Prévia do material em texto
TRABALHO ESCRAVO E ANÁLAGO NA AMAZÔNIA E SUAS ATUAIS REPERCURSÕES JURÍDICAS. RESUMO A realidade contemporânea a respeito do trabalho escravo na Amazônia, em especial no Pará, demonstra-se como sendo, consideravelmente, a maior entre todas as outras regiões do Brasil(fonte: Comissão Pastoral da Terra - CPT e Ministério do Trabalho e Emprego - MTE). O Conceito referente a definição vigente análogo ao trabalho escravo tipificada no artigo 149 do Código Penal esbarra em novas discursões sobre um novo e possível conceito a respeito deste conceito contemporâneo. PALAVRAS-CHAVE: Trabalho em condição análoga a de escravo. Impunidade. Reincidência. aspectos jurídicos abordados ao tema. Dignidade da pessoa humana. CONSIDERAÇÕES INICIAS A aplicação do trabalho escravo no Brasil, em pleno século XXI, apresenta-se sob a junção de duas formas: a primeira é o trabalho forçado ou obrigatório; a segunda, o trabalho realizado em condições degradantes. Tal execução intolerável massacra os direitos fundamentais naquilo que a pessoa tem de mais sagrado: a dignidade. O trabalho escravo tem denegrido a imagem do nosso país, principalmente perante os órgãos internacionais como a ONU( Organização das Nações Unidas) e a OIT( Organização Internacional do trabalho). O governo federal só passou a receber, dos citados órgãos, o efetivo auxílio no combate à escravidão, após reconhecer, no ano de 1995, perante a comunidade internacional, a existência da prática no Brasil. Daquele ano até 2016, mais de 50 mil trabalhadores foram libertados de situações análogas a de escravidão em atividades econômicas nas zonas rural e urbana. Em 2003 foi implantado o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, cuja meta é eliminar essa prática nefasta do nosso país. Porém, apesar dos grandes avanços obtidos, a meta ainda não foi plenamente alcançada. É de se elogiar o empenho do governo, dos órgãos de fiscalização – MPT(Ministério Público do Trabalho, MTE(Ministério do Trabalho e Emprego), Grupos Móveis - da Polícia Federal e da Justiça do Trabalho, que, com a sua ação conjunta, já libertaram e resgataram mais de 25.000 trabalhadores do regime de escravidão. INTRODUÇÃO Analisar o conceito de trabalho escravo e seus elementos que os configuram. Observar quais os municípios da Amazônia, em especial do Pará, possui maior índice de trabalho escravo e suas consequências. Demostrar as leis que norteiam sobre o combate ao trabalho escravo. Demonstrar os efeitos da Definir formas de combate ao trabalho escravo. “Não explore um assalariado pobre e necessitado, seja ele um de seus irmãos ou imigrante que vive em sua terra, em sua cidade. Pague-lhe o salário a cada dia, antes que o sol se ponha, porque ele é pobre e sua vida depende disso. Assim, ele não clamará a Javé contra você, e em você não haverá pecado.” (Deuteronômio, 24, 14-15). DESENVOLVIMENTO Expressão “condição análoga à de escravo” não visa a uma situação jurídica; refere-se a um estado de fato em que a pessoa perde a própria personalidade; é tratada como simples coisa, privada de direitos fundamentais mínimos. A liberdade humana fica integralmente anulada, diante da submissão da pessoa a um senhor, reduzida à condição de coisa (res). Os elementos que configuram trabalho escravo, são: Trabalho forçado, trabalhador é obrigado a se submeter a condições de trabalho em que é explorado, sem possibilidade de deixar o local seja por causa de dívidas, seja por ameaça e violências física ou psicológica. Jornada exaustiva, sendo o expediente penoso, devido ao esforço excessivo e sobrecarga de trabalho e/ou a um período extenuante de atividade contínua, que vai além da questão das horas extras não pagas. Essa condição coloca a integridade física do trabalhador em risco, já que o intervalo entre as jornadas é insuficiente para a reposição de energia. Há casos em que o descanso semanal não é respeitado, impedindo o trabalhador de manter vida social e familiar. Servidão por dívida, sendo a fabricação de dívidas ilegais referentes a gastos com transporte, alimentação, aluguel, equipamentos de proteção individual e ferramentas de trabalho. Esses itens são cobrados de forma abusiva e descontados do salário do trabalhador, que permanece sempre devendo ao empregador e e é impedido de deixar o trabalho por causa da dívida. Condições degradantes Graves irregularidades que caracterizam a precariedade do trabalho e das condições de vida sob a qual o trabalhador é submetido (como a habitação na imagem ao lado), atentando contra a sua dignidade, como descrito no diagrama a seguir. Até a década de 1960, menos de um porcento das árvores da Amazônia havia tombada. De lá para cá, grandes projetos de extração de minérios, de geração de energia elétrica e, principalmente, de expansão da agropecuária impuseram um modelo de desenvolvimento predatório que já descasou um quinto do território original da floresta - dados obtidos do estudo O Futuro Climático da Amazônia(2014), inpe. Tudo em nome de um suposto “progresso” da Amazônia que jamais beneficiou a população local. A derrubada da mata nativa da Amazônia para o comércio de madeira e posterior formação de grandes fazendas sempre estiveram diretamente ligadas à superexploração do trabalho de migrantes pobres, vindo do Norte e Nordeste do país e transformados em mercadorias descartáveis. As primeiras denúncias sobre a existência da escravidão contemporânea vieram à tona ainda no começo dos anos 1970, pela voz do Dom Pedro Casaldáliga – bispo católico de São Felix do Araguaia, no Mato Grosso: “São geralmente os peões gente nova. Porém com frequência, pais de família com vários filhos. Iludidos quase sempre a respeito do pagamento, do lugar, das condições de trabalho, do atendimento médico. Tendo que pagar até a viagem – contra todo o estipulado num a posteriori decepcionante e forçado. Em sistema de empreitada que significa submeter-se, além do dono e seu gerente, às fraudes e abusos dos empreiteiros. Já na mata das fazendas, sem possibilidade de saída. Fechados no ‘inferno verde’. Controlados por pistoleiros e ‘gatos’.” O (triste) bicampeão, São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, ilustra de forma exemplar como os problemas do desmatamento e do trabalho escravo andam de mãos dadas na Amazônia. Até hoje, o município já perdeu uma área de vegetação nativa equivalente a 11 vezes o tamanho da cidade de São Paulo (SP). A floresta cedeu lugar a pastagens com 2,3 milhões de cabeças de gado. São Félix do Xingu tem 110 mil habitantes. Isso dá uma média de 21 bois para cada ser humano! Infelizmente, o município não ocupa apenas o topo do pódio do desmatamento. Também lidera o ranking do trabalho escravo. Entre 1995 e 2016, 1609 pessoas foram libertados por fiscais do Ministério do Trabalho de condições desumanas. Eles se dedicavam principalmente a atividades de formação de pastagens, que também envolvem a derrubada de mata nativa. O dado não deixa dúvidas sobre a relação direta entre o avanço da pecuária, o desmatamento e o trabalho escravo. Os dez municípios com maior número de trabalho escravo do Brasil estão na Amazônia: MUNICÍPIO NÚMEROS DE CASO NÚMERO DE TRABALHADORES 1. São Félix do Xingu (PA) 178 1609 2. Marabá (PA) 99 693 3. Açailândia (MA) 97 607 4. Rondon do Pará (PA) 66 530 5. Dom Eliseu (PA) 59 680 6. Pacajá (PA) 54 733 7. Novo Repartimento (PA) 53 226 8. Itupiranga (PA) 51 409 9. Goianésia (PA) 47 561 10. Água Azul do Norte (PA) 40 182 Fontes: CPT e MTE Conceitua-se ou denomina-se a nova forma de escravidão com vários nomes, entre eles os mais comuns são: escravidão por dívida e servidão; escravidão branca; trabalho forçado ou obrigatório e/ou em condições degradantes; trabalho em condições análogas às de escravo (art. 149 do Código Penal), e a forma mais usada e que adoto para o presente artigo: trabalho escravo. O artigo 149 do Código Penal brasileiro, em sua antiga redação, tipificava a conduta dotrabalho escravo como: “reduzir alguém à condição análoga à de escravo”, cuja penalidade era a de reclusão de 2 a 8 anos. A nova redação do citado artigo, após a alteração da Lei n. 10.803/2003, passou a dispor que: Art. 149. Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto: Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à violência. § 1º Nas mesmas penas incorre quem: I - cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho; II - mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho. § 2º A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido: I - contra criança ou adolescente; II - por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem. A antiga, como a nova redação, seguiu a expressão “condições análogas à escravidão” adotada pela Convenção da Sociedade das Nações, ocorrida em 1926, que proibiu a prática da escravidão, bem como o tráfico de escravos. E, segundo Cazetta (2006, p.108), a crítica que se faz à atual redação do artigo 149 do CP, alterado pela Lei n. 10.803/2003, é o fato de ela não ter incluído em seu dispositivo o que previam os atos internacionais a respeito de direitos humanos. Para esse autor, as omissões não tiraram a aplicabilidade do artigo, porém afirma que: As alterações legislativas, quando adotadas, não consideraram a realidade atual ou, ao fazê-lo, acabaram por diminuir a amplitude da repressão, excluindo hipóteses já anunciadas como merecedoras de punição. (CAZETTA, 2006, p.108). Segundo Feliciano (2005, p.111), o tipo objetivo do artigo 149 do CP pressupõe, para a existência do crime de trabalho escravo, que haja a ocorrência de 04 situações: a)- sujeição da vítima a trabalhos forçados; b)- sujeição da vítima a jornada exaustiva; c)- sujeição da vítima a condições degradantes de trabalho; d)- restrição, por qualquer meio, da locomoção da vítima em razão da dívida contraída com o empregador ou preposto. A propósito o Código Penal, no título IV - dos Crimes contra a Organização do Trabalho -, prevê no seu artigo 207, que: Aliciamento de trabalhadores de um local para outro do território nacional Art. 207 - Aliciar trabalhadores, com o fim de levá-los de uma para outra localidade do território nacional: Pena - detenção de um a três anos, e multa. § 1º - Incorre na mesma pena quem recrutar trabalhadores fora da localidade de execução do trabalho, dentro do território nacional, mediante fraude ou cobrança de qualquer quantia do trabalhador, ou, ainda, não assegurar condições do seu retorno ao local de origem. § 2º - A pena é aumentada de um sexto a um terço se a vítima é menor de dezoito anos, idosa, gestante, indígena ou portadora de deficiência física ou mental. Ao chegar ao seu destino, ou seja, nas fazendas para o trabalho, já acontecem as primeiras decepções, pois o avençado na hora do aliciamento não é cumprido e eles terão que pagar ainda pela alimentação (arroz, feijão, carne), pela rede para dormir e até pelos instrumentos de trabalho e de proteção individual, como enxadas, botas, luvas, chapéus etc. O combinado era que tais instrumentos de trabalho e a alimentação seriam custeados pelo patrão, como lhes era de direito. (SENTO-SÉ, 2001, p. 46). Os objetos e mantimentos são anotados em uma cadernetinha no armazém improvisado pelo fazendeiro/empreiteiro e serão descontados já do primeiro salário do trabalhador, de uma só vez. E, a dívida vai crescendo e comprometendo o salário do trabalhador por meses a fio, acrescida do que ele deve ao gato. Essa espécie de escravidão é tratada por alguns como truck-system ou, sistema do barracão, consistente no aprisionamento do trabalhador por dívidas contraídas em decorrência do trabalho. A prática acima exposta é proibida pela Convenção n. 95 da Organização Internacional do Trabalho, quando dispõe que nenhuma empresa poderá pressionar seus trabalhadores a comprar produtos em suas lojas; e, quando lhes faltar alternativa, as autoridades devem tomar medidas para que as “mercadorias sejam fornecidas a preços justos e razoáveis ou sem fins lucrativos”. Esse entendimento é seguido pelo § 2º do art. 462 da CLT. A nova Portaria MTB( Ministério de Estado do Trabalho) de nº 1129 de 13 de outubro de 2017, assinada pelo Michel temer muda normas para caracterizar o que é ou não é uma atividade análoga à escravidão, segundo ele existe um conjunto de novas regras que, na prática, dificultam o combate ao trabalho escravo no país. Uma das principais mudanças diz, por exemplo, que para que haja a identificação de trabalho forçado, jornada exaustiva e condição degradante, é preciso ocorrer a privação do direito de ir vir, o que no Código Penal não é obrigatório. A portaria deixa também nas mãos do ministro do Trabalho - e não mais da equipe técnica- a inclusão de nomes na chamada "lista suja", que reúne empresas flagradas com trabalho análogo à escravidão. Porém, As mudanças atendem a uma demanda antiga da bancada ruralista no Congresso e ocorrem justamente na semana em que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara analisou a segunda denúncia contra o Temer no âmbito da Lava Jato. Em nota, o Ministério do Trabalho afirmou que a portaria "aprimora e dá segurança jurídica à atuação do Estado Brasileiro" no combate ao trabalho escravo. A nova portaria, agora, definirá a condição análoga à de escravo, significa, obrigar o trabalhador a realizar tarefas, com o uso de coação e sob ameaça de punição; impedir que o trabalhador deixe o local de trabalho em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto; manter segurança armada a fim de reter o trabalhador em razão da dívida; retenção de documento pessoal do trabalhador. No entanto, As críticas e risco deste caso permite que uma pessoa seja submetida a condições degradantes e jornadas exaustivas, ela não poderá ser caracterizada mais como um trabalhador escravo. Possibilitará a nova portaria que todas as variáveis, a partir de agora, que determinem o que é trabalho escravo tem que estar presentes no momento da fiscalização. Se, por exemplo, não for identificado jornada exaustiva, segundo o atual critério, fica invalidado o trabalho análogo a escravidão. Todavia, as críticas e risco deste caso possibilita a nova portaria burocratiza o trabalho de fiscal a quem cabe o ônus da prova do trabalho escravo. A jornada exaustiva, por outro lado, ficaria mais difícil de ser provada numa visita de fiscalização. Induzirá à nova portaria para atualização da lista suja deverá ser feita duas vezes por ano, no site no Ministério do Trabalho. A polêmica, no entanto, está por conta da forma como os nomes serão inseridos na lista. Anteriormente, um departamento técnico era o responsável pela divulgação. Agora, somente com a autorização do Ministro do Trabalho é que o nome de uma empresa poderá constar no documento. Não obstante, as críticas e risco deste caso outorgará ao ministro o poder de postergar a inclusão de empresas na "lista suja" e a escolha pode se tornar menos técnica e mais política. Essa nova portaria além de trazer insegurança jurídica, permitirá impunidades que trará consigo reincidências perdurando em práticas delituosas de infratores no que concerne ao trabalho escravo no Brasil ferindo a basilar de todas das normas jurídicas, Constituição Federal, a priori a dignidade da pessoa humana, elencado no seu artigo 1°, inciso III. CONCLUSÃO Firma-se como desfecho que a prática do trabalho escravo no Brasil, em pleno século XXI, não foi erradicada ainda, em função de uma série de fatores que propiciam tal prática, quer seja, em primeiro, a desigualdade social e econômica, em segundo, a impunidade e, emterceiro, a reincidência. A desigualdade social e econômica é uma consequência da má distribuição de renda, quando uns são muito ricos e a maioria é muito pobre. No rol desses muito ricos, estão os latifundiários, proprietários de fazendas com grande extensão de terras e, por outro lado, os abaixo da linha de pobreza: os trabalhadores aliciados para prestar serviços para aqueles. Haja vista que a maioria desses trabalhadores advém de cidades e pequenos povoados pobres da região nordeste para trabalhar geralmente em cidades do Norte, como o estado do Pará. Apesar de ter uma população na maioria pobre, o estado do Pará conserva uma elite de “donos de fazendas” de grande poder aquisitivo. Esse contraste social e econômico é visível e faz com que esses poderosos proprietários mandem e desmandem. Alguns desses grandes fazendeiros, que mantêm o trabalho escravo em suas fazendas, em alguns casos pertencem ou têm influência direta ou indireta sobre a alta cúpula do governo federal ou estadual, onde ocupam cargos públicos de deputados federais ou estaduais, de senadores, de governadores e até nos municípios, onde muitos são prefeitos ou vereadores. A sensação que tenho é que o estado do Pará é um estado “sem lei”, apesar de os órgãos do Judiciário e do Executivo estarem ali presentes. Nele predomina, ainda, a lei dos “coronéis”, pela qual o que vale é o poder econômico. Os grandes latifundiários são uma espécie de senhores feudais modernos, pois, em seus territórios, fazem suas próprias leis e estão acima delas. Tais leis só valem para a população pobre, na sua maioria os trabalhadores rurais, que são aliciados para trabalhar para eles, em regime de escravidão. Se alguém os contesta é perseguido e até assassinado como nos casos da missionária americana Dorothy Stang e Chico Mendes, ambos mortos por pistoleiros a mando de fazendeiros, em virtude de ter denunciado o trabalho escravo naquele estado. A impunidade ocorre, também, em função de que as fazendas que exploram o trabalho escravo estão localizadas em meio à mata cerrada, cujo acesso é difícil até para os órgãos de fiscalização móvel e seus auxiliares, pois, para entrar nessas fazendas, eles não contam com veículos adequados, pois, como já foi dito, as estradas são muitas vezes esburacadas, sem asfalto e perigosas. A ocorrência de tal prática, na maioria das vezes, só é conhecida pelos órgãos de fiscalização, quando um trabalhador aliciado consegue fugir das fazendas e os procura, no que esses órgãos agem prontamente e providenciam o transporte para o resgate dos trabalhadores. O resgate, devido à difícil localização da fazenda, às vezes só pode ser realizado através de transporte aéreo (helicópteros, aviões de pequeno porte). A criminalização do delito de trabalho escravo, contida no artigo 149 do CP, não tem sido posta em prática como deveria; isso ocorre devido, como vimos, às dificuldades que os auditores fiscais encontram para conseguir as provas. A dificuldade dá-se porque, depois da libertação e do resgate, esses trabalhadores retornam para a sua terra natal ou vão trabalhar em outras fazendas, tornando difícil a sua localização para o acompanhamento do andamento da ação penal intentada pelo Ministério Público contra seu ex-patrão. Além do que, como vimos, em alguns casos os próprios fazendeiros ou seus auxiliares mudam o ambiente onde ocorreu o trabalho escravo, objetivando, com isso, a sua não incriminação pela referida prática. É necessária a existência de uma legislação mais rígida para o fazendeiro, que, após ser autuado, continua a manter trabalhadores sob o regime de escravidão, na mesma fazenda ou em outra do mesmo grupo econômico. Entendo que o fazendeiro reincidente se julga acima da lei, brinca com ela e desrespeita a Justiça e os órgãos públicos constituídos como um todo. REFERÊNCIAS HUNGRIA, Nélson. Comentários ao Código Penal. v. 6, 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 1955. ANDRADE, C. E. A. M . D. Do crime de redução à condição análoga à de escravo na legislação, doutrina e jurisprudência, Rio Grande, março 2012. Disponivel em: <http: / / www.ambito-juridico.com.br/ site/? BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, Brasília, 7 dezembro 1940. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, Brasília, 5 outubro 1988. M ELO , L. A. C. D. Trabalho Escravo Contemporâneo. Revista do Tribunal Superior do Trabalho / TST, Brasília, 75, janeiro/ março 2009. Disponivel em: <http:// aplicacao.tst . jus.br/ dspace/ bitstream/ handle/ 1939/6567/> . Acesso em 27 janeiro 2013. ONU. Declaração Universal dos Direitos Humanos, 10 novembro 1948. CHAVES, Valena Jacob. A utilização de mão-de-obra escrava na colonização e ocupação da Amazônia. Os reflexos da ocupação das distintas regiões da Amazônia nas relações de trabalho que se formaram nestas localidades. In: VELLOSO, Gabriel; FAVA, Marcos Neves (coords.). Trabalho escravo contemporâneo: o desafio de superar a negação. São Paulo: ANAMATRA/LTr, 2006. p. 89 e segs. Brasil. Ministério do Trabalho. Portaria nº 1129, 13 outubro de 2017. Disponível em: <http://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=7232841&disposition=inline>