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saberes.senado.leg.br
Relações
 Internacionais:
Teoria e História
MÓDULO I - CONCEITOS ELEMENTARES E CORRENTES 
TEÓRICAS DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS 
 
Unidade 1 - As Relações Internacionais no Mundo Contemporâneo: Dilemas e 
Perspectivas 
Unidade 2 - Conceitos Fundamentais 
Unidade 3 - Correntes Teóricas das Relações Internacionais 
Unidade 4 - O Realismo 
 
 
Unidade 1 - As Relações Internacionais no Mundo 
Contemporâneo: Dilemas e Perspectivas 
 
Ao final desta Unidade inicial, o aluno 
deverá estar apto a: 
identificar os principais pontos da 
agenda de relações internacionais 
contemporâneas; 
estabelecer o conceito e as 
características da Globalização; 
estabelecer a importância das 
relações internacionais para o Brasil; 
 assinalar a evolução histórica e a 
importância de Relações 
Internacionais como disciplina 
acadêmica. 
 
 
 
 
 
 
As Relações Internacionais no mundo contemporâneo 
 
Antes de iniciar os estudos desta unidade, assista ao primeiro vídeo 
educacionalda série: Conexão Mundo ("Aldeia Global - Mundo Digital"), 
disponível no youtube. 
https://youtu.be/HTil3nMmCoU 
 
 
Conexão Mundo é uma série de 20 programas sobre relações internacionais 
que oferece informações necessárias à compreensão dos novos processos de 
intercâmbio entre as nações. Os programas enfocam toda a história das 
relações entre os povos, os tratados e políticas para a nova ordem 
internacional e procuram desvendar conceitos como o de “globalização”, 
“blocos econômicos” etc. 
 
 
 
 
Em um curso de educação a distância por meio da Internet, o estudante tem 
um papel central no estabelecimento de uma relação de qualidade com o 
conteúdo proposto. Portanto, procure organizar-se para ter o melhor 
aproveitamento possível do curso. 
 
As últimas décadas do século XX foram marcadas pela intensificação das 
relações entre os povos, de uma maneira como nunca experimentada 
anteriormente. Cada vez mais, as distâncias estão menores, tempo e espaço 
perdem o significado que tinham para nossos pais e avós, e as pessoas de 
diferentes locais do globo tomam consciência de que “a menor distância entre 
dois pontos é uma tecla”. 
O século XXI chegou trazendo grandes conquistas: o mundo está menor, 
globalizado, interligado física e eletronicamente; pode-se tomar café em Londres 
e almoçar em Washington; as fronteiras perdem sua importância; o sistema 
internacional vê-se cada vez mais integrado; a tecnologia alcança milhões de 
pessoas, e não há limite ao conhecimento humano. O último século do segundo 
milênio presenciou uma evolução tecnológica inimaginável! 
 
O Processo de Globalização 
 
O termo globalização pode ser 
entendido como fenômeno de aceleração e 
intensificação de mecanismos, processos e 
atividades, com vista à promoção de uma 
interdependência global e, em última escala, à 
integração econômica e política em âmbito 
mundial. Trata-se de conceito revolucionário, 
envolvendo aspectos sociais, econômicos, 
culturais e políticos. Registre-se, ademais, que 
essa é apenas uma das várias conceituações do fenômeno, o qual não é recente, 
mas se acelerou a partir da segunda metade do século XX. 
Um dos aspectos mais importantes da globalização envolve a ideia 
crescente do “mundo sem fronteiras”. Isso é perceptível em termos como “aldeia 
global” e “economia global”. Poucos lugares do mundo estão a mais de dez dias 
de viagem, e a comunicação através das fronteiras é praticamente instantânea. 
 
Em nossos dias, com as economias interligadas, blocos se formam, com 
consequências que ultrapassam os benefícios econômicos, pois as conquistas 
sociais e políticas de um membro do bloco logo deverão chegar aos territórios 
de todos os outros. Princípios como a democracia e a prevalência dos direitos 
humanos podem ser defendidos e arguídos em troca de benefícios econômicos. 
Cite-se, por exemplo, o caso de países como Grécia, Portugal e Espanha, que, 
para serem aceitos na então Comunidade Europeia, tiveram que promover 
importantes mudanças econômicas, sociais e políticas. O mesmo se aplica à 
Turquia, que aspira a tornar-se parte da moderna Europa. 
No caso do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), há a chamada 
"cláusula democrática", a qual estabelece que apenas países sob regimes 
democráticos podem participar do bloco. Essa cláusula evita as alternativas 
autoritárias em alguns países do Mercosul, em momentos de crise institucional. 
Assim, o atual processo de globalização envolve a integração econômica 
mundial em diversos níveis, com a redução das distâncias em virtude do 
desenvolvimento de mecanismos de produção e distribuição de bens em escala 
global, e do fortalecimento dos meios de comunicação. Nesse contexto, novos 
atores, como as organizações não governamentais, as empresas transnacionais, 
a opinião pública e a mídia, ganham destaque ao influenciarem a conduta dos 
Estados. 
 
 
Uma leitura essencial sobre o tema é o artigo de Paulo Roberto de Almeida, 
 
“Contra a Antiglobalização”. 
 
 
 
Dilemas da Globalização 
Entretanto, a globalização também é marcada por problemas em escala 
mundial. Nesse sentido, há a criminalidade, que ultrapassa as fronteiras dos 
Estados, com organizações criminosas exercendo suas atividades ilícitas no 
âmbito internacional. Crimes como o narcotráfico, o tráfico de armas, o tráfico de 
pessoas e de animais e a pirataria, todos esses há muito não são problemas 
exclusivos de um ou outro país, mas questões globais que devem ser encaradas 
sistemicamente. E a base do crime organizado é a lavagem de dinheiro, que 
movimenta cerca de um trilhão de dólares por ano no mundo, ou 4% do Produto 
Interno Bruto (PIB) mundial, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). 
Assim, ao lado das grandes conquistas, há novos e grandes desafios: 
parte significativa da população mundial ainda permanece no século XIX. 
Nações ricas e prósperas convivem com Estados que comportam milhões de 
miseráveis. Alguns locais do globo ainda não saíram da Idade Média! Novas e 
antigas doenças afligem milhões. Cite-se, ainda, a parte significativa da raça 
humana que sofre com a fome, a pobreza, as guerras. A sociedade internacional 
presencia crises econômicas, políticas, culturais e sociais. E o destino da 
humanidade permanece uma grande incógnita. 
 
Meio Ambiente, Direitos Humanos, Conflitos Internacionais 
Outro importante tema de relações internacionais neste mundo 
globalizado envolve os problemas ambientais. Cada vez mais a humanidade 
toma consciência de que o meio ambiente não pode ser tratado como assunto 
interno dos Estados e que os danos ambientais ultrapassam as fronteiras. A terra 
é um corpo único e seus recursos são patrimônio de todos os seres humanos e 
das futuras gerações. Daí que os males causados ao meio ambiente afetam toda 
a humanidade. 
Convém registrar que, para Relações Internacionais como disciplina 
acadêmica ou área do conhecimento, empregaremos iniciais maiúsculas, 
enquanto que, quando nos referirmos ao objeto de estudo, usaremos o termo 
em minúsculas. 
 
No último quartel do século XX, a proteção ao meio ambiente passou a 
ser uma das grandes preocupações da comunidade internacional, não só na 
esfera de governo, mas também entre todos os habitantes do planeta. A 
Conferência do 
Rio de Janeiro de 1992 exerceu essa salutar influência, e multiplicaram-
se nas últimas décadas os tratados sobre todos os aspectos ambientais, tanto 
assim que se calcula em mais de mil os tratados internacionais assinados sobre 
o tema. 
Também a proteção aos direitos humanos é um assunto em voga,sobretudo quando notícias de violações a esses direitos nos chegam de todas 
as partes do planeta. No moderno sistema internacional, agressões contra uma 
pessoa devem ser consideradas crimes contra toda a raça humana. O intenso 
trabalho das cortes internacionais de direitos humanos na Europa e no 
continente americano refletem essa nova realidade. 
Ademais, à medida que nos aproximamos uns dos outros, surgem 
também os conflitos, outro componente marcante da agenda internacional desde 
sempre. E no extremo dos conflitos, temos a guerra, sob suas diferentes formas. 
Nesse sentido, o século XX foi marcado por uma grande quantidade de guerras 
por todo o globo, inclusive com dois conflitos que envolveram praticamente toda 
a sociedade internacional. 
De fato, uma das grandes certezas do século XXI é que nele ainda 
presenciaremos o fenômeno da guerra. Entretanto, alguns cogitam mesmo que 
a guerra, neste século, não será mais entre países, mas entre civilizações 
(HUNTINGTON, 1998). 
 
Importância do conhecimento de Relações Internacionais 
Eis, portanto, o grande paradoxo global: ao lado de grandes conquistas, 
grandes desafios! E é nesse contexto que se percebe a necessidade de 
conhecimento das relações internacionais. Atualmente, quem não estiver 
informado sobre o que ocorre no mundo poderá ver-se bastante limitado, pessoal 
e profissionalmente. 
Hoje, a sociedade internacional está tão interligada, tão integrada em um 
processo de globalização, que situações ocorridas na China podem afetar a nós, 
brasileiros, do outro lado do planeta. Daí que o problema do outro passa a ser 
também um problema nosso, e o bem-estar de cada homem passa a significar o 
bem-estar de toda a humanidade. Nesse contexto, se você não é parte da 
solução, é parte do problema! 
 
 
Assista à aula proferida pelo Professor Doutor Joanisval Brito Gonçalves, por 
ocasião de curso presencial ministrado no ILB. Aqui 
Aumente o som de seu equipamento e bons estudos! 
https://youtu.be/KvPHAAnXsgQ 
 
 
O Brasil e as Relações Internacionais 
Como quinto maior país do globo em população e dimensão territorial, e 
estando entre as maiores economias do planeta, com condições e pretensões 
de se tornar uma grande potência, o Brasil não pode se furtar a ter um papel de 
destaque nas relações internacionais. As transformações e acontecimentos no 
mundo globalizado farão cada vez mais parte de nosso dia a dia, em uma 
tendência praticamente irreversível. 
Estamos estrategicamente localizados, temos fronteiras com 
praticamente todos os países sul-americanos, e com o Atlântico, principal via 
para a Europa e a África. Ademais, somos uma nação tida como pacífica e 
respeitadora do direito internacional e com incontestáveis atributos de liderança 
regional. Finalmente, não devemos desconsiderar nossas maiores riquezas: os 
recursos naturais e um povo multiétnico, empreendedor e, nos dizeres de 
Gilberto Freyre, com suas peculiares “características antropofágicas”. 
Pouco significativa diante de suas potencialidades é a atuação brasileira 
no cenário internacional. Apenas nas últimas décadas do século XX é que o 
Brasil começou a se fazer mais presente. Isso coincide com o surgimento e o 
desenvolvimento dos primeiros cursos de Relações Internacionais no País e com 
o aumento do interesse nas questões internacionais por parte de diversos 
setores da nossa sociedade. 
É premente a necessidade de que os brasileiros tenham algum 
conhecimento de Relações Internacionais. Na Administração Pública, essa 
demanda é mais evidente. No Poder Legislativo, é fundamental que aqueles que 
assessoram os legisladores conheçam as principais linhas da política 
internacional tão bem quanto conhecem a política interna brasileira. Afinal, 
política interna e política externa estão estreitamente relacionadas: as ações 
daquela afetarão e serão afetadas por esta e vice-versa. 
 
Um sítio interessante para o estudante e o profissional de Relações 
Internacionais é o Inforel, que traz cobertura atualizada das questões gerais 
da área e também de defesa nacional, além de artigos com análises 
interessantes. 
 
 
 
 As Relações Internacionais e a Constituição Brasileira 
A importância das relações internacionais também pode ser percebida na 
maneira como o tema é tratado na Constituição Federal. A Carta Magna, já em 
seu Título I, referente aos “Princípios Fundamentais”, estabelece, no art. 4º, os 
princípios que regem as relações internacionais do Brasil: 
 
 
 
· independência nacional; 
· prevalência dos direitos humanos; 
· autodeterminação dos povos; 
· não intervenção; 
· igualdade entre os Estados; 
· defesa da paz; 
· solução pacífica dos conflitos; 
· repúdio ao terrorismo e ao racismo; 
· cooperação entre os povos para o progresso da humanidade; 
· concessão de asilo político. 
 
 
Ainda no que concerne à Lei Maior, também os direitos e garantias 
fundamentais estão intimamente relacionados às experiências vivenciadas pela 
comunidade das nações ao longo de sua história. Foi graças às revoluções em 
países como a Inglaterra, a França, os EUA e a Rússia, e à difusão desses 
princípios para além de suas fronteiras, que o mundo moldou uma cultura de 
direitos fundamentais que hoje são inquestionáveis em todo o planeta. E a 
violação a esses direitos gera repulsa da comunidade internacional. 
A Constituição de 1988 inovou ao elencar, de forma sistemática, os 
princípios que regem nossas relações internacionais. Para maior 
aprofundamento, sugerimos a leitura do artigo 'Os princípios das relações 
internacionais e os 25 anos da Constituição Federal', do Professor Alexandre 
Pereira da Silva, disponível na Biblioteca deste curso, em 'Textos 
complementares'. 
Vereshchetin (1996), por exemplo, vê no que chama de “fator direitos 
humanos” um dos principais meios de retomada de uma cultura mínima de 
proteção internacional no pós-Guerra. O relacionamento entre Estado e 
indivíduo, que tradicionalmente foi objeto de preocupação de leis internas, não 
mais pode ser considerado uma questão puramente doméstica dos países. 
A Constituição da Rússia de 1993, por exemplo, trouxe como princípio a 
incorporação das normas internacionais ao sistema jurídico interno e a 
prevalência dos acordos internacionais dos quais a Federação Russa faça parte, 
caso estes estabeleçam regras que difiram daquelas estipuladas em lei interna. 
Isso tem se mostrado uma tendência constitucional em vários países. Quando 
não há dispositivos legais expressos, as cortes constitucionais têm dado o rumo 
da interpretação. 
Na década de 1990, as cortes constitucionais da Hungria e da Polônia, 
por exemplo, decidiram que a Constituição e as normas internas deveriam ser 
interpretadas de tal forma que as normas internacionais geralmente aceitas 
tivessem força efetiva. 
Há, portanto, em todo o planeta, sinais de uma crescente 
interdependência até mesmo no campo jurídico, e o Tribunal Penal Internacional 
nada mais é que uma expressão e consequência disso. 
 
O Poder Legislativo e as Relações Internacionais 
As relações internacionais do Brasil passam efetivamente pelo Poder 
Legislativo. Em nosso sistema jurídico-político, quaisquer tratados que o Brasil 
celebre com outras nações ou com organizações internacionais devem 
necessariamente passar pelo aval do Congresso Nacional antes de serem 
ratificados. 
O art. 49 da Constituição Federal de 1988 é claro ao estabelecer, logo nos 
dois primeiros incisos, as competências exclusivas do Congresso Nacional: 
Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional: 
I - resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atosinternacionais que 
acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional; 
II - autorizar o Presidente da República a declarar guerra, a celebrar a paz, a 
permitir que forças estrangeiras transitem pelo território nacional ou nele 
permaneçam temporariamente, ressalvados os casos previstos em lei 
complementar; 
(...) 
 
E o Senado Federal, por sua vez, tem atribuições mais específicas, pois 
é a Casa Legislativa que avalia e aprova nossos embaixadores, autoridades 
máximas das missões diplomáticas brasileiras, designados para representar o 
País no Exterior. Compete também ao Senado autorizar as operações externas 
de natureza financeira dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. 
Cada Casa Legislativa possui comissões encarregadas dos temas de 
relações exteriores e defesa nacional. No Senado Federal, por exemplo, a 
Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), composta por 19 
membros titulares e 19 suplentes, é competente para tratar das questões que 
envolvam as relações internacionais do País. 
A legislação brasileira evidencia a importância do Poder Legislativo nos 
destinos das relações internacionais. E quanto mais o Brasil busque integrar-se 
na comunidade das nações e ocupar o seu devido papel de destaque, mais 
importante se faz o conhecimento, na esfera do Legislativo, dos principais temas 
da área. 
 
O Estudo das Relações Internacionais 
Antes de concluirmos a primeira Unidade, convém apresentar algumas 
considerações gerais sobre o estudo das relações internacionais como 
disciplina, as áreas de atuação do profissional da área e a realidade brasileira. 
O estudo de Relações Internacionais envolve conhecimentos gerais de 
Direito, Economia, Administração, História, Filosofia, Sociologia, Antropologia, 
Estatística e, sobretudo, de questões internacionais contemporâneas. 
O interesse por temas de relações internacionais aumentou mais ainda 
após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Ao assistirmos àqueles 
dramáticos acontecimentos em tempo real, alguns véus foram retirados, e aos 
poucos tomamos consciência de que as distâncias físicas se estreitavam ao 
mesmo tempo em que as distâncias culturais e sociais aumentavam. O 
terrorismo passa também a ser uma questão global, que afeta países nos 
hemisférios Norte e Sul, no Ocidente e no Oriente. 
No campo profissional, as relações internacionais são aplicáveis em 
diversas áreas. No Brasil, há profissionais dessa área atuando em vários setores 
da Administração Pública e da iniciativa privada. 
 
Em termos de carreira, uma das mais 
conhecidas é a diplomacia. O diplomata é o 
legítimo representante do Governo e da nação 
junto a outros povos e organizações 
internacionais. Para se tornar um diplomata no 
Brasil, é necessário o ingresso na carreira por 
meio de concurso público, promovido pelo Instituto Rio Branco (IRBr) do 
Ministério das Relações Exteriores. Aprovado no concurso, e, submetido a um 
período de treinamento no IRBr, o diplomata inicia uma carreira como Terceiro 
Secretário, podendo chegar a Embaixador. 
No serviço público, além da Chancelaria, o profissional de relações 
internacionais tem diante si alternativas de trabalho nos vários órgãos da 
Administração Federal, Estadual e Municipal. Afinal, sempre há uma “assessoria 
internacional” em cada ministério, secretaria, autarquia e empresas públicas. E 
o perfil do internacionalista se destaca. Constata-se a presença de profissionais 
de relações internacionais nas principais carreiras de Estado. 
Na iniciativa privada, outro leque de alternativas se abre aos que possuem 
formação na área. Além das grandes corporações multinacionais e 
transnacionais, as empresas brasileiras de médio e grande porte já percebem a 
necessidade de atuarem em uma economia globalizada. Assim, em um mundo 
cada vez mais integrado econômica e financeiramente, as empresas precisam 
de profissionais que as auxiliem a se integrarem e a permanecerem no sistema 
internacional. Aquelas que desconsideram essa percepção frequentemente 
acabam por sucumbir. 
Além disso, há a possibilidade de trabalho nas centenas de Organizações 
Internacionais e Organizações Não Governamentais que atuam no globo: ONU, 
OEA, OIT, OMC, OPEP, UNESCO, FAO, Greenpeace, WWF e outras. Brasília 
tem representação da maior parte dos organismos internacionais dos quais o 
Brasil é membro e, com isso, o mercado do profissional de relações 
internacionais se amplia na capital federal. 
 
Relações Internacionais como disciplina independente 
Até o início do século XX, as relações internacionais não eram estudadas 
como disciplina independente. O estudo do tema estava sempre sob o manto de 
outras ciências, como o Direito, a Economia, a Sociologia e a Ciência Política. 
À medida que a sociedade internacional tornava-se mais complexa e as 
relações entre os Estados mais diversificadas, relações estas que envolviam 
conflito e cooperação, e que muitas vezes culminavam em situações que 
interferiam diretamente no cotidiano das pessoas e na política interna das 
nações, percebeu-se a crescente necessidade de teorias que explicassem a 
conduta dos atores em um cenário internacional. Essas teorias e seu estudo 
deveriam constituir uma nova área do conhecimento, independente e com 
autonomia para gerar suas próprias percepções da realidade. Daí o 
aparecimento das primeiras cátedras de Relações Internacionais pelo mundo. 
Os cursos de Relações Internacionais surgiram na primeira metade do século 
XX, nas principais universidades europeias e norte-americanas. Foram 
constituídos com o objetivo de produzir conhecimento que explicasse como se 
desenvolviam as relações entre os Estados. Naquele contexto, as perguntas que 
impulsionariam o estudo estavam intimamente relacionadas ao grande trauma 
da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), conflito sem precedentes até então, 
que envolvera diversas nações do globo e causara pesadas perdas, sobretudo 
no território europeu. Assim, os temas centrais eram: 
 O que havia conduzido o mundo a uma situação de conflito tão drástica? 
 O que leva os Estados à guerra? 
 É possível se evitar o conflito entre os povos? 
 Como agem os atores internacionais e quais forças que interferem na 
conduta desses entes? 
 
 
Claro que, no decorrer do século XX, o estudo de Relações Internacionais 
diversificava-se à medida que os laços entre os povos tornavam-se mais 
complexos e novos temas, como cooperação, desenvolvimento, integração, paz, 
direitos humanos e globalização, vinham à baila. Atualmente, a disciplina é 
ampla e alcança as mais diferentes áreas de estudo, e evolui à medida que 
também evolui a complexidade da sociedade internacional. De fato, hoje há 
cursos de Relações Internacionais nas principais universidades do mundo e 
profissionais da área atuando nos mais variados segmentos dos setores público 
e privado. 
O primeiro curso de Relações Internacionais no Brasil foi instituído na 
Universidade de Brasília, na década de 1970, fazendo da capital da República o 
referencial brasileiro em estudos internacionais. Até meados da década de 1990, 
havia apenas dois cursos de Relações Internacionais no Brasil – na Universidade 
de Brasília e na Universidade Estácio de Sá (Rio de Janeiro). Hoje, são dezenas 
de instituições que oferecem a graduação em Relações Internacionais por todo 
o País. Trata-se, portanto, de carreira de grata expansão. Mesmo assim, a 
contribuição brasileira para as relações internacionais ainda é muito incipiente, 
sobretudo para um país que tem potencial para se tornar uma grande potênciaentre seus pares. 
Feitas essas primeiras considerações acerca do tema de nosso curso, realize 
as atividades propostas e, em seguida, passemos às teorias e aos principais 
conceitos utilizados pelos profissionais e estudiosos das Relações 
Internacionais. 
 
 
 
 
 
Unidade 2 - Conceitos Fundamentais 
 
 
Ao final desta unidade, o aluno deverá ser capaz de 
identificar e definir os seguintes conceitos fundamentais 
de relações internacionais: 
• Sociedade Internacional; 
• Atores; 
• Forças Profundas; 
• Sistema Internacional; 
• Potência; 
• Hegemonia. 
 
 
Lembre-se sempre dos objetivos estabelecidos, que devem servir de guias 
para o estudo do conteúdo e para a autoavaliação do cursista. Tenha um bom 
aproveitamento! 
 
 
Conceitos Fundamentais 
Essencial para o desenvolvimento de nosso curso é a compreensão de 
conceitos fundamentais de Relações Internacionais. Nesse sentido, seria 
complicado tentar iniciar qualquer análise de Relações Internacionais sem as 
noções desses conceitos. Dentre eles ressaltamos: 
 Sociedade Internacional; 
 Atores; 
 Forças Profundas; 
 Sistema Internacional; 
 Potência; 
 Hegemonia. 
 
Antes de iniciar o estudo desta unidade, sugerimos que assista atentamente 
aos dois vídeos seguintes do Conexão Mundo, 
“Conceitos Fundamentais de Relações Internacionais”, disponíveis no sítio do 
ILB. 
 
https://youtu.be/yvSMugjjQ5I?list=PLugtxNDlqgi8EYU0anS69ecwooNQ_bMju 
https://youtu.be/H4diQ26YtBo?list=PLugtxNDlqgi8EYU0anS69ecwooNQ_bMju 
A seguir, vamos procurar identificar os elementos mais importantes 
desses conceitos. 
 
Sociedade Internacional 
Um dos primeiros aspectos com o qual se depara aquele que inicia o 
estudo de Relações Internacionais refere-se à temática que envolve a Sociedade 
Internacional. 
Como definir Sociedade Internacional? Quais os elementos constitutivos 
desse conceito? 
A ideia de Sociedade Internacional – termo 
cunhado por Hugo Grócio no século XVII – permite 
direcionar a atenção para a atuação padronizada 
dos Estados. Apesar da ausência de uma 
autoridade central no cenário internacional, os 
Estados exibem padrões de atuação que estão 
sujeitos a, e constituídos por, restrições de diversas 
naturezas – históricas, sistêmicas, legais e morais, 
entre outras. 
 
Num primeiro momento, podemos relacionar Sociedade Internacional à 
evolução histórica das relações entre os grupos, povos e, mais tarde, Estados-
nações organizados em âmbito espacial determinado. Podemos identificar a 
evolução da Sociedade Internacional a partir das relações entre os grupos 
primitivos da Antiguidade, passando pelos reinos e impérios e chegando à Idade 
Contemporânea, com a ascensão do Estado nacional e soberano nos séculos 
XVIII e XIX e o seu declínio, no século XX, frente a um sistema cada vez mais 
globalizado e interdependente. 
 
Sociedade Internacional 
Podemos falar em Sociedade Internacional antes mesmo da formação 
dos Estados nacionais, que só se deu, nos moldes como os concebemos hoje 
(compostos de povo, território e soberania), há dois séculos. Mesmo que não 
houvesse consciência dos povos a esse respeito, não há como negar a 
existência “de fato” de uma Sociedade Internacional na Antiguidade. Afinal, a 
partir do momento em que surgem os primeiros grupos independentes e 
diferenciados, exercendo relações políticas, culturais ou comerciais entre si, tem-
se uma Sociedade Internacional embrionária. Das tribos passaram-se aos 
reinos, às cidades-estados e aos impérios, e estes, vistos em um contexto macro 
e nas relações entre si, formavam a Sociedade Internacional do mundo antigo. 
Claro que o primeiro modelo de Sociedade Internacional, inserido em um 
Sistema Internacional da Antiguidade, refletia mais um conjunto de sociedades 
regionais localizadas, muitas vezes sem qualquer contato entre si e até sem 
consciência da existência umas das outras. Era uma época em que as forças 
naturais limitavam a comunicação entre Oriente e Ocidente, e a “Sociedade 
Internacional do sistema grego” mantinha pouco contato com a “Sociedade 
Internacional do extremo oriente” – na qual o império dinástico chinês era o 
principal ator. 
Somente com as grandes navegações e o expansionismo europeu pelo 
planeta é que se estrutura uma Sociedade Internacional global. Assim, desde o 
século XVI, o mundo vai-se tornando cada vez mais integrado, seja pela força 
da economia e do comércio, seja pela força dos canhões e das conquistas 
coloniais europeias. Paul Kennedy, em sua obra já clássica Ascensão e Queda 
das Grandes Potências, analisa, com clareza, como o extremo oeste do 
continente euro-asiático, conhecido como Europa, com uma diversidade de 
povos e reinos autônomos e marcado por conflitos regionais e fratricidas, 
consegue expandir-se pelo mundo e, em pouco mais de dois séculos, tornar-se 
o centro de uma sociedade global, subjugando forças tradicionais como a China 
e o Império Otomano. 
O termo “internacional” foi utilizado pela 
primeira vez em 1780, pelo filósofo inglês Jeremias 
Bentham, em sua obra Princípios de Moral e 
Legislação. Essa é a época do apogeu dos Estados 
nacionais, com o início do declínio do absolutismo 
no continente europeu. Era um período em que a 
ideia de nação ainda estava muito ligada à figura do 
soberano. A Sociedade Internacional representava, para os europeus, a 
“Cristandade”, com seus paradigmas e princípios seculares. O Estado soberano 
era o principal ator internacional. 
Foi com a Revolução Francesa que o conceito de nação deixou de ter 
caráter puramente simbólico e passou a relacionar-se diretamente à questão da 
soberania. Esta passou a residir essencialmente na nação, onde o súdito tornou-
se cidadão e as relações entre os Estados, até então simbolizados e conduzidos 
pelos monarcas, estenderam-se às relações entre os povos. O século XX 
esclarece essa nova perspectiva: as relações entre nações não são 
necessariamente relações entre os Estados, muito pelo contrário. 
 
Sociedade Internacional 
Não há dúvida de que essa Sociedade Internacional é dinâmica e tem sua 
evolução diretamente relacionada à evolução dos grupos, povos, reinos, 
Estados, Impérios e nações, enfim, de todos os atores que a compõem ou a 
compuseram e das forças que influenciam a sua atuação. 
Qual é, então, o conceito de sociedade internacional? 
A resposta para essa pergunta é percebida de maneira diferenciada pelos 
teóricos das Relações Internacionais, que podem ser reunidos em três grandes 
grupos (CERVERA, 1991). 
Para os teóricos do primeiro grupo, é simplesmente impossível definir 
Sociedade Internacional. Limitam-se, assim, ao estudo dos componentes da 
Sociedade Internacional e à evolução das relações entre eles. 
Os teóricos do segundo grupo dedicam-se a analisar a Sociedade 
Internacional em contraposição a outros grupos sociais. Por essa ótica, a 
pergunta que se busca responder é “Como é a Sociedade Internacional? ” É 
irrelevante, portanto, para esses autores, a formulação de um conceito teórico 
para Sociedade Internacional. De qualquer maneira, eles não deixam de 
apresentar sua definição de Sociedade Internacional, mas apenas para 
instrumentalizar suas explicações, como veremos adiante. 
O terceiro grupo, majoritário, afirma não só ser possível, mas também 
necessário, proceder à definição do termo “Sociedade Internacional”, para que 
se possa tratar com mais propriedade o estudo dos fenômenos internacionais e 
das relações que se desenvolvem em seu meio. Uma vez que concordamos com 
essa percepção, apresentaremosnosso conceito de Sociedade Internacional. 
Antes, porém, vejamos alguns conceitos de autores renomados. 
Colliard (1978) afirma que Sociedade Internacional é o “conjunto de seres 
humanos que vivem sobre a terra”. Percebemos uma definição genérica e 
abrangente, que põe completamente de lado as estruturas em que os seres 
humanos estão agrupados, como as nações ou os Estados nacionais. Para o 
autor, o conceito de Sociedade Internacional confunde-se com o de 
“humanidade”. Chega-se a perceber mesmo uma concepção idealista, pois a 
Sociedade Internacional teria em primeiro plano o indivíduo, independentemente 
de suas origens e do grupo ou povo a que pertence. 
Hedley Bull (2002), com base em uma análise sistêmica, definiu 
Sociedade Internacional como um “grupo de comunidades políticas 
independentes que não formam um sistema simples”. 
Juan Carlos Pereira (2001) apresenta uma definição mais precisa e 
completa: “um âmbito espacial e global em que se desenvolve um amplo 
conjunto de relações entre grupos humanos diferenciados, territorialmente ou 
geograficamente organizados e com poder de decisão.” O autor acredita que a 
Sociedade Internacional estaria evoluindo para uma Comunidade Internacional. 
Rafael Calduch Cervera (1991) define Sociedade Internacional como 
“aquela sociedade global (macrossociedade) que compreende os grupos com 
um poder social autônomo, entre os quais se destacam os Estados, que mantêm 
entre si relações recíprocas, intensas, duradouras e desiguais sobre as quais é 
assentada certa ordem comum”. 
Por fim, cabe apresentar nossa própria conceituação de Sociedade 
Internacional, que é baseada na corrente historiográfica, pela qual buscamos 
reunir elementos que consideramos essenciais para a compreensão do termo e 
de sua evolução desde a Antiguidade. A nosso ver, Sociedade Internacional 
pode ser definida como o conjunto de entes que interagem de maneira sistêmica 
em uma esfera internacional sob a influência de forças profundas. 
Desmembremos esse conceito para melhor compreensão. 
 
Ator Internacional 
A primeira parte de nosso conceito de Sociedade Internacional trata de 
um conjunto de entes. Esses entes nada mais são do que os Atores 
internacionais. Ator internacional é toda autoridade, organização, grupo ou 
pessoa que representa ou pode vir a representar um papel de destaque na 
Sociedade Internacional. A percepção desses atores varia conforme o tempo e 
a corrente teórica que os identifica, mas podemos destacar aqueles que, na 
atualidade, podem ser considerados os mais importantes: os Estados nacionais, 
os atores governamentais interestatais (as organizações internacionais), os 
atores não governamentais interestatais (i.e., organizações não governamentais 
e empresas multi- e transnacionais, entre outros) e os indivíduos. 
Não são todas as pessoas, grupos ou organizações que podem ser 
identificados como Ator Internacional. Para nossa classificação, é necessário 
que a atuação desses entes tenha destaque em escala global. Por exemplo, uma 
associação estabelecida dentro de determinado país e voltada em suas 
atividades e interesses prioritariamente ao âmbito interno daquele país não é um 
Ator internacional. 
Não obstante, qualquer grupo, organização ou indivíduo pode vir a tornar-
se Ator internacional. Grandes empresas transnacionais de hoje foram, no 
passado, pequenas organizações comerciais, algumas de natureza familiar, que 
atuavam exclusivamente no interior de seu país de origem, não sendo à época 
Atores internacionais. À medida que essas empresas cresceram, expandiram-se 
para além das fronteiras de seus Estados de origem e começaram a atuar e 
influir na Sociedade Internacional, tornaram-se Atores internacionais. 
 
Sistema Internacional 
O segundo aspecto de nosso conceito de Sociedade Internacional refere-
se à atuação sistêmica na esfera internacional. Adotamos uma abordagem 
sistêmica, em que o aspecto relacional é importante. Sistema pode ser 
conceituado como “conjunto de elementos e instituições entre os quais se possa 
encontrar alguma relação” ou, ainda, “conjunto ordenado de meios de ação ou 
de ideias, tendente a um resultado”. A abordagem sistêmica em relações 
internacionais vê o conjunto de inter-relações entre os Atores internacionais 
como sujeito a padrões e normas – enfim, a forças profundas –, que remetem ao 
conjunto mais amplo, o sistema internacional como um todo. 
As primeiras considerações a respeito do modelo sistêmico para explicar 
as Relações Internacionais tomaram por base referências da Biologia e da 
Química. Nesse sentido, pode-se associar a noção de sistema ao corpo humano, 
no qual vários subsistemas – circulatório, nervoso etc. – são compostos de 
órgãos que se relacionam e dependem uns dos outros. A ideia de sistema, 
portanto, está relacionada a um ordenamento nas relações entre componentes 
e à interdependência entre esses componentes. 
Raymond Aron, em sua obra clássica Paz e 
Guerra entre as Nações, recorreu ao conceito de 
sistema para evocar a dinâmica das relações 
internacionais. Assim, a Sociedade Internacional tem 
características suficientemente estáveis para que 
possamos percebê-la como um sistema onde os Atores 
conduzem suas relações dentro de certos padrões. 
Cabe aqui, também, apresentar um conceito de 
Sistema Internacional, de acordo com Frederic S. 
Pearson e J. Martin Rochester (2000, p. 641): 
Sistema Internacional. Conjunto de relações em âmbito mundial nas áreas 
política, econômica, social e tecnológica, em torno do qual ocorrem as relações 
internacionais em um dado momento. 
Há ainda autores que separam as noções de Sociedade Internacional e 
de Sistema Internacional para identificar certos períodos históricos. Por exemplo, 
Sociedade Internacional teria como substrato a ideia de concerto e harmonia 
internacional, que alguns defendem corresponder, por exemplo, à Europa do 
pós-1815. Em contrapartida, Sistema Internacional traduziria a existência de 
vários polos de poder que interagem entre si e não necessariamente se 
harmonizam no todo, o que alguns autores defendem corresponder ao mundo 
pós-1945. 
 
Forças Profundas 
Finalmente, de acordo com a nossa concepção de Sociedade 
Internacional, o terceiro elemento fundamental são as “forças profundas”. A ideia 
de “forças profundas” origina-se da corrente historiográfica das Relações 
Internacionais cujos principais expoentes foram Pierre Renouvin e Jean-Baptiste 
Duroselle. De acordo com esses historiadores, as forças profundas nada mais 
seriam que determinados fatores que influenciariam as ações das coletividades. 
 
As condições geográficas, os movimentos demográficos, os interesses 
econômicos e financeiros, os traços da mentalidade coletiva, as grandes 
correntes sentimentais – todas essas forças profundas formaram o quadro das 
relações entre os grupos humanos e, em grande parte, lhes determinaram o 
caráter. O homem de Estado, nas suas decisões ou nos seus projetos, não pode 
negligenciá-las; sofre-lhes a influência e é obrigado a constatar os limites que 
elas impõem à sua ação. Todavia, quando ele possui quer dons intelectuais, quer 
firmeza de caráter, quer temperamento que o levam a transpor aqueles limites, 
pode tentar modificar o jogo de semelhantes forças e utilizá-las para seus 
próprios fins. 
Juan Carlos Pereira denomina tais forças profundas de “fatores 
condicionantes” (PEREIRA, 2001, p. 44). Identifica alguns desses fatores: fator 
geográfico, fator demográfico, fator econômico, fator tecnológico, fator 
ideológico/sistema de valores, fator político-jurídico e fator militar-estratégico. 
Portanto, a Sociedade Internacional é composta de entes – Estados,organizações internacionais, organizações não governamentais, empresas 
transnacionais, indivíduos, entre outros – que são influenciados pelas forças 
profundas – fatores geográficos, demográficos, migratórios, políticos, 
econômicos e financeiros, ideológicos, religiosos, tecnológicos etc. – em suas 
ações sistêmicas na esfera internacional. 
Uma leitura complementar recomendada é a do texto sobre Rio Branco e as 
Forças Profundas, de Arno Wehling: 
 
Visão de Rio Branco – o homem de estado e os fundamentos de sua política. 
 
Além do clássico Histoire des Rélations Internationales, obra-mestra da 
historiografia francesa das relações internacionais, caberia destacar dois livros 
de Renouvin e Duroselle já traduzidos para o português: Introdução à História 
das Relações Internacionais – publicada em 1967 pela Difusão Europeia do 
Livro, de São Paulo – e Todo Império Perecerá – um dos últimos grandes 
trabalhos de Duroselle, lançado no Brasil em 2000. 
 
Potência 
Além dos conceitos já tratados, cabem, neste curso introdutório, algumas 
observações – ainda que sem aprofundamento – a respeito de outros conceitos 
essenciais para viabilizar nosso entendimento dos temas tratados no decorrer 
das próximas unidades. Passemos a eles. 
O Sistema Internacional é composto por uma diversidade de atores. 
Nesse contexto, o Estado ocupa papel de destaque, mas existem diferenças 
marcantes entre os Estados na esfera internacional e o grau de influência (poder) 
que eles exercem. Assim, importante para a compreensão das relações 
internacionais é a ideia de Potência e das diferentes gradações dessa 
classificação. 
 
Há inúmeras definições para Potência. 
Segundo Martin Wight (2002), Potência é “um Estado moderno e 
soberano em seu aspecto externo, e quase pode ser definido como a lealdade 
máxima em defesa da qual os homens hoje irão lutar”. 
Rafael Calduch Cervera (1991), por sua vez, cita o conceito de Potência 
Internacional segundo C. M. Smouts, ou seja, como aquele Estado “mais ou 
menos poderoso segundo sua capacidade de controlar as regras do jogo em um 
ou mais âmbitos-chaves da disputa internacional e segundo sua habilidade de 
relacionar tais âmbitos para alcançar uma vantagem”. 
Ao tratar da capacidade dos Estados de influenciarem a Sociedade 
Internacional, Martin Wight relaciona Potências Dominantes, Grandes Potências, 
Potências Mundiais e Potências Menores. Potências Dominantes e Potências 
Mundiais seriam subdivisões do gênero Grande Potência, uma vez que ambas 
as categorias se referem a Estados com interesses globais e capacidade de 
influência significativa no Sistema Internacional. Em última análise, a 
diferenciação poderia ser restringida a Grandes Potências e Potências Menores. 
 
Wight define Potência Dominante como aquela capaz de medir forças contra 
todos os rivais juntos. E cita exemplos ao longo dos séculos, como Atenas, à 
época das Guerras do Peloponeso, o Império Romano, a Espanha de Carlos V 
e de Filipe II, a França de Luís XIV, a Grã-Bretanha no século XIX e os EUA no 
século XX. 
Outro termo muito utilizado e cujas características vão além da Potência 
Dominante, conforme definida por Wight, é o de Superpotência. Esse termo, 
cunhado com o advento da Guerra Fria, designava exclusivamente URSS e 
EUA. Esses países, em virtude de suas capacidades nucleares – com poder de 
destruição global –, inúmeras vezes associadas ao poderio militar convencional 
e à influência político-ideológica mundial, tinham status único na comunidade 
das nações. 
Gounelle (1992) indica quatro características das Superpotências: 
- têm capacidade de intervir em qualquer parte do globo; 
- dispõem de amplo arsenal, capaz de causar danos diferenciados dos 
armamentos convencionais e composto tanto de armas nucleares quanto de 
outros meios de destruição em massa; 
- assumem a liderança de uma aliança militar (os EUA da OTAN e a URSS 
do Pacto de Varsóvia); 
- pretendem oferecer um modelo universal de sociedade. 
Convém lembrar que a ideia de Superpotência ultrapassa em muito o 
poderio exclusivamente militar. De fato, a capacidade de destruição massiva do 
planeta é o elemento central do conceito de Superpotência, mas o aspecto de 
liderança de um bloco de nações e de pretensões de estabelecimento de uma 
sociedade universal em seus moldes político-econômico-ideológico-sociais não 
pode ser desconsiderado. 
Atualmente, com o colapso da URSS, restou, no planeta, apenas uma 
Superpotência: os EUA. Alguns autores vislumbram a possibilidade de a China 
vir a ocupar, na segunda metade do século XXI, o lugar da URSS. Entretanto, 
ainda não há que se falar na China como Superpotência, uma vez que esta, além 
de não dispor de arsenais nucleares capazes de fazer frente ao poderio de 
Estados como EUA e Rússia, não tem pretensões – nem condições – de projetar 
um modelo sócio-político-cultural-ideológico seu para o mundo. A Rússia, por 
sua vez, apesar de dispor de arsenais nucleares com capacidade de destruição 
massiva do planeta, não pode ser chamada de Superpotência, exatamente 
porque também não tem condições de aspirar a qualquer pretensão hegemônica 
no sistema internacional, como fazia a URSS. Assim, os EUA, considerados os 
vencedores da Guerra Fria, são hoje o único Estado com as características 
básicas da superpotência, e, de fato, essa nação tem-se tornado tão poderosa 
que já se cunha o conceito de Hiperpotência, algo sem precedentes na História. 
A Hiperpotência dispõe de um aparato bélico superior ao das demais 
Potências juntas. Esse aparato não se resume ao acervo das armas de 
destruição em massa, mas inclui armamento convencional significativo e 
capacidade de operação militar em mais de um teatro no globo. Ademais, trata-
se de uma Economia de peso diante do sistema, sua influência na política 
internacional é marcante e, ainda, consegue projetar seu modelo sócio-cultural 
e político para outras regiões do planeta. 
Assim, os EUA não encontram, no início do século XXI, adversários 
militares à altura, e são a Grande Potência econômica e a liderança mundial. Do 
ponto de vista econômico, por exemplo, apenas a coalizão das grandes 
economias europeias pode fazer frente aos EUA, o mesmo se podendo dizer das 
economias asiáticas. A projeção de poder dos norte-americanos no mundo não 
encontra precedentes, e alguns analistas já começam a analisar a política 
externa estadunidense como uma política de império. De qualquer maneira, o 
conceito de Hiperpotência ainda se encontra em desenvolvimento. 
O conceito de Wight para Potência Dominante tem grande proximidade 
com a ideia de hegemon, ou seja, uma potência tão poderosa que seria 
necessária uma coalizão de todas as demais nações para contê-la. A concepção 
de hegemon ultrapassa a esfera exclusivamente político-militar, de modo que o 
Estado que detém esse título influencia a Sociedade Internacional em esferas 
diversas, como a cultura, a estrutura social interna, a Economia e até o Direito. 
Além disso, essa influência do hegemon não ocorre necessariamente de 
maneira impositiva. De fato, a hegemonia, como veremos a seguir, envolve um 
misto de coerção e consenso. Finalmente, convém lembrar que o hegemon 
continua influenciando a Sociedade Internacional mesmo após perder esse 
status. 
Interessante observar que a hegemonia dos EUA hoje é mantida mais por 
outros meios – o que alguns autores chamam de soft power (poder suave) –, 
como a presença marcante na compilação e divulgação de notícias e diversões, 
na produção de bens de consumo, nas inúmeras formas de cultura popular e sua 
identificação com a liberdade política e de mercado, do que propriamente por 
meio do hard power(poder militar). 
Além da potência hegemônica, há outros atores estatais com capacidade 
significativa de influência na Sociedade Internacional. Esses são as Grandes 
Potências, as quais, inclusive, disputam a hegemonia entre si e aspiram tornar-
se a potência dominante, chegando, muitas vezes, a alcançar esse objetivo. De 
fato, as relações internacionais seriam um grande tabuleiro onde essas 
Potências disputariam poder em um jogo de influência. Como exemplos atuais 
de Grandes Potências teríamos China, França, Rússia, Alemanha, Japão e Grã-
Bretanha. 
As potências menores constituem a maioria. Seu grau de influência no 
sistema varia significativamente. Nesse grupo, poderiam ser relacionadas desde 
as Potências Mundiais menores – como Espanha e Índia – até as Potências 
Regionais – Argentina e Egito, por exemplo. Vale destacar que uma Potência 
Menor hoje pode vir a tornar-se uma Grande Potência e até a Potência 
Dominante. Os EUA são um bom exemplo disso. 
Max Gounelle (1992) comenta que, à medida que dispõe de capacidade 
de influenciar de maneira significativa os outros entes da Sociedade 
Internacional em prol de seus interesses particulares, um Estado pode ser 
classificado como Microestado, Potência Local, Potência Média, Grande 
Potência ou Superpotência. 
Os microestados são aquelas pequenas soberanias que persistem em 
nossos dias e que, em sua maioria, tiveram origem na formação histórica dos 
Estados nacionais europeus ou no processo de descolonização. Encontram-se 
constantemente sob amplo grau de dependência frente a uma Potência e 
integram-se a grupos de Estados organizados no seio de organizações 
internacionais. Conviria exemplificar nessa categoria países como o Principado 
de Mônaco e a República de San Marino, diversos Estados-arquipélagos no 
Pacífico ou até algumas Repúblicas da América Central e Caribe. Apesar de 
minimamente influentes na Sociedade Internacional, esses entes ganham força 
quando se associam e se fazem representar em organismos internacionais onde 
tenham poder de voto igual ao de outros Estados. 
As Potências Locais são as mais numerosas. Participantes das atividades 
comuns da vida internacional, esses entes têm como objetivos principais sua 
própria sobrevivência e a defesa de sua soberania territorial. De maneira geral, 
não têm grandes pretensões internacionais de projeção de poder e acabam 
também associados às Grandes Potências ou a Potências Regionais. Como 
exemplos para essa categoria, temos países como Bolívia, Paraguai, Camboja, 
Albânia e Moçambique. 
São classificados como Potência Regional ou Potência Média aqueles 
Estados aptos a representarem certo papel de destaque em grandes áreas 
geopolíticas. Egito, Síria, Nigéria, Brasil, Argentina e Irã são exemplos de 
Potências Regionais ou Médias. Esses países exercem influência em virtude de 
suas aptidões de liderança sob certos limites geográficos, fundadas em seus 
potenciais materiais ou demográficos, sua envergadura ideológica ou seu peso 
militar, econômico e até social. 
Gounelle, no entanto, diferencia Potências Regionais de Potências 
Médias ao afirmar que estas últimas têm ambições mundiais restritas às suas 
próprias capacidades. Tais pretensões poderiam ser limitadas a domínios 
específicos (nuclear, cultural, econômico, diplomático). A França, a Alemanha, a 
China e o Japão estariam nessa categoria. De fato, o que Gounelle relaciona 
como Potências Médias seria o que se costuma chamar mais apropriadamente 
de Grandes Potências, ou seja, Potências com interesses globais e capacidade 
de influenciar a Sociedade Internacional em diferentes domínios. Ao chamar 
Potências como China e Grã-Bretanha de Potências Médias, Gounelle o faz 
comparando-as às Superpotências – à época, URSS e EUA. 
 
 
 Hegemonia 
Tomamos como base para o conceito de Hegemonia a obra International 
Relations: the Key Concepts, de Martin Griffiths e Terry O’Callaghan (London: 
Routledge, 2002). 
 
Hegemonia, em grego, significa “liderança”. Em sentido amplo, portanto, 
em Relações Internacionais, o hegemon é o líder – ou o Estado líder – de um 
grupo de nações. 
Para que os conceitos de hegemonia e de hegemon sejam aplicáveis, 
presume-se que haja uma certa ordem na Sociedade Internacional. Daí que, 
apesar de ser o Estado mais poderoso no cenário internacional, o hegemon só 
pode exercer sua liderança (hegemonia) se houver relações de poder entre entes 
em um meio internacional. 
Hegemonia consiste, então, no exercício de uma liderança ou comando 
em uma sociedade, com base em recursos de poder. Esses recursos 
fundamentam-se em dois aspectos: coerção e consenso. Assim, toda relação de 
poder tem por base os graus de coerção e consenso exercidos por um ente ou 
mais de um sobre os demais. À medida que é alterada essa relação, muda 
também a liderança no grupo. 
Para o exercício da hegemonia, o hegemon deve ter capacidade de atuar 
nas esferas de consenso e coerção. Uma relação que se baseie apenas na 
coerção – por meio de recursos de força militar ou econômica – não pode ser 
verdadeiramente hegemônica, da mesma maneira que é impossível a liderança 
da comunidade internacional com fulcro apenas no consenso dos demais atores. 
As relações internacionais têm sido marcadas pela disputa, por parte das 
Potências, da hegemonia na Sociedade Internacional. Essa hegemonia, além de 
política, pode ser militar, econômica, cultural ou ideológica. Pode ser regional ou 
global. Um Estado que seja a Potência hegemônica em uma dessas áreas muito 
provavelmente o será na maioria das outras. É claro que tal liderança pode ter 
diferentes gradações e que uma grande Potência econômica em nossos dias 
pode não ter o mesmo poder de influência cultural ou até militar no cenário 
internacional. 
A Sociedade Internacional será sempre marcada por um hegemon, cujo 
interesse é manter o status quo do sistema, diante de outras Potências que não 
pouparão esforços para se tornar o hegemon. De acordo com a teoria da 
estabilidade hegemônica, o hegemon tem que ter capacidade de garantir a 
ordem do sistema, ordem que deve ser percebida pelos demais entes da 
comunidade como positiva a seus interesses. Para isso, o hegemon deveria 
dispor de alguns atributos: liderança em um setor econômico ou tecnológico e 
poder político baseado no poder militar. Podemos acrescentar a esses atributos 
a capacidade de obter consenso sobre sua liderança. 
 
Hegemonia 
Para Robert Gilpin, a estabilidade internacional depende da existência de 
uma hegemonia, que tenha tanta capacidade quanto vontade de fornecer “bens 
públicos” internacionais, como lei, ordem e moeda estável. Conforme didática 
explicação de Griffiths (2004, p. 26-27): 
(...) os mercados não podem crescer em produção e distribuição de bens 
e serviços se não houver um Estado que forneça certos pré-requisitos. Por 
definição, os mercados dependem da transferência, por meio de um mecanismo 
de preço eficiente, de bens e serviços que possam ser comprados e vendidos 
entre os principais agentes particulares que permutam direitos de posse. Mas os 
mercados dependem do Estado para lhes dar, por coerção, regulamentos, taxas 
e certos “bens públicos” que eles sozinhos não podem gerar. Isto inclui uma 
infraestrutura legal de direitos e leis de propriedade para fazer contratos, uma 
infraestrutura coerciva que assegure a obediência à lei, além de um meio de 
permuta estável (dinheiro) que assegure um padrão de avaliação dos bens e 
serviços. Dentro das fronteiras territoriais do Estado, os governos fornecem tais 
bens. É claro que, internacionalmente, não existe Estado no mundo capaz de 
multiplicar sua provisão em escala global. Baseando-sena obra de Charles 
Kindleberger e na análise de E. H. Carr sobre o papel da Grã-Bretanha na 
economia internacional no século XIX, Gilpin argumenta que a estabilidade e a 
“liberalização” da permuta internacional dependem da existência de uma 
“hegemonia”, que tenha tanta capacidade quanto vontade de fornecer “bens 
públicos” internacionais, como lei, ordem e uma moeda estável para o comércio 
financeiro. 
Em termos gerais, essa é a Teoria da Estabilidade Hegemônica. 
É uma teoria importante e voltaremos a ela na Unidade 4, ao tratarmos do 
debate teórico travado entre neorrealistas e neoliberais. 
 
As Potências hegemônicas são as Grandes Potências na concepção de 
Wight, e o hegemon nada mais é que a Potência Dominante. A hegemonia 
político-ideológica no planeta, por exemplo, era disputada pelas Superpotências 
no contexto da Guerra Fria, mas a URSS dificilmente poderia ser caracterizada 
como ameaça à hegemonia econômica dos EUA. 
Deve-se esclarecer, todavia, que, durante a maior parte da Guerra Fria, 
imaginava-se que a União Soviética se tornaria uma grande potência 
econômica. 
Isso é especialmente válido para os anos 30: enquanto as economias 
ocidentais agonizavam por causa da crise de 1929, a economia soviética 
crescia a taxas espantosamente altas. 
 
Complementando os estudos sobre o conceito de Hegemonia, atente para 
esta aula do Professor Joanisval. Aqui . 
 
Essas observações introdutórias são suficientes e fundamentais para a 
compreensão das unidades seguintes e para a discussão dos temas tratados 
neste curso. 
 
Artigo interessante para concluir os estudos desta Unidade é o texto de João 
Marques de Almeida, sobre Hegemonia Americana e Multilateralismo. 
 
Unidade 3 - Correntes teóricas das Relações Internacionais 
Ao final da unidade, o aluno deverá ser capaz de: 
- indicar e caracterizar as principais correntes teóricas das Relações 
Internacionais no Século XX; 
- identificar os principais debates teóricos da disciplina 
 
Teorias de Relações Internacionais 
O objeto material de qualquer ciência se define pela parcela de realidade 
que se pretende conhecer mediante a formação de teorias e a utilização de um 
método científico (CERVERA, 1991). A teorização sobre as Relações 
Internacionais surgiu quando se buscou explicar a existência e as condutas dos 
entes internacionais. É na Grécia Antiga, com a obra de Tucídides, História da 
Guerra do Peloponeso, que se tem a primeira manifestação embrionária de uma 
teoria de Relações Internacionais. 
Há algo que as ciências naturais e as ciências sociais, conforme Karl 
Popper, certamente têm em comum: a necessidade da teoria para se 
desenvolverem. Nas palavras de Tomassini (1989, p. 55): 
"A ciência exige algo mais do que fatos e descrições de fatos. Exige uma 
explicação de por que ocorreram, que efeitos causaram e algumas predições 
(ou, no caso das ciências sociais, conjecturas) sobre seu comportamento 
provável no futuro, uma mescla de causalidade, teleologia e prospecção. No 
campo das ciências sociais, como em outras ciências, a teoria é chamada a 
ministrar essas explicações, pondo ordem ao mundo heterogêneo e muitas 
vezes incompreensível dos fatos isolados, e a arriscar algumas predições." 
 
A Teoria do Equilíbrio de Poder 
Começamos por essa teoria por uma razão simples: para muitos 
estudiosos da política internacional, a Teoria do Equilíbrio de Poder, também 
conhecida como Teoria do Balanço de Poder, é o que mais próximo existe de 
uma teoria política das relações internacionais. Arnold Toynbee, conhecido 
historiador, chegou mesmo a dizer que tal teoria constituía uma “lei” da História. 
Na era moderna, com o surgimento e desenvolvimento do Estado-nação, 
multiplicaram-se também as teorizações a respeito das relações internacionais. 
Em um contexto de anarquia internacional e de conflito entre os Estados, as 
práticas dos agentes e dos atores na Sociedade Internacional levaram à 
formulação de uma teoria que pode ser considerada a precursora da análise 
convencional realista das relações internacionais, a Teoria do Equilíbrio de 
Poder. 
A Teoria do Equilíbrio de Poder percebe o cenário internacional em uma 
situação de equilíbrio, no qual o poder é distribuído entre os diversos Estados. 
Quando um Estado começa a se destacar e a buscar aumentar seu poder frente 
aos demais, há uma perturbação no equilíbrio, e faz-se necessária uma coalizão 
das Potências para conter o Estado “pretensioso” e restaurar a ordem. Assim, 
pressupondo o Estado como um ator racional, a teoria defende que o balanço ou 
o equilíbrio de poder é a escolha preferível e, portanto, a tendência do sistema 
internacional. A Teoria orientou as relações internacionais nos quatro séculos 
compreendidos entre a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e a Primeira Guerra 
Mundial (1914-1918). Foi útil para justificar as condutas dos Estados e ações de 
governantes em um contexto anárquico e conflituoso, como será visto nas 
Unidades 2 e 3 do módulo seguinte deste nosso curso. 
Alguns autores distinguem entre o equilíbrio de poder como uma política 
(esforço deliberado para prevenir predominância, hegemonia) e como um padrão 
da política internacional (em que a interação entre os Estados tende a limitar ou 
frear a busca por hegemonia e, como resultado, resulta num equilíbrio geral). 
Com o fim da Primeira Guerra Mundial e as consequentes mudanças no 
cenário internacional e no equilíbrio de forças, em virtude dos traumas causados 
pelo conflito e do desenvolvimento do discurso pacifista junto à opinião pública 
internacional, a Teoria do Equilíbrio de Poder foi questionada. Sob o argumento 
de que essa doutrina não poderia perdurar em um sistema em que a guerra 
deveria ser evitada a qualquer custo, o imediato pós-guerra foi marcado por 
novas concepções sobre as relações internacionais, baseadas em uma nova 
corrente teórica, a qual se fundamentava no Direito Internacional, na solução 
pacífica das controvérsias e na busca de uma estrutura supranacional que 
garantisse a paz: o Idealismo das Relações Internacionais. 
Foi, portanto, na primeira metade do século XX que os primeiros teóricos 
de Relações Internacionais começaram a desenvolver suas explicações sobre o 
tema em um contexto de disciplina autônoma. Claro que, em virtude de um objeto 
de estudo tão complexo, diversas foram as correntes teóricas instituídas nas 
últimas décadas. Como não é este um curso de teoria, pretendemos apresentar 
apenas as linhas gerais das correntes mais reconhecidas. 
 
A fase idealista 
O Idealismo, como ficou conhecida a primeira grande corrente teórica de 
Relações Internacionais, surge em um contexto do final de um conflito muito 
marcante, a Primeira Guerra Mundial, e reflete a crescente preocupação 
daqueles que então começavam a teorizar sobre as relações internacionais: 
 
Como se poderia buscar a paz na Sociedade Internacional, ou melhor, 
como evitar o conflito, sobretudo bélico, entre os Estados? 
No que se refere ao contexto internacional, lembra Arenal (1984), o clima 
nunca poderia ter sido mais favorável ao Idealismo. A Grande Guerra havia 
demonstrado a fragilidade da tradicional diplomacia europeia como meio para 
assegurar a ordem e a paz internacional. As enormes perdas humanas e 
materiais produzidas pelo conflito foram responsáveis, também, pelo advento de 
uma opinião comum universal segundo a qual a guerra deveria ser erradicada 
como instrumento de política dos Estados. Pregava-se, ademais, o 
estabelecimento de um modelo de segurança coletiva capaz de evitar novas 
contendas. 
Assim, sob os auspícios do discurso idealista e moralizante do presidente 
estadunidenseWoodrow Wilson, foi criada a Sociedade (ou Liga) das Nações 
(SDN), com o objetivo de ser a organização central de um sistema de segurança 
coletiva e um fórum em que os Estados pudessem resolver suas contendas de 
maneira pacífica. A SDN, portanto, contribuía para acentuar o otimismo frente ao 
futuro da Sociedade Internacional e estabelecia os fundamentos de um sistema 
dirigido para preservar a paz. Nesse contexto, a teoria internacional dominante 
se orientava pelos caminhos do Idealismo, dos projetos de organização 
internacional, do estabelecimento de mecanismos tendentes à solução pacífica 
e de propostas de desarmamento. Importância significativa foi dada pelos 
idealistas ao Direito Internacional e às instituições jurídico-normativas que 
garantissem a ordem nas relações entre os Estados: ganhava força o 
institucionalismo nas relações internacionais. 
Anarquia internacional não significa “desordem”, mas, sim, ausência de um 
governo central superior aos Estados (que são soberanos e só prestam contas 
a si mesmos e a outros Atores do sistema). Anarquia é, portanto, ausência de 
governo. 
 
O Idealismo partia do princípio de que as relações internacionais 
encontram-se em estado de natureza, ou seja, de anarquia internacional. As 
nações devem buscar, destarte, superar essa anarquia e estabelecer um 
contrato social em âmbito internacional que ordene as relações entre os povos. 
Os Estados, acreditavam os idealistas, deveriam portar-se de acordo com os 
mesmos princípios morais que guiam a conduta do indivíduo. Para estimular ou 
obrigar esses Estados a seguir tais princípios, seria fundamental que se 
institucionalizasse, em escala mundial, o interesse comum de todos os povos em 
alcançar a paz e a prosperidade. O estudo de Relações Internacionais, como 
disciplina autônoma, mostrou-se como uma ciência da paz. 
 
A fase idealista 
O Realismo e o Idealismo encerram, na verdade, duas visões de mundo 
opostas, em que o ponto de partida é a dicotomia anarquia x ordem. Apesar de 
Tucídides, com História da Guerra do Peloponeso, antes mesmo de surgirem os 
conceitos de soberania e a tese do estado de natureza, já ter iniciado a moldar 
uma concepção anárquica do mundo, é com Thomas Hobbes, em Leviatã, e, em 
seguida, com John Locke, em O Estado de Guerra (Capítulo III da obra Segundo 
Tratado do Governo Civil), em que se explora, pela primeira vez, o estado de 
natureza anárquico a respeito das relações internacionais. 
Segundo Lijphart (1982), as noções de soberania e de anarquia 
internacional inspiraram três teorias interligadas: a do governo mundial, a do 
equilíbrio de poder (ou balanço do poder) e a da segurança coletiva. 
Segundo a teoria do governo mundial, dado que a anarquia é responsável 
pela tensão internacional, é necessário celebrar um contrato social internacional 
para instituir um governo mundial soberano e único, para pôr fim à anarquia. 
A teoria do equilíbrio de poder, ao contrário, defende que a luta pelo poder 
entre os Estados soberanos tende a gerar um equilíbrio, o qual não alimenta uma 
tensão perpétua, mas cria uma ordem internacional. 
Para a teoria da segurança coletiva, o melhor seria que os Estados se 
empenhassem em tomar medidas coletivas contra todo agressor, o que acabaria 
atenuando a anarquia internacional. 
Todas essas teorias aceitam a tese de que a anarquia reina entre os 
Estados soberanos. Segundo Inis L. Claude, citado por Lijphart, essas três 
teorias correspondem a estágios sucessivos de uma progressão em direção a 
uma centralização cada vez mais repleta de autoridade e poder (no sentido 
balanço de poder > segurança coletiva > governo mundial). O mundo nunca 
passou do segundo estágio, o qual foi, na verdade, o foco da maior parte dos 
autores idealistas. 
Historicamente, no desenvolvimento do sistema de Estados da Europa, 
soberania é normalmente associada aos trabalhos de Jean Bodin e Thomas 
Hobbes, nos quais significava o direito de exercer poder irrestrito. Todavia, a 
história do sistema de Estados modernos, do século XVII em diante, é uma 
tentativa de se distanciar da rigidez dessa concepção original em busca da ideia 
de igualdade formal. 
 
 
 
Para as Relações Internacionais, é particularmente importante a visão 
construída por Hugo Grócio sobre a sociedade internacional a partir da teoria do 
contrato. Grócio, considerado o pai do Direito Internacional, defendeu ser o 
direito um conjunto de normas ditadas pela razão e sugeridas pelo appetitus 
societatis. A base da doutrina de Grócio é a solidariedade, ou potencial 
solidariedade, entre os Estados em relação à aplicação da lei internacional, e 
procura estabelecer uma ordem mundial restringindo os direitos dos Estados de 
irem para a guerra por motivações políticas e promover a ideia de que a força só 
pode ser legitimamente usada em nome dos objetivos e anseios da comunidade 
internacional como um todo. 
Grócio, como se observa, apresenta uma hipótese inversa à do equilíbrio 
de poder. Para ele, existe um fundamento comum de normas morais e jurídicas, 
e o mundo é uma sociedade composta de Estados onde reina um consenso 
normativo suficientemente amplo e intimidador para que a noção de estado de 
natureza e de anarquia internacional não seja aplicável. A tese de Grócio parte 
da noção de anarquia, mas a minimiza para efeitos de teorização, 
desconsiderando a relação necessária entre anarquia e guerra, relação esta 
reduzida a mera “hipótese” (e não a um “dado” ou “premissa”, como fazem os 
realistas). 
 
A fase idealista 
A teoria e a prática das relações internacionais desde a Primeira Guerra 
Mundial, principalmente com o Pacto da Liga das Nações (o Pacto de Paris), a 
Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) e a Carta do Tribunal 
Internacional de Nuremberg, derivam da fórmula grociana, que concebe a 
sociedade internacional de forma ordenada, fruto da analogia com a alegoria da 
sociedade doméstica usada pelos teóricos do contrato social dos séculos XVII e 
XVIII. 
 
Edward Hallett Carr, autor do clássico Vinte Anos de Crise: 1919-1939, 
cuja primeira edição foi lançada logo após o desencadeamento da Segunda 
Guerra Mundial, em 1939, analisa a dicotomia entre uma perspectiva utópica e 
a prática realista dos Estados e ilustra bem a maneira como os idealistas viam 
as relações internacionais e os argumentos que utilizavam ao tratarem das 
interações entre os povos: 
O aspecto teleológico da ciência da política internacional tem estado 
evidente desde o princípio. Surgiu de uma grande e desastrosa guerra; e o 
objetivo-mestre que inspirou os pioneiros da nova ciência foi o de evitar a recidiva 
dessa doença do corpo internacional. O desejo passional de evitar a guerra 
determinou todo o curso e direção iniciais do estudo. Como outras ciências na 
infância, a ciência política internacional tem sido marcada e francamente utópica. 
Ela se encontra no estágio inicial, no qual o desejo prevalece sobre o 
pensamento, a generalização sobre a observação, e poucas tentativas são 
efetuadas de uma análise crítica dos fatos existentes e dos meios disponíveis. 
Neste estágio, a atenção está concentrada quase exclusivamente no fim a ser 
alcançado. 
Carr cita, ainda, o discurso do Presidente Wilson – que refletia o 
pensamento idealista geral e que continha a resposta de Wilson: “se não 
funcionar, teremos que fazê-lo funcionar! ”, quando indagado se aquele modelo 
moralizante e pacifista funcionaria – e esclarece: 
"O advogado de um plano para uma força de polícia internacional, ou para 
a ‘segurança coletiva’, ou de algum outro projeto para uma ordem internacional, 
geralmente responde à crítica, não com um argumento destinadoa mostrar como 
e por que ele pensa que seu plano funcionaria, mas sim, ou com uma declaração 
de que ele tem que ser posto a funcionar porque as consequências de sua 
ausência de funcionamento seriam desastrosas, ou com a demanda por alguma 
panaceia alternativa." 
Após a Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações foi um esforço 
específico da política internacional de substituir o princípio do equilíbrio de poder 
pelo princípio da segurança coletiva. Tal princípio, que sustentou a criação 
daquela Organização, foi elaborado para remover a necessidade de equilíbrio ou 
balanço. Para os realistas, essa sua remoção no período entreguerras teria sido 
justamente a causa da Segunda Guerra Mundial. Como resultado, o sistema 
internacional pós-1945 deixou de ser explicado em termos do princípio idealista 
da segurança coletiva, e noções de bipolaridade e multipolaridade, típicas das 
análises de balanço de poder, o substituíram. Chegou-se mesmo, nos períodos 
mais quentes da Guerra Fria, em se falar de “balanço de terror”. 
Para reforçar e ilustrar os conceitos acima, assista ao vídeo. 
 
A fase realista 
A década de 1930, entretanto, caracterizada por uma crescente 
instabilidade internacional, consequência de comoções políticas, econômicas e 
ideológicas, internas e internacionais, e pelo fracasso do sistema da Sociedade 
das Nações e da política de apaziguamento das democracias europeias, marca 
a decadência da perspectiva idealista para a teoria das Relações Internacionais. 
Nesse período, tem-se o debate entre o Idealismo e uma nova corrente que 
ganhava força, o Realismo Político. 
Os acontecimentos internacionais novamente foram essenciais para a 
mudança no aporte teórico. O Realismo representou, em um primeiro momento, 
a reação dos especialistas às insuficiências teóricas e práticas dos idealistas, no 
contexto de convulsões internacionais dos anos trinta e da própria Segunda 
Guerra Mundial. Para os realistas, o apelo à opinião pública e à razão humanista, 
preconizada pelos idealistas, mostrou-se incapaz de prevenir a guerra, fazendo-
se necessário retomar as ideias de segurança nacional e de força militar como 
suportes da diplomacia. Apenas por meio de um poder efetivo, acreditavam, os 
Estados poderiam assegurar a paz internacional e a solução pacífica das 
controvérsias. Carr assinalava que o significado último da crise internacional era 
"o colapso da total estrutura do utopismo baseado no conceito de harmonia de 
interesses". 
 
 
A pragmática nova geração de estudiosos do pós-Segunda Guerra 
Mundial baseava-se no pensamento clássico maquiavélico e hobbesiano e via 
na defesa dos interesses nacionais, em relação a poder, o grande eixo da 
conduta dos Estados soberanos no meio internacional. O Realismo encontrou 
maior respaldo nos EUA. Desse país, a doutrina realista difundiu-se pelo globo, 
tornando-se a corrente teórica mais relevante para explicar as Relações 
Internacionais. 
Abordaremos essa corrente com mais detalhes a seguir e também em 
unidade própria. 
Atualmente, cerca de 90% da produção acadêmica dos EUA em Relações 
Internacionais têm por fundamento a corrente realista. 
 
Behavioristas e pós-behavioristas 
A terceira fase da Teoria das Relações Internacionais desenvolveu-se 
também nos EUA como “resposta aos excessos do Realismo”. Trata-se de uma 
aproximação com a vertente behaviorista da Sociologia. Essa corrente ficou 
conhecida como behaviorista ou científica. Para Arenal (1984, p.82): 
No início dos anos cinquenta, alguns especialistas norte-americanos em 
política de segurança nacional repensam os postulados do realismo político, com 
base no caráter impreciso e intuitivo dos mesmos para a análise da realidade 
internacional, e buscam um enfoque de caráter científico capaz de dar resposta 
à complexidade das Relações Internacionais. O impacto dos métodos de 
pesquisa e os modelos das ciências físico-naturais são notados com força nas 
pesquisas que começam a pôr em marcha. A partir desse momento, uma onda 
de cientificismo, que trata de desenvolver uma ciência das Relações 
Internacionais, com base na aplicação de métodos quantitativo-matemáticos, 
invade as Relações Internacionais, impondo-se o que se denominou perspectiva 
behaviorista ou conducista. 
 
 
Para os behavioristas, o objetivo das Relações Internacionais é o 
comportamento dos atores. O estudo desse objeto deve atentar para parâmetros 
que envolvam fases como a coleta e a elaboração de dados, o tratamento 
quantitativo desses dados e, finalmente, a produção de modelos dentro do rigor 
científico das ciências exatas. Para os behavioristas, os estudos devem estar 
sempre voltados para os casos concretos, a partir dos quais uma linguagem 
científica das ciências sociais deve ser elaborada com base em dados empíricos, 
rejeitando-se análises provenientes do Direito, da História ou da Filosofia. Entre 
os vários enfoques da corrente behaviorista, convém destacar a Teoria da 
Tomada de Decisões, a Teoria Sistêmica das Relações Internacionais e a Teoria 
dos Jogos. Os autores científicos mais renomados são Morton Kaplan, David 
Singer e G. T. Allison. 
O desenvolvimento da corrente “científica” gerou um grande debate nos 
anos sessenta entre os tradicionalistas filosófico-intuitivos (idealistas e realistas) 
e os científicos (behavioristas). 
Finalmente, Arenal identifica uma quarta fase, motivada pelo que David 
Easton (1969) chamou de “nova revolução da ciência política”, e que se 
convencionou chamar de pós-behaviorismo. Essa nova revolução ter-se-ia 
produzido devido a uma profunda insatisfação com a pesquisa política e os 
ensinamentos behavioristas, sobretudo por quererem converter o estudo da 
política em uma ciência segundo o modelo físico-natural. As bandeiras 
levantadas pelos pós-behavioristas são ação e relevância. O novo movimento, 
sem abandonar o enfoque científico do behaviorismo, dirige sua atenção à 
conduta humana enquanto tal e aos problemas reais do mundo, às motivações 
e aos valores subjacentes a toda conduta. Busca-se uma pesquisa com ênfase 
ao caso concreto, dando atenção a um objeto de análise que difere dos objetos 
das ciências exatas. O pós-behaviorismo constituiu, portanto, a síntese do 
debate entre as concepções tradicionalistas e as científicas. 
 
 
 
Realismo, Pluralismo e Globalismo 
Atualmente, a doutrina reconhece três grandes correntes teóricas das 
Relações Internacionais: o Realismo, o Pluralismo e o Globalismo. São também 
chamados de paradigmas teóricos, dado que as variadas teorias que existem na 
disciplina podem ser encaixadas em uma dessas três correntes. O Realismo 
trabalha mais com os conceitos de poder e equilíbrio de poder, o Globalismo com 
dependência, e o Pluralismo, por sua vez, com os conceitos de processo de 
tomada de decisão e transnacionalismo. 
Vamos abordá-las brevemente a seguir. 
Assistindo ao vídeo abaixo, ainda com o Professor Joanisval, um dos 
conteudistas deste curso, você terá uma visão introdutória do surgimento do 
Realismo. 
 
Realismo 
O Realismo tem algumas proposições básicas. 
Primeiro, o Estado é o ator principal no meio internacional, e o estudo das 
relações internacionais foca essa unidade política. Atores não estatais, como as 
empresas multinacionais, são menos relevantes para a análise, e as 
organizações internacionais, como a ONU ou a OTAN, não possuem existência 
autônoma ou independente, porque são compostas de Estados, as verdadeiras 
unidades soberanas, independentes e autônomas, que determinam o 
comportamento dessas organizações internacionais. 
O Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, que era uma forma de 
“gerência” do poderna visão realista, foi paralisado, durante a Guerra Fria, pelo 
veto – os interesses de poder da URSS e dos EUA iam em sentidos opostos e, 
por consequência, impediam a organização de funcionar. No pós-Guerra Fria, 
apesar da superação das rivalidades dentro do Conselho, a Organização ainda 
não funcionava automaticamente, dependendo, em cada circunstância, do 
“interesse” dos Estados para atuar. Realistas citam, por exemplo, o contraste 
entre a ação rápida na Guerra do Golfo e a inércia diante da crise iugoslava. 
 
Segundo, os Estados são atores unitários. São unitários porque quaisquer 
diferenças de visão entre os líderes políticos ou burocracias dentro do Estado 
são, no final das contas, resolvidas, para que o Estado fale uma só voz. 
Terceiro, os Estados são atores racionais. Isso porque, dados certos 
objetivos, trabalham com alternativas viáveis para alcançá-los, à luz de suas 
capacidades, por meio de uma análise de custo-benefício. Os realistas 
reconhecem a existência de problemas como falta ou ruído de informação, 
incerteza, pré-julgamento e erros de percepção, mas, contudo, pressupõem que 
os tomadores de decisão não medem esforços para alcançar a melhor decisão 
possível. 
Finalmente, para os realistas, a segurança nacional é a questão de maior 
importância para a agenda de política exterior de qualquer Estado. Questões 
políticas e militares dominam a agenda e são chamadas de “alta política” (high 
politics). Os Estados atuam para maximizar o interesse nacional. Em outras 
palavras, os Estados tentam maximizar a probabilidade de atingirem qualquer 
objetivo que tenham estabelecido, o que inclui preocupações de alta política 
relativas à sobrevivência do Estado (segurança) assim como os objetivos de 
baixa política ligados a esse campo, como comércio, finanças, câmbio e bem-
estar. 
A guerra responsiva dos EUA contra o Afeganistão, após os ataques 
terroristas de 11 de setembro de 2001, e sua guerra preventiva contra o Iraque, 
em 2003, evidenciam o conflito alta política x baixa política, pois, durante os 
quatro anos do Governo Bush, os democratas o criticaram constantemente por 
ter abandonado as questões de economia doméstica em nome da segurança 
nacional. Até mesmo o direito interno foi suspenso nos EUA: vêm sendo negados 
a vários suspeitos, estrangeiros e nacionais, direitos garantidos 
constitucionalmente, em ampla afronta ao princípio do devido processo legal 
(due process of law), conquista de mais de dois séculos da sociedade norte-
americana. 
 
 
Pluralismo 
Assista à aula introdutória, gravada no curso presencial no ILB, sobre 
Pluralismo. Vamos lá! 
 
Os anos de 1980 e 1990 deram força à corrente teórica conhecida como 
Pluralismo, que veio para desafiar as proposições do Realismo. Nessa corrente 
normalmente se enquadram os neoliberais. 
O Pluralismo é baseado em quatro proposições básicas. 
Primeiro, atores não estatais são importantes na política internacional. 
Organizações internacionais, por exemplo, podem tornar-se, em algumas 
questões, atores independentes, ao contrário do que defendem os realistas. Elas 
são mais do que simples fóruns em que Estados competem e cooperam uns com 
os outros. O corpo de funcionários de uma organização internacional pode reter 
um grau expressivo de poder ao determinar os termos de uma agenda, assim 
como ao fornecer informações sobre em que representantes de Estado baseiam 
suas demandas (como acontece com o FMI em relação aos países que pedem 
empréstimos além de suas cotas, e, por consequência, precisam seguir o 
receituário do “consenso de Washington”). 
Similarmente, organizações não governamentais, como a WWF, e 
corporações multinacionais, como a Petrobras, a IBM, a Sony, a General Motors, 
a Exxon, o Citicorp, entre várias outras, também desempenham papéis 
importantes na política mundial. Atualmente, lembram os pluralistas, até mesmo 
na área comercial as ONGs têm sido chamadas a atuar. 
Para os pluralistas, também não se poderia negar o impacto de atores não 
estatais, como grupos terroristas (como a Al Qaeda), comerciantes de armas da 
máfia russa, movimentos guerrilheiros, como as FARC colombianas etc. 
Segundo, para os pluralistas, o Estado não é um ator unitário. O Estado é 
composto de indivíduos, grupos de interesse e burocracias que competem entre 
si. Apesar de as decisões serem noticiadas como decisões de “tal país”, é 
geralmente mais correto se falar em decisão feita por uma coalizão 
governamental particular, uma agência burocrática do Executivo ou mesmo um 
único indivíduo. A decisão não é tomada por uma entidade abstrata chamada 
“Brasil”, “China” ou “EUA”, mas por uma combinação de atores por trás da 
definição da política externa. 
Diferentes organizações podem apresentar perspectivas distintas em 
determinada questão de política externa. Competição, formação de coalizões e 
compromissos eventualmente resultarão numa decisão que será anunciada 
como uma decisão do país. Essa decisão “estatal” pode ser o resultado de 
lobbies levado a efeito por atores não governamentais (como o lobby dos 
fazendeiros norte-americanos contra o fim dos subsídios agrícolas, das 
empresas multinacionais, de grupos de interesse, ou mesmo de um ente amorfo, 
a opinião pública). Assim, para os pluralistas, o Estado não pode ser visto como 
um ator unitário, uma vez que tal rótulo perderia de vista a multiplicidade de 
atores que formam e compõem a entidade chamada de “Estado-nação”. 
Terceiro, os pluralistas desafiam a suposição realista de que o Estado é 
um ator racional. Dada a visão pluralista e fragmentada do Estado, pressupõe-
se, ao contrário, o choque de interesses, a barganha e a necessidade de 
compromisso que nem sempre levam a um processo de tomada de decisão 
racional. 
Por fim, para os pluralistas, a agenda da política internacional é extensa. 
Embora a segurança nacional seja importante, os pluralistas também se 
preocupam com um número variado de questões econômicas, sociais, 
energéticas e ecológicas que têm surgido com o aumento da interdependência 
entre os países e as sociedades nos séculos XX e XXI. Alguns pluralistas, por 
exemplo, enfatizam o comércio e as questões monetárias e energéticas, as quais 
estariam no topo da agenda internacional. Outros dedicam-se à solução do 
problema demográfico e da fome no Terceiro Mundo. Outros, ainda, focam a 
poluição e a degradação do meio ambiente. Nesse sentido, os pluralistas 
rejeitam a dicotomia entre alta política (high politics) e baixa política (low politics) 
dos realistas. 
 
 
Globalismo 
Para introduzir o conceito de Globalismo, assista ao vídeo e, em seguida, leia 
atentamente o texto que se segue! 
 
Historicamente, o Globalismo se relaciona com o surgimento do Terceiro 
Mundo na política mundial. Nesse sentido, representa uma visão ignorada e 
desprestigiada da realidade internacional. Para eles, a hierarquia, como uma 
característica chave, é mais importante do que a anarquia, dada a desigualdade 
na distribuição do poder dentro do sistema. 
Vimos que os realistas organizam seus estudos em torno da questão 
básica de como a estabilidade pode ser mantida num macroambiente anárquico. 
Os pluralistas se perguntam como mudanças pacíficas podem ser promovidas 
num mundo que é crescentemente interdependente política, militar, social e 
economicamente. Os globalistas, por sua vez, se concentram na questão de por 
que tantos países do Terceiro Mundo na América Latina, na África e na Ásia não 
têm conseguido se desenvolver. Para muitos globalistas, mais ligados à linha 
marxista, essa questão faz parte de um campo maior de análise: o 
desenvolvimento do capitalismo no mundo. 
Os globalistassão guiados por quatro proposições. 
Primeiro, é necessário entender o contexto global em que Estados e 
outros atores interagem. Os globalistas argumentam que para explicar o 
comportamento em qualquer nível de análise – o individual, o burocrático, o 
societário e o estatal –, é necessário, antes, entender a estrutura geral do 
sistema global no qual esses comportamentos se manifestam. Assim como os 
realistas, globalistas acreditam que o ponto de partida da análise é o sistema 
internacional. Numa extensão mais larga, o comportamento de atores individuais 
é explicado por um sistema que fornece limitações e oportunidades. 
Segundo, os globalistas realçam a importância da análise histórica na 
compreensão do sistema internacional. Apenas rastreando a evolução histórica 
do sistema é possível entender sua estrutura atual. O fator histórico chave e a 
característica definidora do sistema como um todo é o capitalismo. Até mesmo 
os Estados socialistas precisam operar dentro desse sistema econômico, que 
constantemente restringe suas opções. 
Terceiro, os globalistas assumem que existem mecanismos de dominação 
que impedem que o Terceiro Mundo se desenvolva e que contribuem para o 
desenvolvimento desigual ao redor do planeta. A compreensão desses 
mecanismos requer o exame das relações de dependência entre os países 
industrializados do Norte (América do Norte e Europa) e os vizinhos pobres do 
Hemisfério Sul (América Latina, África e Ásia). 
Finalmente, os globalistas defendem que os fatores econômicos são 
absolutamente críticos para se explicar a evolução e o funcionamento do sistema 
capitalista mundial e a relegação do Terceiro Mundo para uma posição 
subordinada. A economia funciona como uma espécie de “alta política” para os 
globalistas. 
Para fins didáticos, podemos traçar o seguinte quadro, que relaciona os 
três paradigmas das Relações Internacionais: 
 Realismo Pluralismo Globalismo 
Unidades 
analíticas 
Estado como 
principal 
unidade de 
análise. 
Estado e atores 
não estatais, como 
organizações 
burocráticas, 
elites, sociedades, 
indivíduo, grupos 
de indivíduos, 
organizações 
internacionais, 
corporações 
multinacionais, 
organizações não 
governamentais. 
Estado, classes, 
elites, sociedades e 
atores não estatais 
como operadores do 
sistema capitalista. 
Concepção de 
ator 
Estado unitário e 
racional. 
Estado não unitário 
e não racional: 
desagregado em 
Estado não unitário e 
racional, visto sob a 
perspectiva histórica 
componentes, 
alguns dos quais 
com atuação 
transnacional. 
do desenvolvimento 
do capitalismo. 
Dinâmica 
comportamental 
Estado como 
maximizador de 
seus próprios 
interesses na 
política externa. 
Conflito, barganha, 
formação de 
coalizões e 
compromissos nos 
processos 
transnacionais e de 
tomada de decisão 
em política 
externa, não 
necessariamente 
levando a 
resultados ótimos. 
Política externa 
como padrões 
racionais de 
dominação dentro e 
entre Estados e 
sociedades. 
Agenda Segurança 
nacional como 
questão mais 
importante. 
Agenda múltipla, 
com questões 
socioeconômicas 
tão ou mais 
importantes do que 
questões de 
segurança 
nacional. 
Questões 
econômicas como 
mais importantes. 
 
Outras correntes teóricas 
Registre-se, outrossim, que as correntes citadas nesta unidade são as 
mais difundidas e tradicionais. Não obstante, neste contexto de pós-
modernidade, ganham força perspectivas de vanguarda, com destaque para o 
Construtivismo. Porém, foge ao escopo deste curso a análise dessas outras 
correntes. 
 
Passemos, portanto, aos principais debates que marcaram a Teoria das 
Relações Internacionais no século XX. 
 
OS GRANDES DEBATES TEÓRICOS 
Idealismo X Realismo 
O debate entre realistas e idealistas iniciou-se na década de 1930. Não 
obstante, conforme acentua Arenal (1984), trata-se “de um debate que está 
presente, com maior ou menor força, em toda a história da teoria internacional, 
inclusive tendo recobrado força com novas perspectivas em nossos dias”. De 
acordo com John Herz (1951, p.8), o Idealismo é um tipo de pensamento político 
que “não conhece os problemas que surgem do dilema da segurança e poder”, 
ou que o faz “somente de uma forma superficial”. O Realismo, por sua vez, ao 
contrário, considera fatores de segurança e poder inerentes à sociedade 
humana. 
Arenal relaciona as características essenciais do Idealismo e do Realismo 
na Tabela 1: 
TABELA 1: IDEALISMO X REALISMO 
IDEALISMO REALISMO 
 
1) Crença no progresso: diante da 
suposição de que a natureza humana 
pode ser compreendida não como 
imutável, mas como potencialidade 
que se atualiza progressivamente ao 
longo da História. 
 
1) Pessimismo antropológico: nega a 
possibilidade de evolução para uma 
sociedade mais humanista. A política 
de poder sempre foi e será o cerne 
das Relações Internacionais. 
 
2) Visão não determinista do mundo: 
a fé no progresso careceria de sentido 
se não fosse acompanhada de uma 
similar crença na eficácia da mudança 
por meio da ação humana. 
2) Visão determinista do processo 
histórico: a ordem internacional 
dificilmente pode ser modificada pela 
ação humana. É possível 
 compreender o processo histórico, 
mas não alterá-lo. 
 
3) Racionalismo: considera que uma 
ordem política é racional e possível na 
Sociedade Internacional e que, como 
os indivíduos são morais e racionais, 
da mesma maneira os Estados são 
capazes de comportarem-se de forma 
racional e moral em suas relações. É 
a racionalidade que conduz ao 
progresso. 
 
3) Distinção entre os códigos de 
conduta moral do indivíduo e do 
Estado: a ética pública é diferente da 
ética na vida privada. O homem de 
Estado, enquanto defensor da 
comunidade nacional, não está 
limitado em sua atuação pelas normas 
éticas e morais que regem os 
particulares. Daí o conceito de “razão 
de Estado”, em virtude do qual 
condutas inaceitáveis em âmbito 
interno do Estado seriam plenamente 
aceitáveis na política internacional. 
 
4) Harmonia natural de interesses: os 
Estados teriam interesses mais 
complementares que antagônicos. 
Daí a ideia de que é possível a 
cooperação entre os povos por um fim 
último de paz e integração. 
 
4) Ausência de harmonia natural de 
interesses: os Estados encontram-se 
em uma competição constante, uma 
vez que é difícil se obter a confiança 
entre os entes estatais que lhes 
permita escapar dessa situação. 
 
 
Idealismo x Realismo 
Assim, para os idealistas, a política é a arte do bom governo, e o poder 
político não constitui fenômeno natural, lei imutável da natureza. A Sociedade 
Internacional, em um primeiro momento, poderia até se encontrar em um estado 
de natureza, mas a anarquia internacional seria naturalmente substituída não por 
um sistema baseado no equilíbrio de poder, mas por uma ordem fundamentada 
na lei internacional, em instituições e na cooperação entre os povos. Assim, a 
conduta racional dos Estados os levaria à constituição de um poder 
supranacional, uma confederação de nações, que garantiria a segurança e a paz 
no Sistema (a “paz perpétua” de Kant). 
Os realistas, por sua vez, consideram a política internacional uma 
constante e interminável luta pelo poder, definido em capacidade de influência. 
Negam o otimismo idealista. Atuar racionalmente significa agir em favor dos 
próprios interesses; ou seja, de aumentar o poder, a capacidade ou habilidade 
de controlar osoutros entes internacionais. Partindo do princípio de que o 
homem não é naturalmente bom e que se reúne em sociedade apenas porque é 
a melhor maneira que encontrou para garantir a segurança essencial à sua 
sobrevivência diante da guerra de todos contra todos, o Realismo percebe o 
Estado como um gladiador envolvido em um combate perpétuo pela 
sobrevivência na Sociedade Internacional anárquica em que as relações de força 
predominam. 
O Realismo não considera a moral ou a ética como limites à ação do 
Estado, mas a prudência, o senso de oportunidade e o cálculo racional. Essa 
consideração explica o pragmatismo e a falta de credulidade em organizações 
internacionais como instituições que não sejam apenas meros instrumentos de 
alguns Estados no jogo de poder internacional. Um governo mundial baseado 
apenas no Direito e no desejo global de paz é inconcebível para o Realismo. 
 
Tradicionalistas x Científicos 
O debate entre os enfoques clássico e científico ou entre tradicionalistas 
e behavioristas ultrapassa, na ótica de Arenal, o debate entre realistas e 
idealistas. Afinal, ensina o mestre, tanto os partidários da análise clássica quanto 
os da perspectiva científica podem inscrever-se nas visões realista ou idealista. 
O debate entre tradicionalistas e behavioristas tem caráter metodológico. 
Faremos apenas algumas breves considerações introdutórias a esse respeito. 
Luciano Tomassini (1989), ao relacionar as principais diferenças entre os 
dois debates, lembra que, enquanto o primeiro debate (idealistas x realistas) tem 
sua origem específica no âmbito das relações internacionais, o segundo 
(tradicionalistas x científicos) está centrado na totalidade das ciências sociais, 
tendo ocorrido em virtude da “revolução behaviorista”. Os científicos buscavam 
alcançar, nas ciências sociais, o nível de exatidão similar ao das ciências exatas. 
Daí a tentativa de adoção de técnicas semelhantes às utilizadas nas ciências 
naturais – como as da química, da física e até da biologia – e a busca de “leis 
naturais” para explicar as relações sociais. 
Uma segunda distinção, segundo Tomassini, repousa no fato de que, 
enquanto o primeiro debate referia-se a questões substanciais – aspectos da 
natureza humana, dos fundamentos da Sociedade Internacional, da essência do 
poder –, o segundo debate teve cunho metodológico. Nesse sentido, tanto 
pensadores realistas quanto teóricos idealistas poderiam assumir uma 
perspectiva científica em suas análises. 
Finalmente, Tomassini assinala que, se o debate entre idealistas e 
realistas, por tratar de questões substanciais, faz com que as duas correntes 
sejam eternamente irreconciliáveis, o segundo debate estabelece uma paulatina 
aproximação das colocações e um entendimento final, dando origem aos pós-
behavioristas. Os neorrealistas são o melhor exemplo desse resultado. 
Os behavioristas criticavam os tradicionalistas pelo fato de estes 
dissociarem o sistema internacional do sistema nacional, e também porque os 
tradicionalistas ignoravam as variáveis internas – como, por exemplo, o processo 
de tomada de decisão no âmbito interno –, as quais seriam, na concepção 
científica, fundamentais para a compreensão da política exterior. Ademais, os 
behavioristas não davam atenção a questões filosóficas e morais, como a busca 
da paz, a moralidade da Sociedade Internacional, ou quais seriam os melhores 
mecanismos para a estabilidade internacional baseada no crescimento e na 
cooperação entre nações. 
A resposta tradicionalista às críticas behavioristas fundamentava-se no 
fato de que a Sociedade Internacional é complexa demais para que se chegue a 
“leis” que expliquem o sistema e a conduta dos atores com base na análise de 
variáveis isoladas. Lembravam, ainda, que o método quantitativo não permitia a 
compreensão de situações chaves – fundamentadas em aspectos intuitivos ou 
racionais. Finalmente, assinalavam que, devido ao sigilo, em Relações 
Internacionais é longo o tempo até que se tenha acesso a determinadas 
informações que seriam essenciais para “quantificar a análise científica”. Na 
resolução de questões urgentes na Sociedade Internacional, não é possível, 
outrossim, esperar até que se consigam os dados estatísticos ou a conclusão 
das várias análises de casos em que os científicos querem basear-se. 
Certamente foi de grande relevância a contribuição behaviorista para a análise 
das relações internacionais. Afinal, foi possível aperfeiçoar os métodos da teoria 
e sistematizar as análises sob uma perspectiva mais empírica. Não obstante, o 
aspecto intuitivo ou racionalista das ciências sociais jamais poderá ser 
desprezado. Nesse sentido, não se pode querer atribuir às ciências humanas 
equivalência em relação às ciências naturais, exatas. Em Relações 
Internacionais, assim como em qualquer ciência social, o homem – seja sob seu 
aspecto individual, seja por meio de suas manifestações coletivas – é o objeto 
central de estudo. Tentar explicar as relações humanas com base apenas nos 
critérios exclusivamente quantitativos pode conduzir o analista a erro em sua 
avaliação. 
 
A Teoria Sistêmica das Relações Internacionais 
Segundo Tomassini, o enfoque sistêmico para explicar as relações 
internacionais encontra-se “entre os aspectos substantivos que dividiram os 
realistas e idealistas durante o primeiro pós-guerra e as questões metodológicas 
que foram objeto das disputas entre tradicionalistas e científicos” após a 
Segunda Guerra Mundial. Há, entretanto, aqueles que situam a corrente 
sistêmica na escola científica. 
A escola sistêmica encontra suas origens na década de 1950, quando se 
começou a aplicar conceitos de análise de sistemas ao estudo das Relações 
Internacionais. Sua principal diferença frente ao enfoque convencional consistia 
no fato de que, enquanto os tradicionalistas concebiam as relações 
internacionais como um conjunto de interações entre unidades independentes e 
soberanas – os Estados –, não sujeitas a pautas nem a qualquer previsibilidade, 
a análise sistêmica percebia as relações internacionais influenciadas ou 
determinadas pela estrutura ou pelas tendências de uma unidade mais ampla, 
que seria o Sistema Internacional em seu conjunto. 
Um sistema geral pode ser definido como algo substantivado em um 
conjunto de elementos ou partes interconectados. Essa conexão entre os 
diversos elementos ocorre por meio de um princípio claramente identificável ou, 
mais simplesmente, por um rol de interação hipotético entre seus distintos 
componentes. Pode-se dizer, portanto, que um sistema é um conjunto de 
unidades que interagem entre si de acordo com padrões relativamente regulares 
e perceptíveis, alguns dos quais podem configurar subsistemas que se 
relacionam com o conjunto, seguindo o mesmo tipo de padronizações, e cujos 
limites ou parâmetros também são reconhecíveis, mas que, em geral, 
permanecem abertos a influências de um meio ambiente externo. 
A maior preocupação da perspectiva sistêmica está na interação entre os 
componentes de um Sistema Internacional e nos efeitos que o sistema tem sobre 
a conduta dos atores. Daí a atenção maior aos mecanismos e à estrutura do 
conjunto que às partes específicas. 
Tomassini conclui que os enfoques sistêmicos têm permitido conhecer e 
melhor compreender as relações existentes entre as distintas unidades 
nacionais, o Sistema Internacional em seu conjunto e os diversos subsistemas 
que operam em seu interior. O enfoque também é importante para: 
· a percepção das funções que desempenham as estruturas e sua 
influência sobre o comportamento das distintas unidades; 
· a necessidade de trabalhar com diferentes níveis de análise, com os 
limites entre um SistemaInternacional e seus elementos contextuais; 
· a natureza fechada ou aberta do sistema diante desse contexto; e 
· a interação observável entre o sistema e os diferentes segmentos que o 
integram. 
 
 A Teoria Sistêmica das Relações Internacionais 
Um termo muito usado na análise sistêmica é o de “subsistema”, que 
também será explorado no decorrer deste curso. Aplicado às Relações 
Internacionais, normalmente vem associado à ideia de região – “subsistemas 
regionais” – ou às relações dentro de um setor (subsistema econômico, militar 
etc.). 
A região, concebida como um subsistema, implica categorizar o todo (ou 
sistema) em partes distintas. O subsistema apresentaria as mesmas 
características do sistema, sendo que em um nível diferente. A busca por 
padrões e processos característicos se daria da mesma forma que na análise de 
sistemas, embora não necessariamente apresentando os mesmos resultados. 
Por exemplo, poder-se-ia considerar a integração uma tendência 
periférica em um sistema mundial e, ao mesmo tempo, uma tendência dominante 
em um subsistema. Essa é, particularmente, uma das conclusões de alguns 
pesquisadores a respeito da formação de blocos econômicos. Dentro do sistema 
mundial, esta seria uma tendência dominante apenas entre países periféricos, e 
não entre as principais potências. Paulo Nogueira Batista Jr., por exemplo, 
argumenta que os EUA e a União Europeia (UE) não têm e nem pretendem ter 
acordo de livre comércio entre si. Tampouco está em cogitação uma área de livre 
comércio entre os EUA e o Japão, ou entre o Japão e a UE. Isso não impede 
que os EUA, a UE e o Japão mantenham inter-relacionamento comercial 
substancial e crescente ao longo do tempo. O que os norte-americanos, 
europeus e japoneses têm feito nas últimas décadas é negociar, no âmbito 
multilateral, em rodadas sucessivas de liberalização, a gradual e seletiva 
diminuição de barreiras ao comércio internacional. 
Usamos o texto intitulado Estratégias Comerciais do Brasil: Alca, União 
Europeia, OMC e Negociações Sul-Sul, preparado para o seminário “O Brasil 
e Oportunidades de Integração”, patrocinado pelo Banco Interamericano de 
Desenvolvimento e pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, realizado em 
04 de novembro de 2003. 
 
Concepções relativas a hierarquia, que normalmente eram empregadas 
no estudo do sistema macropolítico da política internacional, podem ser 
aplicadas, com a mesma validade, na análise de subsistemas regionais. Assim, 
um ator estatal pode apresentar papel significante em um nível e apenas 
modesto em outro. Índia e Brasil são bons exemplos. Além disso, dois processos 
sistêmicos relevantes, como o conflito e a cooperação, podem igualmente se 
manifestar no nível subsistêmico e, ainda, provocar um efeito spillover sobre o 
macrossistema. O conflito palestino-israelense é ilustrativo disso. 
 
Trataremos mais adiante, na Unidade 5, das ideias de subsistema 
econômico, militar e ideológico, entre outras. 
Entre os principais expoentes da escola sistêmica nas Relações 
Internacionais estão Morton Kaplan, Karl Deutsch e Richard Rosecrance. No 
caso do Neorrealismo, cuja perspectiva é eminentemente sistêmica, tem-se em 
Kenneth Waltzseu grande expoente. 
Sugerimos as obras de Waltz, particularmente Teoria das Relações 
Internacionais (Theory of International Politics) para o estudo mais aprofundado 
da perspectiva neorrealista de relações internacionais, e, ainda, O homem, o 
estado e a guerra. 
 
Realistas x Pluralistas 
Outro debate relevante é o que se dá entre realistas e pluralistas. Os 
pluralistas colocam o caráter anárquico da Sociedade Internacional e a 
importância da segurança em segundo plano, o que é fortemente criticado pelos 
realistas, para os quais nenhuma análise das relações internacionais será 
completa sem se considerar a estrutura anárquica do Sistema e o dilema da 
segurança. Para os pluralistas, dada a complexa interdependência da Sociedade 
Internacional, o uso militar da força tende a ter menos utilidade na resolução de 
conflitos. 
Os pluralistas nem sempre usam os conceitos de sistema e de equilíbrio 
nas relações internacionais, dado que não concebem atores autônomos e 
predeterminados no cenário internacional. Eles criticam as previsões baseadas 
em análises de balança de poder dos realistas por serem demasiado genéricas. 
 
Ao contrário do mundo idealizado pelos realistas, os pluralistas veem 
indeterminação e imprevisibilidade, dado que não há separação entre política 
externa e política interna, sendo aquela mera extensão desta, pois não deixa de 
ser influenciada por fatores como a opinião pública, a indústria do lobby e 
processos de barganha entre os atores internos (políticos, agências burocráticas 
etc.). A noção de Estado-nação dos pluralistas, ao contrário do que concebem 
os realistas, é difusa, irracional e altamente permeável. 
A Teoria da Estabilidade Hegemônica, que vimos na Unidade 2 ao 
tratarmos de hegemonia, é exemplo de uma tentativa de conjugação da 
perspectiva realista com a pluralista. Alguns consideram essa teoria um 
“compromisso parcial” entre ambas as correntes. 
 
Outros debates 
Há discussões mais recentes e igualmente relevantes, como os debates 
entre neorrealistas e globalistas e entre neorrealistas e neoliberais. Vamos 
abordá-los na próxima Unidade. 
Também sobre o debate teórico de relações internacionais, veja o texto 
de William Gonçalves, Relações Internacionais. 
 
Mudanças na Teoria das Relações Internacionais 
A partir de 1990, a Teoria das Relações Internacionais passou a enfrentar 
um problema epistemológico, uma vez que estava acostumada a trabalhar com 
os conceitos de Estado nacional, soberania, território nacional, interesse 
nacional, entre outros. Alguns autores identificam, na década de 1990, a 
ramificação das escolas da Teoria das Relações Internacionais em três direções: 
o Realismo, nos EUA; o Pluralismo, na Europa e na literatura mais recente da 
América Latina; e o Globalismo, nas interpretações da esquerda ainda presente 
na América Latina e em outros países do Hemisfério Sul. 
 
O Realismo passou a sofrer várias críticas devido à dificuldade do Estado 
em administrar forças transnacionais. O Globalismo se enfraqueceu com a crise 
do socialismo real. O Pluralismo se revelou inadequado, uma vez que as suas 
preocupações com as questões sociais teriam sido desprezadas pela nova 
política internacional (SARAIVA, 1997, p. 361-362). 
Os seguintes movimentos passaram a ter relevância para a análise das 
relações internacionais contemporâneas: 
 soma de fluxos transnacionais como fator que afeta o cotidiano das 
pessoas e leva à crise do Estado-nação, cujo universalismo e soberania 
são questionados; 
 relativização do conceito de soberania, surgindo expressões, nos meios 
diplomáticos, como “soberania operacional”; 
 atores não estatais não necessariamente agem contra o Estado, mas 
exigem mudanças de sua conduta – na política interna e externa; 
 atores não estatais forçam o Estado a levar em conta a Comunidade 
Internacional, uma vez que a interdependência torna-se fato, e os 
problemas globais (ecologia, migrações, epidemias, narcotráfico, direitos 
humanos, terrorismo) passam a ser de responsabilidade de todos; 
 o Sistema Internacional passa a ser composto de sistemas confederados, 
o que solapa a identidade tradicional; 
 a Economia desliga-se do espaço nacional e das regulamentações do 
Estado, funcionando para o exterior. 
 A transição da bipolaridade para a globalização ocorreu, no entanto, sem 
que a nova ordem internacional demonstrasse capacidade para superar 
problemas globais, como o endividamento internacional,a hegemonia do 
mercado financeiro, o arrocho econômico mundial requerido para o ajuste de 
economias centrais e o desemprego estrutural. Esses também são temas 
importantes para os teóricos de Relações Internacionais no século XXI. 
Um filme interessante para se entender, na prática, teoria das relações 
internacionais é “Sob a Névoa da Guerra” (Errol Morris, EUA, 2003), 
documentário em que o ex-Secretário de Defesa dos EUA, Robert McNamara, 
faz uma análise da política externa dos EUA na II Guerra Mundial. 
 
Como sugestão de leitura, reforçamos a indicação da última grande obra de 
Jean-Baptiste Duroselle, Todo império perecerá: teoria das relações 
internacionais. Interessante, ainda, um livro básico para a compreensão do 
Realismo, A Política entre as Nações, de Hans Morgenthau. Finalmente, 
convém conhecer a Escola Inglesa de Relações Internacionais por meio de 
duas obras fundamentais: A Política do Poder, de Martin Wight, e A Sociedade 
Anárquica, de Hedley Bull. Veja a referência completa sobre essas obras na 
Bibliografia Complementar, no menu de apoio. 
 
Unidade 4 - O Realismo 
Ao final da unidade, o aluno deverá ser capaz de: 
• identificar as características da principal corrente teórica das Relações 
Internacionais e as críticas a essa corrente; 
• descrever a evolução do pensamento realista nas Relações Internacionais 
ao longo do século XX; 
• discorrer sobre a validade do Realismo no século XXI. 
 
O Realismo 
A tentativa mais notória do século XX para explicar as relações 
internacionais foi conduzida por um grupo de pensadores que contemplavam a 
realidade internacional com base nas relações de força, poder e dominação. 
Esses autores foram os representantes da corrente teórica conhecida como 
Realismo Político ou, simplesmente, Realismo. Trata-se da doutrina mais 
clássica e aceita das Relações Internacionais, chegando-se a ponto de muitos a 
considerarem o tronco central do estudo teórico do tema. Após os ataques 
terroristas de 11 de setembro de 2001, ela teve notório fortalecimento. Devido a 
essas peculiaridades, optamos por dedicar uma unidade específica a essa 
corrente. 
 
Entre os fundamentos do Realismo, buscaremos analisar as ideias que mais 
se destacam, a saber: 
 a percepção de um sistema internacional anárquico, sem uma autoridade 
central superior aos Estados e titular legítima do uso da força; 
 o caráter praticamente exclusivo do Estado como o único ou, ao menos, 
o principal ator internacional; 
 o desprezo pelo institucionalismo e pelo papel efetivo das organizações 
internacionais no sistema; 
 a percepção de que os Estados são entes unitários e racionais ao 
conduzirem sua política externa; 
 a heterogeneidade desses atores, quanto a aspectos econômicos, 
políticos, culturais etc.; 
 o predomínio da competição e da dimensão conflitiva sobre todas as 
formas de relações entre os atores internacionais; 
 a busca da racionalidade na conduta dos Estados, que atuam na esfera 
internacional perseguindo sempre seu interesse nacional; 
 o interesse nacional definido com base no poder, que conduz a uma 
paradoxal ordem internacional no sistema anárquico, ordem esta imposta 
pelas Potências hegemônicas aos demais Estados e em benefício das 
primeiras; 
 a preocupação com a segurança como umas das grandes orientadoras 
da conduta dos atores, no que os realistas consideram ”alta política” (high 
politics) em contraposição à chamada baixa política (low politics); 
 a ideia de equilíbrio de poder na ordem internacional, estabelecido pelas 
Potências. 
O Realismo 
Os realistas tiveram por objetivo inicial definir as características que fariam 
do campo de estudo das Relações Internacionais uma ciência própria. Daí 
buscarem distinguir, preliminarmente, a política internacional da política interna 
dos Estados. Desenvolveram, então, a percepção anárquica do sistema 
internacional. 
 
Assim, os realistas percebem o sistema internacional como anárquico, no 
qual não existe poder central ou superior dos Estados soberanos. Para os 
realistas, os Estados não reconhecem e não se submetem a qualquer autoridade 
que não a sua própria, também não estando, em última análise, 
internacionalmente sujeitos nem mesmo às regras do Direito. Nesse sentido, os 
Estados “são livres para fazer sua própria justiça e podem recorrer à força para 
defender seus interesses nacionais” (SENARCLENS, 2000, p. 16). 
O pensamento realista inspira-se nas concepções de Thomas Hobbes 
sobre o “estado de natureza” e, reproduzindo a visão hobbesiana sobre o 
homem, percebe os Estados numa situação de guerra permanente – não 
necessariamente de conflito armado –, na qual perseguem seus interesses 
nacionais. 
Nesse contexto anárquico, o Estado é visto internacionalmente como um 
ente unitário e que atua em política externa de maneira racional, sendo o cálculo 
estratégico essencial para garantir sua sobrevivência. Nesse sentido, o interesse 
nacional definido em termos de poder guiará a conduta dos Estados, e, em meio 
à guerra de todos contra todos, são essenciais para a sobrevivência de qualquer 
ente a garantia de sua segurança e o aumento de sua capacidade de influência 
no sistema. 
Em âmbito interno, segundo Hobbes, os homens associam-se e abrem 
mão de parte de sua independência para garantir sua segurança, transferindo 
uma parcela de seu poder para um soberano – o Estado – que, tornando-se o 
único e legítimo titular do uso da força (coerção), protege-os e garante a ordem. 
Na esfera internacional, entretanto, declaram os realistas, não há uma 
autoridade superior à qual os Estados estejam dispostos a transferir parcela de 
seu poder ou soberania em troca de segurança. 
Para garantir sua segurança, os Estados irão buscar aumentar seu poder 
– definido pela capacidade de influenciar os demais Estados e de ser 
influenciado o mínimo por eles –, projetando-o no sistema internacional. Esse 
poder relaciona-se intimamente com o uso da força – sobretudo de poderio 
político-militar e os aspectos econômicos relacionados a ele. Em outras palavras, 
quanto mais forte for um Estado frente a seus pares, menos sujeito a ser 
subjugado por estes ele se encontra. 
 
 
 
Pág. 4 - O Realismo 
 
 
Paradoxalmente, uma vez que é impossível a coexistência em um sistema 
internacional caótico, os realistas acreditam que há uma ordem internacional 
estabelecida pelas Potências – Estados mais poderosos –, que a impõem aos 
demais Atores. A ordem se fundamenta, portanto, em um equilíbrio de poder 
instituído pelas relações entre as Potências. Quando uma Potência aumenta sua 
esfera de poder, entrará em atrito com as demais – que não aceitarão ver sua 
capacidade de influência diminuída. Dessa maneira, o sistema poderá ser levado 
ao desequilíbrio, chegando-se ao conflito entre os Estados poderosos, que 
culminará, por sua vez, em uma nova ordem imposta pelos vencedores. 
 
Os realistas não acreditam em uma ordem internacional instituída por princípios 
morais e fraternos. Qualquer forma de cooperação internacional será conduzida 
pelos Estados enquanto esses perceberem que a cooperação garantirá mais 
segurança que a não cooperação. As instituições internacionais são frágeis e 
somente prevalecem enquanto for mais conveniente para as Potências. No meio 
internacional, o Direito acaba quando a força começa. 
 
Destarte, para os realistas, os Estados só seguirão e defenderão o Direito 
Internacional enquanto isso lhes for interessante. Caso as instituições jurídicas 
internacionais contrariem interesses de um Estado, este não se furtará a violá-
las, desdeque tenha capacidade –potencialidade de uso da força – para fazê-lo 
e para suportar as reações dos outros Estados que defendam aqueles institutos. 
Periodicamente, os governos recorrem à força e violam os princípios de Direito 
Internacional, produzindo, inclusive, argumentos jurídicos para justificar sua 
política de agressão. 
 
Outro aspecto importante do pensamento realista é a percepção do Estado como 
o único, ou, no mínimo, o principal Ator nas Relações Internacionais. Nessa 
perspectiva, os demais Atores – reconhecidamente as organizações 
internacionais – não seriam mais que instrumento de manobra das Potências 
para garantir sua hegemonia na Sociedade Internacional. Segundo Senarclens 
(2000, p. 18): 
 
De fato, as grandes potências definem as condições da segurança internacional 
e se arrogam em uma boa margem de manobra na interpretação dos princípios 
da Carta das Nações Unidas. Elas dominam as organizações internacionais; as 
utilizam continuamente para servir aos seus próprios fins [das grandes 
Potências], notadamente para efetivar suas ambições políticas e seu desejo de 
hegemonia. (...) Para os realistas, (...) o direito e a moral nas Relações 
Internacionais não fazem mais que exprimir a racionalização dos interesses dos 
principais Estados que dominam a política mundial. 
 
(...) Definitivamente, as normas jurídicas e as instituições são frágeis; sua 
implementação é frágil, uma vez que os Estados interpretam a seu bel-prazer as 
obrigações que elas impõem; [os Estados] as transgridem invocando a defesa 
de seus interesses nacionais. Contrariamente ao que ocorre na esfera estatal 
interna, não há [no meio internacional] um poder legítimo capaz de instaurar e 
assegurar uma ordem política impondo sua arbitragem frente aos conflitos entre 
os Estados; nenhuma autoridade é capaz de produzir um conjunto de normas 
jurídicas universalmente reconhecidas como legais. Não existe uma corte 
internacional capaz de julgar de maneira sistemática e coerente as diferenças 
entre os Estados, nem forças policiais [internacionais] que possam coibir 
agressões a fim de estabelecer a paz. O indivíduo que viole a lei dentro de um 
Estado é passível de sanção. O Estado que transgrida o direito internacional em 
geral não é punido. 
O institucionalismo, portanto, não encontra abrigo na perspectiva realista. 
Ademais, a liberdade de ação dos Estados na esfera internacional estará 
relacionada à força que cada um deles tenha frente aos demais. Em Paz e 
Guerra entre as Nações, Raymond Aron, partindo do pressuposto de que os 
Estados são soberanos – e, portanto, livres para perseguir sua própria justiça –, 
admitiu que o direito desses entes de recorrer à força constitui uma das 
especificidades das relações internacionais. 
No que concerne ao meio internacional heterogêneo, os realistas afirmam 
que, apesar de os Estados serem juridicamente idênticos e terem direitos iguais 
de pronunciar-se perante o concerto das nações, na prática, a capacidade de 
exercerem sua soberania varia consideravelmente. 
O que os realistas buscam deixar claro é que não se pode querer igualar 
a China a Liechtenstein, ou o Brasil à Somália, ou ainda, ou ainda, os EUA ao 
Afeganistão. Não adianta, portanto, querer arguir o artigo 2º da Carta das Nações 
Unidas para que se imponha o princípio da igualdade entre os Estados nas 
relações internacionais. Os Estados são distintos uns dos outros quanto à 
grandeza territorial, populações, localização geográfica, capacidade militar, 
níveis de desenvolvimento em que se encontram, recursos econômicos, 
capacidade de exploração desses recursos. É exatamente em virtude dessas 
diferenças que os Estados terão maior ou menor influência no sistema 
internacional e buscarão formas de defender seus interesses. 
O artigo 2º da Carta da Nações Unidas dispõe que a ONU é "fundada sobre o 
princípio da igualdade soberana de todos os seus Membros. 
 
Destarte, para os realistas, a política internacional de cada Estado é 
conduzida considerando-se as próprias potencialidades e as daqueles com os 
quais o Estado vá relacionar-se. A heterogeneidade – econômica, política, 
militar, cultural, ideológica, social – é a regra no sistema internacional, e não 
levar isso em consideração pode ser tremendamente desastroso para qualquer 
Ator. 
 
O conflito e a questão da segurança 
A política internacional, como toda política, tem por base os conflitos 
relacionados à distribuição do poder e dos recursos econômicos. Os Estados 
atuam na arena internacional considerando essa disputa por poder e por 
recursos econômicos. E os governos não devem ter objetivos maiores que os da 
defesa de seus “interesses nacionais”, entre os quais o mais importante é 
assegurar sua sobrevivência. É exatamente a conduta dos Atores internacionais 
em uma persecução - muitas vezes desordenada - por seus interesses nacionais 
que leva à situação de conflito e caos. Daí a assertiva de Morgenthauem A 
Política entre as Nações: 
A política internacional, como toda política, é uma luta pelo poder. 
Quaisquer que sejam os fins últimos da política internacional, o poder é sempre 
o fim imediato. 
Os realistas percebem diferentes maneiras pelas quais os Estados 
buscam sua segurança. Para assegurar a independência, dependendo da 
posição e do status internacional, optam pela proteção de uma grande Potência, 
a participação em sistemas de segurança coletiva ou em alianças políticas ou 
militares. De qualquer maneira, a maioria dos Estados dispõe de forças armadas 
para garantir sua segurança. Aqueles que renunciaram a elas (a Costa Rica é o 
caso mais notório), necessariamente confiam sua defesa à proteção de uma 
Potência hegemônica. 
Philippe Braillard, em Teoria das Relações Internacionais (1990, p. 115), 
resume bem os principais conceitos do pensamento de Morgenthau: 
 Para Morgenthau é o poder (power) e, mais precisamente, a procura pelo 
poder, que é o fundamento de toda a relação política e que constitui, assim, o 
conceito chave de toda a teoria política. Esta procura do poder está inscrita 
profundamente na natureza humana, onde tem a sua origem, natureza que não 
é essencialmente boa, já que ela confere a todos os homens um ardente desejo 
de poder ou animus dominandi, e os faz, com frequência, agir como uma ave de 
rapina, pelo menos ao nível das relações dos grupos sociais entre si. Temos, por 
isso, no fundamento da teoria política de Morgenthau, uma visão filosófica do 
homem, uma antropologia, marcada pelo pessimismo, que é fortemente 
inspirada pela obra do teólogo Reinhold Niebuhr, um dos mestres do 
pensamento da escola realista americana. 
 No que respeita particularmente à política internacional, a aspiração ao 
poder por parte das diversas nações, cada uma procurando manter ou modificar 
o status quo, conduz, necessariamente, a uma configuração que constitui o que 
chamamos de equilíbrio [de poder] (balance of power) e as políticas que visam 
conservar esse equilíbrio. Ao estabelecer uma ligação necessária entre a 
aspiração das nações ao poder e as políticas de equilíbrio, Morgenthau pretende 
evitar o erro cometido pelos que acreditam que podemos escolher entre a política 
fundada no equilíbrio e uma política, de um gênero melhor, esquecendo que 
todos os Estados procuram os seus interesses, exprimidos em termos de poder. 
 
Também sobre o Realismo, veja o texto que trata da moral nas Relações 
Internacionais numa perspectiva realista, de Marcelo Beckert Zapelini. 
 
 
Críticas ao Realismo 
Claro que o Realismo tem sofrido pesadas críticas ao longo de décadas. 
Por exemplo, afirma-se que a teoria negligencia aspectos sociais, culturais ou 
mesmoeconômicos, dando valor exacerbado a fatores político-militares. Outra 
crítica é de que o conceito de poder na perspectiva realista estaria mal definido 
e seu emprego demasiado vago, uma vez que o poder seria, ao mesmo tempo, 
“um fim, um meio, um motivo e uma relação”. 
Há, ainda, aqueles que lembram que o interesse nacional definido em 
termos de poder é discutível, uma vez que é complicado determinar e quantificar 
esse interesse. Ademais, o Estado jamais poderia ser considerado um Ator 
unitário e racional, e as decisões e ações de política externa são fruto de um 
complexo conjunto de interesses de forças em diferentes níveis da sociedade 
interna. Daí que interesse nacional seria um conceito bastante subjetivo, tanto 
em virtude da diversidade das forças do interior do Estado que estabelecem 
quais são as prioridades e os interesses da nação, quanto devido à 
heterogeneidade do sistema internacional. 
Finalmente, há a ponderação de que a teoria realista assenta-se numa 
visão das relações internacionais limitada à configuração dessas relações nos 
séculos XVIII e XIX, ou mesmo na primeira metade do século XX, sendo 
inadequada ao sistema internacional contemporâneo, marcado pela diversidade 
de Atores e de grupos, como organizações internacionais, organizações não 
governamentais e empresas transnacionais. 
O conhecimento da perspectiva realista é fundamental para a compreensão 
das relações internacionais. Além da já citada obra de Morgenthau, sugere-se 
a leitura dos trabalhos de Raymond Aron, com destaque para Paz e Guerra 
entre as Nações e dos livros de Henry Kissinger. 
 
O Neorrealismo 
O Neorrealismo é uma versão mais atual do Realismo. Pegou emprestado 
alguns elementos do cientificismo behaviorista e, assim, deu um renovo para a 
corrente realista. O Neorrealismo deriva de um movimento epistemológico que 
ficou conhecido como Estruturalismo. Segundo os estruturalistas, a sociedade 
se define pelas condições de possibilidade de toda organização social. A análise 
dos diferentes sistemas constitutivos da Sociedade Internacional e de sua 
articulação mostra serem eles a aplicação de certo número de leis lógicas 
encontráveis em toda sociedade. Tal ponto de vista se casou com algumas 
perspectivas “clássicas”, como as que veem as “leis” da anarquia e do poder 
como explicativas da realidade (como a “lei” do balanço de poder já estudada), 
dando luz ao Neorrealismo. Para os estruturalistas, são essas as invariantes ou 
constantes que dão unidade necessária à fundamentação científica. Enfim, para 
os estruturalistas, o importante é identificar os padrões, os arranjos, as 
organizações sistemáticas em determinado estado. 
 
Em suma, o Estruturalismo foi fundamental para o desenvolvimento dos 
métodos “científicos” ao ensinar que o processo científico básico é o analítico, 
da decomposição das coisas, e que se deve privilegiar o aspectorelacional da 
realidade, uma vez que as relações são constantes, enquanto que os elementos 
podem variar. 
 Kenneth Waltz (2002) se utiliza do Estruturalismo para criar o seu 
Neorrealismo, também chamado de Realismo Estrutural, ao final da década de 
1970, que ele modestamente chama de “revolução de Copérnico” no âmbito das 
Relações Internacionais. 
 Waltz identifica três níveis de análise nas Relações Internacionais: o 
Indivíduo, o Estado e a Sociedade (economia doméstica/sistemas políticos), e o 
Sistema Internacional (ambiente anárquico). Dos três níveis de análise 
identificados por ele, concentra-se no terceiro nível, para dizer que a anarquia é 
uma constante, um “dado” na estrutura do Sistema Internacional. Enquanto esse 
primeiro critério da estrutura, a anarquia, é uma constante, o segundo, a 
distribuição de capacidades, é uma variável, pois varia entre os Estados. O 
referencial empírico para essa variável é a quantidade de Superpotências que 
domina o sistema. Dado o pequeno número de tais Estados – importante 
perceber que ele escrevia na época da Guerra Fria –, e, além disso, para Waltz, 
não mais que oito já foram importantes, a política internacional, segundo ele, 
poderia ser estudada em termos da lógica de poucos sistemas. 
O Neorrealismo foca mais as características estruturais do sistema 
internacional estatocêntrico do que as unidades que o compõem (os Estados). 
Em outras palavras, é a estrutura que molda e conforma as relações políticas 
entre as unidades. Para Waltz, o Realismo tradicional, por se concentrar nas 
unidades e nos seus atributos funcionais, é incapaz de trabalhar com mudanças 
de comportamento ou na distribuição de poder que ocorre independentemente 
das flutuações entre as próprias unidades. Assim, apesar de o sistema ainda ser 
anárquico e as unidades ainda serem autônomas no Neorrealismo, a atenção 
voltada para o nível estrutural fornecia-lhe uma imagem mais dinâmica e menos 
restrita do comportamento político internacional emergente. O Neorrealismo 
busca explicar como as estruturas afetam o comportamento e os resultados, 
independentemente das características atribuídas ao poder e ao status. 
O Neorrealismo 
Para Waltz, o sistema internacional funciona como o mercado, o qual está 
interposto entre os atores econômicos e os resultados que eles produzem. É o 
mercado que condiciona seus cálculos, seus comportamentos e suas interações. 
Assim, para ele, é a estrutura do sistema internacional que limita o potencial de 
cooperação entre os Estados e que, por consequência, gera o dilema da 
segurança, a corrida armamentista e a guerra. 
 Waltz lembra que as empresas devem desenvolver sua própria estratégia 
para sobreviver em um meio competitivo, sendo difíceis ações coletivas que 
otimizem o lucro a longo prazo. 
 Waltz usa a noção de poder estrutural – espécie de poder que pode estar 
operando quando os Estados não estiverem agindo da forma que se esperava, 
dada a desigualdade de distribuição de poder no sistema internacional. Percebe-
se que Waltz se inspirou em Durkheim, para quem a sociedade não é a simples 
soma de indivíduos e que todo fato social tem por causa outro fato social, e 
jamais um fato da psicologia individual. Em seu trabalho sobre o suicídio, 
Durkheim procurou demonstrar que, mesmo no ato privado de tirar a própria vida, 
conta mais a sociedade presente na consciência do indivíduo do que sua própria 
história individual. Ou seja, o ambiente é mais importante do que o agente, e 
essa é a tese por trás do Neorrealismo de Waltz. 
 Isolando a estrutura, Waltz argumenta que uma estrutura bipolar 
dominada por duas Superpotências é mais estável que uma estrutura multipolar 
dominada por três ou mais Superpotências, pois é mais provável que se sustente 
sem guerras espalhadas no sistema. Para ele, há diferenças expressivas entre 
multipolaridade e bipolaridade. Na multipolaridade, os Estados confiam em 
alianças para manter a segurança, o que é inerentemente instável, uma vez que 
existem potências demais para se permitir que qualquer uma delas trace linhas 
claras e fixas entre aliados e adversários. Em contraste, na bipolaridade, a 
desigualdade entre as Superpotências e cada um dos outros Estados assegura 
que a ameaça posta a cada um deles seja mais fácil de ser identificada, e, no 
sistema bipolar da Guerra Fria, a URSS e os EUA mantinham o equilíbrio central, 
confiando mais nos próprios armamentos do que nos aliados. Ficam, assim, 
minimizados os perigos decorrentes de previsões erradas. A intimidação nuclear 
e a inabilidade das Superpotências em superarem mutuamente as forças 
retaliadoras aumentam a estabilidade do sistema. Ou seja, para Waltz, a 
estrutura do sistema em si gerava a estabilidade. 
Os conceitos de multipolaridade e de bipolaridadeserão abordados com mais 
detalhesno próximo módulo. Waltz foi criticado por Raymond Aron, para quem 
a estabilidade da Guerra Fria tinha mais a ver com as armas nucleares em si 
do que com a bipolaridade. Muitos críticos argumentaram que o modelo de 
Waltz era muito estático e determinístico, além de desprovido de qualquer 
dimensão de mudança estrutural (revolução). Mas essas, na verdade, são as 
características do Estruturalismo. Em Waltz, os Estados estão condenados a 
reproduzir a lógica da anarquia, e qualquer cooperação que ocorra entre eles 
ficará subordinada à distribuição de poder. Os neoliberais criticam Waltz por 
exagerar o grau de “obsessão” dos Estados pela distribuição de poder e por 
ignorar os benefícios coletivos que podem ser alcançados pela cooperação. 
Abordaremos esse debate entre neorrealistas e neoliberais mais à frente. 
Outros acusaram Waltz de tentar legitimar a Guerra Fria sob o manto da 
ciência. Com o fim da Guerra Fria, um dos polos da estrutura ruiu, a URSS, o 
que não se harmonizava com as expectativas da teoria de Waltz, segundo as 
quais as Superpotências amadureceriam para se tornar “duopolistas 
sensíveis” no comando de uma estrutura crescentemente estável. 
 
Os Últimos Grandes Debates 
Visto o Neorrealismo, agora podemos abordar os últimos grandes debates 
teóricos de interesse para o presente curso introdutório. Tais debates, que 
surgiram nas últimas décadas do século XX, refletem as teorizações que se 
fizeram necessárias para explicar as significativas mudanças nas relações 
internacionais produzidas pelo processo de globalização e pelo aumento da 
interdependência entre os Atores. 
Neorrealistas X Globalistas 
 
Um dos últimos debates que merece referência neste curso é o que se dá 
entre neorrealistas e globalistas. 
 Como visto, a corrente neorrealista surge com o objetivo de desenvolver 
uma análise mais precisa das Relações Internacionais, baseada nos 
pressupostos realistas clássicos, mas com adaptações que tinham que 
considerar a nova realidade internacional mais complexa. 
 Como já referido, Waltz (2002) reafirma a perspectiva tradicional realista: 
o princípio da soberania estatal confere à Sociedade Internacional 
características próprias e limita os domínios da cooperação internacional, 
prejudicando qualquer integração durável. O autor retoma a ênfase na teoria do 
equilíbrio de poder diante do Sistema Internacional anárquico, no qual os 
Estados competem e atuam em defesa de seus interesses, que podem ser 
percebidos como, no mínimo, a sua própria preservação, e, no máximo, a 
dominação universal. 
 O Globalismo, por sua vez, usa algumas das categorias que o 
Neorrealismo usa (como o poder estrutural), pois também deriva do 
Estruturalismo, mas surge como uma corrente alternativa. Os globalistas 
reconhecem, como os neorrealistas, que há limitações estruturais para a 
cooperação entre os Estados, mas defendem que isso se dá mais em razão da 
hierarquia do que da anarquia no Sistema. Para eles, a hierarquia, como uma 
característica chave, é mais importante do que a anarquia, dada a desigualdade 
na distribuição do poder dentro do sistema. Os globalistas enfatizam o poder 
estrutural e centram as capacidades chaves no sistema econômico. Para eles, 
uma divisão peculiar do trabalho ocorreu historicamente no sistema mundial 
como resultado do desenvolvimento do capitalismo como a forma dominante de 
produção. 
 Como já referido na Unidade 3, o Globalismo busca explicar as relações 
internacionais não em virtude de cooperação ou conflito, mas sob a ótica do 
subdesenvolvimento de vários países. Os globalistas buscam analisar as 
Relações Internacionais dentro de um contexto global e geral, assim como fazem 
os neorrealistas, mas acreditam que o que deve ser explicado são as relações 
de dominação, ou seja, como a minoria consegue dominar a maioria, doméstica 
ou internacionalmente, e essa dominação encontra na Economia seu aspecto 
central. 
 “Existe uma influência marxista no globalismo, principalmente nas 
análises sobre o padrão de evolução histórica das relações de dominação (o 
conflito seria o motor da dinâmica entre as classes sociais). Existe também um 
enfoque na totalidade, ou seja, não é possível entender o capitalismo sem 
entender as relações de exploração. Afirmam também, nessa perspectiva global, 
que qualquer solução localizada deve ser vista apenas como uma etapa da 
solução global. ” Miguel Burnier, Debate Interparadigmático das Relações 
Internacionais, no Caderno Pet Jur n. IV. 
 
Neorrealistas X Globalistas 
O Globalismo vê um sistema-mundo capitalista composto por um núcleo 
(o centro) e a periferia. As áreas centrais se engajaram, historicamente, nas 
atividades econômicas mais avançadas: bancária, industrial, agricultura de alta 
tecnologia etc. A periferia tem fornecido matéria-prima, como minérios e madeira, 
para a expansão econômica do centro. O trabalho não qualificado é sufocado, e 
aos países periféricos é negado o acesso a tecnologias avançadas nas 
áreas/setores em que podem vir a competir com os países centrais. O 
relacionamento polarizado entre as duas categorias é um dos motores do 
sistema. 
Assim, não basta um consenso ideológico a favor do capitalismo (como 
pensam os neoliberais) ou uma concentração do poder militar entre as 
hegemonias do centro (como pensam os neorrealistas) para que um conflito 
sério no sistema possa ser evitado. Para os globalistas, não bastaria nenhum 
dos dois se não fosse a divisão da maioria numa camada inferior maior. 
Autores globalistas, como Immanuel Wallerstein, acreditam que o 
sistema-mundo continuará a funcionar como tem feito nos últimos quinhentos 
anos, em busca do acúmulo sem fim de bens e capital, e que a periferia será 
cada vez mais marginalizada na medida em que a sofisticação tecnológica do 
centro se acelerar. 
 
Neorrealistas X Neoliberais e a Teoria da Interdependência 
Este último debate é o mais relevante para o mundo que se descortina 
diante de nossos olhos neste início do século XXI. Também pode ser referido 
como um debate entre neorrealistas e pluralistas, já que os liberais e neoliberais 
se reúnem no paradigma pluralista. 
Como pano de fundo desse debate temos a Teoria da Interdependência. 
Esse debate teórico ganhou força nas décadas de 1980 e 1990 e perdura até os 
dias de hoje. O debate se dá em torno de questões como: se o sistema 
internacional mudou ou não sob o impacto da interdependência, e quais as 
implicações de tal mudança para a teoria e prática das relações internacionais. 
No fundo, quando surgiu o debate, a questão era se o modelo clássico da 
“anarquia” estava perdendo seu poder explicativo frente à “interdependência” 
entre os Estados, se a agenda tradicional das relações internacionais passou ou 
não a reduzir a importância da “alta política” (high politics – segurança militar, 
dissuasão nuclear) e a elevar a “baixa política” (low politics – comércio, finanças 
internacionais etc.). 
 Na época em que surgiu, a discussão era travada entre os que 
acreditavam que o sistema internacional não estava sofrendo nenhuma 
mudança sistêmica (a escola neorrealista) e os que argumentavam que o 
Realismo passou a ser um guia inadequado para a compreensão das mudanças 
dramáticas ocorridas nas relações internacionais como resultado das forças 
econômicas transnacionais (a escola neoliberal). 
 
Neorrealistas X Neoliberais e a Teoria da Interdependência 
A razão desse debate era a crise do sistema Bretton Woods, a crise de 
conversibilidade do dólar e os choques de petróleo, eventos que abalaram todo 
o mundo. E, claro, não se pode deixar de citar, o fracasso dos EUA na Guerrado Vietnã. 
 
Segundo Waltz (2002), a direção da interdependência econômica 
dependia da distribuição de poder no Sistema Internacional. O significado 
político das forças transnacionais não decorre de sua escala; o que importa é a 
vulnerabilidade dos Estados às forças fora de controle e os custos da redução 
de exposição a essas forças. Para Waltz, no sistema bipolar então vigente, o 
grau de interdependência era relativamente baixo entre as Superpotências, e a 
persistência da anarquia, como princípio central organizador das relações 
internacionais, garantia que os Estados continuassem a privilegiar a segurança 
acima da busca por riquezas (GRIFFITHS, 2004). 
 Do outro lado do debate estavam os neoliberais, que afirmavam que o 
crescimento das forças econômicas transnacionais, como os fluxos financeiros, 
a crescente irrelevância do controle territorial frente ao crescimento econômico 
e a divisão internacional do trabalho tornavam o Realismo obsoleto. Os 
benefícios coletivos do comércio e a influência dos fluxos financeiros para as 
políticas domésticas dos Estados assegurariam uma cooperação maior entre os 
Estados e contribuiriam para o declínio do uso da força entre eles. 
 Um dos fortes defensores das teses neorrealistas foi Stephen Krasner. 
Para Krasner (1983), os Estados soberanos continuam sendo, nos tempos de 
hoje, agentes racionais e interesseiros, firmemente preocupados com seus 
ganhos relativos. Argumentou que os períodos de abertura na economia mundial 
correspondem aos períodos nos quais um Estado é nitidamente dominante. No 
século XIX, foi a Grã-Bretanha; no período 1945-1960, os EUA. Por 
consequência, concorda com Waltz: o grau de abertura depende, em si, da 
distribuição de poder entre os Estados. A “interdependência” econômica é 
subordinada ao equilíbrio de poder econômico e político entre os Estados, e não 
o contrário. A teoria da Estabilidade Hegemônica, vista na Unidade 2, trata desse 
ponto. 
Krasner também ataca os globalistas. Para ele, os Estados nem sempre 
colocam a riqueza acima dos outros objetivos. O poder político e a estabilidade 
social também são cruciais, e isso significa que, embora o comércio aberto possa 
fornecer ganhos absolutos para todos os Estados que se comprometerem com 
ele, alguns Estados ganharão mais do que outros, e essas diferenças de poder 
são o principal fator determinante e explicativo do comportamento dos Estados. 
Krasner ataca os globalistas pelo fracasso em explicarem o envolvimento dos 
EUA na Guerra do Vietnã, que provocou tão intensas discordâncias domésticas 
para tão pouco ganho econômico. Se os EUA frequentemente desejavam 
proteger os interesses das corporações norte-americanas, reservaram o uso da 
força em larga escala, todavia, para as causas ideológicas. Isso explicaria a 
guerra contra o Vietnã, uma área de importância econômica insignificante para 
os EUA, e a relutância no uso da força durante as crises do petróleo nos anos 
de 1970, que ameaçaram o fornecimento do produto em todo o mundo 
capitalista. 
 
Neorrealistas X Neoliberais e a Teoria da Interdependência 
Krasner atacou de frente a “interdependência” neoliberal, e todo o 
institucionalismo supostamente por trás dela. Segundo ele, Estados pequenos e 
pobres do Sul tendem a apoiar os regimes internacionais que distribuem 
recursos autoritariamente, ao passo que os Estados mais ricos do Norte 
favorecem regimes cujos princípios e regras dão prioridade aos mecanismos de 
mercado. Regimes internacionais “autoritários” são aqueles conjuntos de regras, 
normas, princípios e procedimentos que aumentam os poderes soberanos dos 
Estados individualmente, dando aos Estados o direito de regulamentar fluxos 
internacionais (migração, sinais de rádio, ativos financeiros, aviação civil etc.) ou 
de distribuir acesso a recursos internacionais (fundo do mar, atmosfera, etc.). Os 
Estados do Terceiro Mundo procuram, na verdade, proteção. Tentam se proteger 
contra a operação de mercados em que eles se encontram em desvantagem. 
Não seria por outro motivo o apoio de países do Terceiro Mundo ao Fórum Social 
Mundial, cujas preocupações têm sido a regulamentação dos fluxos financeiros 
internacionais e a imposição de uma tributação sobre eles (a chamada “taxa 
Tobin”). 
Regimes internacionais são normalmente definidos como princípios, normas, 
regras e processos de tomada de decisão em torno dos quais as expectativas 
do Ator convergem para uma dada questão setorizada (issue area). Os 
regimes implicam não apenas normas e expectativas que facilitam a 
cooperação entre os Estados, mas formas de cooperação. 
 
Krasner, assim, identifica uma dicotomia regulamentação/Terceiro Mundo 
versus desregulamentação/Primeiro Mundo, que, no fundo, evidencia relações 
de poder. Krasner, desse modo, rejeita, mais uma vez, a hipótese de que os 
Estados perseguem simplesmente riqueza, e argumenta que os Estados do 
Terceiro Mundo também se envolvem em lutas pelo poder, querendo diminuir 
sua vulnerabilidade ao mercado e exercer um controle estatal maior sobre ele (é 
o que estaria por trás, por exemplo, das discussões na China sobre o controle 
ou não dos fluxos de capital – deixar ou não fechada a conta de capital do 
balanço de pagamentos). Assim, a soberania dá aos Estados do Terceiro Mundo 
uma forma de “metapoder” ou poder de uma ideologia coerente para atacar a 
legitimidade dos regimes do mercado internacional e as injustiças do capitalismo 
global (GRIFFITHS, 2004). 
Portanto, para os neorrealistas, a tentativa de estabelecer regimes 
internacionais como meio de superar ou atenuar os efeitos da anarquia não 
funciona. Tais regimes não disfarçam as diferenças de poder existentes nas 
relações internacionais e tampouco conseguem alterar a importância da 
soberania dos Estados. 
Neoliberais como Robert Keohane (2001) tentariam derrubar essas teses, 
buscando uma resposta positiva para a questão de se as instituições explicam 
ou não o comportamento dos Estados. O argumento básico de Keohane é que, 
num mundo interdependente, o paradigma realista é de uso limitado para ajudar 
a compreender a dinâmica dos regimes internacionais, ou seja, as normas, 
regras e princípios que governam as tomadas de decisão e as operações em 
relações internacionais sobre determinadas questões, como o dinheiro. 
 
Neorrealistas x Neoliberais e a Teoria da Interdependência 
Os neoliberais usam o modelo da “interdependência complexa”. Trata-se 
de um modelo explanatório das relações internacionais que pressupõe múltiplos 
canais de contato entre as sociedades, uma ausência de hierarquia entre 
questões de agenda e uma diminuição da utilidade do poder militar, ou um papel 
minimizado para o uso da força. A “interdependência complexa” é o resultado da 
multiplicação das interconexões globais e da aceleração de fluxos financeiros, 
demográficos, de bens, serviços e de informações, com operadores 
extremamente variados: organizações intergovernamentais, multinacionais, 
organizações não governamentais, sociedade civil, dentre outros, os quais 
passam a ganhar espaço nas decisões e discussões internacionais, e o Estado 
deixa de ter o único papel relevante nas relações internacionais, embora ainda 
proeminente. 
 Sob condições de interdependência complexa, os neoliberais afirmam que 
é difícil para Estados democráticos delinearem e perseguirem políticas exteriores 
racionais, como defendem os realistas. 
Os neorrealistas, tornando o debate mais acalorado, responderam 
dizendo que não é verdade que a distribuição de poder político e militar não se 
relacione com a condição de interdependência complexa. A Teoria da 
Estabilidade Hegemônica é normalmente citada como a conjugaçãodas ideias 
do realismo com as ideias pluralistas de interdependência (vide Unidade 2). Ela 
explica, por exemplo, a ligação entre o poder hegemônico e o grau de 
interdependência complexa no comércio internacional. Waltz, ao falar sobre a 
importância do equilíbrio de poder, mostrou que a interdependência, longe de 
tornar obsoleto o poder, dependia da habilidade e da disposição dos EUA em 
fornecer as condições sob as quais os outros Estados estariam participando da 
concorrência por ganhos relativos e cooperando para maximizar seus ganhos 
absolutos com base em uma cooperação no comércio e em outros setores de 
controvérsia. 
 A Teoria da Estabilidade Hegemônica procurou responder ao argumento 
neoliberal de que o crescimento da interdependência econômica entre os 
Estados os estaria enfraquecendo e atenuando o relacionamento histórico entre 
a força militar e a capacidade de sustentar interesses nacionais. Afinal, está a 
interdependência econômica que testemunhamos no mundo atual reduzindo a 
importância do poder militar? A resposta dessa teoria é negativa, como visto. 
Portanto, para autores como Gilpin, a liderança hegemônica dos EUA e o 
antissovietismo foram as bases do compromisso com o “internacionalismo 
liberal” e com o estabelecimento de instituições internacionais para facilitar a 
grande expansão comercial ocorrida entre os Estados capitalistas nos anos de 
1950 e 1960 (chamados de “anos dourados” por Eric Hobsbawm). Giovanni 
Arrighi, em sua obra O longo século XX, apresentou tese no mesmo sentido. 
Sem a presença de um hegemon, não teria havido os anos dourados do pós-
Guerra. 
 
Conclusão 
O Realismo continua sendo a principal corrente teórica de Relações 
Internacionais. No século XXI, análises sob uma ótica realista passam a 
considerar diferentes fatores e novos Atores. Não obstante, esses novos 
elementos não conduzem à decadência ou obsolescência do paradigma, mas, 
sim, a novas adaptações. As teses neorrealistas são bons exemplos. De fato, 
com as mudanças na política internacional que vêm ocorrendo neste início de 
milênio, motivadas pelas pretensões hegemônicas de projeção de poder da 
Hiperpotência norte-americana, nunca o mundo pareceu tão realista. 
Nesta Unidade então, estudamos a principal corrente teórica das Relações 
Internacionais: O Realismo. Volte ao início da Unidade e verifique se os 
objetivos propostos foram alcançados. 
 
Sociedade Internacional: Aspectos Gerais 
 
• apresentar os aspectos gerais que caracterizam a Sociedade Internacional; 
• assinalar as subestruturas que compõem a Sociedade Internacional e sua 
importância na compreensão da mesma. 
 
Outro fator importante, que pode contribuir para o aproveitamento do 
curso, é sua organização pessoal e a disponibilidade de um tempo diário e 
preciso para os estudos. 
 
Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito 
Em um primeiro momento, podemos relacionar a Sociedade Internacional 
à evolução histórica das relações entre os grupos, povos e Estados-nações 
organizados em âmbito espacial determinado. Assim, é possível identificar a 
evolução da Sociedade Internacional a partir das relações entre os grupos 
primitivos da Antiguidade, passando pelos reinos e impérios e chegando à Idade 
Contemporânea, com a ascensão e o declínio do Estado-nação frente a um 
sistema cada vez mais globalizado e interdependente. 
Em nossas observações acerca da Sociedade Internacional, a análise 
histórica pode ser de grande auxílio. Essa análise é definida como o estudo do 
grande número de eventos ou fatos que transcenderam as fronteiras entre os 
Estados e que relacionaram entre si as nações e os povos, de forma pacífica ou 
conflituosa. 
 
Conceito de Sociedade Internacional 
Convém apenas lembrar que definimos Sociedade Internacional como o 
conjunto de entes que interagem de maneira sistêmica em uma esfera 
internacional sob a influência de forças profundas. Passemos aos elementos 
fundamentais da Sociedade Internacional. 
 
Elementos Fundamentais e Sistema da Sociedade Internacional 
Para Rafael Calduch Cervera (1991, p. 64-55), “a Sociedade Internacional 
é uma sociedade global de referência”, ou seja, constitui “um marco social de 
referência, um todo social em que estão inseridos todos demais grupos sociais, 
quaisquer que sejam seus graus de evolução e poder”. É uma “sociedade de 
sociedades, ou macrossociedade, em cujo seio surgem e se desenvolvem os 
grupos humanos, desde a família às organizações intergovernamentais, 
passando pelos Estados. ” 
 
A Sociedade Internacional pode ser percebida como um conjunto de 
sociedades, sendo, portanto, heterogênea. Registre-se que há cerca de apenas 
três séculos é que a Sociedade Internacional começou a adquirir características 
“globais”: até recentemente, pouco contato havia entre as diversas “sociedades” 
dentro da Sociedade Internacional. 
 
Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito 
Elementos Fundamentais e Sistema da Sociedade Internacional (cont.) 
Outro ponto a que Calduch chama a atenção é que “a Sociedade 
Internacional é distinta da sociedade interestatal”. Mesmo sendo o Estado o 
principal Ator internacional, compreender a Sociedade Internacional apenas com 
base nas relações interestatais conduziria a uma percepção obscura e, portanto, 
deficiente da realidade. Não há como desconsiderar, sobretudo nos dias atuais, 
a presença e influência cada vez maior de grupos diferentes dos Estados-nação 
no sistema internacional. Ademais, convém lembrar que a doutrina aceita a 
existência de uma Sociedade Internacional antes do surgimento dos Estados 
nacionais. 
 Calduch afirma, ainda, que não é possível considerar a existência de uma 
Sociedade Internacional em seu sentido estrito, sem que seus membros 
mantenham relações mútuas intensas e duráveis no tempo. Com isso, assinala 
que a mera ocorrência de ações esporádicas e ocasionais não basta para se 
considerar a existência de uma Sociedade Internacional. 
 Discordamos dessa percepção de Calduch. Afinal, o que não se pode 
conceber, nos termos apresentados, é uma sociedade global, interdependente, 
como a dos dias atuais. Entretanto, Sociedade Internacional sempre houve, 
mesmo que sua principal característica fosse a falta de interação entre as 
sociedades/civilizações que a compunham. 
A Sociedade Internacional pode ser percebida na dicotomia “anarquia x 
ordem comum”. Evidente que é anárquica por não possuir uma autoridade 
superior que, legítima titular do uso da força, controle ou imponha a conduta a 
seus membros. Não existe um governo mundial ou uma autoridade supraestatal. 
Assim, os Atores conduzem suas relações internacionais de acordo com seus 
próprios interesses e, ao menos no que concerne aos Estados, não aceitam, de 
maneira geral, autoridade superior no sistema. 
Todavia, relembre-se que anarquia internacional não é sinônimo de 
desordem. Há uma ordem comum no meio internacional, estabelecida pelos 
próprios Atores para viabilizar suas relações. Nesse sentido, o papel das grandes 
Potências é essencial, pois são elas que definem os rumos do sistema. Não 
poderiam existir “relações internacionais” sem um ordenamento mínimo na 
Sociedade Internacional. 
Essa ordem internacional emana da correlação de forças e poderes entre 
os Atores internacionais. Pode-se dizer que esse ordenamento é estruturado 
com base em elementos como extensão espacial, diversificação estrutural, 
estratificação e hierarquia, polarização, grau de homogeneidade ou 
heterogeneidade e de institucionalização. São os chamados “elementos da 
estrutura internacional” (Esses elementos foram apresentados por Calduch, e as 
observaçõesque faremos a respeito são provenientes do estudo de sua obra.). 
Variam conforme o tempo e as diferentes sociedades, podendo ser identificados 
em todas elas. 
Sobre as transformações na Sociedade Internacional, interessante a trilogia 
de Manuel Castells: A Sociedade em Rede (Paz e Terra, 2007), O Poder da 
Identidade (Paz e Terra, 2000), Fim de Milênio (Paz e Terra, 2002). 
 
Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito 
A extensão espacial 
 Para Calduch, “a Sociedade Internacional é uma sociedade territorial”. Daí 
considerar-se essencial para a análise de qualquer Sociedade Internacional o 
conhecimento do “marco espacial” em que a referida sociedade se encontra 
assentada. 
 A Sociedade Internacional sofrerá transformações em sua estrutura e 
dinamismo sempre que sua dimensão espacial for alterada, ou, ainda, quando 
algum de seus membros principais experimentar mudanças em seus limites 
fronteiriços ou em sua zona de influência territorial direta – como ocorreu no 
Leste Europeu para a URSS. Vale lembrar que, sendo o Estado o principal Ator 
internacional, suas mudanças territoriais e reações a mudanças têm marcado as 
diferentes sociedades internacionais. 
 Portanto, da mais remota Antiguidade aos dias atuais, a constante 
expansão geográfica da Sociedade Internacional gerou conflitos e mudanças 
nos Atores e nas relações de poder entre eles. O que deve ficar claro é que, até 
o século XX, a característica da Sociedade Internacional era exatamente a 
composição espacial de diferentes sociedades internacionais, ainda que com 
espaços definidos e com crescentes intercâmbios culturais, comerciais, sociais 
e políticos, mas com características distintas e espaço geográfico delimitado. 
 O século XX marca o limite espacial da Sociedade Internacional. Esse foi 
um problema que surgiu quando a Sociedade Internacional alcançou dimensões 
planetárias. Com o desenvolvimento tecnológico, a ideia de “globalização” 
apresenta uma Sociedade Internacional não mais espacialmente limitada ao 
continente europeu, ao Ocidente ou ao “mundo civilizado”, mas às dimensões do 
planeta Terra. 
 Não se pode mais buscar soluções para problemas locais sem um 
pensamento global. Os problemas da Sociedade Internacional globalizada têm 
efeitos em todo o território do planeta. Entre esses “desafios” estão o fenômeno 
do esgotamento dos recursos naturais, o crescimento exponencial da população 
mundial, a deterioração ambiental ocasionada pela contaminação da terra, do ar 
e das águas, o uso crescente da energia nuclear para fins civis ou militares, a 
utilização do espaço estratosférico e das profundezas oceânicas. Acrescente-se 
a significativa disparidade de renda na esfera internacional, marcada por uma 
minoria da população do globo com alto padrão de vida e a maioria vivendo em 
condições subumanas, na miséria absoluta, sob regimes autoritários e sem 
quaisquer perspectivas de futuro digno. Essas condições implicam 
necessariamente uma reestruturação da Sociedade Internacional, em que a 
questão geográfica, isoladamente, cai para segundo plano. 
 
 
Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito 
A diversidade sistêmica 
 A Sociedade Internacional é composta de distintos subsistemas, cuja 
correlação configura a ordem internacional imperante. Cada um desses 
subsistemas corresponde a uma das áreas imprescindíveis para a existência da 
Sociedade Internacional em seu conjunto. Calduch prefere chamá-los de 
“subestruturas”. 
Cite-se, então, o subsistema econômico, no qual está a base material e 
produtiva indispensável para a existência dos grupos humanos. Incluem-se aí 
tanto o conjunto dos fatores e forças de produção quanto as inter-relações 
associadas ao processo econômico (produção, comércio e consumo). O 
subsistema econômico não pode ser descartado para a compreensão da 
Sociedade Internacional, uma vez que a Economia é uma das “forças profundas” 
mais influentes na conduta internacional dos Atores. 
 O segundo subsistema a ser considerado é o político-militar. Compõe-se 
das comunidades políticas e organizações internacionais, bem como das 
relações de autoridade e dominação que elas mantêm entre si em virtude de 
normas jurídicas ou mediante o exercício do poder militar. 
 O terceiro subsistema é o cultural-ideológico. Forma-se, segundo 
Calduch, por “atores e relações internacionais desenvolvidas a partir da 
existência de conhecimentos, valores ou ideologias comuns a distintas 
sociedades humanas e dos processos de comunicação que deles derivam”. O 
subsistema cultural-ideológico, tão importante quanto os anteriores, 
desempenha um papel de mediador entre a dimensão político-militar e a 
econômica, como foi testemunhado, por exemplo, nos anos da Guerra Fria. 
 Naturalmente, cada um dos subsistemas está conformado de maneira 
particular, em virtude das características exclusivas de cada um de seus 
componentes. Suas respectivas evoluções seguem ciclos e ritmos de diferentes 
intensidade e duração, provocando tensões, desajustes e crises, tanto entre os 
grupos que as capitalizam quanto ao conjunto da Sociedade Internacional. 
 
Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito 
A estratificação hierárquica 
 A Sociedade Internacional constitui uma realidade complexa, cujos 
membros ocupam níveis ou estratos segundo a desigualdade de poder – político, 
econômico, militar, social, cultural/ideológico. Uma vez que há diferentes graus 
de influência nos assuntos internacionais, existe uma hierarquia “de fato” entre 
os Atores na Sociedade Internacional. Daí o conceito de Calduch para essa 
estratificação: “conjunto das diferentes e desiguais posições ocupadas pelos 
atores internacionais em cada uma das estruturas parciais que formam parte da 
Sociedade Internacional. ” 
 Uma primeira observação a ser feita a respeito da estratificação é que a 
hierarquia internacional não é única e imutável em cada Sociedade Internacional 
e muito menos homogênea para cada subsistema. Assim, a posição ocupada 
por um Estado no Subsistema econômico internacional poderá não ser a mesma 
no subsistema político-militar, ou vice-versa. Para exemplificar, a influência atual 
do Brasil na economia internacional é bastante diferente de sua influência na 
política ou de seu poder militar, e, mais ainda, de seu papel cultural-ideológico 
internacional. 
 Calduch lembra, também, que, junto aos Estados soberanos, “deve-se 
considerar aqueles grupos internacionais cujo protagonismo fica limitado a 
certas áreas da vida internacional, por exemplo, o Fundo Monetário 
Internacional, para o subsistema econômico; o [extinto] Pacto de Varsóvia, para 
a política; a Agência de notícias Reuters, no plano cultural”. Claro que esses 
outros membros da Sociedade Internacional não podem ser desconsiderados, 
pois é inquestionável sua influência nos diferentes subsistemas, em alguns 
casos muito superior à da maior parte dos Estados-nacionais. 
Acrescentemos a relevância no papel de alguns indivíduos na Sociedade 
Internacional contemporânea, os quais exercem, efetivamente, influência como 
Atores internacionais. Inegável que Bill Gates, George Soros, o Papa João Paulo 
II, ou mesmo Osama bin Laden, só para citar alguns nomes mais conhecidos, 
mostraram-se mais influentes nas relações internacionais, sejam políticas, 
econômicas ou até culturais, que muitos países. Portanto, na Sociedade 
Internacional contemporânea, o indivíduo, entendido como Ator internacional, 
também ocupa um estrato dessa hierarquia. 
Assim, a estratificação hierárquica em cada um dos subsistemas 
internacionais pode realizar-se atendendo às diferentes características de Atores 
(Estados,organizações internacionais, organizações não governamentais, 
empresas multinacionais/transnacionais, indivíduos, entre outros) ou, ainda, 
considerando cada um dos grupos com capacidade de participação nos 
diferentes subsistemas. 
Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito 
A polarização 
 Alguns Atores atraem para si outros em virtude da capacidade de 
influência no sistema e da desigualdade entre os diferentes protagonistas do 
cenário internacional. Introduzimos, aqui, um dos elementos essenciais para a 
compreensão da estrutura do sistema internacional: a ideia de polarização. 
Polarização pode ser definida como a capacidade efetiva de um ou vários 
Atores internacionais para adotar decisões, comportamentos ou normas que 
sejam aceitos pelos demais Atores e, por meio dos quais alcançam ou garantem 
uma posição hegemônica na hierarquia internacional. Para os Atores que 
ocupam essa posição de destaque, a manutenção da estrutura imperante 
mostra-se questão de sobrevivência, pois qualquer sinal de mudança pode 
significar que outro polo está a se estruturar, com a consequente – e, às vezes, 
fatal – alteração no equilíbrio de poder no sistema. Enquanto a estratificação 
considera o conjunto dos Atores, a polarização – ou polaridade – contempla 
somente aqueles que dominam as relações básicas de cada subsistema 
internacional. 
Portanto, ao tratarmos de polarização, consideramos os membros da 
Sociedade Internacional nas posições superiores da estratificação hierárquica. 
 Segundo Calduch, os Atores à frente de cada subsistema internacional se 
veem obrigados a intervir de modo crescente e constante nas relações 
internacionais, com o objetivo de perpetuar sua hegemonia. A longo prazo, 
haverá uma drenagem tão grande de seus recursos e capacidades para projetos 
e atuações exteriores que esses Atores terão seu poder debilitado, tanto interna 
quanto externamente. Um bom exemplo disso é o que ocorreu com a URSS na 
década de 1980, que culminou no desaparecimento daquele Estado em 1991. 
 O caso da URSS é, como dito, apenas um exemplo. A “ascensão e queda 
das grandes potências”, para usar os termos de Paul Kennedy, é um fato que 
pode ser constatado em diversos momentos da evolução histórica da Sociedade 
Internacional, sempre relacionado à incapacidade de manutenção da hegemonia 
internacional nos diferentes subsistemas ao longo do tempo. A evolução é fatal: 
um Ator hegemônico surge ainda quando o Sistema está polarizando por outro 
ou outros atores; aos poucos, vai ocupando o vazio de poder fruto do 
enfraquecimento desse ou desses, até adquirir capacidade suficiente para afetar 
o Sistema. Entretanto, depois de determinado tempo – anos, décadas ou séculos 
–, a única certeza é que surgirá um novo Ator para ocupar seu espaço no 
Sistema Internacional. Assim como ocorre na natureza, numa lógica darwiniana, 
ocorre também na Sociedade Internacional. 
Entenda-se lógica darwiniana como a capacidade de um ente se adaptar 
a determinado ambiente. É importante observar que um ente muito adaptado a 
determinado ambiente e, portanto, bem-sucedido, pode desaparecer se as 
condições se modificam. 
Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito 
Polarização (cont.) 
 
Há três formas de polarização internacional: 
unipolaridade; 
bipolaridade; e 
multipolaridade. 
 
Entende-se por unipolaridade a situação em que um só Ator é capaz de 
dirigir, de modo decisivo, a dinâmica de determinado subsistema internacional. 
No seu auge, o poder de influência desse Ator é incontestável, devido à 
incapacidade de outro Ator fazer-lhe frente. 
 
O exemplo clássico de unipolaridade político-militar está no Império 
Romano, entre a derrota de Cartago (136 a.C.) e seu desmembramento (476 
d.C.), no contexto da Sociedade Internacional mediterrânea. Um exemplo atual 
poderia ser a condição dos EUA, ao menos sob a perspectiva de poder militar, 
com o fim da Guerra Fria e o colapso da URSS. Alguns autores, entretanto, 
discordam e vislumbram um sistema multipolar no contexto geral. 
A bipolaridade ocorre quando dois Atores dividem a hegemonia de um 
subsistema. Os demais componentes do Sistema acabam migrando para a 
esfera de influência de um dos dois Atores principais. É possível, ainda, que os 
demais Atores optem por uma política pendular, tendendo a uma ou outra esfera 
de influência conforme interesses específicos e, ao mesmo tempo, “jogando” 
com a disputa entre os polos. Como exemplos de sistemas bipolares no plano 
político citamos: Esparta e Atenas, na Grécia clássica; Cartago e Roma, no 
mundo antigo; EUA e URSS, nas quatro décadas seguintes ao término da II 
Guerra Mundial (1939-1945). 
 Finalmente, quando o domínio de um subsistema internacional é 
disputado por mais de dois Atores, tem-se a multipolaridade. Como na 
bipolaridade, a hegemonia na multipolaridade não tem uma direção única, o que 
obriga os distintos polos a considerarem em suas condutas internacionais os 
interesses e condutas de seus pares. Quanto maior o número de Atores 
polarizando o Sistema, mais complexas e aleatórias são as relações 
internacionais. 
 Como exemplo de multipolaridade no subsistema político-militar tem-se o 
Concerto Europeu, estabelecido em 1815, com a derrota de Napoleão, e que 
perdurou por cerca de 100 anos na ordem europeia. Já para exemplificar a 
multipolaridade econômica, apresentamos a Sociedade Internacional de nossos 
dias, uma vez que, junto às Grandes Potências econômicas (EUA, Japão, 
Alemanha, China), surgem também organizações intergovernamentais e blocos 
econômicos (União Europeia, NAFTA, APEC, Mercosul etc.) e ainda empresas 
multinacionais ou transnacionais (Exxon, General Motors, IBM, Citicorp), 
algumas das quais com capacidade para influenciar o sistema de forma muito 
superior à da maior parte dos Estados soberanos do globo. 
 Registre-se, ademais, que, para perdurar, a relação hegemônica deve 
basear-se em dois alicerces: coerção e consenso. Não se pode exercer a 
liderança em um sistema por muito tempo apenas com base no uso da força, ao 
mesmo tempo em que hegemonia fundamentada simplesmente no 
consentimento dos pares pode ser ameaçada por uma crise de legitimidade. 
 
Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito 
O grau de homogeneidade e heterogeneidade 
 A Sociedade Internacional encontra-se condicionada também pela 
presença ou ausência de homogeneidade entre seus membros. Uma vez que 
existem Atores com diferentes naturezas, composições, poder e objetivos, só é 
possível estudar o grau de homogeneidade/heterogeneidade se forem 
comparados Atores pertencentes a uma mesma categoria. Não se pode, 
portanto, comparar Estados soberanos com organizações internacionais para se 
medir o grau de homogeneidade de determinado subsistema. 
 Existe homogeneidade internacional quando são observadas identidades 
ou similitudes internas fundamentais entre os Atores que pertençam a uma 
mesma categoria e participem de um mesmo subsistema internacional, 
principalmente entre os Atores estatais. Já a heterogeneidade é constatada com 
a existência de divergências internas básicas entre os referidos Atores. 
 Uma análise das relações internacionais sob o enfoque do grau de 
homogeneidade/heterogeneidade da Sociedade Internacional deve considerar: 
 1) a comparação entre Atores da mesma categoria; e 
2) a não existência de categoria com grau de homogeneidade absoluto. 
Sempre haverá diferenças entre os Atores, uma vez que a diversidade é 
uma característica inata das sociedades que compõem a Sociedade 
Internacional. 
 
Um terceiro aspecto que deve ser considerado é que um elevado índice 
de homogeneidadeem um subsistema internacional não se transfere 
automaticamente aos outros subsistemas. Assim, há casos em que são 
vislumbradas relações políticas homogêneas em contraposição à 
heterogeneidade econômica e sociocultural em um mesmo grupo de Atores. 
 Finalmente, vale observar que, para alguns autores, os sistemas 
homogêneos tendem a ser mais estáveis (ARON, 1986). Afinal, a 
homogeneidade permite maior grau de previsibilidade na conduta internacional 
dos Atores. Trata-se, entretanto, de uma tendência que não pode ser 
considerada de maneira categórica, visto que ao próprio conceito de estabilidade 
são atribuídas diferentes interpretações. 
Muitas vezes, os Atores fazem uso dessa dicotomia 
homogeneidade/heterogeneidade para conduzir seus interesses internacionais 
e influenciar a conduta de outros Atores. Exemplos são os grupos que se formam 
sob a égide de bandeiras como “nações civilizadas”, “países desenvolvidos”, “em 
desenvolvimento” e “subdesenvolvidos”, “capitalistas, socialistas e não 
alinhados”. Enquanto o caráter homogeneidade/heterogeneidade, em alguns 
casos, realmente se faz presente, em outros nada mais se tem que uma forma 
de apresentação internacional pouco condizente com a realidade. 
 
Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito 
O grau de institucionalização 
O último elemento fundamental para o estudo das relações internacionais 
identificado por Calduch é o grau de institucionalização, que, por sua vez, 
resumiria todos os anteriores. Para o mestre espanhol, “o grau de 
institucionalização de uma Sociedade Internacional é formado pelo conjunto de 
órgãos, normas e valores que, independentemente de seu caráter expresso ou 
tácito, são aceitos e respeitados pela generalidade dos Atores internacionais de 
um mesmo subsistema, permitindo, dessa maneira, a configuração e a 
manutenção de determinada ordem internacional. ” (CALDUCH, 1991, p. 74). 
Esse conceito traduz o entendimento e o consenso social que deve 
imperar entre componentes de uma Sociedade Internacional ao estabelecerem 
ou modificarem suas relações mútuas. Calduch defende que não se pode 
analisar o grau de institucionalização apenas com base nas normas jurídicas: há 
normas que não estariam envolvidas pelo Direito Internacional, ainda que este 
sintetize a maior parte das instituições fundamentais da Sociedade Internacional. 
 Ao estudar as instituições internacionais e suas transformações, o analista 
depara-se com a estrutura da ordem internacional, os interesses dos Atores e as 
forças que influenciam as condutas dos membros da Sociedade Internacional ao 
longo do tempo. As instituições estão relacionadas aos valores, às normas e aos 
objetivos dos membros de uma sociedade e, mesmo, à essência de seus 
subsistemas. 
 As mudanças nas instituições refletem, portanto, as transformações da 
própria sociedade em que se encontram, suas formas de cooperação e seus 
antagonismos. 
 Finalmente, Calduch afirma que a diplomacia, o comércio e a guerra são 
formas de relações internacionais presentes em diversos tipos de instituições 
internacionais. Daí não ser cabível, para a análise do grau de institucionalização 
de uma sociedade, a exclusão de valores ou normas que emanem diretamente 
da existência de conflitos bélicos. 
 Portanto, compreendendo as instituições de uma sociedade, pode-se 
compreender seus membros, as forças que nela interferem e os reflexos das 
relações entre os Atores. 
 
 
 
 
 
 
Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito 
O grau de institucionalização 
Um exemplo recente de dificuldades geradas em modelos institucionais 
críticos é a guerra em regiões menos desenvolvidas do globo. Enquanto o 
conflito entre as Potências busca seguir determinadas “leis” de conduta, um 
confronto em áreas menos desenvolvidas foge a qualquer padrão. Muitos oficiais 
ocidentais ficaram perplexos ao combater em 2001 no Afeganistão, porque as 
milícias afegãs “desconheciam os usos e costumes do direito de guerra das 
nações civilizadas”. Não havia nada parecido com as instituições da guerra 
clássica no cenário da Ásia Central, o que levou à violência exacerbada de 
ambos os lados no combate. 
Cite-se entre as principais as Convenções de Genebra de 1949 e seus 
protocolos Adicionais, que regulamentam as condutas dos combatentes. 
 Assim, as instituições refletirão os subsistemas e a maneira como estão 
ordenados. Pode-se, portanto, analisar as relações internacionais sob a ótica 
das instituições que se manifestam no Sistema Internacional. É essencial, 
portanto, ao internacionalista, conhecer as instituições que regem as estruturas 
da sociedade objeto de seu estudo. 
Assista à aula do Professor Joanisval Gonçalves, em duas partes, sobre 
Sociedade Internacional, que engloba conceitos tratados neste primeiro módulo. 
Vamos lá! 
Concluímos os aspectos teóricos de nosso curso introdutório. Nos 
módulos seguintes será apresentada uma breve análise da evolução histórica da 
Sociedade Internacional a partir da era moderna, com esses aspectos teóricos 
operando como pano de fundo. 
 
Conclusão do Módulo I 
Concluímos os aspectos teóricos de nosso curso introdutório. Nos 
módulos seguintes será apresentada uma breve análise da evolução histórica da 
Sociedade Internacional a partir da era moderna, com esses aspectos teóricos 
operando como pano de fundo. 
 
Dois livros importantes para se compreender a ideia de sociedade 
internacional são A Evolução da Sociedade Internacional, de Adam Watson 
(Brasília: Ed. UnB, 2004) e A Sociedade Anárquica, de Hedley Bull (Brasília: 
Ed. UnB, 2002). Bull e Watson são dois ícones da chamada Escola Inglesa de 
Relações Internacionais, a qual tem uma perspectiva das relações 
internacionais muito fundamentada nas ideias de sociedade internacional. 
 
 Você pode encontrar resenhas dos livros sugeridos na Internet: 
 
 # A Sociedade Anárquica e 
 # A Evolução da Sociedade Internacional 
 
 
 
Parabéns! Você chegou ao final do Módulo I de estudo do curso Relações 
Internacionais - Teoria e História. 
 
 
 
 
 
 
 
 
MÓDULO II - EVOLUÇÃO HISTÓRICA DAS RELAÇÕES 
INTERNACIONAIS - DA ERA MODERNA AO ENTRE-GUERRA 
 
 
Unidade 1 - As Relações Internacionais na Era Moderna 
Unidade 2 - A Nova Ordem Internacional do Século XIX 
Unidade 3 - A Primeira Guerra Mundial e o Entre-Guerras 
 
 
 
Esta aula apresenta um panorama histórico das Relações Internacionais. 
Assista com atenção! 
 
 
Unidade 1 - As Relações Internacionais na Era Moderna 
 
 
Ao término desta unidade, o aluno deverá ser capaz de identificar os principais 
aspectos da evolução histórica da Sociedade Internacional, do início da Idade 
Moderna (século XV) ao fim das Guerras Napoleônicas (século XIX). Deverá, 
portanto, estar apto a discorrer sobre: 
• As grandes navegações; 
• As lutas entre católicos e protestantes; 
• A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648); 
• A paz de Westfália (1648) e 
• Europa no século XVIII e a ascensão da França como Potência hegemônica. 
 
 
 
 
A Sociedade Europeia da Era Moderna 
O período que vai do ano 1000 até 1800 corresponde à transição do 
feudalismo para o capitalismo. Nesse período, a sociedade europeia feudal – 
rural, fragmentada no nível nacional, unida pela religião e marcada pelos 
vínculos de vassalagem – transformou-se em outra completamente distinta, a 
sociedade capitalista. Nesta, o importante era a vida urbana, influenciada pelas 
transações comerciais e fundada nas relações de trabalho assalariado. 
 
Quatro acontecimentos são especialmente importantes nesse processo: o 
Renascimento,as Grandes Navegações, o advento dos Estados nacionais 
absolutistas e a Reforma. 
 
O Renascimento 
Marvin Perry observa que “o termo Renascimento foi cunhado em 
referência à tentativa de artistas e filósofos de recuperar e aplicar a antiga 
erudição e modelos da Grécia e de Roma”. O movimento surgiu na Itália, 
aproximadamente em 1350 e se estendeu até meados do século XVII. Não 
surgiu na Itália por acidente. No século XIV, ela era a região mais dinâmica da 
Europa: inúmeros centros comerciais, como Gênova, Veneza, Florença e Milão 
se desenvolviam com vigor. Essas cidades italianas dominavam o comércio com 
o Oriente e, com isso, destacavam-se no contexto europeu como Potências 
comerciais e, algumas vezes, militares. 
O período é um ponto de inflexão. Os contemporâneos tinham a 
percepção de que davam início a um novo tempo. Tanto é assim que, para se 
diferenciarem, criaram o termo “Idade Média” para se referirem aos seus 
predecessores. 
O Renascimento é especialmente marcado pelas mudanças ocorridas nas 
artes – destacadamente na pintura, escultura e arquitetura – e nas ciências. Na 
Idade Média, as artes tinham o propósito fundamental de servir à religião cristã, 
vinculando-se, muitas vezes, às determinações da Igreja. Na Renascença, o 
importante era a valorização do ser humano: tinha-se o antropocentrismo 
renascentista se contrapondo ao teocentrismo da Igreja de Roma. 
Essa percepção antropocêntrica de mundo não significa, todavia, que 
houvesse uma rejeição à religião. Sem se afastarem da religião, os 
renascentistas admitiam considerar o homem, obra máxima da Criação divina, o 
centro de suas atenções. 
 
A Sociedade Europeia da Era Moderna 
O Renascimento (cont.) 
E o Renascimento não ocorreu apenas nas Artes. A Ciência, da mesma 
forma, foi afetada pelas investigações de Copérnico, Kepler e Galileu. Copérnico, 
por exemplo, foi o criador da teoria heliocêntrica, que estabelecia o Sol como o 
centro do universo. Isso era uma revolução, porque tirava da Terra a primazia 
sobre os demais corpos celestes. 
 O Mapa 1 ilustra o desenvolvimento do Humanismo na Europa e a 
expansão renascentista da Itália para todo o continente. 
Mapa 1: O Humanismo e a Renascença na Europa 
(Séculos XV e XVII) 
 
Mapa 1: O Humanismo e a Renascença na Europa 
(Séculos XV e XVII) 
Fonte :http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/ma/matm30.html 
Interessante notar nos círculos vermelhos e verdes os principais pontos 
de florescimento do Renascimento na Itália e em toda a Europa, 
respectivamente. O quadrado rosa marca o local do surgimento da imprensa, e 
os principais focos artísticos estão assinalados pelos pontos negros, de fato, 
importantes cidades europeias. Já as setas representam a difusão do 
renascimento italiano. 
Sugerimos pesquisa mais aprofundada a respeito da importância do 
Renascimento na formação da sociedade europeia. Uma fonte importante é A 
Evolução da Sociedade Internacional, de Adam Watson (Brasília: Editora UnB, 
2004). 
 
A Sociedade Europeia da Era Moderna 
As Grandes Navegações 
As Grandes Navegações, iniciadas no final do século XV, são um marco 
na evolução histórica da Sociedade Internacional. Por meio delas, os europeus 
aventuram-se além dos limites tradicionais de seu continente e, de maneira 
generalizada, lançam-se pelos oceanos e seguem para os “quatro cantos do 
mundo”, entrando em contato com as sociedades asiática, africana e americana 
como nunca ocorrera antes. Com as Grandes Navegações, tem início um 
processo que culminaria na hegemonia europeia no mundo e na supremacia da 
chamada “civilização ocidental” sobre outros povos – muitas vezes, com 
resultados fatais para as civilizações não europeias. 
 As Grandes Navegações podem ser consideradas o primeiro processo de 
globalização da era moderna. Com elas, o comércio internacional se 
desenvolveu e foram estabelecidos vínculos entre as diversas sociedades 
internacionais que existiam na época. Ademais, graças ao estabelecimento dos 
vínculos mercantilistas com o Novo Mundo – as Américas –, com a África e com 
o Extremo Oriente, a Europa se desenvolveu, o modelo capitalista se estruturou, 
e os Estados-nações europeus se tornaram Grandes Potências. Chegou-se ao 
ponto em que os conflitos entre os Estados europeus repercutiam pelo planeta. 
 Três fatores levaram às Grandes Navegações do século XV e seguintes. 
O primeiro foi o surgimento de um vívido interesse pelas vantagens que 
poderiam ser obtidas por meio do comércio. Para alcançarem a Europa, os 
produtos do Oriente ou da África subsaariana passavam por uma quantidade 
significativa de intermediários. Tal fato encarecia substancialmente os produtos 
tão desejados pelos europeus, como cravo, canela, pimenta, gengibre, noz-
moscada, seda ou porcelana. A Economia, como força profunda, impulsionaria 
os europeus para as Grandes Navegações. 
 Em segundo lugar, havia que se considerar a escassez de metais 
preciosos na Europa. Sem eles, era muito mais difícil a compra de bens da Ásia 
ou da África. Isso também dificultava o desenvolvimento das relações comerciais 
e, consequentemente, das relações sociais e políticas entre as diversas regiões 
da Europa. 
 Em terceiro lugar, o século XV foi um momento de grandes melhorias na 
construção de navios, nos conhecimentos geográficos e nas habilidades navais. 
Nesse sentido, a tecnologia passou a ser outra força profunda a produzir 
mudanças na conduta dos Atores internacionais do período. Vale lembrar que o 
conhecimento, tanto de construção de embarcações quanto de técnicas de 
navegação, era considerado um bem de extremo valor e cuja proteção era 
questão de Estado, fundamental para países como Portugal e Espanha. 
 
A Sociedade Europeia da Era Moderna 
As Grandes Navegações (cont.) 
Foram os portugueses que primeiro se lançaram em busca de novas rotas 
de comércio, desafiando não só a realidade do desconhecido oceano, mas 
também as ideias e temores do desconhecido gerados pelo imaginário medieval. 
Apesar dos custos e dos riscos altíssimos, as viagens compensavam pelos 
também altíssimos lucros obtidos. As viagens geravam, muitas vezes, lucros de 
até 6.000%. 
 Os lucros serviam, pois, de motor que levava às incursões no litoral da 
África e à posterior circum-navegação desse continente, bem como às viagens 
até a Índia e à “descoberta”, pelos europeus, da América. E não tardou para que 
os europeus – primeiro, os portugueses e espanhóis e, depois, holandeses, 
franceses e ingleses – instalassem feitorias em locais da Ásia, África e América, 
que, posteriormente, se transformaram em colônias. 
 O Mapa 2 ilustra os impérios coloniais português (em vermelho) e 
espanhol (em verde) em seu apogeu. Destaque-se a linha divisória do mundo 
estabelecida por Portugal e Espanha pelo Tratado de Tordesilhas (1494), por 
meio do qual, com o assentimento do Papa, os dois Estados católicos buscavam 
legitimar seus direitos sobre as terras “descobertas”. Claro que nem os povos 
que viviam nessas terras e nem os demais monarcas europeus foram 
consultados, de modo que rapidamente Inglaterra, França e Holanda 
questionariam essa hegemonia luso-espanhola, inclusive com a irônica 
requisição do “testamento de Adão” que garantira aos ibéricos a herança do 
mundo. 
Mapa 2: Impérios Coloniais do Século XV (Portugal e Espanha) 
 
Fonte: http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/ma/matm36.html 
O fato é que logo as principais potências europeias se lançariam em busca 
de novas terras e novas rotas, e uma nova era se iniciaria nas relações 
internacionais. 
Como observa Perry (1999, p. 280), “num desenvolvimento sem 
precedentes,uma pequena parte do globo, a Europa ocidental, tornara-se a 
senhora das vias marítimas, dona de muitas terras em todo o mundo e o 
banqueiro e recebedor de lucros numa economia mundial que começava a 
despontar”. O pequeno continente dava sinais de seu poder e da dominação que 
exerceria nos séculos seguintes sobre povos e impérios de todo o globo. 
Sugerimos a leitura da obra de Paul Kennedy (1991), Ascensão e Queda das 
Grandes Potências, em que o autor comenta, entre outras coisas, como os 
povos de um continente fragmentado, com sociedades atrasadas em relação 
a outras sociedades do planeta, conseguem se lançar nos oceanos e 
conquistar o mundo e as sociedades mais prósperas e desenvolvidas. 
 
A Sociedade Europeia da Era Moderna 
As Grandes Navegações (cont.) 
Os efeitos para as outras regiões do mundo foram profundos: populações 
inteiras – especialmente nas Américas – foram dizimadas; outras tantas, 
particularmente na África, foram reduzidas à condição de escravas; plantas, 
animais e doenças foram espalhadas pelos quatro cantos do mundo, e, 
principalmente, dava-se início a um tipo de economia global nunca antes visto. 
São forças profundas que merecem atenção: a tecnologia, dado o 
aprimoramento das capacidades bélicas dos europeus e a religião, uma vez que, 
junto com os conquistadores, iam os catequizadores e a ideia de “obrigação” que 
tinham os europeus de “difundir o cristianismo aos povos mais atrasados” 
(missões). 
 O Mapa 3 ilustra a época das grandes navegações e da expansão 
europeia. A partir das terras conhecidas pelos europeus na Idade Média (trecho 
em laranja), há a expansão por terra – com as viagens de Marco Pólo que 
apresentaram a Europa ao Império Chinês – e por mar – graças a intrépidos 
navegadores como Cristóvão Colombo (que descobriu a América), Vasco da 
Gama (o qual, ao dobrar o “Cabo das Tormentas”, passando a chamá-lo de 
“Cabo da Boa Esperança”, estabeleceu a rota marítima para as Índias, 
garantindo a Portugal a hegemonia no comércio com a Ásia) e Fernando de 
Magalhães (primeira viagem ao redor do mundo – apesar de ele mesmo ter 
morrido no caminho) –, e um Novo Mundo surge diante do europeu 
renascentista. Cite-se ainda as viagens do inglês Jean Cabot, que em 1497 
chega à Nova Inglaterra, e do francês Jacques Cartier, que em 1534 chega à foz 
do rio São Lourenço e “toma as terras do Canadá para a Coroa Francesa”. O 
mapa revela as terras conhecidas pelos europeus no fim do século XVI (em 
amarelo). 
Mapa 3: As Grandes Navegações e as “Descobertas” Européias 
 
Fonte: http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/ma/matm34.html 
 
Para melhor compreender o significado das grandes navegações e seu 
impacto nas relações internacionais dos séculos XV e XVI, um filme 
interessante é 1492: A Conquista do Paraíso, de Ridley Scott. Para saber mais 
sobre o filme, veja o resumo e o contexto histórico na internet. 
Leia também o texto As Grandes Navegações. 
 
 
A Sociedade Europeia da Era Moderna 
O Advento do Estado Absolutista 
A partir do século XIII, ocorreu na Europa o fenômeno do fortalecimento 
do rei e da monarquia. Por intermédio de guerras, alianças e casamentos, os reis 
se fortaleceram e foram decisivos nos processos de construção dos Estados 
nacionais europeus. Os Estados nacionais se formaram, então, como uma cunha 
entre o poder local da nobreza e das cidades e o poder universal da Igreja. 
Alguns, como Espanha, França e Inglaterra, foram bem-sucedidos. Outros, como 
Itália e Alemanha, não conseguiram constituir-se em unidades nacionais até a 
última metade do século XIX. 
O Mapa 4 revela a divisão da Europa no século XIII. 
Mapa 4: A Europa no Século XIII 
 
Fonte: http://perso.wanadoo.fr/alain.houot/index.html 
 
No processo de fortalecimento da monarquia, foi importante a criação de 
algumas instituições. A primeira delas foi a do imposto nacional, que se 
diferenciava da cobrança de tributos feita pelos senhores feudais. Enquanto esta 
se fundava nas relações pessoais de vassalagem, o imposto moderno baseava-
se na ideia de que a contribuição era feita para a construção de um bem comum. 
 A segunda importante instituição foi a de exércitos nacionais. Se, antes, 
os reis dependiam das relações pessoais com a nobreza, pois precisavam dos 
senhores feudais e de seus exércitos particulares, agora tinham uma força militar 
própria, mantida com os novos impostos arrecadados. 
 
A Sociedade Europeia da Era Moderna 
O Advento do Estado Absolutista (cont.) 
O terceiro aspecto importante para o desenvolvimento do Estado 
absolutista foi a criação de uma administração civil ligada ou ao rei ou ao Estado. 
Dessa forma, o soberano se desligava das relações particulares com a nobreza 
para poder governar. Ademais, tinha-se aí o embrião do que seria a burocracia 
estatal, essencial para o governo dos Estados modernos. 
 
Uma obra importante sobre o Absolutismo é "Linhagens do Estado 
Absolutista", de Perry Anderson. 
 
 
Os Estados absolutistas eram, pois, Estados em que o poder se 
encontrava concentrado, em razão das instituições como o sistema tributário, o 
exército nacional e a administração pública, nas mãos do rei. A figura do Estado 
se fundia com a do soberano. Daí as palavras atribuídas a Luís XIV, soberano 
absolutista francês: “L’Etat c’est moi!” (“o Estado sou eu!”). 
 Importante considerar, também, a preocupação dos Estados absolutistas 
com a economia nacional, especialmente com o comércio. Essa preocupação se 
dava, porque visava à arrecadação de fundos, especialmente sob a forma de 
metais preciosos e impostos. Nesse sentido, uma nova classe, cada vez mais 
próxima do soberano, se estruturou: a burguesia. Era formada pelos 
comerciantes e outros profissionais liberais das cidades que ganhavam força 
frente à nobreza ao contribuir para o financiamento do Estado moderno. 
Por fim, o aparecimento dos estados absolutistas provocou grande 
mudança no sistema internacional. Hélio Jaguaribe (2001, p. 481) observa que 
“o século XVII se caracterizou na Europa pela emergência de grandes potências, 
contrastando com o mundo do Renascimento, quando as cidades-estados da 
Itália desempenhavam os principais papéis na arena internacional, cercadas por 
países potencialmente poderosos, como a França, a Espanha e a Inglaterra, que, 
no entanto, viviam em condições medievais. No princípio do século XVII, esses 
países tinham conseguido em grande parte alcançar sua integração nacional, e 
começavam a ter um papel internacional importante." 
 
A Sociedade Europeia na Era Moderna 
A Reforma (cont.) 
No ano de 529, a Academia de Platão, em Atenas, fora fechada. Em um 
decreto desse ano, o imperador romano Justiniano manifestou-se contra a 
filosofia, iniciando uma acomodação do desenvolvimento cultural em direção à 
Igreja. No mesmo ano, é fundada a Ordem dos Beneditinos, a primeira grande 
ordem religiosa. Dali em diante, os mosteiros passariam a deter o monopólio da 
educação, da reflexão e da meditação. Na Idade Média, teve plena vigência o 
clássico ensinamento de Agostinho: “é necessário compreender para crer e crer 
para compreender”. 
 No século XVI, iniciou-se um amplo movimento de reforma religiosa, que 
marcou o fim do monopólio religioso da Igreja Católica Romana sobre a Europa 
Ocidental. Esse movimento afetaria definitivamente a política, a economia, a 
cultura, a sociedade, enfim, as relações de poder no cenário europeu e mundial. 
 Até a Reforma, além do monopólio sobre a fé da cristandade, a Igreja 
Católica tinha um domínio cultural, político, econômico e espiritual único. Cada 
aspecto da vida era rigidamente controlado. A força do Papa, o Bispode Roma, 
tanto política quanto religiosa, sobre a Europa Ocidental era tamanha que, no 
século XIII, a Igreja podia proclamar que cada pessoa, praticamente em toda a 
Europa Ocidental, tinha fé em Deus de acordo com sua doutrina e seus 
sacramentos. 
 Esse controle, no entanto, acabou por se voltar contra a própria instituição. 
Como observa Perry (1999, p. 231), “obstruído pela riqueza, viciado no poder 
internacional e protegendo seus próprios interesses, o clero, do papa abaixo, 
tornou-se alvo de um bombardeio de críticas. ”. De um lado, criticava-se a 
supremacia da Igreja sobre os reis. De outro, a corrupção, o nepotismo, a busca 
de riqueza pessoal por parte dos bispos e do papa, o relaxamento do 
cumprimento das obrigações espirituais e a venda de indulgências. Inúmeros 
cristãos passaram a criticar abertamente as práticas da Igreja e do clero. O mais 
famoso e mais importante crítico da Igreja foi o monge Martinho Lutero. 
 A Reforma se iniciou em 1517, com as críticas de Lutero à venda de 
indulgências. Indulgências eram obras que os cristãos faziam, em vida, para 
reduzir o seu tempo, após a morte, no purgatório. A maior parte dessas obras 
era constituída de doações à Igreja. Lutero questionava a validade moral da 
venda de indulgência e a possibilidade de que elas poderiam redimir o homem 
pecador. Lutero defendia que o homem, apesar de ser intrinsecamente 
condenado pelo pecado original, poderia obter a redenção por meio da fé, do 
arrependimento pessoal, do arrependimento pelos pecados e pela confiança na 
piedade de Deus. 
 
A Sociedade Europeia na Era Moderna 
A Reforma (cont.) 
Aspecto importante das teses de Lutero repousa no fato de que o monge 
propunha, em última instância, a dispensa da necessidade da própria Igreja para 
que o homem tivesse sua religiosidade e seu contato com o Criador. As 
consequências da doutrina luterana ultrapassavam a esfera religiosa, pois 
ameaçavam a dominação político-ideológica que a Igreja de Roma exercia sobre 
os reinos europeus e seus soberanos. 
 
 
 
Lutero, ao contrário de outros que atacaram a Igreja, obteve proteção da 
aristocracia europeia. Mais especificamente, foi protegido por Frederico, príncipe 
da Saxônia, na Alemanha. Posteriormente, Lutero deixou claro que não desejava 
de forma alguma ser uma ameaça à autoridade política dos príncipes alemães. 
Além disso, declarou que o bom cristão era aquele que obedecia às leis e à 
ordem. 
 De fato, Martinho Lutero obteve a simpatia de príncipes e de cidades em 
toda a Alemanha. As razões foram simples. Ao se desqualificar a Igreja Católica, 
abria-se a possibilidade de confisco das terras desta pelos príncipes e nobres e 
do fim dos pesados tributos que a ela eram pagos. Além disso, os príncipes 
alemães sentiam-se livres para resistir ao Sacro Império Romano, do católico 
Carlos V. Este, pressionado por ameaças externas – a França, a oeste, e os 
turcos, a leste – acabou por assinar a Paz de Augsburgo, em 1555. Esse acordo 
basicamente definiu que cada príncipe poderia determinar a religião de seus 
súditos. 
 
 Filme indicado: Lutero, de Eric Till, conta a história do monge alemão que se 
rebelou contra o abuso de poder na Igreja Católica há 500 anos. Trata-se de 
filme interessante para auxiliar na compreensão da Reforma e da 
Contrarreforma. 
As 95 teses de Lutero que abalaram a Europa renascentista estão 
disponíveis em um sitio interessante: a Revista Espaço Acadêmico. Veja, 
também, a biografia do monge. 
 
 
 
 
A Sociedade Europeia na Era Moderna 
Reforma (cont.) 
No Mapa 5, temos a Europa no século XVI, dividida entre os diferentes 
grupos de protestantes (em verde) – calvinistas, luteranos e anglicanos –, 
católicos fiéis a Roma (em rosa) e ortodoxos (em laranja). Cite-se ainda a 
constante pressão do Império Otomano, baluarte do mundo islâmico e um Ator 
muito relevante no cenário europeu da época. Claro que as disputas da 
cristandade centravam-se em católicos x protestantes, mas alianças com 
Constantinopla muitas vezes eram consideradas. 
Mapa 5: A Europa à Época da Reforma: a Divisão da Cristandade 
 
Fonte: http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/ma/matm32.html 
 
 
 
É importante observar que o descontentamento com a Igreja era grande 
em boa parte da Europa. O protestantismo, não só da linha luterana, espalhou-
se com muita rapidez por todo o norte do continente. A reação católica, a 
Contrarreforma, deu-se sob diversas formas. A primeira delas foi no campo da 
atuação religiosa. Como observa Perry (1999, p. 242), “a princípio, a energia 
para a reforma veio do clero comum, bem como de leigos como Inácio de 
Loyola”. Loyola foi o fundador da famosa Companhia de Jesus. Como fora 
treinado como soldado, ele organizou os jesuítas de forma rígida e altamente 
disciplinada. 
 A Contrarreforma também enfatizava a pregação, a reconversão dos que 
se afastaram da Igreja, a construção de templos, a censura, a perseguição a 
protestantes e a outros hereges. Também é importante ressaltar que a Igreja, 
por intermédio do Concílio de Trento, de 1545 a1563, modificou ou eliminou 
muito dos pontos criticados pelos protestantes, como, por exemplo, a venda de 
indulgências. Por outro lado, o Concílio não fez nenhuma concessão ao 
protestantismo. 
 A Reforma significou o enfraquecimento da Igreja e o consequente 
fortalecimento dos Estados. Além disso, a Europa se viu dividida em duas: uma 
protestante, no norte, e outra católica, no sul do continente. Essa tensão 
permaneceria e seria especialmente sentida no século seguinte. 
De fato, as disputas entre católicos e protestantes teriam um importante 
reflexo nas relações internacionais europeias durante mais de dois séculos, em 
especial porque estavam associadas também às rivalidades entre as Potências 
europeias. Do ponto de vista das relações internacionais, os novos Estados 
protestantes aliavam-se para se contrapor à dominação hegemônica da Igreja e 
de seu principal defensor político, a dinastia dos Habsburgos, o grandehegemon 
europeu, que tinha um império que englobava a Espanha e a Áustria. Essas 
rivalidades religiosas e políticas culminariam na Guerra dos Trinta Anos. 
Os conflitos entre católicos e protestantes marcaram a Europa por dois 
séculos, e seus efeitos alcançam nossos dias. Um filme muito interessante para 
se compreender o período é A Rainha Margot, de Patrice Chéreau. Veja o 
resumo e o contexto histórico do filme. 
A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) 
A Guerra dos Trinta Anos, de 1618 a 1648, primeiro grande conflito 
armado dos tempos modernos, envolveu grande parte da Europa. Essa grande 
confrontação do século XVII poria termo ao período de um século de disputas 
entre católicos e protestantes e daria início a um novo sistema europeu de 
relações internacionais cujos fundamentos alcançariam o século XXI. 
O sistema internacional no século XVII foi marcado inicialmente pela 
preponderância da Espanha. Seus concorrentes, porém, não tardaram a ocupar 
o seu lugar de destaque. A França surgiu como um país importante enquanto a 
Inglaterra preparou o terreno, especialmente nas últimas décadas do século, 
para se tornar hegemônica no século seguinte. A perda da hegemonia espanhola 
esteve ligada a vários fatores. Jaguaribe (2001, p. 486) observa que a 
decadência espanhola “resultou da combinação de quatro causas principais: 
certas debilidades institucionais; estruturas sociais predatórias; compromissos 
ideológicos utópicos; e a adoção de políticas equivocadas” 
Importante lembrar que a Espanha, católica, era a potência hegemônica 
no início do século XVII. O domínio de Felipe III (1598-1621) abrangiatoda a 
Península Ibérica, as colônias da América, incluindo o Brasil, o sul da Itália, 
Milão, ilhas no Mediterrâneo, Filipinas e enclaves na África. 
Especialmente equivocada foi a decisão espanhola de ser defensora da 
fé católica. Isso não apenas fez ressurgir, em grau muito maior, as guerras 
religiosas do século anterior, mas também levou a Espanha a perder a sua 
condição de principal potência do continente europeu. 
O século XVII, ressalta Jaguaribe (2001, p. 485), "foi marcado pelos 
conflitos religiosos mais agudos já ocorrido no ocidente. Herdados do século 
precedente, eles culminaram na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648)", que foi, 
pois a tentativa militar dos católicos de conter o protestantismo. 
O Mapa 6 ilustra a Europa em 1600, dividida entre reinos católicos e 
protestantes. 
 
Fonte: 
http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/ancien_R/ancienr7.html 
Antes de entrarmos diretamente na Guerra dos Trinta Anos, convém um 
rápido parêntese. Em 1556, o Imperador Carlos V, após ter assinado a Paz de 
Augsburgo, abdicou e dividiu em dois os seus domínios: de um lado, a Espanha, 
Países Baixos, colônias americanas e Itália ficaram para seu filho Felipe II (no 
mapa, em laranja); de outro, a Áustria, que ficou com seu irmão Fernando (em 
amarelo). Com isso, a família Habsburgo ficou dividida em dois ramos, ambos 
católicos e, frequentemente, aliados. 
 
A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) 
A Guerra 
A chamada Guerra dos Trinta Anos começou em 1618 como conflito 
religioso entre católicos e protestantes na Boêmia e adquiriu caráter político em 
torno das contradições entre Estados territoriais e principados. Envolveu a 
Alemanha, Áustria, Hungria, Espanha, Holanda, Dinamarca, França e Suécia. 
 
Importante para o início da Guerra dos Trinta Anos foi a ascensão de 
Fernando II ao trono austríaco, em 1619. Na época, Fernando II, imperador do 
Sacro Império Romano-Germânico era também rei da Boêmia. Os rebeldes 
negaram-lhe esse título e entronizaram o príncipe eleitor calvinista Frederico do 
Palatinado. Segundo Perry (1999, p. 266): 
A Guerra dos Trinta Anos começou quando os boêmios (...) tentaram 
colocar no seu trono um rei protestante. Os Habsburgos austríacos e espanhóis 
reagiram, mandando um exército ao reino da Boêmia; de súbito, todo o império 
foi forçado a tomar partido dentro de linhas religiosas. A Boêmia sofreu uma 
devastação quase inimaginável: três quartos de suas cidades foram saqueadas 
e queimadas e sua aristocracia foi praticamente exterminada. 
 O resultado foi o envolvimento de outros príncipes protestantes. O mais 
importante deles na primeira fase da Guerra, que vai até 1632, foi o rei da Suécia, 
Gustavo Adolfo, morto em batalha naquele ano. A possibilidade de paz entre 
Fernando II e os príncipes alemães leva à cena um novo Ator, a França, 
preocupada com a excessiva força que poderia ter a Áustria. 
Sob o comando do cardeal Richelieu, a França, apesar de católica como 
os austríacos, posicionou-se contra estes. Primeiramente, de forma encoberta, 
depois de maneira ostensiva. Richelieu estava convencido de que a continuidade 
da França como grande poder internacional dependia da guerra contra os 
Habsburgos. Assim, a França financiava ou apoiava todos os que se opusessem 
ao domínio austríaco ou espanhol, ou, quando necessário, guerreavam 
diretamente contra eles. A França, aliás, derrotou o até então imbatível exército 
espanhol na batalha de Rocroy, em 1643. Para a Espanha, o custo dessa derrota 
foi altíssimo, pois significou o fim da invencibilidade de seu poderoso exército e 
a vida de 15 mil soldados. 
 A maneira como Richelieu se portou politicamente influenciaria o sistema 
internacional pelos próximos séculos. Richelieu criou ou ajudou a criar conceitos 
como o de “razão de estado” e “equilíbrio de poder”. Henry Kissinger (1999, p. 
60) analisa que “de início, ele [Richelieu] queria impedir a dominação dos 
Habsburgos sobre a Europa, mas ao final deixou um legado que por dois séculos 
provocou seus sucessores a tentarem o primado francês na Europa. Do fracasso 
dessas tentativas, brotou o equilíbrio de poder, primeiro como um fato da vida, 
depois como forma de organizar relações internacionais (...). Quando a guerra 
terminou, em 1648, a Europa Central fora devastada e a Alemanha perdera 
quase um terço de sua população. No tumulto desse conflito trágico, o cardeal 
Richelieu enxertou o princípio da raison d´état (razão de estado) na política 
externa francesa, princípio que os outros estados europeus adotaram nos cem 
anos seguintes”. 
 Convém reproduzir mais algumas das conclusões de Kissinger (1999, p. 
63): “o objetivo de Richelieu era romper o que ele considerava o cerco da França, 
exaurir os Habsburgos e impedir a emergência de uma grande potência nas 
fronteiras da França – especialmente na fronteira alemã. Seu único critério para 
alianças era que elas atendessem aos interesses da França, aplicado 
primeiramente aos estados protestantes, mais tarde até ao Império Otomano 
muçulmano”. 
 Assim, a conduta da França reflete a maneira racional e pragmática como 
as grandes Potências atuam no cenário internacional. Apesar de católica, a 
França não hesitou em aliar-se aos protestantes para se contrapor à hegemonia 
espanhola. Essa conduta garantiria o fortalecimento da França nos anos 
seguintes, de modo que, com o fim da guerra e o declínio do poder espanhol, o 
Estado francês assumiria o papel de nova Potência hegemônica no continente. 
A Guerra dos Trinta Anos chegaria a termo por meio da Paz de Westfália 
(1648), e uma Nova Ordem seria estabelecida no cenário europeu e, 
consequentemente, nas relações internacionais da Era Moderna. 
 
Leia mais sobre a Guerra dos Trinta Anos acessando o sítio “Vultos e episódios 
da Época Moderna”. 
 
 
 
 
A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) 
A Paz de Westfália (1648) 
A paz foi alcançada porque a guerra, após as suas várias fases, se 
mostrou impossível de ser vencida de maneira efetiva. Segundo Jaguaribe 
(2001, p. 483), “se foi possível chegar finalmente a um acordo negociado, depois 
de disputas ferozes, isso se deveu à incapacidade dos Atores em conflito de 
impor pela força os seus respectivos dogmas”. 
O primeiro dos tratados, assinado em janeiro de 1648, pôs fim à guerra 
entre Espanha e Holanda. Em outubro do mesmo ano, pressionada por seus 
aliados alemães, a Espanha também selou a paz com os franceses. 
 Os tratados de Westfália significaram o fim das ambições dos Habsburgos 
austríacos e espanhóis e a vitória da política externa francesa, iniciada com 
Richelieu. Os franceses, além de acabarem com as pretensões dos seus 
adversários, ainda tiveram algumas importantes conquistas territoriais. O 
fantasma de uma Alemanha unificada, ameaça à França pelo leste, manteve-se 
afastado por duzentos anos. 
 Carpentier e Lebrun (1993, p. 229) anotam que a Europa era 
“politicamente muito diferente da de 1560 ou 1600. A Casa da Áustria já não era 
um perigo para a paz europeia. (...) A Espanha, enfraquecida e amputada, já se 
não contava entre as potências de primeira plana. A Inglaterra, saída do 
isolamento em que havia ficado a seguir à guerra civil (...), as Províncias Unidas 
[Holanda], independentes e aumentadas, a Suécia, dominadora do Báltico, eram 
já grandes potências (...). O facto essencial era, todavia, a situação de 
preponderância adquirida pela França. O reino (...) não só era mais vasto e mais 
bem defendido como também dispunha de uma clientela em que se contavam 
quase todos os países europeus. De resto, o prestígio intelectual e artístico da 
França não cessava de crescer. Começara a era da preponderânciafrancesa na 
Europa”. 
 
 
 No Mapa 7, pode-se perceber a nova configuração de poder no continente 
europeu, com destaque para as fronteiras nacionais e os limites assegurados 
pelo Tratado de Westfália. A maior parte dessas fronteiras acabaria modificada 
nos séculos seguintes. 
Mapa 7: A Europa em 1648 
 
Fonte: 
http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/ancien_R/ancienr9.html 
 
A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) 
O Legado de Westfália 
Importante sublinhar que o Tratado de Westfália marca o fim de cento e 
cinquenta anos de conflito entre os nascentes Estados europeus e o fim das 
ambições dos Habsburgos. Nasce, então, um novo tipo de Sistema 
Internacional, cujos Atores eram, essencialmente, os Estados. Além disso, a 
história posterior da Europa caracterizar-se-ia pelo princípio da anti-hegemonia, 
isto é, os Estados agiriam no sentido de evitar que um se tornasse a potência 
hegemônica (balanço de poder). O Tratado de Westfália, assim, foi responsável 
por grandes mudanças no sistema internacional europeu. Ao contrário de boa 
parte dos acordos e pactos que eram firmados anteriormente, ele não serviu 
apenas para pôr fim a um conflito, mas também para tornar o Estado o principal 
Ator das relações internacionais. Além disso, os Estados, independentemente 
do tamanho, se viram como iguais e participantes de um mesmo Sistema 
Internacional. 
Trata-se de um momento histórico fundamental para as Relações 
Internacionais. O Tratado de Westfália, de 1648, inaugurou uma nova fase na 
história política daquele continente, propiciando o triunfo da igualdade jurídica 
dos Estados, com o que ficaram estabelecidas sólidas bases para uma 
regulamentação internacional mínima. Essa igualdade jurídica elevou os 
Estados ao patamar de únicos Atores nas políticas internacionais, eliminando o 
poder da Igreja nas relações entre os mesmos e conferindo aos mais diversos 
Estados o direito de escolher seu próprio caminho econômico, político ou 
religioso. Ficou, então, consagrado o modelo da soberania externa absoluta, 
tendo início uma ordem internacional protagonizada por Atores com poder 
supremo dentro de fronteiras territoriais estabelecidas. Mais tarde, os 
contratualistas (Locke, Rousseau) e, em 1789, a Declaração dos Direitos do 
Homem e do Cidadão, trariam os elementos caracterizadores da soberania que 
seriam adotados por várias Constituições: unidade, indivisibilidade, 
inalienabilidade e imprescritibilidade. 
Importante também sublinhar que o primeiro ponto em que os diplomatas 
em Westfália acordaram foi que as três confissões religiosas dominantes no 
Sacro Império (o catolicismo, o luteranismo e o calvinismo) seriam consideradas 
iguais. Revogava-se, assim, a disposição anterior nesse assunto, firmada pela 
Paz de Augsburgo, em 1555, que dizia que o povo tinha que seguir a religião do 
seu príncipe (cuius regios, eius religio). Isso não só abria uma brecha no 
despotismo como abria caminho para a concepção de tolerância religiosa, que, 
no século seguinte, se tornaria bandeira dos iluministas, como John Locke e 
Voltaire. Além disso, a nova doutrina da Razão de Estado, extraída das 
experiências provocadas pela Guerra dos Trinta Anos, exposta e defendida pelo 
Cardeal Richelieu, defendia que um reino tem interesses permanentes que o 
colocam acima das motivações religiosas. O antigo sistema medieval, que 
depositava a autoridade suprema no Império e no Papado, dando-lhes direito de 
intervenção nos assuntos internos dos reinos e principados, foi substituído pelo 
conceito de soberania de Estado, inaugurando-se um novo sistema em que os 
Estados têm direitos iguais baseados numa ordem constituída por tratados e pela 
sujeição à lei internacional. 
Essa situação político-jurídica perdura até os nossos dias, apesar de 
haver hoje, particularmente da parte dos EUA, um forte movimento 
supranacional intervencionista, com o objetivo de suspender as garantias de 
privacidade de qualquer Estado frente a uma situação de emergência ou de 
flagrante violação dos direitos humanos. 
 
A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) 
A Nova Ordem Internacional a partir de Westfália 
A história europeia após o tratado de Westfália é a contínua busca, por 
parte da França, de obtenção da hegemonia europeia e a resistência, por parte 
dos demais Atores europeus, a esse intento. Na busca desses objetivos, 
imperam as relações pragmáticas e as alianças de ocasião. No século que se 
seguiu à Paz de Westfália, “a raison d’état [razão de estado] passou a ser o 
princípio orientador da diplomacia europeia”, registra Kissinger (1999, p. 66). 
 
O período pode ser divido em três fases: 
A primeira vai de 1648 a 1740 e é de preponderância francesa. A Áustria 
recuou de suas pretensões na Alemanha e conquistou, gradativamente, vastas 
regiões ao longo do rio Danúbio. A Espanha lentamente se retirava do papel de 
potência de primeira ordem. A Inglaterra, a partir da Revolução Gloriosa, de 
1688, tornou-se uma monarquia em que o Parlamento tinha papel 
preponderante. A França, especialmente sob Luís XIV “esforçou-se (...) por 
reforçar o absolutismo monárquico em França e por impor, mais ou menos 
diretamente, a sua lei à Europa. Falhou, porém, nesta sua última pretensão 
perante a coligação dos Estados europeus – enquanto, na Europa Central e 
Oriental, a Prússia começava a salientar-se, e Pedro, o Grande, procurava 
conseguir que a Rússia saísse do seu isolamento” (CARPENTIER; LEBRUN, 
1993, p. 233). 
Essa Europa do início do século XVIII encontra-se no Mapa, veja: 
Mapa 8: A Europa no Início do Século XVIII 
 
Fonte: 
http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/ancien_R/ancienr11.html 
 
A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) 
A Nova Ordem Internacional a partir de Westfália (cont.) 
A segunda fase vai de 1740 a 1792 e se caracteriza pela preponderância 
marítima da Inglaterra e pelo equilíbrio das potências continentais. “A luta, no 
mar e nas colônias, entre a Inglaterra – onde, a despeito das tendências de poder 
pessoal de Jorge III, prosseguia a evolução para o regime parlamentar – e a 
França – onde o absolutismo de Luís XV e Luís XVI enfrentava dificuldades cada 
vez maiores – veio a dar a vantagem à Inglaterra, que se tornou a primeira 
potência mundial graças à sua superioridade marítima e ao avanço resultante 
dos começos da revolução industrial. Na Europa Central e Oriental, a Prússia de 
Frederico II, a Áustria de Maria Teresa e José II e a Rússia de Isabel e de 
Catarina II eram concorrentes entre si, mas equilibravam-se e chegaram a 
acordo para crescer à custa do Império Otomano e da Polônia, que foi totalmente 
desmembrada” (CARPENTIER; LEBRUN, 1993, p. 247). 
 O último período vai de 1792 a 1815 e se caracteriza por ser o momento 
do apogeu e do fracasso do projeto de uma Europa francesa. “Entre 1789 e 1815, 
a Europa respirou ao ritmo da França. A ‘Grande Nação’ impôs-se, primeiro, pela 
força das ideias e, depois, pela das armas. De 1792 até 1815, a guerra opôs 
permanentemente a França às monarquias europeias. Napoleão Bonaparte, 
herdeiro dessa guerra, tentou construir uma Europa Continental francesa. Mas a 
obstinação britânica, que inspirava e financiava as diversas coligações das 
coroas, acabaria por vencer o Grande Império. A França foi, então, vítima não 
só dos reis como também dos povos, cujos sentimentos ajudara a despertar” 
(CARPENTIER; LEBRUN, 1993, p. 277). 
Sob o prisma das Relações Internacionais, convém observar a 
importância da Potência hegemônica em um sistema e o grau de influência sobre 
os outros Atores. Na Nova Ordem estabelecidaa partir de Westfália, a França 
ascendeu à condição de Potência hegemônica, que havia sido da Espanha sob 
os Habsburgos. O século que se seguiu à Guerra dos Trinta Anos foi um século 
francês, no qual a sociedade internacional era influenciada pela sociedade 
francesa. Daí a expansão do Iluminismo pela Europa e Américas, os costumes 
e até o idioma francês influenciando outros povos ou gerando reações 
nacionalistas, como ocorre hoje com a língua inglesa e o american way of life. 
Assim, o sistema passou a gravitar em torno da França. Essa ordem 
começou a ruir quando se modificou o equilíbrio de poder no continente, em 
virtude de transformações radicais no interior do hegemon. A maior dessas 
transformações foi a Revolução Francesa, que abalou a estrutura de poder no 
interior da Potência hegemônica e acabou repercutindo em todo o continente – 
chegando inclusive ao Novo Mundo – com as guerras napoleônicas. 
Mais um livro útil como referência sobre o período a partir de uma perspectiva 
de Relações Internacionais, além do já sugerido anteriormente - “Ascensão e 
Queda das Grandes Potências", de Paul Kennedy -, é "Diplomacia", de Henry 
Kissinger. 
 
Leia mais sobre a Guerra dos Trinta Anos acessando o sítio “Vultos e episódios 
da Época Moderna”. 
 
Unidade 2 - A Nova Ordem Internacional do Século XIX 
 
Ao concluir o estudo desta Unidade, o aluno deverá ser capaz de discorrer 
sobre os principais aspectos das relações internacionais do século XIX, 
particularmente sobre: 
• Os antecedentes da Nova Ordem do século XIX: a Revolução Francesa e as 
Guerras Napoleônicas; 
• O congresso de Viena (1815) e o Concerto Europeu; 
• As Revoluções do século XIX; 
• os nacionalismos e as unificações da Itália e da Alemanha; 
• a ascensão da Alemanha unificada como Grande Potência; 
• o neocolonialismo; 
• os novos atores entre as Grandes Potências fora da Europa; 
• Estado-nação. 
 
Bom estudo! Não se esqueça de fazer anotações, de abordar com 
comprometimento os exercícios de fixação oferecidos e de, sempre que 
possível, realizar atividades propostas para tornar o curso mais dinâmico: filmes, 
livros, links na Internet. 
 
 
 
A Nova Internacional do Século XIX - Antecedentes 
A Revolução Francesa 
A Revolução Francesa (1789) foi um evento que marcou profundamente 
a sociedade europeia. Inspirada pelos ideais iluministas e liderada pela 
burguesia com apoio popular, a Revolução tinha por lema "Liberdade, Igualdade, 
Fraternidade" e ressonou em todo o mundo, da Europa ao continente americano, 
pondo abaixo regimes absolutistas e ascendendo os valores burgueses. Foi 
marco e referência para grandes transformações sociais e políticas que 
aconteceriam pelo mundo nos séculos seguintes. 
O Mapa 9 apresenta a configuração política da Europa à época da 
Revolução Francesa. Note-se como a França Revolucionária estava cercada 
pelas potências absolutistas defensoras do Antigo Regime. Apesar disso, os 
ideais revolucionários se expandiriam para muito além das fronteiras do Reino 
da França. 
Mapa 9: A Europa à época da Revolução Francesa 
 
 Fonte: 
http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/ancien_R/ancienr13.html 
Registre-se que essa ressonância da Revolução Francesa foi tanto prática 
quanto simbólica. A Revolução foi marcante por ter atingido a principal 
monarquia europeia e o maior e mais populoso país europeu (se excluída a 
Rússia). De fato, as transformações que marcariam a Europa e a civilização 
ocidental no século XIX seriam influenciadas diretamente por aquelas mudanças 
ocorridas no âmbito doméstico da França, então a Potência hegemônica no 
continente. Nesse sentido, podemos perceber como transformações nas 
Grandes Potências acabam afetando todo o sistema internacional, 
proporcionalmente ao grau de poder dessa Potência. 
Exemplo disso são as mudanças ocorridas nos EUA após o 11 de 
setembro de 2001 e seus efeitos em todo o globo. 
 
A Nova Ordem Internacional do Século XIX - Antecedentes 
Revolução Francesa (cont.) 
Assim, para os defensores da ordem, a Revolução era perigosa, porque 
retirava os alicerces do Antigo Regime. A título de exemplo, foi apenas em 1789 
que, pela primeira vez na história da França, uma Assembleia Nacional foi eleita 
e aboliu o feudalismo e seus privilégios. Além disso, também naquele ano, a 
Bastilha, o símbolo do poder real, foi tomada de assalto, palácios foram 
saqueados e revoltas ocorreram no campo, com os camponeses se sublevando 
e questionando, de maneira praticamente inédita no país, o modelo de servidão 
estabelecido pelo sistema feudal. Como se não bastasse, uma Declaração dos 
Direitos do Homem e do Cidadão foi proclamada como preparativo para uma 
Constituição, e a Igreja foi subordinada ao Estado. Eram mudanças que 
afetavam o cerne de uma ordem doméstica tradicional e que acabariam afetando 
as estruturas da ordem internacional que tinha a França como principal 
protagonista. 
Denominou-se Antigo Regime à ordem estabelecida na Idade Moderna na 
qual a monarquia absolutista conjugou-se com as principais forças políticas da 
sociedade: por meio do Mercantilismo, a monarquia aliou-se à burguesia e ao 
mesmo tempo manteve-se unida à nobreza e ao alto clero, concedendo 
privilégios a esses dois últimos grupos, muitas vezes em detrimento da burguesia 
e sempre às custas dos impostos cobrados do povo. 
Não tardou, pois, a reação. As Potências Europeias promoveram ataques 
contra o território francês na tentativa de restabelecer o trono de Luís XVI e o 
Antigo Regime (vide Mapa 10 – em roxo, a ofensiva dos países da coalizão). As 
cabeças coroadas da Europa não poderiam arriscar que um de seus membros 
mais importantes fosse derrubado por um levante popular. 
Nesse contexto, Luís XVI tentou fugir para o exterior. Preso no meio do 
caminho, foi levado de volta a Paris e guilhotinado. A República foi proclamada, 
e a França se viu, externamente, em um estado quase permanente de guerra. 
Internamente, a Revolução mergulhou no Terror – aproximadamente 40 mil 
pessoas morreram – e na luta entre as diversas facções. Após um período de 
contrarrevolução e de agravamento dos conflitos internos, o poder passou para 
as mãos dos generais. Um deles, Napoleão Bonaparte, assumiu o controle do 
governo em novembro de 1799. 
Mapa 10: A Revolução Ameaçada (1792-1794) 
 
 Fonte: 
http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/Rev_Emp/revemp3.html 
A nova Ordem Internacional do Século XIX - Antecedentes 
Napoleão Bonaparte 
Napoleão, “na verdade, pertencia à tradição do despotismo esclarecido 
do século XVIII. Da mesma maneira que os déspotas reformadores, admirava a 
uniformidade e a eficiência administrativas, era avesso ao feudalismo, à 
perseguição religiosa e à desigualdade civil e defendia a regulamentação 
governamental na indústria e no comércio” (PERRY, 1999, p. 339). 
Apesar de não se identificar com o republicanismo e com a democracia 
das fases mais radicais da Revolução, Bonaparte era visto, pelos demais países 
europeus como seu continuador. Isso se deu, em grande parte, porque o general 
corso estendeu, “com diferentes graus de determinação e sucesso, (...) as 
reformas da Revolução a outras terras. Seus funcionários instituíram o Código 
Napoleônico, organizaram um serviço civil efetivo, abriram carreiras de talento e 
nivelaram os encargos tributários. Além de abolir a servidão, os pagamentos 
senhoriais e as cortes da nobreza, eliminaram os tribunais clericais, fomentaram 
a liberdade religiosa, autorizaram o casamento civil, exigiram que se 
concedessem direitos civis aos judeus e combateram a interferência do clero na 
autoridade secular. (...)Napoleão dera início a uma revolução social de 
amplitude europeia, que atacou os privilégios da aristocracia e do clero – que se 
referiam a ele como o ‘jacobino coroado’ – e beneficiou a burguesia” (PERRY, 
1999, p. 344). 
Vejamos como se deu a influência das ideias e das novas instituições, 
segundo Duroselle (1976, p. 8): 
- As zonas “assimiladas”, anexadas ao território do grande Império, ou 
efetivamente vassalas (reino da Itália): aí, os direitos feudais foram suprimidos, 
a igualdade estabelecida perante a lei, o código napoleônico adotado e a 
administração calcada sobre a da França. 
- As zonas de “influência”, onde a anexação foi indireta, mas o Antigo Regime foi 
eliminado pelas autoridades francesas. É o caso da maior parte da Alemanha 
entre o Reno e o Elba, do Grão-Ducado de Varsóvia, do Reino da Sicília e do 
Reino de Nápoles. 
- As zonas de “resistência positiva”, essencialmente a Prússia, onde os dirigentes 
(...) calcularam que o melhor meio de encerrar a luta contra a França era pôr em 
prática extensas reformas sociais (abolição da servidão e dos direitos feudais). 
 - As zonas de “resistência passiva”, essencialmente a Áustria e a Rússia, onde 
a luta contra a França não se fez acompanhar de nenhuma reforma profunda: o 
sistema senhorial foi mantido na Áustria, a servidão e o Tchin (nobreza ligada à 
função pública) na Rússia. 
 Enfim, a Inglaterra, depois de 1800 chamada de “Reino Unido da Grã-
Bretanha e Irlanda”, que, por um lado, jamais havia sido conquistada e, por outro, 
já possuía um regime suficientemente liberal para que tivesse a tentação ardente 
de imitar a França. 
 
A Nova Ordem Internacional do Século XIX - Antecedentes 
Napoleão Bonaparte (cont.) 
Portanto, a Era Napoleônica foi marcada por uma série de conflitos 
armados ocorridos entre 1799 e 1815, quando a França enfrentou várias alianças 
de Potências europeias. O principal motivo das campanhas francesas, após 
1789, era defender e difundir os ideais da Revolução Francesa, mas, com a 
ascensão de Napoleão, o objetivo passou a ser a expansão da influência e do 
território franceses. O império napoleônico chegou a dominar parte significativa 
da Europa. Napoleão sonhava com uma Europa em que, sob a hegemonia 
francesa, não houvesse mais espaço para as estruturas absolutistas do Antigo 
Regime. Nessas regiões, as sementes dos ideais revolucionários de 1789 foram 
plantadas e germinariam nas décadas seguintes. Para a contenção do 
expansionismo francês, foram necessárias várias coalizões das Grandes 
Potências. 
 
 
 
No Mapa, pode-se ter a ideia da dimensão do Império Napoleônico em 
seu apogeu (em verde). 
Mapa 11: O Império Napoleônico em seu Apogeu (1810-1811): 
 
 
A Nova Ordem Internacional do Século XIX - Antecedentes 
Napoleão Bonaparte (cont.) 
Em 1812, Napoleão conduziu uma campanha vitoriosa contra os russos 
chegando até Moscou. Entretanto, a vitória logo se converteu em grande derrota. 
Os russos simplesmente abandonaram Moscou, depois de destruir os campos 
cultivados e de incendiar a cidade. Sem abrigo ou provisões, o exército francês, 
enfrentando o rigoroso inverno, foi obrigado a deixar a Rússia sob o intenso fogo 
do exército russo, perdendo aproximadamente 95% dos cerca de 600 mil 
homens que participaram da desastrosa campanha. 
 
Aproveitando-se do enfraquecimento de Napoleão, Áustria, Prússia, 
Rússia, Inglaterra e Suécia formaram a 6.ª Coalizão e declararam guerra à 
França. Napoleão derrotou os exércitos da Rússia e da Prússia, enquanto os 
exércitos franceses estavam sendo derrotados na Península Ibérica por forças 
espanholas e inglesas. Após a Batalha de Leipzig, a Batalha das Nações, em 
1813, os exércitos de Napoleão abandonaram os principados alemães. A 
rebelião contra o império se estendeu à Itália, Bélgica e Holanda. 
 Em 1814, um grande exército da 6.ª Coalizão invadiu a França e ocupou 
Paris. Napoleão, obrigado a renunciar, foi exilado na Ilha de Elba (próxima da 
Córsega, sua terra natal), e a monarquia francesa restaurada com Luís XVIII, 
irmão de Luís XVI. Os membros da Coalizão reuniram-se, então, no Congresso 
de Viena para restaurar as monarquias na Europa. 
 No entanto, enquanto era traçado o novo mapa europeu, em março de 
1815, Napoleão fugiu de Elba, voltou à França, e iniciou a formação de um novo 
exército. O rei enviou uma guarnição de soldados para prendê-lo, mas estes 
aderiram a Napoleão. Luís XVIII fugiu para a Bélgica. 
Contra Napoleão foi rapidamente formada uma 7.a Coalizão, composta 
por Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia. Sem tempo para preparar um exército, 
Bonaparte enfrentou novos combates, mas foi derrotado definitivamente na 
Batalha de Waterloo (18 de junho de 1815). Napoleão foi então mantido 
prisioneiro na Ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, onde morreu em 1821. Luís 
XVIII reassumiu o trono francês com o apoio do Congresso de Viena. Chegaram 
ao fim as Guerras Napoleônicas. 
 Apesar da derrota definitiva em 1815, as ações de Napoleão e os ideais 
revolucionários atingiram, de forma irreversível, o Antigo Regime em boa parte 
da Europa e aceleraram o processo de modernização do continente. Seus efeitos 
alcançaram o continente americano, repercutindo nos processos de 
independência de toda a América Latina e nos princípios jurídicos e políticos que 
regeriam os novos governos na região. O mundo passou, portanto, por grandes 
transformações em virtude da Era Napoleônica. As relações internacionais 
nunca mais seriam como antes. 
 
A Nova Ordem Internacional do Século XIX - Antecedentes 
O Congresso de Viena (1815) e o Concerto Europeu 
O fim das guerras napoleônicas marcou o início de um sistema 
internacional baseado no equilíbrio de poder entre as Potências europeias que 
durou cem anos, até a Primeira Guerra Mundial. Foi o mais longo período de paz 
da história da Europa ou, pelo menos, o período em que não houve nenhuma 
guerra que envolvesse, de forma generalizada, as Potências europeias. Durante 
40 anos, isto é, entre o Congresso de Viena e a Guerra da Crimeia (1854), não 
houve uma guerra sequer entre as grandes Potências e, nos 60 anos seguintes, 
exceto pela Guerra Franco-Prussiana de 1871, nenhum conflito importante 
ocorreu. 
O Congresso de Viena foi marcado pelo medo e pelas lembranças 
trazidas pelos 25 anos anteriores. Os homens que reconstruíram o mapa da 
Europa em 1815 o fizeram preocupados em evitar que a ordem sofresse novos 
abalos. Apesar de todos os negociadores serem adversários da Revolução, 
estavam perfeitamente conscientes de que a Europa de 1815 não poderia voltar 
a ser aquela de 1792. Não obstante, estavam determinados a evitar novas 
catástrofes. Para isso, seriam utilizados dois princípios: o da legitimidade e o do 
equilíbrio europeu. Nas palavras de Duroselle (1976, p. 4): 
Primeiro, restabelecer a ‘legitimidade’ dos soberanos. Mas ‘na ordem das 
combinações legítimas, ligar-se de preferência àquelas que podem com maior 
eficácia concorrer para o estabelecimento e conservação de um verdadeiro 
equilíbrio’. Serão, então, utilizados com flexibilidade e em proveito dos grandes 
Estados os dois princípios, um moral e jurídico, o da legitimidade, outro, 
puramente prático, o do equilíbrio europeu. 
 Como resultado dos debates de Viena, o mapa da Europa sofreu 
alterações importantes que refletiam a nova configuração de poder estabelecida 
pelas Grandes Potências. A Alemanha, por exemplo, passou de 300 Estados 
para 38 (comparar o Mapa 12 com o Mapa 11). 
 
Um fato, porém, não pode ser deixado de lado. Na conformação do novo 
sistema de equilíbrio europeu, a França continuava a grande preocupação. Sua 
condição hegemônicatinha sido excessivamente danosa para as outras 
Potências europeias. O Congresso de Viena foi realizado sob o signo de se evitar 
que ela ameaçasse novamente o resto do continente. 
 Dois tratados pós-Congresso de Viena merecem destaque. O primeiro é 
o Tratado da Santa Aliança, firmado entre o Czar da Rússia, o Imperador da 
Áustria e o Rei da Prússia, em 26 de setembro de 1815. O segundo é o tratado 
conhecido como o da Quádrupla Aliança, entre os Quatro Grandes (Inglaterra, 
Rússia, Áustria e Prússia) em 20 de novembro de 1815. 
 
A Nova Ordem Internacional do Século XIX - Antecedentes 
O Congresso de Viena (1815) e o Concerto Europeu 
O Tratado da Santa Aliança estabelecia a restauração na Europa da 
ordem religiosa e monárquica, fundamento do Antigo Regime que a Revolução 
Francesa quis derrubar. Fundando-se no mundo cristão, excluía o sultão 
otomano, apesar de o Czar desejar que o sistema abarcasse a França e a 
Espanha. Segundo Duroselle (1976, p. 5), “a ‘Santa Aliança’, produto dos sonhos 
do Czar tinha pouca consistência, e que a verdadeira realidade era a Quádrupla 
Aliança, assinada secretamente a 20 de novembro de 1815 entre a Rússia, a 
Inglaterra, a Áustria e a Prússia, contra a França. ” 
Mapa 12: O Congresso de Viena (1815) 
 
Fonte: http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/xix/xix1.html 
 
Até 1830, o equilíbrio europeu foi assegurado graças aos entendimentos 
entre Inglaterra, Rússia, Áustria e Prússia – os “Quatro Grandes” – e à 
estabilização política da França. Como resultado de habilidosa diplomacia, já em 
1818 os franceses conseguiram associar-se à política de garantia da ordem na 
Europa. Estava estruturado o Concerto Europeu, por meio do qual as Grandes 
Potências europeias conduziriam o continente por décadas. O equilíbrio de 
forças entre Inglaterra, Rússia, Áustria, Prússia e França garantia a estabilidade, 
uma vez que nenhum desses Estados ou qualquer outro país europeu era 
suficientemente poderoso para enfrentar sozinho uma coalizão formada pelos 
demais. Assim, estabelecia-se um verdadeiro consórcio entre as Grandes 
Potências europeias, que lhes permitiu projetar seu poder sobre toda a Europa 
e pelo mundo. O século XIX seria o século da Paz na Europa e da hegemonia 
europeia sobre todo o planeta. 
 A partir de 1815, a ação dos países europeus intensificou-se em escala 
mundial. A Inglaterra, por exemplo, divulgava mais e mais o liberalismo político 
e econômico, e a expansão desses ideais liberais foi um dos objetivos da política 
externa inglesa no século XIX, pela qual os britânicos atuaram, direta ou 
indiretamente, na independência das colônias espanholas e portuguesas na 
América e na organização dessas novas nações americanas. Da mesma forma, 
os russos cada vez mais se preocupavam com a decadência e o fatiamento 
territorial do Império Otomano. Isso explica, em grande parte, a concorrência e 
a inimizade que iriam marcar as relações entre Inglaterra e Rússia em boa parte 
do século XIX. 
A Europa que emergiu do Congresso Viena estava ansiosa pela 
eliminação dos traços da Revolução Francesa. Era uma Europa legitimista, 
clerical, desigual, aristocrática e, principalmente, reacionária. 
 Importante registrar, no entanto, que o fantasma de 1789 não 
desapareceu. Intelectuais, trabalhadores, liberais, democratas, burgueses 
estavam descontentes com o restabelecimento do Antigo Regime. Sob diversos 
matizes ideológicos, o século XIX testemunhou um longo desenrolar de 
revoluções. 
 
A Nova Ordem Internacional do Século XIX - Antecedentes 
O Século das Revoluções 
A Europa pós-Congresso de Viena foi marcada pelo equilíbrio de poder 
entre os Estados europeus, o que permitia certa estabilidade no cenário 
internacional. Apesar desse quadro de tranquilidade, o século XIX foi tempo de 
revoluções tanto políticas quanto econômicas. 
 Politicamente, houve três grandes ondas revolucionárias: 1820, 1830 e 
1848. O período entre 1817 e 1850 foi época de crise econômica e baixa de 
preços, ou seja, período de grande tensão. As grandes ondas revolucionárias de 
1830 e 1848, bem como as investidas contrarrevolucionárias, estão indicadas 
nos Mapas 13 a 15. 
 A onda revolucionária de 1830 marca a derrota definitiva dos aristocratas 
pelo poder burguês na Europa Ocidental e o triunfo do liberalismo moderado. 
Propagou-se o sistema parlamentar (com inspiração no modelo britânico) de 
qualificação por propriedade (voto censitário) sob monarquias constitucionais. 
 
No Mapa 13, as estrelas em amarelo apontam as insurreições, as setas 
pretas a propagação da onda revolucionária, e as setas vermelhas os 
movimentos de repressão dessa onda. 
Mapa 13: As revoluções de 1830 
 
Fonte: http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/xix/xix4.html 
 
A Nova Ordem Internacional do Século XIX - Antecedentes 
O Século das Revoluções 
A França era o ponto de irradiação, dada a classe média liberal e radical 
que se formara com o movimento jacobino na época da Revolução Francesa. 
Em 1830, também já era possível notar o aparecimento de uma classe operária 
como uma força política autoconsciente e independente, que começava a reunir 
os jacobinos mais extremados. Já em 1848, a agitação popular tornava-se 
contrária à classe média liberal (o “perigo vermelho”). 
 
No Mapa 14, as setas vermelhas indicam a difusão da nova onda 
revolucionária francesa e, as setas verdes, a difusão da onda austríaca. As 
estrelas vermelhas e verdes apontam os centros revolucionários. 
Mapa 14: As Revoluções de 1848 
 
Fonte: http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/xix/xix5.html 
 
Os radicais ficaram desapontados com o fracasso dos franceses em 
desempenhar o papel de libertadores internacionais. Esse desapontamento, 
junto com o crescente nacionalismo da década de 1830 e a nova consciência 
das diferenças nos aspectos revolucionários de cada país, despedaçou o 
internacionalismo unificado (centrado na França) a que os revolucionários 
tinham aspirado durante a Restauração (o pós-1815). Em 1848, as nações de 
fato se sublevaram separadamente. 
 
 
 
A Nova Ordem Internacional do Século XIX - Antecedentes 
O Século das Revoluções 
Os radicais, os republicanos e os novos movimentos proletários se 
retiraram da aliança com os liberais, dado que o liberalismo moderado se tornara 
hostil em razão do seu maior medo, a república social e democrática (em 
oposição à monarquia constitucional), a qual era, nesse momento, o slogan da 
esquerda. 
 No Mapa abaixo, os quadrados indicam os centros de contrarrevolução e 
as setas o movimento da contrarrevolução. 
Mapa 15: A Contrarrevolução de 1848 
 
Fonte: http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/xix/xix6.html 
 
 
 
De uma forma geral, as revoluções de 1848 foram revoluções sociais de 
trabalhadores pobres. Quando se viram diante da revolução “vermelha” (ameaça 
à propriedade), os moderados liberais e os conservadores se uniram. Os 
trabalhadores ficaram isolados diante da união de forças conservadoras e ex-
moderadas aliadas ao velho regime. Com essa aliança, os regimes 
conservadores restaurados estavam preparados para fazer concessões ao 
liberalismo econômico. A década de 1850 viria a ser, de fato, um período de 
liberalização sistemática: fim da legislação de guildas e liberdade para se praticar 
qualquer forma de comércio; fim do severo controle estatal sobre a mineração; 
realização de uma série de tratados de livre-comércio etc. Nesse momento, a 
burguesia deixava de ser uma força revolucionária. 
Esses fatos abriram o caminho para a Revolução Industrial a partir da 
segunda metade do século XIX(vários autores se referem a ela como “Segunda 
Revolução Industrial”, para distingui-la do avanço industrial no século XVIII). 
Com a retirada da nobreza e a diversificação das formas de se fazer dinheiro 
(início da chamada haute finance – conjugação dos capitais comercial e 
financeiro), as décadas de 1850 e 1860 foram prósperas e capazes de incorporar 
os cidadãos instruídos ao mercado de trabalho. 
 
A Nova Ordem Internacional do Século XIX - Antecedentes 
O Século das Revoluções 
De 1850 até pelo menos 1873, o tempo foi de prosperidade. Como 
observa Duroselle (1976, p. 21), a prosperidade, “interrompida por alguns 
recessos, rompe o ímpeto revolucionário. Este só voltará a ressurgir na França 
em 1869 aproximadamente. Com um nível de vida momentaneamente 
acrescido, as massas toleram mais facilmente o jugo, se tiverem a impressão de 
que o poder favorece a expansão. ” 
 Em termos gerais, em 1850, a ameaça revolucionária estava encerrada. 
Os partidários da ordem estabelecida saíram vitoriosos. Em parte, o fracasso 
revolucionário de 1848 se deveu ao “perigo vermelho”. Na França, Napoleão III 
ascendeu ao poder, criando o II Império. 
A outra grande revolução europeia foi de natureza econômica, como já 
referido, com a Revolução Industrial. Após 1850, a economia europeia se 
expandiu com rapidez. Novas máquinas e novas tecnologias apareceram por 
toda parte. 
 Napoleão III (1808-1873) foi o criador do Segundo Império francês na 
metade do século XIX. Governou entre 1852 e 1870, até sua derrota na Guerra 
Franco-Prussiana. Carlos Luís Napoleão Bonaparte era sobrinho de Napoleão I. 
Eleito presidente da nova República Francesa, deu um golpe de estado em 1851, 
que lhe permitiu assumir poderes ditatoriais e transformar a Segunda República 
no Segundo Império. Entre as ações de política externa de Napoleão III estão a 
intervenção na Guerra da Crimeia, o apoio ao Piemonte nas guerras que 
enfrentou como consequência da unificação italiana e a promoção e instalação 
de um efêmero Império no México, na pessoa de seu sobrinho, Maximiliano da 
Áustria. Em 1870, por ocasião da Guerra Franco-Prussiana, a derrota do Exército 
francês na batalha de Sedan provocou o aprisionamento do Imperador, cujo 
regime foi derrotado. 
 
Antecedentes 
O Século das Revoluções (cont.) 
A Revolução Industrial modificou toda a sociedade europeia. Se na 
sociedade pré-industrial do século XVIII a agricultura ainda era o centro das 
atividades humanas, no século XIX a vida se deslocava progressivamente para 
as cidades e para as indústrias. Simultaneamente, o poder, a influência e os 
valores da aristocracia perderam força. Em seu lugar, ganharam importância o 
dinheiro e a capacidade individual. A modernização da sociedade colaborou, 
também, para a progressiva universalização do voto e para a secularização da 
sociedade. Por fim, a tecnologia ampliou a diferença entre o Ocidente e as 
demais regiões do mundo. 
O Mapa 16 ilustra a Europa do século XIX sob plena efervescência da 
revolução industrial. O mapa destaca as minas de carvão (em marrom), em torno 
das quais se desenvolveram centros siderúrgicos (em vermelho) e industriais 
(em roxo). Também na base da revolução industrial estava a indústria têxtil, cujos 
centros são destacados em azul. O mapa registra, ainda, as principais cidades 
industriais e os centros financeiros (quadrados verdes). 
Mapa 16: A Europa Industrial no Século XIX 
 
Fonte: http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/xix/xix3.html 
 
 
Procure se informar mais sobre a Revolução Industrial, processo que alterou 
definitivamente os rumos da História e a partir do qual as relações 
internacionais seriam redefinidas, com o poder se concentrando cada vez mais 
nas nações ditas "industrializadas". 
 
 
Um livro interessante sobre o século XIX e a Revolução Industrial é Germinal, 
de Émile Zola. 
Amplamente considerada a obra máxima de Émile Zola, Germinal (1885) 
elevou a estética e a descrição naturalistas a um novo patamar de realismo e 
crueza. O romance é minucioso ao descrever as condições de vida subumanas 
de uma comunidade de trabalhadores de uma mina de carvão na França. Após 
ter contato com ideias socialistas que circulavam pela classe operária 
europeia, os mineradores retratados na obra revoltam-se contra a opressão e 
organizam uma greve geral, exigindo condições de vida e trabalho mais 
favoráveis. A manifestação é reprimida e neutralizada, entretanto permanece 
viva a esperança de luta e conquista. 
 
 
Antecedentes 
Divisão da Europa – Nacionalidade X Legitimidade 
A Europa de 1815 foi construída sobre o princípio de que era essencial 
preservar o continente de uma possível ameaça francesa. Assim, no redesenho 
do mapa continental, o princípio da nacionalidade fora deixado em segundo 
plano. Nem por isso, no entanto, inexistia a afirmação da nacionalidade. 
O nacionalismo foi um dos filhos das ondas revolucionárias da primeira 
metade do século XIX. O nacionalismo se propagou a partir da classe média e 
teve nas escolas e nas universidades seus grandes defensores. Vários 
movimentos nacionalistas jovens começaram a se espalhar a partir das 
revoluções de 1830: a Jovem Itália, a Jovem Polônia, a Jovem Suíça, a Jovem 
Alemanha, a Jovem França e a Jovem Irlanda. 
Parte da onda nacionalista vinha dos escombros do Império Otomano, o 
qual, nas palavras do Czar, era o ancião enfermo da Europa. 
Progressivamente, o Império Otomano foi perdendo terras para austríacos, 
russos e para nações que iam surgindo de suas fraquezas. A primeira delas foi 
a Grécia, cuja independência foi tema de preocupação durante toda a década de 
1820. Finalmente independente em 1830, serviu como exemplo para muitos 
outros: a Sérvia, alguns anos depois, conquistava autonomia, e, em 1856, 
Romênia e Bulgária se tornaram independentes. 
O Império Otomano existiu aproximadamente de 1300 a 1922 e, no 
período de maior extensão territorial, abrangeu três continentes: da Hungria, ao 
norte, até Aden, ao sul, e da Argélia, a oeste, até a fronteira iraniana, a leste, 
embora centrado na região da atual Turquia. Por meio do Estado vassalo do 
janato da Crimeia, o poder otomano também se expandiu na Ucrânia e no sul da 
Rússia. Seu nome deriva de seu fundador, o guerreiro muçulmano turco Osman 
(ou Utman I Gazi), que fundou a dinastia que governou o império durante sua 
história. 
No restante da Europa, no entanto, apenas a Bélgica se tornou 
independente da Holanda, em 1830. Para isso, assumiu o caráter de nação 
neutra, com aval das Grandes Potências. A neutralidade belga, garantida pela 
Grã-Bretanha, seria violada em 1914 pelo avanço alemão contra a França e 
contribuiria para que Londres declarasse guerra a Berlim. 
Outras tentativas de independência no continente europeu fracassaram. 
A Polônia não conseguiu a autonomia diante da Rússia (1830), e a Hungria 
alcançou uma semi-independência em relação à Áustria (1867). Dos 
movimentos nacionais de afirmação, os mais importantes foram os da Itália e da 
Alemanha, países que se unificaram a partir da segunda metade do século. De 
fato, a unificação da Itália e, sobretudo, a da Alemanha, seriam acontecimentos 
importantes para alterar o equilíbrio de poder na Europa estabelecido pelo 
Concerto Europeu, e afetariam diretamente as relações internacionais do 
período, culminando nos processos que levaram à I Guerra Mundial. 
 
Os processos de unificação da Itália e da Alemanha podem ser percebidos no 
Mapa 17. 
 
 
 
 
Antecedentes 
A Unificação da Itália 
A unificação da Itália foi resultado de uma habilidosa política externa e do 
aproveitamento das oportunidadesquando elas surgiram. O artífice desse 
processo foi Cavour, primeiro-ministro do Estado do Piemonte (norte da 
península itálica). Ele conseguiu, graças às alianças com Napoleão III, um aliado 
contra os austríacos que ocupavam o norte da Itália. A sua primeira vitória se 
deu em 1858. Em troca da cessão da cidade de Nice e da região de Saboia, 
Cavour obteve a promessa de auxílio da França ao Piemonte em uma eventual 
guerra deste contra a Áustria. Por ocasião do conflito, entretanto, a ajuda 
francesa seria menor do que o esperado, e Napoleão III, receoso das possíveis 
implicações que uma aliança contra a Áustria poderia ter, acabou retirando seu 
apoio antes do esperado. Mesmo assim, o Piemonte se viu vencedor e aumentou 
seu território com a conquista da Lombardia. 
Camillo Benso, conde de Cavour (1810-1861), político italiano, foi 
Presidente do Conselho em 1852. Aliou-se a Napoleão III contra a Áustria, porém 
este firmou a paz em 1859 sem consultá-lo. Cavour demitiu-se quando Victor 
Emanuel II, Rei da Sardenha, aceitou as condições do Imperador francês. No 
início de 1860, ajudou Giuseppe Garibaldi na conquista do Reino das Duas 
Sicílias. Conseguiu a proclamação do Reino da Itália em17 de março de 1861 e 
de Vítor Emanuel II como seu primeiro soberano. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mapa 17: Unificação da Itália e da Alemanha no Século XIX 
 
Fonte: http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/xix/xix7.html 
 
Posteriormente, pequenos Estados italianos – Parma, Módena, Toscana 
e Romanha – votaram pela união com o Piemonte. Com as conquistas do sul da 
península, foi proclamado o reino da Itália, em 1861. Faltavam, porém, a cidade 
de Roma e o Vêneto. Só em 1866 La Vénétie foi incorporada, como recompensa 
pelo apoio dos italianos aos prussianos durante a guerra contra a Áustria. Roma, 
por fim, foi ocupada em 1870, quando os franceses retiraram os seus soldados 
da cidade em razão da Guerra Franco-Prussiana. Com a anexação de Roma e 
dos Estados Papais, estava consolidada a unificação da Península Itálica sob 
uma única autoridade: o Reino da Itália. 
 
 
 
Antecedentes 
A Unificação da Alemanha 
 Não seria temerário afirmar que a unificação da Alemanha, ocorrida em 
1871, foi, após o Congresso de Viena, o evento mais importante da política 
internacional do século XIX. A unificação alemã provocou o desmoronamento 
dos fundamentos do equilíbrio internacional surgidos em 1815 e levou a política 
internacional ao retorno às lutas irrestritas do século XVIII. Ademais, seus efeitos 
estariam diretamente relacionados com eventos marcantes do século seguinte, 
como a I e a II Guerras Mundiais, a Guerra Fria e a integração europeia. 
 O principal temor dos franceses do século XVII era a unificação alemã. 
Richelieu, por exemplo, via na Alemanha unificada uma ameaça potencialmente 
mais perigosa para a França. A unificação, entretanto, somente foi possível 
porque a Prússia conseguiu, ao longo de 150 anos, construir um Estado forte o 
bastante para que pudesse, no fim do século XIX, almejar a preponderância 
entre os Estados alemães. 
Também não se pode esquecer a ação deBismarck, primeiro-ministro 
prussiano que soube, por meio de uma política interna autoritária e uma política 
externa cuidadosa e pragmática, unificar a Alemanha. A maneira racional, 
pragmática e calculada como Bismarck conduziu a política alemã ficou 
conhecida como Realpolitik. 
 Assim, externamente, o Chanceler prussiano foi bem-sucedido em três 
guerras. Junto com a Áustria, atacou e conquistou territórios da Dinamarca, em 
1864. Dois anos depois, a luta pelos espólios dessa conquista fez com que os 
austríacos declarassem guerra à Prússia. Vencedores, os prussianos 
conseguiram afastar a Áustria dos assuntos alemães. Continuando com a sua 
Realpolitik e derrotada a Áustria, Bismarck conquistou territórios e forçou os 
Estados alemães menores a se aliarem a ele. 
 Em 1871, sabedor de sua vantagem militar, Bismarck provocou os 
franceses. Estes declararam guerra e foram rapidamente derrotados. Como 
vitória, Bismarck conseguiu o apoio suficiente de que necessitava para que os 
outros Estados alemães aceitassem integrar-se à Prússia, formando o Império 
Alemão, ou Segundo Reich 
 Otto von Bismarck (1815-1898), o “Chanceler de Ferro”, foi o grande 
artífice e primeiro chanceler do segundo império alemão. Seu pai era um 
latifundiário de origem nobre, e sua mãe pertencia à burguesia. Em sua 
personalidade, fundiam-se a sutileza intelectual e o provincianismo da 
aristocracia conservadora. Entrou na política em 1847. Como delegado da 
primeira Dieta prussiana, destacou-se como um dos mais férreos conservadores. 
Quando eclodiu a Revolução de 1848, foi para Berlim e pediu que o rei Frederico 
Guilherme IV reprimisse a sublevação. Seu conselho não foi levado em 
consideração, mas sua lealdade foi recompensada ao ser nomeado 
representante prussiano na Confederação Germânica, a liga dos 39 estados 
alemães, em 1851. Passou a ser embaixador na Rússia em 1859 e foi designado 
para a França em 1862. Designado Chanceler prussiano no mesmo ano, 
procedeu com uma série de reformas internas e deu início à sua Realpolitik, que 
garantiria a vitória sobre Grandes Potências europeias, como a Áustria e a 
França, e conduziria à unificação alemã. Em 1890, desentendeu-se com o Kaiser 
(ou Imperador) em virtude do direcionamento da Política Externa do Reich, 
sendo demitido e deixando a vida pública. 
 Depois da unificação, a Alemanha desenvolveu-se de maneira 
significativa, sobretudo nas áreas industrial e militar. Em três décadas, o país já 
se mostrava a principal Potência do continente em desenvolvimento industrial e 
tecnológico, superando a França. Ademais, com uma intensa política de 
construção naval, logo as marinhas mercante e de guerra alemãs ameaçavam a 
hegemonia britânica no mundo. 
 Na virada do século, os alemães já deixavam claro que desejavam ocupar 
seu lugar de destaque entre as Grandes Potências, sendo fundamental para isso 
o estabelecimento de um império colonial e a conquista de novos mercados pelo 
planeta. Entretanto, as pretensões do Reich acabariam chocando-se com os 
interesses das Grandes Potências tradicionais – em especial, Grã-Bretanha e 
França –, o que levaria a Europa à Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1914. 
 
 
Antecedentes 
Expansão colonial 
Outro aspecto importante da Sociedade Internacional do século XIX é a 
nova expansão colonial. Durante todo o século, mas sobretudo em sua segunda 
metade, desenvolveu-se um processo de conquistas europeias sobre a África e 
Ásia, denominado Neocolonialismo. Na virada do século, praticamente todo o 
continente africano, à exceção da Etiópia e da Libéria, estava sob jugo das 
Potências europeias como parte de seus impérios coloniais. 
 O Neocolonialismo foi a principal expressão do Nacionalismo e do 
Imperialismo, este último a forma assumida pelo capitalismo a partir da Segunda 
Revolução Industrial, segundo os globalistas. 
 Os defensores do Estado-nação entendiam o Estado como progressista 
(capaz de desenvolver uma economia, tecnologia, organização burocrática e 
força militar viáveis), ou seja, precisava ser pelo menos territorialmente grande. 
Para a sociedade burguesa moderna, liberal e progressista, a unidade estatal 
natural deveria ser extensa, daí o decorrente expansionismo colonial. O padrão 
de programa nacional do século XX seria diferente: Estado totalmente 
independente, homogêneo territorial e linguisticamente, laico e provavelmente 
republicano/parlamentar. 
 
O sionismo, que refundaria o Estado de Israel, seguiria esse padrão: tomar o 
território,inventar uma língua e laicizar as estruturas de um povo cuja unidade 
histórica havia sido apenas a prática de uma religião comum. 
 
 
A concepção nacionalista de Estado do século XIX se casou 
perfeitamente com os objetivos capitalistas. O domínio das Potências europeias 
sobre povos dos outros continentes não foi apenas econômico, mas também 
militar, político e social, impondo à força um novo modelo de organização do 
trabalho que pudesse garantir, principalmente, a obtenção de matéria-prima para 
as indústrias europeias. À violência militar e à exploração do trabalho somam-se 
as imposições sociais, incluindo a disseminação do cristianismo entre os povos 
nativos, num processo de aculturação, sob a justificativa de que se estaria 
levando os valores ocidentais da “civilização” aos povos primitivos. Era o “ideal 
civilizador do homem branco”. 
 Nesse processo mercantil-civilizador, a África foi conquistada e dividida, 
o mesmo acontecendo com parte da Ásia. Impérios tradicionais como a China 
sucumbiram à hegemonia europeia. O mundo nunca se mostrara tão 
eurocêntrico, e as nações europeias efetivamente eram as protagonistas das 
relações internacionais. O planeta como um todo tornou-se o tabuleiro do jogo 
de poder entre as Potências europeias. 
Antecedentes 
Expansão Colonial (cont.) 
Paralelamente ao fornecimento de matéria-prima pelas colônias, os 
europeus buscavam mercados consumidores para seus produtos em outras 
partes do mundo, por exemplo, no continente americano. E esses mercados 
eram disputados pelas Grandes Potências. 
 A partir da segunda metade do século XIX, portanto, as preocupações 
europeias se tornaram mundiais. As rivalidades se projetavam nos outros 
continentes. “O século XIX é extraordinariamente dinâmico: vai assistir-se à 
expansão da Europa pelo mundo, tanto pela ação política dos seus Estados, 
pelos fluxos migratórios, pelo escoamento das suas economias, como pela sua 
influência civilizadora. ” (PELLISTRANDI, 2000, p. 115). As Grandes Potências 
europeias cuidavam de estabelecer seus impérios coloniais subjugando os 
povos dos outros continentes, particularmente da Ásia e da África. O quadro de 
1914, conforme ilustra o Mapa 18, seria de um mundo partilhado entre as 
Potências Europeias, com a Grã-Bretanha e França detentoras dos maiores 
impérios coloniais. 
 
 
 
Mapa 18: Impérios Coloniais em 1914 
 
Fonte: http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/xix/xix8.html 
 
Especialmente importante é o Congresso de Berlim, em 1885. As razões 
políticas do imperialismo de final do século XIX eram tão importantes quanto as 
razões econômicas. Para as nações recém-unificadas – Itália e Alemanha – a 
obtenção de territórios na África e na Ásia significava prestígio e 
autorreconhecimento. Para a França, profundamente traumatizada após a 
derrota de 1871 (na Guerra Franco-Prussiana), as conquistas coloniais eram um 
meio de readquirir respeito. 
 
 
 
 
Antecedentes 
As novas Potências – Estados Unidos da América e Japão 
A segunda metade do século XIX vê também o aparecimento de dois 
Atores importantes no jogo político internacional: Estados Unidos da América 
(EUA) e Japão. 
 Os EUA começaram a se projetar como Potência após a violenta Guerra 
Civil, travada para impedir a separação dos estados do sul do país. Pouco antes, 
os norte-americanos haviam consolidado o seu processo de expansão colonial 
às expensas do México. Além disso, em 1867, compraram da Rússia o Alasca 
e, após derrotarem a Espanha, em 1898, adquiriram Porto Rico, Filipinas e um 
virtual controle sobre Cuba. Da mesma forma, o Oceano Pacífico tornava-se uma 
área de projeção de poder dos EUA. 
 Internamente, os EUA iniciaram um vigoroso processo de industrialização 
graças a um mercado interno crescente, a uma estrutura tarifária protecionista 
para afastar a concorrência estrangeira, a uma estrutura estável de comércio e 
ao grande número de inovações tecnológicas. Em 1914, às vésperas da I Guerra 
Mundial, o país já era, de longe, a principal Potência industrial do planeta. 
 
Sobre a situação dos EUA frente a outras potências na virada do século, vide 
Paul Kennedy, op.cit. 
 
 
 O Japão é outro exemplo de rápido crescimento econômico. Até 1854, 
mantivera-se fechado ao exterior. Nesse ano, uma esquadra norte-americana 
forçou o país a abrir-se e aceitar o comércio com o exterior. “Decidido a preservar 
a independência do país, um grupo de samurais (...) tomou o governo. A 
Restauração Meiji de 1867, como ficou conhecido esse episódio, devolveu o 
poder ao imperador” (PERRY, 1999, p. 473). 
 Inspirado por uma forte ideologia nacionalista, o governo Meiji iniciou um 
importante conjunto de reformas: os privilégios sociais foram eliminados, o 
serviço militar obrigatório foi implantado, uma Constituição foi elaborada, e 
passou a existir parlamento. Além disso, a economia foi rapidamente 
modernizada. Fábricas foram instaladas, tecnologia europeia foi comprada, 
ferrovias, portos, estradas e telégrafos instalados. Em menos de 20 anos, o novo 
poder japonês dava sinais de existência: em 1894, derrotava a China, e, em 
1905, a Rússia. 
 
Na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), pela primeira vez na era moderna 
uma Potência do Oriente derrotava um poderoso Estado europeu. 
 
 
Antecedentes 
O Estado-nação 
O Estado-nação é o resultado moderno da experiência de formação e 
construção do Estado desde Westfália e pressupõe a formação propriamente 
dita de uma burocracia (no sentido de separação dos meios administrativos dos 
patrimônios particulares dos agentes da administração). Testemunhou-se um 
processo de racionalização da atividade estatal. A relação entre poder político e 
território sofreu uma revolução, com uma completa transformação das relações 
do poder político central com as múltiplas tradições locais – o estabelecimento 
de uma única lei, uma única língua, uma única política fiscal e preceitos políticos 
uniformes para todo um território. 
 Havia razões políticas e econômicas por trás desse processo. De um lado, 
a necessidade de um contrato social voltado para a “coisa pública”, em que os 
“objetivos públicos” deixariam de ter nos corpos estamentais de privilégios os 
intermediários da ação político-administrativa estatal; e, de outro, a necessidade 
de facilitar a circulação dos bens num território, através da redução, simplificação 
e uniformização do sistema tributário (com a superação da fragmentação 
legislativa e do patrimonialismo fiscal), e de estimular o equilíbrio entre as regiões 
de um Estado e o aumento das trocas inter-regionais. 
 Uma das consequências desse processo foi a anulação sistemática das 
tradições locais de vários povos; ou seja, a partir das várias identidades dever-
se-ia inventar uma identidade nacional que integrasse a população em novos 
referenciais de pertencimento, de associação. Assim, os vários Estados 
buscaram constituir internamente suas nações. A mesma demanda conjuntural 
ocorria nas grandes massas territoriais e étnicas do centro-leste europeu 
(Império Prussiano, Império Austro-Húngaro e Império Russo). Todos passaram 
a buscar pelo caráter de sua nação e a igualmente se perguntar se de várias 
nações era possível formar um espírito comum. Enfim, construir um Estado-
nação significou, do século XIX ao XX, não apenas desenvolver uma economia 
e uma organização econômico-político-militar viável, mas também agrupar vários 
grupos sociais localmente circunscritos com suas línguas, tradições, costumes e 
leis próprias num grande agrupamento social politicamente representado e 
juridicamente nivelado por um Estado laico regido por umconjunto geral de leis 
soberanas – a Constituição. 
 Estados constitucionais e não constitucionais aprenderam a avaliar a 
força política que era a capacidade de apelar para seus súditos na base da 
nacionalidade (o Czar da Rússia não apenas baseava seu governo nos 
princípios da autocracia e da ortodoxia como passou a apelar aos russos como 
russos na década de 1880). A escola primária passou a ser o meio de se ensinar 
às crianças a serem bons súditos e cidadãos. Os Estados criaram nações, ou 
seja, o patriotismo nacional, e cidadãos linguística e administrativamente 
homogeneizados (a Itália usou a escola e o serviço militar para fazer italianos, 
os EUA tornaram o conhecimento da língua inglesa condição para a cidadania 
americana, a Rússia tentou dar à língua russa o monopólio da educação, com o 
fim de “russificar” as nacionalidades menores). Esse processo auxiliava a definir 
as nacionalidades excluídas da nacionalidade oficial, que, caso contrário, 
poderiam vir a oferecer resistência e a se refugiar em algum partido socialista. 
 Esse era o pano de fundo para um século “de extremos”, o século XX, em 
que os principais Atores internacionais se confrontariam numa intensidade nunca 
antes vista na história da Sociedade Internacional. 
 
 
 
Conclusão 
O período de 1815 a 1914, quando comparado aos séculos anteriores e ao 
século XX, foi de relativa paz para a Europa. Excetuando-se a Guerra da 
Crimeia (1854), não existiram grandes conflitos entre as principais potências. 
O sistema de equilíbrio de poder estabelecido no Congresso de Viena 
mostrou-se bastante bem-sucedido e só foi desarticulado a partir do momento 
em que Bismarck conseguiu unificar a Alemanha. 
Após 1871 e especialmente após 1890, a Europa viveu tempos de incerteza. 
A guerra voltou a ser considerada alternativa cada vez mais provável. França 
e Alemanha não poderiam se reconciliar por causa da Alsácia-Lorena, território 
que a primeira perdera para a segunda na Guerra Franco-Prussiana de 1870-
1871. França e Inglaterra estavam envolvidas em um grande processo de 
divisão colonial na África. A Inglaterra e a Rússia, por causa da Índia e da Ásia 
Central, encontravam-se em permanente estado de tensão. Na Ásia, uma nova 
Potência surgia: o Japão. Além disso, a mais complexa das áreas de conflito 
não pode ser esquecida: os Bálcãs. Ali, os interesses contraditórios de Áustria-
Hungria, Rússia, Sérvia e Império Otomano fomentavam uma rivalidade 
crescente. Uma disputa de poder daria início à I Guerra Mundial (1914-1918), 
que, por sua vez, poria fim à “Era dos 
Impérios”. 
 
 
 
A Era dos Impérios, de Eric Hobsbawm (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988), é 
obra fundamental para a compreensão do período que antecede a I Guerra 
Mundial e no qual se consolida a hegemonia europeia no mundo. 
 
 
 
 
 
Unidade 3 - A I Guerra Mundial e os Entre-Guerras 
 
Ao final desta unidade, o aluno deverá ser capaz de: 
• identificar os principais fatos que levaram à deflagração da I Guerra Mundial; 
• descrever a dinâmica de desenvolvimento da I Guerra Mundial; 
• explicar a relação entre o Congresso de Versalhes e o estabelecimento de 
uma 
nova ordem internacional; 
• deliminar o estabelecimento da Crise de 1929. 
 
 
Esperamos que você tenha um excelente aproveitamento em seus estudos! 
 
 A I Guerra Mundial 
Para muitos estudiosos das relações internacionais, o século XX não se 
inicia em 1901, mas em 1914, com a deflagração do maior de todos os conflitos 
que o mundo presenciara até então: a I Guerra Mundial. Durante muito tempo 
chamado de a Grande Guerra, esse conflito, que durou de 1914 a 1918, iniciou-
se na Europa e acabou envolvendo outras nações do globo, inclusive novas 
Potências emergentes que não pertenciam ao continente europeu, com 
destaque para os EUA e o Japão. 
Nunca se havia tido um conflito tão destrutivo e arrasador como a I Guerra 
Mundial. Trata-se do primeiro grande confronto internacional da era industrial. 
Foi maciço o uso das ferrovias, e “os caminhões se tornaram tão importantes 
quanto os cavalos no abastecimento de soldados no campo” (ROBERTS, 2002, 
p. 681). Pela primeira vez, foram empregados de maneira efetiva novos 
equipamentos de combate, como o avião e o tanque de guerra. Também foram 
utilizados, por ambos os lados em luta, gases letais, responsáveis por milhares 
de baixas. 
http://www.brasilescola.com/ 
 
Ao final do conflito, o sistema internacional mudaria definitivamente. A 
Europa sofreria intensa destruição, os impérios coloniais começariam a ruir, e a 
hegemonia europeia no mundo daria seus últimos suspiros. A Sociedade 
Internacional se apresentaria ainda mais complexa e com novos Atores não 
europeus a ditar suas regras. A Belle Époque seria apenas nostalgia. 
 
A I Guerra Mundial 
Causas da Grande Guerra 
Crise e incerteza. Esses eram os sentimentos que dominavam a Europa 
após 1890. Essa data não é aleatória. É o ano em que Bismarck deixa de ser o 
Chanceler alemão. Bismarck sabia muito bem o que queria: manter a França 
permanentemente enfraquecida e sem chances de revanche, além de afastada 
das preocupações territoriais. Seus sucessores, especialmente o Kaiser 
Guilherme II, não tinham planos nesse sentido, ou, se os tinham, eram confusos, 
erráticos e provocativos. A isso se somava o fato de que cada país europeu tinha 
a sua lista de reivindicações. 
 A França não esquecia a perda da Alsácia-Lorena para a Alemanha. Tal 
fato era o motor do nacionalismo francês. Além disso, preocupada em recuperar 
prestígio, a França lançou-se, com todas as suas forças, na corrida colonial. 
 A Rússia buscava expandir-se na Ásia Central, no Extremo Oriente e nos 
Bálcãs. Como resultado dessa política, atritou-se com os ingleses na disputa 
pelo Afeganistão, com o Japão (guerra em 1905), e permanecia em constante 
estado de tensão com os austríacos e com os otomanos pela hegemonia da 
península balcânica. 
Convém lembrar que a França havia sido derrotada na Guerra Franco-
Prussiana, duas décadas antes. 
Entre outras consequências, havia perdido o território da Alsácia-Lorena para 
os alemães. As décadas que se seguiram à derrota francesa foram marcadas 
por um profundo sentimento revanchista, pela baixa estima francesa e pelo 
desejo de ver a Alemanha subjugada a qualquer custo. 
 
A I Guerra Mundial 
Causas da Grande Guerra 
Os britânicos, por sua vez, temiam as ambições russas na Ásia Central e 
as pretensões coloniais francesas na África. Passaram, também, a temer cada 
vez mais os alemães, principalmente depois que estes ensejaram uma política 
de construção naval em 1897. Além disso, a Alemanha unificada revelou-se 
formidável concorrente econômica, superando os ingleses em áreas como 
química, siderurgia e energia, mostrando-se, por fim, a partir da queda de 
Bismarck, mais e mais interessada em estabelecer um império colonial e disputar 
espaço com outros países europeus na África e Ásia. 
 A Áustria-Hungria era percebida, assim como a Rússia e o Império 
Otomano, como a Potência decadente da Sociedade Europeia. Cercados por 
todos os lados, os austríacos tinham interesses conflitantes com os russos e com 
os eslavos da península balcânica. Além disso, sendo um país multiétnico, o 
Império Austro-Húngaro defrontava-se com crescentes pressões domésticas das 
minorias internas que desejavam maior autonomia. Cada vez mais, a Áustria-
Hungria sustentava sua segurança no apoio da Alemanha. Tratados de não 
agressão e assistência recíproca foram celebrados entre os dois Estados 
germânicos nos anos anteriores à I Guerra Mundial. 
O temor de Bismarck de ver a Alemanha ameaçada nos frontsoriental e 
ocidental tornou-se realidade, em grande parte, em virtude da política externa de 
Guilherme II. Preocupado em mostrar-se forte e influente, mas sem a habilidade 
política de Bismarck, o Kaiser acabou atraindo para si muitos inimigos. Grã-
Bretanha, França e Rússia se aliaram, principalmente, para fazer frente ao 
poderio alemão. 
Para agravar a situação, as políticas governamentais nas Potências 
europeias eram ditadas por ânimos nacionalistas e não havia nenhuma 
instituição internacional que pudesse mediar conflitos. O Congresso de Viena há 
muito deixara de ter importância e nada de significativo surgira em seu lugar. É 
verdade que existia, desde 1899, a Corte Internacional de Justiça de Haia. 
Infelizmente, no entanto, ela se mostrou ineficaz. A paz anterior a 1914 era obtida 
pelas ameaças mútuas, e não pelas decisões da Corte de Haia. A guerra, por 
sua vez, era articulada por meio de alianças secretas entre as Potências: era a 
diplomacia secreta que marcava as relações internacionais da Europa até a I 
Guerra Mundial. 
 Acrescente-se a isso o recrudescimento dos discursos nacionalistas, 
como o pan-germanismo e o pan-eslavismo, que pregavam a reunião dos povos 
de etnia germânica e eslava, respectivamente, em uma só nação, ou a coalizão 
dos Estados de uma mesma etnia contra ameaças de Estados de outras. Esses 
movimentos também questionavam a existência de impérios multiétnicos como 
o Otomano, o Austro-Húngaro e mesmo o Russo, e defendiam a independência 
dos povos sob o jugo de Viena, Constantinopla e São Petersburgo. Outra forma 
de nacionalismo era o francês, com forte viés revanchista contra a Alemanha e 
desejoso de recuperar a “grandeza da França”. As minorias nacionais como se 
encontravam na Europa de 1914 podem ser vistas no Mapa 19. 
Mapa 19: A Europa de 1914 – Minorias Étnicas 
 
 
 
A I Guerra Mundial 
Causas da Grande Guerra 
Assim, as relações internacionais às vésperas da I Guerra Mundial eram 
marcadas pela disputa entre as Grandes Potências por mercados e pelo 
interesse das novas Potências, em especial a Alemanha e a Itália, de possuírem 
impérios coloniais e de se equipararem às principais Potências coloniais 
europeias. Também caracterizava as relações internacionais anteriores à 
Grande Guerra uma significativa corrida armamentista entre os principais Atores 
europeus, com rivalidades que afloravam entre eles e refletiam-se em um 
sistema de alianças estabelecidas, na maior parte das vezes, por meio da 
diplomacia secreta. 
 As diferenças entre as Potências eram, ademais, significativas. Na arena 
europeia havia novas Potências, como a Alemanha e a Itália, que desejavam 
ampliar seu poder e tinham interesses conflitantes com as Grandes Potências 
tradicionais e ainda poderosas Grã-Bretanha e França, que buscavam manter-
se na liderança da Sociedade Internacional a qualquer custo. Havia, ainda, os 
grandes impérios em decadência – o Império Russo, o Império Austro-Húngaro 
e o Império Otomano – que, em virtude das dificuldades domésticas, em especial 
dos movimentos nacionalistas separatistas em seu interior, viam-se 
enfraquecidos demais para permanecerem, ainda durante muito tempo, em 
condição de igualdade com a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha. 
No início do século XX, a estrutura do Concerto Europeu fora 
definitivamente substituída pela política de alianças. De um lado, ainda sob a 
articulação de Bismarck, as chamadas Potências Centrais – Alemanha e Áustria 
– assinaram com a Itália, em 1882, o Tratado da Tríplice Aliança, que dava a 
cada parte garantia de assistência das demais em caso de ataque por uma 
Potência externa. Como resposta à Tríplice Aliança, franceses, britânicos e 
russos constituíram a Tríplice Entente, a qual reuniria as Potências aliadas na 
Grande Guerra. 
A Europa, antes de 1914, viu-se, pois, em uma série de crises. Após 
sobreviver a duas ou três realmente graves, o assassinato do Arquiduque 
Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, foi o estopim que deu 
início ao conflito. 
A Áustria considerou o assassinato a oportunidade ideal para resolver, de 
forma definitiva, os problemas com a Sérvia. Sob a alegação de que o governo 
sérvio era responsável pelo assassinato, fez uma série de exigências. Em suas 
exigências, os austríacos contavam com o apoio irrestrito do Kaiser alemão. 
 
Sobre o conflito... Em 28 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando 
e sua esposa foram assassinados por um nacionalista sérvio quando visitavam 
a cidade de Sarajevo, que se encontrava em uma região conturbada do 
Império Austro-Húngaro. 
 
 
A I Guerra Mundial 
Causas da Grande Guerra 
A Sérvia, por sua vez, como país eslavo, acreditava que contaria com o 
apoio da Rússia. Como em um dominó, o sistema de alianças fez com que a 
guerra entre austríacos e sérvios atingisse, também, alemães e russos. Estes 
últimos, graças a outra aliança, atraíram para o conflito os franceses. Os ingleses 
entraram na guerra para defender a Bélgica, país que fora invadido pelos 
alemães. Assim, um sistema de alianças rígido e um sistema de mobilização 
militar conduziram os europeus para a Guerra. De um lado, estavam Inglaterra, 
França, Rússia e Sérvia. De outro, Alemanha e Áustria-Hungria. Durante o 
desenrolar do conflito, muitos outros países se envolveriam. O Mapa 20 retrata 
essas alianças às vésperas da I Guerra Mundial 
 
 
 
 
 
Mapa 20: A Europa de 1914 – As Alianças 
 
Fonte: http://www.geografiaparatodos.com.br/index.php?pag=mapastematicos 
Sobre a Guerra: As hostilidades se iniciaram quando, diante da ineficácia das 
gestões diplomáticas, a Áustria declarou guerra à Sérvia, em 28 de julho de 
1914. A Rússia, aliada dos sérvios, mobilizou-se contra a Áustria, e a 
Alemanha, aliada do Império Austro-Húngaro, declarou guerra à Rússia em 1.º 
de agosto. As tropas alemãs cruzaram a fronteira de Luxemburgo, em 2 de 
agosto, e, no dia seguinte, 3 de agosto, a Alemanha declarou guerra à França, 
a qual era aliada da Rússia. O governo britânico declarou guerra à Alemanha 
no dia 4 de agosto, em virtude de os alemães terem violado a neutralidade 
belga, da qual os ingleses eram garantes. A Itália permaneceria neutra até 23 
de maio de 1915, quando, então, declarou guerra à Áustria-Hungria. O Japão 
declarou guerra à Alemanha em 23 de agosto de 1914 e, em 6 de abril de 
1917, os Estados Unidos fizeram o mesmo. 
 
 
A I Guerra Mundial 
A Guerra 
Inicialmente, os que iam para o front acreditavam que a guerra terminaria 
em poucas semanas. Não é falso dizer que os soldados, de ambos os lados, iam 
para a guerra entusiasmados pelo fervor nacionalista, acreditando que 
alcançariam vitória fácil e rápida. Infelizmente, no entanto, o conflito acabou por 
ser longo e penoso. 
 As operações militares na Europa se desenvolveram em três frentes: a 
ocidental ou franco-belga, a oriental ou russa e a meridional ou sérvia. 
Posteriormente, surgiriam novas zonas de combate, com a intervenção do 
Império Otomano, da Itália e da Bulgária. 
 Durante décadas, cada um dos países fez planos detalhados. Os 
alemães, por exemplo, tinham o famoso Plano Schlieffen. Elaborado pelo 
general Schlieffen, previa o pior cenário possível: uma guerra em dois fronts – 
um contra a França, outro contra a Rússia. Para o sucesso do plano, era 
necessária uma rápida vitória contra os franceses, para, depois, vencer a Rússia. 
Temerário, arriscado e de difícil execução, o plano acabou por fracassar. A 
almejada rápida vitória contra os franceses acabou transformando-se na estática 
guerra de trincheiras, que durou a maior parte dos quatro anos de conflito. 
 Os russos assumirama ofensiva, na frente oriental, no início da guerra, 
mas foram detidos pelos exércitos austríacos e alemães. Em 1915, as Potências 
Centrais haviam conseguido expulsar os russos da Polônia e da Lituânia e 
tinham tomado todas as fortalezas limítrofes da Rússia, que ficou sem condições 
de empreender ações importantes por falta de homens e de suprimentos. O 
fracasso na guerra contribuiria para o aumento da crise político-institucional 
interna da Rússia, que culminaria na deposição do czar, no estabelecimento de 
um governo republicano e na revolução bolchevique de outubro de 1917. 
 O Império Otomano entrou na guerra em 29 de outubro de 1914, ao lado 
dos alemães e austríacos. Os turcos iniciaram a invasão da zona russa da 
cordilheira do Cáucaso em dezembro. O governo russo pediu auxílio aos 
britânicos, que tentaram tomar o Estreito de Dardanelos. Porém, a Campanha 
de Gallípoli, como ficou conhecida a ação, resultou em fracasso total para as 
tropas aliadas, que foram tenazmente derrotadas pelos turcos. 
 
A I Guerra Mundial 
A Guerra 
Nos Bálcãs, em 1915, os austríacos, com apoio dos búlgaros, 
conseguiram derrotar e ocupar a Sérvia. Eclodiram duas lutas na região em 
1916: o ataque conjunto de sérvios e italianos às forças búlgaras e alemãs e uma 
ofensiva aliada sobre a Macedônia. 
 O triunfo obtido pelos alemães contra os russos e sérvios, em 1915, deu-
lhes condições de concentrarem suas operações na frente ocidental. 
Desencadearam a batalha de Verdun em 21 de fevereiro, mas não conseguiram 
conquistar esta cidade devido à contraofensiva do general francês Henri Philippe 
Pétain. Os aliados contra-atacaram, por sua vez, na batalha do Somme, iniciada 
em 1º de julho e na qual os britânicos usaram pela primeira vez carros de 
combate modernos. Os franceses empreenderam nova ofensiva em outubro, 
restabelecendo a situação que existia antes de fevereiro. Todos esses 
movimentos podem ser vistos no Mapa 21. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mapa 21: A Guerra em agosto de 1914 
 
Fonte: 
http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/guerre14_18/gun7.html 
 
Essas batalhas de 1916 já revelavam quão assustadoramente mortífera 
seria a Grande Guerra: nos cinco meses da batalha de Verdun, “os exércitos 
franceses e alemães sofreram mais de seiscentas mil baixas (mortos, feridos e 
desaparecidos) e, no primeiro dia da batalha do Somme (...), o exército britânico 
(...) teve vinte mil mortos e quase quarenta mil feridos. No monumento em 
Thiepval, dedicado aos soldados britânicos mortos em pouco mais de um ano 
em Somme, há mais de setenta mil nomes, exclusivamente daqueles cujos 
corpos nunca foram encontrados” (ROBERTS, 2002, p. 682). 
A guerra continuaria estática. Os exércitos dos dois lados acabaram 
fincando posições que se manteriam por meses. A guerra de trincheiras, com 
homens com lama até o pescoço, enfiados em valas imundas e sujeitos a 
doenças, como cólera e tifo, e a ataques da artilharia inimiga, alguns 
empregando gases letais, seria uma traumática realidade quotidiana pela qual a 
Grande Guerra seria lembrada. Nesse sentido, a I Guerra Mundial seria distinta 
de todas as que a precederam e, de fato, também dos conflitos seguintes, nos 
quais a guerra dinâmica, de velocidade, seria a regra. Em resumo, nos primeiros 
três anos que se seguiram a 1914, poucas conquistas houveram por parte de 
ambos os lados além daquelas obtidas nos primeiros meses da guerra. 
 
Grandes Mudanças 
Em 1917, os aliados tiveram um revés: a Rússia saiu da guerra. Em março 
daquele ano, uma revolução culminou na implantação de um governo provisório 
e na abdicação do Czar Nicolau II. Em novembro (outubro no calendário russo), 
uma nova revolução, liderada pelos bolcheviques, derrubou o governo provisório 
e tomou o poder. As autoridades russas propuseram à Alemanha a cessação 
das hostilidades. Representantes da Rússia, Áustria e Alemanha assinaram o 
armistício em 15 de dezembro, cessando, assim, a luta na frente oriental. Os 
alemães puderam redirecionar suas forças para o front ocidental. 
 Se saíra vitoriosa contra a Rússia, a Alemanha fracassara em seu intento 
de provocar a rendição da Grã-Bretanha por meio da destruição da frota aliada. 
Em janeiro de 1917, a Alemanha declarava guerra submarina generalizada e 
anunciava que afundaria qualquer embarcação que encontrasse em uma vasta 
área do Atlântico Norte, considerada zona de guerra, não importando se fosse 
navio de guerra, mercante ou de passageiros. Com isso, muitas embarcações 
foram torpedeadas, causando milhares de baixas, inclusive entre civis de países 
neutros, como os EUA e o Brasil. 
 A política de neutralidade norte-americana mudou com a guerra 
submarina promovida pelos alemães. Em 3 de fevereiro de 1917, os EUA 
romperam relações diplomáticas com a Alemanha, declarando-lhe guerra em 6 
de abril. Uma força expedicionária foi enviada para a Europa. A sorte mudara 
novamente na direção dos aliados. 
 Outro filme muito interessante é O Batalhão Perdido, de Russell Mulcahy 
(EUA, 2001, 92 min), que conta a história real de um batalhão norte-americano 
que se perde no meio das linhas alemãs durante a I Guerra Mundial. 
 
 Várias nações latino-americanas, entre elas o Peru, o Brasil e a Bolívia, 
apoiariam a ação dos EUA. O afundamento de alguns navios levou o Brasil, em 
26 de outubro de 1917, a participar da guerra, enviando uma divisão naval em 
apoio aos aliados. Aviadores brasileiros participaram do patrulhamento do 
Atlântico, navios do Lóide Brasileiro transportaram tropas norte-americanas para 
a Europa, e uma missão médica foi enviada para a França. 
 
A I Guerra Mundial 
1918: o fim da carnificina 
 Apesar da entrada dos EUA no conflito, os primeiros meses de 1918 não 
foram favoráveis às Potências aliadas. O Mapa 22 ilustra a disposição das forças 
no início de 1918 (comparar com o Mapa 21). Em 3 de março, a Rússia assinou 
o Tratado de Brest-Litovsk, com o qual punha oficialmente um fim à guerra com 
os Impérios Centrais. Em 7 de maio, a Romênia, derrotada, assinou o Tratado 
de Bucareste com a Áustria-Hungria e a Alemanha, às quais cedia diversos 
territórios. 
Mapa 21: A Guerra em agosto de 1914 
 
 
 
Mapa 22 - A Grande Guerra em 1918 
 
Fonte: 
http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/guerre14_18/gun8.html 
 
A I Guerra Mundial 
1918: o fim da carnificina (cont.) 
Em 1918, no entanto, a luta nos Bálcãs foi catastrófica para os Impérios 
Centrais. Uma força de cerca de 700.000 soldados aliados iniciou uma grande 
ofensiva contra as tropas alemãs, austríacas e búlgaras na Sérvia. Os búlgaros, 
derrotados, assinaram um armistício. Além disso, os aliados obteriam a vitória 
definitiva na frente italiana entre outubro e novembro. A comoção da derrota 
provocou rebeliões revolucionárias no Império Austro-Húngaro, que se viu 
obrigado a assinar um armistício em 3 de novembro. O Imperador Carlos I 
abdicou oito dias depois, e, em 12 de novembro, foi proclamada a República da 
Áustria. 
 A frente turca também caiu. As forças britânicas tomaram o Líbano e a 
Síria, ocupando Damasco e outros pontos estratégicos. A Marinha francesa, por 
sua vez, ocupou Beirute, e o governo otomano solicitou um armistício. 
 
Depois da paz em separado com a Rússia, a Alemanha tentou uma 
ofensiva final contra a França. Nesse momento derradeiro, porém, os alemães 
tiveram que enfrentar as recém-chegadas tropas americanas. Cansados e com 
parcos recursos materiais, os germânicos fracassaram em seus ataques finais. 
Depois de quatro anos, a exaustão atingiu todos os países combatentes, 
enquanto os EUA acabavamde entrar no conflito. Em fins de 1918, os principais 
aliados da Alemanha – Áustria-Hungria, Turquia e Bulgária – pararam 
definitivamente de lutar. Áustria-Hungria e Turquia simplesmente se 
desmancharam depois de quatro anos de combate. 
 A Alemanha, sob pressões internas e externas, pediu a paz. O Kaiser 
Guilherme II abdicou, e o país se transformou em república. A Alemanha, ao 
contrário de seus aliados, não se desintegrou, e o armistício foi feito antes que o 
seu território fosse invadido. Isso teria grandes implicações simbólicas 
posteriormente. 
 
A I Guerra Mundial 
O saldo da Grande Guerra 
 O saldo da guerra foi a morte de mais de 8 milhões de pessoas. Outras 
10 milhões de pessoas ficaram inválidas. Economicamente, o trauma foi 
profundo. A França gastou 30% da riqueza nacional, e a Inglaterra, 22%. A 
produção industrial caiu entre 30% e 40%. Além disso, enormes dívidas foram 
contraídas para pagar a guerra. Nunca o mundo assistira a uma hecatombe de 
tamanhas proporções, com tantas baixas, tantos mutilados e tanta destruição. 
 Sob a ótica das relações internacionais, a Grande Guerra provocou 
mudanças profundas no equilíbrio de poder no mundo. Os velhos impérios, que 
foram protagonistas da política entre as nações nos quatro séculos anteriores, 
desaparecem. O II Reich chega a termo, e uma frágil democracia é estabelecida 
na Alemanha, que continuava como Ator de destaque no cenário europeu e cuja 
recuperação influenciaria definitivamente os destinos da Europa e o sistema 
internacional. Grã-Bretanha e França, apesar de vencedoras da Grande Guerra, 
foram obrigadas a admitir que uma nova configuração de poder seria 
estabelecida, com dois Atores não europeus tremendamente importantes, o 
Japão e a nova Potência que se afirmava, os EUA. 
 Terminado o conflito, que deveria ter sido rápido e fácil, a Europa estava 
em situação lamentável e não mais teria forças para estar à frente da Sociedade 
Internacional. Os EUA já deveriam ser consultados sobre os destinos do sistema 
internacional, e, no Oriente, o Japão avocava sua parcela de influência. E essas 
transformações estavam apenas começando... O mundo já dava sinais de deixar 
de ser eurocêntrico. A Primeira Guerra Mundial foi a grande tragédia europeia. 
 
A Grande Guerra foi um evento marcante na história da humanidade e deu 
início ao século XX. Há muitas obras a respeito. Sugere-se, para leitura inicial, 
o livro de John Keegan, História Ilustrada da I Guerra Mundial (Ediouro). Os 
livros de John Keegan são indicados para os que se interessam por história 
militar. Também sobre a realidade da Grande Guerra, sugere-se a leitura de 
Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque (Porto Alegre, L&PM, 2004). 
Trata-se de um romance histórico, contado por alguém que viveu a dura 
realidade da guerra e foi considerado, no pós-guerra, uma obra-prima da 
literatura pacifista mundial. Baseado no livro, foi feito o filme de mesmo nome 
(All Quiet on the Western Front, 
Lewis Milestone, 1930), também um clássico do gênero. 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
A Conferência de Paris, O Tratado de Versalhes e o Advento de uma Nova 
Ordem Internacional 
Em janeiro de 1919, 25 países se reuniram em Paris para as 
conversações de paz. Os derrotados e a Rússia, entretanto, não participaram 
dos debates. 
 Os norte-americanos, guiados pelo idealismo do Presidente Woodrow 
Wilson, desejavam a criação da Sociedade de Nações, entidade que pudesse 
resolver amigavelmente as questões internacionais. Também conhecida como 
Liga das Nações, essa organização internacional deveria servir de foro onde os 
Estados poderiam resolver suas animosidades sem recorrer à guerra, que 
deveria ser definitivamente banida das relações internacionais. A paz seria 
assegurada por meio de um mecanismo de segurança coletiva, e o direito 
internacional, a autodeterminação e a democracia deveriam prevalecer nas 
relações entre os povos. Esses valores, que constituiriam o norte moral para a 
conduta dos Estados, seriam fomentados pelas instituições então criadas, como 
a Liga das Nações e a Corte Internacional de Justiça (denominada à época Corte 
Permanente de Justiça Internacional). 
 Grã-Bretanha e França, todavia, buscavam defender seus interesses de 
forma mais incisiva e pragmática. Os franceses desejavam a reintegração da 
Alsácia-Lorena a seu território, o desarmamento alemão e o pagamento de 
indenizações de guerra. Os ingleses, por sua vez, queriam o controle sobre a 
frota e sobre as colônias alemãs. Eram posições antagônicas aos anseios 
estadunidenses e refletiam o realismo da política internacional europeia do 
século XIX. 
 O Tratado de Versalhes, principal convenção de paz da Grande Guerra, 
continha termos bastante duros para os vencidos. A Alemanha perdeu vários 
territórios e todas as suas possessões coloniais. Além da Alsácia-Lorena, 
devolvida para a França, perdeu territórios para a Lituânia e, principalmente, para 
a Polônia. Como resultado das perdas territoriais para esta última, a Alemanha 
foi fisicamente dividida, com a Polônia separando a Prússia Oriental do restante 
do país. Tinha-se aí um dos motivos que fomentaram o nacionalismo e o 
revanchismo alemães no Entre-Guerras (1919-1939). 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
A Conferência de Paris, O Tratado de Versalhes e o Advento de uma Nova 
Ordem Internacional (cont.) 
 Militarmente, a Alemanha foi desarmada. O exército foi reduzido para 100 
mil homens e 4 mil oficiais. Não mais teria marinha, aviação, tanques ou artilharia 
pesada. Também não poderia fabricar material bélico. Por fim, o país se viu 
obrigado a pagar uma grande indenização financeira para os vencedores. Para 
se ter ideia da indenização que a Alemanha se viu obrigada a pagar, o valor 
acordado era tão expressivo que seria pago em parcelas que só acabariam no 
início da década de 1980. Claro que esse pagamento não se daria como 
previsto... 
Outros tratados de paz foram firmados entre 1919 e 1923. Como 
resultado, inúmeros países surgiram da desintegração do Império Austro-
Húngaro, do Império Otomano e do Império Russo: Finlândia, Letônia, Estônia, 
Lituânia, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria e Iugoslávia. Um novo mapa político 
da Europa era desenhado, com novas nações constituídas do esfacelamento 
das colchas de retalho étnicas, que eram os citados velhos impérios. 
O Mapa 23 ilustra a nova configuração política europeia do pós-I Guerra (em 
amarelo, os novos Estados). 
 
 
Fonte: 
http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/guerre14_18/gun12.html 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
Uma Nova Ordem Internacional 
A Europa que saía da guerra era bastante diferente daquela que a iniciara. 
De certo modo, o impacto da I Guerra para algumas nações europeias foi ainda 
maior do que o da II Guerra Mundial. Sangrada e traumatizada, a Europa não 
conseguiu se recuperar por meio dos Tratados de Paz. Ao contrário de uma paz 
duradoura, conseguiu-se, apenas, por intermédio de tratados impiedosos, deixar 
os alemães desejosos de uma revanche. Diferentemente do Congresso de Viena 
(1815), que fora um exemplo de como se obter a paz, Versalhes foi a expressão 
de raiva dos vencedores. O resultado é que, vinte anos depois, eclodiria outra 
guerra mundial. 
 
Novas Potências não europeias: EUA e Japão 
Quais foram os verdadeiros vencedores da I Guerra Mundial? França e 
Grã-Bretanha saíram em frangalhos do conflito. Perderam milhões de vidas e 
tiveram uma geração inteira traumatizada. Perderam recursos industriais, 
econômicos e financeiros. Para ganhar a guerra, tiveram que se aliar e se 
endividar juntoaos EUA. Estes, se já eram um país importante antes de 1914, 
tornaram-se, após o fim da guerra, a principal Potência mundial. Inegável que a 
vitória das Potências ocidentais só foi possível porque os norte-americanos 
enviaram um contingente significativo para a França a partir de 1917. Os EUA 
foram o fiel da balança na Grande Guerra: não apenas impediram que as 
ofensivas alemãs fossem bem-sucedidas como também mostraram para os 
alemães que a continuidade da guerra era inútil. 
O Japão, mesmo com papel secundário na I Guerra Mundial, soube tirar 
proveito do enfraquecimento das Potências europeias. Conseguiu ocupar as 
possessões alemãs na China e na Oceania. Além disso, como se envolvera 
apenas marginalmente no conflito, encontrava-se pronto para as suas aventuras 
militares nas décadas de 1920 e 1930 e, posteriormente, na II Guerra Mundial. 
 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
Idealismo na política internacional e a Liga das Nações 
 A Grande Guerra havia sido demasiadamente traumática. Nunca o mundo 
presenciara tanta carnificina e destruição em um conflito entre “nações 
civilizadas”. Os europeus, que haviam comemorado o início do ansiado conflito, 
concluíram-no exaustos e dispostos a fazer daquela a derradeira guerra. 
 O sentimento mundial e, sobretudo, europeu, ao fim da Grande Guerra, 
era de que não se poderia mais tolerar que os povos se dizimassem em um 
conflito armado, e que a Sociedade Internacional deveria empreender todos os 
esforços no intento de garantir um mundo pacífico e regido pelo Direito, e não 
pela força. 
 O presidente estadunidense Woodrow Wilson foi o idealizador do 
programa de construção de uma nova ordem internacional chamado Quatorze 
Pontos. Esse programa, apresentado para a Conferência de Paris, previa um 
acordo de paz sem anexações territoriais ou indenizações de guerra e baseava-
se no princípio da autodeterminação dos povos, isto é, cada nacionalidade teria 
direito de ter a própria independência, caso, por exemplo, da Hungria, Polônia e 
Sérvia. Além disso, o programa wilsoniano previa a criação de uma Sociedade 
das Nações, para assegurar que o mundo não entrasse novamente em guerra. 
 A Sociedade das Nações, ou Liga das Nações, foi fundada em 28 de abril 
de 1919. Apesar das pretensões de Wilson, ela acabou sendo bastante limitada. 
Um Conselho Permanente, formado por Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, 
Japão e Itália, serviria como árbitro nas questões internacionais. Caso não fosse 
bem-sucedido, a Assembleia Geral, composta por todos os membros, poderia 
votar sanções morais, econômicas ou militares. 
 Para fins práticos, os efeitos trazidos pelo advento da Sociedade das 
Nações foram desprezíveis. Como exercia, na realidade, pouco poder, quando 
votava algum tipo de sanção ou de agravo, o país atingido simplesmente se 
retirava da Liga. Ademais, a organização já começara enfraquecida, pois a 
principal Potência mundial e pátria do seu idealizador, os EUA, acabaram não 
aderindo à Liga, por decisão do Congresso norte-americano. 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
A Revolução Russa 
A Revolução Russa foi um dos eventos mais importantes do século XX, 
tal como fora a Revolução Francesa no século XVIII. Surgiu da derrota para o 
Japão em 1905 (em que disputou o território da Manchúria), dos escombros da 
I Guerra Mundial, da disseminação das ideias socialistas e revolucionárias 
geradas no século XIX e da incapacidade do governo czarista de ouvir os 
anseios populares. 
 A entrada russa na Grande Guerra, tal como ocorrera em outros países, 
fora celebrada pelo povo. O governo de São Petersburgo imaginava que a 
superioridade numérica da Rússia em homens seria suficiente para derrotar os 
alemães. Isso não se mostrou verdadeiro. Apesar de estar em inferioridade 
numérica, a Alemanha soube lidar com a incompetência militar e com os 
problemas logísticos russos. As derrotas militares não tardaram a surgir e, 
rapidamente, transformaram-se em desastres. Além disso, a guerra pressionou, 
de modo exagerado, a economia russa: os camponeses foram retirados de suas 
terras para lutar no front, empresas e indústrias faliram, a inflação corroía o poder 
de compra e não havia comida suficiente para abastecer as principais cidades. 
Em fins de 1916, a Rússia czarista estava à beira do colapso. 
Apesar disso, o Czar Nicolau II, preso aos compromissos de guerra com 
a França e com a Grã-Bretanha, não dava sinais de que desistiria do conflito. 
Pressionado, abdicou em março de 1917. O governo passou às mãos de um 
governo moderado sob o comando de Alexander Kerenski. Entretanto, o novo 
governo não eliminou o principal problema do país: a guerra. Em outubro do 
mesmo ano, Lênin, líder bolchevista que retornara do exílio, preparou a tomada 
do poder. Kerenski, abandonado pelo exército, fugiu. Lênin assumiu então o 
governo 
Lênin conseguiu retornar do exílio e chegar à Rússia para promover a 
Revolução graças ao auxílio dos alemães, particularmente dos serviços de 
inteligência do Kaiser, com os quais o líder bolchevista comprometeu-se a pôr 
fim à participação de seu país na guerra assim que tomasse o poder. 
 A Revolução Russa e o Stalinismo são o pano de fundo dos filmes Dr. 
Jivago e Reds, de Warren Beatty. Confira! 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
A Revolução Russa (cont.) 
Os bolchevistas eram guiados pelas ideias de Karl Marx e Friedrich 
Engels, pensadores comunistas do século XIX. Assim, tinham o objetivo de, uma 
vez tomado o poder, realizar profundas mudanças na sociedade. De acordo com 
Marx, a história se funda na luta de classes, e essa seria superada pela classe 
mais revolucionária e vanguardista, o proletariado. A contribuição de Lênin para 
a política do século XX foi a seguinte: a revolução seria feita através da condução 
e organização do disciplinado partido de vanguarda de revolucionários 
profissionais. A revolução de 1905 mostrara uma burguesia russa politicamente 
fraca; a Constituição liberal-burguesa formulada era muito restrita, e o czarismo 
tornara a se implantar. Para uma revolução sem burguesia, o partido conduziria 
a classe operária com o apoio do campesinato, ansioso por terras. 
As repercussões de uma revolução russa seriam mais amplas que as de 
1789. A simples extensão física e a plurinacionalidade de um império que ia do 
Pacífico à fronteira alemã significava que sua queda afetaria um número muito 
maior de países, em dois continentes, que a de um Estado marginal ou isolado 
na Europa ou na Ásia. 
 Uma das primeiras medidas de Lênin foi a retirada da Rússia da guerra. 
Por meio do armistício de Brest-Litovsk, entregou parte importante do território e 
dos recursos industriais e econômicos russos na Europa para os alemães em 
troca da paz. Mesmo arriscado, foi um lance bem-sucedido. Junto com isso, 
implantou um regime de partido único apoiado em uma poderosa polícia política, 
a Tcheka, e no Exército. Depois de três anos de sangrenta guerra civil, inclusive 
com a invasão do território russo por forças estrangeiras, a vitória e o controle 
do país foram definitivamente alcançados. 
 Dos escombros do império dos czares surgiu um novo país, a União das 
Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), primeira nação do mundo sob um 
regime marxista e que se tornaria a única Potência do planeta capaz de rivalizar 
com os EUA. O governo revolucionário enfrentaria ainda grandes crises políticas 
e econômicas, mas conseguiria superar esses obstáculos e retomar o processo 
de industrialização e de crescimento iniciado pela Rússia czarista. Entretanto, 
essas transformações acarretariam a morte de milhões de pessoas, não só em 
virtude dainsuficiência de alimentos, mas também por causa de decisões 
desastrosas da política econômica – tomadas por burocratas do Partido 
Comunista – e, ainda, como resultado de perseguições e expurgos contra toda 
e qualquer pessoa suspeita de ser contrária ao regime. Nesse contexto, a figura 
de Josef Stalin, que assumiu o poder após a morte de Lênin, em 1924, e 
governou ditatorialmente a URSS até a sua própria morte, em 1953, teve um 
papel central. 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
A Crise de 1929 
Com o fim da Primeira Guerra Mundial, os EUA se tornaram a principal 
Potência econômica do mundo. A década de 1920 foi um tempo de grande 
crescimento econômico. Empolgados com a possibilidade de lucro rápido, 
milhares de pessoas se puseram a investir na Bolsa de Valores, inclusive 
comprando ações a crédito. Esse movimento de especulação fez com que os 
preços das ações fossem muito maiores do que elas realmente valiam. 
Em outubro de 1929, a “bolha” da Bolsa explodiu. Em poucas semanas, 
bilhões de dólares evaporaram. Empresas reduziram a produção, milhões de 
trabalhadores ficaram desempregados, agricultores tiveram que entregar as 
suas terras para os bancos, e centenas de bancos fecharam as portas. O índice 
de produção estadunidense, que era de 100 em 1929, caiu, em pouco tempo, 
para 60. 
Externamente, os efeitos da crise também foram devastadores. Como 
sempre ocorre, problemas na principal Potência repercutem rapidamente no 
restante do sistema internacional. Desemprego, inflação e quebra de empresas 
atingiram praticamente todos os outros países do mundo, à exceção da União 
Soviética, que não dependia do sistema econômico internacional por ter sido 
isolada pelas Potências, em virtude da Revolução de 1917 e do estabelecimento 
do regime comunista. 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
Fascismo e Nazismo 
Após a I Guerra Mundial, a Europa foi tomada por uma onda de 
radicalização política. Regimes totalitários, à esquerda e à direita, apareceram 
por todo o continente. Os antigos regimes liberais foram, pouco a pouco, 
substituídos por regimes onde imperava a força. E isso ocorreu com o apoio 
popular, que, em diversos países, manifestou descrédito na democracia. 
 Após 1916, o constitucionalismo liberal e a democracia representativa 
batem em retirada, embora restaurados após 1945. Em 1939, os únicos dentre 
os 27 Estados europeus que podiam ser descritos como democracias 
parlamentares eram: Reino Unido, Estado Livre da Irlanda, França, Bélgica, 
Suíça, Holanda e os quatro escandinavos. Todos eles, salvo o Reino Unido, a 
Irlanda, a Suécia e a Suíça, logo desapareceriam temporariamente em virtude 
de ocupação ou de aliança com a Alemanha nazista. 
 O Tratado de Versalhes comprometeu as chances de recuperar a 
estabilidade capitalista da Alemanha e, portanto, da Europa, em bases liberais. 
 O comunismo, que já havia alcançado o poder na Rússia por ocasião da 
Revolução de 1917, apresentava-se, para muitos europeus, como a saída da 
esquerda. À direita, foi o fascismo que surgiu como o grande adversário dos 
regimes democráticos. 
 A Itália é o primeiro país em que um regime fascista estabeleceu-se e 
adquiriu importância. Benito Mussolini, antigo militante socialista, catalisou em 
torno de si toda a insatisfação do povo italiano com o resultado da I Guerra 
Mundial. Os italianos pouco poderiam comemorar dos resultados da Grande 
Guerra. Apesar de oficialmente vitoriosos, as baixas em vidas foram altíssimas. 
Além disso, a Itália não conseguiu obter o prestígio que há tanto tempo desejava. 
Para as outras potências europeias, a Itália ainda era uma nação de segunda 
categoria. 
 Também não se pode esquecer que a Itália chegou à década de 1920 em 
grave crise econômica: o desemprego grassava, empresas quebravam, a 
inflação era alta e os trabalhadores perdiam renda. Tratava-se de cenário 
bastante propício a soluções autoritárias. Mussolini aproveitou-se da 
oportunidade. Em 1921, fundou o Partido Fascista e, em 1922, realizou a Marcha 
sobre Roma, dizendo-se defensor da ordem contra o caos e a anarquia. 
Inicialmente, o discurso fascista manteve um aspecto de normalidade, mas, em 
1925, os fascistas tomaram, definitivamente, o poder. 
Sobre as questões relacionadas ao totalitarismo e ao autoritarismo da 
Europa, vide Mark Mazower, O continente sombrio: a Europa do século XX (São 
Paulo: Companhia das Letras, 2001). Obra teórica fundamental a respeito é 
Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt (São Paulo: Companhia das Letras, 
1989). 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
Fascismo e Nazismo (cont.) 
O Fascismo italiano, copiado depois por muitos outros países, tinha entre seus 
princípios: 
 
 a existência do Estado autoritário, baseado na figura do chefe (ou líder) 
e no partido único 
 a preponderância do coletivo – ou das massas – sobre o indivíduo; 
 o Estado como o árbitro nas relações entre patrões e empregados; 
 a exaltação da guerra e da grandeza nacional. 
 
 
 
Muitos outros países adotaram regimes similares ao italiano ou inspirados 
nele: Espanha, Portugal, Polônia, Hungria, Iugoslávia, Grécia, Bulgária, Lituânia, 
Estônia, Letônia e Áustria, para citar os Estados europeus. Até no Brasil, em 
1937, com o Estado Novo de Getúlio Vargas, foi estabelecido um regime 
fortemente influenciado pelas ideias fascistas. 
 Não obstante, o fascismo não seria a opção mais autoritária de direita no 
Entre-Guerras. Em 1933, chegava ao poder na Alemanha o principal discípulo 
das ideias de Mussolini: Adolf Hitler. O novo líder alemão conseguiu não apenas 
superá-lo como radicalizar mais ainda a ideologia fascista: estabelecia-se o 
nacional-socialismo na Alemanha. 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
 As origens do nazismo 
O nacional-socialismo, ou nazismo, como é também chamado, surgiu em 
meio à crise da década de 1920 e encontrou nos problemas da Alemanha e do 
mundo no pós- I Guerra Mundial as razões de seu fortalecimento. A primeira 
dessas razões é o perene revanchismo alemão oriundo da derrota e das 
imposições dos vencedores da I Guerra Mundial. 
 Simbolicamente, os alemães não se sentiam derrotados, porque o 
território alemão não fora invadido em 1918. Ademais, quando os combates 
foram suspensos por meio de um armistício – e não de uma capitulação –, 
parecia haver um equilíbrio entre os lados combatentes, pois ambos estavam 
exauridos. A culpa para o armistício era jogada sobre as costas do poder civil, 
os “entreguistas”, particularmente os socialistas que negociaram o armistício, 
supostos responsáveis pelo fracasso. 
 Em segundo lugar, as condições do Tratado de Versalhes para a 
Alemanha foram muito mais duras do que o Presidente Wilson sugerira. Os 
alemães foram declarados culpados pela guerra, obrigados a pagar uma 
reparação gigantesca e impedidos de ter um exército de tamanho compatível 
com a realidade de uma Potência. 
 
Por fim, as crises econômicas da década de 20 – primeiro, em 1923, 
quando o país passou pela hiperinflação, depois, em 1929, resultado da quebra 
da Bolsa de Nova York – se mostraram fundamentais para criar um caldo 
simbólico de ódio e rancor. Razões econômicas que repercutiram em 
movimentos sociais questionaram a frágil democracia da República de Weimar, 
como foi denominado o regime alemão em sua breve experiência democrática 
(1919-1933). 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
As origens do nazismo (cont.) 
Aos ingredientes do fascismo, os nazistas juntaram o racismo – 
especialmente contra judeus, eslavos e ciganos. Também aprofundaram o 
autoritarismo fascista, ao resumiremo Estado a um chefe único, o Führer: 
alicerçava-se um Estado totalitário, que só encontraria congênere na URSS 
stalinista. 
 Os nazistas eram, simultaneamente, antimarxistas e anticapitalistas: o 
marxismo, para os nazistas, seria obra dos judeus, e o capitalismo, por sua vez, 
era desigual e individualista. Ademais, defendiam um sistema de partido único, 
hierarquizado e presente em todas as etapas da vida do indivíduo – o indivíduo 
não existia fora do partido –, e pregavam um nacionalismo levado às últimas 
consequências. 
 No pós-I Guerra Mundial, o nacionalismo foi definitivamente incorporado 
pela direita política. Desde o final do século XIX que as organizações de massa 
do nacionalismo alemão desviaram-se do liberalismo herdado de 1848 para uma 
postura militarista, agressiva e antissemita. No Entre-Guerras, ganhava ainda 
mais força um novo movimento político baseado no chauvinismo, na xenofobia 
e na idealização da expansão nacional, na conquista e no próprio ato da guerra. 
Tal nacionalismo passou a atrair as classes médias frustradas, os antiliberais e 
os antissocialistas. 
 
Uma vez no poder, alcançado por meio de eleições democráticas, os 
nazistas iniciaram profundas reformas: instituíram um modelo de partido único, 
dominaram o Judiciário, estabeleceram a censura, promoveram expurgos no 
serviço público e nas universidades e criaram os campos de concentração, para 
onde eram enviados os elementos indesejados. Também conseguiram o rápido 
rearmamento do Exército. Ao lado dessas ações práticas, os nazistas agiram 
com muita força no campo simbólico. Uma palavra resume esse processo: 
propaganda. 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) 
 
Episódio marcante do Entre-Guerras foi a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). 
O conflito foi caracterizado pelo confronto entre as grandes correntes 
ideológicas da época e nele lutaram voluntários de diversas partes do mundo, 
inclusive do Brasil. 
 
 
Após a queda da ditadura de Primo de Rivera, em 1930, o rei da Espanha 
Afonso XII tentou restabelecer um governo constitucional. Entretanto, as 
eleições de 1931 acabaram com as pretensões monarquistas: o rei foi exilado e 
a República proclamada. Apesar das resistências, a República espanhola 
mostrou-se democrática e, em 1936, ganhou as eleições a Frente Popular, 
composta por anarquistas, comunistas, socialistas e radicais. O novo governo 
apoiou as reivindicações dos movimentos operários e camponeses, e os 
trabalhadores começaram a ocupar as fábricas e a invadir terras. 
 O assassinato do líder monarquista Calvo Sotelo por forças anarquistas, 
em 13 de julho de 1936, serviu de justificativa para o levante militar liderado pelo 
general Francisco Franco, a partir do Marrocos espanhol. Para fazer frente à 
revolta do Exército, o governo republicano recorreu a milícias, armando os 
populares. Em dois meses, as tropas de Franco já dominavam metade do 
território espanhol. Entretanto, a guerra se prolongaria por três anos, 
constituindo-se em um confronto sangrento e generalizado. 
Enquanto os nacionalistas, liderados por Franco, tinham apoio de setores 
conservadores, como o Exército e parte do clero católico, e das províncias 
ocidentais do país, os republicanos contavam com a Força Aérea e a Marinha, 
com os trabalhadores, a pequena burguesia radical e parte do campesinato. 
Contavam os republicanos também com as regiões industriais que ocupavam o 
triângulo Madri-Valência-Barcelona. Bascos e catalães apoiavam a República. 
 Em 1938, os franquistas conseguiram isolar a Catalunha de Madri. 
Barcelona capitulou em janeiro de 1939 e Madri em março do mesmo ano. Em 
1º de abril de 1939, acabou a sangrenta guerra que dividira a Espanha, deixara 
cerca de 500.000 mortos e 450.000 exilados. Estabeleceu-se um governo de 
índole fascista, liderado por Franco, e que perduraria por quase quatro décadas. 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) 
 Economicamente, a guerra civil deixou a Espanha em uma situação 
catastrófica. A renda per capita só recuperaria os níveis de 1936 em meados da 
década de 1950. A malha industrial espanhola foi destruída, e o país voltou à 
condição de economia eminentemente agrária. A infraestrutura foi muito 
danificada, a Espanha gastou todas as suas reservas e a dívida externa cresceu. 
 Com o fim da guerra, o governo de Franco instaurou uma ditadura de 
direita, simpática aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Esse regime se 
manteria até a morte de Franco, em 1975, quando então a monarquia seria 
restabelecida, e o país iniciaria um processo de redemocratização. 
No que concerne às relações internacionais, a Guerra Civil Espanhola foi um 
conflito que repercutiu muito além da Península Ibérica: com a participação 
das Potências – Alemanha e Itália apoiando Franco e URSS auxiliando os 
republicanos – e dos grupos de voluntários de diversas nacionalidades, o 
conflito adquiriu um caráter internacional e extremamente ideológico. 
 
 Também sobre o Entre-Guerras, assista ao filme Tempos Modernos, de 
Charles Chaplin, um clássico que ilustra o impacto da Segunda Revolução 
Industrial sobre a vida humana. Trata-se do último filme mudo de Chaplin, que 
focaliza a vida urbana nos Estados Unidos nos anos 30, imediatamente após a 
crise de 1929, quando a depressão econômica atingiu toda a sociedade norte-
americana, levando grande parte da população ao desemprego e à fome. 
 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) (cont.) 
A guerra na Espanha foi o prelúdio da nuvem negra que se abateria sobre 
a Europa e o mundo a partir de 1939. Nela as ideologias se confrontaram, os 
regimes autoritários puderam mostrar seu poder e testar sua máquina de guerra, 
e as democracias deixaram claro o misto de desinteresse e impotência para lidar 
com temas que envolviam o risco de abalo da “segurança coletiva”. 
Toda a extensão da tragédia causada pela Guerra Civil Espanhola pode ser 
constatada pela reportagem do The Times, de 28 de abril de 1937, da qual 
extraímos o seguinte trecho: 
 
“Guernica, a mais antiga cidade dos bascos, centro de suas tradições culturais, 
foi completamente destruída ontem à tarde por um reide aéreo dos revoltosos. 
O bombardeio dessa cidade aberta, muito atrás das linhas de combate, durou 
três horas e quinze minutos, durante as quais uma poderosa esquadra aérea 
alemã, composta de bombardeiros Junker e Heinkel, e caças Heinkel, não 
parava de despejar sobre a cidade bombas de1000 libras e, calcula-se, mais 
de 3000 projéteis incendiários de 2 libras, de lumínio. Ao mesmo tempo, os 
caças mergulhavam sobre a cidade para metralhar a parte da população civil 
refugiada nos campos(...).” 
 
A Guerra Civil Espanhola é o pano de fundo do filme Por Quem os Sinos 
Dobram, de Sam Wood (EUA, 1943, 159 min), estrelado por Ingrid Bergman e 
Gary Cooper. 
O Entre-Guerras e a Nova Ordem Internacional 
O III Reich e os antecedentes da II Guerra Mundial 
Nos três anos que se seguiram à nomeação de Adolf Hitler Chanceler da 
Alemanha, em 30 de janeiro de 1933, o governo nacional-socialista promoveu 
transformações que rapidamente reconduziram o país ao seleto clube das 
Grandes Potências. Em 1936, o III Reich, como ficou conhecida a Alemanha 
nazista, já era uma das maiores economias do mundo: havia reduzido o 
desemprego em 40% já em 1934; inúmeras obras públicas estavam sendo feitas, 
e a indústria retomara sua força, de modo que o país já se mostrava 
internacionalmente competitivo. Como aconteceu na União Soviética, é inegável 
que a opção totalitária reergueuo país. 
 Recuperada do ponto de vista doméstico, a Alemanha se lançaria em uma 
nova empreitada de política externa. Como sempre prometera, Hitler desejava 
conduzir os alemães à retomada do orgulho nacional, por meio do repúdio às 
imposições estabelecidas pelo Tratado de Versalhes e da busca do “espaço vital” 
a leste, indispensável para a sobrevivência do III Reich. Com ações calculadas 
que jogavam com a capacidade de reação das Grandes Potências, a Alemanha 
foi, aos poucos, derrubando cada imposição do acordo de paz de 1919 e 
anexando novos territórios ao Reich. 
 Grã-Bretanha e França, ainda traumatizadas pelos efeitos da Primeira 
Guerra, evitaram agir para impedir o avanço da política externa nazista. Era a 
política do apaziguamento, da paz a qualquer preço, que se fez ao custo da 
entrega da Áustria e da Tchecoslováquia para a Alemanha. Havia também a 
expectativa, por parte das democracias europeias, de que, em seu avanço para 
o leste, logo o III Reich se chocaria com a URSS. Assim, Grã-Bretanha e França 
contavam com o conflito entre os dois grandes Estados totalitários, o que seria 
para elas demasiadamente interessante. 
Vide “A Política Exterior do III Reich: Algumas Reflexões”, de Joanisval Brito 
Gonçalves. In: Albene Menezes e Mercedes Kothe (orgs.). Brasil e Alemanha, 
1827-1997, Perspectivas Históricas, 170 anos da assinatura do 1º Tratado de 
Comércio e Navegação. Brasília: Thesaurus, 1997. 
 
Entretanto, Londres e Paris não consideraram o improvável: em agosto 
de 1939, Alemanha e URSS assinaram um tratado de não agressão. Para 
desespero das democracias ocidentais, os dois inimigos figadais aliavam-se. 
Estava pronto o quadro que levaria à Segunda Guerra Mundial. 
Parabéns! Você chegou ao final do Módulo II de estudo do curso Relações 
Internacionais - Teoria e História. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
MÓDULO III - EVOLUÇÃO HISTÓRICA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS - 
DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL AO SÉCULO XXI 
 
Unidade 1 - A Segunda Guerra Mundial 
Unidade 2 - O Sistema Internacional Pós-1945 
Unidade 3 - O Fim da Guerra Fria e a Nova Ordem da Década de 1990 
Unidade 4 - O Sistema Internacional no Século XXI: Perspectivas 
 
 
Unidade 1 - A Segunda Guerra Mundial 
 
Ao final desta Unidade, o aluno deverá estar apto a: 
- discorrer sobre os principais antecedentes da II Guerra Mundial; 
- indicar os principais fatos que marcaram cada uma das fases do conflito. 
 
 
 
Esta Unidade é dedicada ao estudo da II Guerra Mundial, seus antecedentes 
e fases. A abordagem desse conteúdo lhe apresentará as causas que levaram 
à Segunda Guerra Mundial e os relatos de como se desenrolou a guerra em 
seus momentos principais. Siga em frente! 
 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
A II Guerra Mundial estendeu-se de 1939 a 1945, alcançou todos os 
continentes habitados e envolveu as Grandes Potências e seus aliados em um 
confronto sem precedentes, com um saldo de mais de 80 milhões de mortos e 
prejuízos econômicos incalculáveis. Seu legado produziria uma nova 
configuração de poder mundial nas décadas que se seguiriam, em um 
significativo conjunto de transformações no equilíbrio de poder mundial, que 
alcançaria o século XXI. 
Ao contrário da Grande Guerra, a II Guerra Mundial foi, de fato, travada 
entre praticamente todos os povos e culturas do planeta, ampliando 
expressivamente o raio de ação das relações internacionais contemporâneas. 
Qualitativamente, a guerra colocaria um fim à supremacia europeia e ao 
eurocentrismo no sistema internacional, retiraria da França e da Grã-Bretanha a 
condição de Potências hegemônicas e deixaria a Alemanha, o Japão e a Itália 
sem os espaços internacionais conquistados à força no Entre-Guerras. Ademais, 
o processo de expansão e construção do mundo liberal seria substituído por uma 
nova ordem internacional, bipolarizada, com a emergência dos EUA e da URSS. 
 A II Guerra Mundial pode ser dividida em duas fases. Na primeira, de1939 
a 1941, os países europeus ainda tentam manter a condução dos destinos das 
relações internacionais, e a guerra é eminentemente europeia, como o fora a I 
Guerra Mundial. Entretanto, com a segunda fase, que vai de 1941 até 1945, o 
conflito torna-se mundializado, com a participação de novos Atores, 
particularmente os EUA, URSS e o Japão, e se prenuncia uma nova ordem 
internacional. 
 
ANTECEDENTES: 
A Chegada de Hitler ao Poder na Alemanha 
A ascensão de Adolf Hitler ao governo alemão, em 1933, significou uma 
nova concepção de relações internacionais, marcada pelo nacionalismo ardente 
que rejeitava tanto a igualdade dos povos como a dos indivíduos, desprezava os 
tratados e buscava o expansionismo por meio do rearmamento, anexação de 
territórios onde houvesse alemães e aquisição do espaço vital para a construção 
da Grande Alemanha –Gross Deutschland. 
 Em 1934, as ditaduras fascistas dominavam a Europa Central e Oriental 
e, em 1939, a democracia era exceção minoritária no continente. Hitler movia-se 
para dominar o Leste, e Mussolini, o Adriático e o Mediterrâneo, em ações que 
tinham a indiferença ou mesmo o consentimento das Potências ocidentais, 
particularmente Grã-Bretanha e França. 
 À medida que avançava a década de 1930, aumentava a descrença na 
Sociedade das Nações. A França passou a buscar alianças a Leste, mirando a 
Polônia e a Tchecoslováquia. A Itália e a Alemanha, os dois grandes Estados 
fascistas da Europa, aproximaram-se. A Grã-Bretanha buscava fugir de 
engajamentos militares na Europa, considerando justa a reivindicação alemã por 
mudanças ao mesmo tempo em que investia no reforço da coesão no âmbito do 
Commonwealth e da zona esterlina. A opinião inglesa endossou o pensamento 
de Keynes de reduzir as reparações alemãs, porque prejudicavam as 
exportações britânicas. 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
EUA e URSS 
 A estratégia hitleriana de dominação do Leste forçou a URSS a aproximar-
se do Ocidente, fazer alianças e aderir à Sociedade das Nações em 1934. 
Todavia, os objetivos soviéticos de política exterior apresentavam uma 
dualidade: formar uma frente antinacional-socialista ou atuar como o fiel da 
balança entre os “dois campos burgueses do capitalismo”. O fato foi que os 
ocidentais se recusaram a fechar um pacto, para a decepção dos soviéticos, e 
acabaram deixando soltos Hitler na Europa, Mussolini na Etiópia e o Japão na 
China. A partir daí,a URSS reforçou seu isolacionismo político, comercial e 
financeiro, renunciando ao ideal do internacionalismo proletário. E, 
surpreendentemente, aproximou-se da Alemanha, que, durante certo tempo, 
também fora isolada pelas Potências europeias. Essa associação entre as duas 
Grandes Potências totalitárias da Europa, Alemanha e URSS, que culminaria no 
pacto de não agressão entre os dois países, em 23 de agosto de 1939, gerou 
preocupação nos países do continente. 
 Apesar de ampliarem sua presença na economia mundial, sob a ótica 
política, os EUA adotaram o isolacionismo, buscando não interferir nas relações 
internacionais do Velho Mundo, particularmente na política europeia. Ademais, 
o projeto político-comercial pan-americano dos EUA os mantinha longe da 
Europa. De fato, mesmo após o início da II Guerra Mundial, a opinião pública 
estadunidense permaneceu disposta a não se envolver no conflito, pois 
encontrava-se dividida sobre que lado apoiar. Registre-se que o Presidente 
Franklin Delano Roosevelt se reelegeu com um discurso de que os EUA não 
participariam da guerra na Europa. 
 
 As relações entre as PotênciasEuropeias 
 1934 foi o ano do rearmamento alemão: após se retirar da Sociedade das 
Nações no ano anterior, Hitler rompeu unilateralmente com os acordos de 
Versalhes e Locarno, assinou um pacto de não agressão com a Polônia (aliada 
tradicional da França) e encontrou-se com Mussolini para evitar choques de 
interesses na área do Rio Danúbio. A França, em reação, aproximou-se da 
URSS e propôs, em vão, um pacto geral sobre o Leste europeu. A Itália, em 
resposta, propôs um Pacto dos Quatro Grandes (Grã-Bretanha, França, 
Alemanha e a própria Itália), que havia sido tentado no âmbito da Sociedade das 
Nações, com o fim de rever tratados e liderar a Europa, o que não foi aceito pelos 
países menores. 
Na Conferência de Stresa, em abril de 1935, Itália, França e Grã-Bretanha 
recusaram a denúncia unilateral alemã dos tratados. A Grã-Bretanha, todavia, 
celebrou um acordo naval em junho do mesmo ano com Berlim, considerado 
uma traição política pelos franceses, italianos e até pelos soviéticos. Em outubro, 
a Itália invadiu a Etiópia, membro da Sociedade das Nações, e não recebeu 
qualquer condenação ou sanção. A segurança coletiva europeia desmoronava. 
O clima esquentou em 1936, com a Guerra Civil Espanhola. Era o primeiro 
experimento de uma guerra civil verdadeiramente europeia, uma vez que nela 
se confrontaram militarmente as correntes ideológicas de direita e esquerda, 
com fornecimento de armas de ambos os lados (da URSS para os republicanos 
e da Itália e da Alemanha para os franquistas). Fenômeno semelhante só voltaria 
a ser visto na época da Guerra Fria. 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
 A Política Exterior do III Reich 
 Após a consolidação do regime nacional-socialista no campo doméstico e 
a recuperação econômica da Alemanha, Hitler prosseguiu com seu projeto de 
hegemonia alemã sobre a Europa centro-oriental. Em 1938, com base no 
princípio de que todos os povos alemães deveriam estar unidos sob um único 
governo, o III Reichanexou a Áustria e parte da Tchecoslováquia – esta última 
com o consentimento formal da Grã-Bretanha, França e Itália, na Conferência de 
Munique. Hungria e Romênia aliaram-se à Alemanha, que já havia estabelecido 
o Eixo Roma-Berlim (ao qual Tóquio aderiria pouco depois). Finalmente, em 
1939, a Alemanha se aproximou da URSS, com Berlim e Moscou negociando a 
partilha da Polônia. 
 Os regimes democráticos só buscaram unidade de ação contra Hitler após 
a aliança com os soviéticos e a invasão da Polônia, em 1º de setembro de 1939. 
De fato, franceses e britânicos foram surpreendidos pelo pacto germano-
soviético e, percebendo que não seria mais possível – pelo menos naquele 
momento – o tão esperado confronto entre os dois Estados totalitários, tiveram 
que deixar de lado a política do apaziguamento. Logo depois de divulgado o 
acordo germano-soviético, Grã-Bretanha e França ofereceram garantias para a 
Polônia, e os EUA solicitaram a Hitler que, por dez anos, não atacasse 29 
nações, cuja lista lhe fizeram chegar. 
 Às vésperas da guerra, pareciam evidentes os objetivos da política 
externa alemã: 
· reduzir a influência da França no continente; 
· buscar a neutralidade da Grã-Bretanha; 
· instaurar um império alemão a Leste, incluindo o território soviético. 
 
A partir da improvável e surpreendente aliança com os soviéticos, a 
Alemanha pôde desencadear a invasão da Polônia. A reação de britânicos e 
franceses foi tardia. Os soviéticos logo atacariam os poloneses pelo leste, 
incorporariam os Estados Bálticos a seu território e, em novembro de 1939, a 
Finlândia seria atacada. Começava a II Guerra Mundial. 
 
Inúmeros filmes retratam o nazismo e a Segunda Guerra Mundial. Vejamos 
alguns: 
O Grande Ditador, de Charles Chaplin. Em seu primeiro filme falado, Chaplin 
interpreta dois papéis opostos, o de um barbeiro judeu que enfrenta tropas de 
choque e perseguição religiosa e o do Grande Ditador Hynkel (sátira a Adolf 
Hitler). O clímax desse clássico é o célebre discurso final, um libelo ao triunfo 
da razão sobre o militarismo. 
A Lista de Schindler. Esse filme do diretor Steven Spielberg conta a história 
real de Oskar Schindler (Liam Neeson), empresário alemão que salvou 
centenas de judeus dos campos da morte nazistas. 
Pearl Harbor. Filme que tem como fio condutor os eventos que fizeram com 
que os Estados Unidos entrassem na 2.ª Guerra Mundial, logo após o ataque 
japonês a Pearl Harbor. 
O Pianista. Essa bela obra do diretor Roman Polanski mostra o surgimento do 
Gueto de Varsóvia, quando os alemães construíram muros para encerrar os 
judeus em algumas áreas. 
Sobre a guerra no Pacífico, vale a pena assistir aos clássicos Tora, Tora, Tora 
e Midway. 
 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
A GUERRA 
 A Primeira Fase: 1939-1941 
Após a invasão da Polônia, em 01/09/1939, e a declaração de guerra à 
Alemanha por Grã-Bretanha e França, o confronto ateve-se aofront oriental, com 
a queda da Polônia em algumas semanas e os avanços soviéticos sobre os 
países bálticos e a Finlândia, e à investida alemã contra a Noruega, em busca 
das reservas de ferro e carvão, momento em que houve o enfrentamento entre 
alemães e uma Força Expedicionária Britânica, com a derrota desta última em 
Narvik. Fora isso, a guerra no fronte ocidental ainda não começara. 
 Assim, os primeiros passos da guerra foram lentos. Cerca de dez milhões 
de soldados esperavam, na estratégia da guerra estática, os primeiros 
movimentos do inimigo. Os líderes políticos franceses e britânicos decidiram 
retardar ao máximo as ofensivas. Até maio de 1940, quando os alemães 
iniciaram a grande ofensiva militar sobre a França, não tinha havido praticamente 
embates entre as Grandes Potências no fronte ocidental. 
 As forças mobilizadas pareciam favoráveis aos alemães. Apesar da 
manifesta superioridade, no mar, de franceses e britânicos, os alemães 
possuíam, em setembro de 1939, 3.228 aviões de guerra contra os 1.377 da 
Grã-Bretanha e os 1.254 da França. Em terra, os canhões e tanques alemães 
também eram numericamente superiores. Construída, ainda entre 1930 e 1935, 
a linha Maginot, no nordeste do país, era o símbolo da insegurança francesa 
(SARAIVA, 1997). Entretanto, em termos econômicos, franceses e britânicos 
viam-se superiores, particularmente graças a seus vastos impérios coloniais. 
 Nos primeiros meses da guerra, Grã-Bretanha e França planejavam 
vencer a Alemanha pelos bloqueios em terra e pelo cerceamento dos mares. 
Acreditavam que o isolamento levaria à ruína econômica do III Reich, uma vez 
que toda a economia alemã voltava-se para a guerra e já estava ameaçada pela 
insuficiência de matérias-primas. 
 Reforçava a percepção de supremacia da Grã-Bretanha e da França o 
fato de também contarem com forças extra-Europa, como a venda de armas 
norte-americanas no sistema cash-and-carry (pagamento à vista) no Atlântico, a 
partir de novembro de 1939, ao passo que Hitler estava reduzido aos seus 
próprios recursos e, no máximo, aos recursos continentais. 
 Hitler propôs a paz em 6 de outubro de 1939. Grã-Bretanha e França não 
aceitaram, pois só lhes interessava a paz se a influência franco-britânica fosse 
retomada sobre todo o continente europeu. Por outro lado, para os franceses, a 
guerra era a oportunidade para arruinar definitivamente a Alemanha. Assim, 
diante da reação estática de Londres e Paris e da hesitação da França, que 
testemunhava amplos debates internos entre a anglofilia e a anglofobia, Berlim 
preparou-se para a invasão da França em 10 de maio de 1940. 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
A Queda da França 
Em pouco mais de trinta dias, após o início das operações contraa 
França, Paris já era dos alemães. O êxodo de 8 milhões de franceses enterrava 
o moral francês. Em manobra de pinça, e por meio da Blitzkrieg, a guerra-
relâmpago, as forças alemãs dividiram ao meio as tropas francesas e as 
empurraram, juntamente com a Força Expedicionária Britânica, para a costa do 
Mar do Norte, no que culminou na maior operação de retirada da história, quando 
centenas de embarcações foram envolvidas no resgate de soldados britânicos e 
franceses em Dunquerque, numa fuga desesperada para deixar o continente e 
escapar dos alemães. Dunquerque foi a maior humilhação por que passaram 
britânicos e franceses na guerra. 
De fato, o divórcio intelectual e estratégico franco-britânico concretizou-se 
com a evacuação das tropas aliadas, em especial da Força Expedicionária 
Britânica, em Dunquerque, no nordeste francês. Dois dias antes de se iniciar a 
evacuação de Dunquerque, em 24 de maio 1940, Hitler ordenou a contenção do 
avanço das vanguardas em direção à cidade. Boulogne, Calais, Dunquerque e 
Ostende eram os quatro portos no lado oposto da parte estreita da Mancha 
(cabeças-de-ponte para os ingleses no continente europeu) que, em 23 de maio, 
ainda não haviam sido capturados pelos alemães. Acreditava-se, nesse 
momento, que a grande tarefa da Luftwaffe, a Força Aérea Alemã, estava 
começando: o aniquilamento dos ingleses no norte da França pelo ar. Todavia, 
a concretização da evacuação provou para os ingleses a falta de eficácia da 
Luftwaffe ou, como acreditam alguns historiadores, que Hitler não estava 
disposto a aniquilar os ingleses, pois esperava que se tornassem aliados do 
Reich. 
Winston Churchill, que se tornara primeiro-ministro após o início da 
guerra, quis evitar a qualquer custo que os navios franceses se rendessem aos 
alemães nos portos e acabou por afundar alguns deles, o que agravou a 
anglofobia francesa. Ao final, a libertação de 340 mil soldados britânicos e 
franceses seria fundamental para os andamentos posteriores da guerra, tendo 
particular importância política para o duelo entre Churchill e Hitler. 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
 A Queda da França (cont.) 
Em 22 de junho de 1940, a França capitulou e passou a ser o único país 
vencido a concluir um armistício. Bélgica e Holanda optaram pela rendição 
militar, e seus governos foram transferidos para Londres. Um governo francês 
pró-alemão se estabeleceu na cidade de Vichy, para onde fugira o parlamento. 
Marechal Pétain, herói da I Guerra Mundial, tornou-se o governante da França 
ocupada. 
Essas primeiras vitórias do Eixo e dos soviéticos no início da II Guerra 
Mundial podem ser vistas no Mapa 24 (em verde, as conquistas alemãs nos anos 
de 1939 a 1941; em amarelo, o que restou da França – a França de Vichy). 
Mapa 24: A Primeira Fase da II Guerra Mundial 
As Vitórias Alemãs e Soviéticas na Europa 
 
Fonte:http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/guerre39_45/gdeux11
.html 
A batalha da Grã-Bretanha (Operação Leão-do-Mar) iniciou-se em 13 de 
outubro de 1940. A Luftwaffe iniciou os bombardeiros sobre Londres. Todavia, 
foi testemunhada, naquelas semanas, uma das maiores ondas patrióticas da 
história britânica, que, somada ao “espírito de Dunquerque”, fez com que Hitler, 
ao final do mês, encerrasse a batalha para poupar aeronaves para o seu principal 
objetivo: a destruição da URSS. É importante observar que o general Charles De 
Gaulle e parte da elite moderada francesa migraram para Londres, onde 
estabeleceram o governo francês no exílio, ou “França Livre”. 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
A Queda da França (cont.) 
A derrota francesa significou uma ruptura da velha ordem internacional do 
século XIX. O equilíbrio de poder que havia moldado a sociedade europeia, com 
valores e regras de conduta comuns, ruiu definitivamente. 
 No Ocidente, a Itália e a Alemanha julgavam-se capazes de formular uma 
nova ordem internacional. Ademais, a instabilidade europeia ocasionada pela 
guerra criou o ambiente para as independências afro-asiáticas nas décadas 
seguintes e para que Stalin começasse a dar a sua contribuição para a 
modificação do mapa político europeu: agiu sobre os países bálticos, sobre a 
Grécia e comandou várias anexações na Romênia e na Bessarábia 
(transformada em Moldávia). 
 No Oriente, a política japonesa de substituição das potências ocidentais 
na Ásia – “Ásia aos asiáticos” – levou aos privilégios econômicos sobre portos 
aéreos e marítimos. A ocupação alemã da França deixara o Japão livre no 
sudeste asiático. O Japão acreditava no nascimento de um novo império, não 
mais contra a URSS ou a China, mas a favor de prosperidade econômica, que, 
não obstante a derrota ao final da guerra, pode ser sentida até os dias de hoje. 
 Veja a interessante animação sobre a Segunda Guerra Mundial dando 
dois cliques na imagem ao lado. Clique em qualquer lugar do mapa e 
acompanhem a movimentação das tropas alemãs e, depois, a dos aliados. 
ATENÇÃO: após assistir à animação, clique a tecla ESC para retornar ao curso! 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
A Segunda Fase: 1941-1945 
Em 1941, desapareceu o mundo que o século XIX construiu e o período 
de transição iniciado na I Guerra Mundial (1914-1918). Havia um vazio de poder 
no mundo com a França invadida e a Grã-Bretanha falida. A crise do mercado 
financeiro comandado por Londres e, portanto, o fim da zona esterlina fizeram 
ruir a ordem liberal criada pelos ingleses, que até precisaram começar a usar 
reservas monetárias para pagar pelos produtos norte-americanos (cash-and-
carry), o que começou a preocupar os EUA. 
 As práticas comerciais começaram a mudar e a ter um novo articulador, 
quando, a partir de março de 1940, os EUA iniciaram o sistema do lend-lease 
(empréstimo e arrendamento) com os países que apresentassem interesse à 
defesa vital dos EUA (SARAIVA, 1997). Plantavam-se as sementes do que viria 
a ser o Plano Marshall e de um Sistema Internacional sob a égide de uma 
Superpotência, novo conceito em relações internacionais. 
Também em 1941, dois eventos importantes provocariam nova mudança 
no equilíbrio de forças da guerra e da própria ordem internacional: a invasão da 
URSS conduzida pelos alemães e o ataque japonês à base estadunidense de 
Pearl Harbor, que provocaria a entrada dos EUA no conflito. E o ano seguinte 
começaria com uma fase em que a guerra se tornara global (vide o Mapa 25 – 
em vermelho, a zona de dominação alemã; em rosa, a zona de dominação 
japonesa, em azul, a zona de guerra marítima; e em verde os aliados em guerra 
contra a Alemanha e o Japão). 
 
 
 
 
 
 
Mapa 25: A II Guerra Mundial – O Mundo em 1942 
 
Fonte:http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/guerre39_45/gdeux15
.html 
 
Em 22 de junho de 1941, tropas alemãs deram início à Operação 
Barbarossa, avançando sobre o território da URSS: a necessidade alemã de 
espaço vital chocava-se com a necessidade soviética de espaço vital. A 
operação desencadeava-se em três grandes frentes: em direção a Leningrado, 
Moscou e às reservas de petróleo da Ucrânia. A máquina de guerra alemã 
encontrou pouca resistência. De fato, em muitas partes da URSS, os alemães 
que chegavam eram vistos como liberdadores daqueles povos do jugo de 
Moscou e do totalitarismo stalinista. Logo essa percepção mudaria, graças à 
violência dos alemães nos territórios ocupados, motivada sobretudo pelo 
discurso ideológico nazista de destruição ou escravização daqueles 
considerados “inferiores” aos arianos. 
Stalin foi pego de surpresa com a invasão da URSS. O líder georgiano 
não acreditava que seu país seria atacado pelos alemães, apesar dosrelatórios 
da inteligência soviética que afirmavam ser o ataque iminente. O Exército 
Vermelho, por sua vez, estava em situação de extrema fragilidade, 
particularmente em virtude dos expurgos stalinistas da década de 1930, que 
desarticularam o Estado-Maior e aniquilaram o melhor que havia da oficialidade. 
Demoraria algum tempo para as forças soviéticas se recomporem. 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
A Segunda Fase: 1941-1945 
Com a invasão, os EUA apoiaram a resistência soviética, e a URSS foi 
incluída na aliança ocidental já em outubro de 1941. Logo grande quantidade de 
recursos, de alimentos a armamentos, seriam enviados em socorro aos 
soviéticos. Os aliados sabiam que, se a URSS caísse, a hegemonia alemã no 
velho mundo seria incontestável. 
 A ajuda ocidental funcionou. Esta, associada ao ímpeto e à determinação 
do povo soviético e ao sacrifício de mais de 20 milhões de vidas, contribuiriam 
para a resistência e a contraofensiva da URSS. Em território russo, Hitler perdeu, 
pela primeira vez, uma Blitzkrieg, mais devido ao despreparo das forças alemãs 
diante das péssimas condições das estradas soviéticas e do terrível inverno 
russo do que em virtude da capacidade de reação de Stalin. 
 Outro significativo ponto de inflexão na II Guerra Mundial deu-se com o 
ataque japonês à base norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de 
dezembro de 1941. Dentro dos planos japoneses de projeção de poder no 
continente asiático e no Pacífico, o projeto da Grande Ásia, o choque com os 
interesses estadunidenses era apenas uma questão de tempo. A operação 
contra Pearl Harbour tinha por objetivo neutralizar os EUA no Pacífico, passo 
importante para a ulterior anexação das Filipinas, da Malásia e de Hong Kong. 
Pearl Harbor, considerado um ataque pérfido do Japão contra um país 
que até então se dizia neutro na II Guerra Mundial, chocou e comoveu a opinião 
pública dos EUA, conduziu o país para a II Guerra Mundial, por meio da 
declaração formal de guerra anunciada pelo Presidente Roosevelt a 8 de 
dezembro de 1941, e acarretou a união das duas guerras paralelas, a da Ásia e 
a da Europa, numa só. O gigante estadunidense fora despertado e agora 
envidaria todos os esforços para por fim às pretensões das ditaduras fascistas 
de dominar o mundo. A nova política da Grande Potência do continente 
americano, rompido o isolacionismo, tinha uma característica peculiar: raio 
planetário. Os EUA estavam novamente em guerra. 
 No período de maio de 1942 a meados de 1943, a guerra caracterizou-se 
por movimentos marcantes. A contenção do avanço japonês pelos aliados, o 
desembarque das tropas anglo-americanas na Argélia e no Marrocos, 
neutralizando a expansão do Reich no norte da África, e a capitulação das tropas 
alemãs em Stalingrado anunciaram a reação aliada e a mudança do curso da 
guerra a seu favor. 
 Em 1944, o rolo compressor dos soviéticos forçou o recuo gradual das 
tropas alemãs na Ucrânia, na Bielo-Rússia e na Polônia. Enquanto Tóquio perdia 
seus satélites, Moscou aumentava os seus, por um erro estratégico das forças 
aliadas: desde janeiro de 1943, Stalin denunciava o abandono do flanco oriental, 
o que, no final das contas, tornou a luta contra o Eixo uma forma de sobrevivência 
do modelo planificado e socialista de Estado. Isso lhe custou a vida de vinte 
milhões de soviéticos, quase dois quintos do total da guerra. 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
O Dia D 
Se os soviéticos avançavam no front oriental, a abertura de um 
frontocidental era uma exigência de Stalin e uma necessidade na estratégia 
aliada. O desembarque no continente já começara no sul da Itália, mas se 
esperava realmente por uma invasão no norte da França que perfuraria a 
inexpugnável “fortaleza do Atlântico” e estabeleceria as cabeças de ponte para 
a reconquista da Europa Ocidental e o avanço de estadunidenses, britânicos e 
seus aliados rumo à Alemanha. 
No mapa é possível ver as linhas dos fronts de 1942 a 1945. 
Mapa 26: A Guerra na Europa de 1942 a 1945 
 
Fonte:http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/guerre39_45/gdeux23
.html 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
O Dia D (cont.) 
O “Dia D” finalmente ocorreu em 6 de junho de 1944. Na maior operação 
militar aeronaval da História, os aliados começaram a invasão do continente a 
partir da Normandia, região da França atlântica. Naquela data, 155 mil homens 
dos exércitos dos EUA, Grã-Bretanha, França e Canadá, muitos dos quais 
haviam sido evacuados de Dunquerque três anos antes, lançaram-se nas praias 
da Normandia, ocupando 80km da costa ao norte do país. A invasão deu início 
à libertação europeia do domínio nacional-socialista. Transportados por uma 
frota de 14.200 barcos, protegida por 600 navios e milhares de aviões, as tropas 
aliadas asseguraram uma sólida cabeça de praia no litoral francês (vide Mapa 
27) e dali partiram para expulsar os alemães de Paris e, em seguida, marchar 
em direção à fronteira da Alemanha. Era o primórdio do colapso final do IIIReich, 
o império que, segundo a propaganda nazista, deveria durar mil anos. 
Mapa 27: O “Dia D” – 6 de junho de 1944 
O Desembarque Aliado na Normandia 
 
Fonte:http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/guerre39_45/gdeux25
.html 
Simultaneamente ao desembarque do lado ocidental, a URSS, no Leste 
da Europa, lançou uma poderosa ofensiva contra os alemães. Onze meses 
depois, a 8 de maio de 1945, a Alemanha de Hitler rendia-se. Hitler suicidara-se 
em 30 de abril de 1945, e com ele morriam as ideias megalômanas de 
dominação da Europa e da prevalência da raça ariana. Acabava a guerra na 
Europa. 
 O Japão capitulou quatro meses depois. Ao final de agosto de 1945, após 
as bombas atômicas norte-americanas terem arrasado Hiroshima e Nagasaki, 
em 6 e 9 de agosto respectivamente, todas as ações militares foram suspensas. 
A URSS declarou guerra ao Império Japonês em 8 de agosto de 1945. Mas não 
havia mais contra quem lutar. O país já se dispusera a negociar a rendição com 
os norte-americanos. Pela primeira vez na história da milenar monarquia 
japonesa, o Imperador falou para o povo, conclamando-o à rendição 
incondicional. Terminava a maior e pior guerra que a humanidade jamais travara. 
 
Há, ainda, alguns clássicos imperdíveis, como O mais longo dos dias, de 
Benhard Wicki, que trata do Dia “D”, o desembarque aliado de 6 de junho de 
1944; e Uma Ponte Longe Demais, do diretor Richard Attenborough, sobre a 
Operação Market Garden, um plano ousado para obter um rápido final para a 
II Guerra por meio da invasão da Alemanha e destruição das indústrias de 
guerra do III Reich – esse ambicioso plano mostrou-se um dos grandes erros 
da guerra e causou mais baixas aos Aliados do que toda a invasão da 
Normandia. 
 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
O imediato pós-guerra: 1945-1947 
A destruição atômica de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, simboliza o 
ocaso da velha ordem internacional do século XIX, o surgimento de um vácuo 
de poder na Europa, o fim dos sonhos de uma terceira Grande Potência 
(Alemanha) para substituir o antigo equilíbrio anglo-francês, o fim da condução 
europeia das relações internacionais e o surgimento de duas Superpotências 
com raios políticos de alcance planetário, EUA e URSS (SARAIVA, 1997). 
 Antes da definição da polaridade EUA-URSS, que só fica clara a partir de 
1947, houve uma tentativa de concerto anglo-americano, em março de 1943, 
momento em que já se procurava por uma nova era das relações internacionais 
e em que foram discutidos, em Washington, o futuro da Alemanha e as 
reivindicações territoriais dos soviéticos. Na ocasião, Roosevelt propôs umdiretório de quatro: EUA, Grã-Bretanha, URSS e China, ideia que lembrava o 
Concerto Europeu do século XIX e as ideias do Congresso de Viena de 1815. 
Surgiu também a ideia de um projeto federativo para a Europa, proposto pela 
Polônia, que Moscou prontamente recusou, temendo a reconstrução do “cordão 
sanitário” do período pós-1918 e já vislumbrando as possibilidades de projeção 
da URSS na região. De Gaulle reclamou da ausência da França no diretório. 
 As conferências internacionais de Moscou, Cairo e Teerã, no segundo 
semestre de 1943, mostraram a fragilidade da aliança entre as Potências 
ocidentais e a URSS: os EUA reapresentaram as teses idealistas wilsonianas de 
estabelecimento de um organismo internacional de segurança coletiva para 
resolver problemas territoriais; a Grã-Bretanha preocupava-se com a expansão 
soviética; e a França, com governo exilado em Londres, já não tinha voz. 
 A Declaração de Moscou não incluiu nada a respeito de renúncias a zonas 
de influência e se resumiu a três pontos: a capitulação total da Alemanha, a 
ocupação de seu território pelos três aliados e o desarmamento completo. A 
Declaração do Cairo adicionou o Japão, exigindo a devolução de todas as 
conquistas japonesas do projeto da Grande Ásia, especialmente dos territórios 
tirados da China, como a Manchúria e Taiwan. 
 Por fim, em Teerã, a Grã-Bretanha propôs a criação de três organizações 
regionalizadas (na América, na Europa e na Ásia), mas os EUA recusaram, pois 
insistiam numa instituição de raio mundial, que, por meio de um diretório 
composto entre os Quatro Grandes, atuaria como a “polícia do mundo”. Os EUA 
também recusaram a tese do federalismo europeu. Como se observa, EUA e 
URSS já ensaiavam, nessas discussões políticas, tornarem-se Superpotência. 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
O imediato pós-guerra: 1945-1947 
A Conferência de Yalta, em fevereiro de 1945, apenas consagrou todo 
esse quadro: o multilateralismo das negociações cedeu diante do unilateralismo 
do poder soviético na Europa Oriental. O Exército Vermelho já ocupava a maior 
parte da região, e sua chegada a Berlim era questão de dias. O tempo das 
relações internacionais já era outro: a política das áreas de influência na Europa 
se tornaria o modelo da política mundial nas décadas seguintes. Esse foi o 
primeiro grande legado da II Guerra Mundial. O segundo foi a materialização 
bipolarizada desse modelo, que será melhor explorada na Unidade seguinte. 
 
Os aliados, nas reuniões de São Francisco, entre abril e junho de 1945, e 
em Potsdam, entre julho e outubro de 1945, tinham como projeto a criação de 
instrumentos para o gerenciamento da paz no pós-guerra. A lógica das alianças 
e da diplomacia secreta cederia lugar ao esforço de reconstrução das relações 
internacionais com base no compromisso e no diálogo. 
 As reuniões de São Francisco criaram a Organização das Nações Unidas 
(ONU), materializando o sonho wilsoniano, e deixaram evidente a perda de 
importância da Europa no sistema internacional que então se delineava, apesar 
de ter sido garantida a participação da Grã-Bretanha e da França no Conselho 
de Segurança da Organização. 
 Interessante observar que, apesar de sua concepção idealista, o que se 
evidenciava na Assembleia Geral, onde cada membro tinha um voto, dentro do 
princípio da igualdade soberana entre os Estados, a ONU moldou-se em uma 
estrutura de poder realista, uma vez que tinha um Conselho de Segurança, o 
órgão legítimo para deliberar sobre o uso da força, no qual o poder concentrava-
se na mão dos cinco grandes vitoriosos da II Guerra Mundial: EUA, Grã-
Bretanha, URSS, França e China. Esses países tinham assento permanente no 
Conselho e poder de veto, mostrando a clara diferença entre eles e os demais 
Estados-membros da Organização e a desigual configuração de poder no 
Sistema Internacional. 
Portanto, a Carta de São Francisco, assinada em 26 de junho de 1945, criou 
a ONU e tornou-se um dos grandes instrumentos de regulação da nova era 
das relações internacionais: firmava-se o primado do Realismo sobre o 
Idealismo que marcara a Sociedade das Nações. O sistema do veto do 
Conselho de Segurança, que substituía o sistema da unanimidade anterior, 
construía um diretório dos cinco grandes vencedores de 1945 (EUA, URSS, 
China, Grã-Bretanha e França), para garantir o congelamento do poder e um 
compromisso de controle da segurança mundial. 
 
 
 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) 
O imediato pós-guerra: 1945-1947 
Em fevereiro de 1947, o Tratado de Paz de Paris encerrou simbolicamente 
os turbulentos anos nas relações internacionais iniciados em 1939. Desaparecia 
definitivamente o mundo eurocêntrico, e as relações internacionais teriam a paz 
garantida por um equilíbrio de poder baseado no duopólio EUA-URSS. O mundo 
seria divido entre as esferas de influência de Moscou e Washington e começaria 
um novo período no sistema internacional, que ficaria conhecido como “Guerra 
Fria”. 
 
Sobre o Brasil na II Guerra Mundial, não deixe de ver. 
A Revista Veja criou um sítio interessante sobre a II Guerra Mundial. Vale a 
pena conferir. 
 
 
Na próxima Unidade, concentraremos nossa atenção no estudo do 
Sistema Internacional pós-II Guerra Mundial. Vamos lá! 
 
Unidade 2 - O Sistema Internacional Pós-1945 
 
Ao final desta Unidade, o aluno deverá estar apto a: 
• assinalar as características principais do Sistema Internacional pós-Segunda 
Guerra Mundial 
• discorrer sobre os fatores da gestação da Guerra Fria; 
• identificar os principais fatos e fases desse período. 
 
 
Esses objetivos devem nortear seus estudos nesta Unidade, e esperamos que 
você possa, efetivamente, demonstrar os conhecimentos que eles propõem! 
Recorra ao material de estudo e busque solucionar suas dúvidas! 
A Guerra Fria 
Muitos autores defendem que, após o fim da II Guerra Mundial, não havia 
mais a ideia de uma Sociedade Internacional europeia, criada a partir de 1815. 
A instabilidade internacional no período de 1919 a1939, que culminou na II 
Guerra, corroeu um estado de equilíbrio de quase 100 anos. A Europa entrou 
em uma profunda crise de valores e testemunhou o retorno dos egoísmos 
nacionais, como ocorrera no período pós-Westfália. 
Um novo sistema jurídico-político-econômico internacional foi erigido ao 
final da II Guerra Mundial. Nascia a ONU, que procurava corrigir os erros de 
Versalhes e com a qual renascia o ideal da segurança coletiva. Nascia também 
o sistema de Bretton Woods, que criou o Fundo Monetário Internacional (FMI) e 
o Banco Mundial (BIRD) para reconstruir o mundo destruído pela guerra e fazer 
com que a ordem liberal-capitalista anterior retomasse seus passos. 
O chamado “Sistema de Bretton Woods” foi um modelo de Ordem 
Econômica Internacional que vigorou entre 1944 e 1973. Baseava-se em um 
esquema de paridades cambiais fixas (mas ajustáveis), fundamentadas no ouro-
dólar – o dólar tornara-se a moeda forte da economia mundial em virtude da 
posição dos EUA como hegemon no sistema. O sistema também incluía as 
políticas econômicas aplicadas pelo FMI e pelo BIRD (e que, na década de 1980, 
ficariam conhecidas como “consenso de Washington”), instituições que 
contribuiriam para auxiliar e orientar as políticas econômicas domésticas. 
No âmbito político, o mundo pós-1945 foi marcado pela hegemonia dos EUA e 
da URSS e um novo modelo de política internacional: o sistema de zonas de 
influência de raio planetário, característico do novo tipo de Ator – a 
Superpotência. O mundo seria, portanto, dividido em zonas de influência 
soviética e estadunidense. O continente americano e o Ocidente Europeu 
constituíram-seem zona de influência dos EUA, e o Leste Europeu, da URSS. 
No Mapa 28, é possível identificar com clareza essa zona sob a hegemonia 
soviética. 
 
 
Mapa 28: A Europa em 1946 
 
Fonte: http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/ap45/actuel1.html 
Um dos legados mais relevantes da II Guerra Mundial foi o fato do conflito 
ter trazido algumas soluções para o caos em que as relações internacionais se 
encontravam desde a I Guerra, época em que não se havia logrado criar um 
mundo pacífico e democrático. A partir de 1945, não houve mais guerra entre as 
Grandes Potências, apesar do estado de tensão constante entre as alianças 
militares ocidental e do bloco soviético, e o conflito armado foi transferido para o 
chamado Terceiro Mundo. O eurocentrismo chegou a termo, e os velhos 
impérios coloniais desapareceriam entre 1945 e a década de 1970. 
As organizações internacionais após a II Guerra Mundial são Atores 
importantes da segunda metade do século XX. Veja os sítios da ONU e da OEA, 
a partir dos quais é possível ter acesso aos sistemas de organizações vinculadas 
a esses organismos mundial e regional. 
 
 
A Guerra Fria 
A Gestação da Guerra Fria 
"A Guerra Fria foi um período em que a guerra era improvável, e a paz, 
impossível." 
 Com essa frase, o pensador Raymond Aron definiu o período em que a 
opinião pública mundial acompanhou o conturbado relacionamento entre os EUA 
e a URSS. O termo “Guerra Fria” deve-se ao fato de nunca ter ocorrido um 
enfrentamento bélico direto entre as duas Superpotências, o qual poderia acabar 
culminando na utilização dos arsenais nucleares e na consequente destruição 
massiva do planeta. 
 A Guerra Fria substituiu o jogo da hegemonia coletiva da Europa sobre as 
relações internacionais. Há muitas teorias sobre em que momento a ordem 
internacional da Guerra Fria foi gestada. Alguns defendem ter sido na Revolução 
Bolchevique e no cerceamento internacional da Rússia nos primeiros anos da 
Revolução, outros no “cordão sanitário” do Entre-Guerras, e há os que defendem 
ter sido gerada nos anos finais da II Guerra Mundial. O fato é que, após a 
liberação recente dos documentos, arquivos e memórias antes proibidos para 
pesquisas, os fatos que cercam a Guerra Fria passaram a ganhar novas 
interpretações, reforçando a tese da sua gestação ao final da II Guerra Mundial 
e como obra do erro estratégico dos aliados com relação ao flanco oriental a 
partir de 1943 e da rejeição da URSS à ajuda do Plano Marshall, promovido pelos 
EUA. 
 O Realismo nas relações internacionais parece ter tido mais influência na 
política soviética do que a ideologia propriamente dita. Stalin, com seus mais de 
20 milhões de mortos na guerra, ensaiava a reconstrução do país com base nas 
reparações de guerra e na política de zona de ocupação. As ações do líder 
soviético acabaram por confundir os formuladores da política externa dos EUA, 
que associaram os movimentos de Moscou à ótica de um projeto expansionista. 
A assistência norte-americana para a reconstrução soviética, acertada na 
conferência de Teerã de 1943, nunca aconteceu. O bloqueio de Berlim, em 1948, 
que marcou o início da tensão, foi feito por Stalin ao perceber o desenvolvimento 
da doutrina antissoviética por parte dos EUA, a Doutrina Truman, que pregava a 
necessidade de contenção da URSS e do expansionismo dos regimes 
comunistas a qualquer custo. Em resposta à Doutrina Truman, os soviéticos 
desenvolveram a Doutrina Idanov, que percebia a URSS como um baluarte do 
Estado proletário sob constante ameaça das Potências imperialistas e que não 
deveria poupar esforços para defender-se, sendo o maior deles a expansão do 
comunismo pelo mundo. 
Para os EUA, o conceito de Superpotência correspondia à conjugação da 
capacidade econômica hegemônica com a vontade de construção de uma 
grande área sob a influência dos valores do capitalismo, ou seja, a fusão dos 
interesses da indústria e do comércio norte-americanos com a busca da 
hegemonia mundial. Para a URSS, correspondia à conjugação da necessidade 
de sobrevivência do modelo político-econômico planificado e centralista com a 
necessidade de compensar sua fraqueza diante do Ocidente com a criação de 
uma área sob a influência dos valores do socialismo. 
Ao final da II Guerra Mundial, os países beligerantes haviam-se tornado 
um campo de ruínas habitado por povos muito propensos à radicalização e à 
revolução contrária ao sistema da livre empresa, do livre comércio e 
investimento. O Primeiro-Ministro da França foi a Washington advertir que, sem 
apoio econômico, era provável que se inclinasse para os comunistas. 
Assustados com o aumento dos votos para os comunistas nas eleições 
europeias no imediato pós-guerra, os estadunidenses desenvolveram a versão 
econômica da Doutrina Truman: o Plano Marshall, que visava orientar a 
presença dos EUA na reconstrução econômica da Europa Ocidental, o que seria 
uma maneira de reverter o quadro de debilidade das democracias ocidentais e 
do capitalismo diante da penetração soviética. 
 A ajuda do Plano Marshall foi oferecida aos países da Europa envolvidos 
na II Guerra Mundial, inclusive à URSS. Stalin rejeitou o dinheiro americano e 
denunciou o Plano Marshall como uma declaração de guerra econômica à 
URSS. Ademais, impediu os países ocupados pela URSS (Polônia, Países 
Bálticos, Tchecoslováquia, Romênia, Hungria, Bulgária e Alemanha Oriental) de 
aceitá-lo. E, como resposta ao Plano Marshall, a URSS criou o Conselho de 
Assistência Econômica Mútua (COMECOM), com o objetivo de organizar 
economicamente o bloco socialista. 
Em valores, a ajuda era de US$ 13 bilhões na época, o que seria 
equivalente a cerca de US$ 100 bilhões em 2002. 
Costuma-se dividir a Guerra Fria em três fases: 
· fase “quente”, que vai de 1945 a 1955; 
· fase da “coexistência pacífica”, de 1955 a 1979; 
· fase da “nova Guerra Fria”, de 1979 a 1991. 
 Todavia, há os que separam a segunda fase em duas, com uma fase 
conhecida como détente (distensão), entre 1969 a 1979, que marca a fundação 
de um concerto americano-soviético e o início da decomposição ideológica do 
conflito Leste-Oeste. 
 
A Guerra Fria 
A Fase “Quente”: 1945-1955 
O período inicial da Guerra Fria é marcado pelo início da rivalidade entre 
EUA e URSS e pela divisão do mundo em um modelo bipolar. Nos EUA, que 
entre 1945 e 1949 eram os únicos detentores da arma atômica, George Kennan 
denunciou as pretensões soviéticas de expandir o modelo socialista pelo mundo 
e formulou a “doutrina da contenção”. 
Em termos militares, houve reformas na organização militar interna dos 
EUA, em 1947, e na estrutura militar da aliança atlântica. No campo doméstico, 
a Lei de Segurança Nacional (1947) criava o Departamento de Defesa, a Agência 
Central de Inteligência (CIA) e o Conselho de Segurança Nacional. Também foi 
criada a Força Aérea estadunidense. 
 No plano internacional, o bloco liderado pelos EUA constituiria um sistema 
mundial unificado de defesa, e foi criada, em 1949, a Organização do Tratado do 
Atlântico Norte (OTAN), composta por EUA, França, Grã-Bretanha, Bélgica, 
Canadá, Dinamarca, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega e 
Portugal. Tratava-se de um sistema de defesa que deveria fazer frente a uma 
eventual agressão soviética contra seus membros. 
A contenção do avanço comunista deveria ocorrer nos campos político e 
militar, mas também nas áreas ideológica e econômica. Daí o advento do Plano 
Marshall, cujo objetivo era, por meio da ajuda econômica, garantir a presença 
norte-americana na Europa Ocidental e a sua reconstrução segundo os valores 
democráticos e capitalistas. Acompanhava oPlano Marshall o estabelecimento 
da Organização Europeia de Cooperação Econômica (OCDE), instituição que se 
encarregaria de aplicar a ajuda estadunidense e servir de foro para novas 
iniciativas de cooperação europeia. O Plano Marshall estabeleceria os alicerces 
da reconstrução europeia e do processo de integração, que teve como marco os 
Tratados de Roma de 1957, embrião da atual União Europeia. 
 
A Guerra Fria 
A Fase "Quente": 1945-1955 
Segundo Giovanni Arrighi (1996), a expansão econômica mundial e a 
integração europeia exigiam uma reciclagem muito maior da liquidez mundial do 
que estava implícito no Plano Marshall. O rearmamento foi uma forma de superar 
as limitações do Plano. A ideia era fazer com que uma economia nacional não 
mais ficasse dependente da manutenção de um superávit de exportações (em 
uma época de câmbio fixo, sob pena de depreciação de sua moeda). O 
rearmamento nacional era um meio de sustentar a demanda, por meio do 
seguinte processo: 
rearmamento 
(produção 
industrial e 
desenvolvime
nto 
tecnológico) 
 
-
> 
 
tecnologi
as 
colocada
s no 
mercado 
 
-
> 
 
sustentaç
ão e 
excitação 
da 
demanda 
doméstic
a 
 
-
> 
 
fortalecimento 
do 
mercadodomés
tico 
 
A assistência militar dos EUA à Europa foi um meio de continuar a prestar 
assistência ao velho continente após o fim do Plano Marshall. Os gastos militares 
no exterior (que saltaram entre 1950 e 1958 e entre 1964 e 1973) forneceram à 
economia mundial a liquidez necessária para se expandir, num processo de 
“keynesianismo militar” global. 
Havia, ainda, a preocupação particular com a Alemanha. Foram feitos 
investimentos em grandes quantidades na Alemanha Ocidental ao final da 
década de 1940, com o objetivo de fazer do país reconstruído e de Berlim 
Ocidental a vitrine do capitalismo, solidificando a ideia da área como fronteira 
das democracias capitalistas. Também se buscava evitar qualquer sentimento 
revanchista alemão por meio da incorporação plena do país à Aliança Atlântica. 
Os EUA percebiam uma Alemanha Ocidental forte, econômica e militarmente, 
como a primeira linha de defesa contra uma eventual expansão soviética rumo 
à Europa Ocidental. 
Diante das ações estadunidenses, a URSS reagiu. Intensificou o processo 
de militarização das fronteiras, o recrudescimento da política de espaços na 
Europa Oriental e a aceleração do projeto de desenvolvimento da bomba 
atômica: essa seria a resposta de Moscou à política antissoviética adotada pelos 
EUA. 
Passo importante na fundação do sistema bipolar seria a detonação da 
primeira bomba atômica soviética, em 1949. Os soviéticos haviam obtido 
tecnologia nuclear dos EUA e da Grã-Bretanha por meio de uma eficiente 
operação de espionagem. Isso desencadearia uma perseguição aos comunistas 
– ou aqueles suspeitos de simpatia à URSS – que provocaria um período de 
terror nos EUA conhecido como Macartismo. De toda maneira, com a bomba, a 
URSS mostrava ao mundo que havia, a partir de então, uma outra Potência 
nuclear. Começava a corrida armamentista entre as duas Superpotências. 
 
A Guerra Fria 
A Fase "Quente": 1945-1955 
Além da força nuclear, Moscou buscou garantir também um sistema de 
defesa convencional baseado em uma aliança militar para contrapor-se à OTAN 
(que, em 1952, incorporava a Grécia e a Turquia) e, em 1955, foi criado o Pacto 
de Varsóvia, integrado por URSS, Albânia, Bulgária, Tchecoslováquia, Hungria, 
Polônia e Romênia: estabelecia-se o guarda-chuva militar de Moscou sobre a 
Europa Oriental. 
 Ainda no que concerne à Europa Oriental, ocupada pelo Exército 
Vermelho, esta foi rapidamente “sovietizada”. Moscou não aceitaria democracias 
populares multipartidárias em sua área de influência. Em 1947, foi criado o 
Kominform, em substituição à Internacional Comunista. O Kominform tinha por 
objetivo propagar a revolução comunista no mundo e garantir o controle 
ideológico dos partidos comunistas no Leste por Stalin, momento em que ficou 
clara a liderança soviética sobre os movimentos de organização dos comunistas 
franceses, italianos, iugoslavos, tchecos, poloneses, húngaros, romenos e 
búlgaros. 
 Mas Moscou também se mostrava disposta a patrocinar a revolução 
socialista em qualquer parte do mundo. Daí seu apoio à Revolução Chinesa de 
1949, talvez o evento mais importante da história da Ásia no século XX. Com a 
vitória comunista sobre os nacionalistas, a China foi reorganizada nos moldes 
comunistas, com a coletivização das terras e o controle estatal sobre a 
economia. Do dia para a noite, um quinto da população do planeta passava a 
viver sob regime comunista. Ademais, nascia uma nova Potência, que logo 
ocuparia seu espaço no cenário mundial e rivalizaria com a URSS a liderança do 
bloco socialista. 
 No campo econômico, foi criado o Conselho Econômico de Ajuda Mútua 
(COMECOM) para estruturar as relações econômicas entre os membros do 
bloco socialista e para se contrapor ao Plano Marshall. O COMECOM 
simbolizava o internacionalismo soviético na Economia. Composto inicialmente 
por seis países (Bulgária, Hungria, Polônia, Romênia, Tchecoslováquia e a 
própria URSS), o COMECOM teria a adesão da Alemanha Oriental em 1950. Em 
1962, o ingresso da Mongólia representou um primeiro passo para uma 
estruturação do COMECOM para além da Europa. Entre 1956 e 1968, Coreia e 
República Democrática do Vietnã obtiveram o status de observadores junto ao 
COMECOM. Em 1964, foi assinado acordo com a República Federativa 
Socialista da Iugoslávia e, em 1972, Cuba ingressou na Organização. 
 
A hegemonia soviética na Europa Oriental criou uma área de influência a 
que Churchill chamou de “cortina de ferro”. 
O bloco socialista na Europa e a cortina de ferro estão registrados no 
Mapa 29, com as respectivas datas de ingresso de cada país no bloco socialista. 
 Mapa 29: A Expansão da URSS no Leste Europeu no Pós-II Guerra e a Cortina 
de Ferro. 
 
Fonte:http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/ap45/actuel3.html 
 
Para conhecer o clima de tensão da Guerra Fria, assista a Treze dias que 
abalaram o mundo (Thirteen days, 2000), dirigido por Roger Donaldson, com 
Kevin Costner e Bruce Greenwood. O filme conta a história da Crise dos Mísseis 
de Cuba (1962), com ênfase na maneira como se conduziu o processo decisório 
no Governo Kennedy e as negociações com os soviéticos, que culminariam na 
reestruturação das relações entre as Superpotências. 
Outro filme fundamental para a compreensão do período e da maneira 
como eram tomadas as decisões é Sob a Névoa da Guerra, dirigido por Errol 
Morris. Vencedor do Oscar de melhor documentário de 2004, o filme se molda a 
partir de uma longa entrevista do cineasta com Robert Strange McNamara, 
Secretário de Defesa estadunidense dos governos de John F. Kennedy e Lyndon 
Johnson (entre 1961 e 1967). McNamara apresenta, de forma realista, como se 
conduziram a política externa e as relações com a URSS e outros atores em uma 
das épocas mais conturbadas da Guerra Fria. 
 
A Guerra Fria 
A Guerra da Coreia e a disputa bipolar na Ásia 
 Estavam, portanto, definidos os dois “condomínios” internacionais de 
influência. Entre 1950 e 1953, as duas Superpotências jogaram todos os seus 
esforços na demonstração de poder mundial na Guerra da Coreia. Com a 
proclamação da República Popular Democrática da Coreia pelos revolucionários 
comunistas, os EUA desembarcam tropas no sul do país e estabeleceram um 
governo antirrevolucionário de notáveis. A ONU reconheceu a divisão do país 
em dois pelo Paralelo 38 e uma guerra se iniciou em 1950, quando os norte-
coreanos invadiramo território ao sul do paralelo em resposta ao envio norte-
americano de esquadras para Taiwan e para a Coreia do Sul. Foi o maior conflito 
armado desde a II Guerra Mundial. 
A ONU enviou tropas multinacionais sob o comando dos EUA, e os norte-
coreanos recuaram de volta ao Paralelo 38. Migs soviéticos sobrevoaram e 
bombardearam a Coreia do Sul e, com o apoio de tropas chinesas, impuseram 
vitória sobre as tropas norte-americanas, as quais, por sua vez, por meio da 
Operação Killer, jogaram bombas de napalm e ameaçaram a China com o uso 
de armas atômicas. Só se chegou a um equilíbrio militar ao final de 1951, quando 
as tropas dos EUA se retiraram, e teve início uma política de acomodação. 
 Em 1953, foi assinado o armistício de Panmunjom, por meio do qual se 
criou uma zona de segurança separando as duas Coreias, compreendendo uma 
área de quatro quilômetros ao longo do Paralelo 38, sob a vigilância da ONU. 
Convém lembrar que o armistício apenas suspendeu os embates bélicos, de 
modo que, tecnicamente, a guerra continua até nossos dias. As duas Coreias se 
tornaram um monumento dos anos quentes da Guerra Fria (SARAIVA, 1997). 
Outro país a se dividir foi o Vietnã, em 1954: Vietnã do Norte, comunista, 
e o do Sul, capitalista. A posição dos EUA na Ásia estava fragilizada, e os norte-
americanos mais que nunca temiam o risco do “efeito dominó”, ou seja, de que 
o que acontecera na China, na Coreia e no Vietnã acabasse repercutindo por 
toda a Ásia, com o estabelecimento de regimes comunistas de influência 
soviética pelo continente e a consequente perda de poder estadunidense na 
região. Em virtude dessa ameaça, os tomadores de decisão nos EUA concluíram 
que o país deveria envidar todos os esforços possíveis para conter o avanço do 
comunismo pelo mundo. Essa decisão teria grandes repercussões pelas 
décadas da Guerra Fria, entre as quais a entrada dos EUA na guerra do Vietnã 
e o apoio estadunidense a regimes capitalistas do extremo oriente – Japão, 
Coreia do Sul e Taiwan, por exemplo. 
No que concerne à Guerra do Vietnã, dois filmes são sugeridos: 
Apocalipse Now,de Francis Ford Copolla, estrelado por Marlon Brando, e 
Platoon, de Oliver Stone. Ambos foram produções marcantes que revelaram 
muitos dos horrores da Guerra do Vietnã, a grande chaga na política externa dos 
EUA na segunda metade do século XX. 
 
A Guerra Fria 
Mais disputa bipolar 
 A fragilidade dos EUA em relação à hegemonia global também começava 
a acontecer em outras regiões do planeta. A Comunidade Econômica Europeia 
foi instituída, em 1957, pelo Tratado de Roma, tendo como núcleo a unidade 
franco-germânica, e se apresentou como alternativa ao plano norte-americano 
de integração do continente. Na incontestável zona de influência norte-
americana, a América Latina, o estabelecimento de um regime comunista pró-
soviético em Cuba, após a Revolução de 1959 (que, inicialmente, nem 
tendências comunistas tinha), com o fracassado desembarque na Baía dos 
Porcos, revelou que as estruturas da Guerra Fria não eram tão absolutas quanto 
se desejava, e que era claro o risco da perda da influência norte-americana em 
quaisquer regiões do planeta. 
 Os EUA começaram a perceber que grandes volumes de bombas e 
maciços investimentos na segurança internacional não eram suficientes para 
construir a legitimidade internacional. A URSS, por sua vez, tornava-se mais 
forte, mas pouco disposta a bater de frente com os EUA. 
Desembarque na Baía dos Porcos - trata-se de uma fracassada tentativa 
de cubanos contrários à Revolução de desembarcarem na ilha e porem fim ao 
regime de Fidel Castro. Os anticastristas encontravam-se nos EUA e tiveram 
apoio da CIA e do governo norte-americano para realizar a ação armada contra 
o regime de Castro. 
Com a morte de Stalin e a chegada ao poder de Nikita Krushev, acabariam 
os anos quentes e começaria a fase da coexistência pacífica. 
 
 A Guerra Fria 
A Fase da Coexistência Pacífica: 1955-1968 
Alguns autores conjugam as fases da coexistência pacífica com a 
dadétente. Outros, porém, consideram que essa segunda fase marca o início da 
flexibilização da ordem bipolar, e a terceira, mais tardia, marca um momento de 
deliberada atitude das duas Superpotências de pôr fim à era de diferenças. Por 
motivos didáticos, adotamos essa posição. 
A coexistência pacífica foi a fase da flexibilização da política externa dos 
EUA e da URSS em que, respectivamente, Eisenhower substituiu Truman e 
Krushev substituiu Stalin. 
 
 
 
 
 Também caracterizaram essa segunda fase os seguintes acontecimentos: 
√ 
Recuperação econômica e política da Europa 
Ocidental: tentava-se o retorno da Europa ao centro das 
relações internacionais, após a reconstrução proporcionada 
pelo êxito dos investimentos e doações norte-americanas por 
intermédio do Plano Marshall. A Europa deixava 
gradativamente de ser um centro de poder alinhado 
automaticamente aos EUA. 
 
 
 
√ 
 
 
 
Início da desintegração do bloco comunista: a ruptura 
chinesa (com a disputa sino-soviética no início dos anos de 
1960) e o casamento de crenças divergentes de alguns 
partidos comunistas com o nacionalismo (Albânia, Bulgária, 
Romênia e Tchecoslováquia) começavam a descaracterizar a 
unidade comunista na Europa Oriental. O condomínio 
comunista não deu sinais de expansão significativa entre a 
Revolução Chinesa e a década de 1970. 
 
 
 
√ 
 
Descolonização das nações afro-asiáticas: a multiplicação 
repentina de Estados soberanos e o discurso de igualdade 
jurídica modificaram o quadro dos organismos internacionais, 
como a ONU. Traziam-se aos foros internacionais novas 
reivindicações por parte do chamado “Terceiro Mundo”. 
 
 
 
√ 
 
O não alinhamento dos novos Estados pós-coloniais: a maior 
parte dos novos Estados não era comunista em sua política 
interna e considerava-se “não alinhada” em sua política 
externa (Movimento dos Países Não Alinhados, que conjugou 
seu discurso com o discurso do Grupo dos 77, criado pelos 
países do Terceiro Mundo, por uma nova ordem econômica 
internacional na década de 1970). 
 
 
 
√ 
 
Articulação independente e própria dos países mais 
industrializados da América Latina: Brasil e Argentina 
começaram a construir seus próprios interesses na inserção 
internacional do período. A noção de “quintal” dos EUA foi 
substituída pela noção moderna de alinhamento negociado. 
 
 
 
√ 
 
A crise dos mísseis em Cuba (1962): tentativa de Krushev, por meio 
da alocação de mísseis na ilha de Cuba, de alterar o equilíbrio de poder 
mundial em prol da URSS, tendo em vista o avanço do projeto de 
Mísseis Antibalísticos (ABMs) dos EUA e a nova doutrina militar da 
OTAN na Europa (nuclearização). 
 
 
 
√ 
 
O declínio gradual das armas nucleares no equilíbrio de poder entre 
as Superpotências: após a crise de Cuba, criou-se um acordo tácito 
entre a Casa Branca e o Kremlin e iniciaram-se os processos de 
negociações de acordos para controle e limitação das armas 
nucleares, como os SALT I e II e o acordo sobre ABMs; 
 
 
 
√ 
 
Surgimento de um novo Ator importante: a China de Mao Tsé-Tung. 
Ao explodir sua primeira bomba atômica, em outubro de 1964, a 
China mudava a correlação de forças no cenário internacional. 
 
 
 
√ 
 
O Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), de 1968: as 
Grandes Potências conclamavam os países não nucleares a não 
fazerem experimentos e os países nucleares a congelarem os seus 
arsenais. 
 
 
A Guerra Fria 
A Fase da Coexistência Pacífica: 1955-1968 
Assim, o mundo continuava dividido entre as esferas de poder das duas 
Superpotências.Entretanto, sobretudo após a crise dos mísseis de Cuba, 
quando EUA e URSS quase entraram em um confronto direto, a decisão de 
Washington e Moscou foi de estabelecer mecanismos que permitissem a 
convivência entre os dois blocos e evitassem uma hecatombe nuclear. 
 O Mapa 30 ilustra o mundo dividido entre as esferas de influência de Washington 
e Moscou. 
 
 
 
 
 
 
 Mapa 30: Os Dois Blocos em 1955 
 
 
Fonte:http://perso.numericable.fr/alhouot/alain.houot/Hist/ap45/actuel8.html 
Por mais estranho que possa parecer, há dois filmes que simbolizam bem 
a percepção norte-americana dos valores do capitalismo na Guerra Fria na 
década de 1980: Rambo III e Rocky IV. Em Rambo III, um veterano da Guerra 
do Vietnã (Sylvester Stallone) é enviado ao Afeganistão para libertar seu mentor, 
que caiu nas mãos dos soviéticos, durante a ocupação daquele país, e conta 
com o apoio dos Talibãs. Interessante, sobretudo, se relacionarmos o filme à 
realidade de duas décadas depois: a película retrata os vínculos dos EUA com 
os guerrilheiros afegãos no combate aos soviéticos. 
Stallone passa a ser o símbolo do herói estadunidense dos anos 1980 e 
a causa Talibã, um dos focos da política externa dos EUA. Atente para a 
dedicatória ao final do filme. 
Já em Rocky IV, o personagem de Stallone encontra um adversário 
diferente para lutar nos ringues de boxe: Drago (Dolf Lundgren), um lutador de 
1,90 m de altura e 130 kg que representa a URSS. O programa de treinamento 
de Rocky o leva à fria Sibéria, onde ele se prepara para o combate em Moscou. 
O filme é marcado pela exaltação ao patriotismo norte-americano. 
 
A Guerra Fria 
 A Fase da “Distensão”: 1969-1979 
Muitos autores defendem que só se pode falar em Guerra Fria até o final 
dos anos de 1960, uma vez que a fase que se segue é apenas um concerto entre 
as duas Superpotências. Outros preferem chamar essa fase de “Segunda 
Guerra Fria”, pois é o momento em que as duas Superpotências transferem sua 
competição para o chamado Terceiro Mundo (Vietnã, Angola, Afeganistão, Líbia, 
entre outros). 
 Se a década de 1960 fez transparecer uma perda de poder dos soviéticos, 
a década de 1970 assinalava uma perda do domínio norte-americano e seu 
relativo isolamento: na Guerra do Vietnã (1959-1975) e na Guerra do Yom Kippur 
(1973), os EUA não receberam ajuda europeia. A crise do petróleo parecia 
sugerir enfraquecimento no domínio internacional dos EUA, enquanto fez os 
preços das jazidas de petróleo e gás natural da URSS quadruplicarem. Entre 
1974 e 1979, regimes na África, na Ásia e na América Latina começaram a ser 
atraídos para o lado soviético. Além disso, o escândalo envolvendo a 
administração Richard Nixon (Watergate) causou uma certa desordem na 
presidência dos EUA. 
 Quatro fatos são relevantes nessa fase: 
1) O concerto americano-soviético, que anunciava a flexibilização deliberada 
no relacionamento das duas Superpotências: 
· os planos SALT (Strategic Arms Limitation Talks) congelaram por cinco anos 
o desenvolvimento e a produção de armas estratégicas e o controle sobre 
mísseis intercontinentais e lançadores balísticos submarinos; 
· os encontros pessoais, entre 1972 e 1974, dos dois chefes de Estado 
reativaram fluxos comerciais e financeiros estagnados, como aqueles entre a 
URSS e os países capitalistas ocidentais (de 1970 a 1975, as exportações 
ocidentais para a URSS quadruplicaram). 
2) Consciência da diversidade de interesses no Sistema Internacional: 
· a confirmação da vocação integracionista da Europa: a Europa dos Seis de 
1957 (França, Alemanha, Itália, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo) passa a 
ser a Europa dos Nove em 1973 (com a adesão da Grã-Bretanha, Dinamarca e 
Irlanda), matriz do que viria a ser, duas décadas depois, o núcleo de poder da 
União Europeia: criava-se uma alternativa ao sistema bipolar, mas não da forma 
harmônica e autônoma que qualificara a hegemonia coletiva europeia do século 
XIX; 
· a América Latina aproveita o clima da détente para a sua reinserção 
internacional: com a crise da liderança norte-americana na região, as relações 
internacionais são desideologizadas em seus países mais importantes, como 
Brasil, México e Argentina, que passam a adotar linhas de condutas próprias nos 
negócios internacionais; 
. quatro grandes Atores na Ásia desenvolvem capacidades de defesa de 
interesses próprios na agenda internacional: Vietnã, Índia, China e Japão. 
Destaque para a República Popular da China, a China comunista, que rompe 
com o seu isolacionismo e retorna ao sistema internacional na década de 1970 
(inclusive passando a assumir a cadeira chinesa no Conselho de Segurança da 
ONU em 1971), recusando a hegemonia soviética e ensaiando uma 
aproximação com os EUA, e para o Japão, que iniciava sua caminhada para se 
tornar a segunda economia do planeta. 
3) Esforço de construção de uma nova ordem econômica internacional pelos 
países do Terceiro Mundo para a redução da dependência com relação 
aos centros hegemônicos de poder: 
· reforço das ilusões igualitaristas dos países afro-asiáticos: irrompem tentativas 
dos países do Sul de estabelecerem um diálogo sólido com o Norte; 
· a África como um todo e parte da América Latina e da Ásia buscam afirmar o 
conceito de Terceiro Mundo nas relações internacionais; 
· as dificuldades de diálogo encontradas na década de 1960, no âmbito das 
sessões da Conferência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento 
(Unctad), levaram o Terceiro Mundo a propor a Declaração e o Programa de 
Ação sobre o Estabelecimento de uma Nova Ordem Econômica Internacional 
(NOEI), convertida em Resolução da ONU em 1979. 
4) Crise energética e financeira, que testou o grau de adaptabilidade do 
capitalismo: 
· os choques do petróleo em 1973 e 1979 tornam o Sistema Internacional da 
détente vulnerável e abalam os componentes da produção, do comércio e das 
finanças internacionais; 
· a crise de conversibilidade do dólar, pondo fim ao sistema monetário de 
Bretton Woods: diminuição da importância da economia dos EUA e elevação das 
taxas de juros internacionais, anunciando o desastre para as economias que 
haviam orientado a sua inserção nas relações econômicas internacionais pela 
via do endividamento externo, como o Brasil, o México e a Argentina; 
· os países árabes, detentores do petróleo, tornam-se Atores de relevo no 
sistema internacional, passando a reivindicar posições-chaves no planejamento 
das atividades econômicas em escala global; 
· aceleração do processo de globalização dos mercados: as empresas, em 
reação à estagnação da produção de bens, à inflação dos preços e ao custo 
energético, desenvolvem novos processos de produção de bens e de 
organização do mundo do trabalho e do consumo, o que acabará por provocar 
uma revisão dos próprios papéis dos Estados nacionais na política internacional; 
o surgimento de uma nova economia sustentada na concentração de inteligência 
e na robótica, criando um novo paradigma tecnológico-industrial (momento 
também conhecido como “Terceira Revolução Industrial”). 
 
A Guerra Fria 
O Fim da Guerra Fria: 1980-1991 
A década de 1980 marcou o que muitos autores chamam de “Nova Guerra 
Fria”. No período, mereceu destaque a exacerbação anticomunista do novo 
presidente norte-americano, Ronald Reagan, estabelecendo-se um retorno ao 
Realismo nas relações internacionais (em substituição ao Idealismo de Jimmy 
Carter). As concessões unilaterais efetuadas pelo governo Carter foram 
substituídas por uma política de confrontação diplomática e de endurecimento 
econômico, com bloqueio econômico e tecnológico aos países do sistema 
soviético. 
 O aumento das

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