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CRÔNICAS DE BIOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E OUTRAS HISTÓRIAS OS MASTODONTES DE BARRIGA CHEIA CRÔNICAS DE BIOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E OUTRAS HISTÓRIAS OS MASTODONTES DE BARRIGA CHEIA 2ª EDIÇÃO O Documenta Pantanal produz livros, documentários, campanhas e outras iniciativas voltadas à proteção do Pantanal e à difusão de suas riquezas e urgências. No campo editorial, colabora para construir uma biblioteca de referência sobre a história, a cultura e a natureza pantaneiras, reeditando obras fundamentais e criando ou apoiando publicações que revelem ângulos e aspectos relevantes dessa paisagem brasileira singular. Vera Riscado e promove outras A Bernardo e Vicente, por me ligarem da forma mais poderosa e pessoal ao mundo do futuro, que será o deles. © 2024 Fernando Fernandez / Documenta Pantanal. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem prévia autorização. Coordenação Geral Documenta Pantanal – Teresa Cristina Ralston Bracher, Mônica Guimarães Coordenação Editorial e Produção gráfica Heloisa Vasconcellos Preparação e revisão Vera Maselli Projeto gráfico Soma Design Diagramação Douglas Kenji Watanabe capa: Bernardo Araujo ilustrações da capa: Alan Manson (Mauritius kestrel), Anant – Ramakrishnan (Tiger), Brian Choo (Elephant bird), Charles J. Sharp (Hyacinth Macaw), Dietmar Nill (Artibeus), John G. Keulemans (Kakapo), John James Audubon (Auk), Laboratório de Ecologia e Conservação de Populações da UFRJ (Cutia), Phil Armitage (Condor), Stephen Moore (Mastodon). heloisavasconcellos Sticky Note [FICHA CATALOGRÁFICA] SUMÁRIO Prefácio 9 Apresentacão 13 Históricas O caso dos mastodontes de barriga cheia 25 A máquina do tempo: Flacourt e a fauna perdida de Madagascar 32 Por que não existem pinguins no hemisfério norte? 37 O céu onde voava o condor 44 Conservacionistas Estudo de um caso perdido: o falcão de Maurício e a Biologia da Conservação 53 Dependendo do inimigo 63 Biocombustíveis, produção de alimentos, biodiversidade e “z” 68 Um tigre, dois tigres, 1,3 tigres 76 O Sus que deu certo 89 A tal da sustentabilidade 96 A tal da sustentabilidade 2: um teste demográfico 104 Nunca é por causa da demografia 110 Preenchendo com vida a floresta vazia 117 Gouldianas Viagem ao coração do mistério dos mistérios 127 A dança cósmica de Shiva: contingências e ritmo na evolução da vida 143 A Seleção Húngara de 1954 e a origem dos filos 163 Filosóficas Nós e eles: Darwin e a conservação 181 Por que conservar a natureza, afinal? 188 As mudanças climáticas e o outrismo 196 Por quem dobram os sinos da conservação 203 Biofílicas Os ursos de Răcădău e a esperança 211 Andy 217 A morte da minha rainha das árvores 223 Outros olhos sobre as cidades 229 Um caminho para a empatia 236 Utópicas Concordando em parte com Saramago 247 Um economista para um mundo novo 253 Eu também tenho um sonho 258 Livros 265 Bibliografia Históricas 277 Conservacionistas 279 Gouldianas 282 Filosóficas 284 Biofílicas 286 Utópicas 287 Vera Riscado Prefácio à segunda edição Vera Riscado 245 9 PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO Trazendo os mastodontes de volta da extinção no Pantanal Lembro-me bem daquele dia, da nossa imensa surpresa. Éramos um pequeno grupo de ambientalistas que formávamos o conselho editorial da revista científica Natureza & Conservação (hoje Perspectives in Ecology and Conservation). Estávamos reunidos em Curitiba para fechar um dos primeiros números da revista. Entre os textos que tínhamos que avaliar, havia um artigo de opinião de um ecólogo da Unesp, chamado Mauro Galetti. Galetti propunha nada mais nada menos que a introdução em massa de várias espécies de grandes mamíferos herbívoros da África e da Ásia – elefantes, hipopótamos, impalas e outros – no Pantanal brasileiro! A justificativa de Galetti era no mínimo instigante. Ele apontava que o Pantanal (assim como o Cerrado), havia poucos milhares de anos, tinha várias espécies de mamíferos igualmente gigantescos (“megamamíferos”), como os mastodontes – sim, tínhamos elefantes nativos na América do Sul –, preguiças-gigantes, toxodontes (similares a hipopótamos), etc. Esses bichos exerciam papéis ecológicos importantes no ecossistema pantaneiro, como dispersão das grandes sementes responsáveis pela reprodução das maiores árvores, regulação das populações de gramíneas, e ciclagem de nutrientes. Ora, todos esses grandes animais, certamente com populações pequenas e baixos potenciais reprodutivos, tinham desaparecido depois que os humanos chegaram pela primeira vez ao Pantanal, tudo indica que por caça. Hoje, esses processos ecológicos funcionariam de forma precária através de espécies introduzidas pelos colonizadores mais recentes, como bois e cavalos. Sendo assim, argumentava Galetti, faria todo sentido, para recuperar o bom funcionamento do ecossistema do Pantanal, introduzir lá 10 11 megamamíferos trazidos dos poucos lugares onde eles haviam sobrevivido à expansão humana, ou seja, da África e da Ásia. Depois de um pasmado silêncio, houve todo tipo de reação. Alguém disse que o Galetti era um gênio, mas a maioria achava que ele tinha enlouquecido. Afinal, por trabalhar com conservação, sabíamos bem que a introdução de espécies exóticas muitas vezes tem efeitos devastadores sobre a biodiversidade. E lá vinha aquele cara propondo a introdução de uma coleção inteira de bichos exóticos gigantescos, logo num dos ecossistemas mais frágeis do Brasil, o Pantanal? Houve a posição de que aquela ideia era uma loucura perigosa e que devíamos rejeitar o artigo ali mesmo. Mas ele tinha bons pareceres dos revisores, e felizmente prevaleceu a posição de que a ideia merecia, no mínimo, ser discutida, concordássemos com ela ou não – logo, cabia publicá-la na revista. Assim foi. Já faz algumas décadas que tudo isso aconteceu, e o mundo mudou muito nesse tempo. A ideia de Galetti, que na época nos parecia tão nova, hoje já se tornou bastante popular, conhecida como “rewilding”. É verdade que as iniciativas atuais de rewilding, em geral, são menos radicais que a ideia dele. Rewilding geralmente é feito para restaurar faunas perdidas há bem menos tempo que a megafauna perdida do Pantanal da qual falava Galetti. Além disso, em muitos casos, embora nem sempre, utiliza espécies nativas – ver, por exemplo, o livro Rewilding na Argentina, publicado pelo Documenta Pantanal. Isso tudo é parte das respostas a uma crise ambiental e de extinção que é hoje muito mais grave que naquela época. Claro, os problemas ambientais já eram imensos, como bem sabíamos. Mas hoje são muito maiores, e com a mudança climática, da qual mal falávamos em 2004, as questões ambientais estão em nosso cotidiano, nas notícias, na TV, e afetam de forma cada vez mais óbvia a economia e a vida de todos nós e de nossos filhos. O próprio Pantanal já não é mais o mesmo. Naquela época, estávamos acostumados a pensar nele como uma ilha de perfeição – aquele ecossistema único, com uma natureza riquíssima, um dos melhores lugares do mundo para ver bichos grandes, onde a ocupação humana e a natureza estavam em relativa harmonia. Hoje, a região sofre com a alteração do seu delicado regime hídrico por barragens, estradas e utilização de água para a agricultura; substituição das fazendas tradicionais por monoculturas, especialmente de soja; poluição dos rios por agrotóxicos e colossais incêndios alimentados pela mudança climática. O Pantanal, então, não é mais uma ilha. Embora os efeitos possam ser específicos por causa do peculiar regime hídrico da região – uma planície com pouquíssima declividade, na qual a água escoa muito devagar – os processos que hoje ameaçam a biota pantaneira são os mesmos que atuam aqui e ali ao redor de todo o planeta. O Pantanal se tornou um microcosmo do mundo, onde a ação das ameaças à biodiversidade planetária é particularmente óbvia, particularmente daninha (poiso símbolo nacional dos Estados Unidos, a majestosa águia de cabeça branca, Haliaeetus leucocephalus. A contaminação dos alimentos da águia pelo DDT a impedia de desenvolver cascas fortes para seus ovos; as cascas eram tão finas que se quebravam durante a incubação ou simplesmente os ovos não eclodiam. O DDT acabou sendo banido dos Estados Unidos em 1972, em grande parte devido à consciência gerada nos anos anteriores pelo célebre livro da bióloga Rachel Carson, Silent Spring. O DDT também foi banido de Maurício um ano depois, mas muito estrago já estava feito. Falcões são parentes relativamente próximos das águias, na ordem falconiformes, e o DDT teve o mesmo efeito sobre o falcão de Maurício, gerando ovos inviáveis. Quando o DDT enfim foi banido, duas das três populações do falcão, em Moka e Bambous, já tinham se extinguido. O declínio Com todos esses problemas juntando suas forças contra a espécie, o declínio do falcão de Maurício foi vertiginoso. Acredita- -se que havia cerca de 700 indivíduos no início do século XX. Nas décadas de 1950 e 1960, a situação se tornou crítica: com a extinção de duas das três populações, o número caiu para abaixo de 50. Não havia mais dúvidas: o falcão agora ia ladeira abaixo. Em 1973, um censo do International Council for Bird Preservation (ICBP) concluiu que havia apenas oito ou nove indivíduos; um casal desapareceu logo depois, deixando sete, no máximo. Nessa época, Falco punctatus já tinha ficado tristemente famoso, não apenas como uma das aves mais raras do mundo, mas como a ave mais rara de todas, ou – por que não dizer? – provavelmente a espécie de animal mais rara do mundo. Nessa época, o agonizante falcão foi objeto de uma romaria de ornitólogos profissionais e heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 56 57 amadores vindos dos quatro cantos do planeta que queriam ver a mais rara de todas as aves. “Veja antes que se extinga” era a isca dos que vendiam os pacotes turísticos para os ornitólogos. Enquanto isso, o ICBP lutava para adiar o desfecho inevitável. Três falcões foram capturados para tentar a reprodução em cativeiro; um deles logo morreu. Sobraram dois, felizmente um macho e uma fêmea, mas quem disse que eles queriam se reproduzir em cativeiro? Nada. Fracasso total. Em 1974, restavam apenas seis indivíduos da espécie Falco punctatus na face da Terra. Um casal em cativeiro, que se recusava a reproduzir. Quatro indivíduos na natureza: dois solteiros e um único casal ainda tentando procriar. Era isso. Não havia mais como ter ilusões: a hora final estava próxima. Em 1975, então, o imenso furacão Gervaise arrasou o arquipélago. Seu centro foi quase sobre a ilha Maurício, onde sobreviviam os seis últimos falcões. Milagrosamente, Falco punctatus sobreviveu ao Gervaise, mas era muito claro que era um caso perdido. Tentativas de salvação eram um desperdício de recursos. Um famoso conservacionista, Norman Myers, escreveu: “Nós devíamos abandonar o falcão de Maurício ao seu destino praticamente inevitável, e utilizar os recursos para fornecer um apoio mais forte para alguma das centenas de espécies de aves que têm maior chance de sobreviver”. O ICBP concordou e em 1979 enviou um funcionário com a missão básica de encerrar o projeto de conservação do falcão de Maurício e fechar suas instalações. Você quer continuar a ler isto? Tem certeza? Essa é uma história muito triste. Você quer mesmo continuar? Não quer desistir? Carl Jones decide tentar Carl Jones não quis desistir. Que imensa ironia a vida tinha feito com ele! Jones tinha crescido no País de Gales como um garoto apaixonado por aves de rapina, reproduzindo com sucesso em sua própria casa espécies que os profissionais tinham dificuldade para conseguir reproduzir nos melhores zoológicos. Como todo biólogo apaixonado por aves de rapina, tinha sonhado um dia conhecer a ave mais rara do mundo, o tal falcão de Maurício, aquele que era para se ver antes que se extinguisse. Agora o ICBP lhe abria uma oportunidade para um trabalho numa ilha isolada no outro lado do mundo apenas para cumprir por algum tempo o resto dos contratos pendentes e, quando isso acontecesse, encerrar o projeto, escrever os devidos relatórios, fechar tudo e voltar para o Reino Unido. Em outras palavras, desistir de tentar salvar o bicho que ele tanto sonhara conhecer. Jones pegou o trabalho, mas decidiu tentar. Jones começou a enrolar o ICBP para ganhar mais tempo e começou a agir. A sua primeira ideia foi dar aos falcões um suplemento alimentar, na esperança de que os bichos mais bem- -alimentados se reproduzissem mais. O único casal que ainda nidificava no campo o fazia num vertiginoso penhasco, mas isso não assustava Jones. Dia após dia, ele subia o penhasco levando para o ninho um pouco de carne crua. Felizmente, os falcões de Maurício, como muitos outros animais evoluídos em ilhas que nunca tiveram predadores de topo, nunca haviam evoluído um instinto de considerar aquele estranho primata perigoso. Isso permitia a Jones se aproximar do ninho e até manipulá-lo em relativa impunidade, exceto por algum ocasional rasante no pescoço. Logo a fêmea deu a Jones a primeira recompensa por seus esforços: três belos ovos. Ele imediatamente os retirou e os levou para o laboratório do projeto. Seu objetivo era duplo: proteger os ovos contra a predação – se um só mangusto descobrisse o ninho, poderia ser o fim da espécie – e induzir a fêmea a uma nova postura. Seu conhecimento de aves de rapina, e em particular sua experiência com a reprodução delas, haviam ensinado a Jones que, se uma postura era perdida, a fêmea podia colocar outra para substituí-la, exatamente como aconteceu. Vera Riscado Esta 58 59 Em seu primeiro ano, das duas proles levadas para cativeiro, Jones conseguiu criar três indivíduos: três machos! Tudo parecia conspirar contra o infeliz falcão, mas Jones não era de desistir facilmente. Como aumentar ainda mais a reprodução? De sua experiência com reprodução de aves, ele pensou que “puxar” ovos poderia ser ainda mais eficiente do que tirar a ninhada inteira. A lógica era a seguinte. Os ovos de cada ninhada eram postos um de cada vez, em dias consecutivos; tirar os ovos no dia em que cada um era posto deixava o ninho sempre vazio e isso induzia a fêmea a continuar pondo novos ovos. Nada de muito novo nisso; se você comeu hoje um ovo de galinha no seu café da manhã, agradeça a esse mesmíssimo princípio. Afinal de contas, galinhas têm sido aperfeiçoadas por seleção artificial há milênios para fazer exatamente isso. Jones usou o mesmo procedimento para o falcão de Maurício, com um sucesso espantoso. Ele conseguiu que as fêmeas colocassem até oito ovos em dias consecutivos, em vez das ninhadas de três ou quatro! Em poucos meses o laboratório começava a se encher de ovos de Falco punctatus para serem incubados, mas agora Jones era vítima do seu próprio sucesso. Não havia fêmeas adultas em número suficiente para incubar tantos ovos. Jones mandou importar alguns falcões europeus, Falco tinnunculus, uma espécie não ameaçada. Logo ele tinha um pequeno exército de falcões europeus em cativeiro, incubando ovos de falcões de Maurício… Um pouco mais e falcões de Maurício começaram a nascer em cativeiro. Era preciso, porém, que esses novos bichos também começassem a se reproduzir em cativeiro, e o quanto antes. Jones desenvolveu uma técnica de fecundação artificial para ajudá-los e conseguiu obter mais proles, agora de fêmeas fecundadas em cativeiro. Mas seus problemas não tinham acabado. Os falcões nascidos em cativeiro eram parentes muito próximos uns dos outros; afinal, todos tinham vindo dos ovos de um único casal. Fêmeas começaram então a apresentar malformações no oviduto por causa de depressão de endocruzamento, isto é, problemas genéticos resultantes de acasalamento entre parentes próximos demais. Jones, porém, conseguiu eliminar o problema por meio de seleção artificial, istoé, retirando as fêmeas que nasciam com o problema do seu plantel de reprodutoras para a geração seguinte. Mais ovos apareciam, mais filhotes nasciam, mas Jones percebeu que as fêmeas de falcão de Maurício que ele tinha eram em geral muito ineficientes ao incubar seus próprios ovos, levando a um grande número de perdas. Isso também não era uma surpresa; ele sabia que, entre aves de rapina, é comum que fêmeas inexperientes (geralmente incubando sua primeira ninhada) sejam menos eficientes na incubação que fêmeas mais experientes (que já tenham incubado uma ou mais ninhadas antes). Mas todo ovo de falcão de Maurício era valioso e ele não podia se arriscar a perdê-los. Como resolver o problema? A solução de Jones foi de uma criatividade espetacular. Ele se lembrou de que tinha os ovos dos falcões europeus que havia trazido para ajudar na incubação. Colocou então as fêmeas inexperientes de falcão de Maurício treinando incubação com os ovos dos falcões europeus. A esta altura, visualizemos a situação estapafúrdia em que estava o laboratório de Jones: numa bancada, falcões europeus incubando ovos de falcões de Maurício como mães de aluguel; em outra, falcões de Maurício incubando ovos de falcões europeus para treinar! Quem disse que o trabalho de um biólogo da conservação é maçante? Finalmente, Jones dispunha de falcões suficientes para levá-los de volta para a natureza com um mínimo de esperança de êxito. Ele começou então a reintroduzir Falco punctatus de cativeiro na natureza. À medida que a população natural começou a crescer, ele percebeu que não conseguiria mais dar conta de levar o suplemento alimentar de carne a todos os numerosos ninhos. Então, desenvolveu um novo e mais eficaz método para alimentar os falcões: chegava na base de cada penhasco, algumas dezenas de metros abaixo do ninho, e atraía a atenção dos falcões para si. Então, jogava para cima, girando, um camundonguinho branco de laboratório. 60 61 Os falcões vinham como uma bala e pegavam o camundongo no ar. Mais uma vez Jones soubera aproveitar com inteligência as características biológicas dos “seus” animais. Pobres camundongos. Não existe nada mais eficiente em pegar um pequeno objeto no ar que os falcões, que evoluíram sua técnica de capturar pequenas aves em voo ao longo de milhões de anos. Virando um jogo perdido A essa altura, as notícias que vinham de Maurício tinham começado sutilmente a mudar. Alguns anos antes, a notícia era “Venha ver Falco punctatus rápido, antes que se extinga”. Agora as notícias diziam “Ei, espere aí! Tem um cara aqui que está conseguindo salvar o falcão, a coisa está começando a funcionar”. À medida que as notícias se espalhavam, começavam a chover novos apoios. O Mauritius Wildlife Trust e o Jersey Wildlife Preservation Fund se juntaram como novos patrocinadores para o projeto, que agora tinha vida própria e que o próprio ICBP já não queria mais fechar. Profissionais de conservação dos quatro cantos do planeta, munidos de nova esperança, ofereciam seus talentos para ajudar a salvar o falcão de Maurício, a ex-ave mais rara do planeta. Um programa de controle dos predadores introduzidos foi desenvolvido. A reprodução em cativeiro foi muito melhorada. A reintrodução na natureza se acelerou e logo as duas outras populações naturais que haviam se extinguido, Bambous e Moka, tinham sido restabelecidas. Com isso tudo, a população do falcão de Maurício foi lentamente se recuperando. Em 1985, havia 12 adultos e 11 filhotes na natureza, além de vários indivíduos cativos. Em 1988, já eram 40 indivíduos na natureza, em duas populações. Em 1996, contavam-se cerca de 200 indivíduos em três populações. Hoje há mais de 400 Falco punctatus. Pode não parecer muito, e não é, mas vamos lembrar a situação desesperadora na qual o falcão de Maurício chegou a estar. Havia apenas seis indivíduos da espécie no planeta, sendo que apenas quatro na natureza, e com um único casal reprodutivo. Hoje Falco punctatus está fora de perigo, pelo menos em curto prazo. Procure uma foto de Jones no Google images (basta entrar com Carl Jones + Mauritius kestrel e você achará várias). É um sujeito magro, de cabelo preto liso, roupas simples, nada que pareça muito especial. Mas esse cara simples pode ir dormir pensando, com justiça, “Eu salvei uma espécie”. Porque é verdade, ele, sozinho, salvou o falcão de Maurício. Que belíssima razão para alguém pensar o quanto sua vida foi maravilhosa, e valeu, e muito, a pena. Uma mensagem de esperança A história da incrível salvação do falcão de Maurício, assim como muitas outras, é contada em mais detalhes no brilhantíssimo The Song of the Dodo, de David Quammen. Além do heroísmo de Jones, a história do falcão de Maurício ilustra bem a Biologia da Conservação em ação. Um homem utilizando boa ciência como guia: a ecologia (e um pouquinho da genética) para entender as ameaças ao falcão e para entender o que precisava fazer para revertê-las, aumentando a reprodução, diminuindo a predação e o endocruzamento, e por aí vai. Um homem utilizando o seu conhecimento sobre aves para perceber como, na prática, poderia fazer todas essas coisas. Mas muito mais do que tudo isso, um apaixonado utilizando toda sua garra, toda sua persistência quando ninguém mais acreditava, toda sua criatividade e imaginação, enfim, todo o seu ser, para alcançar o objetivo “impossível” que ele tanto queria. Nesses tempos em que tanto, desesperadoramente tanto, há por se fazer em conservação, essa parece ser a receita de que precisamos: boa ciência, amor pelo bicho, muita garra. Vera Realce falcão; [trocar vírgula por ponto e vírgula] 62 63 Não me entenda mal; não sou ingênuo de achar que seja fácil. Nem um pouco. Nunca antes na história humana a situação da natureza foi tão ruim como nestes tempos de desmatamento em escala colossal, onda de extinção causada pelo homem, poluição maciça, florestas vazias e aquecimento global. Porém, quanto mais converso com meus alunos, mais percebo a imensa vontade de tanta gente de meter as mãos na massa pela natureza, fazer alguma coisa por ela, fazer diferença. Já perdemos muito, e o que foi perdido não volta mais. Mas podemos ter esperança de salvar uma boa parte do que ainda resta? Acredito que sim. Como disse Carl Jones, “If you can save the Mauritius kestrel, you can save virtually anything” (“Se você pode salvar o falcão de Maurício, você pode salvar virtualmente qualquer coisa”). Bela frase para se pensar, melhor ainda para agir inspirado por ela. DEPENDENDO DO INIMIGO Se você fosse uma arara-azul e morasse no Pantanal, provavelmente não iria gostar muito dos tucanos-toco. Tucanos- -toco são os maiores predadores de ninhos de araras-azuis no Pantanal. No entanto, para a sobrevivência da sua espécie, você dependeria de seu maior inimigo. Esta fascinante história de uma ironia da conservação foi contada em um artigo que saiu em 2008 na influente revista Biological Conservation. Os autores do estudo, realizado na Fazenda Rio Negro, em pleno coração do Pantanal no Mato Grosso do sul, são quatro pesquisadores brasileiros, Marco Aurélio Pizo, Camila Donatti, Neiva Guedes e Mauro Galetti. O artigo é uma pequena joia, que não só ajuda a entender o que precisamos fazer para ajudar as araras-azuis, mas também fornece um excelente exemplo da importância da pesquisa científica para a conservação em geral. As araras precisam de muita ajuda. A arara-azul, Anodorhynchus hyacinthinus, é o maior psitacídeo do mundo, ou seja, a maior de todas as espécies de arara, papagaio e seus aparentados. São animais imponentes e majestosos, cujos gritos enchem os grandes espaços do céu do Pantanal – onde existe a maior população remanescente da espécie. Mas os espaços estão encolhendo a cada dia para as araras-azuis. Cobiçadas pelo tráfico de animais como bichos decorativos, ilhadas pela perda de seu hábitat, elas são consideradas ameaçadas e estão se tornando rapidamente cada vez mais raras.Vera Riscado Sul 64 65 Uma complexa rede de interações Araras-azuis são uns bichos muito exigentes, o que não ajuda nem um pouco as perspectivas da espécie no mundo de hoje. Elas se alimentam exclusivamente dos frutos de apenas duas espécies de palmeiras. Além disso, nidificam em árvores, mas não são capazes de cavar as cavidades para fazer seus ninhos. Para isso necessitam de grandes cavidades preexistentes, que só existem em árvores de grande porte e velhas – com mais de 60 anos de idade. Árvores assim, por sua vez, são cada vez mais escassas em meio às transformações pelas quais hoje passa o Pantanal. Pior ainda: uma pesquisa anterior de uma das autoras do artigo – Neiva Guedes – mostrou que 95% dos ninhos de araras-azuis no Pantanal são feitos em uma única espécie de árvore: o manduvi (Sterculia apetala). O manduvi, uma imponente árvore que pode alcançar 35 metros de altura, produz grandes frutos, cada um com três a oito grandes sementes dispersadas por aves. A arara-azul então depende fortemente do manduvi, mas essas árvores estão particularmente pressionadas no Pantanal pela transformação de regimes de pecuária extensiva em intensiva, o que leva ao aumento do desmatamento na região. Os autores investiram muitas horas observando quais aves visitavam os manduvis frutificando. Quatorze diferentes espécies de aves vieram comer os frutos dos manduvis, mas os visitantes mais frequentes, de longe, eram os tucanos-toco (Ramphastos toco) – aqueles bichos que são nosso estereótipo de tucano, com seu grande bico amarelo. Eles respondiam por quase dois terços de todas as visitas. Tucanos-toco e seus parentes menores, os araçaris, eram os únicos legítimos dispersores de sementes dos manduvis: aves com grandes bicos, capazes de engolir as sementes inteiras, sem quebrá- -las, e levá-las para longe da árvore-mãe. Porém os araçaris, com menos de 8% das visitas, eram apenas dispersores de importância secundária, enquanto os tucanos-toco eram, sem dúvida, os dispersores principais do manduvi. Outra análise mostrou que, embora a abundância de plântulas de manduvi diminuísse à medida que aumentava a distância da planta-mãe, os adultos de manduvi estavam em sua maioria espaçados mais de trinta metros uns dos outros. Sabe-se que animais como cutias e os porcos-do-mato usam a planta-mãe como referência para localizar e predar as sementes no chão. Daí Pizo e seus colaboradores inferiram que a dispersão de sementes para longe da planta-mãe era importante para a sobrevivência e o estabelecimento dos adultos de manduvi. Ou seja, os tucanos, ao dispersarem suas sementes, estavam prestando um serviço crucial para a árvore. Os tucanos-toco, porém, estão longe de ser apenas pacíficos comedores de frutos; são bichos vorazes que não ficam só nisso quando visitam os manduvis. Neiva Guedes, num trabalho laborioso, subiu em centenas de árvores e visitou um total de nada menos que 346 ninhos de araras, em seis diferentes anos, observando a situação desses ninhos. Em muitos casos, ela constatou que os ninhos haviam sido predados e os ovos das araras-azuis haviam sido devorados. O suspeito do “crime” podia ser identificado, na maioria dos casos, por uma série de evidências, que incluíam observação direta do predador, indícios como pelos, penas e marcas deixadas nas cascas dos ovos, ou por um predador ter se instalado no ninho. Vários predadores foram identificados, incluindo gralhas, gambás e quatis. No entanto, um mesmo suspeito foi indiciado na maior parte dos casos. Com uma média de 53,5% de todos os ovos predados anualmente, o maior predador de ovos de araras-azuis foi… você adivinhou: o tucano-toco. 66 67 O papel da ciência Conclui-se, então, que para ter lugares adequados para fazer seus ninhos, as araras-azuis necessitam de manduvis. Os manduvis, para sua reprodução, necessitam de tucanos-toco, que são também os maiores predadores de ninhos das araras. Portanto, as araras, para sua própria reprodução, necessitam de um de seus maiores inimigos. A história toda encerra algumas importantes lições, sobre a sutileza das intrincadas relações ecológicas, e sobre a importância da pesquisa científica para a conservação. Conservar os bichos e as plantas? Sim, claro, é para isso que nós estamos aqui. Mas bichos e plantas dependem de processos ecológicos, de interações às vezes intrincadas com outras espécies. Conserve funcionando bem os processos ecológicos dos quais o bicho depende e você conservará o bicho. Na ausência da excelente pesquisa desenvolvida por Pizo e seus colegas, quem teria ousado propor, em sã consciência, que uma estratégia para a conservação da arara-azul passasse por ações para conservar o tucano-toco, uma ave ainda relativamente comum no Pantanal e conhecida como um voraz predador da própria arara? Quem imaginaria isso? No entanto, proteger o tucano-toco pode hoje ser uma medida crucial para garantir às araras o suprimento de manduvis para nidificação. Dependendo do inimigo numa escala maior Claro que, como sempre acontece em ciência, ainda há muito a aprender – o que só torna a história toda ainda mais interessante. Por exemplo, a situação encontrada hoje já é, até certo ponto, artificial. Será que a dependência das araras sobre os manduvis seria tão grande se outras árvores de grande porte do Pantanal, que talvez também pudessem fornecer ninhos adequados, já não tivessem tido suas populações reduzidas? Será que na situação atual os prejuízos diretos causados pelos tucanos às araras, pela morte de seus filhotes, não superam os seus benefícios via manduvi, do qual afinal não são os únicos dispersores? Estas são questões fascinantes de uma tal de ecologia, uma ciência que é confundida com suas próprias aplicações. As respostas são fundamentais para que saibamos fazer as coisas certas para conservar as araras-azuis na difícil situação em que essas magníficas aves se encontram. Mas não haverá uma ironia ainda maior nisso tudo? Será que o dilema da arara-azul dependendo do tucano-toco não é, de certo modo, simbólico da situação da natureza como um todo? Os problemas que a conservação da natureza enfrenta são causados pela nossa própria espécie. Somos nós que deixamos os bichos e as plantas nas situações dramáticas em que estão hoje. Ao mesmo tempo, só nós, com conscientização, com vontade política e com boa ciência aplicada, podemos virar esse jogo. A natureza como um todo, assim como as araras-azuis, depende daquele que tem sido o seu maior inimigo. Vera Realce [tirar essa vírgula] Vera Riscado Essas 68 69 BIOCOMBUSTÍVEIS, PRODUÇÃO DE ALIMENTOS, BIODIVERSIDADE E “Z” …elementary laws never apologize (…leis elementares nunca pedem desculpas) Walt Whitman Um novo conflito vem emergindo ultimamente no nosso mundo já tão cheio deles: produção de alimentos versus biocombustíveis. Com o preço do petróleo a níveis estratosféricos e as mudanças climáticas como uma realidade cada vez mais óbvia, os biocombustíveis parecem uma alternativa muito tentadora aos combustíveis fósseis. Com isso, a demanda por biocombustíveis e consequentemente a sua produção vêm crescendo de forma exponencial nos últimos anos. Qualquer substituto menos poluente para os combustíveis fósseis parece, a princípio, ser muito bem-vindo. No entanto, vozes começam a surgir, inclusive na ONU, para nos alertar que infelizmente essa questão não é tão simples assim. Estamos, lembram essas vozes, num planeta já superpovoado, onde a demanda por alimentos cresce cada vez mais e onde cada área agrícola é necessária e valiosa. Quanto mais terras agrícolas forem perdidas para terras para produzir biocombustíveis, mais dificuldade a produção de alimentos terá em atender à demanda e mais tenderão a se agravar a subnutrição e a fome, que já afetam tanta gente neste planeta. No entanto, há quem minimize o problema, ou mesmo negue sua existência. No Brasil, muito se tem dito que o etanol brasileiro, obtido a partir da cana-de-açúcar,coisa era ver escrito num pedaço de papel que extinções locais deveriam acontecer com a redução de área de hábitat disponível, como vários ecólogos já tinham escrito com todas as letras muito antes de Newmark. Outra coisa muito diferente era ver aquela predição se materializar, com bichos reais, no mundo real, diante de nossos olhos. Repare que não falei nada sobre as causas biológicas por trás das relações espécies-área. Explicações existem, e a mais popular delas, a teoria de biogeografia de ilhas, proposta por Robert MacArthur e Edward Wilson em 1967, é provavelmente o trabalho científico mais citado da história da ecologia. É uma teoria espetacular e fascinante, e é tentador discuti-la aqui, mas resistirei à tentação. Para o ponto específico que estou discutindo, as causas da relação espécies-área não são relevantes. O que nos importa aqui é que elas existem: a existência de uma relação entre o número de espécies e a área é um padrão empírico, ou seja, baseado diretamente em observações do mundo real. Essa relação se aplica muito bem não só a ilhas reais, como também a “ilhas de hábitat”, como os parques de Newmark ou fragmentos florestais em geral. Há diferenças entre as relações espécies-área entre fragmentos e ilhas, mas pelo menos em escalas espaciais relativamente grandes relações espécies-área também se aplicam, para qualquer grupo taxonômico, a conjuntos de fragmentos florestais. Moral da história: relações espécies-área são um forte padrão empírico do mundo real, que pode ser visto como uma “lei” da natureza, menos precisa por certo mas quase tão Vera Realce [em itálico] heloisavasconcellos Realce Para visualizar melhor o que quer dizer isso, imaginemos que um "z" "típico" de 0,30 corresponde a ir para uma ilha dez vezes maior e encontrar o dobro do número de espécies, ou, inversamente, ir para uma ilha dez vezes menor e encontrar metade do número de espécies. 74 75 onipresente quanto a lei da gravidade. Leis naturais funcionam à nossa volta a cada dia, quer as percebamos ou não, quer gostemos delas ou não. Leis elementares Voltemos então aos biocombustíveis, à produção de alimentos e à conservação da biodiversidade. O ex-governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, o desmatador-mor, disse ao jornal O Globo que “há estudos que mostram que em 50% da área é possível ter todas as espécies preservadas”. Não, não é – e só imagino que tipos de “estudos” são esses! Quanto mais área se perder, mais biodiversidade se vai perder, mesmo se não houver qualquer intervenção humana futura, pelo simples fato de não ter conservado área o suficiente. Vamos agora pensar no planeta como um todo. A conversão de áreas antes utilizadas para a produção de alimentos em zonas de plantio para biocombustíveis leva, todo o resto sendo igual, à redução da oferta de alimentos. Com a redução da oferta, por outra lei muito simples – a da oferta e da procura – o preço dos alimentos sobe, estimulando novos plantios. Novas áreas agrícolas, claro, são abertas a partir da destruição de mais algumas áreas naturais remanescentes. Isso, por sua vez, mediante relações espécies-área, vai inevitavelmente gerar perdas de biodiversidade. O Brasil não está, de modo nenhum, imune a isso. Posso até concordar que de modo geral a produção de etanol brasileiro a partir da cana-de-açúcar não compete com a produção de alimentos. Claro, mas a área onde está hoje a cana no Nordeste brasileiro era toda de Mata Atlântica, portanto essa produção de biocombustível só é possível por causa de um desastre ambiental já feito. Magro consolo. Menos consolo ainda quando se pensa que a perda de áreas agrícolas para biocombustíveis em qualquer lugar do mundo e o consequente aumento dos preços dos alimentos são fatores que aumentam inexoravelmente a pressão pela abertura de novas áreas agrícolas em qualquer outro lugar – inclusive aqui. A Amazônia e o Cerrado, é óbvio, são as bolas da vez. Se há soluções possíveis, naturalmente passam pela tecnologia agrícola permitindo aumento de produtividade – o que já está por trás de muito do recente crescimento do agronegócio brasileiro. Mas mesmo esse tipo de solução é um paliativo que só pode varrer os problemas para baixo do tapete do futuro. Não nos enganemos com pseudossoluções imediatistas e fáceis. Soluções reais não passam por um crescimento econômico baseado na produção de commodities agrícolas – um modelo de desenvolvimento do século XIX. Soluções reais requerem bem mais planejamento e investimento e passam necessariamente por eficiência, inclusive energética, que nos permita aprender a produzir sociedades estáveis, em que a demanda seja estabilizada ou reduzida – a única possibilidade real da tão falada sustentabilidade num planeta finito. Se queremos futuro, temos que pensar mais em ter cidades planejadas para o transporte público, por exemplo, do que simplesmente em trocar o combustível do nosso carro de um que causa aquecimento global para um que exige terras. O planeta é finito. Terras para qualquer utilização vêm de algum lugar. Tirar mais área de ecossistemas naturais é sempre a “solução fácil”. Mas aí ninguém venha me dizer que isso é perfeitamente possível de conciliar com a conservação. “Z” vai agir sem remorso. Leis elementares nunca pedem desculpas. Vera Riscado –, o [Inserir vírgula entre o traço e "o".] 76 77 UM TIGRE, DOIS TIGRES, 1,3 TIGRES Grandes felinos, como tigres, onças e pumas, sempre foram alguns dos favoritos dos amantes da natureza. São admirados pela sua força e agilidade, pelo temor que inspiram e por sua beleza. Vários deles predam roedores – mas, claro, ninguém é perfeito. De qualquer forma, é um paradoxo o fato de que, apesar de todo o carisma desses animais, até recentemente sabíamos bem pouco sobre eles. Há algo de misterioso na natureza dos gatos em geral, e os grandes gatos, em especial, sempre foram bichos muito relutantes em dividir seus segredos conosco. Muitos biólogos começaram suas carreiras querendo trabalhar com felinos e outros grandes mamíferos, mas acabaram desistindo e indo trabalhar com outros bichos, como roedores, aves ou insetos. Esses animais menores sempre foram mais fáceis de capturar e de manusear, mais baratos de estudar e permitiam obter números amostrais maiores. Talvez mais importante que tudo isso: os pequenos animais nós conseguimos ver. Grandes felinos – à exceção dos leões nas savanas africanas – são animais reservados e inteligentes que raramente se deixam ver passeando por aí. A primeira vez que muitos de nossos ancestrais viram um tigre deve ter sido a última coisa que eles viram. Já os biólogos costumavam vê-los apenas nos raros casos em que, por exemplo, uma onça era capturada numa grande armadilha, ou nos casos mais raros ainda em que se tinha a sorte de ver um bicho desses andando na natureza. No mais, qualquer pessoa que persistia em estudar grandes felinos precisava de vastas doses de paciência, abnegação e imaginação para passar anos só “vendo” seus bichos por meio das pegadas, das fezes e dos bip-bips ritmados do sinal de um receptor de rádio. É claro que, apesar dessas limitações, gerações desses tais abnegados fizeram um trabalho admirável e aprenderam muita coisa sobre os grandes gatos por intermédio dos tais estudos baseados em pegadas, fezes e bip bips. No entanto, estudos assim geralmente não conseguiam estimar de maneira acurada quantas onças ou pumas havia em cada reserva, o que é uma das informações mais cruciais para a conservação e o manejo. Também não conseguiam nos dar muitos detalhes da vida cotidiana desses animais. Nos últimos anos, tudo isso está mudando com uma verdadeira revolução causada pelas armadilhas fotográficas. Essas “armadilhas” na verdade são câmeras colocadas no hábitat dos bichos, com sensores de movimento ou de calor que as fazem disparar quando um deles passa por perto. Elas têm registrado imagens espetaculares: pumas cujos olhos parecem duas lanternas, onças surpreendidasno momento de matar uma paca, e por aí vai. Mas o potencial desse método vai muito além das imagens inéditas. Algumas vezes, os pesquisadores instalam em cada lugar duas câmeras, uma de frente para a outra, para que o mesmo animal seja fotografado simultaneamente pelos dois lados. Isso permite o que antes parecia impossível: fazer um estudo de captura-marcação- -recaptura com esses bichos. Com estudos de captura-marcação- -recaptura, são possíveis estimativas populacionais acuradas de grandes felinos – a informação crucial que antes não tínhamos. O que é melhor: podem-se fazer estudos assim sem precisar da captura propriamente dita – rara, cara e estressante para o animal – para colocar a marcação. Cada indivíduo de onça, lince ou tigre tem um padrão particular em suas rosetas, pintas ou listras que permite que ele seja reconhecido com relativa facilidade quando “recapturado” por uma câmera. Gatos pintados, pode-se dizer, já vêm marcados de fábrica. Vera Riscado bip-bips [com hífen] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 78 79 1,3 tigres Em um trabalho publicado há alguns anos, três cientistas indianos – a bióloga Aparajita Datta e seus colaboradores M. O. Anand e Rohit Naniwadekar – usaram armadilhas fotográficas para estudar a abundância de grandes mamíferos no Mandapha National Park and Tiger Reserve, em 2006-2007. Mandapha é uma de quatro reservas estabelecidas no norte da Índia especialmente para conservar o majestoso e ameaçado tigre-indiano, Panthera tigris tigris. É uma reserva bem grande, com 200 mil hectares, um pouco maior que o Parque Nacional do Iguaçu. Os pesquisadores indianos distribuíram suas câmeras pela reserva inteira, fazendo uma amostragem muito intensa, que totalizou 1.537 câmeras-noite (número de câmeras × número de noites em que elas estiveram armadas, descontando-se as que apresentaram problemas de funcionamento). Como quaisquer pesquisadores, eles certamente esperavam obter ótimas fotos do maior e mais imponente de todos os grandes gatos. Ao analisarem as imagens, havia a espetacular pantera-nebulosa (Neofelis nebulosa), o “muntjac” (Muntiacus muntjak, um parente dos cervos), porcos selvagens (Sus scrofa), alguns carnívoros pequenos, macacos e porcos-espinhos. Mas, conspícuos pela sua ausência, nada de tigres. Datta e seus colegas tiveram o cuidado de considerar a hipótese de que eles não haviam obtido imagens de tigres porque a amostragem tinha sido insuficiente. Para isso usaram um modelo estatístico simples, baseado na relação entre as probabilidades de fotografar tigres e as densidades conhecidas de outras populações dessa espécie. Com isso eles estimaram o número máximo de tigres em Mandapha na hipótese mais favorável possível – ou seja, que um tigre fosse detectado na 1.538ª armadilha. Os pesquisadores calcularam que Mandapha teria um máximo de… 1,3 tigres. Um tigre, dois tigres, 1,3 tigres… O velho trava-língua agora soa triste. Mesmo que ainda haja algum tigre lá, o que não parece provável, não é preciso ser um especialista em Biologia da Conservação para perceber que uma população de um não é viável. Um dia o bicho vai morrer de velho sem nunca ter acasalado – isso se não o matarem antes. O mais triste de tudo é lembrar que os tigres estão no próprio nome da reserva de Mandapha. Por causa deles a reserva tinha sido estabelecida. Ainda no início da década de 1990, Mandapha tinha uma abundante população deles. Depois disso os números caíram, e de 2002 para cá mais nenhum foi visto. Pior: Mandapha é a segunda das quatro “Tiger Reserves” onde eles se extinguem – depois de Sariska, em 2004. Se os tigres não conseguem sobreviver nas reservas feitas especialmente para eles, algo está muito errado. Tigres são vítimas da ignorância. Em alguns lugares da Ásia, especialmente na China, a tradição local diz que produtos de tigre são afrodisíacos – conversa pra boi dormir e pra tigre morrer! O fato é que há uma grande demanda por partes desses animais, que alcançam altos preços. Caçadores profissionais da vizinha Myanmar invadem silenciosamente os parques da Índia para matar tigres sob encomenda, para que comerciantes chineses possam manter seu tráfico de ilusão. Uma condenação termodinâmica A triste situação dos tigres do norte da Índia reflete o que está acontecendo com todos os grandes gatos, com pequenas variações, no mundo inteiro. No mundo moderno, eles estão sitiados, acossados, espremidos em pequenos pedaços de hábitat remanescente, cercados por um mar de gente. As leis da termodinâmica determinam que eles sejam poucos e necessitem de muito espaço, e isso está na base de muitos dos seus problemas. heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 80 81 Que diabo as leis da termodinâmica têm a ver com isso, você pode estar se perguntando. Os grandes felídeos, pode-se dizer, estão no topo de uma das ideias básicas da ecologia: a das pirâmides de energia. Todos os seres vivos podem ser divididos em produtores (capazes de produzir seus próprios corpos a partir de gás carbônico e água, por fotossíntese), consumidores primários, secundários, terciários e por aí vai. Os consumidores primários se alimentam dos produtores; os consumidores secundários, dos primários, e assim por diante. Na natureza, apenas uma pequena fração da energia disponível em cada um desses “níveis” passa para o próximo nível, o que é chamado “a lei dos dez por cento”. Esse percentual na verdade varia um pouco, mas não surpreende que seja pequeno, pois é óbvio que muito da energia que nós absorvemos não é acumulada no nosso corpo. Se não fosse assim, cada um de nós pesaria várias toneladas! Os grandes gatos, que são exclusivamente carnívoros, estão no topo da pirâmide – ninguém vive de predá-los. Graças à lei dos dez por cento, pouquíssima energia chega até esse nível. Como eles evoluíram um grande tamanho que lhes permite dominar suas presas, a pouca energia que chega é dividida em um pequeno número de “pacotes” grandes. Por isso os grandes felinos são poucos. Por isso, para ter populações com esperança, precisam de áreas grandes. Simples assim, consequência inevitável de leis da natureza. Mas no nosso mundo moderno superpopuloso e fragmentado, parece não haver mais lugar para eles. Áreas naturais grandes são cada vez mais raras e a pressão sobre elas é cada vez maior. Por exemplo, muitas das principais presas de onças – antas, queixadas, catetos e pacas – são caçadas dentro das poucas áreas protegidas do Sudeste e do Sul do Brasil que ainda têm onças. Quando suas presas escasseiam, as onças saem da mata e atacam o gado do lado de fora, porque não lhes restou mais nada. Aí, são mortas em represália. Para as onças, se correr o caçador pega, se ficar o bicho não come. Uma imensa ironia Quando pensamos em conservar os felinos, além de pensar no que eles são, é preciso também pensar no seu papel nos ecossistemas. Como predadores de topo, grandes felinos fazem o que os ecólogos conhecem como regulação “de cima para baixo” (top-down). Predadores de topo regulam as populações de suas presas, nos níveis mais baixos da pirâmide. Com isso, impedem que uma espécie que seja a melhor competidora entre as espécies de presa se torne tão abundante a ponto de excluir as demais. Esse mecanismo parece ser bastante geral em ecologia. Por causa dele, a presença dos grandes predadores é essencial para manter a biodiversidade. Quando um ecossistema perde seus predadores de topo, perde muito mais que eles: perde uma série de interações ecológicas que permitem que aquele ecossistema funcione da forma como evoluiu. A perda dessas interações, por sua vez, tende a conduzir a perdas de biodiversidade. Não é à toa que John Terborgh, um dos maiores biólogos da conservação da atualidade, tem defendido tão obstinadamente a importância das big things – os grandes animais – para a conservação. Os grandes gatos não são só animais carismáticos semos quais a natureza nos pareceria mais pobre e mais vazia. Eles têm um valor para a conservação que vai muito além deles mesmos. Não foi só a ciência, no entanto, que percebeu o imenso potencial das câmeras para entender a vida desses animais. Há poucos anos, o programa de televisão Fantástico colocou dentro das nossas casas imagens de alta qualidade mostrando a vida cotidiana de uma família de tigres, com uma tigresa alimentando seus filhotes, assistindo às brincadeiras entre eles, ensinando-os a caçar, disputando território com outros tigres. Essas imagens impressionantes foram obtidas por câmeras levadas na tromba por elefantes asiáticos especialmente treinados – os tigres não evitam os elefantes como evitariam os humanos. Ver a vida dos Vera Riscado terciários, [vírgula] 82 83 tigres dessa forma, com todos os detalhes, com um cotidiano ao mesmo tempo tão complexo e tão diferente do nosso, com seus próprios problemas, seus próprios dramas e suas próprias alegrias, é um privilégio que nenhuma outra geração da história humana tinha tido. O mundo visto pelos olhos de um tigre é um outro mundo, do qual nunca fizemos parte. É como se esse mundo estivesse sempre ao lado do nosso, mas não tivéssemos como olhar para ele. Agora temos. Nunca como agora tínhamos tido essa chance de sentir tamanha proximidade, tamanha identificação, e não só medo ou admiração, por esses animais tão reservados e misteriosos. Seria uma imensa e trágica ironia se os perdêssemos logo agora. A maioria das pessoas que já ouviram falar de um sujeito chamado Douglas Adams, associa o nome dele a um livro hilário, impagável: O guia do mochileiro das galáxias. Para seus milhões de leitores mundo afora, ele é um escritor talentoso que conseguiu misturar dois gêneros aparentemente muito distintos, como comédia e ficção científica, com muita criatividade e muito senso de humor. Mas Adams, um inglês falecido em 2001, era uma figura muito mais interessante e complexa que isso. Sua facilidade de falar sobre planetas, estrelas e viagens espaciais, como no Guia, era apenas um indício da sua imensa curiosidade e do seu profundo interesse por ciência em si. Entre outras coisas, ele se interessava muito por evolução biológica e era amigo do biólogo Richard Dawkins, que dedicou a ele um de seus livros. Era também músico amador e amigo de David Gilmour, do Pink Floyd – para minha imensa inveja, chegou a tocar guitarra em duas músicas em uma apresentação da banda inglesa. Só essas coisas já bastariam para garantir a Douglas Adams um lugar na minha galeria de heróis pessoais, mas descobri que há mais um bom motivo para isso: ele escreveu um livro sobre conservação da natureza – ao mesmo tempo tão diferente dos demais dele e tão igual a eles –, um livro para encantar, para divertir e para emocionar. Last chance to see (Última chance para ver), escrito com a ajuda do biólogo Mark Carwardine, foi publicado originalmente em 1990. É um relato de um projeto que os dois fizeram juntos, durante dez meses, de ver alguns dos animais mais ameaçados do mundo antes que se extinguissem. Segundo os autores, alguma das espécies visitadas bem poderia já estar extinta. E infelizmente eles tinham razão: uma já está mesmo. Mas isso não torna o livro nem um pouquinho menos atual – na verdade, só o torna mais atual e mais necessário. De todos os animais visitados por Adams e Carwardine, nenhuma história é mais pungente que a do golfinho do Yang- -Tsé, ou baiji (Lipotes vexillifer). Essa é a espécie que já não existe mais. O baiji, equivalente ecológico do nosso boto-cor-de-rosa do Amazonas, foi declarado extinto em 2006. Para ele, foi realmente a última chance para ver. Quando Adams e Carwardine tentaram (sem sucesso) encontrá-lo em 1988, a situação do baiji já era tão crítica que a gente fica se perguntando como era possível que o bicho ainda não estivesse extinto. Sem poder ver nas águas sujas e turvas, sem poder se orientar com seu sonar na cacofonia subaquática causada pelos motores de milhares de barcos, comendo peixes contaminados por poluição, sendo ora feridos por anzóis afiados, ora afogados em redes de pesca, ora atropelados por uma embarcação, os pobres baijis viviam num mundo de pesadelo. Pela primeira vez na vida me surpreendi pensando que uma extinção podia ser misericordiosa. Logo, porém, afastei esse pensamento. Como disse o pai da Biologia da Conservação, Michael Soulé, a extinção é muito pior que a morte: a extinção é o fim dos nascimentos. Nenhum baiji mais vai nascer. O fim daquelas últimas vidas pode ter lhes poupado mais sofrimento, mas impediu todas as outras vidas de baijis que poderiam ter existido no futuro, quando, com um pouco de esperança, o mundo não irá mais aceitar grandes rios nas condições atuais do Yang-Tsé. Vera Realce [itálico] 84 85 Um estranho mundo desaparecido É comum falarmos em espécies em extinção, mas é raro que alguém consiga captar tão bem a dramaticidade e a emoção de uma situação dessas sem perder o senso de humor, como faz Douglas Adams. Pegue o exemplo do kakapo (Strigops habroptilus), personagem principal daquele que, para mim, é o capítulo mais brilhante do livro, Heartbeats in the night (“Batidas do coração na noite”). Para mim o kakapo era apenas mais uma entre tantas aves endêmicas e ameaçadas da Nova Zelândia, mas só agora percebi o que ele é e o que representa. É um animal ilhado não só no espaço, mas também no tempo. É um escasso sobrevivente de um mundo estranho, muito mais fantástico que qualquer ficção, que já não existe mais. O kakapo é um papagaio noturno e não voador – é, você leu certo –, imenso, meio pesadão, com umas penas meio desgrenhadas e uma cara simpática. Hoje em dia, suas colegas aves não voadoras contam-se nos dedos no mundo. No entanto, não muito tempo atrás, contavam-se aos milhares, distribuídas por centenas de ilhas ao redor do globo. Por que em ilhas? Porque em ilhas, devido à falta de alguns atores que existem nos continentes, a peça que o grande ecólogo George Evelyn Hutchinson chamou de “o drama evolutivo” teve um enredo diferente. Mamíferos terrestres nunca chegaram a muitas das ilhas mais isoladas. Na sua ausência, outros animais – sobretudo aves – evoluíram para ocupar os papéis ecológicos que os mamíferos terrestres exerciam nos continentes. Para isso se adaptaram à vida no solo, perderam a capacidade de voo e, na ausência de predadores, muitas passaram a colocar ovos em ninhos expostos no chão. Como resultado desse processo, até poucos milhares ou mesmo centenas de anos atrás, as ilhas do mundo eram o reduto de uma espantosa coleção de aves não voadoras, que mais parecem saídas de um livro de fantasia. Estas incluíam, entre muitas outras, gansos não voadores, patos não voadores, pombos não voadores como o famoso dodô das ilhas Maurício, passeriformes não voadores, mais os gigantescos moas da Nova Zelândia e a ainda mais gigantesca ave-elefante de Madagascar. E até – por que não? – um papagaio não voador. A paz dessas estranhas criaturas em seus estranhos mundos foi bruscamente quebrada pela chegada humana. No Pacífico, por exemplo, ilha após ilha foi colonizada, de oeste para leste, a partir de uns três mil e quinhentos anos atrás, e as aves não voadoras certamente foram uma fonte de alimento fácil e importante para os colonizadores polinésios. Além disso, para outros animais trazidos pelos humanos, como gatos e ratos, ovos em ninhos abertos no chão foram uma festa – mas uma festa de curta duração. À medida que cada ilha ia sendo colonizada, as aves não voadoras iam desaparecendo. Nas últimas décadas, estudos de pesquisadores como o paleontólogo David Steadman mostraram que algo entre mil e duas mil espécies de aves foram extintas nesse processo – grande parte delas não voadoras. Umas poucas espécies sobreviveram até mais recentemente nas últimas ilhas a serem atingidas pelos colonizadores. Esse foi o caso do dodô nas ilhas Maurício e do kakapo(assim como do kiwi) na Nova Zelândia, alcançada pela primeira vez por humanos – os maori – há apenas cerca de novecentos anos. Encontro numa noite chuvosa Na época em que Last chance to see foi escrito, o kakapo só era encontrado, que se soubesse, em duas pequenas ilhas da Nova Zelândia, Codfish e Little Barrier Island, somando a espécie uma população total de quarenta e três indivíduos – um a mais que o grande segredo da vida, do Universo e de tudo, segundo o Guia do mochileiro das galáxias. A essas ilhas, gatos e ratos nunca chegaram, e há uma verdadeira operação militar permanente para impedir Vera Realce [Tirar vírgula depois de livro] Vera Realce (Batidas do coração na noite) [sem aspas e em itálico] 86 87 que cheguem, inclusive com revistas rigorosas de cada barco que aporta lá. Um grande momento do livro é a noite chuvosa na qual Adams e Carwardine finalmente conseguem encontrar um kakapo, com a ajuda de Arab, cuja profissão – rastreador de kakapos – está quase se extinguindo também, por falta de objeto de trabalho. =Boss, o cachorro treinado para encontrar kakapos, segue à frente com um sininho no pescoço para poder ser seguido pelas pessoas. A procura se estende por horas, e Adams e Carwardine já estão cansados, molhados, quase apáticos. Num certo momento, mal percebem que o sininho parou de tocar. Então, subitamente, olham um para a cara do outro e percebem ao mesmo tempo o que isso quer dizer. Ambos se atiram correndo na mata e, em poucos minutos, lá está. Nas mãos de Arab, lá está um kakapo molhado, perdido, congelado de medo. Seu poderoso bico segura o dedo de Arab com força, mas sem quebrá-lo, como poderia facilmente fazer. Arab sangra e não se importa; Adams e Carwardine estão encharcados e exaustos, mas não se importam. Lá está, naquela ave assustada, um raro vislumbre de um mundo que não existe mais. Batidas do coração na noite Uma das coisas mais impressionantes do kakapo, porém, é o canto de acasalamento do macho. É um som muito grave e poderosíssimo, como uma imensa batida de coração ecoando pela noite. Tem uma frequência quase baixa demais para nossa audição; é algo meio ouvido, meio sentido, que não se pode saber de onde vem. É um som de um mundo do passado, que quase não se pode mais ouvir, ou sentir, ou o que seja. Para sua finalidade, de atrair a fêmea para acasalamento, o canto do kakapo é também lamentavelmente ineficiente, por causa de sua não direcionalidade. Um canto assim pode ter sido bom o bastante para as baixas taxas reprodutivas que o bicho deve ter evoluído em ilhas sem predadores, mas não ajuda nada na situação atual, na qual a espécie depende muito da reprodução para sobreviver. É como se o macho estivesse dizendo para a fêmea, com um som ritmado, intenso e repetitivo, “venha para mim!”. Para Douglas Adams (em tradução livre), é como se houvesse um diálogo entre o macho e a fêmea, mais ou menos assim: “Venha para mim!”, “Onde você está?”, “Venha para mim! ”, “Onde, diabos, você está?”, “Venha para mim!”, “Escuta, você tá querendo que eu vá ou não?”, “Venha para mim!”, “Ah, que saco!”, “Venha para mim!”, “Vai se…”. Pobres kakapos! Vai ser difícil conseguirem as taxas reprodutivas que os biólogos da conservação esperam deles. Conservação e encantamento Last chance to see, antes de tudo, nos ajuda a relembrar de como a conservação depende do encantamento. Qualquer pessoa que se importa com animais e plantas fica com um aperto no coração ao ler sobre a situação atual de um grande número de espécies. No entanto, nem por isso textos sobre essas coisas precisam ser maçantes ou pesados de ler. Como Adams bem percebeu, muitos desses casos são também excelentes histórias: com drama, com mistério, com emoção e – por que não? – até com humor. Isso tudo nos ajuda a desenvolver empatia pelos bichos, que é e sempre foi uma das razões que nos levam a tentar fazer algo por eles. Se hoje eu trabalho com conservação, é em grande parte por causa daqueles dias de criança quando eu ficava longas horas lendo livros e álbuns de figurinhas de bichos maravilhosos que sonhava um dia conhecer. Muita gente que hoje luta pela natureza tem histórias parecidas para contar. A gente só cuida do que ama, e só ama o que conhece. Vera Riscado [Tirar esse sinal = antes de Boss.] 88 89 Desenvolvermos empatia pelas espécies ameaçadas tem pressa. No mundo de hoje a situação de um grande número delas, como as visitadas por Adams e Carwardine, está cada vez mais crítica. Mas será muito triste se só soubermos delas depois que tiverem acompanhado o baiji na extinção. Quem sabe agora pode ser a nossa última chance para ler, enquanto elas ainda estão conosco. O SUS QUE DEU CERTO Espécies exóticas invasoras estão entre os maiores vilões da conservação, e há razões de sobra para isso. Uma invasora é uma espécie introduzida pelos humanos em uma área fora de sua distribuição original, e que consegue se instalar e se reproduzir com sucesso na nova área. Em um ambiente novo, livres de seus inimigos naturais, algumas delas se tornam muito abundantes e têm impactos devastadores sobre as biotas locais. Esse processo tem sido apontado como uma das três maiores causas de extinção de espécies, ao lado de perda de hábitats, e de caça e superexploração. O problema é particularmente grave em ilhas, onde invasoras causaram várias centenas de extinções globais de espécies. Em muitas ilhas ao redor do mundo, mesmo nas maiores como a Nova Zelândia ou a ilha metida a continente chamada Austrália, o trabalho de conservação quase se confunde com o controle de exóticas. Aqui no Brasil, as ameaças à biodiversidade são múltiplas e aumentam a cada dia, mas ainda assim o caramujo africano, o pinheiro Pinus elliottii e o bagre-africano, entre tantos outros casos, têm causado justificada preocupação. Talvez você se surpreenda ao saber que uma das mais destrutivas espécies invasoras é o porco doméstico, Sus scrofa. Não se deixe enganar por aquela carinha simpática com nariz de tomada. O porco está na lista da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) como uma das cem piores espécies invasoras do mundo. Em todo o mundo, porcos domésticos “ferais” (isto é, retornados à vida selvagem) causam sérios prejuízos à vegetação e ao solo. Predam de tudo: ovos de aves marinhas e de tartarugas, anfíbios, invertebrados. Transmitem doenças para várias espécies, inclusive 90 91 a nossa. Além disso, estudos como os do paleontólogo norte- -americano David Steadman mostram que porcos trazidos pelos polinésios estiveram entre os principais responsáveis pela extinção de mais de oitocentas espécies de aves nas ilhas do Pacífico – na maioria, espécies que nidificavam no chão e não tinham defesa alguma contra mamíferos predadores introduzidos. Como se sabe, então, o Sus é um desastre. O porco monteiro e seu papel no Pantanal Dados esses antecedentes, foi uma agradável surpresa para mim que Arnaud Desbiez, um biólogo francês radicado no Brasil, e três colaboradores (Alexine Keuroghlian, Ubiratan Piovezan e Richard Bodmer) publicassem, em 2011, na revista Oryx, um artigo com a ideia de que o porco doméstico introduzido é um dos principais responsáveis pela conservação de várias espécies de grandes mamíferos no Pantanal. O ponto que Arnaud e seus colegas defendem é simples, interessante e importante. No Pantanal, o “porco monteiro” – como lá é conhecido o porco doméstico feral – existe há mais de 150 anos, desde que fazendas foram devastadas durante a Guerra do Paraguai e os bichos escaparam. Sua carne é altamente apreciada pelos pantaneiros: 93% dos entrevistados a apontaram como sua carne silvestre favorita, enquanto 7% preferiam o queixada (Tayassu pecari) e ninguém falou do cateto (Pecari tajacu), as duas espécies de porcos-do-mato nativos do Pantanal. Há um costume local de capturar machos de porco monteiro, castrá-los, marcá-los (para identificar a fazenda à qual “pertencem”) e soltá-los paracaptura posterior. Esses machos, chamados “capados”, tornam-se imensos e fornecem a mais apreciada das carnes. Além disso, os caçadores geralmente evitam matar fêmeas, especialmente fêmeas grávidas, o que permite a manutenção da população. Segundo Arnaud e colegas, o fato de o porco monteiro ser a espécie preferida protege da caça os grandes mamíferos nativos que coexistem com ele, como o queixada e o cateto, que em outros lugares sofrem intensa pressão e já se tornaram regionalmente extintos em grande parte do Brasil e raros no restante. Se essa interpretação está correta, o porco monteiro introduzido seria um importante fator para o Pantanal ser a única região do Brasil onde grandes mamíferos ainda são abundantes mesmo fora de Unidades de Conservação de proteção integral. Como em quase tudo no Pantanal, o equilíbrio é frágil. Arnaud e seus colegas lembram, claro, que os porcos monteiros também têm outros efeitos sobre a biota pantaneira. Afinal, todos os velhos truques que colocaram Sus scrofa na lista dos cem piores invasores ainda estão lá: os bichos destroem a vegetação e o solo, predam pequenos vertebrados, transmitem doenças… Mas é possível que esses efeitos negativos sejam menores que os positivos e, se esse for o caso, isso parece se dever a um único fator: justamente que a caça controla a população dos porcos, impedindo que ela chegue a níveis nos quais os impactos negativos seriam preocupantes. Não se consegue evitar a impressão de que funciona bem quase que por um acidente histórico – como não aconteceu em vários outros lugares onde hoje não há porcos ferais, nem queixadas, nem catetos. Mas funciona. Parece haver um Sus, pelo menos, que funciona. Certamente há outro caso importante de introdução de Sus no Brasil, que é o javali, da mesma espécie que o porco doméstico, Sus scrofa. Na verdade, o javali é a forma selvagem a partir da qual o atual porco doméstico foi derivado, através de milhares de anos de domesticação e de seleção artificial para acentuar as características valorizadas por nós. Mas a invasão do javali no Sul do Brasil, por exemplo, onde já não há mais queixadas e catetos na maioria das áreas, representa uma situação muito diferente daquela do porco monteiro no Pantanal. Sobretudo, não necessariamente representa um questionamento da malignidade das exóticas. Não é meu objetivo, portanto, discutir o javali aqui. heloisavasconcellos Sticky Note [retirar] heloisavasconcellos Highlight 92 93 Reavaliando o papel das invasoras Será que o porco monteiro no Pantanal é apenas um caso isolado, uma exceção dentro de um padrão praticamente inflexível de que espécies invasoras provoquem estragos? Já não estou mais tão certo disso. Há alguns anos, uma carta intitulada “não julgue espécies por suas origens” foi publicada na revista Nature por um grupo de ecólogos encabeçado por Mark Davis e incluindo monstros sagrados dessa ciência como Michael Rosenzweig (aquele mesmo das relações espécies-área) e James Brown (não o do soul; o outro, da University of New Mexico, para mim um dos maiores ecólogos do século XX). Essa carta ameaça colocar o caso do porco monteiro como apenas mais um exemplo dentro de um cenário muito maior de reavaliação do papel das espécies invasoras pela Biologia da Conservação. Davis e colaboradores traçam o histórico dos conceitos de espécies “nativas” (native) e exóticas (alien), que foram criados pelo botânico inglês John Henslow em 1835, para ajudar a distinguir a “verdadeira” flora britânica das plantas introduzidas. Porém os ecólogos só despertaram para a escala e a importância do assunto em 1958, com a publicação do clássico A ecologia das invasões por animais e plantas, de Elton (não Elton John; o outro, ainda mais antigo, Charles Elton, um dos grandes pioneiros da ecologia). Nas décadas seguintes, com o aumento das informações sobre os impactos de exóticas, foi se firmando entre cientistas, conservacionistas e muito do público em geral uma visão de que espécies invasoras são ruins e devem ser evitadas e erradicadas a qualquer custo. Segundo Davis e colaboradores, porém, há muitos casos em que não se pode demonstrar que uma exótica esteja causando estragos para a biodiversidade, e outros em que elas podem, na verdade, estar tendo um efeito positivo. Um exemplo citado na carta é o do “tamarisk”, uma planta africana e eurasiana que foi introduzida em regiões áridas dos Estados Unidos, onde hoje é um componente importante do hábitat, sendo inclusive a planta preferida para a reprodução de um pássaro nativo e ameaçado, o willow flycatcher (Empidonax traillii). Assim sendo, os imensos esforços dos americanos para erradicar o “tamarisk” poderiam estar sendo contraproducentes para a conservação. Outro ponto interessante apontado por eles é que o mundo biológico vem sofrendo rápidas e intensas transformações, inclusive por causa das mudanças climáticas globais, e por isso o papel das espécies nos ecossistemas muda ao longo do tempo. Por um lado, isso quer dizer que uma invasora que hoje é inofensiva pode vir a fazer estragos no futuro; mas, por outro lado, isso também vale para qualquer nativa. Por exemplo, hoje o inseto que mais mata árvores na América do Norte é o besouro nativo Dendroctonus ponderosae, cuja dinâmica populacional foi alterada pelas mudanças climáticas, com efeitos desastrosos para a mesma floresta que sempre foi seu hábitat natural. A distinção entre nativas e exóticas, então, fica cada dia menos nítida. Podemos então baixar a guarda com as invasoras? Então as espécies invasoras deixaram de ser consideradas um problema sério? Não, não me entenda mal. Não estou de modo algum dizendo isso. A nova visão delas proposta por Davis e colaboradores tem sido vigorosamente contestada, inclusive por alguns outros ecólogos de primeiro time. Um dos mais destacados deles é, sem dúvida, Daniel Simberloff, que já disse, numa palestra no Rio de Janeiro em 2014, que em qualquer exemplo citado por Davis podem ser encontrados mais impactos negativos que positivos das invasoras. A nova perspectiva não apaga a história, nem a experiência cotidiana, de que as invasoras têm efeitos negativos em muitíssimos casos. Cabe notar que os efeitos de Vera Riscado "Não [N em cx.alta] 94 95 espécies introduzidas são muito difíceis de predizer. É fácil elas criarem novas interações ecológicas imprevistas e indesejadas, com efeitos desastrosos para a diversidade. Não estou dizendo, então, que devemos jogar fora cuidados que continuam fazendo todo o sentido do mundo. Mas talvez precisemos de estratégias de manejo mais flexíveis para lidar com o problema. Uma política do tipo “se é exótica, tire” pode ser prática para o manejo cotidiano de áreas naturais, porque fornece uma diretriz simples e direta e porque requer relativamente pouca informação além da identificação das espécies. Mas ao mesmo tempo uma política assim pode ser desperdiçadora de valiosos recursos, ou até contraproducente. Em minha opinião, uma política mais adequada seria mais ou menos assim. Evite a introdução de novas exóticas, porque seus efeitos são imprevisíveis. Se a espécie introduzida já está lá como invasora, estude a situação e entenda que efeitos ela tem no ecossistema. Se ela tiver efeitos nulos ou positivos, deixe-a lá e use seus recursos para coisa melhor. Se ela estiver fazendo estrago, aí, sim, erradique se for possível, ou controle se não for. Mesmo uma política assim pode ser contestada, como tem sido, por exemplo, por Simberloff, que argumenta que os efeitos de uma invasora podem não ser perceptíveis de imediato, mas se não a removermos imediatamente e deixarmos sua população crescer, poderá ser impossível removê-la mais tarde quando o efeito se tornar aparente. De qualquer forma, meu ponto principal é que qualquer política de manejo de exóticas precisa ser orientada o tempo todo por um bom entendimento dos processos naturais – ou seja, por boa ciência. Mas quase qualqueroutra coisa em conservação também precisa. É a ciência que tem nos permitido entender que o papel das espécies exóticas invasoras pode ser, pelo menos em alguns casos, mais complexo e nuanceado do que pensávamos algumas décadas atrás. Esse alargamento da nossa perspectiva não deixa de ser uma boa notícia. Depois de tantos anos vendo o estrago que a maioria delas causa, é animador pensar que algumas espécies invasoras possam também estar contribuindo para a conservação – nem que seja só um porquinho. 96 97 A TAL DA SUSTENTABILIDADE “Nem sempre assim é, mesmo se lhe parece.” Parafraseando William Shakespeare, em As you like it Não, não adianta: você não pode escapar de ler ou ouvir a palavra sustentabilidade ainda hoje, em algum lugar. Poucas palavras, estão tão na moda quanto sustentabilidade. Ela é repetida à exaustão – seja nos jornais, na TV ou na internet; seja nos discursos dos políticos ou nos anúncios das mais variadas empresas. Pode-se dizer que é quase um mantra dos nossos tempos pós-modernos. Podemos ligar a origem dessa popularidade da palavra sustentabilidade ao conceito de “desenvolvimento sustentável”, definido formalmente pela primeira vez no Relatório Brundtland em 1987 como “desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a habilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias”. Esse conceito tornou-se imensamente popular nas últimas décadas, como a panaceia que permitiria conciliar o desenvolvimento com a necessidade cada vez mais óbvia de não destruir a própria base de recursos da qual o desenvolvimento dependia. A palavra sustentabilidade era mais antiga, tendo sido usada desde a década de 1970, com um sentido próximo do atual, pelo grande ecólogo Paul Ehrlich. No entanto, foi embutida no conceito de desenvolvimento sustentável que a palavra tomou conta da mídia. Toda hora fala-se que esse ou aquele recurso natural está sendo explorado de forma sustentável. À primeira vista podemos pensar que isso é ótimo. Devemos, então, estar cercados de práticas de exploração sustentável de recursos naturais, permitindo manter tais recursos para as gerações futuras. Ah, sim, claro, conservando a natureza também. Será? Testando sustentabilidade Nos últimos anos, vários pesquisadores têm estudado a questão de se algumas explorações de recursos naturais apresentadas como sustentáveis de fato o são. Um deles foi o agrônomo-tornado- -ecólogo paraense Carlos Peres, que com vários colaboradores estudou se era ou não sustentável a exploração da castanha-do- -pará. Na natureza, os frutos da castanheira (Bertholletia excelsa) são abertos por cutias. As cutias muitas vezes enterram as sementes para consumi-las depois, mas são uns roedores desmemoriados que com frequência esquecem onde enterraram as sementes, que então germinam. Hoje o florescente mercado internacional para as chamadas Brazil nuts tem deixado pouca coisa para as cutias. A exploração da castanha-do-pará por populações locais na Amazônia tem sido aclamada como um dos melhores exemplos de exploração sustentável de um recurso natural no Brasil. O estudo de Peres e seus colegas, publicado na Science, foi um estudo muito amplo. Em nada menos que vinte e duas localidades espalhadas pela Amazônia – a maioria delas no Brasil, mais algumas no Peru e na Bolívia – os autores mediram todas as castanheiras maiores que 10 centímetros DAP (Diâmetro à Altura do Peito). As árvores jovens, ou seja, as que ainda não produzem frutos, são aquelas com DAP menor que 60 centímetros. É, castanheiras são Vera Riscado [Tirar a vírgula.] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 98 99 árvores bem grandes. O estudo comparou a frequência de árvores jovens em localidades com diferentes antiguidades e intensidades de exploração. Os resultados foram claros e perturbadores. A proporção de árvores jovens variava de 31 a 76% nas cinco localidades onde não havia exploração de castanhas-do-pará. Caía para 10,6 a 47% nas dez localidades pouco exploradas e para 3,8 a 25% nas cinco localidades moderadamente exploradas. Já nas três localidades persistentemente exploradas, a proporção de castanheiras jovens caía para ínfimos 0,7 a 1,6% – dezenas de vezes mais baixa que a proporção normal. Pior: em uma dessas três localidades, as poucas castanheiras jovens eram rebrotamentos de árvores quebradas por ventos, as quais não se reproduziam mais. Ou seja, as populações exploradas tendem a ser populações velhas, com poucas árvores jovens. A conclusão de Peres e seus colaboradores resume tudo com perfeição: “a mensagem clara é que as práticas de coleta de castanha- -do-pará não são sustentáveis em longo prazo”. Por algumas décadas, a produção pode até ser mantida porque as castanheiras vivem e frutificam por muito tempo, mas depois que as árvores adultas de hoje morrerem nas áreas exploradas, não há quase árvores jovens vindo para substituí-las. Ou seja, a segunda e tranquilizadora parte da definição de sustentabilidade, “sem comprometer a habilidade das gerações futuras atenderem às suas próprias [necessidades]” acabava de ir para o espaço. Em um estudo mais recente, também na Amazônia, Plinio Sist e Fabrício Nascimento, dois pesquisadores da Embrapa, analisaram a sustentabilidade da chamada “exploração madeireira de baixo impacto” (reduced impact logging ou RIL). RIL é uma técnica pela qual apenas as árvores acima de certo diâmetro, das espécies comerciais, são retiradas, com técnicas cuidadosas, deixando-se as demais árvores no lugar. A área estudada, na Fazenda Rio Capim, em Paragominas (Pará), era explorada pelo grupo CIKEL – Brasil Verde. Um detalhe muitíssimo importante, a “sustentabilidade” da exploração na Fazenda Rio Capim é certificada pelo Forest Stewardship Council (FSC), a mais tradicional e exigente entidade internacional que fornece selos verdes para companhias de exploração madeireira no mundo. Sist e Nascimento fizeram um planejamento experimental cuidadoso e coletaram uma imensa quantidade de dados. Antes do corte das árvores, utilizaram duas linhas de amostragem, cada uma incluindo nove áreas amostrais de 100 × 100 metros cada. Em cada área, identificaram e mediram nada menos que todas as árvores com DAP igual ou maior que 20 centímetros – um trabalho hercúleo. Depois da extração das árvores comerciais, verificaram quantas das restantes árvores da floresta haviam sido mortas ou danificadas por esse processo. Além disso, usando dados sobre o crescimento das árvores, calcularam quanto tempo as árvores comerciais levariam para repor o estoque que havia sido retirado. Um ciclo de 30 anos – ou seja, 30 anos entre extrações sucessivas de madeira da mesma área – é o mínimo permitido por lei na Amazônia brasileira. Novamente os resultados foram perturbadores. Sist e Nascimento estimaram que apenas metade do estoque das madeiras comerciais poderia ser reposta após o ciclo “legal” de 30 anos – ou seja, novamente a exploração dita “sustentável” na verdade não é sustentável, pela própria definição. Pior que isso, é preciso olhar também a questão da conservação ou não da floresta como um todo. Mesmo com técnicas cuidadosas, os pesquisadores encontraram que, em média, nada menos que 13,9% das árvores restantes de cada área haviam sido mortas e mais 6,7% danificadas com diferentes graus de severidade, durante a extração das árvores comerciais. A abertura do dossel – ou seja, as “falhas” na continuidade do topo da floresta – tinha duplicado a triplicado. Em resumo, trata-se de uma exploração de recursos que não permite manter os níveis desses recursos para as gerações futuras e, além disso, causa um dano considerável à floresta. Olhe bem que a CIKEL tem sido considerada um dos melhores exemplos de bom manejo florestal – Vera Realce ", [Inserir vírgula após as aspas.] Vera Realce [Tirar vírgula após "severidade";] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note consideradalá há tanto para perder) e afeta um ecossistema particularmente frágil, para nos lembrar de como toda vida, inclusive a nossa, é frágil também. Nunca o conhecido lema dos movimentos ambientais foi tão verdadeiro como hoje: pense globalmente, aja localmente. Muito tem sido feito, inclusive no próprio Pantanal, para combater a ação dos processos planetários que ameaçam a biodiversidade. Mas muito ainda precisa ser feito. Nesse contexto, fiquei feliz, alguns meses atrás, com uma boa notícia: a ressurreição dos mastodontes no Pantanal. Oi? Não, não estou falando da suposta ressurreição genética de uma espécie extinta a partir de uns poucos fragmentos remanescentes de seu DNA – isso, até onde sabemos, ainda pertence ao domínio da ficção científica. Estou falando de outra coisa, mais modesta, mas acredito que útil. Dentro do movimento ambiental, muito do meu “agir localmente” tem sido fazer divulgação científica de temas relacionados à conservação da biodiversidade, por meio de palestras e livros. Meu segundo livro, Os mastodontes de barriga cheia e outras histórias, foi heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 12 13 lançado em 2016, pela editora carioca Technical Books. Foi bastante bem-sucedido, e a primeira edição desapareceu das livrarias em pouco mais de um ano. Era a segunda extinção dos mastodontes. Recentemente, porém, tive uma notícia que me deixou muito feliz: o Documenta Pantanal – braço editorial de um grupo que tem realizado importantes ações pela conservação, e para o qual eu tinha acabado de traduzir Rewilding na Argentina – me convidava para relançar Os mastodontes de barriga cheia. Os mastodontes estavam sendo trazidos de volta da extinção no Pantanal! Nada mais adequado. Agradeço a Josué Nunes, por sua generosidade em me liberar do contrato com a Technical Books. Também agradeço de coraçãoa Mônica Guimarães, pelo convite para lançar a segunda edição pela Documenta Pantanal e por seu entusiástico e bem- -humorado apoio e incentivo; a Teresa Bracher, por seu admirável compromisso com a conservação da biodiversidade e por seu apoio a este livro; a Heloísa Vasconcellos, por seu competente, paciente e compreensivo trabalho na produção da segunda edição; e a Vera Maselli, pela cuidadosa e construtiva revisão do texto. Foi um grande prazer trabalhar com essa equipe do Documenta Pantanal. Agradeço também a todos os meus amigos que nunca me deixaram desistir de ressuscitar Os mastodontes. APRESENTAÇÃO Costumo detestar continuações. Uma exceção, claro, é O Império contra-ataca, de Guerra nas Estrelas – que, como qualquer fã da saga sabe, é a parte cinco, e não a dois. Quando escrevi meu primeiro livro, O Poema Imperfeito – crônicas de biologia, conservação da natureza e seus heróis, o sucesso que ele alcançou me surpreendeu. Foi lançado por uma editora universitária, não teve distribuição nas livrarias comerciais nem divulgação na mídia, mas mesmo assim nunca parou de vender. Tornou-se um livro cult, se posso dizer assim. Durante todos esses anos, muita gente me perguntou “quando vem o segundo Poema?”. Eu ficava feliz com essas perguntas, mas ao mesmo tempo essa expectativa toda me inibia. Não queria escrever uma “parte 2”. Acabei deixando as coisas assim, e por vários anos nem pensei mais em um segundo livro. Mas aconteceu, como você pode imaginar, que o gosto de escrever ainda estava (e está) bem vivo dentro de mim. Anos depois, um amigo, o jornalista Marcos Sá Corrêa, me convidou para escrever para o site de conservação O Eco, que ele havia criado. Topei e, aos poucos – rapidez nunca foi o meu forte –, foram surgindo várias crônicas para O Eco, assim como para alguns outros veículos, e outros textos que eu fui escrevendo por puro prazer e guardando numa gaveta. Os textos que surgiram refletiam coisas que eu estava aprendendo ao longo dos anos e ideias novas; eram bem diferentes do que eu havia feito antes, embora sobre os mesmos assuntos de ecologia, conservação, história da ciência e temas correlatos. Assim, o fantasma de uma continuação foi se esvanecendo. Um belo dia, percebi que gostava muito de vários desses novos textos, que havia bastante unidade entre eles, e os imaginei sob a forma de um livro. Despercebida, a criatura irreprimível que é este novo livro tinha tomado forma sozinha. Então, quando Josué Nunes, da Technical Books, me Vera Riscado pelo Vera Realce Heloisa [sem acento] Vera Realce coração a [separar] 14 15 perguntou se eu tinha algum livro novo para publicar, surpreendi- -me ao responder, feliz, que sim. Este livro é formado por crônicas selecionadas entre as publicadas originalmente em O Eco, assim como uma publicada em outro lugar, e várias inéditas. Porém revisei cuidadosamente todo o material. Corrigi pequenos problemas, inclusive em resposta a algumas críticas de leitores de O Eco. Editei e melhorei vários dos textos, e os atualizei sempre que necessário. Finalmente, eliminei ou pelo menos reduzi muito as redundâncias, para fazer do livro um todo fluido, sem repetições desnecessárias. A ideia que permeia todo o livro, que aprendi com Stephen Jay Gould, é que a divulgação científica pode perfeitamente ser gostosa de ler, e isso não faz mal algum para passar as ideias da ciência para um público amplo – pelo contrário. Pelo menos essa é a tentativa. Gould, a pessoa que mais me influenciou para que eu me interessasse por escrever coisas assim, defendia que a divulgação científica pode e deve se referir a contextos amplos da cultura e da vida cotidiana. A ciência não só é maravilhosa e fascinante; é também bem mais próxima do nosso dia a dia e da natureza humana do que costumamos perceber. No total, são trinta crônicas que agrupei em seis seções: Históricas, Conservacionistas, Gouldianas, Filosóficas, Biofílicas e Utópicas. A primeira seção, “Históricas”, é sobre um tema bastante caro a mim, embora triste: a extinção. Trata-se, portanto, de uma seção sobre história ecológica e paleontologia, e o que elas têm a nos ensinar para a conservação. Começa com a crônica-título, uma história de detetive sobre quem matou os grandes animais – como mamutes, preguiças-gigantes ou, no caso, mastodontes – no final do Quaternário, poucos milhares de anos atrás. Outros textos falam de extinções históricas mais recentes – incluindo maravilhas como a gigantesca ave-elefante de Madagascar e a ainda mais gigantesca vaca-marinha de Steller. Já a última crônica dessa parte fala de extinções locais, de grande impacto mas ainda subestimadas na conservação. A segunda seção, “Conservacionistas”, é talvez a mais central do livro, e por isso a maior. Ali estão agrupados dez textos, falando entre outras coisas da maravilhosa história de um homem lutando para salvar sozinho uma espécie praticamente extinta (“Estudo de um caso perdido: o falcão de Maurício e a Biologia da Conservação”), sobre a agonia das últimas populações de grandes feras (“Um tigre, dois tigres, 1,3 tigres”) e sobre a viagem quase poética de dois homens para conhecer as espécies mais raras do planeta antes de se extinguirem (“Última chance para ler”). Seguem-se alguns textos sobre um assunto muito em moda hoje em dia, mas muito mal compreendido pela maioria das pessoas: a sustentabilidade. Essa parte termina em uma nota mais otimista, falando sobre reintrodução de populações e reconstrução de faunas, mostrando como nós podemos, sim, fazer alguma coisa. Os escritos da terceira seção, “Gouldianas”, são, de todos, os mais livres, os mais experimentais, ou talvez os mais especulativos – o leitor vai julgar. Prefiro pensar que isso é parte da minha homenagem a Stephen Jay Gould, de quem falei acima. Gould escrevia desse jeito, chegando a falar de beisebol por quase a metade de um de seus livros, Full Hand ! Começamos revivendo a viagem de Darwin no Beagle e a descoberta da seleção natural com outros olhos. O texto seguinte parte explicitamente da ideia de Gould da[em 2016] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 100 101 imagine as outras empresas. Sist e Nascimento foram ainda além e apontaram que a falta de sustentabilidade que eles verificaram não era em absoluto um resultado isolado, mas, sim, similar à de outros estudos desenvolvidos no sudeste da Ásia. Os estudos que discuti são apenas dois, e pode-se perguntar se são apenas exceções a uma suposta regra geral de explorações de fato sustentáveis. Poderia até ser – mas veja o próximo capítulo. De qualquer forma, esses estudos mostram, para começo de discussão, que alguns dos casos apontados como sendo de exploração sustentável na verdade não o são. O que faz uma exploração ser sustentável ou não? Desculpe, caro leitor, se bombardeei você com tantos resultados de demografia. Você tem razão, a demografia – o estudo das populações – pode ser um pouco árida às vezes. Tentei colocar tão poucos tediosos números quantos consegui. Mas, acredite, os que coloquei foram por uma boa causa. Foram para mostrar que aquilo que um tecnocrata chama de “recurso natural” eu chamo de “população biológica”. Qualquer uso de uma população de animais ou de plantas só pode ser sustentável se as entradas de indivíduos para a população (isto é, nascimentos e imigração) continuarem compensando, em longo prazo, as saídas (isto é, mortes e emigração). Como saber isso? Estudando a população em questão. Simples assim. Se uma dada exploração é sustentável ou não, isso é uma questão técnico-científica, fundamentalmente demográfica, que precisa ser respondida com a aplicação de boa ciência. Tudo isso deveria ser o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Mas no mundo de hoje, onde esse assunto tem sido tão abusado pela ideologia e pela propaganda, às vezes é necessário dizer o óbvio. Você pode ter notado que tanto o estudo de Peres e colaboradores como o de Sist e Nascimento foram a posteriori, ou seja, visaram analisar a sustentabilidade ou não de uma exploração que já existia, e que, em ambos os casos, era dita sustentável. É claro que seria desejável ter estudos a priori, ou seja, testar se a exploração de um dado recurso natural é de fato sustentável antes de autorizá- -la. Onde estão os estudos a priori ? Pode até haver alguns, mas são raríssimos. Noventa e seis por cento das reservas extrativistas brasileiras não têm sequer plano de manejo, quanto mais avaliação de sustentabilidade. Ora, a pergunta que não quer calar é: se quase não há estudos a priori, por que a gente ouve falar que tantas atividades são sustentáveis? Por uma razão muito simples: porque na maioria das vezes a palavra sustentabilidade não tem sido usada em seu sentido real. Quando um empresário diz que sua empresa é sustentável, na maioria das vezes o que ele realmente está dizendo é “estou tendo cuidado com as questões ambientais”. Quando alguém de uma associação extrativista diz que uma exploração é sustentável, de modo geral o que realmente está dizendo é “nossa atividade é menos destrutiva que outros usos da terra que poderiam ser feitos aqui”. Tanto uma afirmação como a outra podem muito bem estar corretas – ou não, dependendo do caso. Mas nem uma coisa nem outra quer dizer, necessariamente, que as atividades em questão sejam sustentáveis. Isso vale para ambos os sentidos que mencionei aqui – tanto o sentido de fornecer recursos para as gerações futuras, como o sentido da demografia da própria espécie explorada. Tomando por exemplo a própria castanha-do-pará, pode ser verdade que explorar castanheiras tenha menos impacto do que derrubar tudo e criar bois, mas isso por si só não quer dizer que a exploração da castanha seja sustentável. Caso não seja, essa exploração trará a ruína não só da população biológica explorada, mas também das populações humanas estimuladas a depender de um recurso que não está conseguindo se renovar. Sustentabilidade ilusória não é bom para ninguém, muito menos para quem depende dela. Já ouvi o argumento “Ah, sim, mas até lá eles já vão estar Vera Realce [itálico] 102 103 usando outro recurso”. Isso, claro, depois de a população biológica explorada originalmente ter sido dizimada. Ei, peraí, que diabo de sustentabilidade é essa? Uma palavra perigosa A demografia, ou seja, o estudo das populações naturais, é um dos temas centrais dessa ciência fascinante, mas tão mal compreendida, que é a ecologia. A ecologia é a ciência que estuda as relações dos seres vivos entre si e com seu ambiente. Tem sido confundida com uma de suas aplicações, ou seja, os problemas ambientais. Mas há hoje uma forte ecologia acadêmica no Brasil, uma das melhores do mundo, com centenas de excelentes profissionais. Por que raramente se chama algum deles para avaliar a verdadeira sustentabilidade de alguma coisa, antes de se sair dizendo por aí que é sustentável? De um ponto de vista otimista, talvez seja por desconhecimento de que há por aí gente capacitada a avaliar essas coisas. De um ponto de vista mais pessimista, também pode ser porque quem diz, no fundo, muitas vezes não está interessado na resposta. Isso pode parecer um detalhe de pouca importância para a conservação. Mas não é. Muito da popularidade da palavra sustentabilidade vem do fato de que ela soa tão bem. Antes de tudo, claro, diz o que todos nós queremos ouvir. Depois, parece tão técnica que quem ouve geralmente supõe que, para alguém estar dizendo isso, certamente deve haver profundo conhecimento técnico por trás para embasar. Por isso mesmo sustentabilidade, se mal-usada, é uma palavra muito perigosa. É a chave mágica que abre todas as portas para a exploração de populações biológicas em áreas que de outra forma seriam protegidas. É a base filosófica de todo um gigantesco paradigma no qual se assenta a atual política “ambiental” brasileira. Nas últimas décadas foram demarcadas numerosas reservas extrativistas ou “reservas de desenvolvimento sustentável”, em muitos casos sem se fazer a mínima ideia de se a exploração estimulada com o nosso dinheiro é de fato sustentável. Se tudo isso for um gigante de pés de barro, estamos em maus lençóis. Sustentabilidade, palavra perigosa: use com cuidado. Usar levianamente um conceito de tal importância seria desastroso para as gerações futuras da própria definição, assim como para a conservação da biodiversidade. Como qualquer outra pessoa preocupada com o bem-estar social da humanidade, eu adoraria ser convencido de que qualquer utilização de recursos naturais seja de fato sustentável. Mas para isso é preciso ter argumentos convincentes que o demonstrem; não basta presumir que algo é sustentável só porque gostaríamos que assim fosse. Vera Riscado mal usada, 104 105 A TAL DA SUSTENTABILIDADE 2: UM TESTE DEMOGRÁFICO Cientistas são uns bichos estranhos, que não conseguem resistir a uma curiosidade. Quando li os artigos de Peres e colaboradores e de Sist e Nascimento, que citei no capítulo anterior, fiquei com uma pergunta na cabeça: será que esses dois casos, que mostravam usos não sustentáveis de recursos naturais, eram exceções, apenas ilhas num mar de explorações sustentáveis, ou será que muitas das explorações que são ditas sustentáveis no Brasil na verdade não o são? Bem, não havia como ter certeza sem ser estudando a questão. A ideia acabou levando a um projeto de pesquisa, com o objetivo de responder à seguinte pergunta: até que ponto utilizações de recursos naturais no Brasil, nas quais se presume sustentabilidade, são de fato sustentáveis? Consegui patrocínio para o projeto, três estudantes meus de pós-graduação, os biólogos Pâmela Antunes, Leandro Macedo e Carlos André Zucco, se interessaram pela pergunta, e com isso tínhamos também uma equipe. Só faltava colocar mãos à obra, ou melhor, às obras (publicadas). Pâmela, Leandro, Zucco e eu adotamos como ponto de partida a própria definição de desenvolvimento sustentável, do Relatório Brundtland de 1987, que introduziu a palavra sustentabilidadeno discurso cotidiano. A definição é: “desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a habilidade das gerações futuras de atender às suas próprias”. Como argumentei no capítulo anterior, sempre que o recurso explorado é um animal ou planta, a questão de se a exploração é sustentável ou não é necessariamente uma questão demográfica. “Uso sustentável” é aquele que permite que uma população continue existindo, implicando que as perdas (por mortalidade, devido à exploração ou não, e por emigração) sejam compensadas em longo prazo pelos ganhos (por natalidade e imigração). Partindo diretamente de Brundtland, nós adotamos como critério de sustentabilidade que o regime de exploração permitisse ao recurso continuar a existir para as futuras gerações, de modo a atender às suas necessidades. Com nosso critério em mãos, fizemos um amplo levantamento bibliográfico de todos os estudos que pudemos encontrar que analisavam se explorações de recursos naturais no Brasil eram sustentáveis ou não. Os estudos cobriam o que eu consideraria as três principais categorias de recursos biológicos terrestres explorados no Brasil: madeira, caça e produtos florestais não madeireiros, ou non- -timber forest products (NTFP). Se você ainda não foi apresentado a esses últimos, tratam-se de frutos, castanhas e similares. Com uma procura exaustiva, levantamos não só artigos científicos, mas também teses e dissertações acadêmicas sobre o assunto produzidas desde 1987 (o ano do relatório Brundtland) até junho de 2010. Pergunte ao bicho Como é possível saber se a população de um bicho qualquer está sendo explorada sustentavelmente ou não? A resposta, claro, é: pergunte ao bicho! Ou melhor: estude a população do bicho. Portanto, selecionamos os estudos que tinham uma abordagem demográfica, necessária para que a questão pudesse ser respondida. Definimos abordagem demográfica da forma mais ampla possível, incluindo estudos que traziam informações como estimativas de densidade populacional, abundância relativa, estrutura etária, e assim por diante. Para responder se cada exploração era sustentável ou não, nós usamos as conclusões dos autores de cada estudo sobre a manutenção ou não dos níveis populacionais do recurso. Em alguns Vera Realce [Tirar vírgula após "sustentável".] Vera Realce [itálico] Vera Realce [Verificar se será mesmo chamado "capítulo".] Vera Realce [Verificar.] 106 107 casos, quando essa conclusão não era apresentada explicitamente, usamos a conclusão implícita nos resultados. Não é minha intenção dar aqui todos os detalhes da metodologia, mas se o leitor estiver interessado nos detalhes deste ou de qualquer outro aspecto do estudo, sugiro consultar o artigo, que saiu em 2012 na revista científica Natureza & Conservação (ver Bibliografia). E o que nós encontramos? Bem, sigamos o princípio de Jack, o estripador: vamos por partes. Encurtando um pouco a história, nós encontramos um total de 64 estudos que se propuseram a analisar a sustentabilidade da exploração de recursos naturais no Brasil, entre artigos científicos, teses e dissertações. Já retirando os estudos que não tinham uma abordagem demográfica e os que só analisaram efeitos laterais da exploração (“efeitos em cascata”), os restantes analisaram 126 diferentes casos de explorações de recursos. Cada caso, para a nossa análise, se referia a uma espécie analisada em um estudo. Muitos estudos analisaram explorações de diversas espécies; um estudo assim, em nossa análise, fornecia informações sobre vários casos, um para cada espécie. Os estudos sobre caça se referiram quase sempre a mamíferos ou a aves. As explorações madeireiras estudadas eram todas por RIL ou por extração seletiva. A maioria dos estudos foi realizada na Amazônia; o restante, na Mata Atlântica, no Cerrado, na Caatinga e no Pantanal. Nos 126 casos em que a sustentabilidade do uso do recurso foi de fato estudada, a exploração foi considerada sustentável em 51,6%.Porém, em 61 dos casos (48,4% do total), as explorações se mostraram não sustentáveis. Explorações não sustentáveis foram mais comuns na exploração madeireira (61,5% dos casos). Nos estudos sobre caça, em 44,9% dos casos a exploração foi considerada não sustentável. Já nos estudos sobre produtos florestais não madeireiros, isso aconteceu em apenas 22,2% dos casos. O principal resultado que Pâmela, Leandro, Zucco e eu encontramos – quase metade de casos com explorações não sustentáveis – é importante por si só, porque mostra a necessidade de aperfeiçoar muito o manejo de recursos naturais no Brasil se quisermos seguir o louvável objetivo de Brundtland de manter esses recursos para as gerações futuras. Mas os nossos resultados têm bem mais que isso a dizer. Os resultados por tipo de recurso Sem entrar demais nos detalhes técnicos, o melhor método que existe para avaliar sustentabilidade é o que chamamos de análise demográfica. A maioria dos estudos que analisamos simplesmente comparava a abundância das populações antes ou depois de exploração, ou entre áreas exploradas ou não, o que é sujeito a alguns problemas de interpretação (que discutimos no artigo). Já na análise demográfica, a população é estudada quanto a sua estrutura etária e suas taxas de natalidade e mortalidade. Obviamente um estudo assim é bem mais fácil de fazer com uma população de árvores que com uma de animais. As árvores estão sempre lá, paradinhas. É bem mais fácil contá-las, medir seus tamanhos (e, daí, estimar as idades), e assim por diante. Engenheiros florestais fazem isso rotineiramente para predizer a produção futura, daí a grande disponibilidade desse tipo de estudo para a exploração madeireira. Pois bem, dos 21 casos (todos na Amazônia) nos quais a exploração madeireira foi estudada por análise demográfica, em nada menos de 20 ela foi considerada não sustentável. O resultado é esmagador. Nosso estudo mostrou claramente que o tempo de rotação (o tempo que você precisa deixar as árvores crescerem em um determinado lugar antes de voltar a cortá-las ali), que na Amazônia, por lei, é de no mínimo 30 anos, é curto demais para a maioria das espécies de árvores. Isso também nos leva a perguntar se a proporção de casos insustentáveis estaria subestimada para os heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [verificar espaço] 108 109 outros recursos, para os quais métodos tão sensíveis como a análise demográfica são mais difíceis de aplicar. Quanto à caça, a situação que encontramos é preocupante porque as espécies preferidas são mamíferos e aves com baixas taxas reprodutivas, que têm dificuldade para suportar exploração intensa. Alguns dos estudos, de fato, detectaram reduções muito severas de abundância dos animais caçados, da ordem de 60 a 90% ou mesmo mais. Isso aconteceu, na maioria dos casos, com espécies como antas, queixadas e grandes macacos amazônicos, que são particularmente vulneráveis. No que diz respeito aos produtos florestais não madeireiros, dos nove casos estudados, só em dois a exploração não foi considerada sustentável. Isso pode parecer mais tranquilizador, mas um dos dois foi a exploração da castanha-do-pará (estudo de Peres e colaboradores mencionado no capítulo anterior), que tem uma imensa importância econômica e social na Amazônia. Sustentabilidade pode e precisa ser testada Até aí, o que encontramos já seria preocupante, mas há mais – na verdade o ponto crucial, eu diria. Para colocar nossos resultados em uma perspectiva correta, é preciso ter em mente que os casos analisados não representam um subconjunto aleatório das muitas centenas de explorações de recursos naturais no Brasil. Longe disso: eles representam exatamente situações nas quais se presume sustentabilidade. Todos os casos de exploração madeireira analisados se referiam a RIL ou extração seletiva, as técnicas mais cuidadosas, e que são frequentemente consideradas sustentáveis. Os estudos de caça geralmente sereferiam à caça de subsistência na Amazônia por populações locais, como ribeirinhos, indígenas e seringueiros, que muitos supõem, a priori, que seja sustentável. Várias explorações não sustentáveis da castanha-do-pará eram em reservas extrativistas, onde se supõe que o manejo de recursos seja sustentável pela própria definição dessa categoria de reservas. As implicações disso são imensas. Primeiro, algumas expressões como “uso sustentável” e “exploração sustentável” na legislação ambiental brasileira não têm base na realidade ou são enganosas em muitos casos, e precisam ser revistas. Segundo, seria muito desejável que qualquer exploração supostamente sustentável de madeira, caça ou NTFP fosse estudada usando-se uma abordagem demográfica. Novas concessões para exploração em terras públicas ou reservas, assim como renovações de concessões existentes, deveriam ser condicionadas à exploração ser, de fato, sustentável. Antes era só uma intuição, mas agora é uma constatação: muitas utilizações de recursos consideradas sustentáveis no Brasil na verdade não o são. Isso não quer dizer que o manejo sustentável de recursos naturais seja impossível; nosso próprio estudo encontrou vários casos nos quais o nível dos recursos estava sendo mantido. O problema é que o conceito de “sustentabilidade” vem sendo usado de forma errônea, confundido com meramente estar tomando cuidado com as questões ambientais. Essa banalização e esse esvaziamento da palavra, transformando-a tantas vezes em um discurso vazio, tira dela a imensa importância que poderia ter. Sustentabilidade, como a ideia foi formulada, é uma condição bem definida, que pode e precisa ser testada com base em boa ciência. Para voltar com mais força a um ponto que mencionei no capítulo anterior, falsa sustentabilidade não é bom para ninguém – nem para as espécies biológicas, que nós chamamos de “recursos”, nem para as pessoas estimuladas a depender delas. Vera Realce [Verificar se será mesmo "capítulo".] Vera Realce [Tirar vírgula depois de "cuidadosas".] Vera Realce 110 111 NUNCA É POR CAUSA DA DEMOGRAFIA Coitada da demografia, não acerta nunca. Décadas atrás, quando a população do mundo crescia rápido demais, foram atribuídos à demografia vários problemas sociais e ambientais – mas pouca gente acreditou. Agora, que o crescimento populacional se desacelerou, muitos dos efeitos econômicos e sociais dessa desaceleração, preditos há décadas, aconteceram – mas novamente, ninguém fala que é por causa da demografia. Pode ser por causa de qualquer coisa, menos dela. A demografia é tabu. Vamos rever rapidamente alguns dos acontecimentos das últimas décadas. No pós-guerra, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, a população mundial crescia de forma exponencial, num ritmo muito rápido, de mais de 2% ao ano. Como discutido, por exemplo, por meu amigo Carlos Gabaglia Penna em O Estado do Planeta, essas taxas de crescimento eram centenas de vezes mais altas que as experimentadas pela humanidade durante a maior parte de sua história. Naquelas décadas, a miséria, a fome e as desigualdades sociais aumentaram brutalmente em grande parte do mundo. Isso aconteceu de forma especialmente trágica nos países onde o crescimento populacional era mais rápido, os quais correspondiam quase com exatidão ao que chamávamos de “Terceiro Mundo”. A China, por exemplo, tinha uma população em explosivo crescimento e um padrão de vida baixíssimo, quase miserável. De acordo com o geógrafo francês Yves Lacoste, em Geografia do Subdesenvolvimento, escrito em 1965, a renda per capita da China no início da década de 1960 estava abaixo da das Filipinas, do Vietnã, do Egito, do Paraguai e do Sudão, e era similar à do Haiti, Paquistão e Etiópia. Naquela época ninguém sequer pensaria em falar da China como uma potência mundial – era, pelo contrário, citada como exemplo de país subdesenvolvido. Naquele período, diversas vozes começaram a alertar que o crescimento populacional explosivo era a maior causa daqueles problemas – embora, obviamente, não a única. O ecólogo Paul Ehrlich falou da “bomba populacional” em 1968. Lacoste definiu o próprio fenômeno do subdesenvolvimento como “uma situação caracterizada por uma distorção durável (ou uma tendência à distorção) entre um crescimento demográfico relativamente intenso e um aumento relativamente fraco dos recursos de que dispõe a população”. O Clube de Roma – um grupo de cientistas e intelectuais reunidos na capital italiana em 1970 – alertou que o crescimento populacional nas taxas da época era insustentável (não foi usada essa palavra, mas a ideia é bem mais antiga que a palavra). A desaceleração do crescimento populacional seria uma condição imprescindível para que os países de Terceiro Mundo pudessem sair do subdesenvolvimento e resolver seus imensos e crescentes problemas sociais. Os alertas tiveram muito impacto na época, mas foram rapidamente esquecidos. A questão demográfica voltou a ser quase ignorada, varrida para baixo do tapete. Muito disso se deveu à demonização da ideia por uma parte das ciências sociais, que associaram o alerta sobre a explosão demográfica às ideias de Thomas Malthus, do final do século XVIII. Se alguém alguma vez chamar você de “neomalthusiano”, é hora de partir para a briga – esse é um dos piores xingamentos disponíveis no arsenal de alguns cientistas sociais. É bem verdade que a obra de Malthus apresentava argumentos matemáticos simplistas. O crescimento populacional tende de fato, por default, a ser em progressão geométrica – pois uma exponencial nada mais é que o resultado de uma taxa de crescimento “per capita” constante. Os recursos, porém, não necessariamente crescem em Vera Riscado mas, novamente, 112 113 progressão aritmética; o papel da tecnologia faz que esta questão seja bem mais complexa que isso. No entanto, seria ingênuo pensar que as ideias dele foram tão enfaticamente rejeitadas por causa de seu conteúdo científico. Na verdade, foram rejeitadas por causa do incômodo com as possíveis soluções. Ninguém conseguia conceber uma solução adequada para estabilizar rapidamente o crescimento populacional numa sociedade democrática sem ferir alguns dos nossos valores mais caros a respeito de direitos humanos. Diante do violento impasse – percepção do problema populacional, mas repulsão aos meios disponíveis para resolvê-los – muita gente preferiu adotar a solução mais simples: ignorar o problema, fingir que ele não existia. Nascia o tabu. O crescimento populacional se desacelerou quase sozinho Então, aos poucos, uma coisa inesperada foi acontecendo. O crescimento populacional foi se desacelerando, devagar, paulatinamente. Hoje, a população mundial cresce por volta de 1% ao ano, ou seja, menos de metade das taxas do início da década de 1960. Na maioria dos casos, o crescimento se desacelerou “sozinho”, isto é, sem que houvesse qualquer esforço significativo dos governos nacionais para isso. Uma série de mudanças nas sociedades humanas, incluindo urbanização, mais participação feminina no mercado de trabalho, a pílula anticoncepcional e a revolução sexual, foi reduzindo lentamente as taxas de crescimento. Houve também campanhas de algumas organizações internacionais e ONGs para reduzir a natalidade em vários países, mas tais ações tiveram uma contribuição relativamente pequena para a desaceleração. Na maioria dos casos, as sociedades reduziram sozinhas seu crescimento populacional como consequência de mudanças nelas mesmas. A exceção, quanto a como se deu o processo, foi a China. Lá, o crescimento populacional foi desacelerado graças a uma rigorosa política de filho único, implantada de forma autoritária por um governo autoritário. Não concordo com os métodos empregados pela China, nem acho que eles devam servir de modelo para qualquer país. Mas esqueçamos por um momento como a China alcançou a desaceleração e olhemos por um instante para os resultados. O crescimento desaceleroumuito mais rápido na China do que na maior parte dos outros países. Em algumas décadas a população chinesa deixou de aumentar em centenas de milhões de pessoas – alguns Brasis – que teriam sido acrescentados à sua população se as taxas de 1960 tivessem sido mantidas. De repente a China – surpresa, surpresa – não só conseguiu reduzir muito os gravíssimos problemas sociais que tinha cinquenta anos antes, como também se tornou uma das maiores potências mundiais! Surpresa chongas de pitibiriba. O Clube de Roma tinha cantado a pedra quarenta anos antes! O bônus demográfico nas versões chinesa e brasileira O que está acontecendo, em grande parte, é que a China passou por uma fase conhecida como bônus demográfico. Essa fase é típica de países que desaceleraram seu crescimento populacional recentemente. A população já não tem uma proporção de jovens tão grande quanto tinha décadas antes, e como a desaceleração ainda é recente, a proporção de idosos também não é tão alta. Com relativamente poucas crianças e poucos idosos, a sociedade pela primeira vez em muito tempo consegue lidar melhor com as demandas da educação, saúde, e por aí vai. Além disso, a maior parte da população está em plena idade produtiva. Numa população assim, é difícil que a renda per capita não suba. A população chinesa foi quase estabilizada, como se dizia, décadas atrás, que era o passo crucial para a China conseguir se desenvolver. heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [verificar espaço duplo] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 114 115 Pouco tempo depois, os problemas sociais foram resolvidos e o país tornou-se potência mundial. Coincidência? Pode ter certeza que nem um pouquinho. Mas mesmo agora ninguém fala da demografia! Fala-se de economia, circunstâncias de mercado, esquecendo-se do bônus demográfico, que certamente não é a única causa, mas é pelo menos uma das causas principais do “milagre chinês”. Pobre demografia! Nem quando ela faz coisas boas alguém lembra dela. E o Brasil? O Brasil, como vários dos países chamados “emergentes”, entre eles Rússia, Índia, Chile e Coreia do Sul, também reduziu drasticamente as suas taxas de crescimento demográfico. Em comparação com a China, nesses países o processo foi mais recente e mais “natural” – isto é, não autoritário, mostrando que a estabilização é possível sem autoritarismo. De repente – surpresa, surpresa – esses países chegam a uma fase de relativa prosperidade econômica e mostram avanços em seus problemas sociais. É óbvio que o Brasil, assim como os demais emergentes, passou ou está passando pelo bônus demográfico, e grande parte do bom momento econômico pelo qual passamos foi devida a isso. Mas se você duvida do papel da demografia, vá ver as taxas de crescimento populacional dos países que claramente não saíram do subdesenvolvimento e continuam assolados por problemas sociais cada vez mais insolúveis. Boa parte dos países da África subsaariana, o Haiti e o Afeganistão, entre outros, têm hoje as maiores taxas de crescimento populacional do mundo. Coincidência? Não abuse da minha capacidade de acreditar em coincidências. No entanto, no Brasil também quase não se fala em bônus demográfico. Nossos governantes dizem que, com suas políticas sociais, tiraram milhões de famílias da pobreza. Porém a pobreza é definida como renda familiar per capita abaixo de certo valor. Como os filhos de modo geral não geram renda para a família, é óbvio que a mera diminuição do número médio de filhos por família puxa a renda familiar per capita de milhões de famílias para acima da linha da pobreza. Numa sociedade com a fertilidade caindo rapidamente, isso dificilmente teria como não ocorrer, mesmo na ausência de qualquer política social. Mas que político já explicou isso? Eles preferem faturar à custa do bônus demográfico como se esses avanços fossem resultados de suas próprias atuações. Neste ponto poderíamos pensar que, com a desaceleração da população mundial e vários países em situação de bônus demográfico, a questão populacional esteja perdendo sua importância. Mas esse seria um imenso e trágico erro. A situação atual não nos dá, de forma alguma, razão para complacência. Hoje o problema do crescimento rápido da população mundial está sendo substituído por outro, talvez até mais grave: o da superpopulação em si. Gostemos ou não de perceber isso, já vivemos em um mundo superpovoado. Somos oito bilhões, e a desaceleração em curso não é rápida o suficiente para estabilizar a população global antes de chegarmos a mais de nove bilhões. Agora imagine esses bilhões de pessoas multiplicados por uma cultura consumista e desperdiçadora, e o efeito disso é que o planeta está sendo submetido a uma pressão tão gigantesca, que não pode aguentar por muito mais tempo. As consequências da dobradinha desastrosa de superpopulação e superconsumo se tornam mais óbvias a cada dia na perda de biodiversidade, nas mudanças climáticas e no colapso de serviços ambientais dos quais precisamos para ter uma qualidade de vida mínima para as pessoas. É o ambiente que está dando o alarme, mas não se iluda que a prosperidade econômica possa estar dissociada dele. Há uma série de razões pelas quais a prosperidade econômica depende do ambiente, mas só para não sairmos da própria demografia, há a conta a ser paga pelo bônus demográfico: o envelhecimento da população nas próximas gerações. Uma baixa fertilidade hoje significa uma população com alta proporção de idosos amanhã, e isso é um gigantesco problema para as economias. Não é à toa que a economia de países com populações envelhecidas – especialmente Vera Riscado de que Vera Realce [Tirar vírgula depois de "gigantesca".] 116 117 os países europeus e o Japão – perdeu todo seu vigor e hoje eles têm imensa dificuldade para se manterem competitivos diante dos emergentes. Hora de rever os conceitos Neste ponto, é importante lembrar que as mudanças demográficas pelas quais as populações têm passado certamente nunca serão as únicas explicações para fenômenos tão complexos como miséria, surtos de prosperidade ou perda de competitividade internacional. Mas a demografia tem fornecido explicações poderosas que nos ajudam muitíssimo a entender como o mundo se tornou o que é, as transformações pelas quais ele está passando e como podemos lidar com problemas previsíveis no futuro. Não é sábio que continuemos a ter barreiras contra uma visão tão útil do mundo. Se você acha que nunca é por causa da demografia, então é hora de rever seus conceitos. Livrarmo-nos desse tabu nos abre para percepções lúcidas do mundo das quais neste momento, mais que nunca, precisamos. PREENCHENDO COM VIDA A FLORESTA VAZIA Poucas limitações humanas são tão incontornáveis quanto a impossibilidade de voltar ao passado. A seta do tempo aponta em uma só direção. Por mais que o desejemos, não podemos trazer de volta os Beatles, ou a vida mais tranquila de uns anos atrás, ou os mamutes. Ou será que podemos? Os Beatles e a vida tranquila eu não sei, mas pelo menos no caso dos mamutes há quem tenha esperança. Já se falou, por exemplo, em reconstruir mamutes e outras espécies extintas a partir de pequenos fragmentos de DNA extraídos de exemplares mortos há poucos milhares de anos, que continuam sendo encontrados na Sibéria. Seria maravilhoso, sem dúvida, mas infelizmente isso parece pertencer apenas ao reino da ficção científica – pelo menos por enquanto. A razão principal é que o DNA se degrada rapidamente em condições naturais e o que chega a nós de espécies extintas são apenas pequenos fragmentos, que representam uma ínfima porcentagem do genótipo dessas espécies. Inserir uma sequência de 200 nucleotídeos (unidades básicas) de DNA de tilacino ou lobo-da-tasmânia – um marsupial extinto em 1936 – no DNA de um camundongo, como foi feito em 2008 pelo geneticista Andrew Pask e colaboradores, pode parecer uma notícia científicaespetacular. Mas a maioria dos nucleotídeos na sequência que foi inserida era igual entre o camundongo e o tilacino, pois era um trecho de gene pouco alterado durante a evolução, e o DNA de um camundongo tem bilhões de nucleotídeos! Na verdade, tudo o que você tem é… um 118 119 camundongo com um punhado de nucleotídeos de tilacino em seu DNA. Nada contra os camundongos, muito pelo contrário; mas daí a reconstruir um tilacino – ou, pior ainda, um mamute, extinto há muito mais tempo – vai uma distância infinita. De todos os lugares-comuns da ecologia, um dos poucos verdadeiros é “extinção é para sempre”. A ideia do reasselvajamento do Pleistoceno Há, porém, outras ideias. Em 2005, num artigo na prestigiada revista científica Nature, Josh Donlan e colaboradores lançaram uma proposta a qual, num certo sentido, é muito mais grandiosa do que “simplesmente” ressuscitar os mamutes. Trata-se do Pleistocene rewilding, ou resselvajamento do Pleistoceno (por simplicidade, e porque a tradução em português ainda não é consagrada, vou me referir a isso simplesmente como rewilding). A ideia consiste em nada menos que reconstruir a fauna de grandes vertebrados que a América do Norte tinha até o final do período Pleistoceno, há pouco mais de dez mil anos. Essa fauna incluía mamutes, camelídeos, cavalos selvagens, leões, guepardos e várias outras espécies. Para reconstruí-la, Donlan e seus colegas propuseram a maciça introdução, na América do Norte, de uma fauna inteira, composta por parentes próximos das espécies extintas, os quais sobreviveram em outros lugares do planeta. Isso incluiria elefantes (para substituir os mamutes), leões (para substituir a subespécie norte-americana extinta Panthera leo atrox), e camelos, cavalos selvagens e guepardos, entre outros, vindos da África e da Ásia. Esses animais seriam introduzidos nas grandes planícies centrais dos Estados Unidos, onde há vastas áreas de vegetação aberta que poderiam fornecer pasto para os grandes herbívoros. Essa é uma região onde populações humanas têm declinado nas últimas décadas. Não, você não leu errado, nem está sonhando. A ideia é esta: trazer de volta um ecossistema inteiro perdido. Perto disso, reconstruir mamutes vivos é café-pequeno. O Pleistocene rewilding já está muito perto de acontecer. Já existe até o Rewilding Institute, criado para isso. E antes que me esqueça,isso já foi proposto (inclusive antes de Donlan) para o Pantanal e o Cerrado brasileiros, por Mauro Galetti, ecólogo e professor da Unesp de Rio Claro. Acho que posso entender bem a motivação dos advogados do Pleistocene rewilding. O primeiro deles, e um dos coautores de Donlan, foi Paul Martin. Foi o mesmo Martin quem propôs, a partir de 1967, que a última grande onda de extinção, que começou há uns 50 mil anos na Austrália e foi até uns meros quinhentos anos atrás na Nova Zelândia, foi causada pelos humanos modernos ao se espalharem pelo mundo. Nesse período, o planeta perdeu uma espetacular coleção de grandes animais, como vimos nos primeiros capítulos. Atualmente, a maioria dos pesquisadores dessa área concorda que caça excessiva pelos humanos foi a principal causa, senão a única, dessa maciça onda de extinção. O ponto que quero argumentar aqui é que essa percepção é, sem dúvida, uma das motivações fundamentais da ideia de rewilding. Acho que posso entender a dor do Paul Martin ao perceber que os bichos maravilhosos que ele estudou e certamente amava tinham sido extintos por nós – porque anos depois senti essa mesma violenta dor ao aprender isso nos trabalhos dele. Que sensação de frustração, de perda, de como tudo poderia ter sido tão diferente! Será que é difícil entender que alguém sinta, numa hora assim, uma imensa vontade de trazer o passado de volta? Rewilding pode funcionar? A bem da justiça, é preciso dizer que o planejamento do Pleistocene rewilding está sendo feito de forma cuidadosa, e baseando-se, Vera Realce [Faltou espaço depois da vírgula.] Vera Realce heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note reasselvajamento 120 121 dentro do possível, em princípios científicos. As espécies a serem introduzidas são aquelas, entre as viventes, que seriam substitutas tão próximas quanto possível das espécies extintas do Pleistoceno da América do Norte – com ecologias similares, participando de processos ecológicos similares. A ideia é que as introduções comecem por experimentos em pequena escala, cuidadosamente monitorados, em áreas cercadas onde as populações de cada espécie estejam, pelo menos em princípio, sob controle. No entanto, pode-se argumentar que os problemas com o Pleistocene rewilding são muito maiores e mais fundamentais que isso. Há alguns anos, meu colega Luiz Gustavo Oliveira-Santos e eu enviamos uma carta para a revista Conservation Biology criticando a ideia por não levar em conta adequadamente o aspecto da história evolutiva das espécies envolvidas. A ecologia é, em sua própria essência, uma ciência histórica. Um ecossistema não é um mero conjunto de espécies jogadas juntas num mesmo meio físico. As espécies de cada ecossistema estão ligadas por uma série de interações ecológicas que evoluíram durante milhões de anos, entre predadores e presas, entre herbívoros e plantas, entre parasitas e seus hospedeiros, entre sementes e os animais frugívoros que as dispersam, e por aí vai. Donlan, Martin e companhia alegam justamente que o Pleistocene rewilding poderia restaurar os processos ecológicos que foram perdidos nos ecossistemas da América do Norte com as extinções de dez mil anos atrás. Mas o resselvajamento do Pleistoceno no fundo nada mais é que uma proposta de introdução de espécies exóticas numa escala gigantesca. Um elefante atual tem uma ecologia bem diferente da de um mamute, e os leões, guepardos e camelos atuais são diferentes dos que se extinguiram na América do Norte há dez mil anos. Por mais cuidadoso que seja, o Pleistocene rewilding envolve um conjunto de espécies que não têm uma história de coevolução umas com as outras. A trágica crônica das espécies introduzidas – uma das maiores causas de extinções ao longo da história – nos mostra que é provável que as interações não funcionem exatamente como desejado. Pior ainda: mostra também que é ainda mais provável que interações não previstas e não desejadas apareçam, com consequências potencialmente desastrosas. Por exemplo, Donlan e companhia alegaram que a introdução do guepardo, o animal terrestre mais rápido do mundo, poderia reconstruir uma relação predador-presa que envolvia um guepardo norte-americano extinto e a antilocapra (Antilocapra americana), um mamífero norte-americano rapidíssimo, que teria sido sua presa. Mas é preciso combinar bem com os guepardos! O guepardo atual (Acinonyx jubatus) é de uma espécie bem diferente da do guepardo norte-americano do Pleistoceno (Miracinonyx trumani), e o seu ambiente daquela época também não existe mais. E se os guepardos atuais, na situação ecológica atual da América, preferirem outras presas mais fáceis que as antilocapras? Trazer o Pleistoceno de volta? Ninguém gostaria mais disso do que eu, que cresci lendo fascinado sobre mamutes e tantos outros bichos espetaculares do passado. Mas colocar uma coleção de mamíferos africanos e asiáticos na América do século XXI não é exatamente trazer o Pleistoceno de volta. Além disso, pode trazer problemas de conservação ainda maiores, na forma de desbalanços ecológicos, doenças e pragas. Os riscos são imensos. Uma alternativa: a refaunação De um modo ou de outro, a discussão sobre o rewilding pode ter um papel utilíssimo: jogar o foco da conservação sobre a possibilidade de reconstruirmos, sim, comunidades animais e processos ecológicos. Gustavo e eu propusemos uma alternativa mais modesta, mas igualmente motivadora, ao Pleistocene rewilding, que chamamos heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note reasselvajamento 122 123 de refaunação.Nós definimos essa ideia da seguinte forma: “por refaunação queremos dizer a restauração de faunas inteiras, não por meio da reintrodução de espécies isoladas, mas pela reintrodução de conjuntos de espécies nativas para ecossistemas dos quais elas tenham sido extirpadas”. Extirpação, em conservação, é um sinônimo de extinção local. Qual a importância da refaunação? Ora, em 1992 Kent Redford chocou o mundo da conservação ao falar das florestas vazias, ou seja, florestas sem bichos dentro. Em vastas áreas de florestas tropicais, muitas espécies de grandes animais já foram exterminadas pela caça (comercial ou de subsistência). Você pode ver uma bela floresta numa imagem de satélite e imaginar que ali deve haver muitos bichos, mas essa é uma expectativa cada vez mais ingênua. Sem os bichos, também não há os processos ecológicos que dependem deles. Pilhas de sementes apodrecem no solo, porque seus dispersores – mamíferos e aves de médio e grande porte – já foram exterminados localmente. Sem a dispersão das sementes, a própria floresta não tem futuro, pois não há mais reprodução das grandes árvores. O mundo está cheio de florestas vazias, especialmente nas regiões tropicais ricas em biodiversidade, nas quais interações ecológicas estão esperando para serem restauradas pelas mesmas espécies para as quais essas interações um dia evoluíram. A refaunação, em contraste com o Pleistocene rewilding, teria o objetivo de repor extinções locais e recentes (em vez de globais e antigas), utilizando espécies nativas em vez de exóticas, e permitindo restaurar as interações ecológicas perdidas. Nosso argumento é que uma maciça refaunação iria produzir imensos benefícios para a biodiversidade sem o risco de produzir interações indesejadas. Aqui cabe notar que nos últimos anos o termo rewilding tem sido usado para uma ampla variedade de coisas além do Pleistocene rewilding. Muitas dessas ações, cada vez mais comuns ao redor do mundo (ver, por exemplo, Rewilding na Argentina, na Bibliografia), não empregam espécies exóticas; mas muitas outras o fazem. Dentro deste espectro, a refaunação tem sido reconhecida como um tipo particular de rewilding, muitas vezes sinonimizada com o que foi depois chamado trophic rewilding pelo dinamarquês Jens Christian Svenning e colaboradores. Propomos, então, a refaunação como uma importante agenda para a conservação no século XXI: preencher as florestas vazias, trazendo de volta, até onde possível, suas faunas nativas. Ou, como dizia meu orientado Bruno Cid, “repovoar o mundo com rodentias”. “Rodentias” se refere aos roedores como cutias, pacas e pacaranas, excelentes dispersores de sementes. Além deles, claro, queixadas, catetos, onças, antas, grandes macacos, mutuns, jacutingas e outras espécies são candidatos naturais para a refaunação. Não estou subestimando as dificuldades envolvidas na reintrodução de espécies nativas. Trata-se de um processo extremamente trabalhoso e difícil. Em primeiro lugar, para cada espécie a ser reintroduzida, é preciso que a causa que extinguiu localmente a espécie tenha parado de atuar. Mesmo se isso for verdade, ainda é preciso se assegurar de que os animais estão de fato sendo reintroduzidos em sua própria área de distribuição (a procedência de bichos apreendidos do tráfico de animais, por exemplo, frequentemente é incerta). Depois, é preciso se assegurar de que os bichos tenham um mínimo de variabilidade genética, estejam saudáveis, não estejam acostumados demais a humanos pelo cativeiro, sejam acostumados aos poucos ao novo ambiente e sejam monitorados pós-soltura para se garantir que estejam sobrevivendo bem. Dito isso, mesmo com todos esses problemas, cada vez mais reintroduções bem-feitas de espécies nativas estão acontecendo por aí. E uma vez que a floresta deixe de estar vazia, não só seus processos ecológicos voltam a funcionar, mas também ficam mais fortes os argumentos para protegê-la das fortes pressões, óbvias ou disfarçadas, que as florestas cada vez mais vêm sofrendo. 124 Uma agenda positiva A meta da refaunação me entusiasma muito. Afinal, se há uma coisa triste na luta da conservação é essa nossa sensação de que estamos sempre travando uma batalha de retirada. Estamos sempre lutando desesperadamente apenas para impedir que percamos mais alguma coisa. Está mais do que na hora de a conservação adotar uma postura mais agressiva, no bom sentido. A refaunação é uma perspectiva maravilhosa, um objetivo de vida maravilhoso, justamente porque oferece uma agenda positiva – fazer o mundo melhor, não apenas impedir que ele se torne pior. Nos últimos anos, o Refauna – uma iniciativa que de início envolveu meu laboratório na Universidade Federal do Rio de Janeiro e vários outros pesquisadores e laboratórios, e depois se tornou também uma ONG com esse nome – está fazendo a refaunação do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, uma típica floresta vazia. Já reintroduzimos cutias – ótimos dispersores de sementes –, bugios e jabutis, e outras espécies estão a caminho. Foi um momento emocionante ver o primeiro filhote de cutia nascido na Tijuca. Da mesma forma, foi maravilhoso ver os bugios lá de novo, sua voz impressionante subindo e descendo como em ondas, um século após terem desaparecido daquela floresta. Não sei se tudo isso foi tão emocionante quanto teria sido ver um mamute, vivinho, na minha frente. Mas, ao contrário do mamute, a refaunação é um sonho possível, que vale a pena sonhar. GOULDIANAS 127 VIAGEM AO CORAÇÃO DO MISTÉRIO DOS MISTÉRIOS Em junho de 1836, já no caminho de volta para a Inglaterra depois de quatro anos e meio a bordo do Beagle, Charles Darwin passou na Cidade do Cabo, na África do Sul, e não descansou enquanto não conseguiu visitar o astrônomo sir John Herschel. Para o leitor atual, para quem o nome de Herschel é quase desconhecido, enquanto o de Darwin é tão familiar, essa idolatria pode parecer surpreendente. Mas ela tinha razão de ser: naquela época Herschel já era um astrônomo consagrado e Darwin era apenas um jovem e desconhecido naturalista. Segundo o próprio Darwin, o livro de Herschel, Discurso preliminar sobre o estudo da filosofia natural, tinha sido um dos dois livros mais importantes, de todos os que ele tinha lido antes de embarcar, para despertar nele “uma imensa vontade de dar uma modesta contribuição ao edifício da ciência da natureza” (o outro livro tinha sido a narrativa de viagens do naturalista alemão Alexander von Humboldt). No dia 3 de junho, Darwin e o capitão Fitzroy finalmente foram visitar Herschel, que havia se mudado para a África do Sul anos antes. Deve ter sido um dia bastante ocupado, pois Darwin sequer escreveu em seu diário naquele dia. Na entrada do dia 15 de junho, ao fazer um balanço de sua estada na África do Sul, Darwin escreveu que seu encontro com Herschel havia sido “o mais memorável evento do qual, por um longo período, eu tive a boa sorte de desfrutar”. Nem aí, no entanto, ele nos contou por que a conversa havia sido tão memorável. Só temos uma resposta para isso na sua autobiografia, publicada muitos anos depois, 128 129 e é surpreendente: o que mais o impressionou foi a crítica de Herschel a um dos maiores mentores, inspiradores e ídolos do próprio Darwin, o geólogo Charles Lyell. Darwin e Herschel conversaram longamente sobre geologia. Darwin logo descobriu que Herschel era tão interessado no assunto quanto ele mesmo e que ambos haviam sido imensamente impressionados pelo clássico de Lyell, Princípios de Geologia, que ele havia lido a bordo do Beagle. Mas Herschel então criticou Lyell por ter se limitado a aplicar suas ideias de mudança lenta e gradual à geologia, sem ter tido a firmeza necessária para lidar com aquele “mistério dos mistérios, a sucessiva aparição de novas espécies sobre a Terra”. A trajetória posterior de Darwin nos ajuda a entender por que aquela tarde havia sido tão marcante: ele fez de resolver o “mistério dos mistérios”a sua razão maior de viver. Uma visão de mundo em mudança A longa viagem de Darwin no Beagle, para várias regiões selvagens e pouco conhecidas à volta do mundo, foi uma grande aventura no sentido usual desta palavra, mas foi também muito mais que isso. Foi uma maravilhosa aventura intelectual. É difícil para nós, cidadãos do século XXI, entender quão mais pobre era a visão de mundo mesmo de um europeu muito culto do início de século XIX. O cidadão das ruas de qualquer capital europeia da época não tinha a menor ideia da biodiversidade do planeta. Ele podia conhecer bem os animais e plantas da própria Europa – mas uma vez que a Europa era um continente intensamente povoado e explorado por milhares de anos, sua fauna e flora eram pobres e monótonas. Para um europeu da época, coisas como rinocerontes, onças ou cangurus eram tão desconhecidas como marcianos – ou pareceriam quase tão lendárias quanto eles. Hoje todos sabemos como um gorila se parece, mas o gorila só foi descrito como espécie pela ciência em 1852, portanto era apenas um animal lendário para Darwin quando ele embarcou no Beagle. Outro aspecto em que a visão de mundo no século XIX era muito mais pobre era a falta de percepção do que hoje chamamos de tempo geológico, ou tempo profundo. Achava-se que o planeta era muito recente, não tendo mais do que poucos milhares de anos, e que tudo era fixo: as montanhas, os rios, os mares, os continentes, tudo estava do mesmo jeito como sempre estivera desde a criação. A mesma visão de imutabilidade do planeta, naturalmente, se aplicava à imutabilidade das espécies. A percepção da época, transformada em dogma pela religião vigente, era de que todas as espécies de animais e plantas haviam sido criadas exatamente da forma com eram. Cada besouro (os prediletos do jovem naturalista Darwin), cada pardal, cada pinheiro era membro de uma espécie criada exatamente daquele jeito no nem tão longínquo assim tempo bíblico. As mudanças que essas maneiras pobres de ver o mundo viriam a sofrer foram muito favorecidas pelo ambiente filosófico da época. Ainda estavam bem vivas na memória as grandes revoluções da política – a americana e a francesa. A Revolução Industrial, por sua vez, tinha tido sua origem nos campos, pela mudança dos sistemas de produção liderada por Jethro Tull (cujo nome seria adotado séculos depois pela banda de rock de inspiração medieval e mágica flauta). A partir do final do século XVIII, a revolução industrial tinha chegado às fábricas e vinha mudando radicalmente a economia de sucessivas nações europeias. Com tudo isso, a própria ideia de mudança estava no ar: o ambiente cultural favorecia que olhos mais atentos fossem voltados para evidências de mudança na própria natureza. Na primeira metade do século XIX, então, os horizontes dos europeus a respeito do mundo natural estavam começando a se alargar muito. No que se refere ao conhecimento da biodiversidade do planeta, aqueles eram os tempos do início da época de ouro Vera Riscado do Vera Riscado como 130 131 dos naturalistas viajantes. Um dos maiores de todos eles havia sido aquele mesmo Alexander von Humboldt, autor do segundo livro que inspirara Darwin. Nas décadas seguintes, Humboldt seria sucedido por gente como Bates, Huxley, Wallace, Fritz Muller e, claro, o próprio Darwin. O trabalho desses dedicados exploradores foi aos poucos trazendo para os europeus o conhecimento sobre animais e plantas fabulosos que viviam nas florestas, savanas e pradarias das Américas, da África, do sudeste da Ásia e da Oceania. Esse melhor conhecimento da biodiversidade do planeta, entre outras coisas, mostrou muitas espécies bastante parecidas com algumas antes conhecidas, convidando à pergunta: por que espécies tão similares (sem serem idênticas) eram encontradas em lugares diferentes? Seria possível imaginar que elas tivessem se originado umas das outras, ou que tivessem como ancestral uma espécie que já não existia mais? Quanto ao aspecto temporal, o próprio Charles Lyell, que um dia seria o alvo da crítica de Herschel, argumentava solidamente em Princípios de Geologia que planícies, montanhas ou o curso dos rios podiam ser explicados pela ação de processos lentos e graduais que agiam cotidianamente à volta de nós, como erosão e sedimentação. Os fósseis encontrados pelo “pai da paleontologia”, o francês Georges Cuvier, mostravam que seres vivos muito diferentes de qualquer coisa viva hoje em dia haviam existido no passado longínquo, incluindo seres fabulosos como mamutes, rinocerontes lanudos e outros ainda mais diferentes, como os gigantescos répteis batizados de dinossauros pelo anatomista inglês Richard Owen. Era a descoberta do tempo profundo; pela primeira vez a humanidade percebia que antes dela havia decorrido uma história longuíssima e cheia de vastas e espetaculares mudanças. Com isso, passava a ser concebível que tivessem existido os longuíssimos intervalos de tempo necessários para a ocorrência das mudanças lentas e graduais nas espécies, pelo mecanismo que viria a ser proposto por Darwin. Um mal-entendido muito comum é pensar que Darwin tenha criado a ideia de que as espécies evoluem. Quando se fala em “teoria da evolução”, essas palavras são imediatamente associadas a Darwin e muitos ainda pensam, equivocadamente, que essa é uma teoria propondo que exista evolução. Na verdade, o que Darwin fez foi muito mais: ele explicou como ocorria a evolução. Que ocorra evolução é um hoje um fato científico comprovado além de qualquer dúvida razoável; sobre isso veja, por exemplo, O Bico do Tentilhão, de Jonathan Weiner, ou O Maior Espetáculo da Terra, de Richard Dawkins. O que se discute hoje em dia são os mecanismos pelos quais ocorre a evolução e a importância relativa de cada um para o processo evolutivo. A contribuição fundamental de Darwin foi propor, pela primeira vez, um mecanismo plausível pelo qual a evolução ocorre. Tal mecanismo, a seleção natural, é ainda hoje considerado o mecanismo central – embora não o único – da evolução. Quanto à própria ideia de que havia evolução – ou a “transmutação das espécies”, como era conhecida na época –, esta era amplamente reconhecida como uma questão científica importante no início do século XIX. Naturalistas como o francês Lamarck e o escocês Robert Chambers, entre outros, tinham escrito sobre o assunto e proposto teorias a respeito. O próprio avô de Darwin, Erasmus Darwin, havia defendido essa ideia no livro Zoonomia, que Darwin lera ainda muito jovem. No seu breve e frustrante período como estudante de medicina em Edimburgo, em 1827, Darwin tinha ouvido em “silenciosa perplexidade” o médico e zoólogo escocês Robert Grant defender as ideias de Lamarck. No entanto, a própria existência da evolução permanecia polêmica porque, apesar de várias tentativas, ninguém ainda conseguira formular uma explicação convincente sobre como ela podia ocorrer. Era muito fácil perceber que essa explicação permitiria nada menos do que entender como se originava cada ser vivo. Podemos apenas imaginar a imensa curiosidade e excitação que um naturalista Vera Riscado à nossa volta, [ou "em volta de nós"] Vera Riscado [Tirar "um".] Vera Realce [Pôr esse O na linha de baixo.] 132 133 daquela época deve ter sentido diante de uma questão tão imensa – o mistério dos mistérios ao qual mais tarde se referiria Herschel. Uma viagem por um mundo que não existe mais Tão logo seus marinheiros se recuperaram da ressaca no Natal de 1831, o Beagle partiu em sua longa viagem à volta do mundo. Justamente porque sua tarefa era de exploração e mapeamento de regiões mal conhecidas, o percurso o levou a várias das regiões mais remotas do planeta. Incidentalmente, raramente se dá por aqui destaque ao fato de que a América do Sul foi, de longe, o continente que mais contribuiu para as observações que deram origem às ideias e teorias de Darwin. Dos quatro anos e nove meses nos quais o naturalista esteve a bordo doBeagle, ele passou em nosso continente mais de três anos e meio. Esse tempo incluiu longas estadas na Bahia e no Rio de Janeiro na ida, e passagens mais breves em Salvador e em Recife na volta. Uma viagem como a que Darwin fez certamente seria impossível hoje em dia. Muitas das coisas que ele nos conta no diário de sua viagem no Beagle já não existem mais. Em suas explorações no norte do estado do Rio de Janeiro, ele visitou florestas que simplesmente não estão mais lá. Ao passar pela Terra do Fogo, ele se admirou com o primitivismo do modo de vida dos fueguinos. Hoje em dia, encontraria os remanescentes deles com um modo de vida muito diferente, com costumes bem mais “civilizados”. Quando visitou as ilhas Falklands (Malvinas), em 1833, ele observou a incrível mansidão de uma espécie de raposa que havia lá, Dusicyon australis. A raposa das Falklands foi extinta em 1876, pouco mais de quarenta anos após Darwin tê-la visto. Sua docilidade contribuiu muito para esse rápido fim, e hoje é muito difícil encontrar em qualquer lugar do mundo animais com essa mansidão que havia em espécies que não tinham tido contato prévio com o homem. De volta ao continente americano, Darwin encontrou, espalhados pelas planícies da Patagônia, abundantes fósseis de gigantescos mamíferos extintos – entre eles, preguiças-gigantes, gliptodontes (animais parecidos com imensos tatus) e um toxodonte, similar a um hipopótamo, porém pertencente a um grupo nativo da América do Sul, os notungulados. Atualmente ele não veria esses inquietantes sinais de mudanças, pois os fósseis expostos já foram levados para museus ou destruídos por estancieiros há muito tempo. Hoje jamais seria possível encontrar fósseis tão significativos sem escavações longas e laboriosas, que Darwin não fez. O mundo que Darwin viu, então, não existe mais. É claro que a evolução certamente teria sido entendida depois por alguma outra pessoa (como foi por Wallace independentemente dele), mas nunca da forma maravilhosa como foi por Darwin, coletando laboriosamente as peças do seu quebra-cabeça, uma a uma, em detalhadas observações de uma natureza riquíssima em muitos lugares ao longo do trajeto. Mesmo em lugares com uma natureza não assim tão rica (como as desoladas planícies patagônicas), o fato de os ambientes naquela época terem sido menos alterados pelo homem do que são hoje permitiu que ele encontrasse ricas evidências fósseis de mudanças das espécies ao longo do tempo. A viagem de Darwin ocorreu numa época em que já havia conhecimento prévio e ambiente intelectual que possibilitassem entender a evolução, e ao mesmo tempo ainda havia uma natureza conservada o suficiente para permitir a um excelente observador encontrar as respostas com relativa facilidade. Era uma viagem ao coração do mistério dos mistérios: a lugares onde podiam ser encontradas pistas para entender a transmutação das espécies. Darwin não tinha como saber, mas embarcou no Beagle no momento histórico exato. É fascinante pensar sobre como essa oportunidade surgiu para ele. Poucas perguntas poderiam parecer mais óbvias, especialmente para quem esteja lendo este livro, do que esta: quem era o naturalista de bordo do Beagle? A resposta correta é: 134 135 Robert McCormick! Ele era o cirurgião de bordo, e os ocupantes desse posto tradicionalmente acumulavam a responsabilidade de naturalista nos navios de exploração da marinha britânica. De fato, McCormick fez suas próprias coleções de espécimes e tentou exercer sua função de naturalista na etapa inicial da viagem. Darwin, porém, também fazia suas coletas paralelas, que logo começaram a superar amplamente as de McCormick. Em parte, isso acontecia pela maior curiosidade e diligência do primeiro, mas em parte também porque o segundo, cujas responsabilidades médicas o forçavam a ficar perto do navio, não tinha a mesma liberdade de que Darwin gozava para explorar o interior a cada escala. McCormick também logo começou a ser antipatizado por Fitzroy e a se incomodar com os privilégios dados a Darwin devido à sua classe social mais alta. Em 1832, Darwin escreveu à sua irmã que McCormick tinha sido declarado inválido, isto é, desagradável ao capitão no Rio de Janeiro e fora embora para a Inglaterra. Nem Fitzroy, nem Darwin (que agora passava a ser indisputadamente o naturalista de bordo) lamentaram muito sua partida. Tudo isso pode parecer a mais insignificante nota de pé de página da história, mas Stephen Jay Gould (em Darwin e os Grandes Enigmas da Vida) alegou brilhantemente que, ao contrário, a função de Darwin no Beagle pode ter sido extremamente importante para que ele chegasse a entender a transmutação das espécies. A esta altura, o leitor deve estar se perguntando: afinal, que diabo Darwin estava fazendo a bordo daquele navio? Como argumentado por Richard Keynes em 2004, Fitzroy desejava ter a bordo alguém para fazer estudos de geologia, pois ele sentira que uma pessoa assim fizera falta em sua viagem anterior com o Beagle. Darwin foi chamado oficialmente para ser essa pessoa. Isso, porém, parece bastante estranho. Por um lado, o Beagle já tinha um naturalista de bordo (McCormick), cujas obrigações incluíam estudos geológicos; por outro, Darwin não era um geólogo famoso, mas apenas um jovem inexperiente. Gould alega que a função de Darwin, na verdade, era apenas ser um gentleman para fazer companhia a Fitzroy. Com o rígido código de conduta da marinha britânica, era inconcebível que um capitão se misturasse aos seus subordinados ou mesmo fizesse as refeições com eles. As viagens marítimas da época eram longas e solitárias, e o capitão anterior do próprio Beagle tinha se suicidado no inverno antártico. Pior, a família de Fitzroy tinha uma tendência hereditária à loucura, e o almirantado estava preocupado com os efeitos que a solidão poderia ter sobre ele (anos depois, de fato, ele também se suicidaria). Darwin, como um cavalheiro, era o único que podia fazer as refeições com o capitão, e foi seu principal interlocutor naqueles cinco anos. Logo, porém, Darwin descobriu que Fitzroy era um conservador autoritário, temperamental e agressivo. Na primeira vez que o contradisse, quando Fitzroy defendeu a escravidão que viram no Brasil, brigaram seriamente e por muito pouco Darwin não teve o mesmo destino do pobre McCormick. Com isso, ele aprendeu a guardar suas opiniões para si, mas era um relacionamento no mínimo extremamente tenso. Agora o ponto crucial: Fitzroy era basicamente um criacionista, e Darwin, por cinco anos, teve que ouvir interpretações de seus próprios achados que não o convenciam, sem poder responder. Para Gould, isso deve ter contribuído muito para empurrar Darwin para o outro lado – o do evolucionismo. É interessante lembrar que, embora muito interessado em história natural quando jovem, Darwin havia mostrado certo desinteresse pelas ideias evolucionistas que lera de seu avô e que ouvira de Robert Grant. Durante os quase cinco anos da viagem do Beagle, isso mudou completamente. Será que os argumentos com os quais Darwin gostaria de ter contradito Fitzroy, mas não pudera dizer, foram a base de suas ideias posteriores? Se esse foi o caso, ironicamente Fitzroy foi, como propôs Gould, um catalisador mais importante do que os tentilhões para a origem da teoria da evolução. 136 137 A evolução de uma ideia Uma lenda bastante popular diz que as Galápagos foram a escala decisiva da viagem do Beagle. Darwin, ao observar aquelas ilhas tão próximas, habitadas cada qual por sua própria variedade de tartarugas ou de tentilhões, cada qual finamente adaptada a um ambiente hostil e diferente que havia em cada ilha, teria compreendido ali o segredo da origem das espécies. Essa é uma visão simplista, e a realidade é bem diferente disso. Em todo o período que Darwin passou nas Galápagos, há apenas uma anotação no diário do Beagle que menciona os famosos “tentilhões de Darwin” (no dia 1º de outubro de 1835), e mesmo assimsó um comentário muito de passagem de que os havia visto. Apenas depois do fim da viagem, em 1837, quando o ornitólogo John Gould classificou os espécimes que Darwin tinha trazido, ficaram evidentes as sutis variações entre tentilhões coletados em ilhas diferentes. Darwin jamais tinha sequer se preocupado em anotar de que ilha tinha vindo cada ave (assim como cada tartaruga). Mas é mais fácil ser sábio depois do fato: na segunda edição do diário do Beagle, em 1845, ele acrescentou seus famosos comentários de que “…a partir de uma pobreza original de aves neste arquipélago, uma espécie teria sido tomada e modificada para diferentes fins”. É interessante perguntar até que ponto aquela conversa com Herschel foi importante para o rumo que os acontecimentos tomaram a seguir. Darwin havia saído das Galápagos em outubro de 1935, uns sete meses antes de seu encontro com Herschel. Pela escassez de comentários na edição original de 1839 do diário sobre os tentilhões e as tartarugas – cujos exemplos o próprio Darwin usaria depois – pode-se supor que, na época da sua visita às ilhas, a evolução não era, pelo menos, um foco definido de sua pesquisa. Durante os sete meses seguintes, o Beagle passou por lugares com natureza rica e interessante, como várias ilhas da Polinésia, a Austrália, a Nova Zelândia e as ilhas Maurício, no Oceano Índico. No entanto, não há um comentário sequer particularmente significativo sobre evolução nesse período. Pode-se apenas especular: será que a conversa com Herschel foi tão memorável exatamente porque ajudou a colocar o foco de Darwin na questão da transmutação das espécies? A questão devia estar engasgada em sua garganta desde as conversas com Fitzroy. Além disso, quando jovem, Darwin tivera Lyell como um ídolo, desejara ser um grande cientista como ele. Será que ir adiante de onde o “pai da geologia” fora – estendendo a ideia de mudança gradual para o mundo vivo, como propusera Herschel – não era exatamente o tipo de realização que Darwin estava procurando para se firmar como um grande naturalista, ombreando o próprio Lyell? Será que depois disso ele começou a olhar seus dados biológicos de outra forma? Provavelmente nunca saberemos, mas é interessante notar que na sua última anotação significativa no diário, longas e filosóficas páginas escritas em 25 de setembro de 1836, pouco antes de chegar de volta à Inglaterra, ele escreveu: “Em conclusão, me parece que nada pode ser mais enriquecedor para um jovem naturalista que uma viagem em países distantes. Ela tanto aguça como também parcialmente alivia aquela vontade e falta que, como sir J. Herschel comenta, um homem sente, mesmo que todo sentido corporal esteja plenamente satisfeito”. Seria apenas coincidência que John Herschel fosse o único autor citado no que foram praticamente seus comentários conclusivos sobre a viagem? O que se sabe com certeza é que as ideias de Darwin começaram a tomar forma nos cadernos de notas que ele escreveu já na Inglaterra – especialmente os famosos cadernos sobre a transmutação das espécies, escritos entre julho de 1837 e julho de 1839. Nos anos seguintes, em um casarão isolado no vilarejo de Downe, para onde se mudou em 1842, ele começou a aperfeiçoar seu argumento de forma calma e meticulosa, a juntar laboriosamente os argumentos a seu favor e a escrever os primeiros esboços de sua teoria. Foi só em 1859, vinte e três anos depois de o Beagle ter aportado em Vera Riscado 1835 138 139 Woolwich, que foi publicado A Origem das Espécies. Provavelmente o famoso livro teria demorado muito mais ainda para sair se Darwin não tivesse sido apressado por uma carta vinda do outro lado do mundo – do Arquipélago Malaio, hoje Indonésia – mostrando que outro naturalista mais jovem, Alfred Russell Wallace, tinha chegado independentemente às mesmas ideias. O ponto central do argumento de Darwin era a seleção natural. A sua ideia era simples e se baseava em três constatações. Primeira, havia variação entre os organismos de qualquer espécie biológica. Segunda, essa variação era pelo menos em parte hereditária, ou seja, características passavam dos pais para os filhos. Terceira, algumas características eram passadas para os descendentes com mais frequência que outras – porque eram mais bem-adaptadas ao ambiente em que a espécie vivia, portanto permitiam que seu portador sobrevivesse melhor e sobretudo reproduzisse mais, passando-as para as gerações seguintes. Dessa forma, o ambiente selecionava aquelas características mais favoráveis, por um processo análogo ao da seleção artificial pela qual os criadores de pombos que Darwin estudara detalhadamente em seu regresso à Inglaterra selecionavam os pombos com as características que desejavam. Dadas essas três constatações, é fácil ver que inevitavelmente algumas características vão estar cada vez mais representadas nas gerações futuras, enquanto outras estarão cada vez menos representadas. Isso, apenas isso, é o que chamamos de seleção natural. Nada de místico, nada de aleatório (apesar de a mutação ser aleatória, ver adiante), nenhuma necessidade de invocar qualquer planejamento inteligente. A resposta para a grande questão de como ocorria a evolução foi ainda mais gratificante, e ainda mais poderosa, por sua própria simplicidade. Pode-se dizer que Darwin, na verdade, não conseguiu responder inteiramente à sua pergunta. Afinal, Herschel falara da “sucessiva aparição de novas espécies sobre a Terra”. Conforme apontado por diversos autores, é bastante claro que Darwin não respondeu à questão da origem das espécies, que foi o título de seu livro clássico. Ele explicou, sim, como ocorria a mudança evolutiva dentro de uma população ou uma espécie. Para explicar como uma espécie podia dar origem a uma ou mais espécies novas foi preciso esperar o século XX, quando emergiram as teorias sobre a especiação – nome que se dá a esse processo. Essa não foi, nem de longe, a única questão de evolução que ele não resolveu. Darwin não conhecia, por exemplo, o mecanismo da transmissão das aracterísticas entre gerações – para isso foi preciso esperar as leis de hereditariedade de Mendel (redescobertas no início do século XX), o clássico The Genetical Theory of Natural Selection, de Ronald Fisher, que juntou as ideias de ambos em 1930, e finalmente a descoberta da estrutura do DNA por James Watson e Francis Crick em 1953. Além disso, a seleção natural não é o único processo que pode alterar as frequências de diferentes genes em uma população (e consequentemente as características dos organismos de tal população). Em populações muito pequenas, por exemplo, a deriva gênica (mudanças ao acaso nas frequências gênicas) pode também ter um papel. No entanto, a seleção natural é “apenas” o mais importante processo evolutivo. Por outro lado, pode-se argumentar também que Darwin fez ainda mais que entender o principal mecanismo da evolução: ele percebeu um princípio geral da natureza, de como ela funciona. Seleção natural é apenas um processo natural e imensamente geral, que se aplica não só à vida como a conhecemos aqui, como também a qualquer coleção de objetos que compartilhem as três propriedades descritas acima. Por isso, um dos mais influentes evolucionistas contemporâneos, Richard Dawkins, disse recentemente em uma entrevista: “um visitante extraterrestre certamente teria mais interesse em discutir as ideias de Darwin do que as de pensadores como Freud ou Marx – a quem ele já foi comparado –, cujo trabalho é de interesse mais limitado, paroquial, ‘terreno’”. Ou seja, Freud ou Marx só interessam a membros da nossa espécie ou nossa sociedade, Vera Riscado características 140 141 respectivamente, aos quais suas teorias se aplicam. Já a seleção natural, até onde podemos ver, é um processo que necessariamente se aplica a qualquer lugar do Universo onde as três condições citadas sejam válidas – e é muito difícil imaginar qualquer tipo de vida sem que sejam. A nossaviagem de descoberta Por que, então, dar tanto valor, tantos anos depois, à viagem de um naturalista de bordo que não o era, à volta de um mundo que não existe mais? Antes de tudo, porque provavelmente não existe outra ideia tão importante para a humanidade que seja tão mal conhecida quanto a evolução. Pouquíssimas pessoas, mesmo entre aquelas de elevado nível social e educacional, entendem como funciona a seleção natural. Alguns chegam a pensar que seleção natural é um processo aleatório, ao acaso – quando, como bem lembrou Dawkins, “[o Darwinismo] é na verdade a teoria que nos permite escapar ao acaso na biologia”. Parte da confusão vem do fato de a mutação ser um processo aleatório. Porém ela é apenas a primeira etapa de um processo (seleção natural) do qual a segunda etapa (a seleção em si pelo ambiente) é basicamente determinística, não tem nada a ver com o acaso. É fácil demonstrar (como fez Dawkins em O Relojoeiro Cego) que o resultado de um processo com duas etapas, a primeira ao acaso e a segunda determinística, é infinitamente mais próximo do determinismo que do acaso. Outras pessoas associam seleção natural a uma legitimação de um mundo de luta feroz entre as pessoas. No entanto, seleção natural é a mera perpetuação diferencial de genes. Não tem nada a ver, pelo menos na maioria dos casos, com organismos lutando uns com os outros. Ainda que tivesse, não haveria nenhuma razão lógica para que o que acontecesse na natureza devesse ser necessariamente um guia moral para nós. A questão da falta de compreensão da evolução, por parte do público em geral, é muito mais que uma mera filigrana cultural. As recompensas por entender como funciona a evolução são imensas: trata-se. Nada mais nada menos. De entender como e por que todo o mundo vivo é como é. Entender como cada animal, cada planta é como é. Além disso, é claro, entender o que somos e de onde viemos, com reflexos imensos na maneira como nos relacionamos com a natureza. Nossa cultura tem sido muito bem-sucedida em sua obstinada recusa em engolir a revolução Darwiniana, porque a compreensão do que somos incomoda as arrogâncias de alguns, as ilusões cômodas de outros e os interesses de outros ainda. Nos últimos anos, temos até presenciado uma vigorosa atuação reacionária de vozes que querem tirar Darwin das salas de aula e ensinar, em vez dele (ou fingindo que tenha o mesmo status científico que ele), uma coleção de dogmas religiosos muito maldisfarçados de ciência. Isso representaria um retorno do obscurantismo medieval e um retrocesso na separação entre a religião e um estado laico, essencial para o desenvolvimento científico, cultural e até político de qualquer nação. Nesse contexto, lembrar da viagem de Darwin paradoxalmente é cada vez mais atual e parte importante da nossa busca por um mundo melhor. Hoje podemos ler o diário da viagem do Beagle, e acredite-me, essa é uma aventura intelectual fascinante. Não é um livro para se ler rápido, mas é para se saborear, dia após dia, colocando-nos no lugar do autor do diário. Não é para quem gosta de coisas óbvias. É mais para se ler como uma história de detetive, para quem aprecia acompanhar as pequenas descobertas, as pequenas pistas. Essas pistas nos dizem como um jovem cavalheiro entediado e perdido (mas curioso pela natureza e excelente observador), ao longo de uma extraordinária viagem de descoberta, foi aos poucos desmantelando uma visão de mundo que herdara, mas que não correspondia à realidade, e construindo uma nova visão infinitamente mais rica e maravilhosa (se estou certo, com um pequeno empurrãozinho Vera Riscado trata-se, nada mais nada menos, de entender Vera Realce darwiniana [cx.baixa] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 142 143 de sir John Herschel). No processo, descobriu a si mesmo: ele que podia ter gasto suas melhores energias caçando raposas, voltou-as todas para responder à mais imensa das perguntas, o mistério dos mistérios. Poder hoje reconstruir seus passos nos dá a oportunidade de reviver aquela maravilhosa viagem de descoberta, do mundo e de nós mesmos. A DANÇA CÓSMICA DE SHIVA: CONTIGÊNCIAS E RITMO NA EVOLUÇÃO DA VIDA Um dos maiores escritores de divulgação científica de todos os tempos, Stephen Jay Gould, assim dedicou seu primeiro livro, o brilhante Ever since Darwin: “Para meu pai, que me levou para ver o tiranossauro quando eu tinha cinco anos”. Não é de surpreender que um dinossauro tenha sido tão importante para despertar o interesse do pequeno Gould pela biologia. Os dinossauros têm despertado um imenso fascínio, geração após geração, resultando em longas filas nas exposições, best-sellers nas livrarias e megabilheterias nos cinemas. O fascínio pelos dinossauros não vem apenas de suas aparências tão estranhas, ou de seu imenso tamanho. Os dinossauros também nos fascinam com o mistério de seu desaparecimento repentino. Por que esses formidáveis gigantes que dominaram este planeta por toda uma imensidão de tempo – mais de 100 milhões de anos – desapareceram subitamente ao final do período Cretáceo, há cerca de 65 milhões de anos? Essa questão tem despertado a curiosidade da humanidade por quase dois séculos, desde que a palavra dinossauro foi cunhada pelo grande anatomista inglês Richard Owen no século XIX. Uma imensa variedade de hipóteses foi proposta para explicar a extinção dos dinossauros. Segundo o paleontólogo Glenn Jepsen, essas hipóteses incluem alterações climáticas (para todos os gostos, ou seja, o planeta ter se tornado subitamente ou lentamente quente ou frio ou seco ou úmido demais); alterações de dieta (comida demais ou de menos ou pobre em substâncias como óleos de samambaia ou Vera Riscado CONTINGÊNCIAS 144 145 cálcio, ou algum envenenamento na água ou nas plantas); doenças, parasitas, desordens metabólicas ou anatômicas (hérnias, defeitos ou desequilíbrios do sistema hormonal ou endócrino, degeneração dos cérebros e consequente estupidez, esterilização por calor, efeitos indesejados da endotermia); velhice racial (racial old age, seja lá o que isso seja), senescência evolutiva da linhagem (idem), mudanças na pressão ou composição da atmosfera, gases venenosos, poeira vulcânica, meteoritos, cometas, mamíferos comendo seus ovos, extinguirem suas presas, flutuação de constantes gravitacionais da Terra, desenvolvimento de tendências suicidas psicóticas, entropia, raios cósmicos, mudanças dos polos (magnéticos) terrestres, inundações, deriva continental, a Lua saindo da bacia do Pacífico, secagem de ambientes lacustres e pantanosos, vontade de Deus, orogenia, incursões de pequenos caçadores verdes em discos voadores, falta de espaço da arca de Noé e paleoweltschmerz. Essa última palavra, cunhada pelo próprio Jepsen, quer dizer mais ou menos “alguma coisa que aconteceu há 65 milhões de anos e que eu não faço a menor ideia do que foi”. Algumas dessas hipóteses foram propostas em textos populares e obviamente nem todas elas são sérias. Mas mesmo várias das que foram propostas como hipóteses científicas não são nada convincentes. Por exemplo, muitas vezes os dinossauros são tratados como se fossem uma única espécie (de que outra forma alguém poderia argumentar que uma desordem anatômica específica, ou uma doença, ou um problema fisiológico qualquer os tivesse extinguido?). No entanto, os dinossauros – somados aos répteis marinhos gigantes, que não eram dinossauros, mas se extinguiram junto com eles – eram um grupo taxonômico imensamente diverso, com milhares de espécies. Essas espécies incluíam desde algumas do tamanho de uma galinha até saurópodos maiores que uma baleia. Incluíam espécies terrestres, voadoras e aquáticas, carnívoras, herbívoras e omnívoras, ocupando todos os continentes e oceanos que havia no planeta na época. A diversidade de formas de vida que tinham os dinossauros e seus parentes que se extinguiram com eles era comparável, por exemplo, à diversidade atual“dança cósmica de Shiva”, discutindo as grandes extinções no passado geológico e suas implicações em como vemos a nós mesmos em relação ao resto da natureza. Esse capítulo tem também belas histórias humanas da ciência em ação. No último texto desta parte, discuto uma ideia lançada por Gould no próprio Full Hand sobre as diferenças entre os processos evolutivos que ocorrem em sistemas jovens e maduros, e quão gerais podem ser essas diferenças. A seção seguinte, “Filosóficas”, reúne crônicas que discutem a questão que pode parecer óbvia, mas não é, de por que devemos Vera Realce [Não há um texto com esse nome.] Vera Riscado anteriormente. Vera Realce [Verificar a nomenclatura de acordo com as demais referências a seção/texto/capítulo.] 16 17 conservar a natureza, utilizando que argumentos e quem se beneficia com sua conservação. No primeiro texto desta parte, “Nós e eles: Darwin e a conservação”, proponho que o fato de nós não nos percebermos como um animal, parte dos processos evolutivos e portanto da natureza, é uma das maiores causas dos nossos problemas. O texto seguinte critica o uso de argumentos meramente utilitários para justificar a conservação da natureza, propondo que se quisermos ter sucesso nisso precisamos ir mais fundo em nosso envolvimento. A seguir apresento a ideia que chamei de outrismo – a nossa arraigada percepção de que a culpa dos problemas ambientais é sempre do outro – no contexto bem atual das mudanças climáticas. O texto final desta parte (“Por quem dobram os sinos da conservação”) argumenta que haver ou não uma oposição entre a conservação e as questões sociais, como muitos acham que há, é uma questão que depende da escala espacial e temporal que se está considerando. Na penúltima seção, “Biofílicas”, estão vários dos textos mais literários, se você me permite dizer assim. Biofilia é a ideia de que gostar de outros seres vivos não é algo que precise ser aprendido, mas um dos instintos mais fundamentais do ser humano. Então, aqui estou falando menos de argumentos científicos e mais de amor. Entre outros, “Os ursos de Răcădău e a esperança” é um pequeno drama sobre a peculiar relação entre humanos e ursos-pardos em uma cidade na Romênia; “Andy” talvez seja o texto mais pessoal do livro todo, e em “Um caminho para a empatia” há minha única incursão na ficção, que espero que o leitor considere justificada. A última parte, “Utópicas”, naturalmente, é para propor soluções, ou pelo menos para sugerir caminhos. Os temas ali discutidos incluem os direitos animais e uma esperançosa proposta de aproximação daquelas irmãs que não se entendem: a economia e a ecologia. No penúltimo capítulo, “Eu também tenho um sonho”, tento um esboço do que poderia ser um futuro no qual um baixo impacto sobre o planeta fosse uma consequência natural das características da economia, e não algo a ser alcançado por ajustes cada vez mais difíceis em economias não pensadas originalmente com essas preocupações. O último capítulo termina o livro numa nota esperançosa, argumentando sobre o poder das ideias publicadas em mudar os rumos da história, agora que nós mais que nunca precisamos disso. Este livro não teria sido possível sem a contribuição de numerosas pessoas que me ajudaram das mais variadas formas. Marcos Sá Corrêa, ao me convidar para escrever para O Eco, forneceu a centelha inicial para o livro, e foi sempre uma grande inspiração para mim. Eduardo Pegurier talvez tenha sido meu maior incentivador ao longo de todos estes anos. Ele sabe ouvir e argumentar como poucos, e nossos papos contribuíram muitíssimo não só para vários destes textos, como para ampliar minha visão de mundo. Outras discussões maravilhosas vieram de nosso pequeno grupo de biólogos sensu lato que gostam de escrever, os Literratos, em especial Adrian, Bernardo, Bruno, Caio, Everton e o próprio Eduardo. Adrian Monjeau, aliás, me trouxe também generoso apoio e incentivo, além do benefício de conviver com sua grande riqueza cultural ao longo dos últimos anos. Benoit de Thoisy me ajudou a encontrar as menções ao lêmure gigante e à ave-elefante no livro de Flacourt. Já Bernardo Araujo – um dos mais talentosos escritores jovens que já conheci – me deu o privilégio de uma das mais ricas e prazerosas interações científicas que já tive na vida, que tornou possível realizar meu sonho de infância de estudar as extinções do Quaternário. A ele agradeço também pelo texto de apresentação do autor para a orelha deste livro e pela capa. Agradeço também aos meus companheiros do Laboratório de Ecologia e Conservação de Populações da UFRJ, assim como a outros colegas cientistas numerosos demais para nomear aqui, por discussões quase cotidianas sobre a maior parte desses tópicos. Meus colegas professores do Departamento de Ecologia da UFRJ, assim como os alunos do meu curso de Biologia da Conservação ao longo Vera Riscado seção [Até agora o autor chamou as 5 partes de "seção". Isso requer uma padronização.] Vera Riscado texto [Para manter como os demais citados, seguindo a estrutura do livro. Esse é um dos textos/crônicas da última seção, "Utópicas". ] Vera Riscado texto [Para seguir o que vem citando, de acordo com a estrutura do livro. Refere-se a um dos textos/crônicas na secção "Utópicas".] 18 desses anos, também forneceram sugestões e discussões valiosas. Rui Cerqueira tem uma importância especial para mim, por ter me iniciado nesta coisa chamada ciência. Uma inspiração importante, é claro, foi daqueles grandes conservacionistas que tanto admiro e que tive o prazer de conhecer, cuja luta tem permitido que muitas das coisas das quais falo ainda existam: Carlos Gabaglia Penna, Clóvis Borges, Germano Wohel, Ibsen de Gusmão Câmara, José Truda, Malu Nunes, Marc Dourojeanni, Marcos Sá Corrêa, Maria Tereza Pádua e Miguel Milano, entre outros. Ibsen não mais poderá ler isto, o que é uma pena, porque este livro e quem eu sou devem muito a ele. A Luísa Pinho Sartori, uma jovem com grande talento para a conservação que infelizmente se foi cedo demais, eu agradeço pela inspiração para a frase que fecha o antepenúltimo capítulo. Entre meus parentes mais próximos dentro da minha própria espécie, agradeço a Marcos e Nathércia Fernandez, e a Luís Roberto e Luciana Zamith, pelo entusiasmo e estímulo. Com meus pais, Iza e Jorge Fernandez, tenho uma dívida que nunca poderá ser paga, por tudo, inclusive por terem me estimulado a seguir o caminho do conhecimento, permitindo-me o privilégio de ter contato com tantas coisas maravilhosas, que fizeram minha vida melhor. Alexandra Pires merece o mais especial dos agradecimentos, por seu apoio, seu incentivo, sua paciência e sua ajuda em todas as horas, inclusive revendo cuidadosamente os textos e fazendo sugestões valiosas. Finalmente, agradeço a Bernardo e Vicente pelos bons momentos juntos, pelo carinho, e por cada vez que perguntaram, “Papai, por que isso é assim?”. Agradeço ainda à Associação O Eco, através de Eduardo Pegurier, por me permitir usar as colunas originalmente publicadas no seu site, e à Editora da Universidade Federal do Paraná, por ter me permitido incluir aqui o capítulo “Viagem ao coração do mistério dos mistérios”, originalmente publicado na edição de O Diário do Beagle. Finalmente, agradeço de forma muito especial a Josué Nunes, por ter me convidado para publicar a primeira edição deste livro e por todo seu entusiasmo, incentivo e apoio, que foram decisivos para que a ideia se tornasse realidade. Vera Riscado destes Vera Realce [seria a antepenúltima seção ?] [Confirmar após verificar meus comentários anteriores sobre seção/texto/capítulo.] Vera Realce [Tirar essa vírgula.] Vera Riscado texto [Está dentro da seção "Gouldianas".] CRÔNICAS DE BIOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E OUTRAS HISTÓRIAS OS MASTODONTES DE BARRIGA CHEIA HISTÓRICAS 25 O CASO DOS MASTODONTES DE BARRIGA CHEIA “Elementar, meu caro Watson.” (Frase atribuída a Sherlock Holmes, emborados mamíferos. Será que alguém seriamente acreditaria que hérnias, ou uma doença, ou problemas hormonais pudessem extinguir não uma espécie de mamíferos, mas todos os mamíferos do planeta de uma só vez? No entanto é exatamente isso o que muitos têm proposto a respeito da extinção dos dinossauros. Qualquer hipótese para explicar essa extinção, para ser plausível, precisaria antes de tudo ser capaz de explicar a extinção de um grupo tão diverso em quase tudo, como os dinossauros. O maior problema de toda a fascinante discussão, porém, não parecia ser a plausibilidade, mas sim como obter evidências que apoiassem qualquer hipótese sobre algo que aconteceu tanto tempo atrás. No entanto, para surpresa de muitos, isso foi possível, e a explicação começou a surgir pelo mais inesperado dos caminhos: uma observação casual de um jovem geólogo norte-americano na Itália. “Uma surpresa como um terremoto” No final da década de 1970, Walter Alvarez fazia pesquisa geológica perto da bela cidade medieval italiana de Gubbio, ao pé dos montes Apeninos. Embora sua pergunta ali fosse outra, sua curiosidade foi atraída por uma magnífica seção estratigráfica que mostrava muito bem a fronteira K-T, que é como os geólogos conhecem a transição entre o período Cretáceo e o Terciário. A fronteira K-T é datada de 65 milhões de anos atrás e, como as fronteiras entre períodos geológicos em geral, é definida exatamente pela abrupta mudança faunística – no caso, o desaparecimento dos dinossauros. Em Gubbio, a seção diante de Walter consistia em uma camada de um centímetro de espessura de saibro vermelho, sem fósseis, depositado sobre calcário branco, riquíssimo em foraminíferos (pequenos invertebrados marinhos) e abaixo de calcário vermelho, heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [acertar espaçamento] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 146 147 sem nenhum foraminífero. O saibro, mais conhecido entre nós como o piso das quadras prediletas de Gustavo Kuerten, é um tipo de sedimento de granulometria finíssima, depositado pelos ventos e/ou pela água. Pela pouca espessura da camada de saibro, Walter calculou que ela deveria ter se depositado num período muito curto, talvez de menos de cinco mil anos (isso pode parecer longuíssimo para você e para mim, mas para um geólogo é um piscar de olhos). Walter achou aquilo tudo muito interessante e falou sobre o achado com seu pai, Luiz, que como cientista, mesmo sendo de outra área, bem poderia achar aquilo interessante também. Luiz Alvarez, na verdade, não era um cientista qualquer. Norte-americano de origem hispânica, era um brilhante físico experimental da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Prêmio Nobel de física em 1968. A intuição de Walter estava correta: Luiz ficou entusiasmado com o achado do filho e propôs nada mais nada menos que eles dois usassem o saibro para saber se a extinção do final do Cretáceo tinha mesmo sido tão súbita quanto se dizia. Dessa conversa nasceu uma rica interação intelectual em família, pai e filho devotados a duas ciências diferentes unindo suas vigorosas mentes na tentativa de resolver um imenso mistério de uma terceira, a paleontologia. Mas nem eles mesmos, nos seus mais audaciosos sonhos, poderiam ter imaginado quão frutífera essa interação viria a ser. Pensando em como responder à pergunta dos dois, Luiz veio com uma ideia fantástica: usar a concentração de irídio na lâmina de saibro para calcular o seu tempo de deposição. O irídio, um elemento químico muito pesado, teria se deslocado para o núcleo da Terra quando nosso planeta foi formado, o que explica por que é raríssimo em amostras terráqueas. Por outro lado, frequentemente é encontrado em alta concentração em corpos celestes que se chocam com a Terra, como asteroides e meteoritos. Luiz então raciocinou que se a deposição do saibro tivesse sido muito rápida (no tempo geológico), não haveria tempo para muitos impactos de corpos celestes e portanto haveria pouco ou nenhum irídio no saibro.Porém, se a deposição da lâmina de saibro tivesse levado um tempo muito longo para acontecer, haveria uma concentração detectável de irídio, e usando essa concentração e as taxas conhecidas de impactos de meteoritos na Terra, seria possível calcular quão longo fora esse período. Ao analisar quimicamente as amostras de Gubbio, os Alvarez tiveram o que eles chamariam depois de “uma surpresa como um terremoto”: naquele saibro havia 9.000 ppt (partes por trilhão) de irídio, uma concentração nada menos que trinta vezes maior do que em cada uma das duas camadas de calcário depositadas no mesmo lugar, a milímetros de distância! Com base nisso, eles formularam sua ousada hipótese: a origem extraterrestre do irídio encontrado em K-T. Pai e filho calcularam que o impacto com a Terra de um asteroide de 10 quilômetros de diâmetro poderia produzir as concentrações observadas de irídio. Esse mineral teria se depositado, assim como o saibro, à medida que fosse baixando a imensa nuvem de escombros e poeira produzida pelo impacto. Um impacto de um corpo celeste dessa magnitude poderia explicar, argumentaram eles, a grande extinção do final do Cretáceo. Em junho de 1980, explodiu a grande bomba científica: os Alvarez e dois colaboradores que ajudaram nas análises, Frank Asaro e Helen Michel, publicaram na Science um artigo com o singelo título “Causa extraterrestre para as extinções do Cretáceo-Terciário”. Era difícil imaginar que um artigo com esse título, na Science, não fosse causar uma violenta polêmica, e ela de fato veio. Por uma pequena ironia da história, os Alvarez não foram os primeiros a publicar sua revolucionária ideia. No mês anterior, o holandês Jan Smit tinha publicado na Nature um artigo onde se lia a seguinte frase: “o impacto de um grande meteorito pode ter fornecido o irídio e causado a extinção em massa de K-T”. Era só uma frase solta num artigo sobre outro tema, e não um trabalho específico Vera Realce [FALTA ESPAÇO DEPOIS DO PONTO FINAL.] 148 149 sobre o assunto, como o dos Alvarez. Mesmo assim, quando o título devastador do artigo desses últimos atraiu a atenção do mundo para o assunto, houve quem apontasse a frase do holandês e atribuísse a ele a paternidade da ideia. Mas Smit ouvira a ideia de Walter Alvarez num congresso, e escrupulosamente veio a público esclarecer que a prioridade da hipótese era dos Alvarez, e não dele. Numa época em que tanto se discute o comportamento ético dos cientistas, não deixa de ser reconfortante saber que aqui uma situação de potencial conflito, que poderia ter se transformado numa desagradável fogueira de vaidades, foi resolvida com tanta decência e simplicidade. Reconhecidos os pais da ideia, todos começavam a se perguntar se ela estava correta ou não. Boa ciência faz predições, e os próprios Alvarez tinham indicado o caminho ao predizerem que, se a hipótese estivesse correta, seriam encontradas três coisas. A primeira, concentrações anormalmente altas de irídio em todas as seções estratigráficas correspondentes à transição K-T ao redor do mundo, e não só em Gubbio. A segunda, estruturas geológicas que evidenciam choque ou altíssimas pressões, chamadas pelos geólogos de planos de multifraturas, shatter cones, esférulas e tectitos, associadas à transição K-T. A terceira, uma cratera, datada de 65 milhões de anos atrás, com uns 150 quilômetros de diâmetro. Perdeu-se uma cratera de 150 quilômetros A essa altura, começou o violento ataque à hipótese dos Alvarez, liderado pelo geólogo Charles Officer e seus colaboradores. Era, diziam eles, uma hipótese maluca sem qualquer evidência sólida. Pior ainda, fugia à tradição da geologia, que vinha desde o virtual fundador dessa ciência, Charles Lyell, de explicar os fenômenos do passado por processos graduais e cotidianos que ocorrem em nosso planeta (como erosão, sedimentação e outros). Os Alvarez, em vez disso, recorriam a uma explicaçãocatastrofista – o que, para os geólogos modernos, parecia tão obsoleto quanto os próprios dinossauros. E ainda pior: uma explicação extraterrestre! Além disso, onde estava a tal cratera? Como pode alguém perder uma cratera de 150 quilômetros? Pode ser mesmo difícil aceitar que pudesse haver uma cratera de 150 quilômetros de diâmetro, em algum lugar de nosso planeta, sem que fosse conhecida. No entanto, isso era perfeitamente possível. Para entender por que, é instrutivo comparar nosso planeta com a Lua. O leitor alguma vez já se perguntou por que a Lua tem uma imensa quantidade de crateras e a Terra não? A resposta óbvia seria que a Lua receberia muito mais impactos de meteoritos e asteroides do que a Terra. No entanto, essa explicação é falsa, e a realidade é muito mais sutil e interessante que isso. A Terra recebe uma quantidade de impactos comparável à da Lua, pelo menos no que se refere a corpos celestes de médio a grande porte (os de porte muito pequeno podem ser destruídos pela atmosfera terrestre antes do impacto, o que não aconteceria na Lua). A diferença principal, na verdade, é que a Lua não tem os principais agentes de erosão e sedimentação (água, ventos e gelo) que existem na Terra. Assim sendo, enquanto qualquer cratera dura quase que para sempre na Lua, na Terra as crateras tendem a sofrer erosão e sedimentação. Por isso, embora a Terra tenha algumas grandes crateras bem visíveis (por exemplo, a Meteor Crater, de 1,6 quilômetro de diâmetro, no deserto do Arizona), essas correspondem apenas a uns poucos impactos geologicamente muito recentes. Em nosso planeta, as crateras mais antigas já foram erodidas e/ou soterradas por sedimentação há muito tempo. Portanto, uma cratera de 150 quilômetros desconhecida não seria algo tão estranho assim, se ela fosse, como é o caso, muito antiga. Crateras muito antigas podem ser encontradas por meio de evidências indiretas, como estruturas detectadas sob o solo mediante análise da distribuição espacial de certos minerais depositados no passado e de padrões magnéticos associados a eles. heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 150 151 O ataque de Officer e seus colegas fez que vários pesquisadores, em toda a década de 1980, testassem as predições feitas audaciosamente pelos Alvarez. Ao longo dos anos, os resultados foram aparecendo. Para surpresa de muitos, as predições foram se confirmando uma a uma. Primeiro, picos de irídio foram encontrados associados à fronteira K-T em todos os lugares do globo onde essa transição foi estudada. Apenas um ano após o trabalho dos Alvarez, concentrações anormalmente altas de irídio associadas à K-T já haviam sido encontradas em 36 lugares diferentes do planeta; hoje são mais de cem lugares. Em alguns locais, os picos de irídio chegaram a atingir uma concentração de 28.000 ppt, o triplo daquela registrada em Gubbio. Segundo, estruturas geológicas associadas a impacto foram encontradas na transição K-T em vários lugares ao redor do mundo. As estruturas eram mais abundantes na América do Norte e mais ainda em Cuba. Esse padrão geográfico parecia agora indicar onde havia sido o impacto: provavelmente em algum lugar no que hoje é a América Central. Terceiro e mais espetacular, a cratera foi encontrada. Os geólogos Alan Hildebrand e William Boynton publicaram, em 1991, na revista Natural History, mais um artigo com um título sensacional (“Cretaceous ground zero”) anunciando a descoberta da cratera. Tratava-se de uma imensa estrutura, detectada a partir de anomalias magnéticas e gravitacionais circulares, 800 metros abaixo do solo, na costa da península de Yucatán, no México. Essa estrutura já era conhecida havia décadas pela Pemex, companhia mexicana de petróleo, a partir de prospecções geofísicas na região à procura do cobiçado ouro negro. De fato, outro geólogo, Glen Penfield, que conhecia os estudos da Pemex, já havia escrito para Walter Alvarez em 1980, logo após ler o artigo original desse último com seu pai e colaboradores, chamando a atenção para o Yucatán como possível local do impacto. Penfield, porém, jamais recebeu resposta e o assunto foi esquecido até que Hildebrand e Boynton mostraram que o impacto de fato havia sido lá. Hildebrand e Boynton batizaram a cratera de Chicxulub, que é o nome da pequena vila que fica quase em seu centro. A cratera fica metade no continente e metade no mar (ou melhor, onde hoje é continente e onde hoje é mar, uma vez que a posição dos continentes no Cretáceo era diferente). As anomalias geológicas têm uns 170 quilômetros de diâmetro, ou seja, indicam uma cratera um pouco maior que a prevista pelos Alvarez, o que corresponderia a um asteroide com cerca de 11 quilômetros de diâmetro, também um pouco maior que o previsto. Diferentes datações, obtidas a partir de amostras de rochas ígneas de Chicxulub, obtiveram (idades estimadas + erro da estimativa) 64,98 + 0,05 e 65,2 + 0,4 milhões de anos atrás. Ou seja, a datação de Chicxulub coincidia, com admirável perfeição, com o final do Cretáceo e, portanto, com a extinção dos dinossauros. A terceira e última predição dos Alvarez então se confirmava de forma espetacular. Após a falta de crédito inicial, pai e filho finalmente viam sua teoria ganhar aceitação cada vez mais geral, até atingir quase que um consenso (eu mesmo fui um dos descrentes iniciais que acabaram sendo convencidos pelas evidências). Com a ajuda das reconstruções feitas por físicos, paleontólogos e geólogos, muito bem sumarizadas por Marcelo Gleiser em O Fim da Terra e do Céu, a humanidade finalmente entendeu o que aconteceu com nosso planeta num dia que começou como qualquer outro, há sessenta e cinco milhões de anos. O dia do oitavo impacto Um belo dia, um asteroide de uns 11 quilômetros de diâmetro, movendo-se a cerca de 20 quilômetros por segundo (72.000 quilômetros por hora!), penetra a atmosfera da Terra. heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [melhorar espaçamento] 152 153 Um asteroide de 11 quilômetros de diâmetro pode à primeira vista não parecer muito, considerando que o nosso planeta tem um diâmetro de quase 13.000 quilômetros. No entanto, como o leitor talvez lembre de seus cursos de física, impacto é igual a massa vezes velocidade ao quadrado. Ou seja, o efeito do choque de um corpo celeste como esse, pesando bilhões de toneladas, com o nosso planeta, a uma velocidade de 20 quilômetros por segundo, é algo quase que inimaginavelmente imenso. O impacto causa uma explosão estimada em 100 milhões de megatons – ou seja, equivalente a 7 bilhões de bombas de Hiroshima, ou 10 mil vezes o poder de todo o atual arsenal nuclear do mundo. O choque espantoso abre uma cratera de 40 quilômetros de profundidade, vaporizando instantaneamente as próprias rochas e tudo o mais à volta, causando temperaturas de vários milhares de graus. Uma coluna de água, rochas e detritos diversos eleva-se à inacreditável altura de 200 mil quilômetros – metade da distância Terra–Lua. Acontecem terremotos monstruosos, como nunca vistos pelo homem: violentíssimas ondas se propagam pelo solo. Mas algo ainda mais terrível estava por vir. Uma colossal onda sísmica (tsunami) com uns 100 metros de altura varre o planeta à espantosa velocidade de cerca de 1.800 quilômetros por hora, dando várias voltas na Terra. Quem tivesse sobrevivido à onda monstruosa, porém, ainda não estava a salvo da terrível noite que viria a seguir. Com a Terra cercada por uma espessa nuvem de poeira e sedimentos vários, na atmosfera e mesmo acima dela, uma completa escuridão se faz no planeta inteiro, por meses no mínimo, anos talvez. Como consequência disso, toda a fotossíntese na Terra para, ou seja, interrompe-se o processo que é a base de toda vida. Logo vem o mais terrível dos invernos: com os raios solares não mais atingindo o solo, as temperaturas baixam várias dezenas de graus no planeta inteiro. Quando ouvi falar pela primeira vezda hipótese dos Alvarez, lembro-me que achei surpreendente que o impacto de um asteroide pudesse ter extinguido a maior parte das espécies que viviam na Terra naquela época. Mas depois de ler a reconstrução do que deve ter sido esse impacto, a surpresa não é que ele tenha eliminado tantas espécies – é que alguma tenha sobrevivido. No entanto, algumas espécies tiveram essa sorte, provavelmente beneficiadas por fatores fortuitos que as favoreceram. Alguns animais e plantas habitavam áreas altas que não foram varridas pelo tsunami. Várias plantas certamente sobreviveram à longa noite que se seguiu, como sementes enterradas no solo, que voltaram a germinar quando a luz solar timidamente voltou a aparecer. Mesmo sem fotossíntese, alguns animais também lograram sobreviver a esse período, possivelmente espécies que ou já eram naturalmente necrófagas (comedoras de animais mortos) ou foram capazes de se adaptar a esse novo tipo de alimentação. Afinal, cadáveres enregelados devem ter sido o único recurso alimentar abundante no planeta por vários meses pelo menos. Aos poucos, a luz foi voltando, as temperaturas começaram lentamente a subir e os sobreviventes do imenso cataclismo começaram a repovoar a Terra. As poucas linhagens evolutivas que tinham sobrevivido foram aos poucos se diversificando evolutivamente e dando origem às novas faunas e floras que dominariam o planeta nas eras geológicas seguintes. Várias linhagens, porém, haviam desaparecido completamente – entre elas, os dinossauros. Hoje, então, temos uma resposta convincente para o que aconteceu com esses animais admiráveis. Pobres dinossauros, levaram uma pedrada enorme na cabeça. A morte dos dinossauros foi, então, um evento ainda mais espetacular do que a nossa mais audaciosa fantasia poderia ter imaginado. Mas o que ninguém poderia supor é que o sucesso da hipótese dos Alvarez fosse abrir as portas para algo ainda mais espetacular: uma revolução, por incrível que pareça, muito maior ainda em nossa maneira de ver a história da vida. E mais uma vez tudo começou da maneira mais prosaica e inesperada possível, com 154 155 um homem tentando alcançar um dos maiores sonhos de todos nós hoje em dia: um emprego estável. “Você está vendo isso?” John Sepkoski era um jovem paleontólogo que, por volta do final da década de 1970, conseguira um emprego temporário em uma ótima instituição, a Universidade de Chicago. Certo dia ele soube que seus superiores estavam resolvendo se iriam ou não lhe oferecer tenure, ou seja, estabilidade no cargo. Como escreveu James Powell, “uma notícia dessas, assim como a descoberta de que se vai ser enforcado em quinze dias, concentra a mente maravilhosamente”. Sepkoski voltou-se então com todas as suas energias para um projeto quase alucinadamente ambicioso: a compilação da duração de famílias de organismos no registro fóssil. Ele queria saber quanto tempo cada família durava antes de desaparecer, e não para famílias de algum grupo específico de organismos, mas famílias de tudo: vertebrados, invertebrados, protozoários. Por meio de uma busca exaustiva na literatura científica, a base de dados de Sepkoski logo atingiu o espantoso total de 3.500 famílias, cuja duração havia sido compilada a partir dos registros fósseis de nada menos do que trinta mil gêneros extintos… O que a gente não faz por um emprego estável! O colega mais velho David Raup teve a ideia de aproveitar a imensa massa de dados de Sepkoski para testar se algum padrão quantitativo aparecia no registro fóssil. Um dos gráficos que Raup fez plotava simplesmente o número de gêneros que havia se extinguido em cada período geológico, desde cerca de 250 milhões de anos atrás até o presente. Raup esperava naturalmente encontrar alguns picos nesse gráfico, correspondendo a épocas de extinções em massa no passado, como por exemplo a própria extinção do K-T. De fato, o pico que correspondia ao fim dos dinossauros estava lá, bem nítido, e… era o oitavo. Quando Raup olhou o gráfico saindo da impressora, ele mal pôde acreditar no que via. Diante de seus olhos estarrecidos, surgia um padrão antes desconhecido na história da vida, numa escala de tempo tão grande que desafiava a compreensão da mente humana. Raup invadiu excitadamente a sala de Sepkoski e, mostrando a ele o gráfico, perguntou: “Você está vendo isso? Elas estão regularmente espaçadas no tempo!”. “Elas” eram as grandes ondas de extinção no passado geológico. No gráfico, elas apareciam com uma periodicidade regular de 26 milhões de anos. Havia dez picos bastante nítidos; o da fronteira K-T era o oitavo, e o segundo maior. O maior de todos, como esperado, era o primeiro, correspondente à fronteira Permiano- -Triássico, há uns 250 milhões de anos, quando houve a “mãe de todas as extinções”, a qual se estima que eliminou 96% das espécies do planeta na época, estabelecendo por convenção o fim da era Paleozoica e o início da era Mesozoica (que por sua vez foi encerrada pela extinção de K-T, que teria extinguido 70% das espécies viventes). Além dos dez picos periódicos, havia mais um, pequeno, no meio do período Jurássico, que não se encaixava na periodicidade. Mas a existência do pico menor do Jurássico, que demandava uma explicação à parte, não contradizia a clara periodicidade dos dez restantes. A existência de um padrão com periodicidade tão grande era tão difícil de acreditar que Raup e Sepkoski tiveram bastante cautela ao publicar seus resultados. Nas palavras de Raup, eles “tentaram matar a periodicidade”, testando por vários métodos estatísticos de séries temporais se era provável que aquele aparente padrão pudesse ser simplesmente casual. Mas o padrão resistia: a periodicidade encontrada nas extinções no passado geológico era regular demais para que pudesse ser ao acaso. Ainda assim, eles estavam tão apreensivos com a recepção do seu trabalho que escolheram enviá-lo não para a Science ou a Nature, que seriam as 156 157 escolhas mais naturais para uma descoberta científica desse porte, mas para a Proceedings of the National Academy of Sciences USA, uma revista da Academia Norte-Americana de Ciências, onde eles estariam em terreno mais familiar. Perdeu-se a estrela irmã do Sol Em 1984, então, quatro anos após o trabalho dos Alvarez, explodiu a nova bomba científica: Raup e Sepkoski publicaram finalmente seu trabalho, intitulado “Periodicidade de extinções no passado geológico”. Além de descrever o desconcertante padrão encontrado, eles não fugiram da imensa e óbvia pergunta: o que diabos pode ter uma periodicidade de 26 milhões de anos? Raup e Sepkoski reconheceram que era muito difícil imaginar qualquer fenômeno terrestre que tivesse uma periodicidade assim, e explicitamente propuseram uma causa extraterrestre para as extinções – não só para a extinção do K-T, mas para todas as dez grandes ondas de extinção. O artigo de Raup e Sepkoski imediatamente se tornou um hit científico: eles publicaram em fevereiro de 1984 e já em abril a Nature trazia nada menos que cinco artigos comentando a periodicidade das extinções no passado. A recepção às suas ideias foi muito melhor do que os dois paleontólogos chegaram a temer. Nem todos os comentários eram críticos; muito pelo contrário, eles sugeriam novas linhas de investigação e hipóteses para explicar a periodicidade. Antes de tudo, se as causas de todas as extinções de fato fossem astronômicas, então se esperaria encontrar crateras associadas não só a K-T, mas também a outros picos de extinção. Será que essa predição, assim como a de Chicxulub, também se confirmaria? Surpreendentemente, a resposta é “sim”. De 1991 para cá já foram encontradas evidências geológicas e paleomagnéticas de crateras soterradas cujas datações se encaixam bem com outras quatro grandes ondas de extinção, além de K-T. A cratera correspondente à maior de todas as extinções, a do Permiano-Triássico, foi encontrada em Araguainha, no Brasil. Em três das quatro crateras,além das estruturas geológicas associadas a impacto, foram encontrados também picos de irídio, como os que haviam despertado originalmente a atenção dos Alvarez. Se então começava a parecer cada vez mais plausível que de fato todas as maiores ondas de extinção no passado foram causadas por impactos de corpos celestes com o nosso planeta, ainda faltava achar uma explicação para sua desconcertante periodicidade. Nos comentários ao artigo de Raup e Sepkoski, foram apresentadas várias possibilidades. As explicações mais plausíveis eram relacionadas à nuvem de Oort, que é constituída por milhões de cometas em uma órbita à volta do Sistema Solar, além da órbita de Plutão. A ideia é que alterações gravitacionais nessa nuvem poderiam fazer que alguns cometas saíssem de suas órbitas normais, entrassem no Sistema Solar e se chocassem contra planetas. Mas o que poderia causar alterações gravitacionais na nuvem de Oort? Outra hipótese ainda mais espetacular foi então proposta. Para Davis e colaboradores, a órbita dos cometas da nuvem de Oort seria perturbada por uma estrela irmã do Sol até agora desconhecida, que orbitaria o sol a dois anos-luz de distância (metade da distância até a estrela mais próxima conhecida, Alfa Centauri). A órbita dessa estrela seria muito excêntrica e apenas nas suas maiores (e raras) oscilações ela tocaria a nuvem de Oort, e por atração gravitacional traria alguns cometas de lá para dentro do Sistema Solar, resultando então em impactos de alguns cometas com os planetas, inclusive o nosso. A existência em si da “estrela irmã” não é uma proposta original; astrônomos já a tinham postulado com base em anomalias gravitacionais detectadas no Sistema Solar e que só poderiam ser explicadas por um corpo celeste de grande massa, ainda desconhecido, percorrendo o espaço perto (nesta escala!) de nós. heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 158 159 Você pode estar se perguntando como seria possível que houvesse uma estrela irmã do Sol ainda desconhecida, mas nem toda estrela é grande e brilhante como estamos acostumados a pensar. A estrela em questão seria muito densa, mas pequena, com brilho fraco demais para já ter sido detectada. Muller e colaboradores propuseram para essa suposta estrela irmã o nome Nêmesis, que é o deus grego da ira justa. Num belo exemplo de interação entre ciências tão distintas como a paleontologia e a astronomia, a hipótese de Raup e Sepkoski reacendeu o interesse pela velha questão da “irmã escura” do Sol e levou vários astrônomos a retomar sua busca por ela. A ciência mais fantástica que a imaginação E agora, filosoficamente, onde ficamos? Essa questão foi discutida por Stephen Jay Gould em Vida Maravilhosa, onde ele conta, com seu característico brilhantismo, as implicações da maior descoberta da história da paleontologia, a do folhelho Burgess (Burgess shale). Nesse local, na Colúmbia Britânica, no Canadá, Charles Walcott descobriu, em 1909, um fantástico mundo novo. O que havia em Burgess era uma fauna inteira, magnificamente preservada, de invertebrados marinhos de águas rasas do Cambriano médio, ou seja, de cerca de 530 milhões de anos atrás. Naquele local, tinham se reunido todas as condições de preservação que são o sonho de qualquer paleontólogo: soterramento muito rápido (provavelmente por uma avalanche submarina), em condições anóxicas (sem oxigênio), com um pH ácido. Com tudo isso, a preservação dos espécimes beirava o inacreditável, permitindo ver até partes moles de organismos que tinham vivido mais de meio bilhão de anos atrás! As reconstruções dos organismos em si, descritas minuciosamente por Gould, são um espetáculo à parte – quem mais poderia fazer um livro de paleontologia ser palpitante? Há coisas que parecem ter saído da delirante imaginação de algum escritor de ficção científica, em vez de serem organismos reais que um dia viveram neste mesmo planeta onde você e eu vivemos agora. Um deles é Opabinia, com dezenas de “velas” laterais para locomoção, um único apêndice apreensor frontal terminando numa pinça e cinco olhos de três tamanhos diferentes! Outro é Marrella, com uma carapaça estranha de forma trapezoidal, dezenas de apêndices locomotores articulados e estranhas barbas correndo ao longo do corpo. Depois há Wywaxia, um escudo coberto de escamas córneas, de cuja face convexa (certamente dorsal) saíam várias longas “espadas”! Mas nada supera Halucigenia. Se você acha que adivinhou de onde vem o nome, você está certo: os cientistas que descreveram o bicho justificaram a escolha do nome, numa respeitável revista científica, com a singela frase “ao ver o animal parece que estamos tendo alucinações”. Halucigenia era um tubo longo, com um ânus e três pares de pequenos tentáculos dorsais numa ponta e uma estranha estrutura globular, sem apêndices (um “cérebro”?) na outra, mais sete tentáculos maiores com “bocas” projetando-se para cima a partir do dorso, tudo isso equilibrado sobre sete pares de espículas rígidas de calcário, como se o animal andasse sobre quatorze pernas de pau!2 Já foi muito discutido se essa impressionante diversidade de formas implicaria vários filos novos para a ciência, o que faria dessa a descoberta de maior impacto taxonômico na história, ou se praticamente todos os animais podem ser classificados em filos atuais. Filos distintos ou não, o que é certo é que uma espantosa coleção de animais bizarros desapareceu ao longo do próprio Cambriano ou dos períodos posteriores, pelo menos uma 2 Essa foi a reconstrução adotada por Gould, mas outros fósseis de Halucigenia encontrados depois na Groenlândia e na China mostraram que o animal estava invertido: os “tentáculos” na verdade eram pernas e as espículas ficavam para cima. Ah, bom, agora ficou um bicho bem trivial! heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [melhorar espaçamento] 160 161 parte deles em grandes ondas de extinção, como a do Permo- -Triássico, já mencionada. Além disso, para o nosso argumento é igualmente importante notar que a fauna de Burgess também incluía vários animais que se encaixam com facilidade em outros grupos de invertebrados que existem até hoje, dentro dos filos dos artrópodos, anelídeos, moluscos, equinodermos e onicóforos. Ainda mais importante, do nosso próprio ponto de vista provinciano: também está lá um pequeno animal chamado Pykaia, que é considerado nada mais nada menos que um ancestral dos cordados – portanto, por inclusão, de todos os mamíferos, inclusive você e este que lhe escreve. O tambor e a chama de Shiva O garoto Stephen Jay Gould, olhando fascinado o tiranossauro dos seus cinco anos, provavelmente nem imaginava que a paleontologia avançaria tanto, durante sua vida, no entendimento não só da grande questão da extinção dos dinossauros como da questão ainda maior das grandes ondas de extinção em geral. O próprio Gould, em uma crônica em seu livro O sorriso do flamingo, fez uma brilhante reinterpretação das implicações da fabulosa descoberta de Raup e Sepkoski. Para Gould, Nêmesis não era a metáfora ideal para a estrela que teria causado, segundo Davis e colaboradores, as grandes ondas de extinção. Nêmesis aparece na mitologia grega como uma personificação da ira justa. Mas se as extinções foram causadas por impactos de corpos celestes, como dizer que teria havido “justiça” nelas? A evolução funciona pela adaptação das espécies, por meio da seleção natural agindo sobre seus indivíduos, às circunstâncias do seu ambiente em cada local e tempo específico. Como poderia a seleção natural ter feito que uma espécie fosse adaptada a sobreviver a quedas de asteroides gigantescos, as quais só aconteceriam a cada 26 milhões de anos? Se Raup e Sepkoski estiverem certos, as grandes ondas de extinção foram como gigantescas loterias. Quais espécies se extinguiram nelas, e quais não, teria sido algo fundamentalmente aleatório, que não teria tido nada a ver com quaisespécies eram mais ou menos bem-adaptadas, ou mais ou menos “evoluídas” em qualquer sentido. Isso seria um exemplo de um tema que Gould repetidamente discutiu em seus ensaios: o papel da contingência na evolução. Por contingência se entende a importância de eventos históricos, como momentos nos quais várias coisas diferentes poderiam ter acontecido, mas o que quer que de fato tenha acontecido condiciona todo o futuro dali para a frente. Agora vamos supor que as linhagens extintas pela queda de grandes corpos celestes após o Cambriano incluíssem não as de Opabinia, Marrella, Wywaxia e Halucigenia, mas, em vez disso, as que levaram aos grupos atuais de artrópodos, anelídeos, moluscos e cordados. Isso poderia muito bem ter acontecido: não há nada, a princípio, que torne o segundo conjunto menos vulnerável que o primeiro. E, se tivesse acontecido, como seria hoje a vida neste planeta? É impossível saber, mas uma coisa é certa: seria muito diferente do que é, e você e eu não estaríamos aqui! Perceber isso, sentir isso, é o melhor antídoto que conheço para a nossa arrogância antropocentrista, para qualquer pessoa que ainda ache que o mundo foi feito para nós. Gould propôs então substituir Nêmesis por Shiva – deus hindu da destruição e da criação. Em um tipo de representação de Shiva, como Nataraja, a dança cósmica, ele é retratado com uma face serena, regendo placidamente com um tambor o ritmo da destruição, enquanto segura em outra mão a chama da criação (se o leitor ao contemplar essa figura de Shiva achar difícil localizar o tambor e a chama, não se preocupe, é que os quatro braços atrapalham um pouco mesmo). As ondas de extinção não teriam nada a ver com justiça, mas seriam apenas parte de um processo natural aleatório e que age de modo intermitente a longos intervalos. A destruição heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 162 163 e a criação seriam duas faces de uma mesma moeda, e a vida se renova como resultado de eventos cósmicos. A cada grande evento de destruição, as linhagens sobreviventes repovoam lentamente o planeta, adaptando-se a cada um dos novos hábitats e com isso voltando a se diversificar. Esse processo é conhecido por radiação adaptativa e deu origem, após milhões de anos, às novas faunas e floras que caracterizam cada período geológico. Você e eu, como todos os restantes animais e as plantas, somos descendentes das linhagens evolutivas que sobreviveram ao tambor de Shiva e que se diversificaram em sua chama. A SELEÇÃO HÚNGARA DE 1954 E A ORIGEM DOS FILOS O garoto inglês David Barr tinha uma grande expectativa quando se juntou a mais de cem mil pessoas que lotavam o estádio de Wembley para assistir ao jogo entre a poderosa Seleção da Inglaterra e uma seleção do leste europeu da qual se falava muito bem, a da Hungria. Era um ótimo dia para uma boa diversão e assistir a mais uma vitória do English Team. Mal imaginava ele o imenso choque que iria sentir, e que estava prestes a testemunhar a um dos mais incríveis espetáculos da história do futebol. Para colocar em contexto para um leitor de hoje, é preciso lembrar algumas coisas. Os ingleses haviam sido os inventores do futebol e se consideravam, sem discussão, os melhores do mundo. Não tinham ganhado nenhuma Copa, mas até ali só tinham disputado uma – a última, de 1950, no Brasil. Agora, aquele amistoso em novembro de 1953 era no sagrado templo de Wembley, onde a Inglaterra nunca tinha perdido nenhum jogo para um time estrangeiro. Naquela época, jogos do mundo todo não eram transmitidos a toda hora pela televisão como hoje. A multidão no estádio nunca tinha visto a Hungria jogar e via o time húngaro, com aquela arrogância tipicamente britânica, como apenas mais um bom time a ser batido. Como disse depois o próprio Barr: “Eu não sabia nada sobre a Hungria, mas sabia que venceríamos facilmente aquela gente pobre”. O juiz deu início à partida e em poucos minutos a ilusão do garoto foi feita em pedaços por uma furiosa exibição de futebol. David observava surpreso, desconcertado, como os húngaros trocavam 164 165 passes, driblavam, movimentavam-se de forma maravilhosamente coordenada e num ritmo alucinante. A defesa inglesa estava perdida tentando acompanhar os fantasmas de camisa cor de cereja que se infiltravam habilidosamente pelos espaços vazios. Aos cinquenta segundos a Hungria já estava na frente, com um gol fulminante de Hidegkuti. Minutos depois, uma tabela em espantosa velocidade entre Czibor, Puskas e Hidegkuti terminou num gol maravilhoso que o árbitro anulou injustamente. Juntando todo o seu brio, os ingleses lutaram contra o furacão e aos quinze minutos conseguiram o empate. Mas o massacre continuava. O zagueiro inglês Johnson era levado para passear fora da área na marcação do fugidio falso centroavante húngaro, Hidegkuti, e na lacuna assim deixada dois outros brilhantes atacantes, Puskas e Kocsis, entravam sempre na cara do gol. A fluência e a rapidez das trocas de passes dos húngaros eram simplesmente impossíveis de se acompanhar. Uma combinação fabulosa entre quatro atacantes – Puskas, Czibor, Kocsis e Hidegkuti – terminou no segundo gol. Mais alguns minutos se passaram e David e os restantes espectadores ingleses foram presenteados com um gol antológico. A jogada mostrou não só a habilidade dos húngaros, mas também sua desconcertante movimentação. Kocsis, centroavante, está no meio de campo, de onde lança a bola para o ponta-esquerda Czibor, entrando em velocidade pela… ponta- -direita! Czibor cruza para o meia-esquerda, Puskas, que está no bico direito da pequena área, gira de forma desconcertante sobre o zagueiro e manda um balaço no ângulo do goleiro. Os húngaros continuavam dominando completamente a partida e pouco depois faziam 4 × 1. No segundo tempo, com a vitória assegurada, eles diminuíram um pouco o ritmo, mas era tarde demais. Pela primeira vez a Inglaterra saía derrotada por um time estrangeiro em Wembley – e por uma sonora goleada, 6 × 3. O choque foi imenso; os ingleses estavam aplaudindo os húngaros já durante o jogo, percebendo que estavam assistindo a alguma coisa fora do comum. Parecia algo quase sobrenatural, como refletido no tom dos comentários da imprensa. O normalmente comedido jornal The Times escreveu: “Eles [os jogadores ingleses] se achavam estranhos em um mundo estranho, um mundo de esvoaçantes espíritos rubros, pois era assim que pareciam os húngaros à medida que se movimentavam num ritmo devastador”. Anos depois, David Barr diria sobre suas lembranças daquele dia em Wembley: “Vimos a demonstração futebolística mais magnífica de todos os tempos. Foi extraordinário. Depois que eles marcaram o quarto gol, já não nos importávamos mais se a Inglaterra ia fazer mais gols, os húngaros eram bons demais. É algo que vou lembrar por toda a vida”. O orgulho inglês havia sido ferido; teria, claro, que haver uma vingança. No dia seguinte, pediram aos húngaros uma revanche, que seria realizada em maio de 1954. Pobres ingleses! Teria sido melhor se eles tivessem deixado as coisas como estavam. O jogo em Budapeste foi ainda pior que a tragédia de Wembley. Em quatro minutos, os húngaros já venciam por 3 × 0. O goleiro Merrick espelhou bem a impotência e o desespero dos ingleses: “Quando os húngaros chegaram aos 6 × 0 no meio do segundo tempo, eu me perguntei quão gigantesca seria a catástrofe que se abateria sobre nós”. Os ingleses ficaram até aliviados quando o jogo terminou com o placar marcando uma humilhante goleada de 7 × 1. Podia ter sido muito pior. O jogador inglês Finney escreveu: “A Inglaterra foi enfeitiçada, sim, confundida e desnorteada por um time de bruxos futebolistas que às vezes pareciam ler o pensamento uns dos outros. Foi uma coisa parecida com telepatia em um campo de futebol e duvido que algo assim aconteça de novo enquanto eu viver”. Mas ninguém exprimiu tão bem o pasmo dos ingleses com o futebol dos húngaros quanto SydOwen. Meses depois do jogo, o jogador Malcolm Allison (que não esteve lá) encontrou com Owen, que havia jogado em Budapeste, e lhe perguntou: “Syd, como foi jogar por lá contra Vera Realce [Não separar: 6 x 0 ] Vera Riscado se encontrou heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 166 167 os húngaros?” Owen respondeu: “Malcolm, foi como jogar com gente de outro planeta”. A qualidade do time húngaro podia ser uma surpresa para torcedores como David Barr, vivendo numa época pré-televisão, ou mesmo para os jogadores ingleses, mas havia anos que os avisos estavam sendo dados por uma série de resultados fora do comum daquele time na Europa. As vitórias eram quase sempre goleadas, verdadeiros festivais de gols. Os adversários tradicionais dos húngaros no Leste Europeu haviam sido batidos com surpreendente facilidade: a Áustria por 6 × 1, a Polônia por 8 × 2 e 5 × 1, a Tchecoslováquia por 5 × 0 e 5 × 1, e por aí vai. Além disso, nos Jogos Olímpicos de 1952, em Helsinki, aquele mesmo time havia sido campeão com facilidade, vencendo todos os seus jogos. Entre os adversários estava o forte time da Suécia, com alguns jogadores que depois jogariam na seleção vice-campeã da Copa de 1958, mas foi batido na semifinal por incríveis 6 × 0. Meses depois, os húngaros enfrentaram a seleção principal da Itália, em pleno Estádio Olímpico de Roma. Ao final do jogo, com os húngaros procurando insistentemente o ataque mesmo vencendo por 3 × 0, a fanática torcida italiana aplaudia os visitantes, contra sua própria seleção. Depois disso, vieram os dois amistosos contra a Inglaterra. Faltava para a já chamada “Seleção de Ouro” apenas a consagração da Copa do Mundo, que se disputava na montanhosa Suíça, no verão de 1954. Os húngaros estrearam aplicando uma sonora goleada de 9 × 0 na Coreia do Sul. Depois, massacraram com muita facilidade a poderosa Alemanha, por 8 × 3. Porém, nesse jogo a Hungria sofreu uma baixa importante: seu maior craque, Puskas, foi caçado em campo até sair contundido, sendo forçado a perder os dois jogos seguintes. Na rodada seguinte, as quartas- -de-final, a Hungria enfrentou um grande teste: o vice-campeão da Copa anterior, o Brasil, com um time que incluía grandes craques como Nílton Santos e Didi, entre outros. Foi um jogo tenso e violento, conhecido como “a Batalha de Berna”, mas a Hungria superou nitidamente o poderoso time brasileiro, estando sempre à frente no placar e vencendo por 4 × 2. Depois de pegar o vice-campeão, a Hungria, ainda sem Puskas, enfrentava nas semifinais nada menos do que o campeão do mundo reinante, o Uruguai. A tradicional garra uruguaia não foi suficiente, e a Hungria se impôs novamente por 4 × 2. Era a primeira derrota do Uruguai na história das Copas. Para a consagração definitiva dos húngaros só faltava a vitória na final da Copa do Mundo, quando eles enfrentariam de novo a mesma Alemanha que haviam goleado por facílimos 8 × 3 na primeira fase. É bem verdade que a Alemanha vinha com um time completamente modificado. Do outro lado, Puskas iria jogar, mas ainda longe das condições físicas ideais. Choveu muito na noite anterior e no dia da grande final o campo estava encharcado, mais favorável ao jogo pesado dos alemães do que ao futebol mais habilidoso dos húngaros. Os húngaros começam arrasadores. O próprio Puskas e Czibor fazem dois a zero em apenas oito minutos, dando a falsa impressão que seria mais um jogo fácil. A Alemanha empata ainda no primeiro tempo. O primeiro gol nasce de uma falha do zagueiro húngaro Zakarias, e o segundo de uma jogada ilegal, com falta no goleiro Grocsis. Com 2 × 2 no placar, os húngaros pressionam: chutam uma bola na trave, depois outra, e Kocsis manda um tiro no travessão. O alemão Kohlmeyer salva uma bola em cima da linha do gol. Caprichosamente, porém, o terceiro gol húngaro se recusa a sair. A apenas seis minutos do fim, a Alemanha desempata, num chute despretensioso de longe em que a bola quica na grama molhada e trai Grocsis. Tudo parecia terminado, mas ainda não… A dois minutos do fim, Puskas empata! O gol, no entanto, é anulado, para muitos erradamente. Os húngaros protestam, se desesperam, lutam até o fim, mas o jogo termina. A Seleção de Ouro não foi campeã do mundo – a maior injustiça da história do futebol. Numa entrevista na década Vera Riscado 2 x 0 Vera Riscado de que heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 168 169 de noventa, o goleiro Grocsis exprimiu assim sua decepção: “Já faz mais de quarenta anos, mas até hoje choro quando me lembro desse jogo”. Dois anos depois, o exército soviético invadiu a Hungria para esmagar brutalmente uma insurreição popular contra o regime comunista. A maioria dos jogadores da “Seleção de Ouro” estava fora do país, excursionando com seu time, o Honved, e se recusou a voltar para lá. Aquele maravilhoso time jamais voltaria a jogar junto. Com isso, o mundo foi privado de assistir, na Copa de 1958, àquele que teria sido sem dúvida o maior jogo da história do futebol: a Hungria de Puskas, Kocsis, Czibor, Hidegkuti e Bozsik contra o Brasil de Pelé, Garrincha, Didi e Nílton Santos. O leitor brasileiro pode achar essa última afirmação exagerada, mas não é o caso. A expressão “seleção húngara de 54” se tornaria, nas décadas seguintes, adjetivo para bom futebol. O grande Nelson Rodrigues, quando queria dizer que um time não jogava tanto assim, dizia “…bem, não é nenhum escrete húngaro de 54!”. Eu não era nascido quando aquela Hungria jogava, mas cresci ouvindo falar dela como um time quase lendário. De fato, os números mostram o quão extraordinário ele era. Entre 1950 e a fatídica final da Copa de 1954, a Hungria ficou invicta por 36 jogos – apenas quatro empates, e 32 vitórias! Nenhuma outra seleção, de nenhum país, jamais teve retrospecto similar jogando no palco internacional e batendo todos os melhores times do planeta. Os números mais significativos, porém, são os das goleadas – e são eles que nos trazem para nossa questão central (calma, já estamos quase chegando na biologia). Aquele time saiu do nada e enfiou espetaculares goleadas em todas as maiores potências da época. A Hungria não só ganhava os jogos, mas ganhava com uma nítida e imensa superioridade mesmo contra seus rivais mais poderosos. Essa, a meu ver, é a nossa primeira pergunta a ser respondida. Como foi possível à Hungria ter uma superioridade tão grande sobre as outras seleções suas contemporâneas? Para responder a essa pergunta vamos dar uma olhada mais de perto nos segredos do sucesso daquele time húngaro. O primeiro, claro, era a qualidade de seus jogadores. A Hungria tinha cinco craques extraordinários: Ferenc Puskas, Sandor Kocsis, Nandor Hidegkuti, Jozsef Bozsik e Zoltan Czibor. Se os nomes lhe parecem familiares, é possível que seja do livro Budapeste, de Chico Buarque, grande apreciador do futebol, que usou nomes de personagens e lugares de seu romance para homenagear os jogadores da “Seleção de Ouro”. Mas todos eles frequentam as listas dos cem melhores jogadores da história que às vezes são organizadas por revistas esportivas. Ora, não é necessário muito esforço matemático para perceber que pouquíssimos times da história – o Brasil de 1970 é o único outro em que eu consigo pensar – puderam ter o privilégio de ter em campo cinco jogadores de uma lista dessas. Antes da Copa de 1958, se você perguntasse a qualquer fã de futebol quem tinha sido o maior jogador de todos os tempos, a resposta viria na ponta da língua: Puskas (naquela Copa, claro, um adolescente brasileiro de dezessete anos assumiu de vez esse título). Puskas era um baixinho atarracado que parecia tudo menos o maior jogador do mundo, mas era um meia-atacante pela esquerda, canhoto, com dribles curtos, fantástica visão de jogo, passes precisos e uma bomba mortal na perna esquerda. A seu lado jogava Kocsis, rápido, habilidoso e um exímio cabeceador, que teve a marca impressionantede 75 gols em 68 jogos pela Hungria. O ponta-esquerda, o temperamental Czibor, era rapidíssimo, grande driblador, deslocava-se o tempo todo e também marcava grande quantidade de gols. Já Hidegkuti era teoricamente o centroavante, mas só teoricamente. Na prática ele jogava mais como um inteligente meia-atacante, que se deslocava, armava jogadas e concluía com a mesma eficiência. Quanto a Bozsik, ele era o maestro do time, jogando mais atrás no meio de campo; todas as jogadas começavam em seus pés. Some-se a isso um punhado de outros bons jogadores e se tem, sem dúvida, um elenco de qualidade notável. Será que isso por si só explica o extraordinário sucesso daquela Seleção? Vera Riscado 1990, Vera Realce [Tirar vírgula depois de "empates".] 170 171 Arrisco-me a dizer que não. É importante notar que o entrosamento daquele time húngaro era tão fora do comum quanto seu elenco. Vejamos. Puskas e Bozsik eram vizinhos, no mesmo edifício em Budapeste; um era o melhor amigo do outro e jogavam juntos desde as peladas de rua de infância. Czibor, Kocsis e o ponta- -direita Budai eram amigos desde a adolescência e treinaram juntos por anos antes de explodirem para o sucesso internacional. Além disso, nove dos onze titulares da “Seleção de Ouro” jogavam juntos num mesmo time, o Honved. Finalmente, aquela seleção jogou quatro anos praticamente com a mesma escalação e comandada pelo mesmo técnico – Gustav Sebes. O resultado disso tudo pode ser visto nos comentários reproduzidos acima, que invariavelmente se referiam à Hungria com uma grande equipe, que trocava passes sem errar, mesmo se deslocando em alta velocidade, e com cada jogador parecendo sempre saber onde os outros estavam – daí, certamente, as referências à telepatia. Vou argumentar, no entanto, que a explicação para o sucesso da Hungria ainda não está completa. Atrevo-me a dizer que há uma terceira razão, tão importante quanto as anteriores, e que é uma razão histórica. A meu ver, uma das razões da superioridade fabulosa da “Seleção de Ouro” foi o seu ineditismo. Os elementos que formavam seu estilo foram se desenvolvendo aos poucos, e em um dado momento ela havia atingido, de forma quase despercebida, um novo patamar de evolução do futebol. Numa época em que a mídia era muito menos efetiva que hoje, as demais seleções demoraram um longo tempo até conseguirem elevar seu jogo em resposta à revolução que os húngaros haviam lançado. Senão vejamos. Quais foram as grandes novidades táticas introduzidas pelos húngaros? Pode-se mencionar a intensa movimentação do time todo; jogadores de ataque em contínuo deslocamento, com frequente rodízio de posições; um meio-campo (Bozsik) que tanto roubava bem a bola como armava o ataque com rapidez; um lateral (Lantos) que ia ao ataque com frequência; um zagueiro (Lorant) que reforçava o ataque como elemento surpresa. Parece algo muito diferente? Não, não parece. Hoje, todas essas coisas nos parecem bem familiares. Só que os húngaros faziam tudo isso nos anos 1950. E naquela época, sim, tudo isso era muito diferente do que se via nos campos de futebol. Mas aquela era uma época pré-internet e quando mesmo a transmissão de eventos esportivos pela televisão apenas engatinhava. Os jogadores ingleses foram unânimes em afirmar que os deslocamentos dos húngaros os pegaram completamente de surpresa. Hoje isso seria inconcebível. Antes dos jogos, o técnico de qualquer seleção de ponta teria assistido aos jogos da Hungria e os jogadores estariam fartamente instruídos sobre a movimentação que Hidegkuti, Kocsis, Puskas e Czibor faziam. Mas do jeito que as coisas eram na década de 1950, os húngaros conseguiram montar todos os elementos de sua fabulosa receita sem chamar muito a atenção, jogando atrás da “cortina de ferro” na Europa Oriental, longe dos maiores centros futebolísticos. Quando o mundo percebeu, ali estava, pronto, um novo e maravilhoso futebol, o qual – como bem exprimiu Syd Owen – parecia mesmo vir de outro planeta, de tão superior que era a tudo que se conhecia até então. A esta altura seria interessante nos perguntarmos: será que isso poderia acontecer de novo? O meu palpite é que não, por três razões3. Primeiro, como vimos, quase todas as novidades táticas da Seleção Húngara de 1954 são hoje lugares-comuns; qualquer bom time faz essas coisas, ou pelo menos parte delas. Segundo, ao contrário do que ocorria na década de 1950, no mundo hiperconectado de hoje é difícil imaginar que qualquer revolução tática pudesse pegar técnicos e jogadores adversários despreparados por vários anos. Terceiro, 3 Alguns podem alegar que já aconteceu depois, com a Holanda de Cruyff, em 1974. No en- tanto, por um lado a Holanda nunca gozou da mesma margem de superioridade que a Hun- gria tivera nos anos 1950, nem pelo mesmo tempo; por outro lado pode-se argumentar que as mudanças táticas trazidas pelo “carrossel holandês”, com intensa movimentação, trocas de posições e jogadores exercendo várias funções, já haviam em grande parte sido antecipadas pela própria Seleção Húngara. Vera Riscado anteriormente, Vera Riscado como 172 173 graças aos avanços da tática e da preparação física, a movimentação dos times atuais é muito mais intensa, com mais marcação e ocupação de espaços, de modo que a evolução dos sistemas táticos certamente daria menos oportunidades para o jogo ofensivo dos húngaros. Todas as seleções de bom nível jogam atualmente um futebol sólido, mesmo que sem brilho, que é difícil de derrotar por largas margens de gols. Por isso acredito que a superioridade esmagadora de uma seleção sobre todas as outras, nos moldes do que os húngaros tiveram entre 1950 e 1954, é um padrão que jamais se repetirá. Ou será que o leitor acredita que daqui a alguns anos vá surgir do nada um time que vá enfiar oito gols na Alemanha, seis e depois sete na Inglaterra, seis na Suécia e quatro no Brasil? A explosão cambriana A esta altura você pode estar inquieto e achando que eu estou há tempo demais falando sobre futebol. Não sei se isso serve de consolo, mas podia ser pior: podia ser de beisebol. E já chegamos na biologia, mais precisamente num evento extraordinário acontecido há 500 milhões de anos e, se isso é possível, ainda mais espetacular que a Seleção Húngara de 1954: a explosão cambriana. A diversidade biológica, assim como a extinção, parece não ter surgido gradativamente, mas sim em “pulsos”, com grande quantidade de novas formas aparecendo em eventos relativamente rápidos. O maior desses eventos, e talvez o mais espetacular evento da história da vida, foi a explosão cambriana. Toda a vida conhecida antes do período Cambriano era constituída por organismos unicelulares simples, como as bactérias atuais e seus aparentados. No Cambriano, então, que começou há 570 milhões de anos, ocorreu uma imensa revolução: o aparecimento dos organismos multicelulares, não timidamente, mas já em espetacular diversidade. Esses animais estão representados pela fauna do folhelho Burgess, da qual falamos no capítulo anterior. Assim como a Seleção Húngara, a fauna de Burgess era tão diferente de tudo o que havia antes que parecia ter vindo de outro planeta. Como vimos, o desaparecimento lotérico de alguns de seus membros, e não de outros, contingenciou todos os caminhos futuros da evolução. Aqui, porém, não estou mais preocupado em discutir seu desaparecimento, mas sim o “repentino” aparecimento desta espetacular diversidade de formas. Todos os filos modernos de animais, ou pelo menos todos os mais bem representados no registro fóssil, já foram detectados dentro da duração do Cambriano, em Burgess ou em outras faunas do período. Em certo sentido pode-se dizer que surgiram repentinamente, embora talvez seja conveniente esclarecer que “repentinamente”, aqui, se refere à escala de tempo geológica, ou seja, seu aparecimento parece ter se dado ao longo de um período de alguns milhões de anos – um tempo pequeno se comparado às centenas de milhõesde anos desde então, mas gigantesco em termos absolutos. Nas centenas de milhões de anos seguintes, os filos sobreviventes passaram por uma imensa diversificação: novas espécies deram origem a novas linhagens evolutivas que foram reconhecidas como novas famílias, novas ordens, até novas classes. No entanto, nenhum novo grande padrão estrutural, nenhuma forma radicalmente nova de organização, considerada merecedora do status de filo novo, surgiu no reino animal nos 500 milhões de anos que separam o Cambriano do momento atual. Chegamos, então, à grande questão: por que nenhum filo novo se originou desde o Cambriano até agora? Inovação e sistemas jovens Pode-se argumentar, e esse é o nosso ponto central, que isso pode ser consequência de algumas propriedades bastante gerais da Vera Realce [Confirmar se será mesmo capítulo.] 174 175 evolução de sistemas, discutidas por Stephen Jay Gould em Full Hand 4. Vamos supor que o sistema do qual estamos falando tenha as seguintes características: variação entre elementos, competição entre tais elementos e o sistema mudando ao longo do tempo em consequência dos resultados desta competição. Não é necessário que a competição seja o único processo de interação entre os elementos do sistema em questão; basta que seja um processo importante. É bastante claro que a evolução filética da vida (ou seja, a origem, florescimento e eventual extinção das grandes categorias taxonômicas) pode ser vista como um sistema assim. O ponto crucial que quero argumentar é que uma característica de sistemas jovens é a sua extrema diversidade de formas e soluções, quando comparados com sistemas mais maduros. Enquanto a melhor opção para solucionar cada problema não é alcançada, várias soluções muito distintas coexistem. Com o tempo, as melhores soluções vão se universalizando e a diversidade de grandes padrões estruturais tende a diminuir. Naturalmente, a evolução continua ocorrendo em sistemas maduros, mas ela aos poucos vai assumindo a forma não de aparecimento de novos temas, mas de desenvolvimento de variações sobre os temas mais bem-sucedidos, que já se tornaram a norma. Por exemplo, há mais de um milhão de espécies de artrópodos, muitas apenas sutilmente distintas umas das outras, mas nenhuma inovação tão grande quanto o eficiente tipo de organização estrutural que conhecemos como filo Arthropoda surgiu desde o Cambriano. A eficiência das soluções alcançadas pela vida para os mais diversos problemas é lindamente ilustrada pelos casos em que uma mesma boa solução é alcançada de forma independente em linhagens evolutivamente muito distintas – o fenômeno que chamamos de convergência evolutiva. Por exemplo, asas foram desenvolvidas pelas aves, pelos morcegos, pelos peixes-voadores 4 Lançado no Brasil com um título esdrúxulo, Jogo de Dados, que passa uma ideia de aleato- riedade do processo evolutivo, representando de forma muito errônea o conteúdo do livro. e provavelmente mais de dez vezes independentemente apenas dentro dos insetos. Línguas longas e pegajosas para capturar insetos sociais foram desenvolvidas independentemente pelo menos três vezes dentro dos mamíferos: pelos tamanduás das Américas (ordem Xenarthra), pelos aardvarks da África (ordem Tubulidentata) e pelos pangolins da Ásia (ordem Pholidota). Num dos exemplos preferidos de Gould, o panda-gigante, os polegares opositores que haviam sido perdidos pelos seus ancestrais (do panda, não de Gould) reaparecem sob a forma de um sexto dedo muscular na pata dianteira. Parece razoável concluir que essas soluções aparecem tão repetidamente porque são soluções muito eficazes para um mesmo problema enfrentado pelas várias linhagens nas quais cada uma dessas adaptações é selecionada. Esses exemplos – mais os pulmões, a hemoglobina, os esqueletos, a endotermia, os olhos complexos, e assim por diante – mostram o quanto a vida está agora mais próxima de soluções ótimas para os mais variados problemas, em relação à vida estranha, ainda que maravilhosa, do Cambriano. Um esclarecimento é importante neste ponto. Estar mais próximo de soluções ótimas não quer dizer que todas essas coisas não possam ser ainda melhoradas. É claro que podem, e se nossa espécie der tempo e oportunidade à evolução, provavelmente serão. No entanto, alvéolos pulmonares para aumentar a área disponível para trocas gasosas e asas para aumentar a superfície de sustentação funcionam bem por causa de princípios físicos e geométricos que tornam adequadas tais soluções. É difícil conceber soluções radicalmente diferentes que sejam melhores dentro das leis físicas – as quais, ao contrário das leis humanas, nunca são desobedecidas. É mais fácil imaginar que a vida do futuro terá asas melhores como solução para o voo – além de balões mais eficientes para as aranhas, pólen mais leve e com maior superfície relativa para plantas, e por aí vai, ou seja, um aperfeiçoamento maior de outras soluções que também já existem. Vera Riscado dessa 176 177 O importante a notar é que, num sistema jovem, uma novidade que apareça vai competir com outros elementos que também estão ainda muito longe do ótimo. Mesmo que uma novidade dessas ainda estivesse muito longe de uma eficiência ideal no que diz respeito às leis físicas, em um mundo não saturado de soluções otimizadas seria possível que vários elementos, cada um com suas próprias inovações de alguma forma funcionais, tenham podido se estabelecer. No caso dos sistemas biológicos, cada um desses elementos iniciais daria origem a uma linhagem com características distintas o suficiente para eventualmente ser reconhecida como um filo. Compare agora isso com a situação de um sistema maduro. Os organismos que vivem agora são como as pontas de longos galhos da árvore da vida: representam, cada um, o momento atual de uma longuíssima história de acumulação de adaptações bem-sucedidas em sua linhagem. Todos eles têm designs que já são eficientes, com partes que funcionam em harmonia umas com as outras – senão eles simplesmente não existiriam mais, em função das demandas impostas pelo meio – inclusive o biótico – no qual estão inseridos. A eficiência, portanto, tende a ser nivelada por cima. Uma novidade tão grande que merecesse o status de um filo implicaria um “mergulho no vazio”, uma reorganização drástica para algo novo que teria a necessidade de já começar muito eficaz para poder sobreviver num mundo povoado por outros seres já eficazes. Não acredito que Halucigenia fosse durar muito no mundo de hoje, num mar povoado por caranguejos, polvos e peixes modernos. Além disso, a nova forma eficaz teria que ser alcançada sem comprometer a harmonia entre as partes alcançada ao longo de centenas de milhões de anos de evolução. É claro que isso não é impossível, em absoluto, mas é bastante improvável. É mais provável o sucesso de pequenas variações das soluções consagradas. Isso poderia explicar por que as origens de filos foram menos frequentes, se é que existiram, depois do Cambriano. Indo mais adiante, é fácil imaginar que a grande variação entre os elementos existentes em um sistema jovem possa gerar uma grande variação entre seus sucessos. Dependendo de suas características, a novidade pode vir a ter uma imensa vantagem sobre os demais elementos. Suspeito que isso aconteceu algum dia com os artrópodos, com suas patas articuladas e exoesqueletos, em relação aos planos corporais bizarros de Burgess que desapareceram. Um raciocínio análogo, então, poderia responder à questão formulada acima – o porquê da imensa superioridade da Seleção Húngara sobre as demais no início dos anos 1950. Nesse caso, pelo menos, as derrotas esmagadoras em Wembley e em Budapeste não trouxeram risco algum de extinguir a Seleção Inglesa de futebol (não sei se acho isso bom ou ruim). Num sistema maduro, por outro lado, as eficiências tendem, então, a ser maiores e mais similares, ou seja, a ser niveladas pelo alto. Num sistema assim, é muito maisdifícil que possam surgir novidades verdadeiramente radicais: nem novos filos, nem reinvenções do futebol. Até que ponto esse é um princípio geral? Chegamos assim a uma surpreendente constatação. O porquê da ausência do surgimento de novos filos desde o Cambriano e o porquê da ausência de um time que se destaque da forma que a Hungria se destacava podem ser perguntas completamente díspares mas com a mesma resposta. Ambos os padrões seriam decorrentes de propriedades gerais de sistemas maduros, como seriam a vida moderna por um lado e o futebol atual por outro. Isso se aplicaria, como vimos, à evolução de sistemas que tenham variação entre seus elementos e competição entre tais elementos afetando as suas características futuras. É possível que ao se mencionar um sistema como esse a evolução biológica salte imediatamente à imaginação, mas acredito que Vera Riscado outras, senão [trocar o traço por vírgula] Vera Riscado anteriormente formulada 178 sistemas que compartilhem tais atributos são uma situação muito mais geral que isso. Por exemplo, tecnologias humanas também parecem ter, pelo menos em muitos casos, uma diversidade maior quando jovens, seguida por uma convergência para umas poucas soluções bem-sucedidas em sistemas mais maduros. Pense na aviação: os primeiros aviões apresentavam uma espantosa variação de soluções, incluindo uma, duas, três ou mais asas, motores virados para frente ou para trás, controle por ailerons ou por envergamento de asas, e por aí vai. Hoje em dia os aviões comerciais, assim como os aviões de caça, são todos muito parecidos uns com os outros, dentro da mesma receita de sucesso. Pense nos carros: os de um século atrás eram uma coleção heterogênea de máquinas bizarras, mas hoje quase todos os carros de rua parecem seguir a mesma fórmula de sucesso, e os carros de corrida – uma arena ainda mais competitiva – são tão parecidos uns com os outros que só conseguimos distingui-los pela pintura. Até que ponto esse é um princípio geral de evolução de sistemas é, sem dúvida, uma avenida para fascinante especulação, mas que não será seguida aqui. De qualquer forma, pelo menos para sistemas com as características mencionadas, a inovação absoluta, o inesperado, o surpreendente parecem ser características de sistemas jovens, que tendem a escassear em sistemas mais maduros. É muito improvável que durante nossas breves passagens por este planeta vejamos algum time que pareça ter criado um novo futebol como a Hungria de 1954, ou o surgimento de uma espécie tão fantasticamente diferente de tudo o que conhecemos a ponto de merecer ser colocada num novo filo. É uma pena: qualquer uma das duas coisas seria algo maravilhoso de se ver. FILOSÓFICAS 181 NÓS E ELES: DARWIN E A CONSERVAÇÃO Cento e cinquenta e sete anos sem Darwin já são mais que o bastante. Deixe-me começar confessando um erro. No meu primeiro livro, O Poema Imperfeito, mencionei uma das frases mais desconcertantes que já li em toda minha vida, escrita em 1959, quando se comemoravam no mundo inteiro os cem anos de publicação de A Origem das Espécies: “a hundred years without Darwin are enough” (“cem anos sem Darwin já são o bastante”). Eu atribuí erradamente essa frase a G. G. Simpson, mas depois descobri que na verdade ela foi dita pelo geneticista Herman Muller. Desculpe meu erro, mas é claro que ele não diminui nem um pouco minha admiração pela frase em si. Hoje, várias décadas depois, podemos constatar, com tristeza, que ainda é preciso atualizar a frase de Muller – que continua tão válida quanto era quando foi escrita. Pobre Darwin. Suas ideias são imensamente preciosas para entender o mundo em que vivemos, para entender o que nós mesmos somos, e para a conservação. Mas pouca gente entende o que ele disse, e ele é criticado até hoje pelo que não disse. O mundo natural que ele tanto amava vem sendo destruído numa escala inédita, em grande parte devido à nossa recusa a engolir a revolucionária visão de mundo que ele nos mostrou. Vera Realce [passar esse A para a linha de baixo.] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 182 183 Não se pode negar que nos últimos anos muito se tem feito para divulgar melhor a evolução para o público em geral. Por exemplo, em 2009 – o ano dos 150 anos da publicação de A Origem… e coincidentemente também dos 200 anos do nascimento de Darwin – aqui no Brasil, entre outros eventos, foi lançado o ótimo livro Charles Darwin – em um futuro não tão distante, escrito por pesquisadores brasileiros e organizado por Maria Isabel Landim e Cristiano Moreira, que é uma excelente exposição das consequências, para vários campos de conhecimento, da revolução darwiniana. No entanto, o poder da desinformação ainda é muito grande. Nas águas do mal-entendido Só como um exemplo, o jornal O Globo publicou há algum tempo, em um de seus espaços mais nobres, uma coluna do jornalista Luiz Paulo Horta, intitulada “Nas águas de Darwin”. O autor, para seu crédito, reconhece que “existem processos evolutivos na natureza, está comprovado, e mudou a nossa compreensão do mundo físico”. No entanto, logo depois ele segue dizendo que duvida da evolução como explicação para as maravilhas da natureza, porque, para ele, a explicação evolutiva é que elas seriam produtos do acaso!!! Como argumenta o autor: “na minha modesta cachola, se fosse tudo produto do acaso, não teríamos diante dos olhos a sinfonia magnífica que aparece no ‘Planet Earth’, onde tudo é beleza e equilíbrio. Teríamos linhas de evolução que deram certo e outras que não deram. À nossa frente, desfilariam espécies bem-acabadas (difícil) e outras que trariam a marca dos azares da evolução – coisas meio informes, desproporcionadas. Não é o que acontece: o que se vê, na linha de produção da natureza, é uma perfeição de dar vertigem. Pense no milagre que é uma orquídea, uma garça, uma águia. Basta sair da cidade, entrar um pouco no campo, e a ordem da natureza nos submerge – se você tiver olhos para ver. Observe as formigas, na sua fantástica organização social. (…) Pense em cada pequena parte do corpo humano – no olho, no coração, no jogo do sexo, que é físico, químico, afetivo. Tudo fruto do acaso? Acho que quem pensa assim é mais crédulo do que a mais enrugada beata de São João da Boa morte”. Também acho! Mas a questão é: nenhum evolucionista, nem ninguém que entenda um mínimo do que Darwin disse, pensa assim. Nenhum evolucionista, muito menos Darwin, disse que a evolução é ao acaso. Seleção natural Muito resumidamente, o mecanismo proposto por Darwin para a evolução é um processo em duas etapas, do qual apenas a primeira – a produção da variabilidade genética, que hoje se sabe que ocorre por recombinação e por mutação – é fundamentalmente ao acaso. A segunda etapa é a seleção natural propriamente dita, ou seja, os indivíduos portadores dos genes que codificam as características mais bem-adaptadas ao ambiente deixam mais descendentes nas gerações futuras, e assim os genes com essas tais características vão se tornando cada vez mais comuns na população. A seleção, claro, não é ao acaso. Os genes mais representados nas gerações seguintes não são sorteados: são exatamente os mais adaptados às características do ambiente naquele tempo e lugar. Apenas a produção da “matéria-prima” (a variabilidade) para a seleção natural é ao acaso, mas o processo em si obviamente não é. A seleção natural é análoga à seleção artificial, que o homem faz há milhares de anos, promovendo ativamente a reprodução de linhagens de animais e plantas que têm as características que lhe interessam. Todas as plantas cultivadas e todos os animais Vera Riscado Morte [cx.alta e baixa] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 184 185 domésticos foram imensamente modificados dessa forma. Darwin percebeu isso e gastou anos estudando cuidadosamente como os criadores de pombos da Inglaterra produziam,aos poucos, linhagens muito diferentes dos tipos originais. Darwin não era nada bobo. A seleção natural é exatamente a mesma coisa que a seleção artificial, só que no lugar do criador humano está o ambiente. Isso sim, acumulado ao longo de milhares de gerações, produz a admirável adaptação – perfeição não, é fácil demonstrar que os seres vivos não são perfeitos – que o jornalista não conseguiu explicar na natureza. Achando que era ao acaso ele não iria mesmo conseguir explicar nunca. Por outro lado, a origem de padrões complexos da natureza, como o comportamento das formigas, o olho e o coração, é perfeitamente explicada pela ação não aleatória da seleção natural, conservando as variações bem- -sucedidas ao longo de grandes intervalos de tempo. Uma boa exposição sobre a origem das estruturas complexas por seleção natural pode ser lida no brilhante capítulo de Mário de Pinna, no livro Charles Darwin – em um futuro não tão distante, já citado. Quanto à estranha ideia de que a evolução prediria que coexistiam espécies “bem-acabadas” e “informes, desproporcionadas”, o Luiz Paulo Horta obviamente não entendeu que a seleção natural ocorre entre indivíduos de uma mesma espécie, e não entre espécies. Por que a evolução é tão mal entendida? Infelizmente, o jornalista está longe de estar sozinho. O Herman Muller ficaria desapontado; ainda hoje, infelizmente, pouca gente entende essa que é, sem dúvida, uma das ideias mais importantes da ciência. Nesse ponto, então, é interessante nos perguntarmos por que a seleção natural, e a evolução como um todo, são tão mal entendidas. Em comparação com outras grandes ideias científicas, como a mecânica newtoniana, a estrutura atômica e a relatividade, pode-se argumentar que a seleção natural, embora não seja óbvia, é talvez a mais simples de todas elas. Uma grande parte do problema é que há poderosas barreiras culturais contra a ideia da evolução. Um exemplo são os que acham que a seleção natural diz que os mais fortes sobrevivem, que é uma “luta pela vida”, e que por isso seria uma ideia daninha que justificaria uma competição feroz na sociedade humana. Aqui são três mal- -entendidos numa frase só. Primeiro, os genes que são selecionados são aqueles que passam mais cópias de si para as gerações seguintes, e isso depende fundamentalmente da reprodução, não apenas da sobrevivência. Você pode ser mais forte que uma mistura do Rambo com o Schwarzenegger, mas se não se reproduzir sua adaptação evolutiva será zero. Segundo, imagine a seleção natural agindo sobre os organismos participantes de relações mutualísticas – ou seja, de benefício mútuo – que são muitíssimo comuns na natureza, tanto ou mais quanto a competição. As características selecionadas são aquelas que fazem o maior bem possível à outra parte envolvida na associação. Cadê a tal “luta pela vida”? Terceiro, ainda que a seleção natural necessariamente significasse uma guerra feroz na natureza – o que não é o caso – nem por isso seria uma justificativa para uma sociedade humana cruel. A natureza é amoral, e a sociedade e a cultura não têm absolutamente nenhuma obrigação de copiar a natureza em seus valores éticos. Mas por que erigimos essas tais barreiras, se elas se baseiam em argumentos tão errôneos? Simples. Porque o que a evolução diz nos desagrada. A evolução nos diz que somos apenas mais uma espécie de animal. Um animal com um punhado de coisas peculiares – como qualquer outra espécie também tem as suas. Mas um animal com milhares de coisas em comum com os demais animais, no seu DNA, nas suas células, na sua fisiologia, nos seus ossos, no seu cérebro e nos seus instintos. A evolução nos mostrou que temos essas coisas porque compartilhamos um ancestral comum com os demais animais. Ou seja, porque somos parentes dos demais seres vivos. 186 187 Nós e eles A evolução, então, nos revelou nossa similaridade com o restante da natureza. Mas, ao longo de toda a história, tem sido mais conveniente para a nossa espécie negar essa similaridade. A civilização humana sempre se expandiu à custa da destruição da natureza. Fizemos desertos, caçamos incontáveis animais, extinguimos alguns milhares de espécies. E se triunfamos – no sentido de nos tornarmos extravagantemente numerosos e de expandirmos nossa civilização – não foi só graças à nossa inteligência, mas também graças à nossa coesão de grupo. Em relação à maioria dos outros animais, indivíduos de nossa espécie são capazes de trabalhar bem em equipe e coordenar esforços, o que nos deu uma vantagem evolutiva imensa. Mas a coesão de grupo sempre foi mantida por meio de instintos que nos dizem quem faz parte do grupo e quem não faz. Essa, inclusive, é a maneira que encontramos de lidar com os sentimentos de compaixão e culpa (que alguns outros animais também têm): esses sentimentos estão reservados a outros membros do nosso grupo, mas não aos de fora do grupo. Ao longo da jornada da humanidade, aplicamos esses mecanismos de reconhecimento – ou de distanciamento, como preferir – às nossas relações com outras espécies e também com outros grupos dentro da nossa própria espécie. Isso, como brilhantemente apontado pelo Pink Floyd na maravilhosa letra de Us and Them (“Nós e eles”), está na raiz de todos os conflitos humanos: Us and them / And after all we are only ordinary men (“Nós e eles / E afinal de contas nós somos todos apenas homens comuns”). A partir do momento em que distinguimos nós e eles, “os outros”, o caminho está aberto para negar direitos aos “outros”, para maltratar os “outros” de todas as formas “necessárias”. Esse é o mecanismo mental pelo qual desligamos nossa compaixão pelos outros – sejam eles de outra raça, religião, país ou grupo social – e nos permitimos fazer mal àqueles que identificamos como diferentes de “nós”. Essa é, sem dúvida, uma das razões pelas quais a evolução incomoda. Ela evidencia nosso parentesco com o restante da natureza, enfatiza nossa similaridade. Por milhares de anos a nossa cultura tem criado mecanismos, especialmente alguns convenientes dogmas religiosos, para fazer exatamente o contrário: reforçar nossa coesão de grupo e enfatizar nossa diferença para o restante da natureza. Homem e bichos. Ser com alma e seres sem alma. Nós e eles, o tempo todo nós e eles. Essa visão de mundo obsoleta usou nossos mecanismos psicológicos de pertencimento grupal e tribalismo para nos insensibilizar de todo o sofrimento que causamos aos outros seres vivos. Hoje, graças a Darwin e aos que vieram depois dele, sabemos que somos animais também, animais peculiares, fascinantes, arrogantes e perdidos. Agora nos vemos diante de uma imensa crise ambiental, de proporções planetárias, que ameaça nosso próprio modo de vida. Dependemos dos processos ecológicos que envolvem os demais seres vivos. Precisamos dos “outros”, que são, e sempre foram, nossos próprios parentes. Está mais que na hora de nos livrarmos de nossos tolos e obsoletos preconceitos em relação à evolução e ouvir o que ela tem a nos dizer. Está mais que na hora de aprendermos a enfatizar nossas similaridades, e não nossas diferenças, em relação aos demais seres vivos. Mais de cento e cinquenta anos sem Darwin já foram mesmo tempo demais. Vera Realce them [cx.baixa] 188 189 POR QUE CONSERVAR A NATUREZA, AFINAL? Até hoje, a meu ver, o cinema só produziu uma obra-prima sobre conservação da natureza. Acho que o único filme que vi que merece esse título é um dos mais despretensiosos, mas ao mesmo tempo um dos mais puros e sinceros: Dersu Uzala. Dersu Uzala é um dos filmes menos conhecidos do grande cineasta japonês Akira Kurosawa, falecido em 1998. Baseado em um livro do mesmo nome, do explorador russo Vladimir Arseniev, publicado originalmente em 1923, o filme foi lançado nos cinemas em 1975, fez bastante sucesso e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro no ano seguinte. Mas depois disso pouca gente ouviu falar dele. Trata-se da história da amizade entrenunca tenha sido dita por ele em nenhum de seus sessenta livros) Ciência muitas vezes se parece com uma boa história de detetive. Assim como Sherlock Holmes ou Hercule Poirot tentavam esclarecer crimes com aguda observação e o uso inteligente de pequenas pistas, o cientista faz a mesma coisa para tentar responder a perguntas. Em poucas ciências os mistérios podem ser tão difíceis de resolver, e as pistas tão sutis, como na paleontologia. Os eventos aconteceram há muito tempo; nenhum dos personagens está mais entre nós; das “vítimas” só restam uns poucos ossos e dentes encontrados às vezes nas rochas. Até o próprio Sherlock Holmes olharia com incredulidade se lhe dissessem que isso era tudo o que ele tinha para resolver um caso. No entanto, paleontólogos têm respondido a perguntas com uma imaginação e uma argúcia dignas dos melhores livros de Conan Doyle ou de Agatha Christie. Veja, por exemplo, um caso recente. O “detetive” chama-se Dan Fisher. A vítima foi uma espécie conhecida como mastodonte norte-americano (Mammut americanum), um elefante extinto que era um comedor de folhas (browser) e tinha tamanho similar ao de 26 27 um elefante africano atual. Segundo a “perícia técnica”, a morte aconteceu há não mais que uns 9.900 anos, ou seja, o fóssil mais recente conhecido dessa espécie na região dos Grandes Lagos tem essa datação, por um método conhecido por carbono 14. Mas o que extinguiu os mastodontes? Uma das primeiras coisas que qualquer detetive decente observaria é que a morte da vítima não foi um acontecimento isolado. Pelo contrário, a extinção dos mastodontes faz parte de um fenômeno muito maior, e de uma questão científica também muito maior, que é a das chamadas extinções do Quaternário. Você pode até não ter ouvido falar de “extinções do Quaternário”, mas com certeza já ouviu falar de muitas das espécies que nelas desapareceram. Algumas delas, claro, foram aqueles bichos de A era do gelo: mamutes, tigres-dentes-de-sabre, preguiças-gigantes. Além disso, desapareceram também (entre muitos outros) várias outras espécies de elefantes (incluindo, claro, a vítima da nossa história); os rinocerontes lanudos na Europa; os gliptodontes (similares a tatus, mas com uma carapaça rígida) na América do Sul; marsupiais gigantes de mais de duas toneladas e “leões” marsupiais (Thylacoleo carnifex) na Austrália; os gigantescos moas de três metros de altura na Nova Zelândia; e a ainda mais gigantesca ave-elefante de meia tonelada em Madagascar. Todas essas maravilhas, em seu conjunto, formavam uma diversidade biológica infinitamente mais rica que os remanescentes que conhecemos hoje. Nessas extinções, que começaram no final da penúltima época geológica (o Pleistoceno) e vão até bem dentro da época atual (o Holoceno, que começou há uns dez mil anos – os dois juntos formam o Quaternário), o planeta perdeu por volta de uns dois terços da sua megafauna, ou seja, dos animais de peso corporal maior que 50 quilos. Esses animais se extinguiram em épocas diferentes, entre uns cinquenta mil e uns quinhentos anos atrás, em lugares diferentes do mundo, logo depois que o homem, em sua expansão pelo planeta, chegou a cada lugar. Dois suspeitos principais Se olharmos o padrão do mundo como um todo, as mudanças climáticas falham miseravelmente como explicação do que aconteceu. Em vários lugares as extinções ocorreram muitos milhares de anos antes (Austrália) ou depois (Caribe, Madagascar, Nova Zelândia) da última glaciação (que aconteceu entre uns 23 mil e uns 11.500 anos atrás). Além disso, houve pelo menos 31 outras glaciações anteriores durante o Pleistoceno, muitas delas tão ou mais fortes quanto a última, sem que tivesse havido extinções associadas a elas. As extinções nas ilhas, muito mais recentes, não têm nenhuma relação com as glaciações, mas se seguem à chegada do homem a cada uma delas. Várias outras linhas de evidência nos mostram, a meu ver com muita clareza, que foram nossos antepassados, principalmente por meio de caça, que nos privaram de conhecer essa imensa coleção de maravilhas. Não é meu objetivo aqui discutir em detalhe as extinções do Quaternário, que são descritas no meu livro anterior, O Poema Imperfeito. De qualquer forma, nos últimos anos cada vez mais estudos, de autores como Richard Gillespie, Paul Koch, Anthony Barnosky, Chris Johnson, Tim Flannery, Todd Surovell, Chis Sandom, meu estudante Bernardo Araujo e eu mesmo (ver bibliografia), têm apontado que a hipótese de que o homem foi o principal ou o único causador dessas extinções é a que melhor explica o que aconteceu. Apesar disso, ainda há quem defenda que essas extinções foram causadas por mudanças climáticas – e portanto, claro, não tiveram nada a ver conosco. A ideia engenhosa de Dan Fisher Nessa altura aparece na nossa história Daniel Fisher, um paleontólogo barbudo, meio careca, de óculos redondos e um Vera Riscado Chris 28 29 ar bem-humorado, da Universidade de Michigan. Dan Fisher é considerado o maior especialista do mundo em presas de elefantes fósseis (bem… não deve haver muitos por aí). Volta e meia, quando acham um novo filhote de mamute congelado na Sibéria, é ele que aparece no Discovery Channel examinando as presas do bicho e vendo o que pode ser aprendido por meio delas. Em um trabalho publicado em 2009, num livro editado pelo paleontólogo Gary Haynes, Fisher pensou numa maneira brilhantemente engenhosa de responder se os mastodontes da região dos Grandes Lagos tinham sido extintos por mudança climática ou por caça. Se a hipótese de mudança climática estivesse correta, a sua predição seria de que os mastodontes tivessem morrido de barriga vazia. Ou seja, eles deveriam ter vivido em situações de extremo estresse ambiental, sem conseguir achar alimento no novo ambiente coberto de gelo, e morrido, de modo geral, debilitados, em condições corporais precárias. Por outro lado, se a hipótese de caça estivesse correta, a sua predição seria de que os mastodontes tivessem morrido de barriga cheia. Afinal, neste caso não haveria nenhuma razão a priori para supor que estivessem submetidos a estresse ambiental ou que estivessem debilitados. Em outras palavras, as condições corporais dos mastodontes do final do Pleistoceno poderiam fornecer uma evidência sobre a causa do seu desaparecimento. Mas como seria possível saber isso? Dan Fisher percebeu nas presas uma fascinante possibilidade. Conforme ele escreveu, referindo-se a elefantes em geral, “nenhum outro animal fornece uma estrutura parecida com uma presa, capaz de registrar virtualmente sua vida inteira”. Uma presa nada mais é que um dente incisivo superior modificado evolutivamente para outras funções. Presas têm crescimento contínuo, ou seja, são formadas por camadas de dentina que se depositam umas sobre as outras ao longo da vida. A relação entre o comprimento e o diâmetro da presa permite dizer, com pouca chance de erro, o sexo do animal. Os padrões de deposição das camadas sucessivas de dentina permitem estimar sua idade, assim como o intervalo de tempo entre diferentes eventos na sua vida. Além disso – um ponto crucial –, como a gestação de um filhote exige da mãe um imenso investimento energético e de nutrientes, a gravidez das fêmeas é revelada por períodos nos quais o comprimento da presa cresce mais devagar e o espessamento da dentina é mais lento. Em elefantes atuais, é bem conhecido que, sob condições de estresse ambiental, as fêmeas, mal alimentadas, maturam sexualmente mais tarde e têm filhotes com menos frequência. Fisher então analisou os intervalos entre gestações nos mastodontes, conforme revelados pelas presas, e os comparou com os de elefantes africanos atuais, que são similares em tamanho e duração da vida. O resultado? No finalzinho do Pleistoceno, bem na época da sua extinção, os mastodontes estavam tendo filhotes a cada três ou quatro anos, em média. Esses intervalos eram “equivalentes àqueles dos elefantes africanosduas pessoas muito diferentes: um cartógrafo russo, urbanoide, que no filme se chama Arseniev (porque o livro é narrado em primeira pessoa), e um caçador siberiano, que é o tal Dersu. Arseniev lidera uma expedição cartográfica à Sibéria, no início do século XX, e contrata Dersu como seu guia pelas vastidões geladas. Dersu Uzala é um filme lento, com pouca ação, que pode parecer impalatável para alguns cinéfilos acostumados ao ritmo vertiginoso das produções hollywoodianas. Mas vale a pena garimpar as sutilezas com carinho, porque sua paciência será bem recompensada: essa obra-prima tem várias cenas antológicas. Um dos pequenos tesouros é a cena da fogueira. Arseniev, Dersu e os soldados da expedição do primeiro estão em volta do fogo, à noite, comendo um animal recém-abatido. De repente, um soldado pega um grande naco de carne e o joga no fogo. Para surpresa geral, o idoso Dersu pula, coloca a mão nas chamas e tira a carne do fogo. O soldado fica perplexo e segue-se um diálogo mais ou menos assim: “‘Por que você fez isso? Você podia se queimar!’, ao que Dersu responde: ‘Por que você quer jogar essa carne no fogo? Outra gente vai chegar depois de nós e vai querer comer’. O soldado retruca: ‘Você está maluco? Nós estamos no meio da Sibéria! Não tem gente nenhuma aqui!’”. A história é passada em 1907, não se esqueça. Mas Dersu então diz, irritado: “A floresta tem muitas gentes”. Para Arseniev, assistindo à discussão à distância, enfim a ficha cai: sua sutil expressão desconcertada é inesquecível. Ele nem precisaria esperar Dersu completar: “Pode vir um rato, um texugo ou uma gralha… Por que você vai jogar a carne no fogo?”. O soldado ainda olha sem entender. A cena da fogueira de Dersu Uzala é inesquecível, entre outras coisas, pelo claro foco de Dersu em conservação, muito além do ambientalismo: pode ser que nenhuma gente de nossa espécie venha, mas nem por isso as outras espécies não merecem a sua consideração. Argumentos utilitários são suficientes? Por que conservar os animais e as plantas afinal? Pode ser apresentada uma série de razões para isso. Uma das mais ouvidas é que as espécies são fontes de produtos úteis para a humanidade. Em alguma espécie de planta pode estar a cura do câncer, outra poderá fornecer o princípio ativo de algum cosmético fabuloso, ou genes que podem – quem sabe? – ser transplantados para outra espécie com efeitos favoráveis. À primeira vista, esse argumento parece fazer bastante sentido. Porém, como bem apontado pelo grande ecólogo inglês John Lawton, ele é enganoso e pode até ser perigoso para a conservação. Nem todas as espécies são úteis. Para começo de conversa, a maioria das espécies animais é de besouros. Vera Riscado plantas, [vírgula] 190 191 Há imensa redundância em qualquer grande grupo animal ou vegetal, na bioquímica como em qualquer outra coisa. Muitas espécies são distinguíveis de suas parentes mais próximas por ínfimas sutilezas em suas colorações, suas genitálias ou mesmo seu comportamento, sutilezas essas que só um especialista com anos de treino é capaz de perceber. A maioria delas, se desaparecessem, não estariam nos privando de qualquer substância valiosa que não possa também ser encontrada em tantas outras espécies similares. Provavelmente, embora muitas espécies sejam ou possam ser diretamente úteis ao homem, a maior parte não é. Isso também pode ser dito das utilidades mais óbvias das espécies, na agricultura e na pecuária: as espécies adequadas para exploração agropecuária são uma ínfima proporção das espécies existentes. O maior problema com esse padrão é que os inimigos da conservação podem facilmente apontar isso e contra-argumentar que, se for só pela utilidade, a maioria das espécies não precisa ser protegida. Não podemos, portanto, depender desse tipo de argumento. É verdade que o argumento da utilidade das espécies tem uma versão aperfeiçoada que diz que algumas espécies são úteis afinal – não sabemos quais são e, na dúvida, é melhor conservarmos todas elas, ou pelo menos quantas pudermos. Colocado dessa forma, é um argumento bem mais respeitável, mais difícil de rebater e, portanto, mais efetivo. Mesmo assim, não me parece que seja suficiente. Afinal de contas, redundâncias continuam existindo na natureza, e as ciências biológicas têm deixado cada vez mais claro onde elas estão. Sendo assim, depender do argumento de que temos que conservar todas as espécies porque não sabemos quais são úteis no fundo é apostar contra o progresso da ciência e do conhecimento. Longe de mim fazer essa aposta! Há, porém, algo que me desagrada mais fundo nas abordagens utilitaristas, mesmo nessa forma mais aperfeiçoada. Esse algo foi expresso com brilhantismo pelo próprio Lawton: “O argumento de que precisamos conservar espécies porque elas podem ser úteis é um argumento ao qual falta alma. É sensato, é verdadeiro, mas não tem espírito, não tem dimensão humana. É o argumento dos tecnocratas…”. Cortei pelo meio a citação, desculpe, mas vou me redimir mais adiante. Então, pode ser até que argumentos estreitamente utilitários sejam úteis, em determinados fóruns, para convencer os tecnocratas. Mas não me considero um tecnocrata, e, se você também não, precisamos continuar nossa procura, indo bem mais fundo, ou – quem sabe? – mais atrás no tempo. Um argumento mais efetivo, e um mais sincero Lembro-me bem de quando aprendi história. Era uma de minhas matérias favoritas na escola e não tenho vergonha de confessar que esperava ansiosamente pelas aulas – que eram muito boas. Mas não me lembro de ter ouvido falar, naquelas aulas, nem uma só vez, do efeito da degradação ambiental sobre a trajetória das civilizações humanas. A história, como era pesquisada e ensinada, era completamente cega a isso. Essa situação tem mudado nas últimas décadas, e talvez o maior marco dessa mudança até agora seja o maravilhoso e perturbador Colapso, de Jared Diamond, lançado em 2005. Se Diamond está certo – e seus argumentos são muito convincentes –, várias das grandes civilizações do passado entraram em decadência e eventualmente colapsaram por causa de sua incapacidade de manejar adequadamente seus recursos naturais, ou mais precisamente de manter os processos ecológicos que geravam tais recursos. Ou seja, a manutenção de processos naturais como qualidade da água, fertilidade do solo, proteção contra erosão, regulação climática, e por aí vai, são serviços cruciais que os sistemas ecológicos nos prestam. Todas as sociedades humanas dependem disso, e cuidar bem ou mal dos processos ecológicos tem sido um dos grandes determinantes de quais civilizações deram certo e quais não. Só isso, e tudo isso. Conservar a natureza por essa razão não heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 192 193 deixa de ser até certo ponto uma visão utilitária, mas a meu ver essa necessidade de conservar os processos ecológicos é um argumento infinitamente mais poderoso para a conservação da biodiversidade do que a mera utilidade de cada espécie como fonte de produtos. Nos últimos anos, com os efeitos cada vez mais óbvios das mudanças climáticas globais, destruindo os delicados mecanismos regulatórios dos processos ecológicos vitais para a biosfera, a sombra do passado se torna cada vez mais inquietante. No entanto, sejamos sinceros: esse argumento não explica por que muitos de nós fazemos conservação. Se você perguntar a um conservacionista porque ele defende os animais, é provável que a resposta seja algo como “porque eu gosto de bichos” (ou de plantas, conforme o caso). Eu me lembro de um debate no qual vi José Truda, do Projeto Baleia Franca, depois de tentar argumentar longamente por que era importante preservar as baleias, explodir dizendo “Quer saber duma coisa? Eu não tenho que justificar por que eu quero conservar baleias, eu quero conservar baleias por que eu gosto de baleias”. Esse é o argumento sincero, verdadeiro, que vem da alma. Pode,claro, ser um argumento bastante fraco se o virmos como uma idiossincrasia, como um capricho meramente individual. Mas não creio que seja o caso. Quero, em vez disso, argumentar que nós gostamos de animais porque somos um, e que pode estar aí a resposta que procuramos. Uma ideia profundamente revolucionária, proposta por Edward Wilson em 1994, é a da biofilia. A ideia central da biofilia é que gostar da natureza é um dos instintos fundamentais do ser humano. Em uma imensa variedade de outros animais, é comum o processo que os ecólogos chamam de “seleção de hábitat”. Os animais são encontrados nos hábitats favoráveis a eles porque têm instintos, evoluídos por seleção natural, para reconhecer tais hábitats, nos quais evoluíram. O homem é uma espécie biológica, cujo comportamento é influenciado pela cultura adquirida nos últimos poucos milhares de anos, mas também, estejamos habituados a pensar nisso ou não, por instintos evoluídos ao longo de milhões de anos. Por isso o homem tende a se sentir bem quando está em hábitats similares àqueles em que evoluiu – o que explica por que, independentemente da cultura, gostamos de ir para áreas naturais para nossa recreação. Um dos exemplos mais maravilhosos de Wilson é quando ele se pergunta que tipo de hábitat os paisagistas quase invariavelmente planejam, quando se dá a eles absoluta liberdade de criação. O resultado – frequentemente visto em parques urbanos, campi universitários, condomínios e resorts de luxo – é uma paisagem com vastos espaços abertos, com o solo coberto de gramíneas, intercalados com pequenos bosques aqui e ali. Segundo Wilson alega, o que os paisagistas estão inconscientemente fazendo é reconstruir uma savana – o hábitat onde nossa espécie evoluiu. Similarmente, nós tendemos a gostar de animais, e de modo geral mais intensamente de animais mais parecidos conosco. Isso aconteceria porque instintivamente reconhecemos – com toda razão, de um ponto de vista evolutivo – que são próximos de nós. Recuperando contato com nossa própria natureza Se Wilson está certo com a ideia da biofilia, ninguém precisa aprender a gostar de bichos: todos nós já nascemos gostando deles. Gostar dos bichos pelos bichos é muito mais que uma “estratégia” para a conservação da natureza: é uma parte de nós mesmos, que pode ser perdida ou não. Podemos, ao longo da educação, perder contato com a natureza – isso é cada vez mais fácil hoje em dia – e desaprender a gostar de bichos. Mas se conseguirmos evitar isso, então aceitar nossa própria natureza animal, inclusive a biofilia, que é parte importante dela, é um maravilhoso caminho tanto para o crescimento pessoal como para a mudança global. Não, Truda, você não tem que se justificar por gostar de baleias. Isso é parte da sua natureza, da minha e da de todos nós. As pessoas Vera Riscado por que [separados] Vera Riscado porque [sem espaço] Vera Realce [itálico] 194 195 têm vidas mais felizes quando respeitam suas próprias naturezas. Não deveríamos precisar de mais nenhum argumento. Completando a citação do Lawton, “…nós não conservamos concertos de Mozart, pinturas de Monet e catedrais medievais porque são úteis. Nós os conservamos porque são bonitos e enriquecem nossas vidas”. Assim é também para os animais e as plantas, com a vantagem de que quanto à natureza temos também outros argumentos, para os difíceis de sensibilizar. É que, com todo respeito (e admiração) que tenho por Mozart e Monet, nosso futuro depende mais dos processos ecológicos da biosfera do que deles. Não tenho ilusão alguma de que estejamos próximos de onde deveríamos estar. No nosso complexo mundo cultural, muitas outras fortíssimas influências, a começar por doutrinas religiosas que nos dizem que a natureza foi feita para nós, competem com a biofilia e nos levam a perder contato com nossas próprias naturezas. Hoje, a maioria das pessoas ainda está mais perto daquele soldado olhando pasmo para o Dersu do que do próprio Dersu. No mundo de hoje, enfrentar e resolver os problemas sociais, que causam tanto sofrimento humano à nossa volta, é, sem dúvida, fundamental. Acho que todo mundo concordaria com a proposição de que isso só vai dar certo se o fizermos a partir de uma genuína preocupação com as pessoas, com o direito de todos nós a uma vida digna e gratificante. Dito isso, como argumentei anteriormente, e como Diamond e as mudanças climáticas têm mostrado, conservar a natureza é essencial para o bem-estar e para a própria prosperidade das sociedades humanas. No entanto, o leitor pode já ter reparado que eu raramente uso a expressão “meio ambiente”. Não gosto muito dela. A razão pela qual não gosto é que, quando se fala em “meio ambiente”, está implícito que nos referimos ao ambiente (“meio ambiente” é pleonasmo) para a nossa própria espécie. Ou seja, o discurso de “meio ambiente” nos deixa presos ao argumento utilitário. Não gosto de depender disso. Para mim é claro que a mesma proposição que fiz antes para os problemas sociais também se aplica à conservação: num mundo de tantos interesses econômicos e sociais conflitantes, acredito que só seremos bem-sucedidos em conservar os animais e as plantas se o fizermos por eles mesmos, pelo direito que eles têm à vida. Não tenhamos uma visão estreita. Conservar a natureza é bom para a gente. Mas como Dersu já sabia, a floresta tem muitas gentes. 196 197 AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E O OUTRISMO De onde nem tempo nem espaço Que a força nos mande coragem Pra gente te dar carinho Durante toda a viagem Que realizas no nada Através do qual carregas O nome da tua carne Caetano Veloso, “Terra” Aqueles com quem contávamos nos falharam miseravelmente. Agora, mais que nunca, precisamos de toda a coragem que houver – coragem para vencer autoilusões cômodas e fazer, por nós mesmos, mudanças concretas. Estou falando da atuação dos políticos em Copenhague, na recente conferência mundial sobre o clima. Os líderes mundiais não perceberam a grandeza do momento histórico que se abria diante deles. A maioria só sabia negociar dentro de uma visão de mundo economicista, estreita e obsoleta. Protagonizaram, então, um frustrante jogo de empurra. Cada um queria que os outros países – sempre os outros – reduzissem ao máximo suas emissões de CO2, enquanto seus próprios países mantivessem o direito de poluir mais um pouco – ou mais um muito. Barack Obama, de quem muito se esperava, foi uma grande decepção. Os emergentes defenderam ferrenhamente o direito de continuar com um modelo de desenvolvimento excelente para o mundo do século XIX. Enquanto isso, os submergentes do Pacífico queriam apenas continuar acima do nível do mar. Não vamos ficar com meias palavras. Copenhague foi uma baita derrota. Uma imensa oportunidade perdida, e por isso uma derrota, não só para os ambientalistas, como também para toda a humanidade. Mas será que podemos pelo menos aprender alguma coisa com isso? O fiasco de Copenhague e a mudança climática global nos colocam diante de uma situação que não é nova, mas nunca foi tão óbvia como agora. Nunca antes na história da humanidade esteve tão evidente a questão dos prejuízos difusos para todos, que são gerados pela soma de bilhões de pequenas ações inconscientes e/ou egoístas de cada um de nós. Os prejuízos difusos estão aí, nos jornais, todos os dias. Os países insulares que desaparecerão sob as águas, como Tuvalu, que fez tanto barulho em Copenhague, são apenas a ponta do iceberg (o trocadilho foi acidental, eu juro). Vastas áreas se tornarão secas, haverá fome maciça, novas epidemias, milhões de desabrigados ambientais e por aí vai. Além disso, boa parte da biodiversidade do planeta deverá desaparecer. Assim como a própria mudança climática já está acontecendo, todas essas coisas também já estão. Assistimos todo dia a uma imensa série de catástrofes ambientais no mundo. Uma das conclusões de todos os modelos climáticos é que não só a temperatura média está subindo, comotambém a frequência de extremos climáticos – de calor, de frio, de chuva, de neve e de seca – também está aumentando. Catástrofes naturais sempre existiram, claro, mas nós as estamos tornando muito mais frequentes e intensas. Segundo um estudo de 2009 do Fórum Vera Riscado [Tirar "nos".] Vera Riscado em 2009, na Vera Riscado meias-palavras [com hífen] Vera Riscado ambientais, [vírgula] 198 199 Humanitário Global, entidade liderada pelo ex-secretário geral da ONU Kofi Annan, os efeitos das mudanças climáticas já matavam no mundo, por fome, doenças ou desastres “naturais”, cerca de trezentas e quinze mil pessoas por ano. Mas cada vez que morre mais alguém numa imensa enxurrada no Sudeste, ou até num furacão em Santa Catarina, nós preferimos pensar que não temos nada a ver com isso – é mais cômodo pensar assim. Mas temos. A cada vez que desperdiçamos combustível ou energia, ou consumimos irresponsavelmente, estamos fazendo a desordem climática global um pouco pior e, portanto, o mundo um pouco pior. O outrismo É sempre difícil lidar com prejuízos difusos – uma questão central para os problemas ambientais ou, mais ainda, a própria essência dos problemas ambientais. É difícil assumirmos responsabilidades por algo de que sejamos um bilionésimo da causa, mesmo (o que nem sempre é o caso) se reconhecermos que somos um bilionésimo da causa. Aí entra a questão do outrismo. O outrismo é o nome que eu dou a um modo de pensar bastante popular na questão ambiental, que pode ser resumido da seguinte forma: cada um acha que a culpa dos problemas ambientais é sempre dos outros, nunca de si mesmo. Copenhague nos deu vários ótimos exemplos de outrismo. De um lado, os Estados Unidos disseram que só limitarão a sério suas emissões se os grandes emergentes, como a China, também o fizerem – esquecendo que eles mesmos, os EUA, são historicamente os maiores de todos os poluidores. Do outro lado, alguns países ditos “em desenvolvimento” usam o passivo histórico dos países desenvolvidos, poluidores desde o século XIX, como argumento para não limitar suas próprias emissões – já também imensas, e no caso do desmatamento no Brasil, geradoras de pouco bem- -estar. Com isso querem se reservar o direito de continuar poluindo bastante no futuro. Será que os EUA ou a China têm um planeta de reserva guardado na manga? Espero que sim, mas não acredito muito nisso. O outrismo, porém, não acontece só no nível das decisões políticas. Ele ocorre também em nossas vidas cotidianas. Cabe refletir um pouquinho: qual a causa da mudança climática? A resposta pode não ser muito agradável, mas é bem óbvia: nós. A mudança climática existe para manter nosso padrão de consumo. Podemos dividir a população humana do planeta em duas parcelas. A primeira é uma expressiva parte da população que tem um consumo acima do tolerável, ou seja, gera emissões de CO2 e outros gases estufa acima das taxas naturais de ciclagem desses gases na atmosfera. A segunda tem um padrão de consumo baixo, baixas emissões e não contribui tanto para o aquecimento global, mas a maior parte das pessoas que estão nesse grupo têm como maior aspiração alcançar os padrões de consumo do primeiro grupo. Essa aspiração parece bastante legítima, mas é fácil ver que essa história não acaba bem. Aí aparece com toda força o outrismo. O argumento às vezes é expresso mais ou menos assim: “a primeira parcela, o pessoal que causa o problema, está nos países desenvolvidos; eu vivo num país pobre, então não tenho nada a ver com isso”. Outra versão, um pouquinho mais sofisticada, diz “mas a primeira parcela é muito pequena, só os milionários, eu não estou nesse grupo”. Desculpe se estrago a ilusão, mas as pessoas de classe média na maioria dos países, inclusive o Brasil, têm padrões de consumo que resultam em emissões acima do tolerável, portanto também são causa do problema. O outrismo é uma espécie bastante abundante hoje em dia, infelizmente. Por exemplo, nas perguntas da plateia depois de uma palestra, deparei com um belo espécime. Eu tinha acabado de criticar o consumismo desnecessário e de grande impacto ambiental e de Vera Riscado Outrismo heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 200 201 falar sobre o que nós, como consumidores conscientes, poderíamos fazer a respeito. Recebi então o seguinte comentário de um ouvinte: “Eu acho que a gente tem que colocar o foco sobre os empresários, os ruralistas, é essa gente que destrói”. Beleza, certamente destrói, mas os empresários e os ruralistas vendem para quem? Mas o outrismo é renitente e inventou outra versão, na qual o outrista não nega que faça parte do grupo que causa o problema, mas argumenta que há gente que tem uma contribuição muito maior que a dele para a desordem climática e que então quem tem que mudar seu comportamento são esses caras, não ele. Há alguns anos eu chamava esse argumento de “o sofisma do Maggi e do Bush”; hoje os personagens podem ser atualizados, mas a lógica permanece a mesma. De acordo com o argumento, o Blairo Maggi, na época um dos maiores desmatadores do Brasil, poderia dizer “mas o Bush [então presidente dos Estados Unidos], com suas políticas pró-combustíveis fósseis, promove muito mais emissões de CO2 que eu, então eu não tenho que mudar meu comportamento, ele é que tem que mudar o dele”. O problema é que, se aceitássemos esse sofisma, quase todas as pessoas do mundo não precisariam mudar seu comportamento. Isso, claro, seria uma receita líquida e certa para o desastre. Prós e contras da autoilusão Os pessimistas dizem que as pessoas nunca vão mudar seus hábitos de consumo para fazer a sua parte para combater problemas tão distantes como catástrofes climáticas que podem nunca os vitimar, ou os refugiados ambientais da África e do Pacífico, ou a extinção de espécies. Argumentos probabilísticos (do tipo as catástrofes podem também vitimá-los) adiantariam pouco, eu receio. No entanto, esse argumento pessimista parece se basear em que todo o consumo (ou grande parte dele) seja necessário, ou que nossa cultura não consiga mexer com os poderosos mecanismos psicológicos que levam as pessoas a consumir de forma desperdiçadora. Não estou nem um pouco convencido desse ponto de vista. Muito do consumo existente, claro, atende a necessidades, cria confortos e melhora a vida das pessoas. Mas uma imensa parte dele, por outro lado, é absolutamente inútil sob esses aspectos. Como foi dito pelo conselheiro financeiro norte-americano Dave Ramsey, “nós compramos coisas que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar pessoas das quais não gostamos”. Esse tipo de comportamento é cuidadosamente alimentado pela publicidade e pelo marketing, que puxam pelo que há de pior em nós: as tendências complementares de comprar coisas caras para impressionar outras pessoas e de selecionar pessoas pelo “nível social” assim exibido. Não devemos ser tão ingênuos a ponto de achar que foi a sociedade moderna que inventou tudo isso: infelizmente esse não é o caso. Consumo ostentativo é tão antigo quanto a humanidade – que o digam os faraós ou Luís XIV. O antropólogo Marvin Harris, no brilhante Vacas, Porcos, Guerras e Bruxas: Os Enigmas da Cultura, fala dos potlatchs, festivais de extravagante ostentação realizados por tribos indígenas da costa pacífica da América do Norte para impressionar outras tribos e competir por poder. Tudo isso faz parte da natureza humana e sempre esteve entre nós. O que a cultura consumista de hoje faz é puxar por esses nossos lados ruins de forma muito mais sofisticada (e no caso do marketing, deliberada) do que era possível antes. O resultado, tão característico da vida atual, é um modo de vida insaciável (cada nova aquisição produz a necessidade de outras maiores), compulsivo e que é, sem dúvida nenhuma, uma das maiores indústrias de produção em massa de frustração e infelicidade humana. Pode ser difícil fazer mudanças radicaisno nosso modo de vida, mas se cada um puder melhorar um pouco, poderemos, sim, obter Vera Realce [itálico] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 202 203 imensos resultados. O racionamento de energia pós-apagão alguns anos atrás mostrou quão fácil foi, para a maioria das pessoas, reduzir o consumo de energia em 20%. Na maioria dos casos, bastou cortar desperdícios óbvios. Infelizmente, essa redução não se deveu à consciência das pessoas, mas às multas, pois assim que passou o racionamento, o consumo voltou a subir. De qualquer forma, o episódio mostrou que reduzir um quinto de todo o consumo residencial de energia do país é relativamente fácil. Por que não tentar fazer isso de novo, agora por perceber que é importante, e não só pelo medo da multa? Precisamos, sim, eleger líderes melhores – mas não podemos depender só deles. Nesse ponto cabe notar que a autoilusão existe porque tem, sim, um papel importante e útil em nossas vidas. Ao nos eximir de olhar para as consequências ruins de nossos próprios atos, a autoilusão nos ajuda a lidar com tais lados desagradáveis da realidade. Nesse sentido, então, nos protege, como uma boa maneira de ficar mais tranquilos diante dos problemas. Mas, por isso mesmo, é também uma excelente maneira de não os resolver. O que a gente quer afinal: nos anestesiar dos problemas ou resolvê-los? Neste momento da história, trata-se de uma escolha crucial; mas não é uma escolha fácil. Caetano estava certo na inspirada “Terra”: para que possamos dar o carinho que o nosso combalido planeta e todos os seus habitantes precisam, é preciso mesmo coragem. POR QUEM DOBRAM OS SINOS DA CONSERVAÇÃO A cena final da obra-prima Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway, é um daqueles momentos da literatura que são inesquecíveis, porque mexem fundo com a nossa emoção. Como muitas vezes acontece nos grandes livros, há tramas distintas que se desenvolvem isoladamente ao longo do texto todo e que só ali, na cena final, se encontram e revelam toda a sua riqueza de sentido. Em Por quem os sinos dobram, o personagem principal é Jordan, um americano que luta como voluntário do lado dos republicanos combatendo os nacionalistas na Guerra Civil Espanhola e que é a personificação do idealismo e da coragem. Mas Hemingway escrevia bem demais para cair na armadilha maniqueísta de pintar um conflito humano dividido em dois lados estanques, dos bons e dos maus. No lado republicano há o rancoroso Pablo sabotando os esforços de Jordan. Do lado nacionalista, acompanhamos ao longo do livro inteiro – sem que saibamos bem por quê – os passos de um certo tenente Berredo, um personagem tão humano e idealista quanto Jordan, mas que as circunstâncias colocaram lutando pelo outro lado. Na tal cena final, Jordan, com a perna quebrada e sem poder escapar, aguarda escondido atrás de umas árvores, com a arma engatilhada, para pelo menos levar com ele o primeiro soldado nacionalista que aparecer. Mas o primeiro nacionalista que se aproxima, despreocupadamente, sem desconfiar da emboscada, é o tenente Berredo. Vem um nó na garganta, do qual não conseguimos nos livrar. Poucas vezes a falta de sentido do conflito humano foi tão Vera Realce [Tirar a vírgula depois de "racionamento".] 204 205 bem demonstrada pela literatura: há gente bem-intencionada em toda parte, mas as nossas ideologias podem nos jogar uns contra os outros. Hoje se fala muito do conflito entre “o social” e “o ambiental”. Cada vez que ouço falar desse conflito me vem à cabeça aquele final de Por quem os sinos dobram. Sempre me perturbou muito o fato de existir tanto idealismo, tantas boas intenções dos dois lados, tanto daqueles que querem um mundo socialmente melhor como daqueles que querem conservar a natureza, mas que no entanto haja tanto conflito entre os dois grupos. Paradoxalmente, muitos dos conflitos atuais vêm das “soluções mágicas” para negar que haja conflito e das críticas a tais “soluções”. É o caso do chamado socioambientalismo, que tem defendido que se pode resolver problemas sociais com a utilização supostamente sustentável de recursos dentro de Unidades de Conservação. Adoraria poder me convencer disso, mas não consigo. O calcanhar de Aquiles do socioambientalismo, claro, é se as utilizações de recursos propostas são de fato sustentáveis, ou se isso é apenas pensamento desejoso. Na maioria dos casos, a resposta verdadeira para essa questão seria “não se faz a mínima ideia”. Sustentabilidade, por definição, implica que os usos atuais de recursos não podem comprometer a disponibilidade dos mesmos recursos para as gerações futuras. No entanto, como já argumenteianteriormente, sustentabilidade geralmente é apenas assumida, mas quase nunca é testada. Pior: quando é testada, a sustentabilidade assumida muitas vezes não é verdadeira. No caso do socioambientalismo, a sustentabilidade via de regra é assumida com base em uma série de pressupostos – que populações humanas viviam em harmonia com a natureza no passado pré-tecnológico, que as condições com as quais elas se relacionam com a natureza hoje são similares às do passado, que se trata de economias “tradicionais” e não de economias de mercado, e por aí vai. Esses pressupostos infelizmente têm pouca base na realidade. Em muitos casos são demonstravelmente falsos. Se a tão falada sustentabilidade é um gigante de pés de barro, o efeito disso sobre a biodiversidade que fornece os tais “recursos” é óbvio, mas os efeitos sociais sobre os que dependem deles não são menos trágicos. Empurrar gente para dentro de reservas, para uma apropriação por poucos do que na verdade é de todos, só disfarça a incapacidade de nossos governantes de oferecer verdadeiras oportunidades para as pessoas. Na ausência de sustentabilidade, isso só representa o que Tim Flannery chamou de “comer o futuro”, com paliativos imediatistas e populistas que só empurram o problema para frente e o tornam cada vez maior. “Ah, sim, o Brasil é grande, sempre vai haver mais uma área natural para explorar”. A velha e boa mentalidade de fronteira. Mas que visão curta depender desse tipo de solução para resolver nossos problemas sociais em pleno século XXI! O socioambientalismo, no fundo, tenta revogar o velho provérbio “Você não pode ter o bolo e comê-lo”. Para muita gente, essa é uma tentativa bem-intencionada e sincera de resolver os problemas sociais. Resolver esses problemas tem que ser um objetivo central e crucial para todos nós, sempre, mas discordo de que essa seja uma forma verdadeira de resolvê-los. Concordo que, no fundo, não precisa mesmo haver conflito entre a conservação e o social – mas para isso temos que pensar numa escala maior, no espaço e no tempo. Conflito ou não, uma questão de escala Se pensarmos bem, se há ou não conflito entre a conservação e o social é uma questão de escala. Em pequena escala de espaço ou de tempo, é óbvio que tende a haver conflito, sim. Toda a história humana é repleta de devastações ambientais feitas por povos tentando elevar seus níveis de vida mediante a exploração Vera Realce argumentei anteriormente, [separar] 206 207 local e imediatista de recursos naturais. Como foi expresso com perfeição pelo ecólogo-filósofo argentino Adrian Monjeau, trata- -se do predomínio do “eu(ou nós)-aqui-agora” sobre o “todos-em todos os lugares-amanhã”. No entanto, se olharmos numa escala maior, o conflito desaparece. Ao usar de forma imediatista e irresponsável seus recursos naturais, cada civilização só tende a destruir os serviços ambientais que a biodiversidade nos dá, de uma maneira nem sempre óbvia – fertilidade dos solos, qualidade da água, florestas, e até o próprio clima. Com isso, destrói as bases de sua prosperidade e de seu bem-estar social, que dependem, em grande escala espacial e em médio e longo prazos, desses serviços. Esse ponto foi demonstrado com brilhantismo em Colapso, de Jared Diamond. Colapso provocou uma imensarevolução na nossa visão da história, ao mostrar que o desaparecimento de várias das grandes civilizações do passado foi devido à sua incapacidade de lidar com os problemas ambientais que elas mesmas causaram. No entanto, entre os exemplos de Colapso mostrando que o bem-estar ambiental e o social caminham juntos, um dos mais perturbadores é bem atual: o da ilha de Hispaniola. Hispaniola: uma ilha e dois destinos Hispaniola é uma grande ilha do Caribe dividida entre dois países: Haiti e República Dominicana. Hispaniola havia sido notada pelos primeiros europeus que a viram no século XVI como uma ilha coberta por florestas exuberantes. Os destinos dos dois países que a dividem, que de início pareciam similares, começaram a divergir mais marcadamente a partir do início do século XX, quando a República Dominicana começou a tomar uma série de ações reais de conservação, como uma legislação proibindo contaminação dos rios em 1901 e a criação de várias reservas naturais a partir de 1927. Tais ações ganharam maior impulso a partir da década de 1960, quando, entre outras coisas, foi reprimida a exploração madeireira ilegal, foram criadas leis protegendo as matas de galeria e foi banida a caça. O sistema de Unidades de Conservação nacional foi maciçamente ampliado e hoje compreende 74 reservas, cobrindo cerca de um terço de toda a área do país. Enquanto isso, do lado do Haiti, nada. O Haiti prosseguiu com uma receita econômica velha conhecida nossa, que inclui rápido desmatamento e plantação de algumas commodities agrícolas, principalmente café e açúcar. Além disso, no Haiti a fonte de energia mais utilizada é o carvão, o que aumenta ainda mais a pressão sobre a pouca mata remanescente. O sistema de Unidades de Conservação do Haiti é ínfimo, contando com apenas quatro pequenas reservas, que garantem ao país apenas 1% de cobertura florestal. O resultado de tudo isso tem sido erosão, perda de solos férteis e uma imensa e geral degradação ambiental. Se uma imagem vale mil palavras, uma imagem de satélite de Hispaniola no Google Images vale um milhão de palavras. Dê uma olhada, porque essa é uma imagem impressionante: uma ilha com uma metade marrom (Haiti, a oeste) e uma verde (República Dominicana, a leste). O resultado social de tudo isso, depois de um século, é claro. A República Dominicana é um país relativamente próspero para os padrões latino-americanos, com um nível de vida muito similar ao do Brasil. O Haiti é o país mais pobre do hemisfério, com uma miséria que parece não ter solução, fome, doenças devastadoras e uma violência urbana fora de controle. Que receita nós queremos para a nossa sociedade? Que futuro nós queremos? Em pequena escala, a conservação e o social podem parecer estar em conflito. Em grande escala, no espaço e no tempo, não estão. Será que vamos continuar não aprendendo as lições da história? 208 O mundo melhor será um só Não se engane achando que a luta pela conservação não seja também por um mundo socialmente melhor. Conservar a natureza implica querer um mundo melhor para todos, e não sempre para alguns tentando resolver seus problemas à custa do que é de todos. Precisamos de toda a boa vontade que exista na humanidade, porque um mundo ambientalmente melhor será também um mundo socialmente melhor. Nossos destinos estão todos ligados, como na brilhante passagem do poeta inglês John Donne que deu o título ao livro de Hemingway: “Nenhum homem é uma ilha; cada homem é um pedaço do continente, uma parte do todo. Se um torrão de terra é arrastado para o mar, toda a Europa fica diminuída (…). A morte de cada homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade. Por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por você”. Hoje estamos num mundo diferente daquele do século XVII de Donne, ou daquele da primeira metade do século XX de Hemingway. Nem todos já perceberam isso, mas nesta época de mudanças climáticas globais os “problemas ambientais” deixaram de ser uma preocupação lateral para ser o problema central da humanidade, aquilo do qual todo o resto, inclusive obviamente a resolução dos problemas sociais, vai depender. A morte de cada animal ou planta, de cada espécie ou ecossistema, também nos diminui. Esses sinos também dobram por nós. BIOFÍLICAS 211 OS URSOS DE RĂCĂDĂU E A ESPERANÇA Há alguns anos foi lançado no Brasil, sem muito alarde, Monstro de Deus – Feras Predadoras: História, Ciência e Mito, de David Quammen. Para quem não liga o nome à obra, Quammen é um raro exemplar de jornalista dedicado exclusivamente (ou quase exclusivamente) à conservação da natureza. Em sua obra-prima, A Canção do Dodô, quase todas as principais ideias da Biologia da Conservação são apresentadas ao leitor de forma precisa e agradável, contando pequenas histórias, sempre com sensibilidade e talento. Monstro de Deus, por sua vez, fala dos grandes predadores – leões, tigres, ursos, crocodilos – e suas relações com os humanos ao longo da história. Monstro de Deus pode parecer um Quammen “menor”, não tão inspirado quanto o brilhante A Canção do Dodô. Mas quem foi rei nunca perde a majestade. Quammen nunca deixou de se preocupar em escrever bem, em contar histórias bem, e a sensibilidade ainda está lá, com toda força, em várias passagens do livro. Entre todas as numerosas historinhas que se desenrolam e se misturam em Monstro de Deus, uma me tocou de forma muito especial. Alguns leitores certamente discordarão da minha escolha, preferindo um dos numerosos trechos sobre feras selvagens em seus ambientes naturais. Mas minha passagem preferida é um pequeno e agridoce drama semiurbano: a história dos ursos de Răcădău. Răcădău é na Romênia, mas poderia ser em quase qualquer país. Procure Răcădău no Google Images. Eu também não sei como colocar na linha de comando do Google esses acentos 212 213 malucos do romeno, mas não faz mal, funciona mesmo sem eles. As imagens que você vai encontrar sugerem à primeira vista um lugar bonito e agradável de se viver. É como se fosse um grande condomínio, com numerosos grandes prédios beges, cercados por muito verde. Răcădău parece um grande triângulo de prédios cercado por encostas de morros cobertas pelo que parece ser uma extensa floresta temperada que se perde no fundo das imagens. Mas olhe mais de perto. Os tais prédios beges são pobres, com paredes sujas, com reboco caindo em vários lugares. O que parecia à primeira vista uma grande piscina na verdade nada mais é que um lago artificial bastante árido. Entre os prédios, algumas pracinhas também áridas e ruas estreitas, sem árvores, opressivamente cercadas de concreto. Răcădău é um condomínio de classe média baixa na periferia da cidade romena de Brasov, resultado dos programas de habitações populares em massa do ditador Nicolae Ceauşescu na década de 1980. O que faz Răcădău tão especial? Bem, não há tantos condomínios de classe média baixa por aí onde você possa ver ursos! Aqueles morros que você vê atrás dos prédios, em Răcădău, abrigam uma população de ursos-pardos (Ursus arctos). Apenas uma rua de asfalto, que contorna o condomínio, separa os prédios da subida dos morros e da floresta. Essa rua tem várias grandes caçambas de lixo, onde é depositado todo o lixo de milhares de pessoas que vivem ali. Em meio a toneladas de lixo inorgânico há também restos de refeições várias, bagaços de frutas, cascas de ovos, e por aí vai. Aconteceu que os ursos naturalmente acabaram por descobrir esse imenso filão de comida. Toda noite alguns ursos descem da floresta e vêm abrir as lixeiras atrás de restos de alimento. Nunca se sabe quantos vêm, ou quais vêm, em cada noite em particular. Fêmeas com filhotes são bastante comuns. Toda noite, uma pequena multidão se reúne para ver os ursos. Há todo tipo de gente. Gente que trabalhou o dia inteiro num escritório. Funcionários públicos. Aposentados. Casais de namorados que estacionam os carros e ficam vendo os ursos (bem, pelo menoseles dizem que ficam vendo os ursos). Adolescentes ouvindo música alta. Há até crianças, quem sabe matando o tempo depois da escola para esperar a noite cair e os ursos aparecerem. Finalmente, os ursos surgem, saindo da floresta, e cada movimento deles é seguido pelos olhos curiosos de uma plateia heterogênea, por vezes barulhenta, mas quase sempre atenta e respeitosa para com as grandes estrelas do lugar. Os ursos estão habituados com a presença de pessoas, mas não interagem com elas. Remexem demoradamente nas lixeiras, passeiam, encontram um petisco aqui e outro ali e depois, aos pouquinhos, vão indo embora. Os habitantes de Răcădău têm orgulho de seus ursos. Quammen descreve como a camareira do hotel onde ele pernoitava, ao saber que ele tinha vindo à Romênia para ver ursos-pardos (dos quais a Romênia abriga uma das maiores populações remanescentes na Europa), abriu o rosto num sorriso ao dizer que no seu bairro havia ursos. Ela morava em Răcădău, e pelo menos naquele momento tinha muito orgulho disso. A prefeitura de Brasov, porém, vive muito preocupada – compreensivelmente – com a possibilidade de que os ursos machuquem alguém. Por isso instalou lixeiras com tampas especiais projetadas para impedir que os ursos as abrissem. Tentaram três diferentes modelos, um após o outro. Não deu certo. As lixeiras continuam aparecendo abertas. Por quê? Os ursos descobriram maneiras de abri-las? Não, não é isso. Quem sabe as pessoas as esquecem abertas? Não, também não é isso. A resposta é muito mais interessante que essas, e o ponto central do meu argumento. As lixeiras ficam abertas porque os moradores propositalmente as abrem, de forma a permitir que os ursos tenham acesso a elas. A cada noite, portanto, os ursos podem voltar, sabendo que há boa probabilidade de obterem algum petisco. Vera Riscado ido heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 214 215 Uma reserva de mistério Não me entenda mal. Não estou, nem por um momento, dizendo que acho ótimo que ursos-pardos vivam revirando lixo e sendo uma atração turística local. Para mim, só poderemos dizer que conservamos a espécie urso-pardo enquanto houver ursos desses vivendo na natureza, caçando, pescando e se acasalando, como ursos-pardos sempre fizeram. O que estou dizendo é que essa população particular de ursos de Răcădău, vivendo nessa condição semiurbana, simboliza algo muito importante não só para os ursos- -pardos como um todo, mas também para nós mesmos. Para os habitantes de Răcădău, ver os ursos é um dos poucos momentos de excitação, de fascínio, de suas vidas tão cinzas (ou, vá lá, beges). Representam algo diferente, interessante, talvez aventuresco. Mas há muito mais do que isso. Os ursos de Răcădău representam uma janela para um mundo diferente e misterioso. Muito além das preocupações cotidianas, das relações com os vizinhos do próximo prédio bege, das contas a pagar, os ursos de Răcădău representam o único vislumbre de um mundo onde nenhuma dessas coisas tem a menor importância. Um mundo de ursos, de gralhas, de trutas, de texugos, cada um com suas próprias vidas, suas próprias preocupações, de seu almoço, de seu acasalamento, que desconhecem completamente o PIB, o saldo bancário e a política do governo. Um mundo livre de tudo isso, com seus próprios problemas, seus próprios dramas, um mundo cheio da naturalidade e da simplicidade que tanto nos fazem falta, um mundo que mal entendemos. Os ursos de Răcădău são, para essas pessoas, sua reserva de mistério. Nossa mente foi imensamente superdimensionada pela evolução. Nosso cérebro nos trouxe até aqui pela sua espetacular capacidade evoluída de compreender as coisas, de juntar e analisar informações. Esse poder de processamento que obtivemos é tão grande que pensamos o tempo todo, tentamos entender o tempo todo, e o mundo tornar-se-ia um lugar muito sem graça se achássemos que já tivéssemos entendido tudo, que não haveria mais nada radicalmente novo para entender. O real não nos basta, não satisfaz nossa curiosidade. Ficamos procurando mundos imaginários ou mistérios. Nada pode ser mais satisfatório como resposta perpétua à nossa curiosidade que um mistério – que afinal nada mais é do que uma curiosidade que nunca pode ser satisfeita. A natureza sempre nos fornece muitos dos mais interessantes mistérios – não em mundos imaginários, mas em mundos que mal conseguimos imaginar. A perda da natureza, que se acelera nos últimos séculos, representa também a morte do mistério. Não há mais grandes matas virgens, inexploradas, que não façamos a menor ideia do que contenham. Não há mais grandes feras maravilhosas e desconhecidas que mal imaginamos como sejam. As madeireiras, as “frentes de desenvolvimento”, em última análise a expansão populacional humana, esmagam e fracionam as florestas antes impenetráveis do sudeste da Ásia, abrem à destruição os mais recônditos refúgios na Floresta Amazônica, transformam os antes misteriosos gorilas das montanhas em meros sobreviventes precariamente ilhados num mar de miséria e interesses. Com isso, todo o nosso mundo fica mais pobre – inclusive dentro de nossas mentes. Como será pobre o mundo no dia, que eu espero nunca chegue, quando soubermos que não há mais vastidões na Sibéria onde o majestoso tigre de Amur vaga à procura de suas presas, ou savanas africanas onde leoas e zebras desempenham seus papéis em tragédias de força e movimento, ou florestas onde onças machos e fêmeas encenam seus ritos ancestrais. Uma razão para esperança O grande ecólogo e conservacionista Edward Wilson escreveu sobre o que ele chamou de biofilia, como já vimos. Gostar de Vera Riscado tigre-de-amur 216 217 bichos e plantas não seria apenas algo aprendido, mas uma parte essencial da própria natureza humana. Se Wilson está certo – e eu acredito que esteja –, é bem provável que o sentimento de biofilia dentro de nós tenha múltiplas raízes. Não ficaria nada surpreendido se descobrisse que a manutenção de um sentido de mistério no mundo é um dos componentes da biofilia. Espero, claro, que ursos-pardos de vida independente continuem sempre existindo. Mas tente fechar as lixeiras de Răcădău. Aposto que não será fácil. Os escriturários, as camareiras, os velhinhos, os namorados, os adolescentes “sem causa”, as crianças não vão deixar. A pequena janela que eles têm para um mundo selvagem e misterioso, mesmo essa janela assim tão estreita, é importante demais para eles. Isso é uma razão para esperança. Conservar a natureza é uma luta muito difícil e que está fadada a não dar certo enquanto depender apenas de razões utilitárias, as quais sempre poderão ser contestadas por outros grupos de interesse. Mas a natureza é importante para nós também por outras razões, muito mais sutis, dentro da nossa mente e do nosso inconsciente. Essas coisas são universais, parte essencial de nossa própria natureza. A esperança de um mundo melhor está justamente em que tantas pessoas tão diferentes percebem isso, espontaneamente, sem que seja preciso aprender: pois está dentro delas. ANDY A conservação da natureza é uma luta muito difícil e crucial, pois dela depende o nosso futuro e o dos nossos companheiros de planeta. Para que a luta pela conservação dê resultados concretos, o papel da opinião pública é fundamental. É indispensável que muita gente esteja do nosso lado, que sinta a importância de conservar os animais e as plantas, e não só por razões utilitárias, mas por eles mesmos. Sempre me perguntei sobre o que leva alguém a se tornar conservacionista. Sempre me questionei se a educação ambiental, como geralmente é feita hoje, de fato desperta nas pessoas a intensidade de envolvimento com conservação de que precisamos. E toda vez que me questiono sobre essas coisas, penso em Andy. Fiz meu PhD na Inglaterra, e minha tese foi sobre a ecologia de populações de duas espécies de pequenos roedores em uma floresta de pinheiros e abetos chamada Hamsterley.As duas espécies estudadas foram o woodmouse, Apodemus sylvaticus, e o bank vole, Clethrionomys glareolus (hoje Myodes glareolus – os taxonomistas vivem mudando esses nomes). Desculpe-me se não dou um nome vulgar em português desses bichos, mas é que teria que inventar um: não existem nomes vulgares em nosso idioma (pelo menos no Brasil) para bichos de outros países que não sejam “notáveis” como os elefantes, os leões ou os ursos. Mas acredite- -me, o woodmouse é um ratinho pequeno, do mesmo tamanho que um camundongo doméstico (20 a 30 gramas), e bastante parecido com ele, exceto pela cor, que é marrom e não cinza. Já os voles são pequenos roedores que lembram superficialmente porquinhos- -da-índia (embora não sejam parentes próximos deles), com um Vera Riscado Mas, [vírgula] Vera Realce [Ver com o AUTOR: Fala de tamanho e cita o peso... Sugiro: (e pesam de 20 a 30 gramas) ] 218 219 focinho muito curto, olhos muito pequenos e cauda curta. No caso específico do bank vole, ele também tem o mesmo tamanho que um camundongo, mas com uma cor marrom-avermelhada forte, bem característica. Uma visita ao Google Images vai lhe mostrar que esses bichos aparentemente insignificantes são mamíferos bonitos, interessantes. Para mim, claro, que trabalho com eles, roedor bonito é pleonasmo. É verdade que minha visão dos roedores está longe de ser regra, mas experimente olhar para um bank vole, por exemplo, e me diga se não é um bicho que desperta empatia, como tantos outros mamíferos. Meu estudo era por captura-marcação-recaptura. Eu deixava armadas durante a noite armadilhas de captura viva Longworth, umas caixinhas de metal, iscadas com grãos de aveia, com portas que se fechavam quando o bicho entrava. A cada manhã eu conferia as armadilhas, marcava cada animal com um brinco que tinha um código de letras (ou só via qual era o código, se fosse uma recaptura), e fazia algumas medições e verificações (se o animal estava reprodutivo ou não, por exemplo). Depois cada animal era solto no mesmo lugar onde havia sido capturado. Ser capturado e manuseado não devia ser muito traumático para os animais, porque a maioria deles era recapturada várias vezes – alguns deles, dezenas de vezes. Eu já era capaz de reconhecer vários dos indivíduos antes mesmo de ver seu código. Meu recordista era um woodmouse que foi capturado nada menos que quarenta vezes e que gostava de sair de sua área original e invadir outros hábitats. Eu ficava me perguntando se isso tinha a ver com o código dele, que era US. Dentro da floresta de Hamsterley funcionava um centro de treinamento de desempregados, que visava recolocá-los no mercado de trabalho, chamado Community Task Force. Era um lugar soturno, triste, onde estavam alguns dos muitos derrotados de uma sociedade inglesa cada vez mais impiedosa depois da influência, na época ainda relativamente recente, da Dama de Ferro, Margaret Thatcher. Eram prédios malcuidados, frequentados por pessoas rudes, desmotivadas, que olhavam o futuro com pouca esperança. Um dia, ao parar por alguma razão na Community Task Force, um garoto magro, de cabelo preto curto, vestido com um suéter bastante surrado, veio falar comigo. Chamava-se Andy. Disse-me que tinha quinze anos, era filho de um motorista de caminhão, e que seu pai estava desempregado e estava fazendo um curso ali. Andy tinha ouvido falar vagamente do que eu fazia e me perguntou, com os olhos esperançosos, se podia ir comigo um dia ver meu trabalho. “Claro, nenhum problema”, eu respondi, “você quer ir amanhã?”. Andy topou. No dia seguinte, cheguei a Hamsterley de manhã cedo, sob um frio atroz, passei na Community Task Force e lá estava Andy. Um dia especial Andy e eu fomos para minha área de estudo e começamos a conferir as armadilhas. Logo, a primeira porta fechada, sinal de que devia haver um roedor lá dentro. Segui a rotina à qual eu já estava habituado: abrir a armadilha com a porta virada para baixo, deixar cair o roedor mais o material de ninho (que eu colocava para que eles não morressem de frio durante a noite) num saco plástico transparente, tirar o material de ninho, segurar o ratinho pelo cangote, logo atrás das orelhas. Medir, anotar, soltar o roedor, que escapava correndo ligeiro pelo chão da floresta. Andy só olhava o que eu fazia, atento, seguindo cada bicho com os olhos, mas sem ousar tocar ou participar. Eu sentia que faltava alguma coisa. Perguntei: “Andy, você quer pegar um?”. Ele disse que não, mas seus olhos disseram que sim. Insisti. Andy pegou o ratinho pelo cangote, mas um tanto desajeitado, talvez com medo de machucá-lo. O roedor se desvencilhou, pulou Vera Realce [Sugestão para o autor: trocar "armadas" por "montadas", para evitar "armadas armadilhas".] Vera Realce 220 221 agilmente para o chão, deu alguns dribles homéricos em dois primatas atrapalhados e desapareceu para dentro de uma canaleta. Andy ficou mortificado. Começou a se desmanchar em desculpas: ele era tão desastrado, eu tinha perdido os dados, ele tinha estragado tudo. Subitamente tinha ficado triste. Não! “Pegue outro”, eu disse. “Não”, ele disse, “vou estragar tudo de novo”. “Não se preocupe”, respondi, “eu pego muitos, um dado só não vai me fazer falta, e além disso amanhã ou depois com certeza vou pegar os mesmos bichos de novo”. Andy relutou um pouco, mas acabou concordando em tentar de novo. Dessa vez segurou o ratinho com firmeza. Logo nós dois tínhamos formado uma equipe, tirando os woodmice e os voles das armadilhas, marcando os bichos, pesando, sexando, medindo. Comecei a deixar mais para Andy o trabalho de manusear os bichos, enquanto eu anotava os dados. Logo ele foi se sentindo cada vez mais à vontade, segurando os bank voles pelo cangote e colocando os brincos na orelha deles com imenso cuidado. “I’d love to have your job” (“Eu iria amar ter o seu trabalho”), ele me disse então, com brilho nos olhos. Era visível o prazer com que Andy olhava aqueles animaizinhos, sentindo seu calor, a batida acelerada de seus pequenos corações, os olhinhos olhando suplicantes para nós enquanto os segurávamos pelo cangote. “Não se preocupe, eu não quero te fazer nenhum mal”, eu muitas vezes tinha vontade de dizer para o ratinho, se ele ao menos pudesse entender. Olhando para Andy segurando mais um bank vole pelo cangote, pareceu-me que ele tinha vontade de dizer a mesma coisa para o bicho. De repente, Andy estendeu a mão livre e fez um tímido carinho na testa do bank vole. Então recolheu rápido o braço e olhou para mim, talvez esperando um olhar de desaprovação. Não o encontrou. Alguns roedores depois terminamos o trabalho. Deixei então Andy na Community Task Force antes de pegar o caminho de casa. Ele me agradeceu efusivamente, e não foi uma mera resposta convencional dizer a ele que para mim tinha sido um prazer. Então, com seu entusiasmo lutando valentemente contra a sua reserva britânica, ele me disse, “It was the best day of my life” (“Foi o melhor dia da minha vida”). Educação ambiental Nunca mais vi Andy. Não sei o que aconteceu com ele. Mas tenho certeza de que onde quer que esteja, ele, assim como eu, nunca esqueceu aquele dia. E também tenho certeza de que o que quer que ele esteja fazendo como profissional, depois daquele dia a relação dele com a natureza, ao longo de sua vida, nunca mais foi a mesma. Lembrar da história de Andy me faz pensar sobre a educação ambiental. Muito da educação ambiental ainda se faz conscientizando as crianças, bastante racionalmente, das consequências negativas, para a natureza, de algumas coisas que fazemos ou deixamos de fazer. É claro que muito desse trabalho de conscientização pode ser brilhante e produtivo, mas muito dele acaba sendo como um tipo de inculcação de deveres, que corre o risco de parecer uma versão moderna da “educação moral e cívica”, de triste memória. Mesmo quando é “em campo”, isso é, no meio da natureza, muito da educação ambiental se concentra em falar sobre processosecológicos que podem parecer abstratos demais para as crianças, ou em mostrar os problemas. Geralmente há poucas oportunidades de ter contato direto, nas próprias mãos, com algum animal que permita às crianças desenvolver o imenso potencial para empatia com os bichos que há dentro delas. É neste ponto que volta à minha mente a última frase que ouvi de Andy. Aquele dia para ele não foi só um grande aprendizado. Foi um aprendizado extremamente prazeroso. Olhando para aquele pequeno bank vole que pulsava em suas mãos, Andy tinha nos olhos suplicantes do bicho a porta de entrada para um novo mundo que heloisavasconcellos Highlight [melhorar espaçamento] 222 223 ele mal sonhava que existia, um mundo fascinante e maravilhoso, tão perto e tão distante de seu tedioso cotidiano. Então, se alguém me pedir uma opinião sobre como fazer educação ambiental, aqui vai: segure um bicho desses nas suas mãos – um ratinho silvestre, um sapinho, um gambá, qualquer um – sinta-o nas suas mãos. É que naquele dia distante em Hamsterley, segurando aquele bank vole, Andy me ensinou que uma criança que descubra o prazer de segurar um bicho assim na mão e apreciá-lo nunca mais vai ver os tais “animais selvagens” da mesma forma. A MORTE DA MINHA RAINHA DAS ÁRVORES He was the king of trees Keeper of the leaves A deep green god of young love stained memories We used to meet by him Far from the hustling town I loved you Now they’ve come to cut you down …Down (Ele era o rei das árvores Guardião das folhas Um deus verde profundo de jovens memórias tingidas de amor Nós nos encontrávamos perto dele Longe da cidade agitada Eu amei você Agora eles vieram derrubar você …Derrubar) Cat Stevens, “The King of Trees” Uma das letras de música mais marcantes da minha adolescência foi, sem dúvida, a de “The King of Trees”, do cantor grego-britânico Cat Stevens. Tenho essa letra até hoje, escrita à mão num pedaço Vera Realce –, [colocar vírgula depois do traço] Vera Realce He was the king of trees Keeper of the leaves [em duas linhas] Vera Realce (Ele era o rei das árvores Guardião das folhas [em duas linhas] Vera Realce Nós nos encontrávamos perto dele Longe da cidade agitada [em duas linhas] Vera Realce Um deus verde profundo de jovens memórias tingidas de amor [Seria bom se coubesse o verso todo numa linha só.] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 224 225 de papel, numa gaveta na minha casa. Lembro-me bem do quanto me emocionei com o sentimento de um homem por uma árvore que era parte dos melhores momentos de sua juventude, e com sua dor pela sua perda. Acho que até algum tempo atrás eu nunca tinha percebido conscientemente que, anos depois, também acabei tendo a minha própria rainha das árvores. Rainha, e não rei, porque era uma figueira. Rainha, sim, porque era uma árvore majestosa. Ela ficava logo em frente à entrada do prédio da Fundação Bio-Rio, na ilha do Fundão, onde há um comida-a-quilo no qual vou almoçar quase todos os dias. Era um verdadeiro colosso. Seu tronco, na verdade o complexo emaranhado de raízes se abraçando, tinha mais de três metros de diâmetro, talvez quatro. A copa espalhava seus galhos longuíssimos e sinuosos sobre o telhado do prédio, num diâmetro de mais de trinta metros. Era, disparado, a árvore mais bonita e mais impressionante de toda a ilha do Fundão, onde fica o campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nela nidificava pelo menos um casal de sabiás. Muitas vezes vi socós pousados nos galhos mais altos. Mais raramente, micos também apareciam. Não há muitas árvores naquele trecho bastante inóspito da ilha do Fundão, e era natural que aquela figueira gigantesca fosse um refúgio importante. As folhas propiciavam uma densa sombra, que tantas vezes foi um gostoso alívio ao chegar ao restaurante depois de uma caminhada sob o sol de verão. Não me lembro se alguma vez já tinha feito alguma ligação consciente entre a letra de “The King of Trees” e aquela figueira – talvez apenas uma vez. Mas me lembro de ter conversado algumas vezes com outras pessoas sobre aquela árvore – o quanto ela era especial, e, sim, o quanto ela fazia o nosso dia a dia melhor, simplesmente por vê-la e admirá-la na hora do almoço. Aquela terça-feira veio de repente. Nos dias anteriores, eu havia notado que os longos galhos sobre o telhado haviam sido cortados, mas achei que era apenas uma poda e não me preocupei. Mal sabia que eram só os primeiros golpes. Naquele dia, porém, fui almoçar na Bio-Rio, pensando em um monte de problemas, e tive um baque ao olhar de longe: a árvore não estava mais lá. O vazio, no lugar onde a imensa figueira sempre tinha estado, era mais chocante do que qualquer coisa que pudesse estar ali. Continuei andando para lá, com o coração batendo forte, e então vi. Da figueira só restava o tronco central, cortado na altura de uns três metros, com uns pedaços de árvore ainda precariamente pendurados. Grandes pedaços de tronco e raízes jaziam pelo chão em toda sua volta, numa mortalha de serragem. Uma motosserra vermelha tinha a lâmina ainda enfiada em um dos pedaços. Fitas amarelas de plástico mantinham os transeuntes à distância. O que era lindo tinha se convertido numa visão horrorosa. Em um minuto eu tinha esquecido todos os problemas que tanto me ocupavam. Uma imensa tristeza me invadiu, e eu não conseguia tirar os olhos daquela cena. Uma rainha não só para mim Fui almoçar sozinho, em silêncio e com o dia completamente estragado. Confesso que meu pensamento naquela hora foi fatalista, do tipo, “que droga, vou ter que me acostumar a isso aqui sem ela”. Mas quando fui ao caixa pagar, uma mulher na minha frente na fila perguntou a uma atendente do restaurante: “Por que cortaram essa árvore aí em frente? Ela era tão linda”. A atendente respondeu: “Não sei. Nós não tivemos nada a ver com isso. Eu adorava aquela árvore”. A caixa então comentou: “Eu também! Como é que alguém corta uma árvore dessas?”. Naturalmente entrei na conversa e fiquei impressionado ao perceber o quanto aquela árvore era importante não só para mim, mas para tantas outras pessoas também. Eu mal heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 226 227 suspeitava disso, depois de vários anos almoçando ali, mas ela não era uma rainha das árvores só para mim. Saindo do restaurante, encontrei meu colega Gílson e outros dois funcionários do Instituto de Biologia, parados, olhando para a cena com tristeza. Gílson me disse: “Está todo mundo revoltado”. Várias pessoas já tinham fotografado a cena, segundo ele, para enviar para blogs ou coisas assim. Estava um dia muito quente e só aí reparei o calor que fazia ali, na entrada do prédio. O lugar era coberto com telhas de amianto, mas antes se estendia sobre elas a densa folhagem, e o microclima era sombreado, fresco e úmido. Agora o sol aquecia diretamente as telhas e tudo estava quente, árido, abafado, como se estivéssemos num forno. De algum modo me pareceu uma versão em miniatura do que está acontecendo com um mundo que não sabe preservar suas árvores. Não sei por que mataram aquela figueira. Pode ter havido boas razões. Ela podia estar doente, embora eu não tenha encontrado sinal algum disso. Há outras possibilidades. Figueiras são árvores que podem causar muitos problemas, com suas raízes abalando a estrutura dos prédios, ou seus pesados galhos caindo sobre os telhados ou forçando-os para baixo. Não vi sinal de que as raízes estivessem levantando as calçadas, embora – quem sabe? – elas pudessem estar tendo algum efeito mais para dentro do prédio. Quanto aos galhos, recuso-me a acreditar que não teria sido possível lidar com esse problema com medidas de manejo, como poda ou escoramento dos mais perigosos. Não sei. Prefiro acreditar que ela foi morta por uma boa razão. Só não sei se vou conseguir me convencer disso. Você pode, a esta altura, estar se perguntando: mas por que tanta preocupaçãocom uma árvore, se a cada dia só na Amazônia milhares de árvores estão sendo derrubadas e mortas? Não é esse um problema minúsculo, insignificante? Razão e emoção Isso me lembra um velho lema do movimento ambiental, um guia simples, mas sábio: pense globalmente, aja localmente. Nossas ações podem parecer pequenas, mas só as pequenas ações de milhões de pessoas, somadas, podem virar o jogo. Árvores servem de hábitat para bichos como os sabiás, os socós e os micos que usavam aquela figueira. Árvores produzem uma imensa variedade de produtos. Árvores fixam CO2 e com isso ajudam a combater as mudanças climáticas, que terão efeitos devastadores não só sobre a conservação como também sobre a própria economia. Árvores regulam o clima e garantem a qualidade da água das nascentes. Árvores seguram encostas e, se tivessem mantido mais delas, não teríamos tido nos últimos anos tantas mortes em desabamentos no Rio de Janeiro, em Santa Catarina e em outros lugares (mas culpar as “intempéries” da “natureza” é tão mais fácil…). Árvores fazem os lugares mais bonitos e agradáveis, por conta da nossa biofilia, e assim melhoram a qualidade de vida das pessoas. Árvores merecem viver por serem árvores. Há muitas razões para preservá-las e bem poucas justificativas para matá-las com tanta facilidade como sempre fizemos ao longo da triste história ambiental brasileira. E aí cabe virar de cabeça para baixo o velho provérbio: devemos, sim, ver a floresta pelas suas árvores, se não como forma de entendê-la, pelo menos como forma de preservá-la. Cuidar das árvores de que a gente gosta é colocar um pequeno tijolinho para construir um mundo melhor. “As árvores de que a gente gosta?” Sim, por que não? Sempre defendi que conhecimento científico sobre os organismos e os processos ecológicos é imprescindível para que se consiga conservar a natureza. Continuo, claro, pensando assim. Mas se quisermos mesmo ser bem-sucedidos em conservação, a razão apenas não é o suficiente. Sentimento não é para se explicar, é para se sentir. A emoção é fundamental. Naquela fila do caixa do comida-a-quilo, heloisavasconcellos Highlight causando heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 228 229 aprendi que para muita gente aquela também era a “sua” árvore. Quase sempre é do sentimento de pessoas assim que nascem as ações para a conservação. A razão é uma ferramenta necessária, mas o sentimento é a origem de tudo. Eu não pude fazer nada pela “minha” árvore, porque não sabia que ela seria morta. Mas quem sabe minha tristeza ajude alguém a fazer alguma coisa por alguma outra árvore, ou por algum bicho. Aí, pelo menos, a morte dela não terá sido em vão. OUTROS OLHOS SOBRE AS CIDADES Um dos momentos mais inebriantes que já vivi num cinema foi assistindo a uma cena de Birdy (Asas da Liberdade), de Alan Parker. Trata-se de um belíssimo filme, sobre a liberdade, a loucura, e a amizade. O personagem-título, um rapaz reprimido e perturbado (vivido por Matthew Modine), desenvolve uma obsessiva ligação emocional com as aves, que simbolizam a liberdade que ele mesmo não tem. Suas esquisitices ornitológicas e suas desastradas tentativas de voar são toleradas e cada vez mais compreendidas por seu melhor amigo, Al (Nicholas Cage). Após Birdy ter sofrido um violento trauma de guerra, Al faz de tudo para evitar que ele perca o tênue contato que ainda tem com a realidade. De repente, lembro-me bem, perdi o fôlego. Meus olhos grudaram na tela e torci para o tempo passar mais devagar. Birdy, deitado no chão do seu quarto, olha para a pequena janela, muito alta acima dele. Imagina-se uma ave, saindo por aquela janela, para o mundo lá fora. De repente, a câmera sai pela janela, como os olhos da ave da imaginação dele. Começamos a ver o mundo à volta pelos olhos de uma ave, a voar livremente sobre a paisagem à volta. Não é uma paisagem extraordinária – o que só faz a experiência cinematográfica desse voo ainda mais fascinante. São subúrbios comuns de uma pequena cidade norte- -americana – o voo da câmera passa sobre carros num ferro-velho, depois sobre uma mulher lavando roupa no quintal, segue pelas passagens estreitas entre as casas, escapa do ataque de um cachorro, voa baixo sobre uma rua, passando perto das pessoas atarefadas em Vera Realce [tirar essa vírgula] 230 231 seus afazeres cotidianos. É o nosso mundo que está ali, visto pelos olhos de uma ave, como pelos olhos de um estranho. Vendo “nosso” mundo com outros olhos Diga você: que canto de ave você ouviu hoje? Nenhum? Você é que pensa. A maioria de nós, mesmo nas grandes cidades, coexiste a cada dia com numerosas aves, escuta seus cantos sem ouvir, olha- -as sem ver. É espantoso como somos indiferentes a essas vidas que estão acontecendo à nossa volta todo o tempo. Canso de ver pessoas imersas nas suas preocupações ou no seu celular que andam apressadas pela cidade como se ela fosse um deserto só de concreto, asfalto e vidro. Mas não é. É admirável a garra da vida, a imensa capacidade das plantas e animais de teimar em viver, mesmo nas condições mais hostis. Num pequenino torrão de terra entre duas telhas num telhado, ou numa estreita fresta num chão de concreto, você pode encontrar uma pequena planta que se instalou ali. Numa escala maior, nossas cidades são lar de uma quantidade surpreendente de animais – pássaros, cigarras, micos, morcegos – que admiravelmente conseguiram sobreviver e arrumar um novo meio de viver no ambiente tão diferente e hostil que fizemos. Uma cidade não é só o nosso mundo. Representa também vários outros mundos paralelos, de outros seres vivos, vivendo suas vidas e seus dramas cotidianos à nossa volta, vendo o “nosso” mundo com outros olhos. Que tal tentarmos, pelo menos por um momento, ver o mundo pelos olhos deles? Vejamos, por exemplo, as aves, objetos da paixão de Birdy. O que você e eu chamamos de “arborização urbana” uma ave chamaria de hábitat. Se você vir no Google Earth uma cidade “em negativo”, prestando atenção não nas construções, mas sim no espaço entre elas, vai ver que uma cidade é um mosaico de pequenas “ilhas” de vegetação, geralmente (infelizmente nem sempre) ligadas por uma malha de “corredores” estreitos de vegetação seguindo o caminho das ruas. Cada rua bem arborizada é como uma floresta linear com estrutura simplificada, arcadas de vegetação se encontrando lá no alto, jardins suspensos para várias espécies de aves. Essas “ilhas” e “corredores” são a cidade para outros habitantes que não nós. As aves compartilham os mesmos canais sensoriais conosco – sua percepção é predominantemente visual e secundariamente auditiva, como a nossa. Por isso estão entre os animais mais fáceis de se ver, e entre os que melhor podem ver, lá de cima, em cores e com visão acurada, o curioso mundo desses estranhos primatas apressados daqui de baixo. As vidas em paralelo às nossas em muitas cidades brasileiras incluem a pequena cambacica (Coereba flaveola), que vem beber nos vidros para beija-flores; os próprios beija-flores de várias espécies; os siriris (Tyrannus melancholicus) pegando insetos no ar em acrobacias que avião algum jamais igualará; os versáteis bem-te-vis (Pitangus sulphuratus) com seus cantos inconfundíveis; a bela saíra-amarela (Tangara cayana) e muitos outros. Mais difícil de ver numa cidade, mas ainda possível de encontrar, é o pássaro de mais bom gosto de todos, o tiê-sangue (Ramphocelus bresilius), com sua exuberante plumagem rubro-negra. Nem só de pequenos passarinhos vive a avifauna urbana. Há nas cidades mais surpresas que a nossa vã imaginação poderia supor. Numa reentrância da parede de um andar alto do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, na inóspita ilha do Fundão, no Rio, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro capturaram nada menos que um falcão-peregrino (Falco peregrinus). Você leu certo, uma das mais espetaculares aves de rapina do planeta, o animal mais veloz domundo (até 300 quilômetros por hora em mergulho). Tive a sorte de ver o bicho, azul-acinzentado, 98 centímetros de envergadura, um migrante provavelmente vindo da América do Norte. Foi anilhado e solto, para angústia dos pombos das redondezas. Voltou por vários anos. A cada dia, Vera Riscado e dos heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 232 233 centenas de pessoas entravam e saíam do Hospital Universitário sem nem imaginar que a trinta metros sobre a cabeça delas estava um falcão-peregrino. Espetáculos noturnos À noite o movimento nas ruas muda, e não só para nós. Em grandes árvores que estejam frutificando, você pode assistir a um verdadeiro espetáculo noturno de morcegos. Conheço uma árvore assim, umafigueira na rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Grandes morcegos frugívoros, de meio metro de envergadura, fazem repetidas passagens na árvore, pegando frutos a cada vez. O chão fica coalhado de frutos e basta você ficar parado perto da árvore para ver um verdadeiro balé aéreo dos grandes morcegos voando agilmente, às vezes apenas a centímetros acima do chão, e desviando de você com grande habilidade. Nunca soube ao certo que espécie era. Sei pouco de morcegos, e digo isso sem nenhum orgulho. Mas Marco Aurélio Mello, um ex-estudante meu que hoje é professor da Universidade de São Paulo, sabe muitíssimo. Para Marco Aurélio, é claro que só seria possível dizer ao certo com o bicho nas mãos, mas o porte e o comportamento que descrevi sugerem Artibeus lituratus. O mais espantoso, porém, é que essa figueira fica em frente a um McDonald’s, a menos de dez metros de distância, mas a indiferença das pessoas com os bichos é tão grande que não me lembro de já ter visto uma pessoa sequer reparando naquele espetáculo. Nem mesmo para sentir medo, esse desinformado medo que vem de achar que todos os morcegos chupam sangue – o que só uma ínfima minoria das espécies faz, e certamente não esses morcegões frugívoros. Como esses morcegões veem o mundo das pessoas apressadas na calçada da Visconde de Pirajá? Bem, como eles ouvem o mundo talvez seja uma pergunta mais adequada! No seu mundo de escuridão, não poderiam depender muito da visão para achar as coisas, e não dependem mesmo. Cada um daqueles Artibeus (ou presumíveis Artibeus) desvia de nós orientado por um sofisticadíssimo sonar. Eles emitem vozes muito poderosas e se orientam pelos ecos da sua voz ao bater nos diferentes objetos. Morcegos emitem pulsos sonoros numa frequência altíssima – no caso de um insetívoro, até 200 pulsos por segundo. Assim sendo, também recebem ecos com muita frequência. Isso permite à sua mente, processando essa informação, perceber o ambiente à volta do bicho – tamanho e forma dos objetos, velocidade em relação a eles, etc. – com um imenso grau de detalhe. É difícil imaginar como um morcego percebe o mundo dessa forma, mas é possível fazer uma boa – e fascinante – especulação. O ponto de partida é perceber que uma imagem que vemos não é uma mera coleção de objetos no mundo lá fora: é como a nossa mente percebe e processa a luz que vem desses objetos. É bem possível que uma mente que recebe tanta informação do sonar processe essa informação como imagens – tridimensionais e tudo. Assim, um morcego formaria o que chamamos de imagem – uma riquíssima representação mental do mundo – com a audição, e não com a visão. É claro que não dá para nos colocarmos dentro da cabeça de um morcego e ver como ele percebe o mundo; mas é uma pena, porque seria uma experiência maravilhosa. Você já pensou no mundo de uma prosaica lagartixa de casa? Aquelas lagartixas que há na parede da sua casa são uma espécie exótica, Hemidactylus mabouia, que é um bicho africano que chegou aqui de navio durante a colonização portuguesa. As lagartixas vivem num fantástico mundo bidimensional e que não respeita gravidade. Andam sempre coladas a superfícies, mas não importa se a superfície em questão é um assoalho, uma parede ou mesmo um teto. Lagartixas ficam completamente à vontade não só em superfícies verticais como até mesmo de cabeça para baixo, quando as forças de Van der Waals estabelecidas entre as cerdas de Vera Riscado uma figueira [espaço] 234 235 suas patas e o teto as mantêm firmemente aderidas. Quando acaba sua jornada e você vai dormir, começa a jornada delas, em longas e pacientes emboscadas a insetos cujas populações elas ajudam a controlar. Mas quem de nós pode sequer imaginar um mundo como o delas, andando pelas superfícies verticais com tanta tranquilidade como pelas horizontais, e mais, sendo capaz de ignorar a lei da gravidade, que tão completamente rege nossas vidas? As nossas janelas Há muitas vantagens em manter e incentivar a vida nas cidades. Por exemplo, por que cidades não são muito mais utilizadas na fixação de CO2 para mitigação das mudanças climáticas globais? Não estou falando de plantar uma árvore aqui ou ali, mas do plantio de milhões de árvores. Aglomerações urbanas cobrem uma área nada desprezível e que só tende a aumentar. Há péssima arborização em muitas cidades ou em partes da maioria das grandes cidades. Por que os governos e as ONGs, que frequentemente investem em projetos de reflorestamento em áreas rurais, não investem mais em maciços projetos de revegetação urbana com árvores nativas? Isso é feito, sim, mas ainda longe da escala desejável. São ações relativamente baratas e que empregam muita gente. A revegetação urbana traria múltiplos benefícios: fixar CO2, amenizar o clima das cidades e, claro, fornecer hábitat para milhões de outras vidas. Há ainda outras razões, menos óbvias mas igualmente importantes, para se preservar a natureza urbana, e em particular a fauna urbana. Quando se diz que uma cidade (ou uma parte dela) foi bem-sucedida em melhorar suas condições “ambientais”, o que dizemos? O “ambiente” a que nos referimos é para nós, é claro. Mas o que dizemos? Os peixes voltaram ao Tâmisa, várias espécies de aves voltaram à lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro, peixes e aves voltaram ao restaurado rio Cheonggyecheon em Seul, na Coreia do Sul. A fauna urbana nos indica quando recuperamos um lugar para nós. A presença de outros seres vivos é indicadora de quando temos um mundo saudável para nossas próprias psiques. É bem conhecido que faunas urbanas são pobres em número de espécies se comparadas com a maioria dos ecossistemas naturais. No entanto, como dizem, a gente só protege o que ama, e só ama o que conhece. Esta é a natureza com a qual a gente está em contato durante a maior parte das nossas vidas, portanto nossa maior chance de aprender a amar a natureza em geral. Para muitos de nós, é a maior chance de despertar a nossa biofilia – a nossa tendência inata de gostar de outros seres vivos. Uma das recordações mais vivas da minha infância é a das cigarras cantando nas ruas de Ipanema, no Rio de Janeiro. Na época do ano quando elas apareciam, era um som fortíssimo, insistente, que dominava tudo. Minha admiração ao descobrir que tudo aquilo era produzido por aquele animalzinho discreto foi um dos primeiros momentos de que me lembro dessa sensação de maravilhamento que me fez gostar de bichos e natureza. Precisamos de cidades, claro. A crescente urbanização é uma das maiores tendências da humanidade, e isso não vai mudar nas próximas décadas. Mas num mundo do futuro pelo qual vale a pena sonhar, as cidades não seriam mais monumentos à separação homem-natureza. Seriam, ao contrário, uma celebração da recuperação dos nossos laços com o restante da natureza e do entendimento de que nosso destino depende disso. Assim como para Birdy, as aves não apenas estão nas nossas janelas: elas são as nossas janelas, para um mundo que estamos ignorando perigosamente demais. 236 237 UM CAMINHO PARA A EMPATIA Úrsula parou e esticou os olhos procurando por Babyl. Ela tinha ficado um pouco para trás outra vez. Era ela atrás daquelas acácias? O brilhosob as mais benignas condições ambientais”, nas palavras de Fisher. Isso claramente indicava que os mastodontes estavam em condições corporais muito boas na época da sua extinção. Ou seja, os mastodontes tinham morrido de barriga cheia. Dan Fisher assim expressa a conclusão óbvia: “dados de história de vida derivados da análise de presas dos mastodontes da região dos Grandes Lagos vão contra as expectativas baseadas em modelos de mudança climática, mas seguem de perto os padrões esperados por caça”. Antes de tudo, isso é belíssima ciência, criativa, utilizando com habilidade as predições das hipóteses e a evidência disponível para responder a uma pergunta difícil. Claro que é só mais uma pincelada na construção de uma pintura muito mais geral, mas é um trabalho extremamente elefante – perdão, extremamente elegante. Só me pergunto se Dan Fisher não deveria ser mais ambicioso em relação 30 31 às publicações para onde manda seus trabalhos. Para mim, se uma coisa dessas não é para sair na Science (a mais prestigiosa revista científica do mundo), então eu não sei o que é. Por que relutamos em aceitar nosso papel nas extinções? Quem prender, então, pela morte dos mastodontes? Ninguém. Seria muito cômodo olharmos de nossa posição atual, de uma sociedade extremamente destrutiva para a biodiversidade e para o planeta, e condenarmos os nossos antepassados por terem extinguido os mastodontes e tantos outros. Mas tentemos nos colocar, apenas por um instante, no lugar deles. Eles não tinham agricultura ou bichos domesticados para fornecer alimento – a agricultura e a domesticação, certamente não por coincidência, foram inventadas logo depois da extinção da megafauna. Também – o que talvez seja ainda mais importante –, ao colonizarem mais e mais novos campos de caça, não tinham como saber sequer que o mundo tinha fim. Como, então, poderíamos esperar deles que fossem previdentes no uso de seus recursos? O importante, a respeito das extinções do Quaternário, não é encontrar culpados, mas aprender suas lições. Não consigo deixar de pensar que muita gente ainda tem dificuldade em aceitar que essas extinções foram causadas pelos humanos, apesar de todas as evidências, porque isso ajuda a manter a ilusão de que nós, afinal, ainda não causamos tanto estrago assim à natureza. Isso também explica por que a nossa cultura dá tão pouco destaque às numerosas extinções históricas mais recentes, nas quais o papel do homem é indiscutível (ver capítulos seguintes). O problema é que minimizar a gravidade do que temos feito tende a levar à cômoda posição de que, para lidar com a crise ambiental, não é preciso mudar tanto assim nossas economias e nossos modos de vida. O trabalho de detetive de gente como Dan Fisher ajuda a mostrar o quanto é errônea e prejudicial essa percepção. Aceitar que o homem já extinguiu, sim, milhares de espécies, é um ponto fundamental para mudar nossa visão da história e, a partir disso, melhorar nossas atitudes com relação à natureza. Reconhecer a existência de um problema, afinal, é o primeiro passo para poder resolvê-lo. Vera Realce [Verificar. Não seriam os textos/crônicas sequintes? Serão chamados de capítulos?] 32 33 A MÁQUINA DO TEMPO: FLACOURT E A FAUNA PERDIDA DE MADAGASCAR Quem nunca sonhou viajar no tempo? Esse velho sonho da humanidade tem sido um tema frequente da ficção, pelo menos desde que H. G. Wells popularizou a ideia no clássico A Máquina do Tempo, em 1895. Mas sempre foi também um sonho impossível. A física nos diz que, em teoria, você pode viajar contra o tempo se conseguir se mover numa velocidade próxima à da luz e continuar inteiro(a). No entanto, até onde se sabe, isso é uma virtual impossibilidade tecnológica. Não podemos matar a nossa curiosidade sobre o futuro distante, e os passados gloriosos também não voltam mais. O mundo dos mamutes, o do antigo Egito e o do Império Romano são mundos maravilhosos que desapareceram há muito tempo e que nenhum homem ou mulher da era moderna teve o privilégio de conhecer. Ou não? O Egito e o Império Romano não tiveram mesmo jeito. Mas um homem moderno teve a fantástica chance de ter, diante dos seus olhos, um vislumbre do mundo desaparecido dos mamutes. Os últimos redutos da megafauna extinta Por “mundo dos mamutes” na verdade eu me refiro à megafauna extinta nos últimos cinquenta mil anos. Já vimos isso no capítulo anterior, mas meu ponto aqui é que, em todos os continentes, essas extinções estavam basicamente completas há uns dez mil anos, com exceção de um alce irlandês aqui ou uma preguiça-gigante acolá. Em todos os continentes, eu disse, mas não nas ilhas, onde as extinções só ocorreram vários milhares de anos depois – pela óbvia razão de que nelas o homem só chegou mais tarde. A megafauna só desapareceu há uns cinco mil anos no Caribe, há uns quatro mil no mediterrâneo, o mamute também há uns quatro mil anos em Wrangel (uma ilha ao norte da Sibéria) e os moas há menos de mil anos na Nova Zelândia. Mas uma das histórias mais espetaculares e menos conhecidas é a de Madagascar. Madagascar é a quarta maior ilha do mundo, com 587 mil quilômetros quadrados (maior que a Espanha). Embora fique logo ao lado da África, no Oceano Índico, nunca foi conectada geologicamente com o continente africano, porque era uma parte diferente de Gondwana, o supercontinente sul, de onde se separou há uns 90 milhões de anos. Madagascar é famosa por sua riquíssima biodiversidade, grande parte da qual é endêmica, ou seja, são espécies encontradas apenas lá. A fauna é bem conhecida, inclusive por causa do recente empurrão hollywoodiano. Entre os mamíferos, por exemplo, há uma grande variedade de primatas (lêmures e aye-ayes, entre outros) e os temíveis predadores, que são as fossas. Mas não há muitos animais realmente grandes; nenhum lêmure, nem as fossas, tem mais de dez quilos. O que menos gente sabe é que a biodiversidade atual de Madagascar é apenas um pálido remanescente de uma maravilhosa riqueza perdida. Até pouco mais de mil anos atrás, Madagascar tinha uma megafauna diferente de tudo – como quase qualquer coisa naquela ilha – e espetacular como poucas. Para começar, havia umas sete espécies de gigantescas aves não voadoras, conhecidas como aves-elefantes. As menorzinhas, como Mullerornis agilis, tinham só 150 quilos. Já a Aepyornis maximus chegava a três metros de altura e quase meia tonelada – as maiores de todas as aves conhecidas. Aepyornis foi provavelmente a origem da lenda do Vera Realce [Confirmar se será mesmo "capítulo".] [Está se referindo ao texto anterior?] Vera Riscado Mediterrâneo 34 35 Roc, a ave gigante mencionada por Marco Polo em 1298. Entre os lêmures havia nada menos que umas dezessete espécies hoje extintas, incluindo vários espantosos lêmures gigantes. O maior deles, Archeoindris, chegava a uns duzentos quilos – o tamanho de um gorila. Megaladapis edwardsi, o koala lemur, era um pouco menor, talvez uns setenta quilos. Além disso, havia outros bichos estranhos, todos eles nos tamanhos errados – fossas gigantes (Cryptoprocta spelea) com o dobro do peso das atuais, três espécies diferentes de hipopótamos-pigmeus dos gêneros Hippopotamus e Hexaprotodon e tartarugas terrestres de 150 quilos (Aldabrachelys abrupta). O isolamento salvador desses bichos demorou a acabar: Madagascar foi uma das últimas grandes massas de terra alcançadas pelos humanos. Os primeiros colonizadores, ao contrário do que se esperaria, vieram da Indonésia, há uns 2.300 anos; os vindos da África só chegaram uns mil anos depois disso. Não há dúvida de que após a chegada humana a megafauna foi intensamente caçada; já foram encontrados, por exemplo, vários ossos dos hipopótamos- -pigmeus e lêmures gigantes com vestígios claros de consumo humano. Correspondentemente, toda a megafauna de Madagascar desapareceu entre a primeira chegada humana e uns mil anos atrás. Ou melhor… quase toda. Flacourt e seu livro No século XVII, osdo sol baixo atrapalhava a visão. Mas então Úrsula viu a pequenina. Lá vinha Babyl, penosamente, em seus passinhos curtos, se juntar aos outros. Pilar estava com ela, incentivando-a, como sempre. Úrsula olhou para elas com carinho. Perto das duas irmãs, Vasily parecia andar meio a esmo, divertindo-se, explorando o novo lugar com aquela sua curiosidade infantil. Um pouco mais tranquila, Úrsula prosseguiu, liderando os outros. Concentrada, ela avançava devagar, parando de vez em quando. Babyl não podia ir mais rápido. Ely, com seus joelhos fracos, também não aguentaria. Desde criança os joelhos dele nunca tinham sido bons, imagine agora que já era quase um velho. O calor daquele dia bonito na savana também não tinha ajudado em nada. Úrsula estava com sede, os outros também deveriam estar. De repente ela sentiu uma inquietação, e por um momento se esqueceu até da sede. Ela havia estado naquele lugar anos atrás, lembrava ainda do rio, promessa de uma vida melhor para todos eles. Mas agora era preciso chegar à água, rápido, e ela refazia em sua mente o caminho até lá, costurando memórias antigas. Enquanto procurava o caminho, ela sentia uma vaga sensação de perigo, que não conseguia entender bem. Enquanto Úrsula estava imersa em suas meditações, Vladimir passou a seu lado andando rápido na direção contrária, gritando, fazendo uma barulheira, com aquela exuberância típica da juventude. Ele foi lá para o fim da fila, atrás de Tania e da bela Remedios, que pareciam muito distraídas andando juntas. Úrsula prosseguiu, caminhando devagar ao lado de Ely. Procurando o caminho, eles se viraram em direção ao sol já baixo no horizonte, sentindo o vento bater em suas costas. Ely parecia querer lhe dizer algo… Foi então que vieram os tiros. Úrsula nem soube de onde vieram. O matraquear seco de um fuzil automático quebrou abruptamente o silêncio da savana, ecoou nas árvores em volta, pareceu vir de todos os lados. Ela não sentiu nada, mas a seu lado o impacto devastador da rajada de balas acertou Ely em cheio. Os joelhos das patas dianteiras de Ely se dobraram; sua tromba tocou o chão. Aqueles joelhos que sempre tinham sido seu ponto fraco, agora rígidos demais num elefante idoso, não lhe tinham dado rapidez suficiente para fugir, naquela fração de segundo entre perceber os caçadores e ouvir os tiros. Ely tentou penosamente se erguer, gritando de dor e de medo, sem conseguir esticar as patas dianteiras, sem conseguir nada mais do que dar o flanco para os caçadores. Outra rajada o retalhou; por um segundo um brilho branco fez um arco pelo ar, e então tudo se perdeu numa confusão de cinza e vermelho. O imenso elefante tombou para o lado, ainda se debatendo, até que seus movimentos foram parando aos poucos. O maior do grupo, com as maiores presas, Ely tinha sido o primeiro alvo. Úrsula gritava descontrolada, em pânico, sem entender a tragédia que se desenrolava rapidamente à sua volta. Ouvindo os gritos lancinantes da matriarca do grupo, Vladimir veio correndo lá de trás. Ele tinha jogado fora sua única chance. Escondido atrás das fêmeas adultas Remedios e Tania, Vladimir tinha passado despercebido para os caçadores. Mas agora, correndo loucamente na direção dos fuzis automáticos, com seus hormônios adolescentes em fúria, era um alvo perfeito. Os tiros o pegaram em cheio na cabeça. Vladimir parou, titubeou, desequilibrou-se e rolou para frente. Caiu sobre as costas; e as patas ainda ficaram se movendo no ar por alguns instantes em movimentos espasmódicos. Vladimir era 238 239 só um macho jovem, mas suas presas já eram grandes o suficiente, os contratantes iriam pagar bem por elas. Vendo sua vida ser destruída em segundos à sua volta, Úrsula rodopiava em confusão total, sem saber se enfrentava os caçadores ou se ia lá para trás para proteger suas filhas e os outros. Em sua oscilação desordenada, avançou alguns metros na direção dos caçadores, e foi então que eles atiraram. Não precisavam. Ela não tinha marfim. Mas naquela confusão geral, naquela embriaguez de sangue e de morte, tinha bastado que alguém apertasse um gatilho por dois ou três segundos. Ferida de morte, vendo o manto vermelho que lhe subia aos olhos, a velha matriarca olhou pela última vez lá para trás, viu suas filhas fugindo como podiam, ou como Babyl podia. Então suspirou e se deixou tombar. Instantes depois, lá atrás, Babyl parou exausta numa clareira, Pilar sempre a seu lado. Vasily tinha vindo, aterrorizado também, para se encontrar com elas. Os três não entendiam o que tinha acontecido, não entenderiam nunca, mas com o tempo viria a percepção de que tinham se tornado órfãos. Meses mais tarde, Vasily voltaria ali e contemplaria longamente os ossos de Úrsula. Para ele, a infância tranquila se fora para sempre. Anos depois, Vasily também teria uma morte violenta, abatido por participar de um daqueles grupos de machos solitários, desajustados e violentos que atacavam as plantações à volta. Uma história possível Você achou no início que eu estava falando de pessoas? Se achou, teve ótimas razões. A nossa literatura costuma falar sobre nós, humanos – sobre nossos sentimentos, nosso sofrimento, nossas emoções. Como poderia ser de outra forma? Nós somos animais sociais, importamo-nos uns com os outros, e é o nosso próprio universo emocional que compartilhamos. Shakespeare, Machado de Assis ou Gabriel García Márquez são verdadeiros tratados sobre a natureza humana. A literatura faz nossas vidas melhores e tem feito o mundo melhor. Mas minha pergunta é: será que precisamos falar sempre apenas de nós? Hoje, esse nosso foco absoluto em nós mesmos faz cada dia menos sentido, à medida que a ciência vem nos mostrando a riqueza das vidas emocionais de outras espécies que compartilham o planeta conosco. Veja, por exemplo, os elefantes. A narrativa acima é fictícia, mas poderia ser real – bem, pelo menos fiz o melhor que pude. Usei apenas comportamentos já observados em estudos reais com elefantes africanos. Esses animais inteligentíssimos formam grupos sociais nos quais os mesmos indivíduos vivem juntos por anos. Têm aparências e personalidades muito diferentes, facilmente reconhecíveis por um estudioso, assim como uns pelos outros. Sua sociedade é matriarcal; os grupos são liderados por fêmeas adultas como Úrsula. Solidariedade do grupo com um filhote que tenha nascido com um defeito físico, como Babyl, já foi observada várias vezes. Elefantes órfãos se tornarem desordeiros e revoltados, como Vasily, também é comum. Já o comportamento de contemplar longamente os ossos de outros elefantes – mas não de outros animais – levanta a fascinante possibilidade de que esses animais têm alguma concepção da morte, assim como vínculos afetivos que sobrevivem a ela. Os nomes que usei também são de bichos reais. São nomes dados pela pesquisadora Cynthia Moss a alguns elefantes da população de Amboseli, no Quênia, que ela estudou por mais de quarenta anos. Por falar nisso, ela deve gostar de García Márquez, porque os nomes de várias das fêmeas (como Úrsula, Pilar e Remedios) são de personagens femininas de Cem anos de solidão. Mais que isso, Babyl e Ely são baseados em elefantes reais, com as características físicas e o relacionamento com o grupo que eles tinham nos estudos de Moss. 240 241 Universos ao nosso redor Enquanto você está lendo isso, um grupo de elefantes como o de Úrsula vagueia em algum lugar do nosso planeta – hoje sabemos que com suas próprias personalidades, suas próprias emoções, suas próprias histórias, suas próprias vidas. Mas quanta atenção nós prestamos a isso? Enquanto nossa espécie já parece estar esgotando a sua imensa capacidade de olhar apenas para seu próprio umbigo, sequer olhamos para a maravilhosa descoberta que seria a de outros universos emocionais inteiros, inéditos, à nossa volta. Há alguns anos deparei com uma entrevista de Robert Ballard – um explorador subaquático, famoso pela descoberta dos restos do Titanic,franceses fundaram entrepostos de comércio na costa leste de Madagascar, e Étienne de Flacourt foi nomeado governador da nova colônia. Flacourt, um francês de Orléans, chegou à ilha aos 41 anos, em 1648. Ele passou os sete anos seguintes de sua vida lá – anos bem difíceis naqueles distantes confins. Flacourt voltou à França em 1655 e acabou morrendo afogado num naufrágio em 1660. Dois anos antes, porém, ele havia publicado um livro notável. O título era Histoire de la grande isle Madagascar, mas, visto da nossa perspectiva atual, bem poderia se chamar A máquina do tempo. Teria Flacourt ainda visto uma parte da megafauna perdida de Madagascar? Procurei Histoire de la grande isle Madagascar com imensa curiosidade. Google salva: lá estava o livro, disponível gratuitamente. Mas assim que abri o arquivo minha alegria desapareceu. Quinhentas e oito páginas numa impressão difícil de ler e… em francês arcaico. Ninguém merece! Qualquer possível menção à megafauna também estava perdida em algum lugar lá dentro. Felizmente, consegui ajuda de um colega da Guiana Francesa, Benoit de Thoisy. Agradeço aqui, de coração, a Benoit, cuja ajuda foi fundamental. Ele conseguiu encontrar e traduzir o que eu estava procurando – algumas passagens que mostram que Flacourt viu, sim, um pouco de um mundo perdido no tempo. Na página 154, Flacourt escreve que viu, perto do lago Lipomani, o “tretretretre”, “um grande animal, do tamanho de um bezerro de dois anos de idade, com cabeça redonda e uma face de homem, pelo um pouco crespo, rabo curto e orelhas de homem, e mãos e pés parecidos com os de macacos”. Essa espantosa descrição aparece entre várias outras, inclusive de espécies que ainda vivem em Madagascar – o que sugere que o autor está de fato falando de observações, e não de fantasias. A descrição do “tretretretre” parece se encaixar bastante bem com Megaladapis edwardsi – o grande lêmure terrestre de setenta quilos. Também parece se encaixar bem o fato de que essa espécie é, entre todos os lêmures extintos, aquela com ocorrência mais recente no registro fóssil – última datação conhecida de apenas 630 anos atrás (com incerteza de 50 anos para mais ou para menos). Tudo indica, portanto, que Flacourt ainda viu o último dos fantásticos lêmures gigantes vivo em pleno século XVII. Mas Flacourt também teve contato com algo talvez ainda mais espetacular. Em outro trecho ele fala da “vouropatra”, que era “… Vera Realce [Isso ficou redundante: "confins" já determina um local bem distante.] Vera Realce [Não separar do texto que vem em seguida.] 36 37 uma grande ave que assombra os Ampatres [uma região no sul da ilha] e põe ovos como os dos avestruzes; para que as pessoas desses lugares não os peguem, eles procuram os lugares mais solitários”. A referência aos grandes ovos é a pista mais clara: Flacourt teve contato com as aves-elefantes, provavelmente Aepyornis maximus. Essa espécie é a ave-elefante com datações mais recentes no registro fóssil, a última das quais estimada em meros 840 anos atrás. Quando os europeus chegaram a Madagascar, gigantescos ovos de aves-elefantes – do tamanho de bolas de futebol – ainda eram muito comuns de se encontrar, e até pelo menos a década de 1980 algumas das praias das costas sul e sudoeste ainda eram quase que pavimentadas com suas cascas quebradas. Isso tudo sugeria uma extinção muito recente das aves-elefantes. Tudo indica que Flacourt teve contato com as últimas dessas espetaculares aves gigantes, ainda vivas no século XVII. Incidentalmente, o comportamento que Flacourt descreve para as aves, procurando os lugares mais isolados, pode refletir uma resposta à pressão de caça. Mas isso deve ter sido pouco demais, tarde demais, para salvar a ave-elefante. A última máquina do tempo? Quando Flacourt chegou a Madagascar, em 1648, nem imaginava que havia encontrado uma máquina do tempo. Lá, ele foi provavelmente o único homem moderno que teve a chance de ver e escrever sobre os últimos remanescentes de um mundo maravilhoso que perdemos para sempre. Não há mais máquinas do tempo assim – nós já acabamos com todas elas. Mas o futuro está em nossas mãos e podemos agir diferente. Como seria triste se nossos filhos e netos um dia viessem a sentir falta de ter uma máquina do tempo, eles também, para que pudessem conhecer os tigres, os orangotangos ou as onças-pintadas. POR QUE NÃO EXISTEM PINGUINS NO HEMISFÉRIO NORTE? “O que os olhos não leem, o coração não sente.” Provérbio popular (versão) Você já pensou por que não existem pinguins no hemisfério norte? Todos nós aprendemos que pinguins são encontrados apenas no hemisfério sul, na Antártida e adjacências. Implicitamente, isso nos é passado como sendo um fato da natureza – como se sempre tivesse sido assim. Mas não é o caso. A resposta para a nossa questão é muito mais interessante que isso e, ao mesmo tempo, desconcertante e perturbadora. Não existem pinguins no hemisfério norte porque os humanos os extinguiram em 1844. A ave que foi originalmente chamada de pinguim é hoje conhecida – menos do que deveria ser – pelo nome de grande alca (great auk). Seu nome científico – Pinguinus impennis – foi baseado em seu primeiro nome vulgar: eram chamados de pinguins pelos marinheiros do Atlântico norte. Os pinguins que hoje conhecemos, do hemisfério sul, foram descobertos depois e receberam o seu nome exatamente porque se assemelhavam às grandes alcas – e não o contrário. Portanto, embora as alcas e os pinguins do hemisfério sul pertençam a famílias diferentes de 38 39 aves, faz todo sentido dizermos que as alcas eram os pinguins do hemisfério norte. Elas eram aves de grande porte, não voadoras, mas excelentes nadadoras, muito comuns no Atlântico norte em tempos históricos. Deram azar, portanto, de viverem perto de uma das principais rotas comerciais do mundo. Eram caçadas em imensa quantidade entre os séculos XVI e XIX – enchiam os porões dos navios para servir de alimento, forneciam plumas muito apreciadas, eram usadas como combustível e também como isca para a pesca de bacalhau e lagostas. Sob essa intensa pressão, as alcas declinaram inexoravelmente até uma situação desesperadora. Então, no dia 3 de junho de 1844, três marinheiros islandeses avistaram o último casal de grandes alcas, denunciadas por sua grande estatura em meio às aves marinhas menores, na pequena ilha de Eldey, ao largo da Islândia. Os marinheiros correram para as grandes alcas com porretes. As alcas tentaram desesperadamente alcançar a segurança da água, mas uma foi encurralada contra as rochas, e a outra alcançada já à beira d’água. Ambas foram mortas a porretadas. Em seu ninho havia um ovo, que se acredita ter sido esmagado sob a bota de um marinheiro. É por isso que não existem (mais) pinguins no hemisfério norte. Não, não é um fato da natureza, infelizmente. Nós fizemos isso ser assim. Uma imensa coleção de maravilhas desaparecidas As grandes alcas não estão sozinhas – longe disso. Há uma imensa coleção de espécies de animais que nós extinguimos nos últimos séculos. Na maioria dos casos, são extinções muito bem documentadas e conhecidas pela ciência, de espécies que todos nós deixamos de conhecer por muito pouco. Muitas delas eram animais maravilhosos, espetaculares, que fariam o mundo vivo parecer muito mais rico e maravilhoso do que já é. Eu estou exagerando? Bem, que tal um peixe-boi de oito metros? Havia, sim, um peixe-boi de oito metros. Um animal dócil, inteligente, com uma elaborada vida social. Nós acabamos com ele em 1768. A vaca-marinha de Steller, Hydrodamalis gigas, que podia alcançar talvez umas dez toneladas, era o maior mamífero vivente nesse planeta em tempos históricos, fora as grandes baleias. Esse gigante habitava as águas costeiras das desabitadas ilhas Commander, no extremo leste da Sibéria, onde foi descoberto, em 1741, por um naturalista alemão a serviço da Rússia, Georg Steller. As vacas-marinhas eram pacíficas comedoras de algasmarinhas, que raspavam das rochas. Steller escreveu que havia fortes laços sociais entre elas, incluindo uma espantosa solidariedade. Quando uma era arpoada, as outras tentavam impedir que ela fosse arrastada para a margem, fazendo um círculo à sua volta; várias colocavam a si mesmas nas cordas ou tentavam tirar o arpão do corpo daquela que havia sido ferida. Steller também observou que um macho voltou dois dias seguidos para junto de sua fêmea morta na costa. Nada disso impressionou muito os pescadores russos, que fizeram uma verdadeira corrida para caçar aquele animal tão rico em carne e óleo, e com uma pele valiosa. Em 1768 – apenas vinte e sete anos depois de ter sido descoberta! – a vaca-marinha de Steller já estava extinta. E que tal a ave mais abundante do mundo? No século XIX, o naturalista John Audubon, um dos fundadores da ornitologia, ficou chocado com a abundância da pomba migratória (Ectopistes migratorius), na América do Norte. Os bandos eram tão numerosos, que há relatos confiáveis de que obscureciam a luz do sol ao passar; dizia-se que passavam por vários dias seguidos. Colônias de nidificação chegavam a ter 160 quilômetros de comprimento. Audubon estimou que devia haver entre cinco e dez bilhões de pombas migratórias na América do Norte – o que as fazia, de longe, as aves mais abundantes do planeta. Mas aquele foi o século da desenfreada expansão americana rumo ao oeste, que causou o colossal massacre da pomba migratória. Elas foram caçadas aos Vera Riscado neste 40 41 milhões para comida – forneciam uma carne abundante e barata para a população crescente – e por simples xporte. Caçar pombas migratórias e coletar seus ovos era um xporte de fim de semana para a família inteira, muito popular entre os americanos do século XIX. Havia matanças mais sérias: em uma competição de caça da época, o troféu seria do virtuoso caçador que primeiro matasse trinta mil pombas migratórias. Você leu certo: trinta mil, só pelo vencedor. Com esse tipo de pressão, as populações da pomba migratória começaram a diminuir, e houve quem dissesse que era preciso limitar a caça, ou a espécie acabaria desaparecendo. Foram chamados de alarmistas; riu-se deles. Houve quem dissesse da pomba migratória que era óbvio que havia tantas que nunca iriam acabar – mais ou menos como alguns hoje dizem da Amazônia. Mas as populações continuaram diminuindo e o inacreditável aconteceu. Em 1900, a espécie se extinguiu na natureza. No dia 1º de setembro de 1914, Martha, a última pomba migratória, morreu no Zoológico de Cincinnati. Estava extinta a espécie de ave mais abundante do planeta no século XIX. E por que não um lobo marsupial? Quando falamos em marsupiais, a maioria das pessoas imediatamente pensa em cangurus, ou nos gambás, tão comuns em nosso país. Mas até há poucas décadas havia um lobo marsupial, ou tilacino, um dos mais espantosos seres que já se viu. Poucos reparam no significado de um nome científico, mas raramente um nome científico é tão revelador quanto Thylacinus cynocephalus. Thyla quer dizer “bolsa”, cinus ou cynos quer dizer “cachorro” e cephalus quer dizer “cabeça”. Thylacinus cynocephalus, portanto, quer dizer “cachorro com bolsa com cabeça de cachorro”. Perdoe o pleonasmo do cientista que batizou o bicho, caro leitor. Experimente procurar por thylacine no Google images. O tilacino é tão parecido com um cachorro que qualquer leigo poderia facilmente confundi-los. A semelhança da cabeça é de fato tão extraordinária que apenas os dentes, uns dentes triangulares característicos de marsupiais, denunciam que se trata de um parente dos cangurus. Os quartos traseiros caídos e a cauda afinando gradualmente, como a de um canguru, também traem sua ancestralidade marsupial. Mas não se trata simplesmente de um canguru com crise de identidade, que acha que é cachorro. Isso é o mais interessante de tudo: o tilacino é um espetacular exemplo do fenômeno que os biólogos chamam de convergência evolutiva, ou seja, animais de linhagens muito diferentes – no caso, os mamíferos placentários (como nós) e os marsupiais – evoluindo formas similares em lugares diferentes, como adaptação a papéis ecológicos similares. O tilacino, comum na Austrália inteira até poucos milhares de anos atrás, sobreviveu na grande ilha da Tasmânia, ao sul do continente australiano, até bem dentro do século XX. Porém foi impiedosamente perseguido pelos colonizadores australianos, em represália à predação de suas ovelhas. A extinção do tilacino na natureza não teve nada de acidental; ao contrário, foi meticulosamente planejada e levada a cabo como política oficial do governo da Tasmânia. Com o objetivo de erradicar a “praga”, recompensas foram pagas para cada pele de tilacino entregue. À medida que os animais começaram a escassear, o valor da recompensa foi aumentado cada vez mais. Em fevereiro de 1937, o governo da Tasmânia, enfim, mudou de política e decretou uma lei protegendo a espécie. Tarde demais. O último tilacino conhecido, uma fêmea, tinha morrido no Zoológico de Hobart, capital da Tasmânia, cinco meses antes. Por negligência de seus tratadores, o animal foi deixado na parte exposta de sua gaiola, sem acesso a seu ninho protegido, e morreu de hipotermia numa noite fria de setembro. Há alguns registros não confirmados de tilacinos vistos na natureza nos anos seguintes. Um dos mais confiáveis é o de uma fêmea que teria sido morta por um fazendeiro com seus cachorros por volta de 1940. Dentro da bolsa da fêmea havia três filhotes. Não houve mais registros depois disso. Vera Riscado esporte. Vera Riscado esporte Vera Riscado Images 42 43 Deixei para o fim o meu favorito, se é que pode haver um favorito numa lista destas: o menor, o mais sutil, mas nem por isso o menos espetacular. Um animal tão fantástico que parece ter saído da mais imaginativa ficção, e que você e eu fomos privados de conhecer por poucas décadas. Morcegos voam, todos eles, certo? Claro. Sempre foi assim? Não. Em algumas ilhas do Pacífico, onde eram ausentes tanto grandes predadores como também roedores nativos, evoluíram várias espécies de morcegos terrestres. Eram animais bizarros, capazes de voar só uns poucos metros, mas que se moviam agilmente pelo chão da floresta nas patas de trás e nos cotocos das asas, exercendo o papel ecológico dos roedores. Eram tão bem-adaptados à vida terrestre que alguns tinham bolsas ao lado do corpo, onde recolhiam as asas. À medida que a colonização das ilhas do Pacífico avançava, animais introduzidos pelos humanos, como ratos e gatos, foram extinguindo os morcegos terrestres em ilha após ilha. As ilhas Salomão e Big South Cape, que permaneceram livres de ratos domésticos até muito recentemente, foram seu último refúgio. Mas mesmo ali os ratos chegaram em 1962 ou 1963, e em 1965 Mystacina robusta, a última espécie de morcegos terrestres, deixou de existir. É possível que ainda houvesse Mystacina quando você nasceu, ou pelo menos quando seus pais nasceram. Mas seus filhos não poderão mais vê-lo.1 Aprendendo com as lições da história É hora de desfazer uma ilusão bastante arraigada. Fala-se muito em espécies em extinção, mas muita gente acha que os humanos 1 Depois que escrevi este texto, descobri que uma espécie sobrevivente de Mystacina tinha sido redescoberta, num lugar isolado na ilha sul da Nova Zelândia, pelo pesquisador Colin O’Donnell e vários colaboradores – um achado fantástico. Há também um vídeo (disponível em: ; acesso em: 15 abr. 2024). Não, não são duas aranhas andando pelo chão no início do vídeo – já são eles, os morcegos. extinguiram até agora relativamente poucas espécies, logo nossa capacidade de extinguir espécies poderia estar superestimada. Não é o caso. Apenas de 1600 para cá foram comprovadamente extintas por nós pelo menos umas 120 espécies de aves, umas 60 de mamíferos e pelo menos 25 de répteis, entre muitas outras. Muitos desses casos,inclusive os aqui citados, são descritos em um livro maravilhoso, A Gap in Nature, de Tim Flannery e Peter Schouten. Além disso, já extinguimos mais de 600 espécies de plantas e provavelmente vários milhares de invertebrados, que são maisdesconhecidos. A lista continua crescendo: em 2006 foi a vez do baiji, o golfinho do Yang-Tsé. Isso tudo não inclui centenas de outras extinções de animais de grande porte causadas pelos humanos muito antes da Idade Moderna, que vimos antes. Por que essas coisas ainda são tão pouco divulgadas e discutidas? Eram animais espetaculares, fascinantes, são histórias que mexem com nossos sentimentos, mas nossa cultura não parece ter olhos para elas. Houve uma expressiva melhora nos últimos anos, mas ainda é raro encontrar algo sobre as extinções históricas em programas de televisão, livros e revistas, e por isso elas não atingem nossos corações e mentes. Acho que a melhor explicação para isso é mesmo a imensa capacidade que a nossa cultura tem de não olhar para aquilo que não lhe interessa – o que é ótimo para quem quiser manter o status quo, mas péssimo para quem queira virar o jogo. Quando eu era criança, história me parecia fascinante, mas ao mesmo tempo o menos aplicado ou menos útil de todos os assuntos. Minhas professoras sempre tinham o mesmo argumento sobre a importância do estudo da história: é preciso estudar história para aprender com ela e não repetir os mesmos erros. Hoje percebo como elas estavam certas. Como disse Paulinho da Viola na letra de “Dança da Solidão”, “meu pai sempre me dizia / meu filho tome cuidado / quando eu penso no futuro / não me esqueço do passado”. Vera Realce mais desconhecidos 44 45 O CÉU ONDE VOAVA O CONDOR “A praça é do povo como o céu é do condor”, escreveu certa vez Castro Alves. Será que a praça, que hoje é gradeada e precisa ser fechada à noite, ainda é tão do povo como costumava ser? Não estou tão certo. Mas pelo menos o céu, lá na imensidão dos Andes, ainda é do condor. Será? O que pode ser mais típico e representativo dos Andes do que Machu Picchu? Desfiladeiros vertiginosos, florestas tropicais e rios caudalosos lá embaixo, índios peruanos em roupas coloridas, ruínas incas nos interrogando após um sono de quinhentos anos. A nenhum céu mais do que a esse pertence um condor. Machu Picchu representa a essência dos Andes, do que a humanidade percebe como sendo os Andes. Essa essência, claro, inclui os condores. No entanto, eles não estão mais lá. Se você for a Machu Picchu e, como eu, vasculhar o céu, esperançosamente, à procura de um condor, você vai se decepcionar. Pergunte pelos condores e vão lhe dizer que eles desapareceram dali por volta do ano 2000. A causa da extinção aparentemente foi que os místicos que visitavam a famosa cidade perdida dos incas criaram um mercado para trajes cerimoniais que incluíam plumas de condor. Isso motivou uma intensa perseguição às aves, apesar de elas serem protegidas por lei. Há poucos anos, você ainda poderia ver a cena majestosa do voo do condor sobre as antigas ruínas e os imensos desfiladeiros. Hoje essa visão está perdida no tempo. Caminha para ser companheira, no esquecimento, daqueles que viveram suas alegrias e suas dores naquelas casas. Minha sensação de perda, de algo incompleto e mais pobre, foi imensa, quase violenta. Uma sensação impossível de descrever, mas possível – e essa é minha esperança – de compartilhar. Uma forma subestimada de extinção A esta altura cabe lembrar que os condores andinos, como um todo, não estão extintos. Mesmo no Peru não estão. No entanto, o que eu não sabia é que hoje só há um lugar, em todo o Peru, onde ainda é possível vê-los: um cânion isolado, com pouca interferência humana, perto de Arequipa, a segunda maior cidade do país. Os condores podem ser vistos em excursões meticulosamente organizadas. Os turistas acordam de madrugada para poder estar no lugar certo, empoleirados nas rochas certas, antes do nascer do sol. Um punhado de condores ainda resta por lá, e eles devidamente levantam voo e pairam sobre os desfiladeiros ao alvorecer, sendo recebidos com suspiros de admiração e espocar de flashes. Então, eles ainda existem. Mas ver um condor, espontaneamente, sem que seja preciso fazer uma operação de busca para abitats-lo, isso não existe mais. A minha ilusão, que também poderia ser sua, de que o condor ainda seria um elemento mais ou menos comum, trivial, da paisagem andina, está irremediavelmente perdida. O maior clássico da música tradicional peruana, popularizado por Simon e Garfunkel, está desatualizado. No céu sobre quase todos os Andes, el condor no abit más. O condor de Machu Picchu, como de tantos outros lugares, é um representante de um fenômeno que é característico do mundo moderno, mas cuja importância subestimamos: a extinção local. O zoólogo mexicano Gerardo Ceballos e o ecólogo norte- -americano Paul Ehrlich publicaram, em 2002, na Science, um elegante artigo intitulado “Mammal population losses and the extinction crisis” (“Perdas de populações de mamíferos e a crise de Vera Riscado encontrá-lo, Vera Riscado pasa más. [De onde veio esse abit ?] [O más tb é em itálico] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] heloisavasconcellos Sticky Note [descer] heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] 46 47 extinção”). Eles mapearam os locais, no mundo, onde 173 espécies de mamíferos eram encontradas no século XIX e onde as mesmas espécies são encontradas hoje. Essas são em sua maioria espécies de grande porte, para as quais se têm bons dados sobre sua distribuição geográfica nos dois momentos. Ceballos e Ehrlich dividiram o mundo em quadrados de dois graus de latitude por dois graus de longitude. Depois eles simplesmente verificaram, para cada espécie, em quantos quadradinhos ela era encontrada há duzentos anos e em quantos ela ainda é encontrada hoje. Como geralmente acontece em ciência, a elegância vem da simplicidade. As conclusões foram perturbadoras. Quase três quartos das espécies (72%) já se extinguiram em mais de metade da sua área de ocorrência original. Em média, cada uma delas perdeu 68% de sua área de distribuição. Essa porcentagem alcança, em média, 83% para os mamíferos asiáticos, 78% para os australianos ou 72% para os europeus. O condor (que, claro, não é um mamífero) está longe de ser uma exceção. O sumiço da maior parte de sua antiga distribuição geográfica é uma característica de muitas espécies em nosso mundo moderno. Isso tudo se refere a quanto cada espécie perdeu, mas ainda mais preocupante é o outro lado da moeda: quanto cada ecossistema já perdeu. Se uma espécie existe em cada vez menos lugares, é tristemente óbvio que em cada lugar deve haver cada vez menos espécies. Assim é. No sudeste da Ásia, por exemplo, 57% dos quadrados de dois por dois graus tinham perdido entre 75 e 100% de suas espécies. Isso quer dizer que em muitos lugares já temos faunas extremamente depauperadas. Se esses números já lhe parecem preocupantes, caro leitor, o pior ainda está por vir. É que a análise de Ceballos e Ehrlich é claramente muito conservadora. Afinal, dois por dois graus são quadrados gigantescos. Por causa da curvatura do planeta, seus tamanhos são variáveis, de acordo com a latitude do lugar em questão. Mas podemos dizer que, em média, cada quadrado desses cobre uma área de cerca de 30 mil quilômetros quadrados. Ora, uma espécie é registrada como sobrevivente em um quadrado se ela ocorre em uma única localidade que seja dentro de uma área tão imensa. No entanto, é muito provável que em várias outras localidades dentro do mesmo quadrado ela já tenha desaparecido. Ou seja, se Ceballos e Ehrlich tivessem usado quadrados menores, os números, sem dúvida, seriam muito piores. Nossos bosques não têm mais vida Trocando em miúdos, o que isso tudo quer dizer para um leitor não especialista, mas preocupadocom a conservação da natureza? Um dos argumentos prediletos dos que dizem que as preocupações dos conservacionistas são exageradas é que há cada vez mais espécies consideradas ameaçadas de extinção, mas até agora relativamente poucas espécies parecem ter sido extintas por nós. Claro que isso é uma visão errônea, que não leva em conta as espécies extintas pelos humanos na pré-história e na história, que vimos nos capítulos anteriores e que tendem a ser ignoradas em nossa cultura. Também não leva em conta espécies pouco conhecidas e pouco conspícuas, como as de insetos, por exemplo, que certamente já extinguimos por destruição de seus abitats antes mesmo de serem descritas pela ciência. Mas vamos considerar por um momento, apenas para efeito de discussão, que nós tivéssemos de fato extinguido poucas espécies até agora. Bem, isso tudo se refere a extinções globais. Uma extinção global ocorre quando uma espécie desaparece de todo o planeta. No entanto, os números de espécies já extintas não dizem nada sobre a quantidade de extinções locais (ou “perda de populações”, no título de Ceballos e Ehrlich). Extinções locais são eventos em que uma espécie é perdida num determinado lugar. Ceballos e Ehrlich mostraram que Vera Riscado hábitats Vera Realce 48 49 extinções locais são extremamente comuns, acontecem aos montes no mundo de hoje. Muitas espécies ainda não estão extintas, mas já sumiram da grande maioria dos lugares onde antes viviam. Vamos agora mudar o foco das espécies para os ecossistemas. O que isso quer dizer? Bem, onça, anta, queixada e muriqui são espécies típicas da mata Atlântica, certo? Errado! Não mais. A esmagadora maioria das – poucas – localidades onde ainda há mata Atlântica significativa não tem mais essas espécies. Por exemplo, um perturbador estudo sobre isso foi publicado por Gustavo Canale, Carlos Peres, Maria Cecília Kierulff e colaboradores, em 2012, na revista científica PLOS One. Com um esforço de campo brutal, eles foram a nada menos que 196 fragmentos de mata Atlântica na parte sul da região nordeste do Brasil, correspondendo mais ou menos aos estados de Bahia, Alagoas e Sergipe. Os fragmentos amostrados incluem praticamente todos os remanescentes significativos de Mata Atlântica nesse pedaço do Brasil. Os resultados falam por si mesmos: eles encontraram onça-pintada em apenas cinco desses fragmentos, e anta e muriqui em apenas um fragmento cada! Para o queixada foi pior ainda: não estava mais presente em nenhum fragmento, o que indica que já está extinto nessa vasta região do Brasil. A relação entre o número de espécies e a área dos fragmentos era fraca, mostrando que os animais tinham se extinguido mais por caça que por perda de abitats. Você pode conhecer uma bela área de Mata Atlântica e achar que esses bichos todos estão lá, mas é mais provável que não estejam. Eles são vítimas da caça, uma tragédia cotidiana e silenciosa. Ao contrário do que diz nosso Hino Nacional, nossos bosques não têm mais vida. A perda do futuro Uma Mata Atlântica sem esses bichos não fica apenas mais pobre. Ela deixa de funcionar como mata Atlântica. Cutias, por exemplo, alvos cobiçados dos caçadores, são excelentes dispersores de sementes. Carregam sementes das grandes árvores, enterram- -nas, e por vezes as esquecem. As sementes germinam e originam as novas árvores. Sem cutias e outros dispersores, muitas espécies de grandes árvores podem estar condenadas. As onças são predadores de topo, que têm um importante efeito de regular as populações de várias outras espécies, impedindo que algumas delas cresçam demais e se tornem monopolistas, portanto ajudando a manter a biodiversidade. Um ecossistema, hoje se sabe, é muito mais que uma coleção de árvores. Nele funciona cotidianamente uma série de interações ecológicas, que fazem, tanto ou mais do que as espécies que estão lá, a identidade daquele ecossistema. Com a quebra desses processos, um ecossistema está condenado a seguir um caminho trágico de lenta degradação. Como disse o grande ecólogo Daniel Janzen, “o que escapa aos olhos é uma forma muito mais danosa de extinção: a extinção das interações ecológicas”. Podemos pensar que a ausência do condor no céu andino seja apenas mais um elo que se perdeu em nossa ligação com um passado, cada vez mais distante, de um mundo ambientalmente mais saudável. Mas ela é muito mais que isso: simboliza, mais que tudo, quanto futuro está sendo perdido. Vera Riscado Mata Vera Riscado hábitats Vera Riscado Mata heloisavasconcellos Highlight heloisavasconcellos Sticky Note [descer] CONSERVACIONISTAS 53 ESTUDO DE UM CASO PERDIDO: O FALCÃO DE MAURÍCIO E A BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO A história do falcão de Maurício, que durante vários anos sobreviveu como a ave mais rara do planeta até ser dado como caso perdido, é uma das mais pungentes da conservação, uma das mais ricas em simbolismo e – por que não dizer? – uma das mais inspiradoras. O falcão de Maurício, Falco punctatus, era uma espécie endêmica da ilha principal – também chamada Maurício – desse país insular no Oceano Índico, pouco a leste de Madagascar. As Ilhas Mascarenhas, das quais faz parte Maurício, foram descobertas pelos portugueses em 1507. Embora conhecido pelos árabes desde a Idade Média, esse foi um dos poucos arquipélagos do mundo a não ter tido colonização pré-europeia, portanto um dos poucos a conservar uma fauna intacta até a Idade Moderna – incluindo o célebre dodô, Raphus cucullatus, uma grande ave não voadora extinta em 1681. Já seu colega menos famoso, o falcão de Maurício, era um excelente voador, como qualquer falcão que se preza. Alimentava-se de aves menores, lagartos arborícolas, roedores e insetos. Habitava as florestas da ilha Maurício e nidificava às vezes em árvores, às vezes em cavidades rochosas nos vertiginosos penhascos que dominavam as matas, onde as fêmeas colocavam apenas três ou quatro ovos por ninhada. 54 55 Uma coleção de pressões Com o avanço da colonização de Maurício, a expansão populacional foi gerando um aumento da pressão sobre o hábitat do falcão. Os colonizadores franceses foram responsáveis pela destruição da maior parte das florestas da ilha, para o plantio de cana-de-açúcar. No início do século XX, o falcão estava restrito às três únicas grandes áreas de floresta que restavam, nas regiões de topografia mais acidentada da ilha, os maciços de Moka, Bambous e Black River Gorge. O comportamento do falcão de Maurício de quase não voar sobre áreas abertas contribuiu para que logo essas três pequenas populações remanescentes estivessem completamente isoladas umas das outras. Pior: partes das florestas nativas das quais ele dependia lhe eram roubadas por várias espécies de plantas exóticas invasoras. Uma delas, ironicamente, era a goiabeira do Brasil, Psidium cattleianum – tão comportada por aqui, mas uma verdadeira praga por lá. O falcão não se adaptou bem aos novos hábitats dominados pelas plantas exóticas e sua área de distribuição encolheu ainda mais. Os problemas, no entanto, estavam só começando. Outro problema foi a introdução de predadores exóticos, principalmente um macaco asiático, Macaca fascicularis, introduzido no século XVI, e o mangusto Herpestes auropunctatus, que foi trazido para controlar populações de ratos domésticos uns duzentos anos depois. Pode ser que o nome mangusto não lhe diga muito, mas você se lembra daquele bicho que enfrenta a naja nas praças da Índia, que é só agilidade, ferocidade e dentes? Pois é… É esse. Como quase sempre acontece nesses casos, tanto o macaco quanto o mangusto tiveram efeitos devastadores sobre a fauna nativa. Ambos – para os quais escalar árvores ou penhascos não era um obstáculo – se tornaram vorazes predadores do falcão de Maurício. Para complicar ainda mais a situação, pesticidas organoclorados foram utilizados em massa em Maurício de 1948 a 1973 – especialmente o DDT, de infame história. O DDT quase tinha levado à extinçãodo sol baixo atrapalhava a visão. Mas então Úrsula viu a pequenina. Lá vinha Babyl, penosamente, em seus passinhos curtos, se juntar aos outros. Pilar estava com ela, incentivando-a, como sempre. Úrsula olhou para elas com carinho. Perto das duas irmãs, Vasily parecia andar meio a esmo, divertindo-se, explorando o novo lugar com aquela sua curiosidade infantil. Um pouco mais tranquila, Úrsula prosseguiu, liderando os outros. Concentrada, ela avançava devagar, parando de vez em quando. Babyl não podia ir mais rápido. Ely, com seus joelhos fracos, também não aguentaria. Desde criança os joelhos dele nunca tinham sido bons, imagine agora que já era quase um velho. O calor daquele dia bonito na savana também não tinha ajudado em nada. Úrsula estava com sede, os outros também deveriam estar. De repente ela sentiu uma inquietação, e por um momento se esqueceu até da sede. Ela havia estado naquele lugar anos atrás, lembrava ainda do rio, promessa de uma vida melhor para todos eles. Mas agora era preciso chegar à água, rápido, e ela refazia em sua mente o caminho até lá, costurando memórias antigas. Enquanto procurava o caminho, ela sentia uma vaga sensação de perigo, que não conseguia entender bem. Enquanto Úrsula estava imersa em suas meditações, Vladimir passou a seu lado andando rápido na direção contrária, gritando, fazendo uma barulheira, com aquela exuberância típica da juventude. Ele foi lá para o fim da fila, atrás de Tania e da bela Remedios, que pareciam muito distraídas andando juntas. Úrsula prosseguiu, caminhando devagar ao lado de Ely. Procurando o caminho, eles se viraram em direção ao sol já baixo no horizonte, sentindo o vento bater em suas costas. Ely parecia querer lhe dizer algo… Foi então que vieram os tiros. Úrsula nem soube de onde vieram. O matraquear seco de um fuzil automático quebrou abruptamente o silêncio da savana, ecoou nas árvores em volta, pareceu vir de todos os lados. Ela não sentiu nada, mas a seu lado o impacto devastador da rajada de balas acertou Ely em cheio. Os joelhos das patas dianteiras de Ely se dobraram; sua tromba tocou o chão. Aqueles joelhos que sempre tinham sido seu ponto fraco, agora rígidos demais num elefante idoso, não lhe tinham dado rapidez suficiente para fugir, naquela fração de segundo entre perceber os caçadores e ouvir os tiros. Ely tentou penosamente se erguer, gritando de dor e de medo, sem conseguir esticar as patas dianteiras, sem conseguir nada mais do que dar o flanco para os caçadores. Outra rajada o retalhou; por um segundo um brilho branco fez um arco pelo ar, e então tudo se perdeu numa confusão de cinza e vermelho. O imenso elefante tombou para o lado, ainda se debatendo, até que seus movimentos foram parando aos poucos. O maior do grupo, com as maiores presas, Ely tinha sido o primeiro alvo. Úrsula gritava descontrolada, em pânico, sem entender a tragédia que se desenrolava rapidamente à sua volta. Ouvindo os gritos lancinantes da matriarca do grupo, Vladimir veio correndo lá de trás. Ele tinha jogado fora sua única chance. Escondido atrás das fêmeas adultas Remedios e Tania, Vladimir tinha passado despercebido para os caçadores. Mas agora, correndo loucamente na direção dos fuzis automáticos, com seus hormônios adolescentes em fúria, era um alvo perfeito. Os tiros o pegaram em cheio na cabeça. Vladimir parou, titubeou, desequilibrou-se e rolou para frente. Caiu sobre as costas; e as patas ainda ficaram se movendo no ar por alguns instantes em movimentos espasmódicos. Vladimir era 238 239 só um macho jovem, mas suas presas já eram grandes o suficiente, os contratantes iriam pagar bem por elas. Vendo sua vida ser destruída em segundos à sua volta, Úrsula rodopiava em confusão total, sem saber se enfrentava os caçadores ou se ia lá para trás para proteger suas filhas e os outros. Em sua oscilação desordenada, avançou alguns metros na direção dos caçadores, e foi então que eles atiraram. Não precisavam. Ela não tinha marfim. Mas naquela confusão geral, naquela embriaguez de sangue e de morte, tinha bastado que alguém apertasse um gatilho por dois ou três segundos. Ferida de morte, vendo o manto vermelho que lhe subia aos olhos, a velha matriarca olhou pela última vez lá para trás, viu suas filhas fugindo como podiam, ou como Babyl podia. Então suspirou e se deixou tombar. Instantes depois, lá atrás, Babyl parou exausta numa clareira, Pilar sempre a seu lado. Vasily tinha vindo, aterrorizado também, para se encontrar com elas. Os três não entendiam o que tinha acontecido, não entenderiam nunca, mas com o tempo viria a percepção de que tinham se tornado órfãos. Meses mais tarde, Vasily voltaria ali e contemplaria longamente os ossos de Úrsula. Para ele, a infância tranquila se fora para sempre. Anos depois, Vasily também teria uma morte violenta, abatido por participar de um daqueles grupos de machos solitários, desajustados e violentos que atacavam as plantações à volta. Uma história possível Você achou no início que eu estava falando de pessoas? Se achou, teve ótimas razões. A nossa literatura costuma falar sobre nós, humanos – sobre nossos sentimentos, nosso sofrimento, nossas emoções. Como poderia ser de outra forma? Nós somos animais sociais, importamo-nos uns com os outros, e é o nosso próprio universo emocional que compartilhamos. Shakespeare, Machado de Assis ou Gabriel García Márquez são verdadeiros tratados sobre a natureza humana. A literatura faz nossas vidas melhores e tem feito o mundo melhor. Mas minha pergunta é: será que precisamos falar sempre apenas de nós? Hoje, esse nosso foco absoluto em nós mesmos faz cada dia menos sentido, à medida que a ciência vem nos mostrando a riqueza das vidas emocionais de outras espécies que compartilham o planeta conosco. Veja, por exemplo, os elefantes. A narrativa acima é fictícia, mas poderia ser real – bem, pelo menos fiz o melhor que pude. Usei apenas comportamentos já observados em estudos reais com elefantes africanos. Esses animais inteligentíssimos formam grupos sociais nos quais os mesmos indivíduos vivem juntos por anos. Têm aparências e personalidades muito diferentes, facilmente reconhecíveis por um estudioso, assim como uns pelos outros. Sua sociedade é matriarcal; os grupos são liderados por fêmeas adultas como Úrsula. Solidariedade do grupo com um filhote que tenha nascido com um defeito físico, como Babyl, já foi observada várias vezes. Elefantes órfãos se tornarem desordeiros e revoltados, como Vasily, também é comum. Já o comportamento de contemplar longamente os ossos de outros elefantes – mas não de outros animais – levanta a fascinante possibilidade de que esses animais têm alguma concepção da morte, assim como vínculos afetivos que sobrevivem a ela. Os nomes que usei também são de bichos reais. São nomes dados pela pesquisadora Cynthia Moss a alguns elefantes da população de Amboseli, no Quênia, que ela estudou por mais de quarenta anos. Por falar nisso, ela deve gostar de García Márquez, porque os nomes de várias das fêmeas (como Úrsula, Pilar e Remedios) são de personagens femininas de Cem anos de solidão. Mais que isso, Babyl e Ely são baseados em elefantes reais, com as características físicas e o relacionamento com o grupo que eles tinham nos estudos de Moss. 240 241 Universos ao nosso redor Enquanto você está lendo isso, um grupo de elefantes como o de Úrsula vagueia em algum lugar do nosso planeta – hoje sabemos que com suas próprias personalidades, suas próprias emoções, suas próprias histórias, suas próprias vidas. Mas quanta atenção nós prestamos a isso? Enquanto nossa espécie já parece estar esgotando a sua imensa capacidade de olhar apenas para seu próprio umbigo, sequer olhamos para a maravilhosa descoberta que seria a de outros universos emocionais inteiros, inéditos, à nossa volta. Há alguns anos deparei com uma entrevista de Robert Ballard – um explorador subaquático, famoso pela descoberta dos restos do Titanic,