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INFORMARTIGOS Bullying R EV IS TA O QUE DIZEM AS PRINCIPAIS TEORIAS DA EDUCAÇÃO A RESPEITO DESSE TIPO DE VIOLËNCIA? Conheça o fenômeno bullying. CARL ROGERS, SKINNER, PIAGET, VIGOTSKY E OUTROS. ENTENDA O TEMA SOB A ÓTICA DE VIGOTSKY SOB A ÓTICA DE SKINNER SOB A ÓTICA DE PIAGET SOB A ÓTICA DE CARL ROGERS 03 Bullying é necessário combater 06 Bullying - Violência Disfarçada de Brinca deira na Vida Escolar 08 Bullying 10 Bullying: violência entre estudantes combater 13 O controle do comportamento no combate ao bullying 16 É possível condicionar uma criança adepta da prá tica de Bullying a mudar este comportamento? 18 Skinner 20 Frederic Skinner e o bullying: O comportamento do aluno condicionado por reforçadores 24 Respeito à subjetividade para uma aprendizagem significativa 26 Bullying, intervenção segundo a abordagem huma nista 28 Relação do bullying com a teoria humanista de Ro gers 30 Carl Rogers e o Bullying: o aluno responsável por sua própria disciplina escolar 32 Desequilíbrios na aprendizagem 34 Bullying sob o Olhar Construtivista 35 Autonomia só aparece com reciprocidade 37 Jean Piaget e o Bullying: a disciplina escolar en tendi da pela concepção da moralidade 41 Contra o Bullying: ênfase nas relações sociais 43 Trabalhando o bullying sob uma perspectiva vi gostskyana 45 O bullying em relação às ideias “sócio interacionis tas” de Vygotsky 47 Lev Vygotsky e o Bullying: uma visão sócio-históri ca sobre educação. SUMÁRIO Autores: Érika Rominy R.S. Souza, Maria de Fátima da Costa Marques, Jonas Sales Fernan des e José Mário Soares Serra Júnior. Diagramação: Érika Rominy A Revista INFORMATRTIGOS é uma publicação que privile gia diversos temas do universo educacional em formato de ar tigo acadêmico. Idealizada pe los estudantes, Érika Rominy R.S. Souza, Maria de Fátima da Costa Marques, Jonas Sales Fer nandes e José Mário Soares Ser ra Júnior , foi elaborada durante a disciplina de Desenvolvimento Educacional ofertada pela Uni versidade de Brasília-UNB no 2° semestre de 2011. INFORMARTIGOS 50 REFEÊNCIAS NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 03 O termo bullying, do idioma inglês é uma variação da palavra bully e quer dizer "brigão, fanfarrão, valentão”. (MICHA- ELIS, 1987). Utiliza-se bulling para transmitir a ideia de ameaça, tirania, intimidação e maltrato. Bullying é um tipo de com- portamento violento caracterizado pela prática de atos agressivos re- alizados por um ou mais indivídu- os sem motivo aparente, de modo repetido e com intenção de causar sofrimento à(s) vítima(s) que nessa relação tem chances nulas de de- fesa, em relação ao(s) agressor(s). Segundo FANTE, o bullying: É uma forma de violência gratuita em que a vítima é exposta repetidamente a uma série de abusos, por meio de constrangimen- to, ameaça, intimidação, ridicularização, calúnia, difamação, discriminação, exclusão, dentre outras for- mas, com o intuito de hu- milhar, menosprezar, in- feriorizar, dominar. Pode ocorrer em diversos espaços da escola ou fora dela, como também em ambientes vir- tuais, denominado bullying virtual ou cyberbullying, onde os recursos da tecnolo gia de informação e comu- nicação são utilizados no assédio. (FANTE, 2011). De acordo com LOPES NETO NETO, em uma situa- ção de bullying podem existir: os que praticam (autores), os que sofrem (alvos) e os que assis- tem (testemunhas) à violência. Os autores são, comumente, indivíduos que têm pouca empatia. Frequentemente, pertencem a famílias de- sestruturadas, nas quais há pouco relacionamento afetivo entre seus membros. Seus pais exercem uma su- pervisão pobre sobre eles, toleram e oferecem como modelo para solucionar conflitos o comportamen- to agressivo ou explosivo. [...].Os alvos são pessoas ou grupos que são prejudicados ou que sofrem as consequ- ências dos comportamentos de outros e que não dis- põem de recursos, status ou habilidade para reagir ou fazer cessar os atos danosos contra si.São, geralmente, pouco sociáveis. Um forte sentimento de inseguran- ça os impede de solicitar ajuda. São pessoas sem es- perança quanto às possibi- lidades de se adequarem ao grupo. A baixa auto-estima é agravada por intervenções críticas ou pela indiferença dos adultos sobre seu sofri- mento. Alguns crêem ser merecedores do que lhes é imposto. Têm poucos ami- gos, são passivos, quietos e não reagem efetivamente aos atos de agressividade so fridos.[...].As testemunhas, representadas pela grande maioria dos alunos, con- vivem com a violência e se calam em razão do temor de se tornarem as "próximas vítimas". Apesar de não so- frerem as agressões direta- mente, muitas delas podem se sentir incomodadas com o que vêem e inseguras sobre o que fazer.[...]. (LOPES NETO, 2011). É necessário que se conhe- ça não apenas os comportamen- tos dos autores ou vítimas dessa relação de bullyng, mas também as conseqüências que esse com- portamento desencadeiam. O pe- diatra Lauro Monteiro, fundador da Associação Brasileira Mul- tiprofissional de Proteção à In- fância e Adolescência- Abrapia e idealizador do site Observatório da Infância, comenta a respei- to das consequências do bullying: A vítima pode apresentar baixa auto-estima, difWi- culdade de relacionamento social e no desenvolvimento escolar, fobia escolar, triste- za, depressão, podendo che- gar ao suicídio e a atos de violência extrema contra a escola. Já os autores podem se considerar realizados e reconhecidos pelos seus co- legas pelos atos de violência e poderão levar para a vida adulta o comportamento agressivo e violento. As tes BULLYING É NECESSÁRIO COMBATER E N T E N D A O T E M A NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 04 temunhas silenciosas tam bém sofrem, pela sua omis- são e falta de coleguismo. Muitos se sentem culpados por toda a vida. (MONTEI- RO, 2011). No Brasil foram feitos al guns estudos com intuito de conhe- cer e combater o bulling. Aramis Antônio LOPES NETO Neto e Lu- cia Helena Saavedra com a pesquisa “Diga Não ao Bullying”, realizada de novembro e dezembro de 2002 e em março de 2003 por meio de ques- tionários distribuídos a alunos do ensino fundamental de 11 escolas, sendo 9 públicas e 2 particulares do Rio de Janeiro mostraram que: A idade média da população avaliada foi de 13,47 anos e que dos 5.482 alunos parti- cipantes, 40,5% (2217) ad- mitiram ter tido algum tipo de envolvimento direto na prática do bullying no ano de 2002, seja como alvo do bullying e/ou como autor. (LOPES NETO; SAAVE- DRA, 2011). São cada vez mais frequen- tes os casos de agressões dentro das escolas noticiados que revelam além da crueldade dos agressores e o despreparo das escolas para combatê-los. SILVA, psiquiatra e escritora do livro Bullying: Mentes perigosas nas escolas, afirma que: a falta de conhecimento so- bre a existência, o funciona- mento e as consequências do bullying propicia o aumen- to desordenado no número e na gravidade de novos casos, nos expõe a situações trá gicas isoladas ou coletivas que poderiam ser evitadas. (SILVA. 2010. p.14). Diante disso confirma-se a necessidade de conscientização da sociedade como um todo com o objetivo de conter o bullying. SIL- VA complementa que “O somatório de forças é capazde multiplicar a eficácia e a rapidez das medidas tomadas contra o problema.” (SIL- VA.2010 p.162). Portanto, pode-se dizer que nos casos de bullying, a escola deve se portar como a me- diadora sendo também o ambiente para discussão do problema do pro- blema. Deve partir dela a iniciati- va de; chamar os pais do agressor e da vítima, o quanto antes para um diálogo com o objetivo de informar o acontecimento e de convidá-los a elaborarem junto com a escola ações para solucionarem o conflito, além de orientá-los a procurar ajuda psi- cológica para o aluno. Parafrase- ando essa mesma autora, cabe a es- cola a orientação aos pais a respeito de “ONGs e instituições que podem ser acionadas nos casos de bullying como por exemplo; delegacia da criança, conselhos tutelares, pro- motorias da educação, varas da in- fância e da juventude e promotorias públicas”. (SILVA. 2010 p.162.). Também é papel da escola agir preventivamente, conscien- tizando os alunos, as famílias e a comunidade envolvendo-os. “Para se alcançar êxito na redução da violência, especificamente no pro- cesso de bullying, é necessário que se desenvolvam trabalhos nas es- colas” (LISBOA et al. apud FAN- TE, 2005; HORNE et al. 2004). A aproximação dos pais bem como a cooparticipação deles, da comunidade e da escola é de ex- trema importância na elaboração de medidas preventivas e punitivas contra os agressores. A falta de proximidade que ocorre entre pais e filhos e, por con- seguinte, entre pais e escola pode ser considerado um agravante na con- tinuidade das situações de bullying, pois não há por parte dos pais dos agressores ou vítimas, o interes- se ou consciência dos reais com- portamentos dos filhos na escola. Pode-se dizer que a ausên- cia de proximidade e confiança no ambiente escolar ou familiar di- minuem as chances de confissões e E N T E N D A O T E M A NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 05 denúncias por parte das vítimas ou testemunhas de bullyin, uma vez que elas sentem-se pouco acolhidas e bastantes vulneráveis aos agres- sores. “É preciso que os professores cedam lugar, em suas aulas, à ex- pressão do afeto, à educação dos sen- timentos e à valorização das relações de amizade”. (LISBOA et al, 2009). Trabalhos com pais e a co- munidade, em geral, po- dem focalizar em estímulo e treinamento de formas saudáveis de resolução de con¬flitos interpessoais. Programas de mediação entre pares e protagonismo juvenil, partindo da ideia de que os alunos são sujeitos ativos nesse processo de mu- dança para a convivên¬cia pacífica e não violenta, também têm sido utilizados. (LISBOA et al p.68 apud GaJARDO 2009; HORNE et al. 2004). De acordo com LOPES NETO, os pais dos alunos vítimas se comportam de formas variadas, às vezes descrentes, indiferentes, às vezes irados ou inconformados contra eles próprios e com a escola. O sentimento de culpa e in- capacidade para debelar o bullying contra seus filhos passa a ser a preocupação principal em suas vidas, surgindo sintomas depressi- vos e influenciando seu de- sempenho no trabalho e nas relações pessoais. (LOPES NETO Neto, 2011). FANTE, autora do pro- grama antibullying “Educar para a Paz”. afirma que “será analisa do pelas comissões de Finanças e Tributação e de Constituição e Justiça e de Cidadania um projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados no qual as escolas de- vem instituir programas preven- tivos que citem ações que visem reduzir o problema e incentivar a cultura de paz”. Algumas ações: Capacitação de docentes e equipe pedagógica para o diagnóstico, interven- ção e encaminhamento de casos; formação de equi- pe multiprofissional para estudos e atendimentos de casos; envolvimento da co- munidade escolar – pais, docentes,discentes, equipe pedagógica – nas discussões e desenvolvimento de ações preventivas; estabelecimen- to de regras claras sobre o bullying no Regimento In- terno Escolar; orientação às vítimas e seus familia- res; encaminhamento de vítimas e agressores e seus familiares aos serviços de assistência médica, psico- lógica, social e jurídica; orientação aos agressores e seus familiares sobre as consequências dos atos pra- ticados e aplicação de me- didas educativas capazes de mudanças comportamentais significativas; parceria com a família dos envolvidos na resolução dos casos; implan- tação de sistema de registro de casos e procedimentos adotados, desenvolvimento de atividades que promo- vam a cidadania e a cul- tura de paz, dentre outras. (FANTE, 2011). Quanto ao ciberbullying , onde as agressões são principal- mente morais e de grandes possibi lidades de repercussão indica-se a prevenção para que esse tipo de vio- lência não aconteça. Os alunos devem ser orien tados pelos pais, e pela esco- la por meio de palestras, li- vros e cartilhas, dentre ou- tros, para o uso responsável da internet e das tecnologias em geral. Disponibilizar informações como numero do cartão, conta de banco, senhas, endereço próprio ou de alguém da família, ou quando vai estar fora por motivo de viagem , nunca é recomendado fornecer pela internet pois este ambiente é propicio para a pratica de bullying , uma vez que o anonimato e a menorida- de são permitidos.(SILVA. 2010 p.139-140). Porém os alunos devem ser orientados quanto à existên- cia de punições previstas em lei e como eles podem proceder nos ca- sos de denuncias de ciberbullying. SILVA destaca a importância da denúncia com a maior quanti- dade de provas em menor tempo, por meio de impressões, cópias de arquivos e páginas em cd, pen- -drive, onde se evidenciam o ciber- bullying sofrido. Ela recomenda também a ajuda de um advogado: somente um profissional com esse conhecimento po- derá avaliar o sofrimento e as perdas emocionais da vítimas e ajudá-las no difí- cio e necessário processo de fazer o que é preciso ser fei- to: denunciar e exigir que as leis sejam cumpridas e os agressores responsabiliza E N T E N D A O T E M A dos e punidos por seus atos. (SILVA.2010 p.140). Parafraseando SILVA, “para os ciberagressores maiores de idade, quando comprovado o cri- me cabe ação penal privada onde ele, responderá por crimes contra a honra como; calúnia, injúria, difa- mação, e responderá criminalmen- te por meio de ação penal pública, nos casos de ameaça. Caso o agressor seja menor, caberá ao Ministério Público com atribuição da vara da Infância e da Juventude pleitear ao juiz competente a apuração do ato. Neste caso as medidas são sócio- -educativas e devem estar prevista no Estatuto da Criança e do Ado- lescwente”. (SILVA.2010.p139). Conclui-se que o bullying é um tipo de comportamento violento presente entre crianças e adoles- centes nas escolas. Para combatê- -lo a sociedade como um todo deve ser conscientizada dos males ele em suas diversas forma causam. Para que em futuro pró- ximo se tenha uma sociedade sau- dável todas as forma de violências devem ser combatidas diariamente, inclusive o bullying. Ele não deve ser tolerado. Para isso, devem estar Quem nunca foi apelidado na escola, testemunhou alguém sendo apelidado ou sendo vítima de situações constrangedoras? O aluno mais gordinho é apelidado de “rolha de poço”, aquele que usa óculos de “quatro olhos” a garota magra de “Olivia Palito”. Compor- tamentos comoesses, muitas vezes classificados como uma simples brincadeira, nos últimos tempos vem sendo estudados de forma sis- temática sob a classificação de um fenômeno chamado bullying , é o que afirma a pesquisadora e coordenadora do programa de pós graduação em fenômeno bullying com abordagem psicanalítica da prevenção de da violência escolar, Cléo Fante. Embora a denomi- nação seja recente, o fenômeno é mais antigo que a própria esco- la e se repete continuamente em todo mundo. Existem referências que datam de estudos na Inglater- ra no século XIX (ROLIM, 2008). Mas, o que é Bullying? Termo ultimamen- te usado de maneira indiscri minada pela mídia para classificar a violência sofrida por estudan- tes, e que, algumas vezes tem sido até mesmo banalizado por estar sendo utilizado para definir todo e qualquer tipo de violência ocor NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 06 BULLYING VIOLÊNCIA DISFARÇADA DE BRINCADEIRA NA VIDA ESCOLAR E N T E N D A O T E M A atento aos casos de bullying não so mente a escola, mas também os pais e a comunidade. Estes devem unir- -se para elaborarem medidas para ações de contensão do bullying. E sempre que for necessário acionar órgãos, juizados que possam solu cionar o problema. Fazem-se neces sárias também políticas públicas para custear os investimentos com a prevenção e combate do bullying. Érika Rominy S.R.Souza NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 07 rida no contexto escolar, ou não. Segundo a maioria dos pesquisa dores é consenso que para que um tipo de violência possa ser carac- terizado como bullying é necessá- rio que ela ocorra entre pares no contexto escolar. (FANTE, 2008). “O bullying diz respeito a uma forma de afirmação de poder in- terpessoal através da agressão. A viti mização ocorre quando uma pessoa é feita de receptor do comportamento agressivo de outra mais poderosa.” (CRAIG, HAREL apud LOPES NETO 2005.). Para a pesquisado- ra Cléo Fante, o aspecto de brin- cadeira, tão comum no ambiente escolar, deixa de ocorrer quando há um desequilíbrio de poder en- tre as partes arroladas (autor se diverte, vítima sofre). “O problema é que aqui não se trata de simples brincadeiras próprias de infância mas de casos de violência física ou moral, em muitos casos, de forma velada praticada por agressores contra vítimas”. (CALHAU 2008). Existem alguns critérios básicos que foram estabelecidos pelo pesquisador Dan Olweus da Universidade de Bergen Noruega (1978-1993), são eles: “ações repeti tivas contra a mesma vítima num período prolongado de tempo; de- sequilíbrio de poder, o que dificul- ta a defesa da vítima; ausência de motivos que justifique, os ataques,” (CALHAU 2008). Fante acrescenta ainda que se deve levar em consi- deração os sentimentos negativos mobilizados e as seqüelas emocio nais vivenciadas pelas vítimas de bullying . Mas porque utilizar o termo Bullying? A adoção univer- sal do termo bullying foi decor- rente da dificuldade de traduzi-lo para diversas línguas. Durante a realização da Conferência Interna- cional Online School Bulling and Violence, de maio a junho de 2005, ficou caracterizado que o amplo conceito dado à palavra bullying dificulta a identificação de um termo nativo correspondente em países como Alemanha, França, Espanha, Portugal e Brasil, en- tre outros. (LOPES NETO 2005). As conseqüências do bullying são terríveis para to- dos os envolvidos mais mui- to mais devastadoras na vida das vítimas. Fante afirma que; As vítimas de Bullying apresentam quadros clíni- cos diversos relacionados ao stress, entre eles, re- baixamento da resistência imunológica e sintomas psicossomáticos variados, principalmente próximo do horário de ir a escola (especialmente em caso de crianças menores), como dores de cabeça, tonturas, náuseas, ânsia de vômito, dor no estômago, diarréia, enurese, sudorese,, febre, taquicardia, tensão, dores musculares entre outros. “...Quanto às conseqüências, os próprios alunos ressal- tam os prejuízos sobre o processo de aprendizagem. Indicam que tanto vítimas quanto agressores perdem o interesse pelo ensino e não se sentem motivados a freqüentar as aulas”...”A pesquisa confirma que o bullying se faz presente nas escolas públicas e priva- das, resultando numa série de prejuízos tanto para os envolvidos e seus familia- res quanto para as escolas e seus profissionais, como para os governos e a socie- dade. Tanto vítimas quanto autores e testemunhas po- dem apresentar prejuízos no processo de desenvolvimen- to acadêmico, emocional e social, comprometendo a construção da personalida- de e da cidadania” (FAN- TE; PEDRA. 2008) Segundo Rolim “as víti- mas de bullying tem mais chance de desenvolverem transtornos de humor, transtornos alimentares, distúrbios de sono ou/e transtor- nos de ansiedade em algum mo- mento da vida” (ROLIM 2008). Diante desse panorama E N T E N D A O T E M A NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 08 Quanto ao conceito de bullying, existe uma difi- culdade muito grande entre os pes- quisadores, para achar um termo equivalente em seus idiomas, por conta da riqueza do termo em inglês. Um estudo realizado em 14 países diferentes teve como objetivo identificar palavras nativas que se as- semelhassem ao conceito de bullying. Desse estudo, baseado em dados coletados em um grupo de alunos com 14 anos, identificaram-se 67 palavras relacionadas aos comportamentos bullying, sem que nenhuma delas abrangesse o significado do termo inglês (FANTE, 2005, pág. 28). Segundo a professora Dra. Cleo Fante, que é pioneira nos es- tudos do fenômeno bullying no país, trata-se de uma “palavra de origem inglesa, adotada em muitos países para definir o de- sejo consciente e deliberado de maltratar outra pessoa e colocá- -lo sob tensão” (FANTE, 2005). No Brasil, adotamos o ter- mo que, de maneira geral, é empregado na maioria dos países: bullying, Bully, en- quanto nome, é traduzido como “valentão”, “tirano”, e como verbo, “brutalizar”, “tiranizar”, “amedrontar”. Dessa forma, a definição de bullying é compreendi- da como um subconjunto de comportamentos agres- sivos, sendo caracterizado por sua natureza repetitiva e por desequilíbrio de poder (FANTE, 2005, pág. 28). Referente ao local onde o bullying se apresenta, existe uma clara contradição entre as doutoras Cleo Fante e a Ana Beatriz Silva . Conforme Silva (2003), o bullying se apresenta somente em ambien- te escolar, enquanto que Fante (2005), acredita sim que o bullying ocorre em ambiente escolar, mas não só nele, podem também ser apresentados em outros locais, con- tanto que ocorra entre pares, ou seja, colegas de trabalho ou de clas- se, por exemplo. Apesar de o bullying ter sempre existido, até mesmo antes do surgimento das es- colas, pioneiramente, o professor Dan Olweus (1998) foi o primeiro a ligar o termo ao fenômeno. Ao pesquisar sobre o suicídio de três adolescentes noruegueses em 1983, Olweus percebeu que era cabível de ter sido o bullying, o fator de- terminante para esses suicídios. O Ministério da Educação soli- citou então, uma pesquisa sobre o tema, e como resultado, ele criou o programa antibullying. Tal fato, incentivou ou BULLYING acredita-se que não basta divulga ção na mídia sobre o tema, é neces sário que existam espaços cada vezmaiores para debates sobre o tema, nas escolas na mídia, com os pais dos estudantes, entre os alunos, tanto agressores como agredidos e demais profissionais do ambiente escolar para que a conscientização sobre este tipo de violência possibi lite a diminuição desse tipo covarde de agressão. Para os pesquisadores desse tema é consenso que agir sobre o problema de forma isolada não é eficaz, é necessário que ações como, por exemplo, criação de ambientes que propiciem trabalhos cooperati vos estimulando relações de amiza- des e oferecendo modelos não agres- sivos para resolução de conflitos. Maria de Fátima da Costa Marques E N T E N D A O T E M A NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 09 tros países, como o Reino Uni- do, Canadá e Portugal, a promove rem campanhas de intervenção. O fenômeno bullying se faz presente em todas as escolas do mundo. Porém, no país que mais possui escolas na América do Sul, o Brasil, conforme o Censo Escolar 2002, realizado em 172.508 escolas, o bullying ainda é pouco comenta- do e estudado, fatores pelo qual não existem indicadores que nos forne- çam uma visão global para que se possa compará-lo aos demais países. O que se sabe é que em relação à Eu- ropa, o Brasil está com pelo menos 15 anos de atraso (FANTE, 2005). A abordagem sobre o que é ou não bullying diverge por vezes, quando estudiosos afirmam errone- amente que bullying é caracteriza- do por agressões, humilhações e até mesmo preconceitos sem levar em conta o caráter repetitivo, a ques- tão que deve ter ocorrido entre pares e também que sempre há no bullying, relação de hierar- quia entre os agressores e as ví- timas. Discussões ou brigas pon- tuais não são bullying (VINHA, 2010). Conflitos entre professor e aluno ou gestor também não é bullying (FANTE, 2005). Isto não significa que as práticas de violên- cia eventual ou verificadas entre pessoas que não divergem quan- to ao seu poder – onde, portanto, não há repetição – não constitu- am problemas sérios ou que não necessitem de tratamento para que sejam erradicadas, muito pelo contrário, “devem-se desenvolver abordagens mais amplas destina- das a conter toda e qualquer forma de violência” (informação verbal). Os comportamentos bullying, podem ocorrer de duas formas: direta e indireta, mas as duas são aversivas e prejudi- ciais ao desenvolvimento e ao psiquismo da vítima. Dois espe- cialistas no assunto, discorrem sobre o tema em seus trabalhos. A forma direta refere-se a todas as ameaças e práticas que en- volvam a imposição de sofrimento físico, como bater, socar, puxar, agarrar, espancar, ou a submissão de outro, pela força, à condição hu- milhante. Enquanto que a indireta, é caracterizada pelas condutas pro positais de exclusão ou isolamento do outro, pela fofoca e dissemina- ção de boatos ou de informações que deponham contra a honra e a boa imagem do outro (Wilson, 1998). E n q u a n - to Wilson entende que: A forma direta refere-se a todas as ameaças e práticas que envolvam a imposição de sofrimento físico, como bater, socar, puxar, agarrar, espancar, ou a submissão de outro, pela força, à condição humilhante. Enquanto que a indireta, é caracterizada pelas condutas propositais de exclusão ou isolamento do outro, pela fofoca e dis- seminação de boatos ou de informações que deponham contra a honra e a boa imagem do outro (Wilson, 1998). Quanto ao gênero, “o bullying direto é mais comum en- tre agressores meninos. As atitudes mais freqüentes identificadas nessa modalidade são os xingamentos e as agressões físicas” (CHALITA, 2008). Entre as meninas prevalece a prática do bullying indireto, ca- racterizado basicamente por ações que levam a vítima ao isolamento social. Boatos, intrigas, difamações entre outras atitudes, são manifes- tas nessa forma (CHALITA, 2008). Segundo Cleo Fante, a for- ma mais perniciosa de bullying se encontra dentro do bullying in direto, e é conhecida como cyber E N T E N D A O T E M A NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 10 bullying, pois o uso da internet agrava ainda mais o problema, uma vez que o cyberbullying age no anonimato, deixando a vítima, que geralmente, em ambiente escolar, são crianças e adolescentes, sem saber onde e como procurar ajuda. Este estudo teve por obje- tivo, conceituar o bullying, ligar o termo bullying ao fenômeno, o que pioneiramente foi feito por Olweus, analisar o que é ou não bullying e quando e onde ele ocorre. Proces- so que obteve muita divergência, sobretudo com as afirmativas das educadoras Ana Beatriz Silva e Cleo Fante. Objeto de estudo deste trabalho também, foi a análise do bullying no contexto histórico, pro- curando suas raízes, e chegando-se a conclusão de que o bullying sempre existiu, apenas era tratado com con ceitos diferentes. Ademais, notavel- mente por meio da pesquisas pode ser constatado que entre os tipos de bullying, apesar de o físico ser mais doloroso, o virtual é mais pernicio so, pois agir ocultamente, o que atormenta a vítima deixando-a sem saber o que fazer e a quem recorrer. Jonas Sales Fernandes BULLYING:VIOLÊNCIA ENTRE ESTUDANTES E N T E N D A O T E M A O termo ‘“Bullying” vem de-rivado da expressão “Bully” que quer dizer “valentão, bri- gão”; não se recomenda a tradu- ção da palavra, mas o sinônimo mais comum adotado no Brasil é “intimidação”. (ROLIM, 2008) O bullying é uma forma de com- portamento agressivo que se dá entre pares, no ambiente escolar, caracterizado principalmente por imposição de poder de um estudan- te para o outro. Compreende todas as atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem mo- tivação evidente, adotadas por um ou mais estudante contra outro(s). (LOPES NETO, 2005). Embora ainda pouco tratado no país, este não é um fenômeno novo já vem sendo estudado e analisado há al- guns anos em vários outros países. O interesse pelo Bullying começou ao final dos anos 70, nos países es- candinavos, sendo os trabalhos pio- neiros do professor Dan Olweus, sem dúvida, os mais influentes. Em 2001 o número de pesquisas aumentou consideravelmente, en- tre 2001 e 2008 tinha-se disponível algo em torno de 592 publicações sobre o tema; em face contrária as 124 constatadas entre os anos de 1968 e 2000. (BANDEIRA, 2009) No país, o termo ainda é pouco popular e muitas vezes é con- fundido com outros tipos de vio- lências; isso em decorrência da di- ficuldade em caracterizar o termo forma acertada, dando margem a interpretações errôneas e confusões na raiz do próprio termo; por conta, principalmente, do número escasso de pesquisas sobre o tema no país. (ROLIM, 2008) Na maioria dos casos, é apontado como uma práti- ca que faz parte da vida escolar dos alunos, e que os mesmos deveriam ter maturidade para aprender li- dar com tal, em detrimento disso, NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 11 é deixado de lado. No entanto, o Bullying é problema muito sério que merece mais tempo dedicado a pesquisa e uma visão mais rea- lista por parte dos profissionais da educação. (BANDEIRA, 2009) É um tipo de violência ritualizada que se repete por diversas vezes, direcionada geralmente a indivi- duo “fraco”, por parte de um indi- viduo “popular” que gozade certo ar de impunidade e que age assim para demonstrar “poder”. Tal fe- nômeno se enraíza no ambiente escolar por diversos aspectos, en tre eles, os de cunho social, cultu- ral, aspectos inatos de tempera- mento, influências de familiares, de amigos, da escola e da comu- nidade. (LOPES NETO, 2005) É uma tarefa difícil tentar apurar a ocorrência do bullying em locais específicos, embora, há a possibilidade de se analisar da- dos de pesquisas que foram de- senvolvidas em diversos países; e pode-se afirmar, sem hesitar, que se trata de um problema de cará- ter universal, que tem incidência em escolas em todo o mundo e que se manifesta entre crianças e ado lescentes (BANDEIRA, 2009) Através de um questionário desen- volvido nos Estados Unidos por Hamby e Finkhor, entre os anos de 2001e 2004, chamado ‘Vitimização Juvenial’ (Juvenial Victimization Questionnaire) que considerou 34 formas de agressão contra crian- ças e adolescentes entre 2 e 17 anos. Apontou que as crianças america- nas sofreram agressões nas esco- las numa proporção muito maior do que outros tipos de violência, levando em consideração outras pesquisas já levantadas anterior mente sob a ótica unicamente da ‘violência’. (BANDEIRA, 2009) Através de estudos desen- volvidos na Austrália por Rigby em 1997, foi possível afirmar que para cada seis alunos um já pode ter sido vítima de Bullyng, uma vez em por semana. No país, as agressões mais comuns no meio escolar são de cunho verbal que expressam pro- vocações ou o emprego de apelidos pejorativos. (BANDEIRA, 2009) Em estudo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) desen- volveu uma pesquisa-comparativa envolvendo 5 países: Estados Uni dos, Irlanda, Israel, Portugal e Su- écia. Através da mesma constatou -se que foram vítimas de Bullying, trimestralmente, um total de 28,5% em Israel, 22,1% nos EUA, 17,8% em Portugal, 15,9% Irlanda e 9,8 na Suécia. (BANDEIRA, 2009) No Reino Unido, em um estudo realizado em Sheffield por Philips em 2003, com a partici- pação de 6.758, constatou-se que mais de ¼ deles já tinham sido ví- timas de Bullyng em um trimes- tre de curso. Em Hertfordshire, em uma escola primária, entre 2.377 estudantes cerca de 30% dis- seram ter sido vítimas de agressões do gênero. (BANDEIRA, 2009) No Brasil, em meio a pou- cos estudos já realizados, um dos mais notáveis, talvez, tenha sido o da UNESCO (Organização das Na- ções Unidas) em torno da violên- cia nas escolas; embora não tenha sido em específico sobre Bullying. Esse trabalho apurou que cerca de 1/5 de alunos e servidores de escolas em todo Brasil relataram casos de violência envolvendo agressões e es- pancamentos. Deste mesmo percen- tual, houve variação mínima de 11% E N T E N D A O T E M A NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 12 a 13% nos estados do Rio de Janei- ro, Maceió e Fortaleza; e máxima de 23% a 25% em Porto Alegre e Flo rianópolis. (BANDEIRA, 2009) O Centro de Estudos da Criminalidade e Segurança Públi- ca (CRISP) da UFMG investigou 50 escolas de Belo Horizonte (Es- taduais, Municipais e Privadas) buscando por relatos de alunos que presenciaram focos de violên- cia na escola. Em percentual, 9,6% dos alunos entrevistados disseram ter presenciados casos envolvendo agressões físicas e verbais; 18,3% foram agredidos na escola, 10,4% já faltaram às aulas por medo de ame- aças de agressão. (ROLIM, 2008) No ano de 2002, a Associa- ção Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adoles- cência (ABRAPIA), realizou um estudo como 5.875 estudantes entre quintas e oitavas séries, em onze escolas no Estado do Rio de Janei- ro. Constatou um percentual 40,5% de alunos envolvidos com Bullying naquele ano: deste total 16,9% eram vítimas, 12,7% eram autores e 10,9% eram vítimas e autores ao mes- mo tempo. (BANDEIRA, 2009) Uma pesquisa desenvolvida por Souza e Ribeiro, em 2005, como 400 estudantes de Ensino Médio em Recife (PE) em duas escolas (uma pública e outra particular); 60% dos alunos entrevistados confirmaram ter praticado Bullying nos últimos 30 dias no semestre. Especialis- tas na área da saúde identificam inúmeras conseqüências danosas que a prática do Bullying causa em suas vítimas. Para o médico Lopes Neto (2005) as mais comuns seriam: enurese noturna, alterações de sono, cefaléia, dor espigrástrica, desmaios, vômitos, dores em ex- tremidades, paralisias, hiperven- tilação, desmaios, queixas visuais, síndrome do intestino irritável, anorexia, bulimia, isolamento, ten- tativas de suicido, irritabilidade, agressividade, ansiedade, perda de memória, histeria, depressão, pâ- nico, relatos de medo, resistência em ir à escola, insegurança por estar na escola, mau rendimento escolar, e atos deliberados de auto- -agressão. (LOPES NETO, 2005) Outros problemas como ansiedade, insegurança, transtor- nos de saúde mental, depressão e sentimentos de tristeza são sinto mas também bem comuns entre as vítimas de Bullying, constatou Williams em 1996. Na Inglaterra, 82% dos membros da Associação de Gagos foram vítimas de Bullyng, confirmou o estudo de Mooney e Smith em 1995. (ROLIM, 2008) Em um estudo desenvolvido na Espanha, Alemanha e Inglaterra com 884 adultos vítimas de bullying, constatou que os mesmos sofriam de sentimentos de baixa auto-estima, dificuldades de relacionamento, baixa confiança nas pessoas. E em muitos casos, a prática do Bullyng é a causa principal de faltas fre- qüentes e evasão escolar, citado por Rigby em 1997. (ROLIM, 2008) Em casos mais graves, a Criminologia Moderna aponta que a prática do Bullying contribui for- temente para o desenvolvimento de uma postura antissocial e deliquen- te por parte dos agressores; os mes- mos possuem ainda propensão ao abuso de álcool e drogas, associados a práticas criminais, citado por Far- rington em 1993. (ROLIM, 2008) Em suma, só monitorar o desempe- nho dos estudantes por meio das no E N T E N D A O T E M A NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 13 O CONTROLE DO COMPORTAMENTO NO COMBATE AO BULLYING Atualmente, o Bullying; um tipo comportamento vio- lento que acontece entre estudan- tes dentro das escolas apresenta- -se como notícia reincidente nos meios de comunicação. Com in- tuito de conhecer e combater esse tipo de comportamento, estudos e pesquisas buscam viabilizar programas educacionais para o combate e redução do Bullying. Watson, iniciador da cor- rente Behaviorista ou comporta- mentalista, postula em seu artigo publicado em 1913: “Psicologia como os behavioristas a vêem”, o comportamento como objeto de es- tudo da ciência psicológica. Com o aprofundamento dos estudos do comportamento, os behavioristas entendem que os comportamen- tos (respostas) são desencadeados a partir da interação do ser hu- mano ou animal, com o meio ao qual está inserido. Enfim, que o homem é constituído pela soma das influências do ambiente (es- tímulos). “Certos estímulos levam os organismos a dar determinadas tas, testes e cumprimento de tarefas não é o bastante. Levar em consi- deração as competências e possíveis dificuldades que os mesmos podem vim a apresentar em seu conví- vio com o restante dos estudantes; passa a ser de inteira responsabi- lidade dos profissionais inseridosnas áreas da educação, saúde e se- gurança. (LOPES NETO, 2005) Para tal, é fundamental o total comprometimento dos professores, funcionários, pais, alunos para o emprego de projetos que visem com- bater o Bullying. Essa colaboração se faz importante, no sentido da busca pela criação e manutenção das regras, diretrizes e das ações no ambiente escolar. Principal- mente no que tange a priorização da conscientização geral e apoio às vítimas de tais práticas: que as ví- timas sejam encorajadas a denun- ciar e as que mesmas possam ter a segurança que os agressores este jam sendo punidos e tratados de- vidamente. (LOPES NETO, 2005) Os alunos devem ser encorajados a participarem de supervisões e inter- venções contra os atos de Bullying Wnas escolas. Porque é com o en- frentamento árduo do problema por parte dos funcionários escola- res dando apoio aos estudantes; que possibilita a conscientização por parte dos agressores e, consequente- mente, o término das agressões. E, claro, não menos importante: aos alunos que se encontram na posição de agressores devem ser oferecidas condições para a mudança de com- portamento e não só a utilização de sanções, que de pouco resolvem, em tais casos. (BANDEIRA, 2009) José Mário Soares Serra Júnior S O B A Ó T IC A D E S K IN N E R S O B A Ó T IC A D E S K IN N E R respostas e isso ocorre porque os organismos se ajustam aos seus am bientes por meio de equipamentos hereditários e pela formação de hábitos”. (BOCK et al, 2008, p.58). Assim sendo, nos casos de Bullying, de acordo com os com- portamentalistas esse comporta- mento violento, em algum momen- to foi ensinado ou estimulado a apresentar-se. Por exemplo, uma criança que vive em um lar com hábitos violentos, tende a aprender e repetir esse tipo de comportamen- to. Quando essa criança é exposta a um ambiente diferente, numa escola, por exemplo, onde regras contra a violência sejam ensina- das e o comportamento harmônico entre as demais crianças é estimu- lado e valorizado, a criança ainda que violenta pela aprendizagem adquirida no lar tende a adaptar- -se naquele novo espaço, pois o am- biente é diferente não só por ser a escola e não o lar, mas também por- que apresentam estímulos novos. Isso se confirma nos estu- dos da formulação do comporta- mento operante apresentado por SKINNER, continuador dos es tudos de Watson. SKINNER de fende que o comportamento pode ser controlado a partir da manipu lação de estímulos determinados. Se vamos usar os métodos da ciência no campo dos assun- tos humanos, devemos pres- supor que o comportamento é ordenado e determinado. Devemos esperar descobrir que o que o homem faz é resultado de condições que podem ser especificadas e que, uma vez determinadas, poderemos antecipar e até certo ponto determinar as ações. (MIZUKAMI 1986 p.21 apud SKINNER, 1981, p.20). Os behavioristas entendem que há comportamentos não volun- tários, chamados comportamento reflexo ou respondente como, por exemplo, “a contração das pupilas quando uma luz forte incide sobre os olhos ou o arrepio da pele quan- do recebe um vento frio”. (BOCK et al, 2008,p.59). Esses comporta- mentos são incondicionados não dependem de aprendizagem. Por outro lado, o comportamento ope- rante é condicionado, resultante de treinos, aprendizagem, e even- tos reforçadores, que aumentem as chances do comportamento de- sejado continuar acontecendo. O comportamento operante refere-se à interação sujeito- -ambiente. Nessa interação chama-se de relação funcio- nal a relação entre a ação do individuo (a emissão da res- posta) e as conseqüências. É considerada funcional por- que o organismo se compor- ta (emitindo essa ou aquela resposta), ou seja, sua ação produz uma alteração am- biental, conseqüência que, por sua vez, retroage sobre o sujeito, alterando a pro- babilidade futura de ocor- rência. Assim, agimos so- bre o mundo em função das conseqüências criadas pela ação. As consequências da resposta são as variáveis de controle mais relevantes. (BOCK et al, 2008, p.63). Pode-se dizer que os indi- víduos são treinados a darem res postas em situações diversificadas. Seus comportamentos são, contro- lados e reforçados por meio de es- tímulos advindos de uma filosofia, cultura ou administração nos mais variados ambientes como por exem- plos, nas igrejas, no ambiente de trânsito, na publicidade, nas em- presas, nas escolas e entre outras. Tratando-se do ambiente escolar, por exemplo, o controle da disciplina dos alunos, as normas da instituição e a aprendizagem são realizadas por meio de estímu- los, sendo esses reforçados ou não. As ações são mantidas ou não, pelas consequências que produzem no meio am- biente. Essas consequências são denominadas reforça- doras quando aumentam a freqüência de emissão das respostas que as produziram e punidoras ou aversivas quando diminuem, mesmo que temporariamente, a fre NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 14 S O B A Ó T IC A D E S K IN N E R NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 15 qüência das respostas que as produziram. BOCK (2008, p.63). Segundo os behavioris- tas um comportamento desejado deve ser reforçado positivamen te, o uso de punições pode retar- dar o comportamento desejado. Os analistas do comporta- mento devem evitar o uso de punição, quer pelos subpro- dutos negativos que ela gera para os organismos, quer pelo fato de que seus efeitos tendem a ser temporários, o mais das vezes quando esta cessa, o comportamento an- tes sob o seu controle tende a, rapidamente, voltar à condição anterior. (CAR- RARA, 2004 p.116). LOPES NETO, um dos fundadores da Associação da Bra- sileira Multiprofissional de Pro- teção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA) e coordenador do Programa de Redução do Compor- tamento Agressivo entre Estudan- tes, também acredita nesse tipo de reforço quando cita a seguinte me- dida preventiva contra o Bullying: Aos alunos autores, devem ser dadas condições para que desenvolvam compor- tamentos mais amigáveis e sadios, evitando o uso de ações puramente punitivas, como castigos, suspensões ou exclusão do ambiente esco- lar, que acabam por margi- nalizá-los. (LOPES NETO, 2011). LOPES NETO, acredita que para a melhora do convívio so cial entre os alunos, o desempenho de cada um deles deve ser avaliado como um todo, não apenas por suas notas em testes ou cumprimento re- gular das tarefas solicitadas. Diz: Perceber e monitorar as habilidades ou possíveis di- ficuldades que possam ter os jovens em seu convívio social com os colegas pas- sa a ser atitude obrigatória daqueles que assumiram a responsabilidade pela edu- cação, saúde e segurança de seus alunos, pacientes e filhos. (LOPES NETO, 2011). No entanto, um problema como o bullying exige principal- mente dos profissionais da educa- ção a habilidade de manipular o ambiente de aprendizagem e esti- mular respostas desejadas. Faz-se necessário a observação a criação e a aplicação dos estímulos que desen- cadeiam os comportamentos alme- jados. O monitoramento dos alunos de todas as formas que a instituição disponibilizar se faz importante nesse processo, pois segundo MI- ZUKAMI “o comportamento hu- mano é complexo e fluido, muitas vezes sujeito a múltiplas causações presentes e passadas, quepodem, como decorrência, mascarar os ver dadeiros fatores que afetam o com- portamento num determinado mo mento”. (MIZUKAMI, 1986, p.30). Também é importante que um programa de combate ao bullying ao ser elaborado tenha participação da comunidade próxi- ma a escola, dos pais e dos alunos. Todos os programas anti- -bullying devem ver as esco- las como sistemas dinâmicos e complexos, não podendo tratá-las de maneira unifor- me. Em cada uma delas, as estratégias a serem desen- volvidas devem considerar sempre as características sociais, econômicas e cultu- rais de sua população. (LO- PES NETO, 2011). Reforçar positivamen- te um comportamento aumenta a probabilidade de resposta dese- jada acontecer novamente, uma vez que o estímulo que a desenca- deou já foi identificado. LOPES NETO cita a importância envolver os alunos no combate ao Bullying e reforçar os comportamentos contrários às práticas violentas. Deve-se encorajar os alunos a participarem ativamente da supervisão e intervenção dos atos de bullying, pois o enfrentamento da situação pelas testemunhas demons- tra aos autores que eles não terão o apoio do grupo. Trei- namentos através de técni- cas de dramatização podem ser úteis para que adquiram habilidade para lidar de di- ferentes formas. Uma outra estratégia é a formação de grupos de apoio, que pro tegem os alvos e auxiliam na solução das situações de S O B A Ó T IC A D E S K IN N E R NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 16 bullying. (LOPES NETO, 2011). Por tanto, conclui-se que a teoria behaviorista pode ajudar as escolas no combate ao Bullying, desde que façam parte da ideo logia escolar a criação e manu- tenção de uma cultura contra a violência em todas as suas varia ções, bem como a observação, o monitoramento e o reforçamento de comportamentos pacificadores. Os programas contra o Bullying devem priorizar a observação dos fatores que desencadearam o com portamento desejado e buscar re- forçar os estímulos causadores da resposta para que ela se mantenha. Érika Rominy S. Souza É POSSÍVEL CONDICIONAR UMA CRIANÇA ADEPTA DA PRÃTICA DE BULLYING A MUDAR ESTE COMPORTAMENTO? O comportamento humano sempre despertou muitas perguntas por parte dos estudiosos do assunto e até mesmo de leigos. Burrhus Frederic Skinner é con- siderado um dos maiores expoen- tes do estudo do comportamento também chamado de Behavioris- mo, seu livro Science and humam behavior (1953), tornou-se o li- vro básico da psicologia behavio- rista. A partir de leituras acerca das experiências de condiciona- mento de Watson e Pavlov, apud SCHULTZ,D&SCHULTZ,S.1981) os quais lhe despertaram um inte- resse científico pela natureza hu- mana, Skinner passa a se dedicar a estudar o comportamento e a criar métodos científicos para mudança ou condicionamento dos indiví- duos submetidos às suas técnicas. (SCHULTZ, D, & SCHULTZ, S.1981). Os estudos de Skinner têm sido largamente usados na psi- cologia educacional e psicologia clínica, já que suas teorias estão voltadas para aplicação em proble- mas da vida real. De acordo com seu ponto de vista, a vida é pro- duto da história de reforços. Ele Afirmava que “sua vida foi pre- meditada e organizada de acordo exatamente com o modo que seu sistema ditava como devia ser a vida de todo ser humano”. Skinner acreditava que suas experiências estavam relacionadas exclusiva e diretamente aos estímulos do pró- prio ambiente. (SKINNER. 1985) Nesse viés alguns pesqui- sadores têm aplicado as técnicas de Skinner sobre análise aplica- da do comportamento para estu- dar os comportamentos em suas mais variadas nuances. A Análise Aplicada do Comportamento teve origem a partir de um trabalho publicado por Lindsley e Skinner em 1954. Nesse artigo, os pesqui- sadores aplicaram o conhecimento acumulado sobre o comportamen- to operante em humanos. (GOS- CH; VANDENBERGHE. 2011) O termo comportamento tem sido utilizado em Psicologia S O B A Ó T IC A D E S K IN N E R NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 17 para designar as interações orga- nismo-ambiente (Todorov, 1982). Na Análise do Comportamento, essa interação é de interdepen- dência (GOSCH; VANDENBER- GHE. 2011). Segundo Todorov ; não faz sentido falar de comportamento sem men- cionar as circunstâncias em que ele ocorre; como não tem sentido falar em circuns- tâncias sem a especificação do comportamento que cir- cunstanciam” (TODOROV, 1989). Para esta linha de pesquisa, a Análise do Comportamento uti- liza a noção de contingência e de relação funcional para descrever as leis que regem as interações orga- nismo-ambiente (TODOROV, 1989) A Análise Aplicada do Com- portamento enfatiza o papel das ex- periências diretas na aprendizagem do comportamento agressivo, como ocomportamento humano sempre despertou muitas perguntas por parte dos estudiosos do assunto e até mesmo de leigos. Burrhus Fre- deric Skinner é considerado um dos maiores expoentes do estudo do comportamento também chamado de Behaviorismo, seu livro Scien- ce and humam behavior (1953), tor nou-se o livro básico da psicologia behaviorista. A partir de leituras acerca das experiências de condicio namento de Watson e Pavlov, apud (SCHULTZ,D&SCHULTZ,S.1981) os quais lhe despertaram um interes- se científico pela natureza humana, Skinner passa a se dedicar a estudar o comportamento e a criar métodos científicos para mudança ou condi- cionamento dos indivíduos subme- tidos às suas técnicas. (SCHULTZ, D, & SCHULTZ, S.1981). Os estudos de Skinner têm sido largamente usados na psicolo- gia educacional e psicologia clíni- ca, já que suas teorias estão volta- das para aplicação em problemas da vida real. De acordo com seu ponto de vista, a vida é produto da história de reforços. Ele Afirmava que “sua vida foi premeditada e organizada de acordo exatamente com o modo que seu sistema ditava como devia ser a vida de todo ser humano”. Skin- ner acreditava que suas experiên- cias estavam relacionadas exclusiva e diretamente aos estímulos do pró- prio ambiente. (SKINNER. 1985) Nesse viés alguns pesqui- sadores têm aplicado as técnicas de Skinner sobre análise aplica- da do comportamento para estu dar os comportamentos em suas mais variadas nuances. A Análise Aplicada do Comportamento teve origem a partir de um trabalho publicado por Lindsley e Skinner em 1954. Nesse artigo, os pesqui- sadores aplicaram o conhecimento acumulado sobre o comportamen- to operante em humanos. (GOS- CH; VANDENBERGHE. 2011) O termo comportamento tem sido utilizado em Psicologia para designar as interações orga- nismo-ambiente (Todorov, 1982). Na Análise do Comportamento, essa interação é de interdepen- dência (GOSCH; VANDENBER- GHE. 2011). Segundo Todorov ; não faz sentido falar de comportamento sem men- cionar as circunstâncias em que ele ocorre; como não tem sentido falar em circuns- tâncias sem a especificação do comportamento que cir- cunstanciam” (TODOROV, 1989). Para esta linha de pesquisa, a Análise do Comportamento uti- liza a noção de contingência e de relação funcional para descrever as leis que regem as interações orga- nismo-ambiente (TODOROV, 1989) S O B A Ó T IC A D E S K IN N E R NOV/2009 INFORMARTIGOS P.18 A Análise Aplicada do Com- portamento enfatiza o papel das ex periências diretas na aprendizagem do comportamento agressivo, como experimentar diretamente estímu- los reforçadores após o comporta- mento. O comportamento agressivo pode ser mantido por uma varieda- de de eventos reforçadores. (SKIN- NER. 1985) destaca o fato de a ví- tima do agressor ser subjugada e as pistas de dor e outras conseqüências injuriosas vivenciadas pela vítima constituírem os principais reforça- dores do comportamento agressivo. O comportamento do agressor tam- bém é reforçado pela complacência da vítima, enquanto a complacência está sendo reforçada pela interrup- ção da agressão. Esse comportamen- to agressivo é o comportamento ado- tado pelos praticantes de bullying que têm nessas contingências fa- tores que reforçam seu comporta- mento agressivo. (CALHAU, 2008). Mas como mudar o com portamento dos agressores? Como fazer com que os praticantes de bullying os “bulies” tenha seu com- portamento mudado de forma que os traços de agressividade sejam retirados do seu comportamento? Um dos métodos que pode ser utilizado é a Terapia compor- tamental Infantil. De acordo com Lima (1987) esta inclui entre seus objetivos ajudar a criança a reco nhecer seu comportamento, levar a criança a efetivamente lidar com as variáveis que afetam seu comporta- mento e aumentar a probabilidade de ocorrência de comportamentos que garantam à criança maior nú- mero de reforçamentos positivos. Infere-se, a partir das pes- quisas realizadas, que é possível condicionar uma pessoa praticante de bullying a mudar seu compor- tamento. Mas tal condicionamen- to não pode ser obtido sem uma aplicação cuidadosa, por profissio- nais devidamente capacitados, das técnicas postuladas por Skinner. Maria de Fátima da Costa Marques Skinner começou a trabalhar em psicologia depois de gradu- ar-se em Letras, e ter tentado, por um ano, seguir a carreira literária. Nesta época, entrou em contato com o Behaviorismo. (SKINNER, 1976). Duas influências funda- mentais parecem ter marcado o pensamento de Skinner e guiado o seu trabalho em psicologia nes tes anos iniciais, e posteriormente: a de Loeb, quanto ao objeto de es- tudo, e a de Mach, quanto ao mé- todo científico. Embora Skinner cite também outros autores como Watson, Pavlov, Sherrington, Thomdike, Poincaré e Bridgman, estas influências parecem ter sido mais periféricas (SKINNER, 1979). De Loeb, Skinner herdou a ideia de se estudar o compor- tamento do organismo como um todo. A esse respeito, ele diz que: O comportamento parece ter sido aceito pela primeira vez como um tema em seus próprios termos quando fo- ram estudados organismos pequenos demais e SKINNER S O B A Ó T IC A D E S K IN N E R NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 19 com comportamento simples demais para sugerir proces- sos iniciadores internos... A formulação de Loeb dos tropismos e sua ênfase no ‘movimento forçado’ dispen- savam as explicações inter- nas. A coisa a ser estudada era o comportamento do ‘organismo como um todo’. E isto também poderia ser dito de organismos maiores. (SKINNER, 1989a, p. 61). E mais especifi- camente, Skinner afirma: “Eu queria estudar o com- portamento de um organis- mo separado de qualquer referência à vida mental, e isto era Watson, mas eu também queria evitar refe- rências ao sistema nervoso, e isto era Loeb” (SKINNER, 1989b, p. 122). E isso mostra que Skin ner não se preocupava apenas com eventos mentais não físicos, mas sim com fatores internos físicos, como é o caso do sistema nervoso. A abordagem Skinneriana pretende eliminar a necessidade de recorrência a explicações linguísti- cas ou filosóficas para que se compre endam as bases do discurso verbal. Como, para Skinner, cada resposta verbal deve ser entendida enquanto funcionalmente relacionada a um conjunto de estímulos que tomem sua ocorrência (mais) provável, o comportamento verbal constitui-se num problema a ser tratado pela Psi cologia e não por outras disciplinas. Neste ponto, vale à pena fa- zer um parêntese para acrescentar que esta questão da relação funcio- nal entre termos e estímulos que aumentam sua probabilidade de ocorrência será tratada de forma mais sistemática no livro Verbal Behavior (SKINNER, 1957/1978), onde aparece sob a classe de ope- rantes verbais denominados “tatos”. “O tato surge como o mais importante operante ver- bal, por causa do controle incomparável exercido pelo estímulo anterior. Este con- trole é estabelecido pela co- munidade reforçadora (...) No tato (...) estabelecemos uma relação excepcional com um estímulo discrimi- nativo. Fazemos isso refor- çando a resposta tão consis- tentemente quanto possível na presença de um estímulo, com muitos reforçadores diferentes ou com um refor- çador generalizado. O con- trole resultante é feito por meio do estímulo. Uma dada resposta ‘específica’ uma dada propriedade-estímulo. Isto é a ‘referência’ da teo- ria semântica. (SKINNER, 1957/1978, p. 109). Skinner (1992) define comportamento verbal como “um comportamento reforçado pela mediação de outra pessoa” (p.14). Sua tese central diz que “Em todo comportamento verbal há três eventos importantes a serem considerados: um estímulo, uma resposta e um reforço” (SKINNER, 1992). Assim, uma criança adquire comportamento verbal quando suas vocalizações começam a ser refor- çadas ao produzirem conseqüências em uma dada comunidade verbal. Skinner (2001) 6 tipos de comportamento verbal: mand (or- dens, regras de polidez), eco (re- petições); textual (como a leitura, a transcrição ou cópia, o ditado); intra-verbal (ex. respostas em ca- deia como, por exemplo, recitar o alfabeto; associações de palavras, tradução; tato (contato) e rela ção com a audiência (o ouvin- te como condição necessária para que o comportamento ocorra). A cultura determina quais são as coisas boas ou corretas, úteis e interessantes que os membros de suas comunidades podem fazer, re- força tais comportamentos, admi rando e recompensando quem os adotar. O indivíduo vai gostar de si mesmo se ele for um produto das práticas reforçadas pelo ambiente social (SKINNER, 1998). Nas ins- tituições escolares o comportamento reforçado é do aluno disciplinado, S O B A Ó T IC A D E S K IN N E R NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 20 que tira notas acima do mínimo es- tipulado, como recompensa irá pas- sar de ano, cursar uma nova série; caso não atinja o índice de notas pré-determinadas, não receberá ne nhuma recompensa e não será ad mirado, pois se acredita que não al- cançou o desenvolvimento cognitivo que se esperava dele, demonstrado pelas notas abaixo da média esti- pulada pelas escolas. E essa questão possui ligações indiretas com o fe nômeno bullying, pois uma vez que a pessoa pode ser vitimizada ou ser tratada como inferior, ela poderá se auto-excluir, ou ser excluída por um ou mais indivíduos do seu meio . Passar de ano implica variáveis contextuais que fazem parte todo o processo de aprendizagem que podem possibilitar ir de uma série para outra. (PINGOELLO, 2009). Este estudo teve por objeti- vo, conceituar o método de Skinner, ligar o termo bullying ao Behavio rismo de Skinner .Objeto de estudo deste trabalho também, foi a análi se doCondicionamento no contexto histórico, procurando suas raízes, e chegando-se a conclusão de que o método pode sim, ter suas relações com o fenômeno bullying. Ade- mais, o método de Skinner mostra a prática que se tem feito dos estu- dos experimentais do condiciona- mento operante que é baseada na eficácia da administração sistemá- tica de recompensas (reforços) a um organismo, quando queremos que ele apresente certas reações. Essa aplicação prática re- quer que se faça o levantamento dos eventos que reforçam um dado indivíduo. Pode-se controlar as re- ações utilizando as conseqüências reforçadoras. Isto é importante em todos os campos em que o com- portamento figura em destaque. Jonas Sales Fernandes FREDERIC SKINNER E O BULLYING: O COMPORTAMENTO DO ALUNO CONDICIONADO POR REFORÇADORES O behaviorismo radical de Skinner é um modelo psi- cológico prático, por assim dizer. Em não se faz distinção entre os mundos subjetivo e objetivo, e se concentra em conceitos e termos, e o seu foco principal é propor um modelo com termos fáceis que se tornem conhecidos e, portan- to, “auto-explicativos”, focando em um visão mais da experiên cia natural do comportamento através de observações precisas. Reforça também a restauraração e a introspecção de acordo como limites daquilo que podem ser ob- servado dentro do humano. Nes- sa perspectiva, analisa o corpo e sua relação com o meio ambien- te, tratando dos acontecimentos S O B A Ó T IC A D E S K IN N E R NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 21 externos antecedentes e os ocor- ridos no mundo privado. Através dessa abordagem há a controle do estabelecimento de uma lingua- gem comportamental otimizada em interpretar os termos men- tais, de acordo com o ponto de vista behaviorista. As pesquisas experimentais neste campo, com- preendem a análise experimental de comportamento, e as aplica- ções práticas são parte da análise aplicada do comportamento. A análise do comportamento deve envolver, além das respostas em questão, o contexto em que ele ocorre e os eventos que seguem as respostas. (LOPES, 2003) O behaviorismo radical constrói um paradigma de con- dicionamento não-linear e esta- tístico, contrário ao paradigma linear e reflexivo das linhas teó- ricas anteriores ao comportamen- talismo. Defende que a maioria dos comportamentos humanos são condicionados de modo ope- rante; tenta, então, delinear uma variante para o behaviorismo que trate dos acontecimentos mentais como um comportamento interno, cuja descrição é de acesso à obser- vação experimental. O vinculo da mente ao físico e a perspecti- va fisiológica, baseada no exame do sistema nervoso, também são criticadas, enquanto as alterna- tivas ao behaviorismo radical, defendido por Skinner, como o estruturalismo e o behaviorismo metodológico têm seus pontos fra- cos destacados. (MATOS, 1993) Ressalta-se o valor de princípios que organizam o comportamento, como o costume, e que possibili- tem a previsão de ações que ainda não ocorreram. Os padrões de de- senvolvimento históricos são ou- tros componentes estruturais que se tornam importantes para com- preender as mudanças, ao longo do tempo. Embora se evitasse tratar o behaviorismo como uma abor dagem mentalista; porque na vi- são de Skinner, faltava informa- ções úteis que permitam afirmar o porquê das pessoas orientarem ou não por um hábito qualquer. Essa deficiência deixa margem para permanência de explicações mentalistas que complementem a resposta necessária sobre as cau sas do comportamento. Devido ao fato de dizer apenas como as pes- soas agem, não esclarecendo o por- quê desse comportamento ocorrer. O behaviorismo destaca- -se pela introdução da história ambiental como um fator muito importante para compreensão do comportamento; ou seja, circuns- tâncias e comportamento podem ser relacionados e o papel do meio ambiente é realçado. Enquanto a interpretação mentalista parali- sa as demandas mais profundas, por não levar em conta esse fator fundamental, a atenção dada às causas ambientais do comporta- mento abriu novas questões que não podiam ser mais negadas. O behaviorismo pode também ser visto como associado ao positi- vismo lógico corrente filosófica para a qual os acontecimentos mentais não deveriam ser alvo de uma ciência natural, por serem fatos "inobserváveis", do ponto de vista científico. Na visão dos positivistas lógicos, se um ser au- tômato tivesse a capacidade de reproduzir um comportamento de uma pessoa, nenhuma explicação S O B A Ó T IC A D E S K IN N E R NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 22 mentalista seria mobilizada para o entendimento de seu desempe- nho, a não ser os estímulos que o fizeram agir de tal modo. O beha- viorismo metodológico teria a seu favor a descarga de qualquer filosofia introspectiva. Todavia, esses pioneiros admitiam a exis- tência de fatos mentais, apesar de não os considerarem em suas pesquisas, o que proporcionava a especulação sobre mundos pa- ralelos e um dualismo anacrô- nico, cujas provas não podiam ser fornecidas. (LOPES, 2003) Skinner elaborou os princípios do condicionamento operante e a sistematização do modelo de seleção por conseqüências no in- tuito de explicar o comportamen- to. O condicionamento operante é diferente do condicionamento respondente criado por Pavlov e Watson; no sentido de que noo comportamento operante o com- portamento é condicionado, mas não há associação reflexa entre estímulo e resposta, mas sim probabilidade de um estímulo se seguir à resposta condicionada. Quando um comportamento é se guido da apresentação de um re- forço positivo ou negativo, aquela resposta tem maior probabilidade de se repetir com a mesma função; da mesma forma, quando o com- portamento é seguido por uma punição (positiva ou negativa), a resposta tem menor probabili- dade de ocorrer posteriormente. O behaviorismo radical se desta por explicar o comporta- mento animal através do mode- lo de seleção por consequências. Nesse sentido, o behaviorismo radical cria um modelo de con- dicionamento não-linear e pro- babilístico, contrário ao modelo linear e reflexo das teorias pre- cedentes do Comportamenta- lismo. Para Skinner, a maior parte dos comportamentos hu- manos são condicionados desta forma operante. (ROSE, 1982) Trabalhar a indisciplina nas escolas em especial o bullying seguindo a visão de Skinner, po- deria ser tratada baseando-se em sua Teoria de Reforço. Skinner chamou reforços os eventos que tornam uma reação mais fre quente, ou seja, que aumentam a probabilidade de ocorrência. A Teoria do Reforço defende que todas ações com consequências positivas sobre o indivíduo fazem que as práticas tendam a ser repe- tidas em um futuro próximo, em contrapartida o comportamento que é punido tende a ser elimina- do. E as conseqüência em relação a isso são positivas sempre que as pessoas sentem prazer com a sua própria performance. Seguindo esse pensamento, o comportamen- to dos alunos pode ser influencia- do e controlado através do refor- ço ( a idéia da recompensa) para os comportamentos desejados e ignorando as ações não deseja- das (o castigo). Skinner defen- de mesmo que o comportamentodas pessoas pode ser controlado e informado por longos períodos de tempo sem que estas percebam isso, inclusivamente sentindo-se livres. Uma técnica defendida por ele é a modificação do com- portamento organizacional, que tem foco na aplicação da Teoria do Reforço aos esforços para a mudança nas organizações e se eleva em dois princípios básicos: S O B A Ó T IC A D E S K IN N E R NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 23 em primeiro as pessoas atuam da forma que acham mais gra- tificante e recompensadora; em segundo, o comportamento pode ser influenciado e determinado pela gestão das recompensas a ele associadas. (CARRARA, 2004) Skinner divide os eventos reforçadores em positivos e ne- gativos. Parte destes reforços se baseiam na apresentação de estí- mulos, no acréscimo de alguma coisa à situação (por exemplo, alimento, água); estes são cha- mados reforços positivos. Outros consistem na eliminação de algu- ma coisa da situação (por exem- plo, muito barulho, calor ou frio extremos, choque elétrico); estes são denominados reforços negati- vos. Em ambos os casos, o efeito do reforço é o mesmo: a probabili- dade da resposta será aumentada. Seguindo esse pensamento, exis- tem reforçadores primários, se- cundários e generalizados: como exemplo do primeiro, temos o alimento e o sexo; ambos podem ser usados para aumentar a fre quência de uma resposta. Eles são reforçadores para a espécie, ou seja, apenas aqueles sensíveis a eles sobreviveram. No dia-a-dia, poderia ser representado por uma mãe que só deixa o filho almoçar após ter terminado o dever de casa e um homem que após se recon- ciliar com a esposa, fazem sexo para comemorar. Já os demais re- forçadores, dependem dos primá- rios para se tornarem efetivos, ou seja, eles precisam acompanhar os primários por determinado tempo para que possam agir por si. No dia-a-dia a atenção é um grande exemplo de reforçador se- cundário. Por último os reforça- dores generalizados são aqueles que possibilitam o acesso a todos (ou quase todos) os demais. O seu maior representante é o dinheiro, capaz de possibilitar os demais reforçadores. (CARRARA, 2004) José Mário Soares Serra Júnior S O B A Ó T IC A D E S K IN N E R NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 24 A psicologia voltada para a educação apresenta diversas teorias que suscitam explicações a respeito de como se dá os processos de aprendizagem. O entendimento e o uso dessas teorias podem dire- cionar a composição das propos- tas pedagógicas adotas por uma escola para o desenvolvimento de seus alunos, bem como o posicio- namento da instituição educadora. As escolas, como espaços de interação social e construção do conhecimento, são ambientes ricos pela diversidade cultural e de conhecimento de mundo con- tido em seus discentes. Nessa at- mosfera, a aprendizagem tende a acontecer de forma diferente em cada um deles, pois num ambien- te diversificado, os interesses dos alunos são variados: o que desper- ta atenção em um aluno, não des- perta, necessariamente, a atenção no outro. Sabe-se também que as próprias regras da escola, as ava- liações e os horários são assimila- dos diferentemente por cada aluno. Diante disso, a teoria huma- nista apresenta uma proposta de de- senvolvimento centrada na pessoa; no respeito à subjetividade do indi- víduo, do aluno no ambiente escolar. A teoria humanista tem como seu maior representante Carl Rogers. Os humanistas acreditam que o desenvolvimento do aluno acontece efetivamente quando o pró- prio aluno identifica uma espécie de necessidade, necessidade que ele próprio tenha interesse de suprir. A motivação para a apren- dizagem e para a mudança deriva da tendência auto-re- alizadora da própria vida, da tendência do organismo para percorrer os diferentes canais de desenvolvimen- to potencial, na medida em que estes podem ser experi- mentados como favorecendo o crescimento. (ROGERS, 1997, p.328). ROGERS pauta a teoria humanista em um tipo de apren- dizagem, a aprendizagem signifi- cativa, que na nessa se sobrepõe à aprendizagem mecânica. Ele diz: Por aprendizagem signifi- cativa entendo aquela que provoca uma modificação, quer seja no comportamento do indivíduo, na orientação da ação futura que escolhe ou nas suas atitudes e na sua personalidade. É uma aprendizagem penetrante, que não se limita a um au- mento de conhecimentos, mas que penetra profunda- mente todas as parcelas da sua existência. (ROGERS, 1997, p.322). No artigo, “Teoria da apren- dizagem significativa segundo Au- subel”, os autores, Adriana Pelizza- ri , Maria de Lurdes Kriegl , Márcia Pirih Baron, Nelcy Teresinha Lubi Finck e Solange Inês Dorocinski explanam que para uma aprendiza- gem significativa faz-se necessário: Em primeiro lugar, o aluno precisa ter uma disposição para aprender: se o indi- víduo quiser memorizar o conteúdo arbitrária e lite- ralmente, então a aprendi- zagem será mecânica. Em segundo, o conteúdo escolar a ser aprendido tem que ser potencialmente significati- vo, ou seja, ele tem que ser lógica e psicologicamente significativo: o significa- do lógico depende somente da natureza do conteúdo, e o significado psicológico é uma experiência que cada indivíduo tem. Cada apren- diz faz uma filtragem dos conteúdos que têm signifi- cado ou não para si próprio. PELLIZARI et al,201l, p.38). O pensamento humanis- ta, centrado na pessoa, ressalta que o aluno é capaz de se auto- -dirigir quanto ao aprendizado e que, é papel do professor ser um o facilitador do conhecimento o qual o aluno demonstre interesse. Para Rogers a integração professor (facilitador) RESPEITO À SUBJETIVIDADE DO ALUNO SO B A Ó T ICA D E CA R L R O G E R S NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 25 -aluno são fatores impor- tantes para a aprendizagem. Rogers enfatiza os aspectos dinâmicos e ativos do ensi- no do ensino que reforçam o processo de interação na aprendizagem e considera o aluno capaz de auto-direção, desde que em ambiente pro- pício e interessante. (VAZ e RAPOSO, 2011). A escola Summerhill, na Inglaterra, funciona há 90 anos com a abordagem humanista de aprendizagem atendendo crianças do ensino fundamental e médio. Seu fundador Alexander Suther- land Neill, acreditou numa escola como espaço democrático para a construção do desenvolvimento res- peitando a liberdade e os interesses dos alunos. Parafraseando NEILL no documento Declarações de Polí- tica geral encontrado no site da es- cola , a criança devia ser livre para viver sua própria vida não a vidas de seus pais ou de que seus profes- sores impusesse.” NEILL é contra a influência dos adultos: “Todas as interferências deste e orientação por parte dos adultos só produz uma ge- ração de robôs”. (AS NEILL, 2011). Nessa escola, os problemas de variados assuntos identificados pelos alunos são expostos, debatidos e solucionados em grupo por meio de assembléia semanal. Como ide alizou ROGERS e NEILL, Sum- merhill respeita a liberdade e a in- dividualidade do aluno assim como seus interesses para uma aprendi- zagem significativa. Caso um aluno sinta-se desconfortável na escola, os motivos podem ser expostos nessas assembléias para que um novo acor- do seja gerado e respeitado por todos. Todas as aulas são opcio- nais.Não há pressão para se conformar às idéias de adultos de crescer, embora a própria comunidade tem a expectativa de conduta razo- ável do indivíduo. Bullying, vandalismo ou outros com- portamentos ant-social é tratada por provedores es- pecialmente eleitos, ou por toda a comunidade em suas reuniões diárias. (REA- DHEAD, 2011). Pela ótica humanista, os casos de violência dentro das esco- las, como os bullying, pode-se dizer que o agressor, diferente dos demais alunos, não demonstra respeito ao próximo, à individualidade e às di- ferenças humanas, pois às regras de convivência não fazem sentido para ele por algum motivo determinado ou desconforto naquele ambiente e isso tem impacto no processo con- vivência e de aprendizagem.Tam- bém a vítima não se sente segura no ambiente escolar , sente medo e não desenvolve sua aprendizagem. Entretanto, para os huma- nistas nos casos de bullying, por exemplo, a solução viável seria o diálogo, a exposição de ideias vin- das principalmente dos alunos e dos envolvidos, pois esses mesmos aprenderiam a importância de se estabelecer limites e criariam as de regras a serem implementadas. A primeira implicação no domínio da educação po- deria ser a de permitir ao aluno, seja em que nível do ensino for, estabelecer um real contato com os proble- mas importantes da sua exis- tência, de modo à distiguir os problemas e as questões que pretende resolver. (RO- GERS, 1997, P.330). Os teóricos humanistas de- fendem que cada aluno a partir da sua subjetividade percebe o meio e aprende de maneira particular. Dessa maneira entende-se que os alunos também compreendem e reagem às novas informações, às regras, às noções de liberdade e respeito distintamente. Diz-se que o conhecimento imposto pode ge- rar diferentes tipos de conflitos que impedem o aprendizado, por isso é de primeira importância à observação dos conhecimentos prévios dos alunos pelo professor e seus interesses a serem conside- rados respeitados e desenvolvidos. S O B A Ó T IC A D E C A R L R O G E R S Se desconfio do ser humano, antes devo empanzi- ná-lo de informações da minha própria escolha, a fim de que não tome um caminho errado. Mas se acredito na capacidade de cada um desenvolver sua potencialidade individual, proporcionar-lhe ei to- das as oportunidades e lhe permitirei a escolha de vias próprias e sua direção pessoal na aprendiza- gem.(ROGERS, p.119, 1978). Conclui-se que a teoria humanista pensa o desenvolvimento humano como algo auto-direti- vo, próprio da interação do indivíduo com o meio. Ela, apesar de reduzir o papel do professor, na me dida em que destrói a maneira de ensinar utiliza da de forma geral nas escolas atuais, também cons- trói, apontando a importância de se valorizar os in- teresses do aluno, enfim, do ser humano auto-direti- vo para aprender porque é dotado de subjetividade. Érika Rominy S.R.Souza NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 26 BULLYING INTERVENÇÃO SEGUNDO A ABORDAGEM HUMANISTA A abordagem Humanista Centrada no Cliente tem entre seus principais expoentes o psicólogo americano Carl Ro- gers. Rogers nasceu em Oak Park, Illinois, em um bairro afastado de Chicago. Segundo Goodwin; Apesar de ser produto de um ambiente altamente contro- lado Rogers conseguiu dedi- car-se a carreira de sua pró- pria escolha, não obstante todas as experiências de sua infância e adolescência. O quarto de seis filhos de um casal protestante, extrema- mente conservador, ele foi criado em um subúrbio de Chicago, em uma família no qual o trabalho e o empenho pessoal eram valorizados, mas todos os prazeres eram considerados pecado. (GOO- DWIN, 2005 p.457) Segundo o próprio Ro- gers, (ROGERS .1961 Apud GOO- DWIN.2005), durante toda a sua infância e adolescência ele foi total- mente reprimido. Suas crenças reli- giosas e a eliminação de qualquer expressão emocional forçaram-no a viver sob um código que não via como seu. Disse, mais tarde, “que essas restrições deram-lhe motivos para a sua revolta, embora a rebeldia te- nha demorado a chegar. (ROGERS. 1961 Apud GOODWIN.2005) Carl Rogers passou cerca de 15 anos acreditando que o pa- pel do psicoterapeuta era apenas o de manter-se a parte quanto a seus sentimentos em relação ao pacien- te. Assim distanciado, pensava ele, ficava mais fácil enxergar as solu- ções adequadas. (ROGERS. 1961). Depois de experiências vividas com alunos e com pessoas que vinham à procura de ajuda, Rogers acabaria percebendo, no entanto, que quan- to mais se abria como pessoa no re- lacionamento com o paciente mais efetivo e rápido tornava-se o sucesso do tratamento, (VEJA. 1977). Atra- vés do desenvolvimento dessa idéia Rogers se afastou cada vez mais da psicologia tradicional ou freudiana e da psicologia do comportamento, ao ponto de confessar em uma entre- vista para a revista Veja em 1977 que acreditava ser “um fenômeno emba- raçosamente doloroso para os psi- cólogos acadêmicos”. (VEJA 1977) Rogers postulou que o ser humano possui um senso de escolhas SO B A Ó T ICA D E CA R L R O G E R S NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 27 livre e responsável, que lhe permite um elenco de respostas aos estímulos do ambiente, maior do que se dispu- sesse apenas do instinto e de apren- dizagens primárias (Rogers, 1978). Rogers nos mostra como a motivação intrínseca é preexistente ao processo de socialização. A esco- la tradicional desperdiça o grande potencial que ela representa, pois aproveitá-la implicaria rever os currículos e a organização da esco- la, que não são montados levando em conta a vida real do estudante: Ele escreveu que fica- va irritado com a ideia de que o estudante deve ser “motivado”. O jovem é intrinsecamen- te motivado, em alto grau. Muitos elementos de seu meio ambiente constituem desafios para ele. É curio- so, tem a ânsia de descobrir, de conhecer, de resolver problemas. O lado triste da maior parte da educação está em que, após a criança haver passado anos e anos na escola, essa motivação intrínseca está muito bem amortecida. Mas continua a existir, e nossa tarefa, como facilitadores de aprendiza- gem, é a de suscitar essa mo- tivação, descobrir que desa- fios são reais para o jovem e proporcionar-lhe a oportu- nidade de enfrentá-los. (Ro- gers, 1978, p.134-135 apud MOGIKA 2011) Nessa perspectiva, podemos trabalhar a questão do bullying nas escolas. Se partirmos do prin cipio que o jovem é automotiva- do poder-se-ia tratar com sucesso as crianças sofredoras de bullying uma vez que elas são, na maioria das vezes vítima dessa violência por causa do seu comportamento sub- misso e sem auto estima conforme relata Lopes Neto quanto a perso- nalidade das vítimas de bullying. Em geral, não dispõe de recursos, status ou habili- dade para reagir ou cessar o bullying. Geralmente, é pouco sociável, inseguro e desesperançado quanto à possibilidade de adequação ao grupo. Sua baixa auto-es- tima é agravada por críticas dos adultos sobre a sua vida ou comportamento, difi- cultando a possibilidade de ajuda. Tem poucos amigos, é passivo, retraído, infeliz e sofre com a vergonha, medo, depressão e ansiedade. Sua auto-estima pode estar tão comprometida que acredita ser merecedor dos maus- -tratos sofridos. (LOPES NETO, 2011) O fator motivacional seria, portanto, algo fundamental para o desenvolvimento de um comporta- mento independente,para o desen- volvimento de uma personalidade segura, com autoestima elevada. Tais posturas conforme, poderiam inibir as agressões. Conclui-se então que a teoria de Rogers cen- trada na pessoa pode ser de grande utilidade para o tratamento dessa epidemia invisível mais tão real que permeia o universo escolar. Maria de Fátima da Costa Marques S O B A Ó T IC A D E C A R L R O G E R S NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 28 SO B A Ó T ICA D E CA R L R O G E R S A questão comum entre a psicologia humanista de Rogers (que prega em sua escola democrática Summerhill, à bus- ca pela felicidade dos alunos em geral, respeitando os limites de cada um) e o fenômeno bullying, (que pela falta de “felicidade” aca- ba gerando transtornos não ape- nas para si próprio, mas também para os outros em muitos casos), é que ambos tratam do sentimento como sendo o fator preponderan- te para a vida plena do indivíduo. Segundo a professora Dra. Cleo Fante, que é pioneira nos estudos do fenômeno bullying no país, trata-se de uma “pala- vra de origem inglesa, adotada em muitos países para definir o desejo consciente e deliberado de maltratar outra pessoa e colocá- -lo sob tensão” (FANTE, 2005). No Brasil, adotamos o ter- mo que, de maneira geral, é empregado na maioria dos países: bullying, Bully, enquanto nome é traduzido como “valentão”, “tirano”, e como verbo, “brutalizar”, “tiranizar”, “amedrontar”. Dessa forma, a definição de bullying é compreendi- da como um subconjunto de comportamentos agressivos, sendo caracterizado por sua natureza repetitiva e por de- sequilíbrio de poder (FAN- TE, 2005, pág. 28). Apesar de o bullying ter sempre existido, até mesmo antes do surgimento das escolas, pioneiramente, o professor Dan Olweus (2011) foi o primeiro a ligar o termo ao fenômeno. Ao pesquisar sobre o suicídio de três adolescentes noruegueses em 1983, Olweus per- cebeu que era cabível de ter sido o bullying, o fator determinante para esses suicídios. O Ministério da Educação solicitou então, uma pes- quisa sobre o tema, e como resultado, ele criou o programa antibullying. A abordagem sobre o que é ou não bullying diverge por vezes, quando estudiosos afirmam errone- amente que bullying é caracteriza- do por agressões, humilhações e até mesmo preconceitos sem levar em conta o caráter repetitivo, a questão que deve ter ocorrido entre pares e também que sempre há no bullying, relação de hierarquia entre os agressores e as vítimas. Discussões ou brigas pontuais não são bullying (VINHA. 2011). Conflitos entre professor e aluno ou gestor também não é bullying (FANTE, 2005). Precisa-se urgente de mais programas com o caráter dos já elaborados pela Dra. Cleo Fan- te (Educar para a paz) e tam- bém pelo professor Dan Olweus (Bullying Prevention Program). E um dos embasamentos para ela- boração de uma metodologia para compreender e principalmente, posteriormente erradicar a idéia de inferioridade que essas crian- ças presenciam-nos os mais diver- sos âmbitos de sua convivência. De acordo com Rogers (1997) a pessoa total é aquela que está aberta à suas experimenta- ções internas e aos dados das ex- periências do mundo externo. O posicionamento filosó- fico de Rogers, e sua perspectiva e visão do ser humano foram bastan RELAÇÃO DO BULLYING COM A TEORIA HUMANISTA DE CARL ROGERS NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 29 S O B A Ó T IC A D E C A R L R O G E R S te avançadas para a sua época, pois apresentam um entendimento alta- mente holista e sistêmico do homem, que fica perfeitamente claro em seus livros, e, em resumo, nesta passagem: Sinto pouca simpatia pela idéia bastante generalizada de que o homem é, em prin- cípio, fundamentalmente ir- racional e que os seus impul- sos, quando não controlados, levam à destruição de si e dos outros. O comportamento humano é, no seu conjunto, extremamente racional, evo- luindo com uma complexi- dade sutil e ordenada para os objetivos que o seu orga- nismo, como um todo sistê- mico, se esforça por atingir. “A tragédia, para muitos de nós, deriva do fato de que as nossas defesas internas nos impedirem de surpreender essa racionalidade mais pro- funda, de modo que estamos conscientemente a caminhar numa direção, enquanto organicamente caminha- mos em outra” (ROGERS, 1977). A aplicação da teoria de Rogers em nosso sistema de ensino formal não é tarefa fácil, sendo, inclusive, considerado por muitos uma utopia, mas as polêmicas trazi- das para o campo da educação muito têm beneficiado a reformulação do ensino. Afinal, aprender pelo pró- prio gosto é a maneira mais rica de aprender. A escola Summerhill seria um ótimo local de terapia para as crianças que sofrem de bullying. Pois lá, as crianças aprendem des- de cedo que a sua liberdade termina quando começa a liberdade do próxi- mo. Em Summerhill, o aluno estuda o assunto de seu interesse, sendo as- sim, não tem por que ele estudar o que não gosta, e por conseqüência, possui uma tendência maior a ser bom no que faz. (ROGERS, 2011). Este estudo teve por objetivo conceituar o bullying, ligar o termo bullying ao fenômeno (o que pionei- ramente foi feito por Dan Olweus), analisar a psicologia humanista de Rogers, utilizando quase sempre como exemplo de suas afirmações, a funcionalidade da mais antiga (1921) escola democrática, humanis- ta, e que deve muito disso a Rogers, a escola Summerhill, localizada no Oeste da Inglaterra, fundada por As Neill. O estudo ainda procurou mos- trar que por meio da felicidade que nas vítimas de bullying é pratica- mente nula, por meio da psicologia de Rogers essas vítimas poderiam facilmente ser integradas e realiza- rem as atividades que lhes dessem mais prazer, sem discriminação. Jonas Sales Fernandes NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 30 SO B A Ó T ICA D E CA R L R O G E R S A educação de Rogers – centra-da na pessoa – se dá através um relacionamento interpessoal, afetuoso e de interesse de ambos, professor e aluno, juntos, cami- nhando para o aprendizado sig- nificativo – um aprendendo com outro. Uma vez que o professor se permite trabalhar dessa forma ele estabelece um relacionamen- to autêntico com o educando. E é essa mesma autenticidade que será a principal ferramenta de traba- lho do educador na aprendizagem significativa. (AZEVEDO, 2005) O sistema educativo, nessa teoria, tem que ter como foco o de- senvolvimento das pessoas, de uma forma plena e, simultaneamente, que através deste propicie a elas a sua auto-realização. Para Rogers, o homem educado é o homem que aprendeu a aprender e que dentro do Sistema Educativo como um todo, deverá programar um clima propi- cio ao crescimento pessoal do aluno. Tem-se de encontrar uma maneira de desenvolver, dentro do sistema educa- cional como um todo, e em cada componente, um clima conducente ao crescimento pessoal; um clima no qual a inovação não seja assusta- dora, em que as capacidades criadoras de administrado- res, professores e estudantes sejam nutridas e expressa- das, ao invés de abafadas. Tem-se de encontrar, no sis- tema, uma maneira na qual a focalização não incida sobre o ensino, mas sobre a facili- tação da aprendizagem auto- dirigida. (ROGERS, 1986 apud CAMPELO, 2009) Em sua concepção,o homem não deve ser visto como uma máqui- na, nem ao menos, um individuo que é impulsionado por forças in- conscientes, mas sim um individuo que é capaz de sua própria auto- -criação - posição do ser construti- va e auto-reguladora. Seria afirmar que todos os seres possuem dentro de si os recursos necessários para o seu próprio crescimento, mas estes só podem ser despertados quando se cria um clima definido de atitudes psicológicas oferecido por outra pes- soa. Ou seja, o homem é um ser em busca constante de si mesmo, que vive em um constante processo que o guia para um caminho de desenvol- vimento próprio. (CAMPOS, 2005) O professor deve ser en- carado como um facilitador da aprendizagem, não só aquele quem transmite o conteúdo, mas sim que presta auxilio aos educandos para que estes possam viver sempre em processo de transformação. É o edu- cando que deve procurar o seu pró- prio conhecimento, consciente desse processo de transformação que lhe é inerente. Sendo o facilitador um apoio material para o educando, que será responsável por criar condições de interação social, preparando o ambiente psicologicamente favorá- vel, propondo um bom material de pesquisa e instigando a curiosidade sobre o conhecimento, caracterís- tica essa própria do ser humano, para colaborar com a aprendizagem significativa. (AZEVEDO, 2005) O objetivo do modelo de aprendizagem de Rogers é que o alu- no abandone a passividade e adqui- ra um papel ativo, de intervenção no seu próprio processo de apren- dizagem, o que corresponde dizer que a aprendizagem não passa a ser centrada mais no professor e sim no aluno. O aluno é quem tem o papel fundamental na aprendizagem, por- que ele é o responsável pela constru CARL ROGERS E O BULLYING:O ALUNO RESPONÁVEL POR SUA PRÓPRIA DISCIPLINA ESCOLAR NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 31 S O B A Ó T IC A D E C A R L R O G E R S ção do seu próprio saber, onde o pro- fessor é apenas o facilitador desse processo, coordenando e orientando com cautela. O papel do professor é apenas o de garantir o nível de maturidade e segurança no proces- so de aprendizagem, ou seja, não o de controlar o desenrolar desse pro- cesso, mas, acima de tudo, acreditar na capacidade de aprender de seu próprio aluno. (CAMPELO, 2009) Esse modelo de Rogers - abordagem centrada na pessoa - apli- cado ao contexto do bullying possi- bilita o retorno da responsabilidade pela própria pessoa, ou seja, faz com que o aluno seja responsável por sua própria vida. Desta forma, afirma o poder de manutenção da discipli- nada por parte do próprio aluno, que desenvolverá esse entendimento inconscientemente. Contribuindo para a ressignificação da autodis- ciplina: a volta da responsabilidade pela própria atitude. (SILVA, 2010) Seguindo este pensamento, pode-se afirmar que o praticante do Bullying pode mudar seu comporta- mento errôneo, diante das circuns- tâncias em que ele perceba a gravi- dade de suas ações e que o mesmo é responsável pela sua autodisciplina. ... a Abordagem Centra- da na Pessoa percebe que o ser humano é determinado por sua vontade subjetiva, ainda que influenciado por todas as circunstâncias de sua existência. Portanto, ele é absolutamente livre para escolher entra as op- ções existentes, ainda que poucas e limitadas, res ponsabilizando-se pelas conseqüências que delas surgirem. Assim: um indi- viduo que vive neste clima estimulante pode escolher livremente qualquer dire- ção, mas na verdade esco- lhe caminh os positivos e construtivos. (ROGERS, 2007 apud SIVA,2010) O professor apresenta pa- pel fundamental para que aja a mudança de comportamento en- tre os alunos envolvidos com ca- sos de bullying, uma vez que ele deve se comportar como facilita- dor para que esse processo ocorra. Os indivíduos possuem den- tro de si vastos recursos para autocompreensão e para modificação de seus auto- conceitos, de suas atitudes e comportamento autônomo. Esses comportamentos po- dem ser ativados se houver um clima, passível de defini- ção, de atitudes psicológicas facilitadoras. (ROGERS, 2007 apud SILVA, 2010) O ambiente escolar tem que estar repleto de clima facilitador, propiciando uma modificação no comportamento do aluno e o enca- minhando para a evolução rumo à maturidade psicossocial. Essa perspectiva contribui fortemente oferecendo recursos também para o acolhimento aos alunos envolvi- dos (vítimas e agressores), focali- zando a pessoa e não o problema, facilitando o clareamento dos seus pedidos de ajuda através dos seus próprios recursos psicossociais. (RO- GERS, 2007 apud SILVA, 2010) A facilitação pode ser exer- cida também por qualquer outra pessoa que esteja aberta a realidade da Abordagem Centrada na Pessoa. Os facilitadores, no âmbi- to escolar, podem ser enxergados como os funcionários e os professo- res, desde que vivenciem estas con- dições de facilitação. O ‘facilitador’ é o agente responsável por oferecer as condições necessárias e suficien- tes (clima psicossocial não amea- çador) que serão importantes para despertar o processo criativo de de- senvolvimento junto àqueles a quem se dirige: os alunos (agressores e ví- timas de bullying). (SILVA, 2010) Em suma, tal abordagem, colabora com o processo direcional na vida do estudante, baseando-se na confiança em todos os seres huma- nos, uma vez que há tendência natu- ral ao desenvolvimento mais comple- to e complexo. Sendo extremamente necessário combater a ideia de que a Segundo a pesquisa: Bullying escolar no Brasil relatório fi- nal, realizada em março de 2010, pelo Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Tercei- ro Setor – CEATS e Fundação Ins- tituto de Administração – FIA, em escolas públicas e particulares em cidades das 5 regiões do país os inci- dentes de bullying se mostram fre- quentes dentro do ambiente escolar. Na amostra pesquisada, as mais elevadas frequências de bullying foram identifi- cadas entre adolescentes na faixa de 11 a 15 anos de ida- de e alocados na sexta série do ensino fundamental. Os respondentes tiveram difi- culdade para indicar moti- vos que os levam a sofrer ou a praticar agressões no con- texto de seu relacionamento com pares no ambiente es- colar. Tendem a considerar que os agressores são jovens que buscam obter populari- dade junto aos colegas, que necessitam ser aceitos pelo grupo de referência e que se sentiram poderosos em relação aos demais, tendo esse “status” reconhecido na medida em que seus atos são observados e, de certa forma, consentidos pela omissão e falta de reação dos atores envolvidos. (CEATS e FIA, 2010). Diante desse tipo de com- portamento, para que a escola per- maneça como um dos espaços de desenvolvimento de indivíduos e de formação de cidadãos faz-se ne- cessária uma reflexão por parte dos educadores a cerca do sistema de educação, de suas estratégias e as teorias que possam se tornar fontes de soluções para modificar as ocor- rências de bullying nesse ambiente. Entretanto, Percebe-se que a atenção dos educadores devem estar focada atentos ao desenvolvi- mento cognitivo dos alunos porque além do conteúdo programático de cada série, é principalmente no co- tidiano do período escolar que ou- tros aprendizados se exibem de va- riadas formas, como por exemplo, as relações interpessoais, que em muito colaboram para a formação dosvalores, princípios, identidade e da personalidade dos indivíduos. Pais e professores não po- dem esquecer que, no gru- po de colegas e amigos de seus filhos e alunos existem fortes “rivais” que podem influenciar, de forma posi- tiva ou negativa, toda a sua estrutura emocional. Por exemplo, toda a sua estrutu- ra emocional. Por essa razão , é preciso ter flexibilidade e humanidade para aprender o “funcionamento” desses grupos de indivíduos : como pensam, que linguagem uti- lizam, que roupas vestem, que músicas ouvem e que ideologias fazem suas cabe- ças. Somente assim podere- mos interferir, objetivamen- te, nessa engrenagem tão solida e influente que rege o comportamento de muitos adolescentes. (SILVA, 2010, p.65). Parafraseando SILVA, o comportamento dos jovens é fruto da cultura da qual estão inseridos, pois alguns são egocêntricos, trans- gressivos, buscam de forma desco- NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 32 DESEQUILÍBRIOS NA APRENDIZAGEM S O B A Ó T IC A D E P IA G E T essência da pessoa é perigosa, deven- do ser ensinadas e controladas por aqueles que possuem uma autori- dade superior. E comprova também outro prisma eficiente e construtivo para o estudante, apoiado na con- fiança, criatividade, automotivação e autonomia com que as pessoas são capazes de realizar suas inúmeras potencialidades. (SILVA, 2010) José Mário Soares Serra Júnior NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 33 medida apenas o prazer individual e imediato não se pautam em res- ponsabilidades, obrigações e des- respeitam os direitos individuais e coletivos. (SILVA, 2010, p.63 e 64). PIAGET, como teórico construtivista, é conhecido pelo es- tudo a respeito da Epistemologia genética, que explica a gênese do co- nhecimento humano e como os in- divíduos aprendem em um ambiente educativo. Do estudo de PIAGET entende-se que “Estruturas cogni- tivas são padrões de ação física e mental subjacentes aos atos espe- cíficos de inteligência e correspon- dem a estágios do desenvolvimento infantil”. (VAZ e RAPOSO, 2011). Existem quatro estruturas cognitivas primárias - está- gios de desenvolvimento - de acordo com Piaget: senso- rial-motor, pré-operações, operações concretas e opera- ções formais. No estágio sen- sorial-motor (0-2 anos), a in- teligência assume a forma de ações motoras. A inteligência no período pré-operação (3-7 anos) é de natureza intuitiva. A estrutura cognitiva duran- te o estágio de operações con- cretas (8-11 anos) é lógica, mas depende de referências concretas. No estágio final de operações formais (12-15 anos), pensar envolve abs- trações. (VAZ e RAPOSO, 2011). Porém, essas estruturas ten- dem a mudar de acordo com a capaci- dade seletiva do individuo diante das realizações ou restrições vivenciadas. Piaget utilizou o modelo biológico: o ser humano é guiado pela busca do equi- líbrio entre as necessidades biológicas fundamentais de sobrevivências e as agressões ou restrições colocadas pelo meio para a satisfação dessas necessidades. Nessa relação, a organização – como capaci- dade do individuo de condu- tas seletivas – é o mecanismo que permite ao ser humano ter condutas eficientes para atender às suas necessida- des, isto é, à sua demanda de adaptação. (BOCK, 2008, p.139). Para Maria Aparecida Có- ria Sabin, “A socialização é o pro- cesso pelo qual o indivíduo adqui- re padrões de comportamentos que são valorizados pelo seu grupo e adequados para a sua adaptação ao seu ambiente social”. (CÓRIA- -SABINI, 1986, p.119). Percebe- -se que nesse conceito o foco da socialização é o desenvolvimento moral e Piaget entende que a moral é dividida em três fases, são elas: anomia, heteromia e autono- mia. Sendo elas: anomia (crianças até 5 anos): geralmente a moral não se coloca, com as normas de conduta sendo determinadas pelas necessidades básicas. Porém, quando as regras são obedecidas, são seguidas pelo hábito e não por uma cons- ciência do que se é certo ou errado. Um bebê que chora até que seja alimentado é um exemplo dessa fase. heteronomia (crianças até 9, 10 anos de idade): O certo é o cumprimento da regra e qualquer interpretação dife- rente desta não corresponde a uma atitude correta. Um homem pobre que roubou um remédio da farmácia para salvar a vida de sua esposa está tão errado quanto um outro que assassinou a espo- sa, seguindo o raciocínio he- teronômico. autonomia: legitimação das regras. O respeito a regras é gerado por meio de acordos mútuos. É a última fase do desenvolvimento da moral. Tendo conhecimento que as crianças e adolescentes se- guem fases mais ou menos parecidas quanto ao desen- volvimento moral, cabe ao educador compreender que há determinadas formas de lidar com diferentes si- tuações e diferentes faixas etárias. Cabe a ele, ainda, conduzir a criança na tran- sição anomia - heteronomia, encaminhando-se natural- mente para a sua própria au- tonomia moral e intelectual. (BRASIL ESCOLA, 2011). Complementando esse pensa- mento, PIAGET explica que a mo- ral é construída ao longo do tempo a partir das relações do sujeito com os diferentes ambientes e adultos. Conclui-se que os compor- tamentos agressivos têm origem numa deficiência ou atraso no de- senvolvimento cognitivo geralmente na compreensão das relações inter- pessoais. Cabe aos profissionais da educação conhecerem as fases do desenvolvimento moral e humano cada comportamento e assim com- preender e conduzir os alunos á uma autonomia intelectiva e moral. Érika Rominy S. R. SOUZA S O B A Ó T IC A D E P IA G E T NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 34 BULLYING SOB O OLHAR CONSTRUTIVISTA Jean Piaget nasceu em Neu-châtel, Suíça, em 1896. Aos 10 anos publicou seu primeiro artigo científico, sobre um pardal albino. Desde cedo interessado em filo- sofia, religião e ciência, formou- -se em biologia na universidade de Neuchâtel e, aos 23 anos, mudou-se para Zurique, onde começou a tra- balhar com o estudo do raciocínio da criança sob a ótica da psicologia experimental. Em 1924, publicou o primeiro de mais de 50 livros, A Linguagem e o Pensamento na Criança. Antes do fim da década de 1930, já havia ocupado cargos importantes nas principais univer- sidades suíças, além da diretoria do Instituto Jean-Jacques Rousse- au, ao lado de seu mestre, Édouard Claparède (1873-1940). Foi também nesse período que acompanhou a infância dos três filhos, uma das grandes fontes do trabalho de ob- servação do que chamou de "ajus- tamento progressivo do saber". Até o fim da vida, recebeu títulos ho- norários de algumas das principais universidades europeias e norte- -americanas. Morreu em 1980 em Genebra, Suíça. (BALESTRA 2009) Para Piaget, a inteligên- cia é o mecanismo de adaptação do organismo a uma situação nova e, como tal, implica a construção contínua de novas estruturas, (PA- LANGANA 1994). Esta adaptação refere-se ao meio exterior. Os in- divíduos segundo Piaget se desen- volvem intelectualmente a partir de exercícios e estímulos oferecidos pelo meio em que vivem, (PIAGET 1967). Para Piaget o comportamen- to de cada um de nós é construído numa interação entre meio e o in- divíduo. Esta teoria é caracteriza- da como interacionista, (PIAGET 1967). Quanto mais complexa for esta interação, mais "inteligente" será o indivíduo. Para Piaget a es- trutura de maturação do indivíduo sofre um processo genético e a gê- nese depende de uma estruturade maturação, (PIAGET 1967). Sua teoria nos mostra que o indivíduo só recebe um determinado conhe- cimento se estiver preparado para recebê-lo. Ou seja, se puder agir so- bre o objeto de conhecimento para inseri-lo num sistema de relações. A partir de resultados oriundos de suas pesquisas bioló- gicas, Piaget concluiu que todas as espécies herdam duas tendências básicas: organização e adaptação. Organização - combinação, or- denação, recombinação, reor- denação de comportamentos e pensamentos em sistemas coe- rentes, (PALANGANA 1994). Adaptação - As pessoas também herdam a tendência de se adaptarem ao seu meio ambien- te, (PALANGANA 1994). E a adaptação engloba dois processos básicos: assimilação e acomoda- ção. Segundo Piaget, organizar, assimilar e acomodar podem ser vistos como um ato complexo de estabilização. (PIAGET 1967). Ele Afirma que as mudanças efe- tivas no pensamento ocorrem devi- do a um processo de acomodação. Se aplicarmos um esquema específico a uma determina- da situação e este funcionar, então existe tal equilíbrio, mas se o esquema não produ- zir um resultado satisfatório então existe o desequilíbrio. Por isso estamos em cons- S O B A Ó T IC A D E P IA G E T NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 35 tante processo de assimilação e acomodação e com isso nos- so pensamento muda e pro- gride continuamente. (PIA- GET 1967). Seguindo o tema proposto de se relacionar as teorias em foco com o tema em estudo, no caso o bullying podemos inferir que a teoria de Pia- get muito tem a contribuir em uma possível maneira de solucionar o pro- blema. Uma vez que segundo Piaget existe um desenvolvimento da moral que ocorre por etapas, de acordo com os estágios do desenvolvimento hu- mano, (PIAGET 1967), seria então possível trabalhar crianças e ado- lescentes dentro de seus estágios de desenvolvimento as noções de jus- tiça e cumplicidade apelando para seu desenvolvimento e inteligência.. Maria de Fátima da Costa Marques AUTONOMIA SÓ APARECE COM RECIPROCIDADE Nascido em 1896, o suíço Jean Piaget demonstrou desde cedo sua admiração pela descoberta e análise da Organi- zação sistematizada dos dados co- letados, tanto que aos onze anos publicou em pequeno artigo cien- tífico a respeito de suas observa- ções de uma ave albina. Foi, du- rante a adolescência, auxiliar do Diretor do Museu de História de Neuchâtel, e lá se interessou por estudar malacogia, chegando a publicar pouco depois, vários ar- tigos sobre o tema, que são devida- mente reconhecidos pela comuni- dade científica. (PARRAT, 1998). Piaget formulou a teo- ria da epistemologia do conhe- cimento, que era mais do que a teoria do conhecimento apriori, que diz respeito ao fato de julgar conhecer ou entender tal ques- tão apenas fazendo-se um “pré- -julgamento” e também do que o empírico, que pregava que apenas por meio de testes se consegui- ria decifrar e entender qualquer questão. Era a combinação da criança com o meio em que ela vive, ou com as palavras de Pia- get, é o social mais o objeto que forma um ambiente propício ao conhecimento. (PARRAT, 1998). S e g u n - do CAETANO (2011), A formação inicial de Pia- get na biologia influenciou todo o desenvolvimento da teoria da epistemologia, pois na perspectiva dos ins- trumentos utilizados por ele como comprovadores empíricos, sempre basea- dos em métodos científicos rigorosos, ou seja, passíveis de serem copiados. Como segunda influência da bio- logia na teoria piagetiana foi à concepção de inteli- gência enquanto algo liga- do à ação e à adaptação ao meio. Para Parrat (2003), Piaget tentava explicar em sua teoria que o conhecimento não pode ser sim- plesmente imposto pelo meio ao sujeito, por meio do empirismo, fazendo uma espécie de espelho do ambiente apenas, nem, com efeito, esse conhecimento estaria pré-concebido na criança aguar- dando apenas sua maturação, o que ele denomina de apriorismo. Em se tratando de um “Pia- get educador”, para que se compre- enda a evolução do pensamento da criança com relação a valores uni- versais, Piaget também elaborou estudos de notável importância. Piaget (1977) critica ver- tiginosamente os professores que S O B A Ó T IC A D E P IA G E T NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 36 possuem prazer em punir e em usar autoridade para quebrar a vontade, o entusiasmo da crian- ça, objetivando, com isso, ensinar comportamentos morais. Ele rea- firma que nas interações sociais onde predomina o respeito unila- teral haverá a heteronomia, e que a autonomia só aparece com a reci- procidade, quando o respeito mú- tuo está evidente, para que o edu- cador experimente interiormente a necessidade de abordar os ou- tros como gostaria de ser tratado. Por um lado, temos um caminho: da obediência, da rigidez, do cum- primento da regra, da exigência pelos comportamentos adequados seguindo uma ameaça de puni- ção ou de castigos. No entanto, inúmeros estudos (Piaget, 1977; Milgran, 1974; Kolhberg, 1986) têm comprovado que as pessoas que foram vítimas do autoritaris- mo de seus pais e professores que utilizaram castigos e punições serão, frequentemente, na vida adulta pessoas que para se senti- rem felizes precisam dominar os outros ou serem dominados por eles e assim nunca admitem um erro, não permitem que os outros possam estar certos, ou ainda, não sabem fazer escolhas e não se per- mitem evoluir, seja em termos de experiências profissionais ou em seus relacionamentos pessoais. (Piaget, 1977; Wasserman, 1998). E nessa questão, reside o fenômeno bullying, que segun- do a professora Dra. Cleo Fante, pioneira nos estudos do fenômeno bullying no país, bullying é uma “palavra de origem inglesa, adota- da em muitos países para definir o desejo consciente e deliberado de maltratar outra pessoa e colocá- -lo sob tensão” (FANTE, 2005). No Brasil, adotamos o ter- mo que, de maneira geral, é empregado na maioria dos países: bullying, Bully, enquanto nome é traduzido como “valentão”, “tirano”, e como verbo, “brutalizar”, “tiranizar”, “amedrontar”. Dessa forma, a definição de bullying é compreendi- da como um subconjunto de comportamentos agres- sivos, sendo caracterizado por sua natureza repetitiva e por desequilíbrio de poder (FANTE, 2005, pág. 28). Apesar de o bullying ter sempre existido, até mesmo antes do surgimento das escolas, pionei- ramente, o professor Dan Olweus (2011) foi o primeiro a ligar o termo ao fenômeno. Ao pesqui- sar sobre o suicídio de três ado- lescentes noruegueses em 1983, Olweus percebeu que era cabível de ter sido o bullying, o fator de- terminante para esses suicídios. O Ministério da Educação so- licitou então, uma pesquisa so- bre o tema, e como resultado, ele criou o programa antibullying. A abordagem sobre o que é ou não bullying diverge por ve- zes, quando estudiosos afirmam erroneamente que bullying é ca- racterizado por agressões, humi- lhações e até mesmo preconcei- tos sem levar em conta o caráter repetitivo, a questão que deve ter ocorrido entre pares e também que sempre há no bullying, relação de hierarquia entre os agressores e as vítimas. Discussões ou brigas pontuais não são bullying (VI- NHA. 2011). Conflitos entre pro- fessor e aluno ou gestor também não é bullying (FANTE, 2005). Precisa-se urgentede mais programas com o caráter dos já elaborados pela Dra. Cleo Fan- te (Educar para a paz) e tam- bém pelo professor Dan Olweus (Bullying Prevention Program). E um dos embasamentos para ela- boração de uma metodologia para compreender e principalmente, posteriormente erradicar a idéia de inferioridade que essas crian- ças presenciam-nos os mais diver- S O B A Ó T IC A D E P IA G E T NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 37 sos âmbitos de sua convivência. A ideia que Piaget defende segundo Parrat (2001) é bem mais concreta: trata-se apenas de criar em cada pessoa um método de compreensão e reciprocidade. Que cada um, sem abandonar seu pon- to de vista, e sem procurar supri- mir suas crenças e seus sentimen- tos, que fazem dele um homem de carne e osso, associado a uma porção bem delimitada e bem viva do universo, aprenda a se situar no conjunto dos outros homens. Quanto à comparação com Vygotsky de qual teoria seria mais concreta, Piaget leva uma vantagem sobre Vygotsky por ter construído uma teoria mais sóli- da, fundamentada em pesquisas realizadas durante aproximada- mente 50 anos. Tendo tido o tem- po que Vygotsky não teve, e sem a censura que este teve, para fazer as correções de rumo e construir um "edifício teórico" majestoso. Este estudo teve por obje- tivo esboçar de forma resumida a biografia de Piaget, com ênfase em suas obras que se referem à psico- logia da aprendizagem. Percebe-se que apesar de Piaget não ter traba- lhado muito com essa questão (se comparada, por exemplo, a teoria epistemológica do conhecimento), mas suas pesquisas nesse campo foram de grande valia para a edu- cação, pois mostra que é possível o respeito mútuo entre o professor e o indivíduo, sem a necessidade de punições, palavras depressivas ou até mesmo agressões verbais. Uma vez que as crianças sofrem com essas “punições”, há uma grande probabilidade que elas venham a ser bully ou vítimas do fenômeno bullying, tema que também foi abordado ao longo do artigo, diver- sos fatores como sua definição, a distinção sobre o que é e o que não é bullying, as formas de bullying e onde geralmente ocorrem. Jonas Sales Fernandes JEAN PIAGET E O BULLYING: A DISCIPLINA ESCOLAR ENTENDIDA PELA CONCEPÇÃO DA MORALIDADE Ao estudar o desenvolvimento moral, Piaget, centrou sua preocupação no aspecto específico do julgamento moral e nos proces- sos cognitivos que estavam relacio- nados a ele. Estudando o desenvol- vimento moral, propôs uma série de estágios, usando como base entrevis- tas e observações de crianças postas em jogos de regras. E através destas pesquisas, concluiu que havia dife- renças se tratando do respeito às re- gras por parte de crianças de idades diferentes; o que ele definiu e pas- sou a chamar mais tarde de fases de anomia, heteronomia e autonomia moral. Na fase de heteronomia mo- ral, a criança trata as regras como absolutas, imutáveis, intangíveis. As regras sãos vistas por elas como tendo certo teor religioso podendo ser enxergadas como vindas da pró- pria divindade. Nessa fase, a criança passar a julgar a ação como boa ou S O B A Ó T IC A D E P IA G E T NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 38 não de acordo com as conseqüências dos atos, sem uma análise minuciosa e sem também observar as intenções do autor da ação. Acredita que se um indivíduo foi punido por conta de uma determinada ação, esta ação é errada. (FERRACIOLI, 1999) A criança tende considerar que sempre que alguém sofre algu- ma punição, é porque este alguém deve ter feito algo de errado, re- percutindo uma conexão absoluta entre a punição e o erro. Para uma criança de seis anos, se um menino deixar seu doce cair em um lago ele é culpado por ter sido “tonto” e não deve ganhar outro doce. Esta mesma criança, por exemplo, dirá provavel- mente que um menino que quebrou cinco copos ao ajudar a mãe é mais “tonto” do que outro que tenha que- brado um copo enquanto roubava geléia. A partir daí, Piaget concluiu que a criança pequena apresenta dificuldade para levar em conta as circunstâncias amenizantes, já um adolescente julga de acordo com equivalências intuitivas, sendo ca- paz de pensar em termos de possi- bilidades e de um número maior de alternativas Na fase da autonomia moral (entre 8 e 12 anos) o propósi- to e as consequências das regras pas- sam a ser consideradas pela criança e a obrigação é vista de acordo com a reciprocidade. A criança é vis- ta pela moral da igualdade ou de reciprocidade; nota as regras pro- postas e as mantêm sob o consenso social. Ele constatou na idade dos 10 anos que a criança começa a en- tender a regra como resposta a livre decisão, que pode ser alterada e a ver também como digna de respei- to, a partir de que reciprocamente consentida. (FERRACIOLI, 1999) Para Piaget, toda moral é formada por um sistema de regras e a moralidade é advinda a partir do respeito que o indivíduo possui por estas mesmas regras.Tomando essa idéia como ponto de partida, Piaget, se posicionou a estudar esse dilema em dois níveis: a consciên- cia (intelecção) que se mantêm das regras, e a sua colocação em práti- ca. Ele quis buscar qual era o grau de correspondência que havia entre a consciência (conhecimento) e a prática das regras. Escolheu para esse experimento um jogo que era de conhecimento das crianças, o jogo de bolinhas de gude. Um jogo que detêm muitas regras e que são relativamente complicadas. Ob- servou meninos nas mais variadas idades jogando bolinhas e pergun- tou-lhes: quais eram as regras do jogo? De onde vinham? Podiam ser modificadas? (RUIZ, 2003) A partir daí levantou três questões fundamentais para a mo- ralidade: “Conhecimento da lei”, “Origem ou fundamento da lei”, “ Mutabilidade ou não da lei”. Em relação às regras do jogo, encontrou níveis diferentes tanto de consciên- cia das regras como sobre sua prá- tica. No primeiro, estádio (crianças até 2 anos) as crianças simplesmen- te jogam, para isso não estipulam nenhuma regra ou lei, é tornam o jogo meramente uma atividade motora, não tendo consciência de regras. No segundo estádio (crian- ças de 2 a 6 anos) a criança passa a observar os maiores jogando e co- meça a imitá-los, segundo o ritual que observa. A criança já nota que existem as regras que regulam a atividade e as ver como sagradas e invioláveis. Mesmo que ainda não saiba as regras do jogo, ela não joga "com os outros", ela joga como que sozinha, tornando a atividade ego- cêntrica, mesmo estando jogando com as outras crianças. É uma ati- vidade que produz prazer psicomo- tor. No terceiro estádio (entre os 7 e S O B A Ó T IC A D E P IA G E T NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 39 10 anos ) a criança passa do prazer psicomotor dos estádios anteriores ao prazer da competição segundo uma série de regras e um consenso comum. Neste estádio, ainda domi- nado pela ‘heteronomia moral’, as regras são enxergadas como sagra- das, e são reconhecidas como ne- cessárias para que o jogo funcione corretamente. Surge um forte desejo de compreender as regras e de jogar respeitando-as. As crianças vigiam- -se mutuamente para se certifica- rem de que todos que jogam estão respeitando as regras. No quarto estádio (entre 11e 12 anos) se ca- racteriza pela passagem para a ‘au- tonomia moral’. Onde o adolescente já é capaz de raciocínio abstrato e as regras já são bem assimiladas. Há um grande interesse em estudar as regras em si mesmas, discutem mui- tas vezes sobre quais as regras que vão usadas para o jogo. Para Piaget o desenvolvimento da moralidade se dar principalmente através da atividade de cooperação, do conta- to com iguais, da relação com com- panheiros e do desenvolvimento da inteligência. (FERRACIOLI, 2003) A questão do bullying a in- disciplina escolar vista sob o prisma da perspectiva da teoria de Piaget, pode ser analisada baseando-se jus- tamente na ideia do desenvolvimen- to da moralidade. O estabelecimento de regras e a maneira como os alunos vão entendê-las está centrada nessa reflexão sobre a indisciplina. Pois ao se pensar a relação entre moralidade e indisciplina deve-se sempre ficar atento aos princípios relacionados às regras impostas e criadas pela própria escola: deve-s atentar tam- bém como a justiça é feita e como as regras são executadas no interior da escola, seguindo a idéia do princi- pio da ‘coação’. Ou seja, para definir se um ato é indisciplinado ou não é necessário conhecer a origem das regras que regem a escola do qual o aluno faz parte. (GODOY, 2006) Segundo Piaget, as desor- dens no meio escolar, em especial o Bullying, podem ser resolvidas levando em consideração as etapas que levam a concepção de mora- lidade por parte das crianças e os adolescentes. Ele propõe que os edu- cadores e demais atuantes da área da educação possam se atentar aos estádios pelos quais passam os alu- nos. Deve notar que é no estádio da autonomia, que o aluno possui total ausência de regras, por não conhecer ou por sentir a necessidade de tê-las, pois a criança apenas brinca para satisfazer a suas necessidades moto- ras. E no estádio da heterominia o aluno começa a perceber as regras, mas entendem as regras como exte- riores ao seu processo de ‘brincar’. E quando enfim atingem o estádio de autonomia, no começo da adolescên- cia, enxergam as regras como sendo próprias do individuo na sua relação com o outro. Portanto, a questão da disciplina pode ser entendida a par- tir da interação que o individuo – no caso o aluno - mantêm para com o conjunto de regras. (GODOY, 2006) Em seus estudos, Piaget, percebe também que as concepções infantis que se relacionam ao dever moral (o dever, em sua visão, é co- locado como heterônomo) são enten- didas apenas de uma forma, como ‘advindas do adulto responsável por ela’. O aluno tem como primeira mo- ral a ideia da obediência e o critério sempre considerado é a vontade dos pais. Já na fase intermediária ‘de interiorização e generalização das regras’ é que o aluno passa a respei- tar a regra em si e não às ordens do adulto. E ao atingirem a fase se- S O B A Ó T IC A D E P IA G E T NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 40 guinte ‘da autonomia’, o aluno passa a entender que o dever vem da re- ciprocidade, ou seja, é aqui que ele começa a fazer reflexão sobre suas próprias atitudes e a coordenar as ações dos outros. É nessa fase que pode melhor ser trabalhado o en- tendimento sobre o bullying, porque aqui o aluno já não mais confunde o seu ponto de vista com o dos outros colegas; é capaz de selecionar o seu olhar crítico e coordenar de acordo com o dos outros, e assim os debates sobre os mais variados assuntos se tornam possíveis. É nessa fase que o aluno começa a se ver na situação do outro e a perceber o quão grave pode ser suas atitudes para com os colegas (no caso de agressões verbais, físicas, desordem etc). E também surge a ca- pacidade de cooperação para com as atividades e para com o respeito das regras, porque é nesse momento que também surge o senso de justiça caracterizado de acordo com a so- ciedade em que vive. (RUIZ, 2003) Desta forma, observa-se que toda moral está de acordo com um sistema de regras, e a construção da moralidade deve ser analisada de acordo como o individuo responde a essas regras. Ou seja, a revolta às regras ou o desconhecimento delas pode ser apontado como um dos fa- tores desencadeantes do ato da in- disciplina escolar – o bullying. A disciplina deve ser mantida obser- vando esses estádios e entendendo que indivíduos independentes não são exatamente disciplinados, mas são indivíduos que podem ser capa- zes de analisar as regras através de uma reflexão própria e se posiciona- rem diante delas. (GODOY, 2006) José Mário Soares Serra Júnior S O B A Ó T IC A D E P IA G E T NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 41 CONTRA O BULLYING ÊNFASE NAS RELAÇÕES SOCIAIS O bullying é um fenômeno re-corrente em escolas públicas ou privadas em todo o mundo. Para caracteriza-lo deve se levar em conta a prática de ações intencionalmente violentas, repetidas e sem motivo aparente contra alguém (mais fra- co), sem condições de se defender. De acordo com a pesquisa realizada com 3.722 alunos dos últi- mos anos do ensino fundamental de três condados no Estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos pela Universidade da Califórnia publi- cada no American Sociological Re- view. “O bullying é praticado como uma forma de ganhar popularidade, e seus alvos nas escolas são garotos com status médio ou alto entre seus colegas”. (R7 NOTÍCIAS, 2011). “Pais e professores não po- dem esquecer que, no grupo de colegas e amigos de seus filhos e alunos, existem fortes rivais que podem influenciar de forma posi- tiva ou negativa, toda a sua estru- tura emocional”. (SILVA, 2010). Silva chama a atenção para outros “rivais” que disputam com pais e professores a ascendência educativa sobre os jovens como: a cultura televisiva: o univer- so da propaganda, da inter- net, da música, do consumo, das drogas (...). Nós adultos precisamos entender e acei- tar que todos esses intrin- cados processos influenciam diretamente o comporta- mento da juventude e provo- cam a maioria dos conflitos entre as diferentes gerações (SILVA, 2010, p.65 e 66). As diferenças entre alunos devem ser encaradas, na medida em que aparecem, como uma opor- tunidade de aprender com o próxi- mo e, desenvolver a si mesmo. Esse pensamento pode ser incorporado pela escola e seu educadores para que seja implementado entre alu- nos, principalmente com advento dos contextos de desavenças, pois se sabe que elas acontecem principal- mente pelas diversidades na con- duta e de cultura dos indivíduos. O que herdamos e manifes- tamos desde as mais tenras idades é uma predisposição para desenvolvermos deter- minados padrões de pensa- mento e de comportamento. Em outras palavras: o pen- sar e o agir de cada indivi- duo não estão previamente moldados em seus circuitos neuronais. De acordo com as vivencias, o cérebro reage ao ambiente externo e, nes- sa interação (cérebro-meio ambiente), toda a sua bio- logia pode ser alterada de forma positiva ou negativa. São, em especial, as nossas relações interpessoais que mais influenciam a biologia cerebral (SILVA, 2010, p.73 e 74). Vigotsky, pensador socio- construtivista, define dois está- gios no desenvolvimento infantil. O nível de desenvolvimento real que leva em conta o que a criança consegue realizar por si própria e o nível de trata da distância derealização da criança, a partir do que já produz com o que poderá realizar se tiver auxílio de outros. O desenvolvimento real é: o nível de desenvolvimen- to das funções mentais da criança que se estabeleceram como resultado de certos ci- clos de desenvolvimento já completados. Quando deter- minamos a idade mental de uma criança usando testes, estamos quase sempre tra- tando do nível de desenvol- vimento real. Nos estudos do desenvolvimento mental das crianças, geralmente admite-se que só é indicati- vo da capacidade mental das crianças aquilo que elas con- seguem fazer por si mesmas (VIGOTSKY 1988,p. 111,). Já o desenvolvimen- to proximal são aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas S O B A Ó T IC A D E V IG O T S K Y NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 42 que estão presentemente em estado embrionário. Essas funções poderiam ser chama- das de “brotos” ou “flores” do desenvolvimento, ao invés de “frutos” do desenvolvimento. O nível de desenvolvimento real caracteriza o desenvol- vimento mental retrospecti- vamente, enquanto a zona de desenvolvimento proximal caracteriza o desenvolvimen- to mental prospectivamente (VIGOTSKY,1988, p. 113). Na visão socioconstruti- vista os relacionamentos inter- pessoais são o que potenciali- za o desenvolvimento humano. Entende-se de que no pen- samento construtivista, a aprendi- zagem se dá por meio dos processos sociais e não apenas internos. Em sua teoria, distende sobre a impor- tância dos relacionamentos inter- pessoais enfatizando a troca de ex- periências, a cultura, a observação, o convívio e diálogos entre pessoas, principalmente diferentes em grau de instrução, para a aquisição de co- nhecimento e desenvolvimento hu- mano efetivo. (PAGANOTTI,2011). Cabe à escola com seus edu- cadores atentar para que a apren- dizagem dos alunos não seja com- prometida obsevar e identificar a capacidade dos alunos. Em um con- texto violento como o de Bullying, dar ênfase para os debates em salas, relacionamentos e exposição de opi- niões dando valor ao conhecimento e sentimento do aluno sobre esse tipo de violência e como pensam que ela pode ser evitada e combatida pode, mediada pelo professor, gerar ações a serem implementadas pela escola. (VIGOTSKY,1988, p. 110 a 113). a distância entre o nível do desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de de- senvolvimento potencial, de- terminado através da solução de problemas sob a orienta- ção de um adulto ou em co- laboração com companheiros mais capazes. (VIGOTSKY, 1988, p. 112). Nesse sentido, é em grande parte pela observação na fala e na experiência do outro que os indiví- duos percebem atitudes e reconhe- cem sentimentos e enfim apren- dem, desenvolvem-se. A ajuda quer seja pela experiência ou opinião num espaço de debate pode ser po- sitiva no combate ao bullying, pois dá ênfase às relações sociais dentro do microssistema que é a escola. Érika Rominy S.R. Souza S O B A Ó T IC A D E V IG O T S K Y NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 43 TRABALHANDO O BULLYING SOB UMA PERSPECTIVA VIGOTSKYANA Lev Semenovich Vygotsky Nasceu em 1896 em Orsah, uma cidade provinciana perto de Minsk, a capital da Bielo-Rússia, região então dominada pela Rús- sia. (VEER & VALSINER .1991). Segundo Veer e Valsiner 1991 Seus pais eram de uma família judai- ca, não muito religiosa, culta e com boas condições econômicas, o que permitiu a Vygotsky uma formação sólida desde criança. Vygotsky recebeu sua instru- ção inicial com professores particulares, e mais tarde frequentou as duas turmas mais adiantadas do Gym- nasium judeu particular em Gomel, graduando-se com medalha de ouro em 1913. Sua instrução posterior foi influenciada pelo fato de ele ser judeu, em primeiro lugar a Rússia Czarista instituiu uma cota para admissão de judeu em instituição de en- sino superior... Na prática isso significava que os alu- nos com medalha de ouro tinha admissão garantida, porém, quando Vygotsky es- tava fazendo seus exames o ministro da educação divul- gou uma circular declaran- do que os alunos judeus de- veriam ser matriclados por sorteio, isso foi um duro gol- pe...Por sorte ele foi um dos poucos felizardos e começou a estudar Direito na Univer- sidade de Moscou. (VEER & VALSINER .1991). Ao longo de seus textos Lev Semenovich Vygotsky, recorre fre- quentemente a situações extraídas de obras literárias, ele escreveu aproximadamente 200 trabalhos científicos, cujos temas vão desde neuropsicologia até criticas lite- rárias, passando por deficiência, linguagem, psicologia, educação e questões teóricas e metodológi- cas relativas às ciências humanas. (VEER & VALSINER .1991). Uma de suas contribuições mais conheci- das é a sua teoria de Zona de Desen- volvimento Proximal, para explicar a dinâmica de Desenvolvimento do QI. Vygostky defende sua teoria postulando que o estabelecimento dessa zona tornaria possível saber em qual fase de desenvolvimento humano estaria a pessoa em análise. Fica bastante claro em vários comentários de Vygotsky, (por exemplo, sua afirmação de que a zona de desenvol- vimento proximal “revela os resultados de amanhã”, que o estabelecimento dessa zona “é um meio magnífico de prognóstico” e que pode- mos saber o que irá aconte- cer com essa criança...caso outras condições... permane- çam as mesmas”) (VEER & VALSINER .1991) Esta teoria da zona de desen- volvimento proximal de Vygotsky abrange uma perspectiva psicológi- ca geral sobre o desenvolvimento da criança com uma perspectiva peda- gógica sobre o ensino. (DANIELS. 2002), ou seja, este conceito subjaz que o desenvolvimento psicológico e o ensino são socialmente enqua- drados e que para entendê-los é pre- ciso analisar a sociedade que cerca o individuo e suas relações sociais. Segundo Vygotsky, apenas as funções psicológicas elemen- tares se caracterizam como refle- xos. Os processos psicológicos mais complexos - ou funções psicológi- cas superiores, que diferenciam os humanos dos outros animais - só se formam e se desenvolvem pelo aprendizado. Entre as funções com- plexas se encontram a consciência e o discernimento. "Uma criança nasce com as condições biológi- cas de falar, mas só desenvolverá a fala se aprender com os mais velhos da comunidade", (REGO.2010). Outro conceito-chave de S O B A Ó T IC A D E V IG O T S K Y NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 44 Vygotsky é a mediação. Segundo a te- oria vygotskiana, toda relação do in- divíduo com o mundo é feita por meio de instrumentos técnicos - como, por exemplo, as ferramentas agrícolas, que transformam a natureza - e da linguagem - que traz consigo concei- tos consolidados da cultura à qual pertence o sujeito. (REGO.2010). Dentro da perspectiva de Vygotsky, conforme exposto acima, de que o aprendizado do ser humano se dar em contato com o meio social, que a cultura torna-se parte da na- tureza humana em um processo his- tórico e que leva ao desenvolvimento da espécie e do indivíduo aperfeiço- ando seu funcionamento psicológico poder-se-ia trabalhar a questão do bullying nas escolas, tema larga- mente discutido atualmente em todo mundo e que tem despertado cres- cente interesse nas diversas ciênciase esferas sociais. Segundo Fante; O bullying é uma forma de violência que ocorre na re- lação entre pares, sendo sua incidência maior entre os es- tudantes, no espaço escolar. É caracterizado pela inten- cionalidade e continuidade das ações agressivas contra a mesma vítima, sem motivos evidentes, resultando danos e sofrimentos e dentro de uma relação desigual de poder, o que possibilita a vitimação. É uma forma de violência gratuita em que a vítima é exposta repetidamente a uma série de abusos, por meio de constrangimento, ameaça, intimidação, ridiculariza- ção, calúnia, difamação, dis- criminação, exclusão, dentre outras formas, com o intuito de humilhar, menospre- zar, inferiorizar, dominar. (FANTE.2005). Sob essa ótica seria possível trabalhar os alunos a se desenvolve- rem socialmente, aplicando os pres- supostos vigostikyanos de que o meio social interfere no desenvolvimento psicológico do ser humano, para isso seria necessário educar essas crianças e adolescentes envolvidos em caso de bullying, quer como agressores quer como vítimas, a aprenderem princí- pios comuns de tolerância e aceita- ção das diferenças. Segundo NETO, O envolvimento de profes- sores, funcionários, pais e alunos é fundamental para a implementação de projetos de redução do bullying. A participação de todos visa es- tabelecer normas, diretrizes e ações coerentes. As ações devem priorizar a conscien- tização geral; o apoio às ví- timas de bullying, fazendo com que se sintam protegi- das; a conscientiza ção dos agressores sobre a incorreção de seus atos e a garantia de um ambiente escolar sadio e seguro. (LOPES NETO 2005). A partir das pesquisas rea- lizadas foi possível inferir que o fe- nômeno bullying é complexo e de di- fícil solução, portanto seria preciso que o trabalho fosse continuado. Se- gundo Lopes Neto as ações para pre- venção são relativamente simples e de baixo custo podendo ser incluídas no cotidiano das escolas, inserindo- -as como temas transversais em to- dos os momentos da vida escolar. (LOPES NETO 2005). Sendo assim deve-se encorajar os alunos a parti- ciparem ativamente da supervisão e intervenção dos atos de bullying, pois o enfrentamento da situação pe- las testemunhas desses atos demons- tra aos autores que eles não terão o apoio do grupo e é consenso entre os pesquisadores que sem uma plateia que apoie os agressores ficariam mais intimidados em praticar essas ações covardes contra seus pares. Maria de Fátima da Costa Marques S O B A Ó T IC A D E V IG O T S K Y NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 45 OBULLYING EM RELAÇÃO ÀS IDEIAS “SOCIO-INTERACIONISTA” DE VIGOTSKY Lev Semenovich Vygotsky nas-ceu em 1896 na cidade de Or- sha, na Rússia, e morreu em Moscou em 1934, com apenas 38 anos. Ele fez seus estudos na Universidade de Moscou para tornar-se professor de Literatura. De início, sua principal preocupação era com a vida artísti- ca. Mas, a partir de 1924 sua vida mudou, e passou a se interessar por psicologia evolutiva, educação e psi- copatologia (VYGOTSKY, 2001). Devido a vários fatores, in- clusive a situação política entre Estados Unidos e União Soviética após a última guerra, as obras de Vygotsky ficaram por muito tem- po fora do conhecimento princi- palmente, do mundo ocidental. E quando enfim a Guerra Fria aca- bou, seus trabalhos começaram a vir à tona. (VYGOTSKI, 2001). Com base em Vygotsky (2001), “o desenvolvimento intelec- tual das crianças ocorre em fun- ção das interações sociais e con- dições de vida” Mas essa forma de aprendizagem, vem acarretando cada vez mais nas últimas décadas, em evidenciar as diferenças en- tre as crianças e nesse ponto, pode originar-se um fenômeno que tem aumentando bastante, o bullying. Segundo a professora Dra. Cleo Fante, que é pioneira nos es- tudos do fenômeno bullying no país, bullying é uma “palavra de origem inglesa, adotada em muitos países para definir o de- sejo consciente e deliberado de maltratar outra pessoa e colocá- -lo sob tensão” (FANTE, 2005). No Brasil, adotamos o ter- mo que, de maneira geral, é empregado na maioria dos países: bullying, Bully, enquanto nome é traduzido como “valentão”, “tirano”, e como verbo, “brutalizar”, “tiranizar”, “amedrontar”. Dessa forma, a definição de bullying é compreendi- da como um subconjunto de comportamentos agressivos, sendo caracterizado por sua natureza repetitiva e por de- sequilíbrio de poder (FAN- TE, 2005, pág. 28). Apesar de o bullying ter sempre existido, até mesmo antes do surgimento das escolas, pionei- ramente, o professor Dan Olweus (2011) foi o primeiro a ligar o ter- mo ao fenômeno. Ao pesquisar so- bre o suicídio de três adolescentes noruegueses em 1983, Olweus per- cebeu que era cabível de ter sido o bullying, o fator determinante para esses suicídios. O Ministério da Educação solicitou então, uma pes- quisa sobre o tema, e como resultado, ele criou o programa antibullying. A abordagem sobre o que é ou não bullying diverge por vezes, quando estudiosos afirmam errone- amente que bullying é caracteriza- do por agressões, humilhações e até mesmo preconceitos sem levar em conta o caráter repetitivo, a questão que deve ter ocorrido entre pares e também que sempre há no bullying, relação de hierarquia entre os agressores e as vítimas. Discussões ou brigas pontuais não são bullying (VINHA. 2011). Conflitos entre professor e aluno ou gestor também não é bullying (FANTE, 2005). Precisa-se urgente de mais programas com o caráter dos já elabo- rados pela Dra. Cleo Fante (Educar para a paz) e também pelo professor Dan Olweus (Bullying Prevention S O B A Ó T IC A D E V IG O T S K Y NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 46 Program). E um dos embasamentos para elaboração de uma metodolo- gia para compreender e principal- mente, posteriormente erradicar a idéia de inferioridade que essas crianças presenciam-nos os mais di- versos âmbitos de sua convivência. Mas a teoria de Vygotsky também pode ter como consequên- cia, a aproximação e acima de tudo o aprendizado. “A ideia de zona de desenvolvimento próximo é de grande valia em todas as áreas edu- cacionais” (VYGOTSKY, 2001). Ainda segundo Vygotsky, O aprendizado humano é e deve ser considerado, como sendo de natureza social. Uma característica essencial desse aprendizado é que ele desperta vários processos de desenvolvimento interna- mente, os quais as crianças reparam somente quando es- tão em seu ambiente de con- vívio (VYGOTSKY, 2001, p.35). Segundo Leite (2011), as pesquisas em geral relacionadas à Vygotsky, buscam identificar a presença de aspectos afetivos na relação professor-aluno e as possí- veis influências destes no processo de aprendizagem. Mas, não se pode negar que, dentre os fenômenos psi- cológicos, os afetivos apresentam uma grande dificuldade de estudo, tanto no que se refere à conceitu- ação, como também quanto à me- todologia de pesquisa e de análise. Este estudo teve por objetivo conceituar o bullying, ligar o termo bullying ao fenômeno (pioneira- mente feito por Dan Olweus), ana- lisar as ideias sócio interacionistas de Vygotsky, sendo necessário o es- tudo de entre outros trabalhos, sua obra Pensamento e linguagem. O estudo ainda procurou mostrar que por meio da dinâmica de Vygotsky, com a ferramenta da aproximação e da interação, como sendo um fa-tor diferencial nos estudos de cada aluno, os mesmos poderiam vir a contrair pelo convívio mais inten- so uns com os outros, o fenômeno bullying, tão bem apregoado no arti- go, sobretudo pela Dra. Cleo Fante.. Jonas SalesFernandes S O B A Ó T IC A D E V IG O T S K Y NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 47 A teoria de Vygotsky sócio--histórica reflete a ideia de que todo homem se constitui como ser humano através das relações que estabelece entre pares. Desta forma, ao nascermos somos social- mente dependentes um dos outros e entramos em um processo histó- rico, que por um lado nos oferta os dados sobre o mundo e visões sobre o mesmo, e de outro, permite que construamos uma visão nossa sobre este mesmo mundo. O nascimento está inserido em um tempo e um espaço em movimento constante. A história de nossas vidas caminha de forma a processar uma história de vida integrada com outras mui- tas histórias que se cruzam naque- le momento. (MARTINS, 1997) O humano, antologicamente social, passa a construir sua história só e exclusivamente com a participa- ção dos outros. Assim, temos um mo- vimento de constituição do homem que passa pela vivência com os ou- tros e vai se consolidando na forma- ção adulta. A criança e o adulto ten- dem a trazer marcas de sua própria história acumulada no tempo dos grupos socias com quem comparti- lham e percebem o mundo. A partir daí, o individuo passa pelo processo de transformação de criança para adulto sofrendo mudança internas, por meio do seu livre arbítrio, que envolve as diferentes visões de mun- do a qual vive. (MARTINS, 1997) Nesta teoria sociointera- cionista é encontrada uma visão de desenvolvimento humano basea- da na ideia de um organismo ativo em que o pensamento é constituído em um ambiente histórico e cultu- ral: o individuo reconstrói interna- mente uma atividade externa, como resultado de processos interativos que se dão ao longo do tempo. Esta reconstrução interna, é postulada emVygostsky, na lei que ele deno- minou de dupla estimulação: tudo que se posta como sujeito existe an- tes no social e quando é aprendido e modificado pelo sujeito e devol- vido para a sociedade passa a exis- tir no plano intrapsicológico; ou seja, o individuo vai aprendendo e se modificando. As possibilidades que o ambiente proporciona ao in- dividuo são fundamentais para se constitua como sujeito esclarecido e consciente, capaz de modificar as situações em que vive. Nesta medi- da, o acesso a instrumentos físicos ou simbólicos desenvolvidos em ge- rações é fundamental. (FINO, 1978) Um ponto de partida, para refletir a situação do mau compor- tamento nas escolas, seria pensar um pouco a respeito da Teoria de Zona de Desenvolvimento Proxi- mal, que acaba por propor o papel difícil que o educado enfrenta em seu trabalho com os alunos. Diante de alguns fatos em que precisa tra- balhar conhecimentos e realidades que tem contato - para atingir sabe- res que até então lhe eram ignorados - o aluno sugere respostas e informa- ções e raciocínios. Porque é através das relações pessoais que, a priori, construímos o conhecimento e que depois será intrapessoal, ou seja; a partir daí será partilhado pelo grupo ao qual o conhecimento é conquis- tado ou construído. (FINO, 1978) LEV VIGOTSKY E O BULLYING: UMA VISÃO SÕCIO-HISTÓRICA SOBRE EDUCAÇÃO S O B A Ó T IC A D E V IG O T S K Y NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 48 Ao pensar nessa teoria de interações sociais e nela sendo apli- cada em sala de aula, devemos nos ater que este referencial não está de acordo com a idéia de classes que são constituídas de forma ho- mogênea, onde uma classe social especifica se organiza no sistema educacional de forma em que se re- produza o seu domínio social e sua visão. E também não deve ser acei- ta a idéia de uma sala de aula “ar- rumadinha”, onde todos os alunos tenham que se centrar apenas em uma figura que transmite as in- formações, e que seja reproduzida futuramente como um saber eleito como o importante e necessário para a vida destes alunos. Ao contrário, devemos manter consideração nas concepções de ensino complementa- res, na medida em que privilegiam os aspectos educacionais seleciona- dos e que exerçam poder político e econômico sem qualquer vínculo com as reais necessidades da maior parte da população. (FINO, 1978) Ao almejar esse processo, uma sala de aula deve ser projeta- da de modo interativo, onde os alu- nos tenham a possibilidade falar, levantar suas hipóteses e nas rela- ções devem notar que fazem parte de um processo dinâmico de cons- trução. Também não é a concepção de uma sala onde o aluno faz tudo o que deseja, longe disso, é um mo- delo de sala onde o professor seja o articulador do conhecimento e todos sejam vistos como parceiros nesse processo de construção. Por- que ao se valorizar estas parcerias mobiliza-se a classe a trabalhar o pensamento criativo conjuntamen- te, e não esperar por uma única “ca- beça pensante”. (OLIVEIRA, 1992) A indisciplina escolar bullying também pode ser entendida sob a perspectiva da teoria histórico- -cultural enfatizando a importância do convívio social. Afirmando, as- sim, que as práticas educativas, for- mais e informais, são os meios so- ciais para organizar um a situação de vida, no intuito de proporcionar o desenvolvimento do aluno. Conside- rando para isso o pressuposto básico da obra de Vygotsky, onde o homem se constitui a partir da sua relação com o outro. Desta forma, o aluno é entendido como um ser social e histórico, no entanto, não é condi- cionado a essa história, tendo possi- bilidades de transformar as suas ati- tudes falhas – seus atos de violência - e sua realidade. (GODOY, 2006) O aprendizado está relacio- nado ao desenvolvimento; ou seja, o individuo no momento em que aprende também se desenvolve, por meio deste mesmo aprendizado, es- tes processos internos estruturam-se, em particular, por meio do pensa- mento e da linguagem. Porque é a linguagem que é o instrumento de formação do pensamento, é ela que age decisivamente na estrutura do pensamento e é a ferramenta bá- sica para a construção do conheci- mento. A possibilidade de fazer com que uma aluno mude suas atitudes, pode ser pensado na possibilidade de transformar o mundo concreto pelo emprego de ferramentas, pro- porcionando, assim, condições fa- voráveis para modificá-las e mudar qualitativamente a sua consciência. A consciência e as funções superio- res - para a teoria histórico-cultural - tem origem no espaço externo sen- do criada na relação com os obje- tos e com as pessoas. (LIMA, 2000) É através da mediação que há a possibilidade de dois proces- sos que favorecem a constituição psicológica do aluno: o interpsico- lógico e o intrapsicológico. Pode-se afirmar que a relação que o aluno S O B A Ó T IC A D E V IG O T S K Y NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 49 mantêm com a escola é uma rela- ção homem-mundo, e essa relação pode ser mediada. As características sociais e culturais não são tidas de inicio, e muito menos são acrescidas pelas pressões sociais, estas se for- mam através das várias e constan- tes relações que o individuo man- têm com o meio. (GODOY, 2006) Nessa idéia, a indisciplinaescolar é resultado de um proces- so compartilhado com as pessoas e com outros elementos da cultura na qual o individuo está inserido. As agressões cometidas pelos alunos praticantes de bullying; está ligada diretamente com as relações e expe- riências com o grupo social e a época cultural em que o aluno vive. A fa- mília é o primeiro contexto de socia- lização do aluno, mas os traços que irão moldá-lo não é de responsabili- dade inteiramente da família; e sim das diversas experiências nos diver- sos contextos sociais experimenta- dos: instituições sociais, meios de co- municação e práticas sociais, entre outros instrumentos de mediação. Nesse sentindo, a indisciplina esco- lar – bullying – é resultado das con- siderações de todo o contexto social e cultural, em que os alunos estão in- seridos e pelos quais constroem suas relações sociais. (GODOY, 2006) José Mário Soares Serra Júnior. S O B A Ó T IC A D E V IG O T S K Y NOV/2009 INFORMARTIGOS P. 50 REFERÊNCIAS TEMA: Bullying é necessário combater _______, Michaelis_Dicionário Prático Inglês-Português/Português-Inglês. Comp Melhoramentos: São Paulo. 1987. FANTE, Cleo. Bullying no ambiente escolar. Disponível em: http://inov.org.br/site/artigos/9.pdf. Acesso em: 7 set. de 2011. LISBOA Carolina et al. O fenômeno bullying ou vitimização entre pares na atualidade: definições, formas de manifestação e possibilidades de intervenção. Disponível em: http://www.contextosclinicos.unisinos. br/pdf/61.pdf . Acesso em: 17 set. 2011. MONTEIRO Lauro. Bullying: para combater é preciso reconhecer que ele existe. Entrevista concedida à: Danielle Bittencourt. 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