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DESCRIÇÃO
Análise das relações de poder na esfera global, evidenciadas pelos eventos e fenômenos do SI (Sistema Internacional), sob os aspectos da liderança, supremacia, hegemonia e governança.
PROPÓSITO
Apresentar as complexas relações de poder e seus desdobramentos no Sistema Internacional de Estados soberanos, bem como as dinâmicas das relações de poder, como fator essencial para que os analistas internacionais compreendam as complexidades das Relações Internacionais.
PREPARAÇÃO
Tenha em mãos um Dicionário de Relações Internacionais.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Descrever os fenômenos internacionais à luz das relações de poder internacionais.
MÓDULO 2
Categorizar as relações de poder no Sistema Internacional.
MÓDULO 3
Reconhecer as bases para um novo debate teórico das Relações Internacionais.
MÓDULO 4
Distinguir as peculiaridades das relações diplomáticas e consulares.
INTRODUÇÃO
Neste conteúdo, vamos explorar um dos elementos mais importantes do estudo das Relações Internacionais: a cratologia. O nome, inicialmente, pode não oferecer muita clareza sobre o que vamos discutir, mas trata-se de algo sobre o qual analistas internacionais devem se debruçar cotidianamente em suas análises: o exercício do poder por meio do uso da força. Esse é um tópico recorrente para quem já se deparou com a escola realista das RIs, mas aqui vamos analisar sob uma ótica que estuda especificamente “o poder”, em outras palavras, a cratologia das Relações Internacionais, cujo conceito é definido diferentemente por alguns autores.
Para Thales Castro (2012, p. 163), a cratologia “é o estudo científico do poder e de suas dinâmicas atreladas à área internacional. Da raiz etimológica, cratologia significa o estudo científico do poder e de suas relações e implicações em vários ambientes”. O objeto de análise da cratologia, por sua vez, é apresentado por Nye e Keohane (1989, p. 11) como sendo a habilidade de um ator de conseguir fazer que outros façam algo que normalmente não fariam, alinhados com a definição de Max Weber (DORTIER, 2010, p. 497) em que poder configura “a oportunidade de fazer prevalecer, no âmbito de uma relação social, sua própria vontade, até mesmo contra a vontade do outro”.
Dessa forma, vemos que o poder é um conceito central na análise das Relações Internacionais, pois no âmbito estatal, com a política e a diplomacia, os países buscam influenciar os demais para conseguirem o que querem. No âmbito privado, temos a mesma situação com outros atores como as ONGs defendendo suas causas (meio ambiente, direitos humanos, cultura, entre outras), as empresas defendendo seus interesses (acesso a mercados, taxação, logística etc.) e outras entidades da sociedade civil que trabalham em prol da defesa de seus objetivos e valores.
Portanto, o propósito aqui é apresentar o estudo da cratologia nas Relações Internacionais, permitindo a interpretação dos fenômenos internacionais à luz das relações de poder, a apresentação de ferramentas para a mensuração das relações de poder no Sistema Internacional, a disponibilização das bases para o reconhecimento da gênesis de um novo debate teórico das Relações Internacionais e, por fim, a possibilidade de distinguir as peculiaridades existentes no âmbito das relações diplomáticas e consulares que representam formas de expressão das relações de poder estatais.
MÓDULO 1
Descrever os fenômenos internacionais à luz das relações de poder internacionais
INTRODUÇÃO
PARA COMEÇAR, VEJA OS PRINCIPAIS CONCEITOS DA ÁREA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS COM O PROFESSOR MARCELO GOMES PEREIRA DA SILVA.
Para começar, veja os principais conceitos da área de Relações Internacionais com o professor Marcelo Gomes Pereira da Silva.
No estudo da cratologia das Relações Internacionais, um dos principais expoentes do assunto no Brasil é o professor pernambucano Thales Castro. Neste sentido, escolhemos seguir a metodologia de análise elaborada por ele, que defende sete conceitos como sendo fundamentais para o estudo das relações de poder no âmbito das RIs, divididos em três grupos: no primeiro, os conceitos de liderança, supremacia e hegemonia; no segundo, governança e ordem mundial; e, por fim, polaridade e lateralidade (CASTRO, 2012).
Neste primeiro módulo, vamos destrinchar cada um desses conceitos à luz das relações de poder, a fim de permitir que você interprete os fenômenos internacionais, tendo como base a perspectiva do poder.
POLARIDADE E LATERALIDADE
A fim de explorar a definição de polaridade, é preciso entender que tal conceito, segundo Devin (2009), está atrelada à noção de polo de poder e associada à clássica ideia de potência. Por outro lado, Bezerra (2016, p. 76) define a polaridade mundial como sendo a “definição sobre a distribuição do poder mundial entre Estados”. Castro (2012), por sua vez, trata polaridade como o acúmulo de recursos de força, poder e interesse por parte de um Estado ou de um pequeno grupo de Estados que esteja inserido em determinado sistema e que, naturalmente, passa a ser reconhecido no sistema sociopolítico desse sistema.
Foto: Shutterstock.com
Polaridade pode ser entendida como a concentração de poder por parte de um ou mais Estados que acabam sendo reconhecidos pelos demais atores e, por conta do seu poder diferenciado, moldam a hierarquia do Sistema Internacional, no qual ocupam o topo.
Assim, temos diferentes configurações de polaridade possíveis. Por exemplo, no passado, o Império Romano foi capaz de acumular recursos de uma maneira surpreendente, tanto em termos de capacidade militar quanto geográfica, com a expansão de seu território, o que lhes garantia muitos recursos naturais e alimentos. No sistema em que estava inserido, o Império Romano não percebia outro império com um poder tão grande quanto aquele que detinha, o que, trazendo para a nossa análise, pode ser lido como um período de unipolaridade no Sistema Internacional, ou seja, um país, sozinho, era detentor de um acúmulo de recursos enorme e incomparável com os demais, o que o colocava numa posição de destaque, no topo da hierarquia internacional da época.
Outro exemplo possível é o período iniciado após a Segunda Guerra, na década de 1940. A “divisão do mundo” entre o bloco de países capitalistas liderados pelos EUA e seguido pelas principais potências da Europa Ocidental de um lado, e, do outro, o bloco de países socialistas liderados pela URSS e seguido por países como China, Cuba, Vietnã e Coreia do Norte alterou a configuração de polaridade do Sistema Internacional, considerada como bipolar e marcada pela rivalidade, principalmente, entre os EUA e a URSS. Após o colapso da última, com o fortalecimento do multilateralismo e a expansão da gama de atores nas Relações Internacionais, o Sistema Internacional passou a ser considerado como multipolar na década de 2000, quando diferentes países são, simultaneamente, detentores de acúmulos de poder relevantes, como foi o caso dos EUA, de países europeus como França, Alemanha e Inglaterra, e o Japão.
Imagem: Shutterstock.com Os países membros dos BRICS.
Com o passar do tempo, novos atores emergiram e ganharam cada vez mais espaço no Sistema Internacional, como é o caso de atores não tradicionais representados pelos BRICS — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que confirmam a tendência global ao multilateralismo. Neste cenário, percebe-se uma diluição do poder entre os diferentes atores internacionais, em vez da concentração observada em outros momentos, como fora o caso do Império Romano ou da dualidade capitalista-socialista.
Sobre a questão da polaridade, Castro (2012, p. 207) propõe um esquema de quatro passos que permitem uma visão mais crítica:
Contabilizar quantos polos de poder existem no Sistema.
Identificar quais países pertencem aos polos existentes.
Compreender o relacionamento dentro dos polos de poder.
Analisar o relacionamento dos polos de poder com os demais países.
Para melhorar a compreensão, peguemos o continente americano, aqui compreendido como a junção dos países da América do Norte, América Central e América do Sul,para seguirmos os passos indicados. Primeiramente, vamos contabilizar os polos de poder. De modo geral, vamos considerar três principais polos de poder, um para cada subcontinente. De acordo com os passos indicados, na América do Norte, teremos os EUA como a potência hegemônica de todo o continente. Nenhum outro país se equipara ao seu poderio econômico, militar e cultural. Dessa forma, os EUA serão considerados como o principal ator.
Imagem: Shutterstock.com
Além do hegemon, temos também potências regionais, ou seja, polos que irradiam um poder de alcance mais limitado do que aquele vindo de Washington. Na América Central, podemos destacar o México como um polo. Considerado como parte da América do Norte em alguns lugares e, em outros, parte da América Central e Caribe, o país possui um destacado poderio econômico, forças militares robustas e uma cultura difusa na região, com suas novelas, músicas e culinária.
Imagem: Shutterstock.com Os países membros dos BRICS.
Por fim, na América do Sul, temos o Brasil, maior economia da América Latina, com forças armadas reconhecidas e cultura conhecida entre os países da região. Com isso, finalizamos a primeira parte do exercício, identificando a existência de três polos e os nomeando. Sugerimos que a realização dos dois próximos seja feita como atividade de fixação deste conteúdo, permitindo também conhecer com mais detalhes a relação dos três países com seus vizinhos. Como recomendação, propomos que a análise leve em consideração os blocos econômicos da região, como é o caso do NAFTA na América do Norte, a ALADI e o CARICOM para a América Central e Caribe, e o Mercosul na América do Sul.
O próximo conceito a ser trabalhado é o da lateralidade, que se apresenta de maneira bastante diferente do conceito de polaridade, por não levar em consideração a questão do acúmulo de poder de cada parte, mas, sim, a quantidade de partes envolvidas numa negociação. No caso de um acordo que envolva dois países, ou seja, dois lados, estamos tratando de uma questão bilateral. A lateralidade pode envolver diversas partes ou lados, o que permite questões trilaterais ou mesmo plurilaterais e multilaterais. A fim de exemplificar, sabemos que as negociações plurilaterais envolvem diversas partes, basicamente o mesmo significado de uma negociação multilateral, porém esta última está geralmente associada às negociações no âmbito de um organismo internacional ou de um bloco regional consolidado.
No contexto da Organização Mundial do Comércio, por exemplo, existem as duas formas de negociações. Quando diversos países resolvem, entre si, criar uma norma, essa negociação é chamada de plurilateral. Entretanto, para que uma norma seja considerada multilateral, ou seja, para estar de acordo com o princípio do consenso que guia a entidade, é preciso que todos os países membros da organização aceitem e adotem a medida.
Foto: Bernsten/Shutterstock.com A Organização Mundial de Comércio (World Trade Organization), em Genebra, na Suíça.
GOVERNANÇA E ORDEM MUNDIAL
Foto: Shutterstock.com Prédio da Organização das Nações Unidades, em Nova Iorque, EUA.
Conceito importante no âmbito das Relações Internacionais, ordem mundial diz respeito à configuração e à forma como se organiza o Sistema Internacional, com sensibilidade às variações de tempo e da estrutura de poder. Isso quer dizer que a ordem mundial representa a configuração do mundo em determinada época e dentro de um contexto específico de poder em que a governança é estabelecida pela polaridade.
A ordem mundial consiste na governança que os Estados hegemônicos impõem aos demais países, ou seja, essa ordem expressa o desejo da potência hegemônica de como deve ser a governança global segundo sua própria visão e seguindo seus valores.
Desse modo, entende-se que a ordem mundial é determinada pela forma como o poder está difundido no Sistema Internacional e como os países se relacionam. A ordem mundial que emergiu no pós-Segunda Guerra, por exemplo, revela a dicotomia imposta pela bipolaridade. A criação da Organização das Nações Unidas, um projeto encabeçado pelos vencedores da Guerra, que foi costurado pela Conferência de Dumbarton Oaks em 1944, contou com quatro lideranças principais: os EUA e o Reino Unido de um lado, e, do outro, a URSS e a China. Esse fenômeno demonstra como a configuração de poder global dá as cartas para a configuração da ordem mundial e sua governança. Nesse caso, as quatro principais potências da época é que decidiram como seria o futuro do mundo. A opção escolhida foi o fortalecimento do multilateralismo e do Direito Internacional.
LIDERANÇA, SUPREMACIA E HEGEMONIA
Os conceitos finais desta seção de gramática das relações de poder são complementares aos vistos anteriormente. O conceito de hegemonia pode ser entendido como o exercício de poder que envolve diversas dimensões (econômica, militar, diplomática, cultural etc.) em escala global por um ou mais Estados (num sistema que varia entre unipolar, bipolar ou multipolar) e, durante o exercício dessta hegemonia, há um inquestionável reconhecimento por parte dos demais Estados.
Foto: Calliopejen1/Wikimedia commons/CC BY-SA 2.0 Bill Clinton, Yitzhak Rabin, Yasser Arafat na Casa Branca, em 1993, firmando os Acordos de paz de Oslo.
Muitas vezes, o hegemon é também percebido como o Estado (ou o grupo de Estados) que carrega e defende o interesse coletivo, como, por vezes, os EUA são vistos, considerados, em algumas situações, como os escolhidos, naturalmente, para intervir em alguns países ou eventos: desde as conversas de paz entre Israel e Palestina, a freada das tensões nucleares com o Irã ou até mesmo o controle dos programas nucleares da Coreia do Norte.
A noção de supremacia se difere da noção de liderança, pois o conceito desta última pode se restringir a temas específicos ou áreas geográficas particulares.
LIDERANÇA
A liderança não é necessariamente reconhecida de maneira inequívoca pelos demais, exigindo o apoio dos demais países às pautas e ações executadas pelos líderes. Nem todos os países podem aceitar essa liderança ou legitimá-la.
SUPREMACIA
A supremacia representa um degrau intermediário dentro do processo liderança-supremacia-hegemonia, que se diferencia em função de seu leque geográfico mais abrangente, com aspirações globais e não mais regionais, e acaba por submeter os países de sua influência em determinadas áreas por conta de seu poderio econômico ou militar, e de forma mais ampla, seus soft ou hard power.
Um possível exemplo pode ser o conjunto de países formados por ex-colônias de outro país, mais rico e poderoso. A dependência em diversos segmentos que se instala com a colonização permite que muitos desses países, mesmo após a independência, sigam orbitando a zona de influência da antiga metrópole em razão dos históricos laços do passado, do idioma ou mesmo da dependência econômica. Algumas ex-colônias francesas na África, por exemplo, não possuem um banco central nacional, confiando suas reservas internacionais aos cofres franceses.
REFLETINDO
As descrições apresentadas neste módulo oferecem as bases para que você se aproprie teoricamente dos conceitos, permitindo a interpretação dos eventos e fenômenos globais sob a ótica das relações de poder internacionais, ou seja, possibilitando interpretar alianças, o surgimento de lideranças regionais e/ou temáticas, identificar quais são as potências hegemônicas e como influenciam na construção da ordem mundial, levando em conta os aspectos da governança e a configuração de polaridade do Sistema Internacional de Estados soberanos.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. CONSIDERANDO O SISTEMA INTERNACIONAL, SEGUNDO CASTRO (2012), IDENTIFIQUE QUAL É O FLUXO DE ETAPAS CORRETO DO PROCESSO PARA QUE UM ESTADO ALCANCE A HEGEMONIA:
Liderança, Supremacia e Hegemonia
Hegemonia, Supremacia e Liderança
Supremacia, Liderança e Hegemonia
Liderança, Hegemonia e Supremacia
Liderança, Hegemon e Supremacia
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2. À LUZ DAS RELAÇÕES DE PODER NA POLÍTICAINTERNACIONAL, INTERPRETE A MANCHETE SOBRE O SEGUINTE ACONTECIMENTO: “EUA SE OPÕEM A NIGERIANA PARA DIRIGIR A OMC E IRRITAM PAÍSES MEMBROS. NGOZI OKONJO-IWEALA SERIA A PRIMEIRA MULHER E A PRIMEIRA PESSOA DA ÁFRICA A PRESIDIR A OMC” (FOLHA DE S. PAULO, 2020).
Os EUA são uma potência suprema inquestionável e, por isso, tomam as decisões que ditam os rumos do multilateralismo.
A OMC está subordinada à liderança dos EUA.
Como uma das potências hegemônicas, os EUA possuem grande influência nos processos decisórios globais.
Os EUA são um dos membros fundadores da OMC e, por isso, possuem poder de veto na instituição.
Washington concluiu seu reordenamento da ordem mundial com a indicação de um novo presidente da OMC, nascido nos EUA.
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GABARITO
1. Considerando o Sistema Internacional, segundo Castro (2012), identifique qual é o fluxo de etapas correto do processo para que um Estado alcance a hegemonia:
A alternativa "A " está correta.
De acordo com Castro (2012), o fluxo processual correto para que um país chegue à hegemonia é Liderança, Supremacia e Hegemonia.
2. À luz das relações de poder na política internacional, interprete a manchete sobre o seguinte acontecimento: “EUA se opõem a nigeriana para dirigir a OMC e irritam países membros. Ngozi Okonjo-Iweala seria a primeira mulher e a primeira pessoa da África a presidir a OMC” (Folha de S. Paulo, 2020).
A alternativa "C " está correta.
Os EUA configuram-se na política internacional como uma das potências hegemônicas, numa perspectiva multipolar ou mesmo unipolar. Dessa forma, como apresentado pela literatura, possui uma capacidade de aglutinar e influenciar os demais países como se carregasse e defendesse os anseios e interesses da coletividade.
MÓDULO 2
Categorizar as relações de poder no Sistema Internacional
INTRODUÇÃO
O PROFESSOR MARCELO GOMES PEREIRA DA SILVA APRESENTA OS CONCEITOS DE KFPI E PDNV NO CENÁRIO PROFISSIONAL DE RI. ASSISTA!
A cratologia se dedica a estudar o exercício do poder pela força, um conceito mais ligado à noção de hard power, desenvolvida por Joseph Nye (NYE, ARMITAGE, 2007, p. 6), na qual o poder militar e outras variantes são consideraras as principais fontes de poder de um Estado soberano. Nesta lógica, por exemplo, um país com maior número de soldados ou tecnologia militar mais avançada teria um hard power superior ao de um país com menos tecnologia bélica ou com menor contingente. É neste contexto que Castro (2012, p.178) defende algumas características do poder no âmbito das Relações Internacionais. Para o autor, o poder apresenta cinco atributos principais, nomeados de “pressupostos”. Assim, o poder é:
DINÂMICO
Por estar em constante mutação e transformação.
PLURIDIMENSIONAL
Por se fazer presente em diferentes dimensões (econômica, militar, cultural, diplomático etc.).
RELACIONAL
Por não ser absoluto, ou seja, o poder só é mensurável em termos comparativos.
SITUACIONAL
Por ser muito volátil, é fortemente influenciado pelo contexto em que se insere.
MENSURÁVEL
Pois, mesmo sendo intangível, pode ser medido.
Nesse sentido, as condicionantes do poder refletem as discrepâncias e as assimetrias inerentes à distribuição do poder dentro de um contexto específico na qual não é possível separá-lo dos elementos de força e interesse a fim de ser analisado isoladamente, o que seria um equívoco. As premissas do poder incorporam o entendimento de que ele não é fixo, mas está constantemente em movimento. Também não é possível afirmar que o poder desaparece, pois ele apenas se transforma ou muda de titularidade. Quando um país perde poder, outro país acaba ganhando (todo ou parte dele) e, assim, de maneira sucessiva. Nas seções abaixo, vamos explorar alguns conceitos teóricos defendidos pelo autor e como o poder pode ser assumido na forma dos capitais de força, poder e interesse (KFPI) e, inversamente, contrabalanceados pelos padrões de dissuasão, normas e (PNDV).
OS CAPITAIS DE FORÇA-PODER-INTERESSE (KFPI)
Há a existência de uma inseparável relação entre os três elementos que nomeiam este tópico: força, poder e interesse. Nesta perspectiva, não se pode analisar o poder sem levar em consideração os dois outros fatores. Assim, o poder não simplesmente aparece de repente ou deixa de existir de uma hora para a outra. Ele simplesmente passa por processos de transformação, ou seja, pode ser expandido, diminuído ou simplesmente ter sua titularidade alterada. Para ajudar na fixação, façamos um paralelo entre o poder e a famosa Lei de Lavoisier que estudamos nas aulas de química do ensino médio, segundo a qual nenhuma massa química pode ser criada ou destruída, mas, sim, transformadas (Sterner et al., 2011), como é o caso do poder. Nessa visão, entende-se que o poder é parte intrínseca do sistema, e o que se discute é quem vai possuí-lo, de que forma vai exercê-lo e por quanto tempo.
Para melhor explicar essa dinâmica, pensemos no Brasil. Nosso país tem como ator central a figura da Presidência da República, que envolve disputas partidárias ferrenhas e mobiliza mais de 200 milhões de pessoas a quatro anos por meio do sistema eleitoral. Vamos esquecer o que prevê a constituição brasileira por um segundo e imaginar que a Presidência da República, por um acaso, acabe se encontrando vaga, ou seja, sem que ninguém a ocupe. Parece natural supor que não demorará muito até que algum indivíduo ou grupo político ou militar reivindique e autoproclame um indicado como presidente. Da mesma forma, quando um país perde poder, um outro país ou um conjunto de países rapidamente incorpora esse “excedente” ao seu poder.
Os três elementos são inseparáveis para a análise cratológica por assumirem formas diferentes, apesar de complementares, que permitem uma compreensão mais aprofundada e realística do exercício do poder. Isto quer dizer que, para entender o poder acumulado por um país e como ele é exercido, é preciso observar como o elemento força é empregado e como seus interesses são trabalhados neste contexto.
Por exemplo, um Estado que possua grande poder militar pode optar por perseguir seus interesses por meios pacíficos e não belicosos. Podemos assumir que uma lógica parecida ocorreu no período que sucedeu o fim da Segunda Guerra Mundial. As quatro potências do período (EUA, Reino Unido, China e URSS) costuraram, conjuntamente com outros países, um acordo que previa o estabelecimento de uma nova organização internacional baseada no direito internacional, na cooperação, diplomacia e paz, nos moldes do que tentou-se fazer com a malsucedida Liga das Nações.
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Isso revela que as potências que detinham maior poder no período da guerra estavam desejosas por buscar outros meios de perseguir seus interesses que não por meio do uso da força. Da mesma forma, é possível que um Estado prefira o uso da força em vez dos métodos pacíficos, como a diplomacia ou o Direito Internacional, como aconteceu nas guerras do ópio (entre potências europeias e o atual território chinês), nas quais as questões comerciais foram negociadas por meio do uso da força.
OS PADRÕES DE DISSUASÃO-NORMAS-VALORES (PDNV)
No campo dos padrões de dissuasão, normas e valores, é preciso compreender que esta tríade é entendida como sendo um elemento de contraponto aos capitais de força, poder e interesse.
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Nesta lógica, o uso da força é entendido como uma intervenção militar contra outro Estado, de forma voluntária, ou seja, um Estado comete um ato violento contra outro, levando em consideração o seu cálculo individual, e não o conjunto de regras (formais ou não) que regem o Sistema Internacional. Com o objetivo de conter esse tipo de ação é que surgem os elementos de dissuasão, o primeiro da tríade, que também envolve as normas e os valores.
Raymond Aron (2002, p. 509) interpreta a dissuasão como o temor de possíveis consequências e suas subsequentes punições ou prejuízos que o transgressor pode vir a sofrer. A dissuasão pode assumir formatos diferentes, ou seja, pode se apresentar como uma norma do Direito Internacional,um costume internacional ou mesmo a um acordo diplomático, manifestando-se como um elemento de contraposição às ações voluntaristas violentas dos Estados.
A dissuasão ocorre por meio de duas principais fontes: as normas internacionais, como mencionado, na forma de tratados internacionais, acordos diplomáticos ou costumes internacionais — também considerados fontes do Direito Internacional. Isso quer dizer que se um Estado decide invadir outro, sem respeitar o que está previsto nas normas internacionais (a exemplo do instrumento de legítima defesa), ele pode vir a sofrer sanções internacionais e/ou outras formas de punição.
Sendo assim, os Estados — considerados racionais pela grande maioria das teorias das Relações Internacionais — devem ponderar até que ponto vale a pena seguir com um ato de violência a um Estado estrangeiro. Nesse sentido, os valores configuram um elemento importante nesta lógica, pois a defesa de valores comuns acaba por inibir ações desalinhadas com esses princípios.
EXEMPLO
Exemplos de valores fortes da ordem internacional liberal promovida, sobretudo pelos EUA, são a Democracia, a defesa do Estado de Direito, a proteção dos direitos humanos e da cooperação internacional. Castro (2012) contrasta os elementos do KFPI e PDNV, tendo a força contraposta pela dissuasão, o poder pela norma e o interesse contraposto pelos valores, no que chama de relação dialética, aos moldes da dialética desenvolvida por Hegel.
OS ÍNDICES DE MENSURAÇÃO DO PODER
A fim de compreender e, mais precisamente, quantificar os estoques de poder dos Estados, diferentes metodologias surgem e propõem variáveis distintas, a fim de mensurar o estoque de poder de diferentes nações inseridas em variados contextos.
A primeira, a ser analisada, foi elaborada por Ray Cline , ex-diretor da Agência de Inteligência dos EUA (CIA), que elaborou uma metodologia por meio de uma fórmula matemática, a fim de quantificar o que ele chamou de poder perceptível. As limitações deste tipo de abordagem residem no caráter das variáveis, que, por vezes, são de natureza objetiva, mas também incorpora variáveis subjetivas, permitindo interpretações e resultados distintos, mesmo quando utilizando a mesma equação (JÚNIOR, SOUSA e LEITE, 2017). O modelo de Cline é representado pela seguinte fórmula:
Atenção! Para visualização completa da equação utilize a rolagem horizontal
Como colocado, o Poder é o produto (multiplicação) de dois grupos distintos. No primeiro, temos “C”, representando a massa crítica, entendida como a soma do território e população (C = área territorial + tamanho da população). “E” simbolizando a força econômica do país (leva em conta Produto Nacional Bruto, obtenção de energia, obtenção de minérios não combustíveis, comércio internacional, produção industrial e alimentícia). E temos a variável “M”, correspondente à força militar.
É possível observar uma clara tendência, na composição do primeiro grupo, a elementos mais objetivos e menos suscetíveis às interpretações individuais. O segundo grupo permite uma gama mais variada de interpretações, em função de seu caráter mais subjetivo. Neste caso, para a variável “S”, entende-se o propósito estratégico da nação, medido pela abrangência estratégica da política externa. Na sequência, a variável “W” representa a vontade nacional, mensurada pelo grau de integração nacional, a força da liderança nacional e a relevância da estratégia para o interesse nacional (Júnior, Sousa e Leite, 2017).
O modelo de Cline data de 1994, mas foi precedido por numerosos modelos distintos. Chang (s.d., p. 5-7), por exemplo, explora algumas importantes formulações. O caso do modelo de Beckman, datado de 1984, confere grande importância ao aço, elemento fundamental da construção civil, naval e matéria-prima da indústria. Segundo a teoria de Backman, a mensuração do poder se dá por meio da fórmula:
P =[A +(P x Ep)] ÷ 2P =[A + (P x Ep)] ÷ 2
Atenção! Para visualização completa da equação utilize a rolagem horizontal
O “A” representa a porcentagem da participação do país na produção de aço global, “P” simboliza a população em porcentagem da população mundial e, por fim, “Ep” significa o grau de estabilidade política do país. Este modelo busca uma análise comparativa e focada principalmente em elementos que estão normalmente associados ao conceito de hard power, como é o caso do tamanho populacional e a dimensão da produção da indústria de base nacional.
Além dos modelos apresentados, Thales Castro (2012, p. 188) apresenta uma versão mais recente e brasileira de mensuração do poder no contexto da cratologia das Relações Internacionais, que data de 2005. Neste modelo, a fórmula obedece a seguinte estrutura:
Pi = ∑Ppd,Pef,Pc,Pm,Pg ÷ 5Pi = ∑Ppd,Pef,Pc,Pm,Pg ÷ 5
Atenção! Para visualização completa da equação utilize a rolagem horizontal
No modelo proposto, o poder internacional “Pi” é representado pelo somatório das variáveis que abrangem o poder político-diplomático “Ppd”, o poder econômico-financeiro “Pef”, o poder cultural “Pc”, o poder militar “Pm” e, por fim, o poder geodemográfico “Pg“, o que proporciona uma gama bastante ampla e variada de mensuração do poder no ambiente global. Nesta lógica, a soma das variáveis fornece resultados que oscilam entre 0 e 1.
REFLETINDO
Os modelos apresentados fornecem diferentes ferramentas de análise e mensuração do poder internacional dos Estados, no contexto do Sistema Internacional. Apesar das dificuldades de quantificar e calcular fenômenos, muitas vezes subjetivos, estsas formulações permitem que analistas de Relações Internacionais consigam:
· Estimar numericamente o acúmulo de poder de determinado ator das Ris;
· Fazer comparações usando séries históricas, a fim de observar o fortalecimento de determinado ator ou mesmo o seu processo de enfraquecimento.
Apesar das limitações mencionadas, outro ponto que chama a atenção é o fato dos elementos de soft power pouco aparecerem nos modelos trabalhados, sugerindo uma propensão teórica à teoria realista, no que diz respeito à mensuração do poder na arena internacional de Estados soberanos.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. AO CONSIDERAR O MODELO DE MENSURAÇÃO DE PODER INTERNACIONAL ELABORADO POR RAY CLINE, IDENTIFIQUE QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS LIMITAÇÕES ENCONTRADAS NA FÓRMULA MATEMÁTICA PROPOSTA POR SEU MODELO TEÓRICO P = (C + E = M) X (S + W):
Poder internacional mensurado apenas por variáveis objetivas.
Poder internacional mensurado por variáveis objetivas e subjetivas.
Poder internacional mensurado apenas por variáveis subjetivas.
Poder internacional mensurado por variáveis objetivas e econômicas.
Poder internacional mensurado por variáveis subjetivas e geopolíticas.
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2. DE ACORDO COM CASTRO (2012), DOIS GRUPOS DE ELEMENTOS SÃO IMPORTANTES PARA COMPREENDER E ANALISAR A CRATOLOGIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS. DE UM LADO, OS CAPITAIS DE FORÇA-PODER-INTERESSE (KFPI) E DE OUTRO OS PADRÕES DE DISSUASÃO-NORMAS-VALORES (PDNV). SEGUNDO ESTE MODELO TEÓRICO, QUAL É A RELAÇÃO ENTRE OS DOIS GRUPOS?
Os capitais Kfpi são complementares aos padrões Pdnv por serem ambos métricas do poder econômico das nações.
Os padrões Pdnv não possuem nenhuma relação com os capitais Kfpi por serem métricas de campos diferentes, sendo o primeiro voltado para as questões econômicas e o último para as questões militares.
Os capitais Kfpi são atribuídos ao uso da força como único recurso de poder disponível enquanto os padrões Pdnv são atribuídos ao uso exclusivo da força para conter guerras civis em seu próprio território.
d) Os padrões Pdnv são contrapontos aos capitais Kfpi, uma vez que os últimos dizem respeito ao uso da força voluntarista e os primeiros dizem respeito às normas e valores que buscam dissuadir os países a adotarem ações violentas sem respaldo.
Os capitais Kfpi são complementares aos padrões Pdnv por serem ambos métricas do poder cultural das nações
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GABARITO
1. Ao considerar o modelo de mensuração de poder internacionalelaborado por Ray Cline, identifique quais são as principais limitações encontradas na fórmula matemática proposta por seu modelo teórico P = (C + E = M) x (S + W):
A alternativa "B " está correta.
A fórmula de Cline representa o produto de dois grupos de variáveis, sendo o primeiro objetivo e o segundo composto por variáveis subjetivas e de difícil mensuração.
2. De acordo com Castro (2012), dois grupos de elementos são importantes para compreender e analisar a cratologia das Relações Internacionais. De um lado, os capitais de força-poder-interesse (Kfpi) e de outro os padrões de dissuasão-normas-valores (Pdnv). Segundo este modelo teórico, qual é a relação entre os dois grupos?
A alternativa "D " está correta.
Os capitais de força-poder-interesse (Kfpi) estão associados ao uso da força como instrumento de poder sem respaldo legal, apenas no voluntarismo do Estado. Assim, o contraponto representado pelos padrões de dissuasão-normas-valores (Pdnv) busca tornar custosa esta ação e fornecer elementos de punição aos Estados infratores.
MÓDULO 3
Reconhecer as bases para um novo debate teórico das Relações Internacionais
INTRODUÇÃO
AGORA, O PROFESSOR MARCELO GOMES PEREIRA DA SILVA COMENTA A IMPORTÂNCIA DO DEBATE E DA PLURALIDADE DE VOZES NA APRENDIZAGEM E COMPREENSÃO DE RI.
O presente módulo tem como objetivo principal apresentar uma nova proposta de modelo teórico. O leitor familiarizado com as teorias das Relações Internacionais já deve ter notado que a maioria das escolas e teorias predominantes nesta área de estudo são formuladas em universidades do exterior, sobretudo por teóricos baseados nos EUA e em países do continente europeu, o conhecido “norte global”.
Foto: Epicsunwarrior/Wikimedia commons/CC BY-SA 2.0) Edifício da Escola de Assuntos Internacionais da Universidade de Colúmbia, EUA.
Ao considerarmos que o Brasil está localizado, tanto geograficamente, quanto ideologicamente na porção sul do mundo, percebemos que é importante que as Relações Internacionais também sejam pensadas levando em consideração nossos pontos de vista e a criação de ferramentas de análise próprias para compreender e analisar o Sistema Internacional.
É bebendo dessa premissa que o professor pernambucano, Thales Castro (2012), lança as bases para a formulação de um novo debate teórico das Relações Internacionais, batizado de SEND – Sintetismo de Equilíbrio Normativo Dinâmico. Nosso principal objetivo neste módulo é apresentar este novo debate, de modo a permitir ao aluno identificar as bases desta nova discussão teórica no campo das Relações Internacionais, possibilitando comparações com os modelos tradicionais das RIs elaborados pelo Norte.
AS BASES DE UMA TEORIA: INTRODUÇÃO
Imagem: FUNAG – Fundação Alexandre de Gusmão/imagem isenta de direitos autorais Capa do livro Teoria das Relações Internacionais, de Thales Castro.
Antes de darmos início à discussão formulada por Castro, é importante conceituar alguns elementos a fim de permitir uma melhor compreensão sobre do que trata uma teoria. Algumas perguntas podem ser levantadas neste momento como: O que é uma teoria? Quais as regras para que uma teoria seja elaborada? O que diferencia uma teoria de um teorema? E, por fim, quem, afinal de contas, pode elaborar uma teoria? Com o objetivo de responder a essas questões, é que elaboramos a presente seção.
Comecemos, portanto, com o primeiro questionamento: o que é uma teoria? Segundo Dortier (2010, p. 610), a teoria é um “conjunto de conceitos, de proposições e de modelos articulados entre si cujo objetivo é explicar um fenômeno”, ou seja, trata-se de um grupo de ideias conectadas entre si que buscam esclarecer algum acontecimento, seja ele natural ou social. Isto quer dizer que teorias são elaboradas para explicar os acontecimentos da natureza ou da sociedade.
No caso em que estamos estudando, por exemplo, Castro elabora um conjunto de ideias para tentar explicar o que acontece nas Relações Internacionais. Segundo Jung (2009, p. 62), o saber científico é baseado em uma hierarquia que se inicia com as hipóteses científicas, e avança para as descobertas científicas, que apresentam comprovações da hipótese inicial. Na sequência, estão os modelos científicos, que apresentam uma estrutura lógica com base em experimentos e permitem a formulação de previsões. Em seguida, temos o objeto de análise deste módulo: as teorias científicas, que vão além das previsões e também permitem ações de controle de determinado fenômeno natural ou físico. Por fim, o grau mais elevado da hierarquia científica é ocupado pelas leis científicas, que adicionam um degrau mais elevado de confirmação empírica, o que se traduz em maior confiança naquilo que é proposto:
Hipóteses científicas
Descobertas científicas
Modelos científicos
Teorias científicas
Leis científicas
De forma simplificada, concluímos que quando uma teoria possui elementos mais robustos de confirmação e validação, passa a ser considerada como uma lei científica. Um exemplo são as Leis de Newton, consideradas como teorias verdadeiras e, portanto, pouco ou quase nunca contestadas. O modelo teórico ainda permite críticas, reformulações, atualizações e pode até ser considerada errada ou equivocada.
RESUMINDO
Fica evidente a importância dos debates teóricos a fim de que sejam validados, referendados com o objetivo de eventualmente serem comprovados e promovidos a leis científicas. Em nosso campo de estudos, de maneira mais abrangente, é difícil encontrar leis científicas em razão da complexidade e da volatilidade das relações humanas e seus consequentes desdobramentos.
Para dar sequência, vamos à segunda questão: quais as regras para que uma teoria seja elaborada. Assim como na religião, a ciência possui o seu próprio ritual, o que chamamos de método científico, ou seja, um conjunto de etapas e princípios que devem ser observados no momento da elaboração de uma teoria ou lei científica, por exemplo. Normalmente, durante o ensino médio, o método científico é apresentado nas disciplinas de biologia quando a Lei de Mendel, que é considerado o pai da genética, é ensinada. Fala-se muito sobre o método experimental do cientista que elaborou uma lei sobre hereditariedade, com base em seus experimentos de observação de ervilhas.
Imagem: Shutterstock.com
De forma geral, o método científico é bastante rigoroso e complexo. Seria preciso um tema inteiro para entrarmos nas peculiaridades desse método, mas podemos resumi-lo em algumas etapas.
Segundo Vicente (2008, p. 12-26), cada área do conhecimento possui suas próprias técnicas e um método próprio, mas a ciência, como um todo, compartilha de algumas premissas e etapas comuns. Nesse sentido, tendo o observador identificado um fenômeno a ser explicado, o passo inicial é composto pelos pressupostos do método – racionalidade, verdade, objetividade e realismo – que representam valores a serem seguidos em todas as etapas.
Foto: Shutterstock.com
Em seguida, temos a formulação de hipóteses, sucedida pela previsão do que é possível esperar como resultado. Assim, uma expectativa é criada antes da próxima etapa, o experimento. Nesta fase, busca-se testar as hipóteses a fim de verificar se fazem sentido ou não. Segundo Silva (2005, p. 22), após esta etapa de avaliação, os resultados permitem a corroboração e validação da hipótese, ou a sua rejeição e refutação, abrindo caminho para a criação de um novo avanço científico.
Por fim, vamos às últimas questões: o que diferencia uma teoria de um teorema e quem pode elaborar uma teoria? Primeiramente, para diferenciar os dois elementos é preciso explicar do que se trata um teorema. De acordo com Santos (2014, p.4), a definição de teorema é “uma proposição que pode ser demonstrada de uma maneira lógica a partir de um axioma ou de outros teoremas”. Ou seja, um teorema pode ser entendido como o raciocínio lógico aplicado a uma premissa existente, sugerindo uma suposição ou mesmo hipótese, assim como no método científico.
A diferença principal é que os teoremas são mais comuns no universo da Matemática (basicamenteum diferente nome dado às hipóteses do método científico). Finalmente, a última questão é sobre quem pode elaborar uma teoria, e a resposta é a mais simples: todas as pessoas de uma área de estudos que sigam minuciosamente o método científico.
As teorias, para serem validadas, precisam seguir as regras e serem aceitas pela comunidade científica. Para isso, precisam ser elaboradas e conhecidas, ou seja, devem ser escritas e publicadas em revistas ou livros especializados, debatidas e apresentadas em eventos, como congressos, simpósios ou encontros científicos.
UM NOVO DEBATE: O SINTETISMO DE EQUILÍBRIO NORMATIVO DINÂMICO – SEND
O novo debate apresentado por Castro (2012, p. 410-412) tem como objetivo fornecer ferramentas analíticas para a compreensão dos fenômenos das Relações Internacionais, focando a forma de agir dos atores, com a utilização de duas funções principais: descrever e explicar.
O Sintetismo de Equilíbrio Normativo Dinâmico – SEND – busca se distanciar das dicotomias que caracterizam a relação entre as teorias realista e liberal, por compreender que os processos decisórios dos Estados são complexos. E também levam em consideração mais elementos do que os descritos por essas teorias, que evidenciam um determinismo fatalista, reconhecendo, ainda, as próprias limitações da ciência de compreender e englobar todas as suas nuances.
Autodeclarada como não sendo uma escola central das Relações Internacionais (CASTRO, 2012, p. 412-413), o Sintetismo de Equilíbrio Normativo Dinâmico possui como parte de sua metodologia de análise os princípios da simetria, pertinência e direcionalidade. Este novo debate tem como pressuposto a ideia (trabalhada no módulo anterior) sobre a dicotomia entre os capitais de força-poder-interesse (Kfpi) e os padrões de dissuasão-normas-valores (Pdvn), e aposta nesta relação como sendo central para a compreensão da síntese.
Foto: Tnt1984 /Wikimedia commons/CC BY-SA 2.0 e Hazhk/Wikimedia commons/KOGL Tipo 1) Míssil balístico da Coreia do Norte e Líderes das Coreias do Norte e do Sul encontram-se na Cúpula inter-coreana de 2018.
Isto quer dizer que a força (Kfpi), compreendida como o uso voluntário da violência de um Estado contra outro, é contraposta por outro elemento, no caso, a dissuasão (Pdvn). Já o poder (Kfpi), entendido como o poder de coação, é contrabalanceado pelas normas jurídicas internacionais (Pdvn). Os interesses (Kfpi), por sua vez, são compensados pelos valores (Pdvn).
Esse debate coloca no centro da análise os pesos e contrapesos como elementos centrais da análise internacional. Sendo a força freada pela dissuasão, o poder pelas normas e os interesses pelos valores, representando a principal forma de encaminhar o comportamento dos atores estatais no Sistema Internacional, tal como está colocado.
A síntese, portanto, se refere à oposição entre os capitais de força-poder-interesse e os padrões de dissuasão-normas-valores, que resulta no “equilíbrio sintético do comportamento normativo” global. Por fim, observamos que os elementos da síntese (Pdvn e Kfpi) formam a busca harmoniosa e equilibrada de seu comportamento, com base nas normas internacionais entre os povos, o que resulta em paz, estabilidade e segurança internacional.
Dessa forma, as relações entre os atores estatais, no âmbito das Relações Internacionais, devem buscar o equilíbrio entre os capitais de força-poder-interesse e os padrões de dissuasão-normas-valores.
ATENÇÃO
Isso quer dizer que a busca pela paz mundial, pela estabilidade do Sistema Internacional e pela segurança global deve levar em consideração esse equilíbrio. A partir do momento em que um Estado calcula e nota que um ataque violento e injustificado a outro Estado não lhe trará consequências fortes o suficiente, toda a paz mundial encontra-se em perigo. Portanto, em situações como esta, é preciso reforçar o arcabouço de padrões de dissuasão-normas-valores, a fim de evitar a predominância dos capitais de força-poder-interesse.
REFLEXÃO
O conteúdo deste módulo teve como objetivo apresentar, de maneira geral, o que é uma teoria e responder a algumas perguntas que emergem quando pensamos na criação de uma nova teoria científica. Deste modo, além de apresentar de maneira superficial as bases do novo debate teórico elaborado pelo professor brasileiro Thales Castro, buscamos conceituar elementos importantes para a compreensão deste resultado.
Com base no conteúdo trabalhado no módulo, a principal finalidade é que você reconheça as bases para um novo debate teórico das Relações Internacionais, tendo os conceitos claros sobre o que é uma teoria e qual a sua importância no âmbito do desenvolvimento científico.
Isso comprova a relevância de um debate brasileiro das Relações Internacionais e suas implicações para este campo do conhecimento científico, reconhecendo como uma importante característica o embate entre os elementos de violência e uso da força. Estes, por sua vez, são balanceados por elementos de dissuasão, cooperação e normas internacionais, cujo resultado esperado é a estabilidade e a paz do Sistema Internacional de Estados soberanos.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. AO CONSIDERARMOS O DEBATE PROPOSTO POR THALES CASTRO (2012), APONTE DENTRE AS ALTERNATIVAS QUAL REPRESENTA A BASE DO NOVO DEBATE TEÓRICO BRASILEIRO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS A FIM DE GARANTIR A ESTABILIDADE DO SISTEMA INTERNACIONAL.
O equilíbrio entre os antagônicos capitais de força-poder-interesse e os padrões de dissuasão-normas-valores.
O desequilíbrio entre os capitais de força-poder-interesse e os padrões de dissuasão-normas-valores.
Os capitais de força-poder-interesse devem ser superiores aos padrões de dissuasão-normas-valores.
Os padrões de dissuasão-normas-valores não possuem relação nenhuma com os capitais de força-poder-interesse.
Os capitais de força-poder-interesse dizem respeito à cooperação e os padrões de dissuasão-normas-valores versam sobre a guerra.
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2. DE ACORDO COM AS CONCEITUAÇÕES APRESENTADAS, IDENTIFIQUE QUE ALTERNATIVA CORRETAMENTE DEFINE O QUE É UMA TEORIA CIENTÍFICA:
Teoria é uma proposição que pode ser demonstrada de uma maneira lógica a partir de um axioma ou de outros teoremas.
Teorias são conjuntos de processos e métodos de análise científica e que são observadas somente em laboratórios químicos para comprovação.
Uma teoria representa um grupo de ideias conectadas entre si que buscam esclarecer algum acontecimento.
Os teoremas são proposições que podem ser demonstradas de maneira lógica a partir de um axioma ou de outros teoremas.
Teorias são conjuntos de crenças populares que buscam explicar eventos paranormais, como é o caso das teorias da conspiração.
Parte inferior do formulário
GABARITO
1. Ao considerarmos o debate proposto por Thales Castro (2012), aponte dentre as alternativas qual representa a base do novo debate teórico brasileiro das Relações Internacionais a fim de garantir a estabilidade do Sistema Internacional.
A alternativa "A " está correta.
O novo debate teórico de Castro defende o equilíbrio entre os opostos elementos dos capitais de força-poder-interesse e os padrões de dissuasão-normas-valores como centrais para a paz, segurança e estabilidade do Sistema Internacional.
2. De acordo com as conceituações apresentadas, identifique que alternativa corretamente define o que é uma teoria científica:
A alternativa "C " está correta.
Segundo Dortier (2010, p. 610), a teoria é um “conjunto de conceitos, de proposições e de modelos articulados entre si cujo objetivo é explicar um fenômeno”, ou seja, trata-se de um grupo de ideias conectadas entre si que buscam esclarecer algum acontecimento, seja ele natural ou social.
MÓDULO 4
Distinguir as peculiaridades das relações diplomáticas e consulares
INTRODUÇÃO
AGORA, O PROFESSOR MARCELO GOMES PEREIRA DA SILVA APRESENTA CONCEITOS IMPORTANTES PARA O PROFISSIONAL DE RI. ASSISTA!
Imagem: Diplomatariobranco/Wikimedia commons/CC BY-SA 4.0. Instituto Rio Branco, academia diplomática do Brasil,em Brasília (DF).
A expressão do Brasil no âmbito das Relações Internacionais é conduzida em três níveis distintos e, ao mesmo tempo, complementares: por meio da diplomacia nacional, de suas atividades consulares e, crescentemente, por meio da projeção paradiplomática dos entes subnacionais, em diferentes campos.
A DIPLOMACIA NO BRASIL
A história da diplomacia brasileira inclui diferentes momentos e períodos. A cada novo chefe de Estado, as diretrizes da política externa sofrem alterações e, por conseguinte, a forma como o país se projeta no exterior sofre mudanças, por vezes, muito pequenas. No entanto, ocasionalmente, verdadeiras revoluções são implementadas. Nem sempre as guinadas são possíveis em algumas áreas, visto que a Constituição Federal de 1988 estabelece os princípios da política externa.
A diplomacia brasileira possui três importantes instituições como seus principais atores:
Foto: Shutterstock.com
Ministério das Relações Exteriores (MRE)
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Presidência da República
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Congresso Nacional
O Ministério das Relações Exteriores, também apelidado de Itamaraty, em referência ao Palácio do Itamaraty — sua sede histórica de tonalidade rosada na cidade do Rio de Janeiro —, é o principal órgão executivo responsável pela operacionalização da diplomacia brasileira. Está subordinado à Presidência da República e é reconhecida como a casa dos diplomatas do Brasil. Suas principais autoridades são o Ministro de Estado das Relações Exteriores e o Secretário-Geral das Relações Exteriores, indicado pelo primeiro.
O MRE é responsável por assistir a Presidência na formulação da política externa bem como representar o Brasil junto às nações estrangeiras e aos órgãos multilaterais, como as Nações Unidas, contabilizando cerca de 220 representações no mundo todo.
Além disso, está em suas atribuições a assistência aos brasileiros no exterior, a promoção de empresas brasileiras fora do país e também a atração de investimentos estrangeiros para o Brasil. Toda a organização das visitas de Estado às nações estrangeiras ou aos foros multilaterais é encabeçada pelo MRE, bem como são preparadas também as recepções às comitivas internacionais e as visitas de chefes de Estado (MRE, 2021).
ATENÇÃO
A estrutura do Itamaraty é composta, principalmente, por duas categorias de servidores: os diplomatas e os oficiais de chancelaria. A carreira de diplomata é a de maior prestígio no âmbito da instituição e seu ingresso acontece por meio do Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, o famoso CACD. Após uma dura seleção, tradicionalmente realizada pelo CEBRASPE, o centro de seleção da Universidade de Brasília, os aprovados passam por uma preparação no Instituto Rio Branco, a escola de formação de diplomatas do governo brasileiro. Ali, aulas sobre política, organismos internacionais, tratados e idiomas são ministradas.
Após a conclusão do curso, os diplomatas na função de terceiros-secretários realizam estágio em diversas áreas do Ministério, em Brasília, e após a conclusão escolhem, na medida do possível, onde preferem ser alocados na estrutura da instituição (Instituto Rio Branco, s.d.).
A carreira diplomática é composta por diferentes níveis hierárquicos, iniciando com o cargo de terceiro-secretário e seguido pelos cargos de segundo-secretário e primeiro-secretário. A partir de então, o diplomata sobe para a segunda parte da carreira, onde conexões, formação acadêmica e experiência no exterior contam bastante.
O primeiro cargo desta etapa é o de Conselheiro, seguido pelo de Ministro de Segunda Classe (por vezes nomeados cônsules no exterior) e, por fim, Ministro de Primeira Classe (Embaixador).
A outra carreira do MRE de que vamos tratar é a dos oficiais de chancelaria. Esta classe de funcionários públicos ocupa funções no Brasil e no exterior, com o desempenho de práticas administrativas e técnicas, precisamente "atividades de formulação, implementação e execução dos atos de análise técnica e gestão administrativa necessários ao desenvolvimento da política externa brasileira", conforme estabelecido pela Lei nº 11.440 (BRASIL, 2006 ). Algumas das funções desempenhadas podem incluir a elaboração e acompanhamento de licitações públicas para mantimentos, serviços ou contratos do Ministério, além do desempenho de atividades administrativas, orçamentárias e de gestão de recursos humanos.
Ao dar continuidade, temos a Presidência da República, de onde toda a legitimidade e a autoridade emana. Neste contexto, destacamos as autoridades do Presidente da República e da Assessoria Internacional da Presidência como as principais ligadas ao Palácio do Planalto. Além disso, um importante órgão do Palácio é o cerimonial, que coordena, juntamente ao MRE, as cerimônias que envolvem o Presidente da República. Não é incomum que diplomatas assumam o cargo de chefe do cerimonial do Planalto.
Foto: Limongi/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0 Gabinete Presidencial do Palácio do Planalto, em Brasília (DF).
À Presidência cabe a elaboração e formulação da política externa a ser implementada e a condução da chamada diplomacia presidencial, que consiste na diplomacia realizada pela própria figura do presidente.
Normalmente, a diplomacia presidencial é muito utilizada na visita aos demais presidentes estrangeiros e durante a participação em foros internacionais, como é o caso do Fórum Econômico Mundial, em Davos; da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York; ou das reuniões dos BRICS, Mercosul, CPLP. A Assessoria Internacional da Presidência é composta por um gabinete que acompanha, juntamente ao membros do Itamaraty, a rotina internacional do presidente, seja em recepções no Palácio do Planalto, em ligações telefônicas a outros presidentes, elaboração de notas oficiais, visitas internacionais ou mesmo durante a recepção de embaixadores estrangeiros.
Por fim, temos o Congresso Nacional como um importante player da seara diplomática brasileira. É importante lembrar que compete às casas legislativas federais validar, refutar ou denunciar a incorporação de tratados internacionais, assinados pelo presidente ou por representantes do Itamaraty, ao ordenamento jurídico brasileiro. Além disso, cabe a este ator as declarações de guerra, as condições de armistícios, a aprovação das nomeações presidenciais para os cargos de embaixadores no exterior, as autorizações de viagem internacional do Presidente ou Vice-Presidente, entre outras questões. Estas ações são desenvolvidas tanto pela Comissão Permanente de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados quanto pela de mesmo nome do Senado Federal (Senado Federal, s.d .).
Apesar de frisarmos a existência de três principais atores no desenvolvimento e na condução da diplomacia brasileira, outras instituições também possuem atuação nesta seara. Praticamente todos os Ministérios possuem algum tipo de assessoria ou departamento internacional que busca garantir o diálogo com seus pares estrangeiros e agência especializadas internacionais.
Igualmente, o Poder Judiciário e o Ministério Público possuem mecanismos de cooperação internacionais. Até mesmo departamentos dentro dos Ministérios possuem atuação global, como: o relacionamento do Departamento de Polícia Federal do Ministério da Justiça e Segurança Pública com a Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal) ou do Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI), subordinado ao Ministério da Economia, em constante contato com a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). Além disso, as Forças Armadas brasileiras também possuem instrumentos de cooperação internacional, com participações em treinamentos militares em outros países e até se envolvem em missões de paz das Nações Unidas, como no caso do Haiti, na América Central, e da República Democrática do Congo, na África.
AS QUESTÕES CONSULARES NO BRASIL
Uma distinção importante entre as práticas estatais diplomáticas e consulares reside nos objetivos específicos de cada área. Conforme indicado por Thales Castro (2012, p. 497),que também é cônsul honorário de Malta no Recife, a Convenção de Viena sobre Relações Consulares, de 1963, estabelece as principais atribuições da atividade consular. Em resumo, a prática consular se ocupa da assistência aos nacionais no exterior, da coleta de informações a respeito do país em que se situa nos mais variados campos, como o econômico, social, político, acadêmico, cultural, tecnológico ou militar.
Ademais, também inclui entre as funções a representação do Estado acreditante (o país que envia seu representante) junto ao acreditado (o país que recebe o representante) e a proteção dos interesses nacionais naquele território. Esta convenção sucedeu a Convenção de Viena sobre Relações Diplomática, dois anos antes, em 1961, que estabeleceu dispositivos importantes da proteção aos representantes diplomáticos de um país, como é o caso dos privilégios e do instituto da imunidade diplomática.
De forma geral, este último dispositivo determina que os agentes diplomáticos acreditados em país estrangeiro possuam imunidade de jurisdição, ou seja, apesar de se encontrarem num país com regras estrangeiras, ainda estão submetidos às leis de seu país de origem, a quem representam no exterior.
Em termos práticos, isto quer dizer que diplomatas e alguns membros do corpo consular estão, teoricamente, isentos dos impostos incidentes no país onde servem, devendo pagar imposto de renda somente no país de origem. Da mesma forma, ao adquirir um veículo naquele país ou importar um de seu país de origem, não devem pagar os impostos incidentes.
Para além do campo tributário, no campo civil e penal também há imunidades. Multas de trânsito não são aplicadas a estes profissionais que, inclusive, costumam transitar com placas diferenciadas nos carros. No Brasil, antes da transição para o padrão Mercosul de placas, as delegações estrangeiras possuíam placas com coloração azul, que distinguia os carros com imunidade dos demais veículos. Há casos conhecidos em que agentes diplomáticos cometeram crimes no exterior e não puderam ser presos em função da imunidade. Para que a prisão ocorra, o país acreditante deve revogar a imunidade daquele agente. Se isto não ocorrer, o país acreditado pode considerar o agente como persona non grata e exigir que deixe o país em questão de horas.
Ao levar em conta que o objetivo principal da atividade consular é a assistência aos nacionais no exterior, observamos também uma confusão comum entre o papel dos consulados e das embaixadas.
Foto: Luis dantas/Wikimedia commons/Domínio Público. Embaixada dos EUA em Brasília (DF).
As embaixadas são representações diplomáticas que ficam sediadas na capital política do país acreditado. Normalmente, só há uma embaixada por país, que se ocupa de assuntos predominantemente políticos e diplomáticos. Algumas embaixadas possuem atuação mais ampla incluindo setores como os de promoção comercial, intercâmbio acadêmico ou mesmo consular.
No entanto, nem sempre é o caso. Cabe, muitas vezes, aos consulados o papel de assistir a população nacional com a emissão de documentos, como passaportes, certificados, reconhecimento de firma, laissez-passer, entre outros.
Igualmente, prestam serviços à população estrangeira, como a emissão de vistos de turismo e outras modalidades previstas na legislação. Em muitos casos, compete também aos consulados a promoção comercial, de cooperação educacional, cultural e de outros assuntos no país acreditado, o que comprova a importância desta esfera de atuação na promoção dos interesses nacionais em território estrangeiro.
A PARADIPLOMACIA NO BRASIL
Para além das relações diplomáticas e consulares no nível federal, tem sido, cada vez maior, a atuações dos entes subnacionais, ou seja, daqueles que se encontram abaixo do ente nacional (Governo Federal) em sua própria atuação diplomática, que recebe o nome de paradiplomacia, sugerindo uma espécie de diplomacia paralela àquela realizada em nível federal.
A paradiplomacia, no Brasil, passou por um processo de expansão nos últimos anos e apresenta-se cada vez mais consolidada. Governos estaduais possuem assessorias, coordenações, gabinetes e, por vezes, até secretarias de assuntos internacionais que se ocupam dos assuntos paradiplomáticos e consulares de interesse.
No âmbito da atuação, suas principais atividades incluem: a assistência de seus cidadãos no exterior, a promoção comercial de empresas estaduais, e até mesmo, a atração de empresas e investimentos estrangeiros. O estado de Goiás, por exemplo, no intuito de assistir seus cidadãos no exterior criou, em 2005, o FUAVE - Fundo de Auxílio Funerário aos Goianos Vitimados no Exterior (GOIÁS, 2005 ).
Apesar da maior musculatura dos governos estaduais, os municípios brasileiros também têm se lançado nesta área, com destacada atuação. A criação de fóruns de debate, de compartilhamento de boas práticas e ações coordenadas, como é o caso do FONARI — O Fórum Nacional de Secretários e Gestores de Relações Internacionais – fortalece a atuação e contribui com a busca por melhores oportunidades de financiamento, atração de investimentos ou mesmo, conhecer projetos de mobilidade urbana, saneamento ou segurança pública, implementando processos de policy learning (aprendizagem de políticas públicas).
Imagem: ESCRITÓRIO DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS – EAI-DF/sem política de direitos de uso.
Além dos fóruns, existem também redes de cidades ao redor do mundo que funcionam como espaços de compartilhamento e trocas de experiências entre municípios de diferentes países. É o caso, por exemplo, da rede Mercocidades, composta por cidades de países membros do Mercosul, e o movimento Eurocities, composta por cidades de maior porte localizadas nos países membros da União Europeia.
Com uma atuação crescente, municípios e governos estaduais se movimentam no sentido de também influenciar a diplomacia nacional, buscando adquirir maior espaço nas decisões que afetam, também, os entes subnacionais.
Até pouco tempo, se discutia, no Brasil, a criação de um Conselho Nacional de Política Externa, que buscava conferir maior transparência, representatividade e legitimidade ao processo de formulação da política externa brasileira, que dita o tom e fornece as bases para as atividades diplomáticas e consulares do país. Assim, nota-se um gradativo processo de descentralização da diplomacia nacional, que acaba sendo influenciada por uma gama maior e mais diversa de atores e de interesses, fortalecendo a participação social.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
Parte superior do formulário
1. AO CONSIDERARMOS A CONVENÇÃO DE VIENA SOBRE RELAÇÕES CONSULARES, DE 1963, ASSINALE A ALTERNATIVA QUE CORRETAMENTE INDICA AS PRINCIPAIS ATIVIDADES DA PRÁTICA CONSULAR:
Assistir os estrangeiros que buscam o consulado em busca de ajuda, e informar o país acreditante sobre os aspectos culturais, políticos, econômicos e sociais do país acreditado.
Assistir os nacionais no exterior, coletar informações acerca do país em que se situa nos mais variados campos, representar o Estado acreditante e proteger os interesses nacionais no exterior.
Representar o Brasil junto aos foros de negociação multilaterais por meio dos documentos oficiais de posição e telegramas diplomáticos.
Emitir vistos e outros documentos necessários aos cidadãos nacionais no exterior.
Assistir os nacionais no exterior, coletando informações sigilosas de espionagem e propriedade intelectual a fim de garantir o acesso às novas tecnologias da informação.
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2. DE ACORDO COM AS CONCEITUAÇÕES APRESENTADAS, IDENTIFIQUE A ALTERNATIVA QUE DISTINGUE AS PECULIARIDADES DAS RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS E CONSULARES:
As relações diplomáticas são conduzias pelos entes subnacionais ao passo que as atividades consulares são voltadas para a população nacional.
As relações consulares são conduzidas exclusivamente pelas embaixadas que buscam a aproximação política entre os países utilizando a diplomacia como principal ferramenta.
A diplomacia busca assistir os cidadãos residentes no exterior e a atividade consularatua na aproximação política entre os países.
Enquanto a diplomacia é conduzida pelo Governo Federal, as relações consulares são elaboradas pelos entes subnacionais: estados e municípios.
Ambas são conduzidas pelo ente nacional, sendo a diplomacia responsável principalmente pela condução da política externa do Estado enquanto a atividade consular é focada na assistência aos nacionais fora do país.
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GABARITO
1. Ao considerarmos a Convenção de Viena sobre Relações Consulares, de 1963, assinale a alternativa que corretamente indica as principais atividades da prática consular:
A alternativa "B " está correta.
Conforme indicado por Thales Castro (2012, p. 497) , a Convenção de Viena sobre Relações Consulares, de 1963, estabelece as principais atribuições da atividade consular, em resumo, a assistência aos nacionais no exterior, coletar informações acerca do país em que se situa nos mais variados campos como o econômico, social, político, acadêmico, cultural, tecnológico ou militar. Além disso, também inclui entre as funções a representação do Estado acreditante (o país que envia seu representante) junto ao acreditado (o país que recebe o representante) e a proteção dos interesses nacionais naquele território.
2. De acordo com as conceituações apresentadas, identifique a alternativa que distingue as peculiaridades das relações diplomáticas e consulares:
A alternativa "E " está correta.
A prática diplomática é voltada para a elaboração e operacionalização da política externa nacional, ao passo em que as atividades consulares são voltadas para a assistência dos nacionais no exterior.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Buscamos apresentar, de maneira introdutória, os principais assuntos que envolvem a cratologia das Relações Internacionais, com o objetivo de permitir a você interpretar os fenômenos internacionais à luz das relações de poderes internacionais, mensurar as relações de poder no Sistema Internacional, reconhecer as bases para um novo debate teórico das Relações Internacionais e, por fim, distinguir as peculiaridades das relações diplomáticas e consulares. Em função da complexidade dos assuntos abordados aqui, limitamos o conteúdo ao primordial, a fim de permitir uma compreensão mais abrangente sobre o assunto.
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VICENTE, R. Método Científico. São Paulo: EACH-USP, 2008.
EXPLORE+
Para saber mais sobre os assuntos tratados neste conteúdo, leia:
· Teoria das Relações Internacionais, de Thales Castro, publicado pela Fundação Alexandre de Gusmão, vinculada ao Ministério das Relações Exteriores.
· Manual do candidato: política internacional, da professora Cristina Pecequilo, publicado pela FUNAG.
· História da política exterior do Brasil, de Clodoaldo Bueno e Amado Luiz Cervo, publicado pela Universidade de Brasília.
· O artigo EUA se opõem a nigeriana para dirigir a OMC e irritam países membros, da FOLHA DE S. PAULO, 2020.
DESCRIÇÃO
A origem do Estado no sistema internacional, seu papel nas relações interestatais, as ferramentas de projeção de poder, distinção entre Estado e Nação, aspectos e relações das políticas domésticas e internacionais.
PROPÓSITO
A compreensão sobre o comportamento dos Estados, sua origem e elementos de poder é central para o estudante de Relações Internacionais e áreas correlatas. A reflexão crítica sobre quem são os principais agentes no cenário internacional, as motivações das suas escolhas políticas e como interagem entre si é essencial para uma consideração sofisticada da arquitetura global.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Identificar as principais características do Estado nacional moderno, suas instituições e seus modelos políticos
MÓDULO 2
Definir as ferramentas de análise do poder dos Estados e as razões para conflitos e guerras
MÓDULO 3
Identificar aspectos da geopolítica doméstica e internacional
MÓDULO 4
Reconhecer as conexões e a relação entre política interna e externa
INTRODUÇÃO
Neste conteúdo, vamos teorizar sobre o poder em relações internacionais, o que nos remete à necessidade de compreender o que é um Estado moderno e como sua dinâmica funciona – tudo isso como um grande organismo ou máquina –, e quais são as ferramentas que os agentes do Estado podem utilizar para se relacionar com tais dinâmicas.
Em cada um dos módulos, buscaremos ampliar o entendimento do processo, partindo de sua definição mais básica e funcional, até atingir a sua dimensão mais complexas e como os Estados dinamizam as políticas internas e externas entre si, mantendo dessa forma processos sociais reconhecíveis.
É necessário pontuar que a terminologia estatologia, isto é, o estudo do Estado, é “clássica” no sentido de que foi exaustivamente utilizada em uma abordagem das relações internacionais mais tradicionais, que atribuíam peso central ao Estado. No entanto, ainda que muito modificado, perceber o papel do Estado como ente fundamental das relações contemporâneas reforça a demanda de sua ampla compreensão.
MÓDULO 1
Identificar as principais características do Estado nacional moderno, suas instituições e seus modelos políticos
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Imagem: RTG/Wikimedia commons/Domínio Público Detalhe da primeira capa da obra Leviatã, escrita por Thomas Hobbes em 1651.
A Estatologia, ou Estatismo, surgiu na França e depois se espalhou por toda a Europa no final do século XIX e início do século XX. Essa percepção política parte do princípio de que o Estado é o principal ator político, tanto no campo doméstico quanto internacional. É importante reforçar que antes mesmo desse momento histórico, tais perspectivas já eram apontadas por inúmeros teóricos.
Niccolò Maquiavel e Francesco Guicciardini (CORTINA, 2000), por exemplo, cunharam a palavra Stato no início do séculoXVI, abrindo caminho para reflexões que já indicavam que a supremacia senhorial sobre uma política territorial estaria gradualmente sendo despersonalizada, com o reforço de uma lógica conceitual que indicava a centralidade da ordem política.
No século XVII, o filósofo inglês Thomas Hobbes (2005, p. 12) identifica o Estado como o “Deus mortal, ao qual devemos nossa paz e defesa”, ou seja, uma autoridade final e suprema. Hobbes alegou que não havia poder na terra que pudesse ser comparado ao “Leviatã”, isto é, o Estado, o “deus mortal”, sendo o ponto de partida para todo o pensamento e prática política.
Seguindo essa lógica, podemos considerar o Estado como central também para o estudo das relações internacionais e assim permanecerá por longo prazo – a política de Estado é o objeto de análise, historicamente, mais comum em pesquisas internacionais.
Imagem: Dcoetzee/Wikimedia commons/Domínio Público Thomas Hobbes, por John Michael Wright (1670).
Apenas como exemplo dessa importância, podemos reforçar que são os Estados que decidem ir para a guerra, que estabelecem políticas comerciais, organizam vacinações globais em pandemias, traçam padrões ambientais, entre outras questões. É ainda o Estado quem celebra acordos internacionais e opta por acatar ou não suas considerações.
Portanto, compreender as narrativas de formação do Estado, tanto no chamado norte quanto no sul global, nos auxilia a entender a maneira como as nações se comportam internacionalmente e suas diferentes estratégias.
SISTEMA MODERNO DE ESTADOS
As relações internacionais como uma disciplina preocupam-se principalmente com o que os Estados fazem no cenário mundial e, por sua vez, como suas ações afetam outras nações.
Os Estados são uma unidade comum de análise nas principais teorias da disciplina, com muitos analistas focando as interações estatais para explicar os padrões observados da política mundial. São também fundamentais para o neorrealismo (WALTZ, 2010) e o institucionalismo neoliberal (KEOHANE, 2015), por exemplo, e também para muitas teorias construtivistas e a escola inglesa (BULL, 1977).
Mesmo as teorias críticas, pós-modernas ou feministas, que surgiram em oposição às formas existentes de poder social, muitas vezes se concentram na desconstrução das práticas estatais. Tanto como objeto quanto como unidade de análise, as relações internacionais dizem respeito, em grande parte, aos Estados.
Nas relações internacionais, o Estado normalmente é descrito como uma entidade política com território delimitado e população. Esse agente jurídico é detentor de uma dupla soberania: a primeira é a interna, que significa o monopólio do uso legítimo da violência.
Esta é, atualmente, uma característica única das nações: apesar de outros atores, como grupos criminosos ou terroristas, empregarem da força em determinado espaço, os Estados são os únicos reconhecidos como legítimos para fazê-la. Isso se dá no que entendemos como soberania externa, que é justamente o ato de reconhecimento, por outros Estados, da autoridade em determinado espaço.
Importante frisar que isso não é ponto pacífico nas relações internacionais. Os infelizmente atualíssimos embates entre Israel e a Palestina passam justamente por esses pontos. Para alguns países, determinado território deveria ser soberanamente administrado por palestinos, enquanto outros reconhecem o direito de Tel Aviv. Tradicionalmente, guerras entre Estados envolvem disputas por soberania de determinado espaço.
Imagem: Aavindraa/Wikimedia commons/Domínio Público A Ratificação do Tratado em Münster, por Gerard ter Borch (1648).
O moderno sistema de Estados surgiu na Europa, com o desenvolvimento do direito internacional. O momento escolhido por historiadores para demarcar esse processo, em termos jurídicos, foi o Tratado de Westfalia, de 1648, após trinta anos de guerra entre principados e autoridades religiosas.
O tratado afirmava que os principados individuais podiam escolher sua religião livremente, independentemente do controle imperial ou papal. Esse foi um longo passo em direção à ideia de Estados territoriais autônomos, soberanos e formalmente iguais.
O sistema de governança, religião pública e princípios econômicos poderia ser moldado sem interferência externa. Essa ideia de soberania do Estado foi elaborada na teoria do direito internacional por escritores do século XVIII, como Christian Wolf e Emmerich de Vattel, posteriormente confirmada em uma série de tratados internacionais, mais bem materializadas na convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) de 1945. O efeito de longo prazo do Tratado de Westfalia foi a delimitação contemporânea do globo em Estados constitucionalmente soberanos.
Foto: YiFeiBot/Wikimedia commons/Domínio Público Edifício sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, EUA.
As formalidades legais da consolidação do Estado europeu foram pautadas por transformações tecnológicas e socioeconômicas. A centralização política era um pré-requisito para a extração econômica necessária ao financiamento dos exércitos permanentes.
Foto: M. Armando/Wikimedia commons/Domínio Público Max Weber em 1918.
O Estado moderno foi caracterizado por Max Weber (2009) como um monopólio da força legítima e por Joseph Schumpeter (1961) como um monopólio da tributação. Assim, a construção do Estado moderno pode ser descrita como o aumento do controle territorial pela força – exército, polícia e burocracia – de um lado e tributação efetiva do outro.
Novos recursos são então controlados pela autoridade central, com uma burocracia estatal especializada como pré-requisito para esse tipo de controle e, por sua vez, reforçada por ela. A ideia de Estado moderno de Weber combina o monopólio da violência física com legitimidade e territorialidade: sem essas características, haveria anarquia. A ambição fundamental da autoridade estatal é legitimar a estrutura de dominação.
É também nesse momento em que a guerra pode ser interpretada como elemento central na compreensão do surgimento do Estado e seu funcionamento, na medida em que as práticas bélicas foram centrais no desenvolvimento de exércitos permanentes e na produção de armamento de campo e artilharia pesada.
SAIBA MAIS
O poder central do Estado foi fortalecido, enquanto a antiga aristocracia feudal perdeu suas vantagens militares. A cavalaria blindada tornou-se obsoleta, as fortificações locais não eram mais defensáveis e as tropas contratadas e os exércitos alistados estavam além dos meios financeiros da nobreza local. A tecnologia de guerra minou a posição da aristocracia feudal em vantagem da centralização monárquica, em plena condição de criar nações modernas ocidentais.
Com a centralização política e a expansão econômica, a capacidade para a guerra aumentou proporcionalmente. As perspectivas de Weber e Schumpeter ecoam na famosa frase de Charles Tilly (1992, p. 65), de que “a guerra fez o Estado, e o Estado fez a guerra”.
FORMAÇÃO DE ESTADOS NO SUL GLOBAL
É importante apontar que esse processo de formação se dá em modelos típicos da Europa. Historicamente, a formação do Estado na África, Ásia e Américas assumiu uma variedade de outras formas.
Imagem: BetacommandBot/Wikimedia commons/Domínio Público
Mapa da África Ocidental (1736), com apontamentos sobre o que pertence a Inglaterra, Holanda, Dinamarca, entre outros países europeus.
As chefias pré-coloniais na África eram políticas centralizadas com grandes territórios e, frequentemente, com centenas de milhares de habitantes, alguns deles intactos até o ataque da colonização europeia.
Imagem: ZxxZxxZ/Wikimedia commons/Domínio Público
Um mapa da Ásia de 1796.
Os impérios asiáticos evoluíram em uma rivalidade contínua entre sociedades nômades e sedentárias; até mesmo na longa história das dinastias chinesas eram altamente dependentes das fortificações de fronteira e dos desafios externos.
Imagem: Higgenhorscht/Wikimedia commons/CC BY-SA 1.0
Mapa do continente americano de 1859.
Os reinos indígenas na Mesoamérica e na América do Sul foram unificados na defesa contra triboshostis até que as tecnologias e doenças dos conquistadores europeus os derrubaram.
Esses exemplos de formação inicial do Estado não levaram continuamente ao mundo contemporâneo. As trajetórias políticas foram rompidas pela revolução, como na China, ou pela ocupação e pelo controle colonial, como na África e – antes – nas Américas. A formação do Estado pós-colonial é uma mistura complexa de mudanças endógenas e exógenas, com as novas condições internacionais como um fator crucial.
A criação do Estado moderno se expandiu por todo o mundo em quatro grandes ondas durante os últimos duzentos anos:
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A formação de repúblicas independentes nas Américas a partir do final do século XVIII.
A dissolução dos impérios Otomano e Habsburgo durante a Primeira Guerra Mundial.
A descolonização – a dissolução dos impérios europeus no exterior – em meados de 1960.
O surgimento, por fim, de novos Estados na esteira do colapso dos regimes comunistas e da dissolução da União Soviética a partir de 1991.
Essas ondas de formação de Estado foram orquestradas pela vitória de movimentos rebeldes, o colapso dos impérios aqui citados e a retirada do controle externo. A chave para a formação do Estado aqui era diferente dos processos da revolução neolítica ou do surgimento do absolutismo pós-feudal no Ocidente. Ainda assim, o Estado pós-feudal e pós-renascentista europeu forneceu um modelo formal para o qual os Estados recentemente criados gravitaram.
Em termos de direito internacional, como formalização e codificação do moderno sistema de Estados, havia cerca de duas dezenas de entidades dentro desse sistema no final do século XIX, incluindo os Estados europeus, as ex-colônias americanas, o Império Otomano e outras entidades reconhecidas por tratados com potências europeias – Pérsia, Sião, China e Japão.
No século XIX, no entanto, não estava claro o que realmente era a formação do Estado, na medida em que se identificam mudanças nos critérios para a definição de um Estado soberano.
As relações de poder internacionais foram cruciais na formação do Estado moderno, conforme ilustrado pela tentativa das potências ocidentais de estabelecer o Curdistão e a Armênia como Estados independentes em 1920, projeto abandonado após alguns anos depois da pressão turca.
Os Estados pós-coloniais, aqueles criados após a independência das antigas ocupações europeias, são o resultado de processos exógenos. A formação desses Estados foi baseada, em primeiro lugar, em delineamentos coloniais arbitrários e, em segundo lugar, em princípios diplomáticos.
Devido à combinação de um passado colonial e uma ausência posterior de integração e legitimidade nacional, muitos Estados pós-coloniais se tornaram burocraticamente superdesenvolvidos, predatórios e ineficientes.
Jackson (1990, p. 36) os define como “quase Estados”, sem as qualidades institucionais do estado weberiano. O Estado moderno propriamente dito, após uma longa evolução histórica, desenvolveu instituições. O quase estado, contudo, era plenamente reconhecido no exterior, mas era predatório ou parcialmente anárquico internamente.
A formação do Estado pós-colonial tem sido um processo contra grandes probabilidades. A guerra do início da modernidade na Europa unificou os Estados contra ameaças externas, enquanto as guerras modernas no mundo não europeu foram principalmente domésticas.
As potências externas puderam continuar a explorar as fraquezas econômicas dos Estados pós-coloniais, em contraste à centralização da extração de excedentes no início da era moderna. Instituições fracas e lideranças deficientes contribuíram para o fracasso da formação do Estado em muitas áreas pós-coloniais.
A formação do Estado ocorre em um contexto histórico. Existem semelhanças superficiais entre a origem do Estado nos tempos neolíticos – a evolução do Estado moderno inicial na Europa e a variedade de condições geopolíticas e socioeconômicas por trás da formação do Estado na era moderna. É o resultado de certa classe de fenômenos – as estruturas políticas centralizadas em territórios relativamente grandes – que unem esses processos.
Imagem: Peulle/Wikimedia commons/Domínio Público China – o bolo dos reis e... dos Imperadores, por Henri Meyer, Caricatura política francesa publicada no Le Petit Journal em 16 de janeiro de 1898.
A formação do Estado é um termo genérico. O Estado e os mecanismos por trás dele cobrem uma ampla gama de formas e experiências políticas.
Nenhuma explicação pode esclarecer a formação do Estado em geral – durante o neolítico, o início da modernidade e as épocas contemporâneas. Nem uma única explicação pode lidar adequadamente com a construção do Estado moderno, por exemplo, na Grã-Bretanha, França, Alemanha ou nos Estados Unidos. Temos que combinar as precondições mais gerais com os mecanismos que são específicos para o surgimento do Estado individual.
TAXONOMIA DOS ESTADOS SOB O PONTO DE VISTA DO DESENHO INSTITUCIONAL
Imagem: Coletes Amarelos/Wikimedia commons/Domínio Público A abertura dos Estados Gerais em 5 de maio de 1789 na Salle des Menus Plaisirs em Versalhes.
Os Estados diferem em suas características externas, e as descrições dessas diferenças têm sido usadas ao longo do tempo pela ciência política e pelas relações internacionais. A característica essencial do Estado é sua natureza política e jurídica, que se manifesta em sua organização governamental.
É nesse sentido, portanto, que a classificação mais empregada tem sido baseada nas semelhanças e diferenças das formas governamentais, ou seja, no seu desenho institucional. Isso resulta, no entanto, em uma classificação de governos, não de Estados.
Pode-se argumentar que, uma vez que os Estados manifestam sua existência apenas por meio de seus governos, e como em nenhuma outra base eles podem ser devidamente distinguidos, uma classificação de governos é, em essência, uma classificação de Estados.
Outros fatores também têm sido empregados – por exemplo, como os que levam em conta população e território, com os Estados podendo ser ordenados de acordo com seu total de habitantes ou área.
Os termos Estado tribal, cidade-Estado, Estado feudal, Estado nacional e império mundial, enquanto meras descrições históricas, em geral contêm certas ideias sobre a relação da unidade geográfica e étnica com a existência do Estado e fornecem uma classificação das formas assumidas pelo Estado em sua evolução.
Jackson (1990) indica que o tamanho da área e da população afetaria a forma de vida política e, como impactaria também as diferenças em questões de riqueza, força militar e prestígio, isso também favorece definições que apontam os Estados como potências mundiais, potências menores e Estados insignificantes.
Do ponto de vista do grau relativo de independência externa dos Estados, eles podem ser classificados como totalmente soberanos e parcialmente soberanos. A última classe inclui Estados protegidos, Estados neutralizados, Estados vassalos e formas semelhantes. Deve-se notar que o termo soberano é usado aqui em seu sentido externo de independência.
Contudo, vários analistas sustentam que a melhor forma de classificar os Estados estaria em localizar a maneira com a qual as estruturas burocráticas se localizam em relação à soberania dentro do Estado.
Foto: Jastrow/Wikimedia commons/Domínio Público Busto de Aristóteles, em mármore, cópia romana de um original de bronze grego de Lisipo de 330 a.C.
Com base nisso, uma das taxonomias mais influentes foi aquela estabelecida pelo filósofo grego Aristóteles, que divide os Estados entre monarquias, aristocracias e democracias. Essas divisões dizem respeito principalmente ao número de pessoas que exercem o poder supremo, ou seja, à localização da soberania dentro do Estado e os fins a que procuram servir.
Aplicando o princípio numérico, Aristóteles afirma que caso a soberania decisória esteja centralizada em uma pessoa, o Estado é descrito como uma monarquia. Se residir em uma pequena minoria da população, definimos como aristocracia. Caso seja exercidapor uma grande proporção da população, política.
Aristóteles passa, então, a distinguir entre as formas que denomina como normal e pervertida do Estado, baseando suas conclusões nos fins aos quais os governantes procuravam servir.
Ele considerava um Estado normal aquele governado pela lei e pela justiça, com suas regras sempre visando ao bem da comunidade como um todo. Já um Estado pervertido seria aquele guiado e governado por uma lógica sem lei e restrição. O governante ou os governantes em tal Estado seriam egoístas, exercendo o poder investido neles para seus próprios benefícios, em vez de para os benefícios da comunidade como um todo.
A monarquia, a aristocracia e a política são, de acordo com Aristóteles, formas normais de Estado. Em sua forma pervertida, eles se tornaram tirania, oligarquia e democracia. Tirania era a forma degenerada da monarquia; a oligarquia, a forma degenerada da aristocracia; e a democracia, a forma degenerada da política.
Imagem: Cheposo/Wikimedia commons/Domínio Público Oração Fúnebre de Péricles, por Philipp Foltz (1877).
Para Aristóteles, a monarquia era a melhor opção e a tirania, a pior, já que a tirania centralizava o poder nas mãos de um único indivíduo, que tinha em suas mãos o controle arbitrário sobre vidas e fortunas, e todos os assuntos de Estado seriam direcionados para o seu próprio bem. Na oligarquia, os poucos ricos governavam para fins egoístas e usavam seus poderes e privilégios para oprimir as pessoas comuns.
A democracia, segundo o filósofo, significava o governo da multidão e, em um Estado democrático, os interesses de ninguém estariam seguros, pois haveria confusão por toda parte. É importante reforçar que o sentido de democracia para Aristóteles não é o mesmo da contemporaneidade – mas sim uma forma de governo que, atualmente, definiríamos como oclocracia, uma forma caótica de governo direcionado por uma turba.
Além disso, os sociólogos modernos mostraram claramente que não há governo de muitos. Todos os governos são realmente governos de poucos ou, de fato, oligarquias. Em todos os Estados, o exercício do governo fica a cargo de poucas mãos. Simultaneamente, a determinação da política é na verdade exercida por uma “classe” ainda mais minoritária, os líderes políticos.
ATUALIZANDO A TAXIONOMIA ESTATAL
O TERMO POLÍTICA
Todos os termos aqui aplicados são anacrônicos, pois estamos fazendo generalizações. Por exemplo: o termo “política”, para nós, possui um sentido genérico, associado a discussão e negociação das ações das instituições públicas. No entanto, seu sentido, neste trecho, aproxima-se ao do termo politeia, cujo significado, atualmente, poderia ser aproximado ao da palavra “república”.
Foto: Neveselbert (celular)/Wikimedia commons/Domínio Público Sir John Arthur Ransome Marriott em 1917.
As definições aristotélicas, apesar de bastante influentes, irão passar por diversas reflexões e reformulações ao longo do tempo. Na contemporaneidade, o cientista político J. A. R. Marriott (1927, p. 12) aceita a classificação de Aristóteles como fundamental, mas a considera inadequada para os governos modernos.
A primeira base de classificação de Marriott é a distribuição dos poderes do governo, sendo divididos em unitários e federais.
Governo unitário
Em um governo unitário há uma concentração de poderes na autoridade central – por exemplo, o Executivo – com os governos provinciais (como no caso de estados no Brasil) gozando apenas de poderes delegados, uma vez que sua própria existência é resultado do governo central.
Governo federalista
Por sua vez, em um governo federalista, a autoridade é dividida entre governos centrais e provincial. Ambas as partes do governo gozam de poderes originais concedidos pela constituição, cada um sendo autônomo em sua própria esfera de jurisdição.
O próximo elemento de análise é a relação entre o Executivo e o Legislativo. Quando o Executivo é superior ao Legislativo, a forma de governo é despótica, como no caso da Arábia Saudita. Se o Executivo é coordenado com o Poder Legislativo, o tipo de governo é presidencial, como no caso do Brasil. Por fim, se o Executivo estiver subordinado ao Legislativo, como no Reino Unido, a forma de governo é parlamentar ou de gabinete.
É, de fato, desafiador ter uma classificação adequada dos governos modernos. A forma de governo é o produto de vários fatores históricos, geográficos, sociais, econômicos e psicológicos. Alguns são comparativamente permanentes e dão uma impressão particular da evolução e do funcionamento das instituições.
Tanto a Grã-Bretanha quanto a França, por exemplo, têm em comum um sistema parlamentar de governo. Mas o governo da Grã-Bretanha é uma monarquia constitucional limitada e, na prática, funciona como uma república democrática.
DEFINIÇÕES MODERNAS DOS DIFERENTES ESTADOS
Apesar de ser um tema recorrente nos estudos das relações internacionais e da ciência política, pode-se perceber que os debates sobre os distintos tipos de Estados são constantes. Na contemporaneidade, há ainda uma permanente reflexão internacional sobre esses pontos.
Georg Jellinek é um dos analistas que buscam, já no século XX, atualizar as formatações que apresentamos até aqui. O pesquisador alemão começa apontando que, até aqui, a maioria das taxonomias era muito subjetiva porque não se baseava em qualquer princípio ou critério jurídico consistente que pudesse servir de base para distinguir um Estado de outros.
Jellinek então propôs uma classificação mais simples: monarquia e república. Definiu monarquia como uma forma de Estado guiado por uma vontade física – uma vontade que, juridicamente, deve ser Suprema e independente de todas as outras. Em suma, uma monarquia é um Estado cuja soberania reside em uma única pessoa.
Foto: Matlin/Wikimedia commons/CC BY-SA 4.0 Georg Jellinek em 1879.
Não é necessário, de acordo com Jellinek, que o poder do monarca seja original, por ele sustentado e que a ele pertença por direito próprio, como muitos escritores políticos afirmam. Essa noção repousa sobre uma concepção que considera a soberania um direito de propriedade – e não um direito de governar. É admissível, portanto, apenas adotar a concepção teocrática ou patrimonial do Estado.
Imagem: Fust/Wikimedia commons/Domínio Público A Coroação de Carlos Magno, por Friedrich Kaulbach (1903).
Jellinek admitiu a possibilidade de haver diversos tipos de monarquia, como quando o monarca é considerado Deus ou seu representante terreno, como o dono efetivo do Estado ou como representante de um órgão do Estado. Novamente, as monarquias podem ser hereditárias ou eletivas; podem ter poderes absolutos ou limitados; mas, quaisquer que sejam as diferenças, nesses ou em outros aspectos, a única característica comum a todos é a soberania, a centralidade em uma única pessoa.
Uma república, contudo, se distingue de uma monarquia pelo fato de que a vontade soberana não depende de uma única pessoa, mas de um coletivo. Essa coletividade tem uma existência jurídica claramente distinguível das pessoas individuais que a compõem: sua vontade é distinta das vontades dos indivíduos que formam esse espaço.
Juridicamente, a diferença entre os vários tipos de república é meramente quantitativa, nem qualitativa. Do ponto de vista político ou social, não há uma grande diferença entre um Estado guiado pela vontade de um pequeno grupo de pessoas e um dirigido por um grupo numeroso. Nesse caso, a diferença entre aristocracia e democracia não existe.
Portanto, todos os Estados nos quais a vontade governamental repousa em mais de uma pessoa, sejam aristocracias, oligarquias ou democracias, podem ser agrupados na mesma classe. Repúblicas rotuladas, uma classe juridicamente diferente e distinguível daquela à qual pertencem as monarquias; repúblicas como as monarquias podem ser de vários tipos: democráticas, aristocráticas, oligárquicas; as repúblicas democráticas podem ser diretas ou representativas, antigas ou modernas e assim por diante.
Sejam quais forem as diferenças, no entanto, possuem sempre uma característica comum: sua vontadeé formulada e expressa por um grupo de pessoas, e não por uma única.
DEFINIÇÕES MODERNAS DOS DIFERENTES ESTADOS
Assista agora a uma entrevista-debate entre os professores Rodrigo Rainha e Marina Garcia, em que discutem a ideia de diferentes concepções de Estado, para pensar suas proximidades e distinções.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
Parte superior do formulário
1. A DEFINIÇÃO ARISTOTÉLICA SOBRE O ESTADO APRESENTA TRÊS CATEGORIAS CLASSIFICATÓRIAS:
Monarquias, aristocracias e democracias.
Repúblicas, aristocracias e ditaduras.
Democracias, aristocracias e repúblicas.
Democracia, monarquias e ditaduras.
Repúblicas, ditaduras e monarquias.
Parte inferior do formulário
Parte superior do formulário
2. A CRIAÇÃO DO ESTADO MODERNO ENVOLVE UMA SÉRIE DE CRIAÇÕES SUBJETIVAS E MATERIAIS, EXCETO:
A tentativa de divisão das práticas religiosas e políticas dentro da Nação.
Uma delimitação territorial baseada em narrativas de soberania.
A obrigatoriedade de uma única língua nacional.
A criação de um corpus jurídico unificado.
Implementação de mecanismos financeiros e de impostos.
Parte inferior do formulário
GABARITO
1. A definição aristotélica sobre o Estado apresenta três categorias classificatórias:
A alternativa "A " está correta.
Uma das taxonomias mais influentes foi aquela estabelecida pelo filósofo grego Aristóteles que divide os Estados entre monarquias, aristocracias e democracias. Essas sessões dizem respeito principalmente ao número de pessoas que exercem o poder supremo, ou seja, a localização da soberania dentro do Estado e os fins que procuram servir.
2. A criação do Estado moderno envolve uma série de criações subjetivas e materiais, exceto:
A alternativa "C " está correta.
Apesar do Estado reforçar elementos culturais, históricos e linguísticos como forma de centralizar o seu poder, não há, a princípio, obrigatoriedade de monopólio linguístico, apesar de isso ocorrer em alguns momentos.
MÓDULO 2
Definir as ferramentas de análise do poder dos Estados e as razões para conflitos e guerras
QUAL É A DIFERENÇA ENTRE A IDEIA DE ESTADO E DE NAÇÃO?
Imagem: xennex/ Wikiart.org/Domínio Público O Juramento de 20 de Junho de 1789, por Jacques-Louis David (1791).
Uma das relações mais importantes – e frequentemente incompreendidas – na geopolítica moderna é a relação entre uma Nação e um Estado.
Podemos definir uma Nação como grupo étnico, com características comuns, como língua e cultura, e que faz uma reivindicação política de autodeterminação nacional. Um Estado é uma estrutura concebida humanamente que existe para apoiar e proteger os interesses da nação.
Consequentemente, uma Nação e um Estado existem em uma relação de dependência mútua. A primeira fornece identidade e a razão da existência, enquanto esta última promoveria as instituições para governar e proteger os interesses.
A relação entre Estado e Nação varia em caráter porque nem todo grupo étnico é uma Nação, assim como nem toda Nação tem um Estado – o que leva à existência de Estados multinacionais e de populações inteiras sem um Estado.
Além disso, essa relação também depende de subscrevermos o ponto de vista estruturalista – de que os Estados fazem as Nações – ou o ponto de vista construtivista – de que as Nações fazem os Estados. Apesar dessas variações, a relação básica entre uma Nação e um Estado é simbiótica, em que cada um se beneficia da existência do outro.
Como apontamos anteriormente, Max Weber define o Estado como uma comunidade humana que (com sucesso) reivindica o monopólio do uso legítimo da força física dentro de determinado território. Para usar a força física, um Estado deve contar com um conjunto de instituições, leis e regulamentos, concebidos e restringidos pelo povo.
Portanto, um Estado precisa da existência de uma Nação porque precisa de pessoas para criá-la e residir nela; o mesmo não é verdade para uma Nação. Uma Nação não precisa de um Estado para existir. Por exemplo, existem Nações de curdos, palestinos e uigures, todos existindo sem seu próprio Estado.
Jeffrey Herbst (2014, p. 65) ilustra ainda mais a relação simbiótica entre o Estado e a Nação quando escreve sobre o impacto que guerras interestatais têm sobre a formação do nacionalismo.
Com estudos específicos sobre países africanos, Herbst reflete que a ausência de ameaças externas, principalmente devido a sua formação colonial, teve um poderoso efeito sobre o nacionalismo na África.
Um ponto indicado pelo autor é que o Estado tem alguma influência na criação da identidade nacional por meio da união em torno de um inimigo comum. Herbst argumenta, então, que a falta de identidade nacional nos Estados africanos pode ser entendida, entre outras razões, pelo colonialismo e pela reduzida presença de guerras entre Estados.
Imagem: CountingPine/Wikimedia commons/Domínio Público O Colosso de Rodes, caricatura do colonialista britânico Cecil John Rhodes, publicada depois que este anunciou planos para uma linha telegráfica e ferroviária que cruzaria a África, da Cidade do Cabo ao Cairo (1892).
Em situações em que há várias Nações vivendo dentro de um único Estado, podem surgir problemas se as diferentes populações não sentirem que são tratadas de maneira igualitária. Para evitar esses problemas, alguns propõem que cada Nação tenha um Estado, apesar de tal solução ser problemática – os Estados podem recusar a reivindicação de determinado grupo étnico ou rejeitar a noção de autodeterminação.
Embora existam inúmeras maneiras de gerenciar o relacionamento entre o Estado e a Nação, os modelos de sucesso exibem condições que beneficiam ambos: um Estado que respeita as Nações dentro de suas fronteiras tem mais probabilidade de ter o apoio do povo. Da mesma forma, Nações que apoiam o Estado têm maior probabilidade de ser autodeterminadas.
Considerando que ambos precisam um do outro, se alguém subscreve a noção de que os Estados fazem Nações ou o que os Estados fazem dessa Nação, isso não afeta a relação subjacente, existindo um relacionamento mutuamente benéfico.
NAÇÕES E COMUNIDADES IMAGINADAS
Assista agora a um debate entre os professores Rodrigo Rainha e Marina Garcia sobre a ideia de nação e o conceito de comunidades imaginadas.
Um dos elementos centrais do amálgama Estado-Nação se dá na medida em que elementos subjetivos, como nacionalismo, honra e dever são incutidos nos cidadãos. O poder do Estado seria não apenas inscrito em dimensões institucionais, mas também em como constrói socialmente elementos de ligação. A constituição, por exemplo, de práticas nacionalistas favorece a aglutinação do Estado ou mesmo justificaria guerras e violências em “nome da pátria”.
Imagem: Pyb/Wikimedia commons/CC BY-SA 1.0 Revolução Francesa de 1830, por Hippolyte Lecomte (1831).
Em um sentido muito geral, o nacionalismo implica forte apego à Nação como um coletivo humano. Nas ciências sociais, entretanto, tende a ser definido mais estritamente como a crença de que a Nação deve formar a base da ordem política.
Ao mesmo tempo, era comum defini-la como um movimento em busca de seu próprio Estado ou para estender o alcance e o poder de um Estado existente. Nos últimos anos, foi reconhecido que os nacionalistas podem buscar outras formas de política, incluindo a de sua própria região descentralizada ou federal.
Esse processo de “imaginação de uma comunidade” é descrito de forma sofisticada pelo filósofo inglês Benedict Anderson (2008, p. 23). Anderson define a Nação como “uma comunidade política imaginada – e imaginada como inerentemente limitada e soberana”.
Apesar de uma Nação não precisar de um Estado para existir, ela se beneficia da existência do Estado, que fornece a capacidade de autogoverno. A natureza imaginária de uma Nação leva à ambiguidade, que é onde o Estado desempenha um papel vital no relacionamento. Uma nação sem Estado com toda a probabilidade poderá ser aglutinada por outro, e se tornará uma minoria, e correrá o risco de perder a própria identidade que a definiu como Nação.
O livro Comunidades imaginadas, de Benedict Anderson (2008), trata sobre mais uma tentativa de definiro “nacionalismo” e descobrir suas consequências. O autor analisa o trabalho de Eric Hobsbawm, que defende que “ser nacional é o maior ato de legitimidade universal na vida política dos nossos tempos” (NAIRN apud ANDERSON, 2008, p. 31, grifo nosso). Também somos convidados a analisar o trabalho de Tom Naim, que escreve:
O ‘NACIONALISMO’ É A PATOLOGIA DA HISTÓRIA DO DESENVOLVIMENTO MODERNO, TÃO INEVITÁVEL QUANDO A ‘NEUROSE’ DO INDIVÍDUO, E QUE GUARDA MUITO DA MESMA AMBIGUIDADE DE ESSÊNCIA, DA TENDÊNCIA INTERNA DE CAIR NA LOUCURA, ENRAIZADA NOS DILEMAS DO DESAMPARO IMPOSTO À MAIOR PARTE DO MUNDO (O EQUIVALENTE DO INFANTILISMO PARA AS SOCIEDADES), SENDO EM LARGA MEDIDA INCURÁVEL.
Anderson (2008, p. 34) então define Nação como “uma comunidade política imaginada e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana”. Imaginada porque nós não temos contato com todas as pessoas que vivem na mesma “nação” que nós, nem ao menos ouvimos falar a respeito de metade delas. Portanto, imaginamos como deve ser seu comportamento pelo sentimento reconfortante de coletividade.
A arte faz um empréstimo desse significado de Nação e indivíduo para a criação de personagens genéricos e até racistas. Um exemplo disto é como na série Modern Family, que apresenta, de maneira estereotipada, a personagem Gloria Pritchett, colombiana e que fala alto, é brava e está sempre bronzeada.
Esse sentimento de pertencimento é reconfortante porque passa a ideia de “camaradagem horizontal” e conforta a morte de pessoas amadas que foram para guerra, ao mesmo tempo que não fere a ética dos que tiraram a vida de terceiros em nome do bem maior da comunidade. Assim como o pensamento religioso transforma a fatalidade (muitas vezes a morte na guerra) em vínculo entre mortos e vivos e entre todos que ainda viverão naquele Estado.
Um exemplo disso é a parada militar do Dia da Vitória, na Rússia. Apesar de ser difícil imaginar como seria o mundo sem o Exército Vermelho combater os nazistas, é comum nas passeatas ver pessoas felizes por seus entes queridos terem ido para a guerra, algo inimaginável sem o conceito de Nação.
Foto: Anton Brehov/Shutterstock.com Parada militar do Dia da Vitória, em Moscow (2019).
Anderson não acredita que essa ligação entre religião e nacionalidade seja por acaso, principalmente na Europa Ocidental, em que o desaparecimento dos pensamentos religiosos veio acompanhado de uma forte nacionalidade. Não sabemos se uma coisa chegou a influenciar a outra, mas sabemos que a religião sempre foi usada para amenizar o sofrimento e que pertencer a algo maior que você talvez seja um bom substituto.
Imagem: Aavindraa/Wikimedia commons/Domínio Público São Tomás de Aquino, por Carlo Crivelli.
A morte sempre foi uma das questões universais e agora, pela primeira vez na história, você pode morrer como “herói americano” e ser celebrado não apenas pela sua família, mas por toda uma Nação. Isso nos leva a outra questão: a Nação não poderia ser uma consequência das comunidades religiosas?
As religiões tiveram um grande impacto na Idade Média, talvez sendo até o aspecto mais importante da vida privada. E as escrituras sagradas tinham grande parte nisso. A bíblia foi a primeira mercadoria com a produção em série como conhecemos hoje. O árabe e o chinês ainda são escritos a partir de signos, se diferenciando da comunidade ocidental.
Mas todas as grandes comunidades clássicas tinham uma linguagem de símbolos, fazendo com que o alcance dos escritos fosse praticamente ilimitado (para os letrados, que eram minoria). No século XVI, entretanto, isso começou a mudar.
É provável que o encontro com o “Novo Mundo” e as grandes navegações provavelmente tiveram sua parcela de culpa nisso. Apesar de não sabermos com certeza o que causou a mudança, já em 1565 a maioria das edições impressas em Paris já eram em francês. Em 1640, os editores não eram mais profissionais “internacionais”.
Em 1914, já com os idiomas e fronteiras mais definidos, mais da metade do mundo ainda era governada por alguma dinastia. Essas dinastias muitas vezes tinham seu poder e sua religião relacionados, com famílias afirmando seu poder como desejo divino.
É o exemplo dos Habsburgos, que tinham um relacionamento “estreito” com Deus, e alegavam um favorecimento divino para sua manutenção no poder, por, afinal, se tratar de uma linhagem a serviço de Deus. A relação que as pessoas tinham com o tempo e com a história era diferente. Ainda nos dias atuais temos nossas cerimônias, que nos unem como nação.
Entretanto, quando o jornal ainda era uma novidade, foi a primeira vez na história que você sabia o que estava acontecendo ao seu redor e com seus equivalentes, mesmo não trocando uma palavra com eles. Foi o jornal, por exemplo, que manteve a famosa poeta norte-americana Emily Dickinson, que ficou conhecida, além dos seus poemas, por ser uma solitária, ficando reclusa em seu quarto da metade de sua vida em diante, saindo em raríssimas ocasiões (nem mesmo o enterro do seu pai a fez sair do quarto) soube da guerra civil norte-americana e escreveu poemas sobre ela, algo que não seria possível fazer em nenhuma época antes.
Imagem: FDRMRZUSA/Wikimedia commons/Domínio Público Retrato do arquiduque Franz Ferdinand, que pertencia à Casa de Habsburgo-Este, por Wilhelm Vita.
É nessa narrativa que as dimensões culturais se tornam tão relevantes. As raízes culturais são tudo aquilo que a comunidade se agarrava para acreditar no que era a nacionalidade e o pertencimento a uma determinada Nação.
RESUMINDO
A Nação é algo imaginado, pois os membros dessa comunidade jamais terão contato entre si; ela é limitada por fronteiras que determinam seu território, e soberana por ser laica e independente de dinastias ou do poder divino – mas nem sempre foi assim. Anteriormente, o poder que a religião possuía nessas comunidades era o que determinava onde cada uma começava e terminava. O livro sagrado determinava uma Nação, o que difere muito das comunidades imaginadas modernas, pois nelas a aceitação vinha daquele único poder divino, e essa diferenciação era colocada nas línguas. O árabe para os mulçumanos, latim para os cristãos, mandarim para os budistas etc. Essas línguas, apesar de mortas para muitos, uniam os religiosos pela fé, independente da língua nativa de cada um.
Na contemporaneidade, o Estado é soberano dentro de um território que é legalmente determinado e reconhecido. Nas épocas de dinastias e reinados, era mais fácil sua expansão, através de guerras e casamentos arranjados entre reinos, o que fazia com que o seu domínio sob o povo fosse muito mais forte e por mais tempo. Tudo isso, em suas respectivas épocas, era usado para delimitar o senso de nação durante muito tempo. Anderson (2008) explica que o indivíduo pode imaginar a nação quando as três concepções culturais perdem o domínio na mente do homem, e essas seriam: A limitação pela língua, a crença de que a sociedade se organiza em torno de um monarca, e a concepção de que a origem dos homens no mundo são essencialmente as mesmas.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. SOBRE A ANEXAÇÃO DOS CONCEITOS DE ESTADO E NAÇÃO, PODE-SE AFIRMAR:
São conceitos intercambiáveis, podendo-se usar os dois como sinônimos.
Existem nações sem Estados, o que provoca grande fragilidade para os grupos que a compõem.
O Estado precede a Nação, sendo um pré-requisito, para a constituição de uma população, a noção de soberania.
As nações precedem o Estado, sendo a base na qual esse ente político se forma.
As nações são constituídas de homogeneidade linguística, o que favorece a constituição do Estado.
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2. O CONCEITO DE “COMUNIDADES IMAGINADAS”, DE BENEDICT ANDERSON, REFORÇA A NECESSIDADE DE ENTENDERMOS QUE AS NAÇÕES SÃO SOCIALMENTE CONSTRUÍDAS. ISSO NOS PERMITE AFIRMAR:
Que Nações são baseadas estritamente em elementos materiais, como registros históricos de antigas populações que deram origem a comunidade estudada.
Que os elementos nacionais são subjetivos e, por isso, passíveisde mudança e transformação ao longo do tempo.
Que as “imaginações” citadas por Anderson são um conjunto de valores intrínsecos de cada coletivo, baseado em decisões conjuntas sobre o que é importante para cada uma das comunidades.
Que a imprensa não teve um papel central nessa formação imaginária, na medida em que o processo de constituição da Nação é anterior a produção de notícias de forma profissional.
Que as “Comunidades Imaginadas” permitem entender o nacionalismo como elemento materialmente baseado, ou seja, confirmado por dados científicos.
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GABARITO
1. Sobre a anexação dos conceitos de Estado e Nação, pode-se afirmar:
A alternativa "B " está correta.
Uma nação e um Estado existem em uma relação de dependência mútua. A primeira fornece identidade e a razão da existência do segundo, enquanto o Estado promoveria as instituições para governar e proteger os interesses da nação.
2. O conceito de “comunidades imaginadas”, de Benedict Anderson, reforça a necessidade de entendermos que as Nações são socialmente construídas. Isso nos permite afirmar:
A alternativa "B " está correta.
Um dos elementos centrais do amálgama “Estado-Nação” se dá na medida em que elementos subjetivos, como nacionalismo, honra e dever são incutidos nos cidadãos. Desta forma, o poder do Estado seria não apenas inscrito em dimensões institucionais – mas também em como ele constrói socialmente elementos de ligação.
MÓDULO 3
Identificar aspectos da geopolítica doméstica e internacional
GEOPOLÍTICA: ASPECTOS LOCAIS E GERAIS NAS RELAÇÕES DE PODER DO ESTADO
A geopolítica, como um conjunto de ferramentas analíticas e visões de mundo, procura apontar as razões pelas quais determinados Estados acumulam poder, prestígio e influência. As relações de poder interestatais são centrais para essa disciplina, principalmente aquelas que articulam as influências de espaços localizados e mais gerais nessa movimentação.
As origens da geopolítica moderna já apresentavam essas movimentações: no século XVIII, as principais correntes teóricas debatiam qual seria o principal motor de evolução dos Estados ao longo do tempo. Em suas teses deterministas, estava a da geografia real, que assegurava o homem como produto do meio natural e a localização geográfica como fator sui generis (único) para seu desenvolvimento ou fracasso.
Contudo, admitia-se a tese de que a relação do homem com a geografia seria relativa. Em particular, a tecnologia dos meios de transporte e os armamentos de determinado território poderiam alterar o modo com que a geografia influencia a sociedade humana (SCALEA, 2015).
As reflexões geopolíticas sobre o poder estatal e suas fontes receberam redobrada atenção a partir do século XX, com os trabalhos de Alfred Mackinder (1861-1947), geógrafo e cientista político inglês. Tais pesquisas combinavam, de certa forma, as dimensões deterministas e possibilistas, afirmando que a geografia é capaz de explicar grande parte da história humana.
Assim, era possível relacionar a era da circum-navegação, proporcionada pelo desenvolvimento tecnológico e superioridade na mobilidade marítima, como forma estratégia de domínio marítimo resultante de um processo de revolução espacial garantida, em primeira manifestação, pela revolução científica de Copérnico e Kepler, capazes de promover o avanço da navegação.
Foto: Opencooper/Wikimedia commons/Domínio Público Halford John Mackinder.
Da mesma forma, a partir do século XIX, o surgimento das ferrovias, responsáveis pelo impacto no transporte continental, evidencia o equilíbrio entre poder terrestre e marítimo, principalmente quando se trata de países que não possuem saídas marítimas e fluviais.
A partir dessa lógica expansionista, faz-se pertinente a formulação da teoria do Heartland. O conceito de Heartland expressa o “coração continental” que concentra o poder terrestre e será a base da investigação de Mackinder (MELLO, 1999).
Imagem: Shutterstock.com
O espaço compreendido pelo Heartland estende-se das costas do Ártico até os desertos da Ásia Central, especificamente no centro e norte da Eurásia. Essa região, que foi e é impenetrável ao poder marítimo, está localizada no “coração da Eurásia”, e não tem saídas para mares quentes ou rios navegáveis que deságuam no oceano. É a região em que se concentra o Heartland (SCALEA, 2015).
A teoria de Mackinder foi criada a partir da verificação do poder insular incontestável da Grã-Bretanha que, ao longo da história, fortaleceu sua marinha para controle marítimo global. Desse modo, o autor buscou averiguar qual seria o poder que poderia oferecer o contraponto na dimensão terrestre.
Os conhecimentos geográficos de sua época foram basilares na análise de regiões estratégicas no que se refere ao domínio de recursos e capacidade militar. Assim, esses mecanismos utilizados por Mackinder permitiriam maior estudo das fragilidades do poder britânico e possíveis soluções para garantir que a Inglaterra continuasse sendo a potência hegemônica incontestável (RODRIGUEZ, 2018).
Outrossim, Mackinder cunhou um conceito inovador de continentes em que haveria, na realidade, um grande oceano e uma única grande área continental abarcando todos os continentes que ele chamaria de World-Island (ilha-mundo). Diante dessa análise, a teoria objetiva a possibilidade de contenção desse grande continente. Isso seria proporcionado pelo domínio do Heartland. No artigo intitulado The geographical pivot of history, em 1904, essa região é chamada de área pivô. De acordo com Mackinder (2004, p. 206, tradução nossa):
OS ESPAÇOS DENTRO DO IMPÉRIO RUSSO E DA MONGÓLIA SÃO TÃO VASTOS, E SUAS POTENCIALIDADES EM POPULAÇÃO, TRIGO, ALGODÃO, COMBUSTÍVEL E METAIS TÃO INCALCULAVELMENTE GRANDES QUE É INEVITÁVEL QUE UM VASTO MUNDO ECONÔMICO, MAIS OU MENOS À PARTE, SE DESENVOLVA INACESSÍVEL AO COMÉRCIO OCEÂNICO. (…) NÃO É A REGIÃO-PIVÔ DA POLÍTICA MUNDIAL ESSA VASTA ÁREA DA EURÁSIA INACESSÍVEL AOS NAVIOS, MAS, NA ANTIGUIDADE, ABERTA AOS NÔMADES QUE SE LOCOMOVIAM A CAVALO E QUE HOJE ESTÁ PRESTES A SER COBERTA POR UMA REDE DE FERROVIAS? EXISTIRAM E EXISTEM AQUI AS CONDIÇÕES PARA UMA MOBILIDADE DE MEIOS MILITARES E ECONÔMICOS DE LONGO ALCANCE, PORÉM, DE CARÁTER LIMITADO.
PIVÔ GEOGRÁFICO DA HISTÓRIA
Imagem: AnonMoos/Wikimedia commons/Domínio Público Mapa do livro The Geographical Pivot of History, de Halford Mackinder.
A ideia do Heartland indica a posição central para se referir à Eurásia. No entanto, a região eurasiática é muito mais vasta, já que inclui também as áreas marginais, que são aquelas pelas quais os homens teriam acesso pelo mar.
Essa associação com o mar pelas áreas longínquas tratada por Mackinder possibilita analisar a chegada dos europeus nessa região. Assim, a evolução dessas dinâmicas geo-históricas é responsável pela compreensão do termo pivô geográfico, utilizado pelo autor.
O pivô geográfico da história representa a chegada dos navegadores ao oceano Índico e, posteriormente, o avanço até o Pacífico, constituindo a primeira forma de globalização da história. Essas viagens marítimas seriam possibilitadas a partir do crescente das terras marginais que estariam situadas na fronteira dessa área central. Por sua vez, essa região seria considerada um eixo em torno do qual, figuradamente, giraria a história (LACOSTE, 2012).
Em contrapartida, o termo “pivô” deve ser enunciado de maneira cautelosa, uma vez que seu significado, tanto no inglês quanto no francês, seria meramente de um ponto fixo. É utilizado, nesse sentido, para designar um ponto fixo pelo qual passam as curvas do mesmo plano. Todavia, em termos geológicos, sabe-se que a região não pode ser considerada exatamente um pivô devido a suas planícies localizadas na Eurásia (LACOSTE, 2012).
ANÁLISE DA REGIÃO DA EURÁSIA
Em termos gerais, algumas características são de extrema importância para a Eurásia, como seu isolamento, já que sua parte exterior não é facilmente penetrável, posto que seus rios e lagos desembocam em mares dentro da própria massa continental.
Além disso, sua topografia plana permite a dispersãoe passagem de povos nômades ligados a práticas pastoris. Portanto, essa área que contém o Heartland estaria protegida dos ataques exteriores por potências marítimas. O país que dominasse a região discutida em questão teria meios de desenvolver a condição de potência terrestre (MELLO, 1999).
Em relação às regiões marginais, estariam presentes o crescente interno que integra a Europa, o Oriente Médio, a Índia e a China. Essa área seria a majoritariamente populosa, sendo o foco de propagação das quatro principais religiões: budismo, hinduísmo, cristianismo e islamismo.
Imagem: Shutterstock.com
O crescente externo estaria relacionado ao poder insular formado pelas Américas e a Austrália, que seriam parte do mesmo continente, ainda que separadas. A região pivô, segundo Mackinder (2004), seria ocupada pela Rússia, cercada por países que formariam o grande arco interior composto por China, Turquia, Alemanha, Índia e ainda o arco externo, com Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha e África do Sul.
Mackinder destaca em sua estratégia geográfica a exploração de recursos na região basilar da Eurásia. Para o geógrafo, o domínio de tais recursos do Heartland seriam necessários para o posterior desenvolvimento do poder marítimo pela potência terrestre que dominasse a região.
Dessa maneira, essas dinâmicas seriam capazes de construir uma potência com poder anfíbio, podendo, em última instância, ser uma ameaça à Inglaterra. O poder terrestre garantiria as necessidades para a constituição de uma esquadra forte e, por último, se projetar no oceano por intermédio de sua plataforma continental.
Foto: Anátema/Wikimedia commons/Domínio Público Alfred Thayer Mahan em 1904.
A dimensão tecnológica deve ser do mesmo modo abordada como fenômeno responsável pela ampliação de influência da região eurasiática. Quando se refere à estratégia inglesa, o teórico Alfred Thayer Mahan (1840-1914) afirmava que a potência marítima deveria concentrar ao mesmo tempo a extensão territorial e demográfica, mas com uma extensão litorânea em vantagem e uma população voltada para a prática da navegação.
Em contraponto, Mackinder (2004) assegura que o mais profícuo para determinado país estaria na capacidade de destinar recursos para o poder marítimo no intuito de formar uma nação transcontinental, fato que lhe propiciaria condições de superioridade.
No tocante ao papel da Europa Oriental, Mackinder afirma no seu livro Democratic ideals and reality in 1919 que quem governa a Europa Oriental controla o Heartland; quem controla o Heartland controla a ilha-mundo; e consequentemente, quem domina a ilha-mundo controla efetivamente o mundo. O raciocínio de Mackinder engloba toda a massa continental euro-afro-asiática.
VISÃO GEOESTRATÉGICA DO RIMLAND
Após analisar os conceitos centrais da geopolítica de Mackinder, faz-se necessário averiguar a teoria de Nicholas Spykman (1893-1943), muito pertinente no contexto geográfico internacional do século XX. A teoria de Spykman influenciou as estratégias de política externa utilizadas pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria.
Para uma percepção holística das aplicabilidades da teoria de Mackinder, é válido explorar os pilares teóricos de Spykman já que os dois autores apresentam semelhanças quanto ao determinismo geográfico, oceanismo, continentalismo e o sistema político fechado (RODRIGUEZ, 2018).
Spykman inicia sua pesquisa analisando a região da Eurásia, que tinha sido palco de vários conflitos na Segunda Guerra Mundial. Para o autor, essa região seria o ponto-chave da geopolítica mundial, uma vez que seu controle por qualquer país ou aliança entre países seria uma ameaça ao poder norte-americano.
Assim como Mackinder cunhou o termo Heartland para estudar a região que poderia desafiar o poder inglês, Spykman faz o mesmo, mas com o objetivo de identificar possíveis vulnerabilidades ao poder hegemônico norte-americano que poderiam estar presentes nessa área.
Imagem: Македонец/Wikimedia commons/CC BY-SA 4.0 Conceituação geopolítica do mundo de acordo com as doutrinas de Heartland e Rimland, da autoria de Nicolas Spykman
Nas palavras de Spykman, o Heartland é considerado uma zona tampão que incluiria o centro da Europa, a Turquia, o Irã, o Afeganistão, a Índia e os países da península arábica. “Nesta zona de fronteira, desenvolveram-se todas as grandes civilizações do mundo, exceto Egito e Cartago, no litoral sul do Mediterrâneo europeu, e as primeiras civilizações de Sumatra e Java no litoral sul do Mediterrâneo asiático” (SPYKMAN, 1942, p. 181 apud RODRIGUEZ, 2018, tradução nossa). Essa zona de borda seria chamada de Rimland, referindo-se às regiões periféricas da Eurásia.
Em contrapartida ao pensamento de Mackinder, Spykman define o Rimland como o local principal de domínio mundial, e não o Heartland. Para o autor, o maior potencial de desenvolvimento do poder anfíbio estaria justamente no Rimland.
Spykman complementa seu argumento afirmando que o Heartland não passou pelo crescimento econômico necessário para se tornar uma potência, dado que o sistema ferroviário não foi efetivamente difundido em todas as áreas, bem como as riquezas do solo não foram totalmente exploradas para que se pudesse alavancar economicamente a região siberiana (PENHA, 2007, p. 147 apud RODRIGUEZ, 2018).
GEOPOLÍTICA DA GUERRA FRIA
Dentro da lógica de alianças de poder, enquanto outros observadores viam a Grã-Bretanha, com seu poder marítimo e solidez financeira, como o centro desse sistema político fechado, Mackinder enfatizou a natureza desprotegida do país. Do seu ponto de vista, os Estados da Europa Ocidental, com livre acesso ao Atlântico e, portanto, ao comércio mundial, perderam seu papel de eixo geográfico do mundo.
Ele viu esse ponto de articulação mais a leste, em uma área da Eurásia, que chamou de ilha-mundo. Se ignorarmos os desertos do Saara e da Arábia, de acordo com Mackinder, esse espaço abrange metade do continente de nosso planeta (STRACHAN, 2004).
Imagem: Oschtan/Wikimedia commons/Domínio Público Em vermelho, a rota da ferrovia transiberiana.
Dentro dessa região eurasiática, encontra-se a Rússia. No início do século XX, uma série de observadores políticos, incluindo Mackinder, apontaram que os russos tinham o potencial militar e econômico para fazer uso dessa posição central do país e se beneficiar regionalmente de sua ocupação, principalmente garantindo áreas de influência dentro de sua política expansionista. Mackinder destacou particularmente a ferrovia russa como fator preponderante na integração regional (STRACHAN, 2004).
No contexto político internacional do século XX, os Estados Unidos buscavam alcançar um equilíbrio de poder na região da Europa e Ásia, o que justifica grande parte de suas intervenções militares nessa região.
Spykman destaca a mudança na política isolacionista que, anteriormente, fora adotada pela Inglaterra. Para Spykman (1942, p. 459 apud RODRIGUEZ, 2018, tradução nossa), “a Grã-Bretanha era dominante durante o período em que a Europa era o único centro de poder e quando o continente podia ser neutralizado pelo equilíbrio de forças”.
Spykman destaca ainda a distância entre a América do Norte e a Eurásia, e conclui a necessidade de haver potências terrestres aliadas aos Estados Unidos.
Diante dessa análise, durante toda a Guerra Fria, a estratégia utilizada pelos Estados Unidos foi a de contenção. Essa barreira, que consistia na área do Rimland teorizado por Spykman, objetivava bloquear o avanço do comunismo pela União Soviética. Desse modo, a aliança entre países da Europa Ocidental garantia aos Estados Unidos sua segurança e, ao mesmo tempo, promovia equilíbrio de poder regional com a União Soviética.
Imagem: Shutterstock.com
Segundo Spykman (1942, p. 468 apud RODRIGUEZ, 2018, tradução nossa):
A ÚNICA FORMA NA QUAL OS ESTADOS UNIDOS PODEM PROTEGER SEUS INTERESSES NA PRESERVAÇÃO DO EQUILÍBRIO EUROPEU E AJUDAR NA MANUTENÇÃO DA ORDEM E DA JUSTIÇA POLÍTICAS É POR MEIO DA PARTICIPAÇÃO EM UMA LIGA FORMADA ENTRE ESTADOS DE FORÇA APROXIMADAMENTE IGUAL COM UM PACTO QUE PREVEJA UM ARTIGO 10REVITALIZADO E UM SISTEMA REALMENTE EFICAZ DE ‘MUDANÇA PACÍFICA’.
RÚSSIA E O HEARTLAND
Imagem: Bogdan/Wikimedia commons/Domínio Público Capa de revista soviética de 1929, mostrando a União soviética esmagando os deuses das religiões abraâmicas.
A Rússia inicia seu processo de dominação da Ásia efetivamente a partir do século XIX, como consequência da expansão de seu comércio. No século XX, na tentativa de dominação da Ásia central, os soviéticos anexaram diversos países da região sem nenhuma ligação étnica eslava. Eles temiam o pan-islamismo devido à presença turca, somada ao Irã e demais países árabes. Esse nacionalismo étnico foi responsável por promover controle e poder regional (KAPLAN, 2009).
O sovietismo foi capaz de promover estabilidade nessa região multiétnica, incluindo países como Cazaquistão, Azerbaijão, Uzbequistão, Quirguistão, Afeganistão etc. A região que engloba parte do Heartland é extremamente rica em recursos naturais e possui importância estratégica na política externa russa, uma vez que é utilizada para transporte de gás russo.
Ainda que a Rússia possua certa interferência nessas regiões, sua economia baseada nos recursos naturais tende a se volatilizar devido à inconstância dos preços globais de energia. A hegemonia russa é improvável, já que a região tende a um equilíbrio de poder, principalmente com a expansão chinesa e outros países fortes dessa região, incluindo Irã, Turquia e Índia (KAPLAN, 2009).
Durante o século XX, ainda que a Rússia estivesse em posição de destaque como grande potência terrestre, não teria as condições necessárias para a continuação duradoura de seu poder. Não detinha uma produção industrial que fosse compatível com sua lógica expansionista, pois era um país com um parque industrial atrasado frente a outras potências europeias da época, como a Alemanha.
Esse atraso tecnológico industrial russo comprometia o avanço das forças armadas e contribuía para a instabilidade econômica do país, evidentemente quando se analisa a guerra civil pós-Revolução Russa e durante o aumento da fome de seu povo (CLOVER, 1999).
Após o fim da Guerra Fria, o colapso russo ficou evidente e permitiu a conclusão de que a ocupação do Heartland não consiste necessariamente com o domínio da área pivô e consequentemente com o domínio hegemônico. Contudo, as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central se transformaram em ditaduras com rivalidades étnicas e conflitos regionais.
Desse modo, nesse momento, a China, mesmo comunista, acabara de se integrar economicamente ao mundo por meio de medidas capitalistas. Portanto, surge um novo país que, possivelmente, poderá ocupar a posição de potência terrestre (CLOVER, 1999).
REVISITANDO MACKINDER NA CONTEMPORANEIDADE: O DOMÍNIO DA ILHA-MUNDO
Ao que Mackinder se referia ao apresentar o conceito de ilha mundial? Essa ilha corresponde à soma das massas continentais africana e asiática. Mackinder associa o poder terrestre ao poder marítimo, sendo que a localização no Heartland seria propiciadora dos recursos necessários para o desenvolvimento efetivo do poder marítimo a partir da consolidação de um poder terrestre forte.
Foto: Shutterstock.com
Nesse aspecto, o geógrafo afirma ser o velho mundo europeu insular e o Mediterrâneo, um mar interior. Assim, ele associa Europa, Ásia e África como correspondendo à ilha-mundo, cercada por um grande oceano. América do Norte, América do Sul, Japão e Grã-Bretanha, na visão do autor, seriam países insulares com função de satélite da ilha-mundo (SEMPA, 2021).
A atribuição de Mackinder ao crescimento interno da região da Eurásia por meio de alianças pode ser citada, no contexto do século XXI, através da aliança entre China e Rússia e a construção de malha ferroviária entre os dois países como mecanismos de integração regional.
Assim, percebe-se a estratégia de fortalecimento do poder terrestre e gestão de recursos internos para, posteriormente, incrementar o poder marítimo. Esse poder marítimo se consolida à medida que a China projeta seus investimentos e expansão de sua força internacional no continente africano (SEMPA, 2021).
CONSOLIDAÇÃO DA CHINA COMO POTÊNCIA TERRESTRE
Foto: Bjoertvedt/Wikimedia commons/CC BY-SA 4.0 Grade Palácio do Povo, em Pequim, na China
O crescimento chinês tem ocorrido de maneira sutil e, ao contrário do imperialismo do século XIX, busca se adaptar às novas mudanças ocasionadas pela globalização. A China tem se preocupado, primordialmente, com sua estabilidade econômica e, consequentemente, sua condição de potência vem alterando o equilíbrio de poder do hemisfério oriental.
Devido ao fato de sua geografia possuir potenciais de desenvolvimento continental e marítimo, é mister salientar a influência chinesa tanto no extremo oriente russo quanto no mar da China meridional até o oceano Índico (KAPLAN, 2009).
Mackinder, quando publicou seu artigo no início do século XX, não fez previsões significativas para a China, uma vez que o país ainda estava sob o domínio das potências imperialistas europeias. Assim, antes da chegada ao poder por Mao Tsé-tung, em 1949, a China era um país feudal longe de ser uma nação unificada.
A partir desse momento político, centrado nas mãos do partido comunista, a China passa por sucessivas reformas internas, como industrialização e reformas de base, sobretudo nos anos 1980, com a abertura econômica para o exterior a partir do seu modelo socialista com características chinesas, incrementando, dessa forma, a economia de mercado capitalista.
Foto: Ermell/Wikimedia commons/CC BY-SA 1.0 Arranha-céus no centro financeiro de Xangai, na China.
Entre o fim da década de 1990 e o início do século XXI, a China passou a apresentar um crescimento econômico rápido e vertiginoso, graças a seu mercado dinâmico e à abertura ao capital estrangeiro. Sendo o terceiro maior país do globo, conta com a maior população do mundo, responsável pela sua numerosa mão de obra e alto consumo do mercado interno.
Além disso, a economia chinesa se fortalece à medida que garante a exportação de seus produtos tecnológicos e industriais e a adesão de uma política monetária de valorização da moeda interna (CLOVER, 1999).
A China tem investido ainda em seu potencial marítimo e militar através da Ásia Central e do Pacífico ocidental, incluindo o poderio naval no mar do leste e sul do país. Ao mesmo tempo, Pequim tem investido na construção de portos e na transferência de armas para o litoral do oceano Índico.
Nessa perspectiva, a força militar naval norte-americana se projetará na região asiática em regiões da Oceania, Japão e Índia na tentativa de impedir o expansionismo naval chinês e promover um novo equilíbrio de poder a partir da estratégia de contenção, teorizada por Spykman, que foi utilizada durante a Guerra Fria.
NOVA ROTA DA SEDA
A teoria do Heartland está intrinsecamente conectada à estratégia chinesa da construção da Belt Road Initiative – BRI. A BRI engloba a formação de grandes corredores de desenvolvimento a partir da expansão da malha ferroviária transasiática. Esses novos investimentos marítimos e continentais promovidos pela nova rota da seda em direção à Eurásia pela China tem como consequência o desafio estratégico das vantagens locacionais obtidas pelos Estados Unidos, em termos energéticos e econômicos (HARPER, 2019).
Assim como Mackinder e Spykman, parece que o foco desses arcabouços teóricos e seu suporte geográfico planetário correspondem não somente às inquietudes da época, mas também à conexão com a realidade do século XXI.
Mackinder havia desenvolvido um modelo baseado na realidade da rivalidade russo-britânica diante da insegurança norte-americana frente ao crescimento da URSS. O mesmo ocorre com o modelo de Spykman que é igualmente geral, porém voltado para a contenção da União Soviética.
Com o advento da China como uma nova grande potência, a releitura da teoria de Mackinder deve ser analisada como um reflexo do medo dos ocidentais de ver sua preeminência política em xeque devido a seu vertiginoso avanço em direção à integração com Ásia Central, Oriente Médio e Europa,de modo a garantir novos mercados e acessar recursos do Heartland (LASERRE, 2020).
O ESTADO EM SEU CAMPO DE APLICAÇÃO
Assista agora a um vídeo que apresenta um breve resumo visual do que estudamos nesse módulo.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. SOBRE AS DIMENSÕES GEOPOLÍTICAS CLÁSSICAS, NÃO PODEMOS AFIRMAR:
Que as considerações “possibilistas” e “deterministas” se diferenciam, eminentemente, sobre a interpretação do papel da natureza no comportamento humano.
Que o debate sobre projeção de poder é central nos cálculos geopolíticos.
Que os Estados compartilham os cálculos geopolíticos com outras entidades políticas, como empresas, que compartilham soberania dentro de determinados espaços.
Que a geopolítica se assemelha à teoria realista na medida em que o Estado é o agente mais relevante do cenário internacional e único detentor de elementos soberanos.
Que a perspectiva determinista indica que a humanidade é refém das movimentações do entorno natural, tendo pouca agência para consolidar práticas para além desse elemento.
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2. SOBRE O HEARTLAND, CONCEITO MOBILIZADO POR MACKINDER, PODEMOS APONTAR:
Que se trata de uma região com conceituação fluida, variando de acordo com o tempo e os cálculos políticos dominantes da época analisada.
Pode ser entendido como um espaço de fricção entre uma potência terrestre e as estratégias de contenção de nações menores no entorno.
Engloba todo o território do que podemos entender como Eurásia.
Reforça a necessidade de Estados não dedicarem sua proteção a um coletivo de nações porque todos os agentes políticos querem dominar esse espaço vital.
Automaticamente impõe aos Estados Unidos a necessidade de confrontar países do Leste Europeu.
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GABARITO
1. Sobre as dimensões geopolíticas clássicas, não podemos afirmar:
A alternativa "C " está correta.
Dentro da lógica geopolítica apresentada no texto, o termo reforça que se trata de uma análise pautada pelo Estado nacional, na medida em que a projeção de poder soberano se dá por meio desse agente político.
2. Sobre o Heartland, conceito mobilizado por Mackinder, podemos apontar:
A alternativa "B " está correta.
O Heartland é definido como Mackinder como o espaço geográfico que engloba a região do Leste Europeu até a parte sul do continente asiático. Esse seria um espaço natural para que a Rússia, como potência terrestre, busque práticas expansionistas rumo a áreas estratégicas marítimas.
MÓDULO 4
Reconhecer as conexões e a relação entre política interna e externa
CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
TEORIZAÇÃO: SOCIEDADE DOMÉSTICA E SOCIEDADE INTERNACIONAL
Assista agora a um vídeo sobre o diálogo teórico entre Relações Internacionais, Sociologia e Ciência Política.
As Relações Internacionais, como campo do conhecimento, estabelecem reflexões desde sua origem sobre a melhor forma de se analisar o Estado e suas ações. Um dos tópicos que geram debates profundos diz respeito ao vetor de reflexão, ou seja, para qual cenário político o analista deve se deter.
Há variações de todos os tipos: alguns estudiosos afirmam que é preciso olhar para “fora”, para o campo internacional, com o “dentro”, o doméstico, devendo ser analisado por outras áreas do conhecimento, como a ciência política.
Contudo, a maior parte dos analistas concorda que, para compreender a política mundial, é necessário estudar as relações interestatais e também os assuntos internos das Nações, analisando a interação das duas.
Essa certa unanimidade por trás da necessidade de tratar as forças internacionais e domésticas como um todo não é difícil de se compreender: o internacional e doméstico são partes de uma totalidade, de um todo; focar em apenas um elemento sempre levará a perguntas sobre o papel e a influência do outro.
MÚLTIPLAS CONEXÕES E ABORDAGENS SOBRE O DOMÉSTICO E O INTERNACIONAL
Foto: Pinho/Wikimedia commons/CC BY-SA 2.0 A Assembleia Geral das Nações Unidas localizada na sede da organização, em Nova York.
Apesar da maioria dos estudiosos concordarem com a necessidade de uma análise abrangente da interação entre o nacional e o internacional, também parece haver um consenso de que essa é uma tarefa bastante complexa. Kenneth Waltz (1996, p. 6), por exemplo, aponta que “nem eu nem ninguém descobrimos como construir uma teoria que compreende tanto o nível internacional quanto o nacional”.
Para definir o contexto dessas reflexões, é necessário revisar brevemente as principais contribuições feitas até agora; seus problemas mais importantes além de tentativas de superá-las.
A maneira mais comum de distinguir entre doméstico e internacional nas relações internacionais é seguindo as discussões sobre soberania. Dessa forma, a unidade fundamental no sistema internacional é o Estado soberano.
Como comentamos anteriormente, os Estados são entidades com um território delimitado, uma população estável e um governo. Assim, a soberania significa independência constitucional, isto é, autoridade independente e centralizada sobre um território e população específicos.
A jurisdição, portanto, cria um espaço doméstico e um internacional. Em termos substanciais, doméstico é o que acontece dentro dessa jurisdição; internacional é o que acontece fora dele. Três pontos podem ser observados sobre a separação doméstica/internacional por meio de fronteiras soberanas.
Primeiramente, é preciso haver uma abordagem histórica do quebra-cabeça doméstico/internacional. As fronteiras entre Estados soberanos são de origem relativamente recente; somente durante o século XX a instituição da soberania se espalhou para abranger o globo.
Essa relação entre doméstico e internacional mudou fundamentalmente para um grande número de países há algumas décadas, quando se tornaram independentes no contexto da descolonização.
Por exemplo, as práticas realizadas no Brasil antes do século XVIII devem ser consideradas parte dos assuntos internos de Portugal? A variação das interpretações sobre soberania revela imediatamente por que essa imagem é enganosa.
As relações entre Estados soberanos envolvem atos de reconhecimento e de obrigações mútuas. O ato de reconhecimento confere um status especial aos Estados: a “sociedade de Estados” só admite novos membros em condições específicas e exigentes e, uma vez que a entrada é aceita, os membros têm de cumprir certas regras.
A fronteira soberana é uma construção jurídica e legal. Nunca preveniu uma ampla gama de conexões substanciais entre diferentes sociedades, nas áreas política, econômica, social, cultural, tecnológica e outras. A consequência disso é clara: o que nós em um dado momento consideramos doméstico é o resultado de uma interação anterior entre doméstico e internacional – e vice-versa.
Mesmo uma imagem instantânea da dimensão doméstica revela elementos que poderiam ser considerados não domésticos, como empresas de investimento direto estrangeiro; grupos minoritários que não são cidadãos do país (como os haitianos no Brasil); ou funcionários do Fundo Monetário Internacional (FMI) que ajudam a formular políticas econômicas em muitos países fragilizados na África.
Para Cardoso e Faletto (1979, p. 73), “não existem relações metafísicas de desenvolvimento entre uma Nação e outra, entre um Estado e outro. As relações são possibilitadas por uma rede de interesses e coerção que liga alguns grupos sociais a outros, algumas classes a outros”.
Olhando mais de perto, portanto, a fronteira soberana não é, em todos os aspectos, uma linha de demarcação ideal entre o interior e o exterior. Alguns sociólogos argumentam que é relevante começar com uma análise verdadeiramente global, isto é, “compreender o fluxo global das relações sociais dentro das quais o sistema internacional flutua, explorando as múltiplas dimensões dessas relações” (SHAW 1994, p. 113).
ANÁLISES CLÁSSICAS INTERNACIONAIS: SOBERANIA E O REALISMO
Não havia, a princípio, por parte dos pesquisadores, concordância sobre a importância relativa da dimensão internacional em comparação com a dimensão doméstica.Com a ideia da primazia da questão internacional, Leopold von Ranke (1795-1886) promoveu um enfoque realista na luta pelo poder entre os Estados no século XIX.
Seguindo essa tradição, Otto Hintze (1906) analisou como as estruturas domésticas (neste caso específico, a constituição e as forças militares) foram moldadas de forma decisiva pelas rivalidades externas nas quais os Estados estavam envolvidos.
Eckart Kehr (1970) e seus seguidores, por contraste, enfatizaram a primazia da política interna, argumentando que a política externa alemã antes da Primeira Guerra Mundial era moldada por influência de coalizões políticas domésticas específicas.
Imagem: Hohum/Wikimedia commons/Domínio Público Leopold von Ranke, por Adolf Jebens (1875).
A ênfase na política foi posta em questão pelas teorias marxistas do imperialismo (LENIN, 1978; HILFERDING, 1910), que explicaram a expansão econômica internacional com referência a partir das estruturas econômicas.
Foto: Jecuc/Wikimedia commons/CC BY-SA 4.0 Kenneth Waltz em 2008.
A ênfase unilateral em dimensões internacionais ou domésticas também caracteriza várias abordagens contemporâneas. A ênfase no sistema internacional é típica do neorrealismo: o objetivo da teoria da política internacional de Kenneth Waltz (Waltz 1996) é construir uma teoria sistêmica de relações internacionais, que se concentra na maneira como a estrutura do sistema internacional explica os resultados internacionais.
Trata-se de uma teoria reducionista, de acordo com Waltz, que explica esses resultados por meio de elementos e forças no nível das unidades, os Estados que constituem as partes constituintes do sistema. Ao focar nas características sistêmicas da anarquia e na distribuição relativa de poder, a teoria de Waltz é capaz de fazer algumas afirmações sobre a maneira como a estrutura do sistema internacional molda a estrutura e o comportamento das unidades.
Socialização e competição são as duas principais formas pelas quais a estrutura anárquica afeta os Estados, sendo a adaptação às exigências do equilíbrio de poder a principal maneira pela qual a estrutura anárquica afeta o comportamento do Estado.
O neorrealismo, portanto, não trata a política interna e internacional como um todo. Em vez disso, tende a substituir essa visão por uma noção de unidades de Estado meramente adaptando-se à estrutura.
LIBERALISMO COMO FERRAMENTA ANALÍTICA DE CONEXÃO DOMÉSTICA
Por sua vez, a tradição liberal em relações internacionais apresenta a teoria talvez mais conhecida que enfatiza como fatores domésticos influenciam o comportamento estatal internacionalmente.
A discussão liberal da paz democrática se baseia na observação empírica de que as democracias não lutam entre si para indicar uma possível solução para a redução de conflitos contemporâneos. O elemento central que aponta por que democracias são mais pacíficas é abordado por Michael Doyle (2005), que baseou seu argumento nas propostas feitas pelo filósofo Immanuel Kant.
Existem três elementos por trás da afirmação de que a democracia conduz à paz com outras democracias.
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CULTURA DA POLÍTICA INTERNA DO ESTADO
O primeiro diz respeito às políticas internas dos Estados democráticos, que teriam culturas baseadas na resolução pacífica de conflitos. A democracia encorajaria também relações internacionais pacíficas, na medida em que governos democráticos são controlados por cidadãos que não irão defender ou apoiar guerras com outras democracias.
VALORES DEMOCRÁTICOS
O segundo elemento é que as democracias compartilham valores e elementos morais, levando à formação do que Kant chamou de união pacífica. A noção de Democracia como um regime que tende a paz, uma vez que representa, necessariamente, conjuntos diversos de força, é algo que deve ser considerado. A lógica é que, com mais interesses em jogo, disputas definitivas são mais raras e, quando acontecem, a pressão dos grupos antagônicos em conflito tende a estabelecer um contínuo processo de resistência.
COOPERAÇÃO E INDEPENDÊNCIA
O terceiro elemento aponta que a paz entre democracias é fortalecida por meio da cooperação e interdependência. A relação entre democracias fortalece o que Kant chamou de espírito do comércio: ganho mútuo e recíproco para os envolvidos na cooperação e intercâmbio econômico internacional.
Do ponto de vista das nossas discussões aqui, o argumento da paz democrática tem algumas complicações: em vez de uma noção dinâmica de uma interação entre internacional e doméstica, a análise liberal tende a se basear na visão unilateral de que a democracia doméstica conduz à paz internacional.
Outra vertente do liberalismo, o liberalismo institucionalista, desenvolve um argumento sobre a cooperação que se concentra no nível internacional. Esse conjunto de reflexões aponta que as instituições internacionais promovem a cooperação entre os Estados (KEOHANE, 2015).
Os liberais institucionalistas concordam com os neorrealistas sobre a principal restrição sistêmica à cooperação estatal, que seria estabelecida pela anarquia e o dilema da segurança, mas sustentam que as instituições internacionais podem mitigar as consequências negativas da anarquia.
No entanto, os liberais institucionalistas não tratam a política interna e internacional como um todo. Na maioria das ocasiões, eles tratam as preferências do Estado como dadas, não em competição nem passíveis de mudança; e não tentam teorizar a política interna.
VISÕES DA TEORIA CRÍTICA E DO CONSTRUTIVISMO
A teoria crítica das relações internacionais, fortemente baseada em reflexões marxistas, contém duas linhas diferentes de pensamento sobre o problema do comportamento do Estado. Essas duas dimensões estão, em princípio, de acordo quanto ao tratamento da política interna e internacional como um todo, mas suas teorias enfatizam aspectos distintos.
As teorias do imperialismo na tradição leninista enfatizam fatores domésticos: devido às contradições da acumulação de capital, os capitalistas nacionais são compelidos à expansão internacional e à competição com outros Estados capitalistas – e essa expansão acabará por produzir guerra (LENIN, 1978). Tal raciocínio foi rotulado de reducionista no sentido de que os resultados internacionais são explicados exclusivamente pela referência às características domésticas dos Estados (WALTZ, 1996). O tratamento do internacional e do doméstico como um todo é realizado reduzindo o primeiro ao último.
Outra vertente principal da teoria crítica enfatiza as forças sistêmicas. A teoria do sistema-mundo capitalista de Immanuel Wallerstein vai tão longe nessa direção que até hesita em falar sobre sociedades. As ciências sociais, diz Wallerstein (1984, p. 2), “dariam um grande salto à frente se dispensassem inteiramente o termo”. Por trás dessa visão está a noção de que existe apenas um sistema econômico mundial, com uma única divisão do trabalho, e que é teórica e empiricamente insustentável dividir esse nível econômico em unidades de economias nacionais.
Existem diferentes políticas e culturas, de acordo com Wallerstein (1984, p. 53), mas sua dinâmica de desenvolvimento é fundamentalmente ou mesmo inteiramente moldada pelas forças sistêmicas da economia mundial. Em outras palavras, o tratamento de internacional e doméstico como um todo é realizado reduzindo o último ao primeiro.
Foto: Jbarta/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0 Immanuel Wallerstein em 2008.
A posição cria pelo menos dois problemas principais:
· É impossível empregar uma noção de Estado soberano que inclua um nível econômico até certo ponto separado do sistema econômico mundial.
· Impede uma análise significativa da concepção das forças domésticas.
A análise construtivista enfatiza que a anarquia não leva necessariamente à autoajuda ou ao conflito. Se isso acontecer, depende de uma variável interveniente: as identidades socialmente constituídas dos atores estatais. Seus processos de interação podem, em vez disso, levar a uma anarquia cooperativa, como aconteceu na Europa Ocidental. Interesses e identidadessão construídos em interação e não dados exogenamente – com a anarquia sendo o que os Estados fazem dela (WENDT, 1992).
No entanto, deve ser enfatizado que a teoria construtivista, pelo menos na versão wendtiana, é uma teoria sistêmica. É reconhecido que a política doméstica pode desempenhar um papel importante na criação de mais ou menos anarquia cooperativa, mas esse papel não é sistematicamente abordado porque o foco está na interação sistêmica.
Peter Katzenstein (1976) analisou as diferentes respostas da França e dos Estados Unidos à crise do petróleo da década de 1970. O pesquisador argumentou que o desenvolvimento histórico, diferentemente das relações entre Estado e sociedade nesses dois países, levou a uma situação em que o poder político na França foi concentrado no Estado (“Estado forte”, “sociedade fraca”), enquanto nos Estados Unidos ocorreu o inverso, com concentração do poder na sociedade (“Estado fraco”, “sociedade forte”).
Essas diferenças de estrutura doméstica explicaram por que a resposta à crise do petróleo foi tão variada, em conformidade com as expectativas realistas na França e as expectativas liberais nos Estados Unidos.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. A DISTINÇÃO BINÁRIA ENTRE “INTERNO” E “EXTERNO” SE DÁ, EM UMA LÓGICA CLÁSSICA, PELA ARTICULAÇÃO DAS PREMISSAS DE SOBERANIA E FRONTEIRA. EM RELAÇÃO A ESSA AFIRMAÇÃO, NÃO PODEMOS AFIRMAR QUE:
Essa lógica binária é fluida, na medida em que temas e questões, considerados internos, em determinados momentos, podem ser vistos como externos em outro.
As dimensões sobre “ações domésticas” precisam levar em conta práticas ligadas à colonização, por exemplo, já que modificam a ação da soberania sobre determinados espaços.
O “internacional” envolve apenas o Estado, na medida em que a soberania só atua sobre esse ente político.
A configuração jurídica que fundamenta essa lógica binária é recente, pois essas práticas soberanas só se tornaram mais universais a partir do século XX.
As práticas soberanas foram constituídas no chamado norte global, transbordando para outros espaços posteriormente, muitas vezes por meio de ferramentas violentas.
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2. UMA DAS TEORIAS LIBERAIS QUE ARTICULAM AS DIMENSÕES DOMÉSTICAS E INTERNACIONAIS É A CHAMADA TEORIA DA PAZ DEMOCRÁTICA. SOBRE ELA, PODE-SE AFIRMAR QUE:
Aponta que democracias irão sempre à guerra com Estados autoritários para modificar sua forma de organização política.
A expansão de formas democráticas irá beneficiar a paz global.
Os elementos internos da democracia, como ausência de debates, favorecem a resolução de conflitos internacionais.
Apesar de existirem inúmeros exemplos de guerras entre democracias, essa forma de governo ainda é a menos bélica em um contexto histórico.
A tendência de democracias e governos autoritários criarem alianças homogêneas favorece a “paz entre iguais” e a “guerra entre distintos”.
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GABARITO
1. A distinção binária entre “interno” e “externo” se dá, em uma lógica clássica, pela articulação das premissas de soberania e fronteira. Em relação a essa afirmação, não podemos afirmar que:
A alternativa "C " está correta.
A fronteira soberana é uma construção jurídica e legal. Nunca preveniu uma ampla gama de conexões substanciais entre diferentes sociedades, nas áreas política, econômica, social, cultural, tecnológica e outras. A consequência disso é clara: o que nós em um dado momento consideramos doméstico é o resultado de uma interação anterior entre doméstico e internacional – e vice-versa.
2. Uma das teorias liberais que articulam as dimensões domésticas e internacionais é a chamada teoria da paz democrática. Sobre ela, pode-se afirmar que:
A alternativa "B " está correta.
A teoria da paz liberal aponta que, devido principalmente a fatores domésticos, os Estados democráticos não entram em guerra entre si. A comprovação se dá em termos empíricos, já que não existem registros nesse sentido.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O debate sobre o papel do Estado nas relações internacionais é longo e profícuo. Buscamos explorar as narrativas de surgimento desse ator político, reforçando como o início de sua criação, no século XVII, demandou a formatação de práticas complexas ligadas à criação de exércitos, de mecanismos de taxação e de narrativas de pertencimento. A partir desse momento, também se iniciam reflexões do que podemos chamar de Estatologia, um campo do conhecimento que reforça a importância do Estado e, muitas vezes, fortalece que se trata do principal ator do sistema internacional.
Devido a essa importância e à capacidade de atuação no sistema internacional, a dinâmica sobre a taxonomia desse ator político é também de extrema relevância. Diferentes ferramentas tentam apontar qual seria a melhor maneira de elencar os Estados, como forma de governo, organização dos poderes ou quantidade de indivíduos que participam do processo decisório. Esse tipo de apontamento é ainda mais relevante ao levarmos em conta as práticas subjetivas que reforçam a constituição do Estado, na materialização do que denominamos Nação. Nesse ponto, elementos como língua em comum e história compartilhada são importantes para desvendar o acoplamento do Estado-Nação e como, em alguns casos, esse processo é imperfeito ou até mesmo nem ocorre.
É inevitável que Estados passem a competir por recursos e a projetar poder em espaços específicos. Também se debateu neste conteúdo de que forma podemos avaliar esses projetos, além de reflexões sobre a influência do meio na composição dos Estados e suas estratégias geopolíticas. Por fim, apontamos como uma reflexão sofisticada dos Estados e seus interesses precisa passar necessariamente por um amálgama das ações domésticas e internacionais. Assim, distintas teorias vão tentar dar conta de compreender como elementos internos podem auxiliar nas explicações e nos interesses externos desses atores políticos.
O Estado é ainda o principal ator do sistema internacional, com capacidades militares, jurídicas e políticas únicas. Uma análise sofisticada de sua história e formação, além de suas estratégias, é essencial para alunos interessados em política, dimensões internacionais e reflexões normativas.
AVALIAÇÃO DO TEMA:
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EXPLORE+
Filmes:
A praça (2017), sobre a dinâmica doméstica impactada.
Dr. Strangelove (1964), um clássico que remete às dinâmicas internacionais.
Livros:
GOTTLIEB, G. Nation against state: a new approach to ethnic conflicts and the decline of sovereignty. New York: CFR, 1993.
SCHWARCZ, L. M. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 99-133.
SIMAS, L. A.; RUFINO, L. Encantamento: sobre política de vida. Mórula, 2020.
DESCRIÇÃO
A relação entre o sujeito, o agente primordial da política internacional e o objeto “Relações Internacionais” como ciência, além de seus fenômenos fundamentais e da teoria sobre o campo.
PROPÓSITO
Dar fundamentos ao internacionalista para a análise de seu campo de pesquisa e o entendimento, de forma complexa, das dinâmicas políticas, sociais e culturais envolvidas nas Relações Internacionais.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Distinguir a fenomenologia e as Relações Internacionais
MÓDULO 2
Identificar pré-ordem, nomologia, saber internacional e simetria nas Relações Internacionais
MÓDULO 3
Reconhecer comunidade, sistema e cenário internacional como elementos fundamentais para as Relações Internacionais
INTRODUÇÃO
Os estudantes de Relações Internacionais (RI), em algum momento do seu percurso formativo, serão questionados sobre a especificidade de sua área de estudo. Por vezes, eles serão consultados com questionamentos, como: “Por que isso é um assunto de RI?”, “O que define o internacional?” ou “Um tema internacional é aquilo que aparece nos cadernos referentes aos assuntos internacionais dos jornais?”.
Apesar de parecer clara e evidente a importância da política internacional na atualidade, saber fundamentar sua relevância e pertinência como área do conhecimento é uma das capacidades que deve ser desenvolvida pelos alunos de RI ao longo da sua graduação. Entretanto, antes de esmiuçar os detalhes dos aspectos teóricos e práticos da disciplina de maneira mais específica, consideramos relevante propor um tipo de reflexão que exige maior capacidade de abstração.
Nosso objetivo, portanto, é auxiliar o estudante de RI a construir bases conceituais sólidas que fundamentarão o seu caminho intelectual ao longo do curso. Para isso, exploraremos discussões e reflexões advindas da área da Filosofia para questionarmos conceitos, categorias e situações que aparecem rotineiramente e de maneira cristalizada no imaginário comum sobre as RI. Portanto, mostraremos a reflexão sobre as Relações Internacionais como um fenômeno.
O foco excessivo em temas internacionais pode causar a impressão de que o estudante de RI é alguém voltado somente para questões aparentemente distantes, longe do nosso interesse imediato e da nossa capacidade de atuação. Nesse momento, um impasse parece tomar conta das mentes dos analistas de política internacional: o internacional parece estar em todo lugar e, ao mesmo tempo, longe de nós.
Entretanto, essa impressão de senso comum pode contribuir para a difusão da ideia de que as RI seriam um assunto alheio à nossa realidade, sem materialidade, ou exclusividade de diplomatas nos fóruns internacionais. Um dos nossos objetivos é mostrar que tal ideia não corresponde à realidade.
Os professores João Pontes Nogueira e Nizar Messari respondem a essa pergunta “Para que uma teoria das relacionais?” argumentando que as teorias são instrumentos fundamentais para nos ajudar a entender fenômenos cada vez mais complexos da política internacional. Desse modo, pretendemos dar um passo atrás para pensar de forma mais ampla sobre as ideias de fenômeno e de fenômeno internacional (CERVO, 2008).
CONCEITO DE EPOCHÉ NA FENOMENOLOGIA
Assista ao vídeo abaixo sobre o conceito de epoché na fenomenologia.
JOÃO PONTES NOGUEIRA
João Pontes Nogueira possui graduação em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1984), mestrado em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio, 1994) e doutorado em Relações Internacionais pela University of Denver (1998). Desenvolveu sua pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Victoria (UVIC), Canadá, onde atuou com professor visitante. É professor adjunto do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da PUC-Rio desde 2000. Foi secretário executivo e diretor da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI, 2005-2009), da qual foi um dos fundadores. Atua principalmente nos seguintes temas: teoria das Relações Internacionais, sociologia política internacional, desigualdade na política mundial, humanitarismo e o lugar das cidades na política mundial. Foi diretor do IRI/PUC-Rio entre 2008 e 2012 e supervisor-geral do Centro de Estudos dos Países BRICS (BRICS Policy Center) durante o mesmo período. Foi editor-chefe, com Jef Huysmans, da revista International Political Sociology (IPS), da International Studies Association (ISA), de 2012 a 2016, sendo membro do conselho editorial de diversas revistas nacionais e internacionais.
NIZAR MESSARI
Nizar Messari é professor e pesquisador decano da School of Humanities & Social Sciences da Al Akhawayn University, no Marrocos. Possui graduação em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (1992), mestrado em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1994) e doutorado em Relações Internacionais pela University of Miami (1998). Foi professor assistente da Pontifícia Universidade Católica do Riode Janeiro. Tem experiência na área de Ciência Política com ênfase em política internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: teoria, Relações Internacionais, identidade, política externa, EUA e Islam.
MÓDULO 1
Distinguir a fenomenologia e as Relações Internacionais
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A FILOSOFIA NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
A partir do momento em que foi sistematizado como campo científico, o campo das Relações Internacionais baseou suas primeiras premissas, trabalhos e preceito de investigação nas dinâmicas do debate do próprio objeto a partir de tendências liberais e construtivistas, entre outras abordagens.
No entanto, existe uma perspectiva central nessa conformação. A disciplina de Relações Internacionais, afinal, se baseia em outro campo científico: o da Filosofia.
O sentido, portanto, da fenomenologia das RI se baseia e tem como mote de análise a noção de que o fenômeno é um centro, o que, nessas dinâmicas, não é óbvio. O fenômeno é expresso de maneira diversa e plural; entretanto, há um preceito básico: as Relações Internacionais não são um fenômeno em si.
Esse fenômeno só poderá ser observado se for compreendido dentro das relações – primeiramente e em especial – com o sujeito. Existe uma composição absolutamente fundamental: não existem relações internacionais sem o sujeito e sua capacidade de iniciativa. Elas são o objeto que materializa o conjunto de relações dos sujeitos e as relações estabelecidas entre eles.
A sua dinâmica não é expressa por uma relação meramente política ou fronteiriça, mas precisa partir do fundamento máximo da inter-relação do “eu-objeto”, ou seja, o sujeito como capacidade de iniciativa. A partir daí, a relação eu-objeto passa a gerar as suas nomenclaturas, categorias, classificações e conceituações, construindo os seus fenômenos dentro de cada uma dessas materializações como um campo com jogos próprios.
Por meio dessa dinâmica, o analista em RI pode perceber as relações internacionais a partir dos fenômenos que se definem necessariamente nas relações entre o sujeito e o campo de RI.
FENOMENOLOGIA
A fenomenologia é um método de investigação filosófica que pretende analisar e descrever os fenômenos que a experiência e a consciência têm do mundo. Merleau-Ponty, em seu livro Fenomenologia da percepção (1994), a descreveu como uma maneira de ajudar a consciência humana a revelar “o mistério do mundo e mistério da razão” (THÉVENAZ, 2017).
E QUAL É A ORIGEM DA FENOMENOLOGIA?
Esse modo de raciocinar tem sua origem na Filosofia como reflexão sobre os limites do conhecimento e daquilo que pode ser percebido pelo sujeito. Por não compreender as coisas e os fenômenos como algo pronto e acabado, a fenomenologia procura estabelecer um método de estudo sobre os fenômenos capazes de serem compreendidos pela mente humana. Ou seja, é uma forma de estabelecer relações entre a experiência sensível e o saber, assim como entre a consciência do saber humano e o mundo exterior a ela.
Segundo os seus preceitos, os grandes temas filosóficos, em sua base, são problemas do entendimento que o ser humano tem sobre o mundo. O filósofo e matemático alemão Edmund Husserl (2006), no livro Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica, argumenta que:
Imagem: Shutterstock.com Edmund Husserl.
Em síntese, todo movimento da consciência humana pressupõe uma intencionalidade, dirigindo-se pelo caminho/movimento intencional da reflexão sobre algum fenômeno.
A consciência e os processos mentais (crenças, julgamentos, juízos etc.) devem estar submetidos ao exercício crítico da razão.
EXEMPLO
Alguém que tem medo de fantasmas, por exemplo, direciona a consciência no caminho de algo (nesse caso, o fantasma) antes de considerá-lo – ou não – uma realidade. O ato de direcionar a consciência a algo que não existe empiricamente, e sim de maneira abstrata/fantástica, faz com que a o medo de fantasmas seja considerado por muitos como realidade. Ou seja, os objetos, segundo Husserl, podem ser reais como uma tesoura, fantásticos como um fantasma ou ideais como os sentimentos de amor ou de felicidade.
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Husserl se inspira na tradição filosófica kantiana, que argumentava que há uma radical diferença entre fenômeno e coisa em si. Segundo Kant (2017), não temos condições de entender a coisa em si, e sim a maneira pela qual as coisas se revelam e são percebidas pelos nossos sentidos. Por isso, o mundo é um fenômeno e precisa ser revelado por um exercício ativo da consciência, e não pela simples contemplação da natureza, como imaginavam os antigos. De acordo com essa visão, cada vez que utilizamos a nossa consciência para aprender algo, estamos contribuindo para compreender os fenômenos do mundo.
Foto: Becker, Wikimedia Commons, Domínio Público Immanuel Kant
Husserl, entretanto, faz algumas ponderações sobre essa maneira de pensar.
Segundo o filósofo, como cada ser humano possui uma subjetividade própria, ele pode compreender o mundo e as coisas de maneira particular, à sua maneira.
Husserl então procura desenvolver o seu método fenomenológico de modo a não cair na armadilha do relativismo e do subjetivismo.
Para o autor, o problema era a forma como ciência moderna estava sendo constituída no início do século XX, pois abria espaço para o avanço de ideias pouco precisas sobre a realidade, estimulando mais descrições discursivas sobre os fenômenos do que maneiras de compreendê-los de fato.
ENTÃO O QUE É PRECISO FAZER PARA ESCAPAR DESSA ARMADILHA?
Ele argumenta que a Filosofia não deveria insistir em criar sistemas especulativos e abstratos, e sim uma maneira rigorosa e baseada em evidências da compreensão e apreensão do mundo. O problema que ele tenta resolver é o seguinte: como os fenômenos e as coisas objetivas podem ser compreendidas pelos seres humanos que possuem uma consciência subjetiva?
O primeiro passo para nos livrarmos dessa armadilha é colocar todos os nossos pressupostos em dúvida até o ponto em que eles não podem mais ser questionados. Em outras palavras, o pressuposto da reflexão deve começar a partir de questionamentos radicais sobre tudo que acreditamos saber acerca do mundo, isto é, a suspenção do juízo.
Essa posição cética pretende, antes de tudo, buscar aquilo que é verdadeiro, nos colocando em uma posição crítica em relação ao que se apresenta na aparente realidade e naturalidade. Quando se direciona para os fenômenos, seu objetivo não é descrever os fatos percebidos pelos sentidos, e sim identificar as essências vislumbradas a partir desses fenômenos.
Desse modo, a fenomenologia seria uma ciência das essências, e não mais dos fatos, sendo que a essência pode ser entendida como a estrutura fundamental do fenômeno, ou seja, aquilo que é capaz de determiná-lo de maneira universal.
Outro autor importante nesse campo é o filosofo francês Maurice Merleau-Ponty. Apesar de reconhecer e se inspirar no modelo desenvolvido por Husserl, ou seja, de compreensão do mundo a partir dos seus fenômenos, ele procura se distanciar do pensador alemão quando afirma que a fenomenologia deve se basear no exercício e na experiência da nossa percepção do mundo, e não na busca da essência dos objetos. Segundo Merleau-Ponty:
Foto: Philosophical-investigations.org/ Wikimedia Commons/ CC BY 3.0 Maurice Merleau-Ponty.
A noção de percepção ou de sentidos/paixões sempre foi desvalorizada na história da filosofia e na ciência como método de investigação. A ideia de percepção esteve quase sempre vinculada a um atributo depreciativo, como aquilo que confunde a razão, como se o intelecto fosse algo desconexo e superior à nossa percepção. Para Merleau-Ponty, a percepção é a primeira forma de contato do homem com o mundo, ou seja, da consciência com a realidade que o cerca.
Portanto, se quisermos retornar à origem do ato de pensar, devemos refletir primeiro sobre as nossas percepções, pois são elas que nos revelam o mundo em sua origem. Nesse empreendimento filosófico, corpo e mente não são vistos de forma separada, e sim integrada e conectada.
Merleau-Ponty argumentaque a investigação fenomenológica não será exitosa se não considerar a maneira na qual o corpo se porta no mundo, tal como a captação de impressões dos sentidos. A fenomenologia seria então um exercício da consciência na medida em que tenta decifrar as percepções, os acontecimentos e o mundo vivido pelo homem, sendo a percepção a base sobre a qual todos os atos do pensamento se manifestam.
O homem, portanto, sempre pensa no mundo a partir das suas experiências vividas e a partir daquilo que ele é. O homem situado no mundo o constrói à sua imagem e, a partir disso, pensa e confere significado a ele.
A percepção das coisas e o nosso corpo estão conectados de maneira orgânica, isto é, estamos no mundo enquanto permanecemos no nosso corpo; por isso, ficamos condenados a exercitar a consciência por meio dos sentidos. Merleau-Ponty entende que a fenomenologia não é a busca pela essência das coisas e dos objetos, do ser puro, mas pela essência da percepção, dos sentidos, das experiências e das subjetividades humanas.
Dessa maneira, a consciência desprovida de corpo é um conceito abstrato, uma vez que o corpo não é um objeto solto no mundo, e sim a condição primeira da experiência do homem no mundo, de modo que o exercício da consciência envolve a relação dele com o seu corpo, do seu corpo com a consciência e, a partir daí, com o mundo.
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Desse modo, a percepção pura não é um empreendimento empírico ou resumido a um conjunto de sentidos. Trata-se, na verdade, da capacidade do homem de perceber e compreender, por meio da consciência, aquilo que nos cerca graças aos sentidos.
Entretanto, adverte Meralu-Ponty, a experiência do homem no mundo, além de estar condicionada pelo corpo/sentidos, também é definida pelo horizonte historicamente encarnado. A existência do homem, assim, está condenada a um corpo e a viver de acordo com o tempo histórico no qual ele está inserido.
A contribuição que Merleau-Ponty traz para a Filosofia a tentativa de pôr fim à “velha” dualidade ente mente e corpo, sendo o papel da fenomenologia o de lançar luz sobre o primado da experiência e da percepção como elemento ativo e constitutivo da consciência.
TEORIZANDO O CAMPO
QUAL É A DIFERENÇA ENTRE AS CIÊNCIAS HUMANAS E AS CIÊNCIAS CHAMADAS “DURAS”?
Resposta: a percepção de resultado. As humanidades, como campo de conhecimento posterior à Segunda Guerra Mundial, passaram por um processo de “amadurecimento” marcado principalmente pela introdução de elementos filosóficos em seus campos teóricos. Isso as libertou de algumas amarras perigosas e críticas, como, por exemplo, a de que historiadores podiam prever eventos futuros ou que sociólogos podiam propor a sociedade perfeita.
Entretanto, o principal elemento de libertação ocorrido nos diferentes campos científicos das humanidades ocorre no desvencilhamento da noção de verdade.
ATENÇÃO
A adoção de um procedimento científico que possa ser aplicado de forma estruturada para perceber um resultado, mesmo que provisório, não existe – e essa concepção é superada, tal como a de assumir como verdade a precisão do campo em determinar ou analisar eventos de maneira definitiva. Sendo humanas, sendo discursos, sendo construções, isso não é possível. O que se coloca nesse contexto é uma postura crítica em relação ao procedimento científico e aos seus resultados.
A introdução ou reintrodução de elementos filosóficos nos debates sobre teoria mudam a visão. Nas Relações Internacionais, as linhas e influências foram diversas; no entanto, a construção fenomenológica foi fundamental. O campo definitivamente recupera a sua visão de mundo e de fenômenos inscritos nele que não podem ser alcançados ou definidos como objetos, e sim como se inscrevem no mundo e como os sujeitos se relacionam com ele.
RESUMINDO
Em resumo, é perceber que as RI não estudam Estados distantes, holísticos e irredutíveis, e sim que seus eventos se inscrevem nos sujeitos. Trata-se de ver, como um fenômeno, que precisamos questionar cada um dos seus processos para que eles nos levem a novas perguntas e possibilidades. Isso amplia os arcabouços, como veremos no próximo módulo.
A QUESTÃO DA ANGÚSTIA E AS IMPLICAÇÕES DA FENOMENOLOGIA NAS CIÊNCIAS HUMANAS
Assista ao vídeo abaixo sobre a questão da angústia e a as implicações da fenomenologia nas ciências humanas.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. AO DESENVOLVER O MÉTODO FENOMENOLÓGICO, EDMUND HUSSERL ARGUMENTA QUE A FORMA COMO O PRETENSO “OBJETIVISMO CIENTÍFICO” ERA ENTENDIDO PODERIA NOS LEVAR A CAIR EM ARMADILHAS DO PENSAMENTO. ASSINALE A ALTERNATIVA INDICADA PELO AUTOR PARA EVITAR ESSE ERRO.
O primeiro passo para nos livrarmos dessa armadilha, segundo Husserl, é colocar todos os nossos pressupostos em dúvida até se chegar ao ponto daquilo que não pode mais ser questionado. Em outras palavras, o pressuposto da reflexão deve começar a partir de um questionamento radical de tudo que acreditamos saber sobre o mundo. Trata-se da suspenção do juízo.
O primeiro passo para nos livrarmos dessa armadilha, segundo Husserl, é assegurar que as bases do conhecimento estejam fundamentadas em opiniões plurais e que representem cada vez mais a diversidade. Em outras palavras, a reflexão e a diversidade precisam estar conectadas na busca pelo entendimento.
O primeiro passo para nos livrarmos dessa armadilha, segundo Husserl, é colocar todas as evidências cientificas em conflito com a dúvida metódica. Ou seja, o método cartesiano e o fenomenológico estariam em permanente contradição; juntos, eles não são capazes de nos guiar ao entendimento das coisas.
O primeiro passo para nos livrarmos dessa armadilha, segundo Husserl, é colocar a consciência em um processo contínuo de expansão baseada nos ideais iluministas e do racionalismo científico. Desse modo, o entendimento humano sobre o mundo pode ser uma ferramenta na busca pela emancipação do homem das amarras que nos prendem.
O primeiro passo para nos livrarmos dessa armadilha, segundo Husserl, é questionar toda a bibliografia disponível sobre o tema para demonstrar a originalidade da análise feita e os caminhos que levaram ao alcance da verdade sobre o objeto investigado.
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2. À LUZ DO PENSAMENTO APRESENTADO POR MERLEAU-PONTY, A FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO É BASEADA NA PREMISSA:
De que o corpo é um elemento desagregador do conhecimento. Todas as manifestações dos sentidos são percebidas como obstáculos ao caminho do entendimento sobre o mundo.
De que o homem não consegue implementar um empreendimento filosófico realmente eficaz devido ao fato de não compreender o que se passa com a consciência do seu semelhante. Ou seja, estaremos condenados a fazer uso inadequado da razão enquanto não entendermos o que se passa com o próximo.
De que corpo e mente não podem ser pensados de forma separada, e sim integrada, sendo a percepção a primeira forma de contato do homem com o mundo. Desse modo, se quisermos retornar à origem do ato de pensar, devemos refletir primeiramente sobre as nossas percepções.
De que a percepção é um método eficaz na busca pelas verdades cientificas; entretanto, tal método deve ser adotado com cautela e precaução, isto é, o uso irrestrito das percepções pode provocar nuances que desorientam o entendimento.
De que o corpo é essencialmente o único meio de percepção sobre os fenômenos e precisa ser entendido como método e síntese do que é apreendido pelo sujeito. Nesse sentido, a percepção tem um fim em si mesmo como análise de mundo.
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GABARITO
1. Ao desenvolver o método fenomenológico, Edmund Husserl argumenta que a forma como o pretenso “objetivismo científico” era entendido poderia nos levar a cair em armadilhas do pensamento. Assinale a alternativa indicada pelo autor para evitar esse erro.
A alternativa "A " está correta.
Primeiramente, devemos entender os “pressupostos” como pontos de partida de uma investigação no campo científico. Nesse sentido, ao questionar tais pressupostos a fim de alcançar a suspensão dojuízo, Husserl nos convoca para assumirmos uma posição cética e crítica em relação a possíveis elementos que pareçam naturais. Sendo assim, a fenomenologia de Husserl, ao retornar ao “ponto zero” da análise, busca ser uma ciência das essências.
2. À luz do pensamento apresentado por Merleau-Ponty, a fenomenologia da percepção é baseada na premissa:
A alternativa "C " está correta.
À diferença de Russel, Merleau-Ponty compreende que a fenomenologia não é uma busca pela essência das coisas e sujeitos, e sim da percepção, experiências e subjetividades. Nesse sentido, e como metodologia de apreensão, ela não dicotomiza a relação entre corpo (percepção sensorial) e mente (conceituação abstrata). Na mesma medida, o corpo não é um objeto solto no mundo, enquanto a mente não parte do nada para conceituar os fenômenos.
MÓDULO 2
Identificar pré-ordem, nomologia, saber internacional e simetria nas Relações Internacionais
CONCEITOS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS E A FILOSOFIA
No módulo anterior, você entendeu como a Filosofia impactou os campos de estudo no século XX. Em especial, viu como as RI foram afetadas pelo debate filosófico das humanidades.
Além do campo teórico, tivemos profundas mudanças no de observação.
Imagem: Jean-Jacques-François Le Barbier/Wikimedia Commons Domínio Público A Declaração dos direitos do homem e do cidadão, elaborada na França em 1789, foi um dos muitos documentos políticos produzidos no século XVIII sob a inspiração do ideário iluminista.
Até meados de 1940
As concepções iluministas e estruturalistas ofereciam uma base relativamente sólida de orientação.
Fim da Guerra Mundial
No fim da Guerra Mundial, e com o surgimento da Organização das Nações Unidas, a visão ainda era norteada pela noção estruturante.
Imagem: Denelson83, Zscout370 ve Madden/ Wikimedia Commons/ Domínio Público Bandeira da ONU.
Foto: Noir/Wikimedia Commons/CC BY-SA 3.0 O muro de Berlim tornou um símbolo da Guerra Fria. Sua queda, em 1989, marcou o fim iminente do conflito e o início do processo de descomunização e lustração.
Início da Guerra Fria
Atrevemo-nos a dizer que até mesmo nos primeiros movimentos da Guerra Fria ainda era relativamente claro que conceitos estruturais para RI pareciam ser suficientes, tais como Estado, nação, fronteira, negociação, conselhos e organizações e, principalmente, universalismo.
Atualmente, isso deixou de ser uma realidade. De maneira continua, passamos a perceber que a concepção estrutural e científica clássica não dava conta dos movimentos, fenômenos e aspectos que se apresentavam às Relações Internacionais. Movimentos internos, de grupos e contraditórios ganhavam cada vez mais palco nas demandas e no campo científico.
Nesse sentido, tais noções não davam conta das dúvidas de que os “direitos humanos universais” poderiam ser criticados por serem um valor que os demais grupos não coadunavam, seguindo uma moral que definitivamente não se encaixa em um deles. Vimos fronteiras derreterem e separatismos nacionalistas tornarem-se forças dispersas. A aldeia global, uma novidade que parecia tão definitiva, perdeu o sentido rapidamente frente a essas dinâmicas plurais.
Para destacar esses diversos movimentos, deve-se levar em consideração a chegada da Linguística, da Filosofia e dos debates que não estavam interessados em uma cristalização científica. Preceitos baseados na ideia de pós-modernidade pareciam cada vez mais presentes.
Os turns das diferentes áreas das humanidades invadiram as abordagens de RI. Repare que nada do que apresentamos aqui aconteceu de forma rápida. Tais processos se solidificaram a partir dos anos de 1950 e ao longo da segunda metade do século XX e do XXI.
Observamos – e continuamos vendo – as velhas concepções derreterem, se reinventarem e disputarem. Diante disso, os cientistas que lidam com as relações humanas modificaram sua forma de perceber o mundo.
A fenomenologia não deve ser compreendida como a chave filosófica das Relações Internacionais, e sim como uma provocação, uma mudança de pressuposto, de entendimento social. Por isso, torna-se fundamental para entender e discutir os novos processos experimentados desde então. Nesse viés, uma série de conceitos pôde ser repensada e reprovocada com a ajuda das pesquisas de internacionalistas, como, por exemplo, Thalles de Castro (2012).
AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS E A RELAÇÃO SUJEITO-OBJETO: ENTRE O MONISMO E O DUALISMO
Existem muitos conceitos fantásticos de cunho filosófico que poderíamos trabalhar de forma antiquada e que, ao final, despertariam a triste sensação de que nada foi compreendido. Isso, porém, não é nosso objetivo: não pretendemos apresentar somente conceitos sem seu contexto de produção.
Reforçamos, por isso, a sugestão de leitura sobre o lindo mundo da filosofia. Contudo, vamos, a partir daqui, trazer os conceitos de forma prática e compreensível.
Sobre a descrição das Relações Internacionais, o teórico norte-americano Stoessinger descreve três grandes princípios conceituais sobre a disciplina:
TURNS
Conhecidos como “viradas”, eles marcam novas abordagens desenvolvidas ao longo da segunda metade do século XX e XXI. Os campos mais conhecidos são estes: linguistic turn e anthropological turn.
[A] ANÁLISE SISTEMÁTICA SOBRE A TENSÃO ENTRE A LUTA PELO PODER E LUTA PELA ORDEM; A DIVERGÊNCIA ENTRE AS IMAGENS QUE AS NAÇÕES FAZEM DOS ASSUNTOS INTERNACIONAIS, E UMA DAS OUTRAS ENTRE SI E A REALIDADE INTERNACIONAL TAL QUAL REALMENTE É; E, POR FIM, A LUTA DO ORIENTE CONTRA O OCIDENTE.
(STOESSINGER, 1978, p. 19 apud CASTRO, 2012. p. 75)
Repare que seu foco era totalmente o conceito de nação e a forma como o poder se estabelece. Podemos criticar a ideia da luta Oriente x Ocidente, mas as duas primeiras abordagens nos interessam aqui.
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Primeiramente, a aproximação entre Relações Internacionais e políticas internacionais, as quais, trabalhadas como sinônimos no primeiro eixo, têm como fenômeno central o poder. Levando em consideração aspectos filosóficos, o poder se inscreve no tempo, sendo uma relação entre sujeito e objeto na qual o que se reflete e se desenrola são aspectos diferentes do fenômeno.
Em outras palavras, o poder está na relação. Ele é travado sempre, se manifestando em todas as escalas. O poder muda de roupagem, de imposição, de hegemonia e de resistência, porém está sempre lá, assumindo papel central no fenômeno. Já a política é, em sentido claramente extremo, o exercício de relações de poder. Desse modo, as Relações Internacionais têm esse fenômeno no centro, embora ele esteja focado em diferentes escalas.
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A segunda parte da definição de Stoessinger complementa o que precisamos saber acerca dessa dinâmica: a tensão entre as imagens das Relações Internacionais. Tais imagens não são institucionais: elas são, na verdade, construções, caracterizando-se como ações dos sujeitos imersos nas disputas. Daí evidencia-se que o estudo dos fenômenos gera uma necessária prática em desdobrar suas formas de se inscrever no mundo, o impacto nos sujeitos e os impactos dos sujeitos. E aquilo que parecia um mapa de fronteiras passa a ser um mapa complexo, colorido, relacional e de ações, sendo, portanto, dinâmico.
Um mapa de relações complexas significa uma demanda por mais chaves analíticas para nossa capacidade de observação. Desse modo, vamos conhecer algumas muito úteis ao trabalho do internacionalista.
MONISMO E DUALISMO
A relação sujeito-objeto é mediada pelos fenômenos com suas características apresentadas no mundo externo. Quando falamos em mundo externo, pensemos no físico, no conjunto denso dos objetos, mas também em como eles se tornam compreensíveis ao ser humano. Um objeto, afinal, existe como tal se é nomeado.
Além disso, toda nomeação, para que possa ser entendida, tem de ser reconhecida pelos sujeitos que partilham. Com isso, temos duas formas de ver como o indivíduo se relaciona com o objeto “Relações Internacionais”: a visão monista e a dualista.
NO MONISMO, TANTO O SUJEITO QUANTO O OBJETO SE FUNDEM EM UMA ÚNICA MASSA PLENA DE TEIAS, DE DADOS, FATOS, INFORMAÇÕES, FLUXOS, REFLUXOS EPERTINÊNCIAS COMPLEXAS QUE DÃO FORMA E SENTIDO AO SABER INTER-NACIONAL. [...] A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA DO MONISMO É A INFLUÊNCIA RECÍPROCA, CONSTANTE E INDISSOCIÁVEL ENTRE S E O.
(CASTRO, 2019. p. 211)
Imagem: Shutterstock.com
Pode traduzir isso, por favor?
Claro! Podemos estudar o objeto como um todo ― a política internacional, por exemplo ―, uma vez que sujeito e objeto são indissociáveis. De alguma forma, o conjunto só existe pela soma dos indivíduos.
Assim, por exemplo, podemos estudar a independência do Brasil no campo das Relações Internacionais, pois só existe Brasil e movimento de independência a partir da soma das ações daqueles sujeitos que criaram esse movimento e daqueles que assim o nomearam.
Estudar as Relações Internacionais estabelecidas na negociação com norte-americanos e ingleses, buscando apoio para que Portugal reconheça, constitui, em si, o fruto de uma ação dos indivíduos.
Retomemos a discussão da problemática à guisa de pergunta crítica: se sujeito e objeto são uma só entidade, quem surge então primeiramente? Qual relação de causa e efeito em uma entidade é considerada como um elemento sólido uníssono? Qual é o método mais adequado para compreender o sujeito e o objeto, já que ambos são considerados como um? (CASTRO 2019).
NA ANÁLISE DE UM FENÔMENO EM QUE SUJEITO E OBJETO SE RELACIONAM, TEMOS O CONJUNTO DOS SUJEITOS GERANDO A AÇÃO DO OBJETO, OU ESTE É O QUE EXISTE E O COLETIVO SE VÊ IDENTIFICADO?
Calma, isso é fácil. Suponha que você torça para um time de futebol, uma escola de samba ou qualquer outro fenômeno. Tal torcida tem uma identidade. Essa identidade é a soma dos coletivos ou o interesse do indivíduo em fazer parte deles?
Objeto com interação. Objeto com interação.
Unidos de Padre Miguel, Rio de Janeiro, 2016.
Em síntese, a problemática principal dessa abordagem é se o fenômeno se dá pela soma dos sujeitos em relação a dado objeto ou pela capacidade de objeto e sujeitos assumirem uma dinâmica coletiva e uma identidade comum.
PARA O DUALISMO, PODE-SE DISSECAR, DE FORMA CLARA E VÁLIDA, CADA UMA DAS ESFERAS S E O. NESSE CASO, É POSSÍVEL COMPREENDER E ESTUDAR, DE FORMA PLENA E ISOLADA, O SUJEITO SEM TER PARCELAS DE ESTILHAÇAMENTO DAS PROPRIEDADES DO OBJETO E VICE-E-VERSA. O SUJEITO É O FOCO, PORÉM O OBJETO É O LOCUS, APRESENTANDO-SE, ASSIM, COMO ESFERAS DISTINTAS. O DUALISMO ENTENDE QUE HÁ POSSIBILIDADE DE ESTABELECIMENTO DE HIATO ENTRE O FOCO (SUJEITO) E O LOCUS (OBJETO), GERANDO, DESSA FORMA, A VALIDAÇÃO TEÓRICA DA RELAÇÃO ENTRE SUJEITO E OBJETO PONTUALMENTE ESTRATIFICADA.
(CASTRO, 2019, p.212)
O dualismo é quando você para de estudar o casamento, passando a estudar o de a e b. Esse matrimônio, claro, faz parte do casamento como um conceito essencial, mas é um caso individual – e é próprio pelas relações que são estabelecidas. O casamento, portanto, se trata de um fenômeno nominado e inscrito na sociedade, porém o seu significado precisa ser dissecado, elaborado e pensado.
É fácil você observar isso, por exemplo, na polêmica sobre a pandemia de covid-19. Algumas posições extremas em relação ao caso podem ser transformadas em questionamentos que buscam uma reflexão sobre o fenômeno a partir da posição dos sujeitos em relação ao objeto.
EXEMPLO
“Devemos ter ódio a China por serem comunistas e quererem destruir o nosso mundo, atribuindo tudo a um unitarismo, a um lado a se posicionar?”. Ou, de outra maneira, podemos perceber que até o fenômeno da xenofobia em relação aos asiáticos é anterior ao contexto pandêmico, que a associação histórica da China ao comunismo tem uma relação inscrita na história do Brasil ou que tal relação vai modificar as relações governamentais.
Foto: Shutterstock.com Pandemia do covid-19 na China, 2020.
A depender dessas ponderações, ainda é necessário lidar com a China como um dos maiores jogadores do comércio mundial – e o Brasil, nesse caso, não poderá deixar de discutir com ela.
NOMINALISMO E CONCEITOS NECESSÁRIOS
As Relações Internacionais não são um fenômeno para as embaixadas: elas são, na verdade, sociais e cotidianas. Queira ou não, não há como pensar o mundo sem observar seu papel.
A política internacional é bastante visível: está nos relacionamentos e nos tratos humanos, na rede, no seu sistema de crenças, no que você come ou deixa de comer. O saber internacional impacta cotidianamente as nossas vidas, criando e recriando nossa concepção de cidadãos. Estudar seus fenômenos implica a capacidade de analisar o mundo contemporâneo.
Mas por que a busca pelo fenômeno, por um arcabouço que se aproxima de Husserl e Ponty? Essa percepção nos ajudará a investigar o processo de maneira menos tácita. Não à toa, ela é uma crítica ao funcionalismo e à ordem estruturalista, a qual, apesar de confortável, reduz os olhares. Em certo sentido, podemos perceber:
[A] IMPORTÂNCIA DO QUE CONHECEMOS E COMO CONHECEMOS A POLÍTICA INTERNACIONAL COMO ATO HUMANO DE LIBERDADE. O SUJEITO COGNOSCENTE É O DESTINATÁRIO DOS ATOS E FATOS INTERNACIONAIS E, PORTANTO, A LIBERDADE DEVE SER SEU NEXO CAUSAL ― LIBERDADE DE DECIDIR, DE INVENTAR, DE INTERPRETAR, DE PROPOR E DE REFORMAR”
COGNOSCENTE
O sujeito capaz de conhecer, de saber, de aprender.
Em outras palavras, todo e qualquer processo de relações estabelecido em RI não é um mero acordo entre países. Trata-se, na verdade, de símbolos que apontam para interesses e decisões dos agentes.
Obviamente, muitos aspectos precisam ser descontruídos e dissecados. No entanto, pense em um processo como o do Fim de Guerra Fria: ele tem dinâmicas diversas dentro do processo internacional, embora haja uma catarse humana representativa na derrubada do muro. Isso é um retrato disforme não apenas do sujeito, mas também do sujeito consciente – e as Relações Internacionais existem (ou deveriam existir) para ele. Nesse sentido, há uma relação do ser e do dever.
As RI, diante de um tecido complexo de espaço e tempo que constituem a realidade social, se manifestam em recortes, porém, nesses pontos, o sujeito é a chave. É ele que recebe e direciona o olhar científico desse objeto.
Foto: Lear 21 / Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0 Queda do Muro de Berlim, Alemanha, 1989.
O indivíduo é um pequeno recorte, enquanto as RI são o quadro panorâmico maior. Seu nexo causal com a política das nações é a razão e a liberdade, constituindo uma subjetividade emancipatória maior.
O sujeito carrega em si as preferências, as idiossincrasias e as poeiras do seu tempo, enquanto as Relações Internacionais permanecem como objeto pontual dos contatos e das trocas entre os povos (CASTRO, 2019).
A pré-ordem é o ponto de partida da observação científica dos estudos de RI, em que tudo começa em um estudo de política internacional, sendo a percepção contextual e as pedras escolhidas para o início da análise. Dali, o analista gera o avanço e ratifica o debate.
Tomemos como exemplo a hegemonia. Para que se discuta seu significado, você parte de conceitos, de formas puras e genéricas, que a definem como uma disputa por dado objeto que resulta em uma correlação de forças controlada por um dos agentes disputantes. A partir desse movimento, da relação dos sujeitos com a hegemonia e da forma como ela se manifesta nos sujeitos e nas “sociedades”, a pesquisa avança.
CADA UM DOS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS E INDISSOCIÁVEIS REPRESENTA ETAPA NA FORMA DE APRESENTAÇÃO INICIAL (SIMETRIA), DE INÍCIO DA INTERNALIZAÇÃO DA IDEIA EM SI PELO SUJEITO (DIRECIONALIDADE) E, POR FIM, DO PROCESSAMENTO NA FORMA DE REPOSTA, DIÁLOGO, INTERAÇÃO DINÂMICA ENTRE O SUJEITO E O OBJETO (PERTINÊNCIA).
(CASTRO, 2019)
Ao observarmos um fenômeno, vemos que ele tem um ponto de visualização e um objetivo claro: a simetria. A partir das relações do sujeito com o objeto, o primeiro aponta para direções e trajetos. Quando a pertinência é posta no campo de observação, o valor é atribuído ao que está sendo discutido.
SABER INTERNACIONAL
O estudo das Relações Internacionais não se propõe – ou, pelo menos, não deveria – a vivenciar o universal. A noção universalista histórica e clássica está relacionada a dinâmicasde projetos hegemônicos de força. Contra a lógica de uma ciência que age em prol da dominação, da violência e da exclusão, a percepção de fenômenos humanos, relacionadas às dinâmicas particulares e de interesse coletivo, deve ser seu preceito.
ATENÇÃO
A aplicação da interação entre sujeito e objeto em uma relação vívida e filosófica precisa romper com metodologias pretensamente científicas, as quais, na aplicação de fórmulas, não respeitam diálogos dos substratos locais, socioculturais, religiosos e linguísticos. A adoção acrítica de fórmulas, paradigmas ou correntes de RI ditas universais pode gerar redução da legitimidade e da democracia de base local e de especificidades culturais, que são substratos importantes para as nações.
Forma-se, assim, a ampla moldura do macroambiente nas suas diversas conceituações como “cenário”, “sistema”, “sociedade” ou “comunidade internacional”. O processamento dos meios e dos fins dos fenômenos complexos no “mundo vasto mundo” (Drummond) ou na “economia-mundo” (Wallerstein) se torna bastante útil como ponto de partida.
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VAMOS REFLETIR: AONDE ISSO NOS LEVA?
Conheceremos agora as principais ferramentas conceituais de RI, os pontos simétricos, utilizados para discutir o papel do fenômeno.
Estado
Imagem: Shutterstock.com Base americana na fronteira.
Entidade político-jurídica que representa a engrenagem central das RI, o Estado é dotado de população permanente, de território reconhecido, de governo aceito e de exercício de soberania estatal no plano interno e externo, perfazendo, assim, seu jus dominium. Exemplo: EUA – apesar do forte federalismo (autonomia dos estados), o país fundamenta claramente os limites e as forças do Estado, seja nas fronteiras ou em suas bases avançadas, que se estendem de Cuba a Iraque.
Soberania estatal
Imagem: Shutterstock.com Acordo de paz entre Israel e Palestina.
Conceito derivado do latim summa potestas, a soberania é prerrogativa exclusiva do exercício da capacidade de mando do Estado nacional reconhecido. Em sua vertente interna, diz respeito ao exercício de autogoverno, de poder de polícia e capacidade de organização político-administrativa, enquanto que, em sua esfera externa, se trata da sua presença reconhecida, da prerrogativa jurídica e da articulação internacional com base no seguintes direitos: jus in bellum (direito de decretar guerra e celebrar a paz com outros Estados), jus tractum (de negociar, assinar, ratificar e denunciar tratados), jus legationis (de legação em sua dimensão ativa e passiva, sendo aquela a capacidade de receber, enquanto esta diz respeito ao recebimento de agentes consulares e diplomáticos), jus petitionis (de solicitar a prestação jurisdicional em tribunais internacionais quando aceitar a juris dire de várias cortes, podendo, para tanto, ser parte ativa ou passiva em processos judiciais) e jus representationis (de representar e fazer-se representar em organismos internacionais, agências multilaterais e programas com direito a voz, voto e determinação de agenda). Exemplo: celebração de acordo de paz e momentos de invasão. Israel exerce o direito, enquanto a Palestina cria petições para ter esses direitos.
Estatocentrismo (sistema estatocêntrico internacional)
Foto: Shutterstock.com Líderes em acordo.
Sistema internacional criado e reconhecido após o Tratado de Westphalia, de 1648, que tem no Estado nacional, com sua summa potestas, a base fundamental de engrenagens endógenas e exógenas internacionais. Sistema de uniformização estatal e de prevalência de seus institutos soberanos. Exemplo: definições do pós-Segunda Guerra Mundial, em que, apesar das complexidades dos acordos e seus desdobramentos, a imagem era dos Estados em acordo.
Hegemonia
Foto: rarrarorro/Shutterstock.com Centro de Rockfeller, Nova Iorque, EUA, 2016.
Exercício de hiperpoder multidimensional por um ou mais Estados em escala global. O exercício hegemônico pressupõe reconhecimento de tal capacidade por parte dos demais Estados.
A hegemonia é escalonada na forma de consolidação primeiramente da liderança e posteriormente da supremacia em determinadas áreas. Exemplo: diante da força assimétrica de determinados Estados ― à moda antiga ― ou grupos, tais grupos conseguem uma posição de superdomínio. No mercado, houve a força obtida em determinado momento por Rockfeller e Ford, enquanto, em termos de Estado, a hegemonia norte-americana na América (apesar de Cuba) e a hegemonia soviética no leste europeu constituem dois exemplos.
Poder
Foto: rarrarorro/Shutterstock.com Donald Trump em discurso, Nova Iorque, EUA, 2020.
Capacidade de alterar o comportamento de outros atores internacionais por meio de exercício de dominação e controle com finalidades determinadas. Exemplo: o complexo conceito de poder se inscreve no mundo de muitas formas. Uma das mais emblemáticas é a de mobilização das massas por líderes diversos, como Churchill, Stálin, Hitler, Obama ou Trump.
Polaridade
Imagem: Shutterstock.com EUA versus China.
Quantidade de polos ou de centros hegemônicos (hiperpoderio ou hiperpolo) no cenário internacional limitados geograficamente pelo conceito de sistemia (macro, meso ou microssistemia). Exemplo: a atuação de China e EUA no mercado mundial de tecnologia ou o posicionamento de russos e norte-americanos no caso da Síria.
Ordem mundial
Foto: Shutterstock.com Bandeiras dos países do BRICS.
Recorte temporal de longa duração com determinação da governança entre os Estados por meio da junção do exercício de poder hegemônico em parceria com seus valores, princípios e ideais exportados e aceitos pela grande maioria dos demais Estados. Exemplo: a construção do novo Sul, liderada pela China, quem tem nos BRICS um de seus expoentes.
Lateralidade
Imagem: Shutterstock.com Vacina da covid-19.
Quantidade de Estados ou outros atores internacionais envolvidos em determinado processo jurídico-negocial ou de entes partícipes em certa conjuntura de interação diplomática. Exemplo: rodadas internacionais de negociação sobre a quebra das patentes das vacinas de covid-19.
Dilemas de segurança
Imagem: Shutterstock.com Arábia Saudita versus EUA.
Situação de contradição causal entre o exercício da soberania estatal, que pode ser fonte de segurança para os cidadãos e, ao mesmo tempo, oferecer pontuais riscos e ameaças internas e externas a outros Estados. Os dilemas de segurança representam um sistema de autoajuda dos Estados para o equilíbrio diante da maximização da segurança. Exemplo: o apoio histórico da França aos governos da Argélia e seu posicionamento diante da chamada Primavera Árabe. Mudança de posição de Trump nas questões do petróleo quando elas eram promovidas pelos aliados históricos da Arábia Saudita.
Lealdade
Foto: Shutterstock.com Apoio do Canadá ao Iraque.
Capacidade de aderir a determinados padrões, regras e condutas no plano interno ou internacional de acordo com o jogo dos capitais de força-poder-interesse disponíveis e com os padrões dissuasão-normas-valores no contexto específico. Suas moedas de trocas são o favor e os ganhos residuais.
A lealdade difere muito da subjugação pelo fato de que a primeira, na política internacional, possui elementos de espontaneidade por conveniência, coerção ou convicção, enquanto a segunda pressupõe uma relação assimétrica de imposição, demandando comportamentos de submissão involuntária. Exemplo: entrada solidária dos canadenses na Guerra do Iraque mesmo com forte posição contrária da opinião pública. Relações de Colômbia/EUA na América Latina por conta dos acordos estabelecidos desde Pablo Escobar.
Controlabilidade
Foto: Shutterstock.com Aeroporto fechado devido à Pandemia de covid-19.
Diante da incapacidade relativa de Estados, organismos multilaterais e agências mantêm domínio efetivo sobre os fluxos transacionais (resultando em baixa controlabilidade). Aqui desenvolve-se a relação entre as lealdades de vários atores não estatais e internacionais do segundo setor para a concretização de ganhos no sentido amplo.
A controlabilidade não deve ser confundida com uma anarquiaexterna, apresentando proximidade com o sentido de regimes internacionais. Exemplo: pressão exercida durante a pandemia de covid-19 pela OMS sobre países que não intensificaram os combates necessários, como a suspensão de voos.
DEFININDO ALGUNS CONCEITOS
Assista ao vídeo abaixo com o professor Rodrigo Rainha mostrando como alguns conceitos podem ser definidos no tempo de uma maneira diferenciada.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
Parte superior do formulário
1. COM AS MUDANÇAS DECORRENTES APÓS A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E AS DEMANDAS INTERNACIONAIS CRIADAS PELAS NOVAS CONFORMAÇÕES APRESENTADAS À ALDEIA GLOBAL, VERDADEIRAS VIRADAS EPISTEMOLÓGICAS IMPACTARAM AS CIÊNCIAS HUMANAS. IGUALMENTE, AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS FORAM CONVIDADAS A REPENSAR SUAS BASES EPISTEMOLÓGICAS. NESSE SENTIDO, ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA:
As Relações Internacionais, a fim de demarcar sua função na cena global, foram centrando incisivamente seus conceitos e teorias em perspectivas racionalistas e iluministas clássicas, evidenciando a necessidade de salientar as fronteiras e as nações.
As Relações Internacionais, frente às novas dinâmicas centrífugas de relação de poder, como movimentos sociais, esforços separatistas, entre outros, assumiram a defesa da noção do universalismo.
As Relações Internacionais, baseadas nas marcas e rupturas nacionalistas provocadas pelas guerras mundiais, centraram seu debate epistemológico no estruturalismo.
As Relações Internacionais, ao longo da segunda metade do século XX e ainda no XXI, foram marcadas pela mudança epistemológica do estruturalismo para uma abordagem centrada na relação sujeito-objeto dos fenômenos.
As Relações Internacionais, afastando-se das outras ciências do campo das humanidades, objetivaram análises totalizantes que evidenciassem o global.
Parte inferior do formulário
Parte superior do formulário
2. ACERCA DA RELAÇÃO SUJEITO-OBJETO, AVALIE AS ASSERTIVAS A SEGUIR:
I. A RELAÇÃO SUJEITO-OBJETO REVELA-SE POR MEIO DE FENÔMENOS QUE SE APRESENTAM AO MUNDO EXTERNO OU FÍSICO.
II. ESSE FENÔMENO É COMPREENSÍVEL AO SER HUMANO COMO UM OBJETO NA MEDIDA EM QUE É NOMEADO.
III. NO QUE SE REFERE ÀS RELAÇÕES INTERNACIONAIS, TRÊS ABORDAGENS SÃO EMPREGADAS EM RELAÇÃO À FORMA COM A QUAL O INDIVÍDUO SE RELACIONA COM O OBJETO: A VISÃO MONISTA, A DUALISTA E A UNIVERSALISTA.
AVALIE AS ALTERNATIVAS:
I, II e III estão corretas.
I e II estão corretas.
I e III estão corretas.
II e III estão corretas.
Somente III está correta.
Parte inferior do formulário
GABARITO
1. Com as mudanças decorrentes após a Segunda Guerra Mundial e as demandas internacionais criadas pelas novas conformações apresentadas à aldeia global, verdadeiras viradas epistemológicas impactaram as ciências humanas. Igualmente, as Relações Internacionais foram convidadas a repensar suas bases epistemológicas. Nesse sentido, assinale a alternativa correta:
A alternativa "D " está correta.
Os conceitos estruturais para Relações Internacionais que figuravam no pós-Guerra passaram a não ser suficientes para análises internacionalistas. Conceitos como Estado, Nação e Universalismo, por exemplo, não davam mais conta das dinâmicas que se apresentavam no contexto de pulsantes movimentos internos, de grupos e aspectos contraditórios das realidades plurais. A fenomenologia então é apresentada como um prisma filosófico das Relações Internacionais que fomenta mudanças de pressupostos em relação aos fenômenos.
2. Acerca da relação sujeito-objeto, avalie as assertivas a seguir:
I. A relação sujeito-objeto revela-se por meio de fenômenos que se apresentam ao mundo externo ou físico.
II. Esse fenômeno é compreensível ao ser humano como um objeto na medida em que é nomeado.
III. No que se refere às Relações Internacionais, três abordagens são empregadas em relação à forma com a qual o indivíduo se relaciona com o objeto: a visão monista, a dualista e a universalista.
Avalie as alternativas:
A alternativa "B " está correta.
No campo científico das Relações Internacionais, a fenomenologia apresenta-se como uma oportunidade de mudanças epistemológicas em relação aos fenômenos. Nesse sentido, tal abordagem visa a compreender a relação sujeito-objeto do fenômeno e se dá por meio de duas perspectivas: monismo e dualismo.
MÓDULO 3
Reconhecer comunidade, sistema e cenário internacional como elementos fundamentais para Relações Internacionais
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APLICANDO A FENOMENOLOGIA NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Munidos com o arsenal teórico e conceitual sobre fenomenologia destes dois autores, Husserl e Merleau-Ponty, podemos agora avançar mais uma etapa em nosso debate.
RELEMBRANDO
Como vimos nos módulos anteriores, a questão central para a investigação fenomenológica é não tomar os fenômenos/coisas que se apresentam a nós como pressupostos dados da realidade, sem questionamentos, de forma acrítica e sem reflexão. Desse modo, é pertinente retomar a provocação que lançamos na introdução sobre aquilo que poderia ser caracterizado como fenômeno internacional.
Para nos ajudar a fazer essa conexão entre o método fenomenológico e as Relações Internacionais, utilizaremos as reflexões de Ralph Pettman, professor de política internacional da Universidade de Melbourne. Ao escrever o livro Pretendendo o mundo: uma fenomenologia das Relações Internacionais (2008), o autor argumenta que a noção de modernidade como conhecemos e o projeto racionalista/iluminista de entendimento humano sobre o mundo estão em crise.
Assim, consequentemente, as formas contemporâneas de se tratar e analisar os assuntos internacionais também estão em crise. Por isso, na melhor das hipóteses, elas acabam produzindo verdades parciais sobre os fenômenos da política internacional em vez da verdade total.
Segundo Pettman, a lógica racionalista/iluminista, ao priorizar uma pretensa “objetividade científica”, levou à busca pelo entendimento sobre o mundo se parecer cada vez mais como o Santo Graal, algo que nunca alcançamos.
É um beco sem saída que vai nos deixando sem condições de prestar contas do mundo e de seus assuntos, pois o uso da razão objetificante só pode encontrar a razão como um fim si mesmo. Isso ocorre, segundo Pettman, devido ao fato de esse tipo de lógica racionalista objetificar o mundo – e, nisso, o mundo nos individualiza, isto é, nos condiciona a pensar como seres separados da sociedade em que vivemos.
O racionalismo iluminista nos ensina a olhar o mundo como algo externo a nós, não percebendo as coisas como elas são, e sim como nós somos (PETTMAN, 2008). Nas palavras do autor:
SE QUISERMOS SABER COMO FUNCIONAM OS ASSUNTOS MUNDIAIS, PORTANTO, PRECISAMOS SABER NÃO APENAS O QUE ESTAMOS OBSERVANDO, MAS TAMBÉM O QUE FAZEMOS COM ISSO QUE OBSERVAMOS. PRECISAMOS SABER QUANTO DO QUE SABEMOS É ALGO QUE VEMOS "LÁ FORA", EM VEZ DE ALGO QUE APENAS PENSAMOS VER "LÁ FORA" PORQUE VEM "DAQUI DE DENTRO.
(PETTMAN, 2008, 3, tradução nossa)
Dessa maneira, o modo de observação, segundo Pettman, não é um empreendimento simples de ser executado pela consciência humana: ao contrário, ele requer um exercício rigoroso de reflexão crítica. Todas as ideias e conceitos aprendidos ao longo da vida nos predispõe a observar o mundo da maneira como fazemos, sendo que eles formam as nossas intenções em relação ao mundo.
ATENÇÃO
Para o autor, devemos utilizar a fenomenologia de Husserl como método para observar o mundo nele, e não a partir dele, como o racionalismo iluminista tenta nos fazer acreditar (PETTMAN, 2008, p. 2).
O uso da fenomenologia como método seria então uma maneira de evitar o reducionismo da consciência causado pela objetificação do mundo. Para isso, o raciocínio deveria não mais ser pautado sobre bases racionalistas, e sim reflexivas, desenvolvendo o nosso ceticismo ao “limite máximo” daquilo sobre o que se pode questionar (PETTMAN, 2008, p. 4).
Entretanto, esse questionamento deve dar um passo atrás e observar de maneira integrada o “eu” que observa com o mundo a ser observado, isto é, não devemos acreditar na separação corpo e mente, e sim compreender o contexto sentimental, emocional,social, entre outros contextos, do “eu”. O conhecimento advindo da reflexão do “eu” que observa será a base de toda a reflexão que se dará a posteriori.
Uma vez realizado esse movimento de olhar para trás, podemos compreender os fenômenos do mundo e nós mesmos de uma forma “relativamente” imparcial. Torna-se possível superar a ideia de senso comum, de que o raciocínio é engando pelos sentidos, em que devemos nos distanciar do objeto para avançarmos a um modelo de reflexão de envolvimento com o objeto. Ou seja, é necessário sentir as práticas mentais primordiais que sustentam as nossas explicações e explorar como elas pretendem explicar as relações internacionais (PETTMAN, 2008, p. 18).
POR QUE ESTAMOS FALANDO DISSO?
Para mergulharmos nessa operação, será necessário entendermos a associação de três fenômenos focados na relação de corpo e mente e de sujeito e objeto:
Passe o cursor para ler o conteúdo Objeto com interação
Comunidade
Sistema
Cenário internacional
Comunidade
Pode ser definida como uma nação imaginada, quer dizer, o conjunto de pertinências que aproxima um grupo, um ponto. Seguindo os preceitos já históricos da Sociologia, é o que remete o indivíduo a um grupo. A comunidade gera e permite a sua militância, a sua crítica interna, reproduzindo o compartilhamento, as hierarquias e as formulações dessa comunidade.
Ela é a expressão do Eu, de como conjuntos lidam e se aproximam dos fenômenos. Perto da comunidade, estamos próximos do indivíduo e de suas percepções, diferentemente das idealizações de Estado e Nação.
Se as comunidades são um campo de possibilidades de observação do sujeito, de se perceber como se inscrevem e se solidificam sistemas e como eles são recriados pelas dinâmicas dos hábitos, dos valores atribuídos e dos símbolos emitidos. Percebemos um terreno fértil e complexo para entender os sistemas.
Sistema
Sistemas internacionais são anárquicos, pois superam a velha perspectiva de fenômeno internacional, como o das relações entre os Estados e a concepção de nação, manifestamente ampliada por sujeitos diversos e representados pelas comunidades e os conjuntos de interesses que os movem.
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Segundo Bobbio (2001), o objetivo de toda e qualquer estruturação do sistema internacional só pode ser o da conservação (ou alcance) da paz, que pode ser comparada, com relação ao conceito de sistema, àquele particular estado do sistema definido como equilíbrio:
O DESAPARECIMENTO DESSE ESTADO DETERMINARIA A CRISE E, CONSEQUENTEMENTE, O CONFLITO.
M. A. Kaplan chegou a codificar seis tipos específicos de estruturação do sistema internacional. Além dos dois já citados, são eles os sistemas do balance of power e o bipolar (BOBBIO, 2001, p. 1098).
Um sistema internacional se veria destinado a tomar uma forma policêntrica que se distingue do balance of power pela permanência, com aspectos inovadores de uma estruturação multi-hierárquica, na qual, mesmo permanecendo a figura do Estado-guia, haveria uma descentralização regional que possibilitaria a autonomia na ação dos diversos subsistemas não ideológicos, e sim regionais.
BALANCE OF POWER
Conceito de equilíbrio sinérgico do poder.
Traduzindo: o fenômeno “sistema internacional” pode e deve ser estudado, em forma racional, na perspectiva de como os sujeitos pensaram e construíram a relação de tal sistema. No entanto, esse sistema inscrito no tempo é ressignificado e reorientado: a percepção de um conjunto passa a dialogar mais intensamente com a perspectiva de menor centralidade. O papel da comunidade e a interpretação dela mudam e geram novas perguntas, sendo necessariamente impactados pela forma como estão manifestados os conjuntos de força, ou seja, os cenários.
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Cenário internacional
É onde o fenômeno se inscreve, sendo interpretado e ressignificado diante das disputas em curso. Trata-se da análise do conjunto de forças, dos agentes, dos símbolos e dos valores. É o ponto em que as comunidades se encontram, ou seja, como o que será analisado deve ser observado.
Perceba que a relação e o fenômeno, ainda que existam, não são de cristal, sendo interpretados por sujeitos que os vivenciam e manifestados em suas comunidades. Dessa forma, eles se relacionam de forma sistemática, que não é fixa nem estática.
Na verdade, essa relação se dá diante de um cenário que não pode ser esquecido, precisando ser constantemente observado. Aplicaremos isso a seguir para que fique um pouco mais claro para você.
A FENOMENOLOGIA APLICADA A CASOS: O FIM DA URSS E O MERCOSUL
A título de exemplo, o fim da URSS não foi percebido pelos analistas norte-americanos e pela comunidade acadêmica de Relações Internacionais no final dos anos 1980. Apesar de um enorme conjunto de informações sobre o seu inimigo ideológico, eles falharam visivelmente em avaliar a gravidade das circunstâncias e o estado de desordem que levaram à queda da URSS. Essa falha se deve ao modo dominante hiper-racionalista de se analisar a política internacional (PETTMAN, 2008, p. 20).
Objeto com interação. Objeto com interação.
O brasão de armas soviético e as letras "СССР" (em cima) na fachada do Grande Palácio do Kremlin foram substituídos por cinco águias russas de duas cabeças (embaixo) após a dissolução da União Soviética. As águias haviam sido removidas pelos bolcheviques após a revolução.
Pettman (2008, p. 20) destaca que:
ELES (EUA) OS EXAMINARAM COMO FARIAM A UMA CIDADE VISTA DO ESPAÇO. ELES PUDERAM VER, COMO CONSEQUÊNCIA, ONDE AS PRINCIPAIS ARMAS SOVIÉTICAS ESTAVAM ALOJADAS E QUÃO BEM OS SOVIÉTICOS ERAM PROVISIONADOS; ELES NÃO FORAM, NO ENTANTO, CAPAZES DE VER OS ASPECTOS-CHAVE DA MORAL SOVIÉTICA, UMA VEZ QUE ESSES ASPECTOS SÓ PODEM SER CONHECIDOS NOS DESLIGANDO E NOS INCORPORANDO À SOCIEDADE EM QUESTÃO. ASSIM COMO NÃO É POSSÍVEL DISCERNIR DO ESPAÇO SE O PREFEITO DE UMA CIDADE ESTÁ PLANEJANDO RENUNCIAR OU SE SEU CONSELHO É CORRUPTO, PROVOU-SE IMPOSSÍVEL COMPREENDER A POLÍTICA SOVIÉTICA SEM SE ENVOLVER INTIMAMENTE NELA E AVALIAR AS PRÁTICAS MENTAIS PRIMITIVAS QUE CONSTITUÍAM AS INTENÇÕES E O MODO DE VIDA SOVIÉTICO.
Diante de um acontecimento ou problema internacional, o método fenomenológico deve começar a análise fornecendo uma rica descrição do que se segue para, a partir daí, tentar refletir sobre essa descrição em termos de nossas práticas mentais primordiais.
Thalles Castro também se dedicou a pensar a fenomenologia e as relações internacionais. Porém, à diferença de Pettman, Castro nos adverte a olhar com mais detalhes a questão envolvendo o sujeito e o objeto na forma de observação dos fenômenos internacionais. Apesar de haver entre o “sujeito e o objeto uma vasta possibilidade acadêmica de aplicação de conceitos pertinentes às Relações Internacionais”, dois conceitos nos ajudam mais em nosso propósito: monismo e dualismo (CASTRO, 2019).
ATENÇÃO
Para o autor, na concepção monista, não é possível separar o sujeito do objeto, pois isso acarretaria eventuais problemas de interpretação e validação do fenômeno a serem observados nas Relações Internacionais. Os defensores dessa concepção postulam a ideia de que há “apenas diferentes ângulos sobre o mesmo olhar, e não duas entidades distintas” entre sujeito e objeto, isto é, ambos estão conectados numa dinâmica de fatos, informações, dados, fluxos complexos que dão forma e sentido ao saber internacional (CASTRO, 2019).
Como exemplo, Castro (2019, p. 209) utiliza o caso do Mercosul para ilustrar como a concepção monista pode ser aplicada em um caso prático:
A INTEGRAÇÃO SUB-REGIONAL DO MERCOSUL, POR EXEMPLO, NÃO PODE SER DISSOCIADA DO NEOLIBERALISMO RESULTANTE DO CONSENSO DE WASHINGTON DE 1989 OU AINDA DAS VISÕES DE MUNDO DEFENDIDAS PELOS PRINCIPAIS ATORES POLÍTICOS DA ÉPOCA, QUE CARREGAVAM MANDATOS EM PROL DA DEFESA DA FORMAÇÃO DE BLOCOS REGIONAIS. A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA DO MONISMO É A INFLUÊNCIA RECÍPROCA, CONSTANTE E INDISSOCIÁVEL ENTRE S E O. OU SEJA, PARTE DO SUJEITO, AO INTERAGIR COM O OBJETO, ACABA POR ENTRAR EM PROCESSO INDISSOCIÁVEL DE MISTURA E DE INFLUÊNCIAS RECÍPROCAS E INDISSOCIÁVEIS.Já na concepção dualista, é possível separar o sujeito do objeto sem comprometer o rigor analítico da investigação. Os defensores dessa concepção argumentam que tal separação facilita a investigação das propriedades isoladas, tornando ambos manuseáveis e cognoscíveis (CASTRO, 2019).
Achou essa observação ainda muito técnica? Tudo bem, vamos tentar aproximá-la mais da nossa realidade.
A DECOLONIALIDADE E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
QUAL É A RELAÇÃO ENTRE CONCEITO E FENÔMENO?
Eis um exemplo bastante contemporâneo: a discussão sobre decolonialidade. O termo remete a Franz Fanom (2012), cujo estudo se deteve sobre as formas de poder marcadas pela continuidade do poder pela colonização do pensamento.
Nesses debates, de forma equivocadamente rápida, é possível interpretar que basta você abandonar as ideias do colonizador e pensar com outra perspectiva cultural que superará aquele valor. Quer dizer, se você o reconhece e o abandona, o caso está resolvido. No entanto, isso é absolutamente ilusório.
O pensamento decolonial é uma multiplicidade de setores, tecnologias e atitudes decoloniais. Essa questão pode ser levada a todos os espaços, sendo manifestada no saber internacional ― como, por exemplo, no discurso histórico de Evo Morales sobre a dívida boliviana ―, que questiona o equilíbrio e as relações entre os Estados.
DÍVIDA BOLIVIANA
Em uma reunião de acordos aduaneiros, quando questionado sobre o pagamento da dívida boliviana, ele fez questão de debater a dívida histórica do que foi retirado do país no colonialismo.
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Veremos agora um exemplo ainda mais próximo da dificuldade de superar o discurso colonial como algo simples. Mãe Estela de Oxossi liderou importantes estudos sobre a necessidade de se quebrar o mecanismo de hierarquização sociorreligiosa dos sincretismos.
Para quem não está acostumado com a questão, as religiões afro-brasileiras seguiram historicamente calendários vinculados às tradições sincréticas do cristianismo, comemorando suas datas e representações de formas próximas ou equivalentes.
Isso é típico do pensamento colonial; afinal, esses elementos não são simétricos, sendo efetivamente nominalizados como síntese, embora, na prática, sejam heterogêneos. A título de exemplo, Oxalá e Jesus como a mesma representação são uma construção moral cristã, uma concessão de existência, ainda que hierarquizada de termos heterogêneos.
Sigamos um esquema analítico básico:
O que houve? ‒ Movimentos dos anos 1980 no Brasil agenciados por líderes importantes passaram a reduzir a crítica à defesa do abandono do cristianismo a um debate que não aprofunda a crítica ao sincretismo.
O problema – O debate sobre o processo sincrético, se reduzido, não percebe o peso histórico que passa a ter sentido dentro dessa relação.
Os terreiros vivem de suas festas e seus pontos de reunião. As pessoas criam vínculos emocionais, mas os processos não se resolvem, levando em consideração que cada um deles está inscrito no mundo, manifestado no sujeito e inscrito como fenômeno. Nesse sentido, é impossível estabelecer um pensamento como um rompimento ou uma inversão.
Decolonialiade não é inverter, e sim perverter. Ela não é reagir, e sim resistir. Desse modo, o processo de debate é recorrente e contínuo. Ele não cessa e acaba mantendo a estrutura do pensamento da decolonialidade.
Nesse aspecto, o processo de suas estratégias é vivo, dinâmico e social. Nas Relações Internacionais, o debate sobre a decolonialidade passa efetivamente por construir suas estratégias em um constante processo de questionamento para que os novos conceitos não sejam transformados em dogmas.
A CIRCULARIDADE DO MOVIMENTO DE CRITICIDADE É FUNDAMENTAL; POR ISSO, HÁ A LÓGICA ELÍPTICA DOS DEBATES FENOMENOLÓGICOS.
O pensamento decolonial, quando se ancora em uma forma de negação, sem perceber a capacidade de construção de seu debate, fragiliza seu processo. Deve-se recuperar a autonomia do fenômeno, quer dizer, algo que se apresenta a partir de si.
A automanifestação é parte do campo da fenomenologia, pois, em boa parte das vezes, o que se apresenta não se estrutura pelo que é, e sim por aquilo que se quer apresentar em determinado processo. O que aparece não aparece segundo si próprio.
Para Heidegger, por exemplo, isso é a Filosofia. Ela nasce porque perde o fenômeno – e essa é a sua busca.
Quais são seus mecanismos de obstaculização?
Como se acessa essa fenomenalidade?
Qual é o caminho de acesso? Cada fenômeno tem o próprio modo de ser.
Qual é o objeto analisado pela fenomenologia das Relações Internacionais?
A decolonialidade costuma ser trabalhada como se fosse um processo único. Nessa leitura, ela se dá, por si só, como estruturada, perdendo as impossibilidades de interlocução com outros discursos.
Portanto, existe uma dicotomia entre o que é e o que não é colonial, ou seja, aquilo que é decolonial. Dentro dessa abordagem, tudo o que se enfrenta é colonial.
É essa dicotomia que enfraquece o objeto, especialmente pelo fato de tal abordagem não perceber e avaliar o fenômeno inscrito no mundo que o produz, além de não abordar e perceber o conjunto de relações expressas e como ele é dinâmico. Nesse sentido, a questão é manter uma linha de questionamentos com o propósito de aprofundar, perseguir e alcançar a dinâmica de tais fenômenos.
EXEMPLO
Ao trabalharmos uma discussão de decolonialidade que pretende romper com uma perspectiva de que o discurso colonial trabalhou o sincretismo para as religiões afro-brasileiras, poderemos optar por alguns caminhos. Você pode ter uma ideia de hierarquização do calendário umbandista ou candomblecista, sendo tal proposição dicotômica em relação a um calendário litúrgico cristão. Quando você relaciona Iansã a Santa Bárbara, não existe uma relação equidistante, e sim hierarquizada.
Você pode trabalhar esse rompimento, mas a mera ideia de que se vai apagar toda essa relação, pois ela claramente se manifesta como um discurso colonial, é de uma fragilidade considerável. Afinal, boa parte das estruturas e das formas da umbanda, ou do próprio candomblé, estão estabelecidas — como conseguem se organizar, angariar doações, entre outros aspectos — a partir dessas datas emblemática. A busca pela desvinculação e retirada de tais datas, se deixarmos de trabalhá-las como tais, acaba por enfraquecer os próprios terreiros.
ATENÇÃO
A partir dessa lógica, não adianta imaginar um exercício direto de reflexão. Um aspecto é perceber o fenômeno; outro, notar as suas desnaturações. Trabalhar as relações entre o sujeito e o objeto para entender que a relação de decolonialidade não é simplesmente abandonar o que era colonial, e sim necessariamente entendê-lo como um fenômeno social inscrito na sociedade e que o ser, a partir da sua relação, vai se construindo e desconstruindo dentro desse processo.
O sistema internacional tem valorizado as rupturas do colonialismo, um fenômeno de dominação, poder e hegemonia que se manifestava na forma de Estado, embora se consolide nos sujeitos pelos pensamentos coloniais. Com a mudança da perspectiva do cenário mundial e o crescimento dos antigos países colonizados nos mercados mundiais ― fora a Rússia, veja os demais BRICS: Brasil, Índia, China e África do Sul ―, todos ex-colônias clássicas, exploradas e que vivenciam o pensamento colonial, isso se torna ainda mais evidente.
Debater sobre isso se torna muito importante. Suas comunidades se ordenam, trocam e dialogam sobre a possibilidade: enquanto alguns entes a criticam, defendendo as bases do colonialismo como civilizadoras, outros a antagonizam intensamente. O cenário muda, enquanto os sujeitos e as comunidades interagem. O fenômeno, portanto, está inscrito, reescrito e rediscutido por cada nova rodada de relações.
DECOLONIALIDADE NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Assista ao vídeo abaixo com o professor Rodrigo Rainha mostrando a decolonialidade dentro do contexto das Relações Internacionais.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
Parte superior do formulário
1. A RELAÇÃO ENTRE CENÁRIO E COMUNIDADE INTERNACIONAIS DEVE SER COMPREENDIDA COMO:
Uma perspectivafenomenológica: o sujeito é o cenário e o objeto, a comunidade.
Uma perspectiva fenomenológica: a comunidade é o sujeito e o cenário, o objeto de análise.
Uma perspectiva fenomenológica: a comunidade é composta de elementos pré-textuais, enquanto o cenário são as estruturas de consequência.
Uma perspectiva fenomenológica: a comunidade é o conjunto de sujeitos que, para ser analisado, precisa ser observado em meio ao cenário internacional.
Uma perspectiva fenomenológica: comunidade e cenário internacional não são aplicáveis.
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2. A DECOLONIALIDADE DEVE SER OBSERVADA NO CAMPO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS COMO:
Fenômeno cristalizado socialmente.
Composição do cenário internacional como elemento de conjuntura.
Um papel histórico-social estabelecido na perspectiva do antagonismo ao colonialismo.
Estrutura de um novo sistema internacional em que as nações perderam sentido e que a cultura é seu substituto natural.
Fenômeno social manifestado nas comunidades e relacionado à interpretação dos sujeitos, estando presente, na contemporaneidade, no sistema internacional.
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GABARITO
1. A relação entre cenário e comunidade internacionais deve ser compreendida como:
A alternativa "D " está correta.
A dinâmica fenomenológica passa pela relação entre sujeito e objeto inscrito no mundo. Nesse sentido, a aplicação dos conceitos tem uma relação correta quando se percebe que a comunidade é o conjunto dos sujeitos, que as práticas políticas são o objeto e que o cenário é o campo de análise para observar e compreender como o fenômeno se materializa no mundo.
2. A decolonialidade deve ser observada no campo das Relações Internacionais como:
A alternativa "E " está correta.
A decolonialidade deve ser analisada como um fenômeno que se inscreve de múltiplas formas nas comunidades internacionais em meio a cenários específicos e faz parte da leitura contemporânea de sistema internacional.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste conteúdo, discutimos o impacto da abordagem filosófica da fenomenologia nos estudos em Relações Internacionais. Selecionamos especialmente o debate de Husserl e Merleau-Ponty acerca da relação entre fenômenos e objeto-sujeito.
1
No primeiro módulo, tratamos das bases filosóficas da fenomenologia aplicadas às Relações Internacionais, apontando as mudanças decorrentes desse processo de pensamento.
No segundo módulo, apresentamos conceitos centrais das análises em RI centradas na fenomenologia, particularmente por meio das abordagens de pré-ordem, nomologia, saber internacional e simetria.
2
3
Por fim, no terceiro módulo, abordamos os estudos de caso, tanto de autores como de fenômenos históricos, por meio da perspectiva da fenomenologia. Além disso, demos um passo em busca de novas abordagens, discutindo a perspectiva decolonial no campo científico.
AVALIAÇÃO DO TEMA:
REFERÊNCIAS
ADLER, N. J.; GUNDERSEN, A. International dimensions of organizational behavior. Cincinnati: South-Western, 2001.
BOBBIO, N. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Editora da Unesp, 2001.
CASTRO, T. C. A fenomenologia das Relações Internacionais: uma análise da pré-ordem diante das principais ferramentas conceituais do saber internacional. In: Revista ágora filosófica. v. 19. n. 3. 2019. p. 205-235.
CASTRO, T. Teoria das Relações Internacionais. Rio de Janeiro: Fundação Alexandre de Gusmão, 2012.
CERVO, A. L. Conceitos em Relações Internacionais. In: Revista Brasileira de Política Internacional. v. 51. n. 2. 2008. p. 8-25.
FAIZULLAEV, A. Diplomacy and symbolism. In: The hague journal of diplomacy. v. 8. n. 2. 2013. p. 91-114.
FRANTZ, F. Pele negra, máscaras brancas. Buenos Aires: Abraxas, 2012.
HEIDEGGER, M. Prolegómenos para una historia del concepto de tiempo. Madrid: Alianza Editorial, 2007
HUSSERL, E. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica. São Paulo: Ideias & Letras, 2006.
KANT, I. Crítica da razão prática. Petrópolis: Vozes, 2017.
MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
PETTMAN, R. Intending the world: a phenomenology of international affairs. S.l.: Academic Monographs, 2008.
STOESSINGER, J. O poder nas nações: a política internacional de nosso tempo. São Paulo: Cultrix, 1978.
THÉVENAZ, P. O que é a fenomenologia? A fenomenologia de Merleau-Ponty (1952). In: Revista do Nufen 9.2. 2017. p. 169-176.
EXPLORE+
AS IDEIAS DE HUSSERL E HEIDEGGER
Explore mais este conteúdo assistindo ao vídeo abaixo sobre as ideias de Husserl e Heidegger.
Para se aprofundar no tema abordado, leia os seguintes livros e artigos:
· Teoria das Relações Internacionais, de Thalles Castro, publicado pela Fundação Alexandre Gusmão (instituto de pesquisa vinculado ao Ministério das Relações Exteriores).
· Pele negra, máscaras brancas e os condenados da terra, de Franz Fanon.
· A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera.
· Epistemologias do Sul: pós-colonialismos e os estudos das Relações Internacionais, de Antônio Manoel Elíbio Júnior e Carolina Soccio di Mano Almeida.
· Do pós-moderno ao pós-colonial. E para além de um e de outro, de Boaventura de Sousa Santos.
Para refletir sobre a relação tanto entre corpo e mente quanto entre sujeitos e objeto, veja estes filmes:
· Blade Runner, de 1982.
· Asas do Desejo, de 1987.
DESCRIÇÃO
Conhecimento basilar para a boa produção acadêmica e científica na área das relações internacionais (RIs), por meio de métodos de análise e de pesquisa.
PROPÓSITO
Conceituar metodologias científicas da área de relações internacionais, apresentando sua relevância e formas de utilização, oferecendo instrumentos para a realização de boas pesquisas e análises na área.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Identificar conceitos gerais do método hipotético-dedutivo
MÓDULO 2
Relacionar as interações e distinções entre as relações internacionais e o direito internacional
MÓDULO 3
Reconhecer as bases da internacionametria
INTRODUÇÃO
Na era da pós-verdade, o intenso fluxo de informações e de comunicação possibilitado pelas novas tecnologias de informação e comunicação (TICS) permitiu o surgimento e a acentuada disseminação de notícias falsas, as conhecidas fake news. Esse fenômeno tem influenciado profundamente as relações sociais, com fortes impactos em questões macro, como o resultado de eleições e até mesmo informações sobre saúde coletiva.
Para além desses desdobramentos, a própria ciência e o conhecimento acadêmico produzido têm sido questionados e relativizados, com a volta de ideias como as de que a Terra é plana e não esférica, contrariando o conhecimento acumulado por centenas de anos. O senso comum, aquele conjunto de ideias e de crenças que ninguém sabe de onde vem, mas que muita gente reproduz, possui métodos muito simplificados para a elaboração de ideias, hipóteses e explicações.
Por exemplo, nos tempos atuais, basta que um indivíduo qualquer escreva um texto e publique em suas redes sociais para que outros usuários das redes compartilhem e espalhem a mensagem. O conteúdo não é moderado e absurdos completos, sem nenhuma comprovação ou conexão com a realidade, passam a ser difundidos aos quatro ventos, espalhando mentiras e desinformação. No entanto, diferentemente dos métodos extremamente simples e questionáveis com que uma informação é “validada” no senso comum, no conhecimento científico as coisas são bastante diferentes.
A ciência, apesar da possibilidade de falhar, representa o método mais seguro e confiável para comprovar ou questionar uma afirmação ou crença. É por meio da ciência, por exemplo, que andamos em automóveis, que o homem visitou o espaço, doenças são tratadas ou erradicadas e os aviões transportam milhões de pessoas todos os dias ao redor do mundo. Dessa forma, é inegável a contribuição científica para a humanidade.
MAS, AFINAL DE CONTAS, O QUE É A CIÊNCIA?
A PESQUISA PARA O CAMPO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Então, vamos pesquisar? Vamos ver como o professor Marcelo pode ajudar você a se preparar.
MÓDULO1
Identificar conceitos gerais do método hipotético-dedutivo
INTRODUÇÃO À CIÊNCIA
Imagem: Shutterstock.com
Como apontamos, a ciência é confiável e eficaz na confirmação das ideias ou em seu questionamento por apresentar um método próprio de validação daquilo que se analisa, diferentemente do método no senso comum. A ciência representa, portanto, o método mais seguro, confiável e eficaz de testar e atestar o conhecimento.
Não é à toa que a ciência nos permitiu, como humanidade, alcançar grandes feitos nas mais diversas áreas do conhecimento: medicina, tecnologia, transportes, comunicação até mesmo nas relações sociais. É difícil imaginar o mundo hoje como ele era há cem anos, tamanha a velocidade com que as descobertas científicas nos permitiram avançar. Em um período de 20 anos, as transformações têm sido enormes, e a tendência é que esse tempo seja reduzido cada vez mais.
Antes de nos debruçarmos sobre a metodologia científica, voltemos à pergunta deixada na introdução: afinal, o que é ciência?
Foto: Departamento de Genética, UFPR / genetica.ufpr.br ©
NEWTON FREIRE MAIA
Segundo a definição proposta por Freire-Maia (1998, p. 24), a ciência é um “conjunto de descrições, interpretações, teorias, leis, modelos etc., visando ao conhecimento de uma parcela da realidade”, por meio do uso de uma “metodologia especial”, que hoje chamamos de metodologia científica.
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AUGUSTE COMTE
Para Auguste Comte (1877, p. 16), a ciência e suas classificações “têm por objetivo a descoberta de leis”. Essas definições já sugerem a existência de um método “especial”, o que nos indica a existência de um processo, um rito a ser seguido. É exatamente esse ritual científico, chamado método científico, de que vamos tratar na próxima seção.
MÉTODO CIENTÍFICO
O método científico se refere a um conjunto de processos que devem ser considerados e replicados a fim de que os resultados de observação, cálculo ou análise sejam validados como conhecimento científico, o que comprova sua confiabilidade e a segurança das conclusões, o que difere do senso comum, em que qualquer método empregado é suficiente, inclusive nenhum método.
De modo geral, o método científico é altamente rigoroso e complexo. Segundo Renato Vicente (2008, p. 12-26), para cada área do conhecimento existe uma série de técnicas próprias e um método específico, mas a ciência, como um todo, compartilha algumas premissas comuns e transversais, além de técnicas gerais.
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Tendo o observador identificado um fenômeno a ser explicado, o passo inicial representa a incorporação dos pressupostos do método científico: racionalidade, verdade, objetividade e realismo, que representam valores a serem adotados em cada uma das etapas.
Na sequência, temos o processo de formulação de hipóteses e a previsão e estimativa dos possíveis resultados esperados. Assim, expectativas são criadas antes que o próximo passo seja dado rumo ao experimento. Nessa fase, devem ser testadas as hipóteses, a fim de verificar se são coerentes ou não.
De acordo com o autor João Silva (2005, p. 22), após a fase de avaliação, os resultados fornecem as bases para a corroboração da hipótese, ou a sua refutação, que abrem caminho para a criação de um novo avanço científico.
O método científico pode ser mais simplificadamente explicado por meio da leitura sobre as experiências biológicas de Mendel, o pai da genética, muito conhecido por seu método experimental utilizado na elaboração de uma lei sobre hereditariedade, com base em seus experimentos de observação de ervilhas. Os passos seguidos por Mendel ilustram brilhantemente o método científico.
A utilização do método científico permite a hierarquização do saber científico que avança com base na confiabilidade da análise e suas comprovações enquanto ciência. De acordo com Jung (2009, p. 62), a hierarquia científica tem em sua base as hipóteses científicas seguidas pelas descobertas científicas, que apresentam comprovações da hipótese inicial.
No próximo degrau, estão os modelos científicos que apresentam estrutura lógica baseada em experimentos, permitindo a formulação de previsões. Na sequência, encontram-se as teorias científicas, que, para além das previsões, permitem ações de controle de fenômenos naturais ou físicos específicos.
Finalmente, o topo da pirâmide da hierarquia científica é ocupado por leis científicas, que representam o degrau mais elevado de confirmação empírica, que se traduz em maior confiança no que é proposto.
DE FORMA SIMPLIFICADA, OBSERVAMOS QUE QUANTO MAIOR E MAIS ROBUSTOS SÃO OS MECANISMOS DE VALIDAÇÃO E CONFIRMAÇÃO DE UM ESTUDO, MAIS ALTO É O SEU LUGAR NA HIERARQUIA CIENTÍFICA.
Por exemplo, uma teoria que recebe mais elementos de confirmação passa ao status de lei científica. Podemos ilustrar com as Leis de Newton, que são consideradas validadas pelo método científico e, portanto, não são contestadas.
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O modelo teórico, anterior à lei, ainda possui espaço para críticas, reformulações, atualizações e até pode ser considerado equivocado. Assim, percebemos a importância do método científico que promove debates teóricos, a fim de que seus objetos sejam validados e referendados com o objetivo de serem comprovados ou refutados.
No campo das relações internacionais, de forma geral, dificilmente nos deparamos com leis científicas em razão da complexidade e da volatilidade das relações humanas e de seus consequentes desdobramentos.
MODELO HIPOTÉTICO-DEDUTIVO
Depois de termos apresentado a importância e o rigor da ciência e introduzido as bases do modelo científico, vamos analisar um modelo científico específico, que pode ser utilizado como ferramenta de análise e pesquisa também no campo das relações internacionais.
O modelo hipotético-dedutivo foi elaborado por Karl Popper, um teórico muito importante do ponto de vista científico, do século XX. O modelo elaborado por Popper foi responsável por romper com o modelo vigente fundamentado na ideia de que toda e qualquer hipótese deveria ser verificável para ser considerada ciência, o que ficou conhecido como verificacionismo.
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Em sua discordância, o teórico não buscou simplesmente um caminho alternativo a fim de comprovar as hipóteses, mas procurou o próprio caminho contrário. Ou seja, em vez da premissa de que toda hipótese, para ser considerada ciência, tinha de ser verificável, Popper propôs que para que uma hipótese pudesse ser considerada ciência deveria ser falseável, ou seja, questionada.
Esse modelo ficou conhecido como falseacionismo, que se contrapôs ao verificacionismo, e rompeu com o modelo anterior também por compreender que o caminho para o desenvolvimento da ciência era o debate, a desconstrução, a revolução do pensamento e a identificação de falhas dos modelos vigentes.
O entendimento de Popper era de que a ciência era muito mais um processo de constante construção do conhecimento do que um método para encontrar verdades, como propunha o verificacionismo, que tinha como objetivo validar e confirmar as hipóteses, o que as colocava na posição de “verdade” (FRANCELIN, 2004).
O MÉTODO HIPOTÉTICO-DEDUTIVO DE POPPER ESTÁ ANCORADO NA PREMISSA DE QUE A CIÊNCIA É CONSTRUÍDA LEVANDO EM CONTA TUDO O QUE FOI PENSADO, VERIFICADO E REFUTADO ANTERIORMENTE, SENDO PARTE FUNDAMENTAL DO PROCESSO CIENTÍFICO A BUSCA POR FALHAS, LACUNAS E EQUÍVOCOS NO PENSAMENTO DESENVOLVIDO E VIGENTE ATÉ AQUELE MOMENTO, SENDO CONSIDERADO SAUDÁVEL QUE CONTRADIÇÕES E ERROS SEJAM APONTADOS, FAZENDO COM QUE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO SEJA CADA VEZ MAIS CONFIÁVEL (CASTRO, 2012).
A metodologia proposta por Popper deve seguir algumas etapas, e seu fluxo é organizado por Thales Castro (2012, p. 277). Tendo o conhecimento existente e disponível como base de toda a metodologia, o método está ancorado na busca pela identificação de falhas, lacunas ou erros no conhecimento científico presente.
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Após o mapeamento das falhas, o próximo passo é o de problematizar a questão e formularhipóteses que busquem explicar as lacunas.
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Na sequência, conjecturas, testes e verificações são realizados a fim de fortalecer a ideia e possivelmente identificar novas falhas no conhecimento que está sendo construído, cujos testes devem ser repetidos.
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Por fim, deve ser realizada uma avaliação final dos resultados obtidos que pode ser tanto com os resultados positivos quanto com os negativos.
ATENÇÃO
No primeiro caso, com resultados positivos, o desfecho é o surgimento de uma corrente teórica nova, validada pelo experimentalismo, que contribui com o avanço do conhecimento científico e enriquece o conhecimento acumulado da área. No caso de os resultados serem negativos, o pesquisador pode retomar algumas das fases anteriores e fazer pequenas alterações, a fim de encontrar e validar sua hipótese inicial.
MODELO NO CONTEXTO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
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No contexto do campo de estudos das relações internacionais, temos que o modelo hipotético-dedutivo proposto por Popper pode contribuir com a pesquisa nesse campo do saber, uma vez que permite o aperfeiçoamento das teorias existentes e busca reconhecer novos fenômenos e dinâmicas do sistema internacional.
EXEMPLO
Um exemplo de atualização teórica que podemos citar, sem grandes dificuldades, é a teoria realista, pioneira das relações internacionais, cujos primeiros escritos remontam à Grécia Antiga, com Tucídides. O pensamento realista foi elaborado em um contexto muito diferente do que observamos na contemporaneidade e, portanto, com o passar do tempo, passou a ser atualizado.
O neorrealismo que emerge na década de 1970 propõe uma atualização do realismo moderno, cuja diferença fundamental está baseada no nível de análise proposto, tendo inicialmente no realismo, o Estado como centro de toda a análise. O neorrealismo entende o sistema e suas implicações como relevantes, pois a estrutura do sistema internacional acaba por influenciar a ação dos Estados.
CONSIDERAÇÕES PARCIAIS
Ao finalizar este módulo, é importante relembrar as diferenças em termos metodológicos entre o que é dito e entendido no âmbito do senso comum e aquilo que pode ser validado no contexto científico, cuja metodologia deve seguir o rigor do método científico, complexo e com passos bem-definidos a serem seguidos, não cabendo ao pesquisador a escolha de qual seguir.
Igualmente, observamos as inovações do método de Popper e suas conexões com o campo das relações internacionais. Nosso principal objetivo foi fornecer as bases para que você seja capaz de identificar os conceitos gerais do método hipotético-dedutivo e suas implicações.
MÉTODO HIPOTÉTICO-DEDUTIVO: EXEMPLO
Para ilustrar o entendimento do módulo, vamos ouvir um exemplo de pesquisa que aplica o método hipotético-dedutivo? Vai, professor Marcelo!
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. DE ACORDO COM O MÉTODO CIENTÍFICO HIPOTÉTICO-DEDUTIVO, IDENTIFIQUE OS PRINCIPAIS CONCEITOS PROPOSTOS POR KARL POPPER:
O método de Popper baseia-se na premissa de que todas as hipóteses devem ser validadas, a fim de ser consideradas científicas.
O método hipotético-dedutivo sugere a utilização de falsas hipóteses como elemento central do avanço científico.
O método proposto por Popper está baseado na ideia de que o conhecimento científico avança por meio da identificação de falhas, lacunas e erros do conhecimento vigente.
O modelo proposto por Karl Popper complementa o método científico anterior, baseado na identificação de falhas, lacunas e erros.
O método de Popper foi elaborado especificamente para corrigir os erros da metodologia das relações internacionais no contexto da Guerra Fria.
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2. COM RELAÇÃO AO MÉTODO HIPOTÉTICO-DEDUTIVO, ASSINALE A SEGUIR A ALTERNATIVA QUE CORRETAMENTE APRESENTA OS CONCEITOS DO MÉTODO DE POPPER E SUAS DIFERENÇAS COM RELAÇÃO AO VERIFICACIONISMO:
O método de Popper é pioneiro no campo científico e pode ser considerado o precursor da teoria verificacionista.
O verificacionismo surgiu como uma resposta ao método proposto por Popper, em que suas premissas de refutações foram comprovadas empiricamente como equivocadas.
O método de Popper inova a ciência por romper com o método científico, sugerindo a criação de um novo processo científico baseado apenas na criação de hipóteses, sem a necessidade de testes ou comprovações, o que se provou impraticável.
O método de Popper rompe com o verificacionismo por estar baseado na crença de que a ciência avança por meio da identificação de falhas e lacunas e não por meio da busca por validação de hipóteses que criam “verdades”.
O verificacionismo é o nome utilizado para caracterizar o método científico proposto por Karl Popper.
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GABARITO
1. De acordo com o método científico hipotético-dedutivo, identifique os principais conceitos propostos por Karl Popper:
A alternativa "C " está correta.
O modelo de Popper rompeu com o modelo anterior ao compreender que o percurso para o desenvolvimento da ciência deveria se basear no debate objetivando a desconstrução, a revolução do pensamento e a identificação de falhas dos modelos vigentes.
2. Com relação ao método hipotético-dedutivo, assinale a seguir a alternativa que corretamente apresenta os conceitos do método de Popper e suas diferenças com relação ao verificacionismo:
A alternativa "D " está correta.
O modelo de Popper se contrapôs ao verificacionismo quando se centra o debate. Nesse sentido, compreendia que a ciência constituía um processo constante de construção/produção do conhecimento, na medida em que se afastava da ideia de “encontrar verdades”.
MÓDULO 2
Relacionar as interações e distinções entre as relações internacionais e o direito internacional
POSICIONAMENTO E RELAÇÕES COM O DIREITO INTERNACIONAL
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O campo de estudos das relações internacionais (RIs) é relativamente novo se comparado a outros campos do conhecimento, como é o caso da Medicina, cujas técnicas terapêuticas remontam à pré-história, ou do Direito, tão presente no cotidiano do Império Romano.
As RIs, como um campo do saber, surgem no contexto do final da Primeira Guerra Mundial, quando os efeitos devastadores do conflito e suas consequências evidenciaram ao mundo a necessidade de buscar entender as razões que levam os países à guerra, em uma tentativa de racionalizar a escolha dos Estados de guerrear, um esforço que visava evitar que esses motivos levassem o mundo a uma nova guerra de dimensões similares.
Em 1919, foi criada, na Universidade de Gales, no País de Gales, a primeira cátedra de RIs, que acabou se espalhando por outros países (MENDES, 2013). No Brasil, as RIs desembarcaram em 1974, inicialmente na Universidade de Brasília (UnB), tendo se tornado mais popular a partir dos anos 2000, com a ampliação do número de cursos disponíveis no país.
Neste módulo, vamos apresentar as relações entre o campo de estudo das RIs e seu equivalente no campo do Direito, o direito internacional, que apresenta elementos de conexão e de divergência entre as duas áreas do conhecimento.
RELAÇÕES INTERNACIONAIS E SUAS METODOLOGIAS
A expressão “relações internacionais” pode se referir tanto a um campo de estudo específico no âmbito das ciências sociais quanto ao conjunto de interações entre os diferentes atores no âmbito global, sejam Estados, empresas, organismos internacionais, entre outros.
As RIs, como um campo de estudo, têm a base de sua metodologia ancorada na interdisciplinaridade, na junção de diferentes pontos de vista que fortalecem o olhar na sua perspectiva, levando em conta outras áreas do conhecimento como História, Sociologia, Ciência Política, Economia, Filosofia, Direito, entre outras. Esse caráter é fundamental e deve ser incorporado pelos diferentes métodos e ferramentas de estudo e análise, buscando fornecer uma perspectiva ampla, complexa e interdisciplinar sobre o objeto considerado.
Duas perguntas parecem fundamentais para a análiseno contexto das RIs (NASSER, 2016, p. 171-174):
· Quais são os atores relevantes no âmbito das interações internacionais?
· Quais são as dinâmicas fundamentais que as orientam, ou seja, o caráter do sistema internacional e seus atores, seja ele mais inclinado à cooperação, ou conflito etc.?
No Brasil, o campo de estudo das RIs sofre alguns questionamentos com relação à sua autonomia como campo do conhecimento. Assim como nos Estados Unidos, onde muitas das teorias consagradas na área são formuladas, as RIs são vistas como uma subárea da ciência política e não uma área com autonomia própria.
No entanto, ainda há defensores de que esse campo possui perfil próprio com contribuições de outras áreas do conhecimento, especialmente de outras ciências sociais, o que confirma a essência interdisciplinar (ALMEIDA, 2016, p. 303-304).
DIREITO INTERNACIONAL E SUAS METODOLOGIAS
A expressão direito internacional pode assumir três sentidos diferentes:
A esfera pública, ou seja, que envolve os estados do Direito, mais precisamente o direito internacional público.
A junção da esfera privada com os direitos internacionais público e privado.
Todo o arcabouço normativo das relações internacionais.
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COMENTÁRIO
Apesar de não adentrarmos nessa questão, cabe mencionar que, no campo do Direito, além do internacional, há também o direito comparado, que analisa e compara as diferentes construções jurídicas entre países ou entre unidades de diferentes divisões políticas, como estados ou regiões.
Um dos princípios metodológicos desse campo é o contato íntimo com a realidade que envolve regras, normas, instituições, jurisprudências e funcionamentos. Nesse âmbito factual, o direito internacional é percebido como um dos instrumentos normativos que organizam as relações e interações entre os diferentes atores do sistema internacional, constituindo um ordenamento jurídico.
A metodologia no âmbito do direito internacional deve levar em consideração a ordem jurídica e as questões como o tipo de sociedade em que opera, os principais sujeitos, as fontes do Direito, os direitos e as obrigações estabelecidos nesse contexto, bem como as consequências ante as ilicitudes e como o sistema se relaciona com as demais ordens jurídicas (NASSER, 2016, p. 169-171).
RELAÇÕES INTERNACIONAIS E DIREITO INTERNACIONAL: CONEXÕES E DIVERGÊNCIAS
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Enquanto as RIs buscam compreender e analisar as relações no contexto internacional, o direito internacional, por sua vez, tem função distinta, apesar de complementar, que é o de regular e normatizar essas relações, o que demonstra a proximidade dos dois campos de estudo, mas salienta as distintas atuações e os papéis nesse contexto.
De acordo com o modelo proposto por Castro (2012, p. 280), o quadro a seguir evidencia as distinções epistemológicas entre as RIs e o direito internacional, posicionando ambos os campos sob o domínio das ciências humanas, cujo objeto principal é o ser humano e sua complexidade de relações que envolvem processos, redes e formas.
Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal
Ciências Humanas
Ciências Sociais
Ciências Sociais Aplicadas
Ciências Políticas
Ciências Jurídicas
Ciência das Relações Internacionais
Direito Internacional
Disciplinas das Relações Internacionais (Teorias, Segurança, Política Externa etc.)
Direito Internacional Público e Direito Internacional Privado
Quadro: Elaborado pelo autor, com base no modelo proposto por Castro (2012, p. 280).
DIANTE DISSO, O QUE PODEMOS OBSERVAR?
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O ponto de divergência entre as áreas se inicia a partir da próxima estrutura, sendo as RIs ligadas às ciências sociais, voltadas para a análise sistemática do comportamento humano no contexto social, ao mesmo tempo em que o Direito se volta às ciências sociais aplicadas, cujo objeto de análise são os contextos sociais por intermédio de instrumentos normativos.
Também é possível observar, segundo o modelo apresentado, que outra divergência existente recai sobre a inclusão das RIs como um subcampo das ciências políticas, cujo foco é o estudo das relações de poder e a cratologia, envolvendo os variados atores da esfera social. Enquanto isso, o direito internacional está inserido no âmbito das ciências jurídicas que se debruçam sobre o controle da sociedade por vias normativas e de coação, possibilitadas por meio do Estado (CASTRO, 2012, p. 280).
No contexto das interações entre as RIs e o direito internacional, há duas abordagens teóricas que fomentam essa conexão:
O neoinstitucionalismo, muito influenciado pelos regimes internacionais.
As teorias liberais, que defendem a influência da política doméstica para a política internacional, e o aumento da importância dos atores não estatais.
O neoinstitucionalismo evidencia a importância das instituições, compreendidas como um complexo de normas, formais ou não, que facilitam a coordenação entre os atores racionais no âmbito das RIs, e que estão fortemente atreladas ao campo do Direito e da política internacionais.
Além disso, outra forma de interação entre as áreas de RIs e do direito internacional está na possibilidade de fortalecer o conhecimento no que diz respeito à análise dos tipos de normas existentes internacionalmente e mensurar seus consequentes impactos possíveis, na forma como os atores internacionais agem e se comportam, levando em conta, também, as limitações das normas internacionais, em termos de influência ou contraposição política.
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Por fim, outro importante ponto de conexão entre os dois campos do saber diz respeito à análise dos valores incorporados por normas e instituições na arena internacional, que permite discutir questões como a legitimidade normativa e institucional (ALMEIDA, 2016, p. 303-306).
CONSIDERAÇÕES PARCIAIS
O presente módulo buscou apresentar de maneira geral os principais conceitos ligados à metodologia de análise e pesquisa das RIs como campo de estudo autônomo e o seu equivalente no âmbito das ciências jurídicas, o direito internacional, cujas conexões e distinções muitas vezes não são claras, tampouco conhecidas.
É importante salientar a importância das duas áreas e enaltecer suas conexões, que permitem que o objeto de estudo de ambos seja complementar, tendo as RIs se debruçado sobre as interações entre os atores no sistema internacional, ao passo que o direito internacional se volta para a análise de como regular e controlar essas interações, por meio de instituições e instrumentos normativos.
Esse resumo, apesar de simplificado, é capaz de fornecer as bases de entendimento sobre a complementariedade de suas missões e objetos de análise. Desse modo, ao fim deste módulo, o objetivo é fornecer as bases do conhecimento, a fim de possibilitar que você relacione tanto os elementos que representam pontos de interação quanto elementos que contrastem e revelem as distinções entre os campos de diferentes epistemologias, como é o caso das RIs, do lado das ciências políticas, e do direito internacional, do lado das ciências jurídicas.
A PESQUISA PARA O CAMPO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Será que temos um caso do direito internacional que pode nos ajudar a entender melhor? Vamos ouvir o professor Marcelo.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS COMO CAMPO DE ESTUDO, ASSIM COMO O DIREITO INTERNACIONAL, ESTÃO VINCULADAS AO CAMPO DAS CIÊNCIAS NÃO EXATAS. COM BASE NAS INFORMAÇÕES APRESENTADAS NO MÓDULO, ASSINALE A SEGUIR A ALTERNATIVA QUE CORRETAMENTE APRESENTA DEFINIÇÕES SOBRE AS ÁREAS:
As relações internacionais estão vinculadas às ciências sociais.
As relações internacionais estão vinculadas às ciências sociais aplicadas.
O direito internacional está vinculado às ciências políticas.
As relações internacionais também compõem as ciências jurídicas.
O direito internacional não está vinculado às ciências humanas.
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2. ASSINALE A OPÇÃO A SEGUIR QUE CORRETAMENTERELACIONA OS PONTOS DE INTERAÇÃO ENTRE AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS E O DIREITO INTERNACIONAL:
As relações internacionais estão voltadas para as trocas econômicas internacionais entre os Estados soberanos, e o direito internacional diz respeito às obrigações contratuais.
O direito internacional possui poder de atuação policial no sistema internacional, tendo em vista os tribunais de Nuremberg e Jerusalém, que condenaram nazistas pelas atrocidades da Segunda Guerra Mundial.
Assim como as relações internacionais criam o arcabouço normativo que estabelece o sistema das Nações Unidas, em Nova York, o direito internacional é responsável pelas normas da Corte Internacional de Justiça, em Haia.
As relações internacionais se ocupam da análise das interações entre os atores no âmbito internacional, enquanto o direito internacional foca na regulação e controle dessas interações.
O direito internacional, por ser um campo de estudos mais antigo, representa o alicerce sobre o qual hoje as relações internacionais sobrepõem o campo inicial, sendo seu substituto na contemporaneidade.
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GABARITO
1. As relações internacionais como campo de estudo, assim como o direito internacional, estão vinculadas ao campo das ciências não exatas. Com base nas informações apresentadas no módulo, assinale a seguir a alternativa que corretamente apresenta definições sobre as áreas:
A alternativa "A " está correta.
O ponto de divergência entre as áreas se inicia a partir da próxima estrutura sendo as RIs ligadas às ciências sociais, voltadas para a análise sistemática do comportamento humano no contexto social, e o Direito às ciências sociais aplicadas, cujo objeto de análise são os contextos sociais por intermédio de instrumentos normativos.
2. Assinale a opção a seguir que corretamente relaciona os pontos de interação entre as relações internacionais e o direito internacional:
A alternativa "D " está correta.
O objeto de estudo de ambos é complementar, tendo as relações internacionais se debruçado sobre as interações entre os atores no sistema internacional, ao passo que o direito internacional está voltado para a análise de como regular e controlar essas interações por meio de instituições e instrumentos normativos.
MÓDULO 3
Reconhecer as bases da internacionametria
INTERNACIONAMETRIA E SEUS DESDOBRAMENTOS
Este módulo tem como objetivo central apresentar uma nova proposta de modelo metodológico no âmbito das relações internacionais. Você deve ter notado que grande parte das escolas teóricas predominantes em nosso campo de estudo são formuladas em universidades estrangeiras, especialmente por autores sediados em países europeus ou nos Estados Unidos, o que chamamos de norte ideológico global.
Imagem: Kingj123 / Wikimedia Commons/ Domínio PúblicoA divisão Norte-Sul no mundo. Norte na cor azul e sul na cor vermelha.
Quando levamos em consideração o fato de o Brasil estar posicionado na região Sul global, tanto em termos geográficos quanto no que diz respeito à questão ideológica, podemos perceber a importância de as relações internacionais (RIs) também serem analisadas, percebidas e observadas.
A perspectiva seria o olhar do Sul, que posteriormente permitisse a criação de ferramentas teóricas de análise próprias daqueles que partilham essa visão austral, e que fossem capazes de fornecer uma visão complexa, lúcida e nossa sobre as dinâmicas do sistema internacional.
COM BASE NESSE CONTEXTO, EM QUE AS TEORIAS E AS PERSPECTIVAS ELABORADAS POR INDIVÍDUOS DO/NO SUL GLOBAL PRODUZEM VISÕES PRÓPRIAS SOBRE AS RIS, DESTACAMOS O TRABALHO DO PROFESSOR BRASILEIRO THALES CASTRO (2012).
Ele propõe a criação de uma nova disciplina das RIs, que juntamente com as tradicionais matérias dos cursos de graduação, como Teoria das Relações Internacionais, História da Política Externa ou mesmo Negociações Internacionais, vai fortalecer e ampliar a compreensão do alunado a respeito das dinâmicas globais e seus desdobramentos, fornecendo um olhar emancipatório e de origem nacional.
Esse é o caso da disciplina Internacionametria, que vamos explorar melhor nas próximas seções deste módulo, cujo foco será o de apresentar essa proposta de modo a permitir que você reconheça as suas bases.
IMPLICAÇÕES DE UM NOVO MODELO
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No âmbito das RIs, as disciplinas e os campos de estudo mais tradicionais foram e continuam sendo elaborados no exterior, como já discutimos. Para além disso, as ciências sociais, onde o campo de estudo das relações internacionais se concentra, como também já vimos, possuem algumas limitações no escopo de suas metodologias e análises.
Alguns autores, por exemplo, acusam as teorias das RIs de serem eurocêntricas (SETH, 2012), mas, no geral, as ciências sociais concentram suas preocupações na análise sistemática do comportamento humano no contexto social, diferentemente das ciências sociais aplicadas, cujo objeto de análise são os contextos sociais por intermédio de instrumentos normativos.
DESSE MODO, PODEMOS OBSERVAR QUE OS PRINCIPAIS MÉTODOS EMPREGADOS NO ÂMBITO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS ESTÃO VOLTADOS PARA A OBSERVAÇÃO E DESCRIÇÃO DOS COMPORTAMENTOS HUMANOS.
Marco Cepik (2008, p. 7) fornece um amplo panorama sobre as principais metodologias de pesquisa utilizadas pelos pesquisadores no campo das RIs. Confira a seguir:
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DESCRITIVA
Segundo os dados reunidos pelo autor, que consideraram as pesquisas produzidas nesse campo do saber entre 1975 e 2000, a metodologia favorita dos pesquisadores é a descritiva, que concentrou mais da metade de tudo o que foi produzido na área durante esse longo período de tempo. No entanto, os números mostram uma leve queda com o passar do tempo, um declínio da casa dos 50% para a casa dos 30%.
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ESTUDOS DE CASO, MÉTODOS CRUZADOS E FORMULAÇÃO DE MODELOS
Outras metodologias, bem menos utilizadas, ao longo desse período se mostraram constantes, com sutis alterações para mais ou para menos. É o caso de metodologias importantes como os estudos de caso, que permaneceram na casa dos 15% durante o período. Igualmente, os métodos cruzados, cujo alcance saiu de quase de zero para algo próximo da casa dos 10%. Por fim, temos a formulação de modelos, mais voltada para as discussões teóricas, cuja representatividade subiu de taxas inferiores aos 10% para praticamente 15% no período considerado.
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QUANTITATIVA
Para além das metodologias mencionadas, a utilização de uma metodologia específica, a quantitativa, cuja essência está mais voltada para as análises numéricas, que utilizam ferramentas matemáticas e estatísticas, chama bastante atenção quando analisamos os dados disponibilizados por Cepik (2008, p. 7).
1975 E 1979
Os números apontam para o fato de que entre 1975 e 1979, as publicações científicas da área que utilizavam métodos quantitativos representavam pouco mais de 25% do total, ao mesmo tempo que os métodos descritivos alcançavam, sozinhos, uma marca próxima dos 50%, ou seja, quase o dobro.
1985 E 1989
Entre o período que compreendeu 1985 e 1989, uma brusca mudança ocorreu e os métodos descritivos despencaram a um patamar próximo dos 40%, ao passo que os métodos quantitativos ascenderam à casa dos 30%.
1990 E 1994
Na sequência, entre 1990 e 1994, os métodos quantitativos se tornaram surpreendentemente mais populares entre os pesquisadores do que o tradicional método descritivo, virando a curva.
1995 E 2000
No último período analisado, que compreende os anos entre 1995 e 2000, observamos que o método quantitativo não somente se sobrepôs à pesquisa realizada com métodos descritivos, mas manteve e consolidou a sua liderança. Os últimos números apontam que quase 45% das pesquisas da área utilizaram métodos quantitativos em comparação com cerca de 30% de pesquisadores que utilizam métodos descritivos em suas produções acadêmicas.
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Desse modo, observamos a importância do pensamento do teórico Thales Castro (2012) no sentido de incorporar essa tendência ao estudo das RIs no Brasil, pormeio de uma nova disciplina: a internacionametria.
TRATA-SE DE UMA INOVAÇÃO QUE BUSCA INSTRUMENTALIZAR OS FUTUROS INTERNACIONALISTAS EM SUAS PRÁTICAS COTIDIANAS DE ANÁLISE, PREVISÃO E PRESCRIÇÃO SOBRE OS DESDOBRAMENTOS QUE OCORREM EM MEIO AO SISTEMA INTERNACIONAL, FORTALECENDO O FERRAMENTAL TEÓRICO E METODOLÓGICO NO SENTIDO DE ABRIR NOVAS FRENTES DE ANÁLISE, ESTUDO E PRODUÇÃO CIENTÍFICOS.
INTERNACIONAMETRIA
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A internacionametria é a consolidação da proposta de Castro (2012) sobre a criação de uma nova disciplina no campo de estudo das RIs, que objetiva, ao lado de outras disciplinas, incluir e fortalecer o uso de novas ferramentas de análise para a compreensão do seu objeto RIs: o ambiente internacional e as interações que nele ocorrem entre os atores.
As bases da internacionametria se descolam um pouco das ferramentas metodológicas mais utilizadas no âmbito das RIs, que até há pouco tempo se distanciavam um pouco das ciências exatas e suas complexidades matemáticas. No entanto, a proposta de Castro é exatamente a de aproximar o ferramental teórico e metodológico das ciências exatas com o campo das RIs, buscando fornecer maior musculatura às análises e, com essa inovação, criar uma frente de análises mais robusta.
Para o autor, valer-se de ferramentas estatísticas, matemáticas e dos modelos econométricos, cuja utilização está mais voltada para as questões estatísticas que envolvem a seara econômica, podem contribuir com o estudo das RIs, especialmente no que diz respeito às funções da área de prever e prescrever, permitindo um aprimoramento da metodologia existente e aprofundando o caráter interdisciplinar desse campo de estudo.
Para Castro (2012, p. 304), a internacionametria deve ir além do uso da lógica e a teoria dos números, a fim de ampliar as funções básicas das RIs, que devem ser as de descrição, explicação, previsão e prescrição. A incorporação de desdobramentos matemáticos, como a teoria dos fractais, que apesar de não ser capaz de prever grandes eventos em sistemas caóticos, como pode ser percebido o sistema internacional uma vez considerado anárquico, informa que esses eventos acontecerão.
Ao lado da matemática computacional e de toda a sua complexidade de códigos e linguagens, essas ferramentas podem contribuir com a promoção de um novo avanço científico na área das RIs, tendo interessante aplicação, por exemplo, em estimar e prever resultados e comportamentos em votações na esfera global, como no Conselho de Segurança ou na Assembleia Geral das Nações Unidas, fortalecendo as bases metodológicas da área.
Outros campos do saber, como a física quântica e a teoria do caos, podem contribuir com as RIs no sentido de permitir a previsão de comportamentos e modelos de tomadas de decisão de atores individuais específicos, como no caso de regimes autoritários, em que a vontade soberana do líder se sobrepõe à vontade popular.
O nome internacionametria provavelmente é inspirado na econometria, ou seja, a aplicação do ferramental estatístico ao campo da Economia (neste caso, das RIs), a aplicação de ferramentas estatísticas, matemáticas, da física e de outras ciências exatas, para entender, explicar e prever os comportamentos e eventos na seara internacional. O foco é no objeto principal das RIs: o sistema internacional e as relações e interações que ocorrem entre seus diferentes atores, independentemente de quem sejam.
Essa incorporação fomenta maior proximidade entre os métodos quantitativo e qualitativo no âmbito das RIs, cuja produção científica, tradicional e quantitativamente, tem priorizado as análises qualitativas. Desse modo, buscando um equilíbrio metodológico entre os dois principais elementos e incorporando as tendências globais rumo a pesquisas mais robustas e quantitativas, a internacionametria é proposta como uma possível solução, de modo a fortalecer as RIs no campo das ciências sociais e consolidar sua metodologia de pesquisa.
ATENÇÃO
Essa nova disciplina não busca substituir disciplinas consolidadas no estudo das RIs, como Metodologia Científica das Relações Internacionais, mas, segundo Castro (2012, p. 305), procura sistematizar e reunir em uma disciplina independente essa conexão entre os elementos quantitativos e qualitativos, de modo a ampliar o rigor científico quantitativo no contexto das RIs, o que pode ser explorado de maneira autônoma no âmbito da internacionametria.
CONSIDERAÇÕES PARCIAIS
O presente módulo buscou apresentar a proposta elaborada pelo teórico brasileiro Thales Castro, que inovou em sua formulação ao contribuir com o campo de estudo das RIs, empregando uma visão do Sul global a esse campo do conhecimento dominado pelo pensamento estrangeiro, sobretudo vindo dos Estados Unidos e dos principais países da Europa Ocidental.
O objetivo principal deste módulo foi o de introduzir a discussão indicada pelo autor e permitir que você reconheça as bases da internacionametria, suas principais ferramentas metodológicas e seus desdobramentos para o campo do conhecimento das RIs, que poderia se beneficiar dessa busca por um maior equilíbrio entre as metodologias qualitativas e as quantitativas, aprimorando o ferramental analítico e fortalecendo os mecanismos de previsibilidade em determinadas circunstâncias.
PESQUISA QUALITATIVA E QUANTITATIVA EM RI
Ainda com dúvidas sobre metodologias qualitativa e quantitativas? O professor Marcelo fixará o conteúdo.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. COM BASE NAS INFORMAÇÕES DISCUTIDAS NO PRESENTE MÓDULO, ESCOLHA A ALTERNATIVA A SEGUIR QUE CORRETAMENTE APRESENTA O CONCEITO GERAL DA INTERNACIONAMETRIA:
É um desdobramento da econometria, que utiliza o ferramental teórico da Economia para explicar as relações econômicas internacionais.
Busca incorporar à metodologia das relações internacionais elementos qualitativos utilizados em outras áreas do conhecimento, principalmente das ciências sociais aplicadas.
Refere-se a uma nova metodologia que busca inovar a forma como a pesquisa é feita no âmbito das ciências sociais, utilizando-se do método hipotético-dedutivo, mais conhecido como verificacionismo.
Consiste na sobreposição da Matemática às teorias das relações internacionais, buscando numerar elementos até então percebidos como subjetivos, conferindo mais objetividade a esse campo do conhecimento.
Busca incorporar à metodologia de relações internacionais elementos quantitativos utilizados em outras áreas do conhecimento, a exemplo da Matemática e da Física Quântica, a fim de equilibrar elementos quantitativos e qualitativos na produção científica da área.
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2. NO CONTEXTO DA METODOLOGIA CIENTÍFICA EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS, ASSINALE A SEGUIR A ALTERNATIVA CORRETA SOBRE AS POSSIBILIDADES QUE A INTERNACIONAMETRIA PODERIA PROPORCIONAR:
Analisar o sistema de cooperação internacional.
Prever o resultado de eleições em organismos internacionais.
Compreender as relações de ganhos absolutos.
Identificar relações de ganhos relativos.
Fortalecer a pesquisa científica qualitativa.
Parte inferior do formulário
GABARITO
1. Com base nas informações discutidas no presente módulo, escolha a alternativa a seguir que corretamente apresenta o conceito geral da internacionametria:
A alternativa "E " está correta.
A internacionametria utiliza ferramentas estatísticas, matemáticas e modelos econométricos no estudo das relações internacionais. Tal uso se verifica, especialmente, nas atuações que pretendem prever e prescrever referentes à área.
2. No contexto da metodologia científica em relações internacionais, assinale a seguir a alternativa correta sobre as possibilidades que a internacionametria poderia proporcionar:
A alternativa "B " está correta.
A internacionametria, por meio da interdisciplinaridade, pode promover avanços científicos à área das relações internacionais. Uma importante aplicação se dá em produzir estimavas e previsões de resultados e comportamentos em esfera global, por exemplo, no Conselho de Segurança ou na Assembleia Geral dasNações Unidas.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este conteúdo buscou introduzir de forma resumida importantes questões envolvendo o assunto sobre a metodologia das relações internacionais, desde ferramentas metodológicas: o modelo hipotético-dedutivo elaborado por Karl Popper; o posicionamento das relações internacionais e suas metodologias com o direito internacional; e, por fim, a internacionametria, discutindo seus possíveis desdobramentos para o campo de estudo científico das relações internacionais, uma importante inovação vinda do Sul global, uma região geográfica e ideológica que normalmente recebe menos atenção no arcabouço teórico de RIs.
Em função do caráter introdutório, este material não buscou explorar exaustivamente todos os pormenores de cada um dos assuntos abordados, mas oferecer as bases para uma compreensão geral e, mais importante, permitir que você identifique os conceitos gerais do método hipotético-dedutivo de Popper, reconheça as bases da internacionametria e seus desdobramentos futuros no campo de estudo das RIs e, finalmente, relacione as interações e distinções entre as relações internacionais e o direito internacional.
Imagem: Leonidas Santana/Shutterrstock.com
AVALIAÇÃO DO TEMA:
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, M. H. T. Relações internacionais e direito internacional: observações breves sobre convergências possíveis. In: BADIN, M. R. S.; BRITO, A. S. de; VENTURA, D. F. L. (orgs.). Direito global e suas alternativas metodológicas: primeiros passos. São Paulo: FGV Direito SP, 2016. 454p.
CASTRO, T. Teoria das relações internacionais. Brasília: Funag, 2012.
CEPIK, M. Metodologia de pesquisa em relações internacionais. Porto Alegre: UFRGS, 2008. Consultado em meio eletrônico em: 3 maio 2021.
COMTE, A. Cours de philosophie positive. Paris: Librairie J. B. Baillière et fils, 1877.
FRANCELIN, M. M. Ciência, senso comum e revoluções científicas: ressonâncias e paradoxos. Ciência da Informação, Brasília, v. 33, n. 3, p. 26-34, set./dez. 2004. Consultado em meio eletrônico em: 17 abr. 2021.
FREIRE-MAIA, N. A ciência por dentro. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
JUNG, C. F. Metodologia científica e tecnológica: hipótese, modelo, achado, teoria e lei. Campinas: Unicamp, 2009. Consultado em meio eletrônico em: 27 abr. 2021.
MENDES, P. E. A invenção das relações internacionais como ciência social: uma introdução à ciência e à política das RI. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2013. p. 1-38 (Cepese Working Papers). Consultado em meio eletrônico em: 3 maio 2021.
NASSER, S. H. Uma dança de três: direito internacional, relações internacionais e direito comparado. In: BADIN, M. R. S.; BRITO, A. S. de; VENTURA, D. F. L. (orgs.). Direito global e suas alternativas metodológicas: primeiros passos. São Paulo: FGV Direito SP, 2016.
SETH, S. The limits of international relations theory: a postcolonial critique. E-International Relations, 24 ago. 2012.
SILVA, J. G. C. Ciência e método científico. Pelotas: UFPel, 2005. (Boletim Técnico n. 6).
VICENTE, R. Método científico. São Paulo: EACH-USP, 2008. Consultado em meio eletrônico em: 27 abr. 2021.
EXPLORE+
Para ampliar seus conhecimentos sobre a metodologia das relações internacionais, recomendamos o livro publicado por Thales Castro por meio da Fundação Alexandre de Gusmão: Teoria das relações internacionais, amplamente citado aqui e que serviu de inspiração para alguns dos módulos apresentados.
Assista aos filmes que indicamos, sobre metodologia das relações internacionais:
· 13 dias que abalaram o mundo (2000)
· Sob a névoa da guerra (2003)
· Adeus, Lenin! (2003)
· Fahrenheit 11 de setembro (2004)
· Hotel Ruanda (2004)
· Diários de motocicleta (2004)
· O caminho para Guantánamo (2006)
· Uma verdade inconveniente (2006)
Procure também o artigo Um modelo híbrido de pesquisa: a metodologia aplicada pelo GJOL, de Elias Machado e Marcos Palacios, para pensar em linhas contemporâneas.
DESCRIÇÃO
O papel das ferramentas analíticas no comportamento dos atores nas Relações Internacionais como fundamento das explicações para o comportamento de Estados, empresas multinacionais e organizações não governamentais.
PROPÓSITO
Compreender o comportamento dos atores internacionais para uma reflexão crítica sobre os principais agentes no cenário internacional, as motivações das suas escolhas políticas e sua interação com o objetivo de uma consideração sofisticada da arquitetura global.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Reconhecer os principais atores do sistema internacional
MÓDULO 2
Identificar as principais ferramentas epistemológicas ligadas às teorias da escolha racional e dos jogos nas Relações Internacionais
MÓDULO 3
Relacionar o papel das instituições no comportamento dos agentes internacionais
MÓDULO 4
Identificar as narrativas sobre a realidade política internacional e as estratégias de atuação dos Estados
INTRODUÇÃO
Teorizar é fundamental. Trata-se do exercício de pensar sobre o campo, os envolvidos e a maneira como ele pode ser trabalhado. Neste material, tendo tal realidade em vista, discutiremos alguns dos fundamentos das Relações Internacionais, percebendo suas dinâmicas e seus agentes fundamentais.
É importante estar atento aos jornais, às redes e ao próprio mundo, buscando informações de qualidade e entendendo aos poucos a dinâmica dele. Por conta disso, concentraremos nosso olhar na construção de uma teia complexa de agentes.
Antes disso, veremos a exposição do professor Rodrigo Rainha sobre a importância do estudo da teoria das Relações Internacionais e da racionalidade de seus atores:
RACIONALIDADE DOS ATORES
Agora, o professor Rodrigo Rainha apresenta o contexto em que agem os atores no âmbito de Relações Internacionais.
MÓDULO 1
Reconhecer os principais atores do sistema internacional
PRIMEIRAS PALAVRAS
Apresentaremos neste módulo os principais atores que atuam no sistema internacional. Eles serão divididos, conforme uma categorização já consagrada, entre primeiro, segundo e terceiro setor. Essas reflexões estão estabelecidas dentro do guarda-chuva mais amplo deste material: “racionalidade dos atores das Relações Internacionais”.
A racionalidade tem sido um dos principais conceitos nos estudos internacionais. As indagações sobre as razões do comportamento dos atores que atuam no cenário global, como Estados, empresas e organizações não governamentais (ONGs), nos ajudam a criar modelos que explicam os interesses e as escolhas políticas desses agentes.
As principais abordagens teóricas das Relações Internacionais (RI), como realismo e liberalismo, assumem que esses atores são, em geral, racionais, já que buscam promover as preferências deles de forma a maximizar seus interesses. Mais especificamente, a racionalidade significa que um ator ordena suas disposições, fazendo a escolha que ocupa o primeiro lugar na ordem em determinada situação.
Já a teoria da escolha racional é baseada em uma concepção particular dos processos que estão sendo modelados: sua premissa é que os processos sociais, como é o caso das RI, podem ser mais bem pensados em termos das escolhas feitas por atores cujos objetivos podem ser calculados e que estão tentando alcançá-los de uma forma passível de análise.
ATORES: PRIMEIRO, SEGUNDO E TERCEIRO SETOR
PRIMEIRO SETOR: O ESTADO
Imagem: RTG/Wikimedia commons/Domínio Público Detalhe da primeira capa da obra Leviatã, escrita por Thomas Hobbes em 1651.
O Estado é central para o estudo das RI e assim permanecerá por longo prazo. Por isso, a política dele configura o objeto de análise historicamente mais comum em pesquisas internacionais.
Apenas como exemplo dessa importância, podemos reforçar que são os Estados que:
· Decidem participar ou decretar uma guerra.
· Determinam políticas comerciais.
· Organizam vacinações globais em pandemias.
· Estabelecem padrões ambientais.
· Celebram acordos internacionais e optam por acatar ou não suas considerações.
Nas RI, o Estado, normalmente, é descrito como uma entidade política com território delimitado e população. Esse agente jurídico é detentor de uma dupla soberania: a primeira é a interna, significandoque ele possui o monopólio do uso legítimo da violência. Essa é, atualmente, uma característica única das nações: apesar de outros atores, como grupos criminosos ou terroristas, empregarem a força em determinado espaço, os Estados são os únicos reconhecidos como legítimos para fazê-lo.
Isso está circunscrito a nosso entendimento de “soberania externa”, que é justamente o ato de reconhecimento, por outros Estados, da autoridade dentro de determinado espaço.
ATENÇÃO
Isso não é ponto pacífico nas RI: os atuais embates entre Israel e a Palestina passam justamente por tais questões. Para alguns países, determinado território deveria ser soberanamente administrado por palestinos, enquanto outros reconhecem o direito de Tel Aviv. Tradicionalmente, guerras entre Estados envolvem disputas por soberania de determinado espaço.
Mesmo os acadêmicos que dão destaque aos interesses domésticos ou aos atores não estatais estão normalmente preocupados em compreender ou mudar as práticas dos Estados. As RI, como uma disciplina, preocupam-se principalmente com o que eles fazem no cenário mundial e, por sua vez, como suas ações afetam outras nações.
Dentro dessa lógica, os Estados são uma unidade comum de análise nas principais teorias da disciplina. Muitos analistas observam as interações estatais para explicar os padrões observados da política mundial.
EXEMPLO
O Estado é fundamental para o neorrealismo (WALTZ, 1979) e o institucionalismo neoliberal (KEOHANE, 1984), além de também ser fundamental em muitas teorias construtivistas e da Escola Inglesa (BULL, 1977).
Mesmo as teorias críticas pós-modernas ou feministas que se opõem às formas existentes de poder social, muitas vezes, concentram-se na desconstrução das práticas estatais. Tanto como objeto quanto como unidade de análise, as RI dizem respeito, em grande parte, aos Estados.
O primeiro setor, nesse sentido, abrange o Estado e todos seus elementos constitutivos, como agências, ministérios e órgãos federativos.
Parte importante das reflexões internacionais pressupõem que os Estados são os atores principais na política mundial. Os teóricos que trabalham segundo essa tradição, porém, não negam a existência de outras unidades políticas. Como Kenneth Waltz (1979, p. 93-94) escreve: “os Estados não são e nunca foram os únicos atores internacionais. A importância dos atores não estatais e a extensão das atividades transnacionais são óbvias”.
Em vez disso, sua alegação é que os Estados – e, especialmente, as grandes potências – são atores suficientemente importantes para que qualquer reflexão os coloque em seu núcleo. Os estudiosos que fazem essa consideração apontam que o foco nos Estados resulta em explicações pautadas na realidade prática da política mundial.
Foto: Jecuc/Wikimedia commons/CC BY-SA 4.0 Kenneth Waltz em 2008.
Uma questão importante no nosso estudo do chamado primeiro setor é saber como lidar com um espaço político (o Estado) necessariamente composto por uma miríade(Variação, conjunto grande e diversificado de grupos.) de grupos de interesse. A própria ideia de interesse nacional é bastante relevante para um melhor entendimento do comportamento estatal.
O interesse nacional pode ser assumido como existente quando uma sociedade tem preferências políticas relativamente homogêneas ou internaliza certas normas conforme o que se considera mais apropriado. De forma alternativa, apesar da variação nas preferências e nas normas entre indivíduos ou grupos, esse interesse ainda pode existir de forma plausível.
Fonte: Shutterstock Napoleão legislador, por Jean-Baptiste Mauzaisse (1833).
Em segundo lugar, mesmo quando carecem(Faz falta ou ainda se encontra ausente, mesmo que seja necessário.) de um interesse nacional plausivelmente interpretado, os Estados podem constituir atores autoritários cujas políticas devidamente aprovadas são obrigatórias para seus cidadãos e, portanto, regulam como os indivíduos e o coletivo interagem com outras sociedades com vínculos semelhantes. Como entidades soberanas, portanto, eles possuem autoridade final sobre seu território e seus habitantes.
Um pressuposto fundamental da soberania é que a autoridade é indivisível e culmina em um único ápice: seja um monarca hereditário ou o povo, existe uma autoridade máxima ou final dentro de cada Estado. Isso não significa que os Estados possuem a capacidade de regular todos os comportamentos possíveis de todos os cidadãos.
EXEMPLO
Eles podem, é claro, diferir na maneira como agregam os interesses e as normas de seus cidadãos. Em regimes autoritários, um pequeno grupo das elites pode definir políticas para todos. Já em Estados mais democráticos, as instituições representativas incorporam os interesses e as normas dos eleitores às políticas.
Porém, independentemente do tipo de regime existente, os cidadãos são obrigados a respeitar as políticas aprovadas por seus governos. É essa capacidade de vincular suas sociedades que torna os Estados virtualmente únicos nas RI.
SAIBA MAIS
Debates sobre a liberdade individual versus a coletiva e os limites da atuação do Estado foram realizados no mundo intensamente durante a pandemia de covid-19. No entanto, em geral, o Estado fez valer as regras, estabelecendo a seguinte compreensão para os agentes privados: se não as cumprissem, eles não estariam no seu direito, e sim, burlando uma regra estabelecida.
Por mais ativa que uma organização não governamental (ONG) seja, ela somente pode reivindicar a representação de seus membros e, talvez, de princípios universais de justiça ou direitos humanos. No entanto, uma ONG não pode obrigar outros por meio de suas ações, incluindo os próprios membros que se associam a ela apenas de forma voluntária.
Por causa de seu status único como atores autorizados e de sua capacidade de agir em nome de seus cidadãos, os Estados são atores centrais e mais importantes do que outros, constituindo, desse modo, unidades apropriadas de análise na política internacional em muitos casos.
SEGUNDO SETOR: AS CORPORAÇÕES
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Imagem: Zohar Manor-Abel/Flickr/CC BY-SA 2.0 Mapa da Grande Corporações, de autoria de Zohar Manor-Abel (2006).
O grupo seguinte de atores internacionais relevantes são as corporações ou as empresas. Apesar de variada, a centralidade dessa análise se dá nas chamadas “corporações multinacionais”, ou seja, naquelas que atuam em âmbito global.
É indiscutível que Estados e corporações são interdependentes. Estas dependem daquele para fornecer segurança e garantir o cumprimento dos direitos de propriedade, ambos necessários para elas poderem se envolver em transações comerciais. Ao mesmo tempo, eles também dependem das empresas para o emprego de seus cidadãos e como base para a tributação.
O papel das corporações na política internacional continua sendo uma questão negligenciada. Pesquisas ligadas ao capitalismo transnacional, nas décadas de 1980 e 1990, promoveram debates críticos sobre as mudanças no ambiente internacional e a emergência de novos atores. Em particular, eles apontaram o tamanho crescente e o domínio geral dos atores corporativos na economia política global.
Isso se deu porque – principalmente, a partir do final da Guerra Fria – parte expressiva da produção de riqueza do mundo não estava mais concentrada apenas nos Estados, mas também nas comunidades de negócios transnacionais. Não é por acaso que a nova ordem econômica mundial emergente foi apelidada de "capitalismo transnacional” ou “global”.
Um fator-chave por trás dessa internacionalização corporativa acelerada é o número crescente de fusões e aquisições internacionais.
A ordem global emergente trouxe muitos novos conceitos e outros atores para a agenda mundial. O crescimento das multinacionais deu a elas um poder econômico e político para alterar e influenciar as ações do Estado.
Foto: Lacrossewi/Wikimedia commons/CC BY-SA 4.0 Sede da KraftHeinz em Chicago, nos EUA. As gigantes do ramo alimentício Kraft e Heinz fundiram-se em uma única empresa em 2015.
A interferência desses atores privados nos assuntosde Estado se espalhou também para as relações interestatais e até mesmo para as questões internas de outras nações. A ordem global emergente é liderada por algumas centenas de gigantes corporativos, muitos deles maiores que a maioria das nações soberanas.
EXEMPLO
A economia da Ford é maior que a da Arábia Saudita e da Noruega. As vendas anuais da Phillip Morris excedem o produto interno bruto da Nova Zelândia.
Outro ponto interessante sobre tais empresas diz respeito à sua capacidade de alcance e influência. Atualmente, tais companhias alcançam milhões de pessoas por intermédio de diferentes tipos de redes globais, como canais de compras, produção cultural, força de trabalho e finanças.
EXEMPLO
Mesmo sem exércitos, é inegável a influência e a capacidade de empresas como o Google e o Facebook. Essas redes mundiais de atividade econômica alcançaram um grau de integração global nunca antes observado por qualquer império mundial ou Estado-Nação.
Nesse sentido, os atores corporativos no topo dessas redes, como Microsoft, IBM, Airbus ou Boeing, têm agora voz ativa em temas globais, algo inédito no sistema internacional.
É particularmente relevante reparar as distintas interpretações sobre o crescimento corporativo transnacional. Algumas delas indicam que a expansão de tais empresas implica um grande benefício para a humanidade, seja pela difusão de tecnologia ou pelo crescimento econômico – e até mesmo, em última escala, substituindo o Estado-Nação.
COMENTÁRIO
Esses debates podem ser intensificados em relação à mudança dos impactos eleitorais, algo visto, por exemplo, em grupos com menos tempo de exposição à mídia nacional e que se tornam fenômenos nas redes, o que é o caso de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Ainda que conhecidos, a rede os transforma; assim, a atuação dessas empresas passa a ser questionada e discutida. Por outro lado, elas podem ser vistas como agentes imperialistas, explorando sem controle espaços em desenvolvimento e criando uma teia de dependência política e subdesenvolvimento econômico.
O descolamento dessa análise binária é interessante, já que podemos até mesmo chegar a conclusões compostas: as empresas, ao mesmo tempo que atuam internacionalmente aumentando o fluxo de comércio, também podem representar ameaças para populações locais.
Foto: Senator2029/Wikimedia commons/CC BY-SA 2.0 Letreiro da sede da Walmart na cidade de Bentonville, no estado do Arkansas, nos EUA. A Walmart é maior empresa do mundo, com valor estimado, em 2020, em cerca de 996 milhões de dólares.
De qualquer forma, é inegável que a ascensão das multinacionais rearticula o poder absoluto dos Estados-Nação: tanto na política doméstica quanto internacionalmente, os Estados passaram a compartilhar seu poder político e econômico com instituições como as multinacionais. A interdependência citada anteriormente não é mais válida apenas entre eles, pois os atores privados agora também são incluídos em cálculos de cooperação e alianças.
As empresas globais constituem, portanto, vastos conglomerados que sustentam não apenas economias nacionais inteiras, mas também a economia mundial. As decisões tomadas por elas têm efeitos de fluxo para outras indústrias e demais setores industriais.
COMENTÁRIO
Cinco das 30 maiores organizações não financeiras do mundo são empresas de automóveis. Elas dominam o setor automotivo, que responde por 4% a 8% do PIB e 2 a 4% da força de trabalho nos países da OCDE. No Brasil, segundo o IBGE, a fabricação de automóveis emprega 10 milhões de pessoas, direta ou indiretamente, em fornecedores de componentes e indústrias relacionadas.
Por conta disso, é de se esperar que tais companhias detenham um considerável poder político capaz de influenciar a política externa de uma nação. Com essa lógica, podemos resumir o papel das corporações em duas grandes frentes: direta e indireta.
A atuação direta se trata da influência de empresas petrolíferas no Oriente Médio ou de companhias de mídia social em eleições. Já a indireta diz respeito às movimentações de empresas do agronegócio para que o Brasil expanda suas atividades na área.
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TERCEIRO SETOR: ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS
Imagem: May_Chanikran/shutterstock.com; Brianfit/Wikimedia commons/Domínio Público); Yeenosaurus/Wikimedia commons/Domínio Público; Artem Karimov/Wikimedia commons/Domínio; Adaptada por Laiza Pereira
O termo "terceiro setor", normalmente, refere-se ao conjunto de instituições e organizações localizadas entre o Estado (primeiro setor) e o mercado (segundo).
Esse termo abrange:
· Associações voluntárias
· Instituições de caridade
· Organizações sem fins lucrativos
· Grupos comunitários
· Fundações
· Ampla gama de organizações privadas, de distribuição sem fins lucrativos e voluntárias
ATENÇÃO
O terceiro setor exclui as cooperativas e as associações mútuas, embora exista uma sobreposição significativa, particularmente em um contexto histórico e transnacional, entre esses tipos de organizações e a categoria do terceiro setor.
Atualmente, o termo “ONG” é usado para descrever uma ampla gama de organizações de variados tamanhos que podem atuar tanto do ponto de vista mais localizado quanto em um escopo de atuação internacional. Segundo uma visão transnacional, o período do fim da Guerra Fria, no fim da década de 1980 e no início dos anos 1990, será bastante importante para que possamos entendermos o papel das instituições do terceiro setor.
Isso se dá pelas mudanças significativas na política internacional que contribuíram para a formação de uma nova ordem mundial:
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Margaret Thatcher e Gerald Ford no Salão Oval da Casa Branca em 1975.
Ascensão do neoliberalismo.
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Queda do Muro de Berlin.
Colapso da união soviética.
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Crise econômica mundial de 2008.
Crise econômica em muitos países em desenvolvimento.
Muitos estudiosos argumentam que essas transformações influenciaram o aumento do papel e do número de ONGs, pontuam Igoe e Kelsall (2005). Conforme comentamos anteriormente, como as RI historicamente estavam muito centradas em questões relacionadas ao poder do Estado, as ONGs ainda eram vistas como inferiores ou muito irrelevantes.
À medida que certas capacidades distintas foram incluídas nas discussões, como a influência e o poder de pressão, tal cenário passou a ser mais plural. Atualmente, temas como meio ambiente, terrorismo, crises de refugiados e guerras civis são administrados e discutidos por esses atores não estatais.
Dessa forma, novos exames multifacetados de poder e autoridade na governança global, de acordo com Avant e demais autores (2010), possibilitaram uma comparação rica entre Estados e ONGs.
Uma discussão relevante desse campo seria o cálculo de como podemos analisar o poder e a capacidades de ONGs da mesma forma que fizemos com as empresas no tópico anterior.
Um ponto inicial importante é verificar as dimensões financeiras: inegavelmente, recursos fornecem capacidade de atuação às ONGs e proporcionam influência sobre outros atores.
Porém, em comparação com os Estados, elas ainda são relativamente pequenas.
EXEMPLO
A World Vision é a maior ONG internacional do mundo, mas seu orçamento anual é de cerca de US$2 bilhões, superando o PIB de quase nenhuma nação.
Os próprios Estados são fontes importantes de receita para muitas ONGs internacionais, possibilitando-lhes moldar os programas e as estratégias delas, apontam Cooley e Ron (2002). No entanto, é importante ressaltar que, em muitos contextos nacionais e locais, as ONGs têm relativa independência de seus Estados anfitriões.
EXEMPLO
No Quênia, as ONGs não recebem quase nenhum financiamento do Estado, embora um financiamento internacional considerável permita que elas desempenhem um papel importante na prestação de serviços e governança, pontua Brass (2016).
Além dessa capacidade coercitiva, muitos outros tipos de autoridade fortalecem as ONGs que se engajam com os Estados. Raramente,elas têm autoridade delegada sobre áreas de políticas específicas ou questões regulatórias. O mais frequente é que as ONGs a reivindiquem com base em seus compromissos de princípios.
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Proteção aos direitos humanos, como ocorre no caso da Human Rights Watch (Hopgood, 2013), ou experiência, como a do combate ao ebola por parte do Médicos Sem Fronteiras (Gourevitch, Lake e Stein 2012).
É claro que os Estados também desfrutam dessas mesmas formas de autoridade, o que pode criar disputas caso ambos atuem no mesmo espaço. Alguns críticos das ONGs celebram o princípio de ampla representação promovido por governos democráticos em face de organizações aparentemente estreitamente interessadas.
DICA
Algumas ONGs implementam ferramentas diferentes que não se restringem ao mero poder financeiro. Como comentamos anteriormente, essas instituições também articulam conexões internacionais no intuito de reforçar valores.
Segundo esse viés, a própria concepção popular de que a relação entre as ONGs e o Estado é sempre conflitiva não é de todo verdadeira, destaca Najam (2000). Em alguns momentos, a cooperação entre ambos até poderá ocorrer quando eles estiverem comprometidos com os mesmos objetivos. Isso ocorre, por exemplo, no monitoramento de eleições.
SAIBA MAIS
O Greenpeace, organização focada em meio ambiente, promove articulações globais com seus membros, como, por exemplo, envio em massa de cartas para congressistas ou protestos a fim de ter suas pautas atendidas.
A cooperação, no entanto, parece particularmente frequente em setores em que a prestação de serviços é o foco principal.
DICA
Na República Democrática do Congo, as ONGs voltam-se para a violência de gênero e apoiam as instituições jurídicas locais, tornando o país um líder em produção de normas ligadas ao tema apesar das fraquezas estatais mais amplas.
Obviamente, quando tais objetivos são diferentes, também é possível identificar embates: em Estados pouco democráticos, ONGs vistas como “estrangeiras” são constantemente acossadas e têm suas movimentações restritas. Embora o conflito e a cooperação tenham recebido mais atenção nos estudos internacionais, temas como competição e cooptação são igualmente interessantes.
ONGs e Estados, afinal, competem de várias maneiras. Aquelas até podem afirmar o estabelecimento da obrigatoriedade de certas garantias legais quando estes falham.
Em um caso famoso, retratado até mesmo em séries de tevê, a organização Sea Shepherd tentou gerar pressão para que o Japão abandonasse a caça de baleias e golfinhos.
Por fim, o tema do cooptação de ONGs por Estados é uma opção que vem ganhando peso nos últimos anos. Uma série de governantes em países autoritários as tem acusado de serem ferramentas de dominação por parte de outros Estados.
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Na maioria dos casos, trata-se de um instrumento para evitar a análise e a averiguação de tais organizações; por outro lado, muitos argumentam que as ONGs são instrumentos da cultura ocidental, o que pode gerar pesquisas profícuas.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. O ESTADO É APRESENTADO COMO UM DOS ATORES MAIS IMPORTANTES DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS (RI). UM ELEMENTO POLÍTICO E JURÍDICO QUE MATERIALIZA ESSA QUESTÃO É:
O monopólio da racionalidade nas RI
A constituição de soberania interna e externa
A manutenção da ordem jurídica internacional
A relação exclusiva com empresas internacionais e seus lucros
A criação de instituições internacionais e seus modelos normativos
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2. AS ONGS TÊM PARTE IMPORTANTE DE SUA CAPACIDADE DE INFLUÊNCIA MARCADA POR ELEMENTOS SUBJETIVOS. ENTRE ELES, NÃO PODEMOS CITAR:
Capacidade de lobby com Estados
Campanhas internacionais sobre determinado tema
Protestos organizados
Tentativa de influência com instituições internacionais
Implementação de mecanismos financeiros contra Estados
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GABARITO
1. O Estado é apresentado como um dos atores mais importantes das Relações Internacionais (RI). Um elemento político e jurídico que materializa essa questão é:
A alternativa "B " está correta.
O Estado moderno é o único ente jurídico contemporâneo dotado de garantias soberanas para a organização de um território e premissas horizontais de comportamento horizontal com outras nações.
2. As ONGs têm parte importante de sua capacidade de influência marcada por elementos subjetivos. Entre eles, não podemos citar:
A alternativa "E " está correta.
Apesar de empregar ferramentas ligadas a poder financeiro para avançar sua agenda, não é correto que esses elementos são empregados contra Estados.
MÓDULO 2
Identificar as principais ferramentas epistemológicas ligadas às teorias da escolha racional e dos jogos nas Relações Internacionais
PRIMEIRAS PALAVRAS
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A teoria dos jogos é a análise de como os agentes políticos interagem em tomadas de decisão, levando em consideração as reações e as escolhas dos outros atores em determinado cenário. Essa ferramenta teórica é empregada em diversos contextos internacionais, como conflitos armados e disputas diplomáticas, à medida que esses fenômenos ocorrem como resultado de decisões tomadas por múltiplos indivíduos.
Ela permite que analisemos as decisões de lideranças como presidentes, chefes de Estados, membros da legislatura ou militares. Dependendo da quantidade de informações, podemos até mesmo expandir essa análise para membros das ONGs ou mesmo cidadãos de um país.
TEORIA DOS JOGOS EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS
TEORIA DOS JOGOS
Também conhecida como teoria da decisão interativa, a teoria dos jogos foi fundada por John Von Neumann e Oskar Morgenstern neste livro de 1944: The theory of games and economic behavior.
ATORES RACIONAIS E SUAS DECISÕES
A teoria dos jogos pressupõe que os atores sejam racionais e tomem decisões que, baseadas nas consequências de seu comportamento, os coloquem em uma posição melhor. Dentro das RI, essa teoria tem sido usada largamente, pois ela não assume nenhuma habilidade ou característica essencialista entre os atores.
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Por isso, a teoria dos jogos é apropriada para estudar contextos anárquicos em que não existe uma figura central de poder. Como apontamos anteriormente, parte importante das análises internacionais se concentra em poucos Estados, o que também favorece essa metodologia. As aplicações dessa teoria para as RI assumem a forma de modelos, ou seja, a simplificação e a estilização das interações dos Estados ou outro ator.
EXEMPLO
Em um modelo de forma extensiva, o analista pensa em termos de Estados, os quais, por sua vez, são apresentados como jogadores com ações disponíveis, sequências de ações, condições e preferências. Por fim, são apresentadas as interações e os resultados. Muitas vezes, esse modelo também é apresentado em um nível estratégico: atores, estratégias e preferências sobre os resultados.
No próximo subtópico, apresentaremos um exemplo desse modelo para que nossa explicação fique mais clara.
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A maioria dos modelos de jogos é traçada nesses dois níveis.
A principal vantagem dos modelos de jogos se dá graças às estilizações disciplinadas de interações internacionais. A disciplina articula-se em conceitos precisamente definidos de jogadores, estratégias, ações, preferências e deduções formalmente derivadas de suposições e conceitos básicos.
RESUMINDO
O termo “estratégia” não assume significados diferentes ao longo das derivações de resultados. Com isso, independentemente do analista, os significados dos conceitos centrais da teoria dos jogos derivariam nos mesmos resultados.
No exemplo que apontaremos mais à frente (um modelo sobre o conflito nuclear Irã-Israel), a mesma solução poderá ser encontrada independentemente do analista. Isso faz com que essa ferramenta analítica seja bastante robusta, já que ela tenta afastar interpretações subjetivas sobre os cenários.
Essa “certeza analítica” se dá porque partimos do princípio de que os atores analisados são racionais.Presume-se que os atores nas RI tenham preferências sobre os resultados possíveis de suas interações, as quais, por sua vez, determinam seu comportamento.
EXEMPLO
Podemos postular três resultados possíveis da guerra: vitória, impasse e derrota. O conjunto de resultados pode ser construído como X. Se escrevermos V para vitória, I para impasse e D para derrota, poderemos definir o conjunto de resultados como X = {V, I, D}.
Partindo dessa premissa, podemos apontar que os Estados preferem a vitória ao impasse ou à derrota. Uma forma de representar tais preferências é a relação denotada ≽, em que V ≽ I é definido como “V é pelo menos tão bom quanto I.”
Pode parecer um pouco particular tal análise. Para refletirmos isso, denotaremos ≻, de modo que V ≻ I será lido como "V é preferido a I".
As principais propriedades que as preferências devem ter para serem caracterizadas como racionais são a:
COMPLETUDE
Significa apenas que cada elemento em X pode ser ordenado por meio da relação ≽, de modo que nenhum resultado possível é simplesmente incomparável.
TRANSITIVIDADE
Se, digamos, a vitória for tão boa quanto o impasse, V ≽ I; e se este for tão bom quanto a derrota, I ≽ D. Portanto, aquela também é tão boa quanto esta: V ≽ D.
As ordens de preferência com essas propriedades satisfazem nossa compreensão comum do que significa ser racional: alguém que preferisse a vitória ao impasse, este à derrota e esta àquela seria incapaz de fazer uma escolha razoável do que se pode atingir.
As funções de utilidade auxiliam enormemente as possibilidades de interação estratégica entre os Estados.
No entanto, Estados com ordenações de preferência idênticas ainda podem se comportar de maneira diferente. Isso se dá porque as preferências não fornecem informações sobre o quanto eles desejam certas coisas – e tal informação isso pode ser vital.
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ATENÇÃO
Um Estado que prefere a vitória ao impasse, mas apenas um pouco, não deve se esforçar para sair dele, enquanto outro que o considera o intolerável pode ser motivado a escalar a guerra em busca dela.
A teoria da utilidade esperada nos permite pensar sobre o quanto os atores preferem vários resultados. Analisaremos esses pontos de forma melhor no próximo subtópico.
DILEMA DO PRISIONEIRO
DILEMA DO PRISIONEIRO
Agora, o professor Rodrigo Rainha fala um pouco sobre o dilema do prisioneiro.
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O dilema do prisioneiro é um dos exemplos mais citados no campo da teoria dos jogos e nos estudos acadêmicos de RI. Ele é entendido como um jogo de duas pessoas (ou um jogo N) em que o resultado (ou a interação) dele depende das decisões dos dois atores.
EXEMPLO
Dois indivíduos são presos por um crime. No entanto, acredita-se que eles tenham cometido outra infração mais grave da qual os policiais não têm provas para incriminá-los. Reparemos que os dois acusados só serão, a princípio, acusados do crime menor.
As autoridades decidem interrogar os dois indivíduos na tentativa de que um denuncie o outro pelo crime mais grave. Eles são separados, não conseguindo se comunicar. Dentro desse cenário, cada um dos prisioneiros tem duas opções: admitir que cometeu o crime mais grave ou negar isso. O resultado dependerá das escolhas que cada indivíduo fizer.
Veremos a seguir outro exemplo que demonstra quais serão os resultados para cada prisioneiro dependendo dos quatro resultados possíveis:
EXEMPLO
O jogador 1 tem duas opções: cooperar com o outro criminoso ou desertar (e denunciar o comparsa). O jogador 2 tem as mesmas duas opções: ele pode cooperar com seu parceiro ou pode traí-lo e denunciá-lo. O cenário ainda tem as seguintes questões: as autoridades querem que eles denunciem o outro em troca de uma redução de pena.
Contudo, se ambos apontarem que o outro é culpado, eles terão suas penas aumentadas. Nesse caso, os resultados das decisões de cada jogador estão em uma escala de 0-5, em que cinco representa o pior resultado.
Se um jogador desertar (denunciar o outro) e o outro, não, aquele que o fizer obterá imunidade, enquanto o que continuar a cooperar com seu parceiro receberá a penalidade mais severa. Os mesmos resultados exatos valem para o jogador 2.
Se ambos cooperarem (ou seja, nenhum deles denunciar o outro), cada um receberá uma penalidade de 1, que é o segundo melhor resultado de cada um. No entanto, o melhor resultado para o jogador 1 é desertar, assim como o é para o 2. Porém, quando isso acontece, ambos recebem uma penalidade de 3.
Dessa maneira, na teoria da escolha racional, se cada jogador agir racionalmente (fazendo o que é melhor para ele), o resultado para cada um será determinado: ambos denunciarão o outro jogador. A razão para isso é que não importa o que o outro jogador faça, pois o ator inicial sempre teria incentivos para delatar. No entanto, se cada jogador trabalhar em interesse próprio, a situação de ambos piorará.
Trata-se de um problema frustrante. Os teóricos dos jogos o chamam de equilíbrio de Nash: uma situação em que ninguém pode melhorar sua posição por intermédio de um movimento unilateral.
CORRIDA ARMAMENTISTA E RACIONALIZADOS ATAQUES MILITARES
Foto: Almog/Wikimedia commons/Domínio Público Mísseis MiM-23 Hawk AA em Tel-Aviv em um desfile das Forças de Defesa de Israel em 1965.
As análises de dissuasão e corridas armamentistas estão provavelmente entre os tópicos mais estudados nas RI em geral, assim como são os mais frequentemente analisados por meio de instrumentos da teoria dos jogos. Nas formulações mais simples disponíveis, é considerado o caso de dois Estados-Nação em um confronto direto.
Conforme indicam Brams e Kilgour (1992), esses atores usam uma política de dissuasão quando cada um deles ameaça retaliar a possível ameaça do outro. Em princípio, essas ameaças podem até mesmo envolver dimensões mais subjetivas, como possíveis comentários depreciativos, ou práticas mais claras, como políticas econômicas prejudiciais ou ações armadas menores.
A maioria das análises de dissuasão se refere à ameaça do uso da força. Nessas circunstâncias, as corridas armamentistas constituem simplesmente a sequência de eventos que ocorre quando os Estados-Nação em um confronto desejam aumentar a credibilidade de suas ameaças.
O objetivo de dois Estados-Nação em um confronto direto é proteger-se contra a possibilidade de destruição ou dominação do outro. Qualquer um dos atores envolvidos provavelmente se sentirá mais seguro se adquirir armas, mesmo que isso seja feito puramente por razões defensivas.
Por outro lado, como elas podem ser usadas tanto para defesa quanto para ataque, o outro Estado-Nação nunca pode estar seguro das intenções do primeiro. Por isso, ele sente-se na obrigação de produzir ou comprar armas para se preparar para a defesa de seus interesses.
O resultado final, portanto, é o seguinte: os dois envolvidos adotam uma estratégia armamentista que os beneficia menos que a de aquisição de armas.
EXEMPLIFICAÇÃO DA TEORIA DOS JOGOS APLICADA À RACIONALIDADE DOS ATORES
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Um bom exemplo para compreender esses elementos em uma situação real é a disputa nuclear entre o Irã e Israel. O programa de pesquisa nuclear do Irã gera suspeita e preocupação global, havendo notícias recorrentes sobre a possibilidade de um ataque israelense ou norte-americano às instalações nucleares iranianas.
A ideia geral é que, se o Irã continuar suas pesquisas e, digamos, ocorrer um ataque israelense, ele poderá retaliar. Portanto, qualquer invasor em potencial tem de prever as consequências de sua ação contra esse país.
Já o Irá precisa avaliar a magnitude dos custos que impedem um atacante em potencial. Ainda assim, o atacante pode adivinhar que a nação tem fortes incentivos para aumentar os custos de um possível ataque.
Isso leva a uma próxima fase em que os atores avaliam quão previsível um possível ataque seria. Repare – como comentamos anteriormente – que essa situação compõe um modelo sequencial cujas dinâmicas são o resultado das interações anteriores.
Podemos qualificar a interação acima como um jogo, ou seja, uma situaçãode interdependência estratégica. Cada tomador de decisão atua em função das ações que o outro (ou outros) pode realizar. As melhores escolhas do Irã e do atacante dependem de suas previsões sobre o comportamento do outro.
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ESTRATÉGICA
Tal termo contém uma contradição importante: a manutenção da autonomia pela relação de dependência. Costa Rica e Estados Unidos, assim como Cuba e União Soviética, são alguns exemplos simples do passado.
Uma decisão iraniana molda os ganhos que um atacante obtém e os custos que outro sofre. Por sua vez, a decisão dele molda a decisão iraniana de retaliar ou não.
Suponhamos que Israel tenha duas estratégias: atacar e não atacar. Dentro dessa lógica, o Irã também possui duas: interromper a pesquisa nuclear ou não parar. Há, portanto, dois jogadores, enquanto cada jogador tem duas estratégias.
A matriz de resultado torna-se:
Tabela: Adaptado de: GUNER, 2012.
A maneira mais conveniente de modelar a interação é especificar as preferências dos jogadores ao longo de seus objetivos primários e secundários.
Suponhamos que o principal objetivo do Irã seja o de se tornar uma potência nuclear e o de Israel, o inverso. Supondo ainda que um ataque israelense não possa destruir todas as instalações iranianas, o Irã prefere principalmente os resultados 3 e 4 em comparação com os resultados 1 e 2.
A decisão “parar” impede o Irã de atingir seu objetivo preferido. Desse modo, para ele, temos o seguinte:
{resultado 3, resultado 4} > {resultado 1, resultado 2}.
Suponhamos também que o Irã prefira o resultado 4 ao 3 e o 2 ao 1, pois ele não prefere nenhum ataque israelense (seu objetivo secundário). Essas suposições geram a seguinte ordem de preferência para ele:
resultado 4> resultado 3> resultado 2> resultado 1.
Guner (2012) aponta que o próximo esforço é avaliar as decisões por meio de indicadores numéricos. Nesse caso, 4 será a melhor decisão possível, seguida de 3, 2 e 1 (a pior delas). Com isso, a segunda tabela pode ser montada:
Tabela: Adaptado de: GUNER, 2012.
O primeiro número em cada célula denota a preferência do Irã por esse resultado; o segundo, a de Israel.
ATENÇÃO
Lembre-se de que, nesse caso, 4 denota a melhor opção e 1, a pior.
Israel prefere principalmente os resultados 1 e 2 em comparação com 3 e 4, já que a decisão de parar do Irã leva à realização de seu objetivo principal: o país inimigo não se tornar uma potência nuclear. Desse modo, para Israel, temos isto: {resultado 1, resultado 2} > {resultado 3, resultado 4}.
Suponhamos ainda que Israel prefira o resultado 2 ao 1 e o 4 ao 3, pois o país prefere evitar um fracasso militar (seu objetivo secundário). Essas suposições geram a seguinte ordem de preferência para ele:
resultado 2 > resultado 1 > resultado 4 > resultado 3
Vemos que Israel, independentemente das escolhas do Irã, obtém melhores resultados ao escolher "não atacar”. Ele possui 4 em vez de 3 contra a decisão do Irã de "parar" e 2 em vez de 1 contra a de ele "continuar" escolhendo "não atacar".
Da mesma forma, o Irã fica com os melhores resultados ao optar por “continuar” independentemente das escolhas israelenses: ele obtém 3 em vez de 1 contra a decisão israelense de “ataque” e 4 em vez de 2 contra a de Israel “não atacar”. O equilíbrio, portanto, é este: “continue, não ataque”.
Explicamos, assim, o atual status quo entre Irã e Israel em relação à pesquisa nuclear iraniana por meio da seguinte simplificação drástica:
· Há apenas dois jogadores.
· Cada um tem duas estratégias.
· Eles interagem simultaneamente apenas uma vez.
· Suas preferências são ordenadas de acordo com os objetivos primários e secundários.
· Cada jogador se esforça para obter o resultado mais alto possível dentro das possibilidades criadas pelo posicionamento assumido pelo outro jogador.
TEORIA DOS JOGOS EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Agora, acompanhe as considerações do professor Rodrigo Rainha sobre a dinâmica da teoria dos jogos aplicada aos atores.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. A TEORIA DA ESCOLHA RACIONAL PARTE DO PRINCÍPIO DE QUE OS ATORES SÃO AGENTES QUE TOMAM SUAS DECISÕES BASEADAS EM CÁLCULOS SOBRE AS VANTAGENS FUTURAS. PARTINDO DESSA LÓGICA, PODEMOS AFIRMAR:
Que todo ator racional pensa exclusivamente em seu interesse, impedindo qualquer cooperação.
Que Estados são os únicos agentes racionais nas relações internacionais.
Que a racionalidade pode ser entendida como a ausência completa de elementos subjetivos, como emoções ou discursos pessoais.
Que os pressupostos da teoria permitem coesão analítica ao partir do princípio de que os atores estabelecem estratégias semelhantes.
Que cada Estado vai possuir sua racionalidade e estratégia.
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2. A TEORIA DOS JOGOS DEVE SER RECONHECIDA PELAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS (RI) COMO UMA CATEGORIA ANALÍTICA QUE DEVE PRIORIZAR:
Perceber as forças mais poderosas e notar como elas regem o jogo.
Perceber a partir de eventos históricos como as RI se desenrolaram.
Perceber que a teoria dos jogos é uma importação de outras áreas de conhecimento e deve ser aplicado com parcimônia e só para algumas relações.
Perceber que todos os agentes são dotados de racionalidade, o que significa que suas decisões são previsíveis.
Perceber que a dinâmica de decisões e racionalidades permite ao internacionalistas compreender dinâmicas e traçar estratégias fundamentado na racionalidade.
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GABARITO
1. A teoria da escolha racional parte do princípio de que os atores são agentes que tomam suas decisões baseadas em cálculos sobre as vantagens futuras. Partindo dessa lógica, podemos afirmar:
A alternativa "D " está correta.
A grande vantagem epistemológica da teoria da escolha racional é apontar que, apesar de diferentes do ponto de vista cultural e histórico, os atores no sistema internacional funcionam por lógicas muito semelhantes. Nesse sentido, a capacidade de previsão e análise é alargada, quando comparada com reflexões mais pulverizadas.
2. A teoria dos jogos deve ser reconhecida pelas Relações Internacionais (RI) como uma categoria analítica que deve priorizar:
A alternativa "E " está correta.
A teoria dos jogos busca compreender o conjunto de possibilidades racionais estabelecidos em um conflito, dessa forma, torna-se um mecanismo de análise teórica das RI.
MÓDULO 3
Relacionar o papel das instituições no comportamento dos agentes internacionais
PRIMEIRAS PALAVRAS
Em 2003, no auge da chamada “guerra contra o terror”, o então presidente norte-americano George W. Bush pediu autorização para o Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas, o órgão mais importante da instituição, para atacar o Iraque. Seu argumento era que Saddam Hussein estaria planejando construir uma bomba nuclear.
O conselho negou, indicando que as provas apresentadas pelos EUA eram muito frágeis. Porém, algumas semanas depois, o país resolveu atacar mesmo assim. Uma crise instalava-se sobre qual seria a utilidade da ONU naquele momento, já que os Estados poderiam violar suas diretrizes sem grandes consequências.
Foto: Robbot/Wikimedia commons/Domínio Público O ex-presidente George W. Bush falando ao Conselho de Segurança da ONU sobre a crise em Darfur wm 21 de setembro de 2004.
A autorização do CS é uma das únicas ferramentas de legitimidade do uso da força. Dessa maneira, afrontar sua decisão significa uma violação do direito internacional e da própria ideia de soberania.
Apesar de os debates sobre a inutilidade da ONU após a decisão de Bush terem sido uma constante na comunidade internacional, um detalhe chamou a atenção: em uma manobra jurídica peculiar, os EUA disseram que já possuíam uma autorização para invadir o Iraque devido a uma leitura criativa de decisões anteriores do CS. Podia parecer estranho, mas o país que detinha o poder para atacar unilateralmente outra nação resolveu realizar um contorcionismo legal para reafirmar que estava seguindo as regras do jogo.
Foto: Bernd Untiedt ~ commonswiki/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0 Conselho de Segurança dasNações Unidas.
Esse exemplo é interessante pelo fato de materializar as atuais reflexões nas RI sobre o papel de instituições transnacionais como a ONU. Elas realmente servem para moldar o comportamento dos Estados? Constituem meros palcos para debates sem sentido? Ou são alguma coisa no meio desse espaço?
Abordaremos neste módulo esses pontos e apresentaremos a forma de se analisar esses organismos essenciais dentro de uma perspectiva crítica.
INSTITUIÇÕES E SUAS DIMENSÕES INTERNACIONAIS
A política internacional hoje é tanto institucional quanto intergovernamental, com instituições internacionais atuando em todas as áreas relevantes e em todo o mundo. A realidade moderna consiste em uma sequência de siglas.
Listaremos algumas delas a seguir:
Clique nas setas para ver o conteúdo Objeto com interação
Imagem: FDRMRZUSA/Wikimedia commons/Domínio Público
Organização das Nações Unidas (ONU)
Organização das Nações Unidas.
Imagem: Mrmw/Wikimedia commons/Domínio Público
Organização Mundial do Comércio (OMC)
Organização Mundial do Comércio.
Imagem: Tcfc2349/Wikimedia commons/Domínio Público
Organização Mundial da Saúde (OMS)
Organização Mundial de Saúde.
Imagem: Sarang/Wikimedia commons/Domínio Público
Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)
Bandeira da OTAN.
Imagem: Applysense/Wikimedia commons/CC BY-SA 2.5
Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta)
NAFTA.
Imagem: BrockF5/Wikimedia commons/Domínio Público
Conselho de Cooperação do Golfo (GCC)
Conselho de Cooperação do Golfo.
Mesmo nos casos em que se discute a aparente irrelevância das instituições, o argumento pressupõe que elas existem.
A reclamação do unilateralismo dos EUA só faria sentido em um mundo no qual a presunção de que os Estados não agem unilateralmente seria uma coisa natural. Se o mundo realmente se aproximasse da visão realista de Estados independentes autônomos agindo em interesse próprio em um cenário anárquico, o unilateralismo seria a norma e suscitaria poucos comentários – ou mesmo a caracterização de algo unilateral.
Durante mais de meio século, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o campo das organizações internacionais passou por mudanças significativas e captadas pelos termos mutáveis usados para caracterizá-lo. Em geral – e de forma consistente com as mudanças mais amplas nas RI –, tal subcampo tornou-se menos normativo e cada vez mais teórico.
O que começou como o estudo das organizações internacionais e da integração regional deu uma guinada dramática no início dos anos 1980, dando vazão à chamada teoria do regime posteriormente rebatizada de institucionalismo. A virada consistiu tanto em uma ampliação do foco quanto em uma formulação específica da lógica causal.
O foco original pós-1945 era em organizações internacionais, entidades concretas com presença física – nomes, endereços e assim por diante. Sua definição típica era a de um “arranjo formal que transcende as fronteiras nacionais e que prevê o estabelecimento de um mecanismo institucional para facilitar a cooperação entre os membros nas áreas de segurança, econômica, social ou relacionadas", pontua Archer (2014, p. 288).
Essa conceitualização bastante estreita foi ampliada com o foco em regimes definidos como "princípios, normas, regras e procedimentos de tomada de decisão em torno dos quais as expectativas dos atores convergem em determinada área temática", completa Krasner (1982, 185).
A segunda característica crítica dessa virada intelectual era a de que ela reforçava a existência de instituições internacionais nos elementos centrais da teoria realista:
· Estados
· Poder
· Interesses
Em vez de argumentar que os regimes eram, de alguma forma, uma característica diferente da vida internacional, constituindo, assim, uma forma alternativa de se pensar a política internacional, os teóricos do regime aceitaram a visão realista dos Estados como atores centrais da política internacional e reforçaram a premissa de que o comportamento deles está enraizado no poder e no interesse.
Além disso, empregaram-se ferramentas intelectuais de análise de conflito, como a teoria dos jogos, e derivou-se uma base de interesse próprio para a existência de instituições internacionais. A expansão do foco tornou possível o reconhecimento de uma gama mais ampla de políticas internacionais como comparáveis e semelhantes.
EXEMPLO
Consideremos os esforços dos Estados para impedir a proliferação de armas nucleares e seus sistemas de lançamento. Na década de 1960, a maior parte deles assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que fazia parte da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para monitorar o seu cumprimento. Anos depois, para lidar com a questão dos sistemas de lançamento, as nações criaram ainda o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (RCTM).
Mesmo lidando com preocupações semelhantes (evitar a disseminação de um sistema de armas específico), esses dois arranjos foram construídos de maneira bem diferente, destacam Rasmussen e Stein (2001). A AIEA era uma organização internacional, mas não havia nenhuma instituição criada pelo RCTM.
No entanto, tanto o TNP quanto o RCTM podem ser considerados regimes internacionais ou instituições internacionais. Uma implicação desse enfoque mais amplo é que os acadêmicos podem avaliar o papel das instituições internacionais antes do estabelecimento de organizações internacionais reais.
TEORIA DOS JOGOS E INSTITUCIONALISMO
APRESENTAÇÃO
O uso da teoria dos jogos para o estudo da cooperação entre Estados por meio das instituições permite uma série de reflexões críticas. Ao assumir que as nações, como atores independentes, se comportam a partir de premissas de poder e de interesse, ela possibilita uma amálgama de discussões estruturais sobre o poder das normas e das instituições ao mesmo tempo que não ignora os interesses nacionais.
A teoria dos jogos tornou possível a integração de conflito e cooperação em uma estrutura unificadora. Isso contrastava com a divisão do campo entre quem estudava:
Foto: RIANbot/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0
Avanço de tropas do exército russo durante a Segunda Guerra Mundial.
O conflito (especialmente as crises e a guerra).
Foto: Calliopejen1/Wikimedia commons/Domínio Público
Bill Clinton, Yitzhak Rabin, Yasser Arafat firmam os Acordos de Oslo para manutenção da paz no Oriente Médio.
A cooperação e as instituições.
Além disso, a teoria dos jogos também apresentou uma perspectiva integrativa dos analistas que se concentram na segurança – e normalmente enfatizam a natureza conflituosa da política internacional – e aqueles que estudam a economia política internacional com seu domínio substancial de cooperação entre Estados.
Ela possibilitou, assim, o reconhecimento de elementos:
· Cooperativos (mesmo no meio do conflito)
· Conflituosos (inclusive meio da cooperação)
Os institucionalistas da escolha racional em RI foram influenciados pelos desenvolvimentos da chamada nova economia institucional, assim como pelas reflexões advindas da Psicologia, da Sociologia e da Ciência Política. Especificamente, eles importaram teorias de custos de transação e agência.
TEORIA DE CUSTOS DE TRANSAÇÃO
A ideia fundamental por trás da noção de custos de transação é que a execução de uma transação econômica envolve não apenas custos de produção, mas também aqueles necessários para organizar e fazer cumprir um contrato.
O processo de elaboração, planejamento e negociação de um contrato é custoso, assim como o de resolução de disputas contratuais.
As instituições, portanto, cumprem a função de reduzir os custos de transação. Embora tenha sido desenvolvida em relação aos fenômenos econômicos, a noção desses custos não é restrita à demanda econômica.
TEORIA DA AGÊNCIA
A teoria funcional de Robert Keohane (1984, p. 85-109) de regimes ou instituições internacionais é talvez a tentativa mais influente de empregar a noção de custos de transação no estudo da política internacional. Um desdobramento do trabalho inicial sobre eles foi a teoria da agência.
Essa teoria se concentra na chamada relação de agênciaque surge sempre que um ator contrata outro para realizar uma tarefa em seu nome (o agente).
Apesar de ser empregado por economistas para analisar as relações entre acionistas e executivos corporativos, gerentes e empregadores ou varejistas e fornecedores, o modelo do agente principal encontrou uma das primeiras aplicações da ciência política na análise das relações legislativo-burocráticas nos Estados Unidos.
Foto: Timea Crop Iterinette/Wikimedia commons/CC BY-SA 4.0 Robert Keohane em 2017.
Os analistas de instituições internacionais se baseiam nessa tradição, vendo os Estados como diretores que delegam funções a instituições internacionais como se elas fossem agentes.
DICA
Como em outras aplicações da teoria, pode haver uma possível "evasão" por parte do agente, ou seja, ele pode perseguir os próprios interesses.
Essa estrutura normativa será interessante se incluirmos o conceito de “bens públicos" dentro do cenário internacional. Esses bens podem ser definidos como indivisíveis e não excludentes, como segurança, estradas públicas, saúde pública e assim por diante. Afinal, quando um governo constrói uma rodovia, por exemplo, todos podem, a princípio, usá-la.
Reparemos que a verba para a construção de uma estrada provém, na maior parte das vezes, da coleta de impostos do cidadão. Apesar do total pago por cada um ser bem pequeno em relação ao montante final, todos os cidadãos teriam pagado uma parte. O dilema desse processo é que um ou mais cidadãos podem não pagar seus impostos e, mesmo assim, usufruir do bem, criando o chamado “dilema da carona grátis” (ou, em inglês, free riders).
Verifica-se então uma espécie de dilema do prisioneiro em larga escala, já que os incentivos individuais geram resultados socialmente abaixo do ideal.
EXEMPLO
Em tratados de segurança coletiva, esse tipo de acordo, que tem como grande exemplo a Otan, aponta que um ataque contra qualquer membro do grupo será considerado um ataque contra todos eles.
Hipoteticamente, isso constituiria um impedimento ideal, pois um grupo de Estados é muito mais forte do que cada Estado individualmente. Por isso, sua resposta militar poderia ser muito mais potente. Tal argumento, entretanto, não leva em consideração o incentivo ao free ride.
A resposta coletiva à agressão é um bem público para os membros: uma vez fornecida, todos desfrutarão da vitória. No entanto, a contribuição individual é cara, havendo uma forte tentação de se pegar uma carona quando chegar a hora de pagá-la. É por conta disso que governos agressivos sabem que, na maioria das vezes, a segurança coletiva falha, pois os membros individuais tentam encontrar maneiras de passar a responsabilidade para os outros, atrasando a resposta ou anulando-a completamente.
EXEMPLO
Apesar dos exageros, essa era a crítica do ex-presidente norte-americano Donald Trump: a Europa não estaria pagando os custos da Otan, se aproveitando dos EUA para se manter em segurança sem pagar os custos para tal.
Castro expande a dimensão de bem público como um elemento a ser considerado a partir de sua possibilidade de acesso. Esses bens não estariam atrelados ou condicionados à troca financeira, pois...
[...] SÃO, PORTANTO, GRATUITOS E AMPLAMENTE DISPONÍVEIS. PODE-SE, ADEMAIS, INCLUIR AQUI O PANO DE FUNDO DE TAIS DISCUSSÕES, O ENTORNO DOS CHAMADOS BENS PÚBLICOS NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS. ORA, UM BEM PÚBLICO INTERNACIONAL (MATERIAL OU IMATERIAL) NÃO GERA, DA MESMA MANEIRA, AUTOMÁTICA E IMEDIATAMENTE, CUSTOS IMEDIATOS PARA OS CIDADÃOS QUE O USUFRUI, POIS OS ESTADOS ESTÃO ENVOLVIDOS NOS CUSTOS OPERACIONAIS DE MANUTENÇÃO E FORNECIMENTO AMPLO DOS MESMOS.
(CASTRO, 2012, p. 401)
Além da segurança, muitas outras áreas da política mundial apresentam características do dilema da carona grátis.
Veremos algumas que requerem uma coordenação de grupo:
· Comércio internacional
· Alianças
· Política monetária
· Não proliferação de armas nucleares
· Questões ambientais
· Direito internacional
As instituições podem facilitar estratégias baseadas no benefício da cooperação. Isso geralmente envolve bens privados promissores em troca de contribuições para o público.
EXEMPLO
Em troca da cooperação no controle da proliferação nuclear, a Coreia do Norte obteve uma promessa dos EUA de construir dois reatores nucleares para fins energéticos pacíficos.
Existem muitas possibilidades para pagamentos colaterais, isto é, troca de um tipo de bem em troca de contribuição de outro. Isso obviamente implica a necessidade de se ter algo desejável para oferecer.
Algumas instituições internacionais são construídas para mudar a natureza do bem fornecido. Problemas ambientais, como um ar limpo, são exemplos essenciais de bens públicos.
No entanto, a instituição internacional criada para limpar o ar não abordou tal problema, instituindo um regime regulatório global para a qualidade do ar. Em vez disso, ela criou um mercado de comércio de emissões.
Por outro lado, o comércio internacional é um bem inerentemente privado. Neste sentido se evidencia a característica do projeto de incluir cláusulas à nação mais favorecida em acordos bilaterais que lhe conferem um caráter coletivo, como explicam Rosecrance e Stein (2001).
Em alguns casos, as instituições internacionais tornam coletivo o que é inerentemente um bem privado.
SEDIMENTANDO O CONCEITO: INSTITUCIONALISMO
Agora, o professor Rodrigo Rainha aprofunda o conceito de institucionalismo.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. UMA DAS QUESTÕES LIGADAS À CONSTRUÇÃO DE INSTITUIÇÕES É A CHAMADA “CARONA GRÁTIS”, OU BENEFÍCIOS PLURAIS SEM PAGAMENTOS INDIVIDUAIS LOCALIZADOS. SOBRE ESSE CONCEITO, PODE-SE AFIRMAR:
É inevitável, com os custos maiores sempre sendo direcionados para o Estado mais forte.
Não impede, pela própria lógica estrutural das instituições, a criação delas, mas pode gerar prejuízos a médio prazo.
Demonstra que as instituições são sempre ferramentas de nações poderosas para dominar as mais fracas.
Indica que é possível que as instituições possam ter sua existência baseadas apenas em valores – e não em condições materiais.
Está diretamente relacionada com questões de soberania estatal, à medida que os estados entendem que só podem contar consigo mesmo para sua sobrevivência.
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2. A QUESTÃO DA RACIONALIDADE DOS ATORES FAZ COM QUE SEJA POSSÍVEL UMA COMBINAÇÃO DE VARIÁVEIS PARA SE COMPREENDER O PAPEL DAS INSTITUIÇÕES NO SISTEMA INTERNACIONAL. NESSE SENTIDO, PODEMOS AFIRMAR QUE:
As instituições são atores com total independência dos Estados, podendo, inclusive, ir contra eles em diversos momentos.
Inclui a dimensão dos bens públicos no cálculo de poder, já que demanda que Estados abandonem cálculos de autointeresse.
Possibilita que as dimensões de interesse e sobrevivência do Estado sejam combinadas com necessidades de cooperação e alianças.
Apesar de explicitar as os interesses de cada Estado envolvido, não faz com que os Estados diminuam os chamados custos de transação.
Promovem cooperação, à medida que a natureza dos Estados, dentro dessa lógica, é de estabelecer parcerias em áreas estratégicas
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GABARITO
1. Uma das questões ligadas à construção de Instituições é a chamada “carona grátis”, ou benefícios plurais sem pagamentos individuais localizados. Sobre esse conceito, pode-se afirmar:
A alternativa "B " está correta.
A chamada carona grátis se manifesta após a criação da Instituição, à medida que as promessas, no momento de sua constituição, têm custos relativamente baixos. A grande questão está quando as dimensões propositivas dos arranjos são postas a prova, o que pode gerar indecisão por parte de alguns atores.
2. A questão da racionalidade dos atores faz com que seja possível uma combinação de variáveis para se compreender o papel das instituições no Sistema Internacional. Nesse sentido, podemos afirmar que:
A alternativa "B " está correta.
Ao assumir que as nações, como atores independentes, se comportam a partir de premissas de poder e de interesse, possibilita uma amálgamade discussões estruturais sobre o poder das normas e instituições ao mesmo tempo que não ignora os interesses nacionais. A teoria dos jogos tornou possível integrar conflito e cooperação em uma estrutura unificadora em contraste com ter o campo dividido entre aqueles que estudavam conflito, especialmente crises e guerra, e aqueles que estudavam cooperação e instituições.
MÓDULO 4
Identificar as narrativas sobre a realidade política internacional e as estratégias de atuação dos Estados
PRIMEIRAS PALAVRAS
Foto: Matias Lynch/Shutterstock.com Reunião dos representantes do G20 em 2018.
Nos últimos módulos, nos concentramos em ferramentas que tentam analisar e prever os atores no sistema internacional. Após realizada a divisão em diversos setores, reforçamos que o Estado é o agente mais importante – ainda que, nos últimos anos, ele divida o palco com outros atores. Reforçamos ainda que as instituições têm um papel crucial para o entendimento das dinâmicas de poder no cenário global, gerando impactos diversos nessa realidade.
O presente módulo parte dessa base para dar um passo atrás nos elementos analíticos e se dedicar à ontologia e à práxis das RI. Por isso, nos dedicaremos agora a uma reflexão sobre a realidade e a natureza desse sistema, ou seja, como ele é composto e observado.
Também analisaremos as razões do comportamento dos agentes. Por fim, abordaremos os distintos mecanismos de construção da realidade em que vivemos.
PRÁXIS E ONTOLOGIAS NAS DINÂMICAS INTERNACIONAIS
ONTOLOGIAS E A HISTÓRIA INTERNACIONAL
A questão ontológica nas RI pode ser formulada de forma simples: qual é a natureza das unidades que interagem na política global?
Há muito mais continuidade entre as escolas teóricas do que comumente se reconhece.
Os realistas argumentam que a luta pelo poder é uma constante nos assuntos humanos, postulam Burchill e Linklater (2005, p. 1). Já os teóricos críticos e pós-modernistas, que estão uma posição oposta à dos realistas, destacam o uso da linguagem e da construção social de narrativas, limites e conhecimento como um meio de dominação de muitos por poucos, assevera Cox (1981).
Dentro dessa lógica, entendemos a ontologia como o enquadramento de nosso objeto de estudo. Nas agendas de pesquisa interpretativas, ela costuma estar no centro da investigação, já que os autores interpretativos tentam desconstruir o significado de entidades já consolidadas na política internacional, como os Estados ou as organizações.
Entidades objetivas consideradas naturais na política internacional têm uma realidade externa? Ou, mais simplesmente, o que é um Estado?
Como já destacamos, a natureza das RI modernas tem como baliza a ideia de um sistema composto de comunidades ou Estados políticos independentes. Quando tal representação do sistema internacional não tem lugar em uma hegemonia global, geralmente, assume-se que as relações entre os Estados são estruturadas pela anarquia.
COMENTÁRIO
Diversos teóricos internacionais – talvez cientes da cautela de Kenneth Waltz contra as explicações reducionistas de processos e resultados internacionais – tendem a deixar a tarefa de teorizar o Estado para os teóricos políticos.
No entanto, até as teorias de RI que explicitamente evitam uma discussão maior sobre a teoria do Estado endossam implicitamente certas suposições sobre a natureza e o caráter das nações que constituem o sistema internacional. Por isso, as principais teorias da área são fortemente baseadas nas conceituações de Max Weber (2009) do Estado como uma comunidade humana que: “reivindica o monopólio do uso legítimo da força física dentro de determinado território".
Foto: M. Armando/Wikimedia commons/Domínio Público Max Weber em 2018.
MAX WEBER
O alemão Max Weber (1864-1920) é considerado um dos maiores sociólogos de todos os tempos. Sua obra mais conhecida é esta: Ética protestante e o espírito do capitalismo.
VIOLÊNCIA, LEGITIMIDADE E TERRITÓRIO DEFINEM O ESTADO WEBERIANO.
Nas RI, os temas da violência e da legitimidade têm sido objeto de muito debate e discussão. A maior parte das atenções se concentrou na ideia de dominação legal, que, para Weber, distinguia as formas modernas de dominação do Estado como tradicionais ou carismáticas. A dominação legal, na teoria política internacional, é reescrita como o princípio da soberania, que é o princípio constitutivo do próprio sistema internacional vestfaliano.
SAIBA MAIS
A afirmação de Morgenthau de que o Estado territorial soberano emergiu da turbulência das guerras religiosas do final do século XVI e início do XVII é um relato do “mito” de Vestfália. Segundo esse mito, os acordos alcançados nos congressos de Munster (1644-1648) e Osnabriick (1645-1648) e subsequentemente ratificados pelos Tratados de Westfália (1648) deram origem ao moderno sistema de Estados. De acordo com essa narrativa, desde Vestfália, o sistema internacional tem sido uma ordem territorial cujos atores (Estados soberanos) vêm convivendo com espaços delimitados, compartimentados e evidentes.
Historicamente, os estudiosos procuraram se concentrar nas relações entre os Estados. Eles partiram do pressuposto de que:
· O objetivo é garantir a segurança da nação (a representar a comunidade nacional).
· A principal ameaça à segurança vem de outro Estado.
Com o fim da Guerra Fria, entretanto, houve uma crescente disposição dos estudiosos de se examinar o significado e a prática da segurança, destaca Katzenstein (1996).
O objeto de segurança era cada vez mais o grupo ou o indivíduo, capturado pela crescente circulação do conceito de segurança humana. Mudar esse objeto implicou um reexame do que constituía uma ameaça.
Segundo Buzan (1983), o Estado, antes visto como uma unidade de proteção, era cada vez mais reconhecido como a principal fonte de insegurança em muitas partes do mundo. Na verdade, no século XX, mais indivíduos foram mortos pelos próprios governos do que em todas as guerras internacionais somadas. Essas dimensões provocaram debates essenciais sobre a natureza das RI – ou, como mencionamos acima, sobre sua ontologia.
Ao deixarmos de assumir que o Estado constitui uma entidade com pressupostos comportamentais fixos – ou seja, sempre se comportando desta ou daquela maneira –, conseguimos abrir espaços para ferramentas analíticas que expandem não só quem são os atores relevantes nos cenários, mas também como eles são formados.
Paramos, assim, de operar em práticas fixas (pensamento solidificado em frases como “o Estado sempre atua para garantir sua sobrevivência”), expandindo nossa análise em lógicas mais pulverizadas, como aquelas que tentam articular como os discursos também são formativos.
EXEMPLO
Uma expansão ontológica nos ajuda a entender como as narrativas sobre o terrorismo também possuem um impacto profundo nas questões internacionais.
Outro elemento que também pode ser analisado é a expansão de atores e sujeitos dentro de uma arquitetura global. Em módulos anteriores, discutimos a importância de ONGs e megacorporações, porém não dedicamos muito espaço para o indivíduo. Partimos, afinal, do pressuposto óbvio de que tais coligações institucionais são formadas por um coletivo de sujeitos.
A consequência dessa divisão é que, na maior parte das vezes, os indivíduos que não estivessem inseridos em um desses três setores não seriam considerados agentes importantes.
ATENÇÃO
Estamos fazendo novamente um debate ontológico, ou seja, verificando qual é a natureza dos atores das RI.
Os indivíduos, porém, não são apenas vítimas passivas de seus governos: eles também podem ser interpretados como participantes cada vez mais ativos na criação de novas regras e instituições.
ATENÇÃO
Na seara dos direitos humanos, certos espaços permitiram que esses indivíduos apresentassem ações contra o próprio governo.
Estudiosos e formuladores de políticas também chamaram a atenção para ameaças “não tradicionais” à segurança em algumas regiões, como fome, degradação ambiental e epidemias de saúde.
Em outras regiões, de acordo com Adler e Barnett (1998), estudiosos de RI apontaram que os Estados passaram aestabelecer relações pacíficas e – o mais importante – não esperavam mais a guerra nem se preparavam para ela.
Outro avanço teórico e empírico foi o crescente reconhecimento da presença e do impacto das estruturas normativas internacionais. O individualismo e o materialismo das teorias dominantes apresentavam a realidade internacional como ausente de qualquer tipo de sociabilidade.
Em reação a esses axiomas, muitos estudiosos argumentaram que o poder e o interesse não exauriram as explicações para os resultados e as mudanças globais. Por isso, eles desenvolveram concepções de estruturas normativas que imaginavam como elas poderiam moldar a identidade, os interesses do Estado e o conceito de uma ação legítima.
Como os estudiosos das RI já reconheciam que a política global tem uma sociabilidade, foi possível ressuscitar conceitos outrora banidos que estão inextricavelmente ligados a todas as ordens políticas.
PRÁXIS, ESTADO E VIOLÊNCIA
Além das reflexões ontológicas, ou seja, aquelas que versam sobre a natureza dos atores que compõem a realidade internacional, também estabeleceremos uma compreensão da práxis desses agentes. Esse conceito será entendido aqui como a “interação dinâmica” dos agentes relevantes no globo.
Castro (2012, p. 75) define a práxis da seguinte forma: “A interação internacional é externada por meio de ações e de várias linguagens simbólicas que operam as institucionalidades formais e informais, explícitas e implícitas do saber internacional”. Um dos elementos que norteiam as práticas internacionais dos Estados e dos atores internacionais é o uso da força e sua justificativa.
O estudo da guerra nas RI varia enormemente em:
· Orientação teórica
· Abordagem metodológica
· Pressupostos ontológicos
· Domínio empírico
Existe ainda, uma grande diversidade no estudo da guerra como um elemento que auxilia na compreensão das ações dos atores internacionais. O chamado "grande debate" entre realistas e liberais continua, mas os estudiosos têm cada vez mais reconhecido variações significativas dentro de cada paradigma em disputa.
Por conta disso, novos debates surgiram entre os teóricos de três linhas:
· Teoria da escolha racional
· Construtivistas
· Teóricos críticos
Os pesquisadores continuam a usar a estrutura de níveis de análise (Singer, 1961) que emergiu das três “imagens” de Waltz (1959) da política internacional, mas deixaram de perguntar qual nível tem o maior impacto causal para construir vários níveis e teorias, dedicando-se a examinar os efeitos de interação entre as variáveis. Os acadêmicos de RI também têm se envolvido em diálogos cada vez mais produtivos com economistas, sociólogos, psicólogos e historiadores diplomáticos.
Finalmente, tem havido um interesse crescente pelas condições da paz, bem como pelas causas da guerra, além de haver uma crença cada vez maior de que o estudo de ambas se revela como algo inseparável. É dentro dessa narrativa que estudiosos das RI geralmente vêm definindo a guerra como a violência organizada em grande escala entre grupos definidos politicamente, ressalta Bull (1977).
A famosa afirmação de Max Weber (2004, p. 23) de que a soberania estatal está anexada ao monopólio da legitimidade dos mecanismos de violência tem sido usada constantemente para compreender as relações entre as ferramentas de uso da força e o Estado moderno.
Consciente da mutante relação entre o ente estatal e o emprego da violência, o filósofo alemão enfatizou que pretendia fazer uma análise do seu presente, ou seja, do início do século XX.
O que seria específico para esse momento, argumentou Weber (2004, p. 24), é que: "todas as outras organizações ou indivíduos podem afirmar o direito de usar a violência física apenas à medida que o Estado lhes permite fazê-lo e, assim, o Estado é considerado como a única fonte do direito de usar a violência”.
De acordo com Weber, portanto, o monopólio estatal da violência física legítima dentro de determinado território não significa que somente os agentes do Estado estão autorizados para usar a violência, e sim, que o Estado é o lugar de onde essa autorização emana. Em outras palavras, ela só é percebida como legítima à medida que ele a prescreve ou a permite.
Enquanto Weber estabelece uma relação direta entre o Estado moderno e a violência, sua descrição não é necessariamente determinista, ignorando, por exemplo, formas de governo não estatais. Ao longo da história, os Estados têm frequentemente buscado tal monopólio de formas diferentes – e tal princípio se transformou em um ideal importante em períodos modernos, frisa Giddens (1987, p. 120).
Além dos elementos ligados ao uso da força, a reflexão sobre a práxis internacional também pode articular dimensões simbólicas e discursivas. Como já apontamos anteriormente, as palavras e os discursos têm uma capacidade significativa de moldar o comportamento dos atores analisados.
Um artigo sobre esses pontos (Brancoli, 2016 ) apontou como as discussões sobre os elementos de legitimidade envolvendo o uso da força em nível internacional podem ser enquadradas em distintas estruturas. Nessa reavaliação, os poderes econômicos e materiais permanecem significativos, embora sejam inseridos em um campo no qual os elementos distintos, como o simbólico e o cultural, começam a ascender em importância.
Estados ou outros agentes internacionais podem empregar, como ferramenta de política externa, medidas que denominamos narrativas simbólicas. Nessas ações, o país busca moldar as discussões internacionais, a priori, por meio de discursos vinculados com formas de capital imaterial (essencialmente cultural e simbólico).
Nota-se que essas ações – que sequer são necessariamente produtivas – não possuem, na maior parte das vezes, qualquer tipo de consideração normativa: o objetivo é justamente que tais discussões sejam feitas dentro de um cenário que tome como base esses princípios. Por isso, o principal ponto está em perceber quais tipos de narrativas autorizam certos atores a terem participação ativa em determinado campo.
No que diz respeito ao uso da força internacionalmente, a entrada de novos capitais em jogo modifica, de forma importante, essa relação. Observa-se que esses arrolamentos são essencialmente relacionais, uma vez que o campo é hierarquizado dentro de prerrogativas determinadas pelos agentes que os compõem. Isso faz com que as ações tenham de ser observadas concomitantemente como medidas que buscam o reconhecimento dos pares.
Imagem: Shutterstock.com
Nessa contextualização, as ações de um país podem ser incluídas no que o filósofo francês Pierre Bourdieu (1991, p. 74–75) denomina como “mágica social”: a capacidade de fazer algo ser inserido na realidade social por meio do ato de nomeá-la.
Essa disposição, contudo, não deve ser vista como puramente linguística. Apesar de literalmente qualquer ator ter a capacidade de vocalizar determinadas considerações, não são todos que podem exercitar essa “mágica”.
A capacidade de criar constrangimentos e moldar a realidade por intermédio da prática discursiva está ligada às estruturas de reconhecimento. Graças a essas estruturas, as palavras são condensadas em ações sociais: essencialmente, padrões de autoridade e legitimidade.
OS ATOS DISCURSIVOS DE MODIFICAÇÃO SOCIAL ESTÃO DESTINADOS A FALHAR SEMPRE QUE FOREM PRONUNCIADOS POR UM AGENTE QUE NÃO POSSUI O “PODER” PARA EMPREGÁ-LOS [...] PODER, NESSE SENTIDO, PRECISA SER ENTENDIDO NÃO NO SENTIDO MATERIALISTA, MAS COMO PODER SIMBÓLICO: A CAPACIDADE DE EMPREGAR ESTRUTURAS SIMBÓLICAS DE REPRESENTAÇÃO E DE OCUPAÇÃO DE POSIÇÕES SOCIAIS, DE ONDE O AGENTE PODE EFETIVAMENTE MODIFICAR A REALIDADE E, CASO NECESSÁRIO, MOBILIZAR PODERES MATERIAIS.
(BOURDIEU, 1991, p. 99)
O ponto central, portanto, é reforçar que uma expansão ontológica (de indagação sobre a natureza das RI) e da práxis (o comportamento dos atores) fornece uma multiplicidade de ferramentas analíticas que podem auxiliar o pesquisador a selecionar quais elementos facilitam e se encaixam mais em uma análise.
A partir do princípio de que as escolhas são própriasdo analista, abre-se um novo mundo no qual é possível indagar e refletir sobre o cenário internacional. O conceito de violência, nesse contexto, precisa ser reforçado e estudado. Vejamos o vídeo a seguir:
VIOLÊNCIA E O MONOPÓLIO DA VIOLÊNCIA
Agora, assista a um vídeo que aborda a questão do Estado como instituição que detém o monopólio da violência.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
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1. AS REFLEXÕES SOBRE ONTOLOGIA NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS NOS PERMITEM PULVERIZAR CERTOS PRESSUPOSTOS DA DISCIPLINA. NÃO ESTÃO INSCRITOS NESSES PONTOS:
A perspectiva de que o Estado pode ser entendido tanto como um ator com interesses fixos e universais quanto por meio de construções subjetivas e simbólicas.
A premissa de que discursos estatais têm capacidade de moldar as interpretações de poder e interesse nacional.
A ideia de que é possível fragmentar os atores internacionais analisados, inclusive com inclusão de sujeitos localizados.
A lógica da constituição do cenário de Estados soberanos por meio de uma narrativa baseada no Tratado de Vestfália.
O reforço de que os Estados são os únicos atores relevantes no sistema internacional.
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2. AS PRÁTICAS INTERNACIONAIS PODEM SER ENTENDIDAS, DENTRE OUTROS ELEMENTOS, POR MEIO DOS DEBATES SOBRE USO LEGÍTIMO DA FORÇA. COM ISSO EM MENTE, PODEMOS APONTAR QUE:
O reconhecimento do monopólio da legitimidade do uso da força se dá de forma exclusiva pelo Estado, o que confere posição única para esse ator.
O fato de atores não estatais também usarem a força faz com que o conceito de soberania, na contemporaneidade, tenha que ser superado pelos analistas internacionais.
Os discursos sobre o uso da moralidade em práticas violentas é um fenômeno contemporâneo.
A discussão sobre a legitimidade da violência é um debate exclusivo das Relações Internacionais, com pouca influência de áreas como Sociologia, Psicologia e Economia.
Uma das consequências do aumento do interesse nas pesquisas da práxis das Relações Internacionais tem sido um foco nos atores não estatais, com a perspectiva estadocêntrica perdendo espaço.
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GABARITO
1. As reflexões sobre ontologia nas Relações Internacionais nos permitem pulverizar certos pressupostos da disciplina. Não estão inscritos nesses pontos:
A alternativa "E " está correta.
A abertura da reflexão ontológica justamente favorece a expansão dos atores relevantes no sistema internacional, ao indicar que a produção de conhecimento e da própria realidade se dá por meio de dispositivos mais subjetivos do que a merda capacidade material e financeira.
2. As práticas internacionais podem ser entendidas, dentre outros elementos, por meio dos debates sobre uso legítimo da força. Com isso em mente, podemos apontar que:
A alternativa "A " está correta.
Apesar da explosão de atores empregando a violência em diferentes contextos armados, os Estados continuam sendo os únicos com legitimidade reconhecida, internacionalmente e no Direito Internacional, para empregá-la.
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apresentamos neste material uma discussão múltipla sobre as formas de emprego das ferramentas ligadas às interpretações racionais para uma compreensão melhor do comportamento de atores internacionais. Iniciamos nossas discussões pela indicação da complexidade desses atores, fugindo de uma realidade meramente estadocêntrica.
Apesar de reforçarmos o papel importante do Estado, também apontamos que as relações internacionais contemporâneas passam pela compreensão do papel das empresas multinacionais e das organizações não governamentais. Frisamos que a interação entre esses três agentes principais configura o tabuleiro central no qual as melhores análises atuais são realizadas.
Demonstramos que a teoria da escolha racional é uma das ferramentas mais empregadas para entender o comportamento e as escolhas feitas por cada um deles graças à sua grande capacidade de universalização das práticas. A partir dela, entendemos o chamado “dilema do prisioneiro” e extrapolamos suas conclusões para casos concretos. Aprofundamos esse debate ao incluirmos nas equações decisórias o papel das instituições, mostrando como elas modelam e constrangem o comportamento dos atores internacionais – principalmente dos Estados.
Postulamos ainda um meio-termo analítico no qual as instituições internacionais, além de articularem seus interesses, moldam sua estrutura de acordo com as lógicas de poder. Por fim, vimos como a construção da realidade internacional (a ontologia) e as dinâmicas de interação entre os atores (sua práxis) são elementos essenciais para a articulação de novas formas de entendimento das dinâmicas globais.
AVALIAÇÃO DO TEMA:
REFERÊNCIAS
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ROSECRANCE, R.; SOLINGEN, E.; STEIN, A. Globalization and its effects: introduction and overview. No more states, p. 3-22, 2006.
WALTZ, K. N. Theory of international politics. Britannica, 1979.
WEBER, M. From Max Weber: essays in Sociology. Routledge, 2009.
EXPLORE+
Para saber mais sobre os assuntos explorados neste conteúdo, indicamos a seguir:
Documentários e filmes:
· The Fog of War (2003)
· Obrigado por Fumar (2004)
· Hotel Ruanda (2004)
Livros:
· FIANI, R. Teoria dos jogos. São Paulo: Elsevier Brasil, 2006.
· LACERDA, J. M. de A. F. O papel das ideias e das organizações internacionais nas teorias das Relações Internacionais. Revista de estudos internacionais, v. 4, n. 1, p. 83-99, 2014..
· TACHIZAWA, T. Organizações não governamentais e terceiro setor: criação de ONGs e estratégias de atuação. Barueri: Atlas, 2000.
· PAIVA, I. C. Críticas feministas à ontologia e epistemologia do mainstream de Relações Internacionais. Coisas do gênero: revista de estudos feministas em Teologia e Religião, v. 3, n. 1, p. 114-135, 2017.