aminoácidos; existe um para cada aminoácido e cada um tem uma estrutura ligeiramente diferente do outro; enrolam-se sobre si mesmo tomando um aspecto de folha de trevo, ocorrendo 80% a 90% de pareamento de bases; as extremidades das cadeias são idênticas para todos os tipos; apresentam um sítio composto de três bases e que recebe o nome de anticódon, que é complementar a uma trinca de mRNA (códon). O Dogma Central da Biologia é sustentado pelo tripé DNA, RNA e Proteínas. O DNA replicado é transcrito em RNA, que, por sua vez, é traduzido em proteínas. O material genético de um organismo é capaz de realizar as seguintes funções: (a) armazenar e transportar a informação genética de uma célula para outra; (b) ser copiado com grande precisão e no momento em que há necessidade de expressão do gene; (c) traduzir a informação visando à determinação do fenótipo do caráter pelo qual é responsável. Nesse sentido, são essenciais os processos de replicação, transcrição e tradução, descritos a seguir. 2.4. Genes 2.4.1 Código Genético O conceito de gene refere-se a uma pequena unidade de DNA no cromossomo denominada Cístron, composta de lugares muito próximos. Essa unidade tem a função de controlar a síntese de uma determinada proteína 13 constituinte do fenótipo de forma direta ou indireta. O conceito de gene evoluiu da teoria um gene – uma enzima para a teoria um cístron – uma cadeia polipeptídica. O cistron subdivide-se em sítios menores denominados recon (unidade de recombinação) e muton (unidade de mutação). As dimensões dessas unidades têm valor apenas relativo. O conceito de gene é mais de função do que de estrutura. Código genético é uma seqüência de bases contidas no DNA, a qual, sendo transcrita para mRNA, especificará a seqüência de aminoácidos que dará origem a certa proteína. Códon é definido como um grupo de nucleotídeos que especifica apenas um aminoácido. As propriedades do código genético são: a) A unidade de código genético ou códon é constituída de três letras, ou seja, cada aminoácido é codificado por uma sequência de 3 bases. b) O código tem ponto inicial. A leitura do mRNA sempre começa com o códon 5'AUG3', ou seja, com uma metionina nos eucariotos. c) O código não é sobreposto. O fato de que uma mutação só altera um aminoácido na cadeia polipeptídica é evidência de código não sobreposto. d) O código genético é redundante ou degenerado, ou seja, pode existir mais de um códon para codificar um mesmo aminoácido. e) O código genético é universal, ou seja, um códon codifica o mesmo aminoácido em qualquer organismo. f) O código não tem vírgulas, ou seja, não há necessidade de um nucleotídeo separando os códons. g) O código não é ambíguo, ou seja, um mesmo códon não codifica para aminoácidos diferentes. h) O código tem ponto de terminação. O término da leitura do mRNA sempre ocorre com os códons 5'UUA3', 5'UAG3' e 5'UGA3'. Há ainda os conceitos de introns (regiões do DNA que não são codificadoras) e exons (regiões do DNA que são codificadoras). Assim, introns são regiões do DNA que não estão transcritas no mRNA associado a alguma proteína, e os exons são as regiões do DNA que estão transcritas no mRNA associado a alguma proteína. 2.4.2 Mutações de Ponto e Cromossômicas Mutações são alterações nos genes que permitem o surgimento de novos alelos ou formas alternativas dos genes. Indivíduos que carregam uma mutação são ditos mutantes. As mutações podem ser: (i) gênicas ou de ponto: são intragênicas e os locos só podem ser detectados se sofrerem mutação; (ii) cromossômicas: são 14 intergênicas, podendo ser numéricas (poliploidia, polissomia) e estruturais (inversão, translocação, duplicação e deleção), conforme visto no capítulo 2. As mutações gênicas referem-se a alterações na seqüência de bases do DNA, cujas causas podem ser: (a) Substituição de bases via transição (purina por purina e pirimidina por pirimidina) ou transversão (purina por pirimidina e vice-versa). (b) Adição ou deleção de bases: uma única adição ou deleção altera toda a seqüência e culmina com a síntese de uma proteína diferente. As mutações podem ser em células germinais (transmissíveis por via sexual) e somáticas (transmissíveis somente por propagação assexuada). As mutações somáticas ocorrem somente em determinados setores do indivíduo. A importância principal da mutação refere-se à criação de novos alelos e conseqüente ampliação da variabilidade genética, permitindo a atuação da seleção natural e artificial. As mutações podem ser espontâneas (causadas por radiações naturais e substâncias químicas existentes nas células) ou induzidas (raios x, mutagênicos químicos). As mutações podem ser dominantes (manifestam na primeira geração) e recessivas (manifestam em gerações posteriores). As mutações úteis são aquelas de pequeno efeito e que acumulam-se gradualmente no organismo, acompanhada de vagarosa transição nas características. Outro conceito relevante é o da carga genética, que refere-se ao acúmulo de genes recessivos (deletérios) em uma população até o limite da sua sobrevivência. 2.4.3 Alelismo e Interações Alélicas As interações entre alelos de um mesmo loco podem ser dos tipos: dominância completa (presença de dois fenótipos), codominância, ou ação intermediáriaou aditiva (presença de três fenótipos), dominância incompleta ou parcial (presença de três fenótipos), sobredominância (fenótipo do heterozigoto além dos pais). Um alelo recessivo refere-se aquele membro de um par de alelos que não é capaz de expressar-se na presença do alelo dominante. A dominância refere-se à manifestação total de um alelo sobre o outro quando em heterozigose (completa, parcial ou sobredominância). 15 Exemplo: Aa (azul) x Aa (azul) Filhos: AA – Azul, Aa - azul aa – branco Nas características estudadas por Mendel observou-se que o indivíduo que continha um alelo advindo de cada parental puro e contrastante e que era, portanto, heterozigoto, apresentava um fenótipo idêntico a um dos parentais puros. Nesta situação existe uma interação entre os alelos de dominância completa. O parental homozigoto cujo fenótipo é o mesmo do filho heterozigoto, é chamado de homozigoto dominante e o outro genitor de homozigoto recessivo. No entanto, este não é o único tipo de interação entre os alelos possível de se observar em um particular loco. A dominância incompleta ou parcial é observada quando o indivíduo heterozigoto tem um fenótipo distinto de qualquer dos homozigotos sendo o seu valor fenotípico intermediário entre os dois homozigotos, no entanto tendendo para o lado do indivíduo homozigoto dominante. No caso particular do fenótipo do heterozigoto estar exatamente entre os dois genitores constrastantes, utiliza-se o termo ausência de dominância. Além disso, podem ocorrer interações do tipo sobredominância, quando o fenótipo do heterozigoto é superior (ou inferior) ao de qualquer outro homozigoto e, portanto se situa fora dos limites dos dois homozigóticos. A interação de codominância é definida pela presença dos dois fenótipos de ambos os homozigotos e é mais comum quando se trata de fenótipos moleculares ou definidos por técnicas de reconhecimento molecular como, por exemplo, a determinação dos grupos sanguíneos dos seres humanos. Quando várias mutações ocorrem no mesmo gene tem-se o caso de alelismo múltiplo, que refere-se a um gene com vários alelos que ocupam o mesmo loco no cromossomo, afetando um único caráter. Ocorre em nível populacional e não no mesmo indivíduo pois esses são em geral diplóides. Como exemplo cita-se a cor da pelagem em coelhos, em que o controle genético é realizado por uma série alélica ou grupo de alelos que afetam o caráter, permitindo a variação de cores desde branca até preta. Considerando organismos diplóides, em um particular loco existem apenas dois alelos pertencentes ao indivíduo. No entanto, em uma população, pode existir um número maior de alelos para um mesmo gene, fenômeno este conhecido como 16 alelismo múltiplo. Os alelos múltiplos são em geral resultados de mutação e um exemplo comum em plantas é o da cor das flores no feijão em que podem ser observados fenótipos da cor violeta, rosa e branco. Ao cruzar um parental puro violeta com um parental puro branco, observa-se uma progênie F1 100% violeta e a F2 segregando na razão 3 violetas:1 branca. O mesmo é observado no cruzamento de genitores puros violetas e rosas onde o alelo determinante para a cor violeta novamente é dominante em relação ao alelo determinante da cor rosa e a F1 é 100% violeta e a F2 segraga na razão 3 violetas:1 rosa. No cruzamento de genitores puros rosa e branco a relação de dominância se dá por parte do fenótipo rosa que é observado em todos os casos da progênie F1 e em 75% das vezes na geração F2. Observa-se então que existem três alelos presentes neste loco e uma interação alélica de dominância completa. Uma possibilidade para os genótipos seriam: Violeta (VV, Vv1, Vv), Rosa (v1 v1, v1v) e Branca (vv) como pode ser observado na Figura 3. Em uma situação de alelismo múltiplo, pode se calcular o número de genótipos (G) distintos possíveis através da fórmula G = [a.(a+1)] / 2, em que a é o número de alelos distintos presentes na população Figura 3. Exemplo de alelismo múltiplo em flores de feijão. O símbolo * representa autofecundação e o símbolo _ no genótipo da geração F2 simboliza que qualquer alelo pode estar presente uma vez que existe uma relação de dominância 17 2.4.4 Genes Letais Alelos letais ou deletérios são aqueles que, em homozigose, provocam a morte do indivíduo. Os fatores letais podem ser classificados em: (a) Letais zigóticos recessivos: devidos à homozigose para alelos letais recessivos. (b) Letais zigóticos sem dominância. (c) Letais gaméticos: geralmente associados a aberrações cromossômicas estruturais ou numéricas. Em espécies florestais a endogamia (cruzamento de indivíduos aparentados), tem como conseqüência a perda de vigor ou a morte causada pela exposição de alelos letais que estavam escondidos (via carga genética) nos heterozigotos. Famílias S1 (primeira geração de auto-fecundação) possuem irmãos oriundos de auto-fecundação, e então, podem apresentar alta taxa de mortalidade. 2.5. Genética Mendeliana As árvores, assim como todos os seres vivos, iniciam de uma única célula que contém toda a informação genética necessária por toda a vida do organismo. Em 1857, Gregor Mendel, iniciou os seus, hoje famosos, experimentos de melhoramento com ervilhas. Àquela época nada era conhecido sobre os detalhes de meioses, cromossomos ou DNA, mas sua percepção o permitiu inferir sobre regras básicas de herança genética pela simples observação das progênies de seus cruzamentos. Hoje nos referimos às Leis de Mendel como herança Mendeliana sendo esta determinada por um ou alguns poucos genes, cuja expressão não é influenciada ou é pouco afetada pelo ambiente. O seu entendimento é a base para toda a genética e a teoria de melhoramento florestal. Outro aspecto fundamental da molécula de DNA é que ela é composta por uma dupla hélice, a qual foi proposta por James Watson e Francis Crick (Watson e Crick, 1953) estabelecido com base em dois estudos prévios, um feito por Chargaff e colaboradores, e o outro por Maurice Wilkins e Rosalind Franklin. Watson e Crick sugeriram que duas fitas polinucleotídicas com o esqueleto de açúcar e fosfato se entrelaçam, formando uma estrutura helicoidal denominada dupla-hélice. As duas fitas estão dispostas em orientação oposta (anti-pararelas) e são ligadas por ligações de hidrogênio. Estas ligações são específicas uma vez que adenina sempre 18 pareia com timina por duas ligações de hidrogênio e guanina sempre se pareia com citosina por três ligações, o que é conhecido como complementaridade de bases. Um complexo de ácidos nucléicos e proteínas, que contém os genes, são os cromossomos e estão presentes no núcleo de todas as células de um organismo. Os cromossomos aparecem em pares nos organismos diplóides sendo um dos cromossomos do par herdado do pai do indivíduo e o outro cromossomo do par herdado da mãe do indivíduo. Cada par de cromossomos é chamado de cromossomos homólogos sendo que o número de pares de cromossomos varia em cada espécie. Nos humanos, por exemplo, são 23 pares, nas espécies do gênero Eucalyptus, 11 pares, no Pinus, 24 pares. Como pode ser observado, o número de cromossomos não tem relação com a classificação filogenética das espécies nem com a complexidade do organismo. Durante parte do ciclo celular, os cromossomos são duplicados e são então constituídos por duas estruturas denominadas cromátides. Cromátides irmãs então, nada mais são do que subunidades cromossômicas longitudinais, iguais em morfologia e conteúdo de genes, produzidas pela duplicação do DNA e que permanecem unidas pela região centromérica durante parte do ciclo celular.No contexto da genética mendeliana, a combinação de alelos em um único loco ou o conjunto de alguns locos é chamada do genótipo do indivíduo sendo definido como um genótipo homozigoto quando os dois alelos são funcionalmente idênticos (ex: AA ou aa) e definidos como heterozigotos quando os alelos são funcionalmente diferentes (ex: Aa ou Bb). 2.5.1. Herança Monogênica A primeira lei de Mendel é conhecida como a lei da segregação em herança monogênica e declara que na formação do gameta (que nas plantas superiores masculinas é o núcleo gamético presente no grão de pólen e nas femininas a oosfera) as duas formas gênicas, ou alelos, de cada loco são separados e apenas uma deles é incorporado ao gameta. Em seu experimento, Mendel realizou trabalhos envolvendo genitores constrastantes de ervilha (Pisum sp.) e estudou sete características, como altura de planta, cor do cotilédone e textura da semente escolhidas para o estudo para explicar sobre a herança de alelos de locos individuais. Como exemplo de seu experimento será considerado a característica do aspecto externo das sementes de ervilha que poderiam ser lisas ou rugosas. Foram 19 utilizadas genitores puros (homozigotos) e contrastantes de acordo com a Figura 4. Mendel observou que na primeira geração (F1) toda a descendência era lisa, isto é, o fenótipo rugoso havia desaparecido. No entanto, ao autofecundar esta geração observou-se na segunda geração (F2) a segregação de 5474 plantas com semente lisa e 1850 plantas com semente rugosa, ou seja, aproximadamente ¾ das sementes eram lisas e ¼ eram rugosas. Diante deste fato Mendel propôs que estes resultados poderiam ser explicados se cada indivíduo tivesse dois fatores controladores do caráter em estudo, mas que apenas um fosse passado para o gameta (Figura 4). Figura 4. Esquema do experimento idealizado por Mendel e do modelo proposto para sua primeira lei. É importante salientar um fator relevante nos experimentos de Mendel que foi a escolha da espécie. A ervilha é uma espécie de pequeno porte, que pode ser cultivada em grande número em um pequeno local e tem um ciclo de geração curto, o que permite a obtenção de várias gerações em um único ano. Além disso, a espécie não oferece qualquer dificuldade para a realização de cruzamentos e não 20 requer controle de polinização uma vez que sua reprodução é por autopolinização. Cada vagem da ervilha fornece várias sementes podendo, portanto, obter vários descendentes mesmo a partir de poucos cruzamentos e ela é ainda, uma espécie diplóide, informação esta que Mendel não possuía, mas que foi decisiva para as conclusões obtidas por ele. É válida a reflexão de que estas descobertas dificilmente teriam sido feitas se Mendel trabalhasse com uma espécie florestal, pois estas apresentam características que dificultam o estudo de herança e também o melhoramento genético. Considerando por exemplo uma espécie cujo ciclo de vida é de 30 anos e supondo todos os outros fatores favoráveis, o tempo de estudo, desde o crescimento da geração parental, até a análise da característica na geração F2 seria de 90 anos. Não obstante o longo ciclo de geração, as espécies florestais de maneira geral não são autofecundadas o que impede a obtenção de linhagens (indivíduos homozigotos para todos os locos) contrastantes, requerem uma grande área para o cultivo e para muitas delas, ainda é necessário maiores estudos, pois não se tem informação sobre a biologia reprodutiva e a forma de produção de sementes. Exemplos de características morfológicas de herança mendeliana no meio florestal são bastante restritos e pouco observados principalmente pelo fato de que geneticistas e melhoristas florestais tem como objetivo principal de sua pesquisa ou de seu programa de melhoramento a melhoria de características fenotípicas de interesse econômico, como volume e qualidade da madeira, e que são controladas por muitos genes. Esta sessão apresenta alguns experimentos reais publicados na literatura científica a alguns anos atrás e extraídos de White et al. (2007). Um exemplo de herança simples controlada por um único gene com dominância completa foi apresentado por Steinhoff (1974) que realizou uma série de cruzamentos avaliando a herança da cor do cone em Pinus monticola. Foram observados dois fenótipos, verde e roxo, e Steinhoff hipotetizou que um gene dominante controlava o caráter. Os dados observados bem como o qui-quadradro são representados na sequência. 21 O número de indivíduos esperados foi obtido multiplicando o total de indivíduos pela razão esperada, por exemplo, 109 x 0,75 = 81,75. Como observado no exemplo acima, como o valor de = (O-E)2/E calculado é muito menor que o valor tabelado com 1 grau de liberdade e 95% de confiança ( = 3,841) então aceita-se a hipótese de segregação na razão de 3:1. 2.5.2.Herança Multifatorial e Segregação Independente Os gametas possíveis de serem obtidos a partir de um específico genótipo em dois locos são mostrados na Figura 5. Cada gameta contém apenas uma forma gênica de cada loco. Enquanto a célula parental original contém dois genes cada um com dois alelos o gameta originado contém os mesmos dois genes, no entanto com apenas um alelo. Como via de regra, o número de cromossomos presentes em uma célula gamética e conseqüentemente o número de genes é a metade do número em células somáticas. Um método de fácil visualização utilizado para predizer os possíveis genótipos resultantes de um particular cruzamento é o quadrado de Punnet, que recebeu esse nome em homenagem ao pesquisador que desenvolveu este método, Reginald C. Punnet (Figura 5 (b)). O quadrado de Punnet é um diagrama onde representa-se no topo todos os possíveis gametas formados por um parental e no lado esquerdo todos os gametas formados pelo outro parental. Caso seja conhecida, pode-se incluir também as freqüências de cada gameta, que no exemplo a seguir é de ¼ para todos os gametas por seguir uma distribuição independente de acordo com a segunda lei de Mendel (lei esta que será explicada logo adiante). Dentro dos espaços do diagrama são preenchidos os genótipos do zigoto pela simples combinação do gameta da linha com o gameta da coluna. A freqüência de ocorrência daquele genótipo é o produto das freqüências ou probabilidades de ambos os gametas. Assim, o número de gametas diferentes que podem ser obtidos a partir de um genótipo parental depende do número de locos em heterozigose sendo: NG = 2n, Em que, NG é o número de gametas diferentes possíveis de serem obtidos e n o número de locos heterozigotos presente no indivíduo analisado. 22 Por exemplo, o genótipo AABB é completamente homozigoto e apenas o gameta AB pode ser produzido. No caso do genótipo AABb ou AaBB, que contém um loco heterozigoto apenas, dois gametas são obtidos e para o genótipo AaBb, com ambos os locos heterozigotos, podem ser produzidos quatro tipos diferentes de gametas. Figura 5. Demonstração dos possíveis gametas obtidos a partir de um genótipo com dois genes (a) e utilização do quadrado de Punnet considerando um cruzamento de dois indivíduos duplo heterozigotos(b) Na Figura 5 (b) está ilustrada também, a segunda lei de Mendel, que demonstrou a independência da segregação. Genes são separados independentemente durante a meiose se todos os gametas possíveis são formados em proporções iguais. Para que isto aconteça, um dado alelo de um loco deve ter a mesma probabilidade de estar presente na célula gamética com cada um dos dois alelos advindos de outro gene. Em outras palavras, a probabilidade de um gameta receber certa combinaçãode genes quando esta meiose segue a segunda lei de Mendel é o produto das probabilidades de receber cada gene em separado. Como exemplo, considerando o genótipo AaBb da Figura 4.5, em que indivíduos com este 23 genótipo podem produzir os gametas AB, Ab, aB e ab. Se todos os quatro gametas ocorrerem em proporções iguais (considerando um intervalo para uma variância devido ao acaso), então estes genes apresentam segregação independente. É interessante notar que a freqüência do gameta é igual ao produto das probabilidades do gameta receber cada gene, por exemplo, considerando o loco A, existe 50% de chance do gameta receber, ao acaso, o alelo A e 50% de receber o alelo a. O mesmo raciocínio é válido para o loco B e o produto das probabilidades é então P(AB) = P(A) x P(B) = ½ x ½ = ¼. No entanto, se apenas os gametas AB e ab ocorrerem em uma freqüência muito maior que a freqüência dos gametas Ab e aB, então a lei de independência foi violada. Neste caso é dada a impressão de que o alelo A está “ligado” ao alelo B e de maneira similar que o alelo a esta ligado ao alelo b. Mendel em seu experimento teve também uma parcela de sorte. Todos os genes que controlavam as características observadas por eles em ervilhas ocorreram em cromossomos diferentes. Cromossomos segregam de maneira independente, isto é, não existe nenhuma tendência de dois dados cromossomos se juntarem na formação da célula gamética e conseqüentemente, os genes nestes cromossomos segregam também de maneira independente. Como todos os genes estudados por Mendel apresentaram distribuição independente, ele acreditou que todos os genes eram distribuídos de acordo com sua segunda lei. Hoje se sabe que existem exceções para este fato. 3. BIOLOGIA DA REPRODUÇÃO A biologia da reprodução integra aspectos sobre a forma de polinização, sistema reprodutivo, fenologia, padrão de dispersão de frutos e sementes e mecanismos de estabelecimento de uma espécie. 3.1. Sistema reprodutivo A semente é formada a partir da flor que é constituída por duas partes, uma estéril formada por cálice e corola e a outra reprodutora formada pelos estames e pelos carpelos. O cálice e a corola são considerados organismos de proteção da flor 24 e podem estar adaptados para favorecer a polinização ou atrair polinizadores bióticos pela cor ou por apresentar estruturas especiais como néctar, por exemplo. Os estames em conjunto constituem o androceu e os carpelos, livres ou unidos constituem o gineceu. Nos estames são formados os grãos de pólen e no gineceu os carpelos distinguem-se em ovário, onde são produzidos os óvulos. Do óvulo fecundado desenvolve-se a semente que, nas angiospermas, está constituída no interior do fruto resultante do desenvolvimento dos ovários. A estrutura e a disposição dos estames, carpelos, pétalas e sépalas da flor podem definir o tipo de polinização e se uma planta é autógama ou alógama. Figura 6: Partes constituintes da flor completa. O cálice, a corola, o androceu e o gineceu, que são os conjuntos formados por peças iguais, são denominados de verticilos florais. Conforme possuam um ou os dois sexos, as flores podem ser: Monóclinas (hermafroditas) quando possuem os dois sexos, ou Díclinas quando os sexos são encontrados em flores diferentes. Figura 7: Distribuição dos órgãos reprodutores na flor. 25 As plantas são monóicos ou hermafroditas quando os dois sexos são encontrados num mesmo indivíduo, numa mesma flor (monóclina) ou em flores deferentes (diclinas). Os vegetais dióicos ou unissexuados, por outro lado, possuem apenas um sexo em cada planta e suas flores só podem ser diclinas. Figura 8: Disposição dos órgãos reprodutivos nos indivíduos. Do ponto de vista da estrutura reprodutiva, as espécies vegetais podem ser divididas em dois grupos, dependendo de serem, predominantemente, autopolinizadas ou autofecundadas, classificadas como autógamas ou de serem, em grande parte, de polinização e fecundação cruzada, classificadas como alógamas. Para que sejam desenvolvidos estudos básicos visando a utilização das espécies nativas em programas de melhoramento e, ou de conservação genética ex situ, é muito importante que se tenha acesso a informações sobre a biologia reprodutiva da espécie, especialmente no que diz respeito à forma de polinização e dispersão de sementes. Hamrick (1983), citado por Dias e Kageyama (1991), relaciona a efetividade da distância do vôo do polinizador com a distribuição da variação genética entre e dentro de populações de espécies arbóreas polinizadas por animais, sugerindo padrões de variação próximos aos das espécies autógamas, para aquelas cujos polinizadores são de vôos curtos; até padrões similares aos das espécies alógamas, com dispersão de pólen pelo vento, para aquelas que têm polinizadores de vôos longos. Monóicas Dióicas Os dois sexos na mesma planta) Sexos em indivíduos diferentes (mesma flor ou flores diferentes) (planta masculina e feminina) 26 O sistema de reprodução é um dos fatores mais decisivos para que a variabilidade genética individual seja mantida. De acordo com Borges et al. (2005), populações de indivíduos que apresentam fecundação cruzada têm maiores possibilidades de aumentar a variabilidade genética sem adição de genes novos (por mutação, por exemplo) do que populações de indivíduos com auto-fecundação. Embora a maioria das espécies florestais sejam predominantemente alógamas, existe uma grande diversidade de sistemas reprodutivos. Assim, existem espécies monóicas alógamas, monóicas de sistema reprodutivo misto, monóicas autógamas e dióicas, que são obrigatoriamente alógamas (Bawa, 1974 e 1975). 68% 7% 10% 74% 22% 19% 0% 20% 40% 60% 80% Fre qu ên cia de es pé cie s a rbó rea s hermafrodita monóica Dióica tropical Temperada Figura 9. Caracterização do sistema reprodutivo das espécies florestais tropicais e temperadas. (Fonte: Bawa, 1974). 54% 10% 14% 22% Monoicismo Auto compatível Dioicismo Auto incompatível Figura 10. Caracterização do sistema reprodutivo das espécies florestais tropicais. (Fonte: Bawa, 1974). 27 3.2. Formação da semente A semente constitui o mecanismo de propagação sexuada das plantas, fundamental na obtenção de novos tipos genéticos e na formação das mais diferentes estruturas genéticas populacionais. Entretanto, sua integridade física e fisiológica são fundamentais para que possa atender aos princípios genéticos, razão porque será tratada inicialmente, independentemente do seu significado genético. As sementes das angiospermas são formadas basicamente pelo tegumento e embrião (cotilédones + eixo embrionário) e um terceiro componente denominado endosperma, às vezes ausente. Do ponto de vista funcional, elas são constituídas por casca, tecido de reserva e tecido meristemático (eixo embrionário), cada parte apresentando funções específicas. Estas partes da semente resultam de diversas modificações nos componentes do óvulo, ocorridas durante o seu desenvolvimento pós-fecundação. O óvulo ou megasporângio é o precursor da semente. Para que se entenda melhor esse fato alguns processos devem ser considerados. 3.2.1. Microsporogênese e formação do gametófito masculino Microsporogênese é o processo de formação dos esporos masculinos (microsporos). Este processo ocorre em células das paredes das anteras, cada uma denominada célula-mãe do grão-de-pólen. Ao final da meiose, são formados quatro microsporos. O ciclo de vida das angiospermasé dividido em duas fases. A fase de produção de esporos é chamada esporofítica. Cada microsporo formado entra na outra fase, denominada gametofítica. Durante a fase gametofítica, o núcleo do microsporo entra em mitose, originando dois outros, um denominado núcleo vegetativo e o outro chamado núcleo reprodutivo (Viana et al. 2003). O núcleo vegetativo não mais se divide e é o responsável pela formação do tubo polínico. O núcleo reprodutivo entra em mitose, originando os dois gametas masculinos presentes em cada grão-de-pólen, denominados núcleos gaméticos. Uma ilustração do processo de formação do gametófito masculino (grão-de-pólen) é apresentado na Figura 11. É importante perceber que, desconsiderando mutação, não há diferenças genéticas entre os núcleos gaméticos e o núcleo do microsporo do qual se originaram. De forma semelhante ao que acontece nos animais 28 superiores, para cada célula-mãe do grão-de-pólen que entra em meiose, quatro gametófitos masculinos são produzidos. Tubo polínico Figura 11 - Fase gametofítica de um microsporo, em uma espécie diplóide. (Fonte: Viana et al., 2003). 3.2.2. Megasporogênese e formação do gametófito feminino Megasporogênese é o processo de formação dos esporos femininos (megasporos). As células do ovário que entram em meiose são denominadas células-mães do megasporo. Ao final da meiose são formados um megasporo funcional, que passará pela fase gametofítica, e três células que degeneram. Na Figura 12 é apresentado um esquema da fase gametofítica de um esporo feminino. No início desta fase, o núcleo do megasporo se divide por mitose, originando dois outros. Ambos se dividem, novamente, por mitose, originando quatro núcleos. Cada um destes passa por mitose, originando oito núcleos, todos com a mesma informação do núcleo do megasporo correspondente. Destes oito, as três antípodas e as duas sinérgides degeneram, permanecendo no gametófito feminino maduro, o saco embrionário, apenas os dois núcleos polares e o gameta feminino, a oosfera. Portanto, para cada célula de ovário que entra em meiose, apenas um gameta feminino é formado (Viana et al. 2003). Figura 12: Fase gametofítica de um megasporo, em uma espécie diplóide. (Fonte: Viana et al., 2003). n micrósporo n n Núcleo vegetativo vvegetativoveget ativo núcleo reprodut. .reprodutivo n n n Grão de pólen Núcleos gaméticos n Megasporo n n n n n n Saco embrionário imaturo n n n n n n n n Oosfera =embri sinérgides núcleos polares antípodas 29 Após a penetração do tubo polínico no saco embrionário, o que corresponde ao processo de fecundação, ocorre a dupla fertilização. Um dos núcleos gaméticos se une com os dois núcleos polares, originando o núcleo inicial do endosperma. Este núcleo é, portanto, triplóide (3n), pois recebe dois conjuntos cromossômicos maternos e um conjunto cromossômico paterno. A ausência do endosperma em sementes maduras, como em soja e feijão, é conseqüência da digestão deste tecido durante a formação do embrião. A segunda fertilização corresponde à união entre o outro núcleo gamético e a oosfera, originando o núcleo inicial do embrião (2n). 3.3. Polinização e dispersão de sementes A polinização é a transferência do grão de pólen de um estame a um carpelo. Se a transferência for para uma mesma flor ou em uma flor da mesma planta, tem-se auto-polinização; se for para flor de outra planta, tem-se polinização cruzada. A produção de sementes é um evento decorrente da polinização e dos fatores ecológicos envolvidos nesta etapa da reprodução, tendo impacto direto sobre a quantidade e qualidade da semente obtida. O agente polinizador é o responsável pelo transporte do pólen. Assim, seu comportamento, hábitos e exigências serão determinantes de como se dará o fluxo gênico, via pólen na população (Aguiar et al., 1993). A formação da semente é o resultado da união dos gametas masculinos e femininos, e isso se dá pela transferência do grão de pólen, por algum meio, dos estames (parte masculina) para os pistilos (parte feminina) seguido pelo processo da fertilização. O agente polinizador tem papel fundamental no momento da transferência do pólen, existem basicamente dois tipos de polinizadores, os bióticos (animais) e os abióticos (vento). De acordo com Aguiar et al. (1993), a discussão sobre a polinização nas espécies florestais deve considerar que as espécies tropicais são na maioria hermafroditas e polinizadas por agentes bióticos e as coníferas são, em geral, monóicas (Pinus) ou dióicas (Araucaria) e polinizadas pelo vento (abiótico). Os fatores abióticos tanto podem funcionar como agentes polinizadores (vento) quanto afetar o transporte de pólen por outros agentes, como por exemplo, dias úmidos e de baixa luminosidade solar reduzem a ação de insetos em geral. 30 Outro fator abiótico que influencia a polinização é a falta de sincronia entre o período de dispersão do pólen e o período em que as flores femininas se encontram receptivas. Na polinização biótica as espécies vegetais são polinizadas por animais que são atraídos, especialmente por seus recursos florais como néctar, pólen e óleos. Sendo assim, os agentes polinizadores mais conhecidos são as abelhas, as borboletas, os morcegos e os beija-flores. Dias (1988), citando outros autores, relaciona estudos realizados com árvores brasileiras polinizadas por vetores de vôo curto (moscas, abelhas) que possuem sementes dispersas a pequenas distâncias e ocorrem de forma agrupada nas matas. Espécies arbóreas polinizadas por vetores de longo alcance (morcego, vento) por sua vez, apresentam dispersão de sementes mais ampla e ocorrem de forma mais dispersa. As Figura 10a e 10b demonstram o padrão geral de dispersão de sementes e de formação de novas populações, nas espécies florestais. i Estabelecimento Semente Semente pesada leve Deposição (a) Distância da fonte (b) Distância da fonte Figura 13: Padrão de dispersão de sementes (a) e de estabelecimento de novas populações (b). Quanto maior a distância da árvore mãe, maior é a chance de estabelecimento devido a menor competição e riscos de predadores. C h an ce d e es ta b el ec im en to e m fu n çã o d a d ec o m p o si çã o D ep o si çã o e m f u n çã o d o p es o d a se m en te 31 4. GENÉTICA NO MELHORAMENTO Genética é a ciência que trata das semelhanças e diferenças entre os indivíduos de uma população. Já o Melhoramento é a arte da ciência que visam à modificação genética dos organismos para torná–los mais úteis ao homem (Borém, 1999). No entanto, para que o melhoramento genético obtenha sucesso é imprescindível conhecer as bases da genética que controlamas características de interesse para utilizar os métodos de melhoramento apropriados para aquela cultura, que sofreu um processo de evolução natural com o passar do tempo. A evolução corresponde a qualquer alteração das freqüências alélicas da população de forma a torná-la mais adaptada. Os fatores que alteram as freqüências alélicas das populações são agrupados em processos que fundamentam o que é denominado teoria sintética da evolução. Esses processos são: (i) processo que cria variabilidade genética: mutação; (ii) processos que ampliam a variabilidade: recombinação, hibridação, alterações na estrutura e número de cromossomos, migração; (iii) processos que orientam as populações para canais adaptativos: seleção natural, deriva genética e isolamento reprodutivo. A mutação é responsável pela formação de novos alelos na população. As mutações úteis são aquelas de pequenos efeitos e que se acumulam gradualmente no organismo, acompanhada de vagarosa transição nas características. A recombinação genética, a hibridação, a migração e as alterações cromossômicas ampliam a variabilidade criada pela mutação e criam novas combinações de genes. A recombinação genética é essencial para a formação de combinações novas de genes, tanto através da distribuição independente de cromossomos não homólogos na meiose (distribuição aleatória de cromossomos de origem materna e paterna), como também através de permuta genética. A seleção refere-se ao sucesso reprodutivo diferencial e dirige a variabilidade genética para adaptação ao ambiente. A deriva ou oscilação genética é um mecanismo auxiliar da seleção natural e refere-se a oscilações nas frequências alélicas e genotípicas devidas aos efeitos do acaso na amostra de gametas de uma geração para produzir a geração seguinte em uma população pequena. Esse mecanismo altera a variabilidade, mas de forma não orientada em termos de direção. 32 O isolamento reprodutivo inclui todas as barreiras à troca de alelos entre populações e tem um efeito canalizador fundamental para formar novas espécies e manter a identidade de cada uma. 4.1. Genética de Populações A seleção promove alterações na freqüência gênica das populações, reduzindo a freqüência dos genes desfavoráveis (em geral, os recessivos ou que produzem interações negativas) e aumentando a dos favoráveis. Portanto, a seleção tende a favorecer o aumento da freqüência de genes desejáveis em estado de homozigose dominante ou heterozigose, para aquelas características de interesse. 4.1.1. Equilíbrio de Hardy-Weinberg e de Ligação O equilíbrio alélico e genotípico em um loco autossômico (não ligado ao sexo) em uma população é denominado equilíbrio de Hardy-Weinberg. Tal equilíbrio se manifesta em uma população de grande tamanho efetivo (ausência de deriva genética) e na ausência de migração, mutação e seleção. Nessa situação, as freqüências alélicas e genotípicas são constantes de uma geração para outra e as freqüências genotípicas são determinadas pelas freqüências alélicas. Apenas uma geração de cruzamentos ao acaso é necessária para que o equilíbrio se estabeleça. As definições conceituais apresentadas nesse tópico são relatadas por Bulmer (1980) e Falconer e Mackay (1996). Considerando um loco autossômico com um número qualquer de alelos (A, a, ...), o genótipo de um indivíduo diplóide poderá ser do tipo Aa com freqüência prob(Aa) = prob(A) prob(a), em que prob denota probabilidade ou freqüência. Essa é a equação do equilíbrio de Hardy-Weinberg. Essa regra (equilíbrio após uma geração de cruzamentos ao acaso) é verdadeira para locos autossômicos considerados separadamente mas não para genótipos envolvendo dois ou mais locos. Considerando agora um loco autossômico com um número qualquer de alelos (A, a, ...) e outro loco autossômico com um número qualquer de alelos (B, b, ...), o genótipo de um indivíduo diplóide poderá ser do tipo Ab/aB. Nessa notação, o gameta Ab é originado do pai do indivíduo e o gameta aB é originado da mãe do indivíduo. Ab é denominado haplótipo (genótipo haplóide) paternal e aB é 33 denominado haplótipo maternal. Se os locos são ligados, genes no mesmo haplótipo estão no mesmo cromossomo, enquanto genes em haplótipos opostos estão em cromossomos homólogos. Se os locos não são ligados, genes no mesmo haplótipo estão em cromossomos não homólogos herdados no mesmo gameta. Quando estão em cromossomos distintos, dois genes têm distribuição independente (segunda Lei de Mendel). Pelo argumento da união aleatória de gametas, dois haplótipos se tornarão estatisticamente independentes um do outro após uma geração de cruzamentos ao acaso. Isso significa que após essa geração, a freqüência de qualquer genótipo equivale ao produto das freqüências dos dois haplótipos correspondentes. Assim, a independência estatística entre genes ou grupos de genes em haplótipos opostos, originados de diferentes genitores, é obtida imediatamente após uma geração de cruzamentos ao acaso. Isso pode ser considerada uma generalização da lei do equilíbrio de Hardy-Weinberg. Por outro lado, a independência estatística entre genes ou grupos de genes no mesmo haplótipo, originado do mesmo genitor, é obtida gradativamente após várias gerações de cruzamentos ao acaso. Esse tipo de independência é conhecida como equilíbrio de ligação. Considerando dois locos, cada um com dois alelos, tem-se as seguintes freqüências dos quatro tipos de gametas na população: r (para o gameta AB), s (para o gameta Ab), t (para o gameta aB) e u (para o gameta ab). A população estará em equilíbrio se ru = st e a diferença ru – st fornece a medida do afastamento do equilíbrio. Com genes não ligados, essa diferença é reduzida pela metade em cada geração sucessiva de cruzamentos ao acaso, e o equilíbrio é atingido rapidamente em poucas gerações. Entretanto, com mais de dois locos, o equilíbrio é atingido lentamente. A quantidade ru refere-se ao produto da freqüência dos gametas em fase de aproximação (dois alelos dominantes em um dos cromossomos homólogos e dois alelos recessivos no outro cromossomo de um duplo-heterozigoto) e st refere-se ao produto da freqüência dos gametas em fase de repulsão (um alelo dominante de um gene e recessivo de outro gene presentes em um dos cromossomos homólogos e vice-versa no outro cromossomo de um duplo- heterozigosto). Os genótipos envolvendo dois locos, por exemplo, Ab/aB, são denominados diplótipos (Elston e Thompson, 2000), denotando genótipos diplóides para dois locos. No caso de dois locos, as combinações entre os quatro haplótipos possíveis produzem dez diplótipos distintos. 34 Com ligação gênica entre dois locos, a aproximação ao equilíbrio sob cruzamentos ao acaso é tanto mais lenta quanto menor for a distância entre os locos. Quando o equilíbrio é atingido, as fases de aproximação e repulsão são igualmente freqüentes e as freqüências dos diferentes tipos de gametas dependem apenas das freqüências alélicas e não da ligação gênica. A ligação gênica, além da pleiotropia, é uma das causas da correlação genética entre caracteres. O cruzamento entre populações, por exemplo, conduz ao desequilíbrio de ligação, desequilíbrio de fase gamética ou afastamento do equilíbrio, o qual, para o caso de dois locos, é dado por d = ru – st. A freqüência genotípica ru refere-se à heterozigotos em fase de aproximação (AB/ab) e st refere-se à freqüência de heterozigotos em fase de repulsão (Ab/aB). Sendo r a freqüência de recombinação entre dois locos, o desequilíbrio de ligação na geração t é dado por d = (1 – r) dt-1, ou seja, o desequilíbrio de ligação reduz-se geometricamente a uma taxa igualà freqüência de recombinação. Uma expressão alternativa é d = (1 – r)t d0, em que d0 refere-se ao desequilíbrio inicial. Se r = 0,5 (valor máximo que r pode atingir), os locos são independentes e o desequilíbrio, em relação a dt-1, é reduzido em 50 % em cada geração. Se r é igual a 10 %, desequilíbrio, em relação a dt-1, é reduzido em 10 % em cada geração. Assim, quanto mais próximos os locos, menor é a freqüência de recombinação entre eles e mais tempo eles permanecem ligados, após eventos passados (migração, mutação, seleção e reduzido tamanho efetivo populacional) que provocaram o desequilíbrio de ligação. Com r = 0, a ligação é completa e o desequilíbrio de ligação é permanente. Genes em diferentes cromossomos comportam-se como se r fosse igual a 0,5. Além de sua utilidade no mapeamento de genes e na seleção, o desequilíbrio de ligação pode também ser útil na inferência sobre a história reprodutiva de uma população. Assim, estimativas de desequilíbrio de ligação podem informar sobre o tamanho efetivo passado de uma população. O equilíbrio genético das populações é afetado por alterações na composição genética das mesmas, em termos de freqüências alélicas e genotípicas, como resultado da atuação de fatores evolutivos tais como a seleção, a deriva genética, a migração e a mutação. Segundo a lei de Hardy-Weinberg “toda população, na ausência de seleção, mutação e migração, entra em equilíbrio após uma geração de cruzamentos ao acaso”. 35 Genótipos ....................... AA Aa aa Frequências genotípicas: p2 2pq q2 Prob ( A ) = p; Prob ( a ) = q; sendo p + q = 1; logo p =1 – q. Nesta população AA, Aa, aa. Prob ( A ) = 22 2 22 2 22 2 2 1 qpqp pqp qpqp pqp Prob ( a ) = 22 2 22 2 22 2 2 1 qpqp pqq qpqp pqq População na ausência de seleção Genótipos Frequência Valor Seletivo Proxima geração AA p2 1 p2 Aa 2pq 1 2pq Aa q2 1 q2 Prob ( a ) = 22 2 22 2 22 2 2 1 qpqp pqq qpqp pqq = q0 Verifica-se que, em ausência de fatores evolutivos, como a seleção, as frequências alélicas e genotípicas permanecem inalteradas de uma geração à outra. No entanto, durante o processo de melhoramento genético das espécies cultivadas a seleção é essencial e comumentemente empregada, o que promove uma alteração na frenquência gênica da população. 4.1.2. Seleção O termo seleção é definido como a reprodução diferencial dos diferentes genótipos na natureza ou sob intervenção do homem. A seleção natural opera independentemente das ações humanas e se realiza por meio de diferenças em fertilidade e sobrevivência (viabilidade) das progênies dos diferentes indivíduos, tendo como conseqüência a evolução orgânica. A seleção artificial é praticada pelo homem e é baseada em critérios definidos pelo próprio melhorista, sendo assim, fator primordial para o melhoramento genético. Essencialmente, a seleção atua promovendo a alteração das freqüências alélicas nos locos que controlam o caráter 36 sob seleção, conduzindo a alteração na média genotípica da população, na direção desejada. A seleção altera os componentes de médias e variâncias dos valores genéticos e fenotípicos por meio de: mudanças nas freqüências alélicas, desequilíbrio em fase gamética, endogamia e deriva genética. Em termos estatísticos, produz mudanças nos primeiros (médias) e segundos (variâncias) momentos das variáveis aleatórias de uma população base, causadas em função de um processo de amostragem não aleatória dessa população. Sob um modelo poligênico puramente aditivo, mesmo para populações infinitas, a seleção direcional modifica a variância genética pela indução de desequilíbrio de ligação (Lush, 1945; Bulmer, 1971). Para populações de tamanho finito, a seleção afeta a estrutura de família, aumentando a perda de variação genética via endogamia (Lush, 1946; Robertson, 1961). A seleção reduz a variação genética de duas maneiras (Bulmer, 1971; 1980). A primeira é pela criação do desequilíbrio em fase gamética. Este fator é o mais imediato e, inicialmente, o de maior efeito. Neste caso, a seleção de genitores reduz a variância entre eles e, conseqüentemente, reduz a covariância entre os indivíduos da progênie, de forma que a herdabilidade calculada tende a ser inferior à verdadeira. A segunda maneira pela qual a variância é reduzida é resultante das próprias alterações nas freqüências alélicas nos locos que afetam o caráter, em função da seleção. Entretanto, as freqüências alélicas mudam muito devagar quando o número de locos é grande e, conseqüentemente, os efeitos de cada loco na expressão do caráter são muito pequenos. Assim, na prática, os efeitos decorrentes de alterações nas freqüências alélicas podem ser negligenciados, exceto para a seleção no longo prazo. Embora a seleção seja um fator causador de desequilíbrio de ligação, seus efeitos são restritos a genes específicos e, portanto, têm pouco impacto no desequilíbrio de ligação total ou médio do genoma. Assim, estimativas de desequilíbrio de ligação são úteis também para a detecção de áreas do genoma que foram pronunciadamente selecionadas. O desequilíbrio de ligação entre marcadores dentro de um intervalo reflete a ocorrência de seleção sobre genes dentro do intervalo. Isso ocorre porque os alelos selecionados terão as suas freqüências e as de segmentos cromossômicos que os contêm, aumentadas na população uma vez 37 que tais segmentos são dirigidos à fixação por meio de varredura seletiva (Maynard- Smith, 1989). No entanto, a comparação entre o grau de desequilíbrio de ligação de vários intervalos pode não informar sobre a história seletiva da população pois o desequilíbrio de ligação pode ser devido a vários fatores. A seleção promove alterações na freqüência alélicas das populações, reduzindo a freqüência dos alelos desfavoráveis (em geral, os recessivos ou que produzem interações negativas) e aumentando a dos favoráveis. Portanto, a seleção tende a favorecer o aumento da freqüência de alelos favoráveis em estado de homozigose dominante ou heterozigose, para aquelas características de interesse. População sob seleção Genótipos Frequência Valor Seletivo Proxima geração AA p2 1 p2 Aa 2pq 1 2pq aa q2 1 - s q2 ( 1 – s ) Prob ( a ) = 12 2 1 1 q sq pqsq q = q1 –q0 q = 02 2 1 1 q sq pqsq q = 2 2 1 1 sq qsq Para s = 1, tem – se: 2 0 00 2 0 1 1 1 sq qpsq q 2 0 00 2 0 11 11 q qpq 00 00 1 11 1 qq qq q 0 0 1 q q 0 0 1 1 2 211 q q q q q 0 0 1 1 11 nq q q q q n n n 38 Daí conclui –se que a frequência alélica em qualquer geração será sempre dependente da frequência alélica inicial. Logo, o número de gerações necessárias para atingir uma determinada frequência alélica será dado por : 00 0 11 qqqq qq n nn n Exemplo 1: para q0 = 0,5 quantas gerações seriam necessárias para reduzir essa frequência para qn = 0,1 ? gerações qq n n 8 5,0 1 1,0 111 0 Exemplo 2: sabendo–se que a freqüência de albinos em uma população é de 1/10000, quantas gerações serão necessárias para reduzir essa freqüência para 1/40000? 01,0 10000 1 Pr 0 qaob 005,0 40000 1 Pr nqaob .100 01,0 1 005,0 1 geraçõesn 4.1.3. Tamanho Efetivo Populacional O conceito de tamanho efetivo populacional (Ne) foi introduzido por Sewall Wright em 1931. Este autor denomina “população ideal” uma população composta por N indivíduos diplóides, reconstituída a cada geração por uma amostra aleatória de 2N gametas. Definiu-se, então, o Ne como sendo o tamanho da população ideal que apresenta a mesma taxa de aumento na homozigose ou deriva genética, apresentada pela população real em consideração. Uma definição minuciosa do Ne é dada por Freire-Maia (1974): “corresponde a uma população ideal de tamanho invariável, com número igual de machos e fêmeas, destituída de endocruzamento em taxa apreciável e em que cada indivíduo tem a mesma probabilidade de deixar 39 progênie de tamanho igual, de tal forma que o número de descendentes por genitor se distribui segundo a série de Poisson”. Esta última consideração implica Ne = N = Nr, em que Nr é a população reprodutora. Em termos genéricos, pode-se dizer que o tamanho efetivo populacional refere-se ao tamanho genético de uma população reprodutiva e não ao número de indivíduos que a compõe. Assim, diz respeito à representatividade genética de amostras de animais, plantas e sementes. Conforme implícito no próprio conceito de Wright, na situação de um tamanho efetivo pequeno, um reduzido número de indivíduos participa efetivamente do intercruzamento com vistas à regeneração da nova população, conduzindo a ocorrência de dois eventos: mudança aleatória das freqüências alélicas (oscilação ou deriva genética); aumento da endogamia na nova população. A teoria matemática do Ne postula que uma população é composta por N indivíduos, os quais contribuem com variáveis números (k) de gametas para a geração seguinte, dentre um total de 2N. Nesta situação, têm-se: – Número médio de gametas contribuído por indivíduo: 2k – Variância do número de gametas contribuídos pelos N indivíduos: /N2)(k 2i N 1i 2 k – Expressão clássica do tamanho efetivo: 2 24N N 2 k e . Observa-se pela expressão do Ne, que o fator que, em geral, o torna menor que o número absoluto de indivíduos da população é exatamente 2 k , ou seja, a variância do número de gametas contribuídos pelos genitores. Com 02 k (igual tamanho de família) e dois indivíduos sobreviventes por genitor, Ne = 2N-1, ou seja, o tamanho efetivo praticamente duplica em relação ao original. Percebe-se, então, que a contribuição eqüitativa de indivíduos por genitor é sempre desejável, quando se procura maximizar o Ne. Considerando que os genitores têm iguais probabilidades de contribuir para a próxima geração (distribuição de Poisson), 22k k e Ne = N + ½, ou seja, praticamente como na população idealizada. Supondo tamanhos constantes das populações reprodutoras ao longo das gerações, implica k = 2 e a expressão 40 clássica pode ser usada de forma generalizada, de forma que N equivalerá ao número de genitores selecionados, para espécies monóicas e será N = Nf + Nm = 2 Nf para espécies dióicas, quando 2 kmf eNN é o mesmo para os dois sexos. Nf e Nm referem-se ao número de genitores femininos e masculinos, respectivamente. A expressão clássica pode ser rearranjada em termos mais genéricos (para qualquer k ) e em função de amostras (correção gaussiana) e não da população total, como: 1)k(kN1)(N 1)-k(NkN N 2 K e Desprezando-se a correção para tamanho de amostra finito, ou seja, considerando [(N - 1)/N] = 1, tem-se: )/()()1//()1( 2222 kkkkNkkkN KK eN . Esta é a expressão geral do Ne para espécies monóicas, a qual pode ser utilizada para derivar as expressões adequadas às espécies dióicas. Em espécies exogâmicas domesticadas (animais e plantas perenes preferencialmente alógamas) o reduzido tamanho efetivo populacional é a principal causa de desequilíbrio de ligação. Assumindo o reduzido Ne como o causador do desequilíbrio de ligação, o valor esperado (E) desse desequilíbrio (r2) em um dado segmento cromossômico de tamanho L (em Morgans) pode ser calculado pela seguinte expressão (Sved, 1971): E(r2) = 1/(4 Ne L + 1), em que r2 é a estatística de desequilíbrio de ligação proposta por Hill e Robertson (1968). 4.2. Genética Quantitativa O melhoramento genético em qualquer espécie considera tanto o fenótipo quanto o genótipo. Terminologias estas introduzidas por Johansen (1909) e persistem até hoje como básicas para um pensamento claro sobre problemas de genética e evolução. Atualmente estes conceitos podem ser definidos como se segue. O fenótipo de um indivíduo é o que pode ser percebido através da observação, as estruturas e funções dos organismos, em resumo, o que o ser vivo apresenta aos nossos sentidos, com ou sem o auxílio de aparelhos. O genótipo é a 41 soma total dos materiais hereditários que um indivíduo recebe de seus pais e de outros antepassados. O fenótipo de um indivíduo muda continuamente desde o nascimento até a morte. O genótipo, contudo, permanece estável, exceto por mutações somáticas. A estabilidade é devida aos genes se reproduzirem a si mesmos e não ao fato de eles serem materiais quimicamente inertes ou, de alguma forma, isolados do ambiente (Dobzhansky, 1973). A expressão fenotípica de um organismo que muda continuamente do estágio de zigoto até a morte resulta da interação de fatores ambientais com a influência direta de seu genótipo. O genótipo ou a soma do seu material hereditário ancestral recebido no zigoto determina o curso do desenvolvimento do indivíduo dentro de um determinado ambiente. E o mesmo genótipo pode dirigir diferentes passos de desenvolvimento e produzir diferentes fenótipos em condições ambientais diversas (Mettler e Gregg, 1973). A expressão fenotípica potencial de um dado genótipo, considerado em relação a todas as situações ambientais em que o genótipo pode sobreviver, é seu alcance de reação, ou norma de reação. Certas “normas” são relativamente estreitas, significando que, se o genótipo existe, ele é previsivelmente constante em expressão fenotípica (canalização de desenvolvimento). Por outro lado, se os alcances das reações são grandes, o desenvolvimento é mais flexível e fenótipos diversos são produzidos sob condições ambientais diversas. Também, diferentes genótipos podem resultar em fenótipos semelhantes se houver sobreposição de alcances de reações (Mettler e Gregg, 1973). A variação genética envolve diferenças entre alcances de reação, enquanto a variação ambiental refere-se a diferenças fenotípicas dentro de alcances. A variação não-genética, chamada freqüentemente de plasticidade genotípica, permite ao indivíduo adaptar-se melhor durante o desenvolvimento. Então, os genótipos com grandes alcances de reação são considerados melhor adaptados, em geral, pois podem desenvolver-se em um âmbito de situações ambientais, tais genótipos são mais versáteis. 4.2.1. Melhoramento com base no fenótipo (F) Leva em consideração a performance visual do indivíduo(fenótipo=F): 42Onde, F = G + E. Depende do nível de controle genético sobre a característica (G) e da intensidade dos efeitos ambientais (E). pode-se selecionar em qualquer população; sementes geralmente são misturadas. Neste caso, utilizar proporções equivalentes de sementes de cada matriz selecionada; efetuar a colheita das sementes em anos de plena floração, isto é, em anos em que a maioria das árvores apresentarem floração e frutificação; considera as características de acordo a aptidão da espécie. Exemplo: forma do tronco, altura, DAP, volume, produção de frutos, volume de copa, etc. Considerações: espera-se maior sucesso pela utilização das sementes para plantio em ambiente ecológico semelhante ao da população na qual se efetuou a seleção matrizes; não se tem conhecimento do valor genético das matrizes selecionadas; nem sempre o melhor fenótipo corresponde à melhor descendência; pode-se ter bons resultados imediatos, porém, muito pouco posteriormente; pode-se ter respostas muito baixas desde a fase inicial; pode-se ter redução da média da população. 4.2.2. Melhoramento com base no genótipo (G) Leva em consideração o valor genotípico (VG) dos indivíduos: F = G + E, ou seja, o quanto o componente genético desta expressão contribui para o fenótipo, que, matematicamente, poderia ser expresso como sendo G = F – E. O valor genotípico refere-se, portanto, à proporção do fenótipo que é devido aos efeitos genéticos, podendo ser expresso por VG = G/F. Nos capítulos adiante, este assunto será retomado com a apresentação de metodologia apropriada para sua estimação. O sucesso no cultivo de qualquer espécie, florestal ou agrícola, está estreitamente relacionado aos fatores do meio ambiente. Por esta razão, o homem está sempre procurando entender e controlar os fatores ambientais, os quais podem ser classificados como segue: previsíveis: preparo do solo, fertilização, época de plantio, tratos culturais, etc. Portanto, são passíveis de controle pelo homem; 43 imprevisíveis: temperatura, precipitação, déficit hídrico, geadas, intensidade luminosa, etc. Portanto, não podem ser controlados pelo homem. Em geral, os ambientes muito bons (favoráveis) podem revelar ótimos fenótipos, porém, de baixo valor genético, enquanto os ambientes ruins (desfavoráveis) quando revelarem fenótipos superiores, estes tendem a ser mais condizentes com valor genético. Vale ressaltar que cuidados devem ser tomados em relação a resistência a pragas e doenças, pois a resistência tanto pode ser verdadeira ou aparente, como conseqüência de “escape”. Para se obiter o VG de parte-se da expressão F = G + E, pode-se deduzir que G = F – E, o que está matematicamente correto. Entretanto, deve-se entender que tratando-se de materiais biológicos, com constituições genéticas distintas, apresentam também respostas diferentes ao um mesmo ambiente. Logo, os materiais genéticos homozigotos ou clone apresentam respostas aos efeitos ambientais diferentes dos materiais genéticos segregantes, mesmo quando colocados em condições de ambiente semelhantes, evidenciando que a dedução matemática acima não se aplica. Assim, pode-se destacar: normalmente se assume que o efeito do ambiente é uniforme para todos os genótipos, o que não é verdade; o efeito ambiental exibido por uma árvore não é exatamente o mesmo exibido por uma população heterozigota; presume-se a existência de uma correlação positiva entre genótipo- ambiente, isto é, aos melhores ambientes correspondem os melhores genótipos, o que não é verdade, devido ao efeito da interação genótipo por ambientes; quanto maior o valor genotípico, menor a influência das alterações ambientais e vice-versa; mesmo material genético em ambientes distintos tende a apresentar estrutura genética própria; o VG varia com a idade das árvores; o VG é próprio de cada espécie e população; Deste modo, a obternção do valor genético (VG) requer: controle do material genético, isto é, controle parental, portanto, utiliza famílias ou clones; avaliação fenotípica, isto é, não pode ser obtido diretamente do indivíduo; o uso de técnicas experimentais; pode-se usar técnicas de marcadores moleculares ou bioquímicos; o uso de análise de variância (parâmetros genéticos); 44 4.2.3. Base genética dos caracteres quantitativos A variação biológica é a base para o trabalho do geneticista ou melhorista de plantas. Para que se possa conhecer e compreender as bases hereditárias dos caracteres em plantas e animais, é necessário distinguir os dois componentes da variabilidade: o genético e o não genético ou ambiental, e a proporção de seus efeitos. Métodos estatísticos apropriados são utilizados, especialmente no estudo da variação dos caracteres quantitativos de importância econômica (Bueno et al., 2001). O estudo da herança de uma característica requer o conhecimento do seu nível de controle genético, isto é, se é herdável, determinada por genes. Os genes que a determinam são transmitidos dos pais para os filhos ou, pelo menos, de um dos pais para um ou mais de seus descendentes. Em geral os caracteres qualitativos são controlados por poucos genes; não são influenciados pelo ambiente; permitem o agrupamento em classes: têm distribuição discreta, portanto, obedecem os princípios da probabilidade; segregam conforme as Leis de Mendel (genética mendeliana). Como funciona: Pais: Aa (verm.) x Aa (verm.) F1 AA Aa aa Fenótipos 3 : 1 (AA = 1 verm., Aa = 2 verm.) : aa = 1 branco Os caracteres quantitativos, em geral estão associados a características de alto valor econômico como diâmetro, volume do tronco, densidade básica da madeira, etc., tendo controle poligênico. As estratégias empregadas para o estudo da herança de características quantitativas são completamente diferentes das normalmente usadas em relação aos caracteres qualitativos; As características com distribuição de valores fenotípicos contínua ou de variação contínua são denominadas quantitativas ou métricas. Uma vez que não existem níveis distintos de classificação, é então feita a análise dos indivíduos pela interpretação de dados estatísticos, como médias, variâncias e covariâncias (genética quantitativa). Como funciona: 45 Pais: Aa (8m) x Aa (8m) se A = 5m e a = 3m, então: F1 AA Aa aa Fenótipos AA (5+5 = 10m); Aa (5+3 = 8m); aa(3+3 = 6m) Logo, os efeitos dos alelos são aditivos, isto é, a presença de cada alelo contribui com alguma proporção dos efeitos para expressar uma característica quantitativa. A genética quantitativa avalia a importância relativa dos efeitos individuais dos genes que determinam uma característica, assim como dos efeitos de interação entre os alelos e dos efeitos de interação entre genes não alélicos, o grau de influência do ambiente, produzindo, como na análise de características qualitativas, informações que se prestam para conservação genética e tornam eficientes os processos seletivos em programas de melhoramento. Os conceitos até aqui apresentados evidenciam a existência de variabilidade nas populações naturais, como consequência de efeitos genéticos e ambientais na expressão de quaisquer características dos indivíduos e que métodos adequados são requeridos para entendimento da proporção destes fatores na expressão fenpotípica. O melhorista deve, portanto, se empenhar para obter estimativas precisas desses efeitos,visando o sucesso dos programas de melhoramento. Também fica evidente que todas as características são herdadas em conformidade com os genes que as controlam, herança esta entendida pelos princípios da segregação mendeliana (probabilidades) para as qualitativas, ou, dos padrões de variação expressos por parâmetros estatísticos, para as quantitativas. Neste caso, o tratamento das caracteríticas quantitativas requer a utilização de amostras representativas das populações para obtenção de estimativas confiáveis. O parâmetro estatístico mais simples para descrever uma população é a média artimética dada por: n X X i Onde: X é média, n é o número de indivíduos avaliados (tamanho da amostra), iX é a observação em cada indivíduo e somatório dos valores observados. 46 A média dá uma idéia de padrão ou tendência central da população para uma dada característica, mas não informa sobre o grau de variação. Para isto, há que se estimar os parâmetros que expressam a variação, ou seja, a variância e o desvio padrão, como segue: 1 )( ˆ 2 2 n XX i e 2ˆˆ onde: 2ˆ é a estimativa da variância, é o somatório dos valores observados, iX observação em cada indivíduo, X é a média geral de todas as observações, n é o número de observações e ˆ é a estimativa do desvio padrão. Desta maneira pode-se representar o padrão de variação de uma população como sendo: ˆ3X Este valor expressa a amplitude da variação fenotípica naquela amostra avaliada, considerando um caráter com distribuição normal. 4.2.4. Genética quantitativa aplicada ao melhoramento A avaliação dos materiais genéticos tem como ponto de partida o seu valor fenotípico, ou seja, é por meio do fenótipo de cada indivíduo que constitui a população de interesse, que se obtém as informações sobre a natureza genética e o potencial da população para utilização em programas de melhoramento. O valor fenotípico, pode ser entendido como resultado do valor genético e ambientais. O genótipo (G) é em função de um conjunto particular de genes do indivíduo e o ambiente (E) é toda aquela circunstância não genética que influencia o valor fenotípico (Falconer, 1987), ou seja, F = G + E Segundo Falconer (1987), a genética de um caráter métrico centraliza-se em torno do estudo de sua variação e a quantidade de variação é medida e expressa como variância. A análise do valor fenotípico de uma dada população permite isolar e conhecer a porção da variação fenotípica devida aos fatores ambientais e genéticos. Tanto os fatores ambientais quanto os genéticos podem ser alterados e 47 melhorados. Partindo de F = G + E e considerando que G e E são não correlacionados, tem-se: VF = VG + VE A componente devida a variância genotípica pode ainda ser desdobrada em variância aditiva (VA), variância de dominância (VD) e a epistasia (VI), ou seja, VG = VA + VD + VI , Sendo assim, VF passa para: VF = VA + VD + VI + VE. Entre os componentes das VG, apenas a variância genética aditiva (VA) é passível de exploração pelo melhorista, pois é a principal determinante das propriedades genéticas da população e da resposta à seleção (Falconer, 1987). Os componentes da variação fenotípica de um caráter podem ser estimados a partir dos Quadrados Médios (QM), ou seja, a partir da análise de variância (ANOVA) dos dados obtidos a partir detestes genéticos instalados sob delineamentos experimentais. O procedimento de estimação desses componentes consiste em obter os QM na ANOVA, estabelecendo as esperanças matemáticas dos QM [E(QM)], de acordo com o modelo estatístico que rege o delineamento experimental para depois solução das equações resultantes (Vencovsky e Barriga, 1992). É comum no setor florestal, estudar a estrutura genética de uma dada população por meio do emprego do testes de progênies, os quais também permitem a determinação dos parâmetros genético e a definição das estratégias de melhoramento genético. Os parâmetros genéticos de maior interesse para o melhorista são as variâncias genéticas aditivas e não aditivas, o coeficiente de herdabilidade no sentido amplo e restrito, as interações genótipo-ambiente, as correlações genéticas e fenotípicas entre características (Kageyama, 1980). 4.2.5. Componentes da variação fenotípica Para um caráter avaliado em um único ambiente e em uma população panmítica são os seguintes os componentes de variação genética e fenotípica: 48 222 dag : variância genotípica. 2222 eday : variância fenotípica. Estes resultados são válidos considerando a ausência de correlação entre efeitos genéticos e ambientais. Esta ausência de correlação é conseguida por meio da casualização dos genótipos nos ambientes. Uma correlação entre genótipo e ambiente poderia resultar de melhor tratamento (ambiente) dado aos melhores genótipos. Para caracteres avaliados mais de uma vez no indivíduo, supondo também ausência de correlação entre efeitos genéticos e ambientais, tem-se: 22222 etepday : variância fenotípica. As expressões apresentadas para a variância fenotípica incluem o componente 2 c , quando parcelas com várias plantas são empregadas. Definem-se os seguintes componentes de variância: 2 g : variância genotípica. 2 y : variância fenotípica. 2 a : variância genética aditiva. 2 d : variância genética de dominância. 2 ep : variância ambiental permanente. 2 et : variância ambiental temporária. 2 e : variância ambiental. 2 c : variância entre parcelas. De maneira genérica, pode-se expressar: 222 egy , em que 2 g é composto de efeitos genéticos aditivos e não aditivos. Assim, pode-se escrever: 222 naag logo: 2222 enaay Incluindo a epistasia, o componente devido a variância genotípica pode ainda ser desdobrado em variância aditiva, variância de dominância e epistática ( 2 i ), ou seja, 2222 idag . 49 Entre os componentes de 2 g , apenas a variância genética aditiva é passível de exploração pelo melhoramento por via sexuada, pois reflete os efeitos médios dos genes transmitidos de pais aos filhos (Falconer, 1989). Os componentes da variação fenotípica de um caráter podem ser estimados a partir da análise de variância (ANOVA) dos dados obtidos em testes genéticos instalados sob delineamentos experimentais. O procedimento de estimação desses componentes consiste em obter os Quadrados Médios (QM) na ANOVA, estabelecendo as esperanças matemáticas dos QM [E(QM)], de acordo com o modelo estatístico que rege o delineamento experimental para depois solução das equações resultantes (Vencovsky e Barriga, 1992). Alternativamente, pode-se empregar o método REML descrito no Capítulo 10. Os softwares Genes (Cruz, 2006) e Selegen-Reml/Blup (Resende, 2007) podem ser empregados na estimação de parâmetros genéticos. Assim, para cada delineamento experimental existirão componentes de variação fenotípica diferentes, os quais poderão ser obtidos conhecendo-se as E(QM) de cada fonte de variação. O delineamento mais empregado no setor florestal é o de blocos ao acaso, cujo o modelo é apresentado a seguir: Yij = m + gi + bj + eij Onde: i = 1,2,..., I famílias, j = 1,2,..., J repetições, Em que: Yijk = é a observação feita no indivíduo k, daprogênie i, no bloco j; m = é a média geral; gi = é o efeito aleatório da i-ésima família, em que gi NID (0, 2 g ); bj = é o efeito do j-ésimo bloco, em que bj NID (0, 2 b ); eij = é o efeito aleatório da variação entre parcelas, em que eij NID (0, 2 e ). 50 Tabela 5. Esquema da análise de variância para o delineamento em blocos casualizados em nível de média de parcelas. FV GL QM E(QM) Teste F Blocos J-1 Q1 22 be I - Famílias I-1 Q2 22 ge J Q1/Q2 Var. entre I(J-1) Q3 2 e Total IJ-1 g 2 = variância genética devida aos efeitos de família; e 2 = variância devido ao erro experimental entre parcelas; 2 b = variância devido aos efeitos de blocos Estimadores dos componentes de variância: 22222222 2 2 222 ˆˆˆˆ ;ˆˆˆ ;ˆ ˆ2 ˆ 32 ˆ ; 31 ˆ ;3ˆ gbeFegeFbg e F gbe JJ Q J QQ I QQ Q Em que: Fb 2 = variância fenotípica dentro do bloco; F 2 = variância fenotípica em nível de médias das famílias; Fe 2 = variância fenotípica no experimento; b 2 = variância entre blocos; e 2 = variância ambiental entre parcelas; Estimadores dos coeficientes de variação: 100* ˆ (%) ;100* ˆ (%) ;100* ˆ (%) ;100* ˆ (%) ;100* ˆ (%) X CV X CV X CV X CV X CV F F Fe Fe Fb Fb e e g g Em que: CVg = coeficiente de variação genético; CVe = coeficiente de variação experimental; CVFb = coeficiente de variação fenotípico dentro de bloco; CVFe = coeficiente de variação fenotípico no experimento; F CV = coeficiente de variação fenotípico de média de família. 51 4.2.6. Herdabilidade O delineamento de estratégias eficientes de melhoramento depende, fundamentalmente, do conhecimento do controle genético dos caracteres a serem melhorados. Entende-se por controle genético, ou base genética de um caráter, todos os mecanismos genéticos responsáveis pela herança do caráter, tais como o número de genes que o governam, as ações e efeitos gênicos, herdabilidade, repetibilidade e associações genéticas com outros caracteres. Dentre estes fatores, os parâmetros genéticos populacionais denominados herdabilidade, repetibilidade e correlação genética entre caracteres são de particular importância para o melhoramento. A herdabilidade diz respeito à proporção relativa das influências genéticas e ambientais na manifestação fenotípica dos caracteres e indica, portanto, o grau de facilidade ou dificuldade para melhorar determinados caracteres. Caracteres com herdabilidade baixa demandarão métodos de seleção mais elaborados do que aqueles com herdabilidade alta. O coeficiente de herdabilidade varia de 0 a 1, sendo que características com alto valor de herdabilidade têm alto controle genético, enquanto as características de baixa herdabilidade são ditas altamente influenciadas pelo meio ambiente. Herdabilidade no sentido restrito A herdabilidade no sentido restrito mede a proporção da variação fenotípica que pode ser atribuída a variância aditiva, ou seja, a parte da variação genética que é transmitida aos descendentes. O conceito do coeficiente de herdabilidade no sentido restrito foi definido por Lush (1936), em termos de ação aditiva dos genes. De maneira genérica, as definições para a herdabilidade no sentido restrito são: 222 2 2 eda a ah 2222 2 2 tp eeda a ah 2 ' 222 2 2 ecda a ah Para caracteres avaliados mais de uma vez nos indivíduos e populações experimentais com uma planta por parcela. Para caracteres avaliados uma vez nos indivíduos e populações experimentais com várias plantas por parcela. Para caracteres avaliados uma vez nos indivíduos e populações experimentais com uma planta por parcela. 52 2 ' 2 ' 2 ' 22 2 2 tp eecda a ah As expressões apresentadas referem-se à herdabilidade no estrato denominado bloco. A denotação ’ associada aos componentes de variância indica que estes podem se alterar quando são usadas uma planta por parcela (ou uma medição por indivíduo) ou várias plantas por parcela (ou várias medições por indivíduo). Definições similares se aplicam para a herdabilidade no sentido amplo, bastando substituir 2 a por 222 dag no numerador das expressões apresentadas. Herdabilidade no sentido amplo A herdabilidade no sentido amplo contempla a variância genética total, ou seja a variação genética aditiva e a não-aditiva. Sua aplicação é mais comum associada a avaliação de materiais de propagação vegetativa, diferentemente da herdabilidade no sentido restrito que é aplicável aos processos de propagação sexuada. Fatores que afetam a herdabilidade A própria característica pode ter maior controle ambiental ou genético; O método de estimação (sentido amplo e restrito); A diversidade na população (populações formadas a partir de indivíduos divergentes geram maior variabilidade, maior herdabilidade); O nível de endogamia na população; O tamanho da amostra avaliada; O número e o tipo de ambientes considerados (interação genótipos x ambientes), maior estresse ambiental pode acarretar em menor herdabilidade); A unidade experimental considerada (a herdabilidade pode ser estimada com base em dados de uma única planta, em uma parcela, ou com base na média das parcelas); A precisão na condução do experimento (testes genéticos) e da coleta de dados (condução criteriosa, menor erro, maior herdabilidade; em grandes bancos de dados são comuns a existência de erros grosseiros). Estimativas de herdabilidade para algumas espécies florestais são apresentadas na Tabela 6.2. Para caracteres avaliados mais de uma vez nos indivíduos e populações experimentais com várias plantas por parcela. 53 Tabela 6. Estimativas da herdabilidade individual no sentido restrito ( 2 ah ) de características de qualidade da madeira de Eucalyptus. Caráter 2 ah (Média) 2 ah (Amplitude) Altura 0,25 - Diâmetro 0,23 - Volume 0,21 - Densidade Básica 0,57 0,05 a 0,84 Rendimento de Celulose Kraft 0,43 0,30 a 0,56 Comprimento de Fibras 0,39 0,12 a 0,59 Penetração pelo Pilodyn 0,49 0,21 a 0,78 Demanda por Soda 0,50 0,20 a 0,74 Conteúdo de Umidade 0,48 0,28 a 0,82 Diâmetro de Fibras 0,89 - Diâmetro do Lúmen 0,59 - Diâmetro de Vasos 0,67 - Fonte: Raymond (1995) e Cornellius (1994). 4.2.7. Ganhos com Seleção Os ganhos genéticos preditos advindos de um dado esquema seletivo, têm sido referenciados na literatura como uma das grandes contribuições da genética quantitativa. Os progressos genéticos referem-se às modificações observadas nas características de interesse, transcorrido um ciclo de seleção com recombinação e multiplicação das unidades selecionadas. A seleção pode ser feita diretamente para a característica desejada (seleção direta), por meio de caracteres auxiliares (seleção indireta) ou através da técnica de índices de seleção, a qual considera um grupo de características de interesse, reunindoem um único valor (índice) as informações dos indivíduos para as várias características de interesse. Neste último caso, pratica-se a seleção sobre o índice e verificam-se as respostas nas características originais e também no agregado genotípico. A resposta a seleção direta pode ser obtida por meio da seguinte expressão: GS = DS x h2 x p, em que: GS = ganho genético; h2 = herdabilidade; DS = diferencial de seleção; p = controle parental, que expressa a relação entre a unidade de seleção utilizada para identificação de fenótipos superiores e a unidade de recombinação. 54 O diferencial de seleção (DS) refere-se à diferença entre a média dos indivíduos selecionados ( SY ) e a média da população original na qual se praticou a seleção ( OY ). DS = SY - OY O ganho genético esperado ou resposta à seleção depende tanto da herdabilidade como da variação genética presente na população, podendo ser influenciado pelo número de indivíduos selecionados por decisão do melhorista. A seguir o tema ganho genético é apresentado de forma mais detalhada. Uma vez que os genitores (diplóides) passam para sua progênie uma amostra correspondendo à metade de seus alelos, o valor genético aditivo esperado de uma progênie equivale à média dos valores genéticos aditivos preditos de seus genitores masculino e feminino. Por este mesmo princípio, a média da população melhorada (geração descendente) equivalerá à média dos valores genéticos aditivos dos indivíduos selecionados, supondo-se a seleção de um mesmo número de machos e de fêmeas e contribuição eqüitativa de gametas para a geração descendente. O ganho genético pode ser definido como a superioridade (diferença) da população melhorada em relação à população não melhorada, ou seja, 1 - 0. A média genotípica da população melhorada (1) corresponde à média dos valores genéticos aditivos dos indivíduos selecionados ao passo que a média da população não melhorada (0 = OY ) corresponde à média dos valores genéticos de todos os indivíduos da população. Assim, os ganhos genéticos (Gs) podem ser estimados fazendo-se: )( )//( /)]([ /ˆ ˆ 0 0 1 1 000 0 1 01 s N i i N i i N i i s y NNNy Ny NGV G 55 Em que, N é o número de indivíduos selecionados e sy é a média fenotípica dos indivíduos selecionados. O termo 0sy pode ser definido como o diferencial de seleção (ds) e refere-se ao coeficiente de regressão dos valores genéticos aditivos ou valores genotípicos sobre o valor fenotípico. Assim, se o objetivo do melhorista consiste na seleção por valores genéticos aditivos, refere-se à herdabilidade no sentido restrito. Se o objetivo é a seleção por valores genotípicos (propagação clonal dos indivíduos selecionados), diz respeito à herdabilidade no sentido amplo. Levando em conta a seleção massal (individual) de indivíduos visando ao melhoramento da descendência, 2ˆ ass hdG é a expressão padrão para a estimação de ganhos genéticos (Lush, 1937). Considerando a distribuição normal [y~N(, 2)] dos dados observados, uma outra expressão para o ganho genético pode ser derivada. Uma variável aleatória com média e variância 2 pode ser transformada em uma outra variável padronizada denominada z, a qual possui média zero e variância 1, por meio da subtração de cada realização da variável aleatória em relação a sua média e posterior divisão por seu desvio padrão. Assim, para a variável y tem-se: yii yz /)( 0 Ao selecionar os melhores indivíduos de uma população padronizada, seleciona-se uma fração p de indivíduos, os quais são superiores a determinado indivíduo com valor z’. Neste caso, z’ é o ponto de truncamento. O valor médio da proporção p selecionada ( sz ) é obtido pela função distribuição acumulada da distribuição normal padronizada, por: p z zf p e p zdez p z zz z s )'( 1 2 11 2 11 2' 2 2 2 ' Assim, p z zs , em que z é a ordenada da curva normal padronizada no ponto de truncamento z’. Com os dados padronizados, o diferencial de seleção é dado por k p z zzzd ssps 0 , onde k é o diferencial de seleção padronizado. 56 Assim, com os dados previamente padronizados, o ganho genético na escala padronizada (em unidades de desvio padrão), pode ser calculado por: kG ps ˆ . Os valores calculados pela curva normal padronizada podem ser transformados para a escala original, fato que permite calcular o ganho na escala dos dados originais, porém utilizando-se o valor k. São as seguintes as igualdades: k p zdy z y s y s s 0 , em que sy é a média fenotípica dos indivíduos selecionados. A Figura 14, referente à curva normal padrão, ilustra a exposição realizada. Figura 14. Curva normal padrão, ilustrando a proporção (p) selecionada (área hachurada) e o diferencial de seleção padronizado (k), associados ao ponto de truncamento z’. Assim, yss kyd 0 , e, portanto, ys kG ˆ , fornece o ganho na escala original. Os valores de k podem ser obtidos diretamente por intermédio de z, o qual pode ser conseguido pela integração da função distribuição acumulada da curva normal padrão no intervalo que se estende do ponto de truncamento a infinito. k pode ser obtido de maneira mais simples, utilizando-se tabelas que fornecem o ponto de truncamento, a partir do conhecimento da proporção selecionada (área da curva normal padrão). Por exemplo, tendo-se p = 0,10, obtém-se z’= 1,28 e calcula- se 1758,0 2 1 2' 2 z ez e k = 0,1758/0,10 = 1,76. Os próprios valores de k são apresentados em função da proporção selecionada em várias obras (Falconer, 1989; Becker, 1984). Expressões equivalentes e alternativas a ys kG ˆ são: k=z/p p z 0 - +z z 57 ayas rkG ˆ para a seleção visando a propagação sexuada. gygs rkG ˆ para a seleção visando a propagação assexuada. Nas expressões apresentadas, os termos rya e ryg, referem-se à acurácia na predição dos valores genéticos aditivos e genotípicos, respectivamente, utilizando a observação fenotípica como critério de seleção. Em termos genéricos, as estimativas rya e ryg podem ser denotadas ggaa rer ˆˆ , indicando que os valores genéticos e genotípicos foram preditos utilizando um índice baseado em valores fenotípicos. Esta última (em termos da acurácia) forma de expressar o ganho é vantajosa, pois permite a comparação de métodos de seleção por meio de um só parâmetro, a acurácia. Isto porque a e g são propriedades da população e, portanto, constantes através dos métodos de seleção. O coeficiente k, também, em algumas situações pode ser considerado constante através dos métodos de seleção. y e por suas vezes variam através dos métodos. A expressão geral Gs = k râa a refere-se ao progresso genético em um ciclo de seleção. Uma expressão mais importante do ponto de vista prático refere-se ao progresso genético por ano ou unidade de tempo, a qual é dada por Gs = (k râa a)/L, em que L diz respeito ao intervalo de gerações. Por esta expressão, verifica-se que o aumento da eficiência dos programas de melhoramento genético ou aumento do ganho genético pode ser conseguido por meio de: – Aumento da intensidade de seleção ou seleção de um menor número de indivíduos. – Utilização de métodos mais acurados de predição de valores genéticose seleção. – Uso de germoplasma com maior variabilidade genética. – Minimização do intervalo entre gerações. É importante relatar que, na prática (usando o software Selegen-Reml/Blup), o ganho genético é computado diretamente como a média dos efeitos genéticos aditivos (visando a propagação sexuada) e genotípicos (visando a propagação clonal) dos indivíduos selecionados. Assim, não há necessidade de cômputo do diferencial de seleção e nem de se usar o diferencial de seleção padronizado k. 58 4.3. Endogamia A endogamia refere-se ao cruzamento de materiais genéticos aparentados, levando ao acúmulo de genes em homozigose, o que pode ser prejudicial nas espécies de polinização cruzada (alógamas), uma vez que as populações naturais destas espécies são portadoras de alelos recessivos deletérios, que podem provocar a perda de vigor, refletida pela redução na média da população, denominada depressão endogâmica. O caso extremo de endogamia em plantas alógamas é a auto-fecundação, mas estas espécies são portadoras de mecanismos de auto- incompatibilidade, excluindo-se a autofecundação do modo de reprodução. As plantas autógamas não expressam depressão endogâmica, no entanto, vale ressaltar que este sistema de reprodução é pouco comum em espécies florestais. Os efeitos prejudiciais da endogamia em plantas e animais são conhecidos há várias décadas. Desde a mais remota história, o casamento entre pessoas com estreito grau de parentesco era desestimulado para evitar o nascimento de crianças com defeitos congênitos. No caso de plantas, as características indesejáveis ou anormalidades mais comuns são as deficiências de clorofila, que geram plantas albinas ou estriadas, a esterilidade e o nanismo. Pode ocorrer também, perda de vigor generalizada, com redução da produtividade, redução da altura, do tamanho dos frutos e atraso no ciclo. O nível de endogamia em uma população pode ser estimado por meio do “coeficiente de endogamia (F), que expressa o grau de homozigose, indicando a heterozigose perdida por geração. Refere-se, portanto, à probabilidade de que dois genes em um loco sejam idênticos por descendência. 4.3.1. Endogamia devida ao pequeno tamanho efetivo O coeficiente de endogamia foi definido inicialmente por Wright como correlação entre gametas que se unem, e Malecot o definiu como a probabilidade de que os dois alelos de um loco em um indivíduo sejam idênticos por descendência. Logo, está implícito que o termo endogamia refere-se ao processo de cruzamento entre indivíduos mais aparentados entre si do que o são, membros aleatórios da população (Kempthorne, 1957) e que tem por conseqüência um aumento da homozigose da população. Dessa forma, é um conceito relativo à população ancestral. 59 Considere-se uma população de referência sendo diplóide, monóica (com autofecundação permitida) e não endógama. Todos os genes em um loco são não idênticos por descendência, de forma que numa população de N indivíduos, cada loco produz, aleatoriamente, 2N diferentes tipos de gametas igualmente, com freqüência 1/(2N), para produzir os indivíduos da próxima geração. Percebe-se, então, que a probabilidade de um indivíduo ser fecundado, a partir de um gameta oriundo dele mesmo é 1/(2N). Assim, quanto menor for o tamanho N da população reprodutiva, maior será a endogamia na geração subseqüente. O coeficiente de endogamia devido ao pequeno tamanho populacional, quantificado em termos de aumento da homozigose ou perda de heterozigose, eqüivale a F = 1/(2N), em que N refere-se a indivíduos não aparentados na população ideal de referência, ou seja, N é igual ao número efetivo de indivíduos que participam da reprodução. Assim, de maneira generalizada, é melhor definir F = 1/(2Ne), onde Ne é o tamanho efetivo populacional. Outra maneira de obter F = 1/(2N) é baseada na probabilidade de dois gametas idênticos se unirem, ou seja, F = 2N(1/(2N))2 = 1/(2N) (Resende, 2002). A população reprodutiva da geração 1 (oriunda da população original ou geração 0) novamente é finita e nova endogamia será acrescida à prévia, na 2ª geração. Esta endogamia nova ocorre também na proporção 1/(2Ne), e a proporção restante (1-1/(2Ne)) em parte é endógama devido à endogamia F1 precedente, ou seja, devido a alelos idênticos a partir da origem 0 e não 1. Assim, a endogamia da geração 2 será 12 2 1 1 2 1 F NN F ee , ou seja, a soma das probabilidades dos dois eventos mutuamente exclusivos. Por extensão, pode-se obter o coeficiente de endogamia em uma geração qualquer n, pela expressão: 1 2 1 1 2 1 n ee n F NN F , ou, de maneira mais geral 11 nn FFFF , em que 1 1 12 1 n nn e F FF N F é o acréscimo na endogamia a partir de uma geração de cruzamentos aleatórios em uma população finita. Por esta expressão, verifica-se que se não existe endogamia em determinada geração, ou seja, se o tamanho populacional for aumentado substancialmente, não existe F , mas toda a endogamia 1nF , obtida, previamente, permanece. 60 Logo, pode-se projetar a endogamia clássica, conforme acima apresentado, em tabelas tomando-se por base o número de indivíduos iniciais amostrados e número de gerações, como apresentado no quadro abaixo: N de genótipos Coeficiente de Endogamia 10 gerações 100 gerações 5 0,6514 0,999 25 0,1828 0,8673 50 0,0955 0,6335 100 0,0489 0,3946 250 0,0198 0,1815 Daí pode-se concluir que o número de indivíduos geneticamente distintos, correspondente ao tamanho efetivo populacional (Ne) é de extrema importância para o sucesso de todo e qualquer programa de melhoramento e que deve ser considerado, particularmente, na constituição da primeira geração (população- base), visto que a endogamia é uma conseqüência inevitável da estrutura genética da população e do número de gerações de melhoramento. 4.3.2. Efeitos da endogamia na média (depressão endogâmica) e variâncias populacionais Com endogamia, a média genotípica populacional é reduzida desde que haja variabilidade genética e algum nível de dominância alélica. O fenômeno associado à redução na média é denominado depressão endogâmica, o qual resulta da mudança das freqüências genotípicas da população, após esta ter sofrido endogamia. O termo depressão endogâmica caracteriza-se pelos efeitos da perda de heterozigose, comparando-se a população não endógama (com F = 0) com a população totalmente endogâmica (com F = 1). Assim, com uma geração de autofecundação em uma população não endógama tem-se F = 1/2 e, conseqüentemente, metade da depressão endogâmica. A homozigose produzida pela endogamia pode ser útil na detecção e eliminação de alelos recessivos deletérios e semideletérios. Assim, métodos de melhoramento que levem à ocorrência de endogamia podem ser interessantes como 61 forma de reduzir a carga genética existente em populações panmíticas. Importante faz-se, ainda, relatar que a endogamia não altera as freqüências alélicas, de forma que por si só não fornece ao melhorista o que ele deseja. Sua utilização deve ser então acompanhada de seleção, que é a única força capaz de conduzir ao melhoramento. Considerando toda uma população, a endogamia aumenta a variância genética total, embora diminua a diversidade alélica dentro de indivíduos. Entretanto, subdividindo a população em várias subpopulações por meio de amostragem aleatória, a variância genética dentro de subpopulações eqüivalerá a (1-F) vezes avariância genética original. E esta redução na variação genética é o que ocorre em populações com tamanho efetivo baixo (que são amostras de uma população base). Por sua vez, a variação genética entre subpopulações aumenta, podendo conduzir a uma diferenciação entre elas. 4.4. Heterose A heterose ou vigor híbrido é o aumento do vigor, da altura da planta, do conteúdo de carboidratos, da produtividade e da intensidade de outros fenômenos fisiológicos (taxa fotossintética, tamanho das células, tamanho de frutos, precocidade do ciclo, etc), decorrente do cruzamento entre indivíduos geneticamente contrastantes. Do ponto de vista acadêmico, o híbrido expressa heterose quando é superior à média dos genitores e, do ponto de vista comercial, quando é superior ao melhor genitor. A heterose tem sido observada na maioria das espécies, incluindo as autógamas. As hipóteses explicativas da heterose são: a) Hipótese de Dominância: o híbrido pode conter maior número de alelos dominantes favoráveis do que os genitores isoladamente. Exemplo: Os alelos dominantes A, B e C contribuem igualmente para a heterose, enquanto os alelos recessivos a, b e c, são desfavoráveis. 62 b) Hipótese de sobredominância: existência de um estímulo fisiológico em indivíduos heterozigotos; a presença de alelos contrastantes em cada loco provocaria a ativação de rotas bioquímicas que, somadas, resultariam em heterose superior à daqueles indivíduos que apresentam um único tipo alélico em cada loco. Ao contrário da endogamia, que se refere a cruzamentos entre indivíduos aparentados, na exogamia os cruzamentos ocorrem entre indivíduos (ou grupos de indivíduos) que possuem coeficiente de parentesco menor que o médio da população. A exogamia ou cruzamento entre entidades geneticamente divergentes promove o aparecimento do fenômeno denominado heterose, o qual, em princípio, está associado com a heterozigose promovida pela exogamia. A heterose ou vigor híbrido é geralmente definida como a superioridade da média dos filhos em relação à média dos pais. Neste sentido, só pode ser explicada geneticamente, se for considerada alguma dominância associada ao caráter em questão. A heterobeltiose, por sua vez, é um caso particular de heterose em que a média dos filhos supera a média do genitor superior. Para determinados caracteres, os genótipos heterozigóticos dos filhos podem apresentar média inferior à média dos pais. Alguns autores referem-se a este fenômeno como “heterose negativa” e este só pode ser explicado por dominância negativa, ou seja, dominância no sentido de diminuir a expressão do caráter. Em termos biométricos, Falconer (1989) relata que para um loco com dois alelos a heterose é dada por: He = MF1 - Mp = (p – p’)2 d, Em que: MF1:média da 1 a geração filial descendente do cruzamento entre duas populações. Mp: média das populações genitoras. p e p’: freqüências dos alelos favoráveis nas duas populações. d: valor genotípico do heterozigoto (associado ao efeito de dominância). A partir desta expressão conclui-se: (i) a magnitude da heterose depende do grau de diversidade (p – p’) alélica entre as populações e do nível de dominância. (ii) a heterose só ocorre se houver dominância e diversidade alélica, simultaneamente. (iii) a heterose será máxima quando um alelo é fixado em uma população e outro alelo, na outra população. 63 Estas conclusões permitem inferir que incrementar, sob seleção recíproca, a endogamia em populações genitoras divergentes e, posteriormente, cruzá-las é um procedimento que permite maximizar a heterose em um caráter com dominância. Ao nível dos vários (n) locos de um caráter quantitativo, a heterose pode ser expressa por: ii n i ie dppH 2 1 )'( A partir desta expressão, conclui-se que: (i) Se alguns locos apresentam dominância positiva e outros dominância negativa, os efeitos podem ser cancelados e não haver manifestação de heterose. Assim, a heterose em um caráter quantitativo depende de dominância direcional e a ausência de heterose não é suficiente para inferir sobre ausência de dominância. (ii) A heterose é a soma dos efeitos heteróticos dos locos em heterozigose na geração filial. Com base nestas conclusões, poder-se-ia inferir que a heterose seria tanto maior quanto maior fosse a diversidade alélica entre as populações. Entretanto, isto nem sempre é verificado na prática devido à ocorrência de interações epistáticas e combinações gênicas coadaptadas que são quebradas quando populações extremamente divergentes são cruzadas (Falconer, 1989). A heterose em porcentagem é calculada por He = [(MC – MP)/MP] x 100, em que MC é a média da progênie obtida por cruzamento e MP é a média das populações genitoras. Tipos de heterose Resultados de heterose em várias espécies têm evidenciado que o seu nível é inversamente proporcional à herdabilidade (no sentido restrito) do caráter. Assim, maior heterose tem sido verificada para características de produção e outras relacionadas com a reprodução, as quais apresentam herdabilidades baixas. Em plantas, podem ser definidos dois tipos de heterose (Resende, 2002): – Baseline heterosis: heterose básica verificada no âmbito intrapopulacional por meio da comparação entre a média do híbrido de duas linhagens extraídas da mesma população com a média destas linhagens. Neste caso, o vigor perdido durante a endogamia é restaurado no F1 e, pode-se dizer que esta heterose é o efeito oposto ao da depressão endogâmica. – Heterose panmítica: também denominada heterose funcional, verifica-se no cruzamento entre duas populações comparando-se a média da população híbrida com a média das duas populações genitoras per se. Esta é a heterose relevante para espécies perenes e é definida no nível interpopulacional e não no nível 64 intrapopulacional, como o é, a depressão endogâmica. Em espécies anuais, em que são utilizados híbridos de linhagens obtidas de populações divergentes, a heterose em relação à média dessas linhagens equivale à heterose panmítica mais a heterose básica. Neste caso, a heterose é função da divergência genética, dominância e depressão endogâmica. A heterose panmítica é função apenas da divergência genética e da dominância. 5. RECURSOS GENÉTICOS 5.1 Variação genética em populações naturais A variação biológica é resultante do processo evolutivo, proporcionando indivíduos adaptados a cada tipo ambiental. As alterações no conteúdo hereditário desses indivíduos bem como os fatores do meio, podem levar a diferenças genéticas tão acentuadas ao ponto de constituir uma nova espécie, isolada reprodutivamente e incompatível com aquela que lhe deu origem. A mutação constitui a principal responsável pelo surgimento de novos alelos em uma população. Apesar de ocorrer em freqüências muito baixas, da ordem de 1:20.000, ela garante muitas vezes a sobrevivência da espécie em um novo ambiente ou mesmo a sua evolução no sentido da especiação. O fluxo gênico entre e dentro de populações e a conseqüente recombinação dos indivíduos, garante o arranjo da estrutura genética dessas populações, na idade e no ambiente particular em que elas se encontram, proporcionando maior ou menor variabilidade, conforme a diversidade genética e o número de indivíduos que deram origem a cada população. Essa variabilidade precisa ser considerada para o uso racional de cada espécie. Segundo Kageyama (1987), a diversidade genética pode ocorrer em diferentes níveis: a) de espécies dentro de ecossistemas; b) de populações dentro de espécies e c) de indivíduos dentro de populações da espécie. A caracterização dessesdiferentes níveis de diversidade é imprescindível para o planejamento da conservação genética. A quantificação da variabilidade natural existente nas espécies, através do estudo da estrutura genética de populações, permite o entendimento de como cada 65 espécie aloca seus recursos de variabilidade na evolução. Este conhecimento possibilita ainda estabelecer estratégias racionais para planos de conservação genética, através da definição da forma mais correta para manter a variabilidade genética e a capacidade de evolução natural das espécies (Dias, 1988). O aumento do conhecimento dos ecossistemas naturais nos trópicos terá implicações diretas, tanto nos processos de cultivo para diferentes espécies, como nos programas de melhoramento genético, no que se refere à crescente exploração da variabilidade existente nas espécies. De acordo com Pamplona (2000), em alguns programas de melhoramento de espécies da região amazônica, vem se processando, gradativamente a perda da variabilidade genética, devido, principalmente, ao pouco interesse em conservar material que não apresente características desejáveis, no atual estádio de desenvolvimento das técnicas de melhoramento inerente a cada espécie. Entretanto, esse material, atualmente considerado de pouca importância para os melhoristas, poderá ser de grande utilidade no futuro. Daí a necessidade de se conhecer mais e melhor as espécies nativas que poderão vir a ser promissoras em diversos aspectos e utilizadas em vários setores. O cultivo de espécies florestais nativas requer domínio tecnológico para possibilitar sua exploração em bases racionais. Afora os problemas silviculturais que vão desde a produção de sementes até a fase de colheita, o melhoramento preocupa-se em conhecer e explorar a capacidade adaptativa das espécies autóctones, no sentido de selecionar material precoce, de rápido crescimento e boas características tecnológicas (Paiva, 1998). Portanto, a manipulação das espécies em programas de melhoramento requer o conhecimento da variabilidade genética intra e interpopulacional, expressa através dos caracteres de interesse. 5.2. Aspectos evolucionários das populações naturais Controvérsias contemporâneas entre botânicos e zoologistas sobre modelos de especiação em plantas comparados com os animais podem ser melhor avaliadas quando se tem em mente que os animais são móveis, procuram seu ambiente (flexibilidade de comportamento) e então tendem a ser mais especializados e menos variáveis que as plantas. Por outro lado, a maioria das plantas está intimamente ligada aos seus ambientes e necessitam possuir suficiente flexibilidade de desenvolvimento para existirem onde estão localizadas (Mettler e Gregg, 1973). 66 A compreensão do mecanismo de evolução como um processo requer um conhecimento básico da variação em população, particularmente da variação genética (Martins, 1987). No tempo em que Darwin e outros evolucionistas pioneiros no auge de sua produção literária, o principal apoio de suas teses foi que a variação hereditária é necessária para o avanço filogenético. Conforme Mettler e Gregg (1973), o status evolucionário de uma população do ponto de vista genético, é caracterizado pela freqüência relativa dos alelos (freqüência alélica) em loci individuais na população em um dado tempo. A mutação como uma força evolucionária, dirige a mudança na freqüência gênica alterando um estado alélico em outro em uma determinada taxa. Algumas mudanças na variabilidade genética são críticas, como é demonstrado por alelos mutantes recessivos cuja freqüência é tão baixa que existem quase que exclusivamente em heterozigotos. A variação potencial (armazenada) tornar-se-á a variação livre (expressa) à medida que mutações recorrentes se acumulam e heterozigotos segregam. Variação livre é manifestada pelos fenótipos e torna-se a matéria-prima da seleção natural. A definição de evolução pode ser fornecida através de vários ângulos. Sob o ponto de vista genético, ela corresponde “a qualquer alteração das freqüências alélicas da população, visando torná-la mais adaptada” (Ramalho et al., 2008). A seleção natural em espécie autógama tende a destacar genótipos cujos mecanismos reprodutivos possibilitem o surgimento de homozigose e, por extensão, de endogamia. Paralelamente, se muitas espécies alógamas não podem prescindir da condição heterozigótica para manterem um bom valor adaptativo, é compreensível que a seleção natural tenda a preservar os mecanismos que, surgidos por mutação, incentivem ou mesmo determinem a fecundação cruzada (Pinto, 1995). Na seleção natural para fins reprodutivos, a seleção opera eliminando os genótipos defeituosos (Namkoong, 1979). Cabe aqui, um esclarecimento quanto aos conceitos genético-evolutivos dos termos espécie, população, raça e variedade taxonômica (Resende et al., 1995). “Espécie” refere-se a conjunto de indivíduos capazes de se reproduzirem por cruzamento, deixando descendentes férteis. Está implícito na definição que indivíduos pertencentes a diferentes espécies não se cruzam, ou cruzam-se sem sucesso reprodutivo. “População” refere-se a um grupo de indivíduos que trocam alelos entre si e, portanto, compartilham de um conjunto gênico comum. 67 Por sua vez, “raça” diz respeito a uma população reprodutiva local, que exibe características diferenciadas de outras populações da espécie e, normalmente, estas características são fixadas. Já uma “variedade taxonômica” refere-se a uma subdivisão de uma espécie que apresenta características morfológicas e distribuição geográfica distintas daquelas observadas normalmente para a espécie. Portanto, está implícito que variedades taxonômicas referem-se às populações isoladas, que estão se diferenciando por não trocarem genes com outras populações da espécie. Uma variedade taxonômica pode ser definida, então, como um estágio avançado de raça, que já merece uma nomenclatura botânica diferenciada. Diferenciações fenéticas, ou seja, morfológicas, existem em cada população (procedência e/ou origem) de espécies florestais, e devem ser adequadamente utilizadas em benefício da conservação e melhoramento genético. 5.3. Conservação genética Segundo Kageyama e Dias (1982), a filosofia da conservação genética se baseia na manutenção da variabilidade genética entre e dentro de populações como condição essencial e insubstituível para a continuidade da evolução das espécies. A utilização de métodos “ex situ” e “in situ” pode contribuir satisfatoriamente para a conservação genética das espécies, porém estas técnicas estão longe de suprir todas as necessidades. Assim, a variabilidade genética de muitas espécies tem sido perdida por desmatamentos, doenças e extrativismo indiscriminado, além de outras modificações mais lentas e sutis. Dessa forma os armazenamentos tecnológicos e naturais (bancos de sementes) são técnicas relativamente seguras e econômicas contra essas perdas, assegurando valiosos germoplasmas das espécies que correm risco de extinção (Aguiar et al., 2001). Na conservação “in situ” as espécies são deixadas em seus habitats naturais, objetivando garantir proteção ao seu conjunto de genes e quando necessário possibilitar o conhecimento científico da tecnologia reprodutiva, ecologia, padrão de distribuição, além do conhecimento prévio da existência de variabilidade genética e de sua forma de distribuição comparada a outras populações naturais (Paiva, 1998). Enquanto que na conservação “ex situ” as espécies são protegidas em lugares fora de seu habitat, tanto por material reprodutivo quanto por plantas vivas em arboretos, jardins botânicos ou mesmo em laboratórios.68 Com exceção de espécies como o pinheiro-do-paraná (Araucária angustifólia) a maioria das espécies florestais incluídas na relação de espécies em extinção, ou de interesse para conservação, são espécies nativas, perenes, de grande porte e cuja sustentabilidade silvicultural é complexa ou desconhecida. Para essas espécies, a metodologia mais recomendada é a conservação genética “in situ”. Atualmente a única maneira de protegê-las é através da criação de unidades de conservação, reservas biológicas ou reservas de patrimônio particular. É desejável que uma população para conservação “in situ” mantenha os seus potenciais de evolução e por isso, sua estrutura e da comunidade não devem ser alteradas. Tendo em vista o extrativismo associado à exploração econômica, programas de conservação dos recursos genéticos são prioritários, como única forma de se evitar, no futuro, um colapso na cultura de várias espécies florestais. Neste sentido, é importante salientar que toda silvicultura é dependente da utilização adequada dos recursos genéticos, e portanto, a degradação do germoplasma ou erosão genética pode conduzir à consequências drásticas. Ações de conservação genética devem ser fundamentadas em sólidos princípios de genética de populações. Esse ramo da ciência fornece os subsídios técnicos necessários ao estudo da variabilidade genética natural da espécie e sua distribuição “entre” e “dentro” de populações contribuindo, consequentemente, para o delineamento de eficientes metodologias e estratégias de amostragem de germoplasma, com vistas à conservação e utilização. A amostragem em populações naturais e em bancos de germoplasma, com vistas à conservação genética “ex situ” e/ou utilização em programas de melhoramento, deve fundamentar-se no conceito de tamanho efetivo populacional (Ne). Este conceito está relacionado à representatividade genética de amostras de plantas e sementes, e indica tamanho genético, e não físico. Com base neste conceito, torna-se possível dimensionar e especificar o tamanho de amostras, em termos de número de matrizes (que originarão as progênies) e número de indivíduos (sementes) por matriz, de forma a se reter determinado nível de variabilidade genética nas amostras. Resende & Vencovsky (1990) relatam que um número mínimo de 20 matrizes, com 100 indivíduos por matriz, é adequado para representar uma população alógama monóica. Com uma amostragem desta magnitude (Ne ~ 80), alelos com 69 freqüência 5% são retidos na amostra e, portanto, apenas os alelos raros não são retidos. Um maior número de matrizes ou progênies é necessário para a retenção de alelos mais raros. É importante salientar que não é compensador trabalhar com número de indivíduos superior a 100, sendo, nesse caso, recomendável trabalhar com maior número de matrizes, mantendo fixo o número de indivíduos por matriz (Vencovsky, 1986). O cruzamento entre indivíduos de diferentes populações contribui para o aumento da base genética e, conseqüentemente, para a redução dos níveis de endogamia da espécie. Assim, a reunião de diferentes populações em uma população composta é desejável, em termos de tamanho efetivo. E nessa reunião, conforme Resende & Vencovsky (1990), o tamanho efetivo é maximizado quando se tomam quantidades de sementes ou de indivíduos de cada população, proporcionais ao respectivo tamanho efetivo de cada população. Adicionalmente à conservação em bancos de germoplasma, a conservação ou preservação “in situ” também é extremamente importante para espécies florestais. A preservação “in situ” tem a vantagem de preservar integralmente o “pool” gênico das populações, e permite que as populações sigam o seu curso normal de evolução orgânica. Na conservação “in situ”, apenas a abordagem quantitativa, em termos de tamanho efetivo, não é suficiente; é desejável conhecer profundamente a espécie, em termos biológicos, suas peculiaridades e interrelações com outras espécies de plantas e animais, e com o ecossistema de maneira geral. Finalmente, é importante relatar que, devido ao grau elevado de extrativismo associado à espécies florestais, muitas populações naturais foram transformadas em fragmentos de população, onde muitos indivíduos morreram por ação do homem. Dessa forma, a amostragem em populações propriamente ditas e a conservação “in situ” deverão ser praticadas, principalmente, em áreas de preservação, como parques e reservas florestais. 5.3.1. Estratégias para aumento do Ne e manutenção da variabilidade Em conservação genética é desejável a minimização da endogamia e da perda de variação genética no processo de gerenciamento genético das populações a serem conservadas. Esse processo baseia-se na retenção da heterozigose (que representa potencial evolutivo) e da diversidade alélica, que são freqüentemente relacionados, embora a heterozigose seja menos afetada por grave afunilamento 70 devido ao pequeno tamanho populacional (Frankham, 1995a). A proporção esperada de variação genética neutral (heterozigose Ht) retida em uma dada população após t gerações é dada por (Resende, 2002): FNHH teot 1)2/(11/ Em que: Ho : heterozigose inicial. F : coeficiente de endogamia. Por esta expressão, verifica-se que a retenção de heterozigose é maximizada por: a) Maximização da heterozigose inicial, trabalhando com populações com maiores variabilidades genéticas e com maiores números de fundadores não aparentados. A imigração também é uma forma efetiva de ampliação de variabilidade e aumento da adaptação reprodutiva. b) Maximização do intervalo entre gerações, ou seja, minimização do número t de gerações. Há perda de representatividade genética em relação à população inicial a cada passagem de geração, mesmo que o Ne seja mantido constante em cada uma. Assim, a conservação via armazenamento de sementes por longos períodos também é desejável. c) Maximização do tamanho efetivo populacional. O Ne depende do número (N) total de indivíduos da população reprodutora, da variação no tamanho de família, da proporção de sexo, da flutuação de N através das gerações e da seleção dentro da progênie (que afeta a média e a variância ( 2 k ) do número k de gametas contribuídos pelos genitores). Assim, as seguintes ações contribuem para maximizar o Ne. a) Maximizar N e, simultaneamente, a relação Ne/N. Ne/N não deve ser maximizado apenas às custas de um baixo N. b) Manter igual tamanho de família )0( 2 k . Este procedimento, praticamente, duplica o Ne. c) Manter a proporção de sexo próxima de 1:1. Quanto maior a discrepância entre número de machos e de fêmeas, menor o Ne. d) Manter um Ne desejável e constante nas gerações, já que o eN (tamanho efetivo em relação à população original) em uma determinada geração corresponde à média harmônica dos Ne mantidos nas gerações anteriores, a qual depende sobretudo dos valores baixos de Ne em cada geração. Deve-se evitar a seleção entre famílias, a qual reduz o Ne. A seleção dentro de famílias deve ser praticada em intensidades iguais dentro de famílias )0( 2 k . Na experimentação devem ser utilizadas parcelas com poucas plantas e muitas repetições. As estratégias apresentadas são mais adequadas à conservação 71 genética ex situ. 5.3.2. Proporção Ne/N em populações silvestres Resultados experimentais revelaram que as estimativas de Ne/N na natureza equivalem, em média, a 0,11, valor muito mais baixo do que geralmente suposto (Frankham, 1995c). Esta informação reforça a necessidade de cuidados amostrais por ocasião da coleta de germoplasma em populações naturais, devendo-se amostrar indivíduosespacialmente distantes. Procedendo desta forma, torna-se reduzida a possibilidade de que sejam tomados indivíduos aparentados. O gerenciamento genético destas populações naturais pode potencialmente aumentar o Ne, por meio de intervenções humanas com o objetivo de manter a proporção de sexo em 1:1 (espécies dióicas) e N constante nas diferentes gerações. A manutenção do mesmo tamanho de família seria interessante não apenas por praticamente duplicar o Ne, mas também por remover a seleção natural entre famílias. Mas na natureza esta última prática é bastante dificultada. Uma vez que Ne/N na natureza é baixo, o tamanho da população (N) para conservação/preservação in situ deve ser muito maior do que geralmente descrito. Outro fator muito importante a ser considerado na conservação in situ é o fluxo gênico via bancos de sementes no solo (Martins, 1987). Maiores detalhes referentes à conservação in situ podem ser encontrados em Kageyama (1987, 1990). 5.3.3. Valores de Ne adequados à conservação genética Os valores adequados de Ne a serem adotados para conservação genética são determinados em função, principalmente, de dois critérios: prevenção de depressão endogâmica e manutenção do potencial evolutivo. Para prevenção de depressão endogâmica um Ne de 50 é suficiente. Por outro lado, para manutenção do potencial evolutivo da população indefinidamente, um Ne da ordem de 500 é suficiente, considerando o balanço entre deriva genética e mutação (Frankham, 1995a). A preservação ex situ demandaria um Ne da ordem de 50. Entretanto, com Ne da ordem de 50, somente se conseguem reter alelos com freqüência 6%. Para a retenção de alelos com freqüência 1% um Ne da ordem de 150 deve ser utilizado (Vencovsky, 1987). Este número pode ser atingido com uma amostra de cerca de 40 72 matrizes da natureza, em populações alógamas, por meio de pelo menos 100 sementes. 5.3.4. Recomendações para a conservação genética As seguintes estratégias e ações podem ser adotadas visando à conservação genética de espécies predominantemente alógamas: a) Trabalhar com populações mais variáveis geneticamente. b) Maximizar o intervalo entre gerações. c) Maximizar a relação Ne/N. d) Manter igual tamanho de família. e) Manter a proporção de sexo próxima de 1:1. f) Manter um valor de Ne desejável e constante através das gerações. g) Utilizar parcelas com poucas plantas e muitas repetições; h) Adotar Ne na faixa de 500-5000 para conservação in situ e Ne de 150 (40 famílias) por população para conservação ex situ. i) Trabalhar com pelo menos cinco a dez populações. j) Praticar intercruzamento entre populações em gerações avançadas de conservação. k) Para a conservação associada a programas de melhoramento, dar preferência aos métodos de seleção dentro de progênies e seleção massal, em detrimento da seleção pelo BLUP e entre famílias. l) Para estudos em genética de populações, tamanhos amostrais da ordem de 180 a 200 indivíduos por população, pertencentes a cerca de 20 progênies, são adequados. Menor número de indivíduos pode ser empregado, desde que associado a maior número de progênies. 73 6. MELHORAMENTO GENÉTICO FLORESTAL O melhoramento genético é a aplicação de técnicas de seleção e recombinação, com vistas ao aumento da freqüência dos genes favoráveis às características de interesse, em uma dada população. Associa: genética + seleção + característica, por espécie. Resende (2005) relata que melhoramento florestal é uma ciência relativamente nova, tendo um maior desenvolvimento a partir de 1950 e as primeiras espécies a serem melhoradas em larga escala foram provavelmente Pinus elliottii e Pinus taeda, nos Estados Unidos, e Acácia mearnsii (acácia-negra), na África do Sul. No Brasil, o melhoramento florestal desenvolveu a partir de 1967, com a implantação da Lei dos Incentivos Fiscais ao Reflorestamento. O melhoramento genético florestal visa o aumento da produtividade, adequação da matéria prima ao produto final, melhoria nas condições adaptativas, tais como a capacidade de florescimento e produção de frutos e sementes, resistência a pragas e doenças e, principalmente, a manutenção da variabilidade genética (Pigato e Lopes, 2001). Neste contexto, segundo Zobel e Talbert (2003), os programas de melhoramento florestal devem buscar: Determinar as espécies ou fontes geográficas dentro de uma espécie que possam ser usadas em dada área; Determinar as causas, a quantidade e a natureza da variabilidade dentro de espécies; Produzir árvores que reúnam as combinações de características desejadas; Produzir maciçamente materiais melhorados para fins de reflorestamento; Desenvolver e manter uma população base suficientemente adequada para garantir progressos em gerações avançadas. No entanto, o melhoramento florestal apresenta algumas desvantagens em relação a outras culturas como: Tempo de rotação; Dificuldades de mensuração, cruzamento e coleta de sementes; Falta de conhecimento da variabilidade genética para as características desejadas. A Figura 15 reflete um programa de melhoramento por vários ciclos de seleção, a partir de uma população base e considerando a produção de material propagativo em diferentes níveis de melhoramento. 74 POPULAÇÃO BASE AVALIAÇÃO E SELEÇÃO SEMENTES OU PROPÁGULOS DE QUALIDADE GENÉTICA SUPERIOR POPULAÇÃO NATURAL (origem) POPULAÇÃO PLANTADA - DOMESTICADA A)procedência) POPULAÇÃO DE DOMESTICAÇÃO RECOMBINAÇÃO TESTE GENÉTICO ACS PSM, PSC CLONAGEM ACS, APS CLONAGEM COMERCIALIZAÇÃO FIGURA 15 - Esquema geral de um programa de melhoramento florestal e de produção de material propagativo melhorado. 75 De acordo com Reis et al, (2005), os principais elementos de um programa de produção de sementes melhoradas podem ser identificados como: a) melhoramento genético, avaliação e recomendação de cultivares, bem como produção de sementes genéticas; b) produção e distribuição de sementes básicas; c) descrição e registro de cultivares; d) legislação adequada à regularmentação das atividades de produção, distribuição, importação e exportação de sementes; e) treinamento para um melhora manejo de sementes; f) infra-estrutura física adequada de produção, beneficiamento, armazenamento, distribuição e análise de sementes; g) organização do sistema de produção de sementes de qualidade garantida; h) motivação do setor privado, visando seu envolvimento nas atividades de produção e distribuição de sementes; i) pesquisa em sementes, para solucionar os problemas técnicos de produção e de qualidade e servir de suporte ao desenvolvimento do programa; j) planejamento, execução e avaliação contínuos, para definir objetivos e metas concretas, implementar o programa, revisá-lo periodicamente e modificá-lo, sempre que necessário, aumentando sua eficiência, seu alcance e sua versatilidade. Vale ressaltar, entretanto, que no setor florestal um programa de melhoramento, dependendo da espécie, pode contemplar tanto procedimento sexuado (semente) como assexuado (propagação vegetativa), Figura 16. MELHORAMENTO GENÉTICO EXPERIMENTAÇÃO (TESTE GENÉTICO) AVALIAÇÃO E SELEÇÃO Produção de Sementes Produção de Clones Colheita de Sementes Caracterização dos Clones Beneficiamento das Sementes Proteção de Clones (Cultivar) Análise e Certificação das Sementes Recomendação Clonal DISTRIBUIÇÃO E COMERCIALIZAÇÃOFIGURA 16 – Fluxograma de programa de melhoramento florestal e a produção e comercialização de material propagativo superior. 76 6.1. Escolha de Espécies/Procedências O processo de domesticação é uma etapa necessária a todo e qualquer projeto que visa a utilização de espécies que se encontram em estado selvagem, isto é, espécies cuja população base é a própria população natural. Obviamente que as espécies a serem consideradas devem ser eleitas em função dos objetivos pretendidos, como: madeira para a indústria (celulose, chapas, móveis), madeira roliça (construção civil, mourões, energia), produção de forragem, produção de essências, proteção (erosão, quebra-vento, sombra), paisagismo, recuperação de áreas degradadas, ou outros. Na eleição das espécies deve-se levar em consideração também os fatores edafoclimáticos da região de ocorrência natural e da região de interesse para plantio, buscando a definição das fontes de sementes (procedências) para serem testadas e avaliadas, capitalizando a proximidade das condições ecológicas entre as duas regiões. O que se espera é que quanto maior for a semelhança entre as regiões em termos de características geográficas (altitude e latitude), climáticas (volume e distribuição das chuvas, déficit hídrico, temperatura média, mínima e máxima mensal e anual) e de solo (arenoso, argiloso, fertilidade, presença ou não de camada de impedimento) maior é a chance de adapatação da espécie/procedência, avaliada pela capacidade de sobrevivência e crescimento vegetativo. 6.1.1. Amostragem Uma vez definidas as espécies, deve-se efetuar o levantamento das áreas geográficas de ocorrência natural que atendam ou aproximam das características edafoclimáticas da região de interesse para plantio, a fim de eleger as procedências para teste, assumindo a hipótese da existência de variação geográfica, isto é, de variação entre procedências ou populações. Um outro fator importante a ser considerado é a densidade de árvores por hectare e a forma de ocorrência (mosaicos, contínua, ao acaso), de modo a estabelecer um número de árvores matrizes a serem eleitas por unidade de área, para fornecimento de sementes, que garantam a representatividade gênica adequada para cada procedência, evitando ao máximo, a concentração da amostragem em materiais genéticos aparentados, como pode acontecer naquelas espécie que ocorrem na forma de masaicos. 77 Como medidas para uma boa amostragem, recomenda-se eleger pelo menos 20 árvores matrizes por procedência, manter uma distância mínima de 100 m entre as matrizes eleitas, colher as sementes em épocas de floração e frutificação regular (maioria das árvores com floração e frutificação), colhendo quantidades de sementes equivalentes por matriz. É importante elaborar um mapa de localização e idetificação das matrizes, matendo essa identificação como identidade de cada lote de sementes e mudas, durante todo o processo, da colheita à avaliação final dos ensaios de campo. 6.1.2. Estabelecimento dos ensaios Ao melhoramento interessa, particularmente, estabelecer ensaios no viveiro e campo com vistas a avaliar e selecionar as espécies/procedências potenciais, levando em conta a variação genética entre e dentro de populações (procedências). Entretanto, deve-se destacar que no processo de domesticação de espécies, outros estudos como tecnologia e armazenamento de sementes, técnicas de semeadura e produção de mudas, técnicas de plantio e de condução dos plantios no campo devem ser desenvolvidos concomitantemente, como parte do pacote de tecnologias adequado a cada espécie para exploração em escala comercial. Neste processo recomenda-se o estabelecimento de uma sequência de estudos, compreendendo três fases, em conformidade com os objetivos. Essas fases são apresentadas a seguir. Fase de amostragem ampla Esta fase é recomendada quando se tem um grande número de espécies potenciais e tem como objetivo a identificação daquelas potenciais, fornecendo informações preliminares antes da idade de rotação. Os ensaios devem ser instalados em ambiente ecológico representativo da região de interesse, segundo delineamentos experimentais apropriados (em geral blocos ao acaso), com parcelas pequenas (preferencialmente quadrangulares), procurando-se adotar medidas para evitar a interferência da competição interespecífica nas plantas avaliadas, em espaçamentos amplos. Fase de amostragem restrita Esta fase tem por finalidade avaliar o máximo de procedências daquelas espécies potenciais selecionadas fase anterior, com vistas ao conhecimento do grau 78 de variação interpopulacional e a recomendação das procedências mais apropriadas para fornecimento de sementes no curto prazo. Deve-se adotar delineamento experimental apropriado, em geral blocos ao acaso, com grande número de repetições, em espaçamento já previamente definido para a espécie. Se possível utilizar testemunhas de materiais comerciais semelhantes. As avaliações devem levar em consideração tanto a fase de viveiro como de campo até a idade de rotação. Fase de avaliação silvicultural, tecnológica e econômica Esta fase consiste no estabelecimento de plantios pilotos, em espaçamento comercial, com vistas a avaliar as técnicas de manejo requeridas, a qualidade do produto final e o potencial econômico dos futuros plantios comerciais. Apenas as procedências indicadas na fase anterior são contempladas. 6.1.3. Avaliação dos ensaios As três fases requerem avaliação em função dos objetivos pretendidos, lembrando que para o melhorista interessa, em qualquer fase, obter informações de sobrevivência e crescimento vegetativo, ocorrência de pragas e doenças. Porém, ao final do processo, particularmente, na idade de rotação, é importante que se tenha informações dos aspectos reprodutivos, isto é, da ocorrência de floração, frutificação e de produção de sementes viáveis. Vale destacar que o melhorista, de acordo com sua experiência, grau de urgência e objetivos pode sobrepor as várias fases ou fazer arranjos de modo a se ter informações, mesmo que preliminares, no mais curto tempo. Pode inclusive, adotar a coleta de sementes por matrizes individualmente para geração de famílias, com vistas a avaliação genética mais detalhada, isto é, entre e dentro de populações via testes de procedências/progênies. É importante destacar também, a necessidade de recursos humanos e financeiros para a condução de um programa dessa natureza, requerendo um bom planejamento de curto, médio e longo prazo. 6.2. População de Melhoramento (População Base) A etapa inicial de um programa de melhoramento é a definição do germoplasma a ser utilizado e, posteriormente, trabalha-se na escolha de estratégias e métodos alternativos de seleção que promovam, de forma eficiente e rápida, algum 79 grau de melhoramento genético. Uma vez que o objetivo do melhoramento é o aumento contínuo da expressão dos caracteres de interesse, depreende-se que o melhorista necessita trabalhar com germoplasmas-base com média alta e variabilidade genética ampla. Por outro lado, quanto ao fator média populacional, torna-se imperativo o teste de procedências, de forma que o melhorista possa partir de média já sabidamente alta. Em espécies florestais arbóreas alógamas temperadas e tropicais, tem-se verificado que a distribuição da variabilidade genética total das espécies é maior dentro das populações do que entre as populações. A partir de estudos com isoenzimas, verifica-se que existe uma clara evidência de que, em espécies arbóreas temperadas, mais de 90% da variação total das espécies ocorre dentro depopulações (Dias & Kageyama, 1991). Assim, pode-se inferir que, quanto à variabilidade genética, o ideal seria o melhorista trabalhar com um reduzido número de populações, porém, com um grande número de matrizes. A amostragem dentro das populações escolhidas como germoplasma-base deve seguir os procedimentos relatados em capítulo anterior. De acordo com Brune (1981), as populações base para melhoramento devem ser constituídas por um número efetivo de indivíduos, suficiente para manter a variabilidade genética da população original, para fins de melhoramento e conservação. Como população base inicial, na prática tem-se adotado entre 100 e 300 progênies de polinização aberta em espécies alógamas. A constituição da população de melhoramento visa o melhoramento genético ao longo prazo, ou seja, o aumento contínuo e progressivo das frequências dos alelos favoráveis, através da implementação de vários ciclos seletivos. O ganho genético ao longo prazo depende, fundamentalmente, da variabilidade genética potencial, ou seja, daquela variabilidade que é mantida através dos ciclos seletivos e é liberada através da recombinação, ao final de cada ciclo de seleção. Assim, a questão do estabelecimento das populações de melhoramento deve ser analisada sob o ponto de vista da teoria dos limites seletivos. O caminhamento seguro (sem risco de perdas de alelos favoráveis) em direção à obtenção do teto seletivo das populações implica a manutenção de um tamanho efetivo populacional (Ne) compatível. Dessa forma, os ganhos genéticos na população de melhoramento em cada ciclo seletivo devem ser maximizados para uma condição de restrição no tamanho efetivo populacional (Resende et al., 1995). 80 É importante relatar que o Ne necessário para a obtenção do teto seletivo, de maneira geral, não é de grande magnitude, situando-se na faixa de 30 a 60, conforme alguns estudos realizados (Pereira & Vencovsky, 1988). O importante é, por ocasião da seleção, considerar o Ne desejado, incluindo, nos programas de seleção genética computadorizada, algorítimos que permitam maximizar o ganho genético para uma condição de Ne restrito. 6.3. Estratégias e Métodos de Melhoramento As estratégias de melhoramento de espécies perenes resultam basicamente da combinação entre delineamentos de cruzamento, métodos de seleção e estrutura de populações. A etapa básica do processo de melhoramento refere-se à implantação de testes de progênies e testes clonais, a partir dos quais os materiais genéticos selecionados são recombinados para a continuidade do melhoramento ou recomendados para plantios de produção. Os programas de melhoramento genético florestal, assim como em outras culturas, normalmente, baseia-se em estrátégias para realizar a seleção e a recombinação genética, visando o avanço das gerações. Borém (2001) cita vários métodos de melhoramento utilizados na agricultura como: método da população, método genealógico, método descendente de única semente, método de retrocruzamento, seleção recorrente e teste de geração precoce. No entanto, o mais utilizado na área florestal é o método da seleção recorrente, pois é o mais indicado para espécies alógamas (polinização cruzada), que é o tipo de polinização da maioria das espécies florestais. O princípio da seleção recorrente é o aumento continuo e progressivo da freqüência dos alelos favoráveis, por vários ciclos seletivos (Figura 17). Para isto, o melhorista necessita trabalhar com germoplasmas-base com média alta e variabilidade genética ampla, a fim de fornecer os alelos favoráveis para uma determinada característica (Resende, 1999). A seleção recorrente com base em famílias pode visar uma única população (intrapopulacional) ou duas populações (interpopulacional). Em todos os casos, compreende: seleção dos indivíduos na população que se deseja melhorar para obtenção das famílias; avaliação das famílias em ensaios com repetições dentro e entre ambientes; 81 recombinação das famílias ou indivíduos superiores para formar a população do próximo ciclo. Figura 17. Seleção recorrente com vários ciclos de seleção a partir da população inicial C0, no qual os indivíduos superiores são submetidos a recombinação (Borém, 1998). Para espécies florestais, a Figura 18 apresenta o esquema geral de um programa de melhoramento genético intrapopulacional. Partindo-se de uma população-base ou de uma população experimental, a seleção deve ser implementada em diferentes intensidades, visando a constituição das populações de produção e de melhoramento. POPULAÇÃO-BASE RECOMBINAÇÃO SELEÇÃO POPULAÇÃO PARA PRODUÇÃO DE SEMENTES OU CLONAL POPULAÇÃO DE MELHORAMENTO Figura 18. Esquema geral de um programa de melhoramento intrapopulacional (Resende et al. , 1995). Recombinação Genética Teste de Progênie Avaliação e Seleção C 1 C 0 C 2 82 A população de produção pode ser constituída por pomares de sementes, jardins clonais ou pomares biclonais, conforme o interesse do melhorista. Para a constituição desta população, intensidades de seleção mais altas podem ser adotadas, visando explorar ao máximo a variabilidade genética livre e, portanto, capitalizar o progresso genético imediato. A seleção pode ser intensa porque não existem grandes restrições quanto ao número de indivíduos a serem recombinados (no caso de população de produção de sementes), devendo-se considerar contudo a endogamia potencial advinda de possíveis cruzamentos entre indivíduos aparentados. Existem procedimentos que otimizam a seleção para a composição da população de produção, considerando simultaneamente os valores genéticos dos indivíduos candidatos à seleção, o progresso genético, o tamanho efetivo e a endogamia potencial. Estes procedimentos foram descritos por Resende (2002). Os procedimentos de recombinação estão relacionados à eficiência seletiva de duas maneiras: i) em espécies perenes, geralmente a etapa de recombinação coincide com a obtenção de progênies para avaliação no ciclo subsequente e, como determinados delineamentos de cruzamento propiciam uma seleção mais acurada, esta fase está relacionada à eficiência seletiva no ciclo subsequente; ii) em espécies perenes, a recombinação pode ser realizada de maneira desbalanceada, com maior ênfase nos indivíduos com maiores valores genéticos. Assim, além da maximização do ganho com base na utilização de métodos acurados de seleção, ganhos adicionais podem ser conseguidos com a utilização de proporção maior de indivíduos melhores, na população de produção, e com a seleção de cruzamentos na população de melhoramento. De maneira geral, a obtenção de novas progênies deve ser fundamentada na predição da descendência, utilizando-se as informações dos valores genéticos dos indivíduos selecionados. Dessa forma, poderão ser geradas progênies já sabidamente superiores. Verifica-se, portanto, que a eficiência dos diferentes programas de melhoramento é função dos diferentes procedimentos de seleção e recombinação (cruzamentos). Para recombinação, os seguintes tipos de família podem ser utilizados: famílias de meios irmãos, de irmãos completos, cruzamentos dialélicos, cruzamentos fatoriais. Um terceiro fator, não menos importante, refere-se ao tempo dispendido para se completar um ciclo seletivo. A eficiência dos programas de melhoramento deve ser medida pelo ganho genético por unidade de tempo. Assim, o intervalo entre gerações (ou seja, o tempo 83 necessário para se completaro ciclo descrito na Figura 18) desempenha relevante papel no melhoramento de espécies perenes, onde a seleção precoce deve ser uma meta constante. Em espécies que utilizam híbridos para plantio comercial, a estratégia recomendada é a seleção recorrente recíproca (SRR) envolvendo duas populações ou espécies, a qual melhora o híbrido interpopulacional via o melhoramento do valor genético aditivo e também da heterose. Resende & Higa (1990) propuseram um método de SRR para o melhoramento do eucalipto. Esta estratégia pode ser considerada como a espinha dorsal do programa e envolve populações de espécies puras principais ou populações sintéticas complementares para a geração de híbridos simples e, ou compostos, através de cruzamentos interespecíficos e ou interpopulacionais (Figura 19). Detalhes desse procedimento são apresentados por Resende e Barbosa (2005). (C) SRR-S0 (MI e/ou IG) (D) SRR-G-HI Geração 0 P1 P2 Geração 0 P1 P2 Geração 1 S0 H1 S0 Geração 1 H1 Geração 2 R R Geração 2 R HI R Geração 3 H2 Geração 3 H2 Figura 19. Esquema simplificado de SRR-G-HI: Seleção Recorrente Recíproca (SRR) com Recombinação dos Próprios Genitores (G) e uso de Híbridos Intermediários (HI) entre 2 ciclos de seleção. 6.4. Delineamentos de Cruzamento 84 As árvores fenotipicamente superiores são selecionadas por apresentarem características desejáveis, mas é necessário avaliar se produzirão progênies também superiores. A única maneira de avaliar o valor genético, neste caso, é cultivando sua progênie de tal maneira que permita uma estimativa de seu valor genético como genitor (pais), ou seja, por meio de teste de progênies, o qual permite avaliar se a superioridade fenotípica do genitor é causada pelo ambiente ou pelo genótipo. O objetivo de um programa de melhoramento é desenvolver combinações genéticas entre genitores, visando a geração de descendentes superiores. Para isto, é necessário cruzar cada genitor com um certo número de outros genitores e determinar o desempenho geral da progênies, determinando a capacidade da combinação desses genitores. Há inúmeras maneiras de se combinar árvores para determinar o seu valor genético. Dentre eles, merece destaque o delineamento dialelo, com suas várias modalidades como: dialelo completo, dialelo parcial, dialelo incomplento, dialelo circulante, etc. O delineamento de cruzamento dialelo completo é aquele em que cada genitor é cruzado com cada outro, uma vez como pai e outra vez como mãe, e ainda consigo mesmo (autofecundação). A seguir é apresentado o esquema do dialelo complento para ilustração: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 1 x X x x x X x x x x 2 x X x x x X x x x x 3 x X x x x X x x x x 4 x X x x x X x x x x 5 x X x x x X x x x x 6 x X x x x X x x x x 7 x X x x x X x x x x 8 x X x x x X x x x x 9 x x x x x X x x x x 10 x x x x x X x x x x As autofecundações estão representadas na linha diagonal no centro do diagrama. Os cruzamentos que ocorrem acima da diagonal são os mesmos que ocorrem abaixo, considerando que os genitores são usados como mãe (estigma) num caso e como pai (produtor de pólen) em outro. Este tipo de delineamento Genitores (estigma) Genitores (pólen) 85 fornece o máximo de informação acerca dos genitores e de sua progênie, mas não é prático devido ao grande número de cruzamentos, tempo e custos envolvidos. De maneira geral os dialelos são úteis para avaliar valores genéticos de genitores via as suas capacidades de combinação. Capacidade de combinação é o resultado da combinação dos alelos de uma árvore com os alelos de outras árvores e é expresso pelo desempenho da progênie produzida. Neste caso, tem-se dois tipos de capacidades de combinação: a) Capacidade Geral de Combinação (CGC) - é o desempenho médio das progênies de uma árvore particular em combinação com diversas árvores. Este parâmetro é maior para genitores que apresentam maior quantidade de alelos favoráveis para a característica em avaliação. A CGC é equivalente à metade do valor genético aditivo, pois o genitor em questão contribui somente com a metade dos genes para a descendência e a outra metade advém de outros membros da população, que fornecerão pólen. b) Capacidade Específica de Combinação (CEC) - é o desempenho de uma progênie produzida pela combinação de dois genitores específicos menos os valores das CGC dos genitores. Como são descontados os efeitos aditivos ao excluir os efeitos das CGC dos pais, a CEC depende somente da ação gênica não aditiva, ou seja, dominância e epistasia. Quatro aspectos devem ser analisados para a escolha do delineamento de cruzamento mais adequado (Resende & Barbosa, 2005): i) eficiência na avaliação da capacidade geral de combinação dos genitores; ii) possibilidade de identificação de cruzamentos superiores; iii) eficiência da seleção de indivíduos na população híbrida e, iv) capacidade de avaliação de um grande número de genitores, o que é favorável em termos de intensidade de seleção e tamanho efetivo populacional (Ne) e, portanto, em termos de ganho genético acumulado com as gerações de seleção. 6.5. Testes Genéticos A rede experimental de um programa de melhoramento genético é composta por testes de introdução de espécies, procedências, progênies e testes combinados de procedências / progênies. Os testes de progênies são realizados quando se deseja testar a superioridade dos indivíduos, permite saber se esta superioridade fenotípica é devido a constituição genética ou é devido a uma condição ambiental 86 favorável. É um meio eficiente de testar a capacidade das matrizes em transmitir suas características as suas descendências Testes com controle de famílias (teste de progênies) são estabelecidos segundo um delineamento experimental, com vistas a obter informações genéticas acerca de uma população ou conjunto de materiais específicos (famílias), tendo como os principais objetivos: inferir sobre a estrutura genética da população original; definir o valor genético de um conjunto específico de indivíduos e de seus descendentes; orientar a formação de nova população base; estimar parâmetros genéticos; avaliar o controle genético de características individuais; quantificar a interação genótipos por ambientes; orientar a formação de campos de recombinação; testar a superioridade de indivíduos; conhecer a capacidade de combinação; produzir sementes melhoradas; Os testes de progênies devem ser estabelecidos em ambientes representativos das áreas de interesse para florestamento, excluindo-se os sites pouco representativos, podendo ser repetidos no espaço e no tempo. Devem-se adotar as mesmas práticas silviculturais preconizadas em escala comercial. Ocorrendo interação genótipos X ambientes significativa, diferentes estratégias de melhoramento devem ser adotadas, de modo a explorar os efeitos positivos da interação em cada ambiente. Não havendo diferenças significativas, um único programa pode ser conduzido para os diferentes ambientes de produção. Um ponto de fundamental importância a se considerar no desenvolvimento de programas de melhoramento genético para determinada finalidade é o conhecimento da existência de variabilidade nas características de interesse e o nível de controle genético na expressão das mesmas (Assis, 1999). Essa variabilidade deveser suficiente para possibilitar a seleção e ganho genético. O primeiro passo do melhoramento consiste em determinar a quantidade, a causa e o tipo de variabilidade presentes na população da espécie em questão. Basicamente, todas as diferenças entre as árvores resultam de três fatores: - Diferenças no ambiente em que as árvores estão crescendo; - Diferenças genéticas entre árvores; - Diferenças na interação entre os genótipos das árvores e os ambientes nos quais elas crescem. 87 Algumas variações são previsíveis e utilizáveis, enquanto outras são imprevisíveis e mais difíceis de serem utilizadas. A questão essencial do melhoramento é descobrir qual porção dessa variação é geneticamente controlada, ou seja, qual a porção que é herdável. Para tal propósito, é necessário a realização de testes genéticos, os quais permitem conhecer a porção de cada componente da variação, ou seja, o efeito genético (G) e o efeito ambiental (E). A existência de variabilidade fenotípica entre espécies, procedências, famílias e indivíduos (clones) para as características de interesse e o forte controle genético envolvido na expressão da grande maioria dessas características asseguram a possibilidade de obtenção de madeira de alta qualidade para atender as necessidades industriais. Pode-se concluir, então que, se existe variabilidade e se a participação dos componentes genéticos na manifestação das características for expressiva, é possível promover alterações desejadas nas características sob seleção. As populações naturais geralmente apresentam grande variabilidade genética. No entanto, são necessários estudos intensivos para identificar a quantidade e o tipo de variação presente. Nas espécies florestais, essa identificação é feita determinando a variação nas seguintes categorias: - Variação geográfica ou de procedências; - Variação entre populações dentro de ambientes (locais); - Diferenças entre árvores dentro de populações; - Variação dentro de árvores. Segundo Zobel e Talbert (2003) a madeira apresenta grande variabilidade e este fato pode ser manipulado pelo melhorista, sendo essencial conhecer e reconhecer diferenças entre espécies. A variabilidade em madeira também ocorre: 1) dentro de uma dada árvore; 2) entre árvores da mesma espécie; 3) algumas vezes, entre populações de uma espécie crescendo em uma única localidade; 4) freqüentemente, entre populações de uma espécie crescendo em diferentes áreas geográficas. 6.5. Interação Genótipos x Ambientes O desempenho de um genótipo em relação a outro pode variar de acordo com o ambiente, de forma que genótipos que são superiores em um ambiente podem 88 não ser em outro. Esta resposta diferenciada de genótipos quando submetidos a diferentes condições ambientais, denomina-se interação genótipos x ambientes (Vencovsky e Barriga, 1992), conforme demonstrado na Figura 20, em que: Na situação 1, não há interação, a diferença pode ser devido a uma melhoria nas condições ambientais e os dois genótipos responderam da mesma forma e a diferença entre eles permaneceu constante. Na situação 2, há forte interação, pois as respostas dos genótipos mudam amplamente, quando submetidos a ambientes distintos. A B 0 5 10 15 20 25 a b Ambiente Ca ra cte rís tic a X Y Ambiente ( 1 ) A B 0 5 10 15 20 25 a b Ambiente Ca ra cte rís tic a X Y Ambiente ( 2 ) Figura 20. Representação gráfica que evidencia a interação apresentada pelos genótipos A e B: situação 1 - ausência de interação; situação 2 – interação complexa. O plantio de genótipos sobre uma amplitude de ambientes é a oportunidade de conseguir informações sobre a interação genótipos x ambientes e de selecionar árvores, baseando-se em suas respostas às condições ambientais. A maximização dos ganhos genéticos e o aproveitamento do aspecto benéfico da interação genótipos x ambientes pode ser obtida utilizando-se a seleção específica para cada local. Uma das alternativas segundo Resende (1999), é a estratificação dos locais de plantio, o que permite a definição de “zonas de melhoramento”. Dentro dessas zonas a interação genótipos x ambientes é desprezível e, entre elas a interação não será problemática para o melhorista. Assim, cada zona de melhoramento demanda um programa de melhoramento específico e o número destas indicará o número mínimo de populações de melhoramento a serem empregadas pelo melhorista. A B 89 As diferentes características de interesse para o melhoramento apresentam graus distintos de interação, ou seja, há características que sofrem mais o efeito do ambiente (poligênicas) do que outras (oligogênicas). O fenótipo pode ser definido como uma função linear do genótipo, do ambiente e da interação genótipos x ambientes. Assim, em função da interação genótipos x ambientes, depreende-se que determinados materiais genéticos se adaptam diferentemente em ambientes diferentes. Este fato demanda do melhorista ações que conduzam à alocação adequada dos materiais genéticos aos diferentes ambientes. Faz-se necessário, então, na recomendação de materiais para plantio, considerar não apenas a produtividade mas, também, a adaptabilidade e estabilidade dos diferentes materiais genéticos. O termo adaptabilidade é utilizado para designar a capacidade dos materiais genéticos em aproveitar vantajosamente o estímulo ambiental (Vencovsky & Barriga, 1992), ou seja, mede a capacidade de resposta dos materiais à melhoria do ambiente. O termo estabilidade caracteriza a capacidade dos genótipos mostrarem um comportamento altamente previsível em função do estimulo ambiental (Vencovsky & Barriga, 1992). Entretanto, de maneira geral, considera-se material estável aquele que apresenta pequenas variações no seu comportamento geral, quando desenvolvido sob diversas condições de ambiente. Nos programas de melhoramento genético, é necessária a instalação de uma rede experimental que consiga amostrar toda a diversidade de ambientes em que a espécie será cultivada. A partir da análise dos dados obtidos nessa rede, pode-se realizar um zoneamento para o plantio dos materiais selecionados, bem como serem estabelecidas zonas de melhoramento. O estudo das zonas de melhoramento permite reduzir o número de locais de experimentação para os ciclos subsequentes de seleção. O zoneamento é realizado de tal forma que não ocorra interação genótipos x ambientes significativa dentro de cada zona e ocorra interação significativa entre as zonas. Dessa forma, deve ser conduzido um programa de melhoramento para cada zona de melhoramento. O não estabelecimento dessas zonas de melhoramento implica, necessariamente, em seleção baseada nos parâmetros estabilidade e adaptabilidade, como forma de amenizar os efeitos da interação genótipos x ambientes. De maneira geral, a estratégia de estabelecimento de zonas de melhoramento, desde que bem conduzida, é vantajosa em relação à seleção de materiais estáveis, pois permite capitalizar o efeito da interação. 90 7. SELEÇÃO NO MELHORAMENTO FLORESTAL O termo seleção é definido como a reprodução diferencial dos diferentes genótipos na natureza ou sob intervenção do homem. A seleção natural opera independentemente das ações humanas e se realiza por meio de diferenças em fertilidade e sobrevivência (viabilidade) das progênies dos diferentes indivíduos, tendo como conseqüência a evolução orgânica. A seleção artificial é praticada pelo homem e é baseada em critérios definidos pelopróprio melhorista, sendo assim, fator primordial para o melhoramento genético. 7.1. Seleção Direcional A natureza impõe a seleção nas populações naturais, possibilitando a perpetuação dos indivíduos mais adaptados às mais diferentes condições de ambiente, enquanto o homem aplica a seleção direcional que consiste em escolher, dentro de critérios previamente estabelecidos, os indivíduos que apresentem as características desejadas. Esta seleção pode ser praticada entre populações, dentro de populações e entre e dentro de populações, para cada espécie individualmente. A eficiência da seleção depende, da existência de variabilidade genética na população. Entretanto, o sucesso almejado esta relacionado com a escolha da intensidade de seleção adequada, ou seja da proporção de indivíduos a serem selecionados e consequentemente, da técnica de propagação adotada (sexuada ou assexuada). Além disto, os ganhos a serem obtidos dependem da qualidade dos progenitores e variam nas gerações com a seleção sucessiva, justificando os altos custos de um programa de melhoramento. Os critérios de seleção, onde não há informações de pedigree, são diferentes daqueles oriundos de testes genéticos com grau de parentesco conhecidos. O uso de indivíduos desejáveis como progenitores, conduz ao melhoramento do nível médio da progênie e como algumas características mostram mais semelhantes entre os pais e a progênie do que outras, respondem mais eficientemente a seleção. O objetivo inicial da seleção no programa de melhoramento é formar uma base genética ampla (população base), para dar embasamento ao programa de melhoramento futuro. Todos os métodos de seleção visam o aumento da freqüência dos genes desejáveis nos indivíduos que serão utilizados como progenitores no programa de melhoramento. O critério de seleção a ser utilizado depende da 91 quantidade de materiais genéticos disponíveis, das informações de pedigree existentes, do grau de melhoramento da população, da urgência de sementes melhoradas e da finalidade do programa de melhoramento. Essencialmente, a seleção atua promovendo a alteração das freqüências alélicas nos locos que controlam o caráter sob seleção, conduzindo a alteração na média genotípica da população, na direção desejada. Em princípio, na prática da seleção, o melhorista atua em duas etapas básicas: (i) a predição do valor genético dos indivíduos; (ii) a decisão sobre a melhor forma de utilização dos indivíduos com os maiores valores genéticos preditos, seja para uso em plantios comerciais ou para realização de novos cruzamentos. Segundo Resende (1999), a seleção é provavelmente o tema de maior relevância no melhoramento de espécies perenes e pode ser caracterizada em termos práticos pelos seguintes conceitos: Objetivo do melhoramento; Critérios de seleção; Avaliação genética; Procedimentos de predição de valores genéticos; Unidade de seleção; Unidade de recombinação; Métodos de seleção; População melhorada ou população comercial de referência; Sistema de seleção para mais de uma característica. O objetivo da seleção pode ser definido com base em apenas um caráter de interesse econômico ou de um conjunto de caracteres, estando implícito no segundo caso, o desejo de melhorar simultaneamente vários caracteres. Evidentemente, para o melhoramento simultâneo de vários caracteres, todos eles devem estar ser considerados no processo de seleção. Nesta situação, o programa de seleção genética deve estar bem estruturado com sistemas computadorizados (Resende et al., 1994). A seleção envolvendo vários caracteres pode ser conduzida de diversas maneiras em relação às características de interesse para melhoramento: Seleção em tandem; Seleção com base nos níveis independentes de eliminação; Índice de seleção. 92 A seleção em tandem consiste em selecionar uma característica por geração até atingir o nível de melhoramento desejado, o que não é recomendável para as espécies perenes de ciclo longo, levando em conta, ainda, o risco de esgotamento da variabilidade genética. Na seleção com base nos níveis independentes de eliminação, são estabelecidos limites mínimos para cada característica, abaixo dos quais todos os indivíduos são descartados. É evidente que o melhorista não poderá ser muito rigoroso, para garantir um número satisfatório de indivíduos ao final do ciclo. O método do índice de seleção considera várias características ao mesmo tempo de forma ponderada com base nas respectivas herdabilidades, correlações e pesos econômicos, gerando um valor único para cada progênie sobre o qual se aplica a seleção. Os índices de seleção, em geral, são mais eficientes, proporcionando ganhos simultâneos para todas as características consideradas, ou pelo menos evitando a perda de variabilidade genética importante para as gerações futuras. 7.2. Seleção Fenotípica (Massal) A seleção fenotípica é bastante utilizada no melhoramento vegetal, devido a sua praticidade, baixo custo e rapidez. Entretanto, deve-se ter cuidado na avaliação de certas características, que apresentam um coeficiente de herdabilidade muito baixo, pois efeitos ambientais podem influenciar negativamente os resultados da seleção. Como o fenótipo é uma função linear do genótipo (G), do ambiente (A) e da interação genótipos x ambientes (F = G + A + GA), o melhorista deve considerar todos os fatores que podem interferir na expressão da característica das árvores. Geralmente leva em consideração apenas a performance visual do indivíduo. A sua eficiência depende do nível de controle genético da característica (G) e da intensidade dos efeitos ambientais (A). Recomendações para a seleção massal: selecionar plantas nas melhores populações; misturar sementes das matrizes, utilizando proporções equivalentes de sementes de cada matriz selecionada; efetuar a colheita das sementes em anos de plena floração, isto é, em anos em que a maioria das árvores apresentarem floração e frutificação; considerar as características de acordo a aptidão da espécie. Exemplo: forma do tronco, altura, DAP, volume, produção de frutos, volume de copa, etc. 93 Características da seleção massal: espera-se maior sucesso pela utilização das sementes para plantio em ambiente ecológico semelhante ao da população na qual se efetuou a seleção matrizes; não se tem conhecimento do valor genético das matrizes selecionadas; nem sempre o melhor fenótipo corresponde à melhor descendência; pode-se ter bons resultados imediatos, porém, muito pouco posteriormente. 7.2.1. Seleção massal simples Consiste na escolha dos melhores indivíduos da população com base nos seus respectivos valores fenotípicos para as características de interesse. Neste caso, o controle ambiental é mínimo, podendo-se ter controle de um ou dois sexos, para as espécies perenes de reprodução cruzada. Baixas respostas podem ser atribuídas à: dificuldade em identificar os genótipos superiores; uso de intensidade de seleção muito elevada em populações pequenas; polinização sem nenhum controle, permitindo que indivíduos de baixo valor participem como progenitores. No entanto, esse método tem sido amplamente utilizado em espécies florestais, especialmente nas fases iniciais dos programas de melhoramento, aplicando-se na implantação de área de coleta de sementes (ACS) e de área de produção de sementes (APS). 7.2.2. Seleção massal estratificada Consiste em se ter maior cuidado com as variações ambientais, para tanto, a área coberta pela população é subdividida em estratos de modo a torná-los mais uniformesinternamente, procedendo a seleção em cada estrato, com critérios previamente estabelecidos para cada um. Tem como vantagens: facilidade de condução; maior intensidade de seleção e maior controle ambiental. 7.3. Seleção Genotípica A seleção genotípica leva em consideração o valor genotípico (VG) dos indivíduos, ou seja, o quanto o componente genético contribui para o fenótipo (F = G + A), que, matematicamente, poderia ser expresso como sendo G = F – A. O sucesso no cultivo de qualquer espécie, florestal ou agrícola, está também estreitamente relacionado aos fatores do meio ambiente. Por esta razão, o homem está sempre procurando entender e controlar os fatores ambientais, os quais podem ser classificados como segue: 94 previsíveis: preparo do solo, fertilização, época de plantio, tratos culturais, etc., portanto, possíveis de controle pelo homem; imprevisíveis: temperatura, precipitação, déficit hídrico, geadas, intensidade luminosa, etc., portanto, não podem ser controlados pelo homem. Em geral, os ambientes muito bons (favoráveis) podem revelar ótimos fenótipos, porém, de baixo valor genético, enquanto os ambientes ruins (desfavoráveis) quando revelarem fenótipos superiores, estes tendem a ser mais condizentes com valor genético. Avaliação do genótipo Obtenção do valor genético (VG): requer controle do material genético, isto é, controle parental, portanto, utiliza famílias ou clones; exige avaliação fenotípica, isto é, não pode ser obtido diretamente do indivíduo via DNA; requer o uso de técnicas experimentais; pode-se usar também técnicas de marcadores moleculares ou bioquímicos simultaneamente ao uso de fenótipos; requer uso de análise estatística (estimação de parâmetros genéticos); Valor genético em populações segregantes (heterozigotas) Aa x Aa F1 AA Aa aa g1 g2 g3 Sendo: g = valor genético individual. Neste caso, pode-se inferir que a descendência (F1) é constituída de genótipos com valores genéticos distintos. Valor genético em populações homozigotas (linhagens) AA x AA F1 AA AA AA g’1 = g’2 = g’3 Sendo: g = valor genético individual. 95 Em populações homozigotas, todos os indivíduos têm a mesma constituição gênica, não há diferença genética de um em relação ao outro. Neste caso, as variações expressas pelo fenótipo são devidas aos fatores do meio ambiente. A seleção genotípica baseia-se na avaliação dos progenitores com base no desempenho dos descendentes via sementes ou via clonagem. Neste caso, obtém- se eficiência pelo fato de se poder obter as informações genéticas para as características sobre as quais se pratica a seleção. O uso de testes com repetições proporciona maior confiabilidade às médias e a repetição em vários ambientes permite maior controle da interação genótipos por ambientes, permitindo o uso mais amplo dos genótipos selecionados. Aplica-se tanto para o estabelecimento de pomar de sementes por mudas ou pomar de sementes clonal (PSM ou PSC) e também para a seleção clonal. Além disto, a seleção genotípica exige um conhecimento teórico mais aprofundado, sobre os fatores genéticos (epistasia, dominância, herdabilidade, variâncias genéticas, etc.) atuante nas características analisadas. O método mais simples que considera parâmetros genéticos, é o da seleção combinada, que considera as variações genéticas dentro e entre famílias. O processo seletivo não deve basear-se apenas na avaliação de campo, devido aos vários fatores que podem estar influenciando os dados. A estes dados devem ser aplicados tratamentos (métodos de seleção) que os transformam em dados genéticos/genotípicos e, consequentemente, permitem maior precisão da seleção. Existem vários métodos de seleção, mas geralmente para a escolha do método ideal baseia-se no conhecimento do objetivo e do sistema de propagação, que será empregado. Para sistemas de propagação via sementes, a seleção deve basear-se nos valores genéticos dos candidatos à seleção, ou seja, apenas em função dos efeitos genéticos aditivos. Por outro lado a seleção para propagação vegetativa deve basear-se nos valores genotípicos dos candidatos à seleção (Resende et. al., 1995), ou seja, nos valores genéticos totais (aditivos e não aditivos). A utilização de recursos estatísticos permitiu o desenvolvimento de métodos baseados na estimativa do valor genético das famílias e de indivíduos dentro de famílias, proporcionando um esquema de seleção que se assemelha à seleção massal, por privilegiar o indivíduo mesmo quando a sua família não está entre as melhores. Após a seleção, os indivíduos remanescentes são recombinados para 96 contribuir com alelos para as próximas gerações. Este procedimento é denominado BLUP (melhor predição linear não viesada). A grande vantagem deste método é que em geral proporciona ganhos genéticos superiores à seleção entre e dentro de famílias, além de ser mais efetivo para manutenção da variabilidade genética, por proporcionar tamanho efetivo populacional mais elevado, desde que aplicado com restrição no número máximo de indivíduos selecionados por família. A seleção de material genético superior é fundamental para alcançar elevada produtividade da plantação. Freqüentemente, os genótipos superiores são multiplicados vegetativamente, e, para que ganhos adivindos da seleção sejam maximizados, é preciso proceder-se a caracterização dos genótipos nos seus aspectos produtivos e tecnológicos. Para a seleção de uma árvore, visando a obtenção de clones para fornecer madeira para celulose, por exemplo, adota-se critérios como: volume da árvore, resistência à doença, resistência a insetos, habilidade de auto desrama, tamanho da ramificação, conteúdo de casca, habilidade de brotação, habilidade de enraizamento, propriedades da madeira (Campinhos, 1987). Quanto maior o número de clones avaliados por unidade de tempo, maior é a possibilidade de sucesso com a seleção. O número de clones deve ser compatível com os interesses e a realidade da empresa, no entanto, um maior número de clones aumenta a probabilidade de se ter um clone ideal que se adapte a uma condição específica, bem como maior segurança contra pragas e doenças. 7.4. Seleção de Matrizes em Populações Naturais Na seleção de espécies florestais nativas a maneira mais comum tem sido escolher árvores que apresentem grande quantidade de sementes, no entanto esses indivíduos, normalmente, encontram-se isolados porque foram deixados para produzir sombra ou para fins paisagísticos. Muitas destas árvores encontram-se dentro de cidades, distribuídas em praças públicas, jardins, alamedas, enfim, fazem parte da arborização urbana. No entanto, a arborização urbana não tem sido planejada observando-se a manutenção da variabilidade genética, pois é restrito o número efetivo populacional (Ne) nesses casos. O parâmetro (Ne) é importante, pois irá fornecer o real tamanho genético da amostragem a ser colhida. 97 De acordo com Mori (2003), alguns requisitos devem ser obedecidos no ato da escolha das matrizes: i) como escolher uma árvore para produção de sementes de qualidade? ii) quais as características importantes que a árvore deve ter para ser selecionada? iii) como escolher locais apropriados para a colheita? iv) qual é a quantidade de fruto ou sementes para colher? v)Qual o número mínimo de árvores que devem ser colhidas? Para seleção de matrizes, é necessário que os objetivos parautilização das sementes sejam claros. Muitos são os objetivos para a coleta de sementes de árvores nativas, que vão desde a conservação genética, restauração de florestas, a revegetação, os plantios para silvicultura convencional e arborização urbana. O número de árvores selecionadas vai depender do objetivo da coleta, pois não existe um número predito que sirva como receita, especialmente em se tratando de espécies arbóreas nativas, é preciso, sobretudo, respeitar a variabilidade genética da população. Áreas urbanas ou com grande influência do homem devem ser evitadas, uma vez que existe o risco dos indivíduos presentes nessas populações serem aparentados e, portanto, geneticamente próximos, por esse motivo as populações naturais são mais apropriadas para seleção de matrizes. Nessas populações recomenda-se que seja selecionado um número maior de matrizes, visando explorar o máximo possível de variabilidade genética. 7.5. Seleção Clonal A seleção de material genético superior é fundamental para alcançar elevada produtividade da plantação. Freqüentemente, os genótipos superiores são multiplicados vegetativamente, e, para que ganhos adivindos da seleção sejam maximizados, é preciso proceder-se a caracterização dos genótipos nos seus aspectos morfológicos, fisiológicos e nutricionais (Souza ,1994 e Ferreira, 1992). Quase todos programas de clonagem baseiam-se na seleção de características fenotípicas. Como o fenótipo é resultado do genótipo mais o ambiente e da interação entre os dois (F = G + E + GE), no caso de seleção dos clones deve-se ter cuidado com certas características, que apresentam um baixo coeficiente de herdabilidade. Para a seleção de uma árvore, visando a obtenção de clones para fornecer madeira para celulose, por exemplo, adota-se critérios como: volume da árvore, resistência à doença, resistência a insetos, habilidade de auto desrama, tamanho da ramificação, conteúdo de casca, habilidade de brotação, habilidade de 98 enraizamento, propriedades da madeira, propriedades da folha, eficiência metabólica e outros (Campinhos, 1987). Para algumas espécies têm-se testes clonais com diferentes níveis de seleção, como relata Zsuffa (1993): 1- Seleção inicial envolvendo sementes e diferentes tipos de propagação, 2- Teste com grande número de clones e poucas mudas por clone, 3- Teste maiores para avaliar a performance dos melhores candidatos, com menor número de clones e muitas mudas por clone, 4- Avaliação do comportamento dos clones em plantios em mistos (pouco usado). Quanto maior o número de clones avaliados por unidade de tempo, maior é a possibilidade de sucesso com a seleção (Andrade, 1997). Além disso, Zobel (1992) comenta que o número de clones deve ser compatível com os interesses e a realidade da empresa, no entanto, um maior número de clones aumenta a probabilidade de se ter um clone ideal que se adapte a uma condição específica, bem como maior segurança contra pragas e doenças. 7.6. Seleção Precoce A seleção precoce é uma forma de seleção indireta, em que caracteres avaliados em idades prévias à de rotação, são utilizados como preditores de caracteres economicamente importantes na idade de rotação (Resende, 1995). Segundo Pires e Paula (1997), as árvores de um plantio comercial terão de apresentar características adequadas e distintas dependendo do produto a ser obtido da floresta. Assim, as técnicas e os métodos de melhoramento empregados para celulose podem ser diferentes, por exemplo, daqueles utilizados para carvão, móveis, etc. Assim, quando se tratar de qualidade de madeira ou outra característica de alto valor agregado, deve-se ter uma atenção maior no que se refere à idade de avaliação, pois nem sempre a avaliação em idade precoce representa, fidedignamente, os resultados em idade de corte. Deste modo, a utilização de resultados preliminares, deve ser feita com cautelapois, para as três características DAP, Altura e Densidade Básica estudadas por Mora (1986), houve alteração na classificação dos clones. Sendo que houve tendência da interação clone x ambiente se manifestar com maio intensidade com o acréscimo da idade. 99 Os programas de melhoramento genético florestal, assim como em outras culturas, normalmente, baseia-se em uma primeira etapa, na avaliação e seleção de genótipos e posteriormente na recombinação de materiais superiores. Mas devido ao ciclo longo das espécies florestais, a demora na etapa de avaliação é um dos entraves na recomendação de novos clones. Deste modo, a seleção precoce pode diminuir o tempo requerido para avaliação e seleção, maximizando os ganhos genéticos por unidade de tempo. Além de proporcionar vantagens adicionais como experimentos menos duradouros, maior facilidade para tomada de dados e maior adaptabilidade às mudanças de objetivos (Rezende et al., 1994). Qualquer processo seletivo demanda tempo e recurso, e por essa razão deve ser o mais eficiente possível. Existem vários fatores que interferem no processo seletivo, e o conhecimento deles é primordial para se obter o máximo de sucesso com a seleção. Segundo Pereira et al. (1997), o número de anos para se completar um ciclo de seleção é um entrave dos programas de seleção recorrente, sendo que na condução de um programa de seleção recorrente com eucalipto no Brasil, a etapa de avaliação dura cerca de 7 anos, idade de corte nos plantios comerciais para celulose e carvão. Na recombinação utilizando sementes remanescentes, será necessário, pelo menos, um período de mais 2 a 3 anos. Assim, um ciclo de seleção recorrente com sementes remanescentes, na melhor das hipóteses, irá durar de 9 a 10 anos. Desta forma, a contribuição do número de anos para se completar um ciclo é importante na expressão do ganho genético com a seleção. Lamberth (1980), discutindo a seleção de árvores superiores à diferentes idades cita as seguintes vantagens da seleção precoce e da seleção realizada na idade de corte: Seleção precoce testes genéticos menores, com espaçamentos mais fechados; permite alcançar mais rapidamente o ganho genético no campo; facilidade de medição; proporciona ao melhorista adaptar-se mais rapidamente às necessidades de produção ou de novas práticas silviculturais. Seleção na idade de rotação reduz a freqüência de instalação de novos testes e o estabelecimento de pomar para a produção de sementes; a hibridação é mais simples e mais barata, dispensando a indução, pois as plantas já atingiram naturalmente a maturidade reprodutiva. Fim!!!