A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
21 pág.
cap 5

Pré-visualização | Página 3 de 6

e, posteriormente, por Quine 
(1960). Frege mostra, através das análises dessas duas questões, que somente a referência não 
é suficiente para a compreensão do significado; é necessária também a noção de sentido. É o 
que estudaremos a seguir. 
 
 
1.3 Exercícios 
 
I. Explique a noção de referência, utilizando um exemplo linguístico. 
 
II. Associe os tipos de expressões existentes na língua às suas possíveis referências no 
mundo. Dê exemplos. 
 
III. A partir da explicação acima, estabeleça a referência para os sintagmas e para as 
sentenças abaixo: 
 
1) Aquela mulher bonita, parada ali na esquina 
2) Pavaroti é italiano. 
3) ser inglês 
4) unicórnio 
5) saudade 
6) O presidente do Brasil é o FHC. 
7) O Pelé 
8) ser amável 
9) Aquela moça que escreveu o poema mais lindo da escola 
10) Noam Chomsky, o linguista norte-americano 
 
IV. Identifique os tipos de sintagmas nominais nas sentenças abaixo e as diferentes 
possibilidades de referências. 
 
1) João falou demais ontem. 
 
 10 
2) Nós precisamos estudar semântica. 
3) Aquela moça ali na escada está chamando. 
4) O cachorro é amigo do homem. 
5) Os alunos comeram seis sanduíches. 
6) João é um tenista brasileiro. 
7) Todo dia, às sete horas da manhã, eu escuto um sino tocando. 
8) Eu adoro semântica. 
9) Aquele homem de barba azul, barrigudo, é perigoso. 
10) Os estudantes não podem fumar na sala. 
 
V. Segundo Kempson, há várias razões para se acreditar que uma teoria do significado que 
tente explicar todos os aspectos do significado de palavras em termos de referência estará 
errada. Quais são essas razões? 
 
 
2. Sentido 
 
 Vimos na sessão anterior que usar somente a noção de referência seria uma maneira 
ingênua e não eficaz de abordar a questão do significado. Entretanto, a noção de referência é 
fundamental para uma teoria que queira passar informações sobre os objetos no mundo. Para 
solucionar esse problema, o lógico e filósofo Gottlob Frege (1892) propõe que as expressões 
não somente estabelecem uma relação de referência com o mundo, mas ainda possuem um 
sentido (ou, como também é chamado, intensão). A referência é a identidade apontada por 
uma expressão linguística, em determinado contexto de uso. O sentido é o modo no qual a 
referência é apresentada, ou seja, o modo como uma expressão linguística nos apresenta a 
entidade que ela nomeia. Por exemplo, a referência da expressão o presidente do Brasil, no 
ano de 2004, é o indivíduo Luis Inácio Lula da Silva apontado pela expressão. Já o sentido é 
alguma coisa como o conceito associado à expressão em questão, da qual podemos ter várias 
paráfrases: o chefe do estado brasileiro, a pessoa que governa o Brasil etc. Assumindo-se, 
pois, que o sentido tem relação direta com o conceito que temos sobre as expressões 
linguísticas, podemos acrescentar, ainda, que o sentido refere-se ao sistema de relações 
 
 11 
linguísticas que um item lexical contrai com outros itens lexicais, ou que o sentido de uma 
expressão é o lugar dessa expressão em um sistema de relações semânticas com outras 
expressões da língua. Só poderemos chegar ao conceito de uma expressão linguística, se 
conhecermos o sistema lexical da língua em questão e como esses itens relacionam-se. Por 
exemplo, o sentido da expressão chefe do estado brasileiro só pode ser captado se tenho os 
conceitos do que sejam as palavras chefe, de, o, estado, brasileiro, e como é o sistema 
linguístico que compõe essas palavras em uma expressão com sentido. 
 Já vai tornando-se evidente para o leitor que definir sentido é uma tarefa 
extremamente abstrata. Entretanto, é importante observar que essa é uma abstração que tem 
um lugar real na mente do falante de uma língua. Quando alguém entende completamente o 
que outro diz, é perfeitamente razoável admitir que essa pessoa captou o sentido da expressão 
que ela ouviu. Tentarei, pois, no decorrer do capítulo, tornar mais clara essa definição, 
associando-a a tipos de fenômenos determinados. 
Frege (1978, apud Pires de Oliveira, 2001: 106) argumenta que "a referência de um 
nome é o próprio objeto que por seu intermédio designamos; a representação que dele temos 
é inteiramente subjetiva; entre uma e outra está o sentido que, na verdade, não é tão subjetivo 
quanto a representação, mas que também não é o próprio objeto". Para ilustrar essa distinção, 
Frege usa a seguinte metáfora: suponhamos que alguém esteja olhando a lua através de um 
telescópio. O autor compara a própria lua à referência; ela é o objeto de observação, 
proporcionado pela imagem real projetada pela lente no interior do telescópio e pela imagem 
na retina do observador. A imagem real projetada pela lente, Frege compara ao sentido. A 
imagem da retina, o filósofo compara à representação mental
4
. O sentido, assim como a 
imagem projetada que serve a vários observadores, é objetivo; o sentido é único, imutável e é 
o que nos capacita a efetivar a comunicação com o outro. Já a imagem na retina é subjetiva e 
varia de observador para observador. 
Ilustremos essa metáfora com um exemplo linguístico. Imaginemos a expressão a 
cadeira. Posso apostar que você pensou em alguma coisa como lugar para se assentar, com 
pés e encosto, ou seja, algum conceito da palavra cadeira. Portanto, o sintagma nominal a 
 
4
 Veja que a representação mental para Frege difere da representação mental proposta pelos linguistas 
mentalistas, que acreditam haver um sistema estruturado e único em nossas representações mentais, ou seja, 
além de se ter uma parte subjetiva em nossa mente, como Frege assume, também o sentido faria parte dessa 
representação mental. Ver comentários sobre isso nos capítulos 6 e 7. 
 
 12 
cadeira terá como sentido esse conceito que todos temos da palavra cadeira. Já sobre qual 
cadeira específica eu estou falando, só podemos saber se formos ao mundo e localizarmos a 
cadeira sobre a qual eu estou falando, ou seja, se localizarmos a referência da expressão 
proferida. Conhecer o sentido da expressão a cadeira, relacionar esse sentido à sua referência 
no mundo, é o que Frege chama de entender o significado de algo
5
. Pensemos, ainda, que, 
quando a expressão linguística foi proferida, um de nós a associou ao descanso, outro 
lembrou que sua cadeira estava quebrada, e assim por diante. Essas associações seriam as 
representações mentais subjetivas de cada indivíduo. 
Mais especificamente, Frege propõe que a referência de uma expressão depende do 
seu sentido e das circunstâncias. Por exemplo, pode-se determinar a referência de a estrela da 
manhã, achando-se, no mundo, aquilo que coincide com essa descrição, desde que 
conheçamos o sentido da expressão a estrela da manhã e saibamos em quais circunstâncias 
podemos encontrar esse referente. De acordo com esse ponto de vista, o significado deve ser 
analisado em duas dimensões complementares: o significado de uma expressão A está na 
relação que A tem com o seu sentido e sua referência. Por exemplo, o significado da 
expressão A (estrela da manhã) está em conhecer o sentido de A (o conceito de estrela que é 
a última a desaparecer na manhã) e achar no mundo a referência de A (o planeta Vênus). 
 Vejamos outro exemplo que Frege mostra para exemplificar o que seja sentido. 
Imaginemos um triângulo e as linhas a, b, e c, que ligam os vértices do triângulo com os 
pontos médios dos lados opostos desse triângulo: 
 
 (18) a 
 
 b c 
 
5
 Gostaria de salientar que essa é a minha interpretação da relação de sentido e referência de Frege. O que se 
comprova na literatura é que mesmo os semanticistas assumem não saber definir exatamente o que seja a 
noção de sentido, apesar de todos concordarmos que o sentido existe. Como comentam Hurford & Heasley 
(1983), a noção de sentido é um

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.