Prévia do material em texto
A ARTE NA ERA DAS REVOLUÇÕES O período compreendido entre os anos de 1776 e 1848 foi marcado, tanto na Europa como na América, por importantes movimentos que conduziram à transformação da sociedade ocidental. Esses movimentos foram: a Primeira Revolução Industrial, ocorrida inicialmente na Inglaterra a partir de 1750, e que modificou o modo de produção econômico e as próprias relações sociais na Europa; a Revolução Americana (1776), da qual resultaram a indepedência dos Estados Unidos e o início da derrocada do antigo sistema colonial no continente americano; a Revolução Francesa (1789), que pôs fim ao sistema feudal na França; e as diversas revoluções que eclodiram em diferentes regiões da Europa no 1848, com base em ideias como o liberalismo, o socialismo e o nacionalismo, princípios novos queconduziram à derrubada das relações políticas, econômicas e sociais que predominavam no continente desde a Idade Média. A produção artística desse período de intensas transformações também sofreu modificações importantes. A Revolução Francesa constituiu um dos mais importantes momentos da história da civilização ocidental, sendo responsável pelo estabelecimento dos princípios humanistas da igualdade, da liberdade e da fraternidade, que se contrapunham ao sistema de privilégios do Antigo Regime. Fundada nos ideais da racionalidade iluminista, a Revolução Francesa abriu as portas para uma nova forma de arte, que não mais expressaria a vontade divina, mas os anseios, dramas e práticas cotidianas dos próprios seres humanos. Foi neste sentido que a arte ocidental caminhou, a partir de então, na direção de sua constante laicização: os temas bíblicos foram substituídos, na pintura e na escultura, por temas mitológicos e do cotidiano burguês. Ademais, os artistas passaram a servir não mais à Igreja, doravante decadente como centro de irradiação do poder político, mas aos novos líderes políticos, em especial Napoleão Bonaparte, tornado imperador francês em 1799, e que pretendeu estender a toda a Europa os ideais da Revolução Francesa e suplantar a sua principal rival, a Inglaterra, no campo econômico, como principal fornecedora de produtos industrializados para o velho continente e para o Novo Mundo. Em diferentes obras, a representação de temas da mitologia greco-romana servia ao propósito de simbolização do caráter eterno do poder, encarnado na figura de Napoleão. Particularmente, no que se refere à pintura, predominavao denominado academicismo, pois os artistas seguiam modelos e regras que eram aprendidas nas escolas de Belas Artes. Entre os pintores do período, cabe destacar a atuação de Jacques Louis David, artista oficial do Império napoleônico, cujas obras representam momentos históricos, cenas mitológicas, paisagens, além de retratos e nus, em geral carregados de realismo e emoção. A pintura a seguir, chamada A morte de Marat ou Marat assassinado, retrata o revolucionário francês Jean-Paul Marat em sua casa, após ter sido assassinado por Charlotte Corday em 13 de julho de 1793. Note que, na caixa de madeira cuja forma se assemelha à uma pedra tumular, há uma inscrição, tratando-se de uma homenagem a Marat, quem o pintor conhecia em vida e supostamente teria visto um dia antes de sua morte. Acesso em 17/05/2015 http://www.jornalopcao.com.br/arquivos_2013/images/2008/A%20morte%20de%20Mar at,% 20de%20Jacques-Louis%20David.jpg A ARTE E A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL REALISMO A pintura Realista desenvolveu-se principalmente na França, na segunda metade do século XIX, paralelamente ao contínuo processo de transformação promovido, sobretudo nas cidades, pela Revolução Industrial. O Realismo consistiu numa nova estética, a qual se fundava no propósito de aplicar, no campo artístico, o mesmo rigor de interpretação e domínio da natureza conquistado no campo científico. Neste sentido, a arte preconizava o abandono da subjetividade e da emoção, caracterizando-se pela busca da objetividade, de modo racional. O principal representante do Realismo, na pintura, é Gustave Courbet (1819-1877), que retratou em suas obras, principalmente, cenas da vida cotidiana das classes trabalhadoras. Courbet era declaradamente socialista. Outro artista importante ligado ao Realismo é Jean-François Millet, homem muito religioso, amante da natureza e que trabalhara desde jovem no campo. Sua pintura representa, sobretudo, os vínculos entre o homem e a terra. Imagem: Moças Peneirando o Trigo, 1854. http://warburg.chaa-unicamp.com.br/img/obras/4468_original.jpg Além da obra pictórica de Courbet e Millet, cabe fazer referência, no Realismo, à produção do escultor Auguste Rodin, que se afastou dos princípios idealistas e procurou criar estátuas que representavam a realidade no modo como ela é, dando preferência a temáticas contemporâneas e à busca de registrar o momento específico de uma atitude, como na sua obra O Beijo, década de 1890, escultura em mármore. Museu Rodin, Paris. Acesso em 17/05/2015 https://pizzaburnets.files.wordpress.com/2011/04/rodin_obeijo_exposicao.jpg NATURALISMO A partir de 1830, surge uma nova forma de representação da realidade com as inovações que a máquina permitia: a fotografia.Os artistas perceberam o limite das possibilidades da arte na mimese do real. Abandonando um pouco as questões ideológicas (crítica social) do Realismo, os artistas naturalistas empreenderam uma caminhada em busca da reprodução fiel das paisagens urbanas ou não, sem o caráter idealizado do Realismo. Sua prática ocorria ao ar livre, característica adotada posteriormente também pelos impressionistas para garantir o contato direto com o real. Entre os principais artistas naturalistas estão Theodore Rousseau (1812-1867) e Camille Corot (1796-1875). Imagem a seguir de Camille Corot. Acesso em 17/05/2015 http://www.pototschnik.com/wp-content/uploads/2014/05/corot-a-the-path.jpg ROMANTISMO No Romantismo, os artistas afastaram-se da representação do real. O interesse era o de representar valores sociais simbolizados nas próprias pinturas por figuras humanas, seus trajes, seus gestos e mesmo os objetos que portavam. A pintura adquire um caráter eminentemente retórico, tornando-se discurso sobre o rela, representando as mudanças sociais e políticas decorrentes da ascensão da burguesia ao poder. Por esse motivo, as cenas do cotidiano, do povo e seus costumes são os preferidos pelos artistas. Um dos artistas mais representativos desse período foi Eugène Delacroix (1798-1863), autor do primeiro quadro político da História da Arte, A Liberdade guiando o povo (1830). A ideia de liberdade estava impregnada de valores nacionalistas e de independência da pátria. Delacroix sintetiza nesta obra os principais elementos da pintura romântica: a sua forte carga emocional e o apelo a símbolos da nacionalidade e liberdade, que representavam a ideia de mobilização das camadas populares no caminho da libertação dos grilhões do Antigo Regime. Acesso em 17/05/2015 http://abstracaocoletiva.com.br/wp-content/uploads/2012/11/53.jpg AS NOVAS FORMAS DE REPRESENTAÇÃO NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX A síntese da forma na obra pictórica de Paul Cézanne Um dos mais importantes artistas do Ocidente, e que influenciou muitas gerações de pintores, nas quais se incluem Pablo Picasso e Georges Braque, foi o francês Paul Cézanne (1839-1906). Ele não considerava que a arte tivesse como papel a fiel representação da realidade, nem o mero registro das impressões decorrentes dos sentidos, mas antes, a busca da interpretação do real. Noutros termos, segundo Cézanne, o artista não reproduz, mas interpreta a realidade. Tendo iniciado a sua carreira com obras de cunho sensual, como A Orgia, Cézanne destacou-se sobretudo, na História da Arte, pelo rigor técnico com que buscou a geometrização em suas pinturas, empregando com maior constância formas cilíndricas,esféricas e cônicas, tornando-se um precursor do Cubismo. Veja exemplo: Paul Cézanne. Monte Sainte-Victoire. Óleo s/ tela. Acesso em 17/05/2015 http://uploads5.wikiart.org/images/paul-cezanne/mont-sainte-victoire-3.jpg A busca da ruptura com os padrões clássicos: pintura, design e arquitetura A introdução da máquina como elemento fundamental do ciclo produtivo propiciou, em meados do século XIX, um debate exaustivo sobre a relação entre artesanato versus indústria e, por conseguinte, entre arte versus artesanato. Na Primeira Exposição Universal de 1851, realizada no Palácio de Cristal em Londres, ficara patente a necessidade de adequar as formas dos objetos produzidos artesanalmente pelo homem aos novos tempos, agora, os da máquina.Formou-se então na Inglaterra um movimento denominado Arts and Crafts liderado por artistas como William Morris (1834-1896) e John Ruskin (1819-1900), que rejeitavam a forma de produção industrial. Defendiam o artesanato e buscavam nas corporações e guildas da Idade Média, uma saída plausível para a organização da produção nos novos tempos. Mais ao final do século XIX, no entanto, surge na Europa um movimento antagônico ao Arts and Crafts nos seus objetivos. Com diversas denominações, a Arte Nova, ou Art Nouveau pretendia avançar a questão da produção em série a partir dos novos materiais: o ferro e o vidro. Por isso, era necessário buscar novas formas, que rompessem com o clássico, já que produzir nesses padrões implicava no artesanato. No entanto, as formas e as referências utilizadas pela Arte Nova para romper com o clássico tinham forte influência da pintura oriental, com utilização de formas da natureza, portanto linhas curvas e temas florais. Nesse sentido, a tentativa viu-se frustrada para alcançar rapidamente uma solução para a produção em série dos objetos, acessórios da construção e da própria edificação. Rapidamente, os arquitetos e artistas perceberam que as formas da Arte Nova não implementariam a produção racional e industrial. O trabalho manual continuava a ser necessário para obter os resultados formais pretendidos. Já na primeira década do século XX, mais precisamente em 1907, na Alemanha é fundada a Werkbund, uma sociedade de artesãos e artistas com o objetivo de relacionar a arte e a indústria por meio do ensino e da propaganda. Diferentemente do movimento inglês Arts and Crafts, a Werkbund concilia a máquina na produção artística, de forma a abrir terreno seguro para que Walter Gropius (1883-1969), em 1919 fundasse em Weimar, também na Alemanha, a primeira e mais importante escola de arte, design, arquitetura e urbanismo, a Bauhaus (1919-1933). Impressionismo A pintura denominada impressionista desenvolveu-se Europa no século XIX. Essa denominação tem a sua origem em uma famosa tela, de autoria de Claude Monet, intitulada Impressão, nascer do Sol, de 1872. Os artistas vinculados a esse movimento desprenderam-se da preferência por temas da mitologia greco-romana e puseram de lado a preocupação com a reprodução fiel (mimese) da realidade. Conferiam maior relevância aos próprios quadros, considerados importantes em si mesmos como obras de arte. O seu interesse central era a exploração dos efeitos de movimento e de luminosidade, obtidos a partir de pinceladas soltas, sem traço de desenho. Em geral, os impressionistas pintavam em meio à natureza e nos espaços abertos das cidades, visando observar melhor as variações decorrentes das mudanças da luz incidindo sobre pessoas e objetos durante o dia e a noite. Acesso em 17/05/2015 http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/5c/Claude_Monet,_Impression,_soleil_levant,_ 1872.jpg/780px-Claude_Monet,_Impression,_soleil_levant,_1872.jpg Expressionismo O expressionismo desenvolveu-se na Europa entre o final do século XIX e o início do século XIX. Os artistas que tomaram parte nesse movimento privilegiavam os aspectos internos do processo de produção artística, em detrimento de suas manifestações exteriores. Por esse motivo, conferiam às suas obras uma forte carga de subjetividade, tornando-as expressão direta dos seus interiores. Embora tenha se manifesta do em diferentes campos das artes,foi na pintura que se inaugurou o movimento expressionista, tendo constituído, ao lado do Fauvismo, o início das vanguardas históricas. Ademais, devido às suas próprias características que conduziam a uma supervalorização da individualidade artística, o Expressionismo figurou-se por certa heterogeneidade de estilos, tendo sido, por isso mesmo, sobretudo, uma postura diante da arte que congregou diferentes artistas, de características intelectuais diversas. Há ainda que observar que o Expressionismo originou-se em contraposição ao Impressionismo, em particular contra as suas tendências naturalistas e positivistas. Por essa razão, conforme indicado anteriormente, os expressionistas privilegiavam a intuição e o personalismo, enfatizando a interioridade de cada artista. Noutros termos, o Expressionismo deforma o real a fim de explicar a subjetividade do artista e da própria natureza, privilegiando a manifestação dos sentimentos e não a descrição objetiva da realidade. Acesso em 17/05/2015 http://ulbra-to.br/encena/uploads/O-Grito.jpg Fauvismo O Fauvismo (também conhecido como Fovismo) nasceu em 1905, em Paris, a partir da exposição no Salão de Outono. Naquela ocasião, certos artistas expuseram obras em que empregavam as cores puras de forma muito intensa, e, por esse motivo, passaram a ser denominados fauves (feras, em português). Na pintura fauvista não há preocupação com o realismo da representação nem interessam formas ou figuras e técnicas de desenho, já que a própria perspectiva é abandonada em favor do tratamento exclusivo da cor. Henri Matisse (1869-1954) foi um dos artistas mais relevantes do Fauvismo. Em seguida, a pintura de Matisse, intitulada a Dança de 1909. Acesso em 17/05/2015 http://galeriadefotos.universia.com.br/uploads/2012_04_04_23_39_110.jpg A ERA DA MÁQUINA E AS VANGUARDAS ARTÍSTICAS Os movimentos transformadores da arte: os ismos Entre as principais mudanças ocorridas no campo das artes no início do século XX estão as denominadas vanguardas artísticas. A denominação de vanguarda deve-se ao caráter ideológico e político do período pré-guerra e entre guerras, ao longo dos quais as mudanças sociais foram bastante acentuadas (como a Revolução Bolchevique na Rússia em 1917, por exemplo), não ficando as artes alheias a isso. Os artistas pretendiam e entendiam que as transformações sociais seriam possíveis a partir da arte, que, neste sentido, deteria função civilizatória. O caráter urbano e industrial da vida cotidiana alimentou as temáticas predominantes no qual a máquina tem papel fundamental: a velocidade, a energia, o tema da reprodução em série e a própria guerra constituíram assuntos recorrentes nas obras dos artistas. A natureza, entendida agora como artificial, é o novo mundo com o qual a arte presta contas em seu caminho rumo à abstração. O termo vanguarda na História da Arte do século XX foi tomado de empréstimo do vocabulário militar, no qual designava as tropas de infantaria que iam à frente dos batalhões para verificar a situação do inimigo e eventualmente fazer pequenas ações subversivas (avant-garde). No campo da arte, passou a significar a luta contra estilos do passado que representavam os valores burgueses.