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Yolanda Guerra - O Serviço Social frente à crise contemporânea

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não de rentabilidade mas de competência, não de redução de coberturas mas de ‘justiça’” (Netto, 1996: 104)�.
Para enfrentar a crise contemporânea, processos de racionalização são direcionados pelos países centrais aos países periféricos, dentre eles a reestruturação na produção, resultado da racionalização do trabalho vivo, a intensificação do capital financeiro, que é o capital no seu maior grau de racionalização e o globalismo, que é a nova condição do imperialismo, produto de uma divisão do trabalho com maior nível de racionalização e da maximização da exploração dos países periféricos pelos países ricos. Esses processos vêm acompanhados de uma programática composta de ajustes econômicos e de estratégias políticas que se consubstanciam no neoliberalismo.
A revalorização do mercado como instrumento de regulação econômica, o controle da inflação como ponto de partida de uma reforma fiscal que reduz gastos públicos, em especial, os gastos sociais; a deflação, como condição para a recuperação das taxas de lucro, são apenas algumas das programáticas adotadas pelos organismos internacionais para os países de Terceiro Mundo; mas o que aqui importa ressaltar é que, para recuperar as taxas de lucro fez-se necessário, como parte dos ajustes neoliberais, se voltar contra um tipo de relação entre capital-trabalho típica do pacto fordista-keynesiano, de modo que duas modalidades de ajustes diferenciados para o mesmo objetivo foram desencadeadas naqueles países nos quais vigia um Estado de Bem-Estar desenvolvido e um Estado desenvolvimentista. Nos primeiros, deixar que os salários fossem corroídos pela inflação foi o mecanismo encontrado para reduzir a massa salarial; nos segundos, onde o Brasil se localiza, o encaminhamento foi o de reduzir os benefícios indiretos.
Neste contexto, verificamos que a ofensiva neoliberal, que se caracteriza como uma estratégia para superação desta crise, se utiliza, em larga escala, de sua ideologia para construir a ambiência cultural� necessária a este período particular do capitalismo. Mas a globalização e a programática neoliberal encontram sua unidade nas estratégias racionalizadoras expressas no novo padrão de acumulação/ valorização do capital, que se constitui na base sobre a qual estas estratégias se estruturam e adquirem uma configuração mais adequada segundo os interesses em presença. Retomam-se as teses sobre o Estado “mínimo”, diminuto, racionalizado, como forma de redução do déficit público; propõe-se uma reforma do Estado reduzindo suas funções à gestão de recursos públicos e funcional aos ajustes necessários para que a economia brasileira torne-se acessível ao capital estrangeiro internacional. Esta, que tem sido chamada de contra-reforma, inspirada e orientada pelos organismos internacionais representantes do grande capital financeiro, interdita os direitos sociais conquistados na Constituição de 1988, abstrai do Estado as suas funções políticas e democráticas, desmonta seu caráter público, tudo isso amparado na lógica gerencial. 
 De que maneira os processos e mecanismos racionalizadores de enfrentamento da crise se sintonizam com a herança ídeo-cultural do Serviço Social, bem como a sua funcionalidade eminentemente instrumental?�. O que se altera e quais as continuidades com a racionalidade que alimenta o conservadorismo típico da profissão? 
As bases postas pela crise e o Serviço Social
Partimos do suposto que as tendências mais gerais da sociedade, algumas aqui apontadas, fundem-se com as determinações particulares do Serviço Social e as alteram em termos das condições de trabalho, das demandas, dos usuários, dos valores, dos critérios, dos padrões societários, das respostas sócio-profissionais. 
Contudo, o que pretendemos evidenciar é a metamorfose do tipo de Estado — historicamente o maior empregador de assistentes sociais — seu redimensionamento e o reordenamento de suas funções, do que decorre uma alteração no papel das políticas sociais, como respostas integradoras do Estado burguês. Se é verdade que o formato das políticas sociais, adotados em períodos determinados, colocam prescrições, configurações e ordenamentos à intervenção profissional (Guerra, 1995), e que sob o neoliberalismo vigora uma concepção de políticas sociais sem direitos sociais (Vieira, 1997), cabe-nos refletir sobre o que se convencionou chamar de política social neoliberal e quais as conseqüências de se adotar um padrão de políticas sociais sem direitos sociais. 
Para Vieira, tem recebido o nome de política social neoliberal “aquela política que nega os direitos sociais, que garante o mínimo de sobrevivência aos indigentes, que exige contrapartida para o gozo dos benefícios, que vincula diretamente o nível de vida ao mercado, transformando-o em mercadoria” (idem: 70). Sua legitimação tem se dado por mecanismos que operam com uma naturalização do mercado e autonomização das esferas econômica, política, cultural, ética, social; pela hipertrofia do capital financeiro, que subsume o processo produtivo e pela cronificação do chamado globalismo (Ianni, 1995). 
As demandas das classes subalternizadas são remetidas ao mercado e/ou tornadas objeto de responsabilidade individual, submetidas à benevolência e solidariedade. O mecanismo geral, historicamente utilizado no “tratamento” da questão social é o mesmo, já que as respostas mantêm-se no universo do conservantismo e do reformismo integrador: a fragmentação dos aspectos econômicos, sociais, políticos e culturais; a abstração dos conteúdos político-revolucionários que a questão social porta e sua formalização em problemáticas particulares; o desencadeamento de processos de racionalização: redução dos custos e do orçamento com os programas sociais. Como o mercado não reconhece direitos, mas tão somente o poder de compra�, só resta um espaço para o atendimento das refrações da questão social fora do mercado: nos redutos do assistencialismo. 
Assim, este atendimento passa a ser realizado por meio de um mecanismo denominado por alguns autores como “refilantropização”�, pelas instituições públicas não estatais (pelas ONG’s como formas privilegiadas de objetivação do chamado “Terceiro Setor”), as quais, em muitos casos, contemplam no seu interior o exercício profissional como atividade voluntária. Desta forma, estabelece-se uma nova relação entre as instituições prestadoras de serviço, os agentes prestadores de serviços e os usuários. Mais uma vez o pensamento conservador articula as perspectivas público-privadas e as refrações da questão social. Aquilo que se mantém no atendimento da questão social é: sua reconversão em problemática de natureza individual, a prestação de serviços de maneira assistemática, assistencialista e como prática de favor, mesclada por uma política de repasse das responsabilidades estatais quanto à intervenção nas seqüelas da questão social para a sociedade civil�. 
A refuncionalização do Estado engendra um reordenamento no mercado formal de trabalho dos assistentes sociais. De um lado, os três segmentos que tradicionalmente contratam assistentes sociais, quais sejam, o setor público estatal, as empresas e as instituições sem fins lucrativos, produzem uma modificação nas formas de contratação, com a ampliação de vínculos de trabalho não estáveis. Com a institucionalização das organizações sociais como responsáveis pela execução das políticas sociais, estabelece-se uma multiplicidade de vínculos de trabalho, flexibilizando os contratos, introduzindo os contratos por tempo parcial e a contratação através de terceiros, reduzindo a carga horária. As conseqüências: maior rotatividade dos profissionais, instabilidade, precarização das condições de trabalho, pluriemprego, redução dos salários�. Tudo isso provoca a tendência à desqualificação do profissional e maior fragmentação da categoria. Também o caráter missionário, a falsa auto-representação da profissão como vocação, a histórica tendência da substituição da intervenção profissional por atividades voluntárias, desprofissionalizadas,

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