Prévia do material em texto
5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 1 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial jusbrasil.com.br 5 de Junho de 2017 A definição de estabelecimento no Direito Comercial A definição de estabelecimento no Direito Comercial Índice 1. Definições de estabelecimento 1. Doutrinas clássicas 1. Teoria da personalidade jurídica do estabelecimento 2. Teoria do estabelecimento tratado como patrimônio autônomo (ou separado) 3. Teoria da personificação da “maison de commerce” (casa de comércio) titular do fundo de comércio 4. Teoria do estabelecimento como negócio jurídico 2. Doutrinas modernas 1. Teorias imaterialistas (o estabelecimento como bem imaterial) 2. Teorias atomistas (é impossível a configuração unitária do estabelecimento) 3. Teorias patrimonialistas 1. Elementos do estabelecimento PUBLICAR CADASTRE-SE ENTRARPESQUISAR! 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 2 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial 1. Elementos corpóreos 2. Elementos incorpóreos 1. A estrutura e o funcionamento do estabelecimento comercial 1. Aviamento 2. Clientela 1. O nome empresarial e a identificação do estabelecimento 2. O empresário mercantil e os colaboradores da empresa. Os leiloeiros 3. Trespasse do estabelecimento comercial 4. Conclusão 5. Bibliografia Definições de estabelecimento Esse trabalho foi baseado amplamente na obra de Haroldo Verçosa, inclusive em sua estrutura de capítulos, na qual foi reproduzida a estrutura da exposição feita no Curso de Direito Comercialde Verçosa a respeito da natureza do instituto jurídico do estabelecimento. Sempre que for citado Verçosa, portanto, está sendo citada essa obra, na sua edição de 2011. O conceito de estabelecimento é central no direito comercial atual. Surgiu como categoria jurídica na França, no séc. XIX (numa lei de 28/02/1872), chamado então de “fundo de comércio” (resquício da época em que o comerciante era uma figura mais central para o direito comercial do que a empresa). No entanto, só recentemente houve uma formulação normativa a respeito desse conceito, no código civil italiano de 1942. O instituto do estabelecimento é importante por que a segurança jurídica nas questões obrigacionais que decorrem da exploração da empresa é garantida pelo instituto jurídico do estabelecimento. Ao contrário do que pode sugerir o uso vulgar da palavra, o estabelecimento não é meramente o local no qual se exerce a atividade da empresa. Inclusive, o estabelecimento sequer inclui o imóvel (ou os imóveis) em que está situado o negócio, porque esse é regido segundo outro regime jurídico. É definido pelo código civil da seguinte forma no art. 1142 (CC/2002): 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 3 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial "Considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária.” O artigo fala em “exercício da empresa” e em “sociedade empresária” ou “empresário”. O estabelecimento não se confunde, portanto, com a sociedade ou o empresário, que são sujeitos de direito, nem com a própria empresa, que é possuidora de atividade econômica (COELHO, 2008 p. 99). O estabelecimento é um objeto de direito. Além disso, o artigo fala somente em “estabelecimento”, mas podemos entender pelo contexto que se trata do “estabelecimento comercial” reconhecido pela doutrina italiana (ou “azienda”). (VERÇOSA, 2008). Aliás, a definição do artigo doCódigo Civilbrasileiro é baseada noCodice Civileitaliano de 1942, como pode ser observado pela leitura do seu art. 2.555, in verbis: Art. 2555.Nozione. –L’azienda è il complesso dei beni organizzati dall’imprenditore per l’esercizio dell’impresa (2082). Ainda sobre as origens históricas do estabelecimento, podemos repetir aqui a lição de Oscar Barreto Filho, que de acordo com o teórico italiano Maghieri, remonta as origens do conceito de estabelecimento ao Digesto. Em um ensaio publicado nos Studi per Vivante, o teórico Valeri(Valeri, La dottrina dell’azienda commerciale nelle opere dei post-glossatori) expõe que a doutrina do estabelecimento comercial foi primeiramente fixada por Bartolo da Sassoferrato (no séc. XIV) e depois desenvolvida na obra dos pós-glosadores: Baldo e Angelo degli Ubaldi, Paolo di Castro, Pietro da Ancarano, Bartolomeo Socini e outros. Baldo, enquanto consultor da ars mercatorumde Perugia, lançou nosConsiliaos primeiros fundamentos da teoria do estabelecimento, chegando a sustentar a personalidade do estabelecimento como sujeito de direitos, enquanto comumente se pensava nele como uma universalidade de direito dotada de autonomia patrimonial. Essa segunda concepção era referida comouniversitas, nomen-collectivum, jus universale, corpus universale. O estabelecimento em si recebia outras designações: mensa, taberna, mercatura, fundacum, merx etc. Afirma Straccha a respeito: “mercantia nomini plura corpora subjiciuntur, universale corpus sit”(De Mercatura, n. 95, p.2), Cujácio, no séc. XVI, salientou a natureza imaterial do estabelecimento, comparando-o à herança: “quia et hereditas et mensae nomen non est corporis, sed juris nomen, quod complecitur et commoda et incommoda”(LiberVIII, págs. 1159, 1169). As leis francesas de 1º. De março de 1898 e 17 de março de 1909 foram as primeiras a regulamentar de modo especial a venda e o penhor do estabelecimento comercial. O legislador não disciplinou a matéria de modo completo e sistemático, no entanto, e sim 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 4 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial apenas as situações práticas. Infere-se dessas leis que a reunião dos bens distintos do fundo de comércio dá origem a uma entidade independente dos bens que a compõem. O trespasse do fundo de comércio depois foi regulamentado por outros países, como o Peru, a Argentina e o Uruguai. É importante ainda conceituar possíveis traduções para o conceito de estabelecimento. O conceito equivale, segundo Carvalho de Mendonça, ao “negotium” ou “negotiatio” do direito romano, ao fonds de commerce do direito francês e belga, à azienda commerciale do direito italiano, ao Geschiift ou Handelsgeschäft do direito alemão e austríaco, ao goodwill ou goodwill of a trade do direito inglês e norte-americano, ou ainda, à hacienda ou establecimiento comercial (ou fondo de comercio) dos países de língua espanhola ou castelhana. Além disso, o fundo de negócio não é igual ao fundo de comércio. O primeiro é o saldo remanescente da liquidação do estabelecimento. A expressão francesa “fonds de boutique”, ainda, se refere ao que hoje chamaríamos elementos corpóreos do estabelecimento (o conceito será mais explorado em outra seção desse trabalho). Atualmente, embora o Código Civil brasileiro de 2002 mencione “estabelecimento” e não “estabelecimento empresarial”, é importante que acrescentemos o segundo termo para caracterizar o estabelecimento dado que a doutrina do direito comercial hoje se volta à figura da empresa, como pontua Marcelo Andrade Féres: " por ter-se amoldado à teoria da empresa, dado o conceito que fornece de estabelecimento, vinculando este à figura do empresário ou à da sociedade empresária, é de melhor técnica usar-se a designação estabelecimento empresarial " (FÉRES, 2007, p.5). Isso é de crucial importância, já que não podemos esquecer que a expansão dos mercados mundiais obstaculiza a apreciação da importância do investimento em reciclagem técnica. Sobre a relação entre aatividade mercantil/econômica e o conceito de estabelecimento, Barreto Filho afirma o seguinte: 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 5 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial “Quando um indivíduo se dispõe a exercer a atividade mercantil, deve reunir os meios necessários para tal, obtendo e organizando um conjunto de bens que sirva de base econômica ao empreendimento. Para isso, deve apartar do seu patrimônio – complexo das relações jurídicas com valor econômico – uma parcela determinada de bens, recursos ou valores, que vai constituir, conforme o caso, o capital do comerciante individual, ou a quota com que contribui o sócio, para a formação do capital de uma sociedade comercial. Em relação ao comerciante singular, ocorre, sob o ângulo econômico, uma separação entre o patrimônio civil ou geral, e o chamado patrimônio comercial, destinado especificamente ao exercício do comércio, sob firma individual. Para fins de administração e de organização internas, prevalece a discriminação entre a massa de bens destinada pelo comerciante singular à sua vida priva, e aquela outra aplicada à atividade mercantil, em um ou vários estabelecimentos (o chamado ‘patrimônio aziendal’ dos economistas). Será exatamente considerando o montante do capital, que o comerciante irá ampliando ou restringindo sua atividade.” Portanto, devemos entender que o conceito jurídico de estabelecimento está diretamente relacionado à necessidade de separação entre os bens do comerciante (empresário) e do seu empreendimento. Essa necessidade, de fundo econômico, se traduz na criação de um instituto jurídico que a auxilie. Além disso, Barreto Filho complementa a sua exposição com uma citação de Franchi e Pagani: “o conceito de estabelecimento (azienda) rigorosamente também implicaria uma administração autônoma, dotada de direitos e obrigações próprios, distintos dos de qualquer outro ente ou pessoa. Porém, a maioria das vezes, ao invés, tão- somente se acena a uma separação fictícia, com efeitos simplesmente contábeis- econômicos, feita pelo proprietário, ao qual apraz, para a boa regra de gestão, manter distinta a administração doméstica da indústria agrícola ou da exploração comercial, na eventualidade de que a exerça." Verçosa afirma ainda o seguinte sobre o estabelecimento: 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 6 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial “Buscando oferecer bens e/ou serviços no mercado, o empresário necessitará conjugar um complexo de bens para o exercício da atividade e tornar sua empresa conhecida pelos diversos elementos que a identificarão como uma unidade produtiva, utilizando-se de múltiplos instrumentos jurídicos destinados a alcançar a finalidade de geração de lucros. Dessa maneira, é importante estudar o estabelecimento comercial, os elementos de identificação da empresa, os instrumentos jurídicos a serem utilizados pelo empresário e os atributos de que aquela se reveste.” Portanto, é ressaltada a finalidade desse conjunto de bens. O que diferencia o estabelecimento de uma universalidade de bens qualquer é o fim para o qual são agrupados esses bens, o que lembra bem Oscar Barreto: “Os bens (...) são conjugados em função do fim colimado, e aí surge o elemento estrutural: a organização – a combinação do capital, trabalho e organização para o exercício da atividade produtiva é que se denomina – estabelecimento (...)”. Portanto, o estabelecimento se destaca por estar intimamente associado ao conceito de empresa. Tendo isso em vista, uma breve exposição das doutrinas clássicas e modernas sobre o estabelecimento se faz necessária. É importante frisar que alguns aspectos dessas doutrinas (a maioria deles, aliás) não foram aceitos pelo Direito positivo brasileiro, que se firma principalmente nos artigos supracitados. 1. Doutrinas clássicas 1. Teoria da personalidade jurídica do estabelecimento Essa teoria teve como principal teórico G. Endemann, que propunha que o estabelecimento fosse um sujeito de direito, o que faria do empresário “o principal empregado” desse estabelecimento. A morte ou mudança desse “empregado” não afetaria esse sujeito de direito. Essa teoria não é acolhida, obviamente, pelo direito brasileiro atual. 1. Teoria do estabelecimento concebido como patrimônio autônomo (ou separado) A teoria do estabelecimento concebido como patrimônio autônomo veio de Brinz e Bekker. Segundo a definição de Verçosa: “(...) o estabelecimento seria um patrimônio sem sujeito, uma entidade jurídica diferenciada, assim constituída em virtude de uma destinação especial dada aos seus bens, voltados para o alcance de um fim determinado. Tomando-se em consideração 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 7 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial o patrimônio geral do titular, dentro dele se encontraria separada uma parcela. Cada estabelecimento pertencente ao mesmo titular seria um patrimônio separado distinto. Como efeitos jurídicos, verifica-se que os credores da atividade mercantil teriam nos bens componentes do estabelecimento a garantia preferencial dos seus créditos, podendo voltar-se contra o patrimônio geral do titular em caráter subsidiário (...). Tomando-se a fundação como referência, tem-se uma situação semelhante, porque também nela existe um patrimônio destinado a uma determinada finalidade. No entanto, o Direito expressamente acolhe a fundação como uma pessoa jurídica, não ocorrendo isto em relação ao estabelecimento comercial.” O ponto crucial que diferencia essa teoria da que utilizamos hoje no direito brasileiro é a ausência de um sujeito. Como é possível ver na definição docódigo civil, a existência de uma sociedade ou um empresário é crucial para especificar o que significa um estabelecimento. 1. Teoria da personificação da “maison de commerce” (casa de comércio) titular do fundo de comércio Seu autor é J. Valéry, que propõe uma distinção entre “casa de comércio” e “fundo de comércio”. A primeira é uma pessoa jurídica composta das pessoas que organizam a direção e o funcionamento do estabelecimento (no entanto, é uma entidade impessoal, que permanece apesar da substituição de seus membros). A segunda é o conjunto dos bens formadores do patrimônio do estabelecimento, portanto, um conjunto de bens dotados de uma finalidade. Portanto, a “casa de comércio” é titular do “fundo de comércio”. 1. Teoria do estabelecimento como negócio jurídico (“negozio aziendale”) A teoria do estabelecimento como negócio jurídico foi mentalizada por G. Carrara. Segundo Barreto Filho, seria: “[O] acordo entre empresário, prestadores de trabalho e fornecedores de capital, com o escopo de obter, mediante a organização baseada no emprego das respectivas prestações, os resultados produtivos que constituem a razão de ser da combinação”. A crítica desse conceito na visão do direito brasileiro é que não existe um acordo único no estabelecimento, ou seja, as declarações de vontade das partes não convergem para um determinado fim. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 8 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Essa descrição de um conjunto de relações jurídicas guarda uma semelhança com o conceito de “empresa” de Coase, de “um feixe de contratos”. No entanto, ele não é um bom conceito para o estabelecimento, que é algo distinto. Carrara também tentou definir o estabelecimento como uma instituição, despida de personalidade jurídica. 1. Doutrinas modernas 1. Teorias imaterialistas (o estabelecimento como bem imaterial)Novamente segundo Verçosa: “Para Pisko, Isay e Hubmann, seus principais defensores, o estabelecimento seria um bem imaterial, objeto autônomo de direito. Dentro do patrimônio geral haveria um ‘patrimônio comercial’, formado por elementos ativos e passivos utilizados na atividade mercantil, passíveis de individualização. Contrapondo-se a esse patrimônio comercial estaria o estabelecimento, caracterizado como objeto de contratos e de direitos reais, tais como venda, locação, usufruto, sucessão, seguro etc., dotado de conotação jurídica própria, pois seria distinto dos bens que o constituem – uma nova espécia de bem imaterial. Em outras palavras, seria possível, nessa concepção, visualizar um direito subjetivo sobre o estabelecimento, na qualidade de um bem imaterial, incorporado àquele, correspondente a uma criação do espírito no campo da produção (justamente, a organização harmoniosa e dinâmica dos bens componentes, efetuada pelo empresário).” 1. Teorias atomistas (é impossível a configuração unitária do estabelecimento) Ainda segundo Verçosa: “Seus defensores principais são Scialoja, Barbero e Ghiron. Para eles, em resumo, o estabelecimento é formado por uma pluralidade de coisas, correspondendo a uma unidade econômica, mas não acontecendo tal no plano jurídico, pois a lei não o tomaria como um todo subordinado a tratamento unificado especial. Segundo tais autores, o fato de existir uma coordenação de vários elementos da produção dentro do estabelecimento não é fator juridicamente apto a fazer com que tais elementos percam sua identidade própria. Dessa forma, os negócios relativos ao estabelecimento devem ser feitos tomando-se cada elemento singular que o constitui, seja bem material ou imaterial. A unidade patrimonial do estabelecimento não seria reconhecida pelo Direito. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 9 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial No entanto, verificando-se como o Direito tutela, por exemplo, a venda do estabelecimento, considerado como um todo, verifica-se que existe efetivamente o reconhecimento de uma unidade jurídica, como tal protegida, sendo necessário encontrar o lugar que ela merece no ordenamento jurídico. 1. Teorias patrimonialistas Portanto, a conclusão que devemos chegar é que nenhuma das teorias apresentadas acima é suficiente ou satisfatória para explicarmos o estabelecimento no direito comercial brasileiro atual. Para que possamos pensar no direito atual, devemos pensar na definição de estabelecimento como um “conjunto de bens”. Um conjunto de bens possuídos pela mesma pessoa (física ou jurídica) é, por definição, uma universalidade. Primeiramente é importante lembrar que o estabelecimento é formado por bens corpóreos e incorpóreos (que podem também ser chamados de bens materiais ou imateriais). Além disso, Verçosa define o estabelecimento – esse conjunto de bens – como uma universalidade de fato, baseado na doutrina de Barreto Filho a respeito. É importante relembrar os conceitos de bens doCódigo Civilatual para embasar essa discussão: Art. 90. Constitui universalidade de fatoa pluralidade de bens singulares que, pertinentes à mesma pessoa, tenham destinação unitária. Parágrafo único. Os bens que formam essa universalidade podem ser objeto de relações jurídicas próprias. Art. 91. Constitui universalidade de direito o complexo de relações jurídicas, de uma pessoa, dotadas de valor econômico. Para Verçosa, o reconhecimento jurídico das universalidades no estabelecimento depende do preenchimento de duas condições essenciais: 1. “previsão legal no sentido de um tratamento jurídico diferenciado para a soma dos elementos no estabelecimento, quando considerados os elementos diversos na sua individualização; e 2. consequentemente, o reconhecimento da validade da realização de negócios jurídicos relativos a esse conjunto de bens, considerado como um todo, diversos dos negócios efetuados com o os bens isolados.” 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 10 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Ou seja, enquanto objeto de direitos a universalidade deve ser tratada de forma diferente, e os negócios jurídicos relativos a essa universalidade também. Isso é o que ocorre de fato no direito vigente em relação a estabelecimentos, restando portanto a pergunta de se o estabelecimento é uma universalidade de fato ou de direito, questão que Barreto Filho esclarece lembrando que as universalidades de direito está elencadas pela lei: fundações, herança e massa falida. As demais universalidades devem ser consideradas universalidades de direito, pois o rol é excludente. Além disso, as universalidades de direito são um conjunto de relações jurídicas, enquanto o estabelecimento é um conjunto de bens (objetos de direito), segundo o art. 90 já citado. Para Sylvio Marcondes, a diferenciação consiste em as universalidades de direito serem um complexo de relações jurídicas ativas e passivas, formadas por força de lei para unificar essa relações, enquanto as universalidades de fato são um conjunto de coisas autônomas, simples ou compostas, às quais um sujeito atribui uma destinação unitária. Fica consolidado, portanto, que o estabelecimento é uma universalidade de fato. Para Marcelo Andrade Féres, "Após a codificação de 2002, não há espaço para a formação de dissidências. O trato do estabelecimento, nitidamente inspirado pelo Codice Civile, trilha o caminho da universalidade de fato”. Para Marlon Tomazette (2004, p.11), o Código Civil de 2002 classifica o estabelecimento empresarial como uma “coisa coletiva” ou “estabelecimento de fato”, já que permite que seja como um todo objeto unitário de direitos e negócios jurídicos, sem que isso leve de alguma forma a uma probição da negociação isolada dos bens integrantes do mesmo. Verçosa afirma que as características específicas do estabelecimento que decorrem de sua caracterização como universalidade de fato são: 1. é o centro da organização da atividade produtora do empresário; 1. tem existência real, e não abstrata, como é o caso do patrimônio; 2. sua criação depende da vontade do empresário; 3. é formado exclusivamente por elementos do ativo (bens materiais e/ou imateriais), dele não fazendo parte elementos do passivo do titular.” Os bens do estabelecimento estão ligados à finalidade da empresa, portanto bens do titular que sejam empregados para outros fins não são considerados como parte do estabelecimento. Verçosa diz ainda: 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 11 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial “Para Lucas Rocha Furtado o estabelecimento é, ao mesmo tempo, universalidade de fato e bem móvel, composto e incorpóreo, em consonância com os arts. 1143 e 1144 do NCC.Compostoporque formado por diversos elementos organicamente agregados pelo empresário para uma determinada finalidade; eincorpóreoporque, enquanto universalidade de fato. Não pode ser tocado ou acessado fisicamente em sua integralidade.” E o artigo1146doCC/02afirma: “O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos contabilizados, continuando o devedor primitivo solidariamente obrigado pelo prazo de um ano, a partir, quanto aos créditos vencidos, da publicação, e quanto aos outros, da data do vencimento”. Isso mostra expressamente que, embora os elementos do passivo (os débitos, no caso) não façam parte do estabelecimento segundo o que decorre da definição do que é uma universalidade de fato, eles são transferidos junto a ele (desde que sejam contabilizados como inerentes ao estabelecimento negociado). Verçosa afirma sobre o assunto: “Observe-seque a Lei de Recuperação de Empresas e Falências, na condição de lei especial em relação aoCódigo Civil/2002, prevalece sobre as disposições deste, inclusive no que toca ao sistema do ‘trespasse do estabelecimento’. Nesses termos, a LREF determina, no seu art. 94, III, ‘c’, que será decretada a falência do devedor que transferir seu estabelecimento a terceiro, credor ou não, sem o consentimento de todos os credores e sem ficar com bens suficientes para solver seu passivo. Para o efeito do consentimento dos credores, o empresário deverá notificá-los da intenção da venda do estabelecimento. Esta medida, a ser efetuada no prazo de 30 dias, nos termos dos arts. 129, VI da LREF e 1145 do NCC, será sempre necessária quando for alienado o único estabelecimento do empresário, ou adotada como cautela por parte do interessado, para que não fique subordinado a uma discussão sobre lhe terem restado, ou não, bens suficientes para o cumprimento de suas obrigações. Na falta da autorização dos credores, a falência do alienante do estabelecimento poderá ser decretada pelo juiz, mediante o requerimento adequado. Feita a venda do estabelecimento sem o consentimento dos credores, uma vez decretada a falência (inclusive por outra razão qualquer que não a falta de notificação vertente), o negócio será ineficaz, voltando as partes ao estado original: o estabelecimento como se reintegra no patrimônio do empresário (agora como massa falida) e os recursos pagos ao comprador lhe serão devolvidos.” 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 12 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Portanto, o passivo do titular é algo relacionado de uma forma importante ao estabelecimento, a ponto de determinar a ineficácia da compra e venda do estabelecimento que desconsidere a existência dos credores desse passivo. Ele continua dizendo: “As regras doCódigo Civil/2002 (arts. 1144 e 1145) somente terão aplicação quando, por alguma razão, não tiver sido decretada a falência do empresário que alienou seu estabelecimento sem a autorização dos credores, caso em que qualquer um deles poderá preferir requerer em juízo tão somente que seja decretada a ineficácia deste negócio. O credor assim agirá somente se entender que a decretação da falência do devedor, mesmo diante da eventual possibilidade de adoção de um plano de recuperação, lhe trouxer piores resultados pessoais.” Além disso, Verçosa comenta em um segundo aspecto a observação de Lucas Rocha Furtado: “Quanto à segunda observação, trata-se da verificação do lugar dos serviços na atividade empresarial, e Barreto Filho os coloca como elementos constitutivos do estabelecimento, ao afirmar que o empresário necessita deles para o exercício da atividade, pois os bens materiais e imateriais que o compõem são inanimados, necessitando de quem os implemente para o fim de atingirem sua utilidade. Os referidos bens seriam apenas mero ‘instrumento potencial da atividade econômica do empresário’. Sua colocação ‘em ato’ somente poderia ocorrer a partir dos serviços prestados por empregados ou outros profissionais. Sob esse ponto de vista, as pessoas dos empregados e dos demais prestadores de serviços ao estabelecimento não podem ser consideradas como bens. Mas seus serviços decorrem de prestações obrigacionais, dotadas de valor econômico, podendo, portanto, ser consideradas bens no sentido jurídico. Dessa forma, tais prestações estariam incluídas a título de bens no estabelecimento.” Portanto, fica claro que os serviços também são parte do estabelecimento. Sobre os contratos no estabelecimento de maneira geral, diz Fábio Tokars: “Neste contexto, surgiu a conclusão doutrinária de que os contratos podem ser considerados como parte integrante do estabelecimento empresarial, desde que se mostrem necessários ao desenvolvimento da atividade, como ocorre, classicamente, com os contratos de franquia, de aluguel, de fornecimento ou de distribuição, entre tantos outros que podem ser mencionados. Como em determinados casos, em certas relações jurídicas a conexão econômica com o fundo de comércio (estabelecimento) é intrínseca, tais contratos seguem, forçadamente, o destino do estabelecimento comercial.” 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 13 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Além disso, Verçosa discorre a respeito das implicações dos serviços no direito trabalhista, na situação de compra e venda do estabelecimento: “A esse respeito devem ser feitas algumas observações importantes. No regime inaugural doCódigo Civil de 1916a universalidade de fato correspondente ao estabelecimento somente poderia ser reconhecida quanto aos bens materiais e imateriais que o formassem segundo a vontade dinâmica do empresário. Tais bens, no momento da alienação do estabelecimento, eram de propriedade do empresário ou se encontravam à sua disposição em virtude de direito real ou de contrato, titular, portanto, da faculdade de cedê-los a terceiros. Quanto aos contratos celebrados entre o empresário e terceiros cujo objeto fosse de proveito para o estabelecimento, não seriam naturalmente transmitidos ao adquirente quando do trespasse. Para tanto seria necessário o consentimento das outras partes, negociando caso a caso. A regra original doCódigo Civil de 1916foi modificada em circunstâncias específicas, tendo em vista a proteção de determinados interesses. Em primeiro lugar, com o fim de atender aos direitos dos empregados que prestavam serviços ao estabelecimento, aCLT, em seu art.448, dispôs que ‘a mudança na propriedade ou na estrutura jurídica da empresa não afetará os contratos de trabalho dos respectivos empregados’. Considerados os perfis da empresa na visão de Asquini, tudo indica que a utilização deste termo no art. 448, supra, foi feita com o significado de ‘empresário’ ou de ‘instituição’. Portanto, a norma acima não parece, à primeira vista, dizer respeito a negócios com o estabelecimento (alienação ou arrendamento), por podem ocorrer sem qualquer mudança na estrutura jurídica do empresário (venda de um dos estabelecimentos a ele pertencentes, v. G.) ou da instituição. O dispositivo sob comentário teria aplicação nos casos de mudança de controle da sociedade empresária ou de transformação, fusão, incorporação e cisão. No entanto, tem-se entendido que o art.448daCLTse aplica ao caso da alienação ou do arrendamento do estabelecimento, para o fim de serem atendidos os direitos dos empregados que prestavam serviços no estabelecimento negociado. Haveria sub- rogação do adquirente ou do arrendatário nos contratos de trabalho inerentes ao estabelecimento objeto do negócio. Ainda em benefício dos empregados, estes poderiam rescindir unilateralmente seus contratos de trabalho nas hipóteses em que se verificasse mudança do ramo de atividade até então exercido no estabelecimento.” Há ainda outra questão em relação à transferência de propriedade do estabelecimento, que é relacionada ao consentimento do locador (quando o estabelecimento tem sua base física em um lugar sob um contrato de locação). Verçosa afirma sobre isso o seguinte: 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 14 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Outra mudança das regras doCódigo Civil de 1916surgiu com a promulgação do Decreto 24.150/1934, a primeira ‘Lei de Luvas’. Na sua vigência se entendeu – conforme já dito acima – que a única forma de proteção da chamada ‘propriedade comercial’ ou ‘ponto comercial’ estaria em dar ao cessionário do estabelecimento alienado ou arrendado o direito à sub-rogação no contrato de locação do imóvel onde aquele funcionava, independentemente do consentimento dolocador. O exercício desse direito dependeria do pagamento do aluguel justo (se fosse o caso, apurado mediante perícia) e do fornecimento de um fiador idôneo em substituição ao fiador do antigo comerciante locatário. Essa situação foi mantida pela Lei8.245, de 18.10.1991, que, nos arts.51a57, passou a regular a locação não residencial em substituição ao Decreto 24.150/1934. O advento doCódigo Civil/2002 confirmou legalmente esse entendimento doutrinário e jurisprudencial, nos termos do art.1148, verbis: ‘Salvo disposição em contrário, a transferência importa a sub-rogação do adquirente nos contratos estipulados para exploração do estabelecimento, se não tiverem caráter pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato em 90 dias a contar da publicação da transferência, se ocorrer justa causa, ressalvada, neste caso, a responsabilidade do alienante.’ Não ficou claro no texto acima se a ‘disposição em contrário’ seria de natureza legal ou poderia dar-se por meio de cláusula do contrato de alienação. Entendendo-se que a Lei8.245/1991 – tomada como lei especial – foi recepcionada peloCódigo Civil/2002 na sua integralidade, seus mecanismos continuaram integralmente em vigor, sem alteração no capítulo referente à locação não-residencial. Eventual cláusula contratual restritiva do direito de transferência da locação que impedisse a alienação ou o arrendamento do estabelecimento contrariaria os princípios regentes da ‘propriedade comercial’ e, portanto, seria ilegal e, consequentemente, nula, porque buscaria frustrar o proveito que dela poderia auferir o seu titular (no sentido de usar, fruir ou dispor).” Ou seja, fica claro que se trata de uma disposição legal em sentido contrário. “Voltando à questão dos serviços como integrantes ou não do estabelecimento, as regras explícitas do NCC, nos termos do art. 1.148, são as seguintes, esquematicamente: (i) integram-no os contratos estipulados para exploração do estabelecimento; (ii) não o integram os contratos celebrados intuitu personae; (iii) mesmo considerados seus serviços como integrantes do estabelecimento, os terceiros prestadores poderão rescindir os respectivos contratos com o adquirente sub-rogado dentro de 90 dias da publicação da transferência, na hipótese de justa causa, ressalvada a responsabilidade do alienante. Na qualidade da lei especial em relação aoCódigo Civil/2002, mantém-se igualmente aplicável o art.448daCLT, acima referido, devendo ser compatibilizado com o art. 1.148 daquele. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 15 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Algumas dificuldades práticas de aplicação do art. 1.148 do NCC podem ocorrer nos casos em que o empresário ou a sociedade empresária seja titular de mais de um estabelecimento e tenha uma administração centralizada (compras, vendas, contabilidade etc.). Neste caso enfrentar-se-á o problema de saber quais os contratos celebrados pelo titular do estabelecimento alienado e em que medida eles seriam referentes à exploração do estabelecimento alienado.” Como fica, portanto, o conceito de estabelecimento? Barreto Filho define o “estabelecimento comercial” (também chamando de fundo ou “fazenda comercial” como o “complexo de bens lato sensu organizados pelo empresário como instrumento para o exercício da atividade empresarial.” Para Verçosa, no entanto, dado tudo que se expôs, seria melhor complementar esse conceito para a seguinte definição: “Considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado para o exercício da empresa, por empresário ou sociedade empresária, juntamente com os débitos àquele referidos, estes desde que devidamente contabilizados.” São incluídos os débitos ao conceito de estabelecimento, portanto. “Deve ser ressaltado, ainda, que o NCC, em seu art. 90, apresenta o conceito de ‘propriedade dinâmica’ ou ‘propriedade-pertinência’, onde se lê que ‘constitui universalidade de fato a pluralidade de bens singulares que, pertinentes à mesma pessoa, tenham destinação unitária’ (grifei). Desta forma, o estabelecimento é formado não somente pelos bens que integram a propriedade do empresário no sentido tradicional (dos quais ele tem o domínio), mas também por aqueles bens dos quais ele se utiliza a título de contratos de locação, de arrendamento mercantil etc., os quais se encontram na esfera de sua ‘pertinência subjetiva’, por aquele organizados para o exercício de sua atividade.” Isso está relacionado ao princípio da construção continuada do estabelecimento.Segundo Marcelo Andrade Féres, o estabelecimento nunca está pronto e acabado, ele está sempre em evolução (2007, p.22). “A referida propriedade-pertinência está agasalhada no art. 1.148 do NCC, onde se lê que, ‘salvo disposição em contrário, a transferência importa a sub-rogação do adquirente nos contratos estipulados para a exploração do estabelecimento, se não tiverem caráter pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato em 90 dias a contar da publicação da transferência, se ocorrer justa causa, ressalvada, neste caso, a responsabilidade do alienante’ (grifei). Ou seja, a única hipótese de rescisão dos contratos em tela reside na presença de justa causa” – e aqui Verçosa se refere às causas de nulidade ou anulabilidade de um negócio jurídico previstas regularmente peloCódigo Civil– “perdendo o proprietário dos bens o direito de retomar sua posse na transferência do estabelecimento. Esta propriedade também é chamada de ‘dinâmica’, porque seu conceito evoluiu substancialmente em relação àquela regulada peloCódigo Civil de 1916, considerada clássica, estática e, basicamente, improdutiva.” 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 16 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial “Quanto à natureza jurídica do estabelecimento, Lucas Rocha Furtado faz interessantes considerações. Em primeiro lugar, ele se refere à posição de Fábio Ulhôa Coelho, para quem ‘o estabelecimento empresarial, como um bem do patrimônio do empresário, não se confunde, assim, com os bens que o compõem’. Rocha Furtado não concorda com a inclusão do estabelecimento no patrimônio do empresário. Para este autor o conceito de ‘patrimônio’ é contábil, representado pelo balanço patrimonial, por meio do qual se tem uma visão meramente estática dos valores individualizados de cada um dos bens, dos direitos e das obrigações do empresário. Rocha Furtado observa, adequadamente, que alguns elementos não patrimoniais integram o estabelecimento e, portanto, não aparecem no balanço, tais como a expectativa de lucro, a clientela e o bom nome do empresário na praça. Embora no balanço o ativo do empresário se aproxime da identidade do estabelecimento, com aquele não se confunde, por duas razões: (i) o valor total do ativo corresponde à soma aritmética dos haveres do empresário; e (ii) elementos não patrimoniais integram significativamente o estabelecimento, não constando do balanço. E a prova disto está no preço que se atribui ao estabelecimento no momento de sua venda, frequentemente muito superior à soma dos valores contábeis – diferença correspondente, apropriadamente, aos elementos não patrimoniais.” É comum que alguns autores, como por exemplo Rubens Requião, Fran Martins, Waldirio Bulgarelli, utilizem as a expressão “fundo de comércio” (por influência francesa) e “azienda” (por influência italiana, que significa negócio, empresa, firma) como sinônimas de estabelecimento empresarial. Para Fábio Ulhôa, no entanto, o “fundo de comércio” ou “fundo de empresa” não pode ser considerado sinônimo de estabelecimento empresarial, já que na verdade corresponde ao valor agregado do estabelecimento (conjunto de bens organizados), sendo um atributo do estabelecimento (COELHO, v.1, 2007, p.98). Além disso, deve ser distinguidoo conceito de estabelecimento do conceito de patrimônio. Segundo Maria Helena Diniz, “Direito Civil. Complexo das relações jurídicas de uma pessoa que tenham valor econômico (Clóvis Bevilaqua). Incluem-se no patrimônio: a posse, os direitos reais, as obrigações e as ações correspondentes a tais direitos. O patrimônio abrange direitos e deveres redutíveis a dinheiro, consequentemente, nele não estão incluídos os direitos de personalidade, os pessoais entre cônjuges, os oriundos de poder familiar e políticos”. Portanto, o estabelecimento é parte integrante do patrimônio empresarial, todavia, mas os conceitos lógico-jurídicos não se confundem, por serem realidades distintas. Não é o estabelecimento o patrimônio da empresa, mas sim parte dele. Existem, então, elementos do estabelecimento empresarial que não são caracterizados como patrimônio da empresa ou do empresário, e também existem parcelas integrantes do patrimônio que não são elementos do estabelecimento. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 17 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Elementos do estabelecimento Entende-se atualmente que o estabelecimento é composto por bens corpóreos e incorpóreos. Alguns autores mais antigos, baseados numa visão de empresa estática ou mesmo no uso vulgar da palavra estabelecimento, priorizam bastante os elementos corpóreos. É o que faz Rubens Requião quando define o “fundo de comércio” como “a base física da empresa”, o que é claramente uma visão desatualizada do assunto. Além disso, os imóveis não fazem parte do estabelecimento, e sim só apenas os móveis utilizados com as finalidades que descrevemos exaustivamente acima. Portanto, “base física”, que é algo que remete diretamente a um imóvel, é uma descrição pouco apurada mesmo dos elementos corpóreos que constituem um estabelecimento. Os bens móveis que compõem o estabelecimento podem ser classificados como capital fixo, capital de produção e capital de giro (ou capital circulante). Os primeiros são máquinas, instalações, etc. – aqueles que ficam no estabelecimento por uma maior quantidade de tempo. Os outros “são representados por fundos destinados a financiar a atividade produtiva ou de intermediação. Podem ser constituídos por recursos próprios (fornecidos pelos sócios em troca de ações ou de quotas de sociedades limitadas) ou de terceiros (oriundos de empréstimos)”, segundo Verçosa. Já o capital circulante é composto pelos insumos industriais e as mercadorias, que são elementos intrínseca (isso é, material) ou economicamente consumíveis. 1. Elementos corpóreos Para citar alguns exemplos, os elementos corpóreos seriam as mercadorias, o mobiliário, as máquinas ou equipamentos etc. Alguns autores consideram os imóveis como parte do estabelecimento, como já foi dito. Um deles é Rocha Furtado, que afirma que haveria uma contradição em admitir que o ponto comercial seria parte do estabelecimento mas não o imóvel onde ele está instalado. No entanto, Verçosa rejeita essa hipótese com base no fato que a tutela do estabelecimento na lei não abrange o imóvel. Se for transferida a propriedade de um estabelecimento, por exemplo, o imóvel em que a empresa concentra suas atividades deve ser vendido por meio de um contrato separado, e a propriedade somente será reconhecida mediante as regulares solenidades legais (escritura pública e registro em Cartório de Imóveis). Isso demonstra que o imóvel não é considerado parte do estabelecimento no direito atual. 1. Elementos incorpóreos São principalmente a expectativa de lucros (aviamento), o bom nome do empresário, o ponto comercial, os contratos relacionados com a atividade do empresário, o título, a insígnia do estabelecimento e os bens inerentes à chamada “propriedade industrial” 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 18 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial (ou seja, marcas e patentes). O título do estabelecimento serve ao reconhecimento do lugar – é um nome utilizado para identificar o local em que está instalado o estabelecimento. A insígnia, por sua vez, é um símbolo ou figura característica daquele estabelecimento, utilizada para reconhecer o local. É o caso do M do McDonald’s, por exemplo. No mundo atual, muitas empresas têm mais bens incorpóreos do que corpóreos, como empresas virtuais. A estrutura e o funcionamento do estabelecimento comercial A unidade do estabelecimento decorre, principalmente, de ser um instrumento da atividade de um empresário ou sociedade com organicidade dinâmica. A metáfora usada por Barreto Filho é conhecida: é a diferença entre um amontoado de livros e uma biblioteca organizada. Muitas vezes, assim como uma biblioteca, um estabelecimento opera em um ramo específico, com uma finalidade. Para Verçosa, “é no estabelecimento que o empresário conjuga dinamicamente os fatores da produção (classicamente, natureza, capital e trabalho – aos quais a Economia moderna acrescentou a tecnologia, com grande peso na atividade econômica, muitas vezes até predominante). Portanto, a dinamicidade é tida como um elemento importante na organização e no funcionamento do estabelecimento. Além disso, é importante frisar que o empresário não precisa ter apenas um estabelecimento. O que distingue os diferentes estabelecimentos de um empresário é uma característica importante já citada: a finalidade do conjunto de bens. Estão também separados legalmente dentro do patrimônio do empresário os elementos do ativo que formem os “bens de família”. Estes não podem ser objeto de execução de dívidas e são também impenhoráveis. Sua definição é bem simples: são aqueles direcionados ao sustento da família desse empresário. Na sociedade empresária, a situação é diferente: o patrimônio é integralmente destinado à realização do objeto social previsto e delimitado no estatuo. Dentro do patrimônio da sociedade empresária não existe um patrimônio autônomo ou separado. A titularidade do estabelecimento pode, ainda, ser de uma terceira pessoa – é o que ocorre em contratos de arrendamento. Segundo Verçosa, “deve o arrendador relacionar em instrumento integrante do contrato de arrendamento os bens que o compõem, na sua totalidade, para que venham a ser entregues como unidade jurídica ao arrendatário, novo responsável pela sua utilização econômica também como uma unidade, a ser devolvida íntegra ao arrendador no final do contrato, exceto quanto aos bens naturalmente consumíveis.”. 1. Aviamento 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 19 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial O aviamento é a capacidade de gerar lucros de um estabelecimento. Ela pode decorrer da própria localização de um estabelecimento, e nesse caso será o aviamento objetivo (“local goodwill”) ou das particularidades subjetivas de um estabelecimento, como uma atuação competente de um empresário (será o aviamento subjetivo, ou “personal goodwill”). Para Féres (que não separou os conceitos de aviamento objetivo e subjetivo para chegar à seguinte concepção), "oavviamentoconstitui um atributo do estabelecimento, e não da empresa, como pretende parte da doutrina. Inegavelmente, oavviamentoé o sobrevalor que se confere ao estabelecimento bem organizado. Suponha-se que um empresário, que vende no varejo calçados de luxo, tenha dois estabelecimentos empresariais, um situado num bairro nobre e outro numa localidade humilde. No primeiro ponto, ele tem ótima clientela, as vendas são significativas. No segundo, o movimento não é suficiente para o pagamento dos custos operacionais. Com certeza, oavviamentonão pode estar relacionado à empresa (atividade), pois ela é idêntica em ambas as situações.A capacidade de gerar lucro, assim, decorre diretamente da articulação dos elementos do estabelecimento, inclusive o espacial, o que torna patente que cadaaziendatem seuavviamento"(FÉRES, 2007, p.34) Verçosa cita os seguintes exemplos e explica detalhadamente a característica do aviamento: “Uma livraria localizada no saguão de um aeroporto é capaz de gerar grandes lucros independentemente da boa organização do empresário. Muitas pessoas nela comprarão livros e revistas porque simplesmente têm urgente necessidade de matar o tempo quando ocorrem longas esperas para embarque ou se preparam para enfrentar muitas horas de voo. Aí está presente o aviamento objetivo. Consumidores podem ser levados a atravessar toda a cidade em busca de um conhecido restaurante ou de uma padaria famosa por seus pães. Neste último caso, matematicamente, a relação custo/benefício, representada pelo gasto de tempo e combustível, levaria geralmente os consumidores a adquirir pães na padaria mais próxima de suas casas. Mas a qualidade de determinada padaria os leva a desprezar os aspectos econômicos negativos. Nestes casos nota-se a presença indubitável do aviamento subjetivo. Os estabelecimentos assim caracterizados apresentam capacidade geradora de lucros em função do papel particular do empresário na organização, no preço, na qualidade, na apresentação dos produtos etc. Um exemplo marcante de aviamento subjetivo puro deu-se durante o mês de dezembro de 2003, em São Paulo, em relação a uma conhecida sociedade empresária do ramo do varejo que, na época do Natal, alugou um pavilhão, normalmente 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 20 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial utilizado por convenções, onde instalou uma loja provisória, a qual apresentou um afluxo substancial de clientes, tendo gerado altíssimo volume de vendas. Em um shopping center, consideradas duas lojas que exploram a mesma atividade, uma delas pode ir muito bem e a outra tão mal que termina fechando. Esses centros de venda apresentam um aviamento objetivo natural, pelas comodidades oferecidas aos consumidores. Basta ver que no mesmo dia da inauguração, e a partir dessa data, passa a estar a eles agregada uma clientela ponderável, que não mais os abandonará. Portanto, identificação de aviamento objetivo. Mas, a partir deste aviamento preexistente, outro se lhe suporpõe – o subjetivo, que leva os frequentadores do shopping center a preferirem um estabelecimento em detrimento de outro do mesmo ramo, conforme acima exemplificado. A diferença estará no melhor aviamento subjetivo apresentado por um em relação ao outro. Neste caso, identifica-se a categoria mista acima mencionada, aviamento objetivo/subjetivo.” O aviamento objetivo tem consequências claras no mercado, especialmente no valor dos aluguéis e de venda de imóveis ou pontos comerciais. Existe até o conceito de “propriedade comercial” que se dá paralelamente à “propriedade imobiliária”, já aplicado por alguns juristas. Pode ainda haver um “aviamento negativo” ou desaviamento, que se dá pela extrema desvalorização de um lugar. Pode ocorrer como decorrência de uma notícia ruim, por exemplo, que desvalorize uma empresa no mercado, ou pela desvalorização da estrutura física de um estabelecimento, como ocorreu na região do Minhocão depois da construção do viaduto na região norte de São Paulo. Outro fator a ser considerado é que o aviamento não decorre apenas de circunstâncias técnicas, mas também de características pessoais do empresário. Enfim, o aviamento é um conjunto de aspectos objetivos e subjetivos que não existem isoladamente, e sim apenas em um conjunto que traz relações recíprocas. Os aspectos objetivos trazem consequências para os subjetivos, consequências negativas ou positivas. O aviamento objetivo é, de certa forma, uma parte da propriedade imobiliária. Pode sofrer uma valorização ou desvalorização, dependendo da situação do imóvel e dos imóveis ao redor, e está sujeito a risco. Para Verçosa, “no entanto, se um empresário pagou ‘luvas’ por esse aviamento como condição de um contrato de locação mercantil, se tal aviamento vier a ser minorado ou extinto como efeito de uma desapropriação, o comerciante locatário terá direito a uma indenização, a ser obtida por meio de ação em seu próprio nome, como pessoa dotada de legitimidade para tanto, paralelamente ao titular da propriedade imobiliária, que terá o mesmo direito em ação própria.”. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 21 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial O aviamento subjetivo integra-se ao estabelecimento, podendo fazer parte da propriedade comercial, já que se torna parte da marca e da reputação desse estabelecimento. A propriedade comercial é protegida por uma renovação compulsória do contrato de locação. Esse aluguel deve ser mantido em um preço justo, e o locador não pode pedir um aumento no preço se a melhoria no aviamento resultar do aviamento subjetivo e não do aviamento objetivo. O aviamento – e a clientela, que será analisada agora – têm também um papel importante no momento da alienação do estabelecimento, já que são os fatores que tornam mais vantajoso vender esse estabelecimento como uma universalidade e não vender os bens separadamente. O aviamento e a clientela são fatores que decorrem diretamente da universalidade, do próprio conceito de universalidade, e por isso devemos caracterizá-los para entender a natureza do estabelecimento, que depende diretamente de como vemos o caráter de todas as universalidades no Direito. 1. Clientela A clientela é um conceito relacionado intimamente ao aviamento de um estabelecimento, principalmente porque decorre principalmente dele – quanto maior o aviamento objetivo e subjetivo, maior a clientela. Pode-se dizer inclusive que a clientela é um fator do aviamento. A clientela também pode ser chamada mais apuradamente de “freguesia” – (achalandage “versus” clientèle, no Direito francês). Ao contrário do que defende erroneamente uma parte da doutrina, a clientela não é um bem imaterial do estabelecimento. A proteção da clientela, então, não se dá diretamente, e sim pela proteção à concorrência: ninguém pode se apropriar da clientela alheia de forma desleal. Isso é protegido também quando o estabelecimento é alienado e o titular original é impedido de competir na mesma região e nicho de mercado que o titular que o sucede. Há o entendimento na doutrina de que existe uma cláusula implícita no contrato de trespasse protegendo isso, e essa cláusula se estenderia por cinco anos. Ocódigo civil de 2002, no entanto, traz uma regra própria para esses casos no art.1147: “Não havendo autorização expressa, o alienante do estabelecimento não pode fazer concorrência ao adquirente, nos cinco anos subsequentes à transferência”. Existe ainda um parágrafo único desse artigo dispondo que no caso de arrendamento ou usufruto, a proibição prevista persistirá durante o prazo do contrato. Há uma diferenciação, ainda, entre “clientela atual” e “clientela potencial”. A clientela atual é aquela que se efetiva no presente, uma clientela habitual. Já a clientela potencial acontece quando existe uma probabilidade concreta de vir a se 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 22 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial instalar uma clientela em um lugar, como quando há um shopping center em construção, por exemplo, e espera-se que muitas pessoas frequentem aquele shopping por sua localização ou infra-estrutura, por exemplo. Para Barreto Filho, a clientela é “o conjunto de pessoas que, de fato, mantêm com o estabelecimento relações continuadasde procura de bens e serviços.” É uma manifestação da existência de aviamento, portanto. De acordo com Marlon Tomazette: "Não obstante seja incorreto falar-se em direito à clientela, é certo que há uma proteção jurídica a ela, consistente nas ações contra a concorrência desleal. Todavia, tal proteção não torna a clientela objeto de direito do empresário, pois o que se protege na verdade são os elementos patrimoniais da empresa, aos quais está ligada a clientela, esta recebe uma proteção apenas indireta" (TOMAZETTE, 2004, p.14). Portanto, a clientela não pertence ao empresário ou ao estabelecimento, é claro. Os empresários atuam em livre concorrência, então a ligação da clientela ao estabelecimento sempre é frágil e baseada em confiança. Uma consequência de aviamento e clientela se vê, por exemplo, no interesse de empresários em comprar um estabelecimento pertencentes a um empresário falido. A permanência do aviamento após a falência é reconhecida pela legislação falimentar, ao, segundo Verçosa, “adotar medidas destinadas à preservação da integridade do estabelecimento comercial do empresário malsucedido, especialmente a partir do advento da Lei de Recuperação de Empresas e Falências, cujo foco principal voltou-se para a recuperação da empresa. Por exemplo, nos termos do art. 141, I, será feita preferencialmente a alienação da empresa (ou seja, da atividade organizada) de forma indireta, pela venda dos seus estabelecimentos em bloco. Ou seja: não se deve fazer sua desagregação objetivando a venda isolada dos bens. Deve-se vendê-lo íntegro, e o mais rapidamente possível, para o fim de continuar proporcionando lucros ao seu titular. O estabelecimento somente será considerado extinto, dentro da falência, caso seja feita sua desconstituição pela liquidação individual dos bens que o formavam. Sobre a natureza jurídica do aviamento, Verçosa expõe quatro teorias: 1. Bem material ou elemento incorpóreo do estabelecimento, constituindo objeto autônomo de direitos; 2. Sinônimo de estabelecimento; 3. Qualidade ou atributo do estabelecimento; 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 23 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial 4. Um bem resultante dos fatores do estabelecimento e da pessoa do titular. As duas primeiras teorias são inapropriadas porque o aviamento não é considerado no direito corrente em si mesmo, em momento algum, e sim só apenas como relacionado ao estabelecimento. Ele também não é o próprio estabelecimento, porque a capacidade de gerar lucros não é sinônima do conjunto de bens de uma empresa. Além disso, pode haver um estabelecimento totalmente despido de aviamento, como quando existe capital mas por alguma condição adversa, não há a menor condição de se gerar lucro naquele estabelecimento. Tendo tudo isso em mente, como avaliar o aviamento? Isso exige conhecimentos de economia e contabilidade e não é uma tarefa simples. Esse aspecto do aviamento é analisado nas palavras de Sérgio José Dulac Müller e Thomas Müller: “E corresponderia ele, tal ágio, [o aviamento] à constatação de produção de lucros superiores aos de outros investimentoslinkadosà ideia de que uma hipotética venda da empresa, como um todo, viesse a alcançar um preço superior ao do preço dos ativos isolados. Assim, o valor do aviamento de um negócio singular ou de uma empresa é essencialmente igual ao valor atual do excesso dos lucros que, na hipótese de uma administração normal, dirigida por energias físicas, de vontade e de inteligência normais, possam ser esperados ou presumidos de capitais investidos efetivamente no negócio ou empresa, sobre lucros médios que costumam produzir capitais empregados com igual segurança em outros negócios ou empresas similares ou análogos, mas em condições comuns, não privilegiadas, considerando que só é lucro do negócio o que a empresa consegue produzir de resultado, além do que conseguiria em outra operação. Com efeito, o Fundo de Comércio equivaleria ao excesso de lucro que se obteria acima do rendimento normal esperado para o capital empatado. A avaliação do Goodwill, a mensuração do aviamento, a medida do Fundo de Comércio, as bitolas da ‘esperança’, são apuradas, ainda que o mercado, o primeiro juiz, o mais severo deles e o mais correto, com suas leis inexoráveis possa pontualmente não placetar, podem ser razoavelmente sinalizadas com tal forma, com tal esquema, porquanto este, de modo sistêmico, ante ao que está registrado, como ativos e sua avaliação, e como lucros auferidos dentro de periodicidade correta. Com a perspectiva de uma certa duração e supostas como constantes determinadas variáveis, sem que se pretenda a perenidade, escoimadas as margens de subjetividade no que é possível, respeitando-se a ponderação de que os números que possam ser econtrados nunca serão os mesmos em casos de venda da empresa como um todo ou de reembolso a sócio que se retira, variando aí também a situação de quem saia em razão do exercício do direito de retirada e a de quem saia ou se despeça em função do distrato. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 24 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Ou seja, o valor agregado existe e é medido.” Existem dois métodos recomendados para que essa medição possa ocorrer: 1. Fluxo de caixa descontado: é o valor presente dos fluxos de caixa esperados de um ativo; 2. Avaliação relativa: é o valor obtido por meio de ativos já valorados de empresas semelhantes. Tal valor pode inclusive ser negativo, caso no qual se chama badwill ou goodwill negativo, na hipótese de deságio e/ou relacionado à expectativa de prejuízos futuros. Nesse caso, podemos chamar a situação de “desaviamento”, e consiste em uma desvalorização do estabelecimento. O nome empresarial e a identificação do estabelecimento A doutrina costuma se referir a esse tópico com o termo “elementos de identificação da empresa”, incluindo o nome comercial, as marcas, as expressões, os sinais de propaganda, entre outros. Na realidade, tecnicamente, a empresa não tem um nome. A designação da empresa vem da designação jurídica do nome empresarial ou título doestabelecimento. Uma grande empresa geralmente é identificada por uma parte expressiva de seu nome empresarial, o que chamamos de “expressão de fantasia”, ou ainda pelo título de seu estabelecimento (Verçosa dá como exemplo a “TV Tupi” e as lojas “Mappin”, títulos de seus estabelecimentos). Um detalhe importante nesse caso é que as marcas nem sempre são exploradas pelos próprios titulares. Uma empresa pode fabricar produtos com a marca possuída por outra empresa. O nome empresarial é regulado pelo Código Civil de 2002 nos arts. 1155 a1168. Nas próximas páginas, será feita a análise de alguns desses artigos, na ordem em que estão dispostos no código. Art. 1.155. Considera-se nome empresarial a firma ou a denominação adotada, de conformidade com este Capítulo, para o exercício de empresa. Parágrafo único. Equipara-se ao nome empresarial, para os efeitos da proteção da lei, a denominação das sociedades simples, associações e fundações. O nome empresarial tem como função identificar o empresário ou sociedade empresária para os fins de direito, nos negócios da empresa. A Constituição Federal protege os “nomes de empresas e a outros signos distintivos”, segundo o inciso XXIX 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 25 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial do art. 5º (“a lei assegurará aos autores de inventos industriais, à propriedade das marcas, aos nomes de empresas e a outros signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômicodo País”), estando esses nomes sujeitos às normas doCódigo Civil atual. Por isso ele não é objeto de alienação (ver art. 1164 citado abaixo), representando uma emanação do direito de personalidade. Art. 1.156. O empresário opera sob firma constituída por seu nome, completo ou abreviado, aditando-lhe, se quiser, designação mais precisa da sua pessoa ou do gênero de atividade. O nome empresarial tem duas modalidades: a firma e a denominação. A firma pode ser individual (aquela usada por um empresário) ou social (conhecida como “razão social”). Art. 1.157. A sociedade em que houver sócios de responsabilidade ilimitada operará sob firma, na qual somente os nomes daqueles poderão figurar, bastando para formá-la aditar ao nome de um deles a expressão" e companhia "ou sua abreviatura. Isso ocorre em sociedade em nome coletivo e em sociedade em comandita simples. “E Companhia” pode ser abreviado para “e Cia.”. Ainda que pelo contrato social, alguns sócios não tenham responsabilidade solidária e ilimitada, caso seu nome seja parte da firma ou razão social, eles passam a estar sujeitos a essa responsabilidade (a exceção, é claro, são EIRELIs, que têm por essência responsabilidade limitada). Isso é importante porque, quando a empresa faz negócios sob o nome desses sócios, ela dá a entender que conta com o patrimônio deles para pagar suas obrigações subsidiariamente. No caso da sociedade limitada, é diferente. O nome empresarial pode ser dado por firma ou denominação (a denominação, portanto, não funciona para formas menos sofisticadas de organização como o empresário individual e a sociedade ilimitada). A firma social será o nome de um ou mais sócios, desde que pessoas físicas, e a denominação é o objeto da sociedade. O § 1º. Abaixo do art. 1158 é uma impropriedade, na realidade, já que o que caracterizaria a denominação é justamente a ausência de nome de sócios. Parágrafo único. Ficam solidária e ilimitadamente responsáveis pelas obrigações contraídas sob a firma social aqueles que, por seus nomes, figurarem na firma da sociedade de que trata este artigo. Art. 1.158. Pode a sociedade limitada adotar firma ou denominação, integradas pela palavra final" limitada "ou a sua abreviatura. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 26 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial O nome sempre deveincluir a palavra “limitada”. Caso contrário, é presumida uma responsabilidade solidária. Em atos jurídicos praticados pelos administradores, deve constar o termo “limitada”, além de constar no registro. § 1o A firma será composta com o nome de um ou mais sócios, desde que pessoas físicas, de modo indicativo da relação social. § 2o A denominação deve designar o objeto da sociedade, sendo permitido nela figurar o nome de um ou mais sócios. § 3o A omissão da palavra" limitada "determina a responsabilidade solidária e ilimitada dos administradores que assim empregarem a firma ou a denominação da sociedade. Art. 1.159. A sociedade cooperativa funciona sob denominação integrada pelo vocábulo" cooperativa ". Art. 1.160. A sociedade anônima opera sob denominação designativa do objeto social, integrada pelas expressões" sociedade anônima "ou" companhia ", por extenso ou abreviadamente. É recomendável que não se utilize o termo “Companhia”, para que não se confunda a S/A com outras formas de organização empresarial. Parágrafo único. Pode constar da denominação o nome do fundador, acionista, ou pessoa que haja concorrido para o bom êxito da formação da empresa. Art. 1.161. A sociedade em comandita por ações pode, em lugar de firma, adotar denominação designativa do objeto social, aditada da expressão" comandita por ações ". Art. 1.162. A sociedade em conta de participação não pode ter firma ou denominação. Isso acontece porque é uma sociedade interna entre o sócio ostensivo e o sócio oculto, que celebra contratos apenas pela pessoa do sócio ostensivo. Art. 1.163. O nome de empresário deve distinguir-se de qualquer outro já inscrito no mesmo registro. O nome empresarial, segundo a Lei 8.934, art. 34, obedece a dois princípios quando de sua formação: a veracidade e a novidade. A veracidade consiste em dar ao empresário ou sociedade o nome verdadeiro de seu empresário ou sócios. A novidade, por sua vez, 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 27 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial consiste no que é tutelado pelo artigo acima, e geralmente é praticada pelo acréscimo de um ramo de atividade depois do nome do empresário ou da sociedade (“José da Silva Serviços de informática”, por exemplo), como afirma o artigo abaixo. Parágrafo único. Se o empresário tiver nome idêntico ao de outros já inscritos, deverá acrescentar designação que o distinga. Sendo violado o princípio da veracidade ou novidade, cabe ao prejudicado, a qualquer tempo, ação para anular a inscrição do nome empresarial feita com violação da lei ou do contrato. Entende-se que esse direito é, portanto, imprescritível – o que é coerente com ser um direito da personalidade. No entanto, isso deveria ocorrer apenas no caráter subjetivo do nome, segundo Verçosa, sendo ações devidas a violações referentes ao caráter objetivo prescritíveis. Art. 1.164. O nome empresarial não pode ser objeto de alienação. Parágrafo único. O adquirente de estabelecimento, por ato entre vivos, pode, se o contrato o permitir, usar o nome do alienante, precedido do seu próprio, com a qualificação de sucessor. Art. 1.165. O nome de sócio que vier a falecer, for excluído ou se retirar, não pode ser conservado na firma social. Essa última recomendação atende ao princípio da veracidade. Art. 1.166. A inscrição do empresário, ou dos atos constitutivos das pessoas jurídicas, ou as respectivas averbações, no registro próprio, asseguram o uso exclusivo do nome nos limites do respectivo Estado. Parágrafo único. O uso previsto neste artigo estender-se-á a todo o território nacional, se registrado na forma da lei especial. A amplitude da proteção geográfica dada ao nome empresarial diz respeito ao âmbito do Estado em que foi feita a inscrição do empresário ou realizado o registro dos atos constitutivos das sociedades empresárias ou respectivas averbações. No entanto, o Brasil é signatário da “Convenção de Paris para Proteção da Propriedade Industrial” – revisão de Estocolmo de 1967, aqui promulgada pelo Decreto 75.572, de 1975. Esse tratado visa proteger a “propriedade industrial” abrangendo as patentes, as marcas e o nome comercial (em seu art. 1º.). Segundo seu art. 2º., n.3, ficam ressalvadas apenas as disposições da legislação de cada país-membro no tocante ao processo judicial e à competência, bem como à escolha de domicílio ou à designação de mandatário eventualmente exigidas pelas leis locais de propriedade. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 28 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Ainda, nos termos do art. 8º., o nome comercial será protegido em todos os países participantes desse acordo internacional, sem obrigação de depósito ou de registro, quer faça ou não parte de uma marca. Portanto, a proteção dada a um empresário ou sociedade empresária domiciliada no exterior tem como alcance todo o território nacional brasileiro. Uma situação de desigualdade entre brasileiros e estrangeiros nesse sentido seria inconstitucional, dado o art. 5º., caput da Constituição de 1988, que afirma a igualdade entre brasileiros e estrangeiros tornando invioláveis o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Como o nome comercial pode ser considerado um bem, ele deve serprotegido em seu aspecto objetivo. Além disso, o aspecto subjetivo também, dado que emana de um direito da personalidade. É nesse sentido que Verçosa ataca o Art. 1166 do Código Civil de 2002, afirmando que ele é inconstitucional, pois: “Ora, oCódigo Civil/2002 acarretou mudança de um sistema em pleno vigor, sem o atendimento dos requisitos necessários à revogação de tratados internacionais. Para esse efeito, como se sabe, torna-se necessária sua denúncia formal pelo país participante interessado, o que não ocorreu em relação ao presente caso. De tudo isso se conclui que o art. 1166 do NCC (caput e parágrafo único) é inconstitucional. A proteção ao nome comercial, uma vez praticados os atos próprios pelo interessado, tem alcance em todo o território do País e dos países-membros signatários da União de Paris.” Art. 1.167. Cabe ao prejudicado, a qualquer tempo, ação para anular a inscrição do nome empresarial feita com violação da lei ou do contrato. Art. 1.168. A inscrição do nome empresarial será cancelada, a requerimento de qualquer interessado, quando cessar o exercício da atividade para que foi adotado, ou quando ultimar-se a liquidação da sociedade que o inscreveu. Para Barreto Filho, o nome empresarial tem duas funções, uma subjetiva e outra objetiva. A primeira, a subjetiva, corresponde a um direito da personalidade, e é o nome que tanto o empresário quanto a sociedade usam na prática de seus atos jurídicos. Não há negociação dessa modalidade subjetiva. Caso se interpretasse o disposto de forma mais ampla, para proibir a venda de todo o nome em seu aspecto objetivo, haveria uma proibição inconstitucional, já que o titular do estabelecimento retém o direito de propriedade sobre os aspectos objetivos do nome – são seus bens. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 29 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Um objeto de discussão interessante a respeito da venda de nome comercial é o caso da Cantina Giovanni Bruno, uma sociedade limitada cuja denominação era “Cantina do Giovanni Bruno LTDA.”. Houve uma cessão das cotas da sociedade, transferindo o estabelecimento e seu título para novos sócios. Após alguns anos, sob a alegação de que estariam se valendo de seu nome civil para lucrar indevidamente, o chef de cozinha Giovanni Bruno buscou impedir que o nome fosse utilizado no restaurante (ver apelação cível no. 056.510.4/7-00). Entendeu o TJ-SP, no entanto, que Giovanni Bruno não teria mais direito àquele nome comercial, já que ele foi transferido a título oneroso, sendo parte do que aqui chamamos de aspecto objetivo do nome comercial. O nome “Giovanni Bruno”, quando empregado na cantina, deixou de ser um nome civil e passou a ser denominação comercial. Não se tratava de uma firma, caso no qual seria impossível a sua alienação, e sim uma denominação. No entanto, a polêmica é notável, já que deve ser considerada certa proteção ao consumidor no nome comercial – afinal, o consumidor não deveria ser levado a pensar que está indo comer no restaurante do Giovanni Bruno, um chef famoso, quando não está. A questão ainda tange o seguinte problema: a partir do momento em que o código passou a permitir que se inserisse o nome dos sócios ou empresários em uma denominação (quando antes não era permitido, restando certo que “Cantina do Givoanni Bruno” seria uma firma, por exemplo), ele não deixa se essas denominações com nome deveriam também ser inalienáveis. No entanto, entende-se, por extensão do direito da propriedade e livre disposição dos bens, que esse não seria o caso. Ainda sobre o assunto, o Ministro Sálvio de Figueiredo, em decisão constante de RSTJ, 21/315, afirma: “O nome comercial é gênero em qual se incluem as seguintes espécies: 1. firma individual: ‘constituída sob o patronímico do empresário que comercia isolado’. Ex.: A. Siva ou ‘Alfredo Silva-Atacadista’; 2. firma ou razão social: constituída pelo patronímico de um, alguns ou todos os sócios, acompanhado ou não do aditamento por extenso ou abreviado – ‘& Companhia’. Ex.: ‘Paulo Silva, Jorge Antunes & João Santos’ ou ‘Silva, Antunes & Santos’, ou, ainda, ‘Paulo Silva & Cia.’; 3. denominação social: sem vinculação necessária ao nome civil dos sócios, sendo formado, no mais das vezes, por um nome de fantasia – Ex.: ‘Casa Jardim, Artigos Agrícolas Ltda.’. É destinada às sociedades anônimas, podendo também ser usadas pelas sociedades por quotas de responsabilidade limitada.” No caso do chef Giovanni Bruno, fica claro que se trata do caso c) – uma denominação de uma sociedade limitada. Por isso a decisão do TJ. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 30 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Além da firma ou denominação, fazem parte do nome empresarial também o título do estabelecimento, a insígnia, pseudônimos, alcunhas, iniciais da firma, siglas formadas pelas iniciais ou silabadas destacadas do nome da empresa ou sociedade, a “expressão fantasia” (palavra característica da denominação social), e outros elementos eventualmente ligados à identificação do estabelecimento. Essa descrição não está totalmente de acordo com o código civil (vide Art. 1155 acima). O título do estabelecimento e a insígnia correspondem a sinais de identificação ligados ao “aviamento objetivo” ou “aziendal”. Há ainda uma função objetiva do nome comercial, correspondente à “projeção da individualidade do comerciante ou complexo do estabelecimento no campo da concorrência”. É nesse caso que o nome empresarial pode ser considerado um bem, sendo um elemento do estabelecimento dotado de valor patrimonial (basta pensar no caso do Giovanni Bruno citado acima ou em alguns casos mais notórios, como “Google Internet LTDA., nome da empresa Google no Brasil). Estão incluídos no nome, nesse sentido, todos os elementos citados acima. Os sinais distintivos estão inclusive protegidos pela lei, no inciso V do art. 124 da lei 9.729, de 1996 (Código da Propriedade Industrial), que proíbe o registro, como tal, da “reprodução ou imitação de elemento característico ou diferenciador de título de estabelecimento, ou nome de empresa de terceiros, suscetível de causar confusão ou associação com esses sinais distintivos”. No caso do trespasse (um contrato entre vivos), segundo Verçosa, “as partes podem determinar que o nome do alienante seja mantido no nome empresarial, precedido do nome do adquirente, acompanhado da qualificação ‘sucessor’. Neste caso se estaria abrindo uma exceção expressa para a utilização doaspecto subjetivo do nome do empresário alienante. Por fim, quanto às marcas, a mesma marca pode ser utilizada por empresários diferentes se não estiverem competindo no mesmo nicho, e o mesmo não se aplica aos nomes comerciais. O empresário mercantil e os colaboradores da empresa. Os leiloeiros Para o regime doCódigo ComercialBrasileiro, o comerciante era auxiliado por alguns profissionais sujeitos a regimes jurídicos próprios, como os leiloeiros. Isso foi regularizado noCódigo Civil de 2002, que criou uma disciplina geral para os prepostos do empresário, no Capítulo III do Direito de Empresa, nos arts.1169a1178: 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 31 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Art. 1.169. O preposto não pode, sem autorização escrita, fazer-se substituir no desempenho da preposição, sob pena de responder pessoalmente pelos atos do substituto e pelas obrigações por ele contraídas. Art. 1.170. O preposto, salvo autorização expressa, não pode negociar por conta própria ou de terceiro, nem participar, embora indiretamente, de operação do mesmo gênero da que lhe foi cometida, sobpena de responder por perdas e danos e de serem retidos pelo preponente os lucros da operação. Art. 1.171. Considera-se perfeita a entrega de papéis, bens ou valores ao preposto, encarregado pelo preponente, se os recebeu sem protesto, salvo nos casos em que haja prazo para reclamação. As outras seções do capítulo dos prepostos tratam do gerente, do contabilista e outros auxiliares e da escrituração, que obedecem a regimes próprios. Esses prepostos podem ser dependentes – com uma relação de emprego, portanto – ou independentes, atuando como profissionais liberais (ou não), por meio da celebração dos contratos apropriados. Os primeiros têm suas relações de trabalho sujeitas ao regime daCLT. O contador, por exemplo, é um desses auxiliares para oCódigo Civil de 2002. Ele está sujeito a um regime próprio de sua profissão – regido por um Código de Ética Profissional. Pode ser um empregado ou um profissional liberal. Já os corretores e representantes comerciais deixaram de ser colaboradores da empresa e passaram para a categoria de empresários, segundo o art. 966. Restam, portanto, os leiloeiros, os tradutores públicos e os intérpretes comerciais. Segundo Verçosa: 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 32 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial “Os leiloeiros colocam-se como colaboradores da empresa porque têm a incumbência de fazer a venda de mercadorias que lhe são confiadas, por meio de oferta pública, devendo ser matriculados nas Juntas Comerciais (...). Sua atividade é disciplinada pelo Decreto 21.981, de 19.11.1932, atuando como ‘consignatários’ ou ‘mandatários’ do empresário pelas mercadorias que deste recebem para vender em público pregão.” Os leiloeiros também podem atuar em uma empresa falida, cujos bens podem ser alienados por meio de um leilão, por exemplo. Ainda segundo Verçosa, “Os tradutores públicos e os intérpretes comerciais, também sujeitos a matrícula na Junta Comercial, exercem importante papel em favor da atividade empresarial na tradução de contratos e documentos empresariais em Língua estrangeira, tanto na esfera negocial quanto judicialmente, uma vez que documentos em Língua estrangeira devem ser necessariamente traduzidos para o Português para poderem valer como prova.” Trespasse do estabelecimento comercial Quando alguém procura transferir uma empresa, existem duas maneiras: a cessão do estabelecimento empresarial e a cessão do controle da sociedade. A segunda é muito mais comum, mas estudaremos aqui a cessão do estabelecimento empresarial, já que o estabelecimento é nosso objeto de estudo. A cessão do estabelecimento - ou melhor, sua alienação - é chamada de trespasse.É um importante mecanismo de manutenção da atividade empresarial e de preservação do interesse social da empresa, já que o ajuda a evitar a paralisação da sociedade empresária, o que garante a estabilidade dos postos de trabalho, da produção de riquezas e da contribuição com o desenvolvimento econômico e social do país. Sobre os dois tipos de transferir uma empresa, diz Ulhôa Canto: “No trespasse, o estabelecimento empresarial deixa de integrar o patrimônio de um empresário (alienante) e passa para o de outro (adquirente). O objeto da venda é o complexo de bens corpóreos e incorpóreos envolvidos com a exploração de uma atividade empresarial. Já na cessão de quotas sociais de sociedade limitada ou na alienação de controle de sociedade anônima, o estabelecimento empresarial não muda de titular. Tanto antes como após a transação, ele pertencia e continua a pertencer à sociedade empresária. Essa, contudo, tem a sua composição de sócios alterada. Na cessão de quotas ou alienação de controle, o objeto da venda é a participação societária.”(COELHO, Fábio Ulhôa. Curso de Direito Comercial. 7ª ed. V. 1. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 117). 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 33 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Ainda é importante frisar que o contrato de trespasse do estabelecimento é basicamente o objetivo maior de todoo instituto jurídico do estabelecimento, que só se distingue, por exemplo, dos imóveis por terem sua alienação regulamentada de outra forma. Devemos analisar cuidadosamente o significado desses artigos, primeiramente quanto aos aspectos formais dos contratos de trespasse. Antes docódigo civil de 2002, esses aspectos não eram claramente delineados, sendo necessário apenas um inventário dos bens do estabelecimento, para que não houvesse uma confusão quanto a quais bens compunham a universalidade alienada, já que isso poderia gerar conflitos entre as partes. Barreto Filho afirma, sobre os aspectos formais do trespasse do estabelecimento e sobre a necessidade de ocasionalmente dividir a “operação” de alienação: “Há ocasiões em que se mostra mais conveniente, para efeitos fiscais, a realização de mais de um instrumento contratual sobre o trespasse, cindindo a operação em blocos distintos. Contudo, mesmo que haja pluralidade de instrumentos, não se afasta a unicidade do negócio, que para todos os efeitos jurídicos será reputado como transferência de estabelecimento, de toda a universalidade. Atingindo-se materialmente o âmbito mínimo de transferência, a operação será considerada como trespasse, ainda que as partes tenham formalizado mais de um instrumento contratual.” A partir de 2002, no entanto, houve a delineação de uma disciplina jurídica específica, como pode se ver abaixo, pela análise dos seguintes artigos doCódigo Civil: Art. 1.144. O contrato que tenha por objeto a alienação, o usufruto ou arrendamento do estabelecimento, só produzirá efeitos quanto a terceiros depois de averbado à margem da inscrição do empresário, ou da sociedade empresária, no Registro Público de Empresas Mercantis, e de publicado na imprensa oficial. Portanto, não só se extrai desse texto que há uma necessidade de o contrato ser escrito, como também que para a eficácia jurídica do contrato de trespasseperante terceiros, devem ser cumpridos dois requisitos formais cumulativamente: 1. Arquivamento (embora o Código Civil tenha nominado como averbação) do contrato no registro de empresários, ou das sociedades empresariais envolvidas na negociação (comprador e vendedor), realizado perante a Junta Comercial e, 2. Publicação na imprensa oficial. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 34 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial A observância dos dois requisitos estacados são determinantes para a eficácia do contrato de trespasse perante terceiros. Com a exigência de um registro na junta comercial e também da publicação na imprensa oficial, o objetivo da lei está claro – de que o negócio jurídico celebrado tenha ampla publicidade. No caso de atividades que, embora sejam organizadas como pessoa jurídica, não exijam um registro na junta comercial, não há impedimentos de que o estabelecimento seja alienado – como no caso de sociedades simples que obtêm sua existência jurídica a partir de seu registro no Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas. Quando isso acontece, o averbamento deve acontecer perante o Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas, em analogia ao que acontece com a Junta Comercial. Ainda é importante observar que, embora o código regre quando a alienação passa a ter efeito perante terceiros, nada diz sobre quando o negócio passa a ter efeito perante as partes contratantes, devendo assim valer as regras doCódigo Civil de qualquer negócio jurídico (art. 104 em diante do Código Civil). Deve também ser feita a delimitação do aspecto material do contrato. Issonão é simples, pois se faz necessário, no âmbito dauniversalidade, identificar quais são os elementos que fazem parte do estabelecimento que está sendo objeto de negociação. Isso é importante porque em alguns casos, há a necessidade de uma contratação especial, como no caso de uma alienação de imóvel que venha a acompanhar a alienação do estabelecimento (isso lembrando que não há um consenso doutrinário a respeito de se o imóvel faz parte do estabelecimento, sendo a posição de professores como Verçosa que não, mas de muitos outros, que sim). Podem acompanhar (ou integrar, dependendo da visão da doutrina sobre o assunto) o estabelecimento: 1. Bem imóvel; 2. Direitos de propriedade industrial (marcas e patentes); 3. Contratos cuja manutenção seja imprescindível para a viabilidade do negócio pós alienação do estabelecimento. Isso gera uma complexidade nos contratos que devem ser concretizados para a alienação da estrutura de uma empresa. A transferência de bem imóvel, por exemplo, necessita de escritura pública, que deve ser levada a registro perante o Cartório de Registro de Imóveis – CRI – para que possa produzir efeitos jurídicos. Portanto, quando o estabelecimento empresarial objeto de transferência for acompanhado (ou composto) também por bem imóvel, além da forma 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 35 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial escrita e das formalidades prescritas pelo art. 1.144 do Código Civil, haverá a necessidade de se adotar formalidade complementar: uma escritura pública registrada perante o CRI para a efetiva transferência do bem imóvel. Nesse sentido afirma Eduardo Ribeiro de Oliveira: “Diversas disposições legais efetivamente existem, anteriores ao Código, excepcionando a exigência da escritura pública. É o que sucede com os contratos relativos ao Sistema Financeiro da Habitação (Lei nº4.380/64, art.61, § 5º) e ao chamado Sistema de Financiamento Imobiliário (Lei nº 9.514/97, art.38). ALei das Sociedades por Acoesdispensa a escritura pública, quando se trate da incorporação de imóveis para formação do capital social (Lei nº6.404/76, art.89). Tais disposições continuam em vigor.” No caso de cessão de propriedade industrial, também há um regime específico. Os artigos 59 e 60 da Lei nº 9.279, de 14 de maio de 1996 prescrevem que a cessão do direito de propriedade industrial (patente de invenção e modelo de utilidade) deve ser averbada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial – INPI, com a identificação completa do cessionário, viabilizando, a partir das anotações de que trata o art. 59, a validade perante terceiros. Lembrando, é claro, que a propriedade industrial é parte de um aspecto objetivo da empresa, cuja alienação é protegida por lei como parte do direito de propriedade. Segundo Fábio Tokars, “Já na hipótese de direito industrial registrável (marca e desenho industrial), embora a cessão de igual forma deva ser anotada junto ao INPI, somente a partir deste ato produzindo seus efeitos frente a terceiros (arts. 136, I, e137daLPI), há normas mais específicas sobre a matéria. Segundo o art. 134, a cessão somente será possível se o cessionário atender aos requisitos legais para requerer o registro, os quais são especificados no art. 128 da mesma normatização. E, nos termos do art. 135, ‘a cessão deverá compreender todos os registros ou pedidos, em nome do cedente, de marcas iguais ou semelhantes, relativas a produto ou serviço, semelhante ou afim, sob pena de cancelamento dos registros ou arquivamento dos pedidos não cedidos’.” Entende-se disso que, seja no caso de propriedade industrial consubstanciado em patente (invenção e modelo de utilidade) ou na hipótese de direito industrial registrável (marca e desenho industrial), o simples contrato de trespasse e a tradição são insuficientes para a completa transferência do estabelecimento empresarial, havendo a necessidade de se tomar providências específicas para a eficácia jurídica perante terceiros quando o estabelecimento é acompanhado (ou composto) por outros bens regrados de forma específica. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 36 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Art. 1.145. Se ao alienante não restarem bens suficientes para solver o seu passivo, a eficácia da alienação do estabelecimento depende do pagamento de todos os credores, ou do consentimento destes, de modo expresso ou tácito, em trinta dias a partir de sua notificação. Na direito positivado anterior à edição do atual Código Civil, de 2002, era firme a posição doutrinária – embora ainda houvesse divergências minoritárias – de que o passivo não integrava o estabelecimento empresarial, de forma que, consequentemente, o adquirente do estabelecimento empresarial não respondia, em razão de sucessão, pelos débitos anteriores ao trespasse, ou seja, o passivo empresarial era desvinculado da universalidade de bens que forma o estabelecimento. Essa questão já foi explorada quando definimos o estabelecimento comercial de forma patrimonial. Existiam exceções expressamente previstas em lei – que ainda se encontram em vigor – no que diz respeito aos débitos decorrentes das relações trabalhistas e débitos tributários, de tal sorte que nestes dois casos, o adquirente respondia pelos débitos do estabelecimento. Além daquelas hipóteses legalmente previstas de sucessão na alienação do estabelecimento empresarial, a outra forma possível era a assunção de passivo, cuja relação jurídica era decorrente do próprio contrato de trespasse, ou seja, as partes contratantes estabeleciam no instrumento contratual quais eram os débitos que seriam assumidos pelo adquirente do fundo de empresa e quais seriam excluídos da avença. Ocorre que toda essa construção doutrinária, que encontrava ressonância no posicionamento dos Tribunais foi desconsiderada pelo vigente Código Civil, que a partir da norma jurídica constante do art. 1.146 prescreveu que “o adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores à transferência, desde que regularmente contabilizados, continuando o devedor primitivo solidariamente obrigado pelo prazo de um ano, a partir, quanto aos créditos vencidos, da publicação, e, quanto aos outros, da data do vencimento”, ou seja, estabeleceu a norma codificada que o passivo passa a ser considerado como elemento do estabelecimento empresarial, transferível ao adquirente do fundo de empresa. Resumidamente, pode-se dizer que, com a entrada em vigor do Código Civil de 2002 o adquirente do estabelecimento, além da sua já conhecida responsabilidade por débitos trabalhistas e tributários em decorrência de norma específica, passou a ter que responder também por todas as obrigações relacionadas ao negócio explorado pelo alienante, desde que os débitos estejam regularmente contabilizados. Ou seja, a contabilidade é estimulada dessa forma, já que a contabilidade também não deixa de ser um incentivo à formalização, organização dos negócios e, portanto, ao desenvolvimento econômico do país como um todo. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 37 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Portanto, entendemos disso que a única excludente de responsabilidade do adquirente pelos débitos vinculados ao estabelecimento prevista pela codificação civil se encontra na necessidade de o passivo estar regularmente contabilizado. Isso significa que os débitos que não foram objeto de contabilização pela empresa não serão transferidos ao o comprador do fundo de empresa como efeito do contrato de trespasse, sendo prejudicado o empresário que não contabilizar seus débitos da forma apropriada. É importante questionar o quantoo entendimento das metas propostas pode nos levar a considerar a reestruturação das direções preferenciais no sentido do progresso, e é isso que faz o legislador ao proteger de forma tão crucial a organização dos negócios. Estabeleceu a legislação a que nos referimos, ainda, uma hipótese normativa de solidariedade, de forma que o devedor inicial continuará, juntamente com o adquirente e pelo prazo de um ano, solidariamente responsável pelo pagamento das dívidas vencidas, contados a partir da publicação do trespasse e, quanto aos débitos vincendos, contados a partir da data do vencimento. Apenas em relação ao passivo composto por dívidas tributárias, deve-se esclarecer que o art. 133, incisos I e II e § 1º, do CTN prescreve que o adquirente do estabelecimento empresarial ficará responsável pelo pagamento integral dos débitos no caso de o alienante cessar a exploração da atividade ou comércio relativo ao fundo empresarial objeto de alienação. A responsabilidade, entretanto, será subsidiária no caso de o alienante prosseguir na exploração do mesmo ramo de atividade ou reiniciar a exploração da mesma ou de outra atividade empresarial, no prazo de seis meses, contados da data da alienação. Art. 1.146. O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores à transferência, desde que regularmente contabilizados, continuando o devedor primitivo solidariamente obrigado pelo prazo de um ano, a partir, quanto aos créditos vencidos, da publicação, e, quanto aos outros, da data do vencimento. Art. 1.147. Não havendo autorização expressa, o alienante do estabelecimento não pode fazer concorrência ao adquirente, nos cinco anos subseqüentes à transferência. Parágrafo único. No caso de arrendamento ou usufruto do estabelecimento, a proibição prevista neste artigo persistirá durante o prazo do contrato. Art. 1.148. Salvo disposição em contrário, a transferência importa a sub-rogação do adquirente nos contratos estipulados para exploração do estabelecimento, se não tiverem caráter pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato em noventa dias a contar da publicação da transferência, se ocorrer justa causa, ressalvada, neste caso, a responsabilidade do alienante. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 38 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Art. 1.149. A cessão dos créditos referentes ao estabelecimento transferido produzirá efeito em relação aos respectivos devedores, desde o momento da publicação da transferência, mas o devedor ficará exonerado se de boa-fé pagar ao cedente. Dessa forma é regulado o trespasse do estabelecimento empresarial. Conclusão Aqui encerramos nossa exposição a respeito do estabelecimento comercial. Com certeza, ainda há muitas questões a respeito desse instituto jurídico a serem exploradas, questões que permanecerão em constante renovação, como o todo da doutrina do Direito Empresarial, que é uma ciência dinâmica, assim como é dinâmica a própria economia que norteia as mudanças de como concebemos os contratos e as formas de fazer comércio. Afinal de contas, não há muito tempo usávamos inequivocamente o termo “direito comercial” para se referir ao que hoje entendemos ser o Direito empresarial. Essas constantes mudanças refletiram-se a todo o momento na investigação de quais seriam os institutos mais apropriados para o estabelecimento. Afinal de contas, o imóvel é parte do estabelecimento? Ele deve ainda ser considerado uma “base física” dos negócios, como diz Rubens Requião, ou deve ser atualizado para um conceito que permita integrar as grandes empresas de hoje, que têm predominantemente bens imateriais? O que são bens corpóreos e o que são bens incorpóreos? Como caracterizar de maneira atual o aviamento e a clientela? Como conciliar a proteção da clientela no direito concorrencial com a livre iniciativa? Qual a melhor maneira de regular o trespasse do estabelecimento comercial ferindo o mínimo possível os interesses envolvidos? Como pensar um conceito de estabelecimento, em suma, atual e de utilidade para os juristas, mas também para os empresários, contadores e advogados? Ao nos inserirmos em um mundo globalizado, muitas questões são colocadas a respeito de quais padrões devemos adotar, sendo inevitável escolher um lado em que haja maior equilíbrio de forças do que outro. O direito tem um papel na sociedade que não deve ser negado: o de consolidar uma ordem econômica baseada em contratos, uma ordem econômica capitalista e hoje predominantemente empresarial. O que nas revoluções liberais era muito mais simples e regulado apenas pelo direito civil hoje toma uma faceta muito mais complexa, depois de advindo o Estado de bem- estar social. A regulação dos contratos passa a ser a regulação das empresas de uma forma a promover o bem-estar entre as pessoas como um objetivo que concorre com a proteção do homem econômico racional e probo. 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 39 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Conciliar os dois ideais é o desafio do direito empresarial hoje. Não devemos nos render a uma lógica privatista do Direito, e sim pensar em maneiras de regular o mercado que proporcionem o melhor êxito social de uma maneira geral. Paula Forgioni afirma que “o direito é fenômeno complexo que não pode ficar enclausurado nos limites da economia”. O direito envolve ética, moral e, principalmente, uma tecnologia de controle social que vise a justiça. Embora pareça uma tarefa impossível chegar a um acordo entre todos esses ideais, especialmente quando incluímos a racionalidade econômica, não é o caso de nos desesperarmos. O direito é uma tecnologia importante, mas é falível por essência, e em suas falhas vemos seus avanços, como em qualquer ciência. Bibliografia VERÇOSA, Haroldo Malheiros Duclerc. Curso de Direito Comercial. 2ª. Ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2011. Taddei, Marcelo Gazzi. “O estabelecimento empresarial e suas repercussões jurídicas”. Disponível em: < http://jus.com.br/revista/texto/14366/o-estabelecimento-empresarialesuas- repercussoes-juridicas > (data de acesso: 20/05/13). Reinaldo Takeo Aono Júnior. “ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL: Conceito, Natureza e Elementos.” Disponível em: < http://www.jurisway.org.br/v2/dhall.asp?id_dh=5138 > (data de acesso: 20/05/2013). Acórdão da apelação 056.510.4/7, do TJSP. Voto vencido do 3º. Juiz Ruy Camilo e voto vencedor do juiz Quaglia Barbosa. BRASIL. BARRETO FILHO, Oscar. Teoria do Direito Comercial.2ª. Ed. São Paulo: Editora Saraiva, 1988. Wilson Carlos de Campos Filho, Carla Bacila Sade. “Alienação do estabelecimento empresarial. O contrato de trespasse”. Disponível em: http://www.ambitojuridico.com.br/site/? n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=11062&revista_caderno=8 Publicado por Juliana Campos Santana 5/06/2017, 9:48 PMA definição de estabelecimento no Direito Comercial Page 40 of 40https://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial Disponível em: http://jcsantana24.jusbrasil.com.br/artigos/432892337/a-definicao-de-estabelecimento-no-direito-comercial