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Faculdade de Medicina da Universidade do Porto Serviço de Fisiologia Observação do fundo ocular Texto de Apoio Dr. Amândio Rocha Sousa Prof. Doutor Adelino Leite Moreira Porto, Ano Lectivo 2006 / 2007 2 O OFTALMOSCÓPIO O oftalmoscopio foi inventado por Hermann von Helmholtz, e é um instrumento para observação do olho. O seu uso crucial é para avaliar a saúde da retina e do humor aquoso. Em 1915, Willam Noah Allyn e Frederick Welch inventaram o primeiro oftalmoscópio directo portátil precursor dos aparelhos usados normalmente na clínica em todo o mundo. Este instrumento era um aperfeiçoamento da invenção de von Helmoltz's e tornou-se um dos instrumentos mais importantes da prática médica. A companhia de equipamento oftalmológico formada na altura ainda hoje é uma referência em equipamentos de oftalmoscopia e designa-se de Welch Allyn. EXAME OFTALMOSCÓPICO O exame oftalmoscópio é o exame da porção posterior do globo ocular o que inclui o exame da retina, disco óptico, coroideia e vasos sanguíneos. A oftalmoscopia pode ser efectuada de formas variadas, agrupando-se em a oftalmoscopia com o apoio da lâmpada de fenda, oftalmoscopia indirecta simples e a oftalmoscopia directa. Oftalmoscopia com lâmpada de fenda: É um processo em que o doente é sentado numa lâmpada de fenda. Esta é um aparelho normalmente usado em oftalmologia para avaliação do segmento anterior do globo ocular. Esta oftalmoscopia pode ser directa ou indirecta. Na primeira usam-se lentes de contacto, enquanto na segunda se usam lentes indirectas de 60, 66, 78 ou 90 dioptrias (D) interpostas entre o olho do doente e a lâmpada de fenda, sem contacto, permitindo 3 a observação da retina em esteriopsia (isto é visão tridimensional), sendo a imagem invertida. O campo de visão neste caso é mais largo que na oftalmoscopia directa. Este exame é normalmente efectuado com dilatação pupilar farmacológica. Oftalmoscopia indirecta: O doente é sentado numa cadeira com as costas inclinadas para trás cerca de 45º. O examinador coloca na cabeça o oftalmoscópio indirecto. A observação é feita também com a interposição de uma lente de 20 ou 30 D. Neste caso a imagem é também estereoscópica e é observado um campo grande da retina. A oftalmoscopia indirecta faz-se normalmente após dilatação farmacológica da pupila. Este exame pode demorar 5 a 10 minutos e obriga o doente a olhar para as diferentes posições do olhar. Permite uma melhor visualização da rotina, mas obriga a um grande treino por parte do médico que o efectua (que normalmente é um oftalmologista). Em ambos os casos o uso de dilatação pupilar conduz à dificuldade de visão em ambientes normalmente iluminados e à perda de acomodação (dificuldade de focagem para o perto). Este efeito pode reverter somente ao fim de várias horas, sendo em alguns doentes só reversível no dia seguinte. O uso de óculos de sol e a impossibilidade de efectuar tarefas relacionadas com a visão do perto são consequências da realização deste exame. Oftalmoscopia directa: o doente é sentado, sendo o ambiente escurecido para evitar a miose (constrição da pupila) despertada pela luz. O exame é efectuado com a observação através da pupila, usando o oftalmoscópio, da papila, vasos, retina e por fim mácula. O oftalmoscópio possui uma fonte de luz com vários filtros de cor diferentes (normalmente 3), diâmetros de luz diferentes e um sistema de focagem que permite observar o fundo ocular. Este permite compensar a 4 potência dos óculos que o examinado, se for o caso, possui. Após a observação o doente experimenta um fenómeno de pós-imagem (mancha escura no campo de visão) que desaparece prontamente. Para efectuar a focagem a roda dentada, que muda a potência da lente em causa, deve ser ajustada até que a papila se torne nítida. A imagem que é visualizada, ao contrário da oftalmoscopia indirecta, não aparece invertida. Apesar de não ser necessário para a oftalmoscopia directa por vezes procede-se à dilatação pupilar com um midriático (tropicamida, por exemplo). A observação após dilatação deve ser efectuada cerca de 15-20 minutos após a instilação de uma ou duas gostas (espaçadas de 5 minutos) do fármaco. Não se deve fazer dilatação pupilar a doentes inconscientes ou a doentes com glaucoma. A observação de olhos esquerdos deve-se ser feita com o nosso olho esquerdo, enquanto a observação dos olhos direitos deve ser feita com o nosso olho direito. O oftalmoscópio deve ser aproximado o mais possível ao olho, devendo a sua parte superior quase encostar ao supra-cílio. O doente deve olhar em frente e fixar um objecto que esteja distante. Nessa altura e a partir de uma distância de 30-50 cm do doente devemos fixar através do oftalmoscópio o reflexo vermelho do fundo ocular (luar róseo) e aproximarmo-nos do doente segundo um ângulo lateral de 30º do plano vertical. Há medida que nos aproximamos do doente devemos encostar os dedos sua face, usar os dedos para segurar a pálpebra superior, se necessário, e observar o fundo ocular. Antes de iniciar a fundoscopia deve-se verificar: • se a fonte de luz funciona • se o tamanho do circulo de luz varia do maior para o mais pequeno • ajustar a potência da lente ao zero Assim seguidamente se descrevem os principais passos da fundoscopia directa: 1.Ter a luz ambiente da sala de observação reduzida (evita a miose) 2.Quer o doente quer o examinador devem estar em posições confortáveis 5 3.Indicar ao doente um objecto específico e distante para ele fixar o olhar durante o exame 4.Ligar o oftalmoscópio com uma intensidade de luz moderada para evitar a miose 5.Usar a abertura mais pequena do oftalmoscópio (spot de luz mais estreito) para olhos não dilatados e a maior (spot de luz mais largo) para olhos dilatados 6.Colocar a mão que não está a segurar o oftalmoscópio na cabeça do doente ou no seu ombro para podermos estimar a distância a que este se encontra 7.Usar a nossa mão e o nosso olho direito para observar o olho direito do doente (e a nossa mão e olho esquerdo para observação do olho esquerdo do doente). 8.Olhar através do oftalmoscópio para o doente a uma distância de cerca de 50 cm, procurando o seu luar róseo. 9.Seguir o luar róseo e aproximar-se do doente lateralmente segundo um ângulo de 30º até chegar próximo do seu nariz. 10.Focar o disco óptico 11. Seguir a arcada supero-nasal 12.Voltar ao disco óptico e seguir a arcada infero-nasal 13.Voltar ao disco óptico e seguir a arcada superotemporal 14.Voltar ao disco óptico e seguir a arcada infero-temporal 15.Focar a mácula (temporal ao disco óptico); se não conseguir pedir ao doente para olhar para a luz do oftalmoscópio (nessa altura ele fixa com a fovéola). ANATOMIA NORMAL DA RETINA Disco óptico Zona de saída do globo ocular das fibras do nervo óptico. Com um diâmetro aproximado de 1,5 mm é composto por um anel externo (bordalete neuroretiniano) e por uma escavação mais interna do interior da qual emergem os vasos 6 retinianos (a artéria central da retina ou a veia e os seus ramos). Corresponde ao “ponto cego” do campo visual. Normalmente a relação entre a escavação e o disco no seu diâmetro não deve ultrapassar os 0.5 (sendo 0.6 um dos critérios de glaucoma). Vasos retinianos. Os vasos retinianos são os ramos da artéria e da veia central da retina. Ambos se dividem à saída no disco óptico em vasos superiores e inferiores e estes em nasais e temporais. As veias são mais largas que as artérias e à saída no disco óptico possuem pulsatilidade (em cerca de 80% dos indivíduosnormais), a qual se perde com a subida da pressão ocular ou da pressão intra-craneana. Mácula – Zona central na fóvea e que se extende em 360º por um raio igual à distância entre a fóvea e o disco. Tem aproximadamente 5.5 mm de diâmetro. Nesta área há uma grande concentração de pigmento xantofilico o qual absorve a luz azul e protege a mácula da formação de radicais livres. Fovea – Depressão no centro da macula com 1,5 diametros de disco de tamanho que contém a maior concentração de cones de toda a retina. Nesta zona a relação cone- célula Disco optico Escavação no n optico Veia Arteriolas Fovea 7 bipolar é de 1:1 ao contrário do resto da retina em que vários fotorreceptores convergem para uma célula bipolar. No seu centro existe uma depressão com cerca de 350 mm de diâmetro com um alinhamento perfeito dos fotoreceptores com a luz. É nesta zona que a retina humana tem mais poder discriminativo e designa-se de fovéola. Como permite detectar fases iniciais de muitas doenças graves a oftalmoscopia é um exame complementar de muito valor diagnóstico. Tem uma fiabilidade de 90-95%. Para além das doenças oculares típicas a oftalmoscopia permite avaliar o sistema cardiovascular, o sistema nervosa central e a repercussão ocular da diabetes. 8 ALTERAÇÕES PATOLÓGICAS DO FUNDO OCULAR A oftalmoscopia é usada por rotina no exame completo do olho. Esta é capaz de detectar patologias oculares como o glaucoma, o descolamento da retina, as neuropatias ópticas ou a degenerescência macular relacionadas com a idade. Por outro lado é frequentemente usada na avaliação de repercussões oculares da diabetes, da hipertensão arterial ou de outras doenças vasculares. Papiledema Em doentes com cefaleias o aparecimento de um edema da papilla bilateral ou papiledema, na oftalmoscopia é um sinal chave para o diagnóstico de hipertensão intracraneana que poderá ser consequência de um hidrocefallus, de uma hipertensão intracraneana benigna, ou de um tumor cerebral, entre outras patologias. Este edema é consecutivo à transmissão da pressão intracraneana ao espaço subaracnoideu que envolve o nervo óptico com consequente estase venosa, interrupção do fluxo axoplasmático, rápido e lento, e edema. O disco fica hiperémico, com perda dos contornos e margens, e perda da pulsatilidade venosa. Nas fases tardias podemos observar exsudatos duros na mácula. O papiledema tem instalação rápida (4-5 horas) mas pode demorar semanas a desaparecer Glaucoma: Neuropatia óptica consecutiva ao aumento da pressão intraocular, condicionando perda de fibras nervosas. Nesta neuropatia a relação escavação/disco está aumentada, o que por si só é diagnóstico de glaucoma (com hipertensão ocular ou de pressão normal). Para além do aumento da relação escavação/disco (acima de 0.6) também as alterações da papila entre as quais hemorragias, entalhes, 9 irregularidades do bordalete neuroretiniano, enfartes de fibras do bordalete, entre outras são sinais de glaucoma. Hipertensão arterial Na hipertensão arterial as alterações da vasculatura retiniana mimetizam as alterações os vasos cerebrais no decorrer da evolução da hipertensão e podem fazer prever risco de acidentes cerebro-vasculares. Estas alterações vão desde o espasmo arteriolar, formação de exsudatos moles e duros, às alterações nos cruzamentos arterio-venosos ou ao edema da papila. Descolamentos da retina / rasgaduras da retina: Normalmente observadas durante a oftalmoscopia indirecta, já que estão confinadas a áreas aonde a oftalmoscopia directa não tem acesso. Consistem no descolar da retina neuro-sensorial do epitélio pigmentado da retina e são uma urgência oftalmológica cirúrgica. Diabetes ocular: Em doentes com diabetes a observação regular por oftalmoscopia, preferencialmente indirecta, (em cada 6 meses ou 1 ano) é mandatório para o rastreio e seguimento da retinopatia diabética, a qual nas sociedades desenvolvidas é a causa mais importante de cegueira na idade adulta. 10 A presença de microaneurismas, exsudatos duros, hemorragias e edema macular caracterizam a repercussão ocular desta patologia. Em situações mais graves observamos o aparecimento de hemorragias intraretinianas e mesmo anomalias vasculares intraretinianas A retinopatia diabética ligeira ou moderada possui alterações fundoscópicas por vezes subtis mas que podem obrigar a alterações terapêuticas precoces, daí que a observação fundoscópica seja muito importante. Tudo o que descrevemos anteriormente designa-se de retinopatia diabética não- proliferativa. Quando a doença se torna mais grave desenvolve-se neovascularização da retina e do disco óptico (retinopatia diabética proliferativa). Esta pode conduzir numa fase mais avançada a hemorragias no vítreo, por ruptura dos neovasos, que são muito frágeis e a descolamentos tracionais da retina (tracção exercida pelo tecido fibrovascular formada sobre a retina), com consequências desastrosas para o doente. Nota- Dioptria - Unidade de vergência que corresponde ao inverso da distância focal em metros. Uma lente de 2 dioptrias foca na retina uma imagem que se encontra a 0,5 metros dela.