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Silvia (tese) completa

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se encontra mascarada no 
pedido de atendimento à criança. 
 
É este segundo ponto que enfatizo seja na minha atuação seja ao falar 
com meus alunos estagiários.13 
 Se a atuação se ativer apenas à primeira vertente, as opções serão poucas e 
o caminho será mais fácil de vislumbrar, ou seja: encaminhar a criança para 
psicodiagnóstico, terapia ou qualquer outro tipo de atendimento na própria instituição 
ou em outro local. A atuação psicológica será, portanto, postergada e delegada ao 
profissional que atuará no futuro. Repete-se aqui a situação – ocorrida inicialmente 
no meu atendimento – em que a relação com o cliente fica mediada por um 
profissional ausente, criando-se, assim, a possibilidade de distanciamento entre as 
pessoas presentes. Sobre o futuro psicólogo serão depositadas todas as fantasias e 
ônus ligados à solução das dificuldades. 
 Evidentemente, mesmo quando a ênfase é colocada sobre a criança e o seu 
problema, o adulto estará de algum modo envolvido no atendimento. O simples fato 
de ter ido em busca da ajuda mostra o quanto a sua vida e a da criança estão 
interligadas. Contudo, tanto este adulto quanto o psicólogo podem atuar nesta 
situação buscando atender apenas a primeira solicitação (queixa manifesta), 
diminuindo ansiedade de ambos e, aparentemente, solucionando a dificuldade. 
 Neste caso, coloca-se a questão da responsabilidade do psicólogo em 
relação a quem veio pedir ajuda, confiando em seus conhecimentos. Quando 
apenas encaminha o cliente, o profissional estará kafkianamente14 eliminando o seu 
problema, podendo até mesmo sentir-se feliz com a sensação de dever cumprido. 
Esta postura tarefeira traz ainda as implicações já mencionadas e sobre as quais 
não me estenderei, mas que se referem à demanda excessiva de clientes, à cadeia 
 
13 A inserção dos alunos-estagiários na atividade de triagem é um tema muito rico e com inúmeros 
aspectos a serem discutidos. Mas que não cabem no âmbito deste trabalho. 
14 Em A metamorfose de KAFKA (1996) o homem-barata é eliminado por que os outros, mormente 
sua família, não sabem como lidar com o diferente. 
21 
de encaminhamentos ineficientes, à superlotação das agências que oferecem 
atendimento gratuito e à estrutura viciada da organização dos serviços de saúde em 
geral. Por si só estes pontos (a meu ver) devem levar o psicólogo a refletir e buscar 
uma nova atitude frente à entrevista de triagem. 
 A outra maneira de atuar, que não exclui necessariamente o encaminhamento 
da criança, é que pretendo compreender e explicitar através de minha própria 
vivência e a de meus clientes. Como já mencionei anteriormente, focalizar o 
atendimento no cliente presente permitirá transformar a entrevista de triagem em um 
momento psicológico significativo. 
 
22 
 
 
III 
 
Já ouvi essa resposta 
outras vezes. Modifico, 
pois, a pergunta: 
 
23 
 
A partir da minha atuação com as entrevistas de triagem passei a interessar-
me por entender como se dá o momento significativo - ou acontecimento - em um 
atendimento psicológico e se é possível aguçar a sensibilidade do psicólogo para 
que perceba as mudanças que estão ocorrendo naquele campo que o inclui. 
Pude perceber que minhas preocupações poderiam ser resumidas em duas 
questões. A primeira abrangeria uma vertente social que passa pela prática 
institucional, enquanto a segunda diria respeito aos estatutos da psicologia. 
Assim, considerando que: 
 as entrevistas de triagem são uma etapa necessária nas instituições; 
 frequentemente estas entrevistas são pouco significativas para o 
cliente; 
 os atendimentos de curta duração parecem atender melhor à 
nossa realidade e às necessidades de nossa clientela; 
 os encaminhamentos na maioria das vezes são ineficientes; 
pergunto: 
 
Como dar novo sentido às entrevistas de triagem tornando o 
primeiro contato com o psicólogo significativo para o cliente? 
 
Esta primeira pergunta, de natureza técnica, conduz a uma segunda, mais 
abrangente, de cunho teórico: 
 
 Como se dá o acontecimento que transforma o encontro com o 
psicólogo em um encontro significativo? 
 
Estas questões poderiam levar à resposta de outras duas: 
 
24 
É possível identificar o acontecimento transformador? 
É possível facilitar a eventualidade de encontros significativos? 
 
O objeto de estudo desta pesquisa é, portanto, a entrevista de triagem. Seu 
objetivo é descrever como se dá o acontecimento que faz a entrevista psicológica 
ser percebida como significativa pelo cliente e pelo psicólogo. 
Retomando minha vivência como cliente de psicoterapia e minha atuação 
enquanto psicóloga clínica, devo reconhecer que raros foram os momentos, tanto 
em uma quanto em outra situação, em que consegui perceber um acontecimento 
reconhecendo-o como tal. No entanto, frequentemente, pude captar diferentes 
movimentos em mim ou em meus clientes. Isto me leva a crer que existam 
variações na magnitude do acontecimento. 
 Penso aqui em clientes de instituições gratuitas, que se descobrem como 
“pessoa” ao terem um atendimento respeitoso e interessado: “eu até me comovo. 
Aqui me senti tratada como gente”, disse-me uma senhora, após sua entrevista 
de triagem. Em outro patamar, o acontecimento parece ocorrer de forma mais 
profunda: “... eu só tô com medo que... ela (psicóloga-estagiária) está me 
mostrando um caminho... está acendendo uma luzinha que era apagadinha, 
sabe? E é isso que eu tô com medo, de explodir essa luz e eu me perder no 
caminho”, disse outra, um tanto assustada.1 Seriam acontecimentos de 
importância diferente na vida do cliente? Evidentemente, estas reflexões não são 
pertinentes apenas às entrevistas de triagem, mas a toda atuação clínica. Naquelas, 
porém, pelo fato de se circunscreverem a uma ou no máximo, quatro sessões2 e 
pelas suas peculiaridades que parecem concentrar os aspectos que se encontram 
diluídos nos atendimentos a longo prazo, talvez se possa perceber, com maior 
facilidade, o acontecimento significativo. 
 
1 Entrevistas obtidas em pesquisa piloto com alunos estagiários na Clínica Psicológica São Marcos 
em 1993. 
2 As reflexões desencadeadas por este trabalho influenciaram diretamente os atendimentos e a 
organização das entrevistas de triagem na Clínica Psicológica São Marcos, que atualmente dirijo. A 
Primeira mudança se deu no número de encontros iniciais com o cliente que procura a instituição 
pela primeira vez . Raramente é feita apenas uma entrevista, mas usualmente são feitas duas, 
podendo chegar até a quatro sessões. Houve também uma modificação no modo de nomear esses 
atendimentos pelos diferentes supervisores: de “Entrevistas de Triagem”, passaram a chamar-se 
“Entrevistas de Acolhimento”. “Pronto Atendimento” e “Intervenções Breves”, sendo que essa última 
nomeação tornou-se oficial. A atuação passou a ser claramente a de buscar uma intervenção 
imediata. 
25 
Deste modo, descrever e compreender o acontecimento significativo 
permitirá expandir as reflexões para além de tais entrevistas (já que tal 
acontecimento não é exclusivo desse tipo de atendimento), podendo estender-se a 
todas as entrevistas, sessões ou consultas que um psicólogo possa ter com seu 
cliente. É preciso notar que, embora eu esteja utilizando a expressão “entrevista de 
triagem” parece-me mais adequado, a partir deste momento, substituí-la por 
“primeira entrevista” ou “consulta psicológica”, expressão mais genérica e 
abrangente, já que minha proposta é a de eliminar as entrevistas que pretendem 
triar os clientes no conceito tradicional. 
Retomando, pois, uma das vertentes do trabalho a