A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
25 pág.
O TRABALHO DE ENFERMAGEM E O CUIDADO EM SAÚDE MENTAL : NOVOS RUMOS ?

Pré-visualização | Página 1 de 9

O TRABALHO DE ENFERMAGEM E O CUIDADO EM SAÚDE MENTAL : NOVOS RUMOS ? 
Débora Isane Ratner Kirschbaum∗ 
INTRODUÇAO 
Atualmente, o trabalho de enfermagem nos serviços de saúde mental apresenta 
características tão diversificadas e heterogêneas, dependendo do modelo de intervenção ao qual 
ele está articulado, que dificilmente poderíamos nos referir a ele no singular. Por certo, um dos 
principais motivos desta diversificação foi o aparecimento dos chamados novos equipamentos em 
saúde mental, que surgiram juntamente com a Reestruturação da Assistência Psiquiátrica no 
Brasil, que promoveu a substituição gradativa dos hospitais como única forma de tratamento e 
uma reorganização do processo de trabalho. Em consequência, o trabalho de enfermagem 
também transformou-se. De uma prática tipicamente custodial desenvolvida em algumas 
instituições, em outras convive-se com um cuidado de enfermagem voltado para a Reabilitação 
Psicossocial de pessoas com transtornos mentais severos e persistentes. As atividades 
historicamente atribuídas à enfermagem nas instituições psiquiátricas, tais como o estímulo à 
realização das atividades de vida diária deixam de ser vistas como práticas banais e ocupam o 
centro do palco, pois tornam-se extremamente relevantes no tratamento de sujeitos psicóticos. A 
participação nestes projetos implica uma mudança de posição para os profissionais de 
enfermagem, que, na maioria dos serviços-dia passam a responsabilizar-se pela implementação 
de projetos terapêuticos, de modalidades de atendimento grupais e individuais, como também 
pode produzir uma transformação no modo de apreender e de intervir junto aos sujeitos, levando 
o enfermeiro a buscar na clínica os fundamentos para a realização do cuidado em saúde mental . 
Baseado na experiência clínica e docente da autora e em pesquisas realizadas recentemente em 
serviços-dia e hospitais especializados, este estudo visa problematizar algumas questões que 
decorrem das mudanças que afetam o trabalho de enfermagem e o cuidado em saúde mental . 
 I. AS CARACTERÍSTICAS DO TRABALHO DE ENFERMAGEM EM SAÚDE MENTAL: A 
CONVIVÊNCIA ENTRE DIFERENTES MODELOS E ÉTICAS. 
A observação das práticas de enfermagem, empreendidas nos serviços de saúde mental na 
última década, indica que a convivência entre diferentes éticas e modelos de intervenção ora 
contraditórios entre si, ora antagônicos, no interior de um mesmo modelo assistencial é uma das 
 
∗
 Enfermeira. Professor Assistente Doutor do Departamento de Enfermagem da FCM/UNICAMP. E-mail : 
isane@uol.com.br 
 2
características do contexto que sucedeu a implantação da Reforma Psiquiátrica brasileira. Neste 
sentido, práticas orientadas pelos princípios que regiam o modelo assistencial asilar convivem 
lado a lado com práticas voltadas para a substituição daquele modelo a partir de um deslocamento 
do lugar ocupado pela enfermeira. De vigilante e repressora para agente terapêutico, preocupada 
com a promoção da qualidade de vida e com a constituição de sujeitos responsáveis por suas 
escolhas. 
Esta mudança foi possível a partir da Reestruturação da Assistência Psiquiátrica em curso 
no país, desde os anos 90. Em algumas instituições, principalmente nos serviços dia e extra-
hospitalares, o trabalho de enfermagem (ALMEIDA, ROCHA, 1997) passou a apresentar 
características distintas das que o vinham marcando até então, pois, no contexto que antecedeu a 
Reforma Psiquiátrica, o trabalho de enfermagem era realizado quase que exclusivamente no 
interior dos hospitais psiquiátricos e em raros ambulatórios de saúde mental existentes na época 
(ROCHA, 1994; FRAGA, 1993; ROLIM, 1992; COLVERO, 1994). Conforme mostram ROLIM 
(1992); FRAGA (1993); ROCHA (1994), as atividades administrativas ocupavam a atenção e a 
maior parte da jornada de trabalho dos enfermeiros, que delegavam aos auxiliares de enfermagem 
as ações de cuidado direto aos pacientes, criando uma tensão entre a prática concreta e a prática 
aprendida nas Universidades, onde o ensino preconizava um enfermeiro responsável pela 
manutenção do ambiente terapêutico e por operar as técnicas concernentes ao chamado 
Relacionamento Interpessoal, enquanto nas instituições de saúde não existiam condições 
materiais mínimas para viabilizar o papel proposto (FILIZOLA, 1990). O caráter ideológico deste 
discurso veiculado pelas escolas e pelas instituições psiquiátricas e sua contribuição para a 
realização de um trabalho alienado já foi exaustivamente apontado por pesquisadores da área 
(FILIZOLA, 1990; ROCHA, 1994; FRAGA, 1993), cuja produção científica teve uma 
contribuição muito importante para subsidiar a construção de um discurso que possibilitasse um 
posicionamento crítico da Enfermagem Psiquiátrica em relação a sua práxis e que fornecesse 
mais elementos para a proposição de um novo papel para o enfermeiro que vem sendo construído 
no contexto dos novos serviços. 
Mas, apesar destas mudanças, é preciso reconhecer que na maioria das instituições 
psiquiátricas brasileiras, o trabalho desenvolvido por enfermeiros, técnicos, auxiliares de 
enfermagem ainda apresenta caraterísticas compatíveis com as que o definiam no modelo 
 
 
 3
assistencial manicomial, mesmo que se considere a diversidade de modelos de intervenção 
adotados e modos de estruturação e funcionamento organizacional (CAMPOS, 1999) que podem 
acarretar diferentes composições nas práticas de enfermagem realizadas também nos serviços 
hospitalares, sejam eles unidades psiquiátricas em hospitais gerais, sejam os hospitais 
psiquiátricos especializados. 
1. O TRABALHO DE ENFERMAGEM NOS SERVIÇOS DE SAÚDE MENTAL ORGANIZADOS 
SEGUNDO O MODELO MÉDICO 
Em pesquisas realizadas recentemente em serviços de saúde mental de âmbito hospitalar 
(KIRSCHBAUM, PAULA, 1999; MACHADO, 1999), observa-se que o trabalho de enfermagem 
realiza-se através de atividades voltadas quase que exclusivamente para o cuidado físico, a 
administração de medicamentos, a coleta de exames laboratoriais, a vigilância e a observação do 
comportamento dos pacientes com vistas a subsidiar as intervenções médicas ainda predomina na 
maior parte das instituições organizadas a partir do modelo médico tradicional (MENDES 
GONÇALVES, 1979) - ou seja, aquele em que o processo de trabalho se organiza em torno do 
ato médico e em que as demais ações são complementares e dirigidas a aumentar a eficácia deste. 
Também a realização de atividades de natureza administrativa, envolvendo desde as ações mais 
complexas (como o planejamento da assistência de enfermagem e a organização da distribuição 
dos membros da equipe de enfermagem) até as mais simples (como, por exemplo, a reposição de 
lâmpadas e almoxarifado) consomem uma parte significativa da jornada de trabalho dos 
enfermeiros, sendo vista por eles como um fator que os afasta da realização do cuidado direto, 
sendo este realizado majoritariamente pelos auxiliares e técnicos de enfermagem. É interessante 
notar que estes, por sua vez, raramente recebem algum preparo formal específico para cuidar de 
pacientes com transtornos mentais, em virtude da reduzidíssima carga horária teórico-prática 
destinada à Enfermagem Psiquiátrica e em Saúde Mental nos cursos de nível médio, sobretudo 
para os auxiliares de enfermagem, para quem a carga horária destinada ao ensino deste conteúdos 
é mínima (KIRSCHBAUM, OLIVEIRA, 1999). 
Apesar disto, é possível notar algumas mudanças no modo de pensar e agir de alguns 
profissionais de enfermagem inseridos nestes serviços, que relatam a situação recém descrita 
como algo vivenciado de um modo inquietante, insatisfatório e gerador de mal-estar. Dentre os 
motivos apontados para

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.