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Além da Estagnação 
Maria da Conceição Tavares e José Serra 
Autor: Bruno Gabriel Witzel de Souza 
 
1. Introdução. 
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 O presente trabalho objetiva discutir a estagnação econômica por que passou a maior parte das economias 
latino-americanas na metade da década de 1960, explicitando se suas causas foram conjunturais ou estruturais. 
 Para fazê-lo, os autores expõem e discutem criticamente a perspectiva clássica de Celso Furtado segundo a 
qual a crise foi decorrência do esgotamento do dinamismo de desenvolvimento econômico baseado na indústria 
substitutiva de importações. 
 
2. Estagnação ou Crise? 
 Uma das principais percepções sobre a estagnação das economias latino-americanas em meados dos anos de 
1960 é a de que aqueles países haviam entrado em um processo de estagnação secular, fruto do esgotamento da 
dinamicidade do modo de produção capitalista na estrutura moldada pelo desenvolvimento capitalista precedente nas 
referidas nações. 
 Segundo tal perspectiva, a AL apresentaria uma tendência secular à estagnação porque o modelo prévio de 
desenvolvimento fora tal que diversos setores da economia permaneceram em níveis ínfimos de desenvolvimento 
produtivo e que a maior parte da população permaneceu excluída do relativo aumento da renda, de forma que a 
demanda não pôde ser maturada. 
 Os autores, em oposição, defendem o caráter transitório destas características. Efetivamente, as economias 
latino-americanas marcaram-se pelo relativo atraso de produtividade e concentração de renda, mas isto não foi fator, 
em outros países que agora se encontravam no centro das economias desenvolvidas, para que se justificasse uma 
estagnação secular. 
 Em suma, “neste sentido, poder-se-ia dizer que enquanto o capitalismo brasileiro desenvolve-se de maneira 
satisfatória, a nação, a maioria da população, permanece em condições de grande privação econômica, e isso, em 
grande medida, devido ao dinamismo do sistema, ou melhor, ao tipo de dinamismo que o anima”. 
 
3. O “Modelo” de Celso Furtado. 
 A interpretação de que a economia brasileira entrara em crise em decorrência de fatores estruturais gestados 
em períodos prévios do desenvolvimento capitalista encontra na análise de Celso Furtado sobre o período um dos 
maiores e mais bem acabados expoentes. 
 Celso Furtado parte da idéia de que na década de 1960 observou-se o esgotamento do dinamismo do modelo 
de desenvolvimento provido pela “Indústria Substitutiva de Importações”. A estagnação tinha, portanto, uma origem 
fundamentalmente estrutural. 
 A análise furtadiana considera dois tipos de países da AL: aqueles que, ao ingressarem no modo de produção 
capitalista, removeram ou absorveram as estruturas pré-capitalistas sobre as quais se organizavam, e aqueles que 
mantiveram diversas destas estruturas, adaptando-as ao novo modo de produção. 
 No Brasil, percebe-se muito claramente a permanência de determinadas estruturas. A principal para o modelo 
é a existência de uma oferta quase ilimitada de mão-de-obra a ser utilizada agora na economia urbano-industrial. 
Frente a esta oferta quase inelástica de trabalho, os salários foram deprimidos quase que ao nível de subsistência. Isto, 
por um lado, permitiu uma margem de lucros grande às empresas nas fases iniciais do processo de substituição de 
importações, mas limitaria profundamente a capacidade de absorção da demanda nas fases posteriores e mais 
complexas da ISI. 
 O processo de substituição de importações primeiramente deu-se com aquelas indústrias que já tinham uma 
demanda relativamente consolidada no país, ou seja, com aqueles bens de consumo não-duráveis que até então eram 
obtidos por meio de importações. 
 O posterior desenvolvimento de tais indústrias levou à necessidade de substituição das importações de bens de 
capital e ao desenvolvimento de uma indústria de bens intermediários. 
 Tanto bens de capital quanto intermediários, no entanto, requeriam uma proporção maior de capital por 
trabalhador. Atendidas as primeiras demandas, essas novas indústrias, no entanto, viram suas possibilidades de 
expansão extremamente limitadas: o poder de compra da população em geral não tinha qualquer tendência de 
crescimento frente à estabilidade a baixíssimos níveis dos salários, e as indústrias não expandiam sua produção já que 
atenderiam apenas a uma demanda vegetativamente crescente com a população (de forma que as indústrias de bens de 
capital não tiveram qualquer ímpeto após sua instalação e fase inicial). 
 
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 As subdivisões do resumo diferem daquelas existentes no texto, sendo aqui organizadas com o objetivo de melhor estruturar a 
síntese. 
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 Assim, surge um descompasso de escala. As indústrias instaladas durante a fase de estímulo à ISI tinham uma 
capitalização muito acima do que era requerido pelas condições de mercado. Assim, a capacidade ociosa levaria a uma 
estagnação de longo prazo a menos que a demanda fosse dinamicamente estimulada. 
 Nessas indústrias com grande capacidade ociosa, há muito capital por trabalhador, o que se reflete em uma 
diminuição do produto por unidade instalada de capital, ou seja, há como que uma sobrecarga de capital que não é 
acompanhada por aumentos concomitantes no produto. O resultado disso não pode ser outro que a estagnação. 
 
4. Críticas ao Modelo de Furtado. 
 Os autores observam que Furtado vê no aumento da relação capital-trabalho e na diminuição da relação 
produto-capital decorrente do primeiro como uma das causas mais importantes para explicar-se a estagnação. No 
entanto, segundo a perspectiva de Tavares e Serra, isto foi uma conseqüência da estagnação, não sua causa. 
 O cerne do modelo de Furtado é o de que as empresas, apesar de apresentarem rentabilidades diferentes 
(relação lucro/capital), deviam apresentar taxas de lucros mais ou menos homogêneas para todas atraíssem algum grau 
de investimento. Além disso, nas indústrias prevaleceria um nível salarial mais ou menos constante em função da 
grande oferta de mão-de-obra. Nesse ambiente, quanto maior fosse o capital instalado na indústria, tanto menor seria o 
produto por unidade de capital e disso decorreria a estagnação. Ou seja, a estagnação seria o fruto da instalação 
excessiva de capital no período precedente de ISI que agora não encontrava demanda suficiente para aumentar a 
produção, de modo que a relação produto/capital tinha necessariamente que cair. 
 Em primeiro lugar, os autores observam que o pressuposto de taxas de lucros relativamente iguais é forte 
demais: aplicável a modelos teóricos, não encontra corroboração nos mercados latino-americanos, marcados por 
diversas imperfeições, como certo grau de poder de monopólio por parte das indústrias mais desenvolvidas. 
 Em segundo lugar, aumentos no nível de capital por trabalhador não necessariamente conduzem a uma queda 
na relação entre produto e capital, uma vez que o novo capital instalado geralmente é tecnologicamente superior ao 
existente, de forma que o trabalhador utiliza mais capital, mas tal capital é tecnologicamente mais eficiente, o que lhe 
permite produzir mais. Assim, o aumento do capital por trabalhador pode levar a ganhos de produtividade e 
geralmente o faz porque o novo capital é comumente fruto de progresso tecnológico. Assim, a relação assumida por 
Furtado, de que aumentos na relação capital/trabalhador conduzem a queda na relação produto/capital não é 
necessariamente válida. 
 Além disso, se existem ganhos de produtividade, as firmas podem apropriar-se da mais-valia gerada por 
trabalhador para reinvestir na produção, de forma que o produto é estimulado pelo aumento dos investimentos – ou 
seja, não se configura necessariamente um cenário de crise a partir dospressupostos que Furtado assume. 
 
5. A Crise e a Recuperação Econômica do Brasil. 
 Apesar da crise ao modelo furtadiano que vê na queda da relação produto/capital decorrente do aumento da 
relação capital/trabalhador uma das causas da estagnação do período, os autores salientam a importância de 
determinados fatores estruturais neste processo, embora advirtam que estas não podem ser tomadas em isolamento, 
sem considerar-se a conjuntura do período, para explicar o fenômeno observado na AL, e no Brasil em particular, 
durante a metade da década de 1960. 
 Tavares e Serra reconhecem também que determinados fatores estruturais que explicam a estagnação 
estiveram ligado realmente ao esgotamento do modelo de substituição de importações. 
 Em primeiro lugar, a onda de investimentos ocorridos durante o Plano de Metas dera origem efetivamente a 
uma grande capacidade produtiva. Com a crise que se iniciava, o excesso de capacidade seria um dos agravadores da 
estagnação (embora não sua causa, como se depreende do modelo de Furtado). Além disso, esta primeira onda de 
investimentos não é acompanhada de uma subseqüente em igual escala, o que tendia obviamente a deprimir o produto 
em decorrência da queda de I. 
 Tal queda dos investimentos, por sua vez, explica-se tanto pela diminuição da demanda governamental, 
concluído o Plano de Metas, quanto um desestímulo do setor privado em investir, afinal a capacidade já se mostrara 
acima da capacidade muito pequena de absorção da demanda. 
 Além disso, a espiral inflacionária, que de início estimulara os investimentos (afinal vale a pena investir em 
bens de capital quando se espera que o poder de compra da moeda caia ao longo do tempo), agora dava aos agentes a 
percepção de que grande parte de sua rentabilidade era apenas ilusória frente aos preços com que se deparavam. 
 
a) 1ª Fase da Crise. 
 No início do governo Quadros já se começava a observar uma reversão da onda de rápido crescimento 
econômico experimentada durante o governo JK. Objetivando reverter a situação, o governo empreendeu uma política 
de aumento salarial e contenção da inflação como forma de aumentar o poder de compra e, portanto, estimular a 
demanda para reaver o crescimento. 
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 No entanto, tal projeto de contenção da inflação não poderia se dar de outra maneira que não por meio de uma 
forte contração dos gastos públicos e uma política monetária também expressivamente contracionista. Observa-se 
rapidamente que o governo tinha diante de si dois problemas antagônicos: crescimento e contenção da inflação. 
 Por fim, a política hostil do governo em relação ao capital estrangeiro, que teve sua expressão mais clara na 
Lei de Remessa de Lucros, desestimulou a entrada de novos capitais internacionais, o que tenderia a deprimir ainda 
mais os investimentos e fechar as possíveis fontes de financiamento para a retomada do crescimento naquela 
economia que observava seu detrimento tanto a nível conjuntural quanto estrutural. 
 
b) 2ª Fase da Crise. 
 O governo militar instaurado em 1964 continuou a enfrentar a série de problemas com que se defrontaram os 
dois governos prévios. 
 O aumento na carga fiscal para melhoria das contas públicas, a restrição de crédito para contenção da inflação 
e a política de redução de salários (que teve um efeito ambíguo sobre o crescimento do produto – aumentou o lucro 
das empresas estimulando I, mas fez cair a demanda por meio da queda da renda disponível para consumo) 
transformou-se em um período de “seleção” das empresas existentes no mercado: apenas as mais eficientes 
sobreviveram e a demanda até então dispersa foi para elas especificamente conduzida, de forma que a capacidade 
ociosa de muitas delas viu-se aliviada. 
 No Brasil, ao contrário de muitos outros países da Al, já existiam condições para a retomada de um 
crescimento baseado em fatores internos. Apoiando-se nestas condições, mas contando muito com o apoio do capital 
estrangeiro, o governo militar do período 1964-1966 promoveria reformas institucionais de peso, como a tributária e a 
referente ao mercado de capitais, fundamentais para a retomada do dinamismo da economia. 
 Assim, procediam-se correções às falhas estruturais que se impuseram no processo anterior e que haviam 
conduzido ao esgotamento temporário da ISI (vale lembrar, porém, que o modelo de crescimento baseado na 
substituição de importações não se esgotara por completo e seria posteriormente utilizado pelos governos militares 
como forma de estimular o crescimento econômico).

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