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Silvia (tese) completa

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tradicional, para que a 
relação psicológica – se assim a podemos chamar – se transforme em uma relação 
significativa, pressupõe-se que deva ser longa e duradoura. Paralelamente, há 
também nesta tradição a idéia de que um caso só é rico e interessante para o 
psicólogo se for difícil e necessitar de muitas horas de acompanhamento. 
 
5 “Animal fabuloso, monstro alado, metade grifo” BUARQUE DE HOLANDA (A967 p732) Grifo = 
“animal fabuloso de cabeça de águia e garras de leão” (idem, p703) 
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 Esta postura, que começa a ser repensada, tem a influência da psicanálise, 
embora o próprio Freud (em Analise Terminável e Interminável, 1937), se tenha 
questionado sobre o tema da duração da psicanálise. Escreveu ele: 
A experiência nos ensinou que a terapia psicanalítica – a libertação de 
alguém dos seus sintomas, inibições e anormalidades de caráter 
neuróticos – é um assunto que consome tempo. Daí, desde o começo, 
tentativas terem sido feitas para encurtar a duração das análises“(p 
247).”Eu mesmo adotei outro modo de acelerar um tratamento 
analítico, inclusive antes da guerra (...)Nesse dilema, recorrI à medida 
heróica de fixar um limite de tempo para a análise. (p248). 
 Neste trabalho, as reflexões do autor se estendem pelos temas complexos do 
“término da análise” e das possibilidades profiláticas da psicanálise. Todo o texto é 
permeado por certo ceticismo quanto à eficácia da psicanálise no sentido de 
provocar mudanças pertinentes, alertando para a ingenuidade dos que esperam que 
seus clientes atinjam “um nível de normalidade psíquica absoluta” (p251), mesmo 
após muitos anos de terapia. 
 As citações acima, no entanto, não negam que , com relação à 
psicanálise:”.se quisermos atender às exigências mais rigorosas feitas à terapia 
analítica, nossa estrada não nos conduzirá a um abreviamento de sua duração, nem 
passará por ele”, como lembra Freud no mesmo texto (p255). Paralelamente, no 
entanto, o autor demonstra claramente seu desconforto: “Partimos da questão de 
saber como podemos abreviar a duração inconvenientemente longa do tratamento 
analítico...”(p267). 
 Assim como no caso da psicanálise, na literatura que trata das psicoterapias, 
de modo geral as questões sobre alta, duração e mudanças ocorridas no decorrer 
de um atendimento psicológico referem-se sempre a processos psicoterapêuticos, 
raramente mencionando as entrevistas ou consultas. Portanto, não é fácil relacionar 
mudança psicológica com entrevistas de triagem. 
 Como lembra Mahfoud (1987, no momento de uma primeira entrevista, 
confrontado com as dificuldades do cliente ‘a resposta padrão’ é (encaminhar para) 
psicoterapia...” (p76), pois não lhe ocorre posicionar-se de outra forma frente ao 
cliente, percebendo que alguma coisa pode ser feita de imediato. Esta mesma idéia 
é expressa por Carvalho da Silva (1992): 
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Por identificar a prática psicoterapêutica como sinônimo de atuação 
clínica é que o modelo tem sido mantido (...)a psicologia tem tentado 
exercer um único modo de atuar através dos atendimentos 
psicoterápicos de seguimento contínuo e/ou prolongado. (p31). 
Mas mudanças estão ocorrendo. As psicoterapias breves ( PB) – que 
procuram resolver o dilema da duração apontado por Freud – tentam romper com a 
força desta tradição. Partem do princípio que mudanças são possíveis em um curto 
período de tempo. Trabalhos recentes, como os de Gilliéron (1990) falam em curar 
(guérir) em quatro sessões. Uma das principais preocupações do autor é mostrar a 
necessidade de modificar a prática de psicanálise no que diz respeito ao enquadre e 
propor uma lógica interpretativa que leve a uma mudança psíquica. 
Guilliéron diz, ainda, que o momento em que o cliente procura o atendimento 
costuma refletir uma crise na situação existencial, crise que o terapeuta deve 
reconhecer. É, portanto, um momento que favorece rearranjos no equilíbrio 
intrapsíquico e interpessoal, pois o cliente, impulsionado pelas suas dificuldades, 
vem em busca de transformações. Do mesmo modo, Spoerl (apud Peter,1992) 
propõe que se aproveite a carga emocional particularmente forte da primeira 
consulta, por considerá-la como uma psicoterapia de intervenção única, focalizando 
a sessão sobre o problema principal, segundo o conceito do enriquecimento da 
personalidade graças à crise. 
Peter(1992) diz que na sua abordagem (PB de inspiração psicanalítica), se a 
primeira entrevista levar o cliente a ressignificar algum(uns) momentos de sua vida e 
apropriar-se de seu sintoma, serão eliminadas as fronteiras entre o diagnóstico e a 
psicoterapia e estará criado o enquadre necessário para que uma psicoterapia 
possa se instalar. O mesmo autor conclui que “se a primeira sessão e as 
intervenções psicoterapêuticas breves permitirem criar as condições preliminares 
para a mudança (...) elas terão preenchido seus objetivos” (p363).6 
Não pretendo falar em cura numa entrevista de triagem, mas refletir sobre o 
fato de que se acontecimentos significativos podem ocorrer no decorrer de uma 
sessão, por que não buscar as condições que possam facilitar seu aparecimento 
para transformar estas entrevistas em uma referência existencial? Além disso, se o 
 
6 Tradução livre. 
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cliente não se sentir mobilizado pelo primeiro atendimento, ao ser encaminhado 
provavelmente não conseguirá dar prosseguimento ao seu pedido de ajuda. 
Como as entrevistas de triagem se dão no âmbito das instituições, isto lhes 
imprime um caráter particular e as diferencia, dificultando a comparação com 
qualquer primeira entrevista que se dê nos atendimentos particulares, embora 
nestas últimas também ocorra uma avaliação informal, uma ação interventiva ou um 
encaminhamento. 
Segundo Maida(1991), 
Para que o atendimento nas instituições se torne realmente 
efetivo, é necessário promover uma espécie de desaprendizagem 
voltada para o exercício da prática em cada situação específica” e 
“para que o profissional esteja preparado para o trabalho nas 
instituições (é necessário) evitar a repetição mecânica do 
conhecimento teórico estabelecido (p6). 
Na verdade, estamos tratando aqui de uma visão ampla da psicologia, visão 
que não limita a intervenção psicológica a situações determinadas, nem mesmo 
apenas à prática clínica. É uma maneira de pensar a psicologia como uma atuação 
que exige uma atitude flexível, inventiva e responsável por parte do psicólogo que 
deverá transitar entre a teoria e a prática com certa desenvoltura. À medida que o 
profissional acreditar que todo contato com um cliente pode (e a meu ver, deve) ser 
um momento significativo, sem dúvida, ele se verá obrigado a rever muitos dos 
conceitos que norteiam sua prática. 
O relacionamento psicológico será significativo quando criar um campo 
favorável para o deflagrar de impulsos mobilizadores que podem resultar em 
questionamentos, elaborações ou mesmo mudanças de atitude ou de perspectivas 
vivenciais. Como aponta Bleger (1979) “na entrevista se configura um campo e com 
isto queremos significar que entre os participantes se estrutura uma relação da qual 
depende tudo o que nela acontece” (p14).7 Este campo favorável surge na e da 
experiência vivida na relação psicólogo/cliente, qualquer que seja a denominação 
dada a este atendimento (triagem, psicodiagnóstico, psicoterapia). Quando o cliente 
vem à procura de um psicólogo, ele quer ser atendido em suas necessidades, pouco 
 
7 Tradução livre. 
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importando sob que nome este atendimento se efetue.8 Na prática, no entanto, o que 
acontece com freqüência é que, por nomear sua prática, o psicólogo deixa de fazer