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A construção do caso clinico- Revista Curinga

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Escutamos Lacan em seu Seminário quei-
xar-se, por exemplo, da exigência de seu supereu. De maneira que se trata de
curá-lo na função de analista, para reforçá-lo, entretanto, como sujeitos. Há que
pensar, também, que Lacan tinha que pagar suas dívidas, tinha que se fazer per-
doar por haver aberto as portas da psicanálise a nós. E pagou com um trabalho
teórico.
A reação terapêutica negativa, segundo uma expressão freudiana que
não me parece muito feliz, tem como objetivo, precisamente, passar a culpa ao
analista – “Você não me pode curar”– isto é, deslocar a culpa ao Outro. A cas-
tração, impensável no puro real, não tem sentido senão para o sujeito de direito,
para o sujeito que pode dizer “tenho o direito à”. E isso constituía, para Freud,
o rochedo da experiência psicanalítica.
Para explicá-lo, em termos de mercado, é como se o sujeito tivesse um
cheque ao portador que não pudesse apresentar no caixa. Esse cheque ao porta-
dor é o que se chama o falo e, muito precisamente, o falo como símbolo, o fun-
damento mesmo da queixa na psicanálise: “tenho direito a algo que não posso
cobrar”. Isto é, o sujeito chega sempre à análise como um cobrador e o psicana-
lista é o caixa: – “Explique-me qual cheque ao portador você tem”. E o resulta-
do, ao final, é que o cobrador é quem paga e só por haver apresentado o cheque
ao caixa, porque este consente em discuti-lo. Nisso a psicanálise pode parecer
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uma coisa estafante e se pode pôr em dúvida se temos bastante saúde mental
para jogar esse jogo.
A castração – o conceito freudiano – seria impensável se não se tratas-
se de um direito ao falo, tanto no caso de um homem como no de uma mulher.
É, inclusive, mais difícil do lado masculino por ser portador do órgão. Sabemos
– e esse é o outro segredo da psicanálise – que o cheque nunca entrará em caixa,
porque a caixa está sempre em outra parte. E essa é a castração imaginária: ape-
sar de se ter o cheque ao portador, sempre se tem a bolsa vazia.
A verdade é que se trata de um cheque tal que, para cobrá-lo, não há
no horizonte outra solução que ocupar o lugar do analista, isto é, transformar-
se em caixa. Os analistas são, dessa forma, os desesperados do cheque ao porta-
dor, que abandonaram a ideia de cobrá-lo com o resultado paradoxal de que têm
a bolsa cheia.
O que põe em evidência que o sujeito da castração é o sujeito de direi-
to, é aquele que tem que descobrir que seu cheque ao portador, o que cada um
tem, é impossível de cobrar. Às vezes deve-se tentá-lo com vários analistas para
estar seguro de que nenhum vai pagar o cheque. Ao mesmo tempo, enquanto
sujeito de direito, é também sujeito de dever, isto é, obedece à ordem: “tu deves
cobrar”. “Tu deves cobrar” traduz-se em termos de gozo, cobrar o gozo. E o que
se descobre é que, só apresentando o cheque, já se goza bastante; quer dizer, já
se goza ao apresentar o cheque com palavras. 
E é o que causa riso, porque na saúde mental trata-se da perturbação
estrutural do físico, do mental e do social. Hebe Tizio nos recordou a definição
da OMS: “estar completo no físico, no mental e no social”. Há que se repetir o
que ela já nos assinalou: que essa é a voz doce do imperativo impossível. Quer
dizer, que é uma fórmula do Super-eu moderno e muito bem descrito, porque
estão presentes os três termos: físico, mental e social. E faz ver efetivamente que
o mental é um órgão e que não está reservado à humanidade. Há mental em um
ser vivo desde o momento em que há sentidos, desde que há o aparato sensorial.
Os animais têm também uma mente que completa, necessariamente, o
físico do ser vivente. Essa mente – ver, pensar, recordar – permite-lhes viver em
seu ambiente. De maneira que o mental é um órgão necessário para a adequação
do físico ao mundo. Sabemos muito mais agora sobre a mente como órgão, por-
que a bioquímica do cérebro se desenvolveu, e, além disso, o condutivismo per-
mite comprovar que em ratos e pombos – como dizia alguém nas jornadas –, o
mental é um órgão útil para a vida, guia de vida. O rato é parte de um todo por-
que Lacan pôde dizer que o organismo vai muito além dos limites do corpo indi-
vidual. O organismo é o próprio organismo, com o lado mental e físico, mais seu
mundo.
Poderíamos pensar um ser vivo sem mental? Seria um ser vivente que
se poderia guiar sobre o puro real. E é, em certo sentido, o que Freud nos apre-
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senta com a libido. Com o mito construído por Lacan, a propósito da libido freu-
diana, trata-se de um ser vivo sem aparato sensorial que, precisamente, não
conhece nada da dimensão do mundo e que é da ordem do puro real. E, nesse
sentido, pode-se dizer que, com o nome lacaniano do gozo, trata-se de algo que
não quer saber nada. É essa também a questão na pulsão, que não quer saber
nada. Podemos, com isso, estabelecer a conexão com o tema do ano que vem em
Granada: O que se busca no saber? A libido mítica, mitificada por Lacan, não
quer saber nada.
O animal, como tem uma mente, não se dirige sobre o puro real, mas
faz dele uma realidade. A diferença entre o real e a realidade é a interposição do
mental. Pode-se, dessa maneira, descrever perfeitamente o mundo da mosca.
Lacan cita uma descrição que desperta em nós a vontade de ser uma, porque se
vê que a mosca tem uma perfeita saúde mental, uma vez que a definimos como
a harmonia, o equilíbrio do Inmwelt e do Unmwelt.
Mas, para o homem, o mundo está tomado pelo social. Há que dizer
que a linguagem perturba fundamentalmente a adequação do Inmwelt e do
Unmwelt, isto é, que a enfermidade mental está em nós, desde o princípio. Então,
nosso modelo de saúde mental não é o do animal. Em nosso ambiente atual, o
exemplo de saúde mental seria antes a máquina. Por isso pode-se dizer que
alguém “tem os cabos cruzados”. Quer dizer que nosso ambiente não tem nada
de natural, senão que está estruturado pela linguagem e repleto de direitos e
deveres. Freud já indicou que nossa mente está perturbada pelo narcisismo, que
constitui um obstáculo fundamental à adequação e é o princípio, a consequên-
cia dessa perturbação sobre o mental. Conhecemos seu papel na inibição, por
exemplo.
Entretanto, não se trata no homem, na humanidade, somente do men-
tal, quando não se trata do físico. Há algo não mental, ainda que o pareça, que é
chamado por Freud o pensamento inconsciente. O inconsciente não é da ordem
mental. Deve-se distinguí-lo da mens – mens sana in corpore sano. O que impede a
mens sana e o corps sano é a existência desarmônica de um pensamento. Qual é a
mais clássica definição da saúde? A saúde se define pelo silêncio dos órgãos, mas
está aí o inconsciente que nunca se cala e assim, não ajuda em nada a harmonia.
Assim definida, a saúde mental não nos pode servir, como tal, de cri-
tério na prática analítica.
É aqui que eu gostaria de encerrar.
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DEBATE
P. – Queria pedir-lhe que esclarecesse, por favor, a relação que estabeleceu
entre reivindicação e sentimento de culpa que você fez equivaler em um momento e que,
além disso, teriam relação com posições clínicas a respeito da culpa e da falta.
J-A. Miller – Empreguei o termo reivindicação, que é o lado positivo,
ativo, da frustração, porque permite descrever fenômenos que se manifestam na
experiência. Por exemplo, quando o rochedo da castração toma a forma da rei-
vindicação de justiça poder-se-ia pensar que o sentimento de culpa impede que
o sujeito assuma o peso do que não vai bem. E, de certo modo, trata-se de que
o assuma, com a retificação subjetiva. Mas pode ocorrer, ao contrário, que se
faça o analista responsável pelo fato de que, apesar de ter direito, o sujeito não
tenha a satisfação, o que é um bloqueio da experiência.

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