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Piedade et al 2012   Capitulo Seca na Amazonia   Vegetacao

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Á r e a s ú m i d a s s ã o e c o s s i s t e m a s específicos que ocu-pam a interface entre os ecossistemas aquáticos e terrestres. 
Várias classificações têm sido elaboradas visando à definição e a 
uniformização internacional do termo áreas úmidas. Entretanto, 
como a dinâmica de flutuação e suprimento de água relaciona-
da a esses ambientes determina a existência de regiões nas quais a 
inundação pode ser apenas episódica ou periódica, a definição dos 
limites superiores e inferiores desses ecossistemas é difícil (Mitsch e 
Gosselink, 2000) e, consequentemente, sua classificação. 
Dentre as classificações de áreas úmidas mais aceitas encon-
tra-se aquela elaborada por Cowardin et al. (1979), que as define 
como “terras transicionais entre os sistemas aquáticos e terrestres 
onde o nível da água encontra-se próximo ou na superfície do 
solo ou este é recoberto por água rasa. As áreas úmidas devem 
possuir ao menos um dos seguintes atributos: (1) suportar, ao me-
nos periodicamente, a presença predominante de hidrófitas; (2) 
apresentar substrato predominantemente constituído por solos 
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Impactos ecológicos da inundação e seca 
na vegetação das áreas alagáveis amazônicas
M.T. F. Piedade, J. Schöngart, F. Wittmann, P. Parolin, W. J. Junk
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eventos climÁticos extremos
hidromórficos não drenados e, (3) apresentar, anualmente, subs-
trato que esteja saturado ou coberto por água rasa por um período 
de tempo durante a fase de crescimento da vegetação, excluindo, 
desta forma, organismos não adaptados a tais circunstâncias”. 
Cerca de 20% da superfície da América do Sul é coberta por 
áreas úmidas (Junk e Piedade, 2005), porém, à medida que clas-
sificações mais minuciosas são elaboradas, esse valor tende a au-
mentar (Junk et al., 2011). Embora com percentagens variáveis 
entre as diferentes regiões do país, estima-se também que cerca 
de 20% do território brasileiro seja sujeito a condições ecológicas 
específicas de áreas úmidas (Junk et al., 2011). 
De acordo com seu regime hidrológico, as áreas úmidas po-
dem ser divididas em dois grandes grupos: aquelas com coluna 
de água relativamente estável, como os pântanos e turfeiras, e as 
áreas úmidas com grandes flutuações de nível da água. As áreas 
alagáveis são o melhor exemplo desta segunda categoria, dado 
que alternam fases aquáticas e terrestres bem definidas (Junk et 
al., 2010a). 
Junk et al. (1989) definem áreas alagáveis como “áreas perio-
dicamente inundadas pelo transbordamento lateral de rios ou 
lagos e/ou pela precipitação direta ou águas subterrâneas, o que 
resulta em um ambiente físico-químico peculiar que leva a biota 
a responder por meio de adaptações morfológicas, anatômicas, 
fisiológicas, fenológicas ou etológicas, compondo comunidades 
características”. As áreas alagáveis ocupam uma faixa de transi-
ção aquático terrestre (ATTZ – Junk et al., 1989) na qual terra e 
água são conectados por uma fronteira móvel ou “zona litoral ou 
litorânea móvel”, considerada uma unidade indivisível dado que, 
nesse espaço, água, sedimentos, matéria e energia são comparti-
lhados. Esses ambientes devem ser diferenciados dos habitats per-
manentemente aquáticos lóticos (canais dos rios) e lênticos (lagos 
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permanentes), e terrestres (terra firme adjacente), constituindo 
uma única e dinâmica unidade: as áreas alagáveis. A força que de-
termina as estruturas e funções destas áreas é o pulso de inunda-
ção. Este pulso pode variar em amplitude, duração, frequência e 
previsibilidade. De acordo com o tipo do pulso, as áreas alagáveis 
podem ser divididas em diferentes categorias (Junk et al., 2011): 
- Áreas alagáveis de pulso monomodal previsível de alta ampli-
tude e longa duração: (várzeas e igapós ao longo dos grandes rios 
amazônicos, inundados pelos respectivos rios;
- Áreas alagáveis de pulso monomodal previsível de baixa am-
plitude e longa duração: grandes áreas planas nos interflúvios de 
drenagem insuficiente, alagadas pelo excesso de precipitação na 
época chuvosa; 
- Áreas alagáveis de pulso polimodal imprevisível de curta du-
ração: áreas ripárias ao longo de igarapés e pequenas depressões, 
alagadas por pancadas de chuvas locais;
- Áreas alagáveis de pulso polimodal previsível de curta dura-
ção: áreas costeiras influenciadas pelas marés. 
17.1 Funcionamento e ecologia das áreas alagáveis 
amazônicas 
Estima-se que cerca de 30% da bacia Amazônica seja periodica-
mente alagada (Junk et al., 2011). Porém, o conhecimento dispo-
nível sobre a hidrologia dos diferentes tipos de áreas alagáveis e a 
sua flora ainda é insuficiente para permitir chegar a conclusões 
gerais. O conhecimento mais profundo existente é sobre as áreas 
alagáveis sujeitas a um pulso monomodal previsível de alta am-
plitude acompanhando os grandes rios Amazônicos. Cerca de 7% 
impactos ecológicos da inundação e seca 
na vegetação das Áreas alagÁveis amazônicas
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eventos climÁticos extremos
da área da Amazônia brasileira (400.000 km2), correspondem a 
esta categoria (Melack e Hess, 2010), sendo estas áreas classifi-
cadas, de acordo com sua fertilidade, em dois grandes grupos, 
as várzeas e os igapós. As várzeas perfazem 5% (300.000 km2) 
do total de áreas alagáveis amazônicas, sendo as áreas de maior 
fertilidade, uma vez que os rios a elas associados originam-se e 
percorrem regiões geologicamente recentes, nas faixas andinas e 
pré-andinas. A cor desses rios é barrenta e seu pH é próximo da 
neutralidade. Os igapós, por outro lado, perfazem 2% (100.000 
km2) da área da Amazônia brasileira e originam-se em áreas geo-
logicamente antigas e erodidas dos escudos das Guianas e Brasil 
Central. Suas águas são pobres em nutrientes inorgânicos e ricas 
em material orgânico diluído, particularmente ácidos húmicos 
e fúlvicos. São extremamente ácidas, de cor clara ou, mais fre-
quentemente, preta. A biota desses dois grandes grupos de áreas 
alagáveis difere em virtude das diferenças em suas propriedades 
químicas e fisico-químicas (Junk et al., 2010a). 
A presença de vastas áreas alagáveis na Amazônia resulta da 
combinação de relevos baixos e de altas precipitações, caracterís-
ticas da região. Embora elevada, a precipitação não se distribui 
de maneira uniforme, mas aumenta ao longo de um gradiente de 
sudeste para noroeste da bacia amazônica (Sioli, 1991). A sazona-
lidade do padrão de precipitação define ao longo do ano uma es-
tação seca e uma estação chuvosa (Salati e Vose, 1984). Como os 
grandes rios recebem o somatório da precipitação de toda a bacia 
de drenagem, as diferenças sazonais e geográficas na distribuição 
das chuvas levam a flutuações do nível da água desses rios, deter-
minando, anualmente, a existência de uma fase de águas altas, 
a fase aquática, alternada com uma fase de águas baixas, a fase 
terrestre (Junk et al., 1989). A diferença média entre o pico da fase 
aquática e o pico da fase terrestre pode atingir mais de 10 metros. 
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Processos e padrões ecossistêmicos nas áreas alagáveis amazô-
nicas são determinados pelas flutuações anuais de nível da água 
e pela alternância entre as fases de seca e cheia. Esses pulsos 
desempenham importantes funções nas planícies inundáveis, 
atuando na ciclagem de nutrientes e na estocagem de grandes 
quantidades de água. Essa dinâmica é de grande importância eco-
lógica para as áreas alagáveis amazônicas, notadamente sua vege-
tação. Extensas áreas desses ambientes são cobertas por florestas 
que regulam o clima local, são fontes e sumidouros de elementos 
nos importantes ciclos biogeoquímicos, habitat para espécies en-
dêmicas de plantas e animais, contribuem para a proteção contra 
a erosão das áreas marginais de rios e lagos, além de terem impor-
tância na economia como fontes de produtos madeireiros e não 
madeireiros para as populações locais. 
17.1.1 Variações na hidrologia Amazônica:
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