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Fichamento (1)

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Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Graduação em Direito
Daniele Cristina Mafra
Érica Nunes Rocha
Gustavo Perpétuo Pereira
Índila Caroline Oliveira Severino
Júlio César Viana Lourival
Larissa Machado Lemes
Pedro Augusto Almeida Sales
Renato Batista Coelho
Thamara Cristina Gomes
FICHAMENTO: “OS DESERDADOS DA TERRA – A situação na terra livre”
Serro
2017
MOURA, Margarida Maria. Os Deserdados da Terra. Capítulo 6: A antiga posse e a terra livre. 
"Chama-se morada ou terreno a terra que pertence a um lavrador, servindo como lugar de habitação e trabalho. Essa designação localiza socialmente o tipo de ocupante envolvido, fazendo referência ao ato de morar num pedaço de terra cultivada pelos próprios lavradores. Não é incomum chamarem-na também de roça, descartando a referência à casa, para designá-la pela agricultura que nela se realiza.". (p. 125)
"A categoria que dá contornos físicos preciosos à terra é o situ. Ter um situ dá ao seu responsável a condição de situante, palavra sempre complementada por nova explicação: ao dizerem que têm uma situação, indicam os lavradores uma posição no espaço como resultado do trabalho.". (p. 125)
"Enquanto estar a disposição do fazendeiro é mencionado pelo agregado como aquilo que define sua relação social com o fazendeiro, a autonomia do situante é autonomia ameaçada e até subjugada, em função dos interesses de uma fazenda em formação. Sua vida social condensa a lógica de universos contrapostos: a autonomia da terra e do trabalho como realização e aspiração, a subordinação de ambos a concepções e relações que buscam submetê-lo. (...) Devido às características do poder coronelístico controle privado do aparelho institucional os fazendeiros (...) no passado amiúde não detinham a propriedade jurídica das glebas onde exerciam direito exclusivo, fazendo respeitar esse direito apenas pela força e mantendo suas fazendas de geração em geração, graças à manipulação judiciária e cartorial. ". (p. 126)
“ (...) Neste contexto, ganha sentido o elemento mais valorizado de sua condição, que é o de não ter que pedir morada dentro da fazenda. No seu situ, que se extrema com outros pelo princípio separador das águas vertentes, categoria divisória costumeira, mas que se transporta também para documentos judiciais, vive separado daquilo que não lhe pertence. (...)” (p. 127/128)
“A situação pode ser alvo de ações de despejo e ações de reintegração de posse de cunho patronal, que visam à expulsão dos situantes, para que em seu lugar se consolide a propriedade privada da terra. As invasões dos situs, tendo caráter costumeiro ou judicial, visam abranger todo o terreno desses lavradores. Essa prática efetiva-se através de um sistema comportamental, que reverte violentamente a liberdade do situante na terra em liberalidade do fornecedor da fazenda para com a terra do situante. Ele define o posseiro como invasor tolerado, impondo à moldura das relações sociais o favorecimento pelo suposto dono da terra, que assegura a permanência do situante na terra. Essa violência se juntava, no passado com a condição: um trato que, renovado continuamente, através da cessão do trabalho à fazenda por dois dias semanais, determinava as condições para nela permanecer”. (p. 139/130)
“O situante, transformado em invasor tolerado, tem no fazendeiro o benfeitor que agora é malfeitor e o transformou em dependente. Essa crise, que se ancora na negação do situ, destaca ângulos da relação que só são claramente explicitados quando estouram demandas. Em ações judiciais de caráter divisório contra proprietários de sítio que possuem apenas formais de partilha, o domínio é insinuado através do argumento de que uma área do sítio que se extrema com a fazenda não tem estatuto autônomo, não é parcela e, portanto, é apenas tolerância do fazendeiro o permitir que, naquele local, residissem lavradores separados por uma cerca.” (p. 130)
“Para os situantes, as questões subjacentes a esse argumento retomam as questões de autonomia e dependência. Os situantes que tenham aceito pagar rendas-em-produto ou rendas-em-trabalho a determinado candidato a fazendeiro tornam-se, pela vinculação que se estabelece entre os lavradores e o domínio, modelos de obediência, constantemente ativados perante aqueles que não se permitem subordinar. (...)” (p. 130)
“O favor imposto a situantes fica bem exemplificado com as cartas de agregação. Em tempos mais recuados era um acerto 	“de boca” que desencadeava o domínio dos homens, a imposição de documentos que devem ser assinados por livres – contratos que nada mais são do que ‘cartas de agregação’. Atualmente, visa criar condições para terminar o domínio dos homens através de papéis assinados que preludiam a tomada da terra. Transformar um posseiro em agregado, que assina ou apõe sua impressão digital num papel, confirmando essa condição num documento, dá cacife à argumentação judiciária de que não se trata de livres, mas de parceiros necessários às lides da fazenda que hoje têm seus contratos vencidos. Essa agitação das categoriais posseiro e parceiro, como óticas invertidas de uma mesma relação social – a de pequeno posseiro ou dono de uma situação – é clara nesse repertório de regras e de práticas sociais.” (p. 130/131)
“A fazenda consolidada e a fazenda em formação, a primeira dominium e a segunda domínio, são faces da mesma moeda, expressão de um mesmo formato de apropriação do trabalho alheio: transformar aqueles que estão à sua própria disposição em lavradores à disposição de outrem. Isso ocorre, não sem consequências, no plano da verdade jurídica do suposto fazendeiro e do próprio situante dominado. Ele incorpora o habitus da subordinação, reciclando suas representações em face desses novos ingredientes ideológicos, que não suprimem concepções anteriores, mas acrescentam-lhes tensões permanentes.” (p. 131)
“É através da cessão do trabalho a outro (o pagamento de terças e meias ao fazendeiro) que situantes submetidos a essa lógica são rendeiros de supostos fazendeiros. São, num processo de invasão de suas terras, os invasores e não os invadidos, os turbadores e não os turbados.” (p. 132)
“O assédio da fazenda ao situante tinha certas características assinaladas por Eric Wolf, que transitavam para a relação patrão/cliente propriamente dita.” (p. 133)
“Para aqueles que não eram diretamente assediados em seus terrenos e em seu trabalho ‘pela fazenda’, a subordinação tinha caráter esporádico: convocados para grandes obras, como o esgotamento de vargens e grandes desmatamentos, recebiam também alimento durante os dias que trabalhavam. Não surpreende, pois, que também entre eles a categoria homenagem tenha o sentido de pagamento vil, de uma relação que prende, cativa e segura o lavrador num elo que se perpetua no desempenho de novos trabalhos assumidos. Mantendo elos semelhantes aos da agregação, mantinham um fio de conexões com o domínio que, embora indireto, consolidava vínculos reais e potencialmente extensíveis a outras esferas da vida social. Não é sem razão que santos patronos do domínio eram alvos de festas para as quais se convidavam todos os situantes, selando-se no ritual comum uma identidade que só custosamente se obtinha no plano dos desempenhos materiais.” (p. 134)
“(...) Isso porque o interesse em eliminá-la [a terra ocupada pelo situante] não provém só da fazenda, mas da aliança da fazenda com grandes empresas capitalistas ligadas ao reflorestamento, que visam ocupar terras para desenvolver grandes projetos.” (p. 134)
“A fazenda, para sobreviver, precisa agir consoante este novo jogo de interesses, e para que isso ocorra será preciso: a) invadir situs, fortalecendo-se lado a lado à empresa capitalista adventícia; b) facilitar à própria empresa capitalista adventícia apossamentos rápidos de terras devolutas; c) valer-se de sua penetração nas esferas de poder municipal e estadual, que lidam mais diretamente com a questão de terras, no sentido de desacelerar a regularização fundiária de ocupantes (ou seja, situantes).” (p. 134)
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