Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

CENTRO UNIVERSITÁRIO FUNDAÇÃO SANTO ANDRÉ
FACULDADE DE FILOSOFIA CIÊNCIAS E LETRAS
CURSO DE PSICOLOGIA
CAROLINA SANTANA DE SOUZA
MARIA EMÍLIA DOS SANTOS SILVA SIEBRA
ROSA FERNANDES DA SILVA
DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO NA ADOLESCÊNCIA:
UM ESTUDO PSICANALÍTICO DO FILME BOYHOOD
SANTO ANDRÉ
2016
CAROLINA SANTANA DE SOUZA
MARIA EMÍLIA DOS SANTOS SILVA SIEBRA
ROSA FERNANDES DA SILVA
DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO NA ADOLESCÊNCIA:
UM ESTUDO PSICANALÍTICO DO FILME BOYHOOD
SANTO ANDRÉ
2016
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado como exigência
parcial para obtenção do grau de
Bacharel em Psicologia, à
Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras do Centro Universitário
Fundação Santo André.
Orientadora:
Profa. Me. Gleise Sales Arias.
Souza, Carolina Santana de
Desenvolvimento psicológico na adolescência: um estudo
psicanalítico do filme Boyhood / Carolina Santana de Souza, Maria
Emília dos Santos Silva Siebra, Rosa Fernandes da Silva. - Santo
André, 2016. – 67f.
Trabalho de conclusão de curso – Centro Universitário Fundação
Santo André. Curso de Psicologia.
Orientadora: Gleise Sales Arias.
1. Adolescência 2. Desenvolvimento 3. Psicanálise I. Siebra, Maria
Emília dos Santos Silva II. Silva, Rosa Fernandes da.
CDD 150
TERMO DE APROVAÇÃO
CAROLINA SANTANA DE SOUZA
MARIA EMÍLIA DOS SANTOS SILVA SIEBRA
ROSA FERNANDES DA SILVA
DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO NA ADOLESCÊNCIA: UM ESTUDO
PSICANALÍTICO DO FILME BOYHOOD
Data:____/____/____
___________________________________
Profa. Dra. Ivete Pellegrino Rosa
Centro Universitário Fundação Santo André
___________________________________
Profa. Me. Gleise Sales Arias
Centro Universitário Fundação Santo André
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como exigência
parcial para obtenção do grau de Bacharel em Psicologia, à
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Centro
Universitário Fundação Santo André, Curso de Psicologia.
DEDICATÓRIA
À Deus por nos dar sabedoria e força durante toda a execução
desse trabalho, e aos membros familiares que contribuíram
imensamente com carinho, para que o desejo de se formar se
tornasse realidade.
AGRADECIMENTOS
É com muita honra que agradecemos exclusivamente à Deus, pois sem Ele
nada disso seria possível, ao passo em que nos concede a cada dia saúde, força e
sabedoria para que possamos conquistar nossos objetivos.
Agradecemos especialmente ao nosso grupo familiar, pelo apoio e carinho
durante nossa árdua trajetória para a realização desse trabalho, principalmente por
compreenderem e suportarem nossa ausência e angústias durante esse período.
Aos amigos, que nos motivaram e com quem pudemos compartilhar nossas
dificuldades.
À nossa orientadora Profa. Me. Gleise Sales Arias, por nos conduzir durante o
desenvolvimento desse trabalho, contribuindo com suas indicações e por
compartilhar conosco seus conhecimentos durante o período de nossa graduação.
À Profa. Dra. Eliana Monaci, por ter nos orientado na construção inicial do
projeto. Agradecemos pelo carinho e pelos ensinamentos reflexivos, não só de
âmbito profissional, mas da vida.
À Profa. Dra. Ivete Pellegrino Rosa pelas sugestões dadas para a melhoria de
nosso projeto final. Agradecemos pela construção de um vínculo afetivo entre
professor-aluno, por toda dedicação e apoio.
À Profa. Dra. Marta Elisabete Olivi, por ter contribuído indiretamente com o
aprofundamento de nossa compreensão sobre tema o qual abordado neste trabalho.
“Hoje o tempo voa, amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
Não há tempo que volte, amor
Vamos viver tudo o que há pra viver
Vamos nos permitir”
(Lulu Santos)
RESUMO
A adolescência é um período de transformações físicas e psicológicas, as quais são
vivenciadas com muitas dificuldades. No entanto, a sociedade tende a não
compreender as dificuldades desse momento crítico do desenvolvimento, julgando
os comportamentos como anormais. Com base nos pressupostos, o presente
trabalho teve como objetivo compreender aspectos do desenvolvimento psicológico
na adolescência, a partir da análise do filme Boyhood. Para tanto, foi utilizado o
personagem Mason do filme Boyhood, drama dirigido por Richard Linklater
(Universal Studios, EUA, 2014). Foram selecionadas e descritas sete cenas, sendo
em seguida analisadas focando-se principalmente no desenvolvimento da
adolescência normal, abordada por Aberastury e Knobel (1981), bem como em
teorias de autores de abordagem psicanalítica. No estudo foi evidenciado que o
personagem apresentou aspectos concernentes à “Síndrome Normal da
Adolescência”, tais como: a busca de si mesmo e da identidade, a tendência grupal,
a necessidade de intelectualizar e fantasiar, a evolução sexual desde o autoerotismo
até a heterossexualidade e a separação progressiva dos pais.
Palavras-chave: Adolescência, Desenvolvimento, Psicanálise.
ABSTRACT
Adolescence is a period of physical and psychological changes, which are
experienced with many difficulties. However, society tends not to understand the
difficulties of this critical moment of development, judging the behaviors as abnormal.
Based on the assumptions, this study aimed to understand aspects of psychological
development in adolescence, from the analysis of the film Boyhood. For that, the
character Mason of the movie Boyhood, directed by Richard Linklater (Universal
Studios, USA, 2014) was used. Seven scenes were selected and described, and
then analyzed focusing mainly on the development of normal adolescence,
addressed by Aberastury and Knobel (1981), as well as in theories of authors of a
psychoanalytic approach. In the study it was evidenced that the character presented
aspects concerning "Normal Adolescence Syndrome", such as the search for self
and identity, the group trend, the need to intellectualize and fantasize, sexual
evolution from autoerotism to heterosexuality and the gradual separation from
parents.
Keywords: Adolescence, Development, Psychoanalyze.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1- Mason tem o cabelo raspado contra sua própria vontade.........................35
Figura 2- Mason fala sobre “namorada” com o pai....................................................37
Figura 3- Mason conversa sobre sexo com colegas.................................................39
Figura 4- Mason traga cigarro oferecido por seu colega...........................................42
Figura 5- Professor cobra Mason sobre realização de suas tarefas.........................44
Figura 6- Mason diz a Sheena sobre desejo de ser mais livre..................................49
Figura 7- Mãe de Mason combina sobre se desfazerem das coisas que não usam
mais............................................................................................................................54
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO......................................................................................................12
1.1.História da Adolescência................................................................................14
1.2.Adolescência..................................................................................................19
2. MÉTODO..............................................................................................................30
2.1.Material...........................................................................................................31
2.2.Procedimento.................................................................................................32
3. RESULTADOS E ANÁLISE.................................................................................34
3.1.Análise das cenas..........................................................................................35
3.1.1. Cena 1 - Padrasto de Mason o levapara cortar o cabelo.....................35
3.1.2. Cena 2 - Mason conversa com o pai sobre relacionamento com o sexo
oposto......................................................................................................37
3.1.3. Cena 3 - Mason vai acampar com alguns colegas...............................39
3.1.4. Cena 4 - Mason chega a sua casa após ter ido a uma festa................42
3.1.5. Cena 5 - Professor de Mason conversa com o mesmo a cerca de futuro
profissional...............................................................................................44
3.1.6. Cena 6 - Mason conversa com Sheena sobre sentir-se controlado pelas
pessoas....................................................................................................49
3.1.7. Cena 7 - Mãe de Mason conscientiza este e sua irmã Samantha sobre
assumirem a responsabilidade por suas próprias vidas..........................54
4. ANÁLISE FINAL ..................................................................................................58
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................64
REFERÊNCIAS....................................................................................................65
12
1. INTRODUÇÃO
O presente trabalho teve como objetivo compreender aspectos do
desenvolvimento psicológico na adolescência, a partir da análise do filme Boyhood.
O estudo foi fundamentado essencialmente na teoria da “Síndrome Normal da
Adolescência” elaborada por Aberastury e Knobel (1981), bem como de outros
teóricos da abordagem psicanalítica.
Num primeiro momento nos propusemos a aprofundar os conhecimentos
sobre o que dizem os teóricos, sobre o que é adolescência normal e como ela se dá
na vida do jovem, nessa fase do desenvolvimento. Num segundo momento,
mediante o conhecimento dessa teoria sobre adolescência normal, optamos por
analisar algumas cenas selecionadas do filme Boyhood, drama dirigido por Richard
Linklater (Universal Studios, EUA, 2014), cujo personagem principal é um
adolescente. O intuito dessa análise foi verificar se os aspectos do desenvolvimento
psicológico na adolescência do personagem durante o filme correspondem àqueles
descritos na teoria estudada sobre a “Síndrome Normal da Adolescência”.
A partir do olhar psicanalítico, reconhecemos que, para que o adolescente
conquiste identidade adulta, é necessário que passe por um processo de
transformações físicas e psicológicas, sendo tal processo marcado por muitas
dificuldades, conforme assinalado por Aberastury e Knobel (1981), ao ter de elaborar
o luto do corpo, da identidade e dos pais infantis. Todos esses lutos são marcados
por diversos rompimentos, que segundo Blos (1985) acabam como sendo uma das
experiências mais profundas do ser humano. O lento rompimento com a família em
meio a receios e excitações que essa nova vida lhe acena é causa muitas vezes de
intensa dor.
No entanto, a sociedade tende a não compreender as dificuldades desse
momento crítico, não havendo desta forma um acolhimento ao adolescente por parte
desta que julga seu comportamento muita das vezes como anormal.
Erikson (1976) sugeriu que consideremos a adolescência não como um
período de aflição, mas como uma crise normativa, isto é, uma fase normal de maior
conflito, caracterizada por uma aparente flutuação no vigor do ego, e também por
um alto potencial de crescimento. O que poderia ser tido como uma neurose, pode
13
ser considerado como uma possibilidade imensa de conquista e formação de
identidade.
Diante do exposto, foram analisadas algumas cenas do filme Boyhood, que
mostra a vida do protagonista Mason, desde sua infância até sua juventude (dos 6
aos 18 anos de idade), acompanhando seu desenvolvimento psicológico na
adolescência. No enredo, o personagem vivencia os primeiros amores, os conflitos
em família, o constante sentimento de desgosto e admiração pela vida e familiares,
preocupações com o futuro profissional, certo receio ao se mudar da casa de sua
mãe e ingressar na faculdade, tais experiências serão analisadas no decorrer deste
trabalho.
O estudo dos aspectos do desenvolvimento psicológico na adolescência
possibilitou a compreensão do tema e o seu referencial teórico psicanalítico muito
provavelmente colaboram com o leitor que busca um questionamento acerca das
mudanças psicológicas que ocorrem nos adolescentes. Além do mais, poderá
contribuir para pesquisas futuras incentivando o interesse daqueles que desejam
investigar o tema aqui pesquisado.
No primeiro capítulo, abordar-se-á historicamente o conceito da adolescência,
com o fim de compreender como surgiu e quando esta etapa do desenvolvimento
humano passou a ser reconhecido no âmbito social.
No segundo capítulo, ressaltar-se-á a fase da adolescência a partir do olhar
psicanalítico, discorrendo acerca do desenvolvimento psicossexual, construção da
identidade, “Síndrome Normal da Adolescência” e etapas da adolescência, para que
se compreenda a respeito das transformações psicológicas que ocorrem neste
período.
14
1.1 A História da Adolescência
O conceito de infância e adolescência passou do processo de inexistência a
diversas modificações determinadas em cada época pelo contexto social
estabelecido, até se tornar como é conhecido atualmente.
De acordo com Davim et al (2014), antes do século XVI a infância era tida
como qualquer faixa etária, sem diferenciação entre as idades. Entre os séculos V e
XV o indivíduo praticamente passava da infância a idade adulta, sem perceber a
adolescência. E até o século XVII a infância e adolescência eram ambíguas, sem
distinção entre estas e desprovida de status social, considerado normal às crianças
adentrar ao mundo dos adultos.
Para Grossman (1998), na sociedade medieval era desconsiderado o
sentimento e a particularidade da infância, e no momento em que a criança deixasse
a dependência constante da mãe terminava a sua infância e envolvia-se nas
atividades de adultos.
Nascimento et al (2008) elucidam que durante a Idade Média, antes da
escolarização, a criança ocupava os mesmos locais que os adultos, não sendo
considerada a existência autônoma da infância. Sobre isto, Ariès (1981) comenta
que a duração da infância era reduzida a seu período mais frágil, enquanto o filhote
do homem ainda não conseguia bastar-se; a criança então, mal adquiria algum
desembaraço físico, era logo misturada aos adultos, e partilhava de seus trabalhos e
jogos. Nesta mesma época, Nascimento et al (2008) afirmam que ocorre uma
separação por faixa etária, porém adquiria-se o reconhecimento social somente a
partir dos 21 anos de idade.
Os autores seguem dizendo que no século XVII surgem as ideias de
dependência e proteção da criança, passando a partir daí a infância a ser designada
a primeira fase da vida. A Renascença no século XVII propiciou a valorização do
homem e a adolescência constitui-se por meio da aquisição do pensamento abstrato
e da racionalidade como estágio final do desenvolvimento. No entanto, somente a
partir do século XIX, tanto no Brasil quanto no mundo, se iniciam as produções
sobre a história social da infância.
Ariès (1981) ressalta que a sociedade não tinha preocupação quanto à
criança, sua fragilidade era considerada até o momento em que ela passava a
movimentar-se fisicamente, daí por diante envolvia-se nas atividades dos adultos.
15
Transformava-se assim em homem jovem sem passar pelas etapas da juventude, as
quais ocorrem na sociedade atual.
No século XIX, segundo aponta Grossman (1998), os papéis sociais de
mulheres e crianças são redefinidos, passando o filho a ser visto pelos pais como
objeto de amor e de suas expectativas. A autora diz que infância se torna uma fase
privilegiada,firmando-se o papel social da criança, dessa forma, neste mesmo
século inicia-se o estabelecimento delineado da adolescência, sendo considerada
socialmente como crise da existência, decorrente das transformações sexuais, dos
processos biológicos e das manifestações do comportamento típicos dessa faixa
etária.
Segundo Ariès (1981), a relação entre pais e filhos tanto quanto o conceito de
infância sofreu evoluções consideráveis em diversos momentos. Socialmente a
importância do afeto para se estabelecer matrimônios não era valorizada, nem os
vínculos afetivos nas relações com os filhos.
O autor afirma que antes do século XVII no contato entre os pais com a
criança não havia um envolvimento mais profundo. Nos primeiros anos de vida da
criança os adultos se divertiam com elas, porém caso ela não sobrevivesse a essa
fase da vida, os adultos procuravam não dar muita importância, pois logo seria
substituída por outra. Nesta época a função da família baseava-se na preservação
dos bens e proteção da sobrevivência, a função afetiva inexistia, ou seja, não era
relevante, se existisse melhor seria. Contudo as comunicações e trocas afetivas
ocorriam fora da convivência familiar, junto a amigos, vizinhos e outros.
De acordo com Passos (2009), até o século XVII as relações afetivas entre
membros da família e outras pessoas da sociedade eram as mesmas, sem distinção,
os espaços públicos eram o palco dessas relações. A autora comenta que apenas
após constituir-se o espaço privado familiar por volta do século XVIII, ocorre o
reconhecimento familiar dentro de um espaço privado, em que seus membros
unidos por laços biológicos adquiriram lugar para privacidade, troca de afetos e
proximidade entre si.
No fim do século XVII, conforme refere Ariès (1981), houve modificações
consideráveis nas relações familiares, passando os pais a terem uma preocupação e
apego a criança. O início da aprendizagem por meio da escolarização foi importante
nesse processo, pois aproximou os pais do cuidado para com as crianças.
16
De acordo com o autor referido, nos séculos XIX e XX a importância dada à
educação transforma as relações familiares, tornando ao contrário do que ocorria, a
necessidade do afeto entre o casal e seus filhos. O espaço social ocupado pela
criança se modifica completamente, a partir deste momento para os adultos torna-se
impossível substituí-la.
Nascimento et al (2008) ratificam o pressuposto dizendo que a escolarização
contribuiu para modificar o conceito social de infância, ao passo em que na Idade
Contemporânea os espaços de crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos são
diferenciados, existindo claramente a separação por idade e reconhecimento social
de cada uma delas.
Atualmente, assim como salienta Davim et al (2008), os filhos socialmente
desde a infância são tidos como únicos e as relações parentais em grande parte
valorizam o amor e o cuidado, diferentemente do que ocorria antes do século XVI
em que não se dava muita importância, ou procuravam os adultos não “ligarem”
caso a criança não sobrevivesse a infância, entendendo-se que esta logo seria
substituída por outra.
Estes autores afirmam que a sociedade contemporânea privilegia o vínculo
entre casal e filhos, que vai além da necessidade de preservação de bens,
priorizando a vivência afetiva e a perda de um filho é sentida profundamente pela
grande maioria dos pais. A vivência familiar passou a dominar a vida das crianças e
adolescentes agora mais percebidos e valorizados.
Levisky (2013) explicita que somente a partir do século XVI, começou-se a
diferenciar as várias fases da vida: “enfance”, “jeunesse” e “viellesse” (infância,
juventude e velhice). O autor diz que a juventude abrangia uma idade mais madura e
significava “força da idade”, não existindo, portanto, a denominação adolescência.
Segue dizendo que houve uma maior valorização da juventude no século XVII até o
século XX, no qual o adolescente se torna figura central.
O autor comenta que a adolescência na cultura ocidental se dá a partir da
industrialização e o desenvolvimento da burguesia, fornecendo as características
psicológicas e manifestação ao nível da adaptação social presentes na atualidade. É
uma fase marcada por uma revolução biopsicossocial entre a infância e a vida adulta.
Podemos dizer que a puberdade caracteriza-se pelas mudanças biológicas e a
adolescência decorrente de mudanças psicossociais. Completa que as velocidades
de maturação de cada setor (biológico, psicológico e social) e das partes que os
17
compõem, são distintas e interatuantes, dando o colorido típico que caracteriza o
adolescente de nossa sociedade.
Levisky (2013) observa que há aspectos universais presentes tanto na
adolescência das civilizações primitivas, quanto na das consideradas modernas,
podendo-se ter como exemplo, a valorização da conquista da capacidade
reprodutora, evidenciada pelo início da ejaculação e pela menarca, e pela busca de
um novo objeto de amor.
Na sociedade contemporânea, conforme o autor salienta, o jovem para ser
reconhecido no mundo dos adultos deve ter condições de se manter, encarregar-se
de seu próprio destino, condição difícil de ser conseguida devido às conjunturas
sociopolítico-econômico na atualidade, ocasionando nesta fase de transição mais
prolongada e penosa. O jovem tem de ser confrontado com aspectos: sociais,
políticos, filosóficos, religiosos, econômicos e profissionais, sem considerar aqui todo
processo afetivo subjacente.
Para Leviski (2013) a passagem da adolescência sempre será um período de
crise e de desequilíbrio, em qualquer sociedade, devido às mudanças fisiológicas
que se realizam e às repercussões psicológicas de inserção do jovem na
comunidade adulta. Os jovens passam por um importante fator de tensão ao
constatarem que fisicamente estão aptos a exercerem suas funções sexuais, porém,
não tem condições de enfrentarem as forças da cultura, da sociedade e dos riscos
inerentes aos desejos de plena liberação e desenvolvimento dessas funções.
O autor diz que o adolescente, muitas vezes não conta com informações de
como agir, tendo de encarar uma gravidez, ou o uso indiscriminado de
contraceptivos ou da prática do aborto, de contaminação por doenças venéreas e,
atualmente, o fantasma da AIDS. Afirma que é necessária por parte do adolescente
uma maturidade, para conseguir fazer frente a essa demanda tanto emocional
quanto cognitivo para funcionar dentro do princípio de realidade individual e social.
Dessa maneira, espera-se que aprenda a controlar seus impulsos sexuais e
agressivos numa fase que tem poucos recursos para fazê-lo, levando-o a reprimir
tais impulsos ou liberá-los.
Leviski (2013) faz uma crítica ao dizer que o jovem é considerado em nossa
sociedade adulto aos 16 anos de idade para votar, por exemplo, mas não tem
condições econômicas para fazer sua própria manutenção nem constituir família aos
21 anos de idade, não conseguindo se emancipar. Além do mais, terá de decidir aos
18
16 anos de idade qual profissão escolherá, no auge de sua crise de identidade.
Sendo assim, o jovem fica submisso a vários pré-requisitos para ingressar no mundo
dos adultos, quanto mais complexa for a sociedade em que vive, sendo-lhe mais
prolongada essa fase de transição.
O autor aponta que além dos fatores sociais, os fatores de ordem pessoal -
aspectos da personalidade do indivíduo, seu caráter, sua história biográfica,
incluindo experiências traumáticas e prazerosas, que dão a configuração do quadro
psicológico e comportamental - influenciam no processo da adolescência. Para
ingressar no mundo adulto, ao jovem é exigido que tenha maturidade,
independência, autodeterminação, responsabilidade e atividade sexual efetivamente
adulta, entendendo-se comopossibilidade de procriar e de estabelecer família.
Devido às características dos grandes centros urbanos e suas cobranças aos
jovens, Leviski (2013) afirma que se constata entre eles muitos de temperamento
instáveis, inseguros, rebeldes, com grande oscilação do comportamento e humor,
indo da expansividade à retração social. Vivem períodos de energia e coragem
desmedidas, cheios de luta e ideias quixotescos, sonhos e aventuras que podem ser
prontamente convertidos em sentimentos de depressão, incertezas, passividade e
desânimo.
Rassiau (2004) assinala que na atualidade a figura da adolescência mudou,
pois, antigamente era um momento muito curto ou até mesmo inexistente, como nas
sociedades iniciáticas. Hoje, em contrapartida, vivemos uma ampliação deste
momento, onde as pessoas entram nele e não saem. Inclusive, é possível verificar
isto quando tais pessoas retornam à casa de seus pais devido à incapacidade de
sustentar um laço conjugal.
Dessa forma, é possível verificar que assim como afirma Erikson (1976), o
crescimento pessoal e a mudança social são indissociáveis, tal como a crise de
identidade individual e as crises atuais no desenvolvimento histórico, o que leva a
formação da identidade ser relevante para instituir o padrão de cada fase histórica.
Após discorrer sobre como se deu historicamente o surgimento do termo
adolescência e o reconhecimento desta fase do desenvolvimento humano, que
passa a ocupar o lugar ideal na sociedade contemporânea, torna-se significativo
caracterizar tal etapa, utilizando-se para isto a Psicanálise.
19
1.2 Adolescência
Segundo Carvajal (2001, p. 67), a adolescência se trata “de um grupo de
fenômenos que eclode num momento da vida e que tem um processo e um
desenvolvimento até desaparecer, para dar lugar a comportamentos, condutas e
fenômenos característicos da idade adulta”.
Freud (1905/2006), apesar de não ter elaborado uma “teoria da adolescência”,
trouxe contribuições de extrema importância a respeito das transformações da
puberdade, que nos leva a uma melhor compreensão sobre o que ocorre nesta fase
do desenvolvimento humano. Em seus estudos aprofundados sobre a vida sexual
constatou que esta antecede a puberdade manifestando-se logo após o
nascimento – o conceito “sexual” é abrangente, pois inclui muitas atividades que não
tem nenhuma relação com os órgãos genitais. Essa atividade corporal presente no
início da infância está ligada a fenômenos psíquicos, com os quais iremos nos
deparar novamente, na vida erótica adulta, fazendo parte de todo o curso do
desenvolvimento.
Vários instintos provenientes de diferentes áreas e regiões do corpo
trabalham para obterem suas próprias satisfações por meio do prazer pertencente
aos órgãos, designados por Freud (1939/2006) de “zonas erógenas”. No decorrer do
desenvolvimento haverá uma orientação desses instintos para uma determinada
zona erógena, correspondendo a uma fase do desenvolvimento psicossexual.
Tem-se que, na fase fálica - terceira fase descrita por Freud (1939/2006) - se
inicia a erotização dos genitais. O órgão masculino, ou falo, desempenha um
importante papel nesta fase, sendo o genital feminino até então desconhecido. É
neste período que a sexualidade infantil atinge o ponto máximo e tem um declínio,
se instalando o complexo de Édipo, que segundo Klein (1957/1991) é impulsionado
pela ansiedade e a culpa relativas à destruição e perda dos objetos amados internos
e externos, ao passo em que as mesmas aumentam a necessidade de projetar
figuras más e introjetar figuras boas; de unir desejos, amor, sentimentos de culpa e
inclinações reparadoras a alguns objetos, e ódio e ansiedade a outros; de encontrar
representantes de figuras internas no mundo externo.
Devido ao início da erotização dos genitais nesta fase, Freud (1939/2006)
aponta ambos os sexos partem do pressuposto de que todos possuem pênis, no
entanto, adiante, meninos e meninas tomarão rumos diferentes. O menino começa a
20
manipular seu órgão sexual pelas sensações prazerosas que lhe proporciona e tem
fantasias de que é o amante da mãe, desejando possuí-la fisicamente. A fim de
seduzi-la, lhe exibe orgulhosamente seu órgão, querendo ocupar o lugar do pai, que
torna-se neste momento um rival que fica entre ele e a mãe, desejando eliminar o
mesmo. No entanto, o filho ao sentir que o pai, sendo o maior e mais forte, é um
adversário com o qual não pode lutar, reprime sua atração pela mãe, por causa do
medo da ameaça de castração que se constata quando percebe a ausência de pênis
nas pessoas do sexo feminino.
O autor elucida que diferente do menino, a menina não receia perder o pênis,
mas inveja-o. Após várias tentativas mal sucedidas de fazer as mesmas coisas que
o menino, reconhece sua falta do órgão em questão, ou que seu clitóris é inferior, o
que repercute no desenvolvimento de seu caráter. Contudo, mais tarde ela faz
esforços para compensar esta falta, obtendo sucesso, o que a leva a uma atitude
feminina normal.
Freud (1939/2006) completa dizendo que caso a menina persista em seu
desejo de ser um menino, se tornará homossexual manifesta ou apresentará de
forma marcante traços masculinos. Em outra possibilidade, em decorrência da inveja
do pênis não perdoa a mãe em ter lhe concebido com um instrumento tão
insuficiente e a abandona, colocando em seu lugar o pai como objeto de seu amor.
Ao perder um objeto amoroso, sua reação é de identificar-se com ele, assim, o
substitui dentro de si própria. A identificação com a mãe irá auxiliar a menina,
podendo ocupar o lugar da ligação com a mesma. Esta situação se repete, tal como
ocorria em seus os brinquedos, onde a filha tomava o lugar da mãe para ficar ao
lado do pai, odiando a mãe que amava por ciúme e por desgosto pelo pênis que não
lhe foi dado. A princípio sua nova relação com o pai pode conter o desejo de ter o
pênis dele para si, mas no final seu lugar é ocupado pelo desejo de ter um bebê.
Ao comparar a forma adquirida pela relação entre o complexo de Édipo e o
complexo de castração no caso das mulheres e no caso dos homens, Freud
(1939/2006) notou a curiosidade de que em oposição ao complexo de Édipo
masculino, que tem seu fim com a ameaça de castração, é a falta de um pênis que
empurra as mulheres para o seu complexo de Édipo. Se porventura uma mulher
continue em sua atitude edipiana feminina, terá pouco dano, sendo que escolherá
seu parceiro de acordo com as características paternas nele presentes e
reconhecerá sua autoridade prontamente. Dessa maneira, o desejo insaciável de ter
21
um pênis, poderá ser satisfeito se o amor da mulher pelo órgão se estender ao
possuidor do mesmo, assim como quando avançou do seio da mãe para a sua
pessoa total na primeira fase denominada oral.
Tendo se encerrado a etapa fálica infantil, Fiori (1981) afirma que terá sido
estabelecido um modelo de busca de um amor heterossexual, sendo retomado mais
tarde, na adolescência. Portanto, assim como concluiu Sadala (s/d), a adolescência
é um retorno ao Édipo, ou seja, à sexualidade infantil, porém, esta é marcada pela
castração, pela falta, pela constatação da impossibilidade da relação sexual, pela
desilusão mediante ao que é completo.
Na fase posterior à fálica, a latência, Blos (1985) salienta que a criança
aprende por meio do apoio educacional a sublimar, sendo considerada a passagem
satisfatória deste período relevante para que não seja vencida pela puberdade. Em
contrapartida, Sadala (s/d) considera que nesta fase além de haver um
adormecimento da sexualidade, há também um afastamento dos desejos
incestuosos, que na adolescência são retomados com novas possibilidades
apresentadas pelo segundo momento de escolha de objeto.
Segundo Nasio (2007) A vida sexual começará a florescer novamenteapós o
fim deste período chamado de latência, com a chegada da puberdade. Nela, o jovem
terá de ajustar a energia de seus impulsos ao novo corpo que está em processo de
transformação e às novas requisições da sociedade, assim como fez aos quatro
anos. Tal tarefa não é nada fácil, pois o jovem não sabe mais dominar seus impulsos
como fez no fim de seu Édipo.
Dessa forma, Freud (1905/2006) explica que as pulsões sexuais até então
autoerótica acham o objeto sexual. Anteriormente, a pulsão sexual dividida de
pulsões e zonas erógenas distintas e independentes uma das outras, procurando
exclusividade em certo prazer como alvo sexual, neste processo modifica-se
passando ao novo alvo sexual, em que todas as pulsões parciais se conjugam, e as
zonas erógenas se tornam sujeitas a prioridade da zona genital. Conclui-se, pois, a
organização completa dos impulsos, estando direcionados preferencialmente ao
prazer na função sexual, caracterizando uma quarta e última fase, a genital (FREUD,
1939/2006). Aberastury e Knobel (1981) reiteram que no momento em que indivíduo
passa a estar em condições de iniciar relações genitais com o sexo oposto
caracteriza-se uma resolução do complexo de Édipo, ou seja, a fase dos estágios
22
primários da maturação psicossexual, e poderá se estiver em condições financeiras,
aceitar o fato da procriação e constituir família.
Acerca da lactância na infância e a maturação genital na puberdade, Blos
(1985) ressalta que são considerados pela psicanálise períodos relevantes do
desenvolvimento sexual, ao passo em que tais fases estão ligadas ao
desenvolvimento das funções fisiológicas. Contudo, Fiori (1981) afirma que as fases
do desenvolvimento infantis são encerradas pela puberdade, pois como Freud
(1905/2006) pôde constatar, a vida sexual infantil sofre modificações neste período,
as quais conduzem a sua configuração normal definitiva. Neste sentido, Blos (1985)
destaca que no processo da puberdade emerge todos os modos de excitação,
tensão, satisfação e defesa já vivenciados de alguma forma no desenvolvimento
psicossexual da lactância e da primeira infância, no entanto, a criança que entra na
puberdade é diferente da que entrou na latctância.
De acordo com Outeiral (1994) as transformações corporais, constituem uma
das principais questões da adolescência em geral e, particularmente, de sua fase
inicial. Aberastury e Knobel (1981) destacam que a correlação entre mudanças
corporais e psicológicas deste período modifica as relações do adolescente com
seus pais e o mundo. Não obstante, Blos (1985) diz que a capacidade de avaliar e
acomodar estímulos internos e externos, benignos e perigosos, permite ao ego viver
em relativa harmonia com a pulsão, o superego e o ambiente.
Segundo Aberastury e Knobel (1981), é durante a adolescência que o
indivíduo começa a estabelecer sua identidade adulta, a qual ocorre com base na
internalização dos objetos parentais da primeira infância e suas inter-relações, e na
observação diária de suas vivências familiares e do grupo social. Tais objetos, como
afirma Klein (1957/1991) são introjetados como bons quando satisfazem suas
necessidades, e como ruins quando frustram, existindo uma relação que envolve as
emoções, fantasias, ansiedades e defesas. Portanto, a forma com que o indivíduo
percebe os objetos externos irá repercutir na constituição de sua personalidade.
Erikson (1976) considera que as pessoas com quem o adolescente convive
não só contribuem para a construção de sua identidade, como também têm a função
de um espelho, refletindo-lhe a imagem tida pela sociedade a seu respeito. O autor
afirma que o desenvolvimento da personalidade ocorre ao longo da vida e divide
este processo em oito estágios aos quais, cada um corresponde à formação de um
23
aspecto peculiar da mesma, sendo que o quinto estágio, da identidade versus
confusão de papéis, ocorre na adolescência.
Na adolescência, parafraseando as considerações de Aberastury e Knobel
(1981) e Erikson (1976), a identidade passa por uma crise normal, a qual estabelece
relações com experiências passadas do indivíduo, que obteve em contatos com
outras pessoas, e que determinará o que acontecerá futuramente. Ambos os autores
ressaltam que é nesta fase que há o estabelecimento da identidade do jovem, sendo
o grupo essencial para sua formação.
Para Aberastury e Knobel (1981), a adolescência apresenta algumas
características, que aos pais parecem patológicas, visto lhe causarem essa fase
muita ansiedade, pelas condutas apresentadas pelos filhos. A essas características,
os autores denominam de forma paradoxal de “Síndrome Normal da Adolescência”,
síndrome como um conjunto de condutas, que à primeira vista parecerá patológica,
porém, completamente esperado do adolescente, portanto normal. Tais
características compreendem:
1 - A busca de si mesmo e da identidade
Aberastury e Knobel (1981) abordam que desde a vida inicial do indivíduo sua
identidade é construída, havendo maior destaque na fase da adolescência. As
transformações do corpo e do esquema corporal levam o adolescente - que segue
rumo à conquista da identidade adulta, que ocorrerá quando chegar a juventude e
conforme for elaborando o luto pela identidade infantil perdida - a apresentar
identidades transitórias, ocasionais e circunstanciais. Tais aspectos estão
relacionados com o processo de separação, sendo estes, uma das principais
características do adolescente.
2 - Tendência grupal
Acerca deste aspecto, Aberastury e Knobel (1981) elucidam que o
adolescente na sua busca pela individualidade, procura a uniformidade, sendo um
comportamento defensivo de sua parte que lhe traz segurança e estima pessoal. A
fim de separar-se dos pais, ele desloca sua dependência destes para o grupo de
amigos, onde todos se identificam um com o outro. Este processo é tão intenso, que
ele pertence mais ao grupo de companheiros do que ao grupo familiar, assim, se
sujeita fielmente às regras grupais, sendo possível verificar isto nas modas,
vestimenta, costumes e preferências de todos os tipos. O fenômeno grupal, dessa
24
forma, é extremamente importante, pois, é a ponte no mundo externo para alcançar
a identidade adulta.
3 - Necessidade de intelectualizar e fantasiar
Segundo Aberastury e Knobel (1981) esta necessidade é uma das formas
mais típicas do pensamento adolescente, onde o mesmo utiliza tais capacidades
como mecanismos de defesa para compensar as perdas que ocorreram dentro de si.
Os autores afirmam que é uma espécie de fuga no mundo interior que permite um
tipo de reajuste emocional que leva à preocupação por princípios éticos, filosóficos,
sociais que levam, muitas das vezes a formular um plano de vida bem diferente do
que se tinha até o momento, e que também permite a teorização a respeito de
grandes reformas que poderiam acontecer no mundo exterior.
4 - As crises religiosas
Pertinente à religiosidade, Aberastury e Knobel (1981) consideram que o
adolescente apresenta atitudes de ateísmo ou misticismo de forma exacerbada,
passando por períodos em que exalta a religião, havendo uma variedade de
posicionamentos religiosos e frequentes mudanças, ou nega a mesma. Tais
situações refletem a situação mutável e flutuante de seu mundo interno, sendo as
crises religiosas, na verdade, tentativas de solucionar a angústia vivida pelo ego em
sua busca por identificações positivas, e o conflito da perda de uma parte de seu
ego corporal, além da separação definitiva dos pais e aceitação da possível morte
dos mesmos.
5 - A deslocalização temporal
Nesta fase, Aberastury e Knobel (1981) mencionam que o adolescente vive
uma espécie de desorientação espacial, onde converte o tempo em presente ativo
na tentativa de manejá-lo, sendo as urgências enormese as postergações
irracionais. Neste âmbito, eventos não imediatos são tidos como de extrema
urgência, já os que realmente possuem curto prazo são tratados como o contrário.
Assim, lentamente a dimensão temporal irá adquirindo características discriminativas,
elaborando as noções de presente, passado e futuro.
6 - A evolução sexual desde o autoerotismo até a heterossexualidade
De acordo com Aberastury e Knobel (1981), o adolescente oscila entre a
masturbação e o começo do exercício genital, ocorrendo um contato genital nessa
25
fase de caráter exploratório, o qual prepara o adolescente para assumir o papel
paternal na genitalidade procriativa da vida adulta.
Os autores citam que a masturbação pode servir de descarga de tensão para
o adolescente, negação da existência do sexo oposto, assim como propiciar a
elaboração da necessidade da relação com o outro, permitindo reeditar a infância,
em que se revive a manipulação dos genitais do lactente, tendo como função
explorar seu corpo para se autoconhecer.
Aberastury e Knobel (1981) discorrem que os desejos iniciais são intensos, e
socialmente reprimidos, sendo vividos com determinada culpa pelo adolescente,
constituindo-se um momento de intensa intimidade vivenciada de forma rápida e
transitória. As mudanças corporais em ambos os sexos, intensifica a aceitação da
genitalidade, exigindo que o adolescente elabore o luto pelo corpo infantil, e pela
bissexualidade.
Segundo os autores mencionados, a presença da figura materna e paterna
tem relevância nesse processo, acaso não haja identificação com a figura paterna
esse fato contribuirá para a fixação na mãe, sendo a origem da homossexualidade.
Acerca dessa característica, os autores dizem que a adolescente por uma fase
homossexual em que se evita o sexo oposto, sendo os aspectos da elaboração
edípica notados nesse período pelos comportamentos femininos nos meninos e
masculinos nas meninas.
Aberastury e Knobel (1981) consideram que a autoafirmação da identidade
sexual é que possibilita a aproximação com o sexo oposto. As fantasias passadas e
a possibilidade de utilização da genitalidade na adolescência constituem um período
visível do fenômeno da evolução do autoerotismo à heterossexualidade, em que o
adolescente passa por um período de pré-genitalidade, a masturbação,
aprendizagem lúdica do outro sexo, constituindo formas de exploração. Os autores
afirmam que surge a curiosidade pela sexualidade, o exibicionismo e o voyeurismo,
expresso nas vestimentas, estilo do cabelo, etc.
Os autores elucidam que as figuras parentais reais são importantes neste
período. O adolescente passa por mudanças biológicas, as quais são incontroláveis
e geram ansiedade, preocupação e sensação de impotência. Os autores citam que a
tentativa de negar a perda do corpo e do papel infantil, particularmente, gera
modificações no esquema corporal que se tenta contrapor na elaboração dos
processos de luto normais da adolescência.
26
Aberastury e Knobel (1981) afirmam que na relação com os pais, a
triangulação edípica ressurge na adolescência, tornando mais enérgicos os
mecanismos de defesa utilizados. As condutas masculinas na moça e feminina no
rapaz como aspectos da elaboração edípica da bissexualidade não resolvida, as
flutuações em ambos os papéis são necessárias para aceitar a heterossexualidade.
Aberastury e Knobel (1981) complementam que a elaboração do complexo de Édipo
permite aparecer idealizações positivas heterossexuais, a superação do medo de
castração, permitindo desenvolver-se e atingir sua capacidade de realização.
Os autores concluem que de uma fase prévia da masturbação a uma
atividade lúdica, a evolução sexual do adolescente iniciada por meio do
conhecimento de si e do outro, tende a buscar satisfação na relação genital, vívida
de maneira imatura e lúdica. Nesta fase a atividade lúdica e as sublimações são
crescentes com a diminuição da masturbação.
Dessa forma, Aberastury e Knobel (1981) afirmam que a adolescência dará
lugar à fase adulta, atingindo por meio do autoerotismo e da exploração da
genitalidade, a heterossexualidade afetiva vivida com responsabilidade e maturidade,
de acordo com o meio social, portanto, atingir a heterossexualidade adulta implica
assumir a responsabilidade procriativa.
7 - Atitude Social Reivindicatória
Segundo Aberastury e Knobel (1981) os pais revivem seus conflitos edípicos
no momento em que a genitalidade do adolescente se inicia. As primeiras
identificações ocorrem no meio parental, no entanto o meio sociocultural possibilita
outras formas de identificações. Assim, o indivíduo busca identificar-se com as
figuras parentais e após superar tais identificações, suas ações resultam de uma
estabilidade biológica e psíquica, das transformações da relação objetal e da força
dos conflitos inconsciente, sendo que a exteriorização do indivíduo irá variar de
acordo com os padrões culturais.
Os autores afirmam que o adolescente socialmente sente-se marginalizado,
levando-o a uma atitude social reivindicatória, tentando modificar a sociedade, a qual
se modifica constantemente e o influencia. Dessa forma, as dificuldades
encontradas na busca pelo emprego, a incompreensão e o domínio de um mundo
adulto exigente, a divisão de classes sociais faz emergir o sentimento da
necessidade de mudanças sociais, o que o leva a reivindicar melhoras.
27
Aberastury e Knobel (1981) elucidam que a frustração do luto dos pais da
infância projeta-se no mundo externo, culpando os pais e a sociedade por não
manter os pais da infância, agindo destrutivamente. Somente a boa elaboração dos
lutos permitirá o reconhecimento da sensação de fracasso e a introdução
construtivamente na idade adulta.
8 - Contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta
Para Aberastury e Knobel (1981), o adolescente age para assim tornar o
pensamento controlado. O comportamento do adolescente dominado pela ação, não
agindo de forma rígida, permanente e absoluta, é devido às constantes exigências
internas e externas. As variações na conduta permitem a ele lidar e aprender da
experiência. Essas condutas são consideradas uma normal anormalidade, a
utilização de diversas defesas colaboram na elaboração dos lutos deste período.
9 - Separação progressiva dos pais
Segundo Aberastury e Knobel (1981) por meio da individualidade e
independência será possível alcançar a maturidade, sendo necessário elaborar o
luto pelos pais da infância.
Os autores afirmam que a genitalidade impõe a separação dos pais e faz
emergir aspectos genitais iniciados com a fase genital prévia. Conforme o
adolescente se aproxima de seus pares vai afastando-se dos pais e adquirindo certa
independência, distinguindo-se como pessoa.
Aberastury e Knobel (1981) comentam que tanto os filhos como os pais
resistem a esta independência cada qual com seus temores, no entanto deve-se
deixar o filho crescer e desenvolver-se físico e psicologicamente. Os conflitos entre
pais e filhos são importantes e propiciam o desenvolvimento saudável de ambos.
10 - Constantes flutuações do humor e do estado de ânimo
Aberastury e Knobel (1981) mencionam que as constantes mudanças no
estado de ânimo, as quais ocorrem de forma intensa e rápida diante dos
sentimentos de conquistas, frustrações e perante oposição aos pais e à sociedade,
são consideradas normais nesta fase do desenvolvimento. Esta intensidade com a
qual se vivencia as experiências favorece a aprendizagem de sentimentos humanos.
28
Tais transformações vividas pelo adolescente são verdadeiros lutos, e como
tais, exigem tempo para serem elaborados. Segundo Aberastury e Knobel (1981), os
principais lutos consistem no conflito pelo corpo infantil, o conflito pela identidade e
papel infantis, e oconflito pelos pais da infância, acrescentando-se também a esses
o conflito pela bissexualidade infantil.
Na visão de Erikson (1976), cada conflito vivenciado pelo indivíduo ao logo de
sua vida, deve ser resolvido de maneira positiva ou negativa. Se enfrentar de
maneira positiva, resulta-se um desenvolvimento com caráter harmônico e benéfico,
já no caso negativo, obtém fracassos em sua vida. Aberastury e Knobel (1981)
afirmam que cada indivíduo vivencia as manifestações da “Síndrome Normal da
Adolescência” de maneira mais interna ou externa, sendo que os chamados
mecanismos psicopáticos que surgem demanda complexidade de manejo. Os
autores acrescentam que tais manifestações se diferenciam em intensidade e
variedade.
Acerca da divisão da adolescência em etapas, Outeiral (1994) descreve três
momentos:
Adolescência inicial - é vivida dos 10 aos 14 anos de idade e refere-se a um
processo biológico, o qual caracterizado pela atividade hormonal responsável pelo
desenvolvimento dos “caracteres sexuais secundários”.
Adolescência média - de 14 a 16 ou 17 anos. Sua principal característica está
relacionada às questões sobre sexualidade, em particular, a passagem de
bissexualidade para a heterossexualidade.
Adolescência final - de 16 ou 17 anos a 20 anos de idade, possui elementos
relevantes, como o estabelecimento de novos relacionamentos com os pais, escolha
profissional, aceitação do “novo” corpo e dos processos psíquicos do “mundo adulto”.
Outeiral (1994) aponta que a divisão em idades é muito arbitrária, sendo os
fatores genéticos, nutricionais, psicológicos, sociais, entre outros, determinantes
neste processo, embora as distintas experiências adolescentes possuam elementos
em comum.
Carvajal (2001) classifica a adolescência também em três etapas, no entanto,
amplia a caracterização destas utilizando o conceito de crise a fim de também
classificar os comportamentos por etapas, abordando o processo de ordem
inconsciente que existe paralelo a estes. Sendo assim, Carvajal (2001) explica que,
a crise de identidade, se refere à necessidade de o adolescente ser ele mesmo, de
29
buscar delimitar seu self e seus objetos e obter aspecto que o diferencie do adulto
para que conquiste a autossustentação própria. A crise de autoridade diz respeito ao
enfrentamento de tudo que represente norma ou imposição de modelos e que
provenha da vivencia do adulto e de tudo de superegóico que não pôde ser
internalizado no self durante a infância. Já a crise sexual se baseia no surgimento de
um novo modelo psicológico para controlar os impulsos libidinais em eclosão e em
aumento qualitativo, que visa instalar uma procriação eficiente e defensora da prole.
a) Etapa puberal - inicia o processo da adolescência e seu aspecto central é o
rompimento maciço com os fenômenos infantis e um isolamento do mundo
externo em geral.
Crise sexual: introversão libidinal; autoerotismo; amizade íntima,
hipoinvestimento do ego grupal.
Crise de Identidade: confusão; regressão; ambivalência; dessimbolização.
Crise de Autoridade: isolamento; desobediência, evitação; desidealização.
b) Etapa nuclear - instalação tempestuosa das características que damos em
geral à adolescência, havendo predominância do grupal.
Crise sexual: superinvestimento especular narcisista; namoros compartilhados.
Crise de Identidade: onipotência grupal; self compartilhado; moda.
Crise de Autoridade: organização em gangues; rebelião; ruptura normativa
antiadulto.
c) Etapa juvenil - período de transição do comportamento essencialmente
adolescente para um modelo de funcionamento similar ao do adulto.
Crise sexual: heterossexualidade; escolha de parceiro sexual.
Crise de Identidade: individualidade; intimidade; independência.
Crise de Autoridade: reparação; reconciliação com os pais.
30
2. MÉTODO
O estudo baseou-se na análise do filme Boyhood, pois, assim como diz
Rivera (2008), o cinema, assim como no sonho apresenta figurativamente
pensamentos ou ideias abstratas, realizando um desejo, não no sentido de
satisfazê-lo, mas no sentido torná-lo real, apresentando-o em imagens e palavras.
Segundo Penafria (2009), analisar um filme consiste em decompor elementos deste,
e após essa descrição, estabelecer articulação entre os mesmos, ou seja, propor
uma interpretação.
Sendo assim, tal estudo se assemelha a um estudo de caso, o qual Severino
(2007) define como pesquisa voltada ao estudo de um caso específico, julgado
como representativo de um conjunto de casos análogos, que é representativo
significativamente por ele. Para a compreensão do contexto explorado, fez-se
necessário a realização de uma análise sustentada em referenciais teóricos de
cunho psicanalítico, dessa forma, a união entre Psicanálise e cinema foi de grande
valia para a realização do presente estudo, ao passo em que ambos contribuíram
neste processo. Neste âmbito, Severino (2007) considera que a ciência como
categoria de conhecimento só se processa como resultado de articulação do teórico
com o empírico, não se limita a um simples levantamento e exposição de fatos ou a
uma coleção de dados.
Para a construção da análise, utilizou-se a teoria psicanalítica. Metz (1980)
aponta o cinema como técnica do imaginário, pois nos filmes existe o simbólico que
se constitui através e por cima dos jogos deste imaginário (projeção-introjeção,
presença-ausência, fantasmas acompanhadores da percepção, etc.). Portanto, o
filme possibilita que cada indivíduo venha fazer interpretações pessoais conscientes
e inconscientes, relacionando-se com ele como sendo este um objeto bom ou mal.
Neste sentido, o referencial psicanalítico atribui significado ao significante, levando a
uma melhor compreensão a cerca da história contada pelo filme. O autor dá extrema
importância à observação do conteúdo latente presente nas cenas durante o filme
para se realizar a análise interpretativa.
A fim de se melhor compreender os pressupostos a respeito do assunto
tratado neste estudo, realizou-se a seleção de algumas cenas do referido filme que
abordaram o conceito de adolescência normal retratando suas etapas e aspectos.
31
Na sequência apresentou-se uma pesquisa qualitativa com análise descritiva, tendo
como respaldo os conceitos psicanalíticos sobre self, identificação projetiva,
introjeção, projeção e complexo de Édipo. A análise do filme foi baseada na
abordagem psicanalítica.
2.1.Material
O filme Boyhood, com duração de 2h46min, narra a vida de Maison Junior
(MJ), percorrendo um longo período que vai de sua infância à juventude, quando o
personagem já possui dezoito anos e ingressa na Universidade.
O período de gravação do filme durou doze anos. O longa acompanha a vida
do personagem Mason dos cinco aos dezoito anos, bem como a idade do ator que o
interpretou. A gravação iniciou-se em 2002, terminando em 2013. Nesse período os
atores se reuniam durante três ou quatro dias de cada ano para gravarem as cenas.
As cenas apresentadas trazem temas sobre relacionamento familiar,
separação dos pais, atividades escolares, contato com amigos, questões sobre a
infância, sexualidade, adolescência e ingresso na vida adulta.
Inicialmente é apresentada a infância do personagem, na qual ele cria
hipóteses sobre a existência das coisas, brinca com amigos. Nesta época seus pais
já estavam separados, sendo assim, o personagem morava com Samantha (irmã) e
a mãe deles. Neste período, Maison questiona a possibilidade do pai voltar a morar
com eles.
Ao longo do filme são exibidas cenas em que a família muda-se de cidade
constantemente, mudando o personagem de escola e se distanciando dos amigos,
passando a conhecer outras pessoas. A mãe do personagem casa-se sempre com
homens alcoólatras e agressivos com ela e com os filhos, repetindoas mesmas
relações amorosas. O pai de Maison aparece realizando atividades com os filhos,
estando presente durante o crescimento deles e trata de assuntos relacionados a
política, sexualidade e relacionamento amorosos, trabalho.
O tema sobre a sexualidade aparece no período da infância e da
adolescência, por meio da visualização de imagens do sexo oposto vestida em
peças intimas.
32
Algumas cenas demonstram insatisfação, sentimentos negativos do
personagem em relação aos padrastos, a mudança de escola, a impotência diante
de situações em que era submetido.
Outro tema apresentado se refere a influência do meio social, nas
vestimentas, no comportamento, nos gostos, ídolos. Neste filme aparecem crianças
e adolescentes participando de evento de lançamento do livro Harry Potter.
O período da adolescência apresenta o comportamento grupal de Mason que
frequenta festas com amigos, ingere bebida alcoólica, fuma cigarro, paquera as
garotas, participa de acampamento com rapazes mais velhos, inicia o primeiro
relacionamento, tem a primeira experiência sexual, tem sua primeira decepção
amorosa, questiona o modo de vida social, sua mãe, seu padrasto. Desejo de ser
diferente, o uso de brincos, esmalte nas unhas. Dificuldades em se abrir com adultos,
dizer o que sente, e fazer isto com seus pares.
Algumas cenas revelam diferentes configurações familiares pelas quais o
personagem passou, morando num determinado período Mason, Samantha a mãe
deles com o padrasto e o casal de filhos do mesmo. Posteriormente morando Mason,
Samantha a mãe deles com outro padrasto, e na sequência apenas Mason,
Samantha e a mãe deles. O pai de Mason também se casou novamente e teve um
filho. O personagem convivia com a família do pai.
O primeiro emprego, a busca de realização profissional, ingresso na
faculdade, as cobranças de outros adultos e o desejo de ser tratado como igual,
iniciam o processo de inserção do personagem em atividades que o conduzirão a
vida adulta.
O filme termina com ingresso do personagem na Universidade, situação
retratada pelo sentimento ambíguo da mãe do mesmo, apresentando certa
resistência ao crescimento dos filhos.
Todos os eventos retratados no filme se deram simultaneamente às
modificações físicas e psicológicas do personagem decorrentes do seu o processo
de desenvolvimento.
2.2.Procedimento
Para a compreensão do assunto o qual abordado, foram realizados
levantamentos bibliográficos. Posteriormente foram selecionadas e analisadas sete
33
cenas as quais são representativas do desenvolvimento da adolescência do
protagonista Mason Jr. Após a seleção de tais cenas, a mesmas foram analisadas a
partir do olhar psicanalítico, baseando-se principalmente nas teorias de Aberastury e
Knobel (1981) e Carvajal (2001) em pesquisas sobre o contexto abordado.
34
3. RESULTADOS E ANÁLISE
No começo do filme o personagem Mason encontra-se com cinco anos de
idade. As cenas iniciais remetem ao período de latência, enfatizado pelo foco na
socialização, retratada em momentos de Mason na escola e com amigos.
No início do período de escolarização é apresentado dificuldades do
personagem, vindo o mesmo a ter reprovação do primeiro ano escolar. Tais
dificuldades podem estar relacionadas à inibição emocional do personagem,
parecendo ser decorrentes da dinâmica familiar, na qual os pais são divorciados,
sugerindo dificuldades no lidar com essas situações. Entretanto, na continuidade o
personagem pareceu superar as dificuldades escolares.
Ocorrem durante a vida do personagem constantes mudanças de endereço,
sendo a primeira mudança ocasionada pela necessidade da mãe do personagem
retomar os estudos. Nesse momento Mason pareceu não desejar, contudo não
expressou insatisfação, denotando aceitação passiva, na qual o sentir se dá de
maneira silenciosa. O personagem repete tal comportamento mediante as
imposições do segundo padrasto, no entanto, posteriormente, na adolescência
consegue se impor diante do último padrasto. Há também que se ressaltar que na
maioria das situações Mason demonstra-se desconectado, o que pode sugerir uma
forma de defesa contra conflitos psíquicos.
A seguir serão apresentadas as cenas do filme selecionadas, as quais
acompanhadas na sequência por suas respectivas análises, apontando aspectos do
desenvolvimento psicológico na adolescência, a fim de estabelecer um paralelo
entre a teoria, ou seja, os conceitos psicanalíticos, e o próprio filme.
35
3.1.Análise das cenas
3.1.1. Cena 1 - Padrasto de Mason o leva para cortar o cabelo
Fig. 1. Mason tem o cabelo raspado contra sua própria vontade.
Nesta cena, o padrasto de Mason o leva juntamente com seu filho à barbearia
para cortarem o cabelo, sem que a mãe de Mason tivesse ciência disto. Ao chegar a
vez de Maison cortar o cabelo, o barbeiro raspa tudo, o que irrita muito o
personagem, pois além do padrasto ter falado ao barbeiro para fazer isso sem o
consentimento de Maison, ainda fez uma piada com este, dizendo que “você vai ficar
parecendo um homem ao invés de uma menina”.
Posteriormente, quando os irmãos de Mason saem de casa para ir à escola e
sua mãe percebe que o mesmo não está junto com eles, esta vai ao seu quarto e o
encontra deitado em sua cama, com o corpo todo coberto, o questiona por que não
foi à escola e este lhe diz que não se sente bem. A mãe coloca a mão sobre a testa
de Mason e afirma que não está com febre e que deveria se arrumar, pois o levaria
à escola.
Chegando à escola, Mason muito irritado diz à mãe que o padrasto não lhe
perguntou nada, simplesmente cortou o cabelo que é algo que pertence a si, e agora
parecia um “marciano”. A mãe de Mason demonstra compreensão e diz que irá
conversar com o padrasto. Mason diz que tentou ligar para mãe, mas ela não
atendeu. A mesma lhe pede desculpa, pois anda muito ocupada na faculdade. Diz à
Mason que se trata de apenas um cabelo, que crescerá novamente, além do mais,
agora podia ver seus olhos. Então Mason a questiona porque havia se casado com
o padrasto, afirmando que ele é um “mala”. A mãe justifica que o mesmo tem
algumas qualidades, ninguém é perfeito, e agora tinham uma família. Mason desvia
o olhar para baixo, diz que já tinham uma família, então sai do carro e bate a porta.
36
Na situação em que Mason fica irritado por ter todo o seu cabelo raspado sem
seu consentimento, observa-se que simbolicamente inicia a vivencia do luto pelo
corpo, abordado por Aberastury e Knobel (1981) que é desencadeado na etapa
puberal da adolescência segundo Carvajal (2001). De acordo com Aberastury e
Knobel (1981) tanto a modificações corporais, sobre as quais não se tem controle,
como as imposições do mundo externo que exigem do adolescente novas regras de
convivência são vividos por ele, a princípio, como uma invasão, o que o leva a reter
muitas de suas conquistas infantis como forma de se defender, mesmo que ainda
tenha ânsia de alcançar seu novo status.
Na fala do padrasto, ainda que preconceituosa e hostil, pode-se compreender
no âmbito simbólico a imposição à Mason de perder a simbólica bissexualidade
infantil ao passar a se assemelhar efetivamente a “um homem” com o novo corte de
cabelo. Aberastury e Knobel (1981) diz que o luto pelo corpo infantil exige o
abandono da fantasia do duplo sexo, implícita em todo o ser humano devido de sua
bissexualidade básica, que de acordo com Carvajal (2001) é inconsciente, e à
medida que o desenvolvimento avança, os modelos masculino e feminino vão se
diferenciando no ego lentamente. Portanto, como mencionam Aberastury e Knobel
(1981), por se tratar de um luto, exige-se um tempo para uma verdadeira elaboração
do mesmo, sendo assim, nenhuma pressa interna ou externa favorece este trabalho.
Também se percebe que como analisaFreud (1911/1996), ter o cabelo raspado
representa a castração. Sendo assim, o padrasto busca se impor como figura
paterna masculina.
Na sequência do ocorrido, Mason fica deitado em sua cama com todo o corpo
coberto, o que sugere isolamento do mundo externo, característica da etapa puberal
da adolescência descrita por Carvajal (2001). Após ter sua identidade invadida,
Mason sente-se como se fosse um “marciano”, ou seja, um ser estranho, o que
remete à confusão de papéis que ocorre na adolescência a qual se referem
Aberastury e Knobel (1981). Os autores explicitam que tal confusão surge a partir da
consideração de que o adolescente não pode manter a dependência infantil, mas
também não pode assumir uma independência adulta.
Mason ao ficar irritado com a situação, onde é castrado pela figura paterna
repressora, é possível analisar que o mesmo, assim como aponta Klein (1957/1991)
projeta seus impulsos destrutivos e sentimentos de perseguição aos objetos
37
sentidos como frustrador, no caso, o padrasto por ter lhe atacado, e a mãe por não
lhe ter protegido.
Assim, verifica-se que o personagem começa a contestar a atitude dos
adultos, chamando inclusive o padrasto de “mala” dessa forma, como afirma
Carvajal (2001), na primeira etapa da adolescência, o adolescente começa a ver que
os pais não são tão perfeitos, iniciando a ruptura da incondicionalidade e
dependência infantis ao começar um sutil denegrimento contra os mesmos. O autor
complementa dizendo que os investimentos feitos nos pais voltam-se para o self e
suas partes.
Na fala de Mason à mãe, onde o mesmo a questiona por ter casado com
padrasto, afirmando que já eram uma família sem este, verifica-se rivalidade edípica,
por esta figura estar na relação entre Mason e a Mãe, bem como o fato de ser sido
agredido pelo padrasto. Acerca da retomada do Édipo na adolescência, Freud
(1905/2006) afirma que os adolescentes diante da barreira do incesto, irão lançar
mão de todos os recursos para reduzir a intensidade dos laços com os pais, se
desligando da autoridade dos mesmos, afim de que vá ao encontro do objeto não
incestuoso. Carvajal (2001) discorda a respeito deste édipo erótico na adolescência,
que se centra no ciúme do rival e nos temores de perda e abandono, comum na
infância. Sendo assim, o autor considera que o Édipo na adolescência é um édipo
parricida, que foca a necessidade de não ter a referência paterna em mente pelo
fato de o constranger e submeter. Portanto, para Carvajal (2001) o objetivo não é se
unir à mãe, mas sair do pai.
3.1.2. Cena 2 - Mason conversa com o pai sobre relacionamento com o
sexo oposto
Fig. 2. Mason fala sobre “namorada” com o pai.
38
Mason caminha com o pai em local onde irão acampar. Durante a caminhada,
Mason pergunta ao pai se a “ruiva” que encontraram certa vez era sua namorada e
se já havia beijado ela. O pai responde que sim e pergunta se Mason tinha
namorada, e este lhe responde que “mais ou menos”. Quando o pai pergunta se
Mason já tinha a beijado, este responde que ainda não. Fala que já se falaram por
telefone e foi bem ruim, pois na escola conversavam sobre várias coisas, mas
sozinhos ou no telefone parece que não possuem nada em comum. Comenta que
ela não gosta de música, nem de vídeo game, e acha os filmes que ele gosta muito
ruins. Pai questiona Mason sobre o que acha que ela gosta, e o mesmo lhe
responde que “ir para o shopping com as amigas bestas dela”. Então pai fala à
Mason que ele deve primeiro fazer várias perguntas, e na sequência, ouvir as
respostas e mostrar que está realmente interessado nelas.
Na cena descrita, é possível verificar o tema sobre sexualidade, na qual
Mason começa a relacionar-se com o sexo oposto, retomando a transição da
bissexualidade para a heterossexualidade iniciada após nascimento. De acordo
Aberastury e Knobel (1981) para que ocorra a aceitação do corpo do outro é
necessário a aceitação do próprio corpo, abandonando as fantasias de onipotência
da bissexualidade, as quais estão relacionadas a atividades masturbatórias, levando
a deixar a identidade infantil e a assumir identidade adulta. Segundo Outeiral (1994)
tal passagem se dá através da ferida narcísica representada pelo ato de o indivíduo
reconhecer que é “incompleto” e que necessita do “do outro” para uma vida sexual
adulta. No entanto, percebe-se que o “apaixonar-se” de Mason, assim como aponta
Erikson (1976) ainda não constitui totalmente uma questão sexual.
Segundo Carvajal (2001) na etapa da adolescência nuclear, o adolescente
tende para a integração objetal, porém ainda é muito marcante a relação narcísica
de objeto, que segundo Klein (1957/1991, p. 74) “inclui o amor pelo objeto bom
internalizado e a relação com o mesmo, o qual, na fantasia, constitui parte do corpo
e do self amados”. Carvajal (2001) elucida que estes objetos são dotados do
investimento da libido parental, carregando aspectos de tais objetos (pais). Dessa
forma, o adolescente, como diz Dolto (2004) procura estar consigo no contato com o
outro, então, neste sentido, como aponta Carvajal (2001, p. 142) “o objeto da paixão
é uma projeção de um objeto ideal num objeto externo”. O autor completa que a
intensidade da paixão, das consequências da queda diante da realidade frustrante, e
39
da perda objetal varia de acordo com o quão carente for o self em suas vivências
reais de satisfação das necessidades primárias. Assim, é possível compreender que
Mason ao falar sobre sua frustração ao perceber durante suas conversas com a
menina, que a mesma não tem os mesmos gostos que ele, expressa sua procura
por esse objeto similar a ele próprio, pois, como afirma Erikson (1976) o amor
adolescente é uma tentativa para conquistar a definição da identidade, é devido a
esta procura que boa parte do amor jovem é conversação.
3.1.3. Cena 3 - Mason vai acampar com alguns colegas
Fig. 3. Mason conversa sobre sexo com colegas.
Mason vai acampar com alguns colegas em uma casa em construção que
pertence aos pais de um destes. Chegando lá, alguns meninos demonstram sua
força quebrando tábuas de madeira ao meio com o pé, o irmão de Chase afirma à
Toni que a madeira era a cara deste e que “iria quebrar a sua cara”. Na sequência,
Mason atira um disco de corte em uma folha de madeira, acertando o tronco de uma
figura humana a qual desenhada, então os colegas admiram sua habilidade.
Em seguida, o irmão de Chase oferece cerveja para os outros e diz “está na
hora de beber criançada”. Porém Toni recusa a oferta, então o primeiro lhe fala que
“se tem tanto medo de tomar cerveja, então nunca pegou ninguém”. Toni questiona
se então algum deles já havia o feito, Chase diz que já tinha feito isso no verão
passado, seu irmão completa que ele havia “pegado uma prostituta”. Chase fala que
ela já havia transado com outras pessoas que estavam na festa na casa de um
amigo. Seu irmão zomba dele dizendo que “foi sua primeira vez e ainda pegou as
sobras dos outros”, então questiona Mason, se o mesmo já havia transado. Este
responde que sim, o nome da menina era Jeniffer e ela era da cidade onde morava
40
anteriormente. Seus colegas não acreditam e o chamam de mentiroso. Mason diz
“não estar nem aí se acreditam ou não”. O irmão de Chase lhe diz que se entrar em
uma banda, as meninas “irão até ele”, mas isso não acontecerá a Toni, pois ficou
sabendo que ele fica “tocando a flautinha” dos outros.
Neste momento todo o grupo ri de Toni, e este irritado diz ao irmão de
Chanse e seu colega que “se estes se acham tanto, o que estavam fazendo com
meninos da oitava série em uma sexta a noite?”. O colega do irmão de Chase fica
irritado, insulta a Toni e joga a lata de cerveja vazia neste. O irmão de Chase diz a
seu colega para se acalmar, pois logo os meninos teriam a chancedeles, pois
algumas prostitutas iriam até lá, pergunta a estes se concordam, Mason responde
que sim e Toni diz que “talvez, sei lá”. O colega do irmão de Chase fala que tudo
bem Toni ser gay, mas que era bom que dormisse afastado deles. Toni o manda “se
ferrar” e lhe faz gesto obsceno. Então o irmão de Chase diz que era mentira o que
falou sobre virem algumas prostitutas, havia dito isso só para ver o que Toni e
Mason iriam falar. O colega do irmão de Chase diz à Toni que ele ganhou seu
“distintivo de vagina” para colocar ao lado do “distintivo de bicha”, pede para segurar
o pedaço de madeira como uma “bichinha”, dá um soco no meio da placa,
quebrando-a.
Nesta cena, verifica-se a questão da tendência grupal, a qual referida por
Aberastury e Knobel (1981). Os autores afirmam que o indivíduo, ao procurar sua
identidade adolescente, recorre como comportamento defensivo à busca de
uniformidade, que pode lhe oferecer segurança e estima pessoal. Nesta perspectiva,
Carvajal (2001) cita o desenvolvimento de um self grupal na etapa nuclear, no qual
os investimentos libidinais que estavam centrados no objeto semelhante a ele
mesmo, começam a se voltar para outros, integrando-os em um só, o grupo. Dessa
forma, há um processo de superidentificação em massa, o qual mencionado por
Aberastury e Knobel (1981), onde todos se identificam com cada membro do grupo.
Os autores dizem que o fenômeno grupal é de grande importância, visto que o
indivíduo transfere ao grupo a maior parte da dependência que mantinha com os
pais anteriormente.
Ao expressarem sua agressividade, quebrando tábuas de madeira ao meio
com o pé, atirando o disco de corte para acertar a figura humana desenhada na
folha de madeira, os personagens têm um acting-out motor, que conforme
41
Aberastury e Knobel (1981) é resultado do descontrole frente à perda do corpo
infantil (inclusive claramente retratado na figura humana acertada pelo disco de
corte). Os autores seguem dizendo que este acting-out motor se une ao acting-out
afetivo, que provém do descontrole pela perda gradual do papel infantil, aparecendo
condutas de desafeto, de crueldade com o objeto, de indiferença, de falta de
responsabilidade, que são típicas da psicopatia, porém são também encontradas na
adolescência normal. Carvajal (2001) considera essa ação um “orgasmo-muscular-
sádico”, sendo este um erotismo que alimenta a gangue, que é uma deformação do
fenômeno grupal. Erikson (1976, p. 133) contribui dizendo que “a princípio, tal
intolerância pode ser, por algum tempo, uma defesa necessária contra um
sentimento de perda de identidade”.
Observa-se que Mason mente ao dizer que já havia tido experiência sexual
com uma menina a fim de que os colegas não zombem dele, como o fazem com
Toni, o que demonstra o poder exercido pelo grupo. Segundo Aberastury e Knobel
(1981), é o grupo que reforça a identidade do adolescente. Acerca disto Carvajal
(2001) menciona que apesar de o self grupal ser aliado ao self individual, o primeiro
frequentemente tem mais poderes do que o último. Assim, o autor pontua que a
exclusão grupal é terrivelmente temida, de modo que, quando é aplicada a um
adolescente, este pode apresentar intensa agressividade, episódios depressivos,
ideias suicidas ou tentativa de autodestruição, pois, o grupo é o centro da atividade
psicológica do adolescente nuclear, ao passo em que Dolto (2004) afirma que o
grupo pode ser um refúgio e um substituto da confiança em si.
No momento em que os meninos caçoam de Toni, referindo-se a ele como
“quem fica tocando a flautinha dos outros”, gay, bicha, bichinha, verifica-se o temor
homossexual. Segundo Carvajal (2001), o adolescente na etapa nuclear tem muitos
temores e fantasias homossexuais, então tem propensão a rejeitar violentamente e
de maneira consciente o homossexual, pois isto de alguma forma lhe é próximo,
projetando suas próprias indefinições de identidade. Outeiral (1994) menciona que a
ansiedade homossexual é normal e comum na adolescência. O autor explica que em
nossa cultura o poder é atribuído em grande parte ao falo, por isso as fantasias de
colocar para dentro, de comer (no sentido de relações genitais), de se apoderar do
pênis de alguém que é invejado produzem ansiedade. Aberastury e Knobel (1981)
complementam dizendo que os períodos de homossexualidade pelo qual costuma
42
passar o adolescente podem ser a expressão de uma projeção da bissexualidade
perdida e desejada, em outro indivíduo do mesmo sexo.
3.1.4. Cena 4 - Mason chega a sua casa após ter ido a uma festa
Fig. 4. Mason traga cigarro oferecido por seu colega.
Nesta cena, Mason chega de carro em sua casa. Juntamente com ele estão
dois casais, e Mason beija uma menina dentro do porta-malas do carro. Chase lhe
oferece um cigarro para tragar, e Mason o faz. Ao sair do carro, Mason pede à
menina um chiclete para disfarçar o cheiro de cigarro de sua boca.
Ao entrar em casa, Mason se depara com sua mãe em uma reunião com os
amigos. O novo padrasto de Mason lhe pergunta que horas são, e ao responder que
era meia noite e quinze, este lhe dá parabéns por seu aniversário (15 anos). Após
abraçar-lhe, a mãe de Mason lhe pergunta se havia bebido, e este a questiona se
ela havia feito isso. Desconcertada, pois estava com uma taça de vinho na mão,
mãe de Mason responde que “um pouco”, e novamente devolve a pergunta a ele,
que também responde da mesma forma. Mãe de Mason pergunta (fazendo gesto) se
havia também fumado, este responde que “um pouquinho”, então a mesma sorri
ironicamente e diz “está bem”, acrescenta que conversariam no dia seguinte.
No momento em que Mason encontra-se dentro do carro beijando uma garota,
estando junto mais dois casais, é sugerido o “erotismo grupal” do adolescente
nuclear referido por Carvajal (2001). Segundo o autor, as relações afetivas nesta
fase são compartilhadas, sendo marcante a presença de confusão, competitividade
e o temor da exclusão grupal. Dessa forma, Carvajal (2001) aponta que a namorada
ou namorado de um adolescente nuclear pertence ao grupo, sendo a intimidade
compartilhada numa fofoca ansiosa e insuportável.
43
Também é possível verificar o protagonista utilizando-se dos lábios como
fonte de prazer (beijar, fumar). De acordo com Freud (1905/2006) a atividade sexual
inicialmente se apoia na função de preservar a vida, e só depois se torna
independente dela, servindo como meio de satisfação sexual. O autor discorre que a
inferioridade do próprio corpo como zona erógena, ao bebê sugar uma parte de sua
própria pele, o levará mais tarde a buscar em outra pessoa a parte correspondente,
no caso, os lábios. Freud (1905/2006) completa que se a significação da zona
erógena labial persistir, tais crianças, quando adultas, serão insaciadas apreciadoras
do beijo, ou terão um forte motivo para beber e fumar.
Quando Mason questiona à mãe se esta havia bebido, após a mesma lhe
fazer esta pergunta, vê-se que o personagem adolescente, que até então foi tão
quieto agora questiona as práticas da mãe, denotando, como afirmam Aberastury e
Knobel (1981) o movimento de separação progressiva dos pais. A cerca desta
questão, Alberti (2010) contribui afirmando que por conhecer também os pontos
fracos dos pais, o adolescente se utiliza desse conhecimento para criticá-los e atingi-
los no íntimo, com o objetivo de enfraquecê-los. Aberastury e Knobel (1981) afirmam
que o surgimento da capacidade executora da genitalidade é o que impõe essa
separação e ativa novamente os aspectos genitais que haviam se iniciado com a
fase genital prévia, o que ratifica as considerações de Klein (1957/1991) ao dizer
que o impulso em direção aos desejos genitais junto à procura de novos objetos são
os que dominam as necessidades do indivíduo, sendo que o impulsionamentoda
libido, a crescente integração do ego, das habilidades físicas e mentais e a
adaptação progressiva ao mundo externo são fatores que contribuem para estes
desenvolvimentos.
Sobre o uso de drogas pelo personagem (bebida, cigarro), observa-se que ele
o faz junto ao grupo de amigos. Segundo Outeiral (1994), os aspectos individuais e
sociais são os fatores que podem levar o adolescente a usar drogas, sendo que
dentro do último item se inclui a sociedade como um todo, a família e o “grupo” de
iguais. O autor afirma que ao se considerar os aspectos próprios da adolescência,
tem-se que o sentimento de solidão, que lhe causa um “vazio interno”, leva o
adolescente a buscar algo que venha o preencher, aliviando-o deste sofrimento.
Dolto (2004) menciona que a utilização da droga não ocorre só quando jovem
se sente mal, sendo também um aspecto do grupo com o qual convive diariamente
ou com o qual se encontra apenas para estes momentos onde a questão não é
44
apenas se livrar de problemas, mas de aproveitar o momento. Supõe-se que Mason
ao tragar o cigarro oferecido pelo colega, se caracteriza como um consumidor
imitativo abordado por Carvajal (2001). Este autor elucida que este tipo de
consumidor é específico da adolescência nuclear, sendo aquele que foi levado ao
consumo para não ser rejeitado pelo grupo. Dolto (2004) contribui dizendo neste tipo
de situação, fumar não significa ser drogado, mas, visto que é algo proibido pela
sociedade, o jovem pode fazer isso por ser algo que lhe confere uma afirmação de
sua liberdade.
3.1.5. Cena 5 - Professor de Mason conversa com o mesmo acerca de
futuro profissional
Fig. 5. Professor cobra Mason sobre realização de suas tarefas.
Nesta cena, Mason está na sala da câmara escura revelando algumas
imagens, então aparece o professor e o questiona há quanto tempo ele está naquele
local. Mason diz não saber e o professor responde que sabe quanto tempo Mason
está naquele local revelando fotos. Cita que Mason está ali a aula toda, em seguida
pergunta se Mason terminou o diário de fotos e a folha de contato digital. Mason diz
que ainda não para ambas as coisas, mas que não iria demorar muito.
Então o professor repete a resposta dele, dizendo “ainda não, ainda não”
ironicamente. Comenta que tempo na câmara escura é extracurricular, que
tecnicamente ele não precisava frequentar o local todos os dias, principalmente sem
terminar as tarefas, essa era a questão. Mason pede desculpas. O professor segue
dizendo que está preocupado com Mason. Este sorri e pergunta o porquê. O
professor diz que as imagens que ele estava entregando eram legais, que Mason via
45
as coisas de uma maneira muito singular, que ele tinha um talento natural. Mason
agradece.
O professor então diz que isso e cinquenta centavos só garantiriam a ele
uma xícara de café nesse mundo. Cita que ele havia conhecido muitas pessoas
maravilhosas nesse mundo, nesses anos, e questiona quantos deles viraram
profissionais sem disciplina, comprometimento e uma boa ética de trabalho. Cita que
nenhum, que não iria “rolar” para o Mason, que o mundo é muito competitivo, há
muitas pessoas talentosas dispostas a trabalhar duro e têm muitos idiotas sem
talento que estão mais dispostos a superá-lo, que na verdade muitos estavam
sentados na sala de aula naquele momento, fazendo as lições, o que era para
Mason estar fazendo, mas ele não faz, porque estava ali na câmara de revelação.
Questiona se ele Mason é especial. Mason diz que não, mas a respeito das coisas
que o professor estava falando, sobre ética de trabalho, ele acha que trabalha duro,
diz passar o final de semana inteiro tirando fotos. Então o professor pergunta se ele
gosta de futebol. Mason responde que não. O professor diz que sabia que ele não
gostava e por esse motivo havia acabado de escolhê-lo para fotografar o jogo que
ocorreria a noite.
O professor comentou que o jogo iniciaria às 19h30, solicitou que ele deveria
chegar lá cedo, tirar trezentas fotos, baixá-las, selecioná-las e que ele deveria
entregá-las no primeiro horário da segunda-feira. Perguntou se Mason queria saber
o porquê dele estar fazendo isso. Mason disse, sei lá. O professor o questiona,
dizendo “quem você quer ser, o que você quer fazer Mason?”.
Mason respondeu que queria tirar fotos, fazer arte. O professor citou que
“qualquer imbecil” tira fotos, mas fazer arte é algo especial. Se dirigiu a Mason
dizendo o que ele sabe fazer que ninguém faz. Mason disse que era o que ele
estava tentando descobrir. O professor responde “tenta mais”, que talvez daqui a
vinte anos, ele poderia ligar para ele e agradecer pelo ótimo papo que tiveram na
câmara escura. Então disse para Mason voltar para sala e fazer a lição. Na
sequência Mason volta para sala.
O trecho em que Mason diz que não sabe há quanto tempo está na câmara
escura, sugere certa confusão temporal. Tal confusão temporal segundo Aberastury
e Knobel (1981) diz respeito à deslocalização temporal, na qual o pensamento
adquire características especiais, frente ao temporal, bem como ao espacial. A
46
deslocalização temporal permite ao adolescente situar passado, presente e futuro
em um mesmo tempo, objetivando manejá-los. Deste modo, poderá aceitar a perda
da infância e de partes do ego e de seus objetos, localizando-os no passado e
superar a aparente fixação temporal no processo primário, em que tudo é urgente,
mas atitudes demonstram postergações irracionais e as respostas dos adolescentes
costumam desconcertar os adultos. Colaborando com essa ideia Carvajal (2001)
afirma que o tempo intrapsíquico parece não existir para o adolescente, e as
vivencias são vividas num presente eternizado.
Mason diz trabalhar duro, mas parece não cumprir as tarefas que são
solicitadas. Para Aberastury e Knobel (1981) o pensamento ilógico por meio de uma
percepção particular do mundo, situado numa realidade especial, na qual o sujeito
não percebe as contradições, são decorrentes da súbita invasão das partes
indiscriminadas, as quais, estão fundidas com as partes saudáveis, da
personalidade, que diz respeito a parte psicótica da personalidade. Os autores
salientam que tempo é composto pela indiscriminação, o que pode explicar a
dificuldade de delimitar e discriminar, ocasionando crises de ambiguidade
adolescente, contudo, a dimensão temporal vai adquirindo vagarosamente
características discriminativas.
Blos (1985) denomina de individuação a distinção entre o eu e o outro
iniciada na infância e retomada de maneira mais complexa na adolescência, a qual
propiciará ao senso de identidade. Os sentimentos de isolamento, solidão e
confusão são presentes durante o processo de individuação.
Segundo Aberastury e Knobel (1981) o indivíduo é inicialmente
indiferenciado do meio, e progressivamente vai da indiferenciação a discriminação.
A dificuldade de discriminar interno-externo, adulto-infantil, passado-presente-futuro,
está relacionada com a invasão da parte psicótica da personalidade, podendo ser
denominada de temporalidade maníaca.
O processo de diferenciação é citado por Carvajal (2001) como decorrente
da exigência interior de romper a dependência, devendo deste modo, o adolescente
assumir as funções egóicas, da necessidade do adolescente se desprender dos
objetos primários, com o qual se sente fundido, iniciando o processo de
diferenciação. O processo de crise de identidade centra-se na busca pela conquista
da independência exigindo do self uma diferenciação extrema dos objetos primários,
47
tal diferenciação se dá por meio de um movimento contínuo e irredutível conduzindo
a definição do self independente.
No momento em que o professor questiona se Mason sabe que o que ele faz
ninguém faz, e este responde que era o que ele estava tentando descobrir,sugere-
se dúvidas e incertezas sobre a identidade, estando a formação do sentimento de
“si-mesmo” intimamente inter-relacionado a vivencia de tempo e espaço pelo
indivíduo. Conforme elucida Carvajal (2001) o tempo e espaço devem ser definidos
de maneira concreta e real, estando essa definição relacionada com os limites do
próprio corpo, exigindo uma resolução definitiva do conflito de “si-mesmo”
proveniente da infância, ficando o self encarregado dos seus atos e funções. O “si-
mesmo” (self) segundo Aberatury e Knobel (1981), diz respeito ao conhecimento da
individualidade tanto biológica, quanto social do indivíduo, o todo biopsicososial em
um dado momento do desenvolvimento. “Ao conceito de self como entidade
psicológica, une-se o conhecimento do substrato fisco e biológico da personalidade”
(ABERASTURY; KNOBEL, 1981, p. 30). Assim, os autores afirmam que o
conhecimento do corpo e do esquema corporal estão intimamente inter-relacionados
e presentes na definição da identidade.
Para Carvajal (2001) a identidade é a vivencia ou sensação do sentimento
de “si mesmo”, que distingue um indivíduo dos demais, e essa sensação de
mesmidade, a qual se inicia e se desenvolve desde o nascimento, Klein (1975) cita o
“nós mesmos”, constituído de todas as experiências boas ou más ao longo da vida,
de todas as situações externas e de tudo que é sentido advindo do mundo interno,
que contribuem para formação da personalidade.
Aberastury e Knobel (1981) consideram que a identidade é caracterizada
pela etapa do desenvolvimento em que o indivíduo se encontra e as dificuldades,
conflitos e incertezas surgem como decorrentes do ingresso do indivíduo na
adolescência. Afirmam que logo após o nascimento o psiquismo se estabelece,
começando a serem elaboradas as ansiedades básicas, parte essencial da
personalidade, tal processo psicológico persiste ao longo da vida conduzindo o
indivíduo até a idade adulta, definindo determinado caráter e personalidade da
maturidade adulta.
No diálogo sobre a realização das tarefas, Mason responde que ainda não
havia feito o diário de fotos e a folha de contato digital, mas que não iria demorar,
esse fato parece deixar o professor irritado, levando-o a fazer questionamentos
48
sobre a conduta dele em relação às atividades. Tal situação remete às dificuldades
de Mason quanto a assumir responsabilidades, que segundo Aberastury e Knobel
(1981) surge em decorrência do desejo e ao mesmo tempo do medo de entrar no
mundo adulto, deixando assim definitivamente a condição de criança.
A permanência prolongada de Mason na câmara escura denota o desejar
permanecer no tempo vivencial, denominado por Aberastury e Knobel (1981). Os
autores consideram a noção de tempo nesse período como tempo vivencial ou
experimental, tendo características essencialmente corporais e rítmicas. Somente a
elaboração dos pais da infância, da perda da identidade infantil e do corpo infantil
propicia progressivamente a conceituação de tempo, a qual implica na noção
discriminada de presente, passado e futuro. Aberastury e Knobel (1981) afirmam
também que a tentativa de permanecer no tempo experiencial é uma maneira de
paralisar o tempo e as mudanças, recusando-se a discriminar presente, passado e
futuro. Para Blos (1985) a individuação representa a elaboração do luto pela infância,
e a compreensão de assumir responsabilidades, bem como de definir o limite da
própria individualidade existencial, ocasionando medo no adolescente, e o desejo de
permanecer numa fase transitória de desenvolvimento.
O retorno de Mason a sala de aula para fazer as atividades, indica uma
noção do tempo por meio do corporal, citado pelo horário de aula, como meio dele
se localizar, e certa aceitação da elaboração dos lutos mencionados, podendo
conforme elucidam Aberastury e Knobel (1981) deixar a relação narcisista e
ambígua que caracterizam a conduta do adolescente. Deste modo, ao reconhecer o
passado, tenderá a formular projetos futuros, refletindo na capacidade de espera e
elaboração do tempo presente, estando a busca pela identidade adulta intimamente
ligada à capacidade de conceituar o tempo. Isto pôde ser observado no diálogo de
Mason com o professor, onde o mesmo cita que quer tirar fotos, fazer arte,
revelando assim perspectiva de futuro.
49
3.1.6. Cena 6–Mason conversa com Sheena sobre sentir-se controlado
pelas pessoas.
Fig. 6. Mason diz a Sheena sobre desejo de ser mais livre.
Nesta cena, Mason vai a uma festa e lá se encontra com Sheena, comenta
com esta acredita que poderia estar fazendo várias coisas, que provavelmente
deveria estar fazendo, mas não faz. Então Sheena o questiona porquê. Mason
responde que acha que tem medo do que as pessoas pensam, ou seja, medo de ser
julgado. Sheena cita que é fácil dizer que não liga para o que as pessoas pensam,
mas todo mundo liga. Mason diz estar bem irritado com todas as pessoas que ele
tem contato por tentarem controlá-lo, mas elas “nem se tocam” do que estão
fazendo. Sheena confirma, e pergunta sobre o que haveria de diferente nesse
mundo perfeito onde ninguém o controla.
Mason cita que mudaria tudo, que ele quer fazer tudo que ele quiser, pelo fato
disso o fazer se sentir vivo, ao invés de dar uma sensação de normalidade. Sheena
responde dizendo, “seja lá o que isso for”. Mason cita que acha que não é nada.
Sheena então diz que ele é meio estranho. Mason pergunta se isso é um elogio.
Sheena diz não saber e questiona se ele quer ser estranho. Mason responde que só
não quer assustar crianças no parque e em seguida diz que gosta de conversar com
ela, que geralmente ele não verbaliza os sentimentos nem pensamentos, “nem
nada”, que nunca saem direito as palavras, estas são “bestas”.
Sheena questiona do porque dele estar tentando (expressar-se) com ela.
Mason responde dizendo que não sabe, mas acha que é porque se sente
confortável. Sheena diz que “legal”.
Ao comentar com Sheena sobre o dever dele estar fazendo algo, que ele não
estava fazendo, na sequência cita que não faz por medo de ser julgado, que as
50
pessoas tentam controlá-lo, mas “não se tocam” do que estão fazendo, pode-se
pensar na necessidade de recorrer ao pensamento diante do conflito entre a
realidade interna e as exigências externas a ele, como afirmam Aberastury e Knobel
(1981). Os autores salientam que é imposta ao adolescente a necessidade de
elaboração dos lutos básicos da infância, bem como da bissexualidade infantil,
sentida como fracasso ou impotência diante do que a realidade externa impõe,
sendo o intelectualizar e fantasiar recursos defensivos importantes na tentativa de
compensar tais perdas que são inevitáveis e dolorosas. As flutuações constantes da
identidade adolescente que delineiam a identidade adulta são vivenciadas com
muita angústia, forçando-o a refugiar-se no próprio interior.
Carvajal (2001) cita que o pensar requer ajuda do ambiente-externo, no caso
do bebê, este dependerá da mãe e a partir das lembranças mnêmicas poderá
recordar primitivamente a experiência anterior de gratificação, passando desta para
a gratificação real, dessa forma o pensar propicia adiar a gratificação, preparando-a
para posteriormente desenvolver o aparelho adaptativo de pensar. Assim, a ação
gradativamente poderá ser substituída pelo pensar intrapsíquico, como meio de
elaboração dos conflitos, ao invés do uso da ação, acting out, evidenciado em
alguns adolescentes e adultos com características psicopáticas.
Para Klein (1975) os impulsos e sentimentos do bebê são acompanhados por
um tipo de atividade mental, que favorece a elaboração primitiva das fantasias,
denominada pela autora de pensamento imaginativo, estando a satisfação real
acompanhada de sentimento de amor, ódio e agressividade, ou seja, fantasiasagradáveis e destrutivas.
Mason ao dizer que “está irritado devido os adultos tentarem controlá-lo”, cita
que “eles nem sabem o que estão fazendo”. Nesta fala, o personagem expressa ao
mesmo tempo sentimentos de ódio e de compreensão da atitude das pessoas
adultas, constatando-se o que afirma Klein (1975), de que nas fantasias destrutivas
o indivíduo pode sentir que destruiu o objeto bom, que outrora era seio mau, e tentar
repará-lo. Carvajal (2001) aponta que a partir dessa primitiva forma de atividade
mental, o refúgio ao mundo interno se dará posteriormente por meio de formas mais
organizadas. O autor aborda que o pensar de forma mais organizada ao manejar os
conflitos e o pensar simbólico consciente, necessitam da contribuição do ambiente
externo.
51
Segundo Aberastury e Knobel (1981) o resultado da cristalização de uma
personalidade dependerá tanto do bom ajustamento da relação com objetos internos
bons, bem como do mínimo de experiências externas negativas internalizadas,
sendo o recurso ao mundo interior uma forma do adolescente se reajustar
emocionalmente, por meio do qual vive um autismo denominado de positivo, onde a
intelectualização o levará a pensamentos éticos, filosóficos, sociais, conduzindo a
teorizações que poderão propiciar enormes mudanças internas. Desta forma,
verifica-se a relação do intelectualizar com os pensamentos éticos, filosóficos e
sociais na fala de Mason, quando cita que “ele deveria estar fazendo algo, que ele
não está fazendo”. Carvajal (2001), ao citar a etapa nuclear da adolescência, afirma
que o adolescente traz conteúdos relacionados à personalidade, de ter caráter,
denotando um tom moralista e filosófico com frequência em seu discurso, mas
apresenta imaturidade por meio do comportamento devido ao momento psicológico
que vivencia, entretanto lentamente tal discurso gera capacidade de autocrítica, bem
como a compreensão do próprio comportamento.
Acerca da diferenciação de exigências internas e externas como forma do
adolescente poder configurar uma personalidade adulta, como decorrente de um
processo gradual desde a infância, Carvajal (2001) cita que na configuração do self,
algumas experiências proprioceptivas, as quais conformam o self corporal fazem
parte do objeto e muitas experiências sensórias que conformam o objeto fazem
parte do self. Deste modo, pode ser observado que experiências internas e externas
estão inter-relacionadas na constituição do indivíduo, e segundo Carvajal (2001) a
diferenciação entre self e objeto propiciará as noções de objetivo e subjetivo.
De acordo com Aberastury e Knobel (1981) por meio do pensamento o mundo
interno e externo vão se diferenciando, possibilitando ao adolescente defender-se
das alterações externas e do próprio corpo. Carvajal (2001) menciona que por meio
de um processo de identificação complexo o self se desenvolverá delimitando-se
este e objetos, e suas respectivas funções, possibilitando ao indivíduo o
enriquecimento a partir do meio externo, possibilitando funcionar de maneira
independente e controlar a realidade atendendo assim a exigência da personalidade
adulta. Em contrapartida, o autor afirma que a dificuldade em internalizar as
qualidades egóicas no self, permanecendo as mesmas nos objetos egóicos podem
gerar transtornos severos no funcionamento do self, tornando a base de
52
funcionamento inconsciente permeada pela indiferenciação de conteúdos internos e
externos.
Por meio do diálogo, Mason parece tentar elaborar seus conflitos, expondo o
que sente em relação a si e as figuras adultas, sendo a intelectualização
considerada uma forma mais madura nesse processo. De acordo com Blos (1985) o
adolescente tem capacidade de analisar seu pensamento e constrói teorias,
interagindo com o ambiente por meio da ação experimental, sofrendo desta
inclinação a ação e atuação, assim por ensaio e erro, amplia o pensamento abstrato,
favorecendo a construção de bases cognitivas e avaliativas para assumir futuros
papéis adultos.
O desejo expresso por Mason de estar em um “mundo em que ninguém o
controla”, que ele “quer fazer tudo que ele quiser”, pelo fato disso o fazer “se sentir
vivo, ao invés de dar uma sensação de normalidade” remete ao desejo de viver em
um mundo idealizado, sugerindo ainda a presença de certo narcisismo que como
cita Freud (1914/1996) se desloca para o ego ideal, que se sente possuidor da
perfeição de valor, como vivido na infância pelo ego infantil, diante da incapacidade
do indivíduo abrir mão de uma satisfação desfrutada no passado, pois se recusa a
abrir mão da perfeição narcisista infantil ao se deparar com imposições decorrentes
das críticas e julgamentos da vida adulta.
Pode ser observado um progressivo distanciamento de Mason das relações
grupais e um investimento na relação com o sexo oposto, o qual aparece no início
da cena na festa com amigos e na continuidade aparece mantendo diálogo apenas
com Sheena, não estando o grupo de amigos nesse momento, tal como ocorria na
etapa nuclear em que tudo era vivenciado grupalmente, “self grupal”. Essa nova
forma de se relacionar, com o sexo oposto, na qual existe uma individualidade
característica da etapa juvenil. Carvajal (2001) afirma que nesta etapa o adolescente
no âmbito da crise de identidade, renuncia a identidade grupal ao se separar
efetivamente dos pais. Deste modo sugere-se que Mason não mais compartilha as
relações afetivas com o grupo.
Ao dizer a Sheena que ele não costuma expressar os pensamentos e
sentimentos a outras pessoas, pois as palavras são “bestas”, mas com ela ele sente-
se confortável, pode-se sugerir o início de um relacionamento heterossexual
semelhante ao adulto, da etapa juvenil da adolescência citada por Carvajal (2001)
na qual as relações se assemelham aos relacionamentos dos adultos, porém
53
mantém características de paixão e idealização, onde o outro simboliza as próprias
necessidades internas. A tendência nesse período será a substituição da
masturbação pela atividade genital, com tendência ao gozo genital compartilhado.
Contudo o modelo ideal influi na escolha do parceiro, o que implica em relações que
se desfazem com facilidade, em decorrência dos anseios narcísicos investidos nas
mesmas.
Segundo Blos (1985) a idealização do objeto propicia o aprimoramento da
vida sentimental, que nos meninos provém da adequação das fixações maternas, na
qual a catexia do objeto de amor juntamente com a libido narcisista explica a
idealização. Quando as posições, narcísica e bissexual são dirigidas ao sexo oposto,
poderá atingir o sentimento de amor-ternura nas relações heterossexuais.
De acordo com Outeiral (1994) a identidade sexual iniciada logo após o
nascimento define sua estrutura na adolescência, passando da bissexualidade para
a heterossexualidade adulta. O autor considera que a organização da identidade se
dá a partir da identificação com os pais da infância, sendo que Blos (1985)
complementa dizendo que a separação dos pais edípicos é vivida com muito
sofrimento e a realização desse processo se dá gradualmente, entretanto liberará a
catexia libidinal, a qual poderá ser investida em novos objetos amorosos. O
apaixonar-se indica o avanço da libido a outro objeto, contribui para o sentimento de
completude, no qual o amor sexual heterossexual finaliza a bissexualidade das fases
anteriores. Freud (1914/1996) cita que ao apaixonar-se a catexia objetal atinge sua
fase mais elevada, na qual o indivíduo parece desistir da própria personalidade,
exaltando o objeto sexual, tornando-o ideal.
Para Klein (1975) o modo como se darão relacionamentos futuros
dependerão de como o indivíduo vivenciou os sentimentos de amor, rivalidade e
ódio pela figura materna, os impulsos sexuais, os quais estão intimamente
relacionadosa fantasias agressivas, sentimentos de culpa e ao medo da morte dos
primeiros objetos amados, bem como a forma como tais fatores foram reprimidos, de
modo a afastar o indivíduo das figuras parentais e assim propiciar o
desenvolvimento de novas relações. Contudo preservando de certo modo
sentimentos afetivos e uma repressão não tão profunda dos desejos sexuais em
relação às pessoas mais próximas, possibilitando revivê-los nos novos
relacionamentos amorosos.
54
3.1.7. Cena 7-Mãe de Mason conscientiza este e Samantha sobre
assumirem a responsabilidade por suas próprias vidas
Fig. 7. Mãe de Mason combina sobre se desfazerem das coisas que não usam mais.
Nesta cena, Mason, sua mãe (Olívia) e sua irmã (Samantha) estão num
restaurante, conversando sobre a nova mudança. Nesse encontro Olívia diz aos
filhos que eles irão separar as coisas, tudo em quatro categorias. Primeiro tudo que
eles quiserem guardar da infância e quiserem levar com eles, segundo, jogar fora,
terceiro, doar, e quatro, o que quiserem vender na venda da garagem no final de
semana e o que não for vendido eles irão doar. Então Mason pergunta se o
apartamento em que ela irá morar tem algum tipo de sótão ou depósito. Olívia
responde que não, segue dizendo que ele não está entendendo, que eles não irão
levar um monte de “tranqueiras para o apartamento da mamãe”.
Na sequência, Samantha diz que não acredita que eles irão mudar
novamente. Olívia responde que é ela quem vai se mudar, que Samantha se mudou
a dois anos, que ela tem um apartamento em Austin e Mason irá se mudar no
outono, pois “já deu”. Segue dizendo que será ótimo para si, pois ela tem várias
opiniões, poderá até tirar umas férias, escrever um livro e tentar publicá-lo. Mason
pergunta como irão fazer no natal. Então Samantha cita que não irá dividir o quarto
com ele. Em seguida Olívia cita que um deles dorme no sofá e eles usam um
colchão inflável.
Em seguida, Samantha pergunta onde ela irá lavar as roupas dela. Então
Olívia diz que “delicadamente a está empurrando para fora do ninho” e quando ela
estiver saindo irá encontrar magicamente algumas moedas para usar na lavanderia
do próprio prédio. Cita que eles são adultos, precisam assumir responsabilidades. E
após pergunta o que eles querem pedir do cardápio. Mason diz que quer um
55
hambúrguer vegetariano e Samantha diz que não quer nada, que não está com
fome. Olívia pergunta o que ela tem, se é a cabeça, se ela está com febre. Mason
diz que ela está grávida. Samantha ri e diz que não, que ela bebeu demais na noite
anterior.
Na sequência Olívia questiona se ela estava dirigindo. Samantha diz que não,
que saiu com uma amiga, e que eles sabem que a Vodka “desce” que é uma beleza.
Olívia diz que isso não é desculpa e que Samantha irá encaixotar as coisas, que as
pessoas que compraram a casa querem se mudar o mais rápido possível.
Na continuidade da cena, aparece um funcionário do restaurante, dizendo que
Olívia não iria se lembrar dele, mas que ela mudou a vida dele, que ele trabalhou há
um tempo no encanamento da casa dela. Então Olívia disse “Há, sim”. Em seguida,
ele relatou que seguiu o conselho dela e voltou a estudar, aprendendo melhor o
idioma, depois de um ano fez um curso na faculdade comunitária, tirou o diploma de
associado e estava fazendo bacharelado na Faculdade Estadual do Texas e é um
dos gerentes daquele local. Olívia disse “que legal”. Então o funcionário disse que
era bom vê-la, pois queria poder agradecê-la, que significou muito para ele, que o
almoço seria por comenta dele, e então disse que os filhos deveriam escutá-la, que
ela era inteligente. Então Olívia o agradeceu e ela e os filhos se olharam.
Esta cena denota o desprendimento definitivo das figuras parentais,
mencionado por Aberastury e Knobel (1981). Tais autores elucidam que a separação
progressiva dos pais está relacionada com a maneira como foi vivenciada a
sexualidade pré-genital, podendo gerar angústias em ambas as partes, bem como a
forma com que os pais aceitam a genitalidade do indivíduo, os conflitos e o
desprendimento. A internalização de boas figuras parentais, com papéis definidos
juntamente com uma cena primária amorosa e criativa, favorecerá o desprendimento
e a passagem para a genitalidade adulta.
Segundo Pincus e Dare (1981) o adolescente necessita abrir mão da
dependência infantil para assim tornar-se realmente um adulto. Conforme vai se
desenvolvendo a individualidade, essa se adapta às necessidades psicológicas do
adolescente, ocasionando o afastando da família e impondo o processo de luto.
Contudo, é necessário manter um senso de continuidade preservando a lealdade à
família, e assim, o próprio passado.
56
Para Carvajal (2001), o desprendimento inconsciente das figuras dos pais em
decorrência da internalização de uma identidade mais independente permite ao
jovem romper com o grupo, sendo às vezes essa ruptura dolorosa, desse modo,
inicia-se o modelo adulto de identidade, sentido como pertencente a si mesmo.
Como cita Pincus e Dare (1981), ao estar apto a superar as intensas dificuldades de
começar a idade adulta, o adolescente inicia a busca por experiências que se ajuste
a si mesmo como modo de expressar suas próprias necessidades.
No caso da mãe de Mason ao dizer que os “filhos são adultos e precisam
assumir responsabilidades” simbolicamente parece aceitar o desprendimento, a
genitalidade e ingresso dos filhos na vida adulta.
Na crise de identidade juvenil Carvajal (2001) comenta que com o
desprendimento inconsciente de forma qualitativa, se instala o período de período de
reconciliação com as figuras parentais, como diz Klein (1975) tanto na criança,
quanto no adulto inconscientemente existe os impulsos destrutivos, bem como o
desejo de reparação de pessoas danificadas ou destruídas nas fantasias. Conforme
afirma Carvajal (2001) no adolescente juvenil surgem sentimentos de culpa em
relação ao pai destruído que requer a necessidade de reparação.
No momento em que o funcionário do restaurante agradece Olivia dizendo ser
grato a ela e aconselhando os filhos a ouvi-la, pois ela era inteligente, após a troca
de olhares entre ela e os filhos denotando a possibilidade por parte de Mason da
reparação da figura materna, que segundo Klein (1975), tal como o indivíduo
fantasia inconscientemente sentimentos destrutivos em relação aos pais, pelos quais
sente culpa, poderá fantasiar inconscientemente tais sentimentos transformados em
bons, sendo o trabalho de reparação fundamental no amor em todos os
relacionamentos do indivíduo. “A conquista da identidade e a independência leva-o a
integrar-se no mundo adulto e a agir com uma ideologia coerente com seus atos”.
(ABERASTURY; KNOBEL, 1981, p. 71).
Na cena, Olivia diz que a saída dos filhos de casa para a faculdade o insere
no mundo adulto, empurrando-os “delicadamente para fora do ninho”. Para Carvajal
(2001) quando a carga agressiva dirigida aos pais cede, como também ocorre a
perda da importância intrapsíquica grupal, tais fatores permitirão que a energia livre
seja canalizada para o trabalho, a preparação universitária ou relacionamento como
casal, o que indica o começo do recalcamento da adolescência, aproximando-o do
modelo adulto, como cita Alberti (2010). A autora menciona que o indivíduo ao longo
57
da vida vai incorporando a alteridade, determinando sua própria constituição por
meio da definitiva incorporação do “Outro”, podendo desidealizar os pais da infância,
preparando o processo de separação, o qual será continuado na adolescência, de
modo que a incorporação exitosa da alteridade propicia ao adolescente se separar
dos pais imaginarizados e idealizados, assumindo suas próprias decisões.
Colaborando com essa ideia, Carvajal (2001) afirma que por meio dalenta
identificação inconsciente internalizará o adulto no self, iniciado pelo processo de
incorporação, o qual possibilitará a incorporação de coisas adultas, tornando-as
cada vez mais autênticas e próprias.
58
4. ANÁLISE FINAL
No início do filme Boyhood, o personagem Mason está com cinco anos de
idade, as cenas iniciais retratam a convivência do personagem com a mãe (Olívia) e
a irmã (Samantha). Nesse período os pais do personagem já estão separados,
sendo que o pai de Mason foi morar distante dele. A mãe estava em um novo
relacionamento. Durante a infância o personagem aparece quieto, calado, um tanto
introspectivo, de modo a não verbalizar seus sentimentos.
As cenas do começo do filme sugerem que Mason encontra-se no período de
latência, nas quais são apresentadas situações do personagem na escola e em
atividades com os amigos. De acordo com Blos (1985) no período de latência os
impulsos sexuais são direcionados para a socialização, permanecendo a
sexualidade latente. Nesse período o ego se modifica, havendo o abandono das
relações objetais, as quais são substituídas por identificações.
No decorrer do filme ocorreram várias mudanças de endereço, passando o
personagem a mudar de cidade. Enquanto ocorriam tais mudanças, diferentemente
da irmã, Mason não verbalizava sua insatisfação, denotando aceitação passiva de
tais mudanças.
Após um ano e meio afastado dos filhos o pai do personagem retorna e daí
por diante acompanha o desenvolvimento de Mason, aparecendo em cenas que
retratam situações diferentes da vida deste, sugerindo uma figura parental positiva,
afetuosa, a qual procura reforçar as capacidades egóicas do personagem e tratar de
temas que são difíceis para o adolescente, tais como sexo, relacionamentos
amorosos, a ida a faculdade. Em relação à mãe, viu-se esta como uma figura
parental positiva desde o início do filme, representando uma mãe bem próxima dos
filhos, denotando cuidado, afeto, preocupação com a escolarização e o ensino de
regras. Desta maneira, percebe-se a importância das figuras parentais ao longo do
desenvolvimento de Mason. Segundo Aberastury e Knobel (1981) a elaboração do
luto das partes de si mesmo e dos objetos, favorecem a integração do ego,
entendendo que um bom mundo interior de se dá por meio da relação satisfatória
com as figuras parentais internalizadas e a capacidade criativa proporcionada por
elas.
59
Em algumas cenas em que aparecem as novas configurações familiares, as
situações demonstram os padrastos do personagem, sendo verbalmente agressivo
com Mason e com a irmã dele. Um dos padrastos aparece em uma cena agredindo
fisicamente a mãe de Mason.
Pode-se observar que o comportamento da mãe do personagem sugere certa
aceitação da dominação dos ex-companheiros para com ela e com os filhos,
denotando dificuldade dela própria em lidar com tal questão, a qual ocasionou a
convivência de Mason com figuras paternas negativas, remetendo a um
comportamento passivo do personagem diante destas figuras na infância. Assim,
pode ser compreendida a aceitação passiva como decorrente do complexo de Édipo.
Acerca disto, Blos (1985) afirma que a identificação com a mãe estimula a
passagem da libido para o pai. O autor complementa que nesse momento o objetivo
da libido é passivo, mas, posteriormente ao se dar conta que a mãe não possui um
pênis a identificação se volta apenas para o pai, abrindo caminho para a inclinação
ativa, libidinal agressiva voltada para mãe.
Durante o desenvolvimento de Mason foi possível observar que no início da
puberdade o personagem ainda aparece em situações em que não consegue se
impor diante das imposições dos padrastos. Contudo, o progressivo
desenvolvimento tanto físico, como psicológico modifica as relações sociais e
familiares do personagem, impulsionando-o ao desprendimento dos pais, sugerindo
uma mudança da aceitação passiva das imposições do adulto vivenciada na infância,
passando na adolescência a se impor diante do comportamento do último padrasto.
Pode ser entendido que a imposição da figura adulta tem como intuito
controlar o crescimento do adolescente. Como citam Aberastury e Knobel (1981), o
adolescente percebe quando os pais tentam controlar o tempo e os horários,
compreendendo que eles buscam controlar o seu mundo interno, seu crescimento e
o seu desprendimento destas figuras. Deste modo, entende-se que há certa recusa
de Mason em aceitar o controle do seu desenvolvimento. Os autores ainda afirmam
que a característica própria do processo adolescente obriga-o a reformulação dos
conceitos de si mesmo, conduzindo-o a abandonar a autoimagem infantil e a
projetar-se no futuro de sua identidade adulta.
Verificou-se de maneira geral que no início da adolescência o personagem
vivenciou o luto pelo corpo infantil, conforme dizem Aberastury e Knobel (1981),
havendo um rompimento maciço com os fenômenos infantis, o qual citado por
60
Carvajal (2001), sendo isto sentido como algo invasivo, assim, Mason se isola do
mundo externo em geral. Na sequência, observou-se a retomada do complexo de
Édipo, onde segundo Freud (1905/2006) após se deparar com a impossibilidade de
possuir a figura parental do sexo oposto, o indivíduo se direciona para o objeto não
incestuoso. Desta forma, Mason inicia a ruptura da dependência infantil, a qual
mencionada por Carvajal (2001) através do denegrimento contra os pais.
O início da relação de Mason com o sexo oposto demarcou sua transição da
bissexualidade para a heterossexualidade, processo o qual citado por Aberastury e
Knobel (1981), no entanto, observou-se que sua relação neste momento é muito
narcísica, sendo que o objeto neste modelo de relação, segundo Carvajal (2001), é
carregado de aspectos dos objetos parentais. Dessa forma, frustra-se diante da
realidade de que o objeto não é totalmente semelhante ao objeto ideal, no entanto,
seu nível de frustração é tênue, o que indica aspectos saudáveis.
Verificou-se o direcionamento do personagem para o grupo, voltando para
este os investimentos libidinais centrados no objeto semelhante a ele mesmo,
transferindo grande parte da dependência mantida com os pais anteriormente,
conforme pontua Carvajal (2001), passando o grupo a ter alto poder sobre o mesmo.
Analisou-se a expressão motora da agressividade do grupo que é devido ao
descontrole diante da perda do corpo infantil, como apontam Aberastury e Knobel
(1981). Também verificou-se a presença de temores e fantasias homossexuais no
grupo ao projetarem suas indefinições de identidade, como ressalta Carvajal (2001),
desta maneira, rejeitam violentamente a figura do homossexual. Além do mais,
observou-se que Mason fez o uso de drogas a fim de não ser rejeitado pelo grupo,
ou como afirma Dolto (2004) por este ato lhe conferir a afirmação de sua identidade.
Como esperado na adolescência nuclear, segundo Carvajal (2001), Mason
neste período também compartilha suas relações afetivas com o grupo. Contudo,
posteriormente, na etapa juvenil, Mason abandona o self grupal e passa a investir
em uma relação com o sexo oposto, onde suas relações afetivas possuem
intimidade. Desta forma, suas relações se tornam mais parecidas às dos adultos, em
contrapartida, ainda se mantém presente certa dose de idealização.
A vivência do personagem de situações que remetem a elaboração dos lutos
básicos, ou seja, luto pelo corpo infantil, pelos pais da infância, pela identidade
infantil e luto pela bissexualidade, bem como a resolução do complexo de Édipo,
revivido na adolescência, diante na nova constituição corporal e das novas das
61
exigências externas, permitiu se observar que para lidar com tais exigências
remeteu a tendência do adolescente a buscar refúgio interno, podendo assim de
certo modo manejá-las, utilizando-sedo o intelectualizar como recurso defensivo
para lidar com tais fatores, o qual é citado por Aberastury e Knobel (1981) como
advindo da necessidade de elaborar tais lutos e perda da bissexualidade infantil.
Dessa forma, denotou a utilização do pensar como forma mais organizada de lidar
com o conflito, entendendo-se que o personagem teve um desenvolvimento da
configuração do pensamento relativamente adequado, ao manifestar o intelectualizar
como forma de elaboração do manejo das exigências internas e externas conforme
referido por Carvajal (2001), que aponta que ao refúgio ao mundo interno por meio
do pensar caracteriza formas mais organizadas de manejo dos conflitos. Acerca
disto, Aberastury e Knobel (1981) comentam que por meio do pensamento o mundo
interno e externo vão se diferenciando, possibilitando ao adolescente defender-se
das alterações externas e do próprio corpo.
Mason, ao buscar o pensamento como meio de refúgio interno, entende-se
que tal ação pode estar relacionada com as experiências da infância, nas quais o
personagem em algumas cenas pareceu evitar demostrar seu sentimento.
Percebeu-se a passagem da maneira de se relacionar, compreendendo que
no início o relacionar-se do personagem não correspondia a conotação sexual, e a
relação tendia a buscar narcisicamente o objeto correspondente as figuras parentais
internalizadas, após contou a vivência das relações compartilhadas “self grupal” em
decorrência da progressiva elaboração dos lutos, da perda da bissexualidade o
adolescente passou a buscar relações com o sexo oposto de modo a vivenciá-las de
maneira mais individualizada, denotando a busca da definição da identidade sexual
sobre a qual Outeiral (1994) afirma que a estrutura da identidade inicia-se após o
nascimento e se define na adolescência.
Pode-se notar que o começo do relacionar-se na etapa juvenil citada por
Carvajal (2001), configurou por um relacionamento semelhante ao adulto, porém
mantendo características ainda de idealização.
Ao ir definindo sua própria identidade, obtendo inconscientemente o
desprendimento das figuras parentais e afastando-se do grupo, o personagem passa
a investir em relacionamento heterossexual de forma individualizada. Como afirmam
Aberastury e Knobel (1981) após passar pela experiência grupal o indivíduo poderá
separar-se dele e assumir sua identidade adulta, compreendendo assim o grupo
62
como uma transição necessária no mundo externo para se chegar a individualização
adulta. Porém no começo as relações heterossexuais de Mason ainda mantem
características narcisista de idealização do objeto característico da etapa juvenil,
contudo, estará progredindo para construir relações mais maduras no futuro.
Segundo Carvajal (2001) a tendência nesse período será a substituição da
masturbação pela atividade genital, com tendência ao gozo genital compartilhado.
Enquanto Mason segue o curso da configuração de uma identidade adulta, as
cenas revelam atitudes que sugerem busca da identidade, como citam Aberastury e
Knobel (1981). Para estes autores, é necessário nesse processo integrar o todo, o
passado, o experimentado, o internalizado e o rejeitado, com as novas exigências
externas e urgências internas e com os novos modelos de relação objetal
estabelecidas. Esse todo deve dar sequência dentro da personalidade, favorecendo
a procura do novo sentimento de continuidade e semelhança de si mesmo.
Sendo assim, a formação da identidade do personagem está diretamente
ligada às transformações físicas e psicológicas, bem como relacionada à maneira
como internalizou as figuras parentais abordadas por Klein (1975). Segundo a autora,
a forma como o indivíduo vivenciou os sentimentos de amor, rivalidade e ódio pela
figura materna, os impulsos sexuais, bem como a forma como os reprimiu, estão
presentes internamente influenciando os novos relacionamentos.
Observou-se que diante dos conflitos decorrentes das exigências externas e
imposições internas a atitude do personagem inicialmente denota certo desejo de
permanecer no papel infantil, postergando-o por meio da deslocação temporal,
tentando manter passado, presente e futuro em um mesmo momento, na tentativa
de manejar tais exigências. Assim, segundo Aberastury e Knobel (1985) e Carvajal
(2001)a conceituação do tempo se relaciona aos limites do próprio, estando inter-
relacionados e presentes na definição da identidade.
Contudo, essa tendência modifica-se, indicando que o personagem busca a
sua própria individualidade, discriminando-se progressivamente seu self dos objetos,
deste modo entende-se que o personagem preserva o papel infantil localizado no
passado, criando, assim, perspectivas futuras. Neste âmbito Aberastury e Knobel
(1981) citam que o indivíduo é inicialmente indiferenciado do meio, e
progressivamente vai da indiferenciação a discriminação. Blos (1985) complementa
dizendo que a individuação distinguirá o eu e o outro, havendo continuidade do
63
processo iniciado na infância, a qual é retomado na adolescência e propiciará o
senso de identidade.
O final do filme indica que o personagem segue consolidando sua identidade
adulta. Segundo Aberastury e Knobel (1981) a perda da identidade infantil requer
uma nova identidade, a qual vai se construindo num plano consciente e inconsciente
e disso dependerá a aceitação dos aspectos infantis e adultos pelo adolescente,
passando, deste modo a aceitar as mudanças do corpo e sua nova identidade. Os
autores afirmam que a maturidade biológica deve acompanhar a maturidade afetiva
e intelectual para assim propiciarem a entrada na idade adulta, de maneira com que
os valores, a ideologia que confronta o meio e a não aceitação a determinadas
situações ocorra de forma crítica construtiva.
O ingresso na faculdade sugere a capacidade em assumir responsabilidades,
sendo esta uma característica da personalidade adulta. Também verificou-se a
reparação dos objetos parentais destruídos internamente no período da
adolescência, sendo tal “destruição” necessária para o desprendimento inconsciente
das figuras parentais e neste momento a reparação propiciará preservar integrar
definitivamente os bons objetos dentro de si, caracterizando a etapa juvenil. Para
Carvajal (2001) essa etapa evoca o desprendimento inconsciente de forma
qualitativa, instalando-se o período de reconciliação com as figuras parentais o qual
abordado por Klein (1975). Segundo a autora os objetos danificados nas fantasias
em decorrência de impulsos destrutivos inconscientemente exigem o desejo de
reparação.
Por fim percebeu-se que o desenvolvimento do personagem se deu de
maneira progressiva, em que cada fase ou etapa foram acompanhadas de
modificações físicas e psicológicas, resultando na constituição da personalidade. De
acordo com Aberastury e Knobel (1981) a identidade é caracterizada pela etapa do
desenvolvimento em que o indivíduo se encontra e as dificuldades, conflitos e
incertezas surgem como decorrentes do ingresso do indivíduo na adolescência.
Desta forma, os autores consideram a adolescência uma continuidade do processo
iniciado após o nascimento, o qual persiste até a idade adulta, conformando o
caráter e personalidade da maturidade adulta.
64
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo proporcionou a compreensão dos aspectos do
desenvolvimento psicológico na adolescência, conforme observados a partir da
análise do desenvolvimento dessa fase do personagem Mason, no filme Boyhood.
Dessa forma, o uso de filmes para a Psicanálise pode ser aceito como
subsídio teórico complexo, assim como psicanalítico, levando-se em consideração
que a compreensão do conteúdo simbólico dependerá do modo que o inconsciente e
o consciente do indivíduo será provocado, podendo sua interpretação ser subjetiva.
Constatamosque a utilização do filme foi um método válido para a análise
em Psicologia, sendo um recurso indispensável para ilustrar simbolicamente os
aspectos do desenvolvimento psicológico na adolescência, abordando dentro deste
contexto a cerca do self, identificação projetiva, introjeção, projeção, bem como o
complexo de Édipo como o que passa a atribuir novo sentido à adolescência.
Por meio do filme, pode-se observar que Mason apresentou aspectos da
“Síndrome Normal da Adolescência”. Portanto, apesar dos conflitos e dificuldades
vivenciados em decorrência das transformações da adolescência e das questões
familiares, o personagem vai conformando sua identidade adulta, apresentando
bons recursos egóicos no lidar com estas situações.
É necessário ressaltar que o adolescente sempre apresentará neste período
comportamento de oposição às figuras de autoridade, especialmente aos pais,
denegrindo estes, o que é natural devido a sua necessidade de desprendimento
destas figuras, para que venha consolidar o self independente como exigência para
conseguir exercer os papéis da próxima etapa do desenvolvimento, sendo esta a
fase adulta.
Assim, diante das relevâncias deste trabalho, sabemos que os
comportamentos típicos do adolescente estão essencialmente atrelados ao processo
do desenvolvimento psicológico que lhe ocorre, no entanto, as condições
extrínsecas e a forma com que o indivíduo lida com as dificuldades dessa fase
influenciarão no seu curso harmonioso ou fracassado, sendo as exigências externas
e a constituição do indivíduo, influenciadoras nesse processo.
65
REFERÊNCIAS
ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência normal: um enfoque
psicanalítico. Porto Alegre: Artmed, 1981.
ALBERTI, Sonia. O adolescente e o Outro. 3 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
ARIÈS, Philippe. História social da família e da infância. 2 ed. Rio de Janeiro: LTC,
1981.
CARVAJAL, Guillermo. Tornar-se Adolescente – a aventura de uma metamorfose:
uma visão psicanalítica da adolescência. São Paulo: Cortez, 2001.
BLOS, Peter. Adolescência: uma interpretação psicanalítica. São Paulo: Martins
Fontes, 1985.
DAVIM, Rejane Marie Barbosa et al. Adolescente/Adolescência: revisão teórica
sobre uma fase crítica da vida. 2014. Disponível em: <http://www.revistarene.ufc.br/>
Acesso em: 30 jul. 2014.
DESSEN, Maria Auxiliadora; POLONIA Ana da Costa. A família e a escola como
contextos de desenvolvimento humano. 2006.Disponível em:
<http://www.scielo.br/>. Acesso em: 08 nov. 2014
DOLTO, Françoise. A causa dos adolescentes. São Paulo: Ideias e Letras, 2004.
ENTREVISTA com Jean-Jaques Rassial. Questões pós-modernas e psicanálise.
2003- 2004. Disponível em:
<http://revistapercurso.uol.com.br/index.php?apg=artigo_view&ida=830&ori=entrev>.
Acesso em: 28 jan. 2016.
ERIKSON, Erik H. Identidade juventude e crise. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
66
FIORI, Wagner da R. Modelo Psicanalítico. In: RAPPAPORT, Clara Regina; FIORI,
Wagner da R.; DAVIS, Cláudia. Psicologia do desenvolvimento: conceitos
fundamentais. São Paulo: EPU, 1981. v. 1.
FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico, Artigos sobre a
metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916). Rio de Janeiro: Imago, 1996. V.
14. (original de 1914).
_______________. Moisés e o monoteísmo, Esboço de psicanálise e outros
trabalhos (1937-1939). Rio de Janeiro: Imago, 2006. v. 23. (original de 1939).
_______________. O caso de Schreber, Artigos sobre técnica e outros
trabalhos. Rio de Janeiro: Imago,1996.v. 12. (original de 1911).
_______________. Um caso de histeria, Três ensaios sobre a sexualidade e
outros trabalhos (1901-1905). Rio de Janeiro: Imago, 2006. v. 7.(original de 1905).
GROSSMAN, Eloisa. A Adolescência Através dos Tempos. 1998. Disponível em:
<http://ral-adolec.bvs.br/scielo>. Acesso em: 05 ago. 2014.
KLEIN, Melanie. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1945-1975). Rio de
Janeiro: Imago, 1996. (original de 1975).
_____________. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro:
Imago, 1991. (original de 1957).
LEVISKY, David Léo. Adolescência: reflexões psicanalíticas. 4 ed. São Paulo:
Zagodoni, 2013.
METZ, Christian. O significante imaginário: psicanálise e cinema. Lisboa: Livros
Horizonte, 1980.
NASCIMENTO, Claudia Terra do; BRANCHER, Vantoir Roberto; OLIVEIRA, Valeska
Fortes de. A Construção Social do Conceito de Infância: algumas interlocuções
67
históricas e sociológicas. 2008. Disponível em: <https://www.revistas.unijui.edu.br/ >.
Acesso em: 25 ago. 2014.
OUTEIRAL, José O. Adolescer: estudos sobre adolescência. Porto Alegre: Artes
Médicas Sul, 1994.
PASSOS, Maria Consuêlo. Família e Casal: efeitos da contemporaneidade. Nem
tudo muda, muda tudo: um estudo sobre as funções da família. 2009. Disponível em:
<http://www.editora.vrc.puc-rio.br/>. Acesso em: 25 ago. 2014.
PENAFRIA, Manuela. Análise de filmes: conceitos e metodologia(s). 2009.
Disponível em: <www.bocc.uff.br/pag/bocc-penafria-analise.pdf>. Acesso em: 04
nov. 2016.
PRATTA, Elisângela Maria Machado; SANTOS, Manoel Antônio dos. Família e
Adolescência: a influência do contexto familiar no desenvolvimento psicológico de
seus membros. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/>. Acesso em: 01 ago.
2014.
PINCUS, Lily; DARE, Christopher. Psicodinâmica da Família. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1981.
RIVERA, Tania. Cinema, imagem e psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
SADALA, Glória. Édipo Rei e o pathos do adolescente. s/d. Disponível em:
<http://www.psicopatologiafundamental.org/uploads/files/iii_congresso/mesas_redon
das/edipo_rei_e_o_pathos_do_adolescente.pdf>. Acesso em: 09 fev. 2016.
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 23 ed. São
Paulo: Cortez, 2007.

Mais conteúdos dessa disciplina