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2011_DanielaMountian_VOrig

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Velíkie Lúki, outros personagens fo-
ram também baseados em moradores da cidade: 
[...] o irmão e as irmãs Rutílov – da família Pulkhiérovikh; Grúchina – da 
Pravskóvia Vladímirovna Dmítrieva; a figura para a qual Volódin sugeriu que 
tirasse o quepe – o líder da nobreza Nikolai Semiónovitch Briantcháninov, 
um proprietário de terras. 
(PÁVLOVA, 2007, p.235) 
Entre os entrechos do romance, apenas a história de Sacha e a morte de 
Volódin nunca aconteceram na realidade – Strakhov não matou Portnago, assim 
como nenhum registro relaciona-se com a figura ambígua de Aleksándr Pýlnikov. 
A inspiração nos eventos da cidade tem comprovação documental – além de 
referências claras no texto a registros da escola, ―certas páginas de Miélkii Biés re-
montam diretamente aos relatórios do diretor ou do médico sobre as ‗bizarrices‘ do 
comportamento de Strakhov‖ (PÁVLOVA, 2007, p.233), o nome de Iván Strakhov foi 
achado nas anotações do escritor. O próprio Sologub (1912) afirma: 
O leitor procura reflexos da minha vida em meus livros. Não nego: eu parto 
das impressões da vida, mas às vezes também da realidade. O universo pe-
dagógico de O Diabo Mesquinho não foi criado na minha cabeça. Ao menos 
em relação a Peredonov e Varvara, eu tive modelos originais, mesmo a his-
tória da carta é uma história autêntica e real. E, como no romance, 
Peredonov na realidade também acabou louco. Em relação à maioria das 
personagens similares, Volódin e outros, eu também tive os originais. Já a 
história do ginasiano Sacha, tomado por uma menina disfarçada, está bem 
distante do que pessoalmente presenciei, no entanto, mais de uma vez me 
ocorreu ouvir algo sobre tal transformação. 
46 
 
A forma quase científica com a qual Sologub iniciou seu projeto não era inu-
sual na época. O escritor nutria interesse particular por psicologia e psiquiatria em 
meados de 1880, e pretendia escrever um romance naturalista sobre a loucura de 
Strakhov (PÁVLOVA, 2007). No entanto, com o decorrer do trabalho (ele levou 10 
anos para concluir o romance), a obra deixou de ser um registro da loucura particular 
de um homem e transformou-se na expressão de uma loucura mítica e universal. A 
imagem de Peredonov passou a ser usada como um conceito, assim Tchulkhóv es-
creve42: ―Nós, contemporâneos, com dificuldade podemos avaliar a importância deste 
surpreendente romance, no qual o idiota Peredonov eleva-se até a loucura universal 
– o peredonovismo [...]‖. 
O livro conquistou grande repercussão na Rússia na época de sua publicação, 
e o personagem de Peredonov tornou-se lendário. O romance já foi traduzido para 
quase todas as línguas, e começou a ser traduzido ainda no início do século XX. John 
Cournos o verteu para o inglês em 1916, assim como outros trabalhos de Sologub, 
que, a propósito, é bastante conhecido e estudado no estrangeiro. Já dentro da Rús-
sia o número de estudos desenvolvidos sobre a obra de Sologub é imensurável. 
2. Sob um céu de outono 
É difícil definir a posição que Miélkii Biés ocupa na história da literatura russa. 
A obra, mais uma vez, incorpora a tradição do século XIX, traz a poética simbolista e 
culmina no modernismo, e muitos críticos atuais consideram a obra um marco na 
história da prosa russa. De qualquer maneira, desde que O Diabo Mesquinho foi 
publicado, críticos e artistas perceberam que Sologub transgrediu uma estética. 
Andrei Biély já dizia que o romance traz a ―bandeira de uma rebelião nas profundezas 
_____________ 
 
42
 TCHULKHÓV, G. Gódy stránstvii (Anos de viagem). Moscou, Ellis Lak, 1999, p.173. Também 
disponível em: <http://az.lib.ru/c/chulkow_g_i/text_0240.shtml>. 
 
47 
 
do realismo‖43, assim como chamou a atenção para sua articulação paródica dentro 
de um sistema de codificação mítica. 
Décadas depois, Viktor Eroféiev44, de acordo com Biély quanto à ideia de uma 
subversão da estética realista, aponta também no romance a transgressão de uma 
visão de mundo. Segundo Eroféiev, Miélkii Biés rompeu com a ―filosofia da 
esperança‖, que balizou parte importante do pensamento russo no século XIX. Os 
conceitos de beleza, bondade e verdade, cujas ligações foram incansavelmente perse-
guidas, como por Dostoiévski e Solóviov, são trazidos à tona em O Diabo Mesquinho, 
mas como uma realidade intangível, num processo de desencantamento do mundo: 
— Não existem apenas imaginações — balbuciava Peredonov tristemente —, 
a verdade também existe neste mundo. 
Sim, também Peredonov aspirava à verdade de acordo com a lei comum a 
toda vida consciente, mas essa aspiração o atormentava. Ele não se dava 
conta de que aspirava à verdade como todos os homens, por isso sua inqui-
etação era confusa. Não conseguia encontrar a verdade de si mesmo, então 
se confundia e se perdia. 
(SOLOGUB, 2008, p.315) 
De fato Miélkii Biés, por sua estrutura paródica, pode ter sido o último ro-
mance a entrar de modo tão veemente em certos embates filosóficos, ao menos 
dentro da configuração oitocentista. Foi o fim de certa cosmovisão. 
Essa ruptura, que, de acordo com Eroféiev, Merejkóvski já havia feito na 
poesia, talvez não tenha sido algo plenamente consciente de Sologub: 
No entanto, é necessário dizer logo que, para o autor do romance, o distan-
ciamento da tradição não foi algo completamente consciente. Ao contrário, 
Sologub sentia-se à sombra da tradição. Via de regra, as obras de transição 
são mais radicais do que seus criadores. 
(EROFÉEIEV, 1996, p.119) 
_____________ 
 
43
 BIÉLY, A. Dalai Lama de Sapojka. Vessy. Moscou, 1908, no 3, p.64. opud VINOGRÁDOVA, E. A. Avtor – 
gerói – tchitátel v romane F. Sologub ”Miélkii Biés” (Autor – herói – escritor no romance O Diabo 
Mesquinho de Fiódor Sologub). Dissertação (Doutorado) – Universidade Estatal de Ciências Humanas 
da Rússia, Moscou, 1998. 
44
 EROFÉIEV, Viktor. Na gráni razryva – „Miélkii Bés‟ F. Sologuba i russkii realizm (No limiar da ruptura – 
‗O Diabo Mesquinho‘ de F. Sologub e o realismo russo). V labirinte prokliátykh voprossov (No 
labirinto das perguntas malditas). Moscou: Soiuz Fotokhudójnikov Rossii (União dos Fotógrafos Russos), 
1996. 
48 
 
Com relação à composição formal, a narração é um dos principais elementos 
que colocam a obra numa espécie de limiar: o narrador do romance é onisciente (3ª 
pessoa) e ao mesmo tempo não completamente confiável. 
Em Miélkii Biés a narrativa é dirigida pelo processo de enlouquecimento do 
anti-herói, ela ―absorve o caos‖ de Peredonov, como descreveu Eroféiev (1996). O 
enredo é formado por uma sucessão aparentemente aleatória de historietas, que 
ganham sentido quando relacionadas com Peredonov e com sua loucura: 
Em O Diabo Mesquinho, Sologub modificou o romance realista de uma ma-
neira única. Em vez de expandir os elementos do romance (como os seus 
iguais fizeram na Europa), Sologub os inverteu, isto é, colocou no seu ro-
mance o cenário (tempo e espaço) e a narração em primeiro lugar, e as per-
sonagens e o enredo em segundo
45
. 
Quanto à temporalidade, sua articulação é instável. Sologub cria uma noção 
de tempo infinito e indefinido, como notou Greene (1986), à medida que alterna 
momentos cronologicamente muito precisos e momentos vagos ou atemporais. 
Quando, por exemplo, Peredonov resolve procurar os figurões da cidade, uma me-
dida temporal é marcada: 
De qualquer maneira, ele decidiu, da terça-feira seguinte em diante, iniciar as 
visitas aos figurões da cidade para justificar-se. Segunda-feira não — era um 
dia sempre difícil. 
(SOLOGUB, 2008, p.105) 
Depois disso, o professor passa a visitar uma autoridade a cada dia. Pela nar-
rativa, supõe-se que suas andanças duraram cinco dias – até o ―sábado seguinte‖ (até 
o capítulo