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2. Extinções do final do Quaternário

Texto sobre as extinções do final do Quaternário, com cronologia regional da perda da megafauna (Austrália, Europa, Américas, ilhas), discussão de refúgios insulares, argumentos contra causas climáticas e evidências que apontam para impacto humano (caça, reprodução lenta, predadores invasores).

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e aconteceu o seguinte diálogo
 Silver Blaze tinha desaparecido,
Gregory (detetive da Scotland Yard): “Há algum ponto para o qual você gostaria de chamar minha atenção?”
Holmes: “Para o curioso incidente do cachorro durante a noite.”
Gregory: “O cachorro não fez nada durante a noite.”
Holmes: “Esse foi o curioso incidente.”
 (Em Silver Blaze, Arthur Conan Doyle, 1892)
As extinções do final do Quaternário
(LQE), começando há uns 50 kaa, levaram à perda de dois terços das espécies de grandes vertebrados do planeta
Um ponto crucial, que só pudemos entender com o recente avanço das datações, é que as LQE não ocorreram simultaneamente. 
Elas foram uma sequência temporal, como uma onda passando em momentos diferentes em cada parte do mundo
Vamos fazer uma viagem imaginária, no tempo e no espeaço, seguindo as extinções ao redor do planeta...
com um pico por volta de 46 kaa (Roberts et al., 2001) 
 Australia – ca. 50 a 40 kaa, 
da Australia continental, com um pico ca. 41 kaa (Turney et al., 2008) 
 Tasmania - um pouco depois
rhinocerontes (lanudos) e leões (das cavernas)
 Uma Europa com “elefantes” (mamutes),
foram mais espaçadas no tempo, 
com dois pulsos (Turvey, 2009):
 Na Europa, as extinções
Warm-adapted, 45-20 kaa
Cold-adapted, 14-9 kaa
Megalocerus sobreviveu nos 
Urais até 7,7 kaa. 
a extinção foi “rápida”, de 13,2 a 12 kaa 
O mastodonte sobreviveu até 9,9 kaa 
 Na América do Norte
foram mais recentes que na do Norte, e mais espalhadas, entre ca. 13 e 7,8 kaa (Barnosky & Lindsey, 2010)
 Na América do Sul as extinções
As extinções não pararam
na fronteira Pleistoceno-Holoceno
Pelo contrário, elas continuaram Holoceno adentro 
“máquinas do tempo” onde ainda havia remanescentes da megafauna
Pequena cola geológica:
Pleistoceno: o penúltimo período geológico, de 2,6 maa a 10 kaa
Holoceno: o período atual, de 10 kaa até o presente.
Essas máquinas do tempo foram as ilhas
No Caribe,
cerca de 13 preguiças gigantes anães endêmicas se extinguiram entre 5,5 e 4,4 kaa (Barnosky et al., 2004)
Os mamutes Mammuthus primigenius
sobreviveram nas ilhas St. Paul e Wrangel até 5 e 4 kaa
St. Paul e Wrangel
não foram exceções
Pelo menos cinco espécies de elefantes anões se extinguiram em ilhas do Mediterrâneo, os últimos há uns 4 kaa (Theodorou et al. 2007) 
Quatro espécies de hipopótamos pigmeus também se extinguiram nessas ilhas, mesmo no Holoceno, embora com datas menos conhecidas
Você já tinha notado este detalhe da arte egípcia? 
Madagascar:
será que Flacourt viu 
Megaladapis edwardsi?
Flacourt pode também ter visto
a gigantesca ave elefante (Aepyornis)
18
Na Nova Zelândia,
a espetacular fauna dos moas e da gigantesca águia de Haast se extinguiu entre 900 e 600 anos atrás
Ao contrário das outras grandes extinções
no passado geológico, esta foi seletiva de tamanho: só os animais maiores se extinguiram
Lyons et al., 2004
Essas extinções nos privaram
de conhecer uma biodiversidade fantasticamente mais rica que a atual. Por exemplo, há 50 kaa havia uns 150 gêneros de megamamíferos. Pelo menos 97 deles foram perdidos desde então (Turvey, 2009)
Uma característica notável das LQE 
é sua falta de relação com as flutuações climáticas ao longo do Pleistoceno
É comum relacionar as LQE
às mudanças climáticas que aconteceram durante o último ciclo glacial...
...sem perceber
que durante o Pleistoceno houve 51 outros ciclos glaciais antes do último, sem extinções associadas
Barnosky et al., 2004
Nem sequer durante o último ciclo glacial
o clima seria uma boa explicação, porque não explicaria as extinções na Austrália e nas ilhas
Burney & Flannery, 2005
E há muitas outras coisas
que as hipóteses climáticas não podem explicar...
A ausência de extinções de plantas
Que os grandes animais se extinguiram, e não os pequenos
Que as extinções foram sempre mais recentes nas ilhas que nos continentes. 
Mas o que uma testemunha ocular diria? 
Esqueça o clima. Hipóteses climáticas não se ajustam aos dados, não são parcimoniosas e são desnecessárias como explicação. Elas não explicam o que aconteceu comigo e com os outros.
Felizmente há outra explicação,
mais simples e mais parcimoniosa
Vejamos: nós sabemos quatro coisas:
1 – Espécies com reprodução lenta
são as mais vulneráveis à pressão de caça
2 –Taxas reprodutivas em animais
são inversamente proporcionais ao tamanho corporal
Walker et al., 2008
3 –Predadores invasores
causam perdas devastadoras às biodiversidades locais
4 – A agricultura e a pecuária
só foram inventadas em cada lugar depois da extinção da megafauna
Portanto, como poderíamos esperar
que os humanos, ao se dispersarem através do planeta como um predador introduzido auto-transportado de uma eficiência sem precedentes, não tivessem extinto a megafauna?
Assim como os latidos do cachorro em Silver Blade, as LQE precisariam de uma explicação especial se não tivessem ocorrido!!
Mas para ser uma boa hipótese,
não basta ser o esperado; também é preciso se ajustar bem aos dados.
O estudo de Araujo, Oliveira-Santos,
Lima-Ribeiro, Diniz-Filho & Fernandez em Quaternary International
 A intensidade da variação climática foi avaliada pelos dados do North Greenland Ice Core Project e do EPICA sobre as composições isotópicas em amostras de gêlo em cada hemisfério – proporções de δ18O e δ2H (proxies de temperatura) para os últimos 122 ka
 Datas de megafauna e de humanos foram obtidas da literatura para 19 regiões do planeta 
 As datas foram calibradas para anos de calendário e tiveram sua confiabilidade avaliada pela escala modificada de Mead-Melzer (Lindsey & Barnosky 2010); no total 2,088 datas de megafauna (67 gêneros) e 762 datas arqueológicas foram usadas.
Uma imagem vale um milhão de palavras
Casos mais sincrônicos que o esperado ao acaso (n = 126):
Com a chegada humana apenas: 65
Com a variação climática apenas: 2 
Com ambos: 20 
Com nenhum dos dois: 39 
Araujo et al. não está sozinho
entre estudos recentes mostrando o papel principal dos humanos nas LQE
O que importou foram as taxas reprodutivas;
tamanho corporal apenas co-variava com elas (Johnson 2002)
Os grandes animais podem nem ter sido um componente principal da dieta, e teriam se extinguido mesmo assim
(Johnson 2007)
A chave para estas extinções não foi a intensidade da caça, mas sim a fragilidade dos caçados.
Mas como foi o processo?
 Onde quer que a megafauna não tenha coevoluído com hominídeos, não se poderia esperar que os animais tivessem desenvolvido instintos para evitar humanos - island naivety
 Outros fatores além de caça também contribuiram para as LQE – perda de suas presas (para os carnívoros), degradação de habitat por fogo, e espécies introduzidas
 As extinções não foram rápidas – foi um longo processo na Austrália, Norte da Eurasia e América do Sul (uns 10 ka, 5 ka and 5 ka respectively).
Nunca houve “extinções do P-H”,
 Influenciados pelo hábito de separar períodos geológicos por eventos de extinção, muitos ainda falam de “extinções do Pleistoceno-Holoceno”
 Mas uma visão nova e mais realística é que essas extinções são parte de um contínuo que começou muito antes da transição P-H e continuou durante todo o Holoceno. 
 Além da megafauna das ilhas, durante o Holoceno as extinções continuaram acontecendo nos continentes, progressivamente alcançando espécies menos vulneráveis.
mas uma onda de extinções – a nossa
A continuidade das extincões 
no Holoceno
Doedicurus na América do Sul se extinguiu há uns 7,8 ka
Megalocerus na Eurásia há uns 7,7 ka
 Sivatherium no Oriente Médio há uns 5 ka
A percepção de que nós causamos
as LQE abre um novo e fascinante campo de pesquisa
Há muito para ser entendido sobre como o processo aconteceu, e portanto entender uma grande parte da história humana a qual até agora apenas podemos vislumbrar
Modelando o crescimento da população humanano Quaternário (Goldberg et al., 2016)
Modelando o crescimento da população humana
no Quaternário (Goldberg et al., 2016)
Outras questões fascinantes
podem incluir:
 A sequência temporal de extinções em cada lugar é como esperada?
 Há evidência de substituição de recursos depois do desaparecimento da megafauna?
 Time dwarfs e pseudo-extinções
Por que as explicações climáticas
ainda sobrevivem?
A resistência de alguns em aceitar a causa humana é ligada a noções ingênuas de uma natureza intacta antes da Idade Moderna, e do “bom selvagem” vivendo em suposta harmonia com a natureza.
Também é baseada na ilusão confortável de que até agora causamos poucas extinções, o que nos livra da responsabilidade de ter que mudar drasticamente nosso estilo de vida.
Mas a ilusão é uma má conselheira.
Citando Viola (1972)...
Paulinho da Viola (“Dança da solidão”) 
Meu pai sempre me dizia
Meu filho tome cuidado
Quando eu penso no futuro
Não me esqueço do passado

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