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O que é Psicologia Social RESUMO LANE, Silvia T. Maurer. O que é Psicologia Social. 15. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989. A Psicologia estuda o comportamento humano, e assim parece óbvio que a Psicologia Social estuda o comportamento social. No entanto é preciso saber quando o comportamento se torna social, ou se são possíveis comportamentos não sociais nos seres humanos. Mesmo que geneticamente semelhantes, ou até mesmo idênticos, cada organismo humano possui suas particularidades, isso é perceptível a partir das interações deste individuo com o meio, o qual o modifica. Assim a Psicologia se preocupa com o comportamento que individualiza o ser humano, porém, ao mesmo tempo precisa considerar que os comportamentos se diferem a partir das características da espécie, dentro de determinadas condições ambientais. A Psicologia Social estuda o comportamento de indivíduos e a influência que recebem do meio social. Assim é preciso considerar: as condições históricas, ou seja, a influência histórico-social, marcada pela aquisição da linguagem. “É a história do grupo ao qual o individuo pertence que dirá o que é reforçador ou o que é punitivo.” Da mesma forma as emoções também são submetidas às influências sociais, e assim aprendemos o que nos alegra ou não, o que nos assusta, o que é bom, em fim, os significados que damos às nossas ações através das palavras que usamos para descrevê-las. Podemos compreender, portanto, que a Psicologia Social se preocupa em conhecer como o homem se insere no processo histórico sendo determinado por ele e principalmente transformando a sociedade em que vive. Durante toda a vida o ser humano necessita de participar de grupos para a sua sobrevivência, lazer ou em função de outros objetivos imediatos. Desde o primeiro momento de vida, o individuo está inserido num contexto histórico, seguindo um padrão social determinado como correto. Este padrão é composto por práticas consideradas essenciais, que proporcionam a criação de normas a serem seguidas para que o indivíduo não fuja ao padrão. Quando institucionalizadas, essas normas se constituem em leis que vão garantir a manutenção do grupo social. Cada grupo social possui normas que regem a relação entre os seus membros, e isso estabelece os papeis sociais. Com relação aos papeis sociais, podemos dizer que um completa o outro, e em relação a todos os papeis existem expectativas de comportamentos mais ou menos definidos. “O viver em grupos permite o confronto entre as pessoas e cada um vai construindo o seu ‘eu’ nesse processo de interação, através de constatações de diferenças e semelhanças entre nós e os outros.” Nesse processo desenvolvemos nossa INDIVIDUALIDADE, IDENTIDADE SOCIAL, e a CONSCIÊNCIA-DE-SI-MESMO. A partir das características apreendidas nas relações grupais, os indivíduos se descobrem diferentes e distintos dos outros. Deixa de ser um entre muitos e passa a ser uma pessoa com características próprias no confronto com outras pessoas. Assim as pessoas têm suas identidades sociais que os diferenciam dos outros. Assim nossa identidade social representa o conjunto de papeis que desempenhamos. Não se pode considerar os papeis sociais como naturais e necessários, sendo a identidade consequência de opções livres que fazemos de nosso conviver social, quando de fato, são as condições sociais decorrentes da produção da vida material que determinam os papeis de nossa identidade social. É preciso compreender que as condições sociais através da história pessoal determina a aquisição das características que nos definem, que os papeis sociais foram criados para garantir a manutenção das relações sociais necessárias para reproduzir as condições de produção da vida, realizando a manutenção da sociedade de classes. “Quando encontrarmos as razões históricas da nossa sociedade e do nosso grupo social capazes de explicar por que agimos hoje da forma como fazemos é que estaremos desenvolvendo a consciência de nós mesmos.” “Assim a consciência de si poderá alterar a identidade social, na medida em que, dentro dos grupos que nos definem questionamos os papéis quanto a sua determinação e função histórica.” Esse processo não é simples, pois os grupos e os papeis que nos definem são cristalizados e mantidos por instituições bem aparelhadas capazes de anular ou amenizar os questionamentos e ações de grupo em nome da “preservação social”. Através da linguagem a experiência da prática sócio-histórica da humanidade se generaliza. Com isso foi possível o trabalho cooperativo, planejado que submete a natureza ao homem. A linguagem, instrumento e produto social e histórico, se articula com significados objetivos, abstratos, metafóricos... A linguagem assim deixa de ser apenas uma ação de falar e passa a corresponder a todo um conjunto de sinais, gestos, códigos e até rituais, que tenham por objetivos comunicar, dando caráter instrumental à Linguagem. Sendo assim, a linguagem surge para transmitir ao outro o resultado, os detalhes de uma atividade ou da relação entre uma ação e uma consequência. A linguagem é produzida socialmente; Pode se tornar, portanto, uma arma de dominação, e a contra-arma desse poder (instituído pela dominação de instituições e lideranças sociais) da palavra se encontra na própria natureza do significado: ampliá-lo (o significado), questioná-lo, pensar sobre ele e não, simplesmente, agir em resposta a uma palavra. Entre uma palavra e uma ação deverá sempre existir um pensamento para não sermos dominados por aqueles que detêm o poder da palavra. A linguagem permite ainda a elaboração de representações sociais. É através dela que acreditamos na nossa realidade e o fazemos de acordo com o nosso grupo social. É através das relações com os outros que elaboramos nossas representações do que é o mundo. A representação é o sentido pessoal que atribuímos aos significados que elaboramos socialmente. Porém em outros casos a representação ocorre através das imposições consideradas necessárias para a reprodução das relações sociais, ocorrendo assim a transmissão ou imposição da ideologia dominante. Obviamente, esta produção da ideologia não se dá conscientemente, mas sim em decorrência de uma visão da sociedade da posição de quem a domina e que a precisa justificar e valorizar sua dominação. Por isso é difícil termos consciência de nós, e termos assim consciência de classe. Quando apenas reproduzimos as representações sociais que nos foram transmitidas, estaremos apenas reproduzindo as relações sociais necessárias para a manutenção das relações de produção da vida material em nossa sociedade. Somente quando confrontamos as nossas representações sociais com as nossas experiências e ações e com a de outros de nosso grupo social é que seremos capazes de perceber o que é ideológico em nossas representações e ações consequentes. Falar e fazer assim são distintos, só o fazer produz alterações sociais. Se falarmos, confrontarmos as representações de nosso grupo social com a realidade deste e grupo e mudarmos a nossa relação para com outros, estaremos transformando o falar em fazer. A família é o grupo necessário para garantir a sobrevivência do individuo e por isto mesmo tende a ser vista como natural e universal na sua função de reprodução dos homens. A instituição familiar é regida por leis e normas. Com relação ao indivíduo, em sua socialização primária, a família é responsável durante o processo de desenvolvimento do individuo pelo seu cuidar, até que este se perceba distinto dos outros e assim possa se identificar emocionalmente, criar uma representação do mundo que vive, sendo para este individuo criança, possível apenas um mundo. Na adolescência, esta visão única de mundo e de um sistema de valores será confrontada, no processo de socialização secundária. Isso explica os conflitos entre pais e filhos, que ao contrário de serem naturais, sua origem está na relação destes filhos que descobrem novas visões de mundo e de seus pais que precisam manter o papel de poder representado socialmente.Sendo assim a família tende a manter-se conservadora, pois as relações de poder que caracterizam os papéis familiares são sempre apresentadas como condições naturais, em vez de discutir os determinantes sócio-históricos. A rebeldia dos jovens são expressões que retratam bem a existência de uma luta pelo poder, que na sociedade humana se refere não a sobrevivência da espécie e sim à manutenção do poder de alguns, na sociedade, para a preservação desta. Da mesma forma que a família, a educação também é institucionalizada. Sua estrutura de disciplinas é programada para cada série, e no fim de cada período é dado um veredito, aprovado ou não. Esta estrutura irá determinar como se darão as relações sociais na escola, entre alunos e entre professores e alunos. O poder de aprovar e reprovar já coloca o professor nem posição de dominação inquestionável. Este padrão dominante tem como consequência direta o caráter seletivo da escola, determinando logo de inicio os alunos melhores e os piores, produzindo uma atmosfera na qual os alunos que conseguirem se ajustar aos métodos e à visão de mundo do professor serão melhor sucedidos que os que viverem uma condição de vida adversa da estipulada pela escola. Assim o padrão de bom e mau aluno vai sendo reforçado ao longo das séries, e assim selecionando não os mais aptos, mas os que se aproximam mais da visão de mundo inerente aos padrões dominantes. Com isso observa-se que fora das salas também ocorrem a distinção entre os grupos dos melhores e dos piores alunos. “Se até o sistema educacional reproduz as relações de dominação social, parece impossível qualquer transformação da sociedade.” Porém, não podemos esquecer que as relações de dominação implicam em contradições geradas pela contradição fundamental do sistema capitalista (a luta de classes), fazendo-se presentes também na no processo educacional. Sendo assim é a escola crítica, a escola onde nenhuma verdade é absoluta, onde as relações sociais passam a serem questionadas e reformuladas, que formará indivíduos conscientes de suas determinações sociais e de sua inserção histórica na sociedade, conscientemente suas práticas sociais poderão ser reformuladas. O trabalho que modifica a natureza, ao produzir a subexistência do Homem, também produz o homem. Surgem da necessidade de cooperação entre os homens, as relações de produção, que são formas de sobrevivência que geram relações sociais necessárias para manter estas relações de produção. Assim a produção dos bens matérias atende a subexistência social, e ainda visa o lucro e o aumento do capital e para isso deve explorar a força de trabalho de muitos. Os homens se tornam mercadorias. Desta forma o capitalismo implica na existência de duas classes sociais: uma que detém o capital e os meios de produção, e outra que vende sua força de trabalho. É esta contradição fundamental do capitalismo que a ideologia dominante procura encobrir. Conforme o lugar onde o indivíduo se inserir, dele será esperado o desempenho de determinadas atividades em prol da manutenção das relações de produção e das classes sociais com tais. No nível psicossocial trabalho significa atividades realizadas por indivíduos; atividades estas produzidas pela sociedade à qual eles pertencem; No nível individual a atividade decorre de uma necessidade sentida e objetivada em coisas. Ao sentir a necessidade de algo (objeto) o homem a produz. Trabalha para suprimi-la. O objeto está impregnado da atividade do homem, assim como na ação de fazer o objeto o homem se modifica. Ao produzir um objeto o homem transforma a matéria, e através da sua atividade, também o homem se transforma. A principal característica do trabalho nas sociedades atuais é que este é realizado por instrumentos, o que torna a atividade necessariamente social, pressupondo a cooperação e comunicação, logo se estes instrumentos nos ligam ao mundo das coisas, ele também nos liga a outros indivíduos produzindo a linguagem e o pensamento que produzirá atividades e ações que se concretizam nas relações sociais. As condições de trabalho e as atividades exigidas para a sua realização faz compreender como se processa a nível individual, a alienação ou a consciência social. A divisão do trabalho em nossa sociedade faz com que a cooperação entre muitos seja mediada pela maquina e não mais pela comunicação, e o produto final tem tão ínfima parcela da atividade do trabalhador que ele não se reconhece no objeto fabricado. É neste processo que o trabalhador se despersonaliza se torna parte da maquina; suas ações são apenas força de trabalho que ele vende, são apenas mercadorias e como tal alienáveis-alienadas, na medida que ele deixa de pensar suas próprias ações em termos de cooperação com os colegas, sendo esta , oculta pela maquina. Quanto ao operário, sua atividade cotidiana se resume em ir para o trabalho, despender energia física e retornar a casa. Com esta atividade produtiva compromete as formas de relacionamento deste com os outros, fazendo com este individuo se sinta só no trabalho. Quanto aos demais colegas de trabalho, estes passam a ser rivais. Numa sociedade que dita a importância da competitividade, este individuo continuará sua vida diárias se esforçando para ser o melhor possível se esquecendo de que todos estão fazendo o mesmo. A sociedade capitalista atual promove a separação entre o homem e o seu produto de trabalho, logo esta fragmentação permite que o homem continue produzindo, mas não cabe a ele a decisão. Ele continua transformando o mundo, mas não decide sobre esta transformação. Assim fica claro a lógica da fragmentação necessária para a manutenção das relações de produção, ou seja, os detentores do capital explorando a força do trabalho de muitos e, assim, mantendo a hegemonia do poder. O homem precisa recuperar para si sua atividade, que é psicológica, social e historicamente, pensamento e ação, e que ocorre através da sua relação com os outros homens, concretizando o pensamento na comunicação e a atividade em ações cooperativas, caso contrário continuará alienado de sua própria realidade objetiva, com uma falsa consciência social, e consequentemente, com uma falsa consciência de si. A consciência de si, a consciência social, e a consciência de classe são apenas produtos de um único processo, decorrente da atividade humana, que é pensamento e ação, teoria e prática, que se concretizam através da cooperação entre os homens na produção de suas próprias vidas. Apesar de central para a vida do individuo, o trabalho remunerado não é a única atividade socialmente produtiva que ele desenvolve. É em torno destas atividades que a Psicologia Comunitária propõe uma sistemática de intervenção. Desenvolver relações sociais que se efetivem através da comunicação e cooperação entre pessoas, relações onde não haja dominação de uns sobre outros, por meio de procedimentos educativos e, basicamente, preventivos, se tornou o objetivo central de atividades comunitárias. Procura-se desenvolver a consciência de si mesmas e de suas relações historicamente determinadas através da recuperação do pensamente e ação, da comunicação e cooperação entre as pessoas, as suas histórias individuais, e social. Embora a atividade comunitária não supere a contradição fundamental do capitalismo, é através da participação comunitária que os indivíduos desenvolvem consciência de classe social e do seu papel de produtores de riquezas, o que pode leva-los a se organizarem frente a ação transformadora da história de sua sociedade. O trabalho remunerado e todas as suas implicações, constantemente estão influenciando nas relações sociais que se propõem comunitárias. Aceitar diferenças individuais, mantendo relações de igualdade, ou melhor, de não dominação, em uma sociedade onde as diferenças são valorizadas em termos de competição, torna-se algo extremamente difícil. A Psicologia Social começa a se desenvolver como estudo científico, sistemático, após a Primeira Guerra Mundial, juntamente com outras ciências sociais, procurandocompreender as crises e convulsões que abalam o mundo. Começa estudando fenômenos de liderança, opinião pública, propaganda, preconceito, mudanças de atitude etc. É nos Estados Unidos, com sua tradição pragmática que a PΨ atinge seu auge após a Segunda Guerra Mundial, através de pesquisas e experimentos que procuravam procedimentos e técnicas de intervenção nas relações sociais para garantir uma vida melhor para os homens. No Brasil assim como na America Latina a influência maior foi sempre a norte-americana, sendo assim eram reproduzidos aqui pesquisas e procedimentos técnicos adaptando-os as necessidades da sociedade sem mesmo produzir nada de novo, aliás, fora este período em que a PΨ apenas acumulou conhecimentos a cerca da sociedade que a vez entrar em crise, afinal já não se produzia nada de novo e não era percebido nenhuma aplicabilidade direta dos conhecimentos elaborados. A solução fora tomada no Brasil através no encontro da Associação Brasileira de PΨ, que chegou a conclusão de que seria imprescindível ao Psicólogo Social seu contato com outros cientistas sociais, tradicionalmente comprometidos com o estudo da realidade social brasileira.