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Memoria e biografia PIRRO de Élis

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portanto, uma incongruência entre filosofia e vida. O exame mais escrupuloso das fontes por trás dessas anedotas de caráter derrogatório, muitas vezes, nos conduz a autores de outras escolas que se empenham em desautorizar uma filosofia rival. Esta hostilidade é também expressa através de um repertório comum às tradições biográfica e filosófica. 
	Voltando-nos para a vida de Pirro, encontramos dois conjuntos de anedotas em que se evidencia semelhante hostilidade: um tornando risíveis as posições pirrônicas, e o outro comprometendo a sua aplicação na vida prática. Primeiramente, três ocorrências fazem parecer que sua filosofia preza sobremaneira os animais, em especial os porcos:� Pirro levava porquinhos ao mercado; sua indiferença (a)diafori/a) era tamanha que, certa vez, ao limpar a casa, lavou um porco (Diógenes Laércio 9.66); e, como antes mencionado, durante uma tempestade em alto mar, ele apontou a serenidade de porquinhos comendo no convés como exemplo de tranqüilidade a ser seguido por seus companheiros (Diógenes Laércio 9.68, Plutarco, De profectibus in virtute, 82ef). Como, para os gregos, os porcos situam-se muito baixo na hierarquia dos animais, as anedotas em que Pirro os tem em alta estima são de natureza bastante corrosiva. Já em Homero, no episódio em que Circe transforma os companheiros de Ulisses em porcos e estes preservam sua mente humana (Odisséia X, 233-242), transparece o desprezo grego. A incongruência entre corpo e mente faz a metamorfose tanto mais terrível.
Há outros casos em que comparações desse tipo tentam desautorizar e ridicularizar um filósofo: no Teeteto (161c), Sócrates se pergunta porque Protágoras não inicia seu livro dizendo que o porco é a medida de todas as coisas; Na República (II 372d), Glauco chama o primeiro modelo de estado de Sócrates uma “cidade de porcos”; segundo seus críticos, o ‘hedonismo’ epicurista, voltando-se sobretudo para os prazeres físicos, aspiraria a um estado suíno (Diógenes Laércio 10.137; Sexto Empírico Adversus Mathematicus, II.96-7; Cícero, de Fin.ibus I.29-30, II. 31-32, 109).
O segundo conjunto de anedotas sugere que Pirro, consistentemente com sua doutrina, não se guardava de risco algum que atravessasse seu caminho, carroças, precipícios ou cães (Antígono de Caristo apud Diógenes Laércio 9.62). Este trecho nos remete à Metafísica G4, 1008 b 15-16, em que Aristóteles descreve conseqüências absurdas para alguém que negue o princípio da não-contradição. Entre os acidentes elencados, Aristóteles pergunta-se porque aquele que nega o princípio não cai em um poço, assim demonstrando, em sua conduta, que não acredita ser igualmente boa e má a sua queda. Episódios semelhantes aparecem na vida de Tales e na fábula de Esopo, O astrônomo.
	Untersteiner (UNTERSTEINER, 1979, p. 233) sugere que uma tensão mais fundamental manifesta-se nesse gênero de episódio. Perpassam toda a filosofia grega representações de filósofos, ora como expressão ideal de vida prática, ora como um sábio imerso em suas investigações, destituído de qualquer interesse prático (a)pragmosu&nh D.L. 9.64).
Conclusão
 	 Em conclusão, parece-me que os exemplos acima ilustram a importância de alguns motivos convencionais na economia das vidas de filósofos. Enquanto a estrutura de sucessões garante coerência ao amplo conjunto de biografias, a imbricação de vida e filosofia sustenta ou abala a coerência interna de cada vida, segundo a disposição de sua fonte em relação ao biografado. Vale ressaltar, porém, que convivem, no âmbito da biografia antiga, tipos, caracteres e finalidades diversas que concedem variedade à estrutura formular.
Identificar a interdependência entre vida e obra e analisá-la nos permite elucidar as convenções do gênero biográfico, bem como a estrutura por trás da composição de uma vida. Nesse, como em outros casos, a correspondência entre vida e obra nos permite entrever a maneira como se dava a transmissão de conhecimento na Antigüidade, no domínio literário. Como indica Nagy (apud PÓRTULAS, 1994, p. 61), “biografia e preservação de uma obra poética [ou filosófica] constituem processos paralelos, que avançam pari passu e se condicionam mutuamente.”
O gênero biográfico é marcado por uma transmissão convoluta. Em um percurso análogo ao da memória, cada vida sofre um longo processo de condensação, composição e degradação. Na formulação de suas várias versões, alguns episódios são duplicados, narrativas incoerentes resultam da composição de fontes variadas e efeitos contraditórios são descritos como resultantes das mesmas posições teóricas. A identificação de elementos formulares facilita, em certa medida, o deciframento de episódios, aparentemente triviais, reunidos nas versões tardias dessas vidas. 
RESUMO: Os episódios da vida de Pirro são, com freqüência, retomados por autores antigos que discorrem sobre o ceticismo pirrônico e sobre suas conseqüências práticas e morais. Além de ilustrarem etapas ou tropos céticos, tais referências atestam favorável ou contrariamente à viabilidade da vida cética, conforme o posicionamento filosófico de seu autor. Assim, fontes estóicas ou acadêmicas tendem a exagerar o comportamento de Pirro, tornando-o risível e inverossímil. Como conseqüência, comprometem a auto-suficiência de uma vida cética e, portanto, a sua viabilidade. As fontes pirrônicas, em contraste, retomam Pirro como um exemplar moral de vida cética, justamente em resposta aos ataques à viabilidade da suspensão de juízo sobre todas as coisas. Tais críticas ou apologias se fazem, muitas vezes, através da introdução de episódios recorrentes na tradição biográfica. Certos grupos de anedotas parecem associá-lo a diferentes escolas filosóficas, a modelos de sabedoria ou tolice que o antecederam ou a problemas filosóficos já consagrados. Assim, o exame destes elementos formulares, recorrentes nas biografias dedicadas aos filósofos, pode nos ajudar a compreender as disputas subjacentes à composição da vida de Pirro.
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