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mundo. 
 
3. Pronome pessoal: os pronomes pessoais são os pronomes dêiticos que apontam para um 
objeto (indivíduo) no mundo. 
 
 (5) Nós estamos muito felizes com a sua atuação. 
 
 
 5 
O pronome nós aponta para a pessoa que fala e mais alguém que temos que identificar no 
mundo. 
 
B) Sintagmas Nominais Definidos Não-Referenciados: 
 
 Um sintagma nominal definido pode ocorrer como complemento do verbo ser, 
podendo, então, ter uma função predicativa, e não uma função de sintagma nominal 
referenciado. Por exemplo: 
 
 (6) O Lula é o presidente do Brasil. 
 
Ser o presidente do Brasil pode se encaixar no tipo de referência estabelecida pelos sintagmas 
verbais e uma classe de indivíduos no mundo, a dos presidentes do Brasil. Entretanto, existe 
uma segunda leitura da sentença em (9), que estabelece uma relação de identidade entre dois 
referentes, e, portanto, os dois sintagmas nominais acima funcionam como sintagmas 
referenciais. Nesse tipo de ocorrência, pode-se inverter a ordem dos sintagmas, que a leitura 
definida dos dois sintagmas se mantém: 
 
(7) O presidente do Brasil é o Lula. 
 
C) Referência Geral Distributiva e Coletiva: 
 
(8) Aqueles livros custam cem reais. 
 
Se o sintagma aqueles livros for interpretado como significando cada um daqueles livros, o 
sintagma nominal está se referindo aos objetos no mundo de uma maneira distributiva; ou 
seja, cada livro custa cem reais. Se significar aquele conjunto de livros, está se referindo ao 
grupo de objetos no mundo de uma maneira coletiva; ou seja, todos os livros juntos custam 
cem reais. 
 
 
 
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D) Referência Indefinida Específica e Não-Específica: 
 
(9) Todas as noites, um morcego entra em nossa casa. 
 
Um morcego é um sintagma nominal indefinido, entretanto pode se referir a um indivíduo 
único, específico, embora não identificado. Poderíamos completar a sentença em (9), da 
seguinte maneira: 
 
 (10) Acredito que é ele quem deixa estas cascas de frutas aqui na sala. 
 
Portanto, em uma primeira interpretação, a sentença (9) pode ter um tipo de referência 
indefinida, mas específica. Entretanto, em uma segunda interpretação, (9) pode não se referir 
a um indivíduo específico, mas a qualquer morcego. Por exemplo, eu poderia completar (9) 
da seguinte maneira: 
 
 (11) Acredito que deve ter um bando deles por aí. 
 
Dizemos que o sintagma nominal indefinido é usado não especificamente. 
 
E) Referência Genérica: 
 
(12) O leão é um animal pacífico. 
(13) Um leão é um animal pacífico. 
 (14) Os leões são animais pacíficos. 
 
Cada uma das sentenças acima pode ser usada para afirmar uma proposição genérica, isto é, 
uma proposição que diz alguma coisa não sobre um leão específico, ou sobre um grupo de 
leões, mas a referência se estende à classe dos leões como um todo. As proposições 
genéricas, em geral, não são marcadas temporalmente. 
 
 
 
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1.2 Problemas para uma Teoria da Referência 
 
 Segundo Kempson (1977), existem vários estudos na literatura que mostram que há 
várias razões para se acreditar que uma teoria do significado que tente explicar todos os 
aspectos do significado de palavras em termos de referência está equivocada. Enumeremos 
esses problemas, segundo a autora. Uma primeira observação é que existem várias palavras 
que parecem não ter referentes no mundo, como, por exemplo, os nomes abstratos. Ainda que 
se possa dizer que a relação de referência se sustente entre uma palavra como imaginação e 
certa classe de objetos abstratos que constituem atos de imaginação, não há sentido em 
afirmar que palavras como e, não, se refiram-se a alguma coisa. Também as preposições 
apresentam problema semelhante: a que se referem palavras como de, em, com etc.? Palavras 
como que, como? Ou seja, a que se referem as palavras conhecidas como gramaticais ou 
funcionais? Se essas palavras não têm referentes e os significados são dados a partir da 
referência, podemos erroneamente concluir que essas palavras não têm significado. Mas os 
falantes sabem que isso não ocorre e são perfeitamente capazes de atribuir uma significação 
de adição ao e, por exemplo. 
 Um segundo problema aparece entre expressões referenciais e objetos inexistentes: a 
referência pode ser a mesma. Será difícil, para uma teoria que explique o significado 
exclusivamente em termos de referência, evitar prever a sinonímia entre as seguintes 
expressões: pterodáctilo, unicórnio, primeira mulher a pisar na lua. Ou seja, como essas 
palavras não têm referentes, pode-se, perfeitamente, associar a todas uma mesma referência, a 
classe nula, e se o significado é dado em termos de referência, concluímos que essas palavras 
sejam sinônimas. Entretanto, como conhecedores da língua, sabemos que isso não ocorre. 
Veja que, pela mesma razão, uma expressão como o primeiro homem a descer na lua será 
classificada diferentemente da expressão a primeira mulher a descer na lua, porque, no 
primeiro caso, há um referente real no mundo; no segundo, temos uma classe nula com a qual 
a expressão mantém uma relação referencial. Também essa classificação não nos parece 
interessante teoricamente. 
 Um terceiro problema que podemos detectar para a relação significado e referência 
diz respeito à análise de substantivos comuns, que se referem a um conjunto de objetos. Nos 
 
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exemplos abaixo, em que sentido poderíamos dizer que existe uma relação de referência, 
consistente e identificável, entre a palavra iguana e o conjunto de objetos a que ela se refere? 
 
 (15) As iguanas são muito comuns. 
 (16) Estão extintas as iguanas? 
 (17) O Professor João está procurando iguanas. 
 
Em (15), a palavra refere-se a uma classe de objetos existentes no mundo, ou seja, a classe 
das iguanas. Entretanto, em (16), dependendo da resposta à pergunta, se for negativa, por 
exemplo, a palavra iguana refere-se à mesma classe de objetos existentes em (15); se for 
positiva, refere-se a uma classe nula. Em (17), também temos problemas: em uma 
interpretação, poderíamos dizer que há, pelo menos, duas iguanas específicas que o professor 
está procurando; mas, em outra interpretação, ele poderia estar apenas procurando, sem que 
exista necessariamente esse objeto. Conforme essa última interpretação, não faria sentido 
perguntar a que objetos a palavra iguanas refere-se. 
 Um último problema apontado por Kempson (1977) é em relação ao caso 
paradigmático da referência, os nomes próprios. Existe uma diferença importante entre eles e 
qualquer outra categoria sintática, no que diz respeito à noção de referência. Enquanto há, 
para os nomes próprios, uma correspondência um a um entre palavra e objeto, não fica 
evidente que os nomes próprios tenham algum sentido. Parece estranho perguntarmos: "qual 
é o sentido da expressão 'Noam Chomsky'?" Podemos apenas perguntar: "a quem se refere a 
expressão 'Noam Chomsky'?"
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 Esse comportamento nos leva a concluir que, pelo menos do 
ponto de vista semântico, os nomes próprios não devem se assemelhar às outras classes de 
palavras. Entretanto, se assumirmos essa posição, a suposição original de que existe uma 
semelhança entre as várias propriedades gramaticais dos nomes próprios e das outras classes 
de palavras, tais como, nomes comuns, verbos, adjetivos etc., será errônea. 
 Existem mais dois problemas em relação ao uso somente da referência para se estudar 
o significado, apontados por Frege (1982): a questão da identidade entre dois sintagmas 
nominais e a questão dos complementos de verbos do tipo acreditar, querer, achar etc.: o 
 
3
 Essa não é a posição de Frege, que assume que os nomes próprios possuem um sentido. Há uma extensa 
discussão na literatura a respeito dessa questão. Sigo aqui a posição de Kempson, que certamente se baseia na 
teoria do filósofo Saul Kripke (1980). 
 
 9 
conhecido contexto indireto ou opaco, estudado por Frege

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