A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
6 pág.
Redação e leitura para universitários

Pré-visualização | Página 2 de 3

interpretação a atribuição de sentidos, e por crítica, a 
avaliação do texto. 
 
Para a atribuição de sentidos - leitura, naturalmente, muito mais profunda, é preciso voltar a 
verificar as condições de produção, desta vez de maneira muito mais minuciosa, e partir para novas 
questões: 
a) As ideias do texto são compatíveis com as posições gerais do autor sobre o problema? 
b) Essas ideias são compatíveis com a cultura de sua época? 
c) Em que suas ideias contradizem as de outros autores que trabalham o mesmo tema? 
d) Podem-se notar influências de outros autores? 
e) Outros autores exploram o mesmo tema com abordagem diferente? 
f) Em que pressupostos baseou suas ideias? 
g) Há subentendidos, em forma de implícitos? De pressupostos? 
h) No caso de linguagem figurada, como podem ser entendidas as metáforas? São bem 
escolhidas? 
i) Que sentidos se podem atribuir a determinadas ideias, dado o contexto em que foram 
escritas e o contexto em que são lidas? 
 
Para a avaliação crítica, consideram-se: 
a) Coerência interna - encadeamento das ideias no interior do texto. 
b) Alcance dos objetivos. 
c) Eficácia da argumentação. 
d) Clareza da exposição. 
e) Compatibilidade da conclusão com a argumentação anterior. 
f) Nível da linguagem. 
g) Originalidade do texto. 
h) Profundidade do tratamento do problema. 
i) Relevância da contribuição do autor para a área. 
 
3 A palavra "crítica" tem sido muito mal entendida, pois é tomada no seu sentido popular, como apontamento de 
defeitos. Na metodologia científica da leitura, o momento da crítica é o da contribuição mais importante do leitor, 
quando ele se acha preparado para avaliar (ponderar, dar peso a) diferentes aspectos da construção e do conteúdo do 
texto. 
 
As respostas a essas questões permitem um tipo de análise que se chama resenha4, isto é, 
apresentação de um livro para quem ainda não o leu. Trata-se de um texto acadêmico, publicado 
em revistas especializadas, que tem como objetivo orientar o leitor na escolha das obras mais 
interessantes para suas pesquisas, a partir dos comentários críticos de resenhistas, sempre 
escolhidos entre especialistas da área. 
 
CAPÍTULO 2 
Leitura: conhecimentos prévios 
 
A concepção interacionista de leitura prevê que leitor e autor são os construtores de 
sentidos do texto. A leitura se dá não no momento em que o leitor recebe os dados fornecidos por 
ele (leitura ascendente) ou no instante em que confere se o texto confirma suas hipóteses sobre o 
assunto (leitura descendente), mas no momento em que confronta seus conhecimentos anteriores 
com os dados fornecidos pelo autor mediatizados pelo texto. De acordo com Ângela Kleiman, esses 
conhecimentos são de três ordens: linguístico, textual e conhecimento de mundo. 
 
1. O conhecimento linguístico é o domínio que o leitor tem da língua em que está escrito o texto, 
quer do ponto de vista vocabular, quer do ponto de vista gramatical. Quanto maior o repertório do 
leitor, isto é, o número de palavras que conhece; quanto mais amplo seu conhecimento das regras 
gramaticais da língua, mais fácil será a compreensão do texto. Entretanto, ele precisa, além disso, 
dominar conceitos, dentro da própria língua materna, da área a que o texto pertence (por exemplo: 
ortotanásia - em um texto científico; ontologia, hermenêutica - em um texto filosófico; anacoluto - 
em um texto de língua portuguesa; iluminismo - em um texto de literatura; neoliberalismo - em um 
texto político). Muitas vezes, o estudante acredita que está lendo bem o texto em estudo porque já 
viu as palavras, mas se surpreende ao perceber que, embora não lhe sejam desconhecidas, não 
sabe bem o seu significado e por isso, não consegue atribuir sentido a elas dentro da frase. 
 
2. O conhecimento textual é aquele que permite ao leitor distinguir diferentes gêneros e tipos de 
textos: 
 
a. Dissertação - é a exposição organizada de ideias sobre um determinado tema. Apresenta tese 
(ponto de vista do autor) e argumentos que a fundamentam. Sua finalidade é conseguir a 
adesão do leitor. O raciocínio pode ser dedutivo, se o autor apresenta a tese no início e, 
depois, os argumentos; pode ser indutivo, se os argumentos aparecem antes da tese. Deve 
ser estruturada em introdução, desenvolvimento e conclusão, sendo esta decorrência dos 
argumentos anteriores. Entre os recursos necessários ao texto dissertativo, contam-se: 
linguagem padrão, impessoalidade, objetividade e informatividade. Pode apresentar-se sob a 
 
4 Pode-se fazer resenha de um filme, um concerto, uma exposição. O objetivo, sempre, é permitir ao leitor que conheça 
os traços mais característicos da obra e tecer comentários críticos sobre ela. 
forma de um editorial de jornal, um artigo, um ensaio, uma monografia, uma tese ou 
dissertação de pós-graduação. 
 
b. Narração - relato ou narrativa ficcional. O relato é a narração de fatos reais, cujo objetivo é 
informar de maneira fria e objetiva. Exemplo: notícias de jornal, relatórios em geral. A 
narrativa ficcional é a narração de histórias inventadas, texto literário cujo objetivo é encantar 
o leitor. Vale mais pelo como se diz do que pelo que se diz. Seu valor está no trabalho com a 
linguagem. Pode ser um conto, um romance, uma novela. O conto e o romance apresentam 
apenas um núcleo de conflito; a novela apresenta vários nós de conflito. 
 
c. Descrição - caracterização de seres sensíveis (que podem ser apreendidos pelos órgãos dos 
sentidos). Pode ser estática - descrição de seres que se apresentam imóveis, por exemplo, 
uma paisagem, a fachada de uma casa etc; pode ser dinâmica, se flagra um momento da 
realidade em que seres se movimentam, por exemplo, a saída de um jogo de futebol, um 
momento no saguão de um aeroporto etc. Não apresenta sequência temporal, como a 
narrativa, por isso, se a pessoa ou a situação é presente, o tempo usado é o presente do 
indicativo; se é passada, o tempo básico é o imperfeito do indicativo. 
 
 
Se o leitor tem conhecimento textual, ao se deparar com uma dissertação, irá em busca da 
tese, procurará elencar os argumentos, perceberá o objetivo do autor, seu poder de persuasão etc. 
Se o texto for uma narração, desejará entender em que tempo e lugar se passa a ação, quais as 
personagens, em que ordem se dão os acontecimentos. No caso da ficção, logo se interessará pela 
figura do narrador, que estabelece o foco narrativo (narrador-personagem, narrador apenas 
observador, narrador onisciente). Se conhece os recursos da descrição, saberá identificá-Ia em 
textos mistos e avaliar seu papel nas narrações, como criadora de cenários e ambientes, e nas 
dissertações, como argumento de apoio. 
Como são muito comuns os textos mistos, cabe a ele identificar os segmentos textuais em 
que prevalece um ou outro tipo textual e perceber que, de suas combinações, resultam todos os 
gêneros que circulam socialmente, além dos jornalísticos, bulas de remédios, circulares, contratos, 
procurações, requerimentos, folhetos publicitários, propagandas, textos didáticos e acadêmicos, e-
mails etc. 
O conhecimento textual permite, como se vê, traçar objetivos diante do texto, objetivos 
esses que levam à formulação de hipóteses. O bom leitor é aquele que tem expectativas diante do 
que lê. Essas expectativas é que lhe permitem entender implícitos, fazer inferências, ser 
cooperativo, interagir, processamento muito diferente do simples ato de "decodificar", ainda tão 
comum em escolas brasileiras. 
 
 
3. O conhecimento de mundo - o conhecimento de mundo, advindo de experiências prévias, é de 
duas ordens: 
 
a. Conhecimento enciclopédico ou formal - é o conhecimento adquirido formalmente, na 
escola,