Pensamento crítico da subalternidade
25 pág.

Pensamento crítico da subalternidade


DisciplinaAntropologia Cultural2.603 materiais40.193 seguidores
Pré-visualização8 páginas
Afro-Ásia, 34 (2006), 105-129 105
PENSAMENTO CRÍTICO DESDE A SUBALTERIDADE:
OS ESTUDOS ÉTNICOS COMO CIÊNCIAS DESCOLONIAIS OU
PARA A TRANSFORMAÇÃO DAS HUMANIDADES
E DAS CIÊNCIAS SOCIAIS NO SÉCULO XXI*
Nelson Maldonado-Torres**
Os Estudos Étnicos nos Estados Unidos são vistos como mais uma
vertente entre os chamados studies ou aproximações interdisciplinares
que encontram sua unidade no tema que estudam e não em uma discipli-
na em particular. A noção de que a universidade moderna deve encon-
trar um lugar não só para as humanidades, as ciências naturais, as ciên-
cias sociais e as distintas profissões (como engenharia ou advocacia),
mas também para estudos interdisciplinares é, em certa medida, uma
* Parte deste trabalho foi apresentado como aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em
Estudos Étnicos e Estudos Africanos, na Universidade Federal da Bahia, Brasil, em 26 de
agosto de 2005. Traduzido do espanhol por Monica Santos. O tema dos Estudos Étnicos como
agente transformador das humanidades e das ciências sociais também tem sido tratado de
outras formas por Johnella Butler e Sylvia Wynter. A noção de \u201cciências descoloniais\u201d emana,
por um lado, de Aimé Césaire, que fala da ciência do anticolonialismo, e de Laura Pérez, que
tem insistido em várias conversas na importância de conceber os Estudos Étnicos como estu-
dos descolonizadores. Lewis Gordon também tem insistido na relevância dos estudos da
diáspora africana para as ciências humanas. Ver Johnnella E. Butler, \u201cEthnic Studies as a
Matrix for the Humanities, the Social Sciences, and the Common Good\u201d, in Johnella E. Butler
(org.), Color-Line to Borderlands: The Matrix of American Ethnic Studies (Seattle, University
of Washington Press, 2001), pp. 18-41; Aimé Césaire, Discours sur le colonialisme, Paris,
Présence Africaine, 1955; Lewis R. Gordon, Fanon and the Crisis of European Man: An
Essay on Philosophy and the Human Sciences, Nova Iorque, Routledge, 1995; Sylvia Wynter,
\u201cOn Disenchanting Discourse: \u2018Minority\u2019 Literary Criticism and Beyond\u201d, in Abdul
JanMohamed e David Lloyd (orgs.), The Nature and Context of Minority Discourse (Nova
Iorque, Oxford University Press, 1990), pp. 432-69.
** University of California, Berkeley.
nelson.p65 6/9/2006, 18:17105
106 Afro-Ásia, 34 (2006), 105-129
contribuição da academia estadunidense. Alguns vêem esta invenção
com ceticismo, pois pensam que só a unidade disciplinar e o método de
cada disciplina podem oferecer um conhecimento rigoroso e coerente
sobre a realidade. Outros a vêem com menoscabo e a julgam como mais
uma expressão de certo kitsch estadunidense, que tem mais cores e ador-
nos que substância. Apesar destas críticas, a noção de estudos interdis-
ciplinares tem ganhado certa legitimidade e têm-se expandido para áre-
as inusitadas, tais como as ciências naturais (biologia e química) e a
informática. Novas tecnologias e descobertas nas ciências demandam
uma aproximação multi ou interdisciplinar.
A ironia com que os Estudos Étnicos se confrontam é que a legi-
timidade ganha pelos estudos interdisciplinares nos Estados Unidos não
os tem beneficiado quase de nenhum modo. De fato, enquanto os estu-
dos interdisciplinares continuam expandindo-se pela universidade esta-
dunidense, os Estudos Étnicos encontram-se cada vez mais encarcera-
dos em seus respectivos nichos. Estes também se encontram assediados
por uma onda patriótica de direita e pseudo-esquerda que se tornara
forte nos anos oitenta, vigorosa nos noventa, e proativa depois dos ata-
ques de 11 de setembro de 2001. O questionamento dos Estudos Étni-
cos, ao menos nos Estados Unidos, não tem tanto a ver com sua
epistemologia interdisciplinar como por sua agenda de trabalho crítico
em torno dos discursos sobre a nação. Outra razão pela qual se duvida
deles é sua origem. Os Estudos Étnicos nos Estados Unidos foram cria-
dos a partir da pressão de movimentos sociais em finais da década de
1960 e são vistos como resultado direto de políticas de afirmação da
identidade e não como uma expressão de problemas epistemológicos
dentro das ciências. Isto é, sua criação se remete a forças sociais e polí-
ticas e não a mudanças ou questionamentos epistemológicos genuínos.
Portanto, o conhecimento e a investigação que produzem são vistos como
um apêndice injustificado das ciências humanas e, para piorar, como
incapazes de ultrapassar interesses alegadamente reacionários, pela afir-
mação de uma identidade negada. O interessante é que, embora os Estu-
dos Étnicos sejam vistos de tal forma, o establishment estadunidense
milita contra eles muito fortemente. Ainda que os Estudos Étnicos não
contem com recursos como outras áreas e que o que eles possam ofere-
nelson.p65 6/9/2006, 18:17106
Afro-Ásia, 34 (2006), 105-129 107
cer tenha sido sempre visto com desdém ou indiferença, ao mesmo tem-
po eles se revelam como excessivos. Esta relação com programas aca-
dêmicos que foram originados pelas intervenções de grupos racializados
nos Estados Unidos tem uma estrutura racial conhecida: por mais que
tenham, nunca serão nada, mas o pouco que têm já é demasiado. Os
Estudos Étnicos são vistos ao mesmo tempo como completamente
irrelevantes, porém excessivamente ameaçadores.
Fora dos Estados Unidos os Estudos Étnicos tendem a ser vistos
como mais uma invenção da academia estadunidense e, como a acade-
mia estadunidense se tem tornado hegemônica, eles são vistos como
mais uma invenção imperial ou como algo que, precisamente por sua
relação com o império, é digno de ser exportado. Poucas vezes se vêem
os Estudos Étnicos como uma conquista de comunidades racializadas
que roubaram um espaço ao império em um momento em que comuni-
dades marginalizadas (negros, indígenas, mulheres, jovens, etc.) trans-
grediram a ordem mundial e exigiram mudanças. Em vez de serem vis-
tos como parte de um esforço global contra dimensões problemáticas da
episteme moderna, são vistos como uma produção caprichosa do impé-
rio em sua dinâmica interior com suas minorias, de alguma forma tam-
bém privilegiadas ou muito particulares ao contexto estadunidense.
Gostaria aqui de aclarar a relação dos Estudos Étnicos com outras for-
mas de \u201cestudos interdisciplinares\u201d ou studies e delinear a diferença
entre os mesmos. Depois, na segunda parte da exposição, elaborarei a
idéia dos Estudos Étnicos como ciências descoloniais, que exigem não
só um espaço na universidade, mas uma transformação da mesma e de
suas bases epistemológicas.
Estudos Étnicos, Estudos de Área e Estudos Religiosos
De acordo com Immanuel Wallerstein, os Estudos Étnicos podem ser
vistos como uma conseqüência não intencional dos Estudos de Área.1
Tais Estudos (Estudos Latino-americanos, Africanos, Asiáticos, etc.)
1 Immanuel Wallerstein, \u201cThe Unintended Consequences of Cold War Area Studies\u201d, in Noam
Chomsky et al. (orgs.) The Cold War and the University: Toward an Intellectual History of the
Postwar Years (Nova Iorque, The New Press, 1997), pp. 195-232.
nelson.p65 6/9/2006, 18:17107
108 Afro-Ásia, 34 (2006), 105-129
surgiram nos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial,
quando este país tornou claro que não seria somente um poder hegemô-
nico nas Américas, mas no mundo. A partir de sua independência, em
1776, os Estados Unidos se lançaram em uma empresa imperial na qual
escravizaram e marginalizaram grandes populações, sobretudo negras e
indígenas. Em 1848, depois de uma guerra com o México, tomaram
grande parte do território do norte mexicano. A seguir, em 1898, lança-
ram-se à guerra contra a Espanha e terminaram com várias colônias
espanholas como parte de seus territórios. A partir de então, numerosos
setores da intelectualidade latino-americana, que primeiro viam nos
Estados Unidos um modelo de nação e progresso (isto é, enquanto es-
cravizavam e eliminavam indígenas e afro-descendentes), tornaram-se
muito críticos em relação a eles. A participação dos Estados