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CRÔNICAS DE BIOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA NATUREZA
E OUTRAS HISTÓRIAS
OS MASTODONTES 
DE BARRIGA CHEIA
CRÔNICAS DE BIOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA NATUREZA
E OUTRAS HISTÓRIAS
OS MASTODONTES 
DE BARRIGA CHEIA
2ª EDIÇÃO
O Documenta Pantanal produz livros, documentários, campanhas e outras 
iniciativas voltadas à proteção do Pantanal e à difusão de suas riquezas e urgências.
No campo editorial, colabora para construir uma biblioteca de referência sobre 
a história, a cultura e a natureza pantaneiras, reeditando obras fundamentais e 
criando ou apoiando publicações que revelem ângulos e aspectos relevantes dessa 
paisagem brasileira singular.
Vera
Riscado
e promove outras
A Bernardo e Vicente, por me ligarem da forma mais 
poderosa e pessoal ao mundo do futuro, que será o deles.
© 2024 Fernando Fernandez / Documenta Pantanal. 
Todos os direitos reservados. 
Proibida a reprodução total ou parcial sem prévia autorização. 
Coordenação Geral 
Documenta Pantanal – Teresa Cristina Ralston Bracher, Mônica 
Guimarães 
Coordenação Editorial e Produção gráfica
Heloisa Vasconcellos
Preparação e revisão
Vera Maselli
Projeto gráfico
Soma Design
Diagramação
Douglas Kenji Watanabe
capa: Bernardo Araujo
ilustrações da capa: Alan Manson (Mauritius kestrel), Anant – 
Ramakrishnan (Tiger), Brian Choo (Elephant bird), Charles 
J. Sharp (Hyacinth Macaw), Dietmar Nill (Artibeus), John G. 
Keulemans (Kakapo), John James Audubon (Auk), Laboratório 
de Ecologia e Conservação de Populações da UFRJ (Cutia), Phil 
Armitage (Condor), Stephen Moore (Mastodon).
heloisavasconcellos
Sticky Note
[FICHA CATALOGRÁFICA]
SUMÁRIO
Prefácio 9
Apresentacão 13
Históricas
O caso dos mastodontes de barriga cheia 25
A máquina do tempo: Flacourt e a fauna perdida 
de Madagascar 32
Por que não existem pinguins no hemisfério norte? 37
O céu onde voava o condor 44
Conservacionistas
Estudo de um caso perdido: o falcão de Maurício e 
a Biologia da Conservação 53
Dependendo do inimigo 63
Biocombustíveis, produção de alimentos, 
biodiversidade e “z” 68
Um tigre, dois tigres, 1,3 tigres 76
O Sus que deu certo 89
A tal da sustentabilidade 96
A tal da sustentabilidade 2: um teste demográfico 104
Nunca é por causa da demografia 110
Preenchendo com vida a floresta vazia 117
Gouldianas
Viagem ao coração do mistério dos mistérios 127
A dança cósmica de Shiva: contingências e ritmo 
na evolução da vida 143
A Seleção Húngara de 1954 e a origem dos filos 163
Filosóficas
Nós e eles: Darwin e a conservação 181
Por que conservar a natureza, afinal? 188
As mudanças climáticas e o outrismo 196
Por quem dobram os sinos da conservação 203
Biofílicas
Os ursos de Răcădău e a esperança 211
Andy 217
A morte da minha rainha das árvores 223
Outros olhos sobre as cidades 229
Um caminho para a empatia 236
Utópicas
Concordando em parte com Saramago 247
Um economista para um mundo novo 253
Eu também tenho um sonho 258
Livros 265
Bibliografia
Históricas 277
Conservacionistas 279
Gouldianas 282
Filosóficas 284
Biofílicas 286
Utópicas 287
Vera
Riscado
Prefácio à segunda edição
Vera
Riscado
245
9
PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Trazendo os mastodontes de volta da extinção no Pantanal
Lembro-me bem daquele dia, da nossa imensa surpresa. Éramos 
um pequeno grupo de ambientalistas que formávamos o conselho 
editorial da revista científica Natureza & Conservação (hoje 
Perspectives in Ecology and Conservation). Estávamos reunidos em 
Curitiba para fechar um dos primeiros números da revista. Entre 
os textos que tínhamos que avaliar, havia um artigo de opinião de 
um ecólogo da Unesp, chamado Mauro Galetti. Galetti propunha 
nada mais nada menos que a introdução em massa de várias espécies 
de grandes mamíferos herbívoros da África e da Ásia – elefantes, 
hipopótamos, impalas e outros – no Pantanal brasileiro!
A justificativa de Galetti era no mínimo instigante. Ele 
apontava que o Pantanal (assim como o Cerrado), havia poucos 
milhares de anos, tinha várias espécies de mamíferos igualmente 
gigantescos (“megamamíferos”), como os mastodontes – sim, 
tínhamos elefantes nativos na América do Sul –, preguiças-gigantes, 
toxodontes (similares a hipopótamos), etc. Esses bichos exerciam 
papéis ecológicos importantes no ecossistema pantaneiro, como 
dispersão das grandes sementes responsáveis pela reprodução das 
maiores árvores, regulação das populações de gramíneas, e ciclagem 
de nutrientes. Ora, todos esses grandes animais, certamente com 
populações pequenas e baixos potenciais reprodutivos, tinham 
desaparecido depois que os humanos chegaram pela primeira vez ao 
Pantanal, tudo indica que por caça. Hoje, esses processos ecológicos 
funcionariam de forma precária através de espécies introduzidas 
pelos colonizadores mais recentes, como bois e cavalos. Sendo 
assim, argumentava Galetti, faria todo sentido, para recuperar 
o bom funcionamento do ecossistema do Pantanal, introduzir lá 
10 11
megamamíferos trazidos dos poucos lugares onde eles haviam 
sobrevivido à expansão humana, ou seja, da África e da Ásia.
Depois de um pasmado silêncio, houve todo tipo de reação. 
Alguém disse que o Galetti era um gênio, mas a maioria achava 
que ele tinha enlouquecido. Afinal, por trabalhar com conservação, 
sabíamos bem que a introdução de espécies exóticas muitas vezes 
tem efeitos devastadores sobre a biodiversidade. E lá vinha aquele 
cara propondo a introdução de uma coleção inteira de bichos 
exóticos gigantescos, logo num dos ecossistemas mais frágeis do 
Brasil, o Pantanal? Houve a posição de que aquela ideia era uma 
loucura perigosa e que devíamos rejeitar o artigo ali mesmo. Mas ele 
tinha bons pareceres dos revisores, e felizmente prevaleceu a posição 
de que a ideia merecia, no mínimo, ser discutida, concordássemos 
com ela ou não – logo, cabia publicá-la na revista. Assim foi.
Já faz algumas décadas que tudo isso aconteceu, e o mundo 
mudou muito nesse tempo.
A ideia de Galetti, que na época nos parecia tão nova, hoje 
já se tornou bastante popular, conhecida como “rewilding”. É 
verdade que as iniciativas atuais de rewilding, em geral, são menos 
radicais que a ideia dele. Rewilding geralmente é feito para restaurar 
faunas perdidas há bem menos tempo que a megafauna perdida 
do Pantanal da qual falava Galetti. Além disso, em muitos casos, 
embora nem sempre, utiliza espécies nativas – ver, por exemplo, o 
livro Rewilding na Argentina, publicado pelo Documenta Pantanal. 
Isso tudo é parte das respostas a uma crise ambiental e de extinção 
que é hoje muito mais grave que naquela época. Claro, os problemas 
ambientais já eram imensos, como bem sabíamos. Mas hoje são 
muito maiores, e com a mudança climática, da qual mal falávamos 
em 2004, as questões ambientais estão em nosso cotidiano, nas 
notícias, na TV, e afetam de forma cada vez mais óbvia a economia 
e a vida de todos nós e de nossos filhos.
O próprio Pantanal já não é mais o mesmo. Naquela época, 
estávamos acostumados a pensar nele como uma ilha de perfeição 
– aquele ecossistema único, com uma natureza riquíssima, um dos 
melhores lugares do mundo para ver bichos grandes, onde a ocupação 
humana e a natureza estavam em relativa harmonia. Hoje, a região 
sofre com a alteração do seu delicado regime hídrico por barragens, 
estradas e utilização de água para a agricultura; substituição das 
fazendas tradicionais por monoculturas, especialmente de soja; 
poluição dos rios por agrotóxicos e colossais incêndios alimentados 
pela mudança climática. O Pantanal, então, não é mais uma ilha. 
Embora os efeitos possam ser específicos por causa do peculiar regime 
hídrico da região – uma planície com pouquíssima declividade, na 
qual a água escoa muito devagar – os processos que hoje ameaçam a 
biota pantaneira são os mesmos que atuam aqui e ali ao redor de todo 
o planeta. O Pantanal se tornou um microcosmo do mundo, onde 
a ação das ameaças à biodiversidade planetária é particularmente 
óbvia, particularmente daninha (poiso símbolo nacional dos Estados Unidos, a 
majestosa águia de cabeça branca, Haliaeetus leucocephalus. A 
contaminação dos alimentos da águia pelo DDT a impedia de 
desenvolver cascas fortes para seus ovos; as cascas eram tão finas 
que se quebravam durante a incubação ou simplesmente os ovos 
não eclodiam. O DDT acabou sendo banido dos Estados Unidos 
em 1972, em grande parte devido à consciência gerada nos anos 
anteriores pelo célebre livro da bióloga Rachel Carson, Silent 
Spring. O DDT também foi banido de Maurício um ano depois, 
mas muito estrago já estava feito. Falcões são parentes relativamente 
próximos das águias, na ordem falconiformes, e o DDT teve o 
mesmo efeito sobre o falcão de Maurício, gerando ovos inviáveis. 
Quando o DDT enfim foi banido, duas das três populações do 
falcão, em Moka e Bambous, já tinham se extinguido.
O declínio
Com todos esses problemas juntando suas forças contra a 
espécie, o declínio do falcão de Maurício foi vertiginoso. Acredita-
-se que havia cerca de 700 indivíduos no início do século XX. 
Nas décadas de 1950 e 1960, a situação se tornou crítica: com a 
extinção de duas das três populações, o número caiu para abaixo 
de 50. Não havia mais dúvidas: o falcão agora ia ladeira abaixo. Em 
1973, um censo do International Council for Bird Preservation 
(ICBP) concluiu que havia apenas oito ou nove indivíduos; um 
casal desapareceu logo depois, deixando sete, no máximo. Nessa 
época, Falco punctatus já tinha ficado tristemente famoso, não 
apenas como uma das aves mais raras do mundo, mas como a ave 
mais rara de todas, ou – por que não dizer? – provavelmente a 
espécie de animal mais rara do mundo. Nessa época, o agonizante 
falcão foi objeto de uma romaria de ornitólogos profissionais e 
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
[descer]
56 57
amadores vindos dos quatro cantos do planeta que queriam ver a 
mais rara de todas as aves. “Veja antes que se extinga” era a isca dos 
que vendiam os pacotes turísticos para os ornitólogos.
Enquanto isso, o ICBP lutava para adiar o desfecho inevitável. 
Três falcões foram capturados para tentar a reprodução em cativeiro; 
um deles logo morreu. Sobraram dois, felizmente um macho e 
uma fêmea, mas quem disse que eles queriam se reproduzir em 
cativeiro? Nada. Fracasso total.
Em 1974, restavam apenas seis indivíduos da espécie Falco 
punctatus na face da Terra. Um casal em cativeiro, que se recusava 
a reproduzir. Quatro indivíduos na natureza: dois solteiros e um 
único casal ainda tentando procriar. Era isso. Não havia mais como 
ter ilusões: a hora final estava próxima. Em 1975, então, o imenso 
furacão Gervaise arrasou o arquipélago. Seu centro foi quase 
sobre a ilha Maurício, onde sobreviviam os seis últimos falcões. 
Milagrosamente, Falco punctatus sobreviveu ao Gervaise, mas era 
muito claro que era um caso perdido. Tentativas de salvação eram 
um desperdício de recursos. Um famoso conservacionista, Norman 
Myers, escreveu: “Nós devíamos abandonar o falcão de Maurício 
ao seu destino praticamente inevitável, e utilizar os recursos para 
fornecer um apoio mais forte para alguma das centenas de espécies 
de aves que têm maior chance de sobreviver”. O ICBP concordou 
e em 1979 enviou um funcionário com a missão básica de encerrar 
o projeto de conservação do falcão de Maurício e fechar suas 
instalações.
Você quer continuar a ler isto? Tem certeza? Essa é uma história 
muito triste. Você quer mesmo continuar? Não quer desistir?
Carl Jones decide tentar
Carl Jones não quis desistir. Que imensa ironia a vida tinha feito 
com ele! Jones tinha crescido no País de Gales como um garoto 
apaixonado por aves de rapina, reproduzindo com sucesso em sua 
própria casa espécies que os profissionais tinham dificuldade para 
conseguir reproduzir nos melhores zoológicos. Como todo biólogo 
apaixonado por aves de rapina, tinha sonhado um dia conhecer a 
ave mais rara do mundo, o tal falcão de Maurício, aquele que era 
para se ver antes que se extinguisse. Agora o ICBP lhe abria uma 
oportunidade para um trabalho numa ilha isolada no outro lado do 
mundo apenas para cumprir por algum tempo o resto dos contratos 
pendentes e, quando isso acontecesse, encerrar o projeto, escrever 
os devidos relatórios, fechar tudo e voltar para o Reino Unido. 
Em outras palavras, desistir de tentar salvar o bicho que ele tanto 
sonhara conhecer. Jones pegou o trabalho, mas decidiu tentar.
Jones começou a enrolar o ICBP para ganhar mais tempo 
e começou a agir. A sua primeira ideia foi dar aos falcões um 
suplemento alimentar, na esperança de que os bichos mais bem-
-alimentados se reproduzissem mais. O único casal que ainda 
nidificava no campo o fazia num vertiginoso penhasco, mas isso não 
assustava Jones. Dia após dia, ele subia o penhasco levando para o 
ninho um pouco de carne crua. Felizmente, os falcões de Maurício, 
como muitos outros animais evoluídos em ilhas que nunca tiveram 
predadores de topo, nunca haviam evoluído um instinto de 
considerar aquele estranho primata perigoso. Isso permitia a Jones 
se aproximar do ninho e até manipulá-lo em relativa impunidade, 
exceto por algum ocasional rasante no pescoço.
Logo a fêmea deu a Jones a primeira recompensa por seus 
esforços: três belos ovos. Ele imediatamente os retirou e os levou 
para o laboratório do projeto. Seu objetivo era duplo: proteger 
os ovos contra a predação – se um só mangusto descobrisse o 
ninho, poderia ser o fim da espécie – e induzir a fêmea a uma 
nova postura. Seu conhecimento de aves de rapina, e em particular 
sua experiência com a reprodução delas, haviam ensinado a Jones 
que, se uma postura era perdida, a fêmea podia colocar outra para 
substituí-la, exatamente como aconteceu.
Vera
Riscado
Esta
58 59
Em seu primeiro ano, das duas proles levadas para cativeiro, Jones 
conseguiu criar três indivíduos: três machos! Tudo parecia conspirar 
contra o infeliz falcão, mas Jones não era de desistir facilmente. 
Como aumentar ainda mais a reprodução? De sua experiência 
com reprodução de aves, ele pensou que “puxar” ovos poderia ser 
ainda mais eficiente do que tirar a ninhada inteira. A lógica era a 
seguinte. Os ovos de cada ninhada eram postos um de cada vez, em 
dias consecutivos; tirar os ovos no dia em que cada um era posto 
deixava o ninho sempre vazio e isso induzia a fêmea a continuar 
pondo novos ovos. Nada de muito novo nisso; se você comeu hoje 
um ovo de galinha no seu café da manhã, agradeça a esse mesmíssimo 
princípio. Afinal de contas, galinhas têm sido aperfeiçoadas por 
seleção artificial há milênios para fazer exatamente isso. Jones 
usou o mesmo procedimento para o falcão de Maurício, com um 
sucesso espantoso. Ele conseguiu que as fêmeas colocassem até oito 
ovos em dias consecutivos, em vez das ninhadas de três ou quatro!
Em poucos meses o laboratório começava a se encher de ovos de 
Falco punctatus para serem incubados, mas agora Jones era vítima 
do seu próprio sucesso. Não havia fêmeas adultas em número 
suficiente para incubar tantos ovos. Jones mandou importar alguns 
falcões europeus, Falco tinnunculus, uma espécie não ameaçada. 
Logo ele tinha um pequeno exército de falcões europeus em 
cativeiro, incubando ovos de falcões de Maurício…
Um pouco mais e falcões de Maurício começaram a nascer 
em cativeiro. Era preciso, porém, que esses novos bichos também 
começassem a se reproduzir em cativeiro, e o quanto antes. Jones 
desenvolveu uma técnica de fecundação artificial para ajudá-los 
e conseguiu obter mais proles, agora de fêmeas fecundadas em 
cativeiro. Mas seus problemas não tinham acabado. Os falcões 
nascidos em cativeiro eram parentes muito próximos uns dos 
outros; afinal, todos tinham vindo dos ovos de um único casal. 
Fêmeas começaram então a apresentar malformações no oviduto 
por causa de depressão de endocruzamento, isto é, problemas 
genéticos resultantes de acasalamento entre parentes próximos 
demais. Jones, porém, conseguiu eliminar o problema por meio 
de seleção artificial, istoé, retirando as fêmeas que nasciam com o 
problema do seu plantel de reprodutoras para a geração seguinte.
Mais ovos apareciam, mais filhotes nasciam, mas Jones percebeu 
que as fêmeas de falcão de Maurício que ele tinha eram em geral 
muito ineficientes ao incubar seus próprios ovos, levando a um 
grande número de perdas. Isso também não era uma surpresa; ele 
sabia que, entre aves de rapina, é comum que fêmeas inexperientes 
(geralmente incubando sua primeira ninhada) sejam menos 
eficientes na incubação que fêmeas mais experientes (que já tenham 
incubado uma ou mais ninhadas antes). Mas todo ovo de falcão de 
Maurício era valioso e ele não podia se arriscar a perdê-los. Como 
resolver o problema? A solução de Jones foi de uma criatividade 
espetacular. Ele se lembrou de que tinha os ovos dos falcões europeus 
que havia trazido para ajudar na incubação. Colocou então as 
fêmeas inexperientes de falcão de Maurício treinando incubação 
com os ovos dos falcões europeus. A esta altura, visualizemos a 
situação estapafúrdia em que estava o laboratório de Jones: numa 
bancada, falcões europeus incubando ovos de falcões de Maurício 
como mães de aluguel; em outra, falcões de Maurício incubando 
ovos de falcões europeus para treinar! Quem disse que o trabalho 
de um biólogo da conservação é maçante?
Finalmente, Jones dispunha de falcões suficientes para levá-los 
de volta para a natureza com um mínimo de esperança de êxito. 
Ele começou então a reintroduzir Falco punctatus de cativeiro na 
natureza. À medida que a população natural começou a crescer, ele 
percebeu que não conseguiria mais dar conta de levar o suplemento 
alimentar de carne a todos os numerosos ninhos. Então, desenvolveu 
um novo e mais eficaz método para alimentar os falcões: chegava 
na base de cada penhasco, algumas dezenas de metros abaixo do 
ninho, e atraía a atenção dos falcões para si. Então, jogava para 
cima, girando, um camundonguinho branco de laboratório. 
60 61
Os falcões vinham como uma bala e pegavam o camundongo no 
ar. Mais uma vez Jones soubera aproveitar com inteligência as 
características biológicas dos “seus” animais. Pobres camundongos. 
Não existe nada mais eficiente em pegar um pequeno objeto no 
ar que os falcões, que evoluíram sua técnica de capturar pequenas 
aves em voo ao longo de milhões de anos.
Virando um jogo perdido
A essa altura, as notícias que vinham de Maurício tinham 
começado sutilmente a mudar. Alguns anos antes, a notícia era 
“Venha ver Falco punctatus rápido, antes que se extinga”. Agora 
as notícias diziam “Ei, espere aí! Tem um cara aqui que está 
conseguindo salvar o falcão, a coisa está começando a funcionar”. 
À medida que as notícias se espalhavam, começavam a chover 
novos apoios. O Mauritius Wildlife Trust e o Jersey Wildlife 
Preservation Fund se juntaram como novos patrocinadores para o 
projeto, que agora tinha vida própria e que o próprio ICBP já não 
queria mais fechar. Profissionais de conservação dos quatro cantos 
do planeta, munidos de nova esperança, ofereciam seus talentos 
para ajudar a salvar o falcão de Maurício, a ex-ave mais rara do 
planeta. Um programa de controle dos predadores introduzidos 
foi desenvolvido. A reprodução em cativeiro foi muito melhorada. 
A reintrodução na natureza se acelerou e logo as duas outras 
populações naturais que haviam se extinguido, Bambous e Moka, 
tinham sido restabelecidas.
Com isso tudo, a população do falcão de Maurício foi 
lentamente se recuperando. Em 1985, havia 12 adultos e 11 
filhotes na natureza, além de vários indivíduos cativos. Em 1988, 
já eram 40 indivíduos na natureza, em duas populações. Em 1996, 
contavam-se cerca de 200 indivíduos em três populações. Hoje há 
mais de 400 Falco punctatus. Pode não parecer muito, e não é, 
mas vamos lembrar a situação desesperadora na qual o falcão de 
Maurício chegou a estar. Havia apenas seis indivíduos da espécie 
no planeta, sendo que apenas quatro na natureza, e com um único 
casal reprodutivo. Hoje Falco punctatus está fora de perigo, pelo 
menos em curto prazo. Procure uma foto de Jones no Google 
images (basta entrar com Carl Jones + Mauritius kestrel e você 
achará várias). É um sujeito magro, de cabelo preto liso, roupas 
simples, nada que pareça muito especial. Mas esse cara simples pode 
ir dormir pensando, com justiça, “Eu salvei uma espécie”. Porque 
é verdade, ele, sozinho, salvou o falcão de Maurício. Que belíssima 
razão para alguém pensar o quanto sua vida foi maravilhosa, e 
valeu, e muito, a pena.
Uma mensagem de esperança
A história da incrível salvação do falcão de Maurício, assim 
como muitas outras, é contada em mais detalhes no brilhantíssimo 
The Song of the Dodo, de David Quammen. Além do heroísmo de 
Jones, a história do falcão de Maurício ilustra bem a Biologia da 
Conservação em ação. Um homem utilizando boa ciência como 
guia: a ecologia (e um pouquinho da genética) para entender 
as ameaças ao falcão e para entender o que precisava fazer para 
revertê-las, aumentando a reprodução, diminuindo a predação 
e o endocruzamento, e por aí vai. Um homem utilizando o seu 
conhecimento sobre aves para perceber como, na prática, poderia 
fazer todas essas coisas. Mas muito mais do que tudo isso, um 
apaixonado utilizando toda sua garra, toda sua persistência quando 
ninguém mais acreditava, toda sua criatividade e imaginação, 
enfim, todo o seu ser, para alcançar o objetivo “impossível” que 
ele tanto queria. Nesses tempos em que tanto, desesperadoramente 
tanto, há por se fazer em conservação, essa parece ser a receita de 
que precisamos: boa ciência, amor pelo bicho, muita garra.
Vera
Realce
falcão;

[trocar vírgula por ponto e vírgula]
62 63
Não me entenda mal; não sou ingênuo de achar que seja fácil. 
Nem um pouco. Nunca antes na história humana a situação da 
natureza foi tão ruim como nestes tempos de desmatamento em 
escala colossal, onda de extinção causada pelo homem, poluição 
maciça, florestas vazias e aquecimento global. Porém, quanto mais 
converso com meus alunos, mais percebo a imensa vontade de 
tanta gente de meter as mãos na massa pela natureza, fazer alguma 
coisa por ela, fazer diferença. Já perdemos muito, e o que foi 
perdido não volta mais. Mas podemos ter esperança de salvar uma 
boa parte do que ainda resta? Acredito que sim. Como disse Carl 
Jones, “If you can save the Mauritius kestrel, you can save virtually 
anything” (“Se você pode salvar o falcão de Maurício, você pode 
salvar virtualmente qualquer coisa”). Bela frase para se pensar, 
melhor ainda para agir inspirado por ela.
DEPENDENDO DO INIMIGO
Se você fosse uma arara-azul e morasse no Pantanal, 
provavelmente não iria gostar muito dos tucanos-toco. Tucanos-
-toco são os maiores predadores de ninhos de araras-azuis no 
Pantanal. No entanto, para a sobrevivência da sua espécie, você 
dependeria de seu maior inimigo.
Esta fascinante história de uma ironia da conservação foi 
contada em um artigo que saiu em 2008 na influente revista 
Biological Conservation. Os autores do estudo, realizado na Fazenda 
Rio Negro, em pleno coração do Pantanal no Mato Grosso do sul, 
são quatro pesquisadores brasileiros, Marco Aurélio Pizo, Camila 
Donatti, Neiva Guedes e Mauro Galetti. O artigo é uma pequena 
joia, que não só ajuda a entender o que precisamos fazer para 
ajudar as araras-azuis, mas também fornece um excelente exemplo 
da importância da pesquisa científica para a conservação em geral.
As araras precisam de muita ajuda. A arara-azul, Anodorhynchus 
hyacinthinus, é o maior psitacídeo do mundo, ou seja, a maior de 
todas as espécies de arara, papagaio e seus aparentados. São animais 
imponentes e majestosos, cujos gritos enchem os grandes espaços 
do céu do Pantanal – onde existe a maior população remanescente 
da espécie. Mas os espaços estão encolhendo a cada dia para as 
araras-azuis.
Cobiçadas pelo tráfico de animais como bichos decorativos, 
ilhadas pela perda de seu hábitat, elas são consideradas ameaçadas 
e estão se tornando rapidamente cada vez mais raras.Vera
Riscado
Sul
64 65
Uma complexa rede de interações
Araras-azuis são uns bichos muito exigentes, o que não ajuda 
nem um pouco as perspectivas da espécie no mundo de hoje. Elas 
se alimentam exclusivamente dos frutos de apenas duas espécies de 
palmeiras. Além disso, nidificam em árvores, mas não são capazes 
de cavar as cavidades para fazer seus ninhos. Para isso necessitam 
de grandes cavidades preexistentes, que só existem em árvores de 
grande porte e velhas – com mais de 60 anos de idade. Árvores assim, 
por sua vez, são cada vez mais escassas em meio às transformações 
pelas quais hoje passa o Pantanal.
Pior ainda: uma pesquisa anterior de uma das autoras do artigo 
– Neiva Guedes – mostrou que 95% dos ninhos de araras-azuis 
no Pantanal são feitos em uma única espécie de árvore: o manduvi 
(Sterculia apetala). O manduvi, uma imponente árvore que pode 
alcançar 35 metros de altura, produz grandes frutos, cada um com 
três a oito grandes sementes dispersadas por aves. A arara-azul 
então depende fortemente do manduvi, mas essas árvores estão 
particularmente pressionadas no Pantanal pela transformação de 
regimes de pecuária extensiva em intensiva, o que leva ao aumento 
do desmatamento na região.
Os autores investiram muitas horas observando quais aves 
visitavam os manduvis frutificando. Quatorze diferentes espécies 
de aves vieram comer os frutos dos manduvis, mas os visitantes 
mais frequentes, de longe, eram os tucanos-toco (Ramphastos 
toco) – aqueles bichos que são nosso estereótipo de tucano, com 
seu grande bico amarelo. Eles respondiam por quase dois terços de 
todas as visitas. 
Tucanos-toco e seus parentes menores, os araçaris, eram os 
únicos legítimos dispersores de sementes dos manduvis: aves com 
grandes bicos, capazes de engolir as sementes inteiras, sem quebrá-
-las, e levá-las para longe da árvore-mãe. Porém os araçaris, com 
menos de 8% das visitas, eram apenas dispersores de importância 
secundária, enquanto os tucanos-toco eram, sem dúvida, os 
dispersores principais do manduvi.
Outra análise mostrou que, embora a abundância de plântulas 
de manduvi diminuísse à medida que aumentava a distância da 
planta-mãe, os adultos de manduvi estavam em sua maioria 
espaçados mais de trinta metros uns dos outros. Sabe-se que 
animais como cutias e os porcos-do-mato usam a planta-mãe 
como referência para localizar e predar as sementes no chão. Daí 
Pizo e seus colaboradores inferiram que a dispersão de sementes 
para longe da planta-mãe era importante para a sobrevivência e o 
estabelecimento dos adultos de manduvi. Ou seja, os tucanos, ao 
dispersarem suas sementes, estavam prestando um serviço crucial 
para a árvore.
Os tucanos-toco, porém, estão longe de ser apenas pacíficos 
comedores de frutos; são bichos vorazes que não ficam só nisso 
quando visitam os manduvis. Neiva Guedes, num trabalho 
laborioso, subiu em centenas de árvores e visitou um total de nada 
menos que 346 ninhos de araras, em seis diferentes anos, observando 
a situação desses ninhos. Em muitos casos, ela constatou que os 
ninhos haviam sido predados e os ovos das araras-azuis haviam sido 
devorados. O suspeito do “crime” podia ser identificado, na maioria 
dos casos, por uma série de evidências, que incluíam observação 
direta do predador, indícios como pelos, penas e marcas deixadas 
nas cascas dos ovos, ou por um predador ter se instalado no ninho. 
Vários predadores foram identificados, incluindo gralhas, gambás 
e quatis. No entanto, um mesmo suspeito foi indiciado na maior 
parte dos casos. Com uma média de 53,5% de todos os ovos 
predados anualmente, o maior predador de ovos de araras-azuis 
foi… você adivinhou: o tucano-toco.
66 67
O papel da ciência
Conclui-se, então, que para ter lugares adequados para fazer 
seus ninhos, as araras-azuis necessitam de manduvis. Os manduvis, 
para sua reprodução, necessitam de tucanos-toco, que são também 
os maiores predadores de ninhos das araras. Portanto, as araras, para 
sua própria reprodução, necessitam de um de seus maiores inimigos.
A história toda encerra algumas importantes lições, sobre a 
sutileza das intrincadas relações ecológicas, e sobre a importância 
da pesquisa científica para a conservação. Conservar os bichos e as 
plantas? Sim, claro, é para isso que nós estamos aqui. Mas bichos 
e plantas dependem de processos ecológicos, de interações às vezes 
intrincadas com outras espécies. Conserve funcionando bem os 
processos ecológicos dos quais o bicho depende e você conservará 
o bicho.
Na ausência da excelente pesquisa desenvolvida por Pizo e seus 
colegas, quem teria ousado propor, em sã consciência, que uma 
estratégia para a conservação da arara-azul passasse por ações para 
conservar o tucano-toco, uma ave ainda relativamente comum no 
Pantanal e conhecida como um voraz predador da própria arara? 
Quem imaginaria isso? No entanto, proteger o tucano-toco pode 
hoje ser uma medida crucial para garantir às araras o suprimento 
de manduvis para nidificação.
Dependendo do inimigo numa escala maior
Claro que, como sempre acontece em ciência, ainda há muito 
a aprender – o que só torna a história toda ainda mais interessante. 
Por exemplo, a situação encontrada hoje já é, até certo ponto, 
artificial. Será que a dependência das araras sobre os manduvis 
seria tão grande se outras árvores de grande porte do Pantanal, 
que talvez também pudessem fornecer ninhos adequados, já não 
tivessem tido suas populações reduzidas? Será que na situação atual 
os prejuízos diretos causados pelos tucanos às araras, pela morte 
de seus filhotes, não superam os seus benefícios via manduvi, 
do qual afinal não são os únicos dispersores? Estas são questões 
fascinantes de uma tal de ecologia, uma ciência que é confundida 
com suas próprias aplicações. As respostas são fundamentais para 
que saibamos fazer as coisas certas para conservar as araras-azuis na 
difícil situação em que essas magníficas aves se encontram.
Mas não haverá uma ironia ainda maior nisso tudo? Será que o 
dilema da arara-azul dependendo do tucano-toco não é, de certo 
modo, simbólico da situação da natureza como um todo? Os 
problemas que a conservação da natureza enfrenta são causados 
pela nossa própria espécie. Somos nós que deixamos os bichos e 
as plantas nas situações dramáticas em que estão hoje. Ao mesmo 
tempo, só nós, com conscientização, com vontade política e com 
boa ciência aplicada, podemos virar esse jogo. A natureza como um 
todo, assim como as araras-azuis, depende daquele que tem sido o 
seu maior inimigo.
Vera
Realce
[tirar essa vírgula]
Vera
Riscado
Essas
68 69
BIOCOMBUSTÍVEIS, 
PRODUÇÃO DE ALIMENTOS, 
BIODIVERSIDADE E “Z”
…elementary laws never apologize 
(…leis elementares nunca pedem desculpas)
Walt Whitman
Um novo conflito vem emergindo ultimamente no nosso 
mundo já tão cheio deles: produção de alimentos versus 
biocombustíveis. Com o preço do petróleo a níveis estratosféricos 
e as mudanças climáticas como uma realidade cada vez mais óbvia, 
os biocombustíveis parecem uma alternativa muito tentadora aos 
combustíveis fósseis. Com isso, a demanda por biocombustíveis 
e consequentemente a sua produção vêm crescendo de forma 
exponencial nos últimos anos.
Qualquer substituto menos poluente para os combustíveis 
fósseis parece, a princípio, ser muito bem-vindo. No entanto, 
vozes começam a surgir, inclusive na ONU, para nos alertar que 
infelizmente essa questão não é tão simples assim. Estamos, lembram 
essas vozes, num planeta já superpovoado, onde a demanda por 
alimentos cresce cada vez mais e onde cada área agrícola é necessária 
e valiosa. Quanto mais terras agrícolas forem perdidas para terras 
para produzir biocombustíveis, mais dificuldade a produção de 
alimentos terá em atender à demanda e mais tenderão a se agravar 
a subnutrição e a fome, que já afetam tanta gente neste planeta.
No entanto, há quem minimize o problema, ou mesmo 
negue sua existência. No Brasil, muito se tem dito que o etanol 
brasileiro, obtido a partir da cana-de-açúcar,coisa era ver escrito num pedaço de papel que extinções locais 
deveriam acontecer com a redução de área de hábitat disponível, 
como vários ecólogos já tinham escrito com todas as letras muito 
antes de Newmark. Outra coisa muito diferente era ver aquela 
predição se materializar, com bichos reais, no mundo real, diante 
de nossos olhos.
Repare que não falei nada sobre as causas biológicas por trás das 
relações espécies-área. Explicações existem, e a mais popular delas, 
a teoria de biogeografia de ilhas, proposta por Robert MacArthur 
e Edward Wilson em 1967, é provavelmente o trabalho científico 
mais citado da história da ecologia. É uma teoria espetacular e 
fascinante, e é tentador discuti-la aqui, mas resistirei à tentação. 
Para o ponto específico que estou discutindo, as causas da relação 
espécies-área não são relevantes. O que nos importa aqui é que elas 
existem: a existência de uma relação entre o número de espécies 
e a área é um padrão empírico, ou seja, baseado diretamente em 
observações do mundo real. Essa relação se aplica muito bem não 
só a ilhas reais, como também a “ilhas de hábitat”, como os parques 
de Newmark ou fragmentos florestais em geral. Há diferenças entre 
as relações espécies-área entre fragmentos e ilhas, mas pelo menos 
em escalas espaciais relativamente grandes relações espécies-área 
também se aplicam, para qualquer grupo taxonômico, a conjuntos 
de fragmentos florestais. Moral da história: relações espécies-área 
são um forte padrão empírico do mundo real, que pode ser visto 
como uma “lei” da natureza, menos precisa por certo mas quase tão 
Vera
Realce
[em itálico]
heloisavasconcellos
Realce
Para visualizar melhor o que quer dizer isso, imaginemos que um "z" "típico" de 0,30 corresponde a ir para uma ilha dez vezes maior e encontrar o dobro do número de espécies, ou, inversamente, ir para uma ilha dez vezes menor e encontrar metade do número de espécies.
74 75
onipresente quanto a lei da gravidade. Leis naturais funcionam à 
nossa volta a cada dia, quer as percebamos ou não, quer gostemos 
delas ou não.
Leis elementares
Voltemos então aos biocombustíveis, à produção de alimentos e 
à conservação da biodiversidade. O ex-governador de Mato Grosso, 
Blairo Maggi, o desmatador-mor, disse ao jornal O Globo que “há 
estudos que mostram que em 50% da área é possível ter todas 
as espécies preservadas”. Não, não é – e só imagino que tipos de 
“estudos” são esses! Quanto mais área se perder, mais biodiversidade 
se vai perder, mesmo se não houver qualquer intervenção humana 
futura, pelo simples fato de não ter conservado área o suficiente.
Vamos agora pensar no planeta como um todo. A conversão 
de áreas antes utilizadas para a produção de alimentos em zonas 
de plantio para biocombustíveis leva, todo o resto sendo igual, à 
redução da oferta de alimentos. Com a redução da oferta, por outra 
lei muito simples – a da oferta e da procura – o preço dos alimentos 
sobe, estimulando novos plantios. Novas áreas agrícolas, claro, 
são abertas a partir da destruição de mais algumas áreas naturais 
remanescentes. Isso, por sua vez, mediante relações espécies-área, 
vai inevitavelmente gerar perdas de biodiversidade.
O Brasil não está, de modo nenhum, imune a isso. Posso até 
concordar que de modo geral a produção de etanol brasileiro a partir 
da cana-de-açúcar não compete com a produção de alimentos. 
Claro, mas a área onde está hoje a cana no Nordeste brasileiro era 
toda de Mata Atlântica, portanto essa produção de biocombustível 
só é possível por causa de um desastre ambiental já feito. Magro 
consolo. Menos consolo ainda quando se pensa que a perda de 
áreas agrícolas para biocombustíveis em qualquer lugar do mundo 
e o consequente aumento dos preços dos alimentos são fatores que 
aumentam inexoravelmente a pressão pela abertura de novas áreas 
agrícolas em qualquer outro lugar – inclusive aqui. A Amazônia e 
o Cerrado, é óbvio, são as bolas da vez.
Se há soluções possíveis, naturalmente passam pela tecnologia 
agrícola permitindo aumento de produtividade – o que já está por 
trás de muito do recente crescimento do agronegócio brasileiro. Mas 
mesmo esse tipo de solução é um paliativo que só pode varrer os 
problemas para baixo do tapete do futuro. Não nos enganemos com 
pseudossoluções imediatistas e fáceis. Soluções reais não passam por 
um crescimento econômico baseado na produção de commodities 
agrícolas – um modelo de desenvolvimento do século XIX. 
Soluções reais requerem bem mais planejamento e investimento 
e passam necessariamente por eficiência, inclusive energética, que 
nos permita aprender a produzir sociedades estáveis, em que a 
demanda seja estabilizada ou reduzida – a única possibilidade real 
da tão falada sustentabilidade num planeta finito. Se queremos 
futuro, temos que pensar mais em ter cidades planejadas para o 
transporte público, por exemplo, do que simplesmente em trocar 
o combustível do nosso carro de um que causa aquecimento global 
para um que exige terras. O planeta é finito. Terras para qualquer 
utilização vêm de algum lugar. Tirar mais área de ecossistemas 
naturais é sempre a “solução fácil”. Mas aí ninguém venha me dizer 
que isso é perfeitamente possível de conciliar com a conservação. 
“Z” vai agir sem remorso. Leis elementares nunca pedem desculpas.
Vera
Riscado
–, o

[Inserir vírgula entre o traço e "o".]
76 77
UM TIGRE, DOIS TIGRES, 
1,3 TIGRES
Grandes felinos, como tigres, onças e pumas, sempre foram 
alguns dos favoritos dos amantes da natureza. São admirados pela 
sua força e agilidade, pelo temor que inspiram e por sua beleza. 
Vários deles predam roedores – mas, claro, ninguém é perfeito. 
De qualquer forma, é um paradoxo o fato de que, apesar de todo 
o carisma desses animais, até recentemente sabíamos bem pouco 
sobre eles. Há algo de misterioso na natureza dos gatos em geral, e 
os grandes gatos, em especial, sempre foram bichos muito relutantes 
em dividir seus segredos conosco.
Muitos biólogos começaram suas carreiras querendo trabalhar 
com felinos e outros grandes mamíferos, mas acabaram desistindo 
e indo trabalhar com outros bichos, como roedores, aves ou 
insetos. Esses animais menores sempre foram mais fáceis de 
capturar e de manusear, mais baratos de estudar e permitiam obter 
números amostrais maiores. Talvez mais importante que tudo isso: 
os pequenos animais nós conseguimos ver. Grandes felinos – à 
exceção dos leões nas savanas africanas – são animais reservados 
e inteligentes que raramente se deixam ver passeando por aí. A 
primeira vez que muitos de nossos ancestrais viram um tigre deve 
ter sido a última coisa que eles viram. Já os biólogos costumavam 
vê-los apenas nos raros casos em que, por exemplo, uma onça 
era capturada numa grande armadilha, ou nos casos mais raros 
ainda em que se tinha a sorte de ver um bicho desses andando 
na natureza. No mais, qualquer pessoa que persistia em estudar 
grandes felinos precisava de vastas doses de paciência, abnegação e 
imaginação para passar anos só “vendo” seus bichos por meio das 
pegadas, das fezes e dos bip-bips ritmados do sinal de um receptor 
de rádio.
É claro que, apesar dessas limitações, gerações desses tais 
abnegados fizeram um trabalho admirável e aprenderam muita coisa 
sobre os grandes gatos por intermédio dos tais estudos baseados em 
pegadas, fezes e bip bips. No entanto, estudos assim geralmente não 
conseguiam estimar de maneira acurada quantas onças ou pumas 
havia em cada reserva, o que é uma das informações mais cruciais 
para a conservação e o manejo. Também não conseguiam nos dar 
muitos detalhes da vida cotidiana desses animais.
Nos últimos anos, tudo isso está mudando com uma 
verdadeira revolução causada pelas armadilhas fotográficas. Essas 
“armadilhas” na verdade são câmeras colocadas no hábitat dos 
bichos, com sensores de movimento ou de calor que as fazem 
disparar quando um deles passa por perto. Elas têm registrado 
imagens espetaculares: pumas cujos olhos parecem duas lanternas, 
onças surpreendidasno momento de matar uma paca, e por aí vai. 
Mas o potencial desse método vai muito além das imagens inéditas. 
Algumas vezes, os pesquisadores instalam em cada lugar duas 
câmeras, uma de frente para a outra, para que o mesmo animal seja 
fotografado simultaneamente pelos dois lados. Isso permite o que 
antes parecia impossível: fazer um estudo de captura-marcação- 
-recaptura com esses bichos. Com estudos de captura-marcação-
-recaptura, são possíveis estimativas populacionais acuradas de 
grandes felinos – a informação crucial que antes não tínhamos. 
O que é melhor: podem-se fazer estudos assim sem precisar da 
captura propriamente dita – rara, cara e estressante para o animal 
– para colocar a marcação. Cada indivíduo de onça, lince ou tigre 
tem um padrão particular em suas rosetas, pintas ou listras que 
permite que ele seja reconhecido com relativa facilidade quando 
“recapturado” por uma câmera. Gatos pintados, pode-se dizer, já 
vêm marcados de fábrica.
Vera
Riscado
bip-bips

[com hífen]
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
[descer]
78 79
1,3 tigres
Em um trabalho publicado há alguns anos, três cientistas 
indianos – a bióloga Aparajita Datta e seus colaboradores M. O. 
Anand e Rohit Naniwadekar – usaram armadilhas fotográficas 
para estudar a abundância de grandes mamíferos no Mandapha 
National Park and Tiger Reserve, em 2006-2007. Mandapha é uma 
de quatro reservas estabelecidas no norte da Índia especialmente 
para conservar o majestoso e ameaçado tigre-indiano, Panthera 
tigris tigris. É uma reserva bem grande, com 200 mil hectares, um 
pouco maior que o Parque Nacional do Iguaçu. Os pesquisadores 
indianos distribuíram suas câmeras pela reserva inteira, fazendo 
uma amostragem muito intensa, que totalizou 1.537 câmeras-noite 
(número de câmeras × número de noites em que elas estiveram 
armadas, descontando-se as que apresentaram problemas de 
funcionamento). Como quaisquer pesquisadores, eles certamente 
esperavam obter ótimas fotos do maior e mais imponente de todos 
os grandes gatos.
Ao analisarem as imagens, havia a espetacular pantera-nebulosa 
(Neofelis nebulosa), o “muntjac” (Muntiacus muntjak, um parente 
dos cervos), porcos selvagens (Sus scrofa), alguns carnívoros 
pequenos, macacos e porcos-espinhos. Mas, conspícuos pela sua 
ausência, nada de tigres.
Datta e seus colegas tiveram o cuidado de considerar a 
hipótese de que eles não haviam obtido imagens de tigres porque a 
amostragem tinha sido insuficiente. Para isso usaram um modelo 
estatístico simples, baseado na relação entre as probabilidades de 
fotografar tigres e as densidades conhecidas de outras populações 
dessa espécie. Com isso eles estimaram o número máximo de 
tigres em Mandapha na hipótese mais favorável possível – ou 
seja, que um tigre fosse detectado na 1.538ª armadilha. Os 
pesquisadores calcularam que Mandapha teria um máximo de… 
1,3 tigres.
Um tigre, dois tigres, 1,3 tigres… O velho trava-língua 
agora soa triste. Mesmo que ainda haja algum tigre lá, o que não 
parece provável, não é preciso ser um especialista em Biologia da 
Conservação para perceber que uma população de um não é viável. 
Um dia o bicho vai morrer de velho sem nunca ter acasalado – isso 
se não o matarem antes.
O mais triste de tudo é lembrar que os tigres estão no próprio 
nome da reserva de Mandapha. Por causa deles a reserva tinha 
sido estabelecida. Ainda no início da década de 1990, Mandapha 
tinha uma abundante população deles. Depois disso os números 
caíram, e de 2002 para cá mais nenhum foi visto. Pior: Mandapha 
é a segunda das quatro “Tiger Reserves” onde eles se extinguem – 
depois de Sariska, em 2004. Se os tigres não conseguem sobreviver 
nas reservas feitas especialmente para eles, algo está muito errado.
Tigres são vítimas da ignorância. Em alguns lugares da Ásia, 
especialmente na China, a tradição local diz que produtos de tigre 
são afrodisíacos – conversa pra boi dormir e pra tigre morrer! O 
fato é que há uma grande demanda por partes desses animais, que 
alcançam altos preços. Caçadores profissionais da vizinha Myanmar 
invadem silenciosamente os parques da Índia para matar tigres sob 
encomenda, para que comerciantes chineses possam manter seu 
tráfico de ilusão.
Uma condenação termodinâmica
A triste situação dos tigres do norte da Índia reflete o que 
está acontecendo com todos os grandes gatos, com pequenas 
variações, no mundo inteiro. No mundo moderno, eles estão 
sitiados, acossados, espremidos em pequenos pedaços de 
hábitat remanescente, cercados por um mar de gente. As leis da 
termodinâmica determinam que eles sejam poucos e necessitem 
de muito espaço, e isso está na base de muitos dos seus problemas.
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
[descer]
80 81
Que diabo as leis da termodinâmica têm a ver com isso, você 
pode estar se perguntando. Os grandes felídeos, pode-se dizer, estão 
no topo de uma das ideias básicas da ecologia: a das pirâmides de 
energia. Todos os seres vivos podem ser divididos em produtores 
(capazes de produzir seus próprios corpos a partir de gás carbônico 
e água, por fotossíntese), consumidores primários, secundários, 
terciários e por aí vai. Os consumidores primários se alimentam dos 
produtores; os consumidores secundários, dos primários, e assim 
por diante. Na natureza, apenas uma pequena fração da energia 
disponível em cada um desses “níveis” passa para o próximo nível, 
o que é chamado “a lei dos dez por cento”. Esse percentual na 
verdade varia um pouco, mas não surpreende que seja pequeno, 
pois é óbvio que muito da energia que nós absorvemos não é 
acumulada no nosso corpo. Se não fosse assim, cada um de nós 
pesaria várias toneladas!
Os grandes gatos, que são exclusivamente carnívoros, estão no 
topo da pirâmide – ninguém vive de predá-los. Graças à lei dos 
dez por cento, pouquíssima energia chega até esse nível. Como 
eles evoluíram um grande tamanho que lhes permite dominar 
suas presas, a pouca energia que chega é dividida em um pequeno 
número de “pacotes” grandes. Por isso os grandes felinos são 
poucos. Por isso, para ter populações com esperança, precisam 
de áreas grandes. Simples assim, consequência inevitável de leis 
da natureza. Mas no nosso mundo moderno superpopuloso 
e fragmentado, parece não haver mais lugar para eles. Áreas 
naturais grandes são cada vez mais raras e a pressão sobre elas 
é cada vez maior. Por exemplo, muitas das principais presas de 
onças – antas, queixadas, catetos e pacas – são caçadas dentro 
das poucas áreas protegidas do Sudeste e do Sul do Brasil que 
ainda têm onças. Quando suas presas escasseiam, as onças saem 
da mata e atacam o gado do lado de fora, porque não lhes restou 
mais nada. Aí, são mortas em represália. Para as onças, se correr o 
caçador pega, se ficar o bicho não come.
Uma imensa ironia
Quando pensamos em conservar os felinos, além de pensar 
no que eles são, é preciso também pensar no seu papel nos 
ecossistemas. Como predadores de topo, grandes felinos fazem o 
que os ecólogos conhecem como regulação “de cima para baixo” 
(top-down). Predadores de topo regulam as populações de suas 
presas, nos níveis mais baixos da pirâmide. Com isso, impedem 
que uma espécie que seja a melhor competidora entre as espécies 
de presa se torne tão abundante a ponto de excluir as demais. 
Esse mecanismo parece ser bastante geral em ecologia. Por causa 
dele, a presença dos grandes predadores é essencial para manter 
a biodiversidade. Quando um ecossistema perde seus predadores 
de topo, perde muito mais que eles: perde uma série de interações 
ecológicas que permitem que aquele ecossistema funcione da 
forma como evoluiu. A perda dessas interações, por sua vez, tende 
a conduzir a perdas de biodiversidade. Não é à toa que John 
Terborgh, um dos maiores biólogos da conservação da atualidade, 
tem defendido tão obstinadamente a importância das big things – 
os grandes animais – para a conservação. Os grandes gatos não são 
só animais carismáticos semos quais a natureza nos pareceria mais 
pobre e mais vazia. Eles têm um valor para a conservação que vai 
muito além deles mesmos.
Não foi só a ciência, no entanto, que percebeu o imenso 
potencial das câmeras para entender a vida desses animais. Há 
poucos anos, o programa de televisão Fantástico colocou dentro 
das nossas casas imagens de alta qualidade mostrando a vida 
cotidiana de uma família de tigres, com uma tigresa alimentando 
seus filhotes, assistindo às brincadeiras entre eles, ensinando-os 
a caçar, disputando território com outros tigres. Essas imagens 
impressionantes foram obtidas por câmeras levadas na tromba 
por elefantes asiáticos especialmente treinados – os tigres não 
evitam os elefantes como evitariam os humanos. Ver a vida dos 
Vera
Riscado
terciários, 

[vírgula]
82 83
tigres dessa forma, com todos os detalhes, com um cotidiano ao 
mesmo tempo tão complexo e tão diferente do nosso, com seus 
próprios problemas, seus próprios dramas e suas próprias alegrias, 
é um privilégio que nenhuma outra geração da história humana 
tinha tido. O mundo visto pelos olhos de um tigre é um outro 
mundo, do qual nunca fizemos parte. É como se esse mundo 
estivesse sempre ao lado do nosso, mas não tivéssemos como olhar 
para ele. Agora temos. Nunca como agora tínhamos tido essa 
chance de sentir tamanha proximidade, tamanha identificação, 
e não só medo ou admiração, por esses animais tão reservados e 
misteriosos. Seria uma imensa e trágica ironia se os perdêssemos 
logo agora.
A maioria das pessoas que já ouviram falar de um sujeito 
chamado Douglas Adams, associa o nome dele a um livro hilário, 
impagável: O guia do mochileiro das galáxias. Para seus milhões de 
leitores mundo afora, ele é um escritor talentoso que conseguiu 
misturar dois gêneros aparentemente muito distintos, como 
comédia e ficção científica, com muita criatividade e muito senso 
de humor. Mas Adams, um inglês falecido em 2001, era uma 
figura muito mais interessante e complexa que isso. Sua facilidade 
de falar sobre planetas, estrelas e viagens espaciais, como no Guia, 
era apenas um indício da sua imensa curiosidade e do seu profundo 
interesse por ciência em si. Entre outras coisas, ele se interessava 
muito por evolução biológica e era amigo do biólogo Richard 
Dawkins, que dedicou a ele um de seus livros. Era também músico 
amador e amigo de David Gilmour, do Pink Floyd – para minha 
imensa inveja, chegou a tocar guitarra em duas músicas em uma 
apresentação da banda inglesa. Só essas coisas já bastariam para 
garantir a Douglas Adams um lugar na minha galeria de heróis 
pessoais, mas descobri que há mais um bom motivo para isso: 
ele escreveu um livro sobre conservação da natureza – ao mesmo 
tempo tão diferente dos demais dele e tão igual a eles –, um livro 
para encantar, para divertir e para emocionar.
Last chance to see (Última chance para ver), escrito com a ajuda 
do biólogo Mark Carwardine, foi publicado originalmente em 
1990. É um relato de um projeto que os dois fizeram juntos, 
durante dez meses, de ver alguns dos animais mais ameaçados do 
mundo antes que se extinguissem. Segundo os autores, alguma 
das espécies visitadas bem poderia já estar extinta. E infelizmente 
eles tinham razão: uma já está mesmo. Mas isso não torna o livro 
nem um pouquinho menos atual – na verdade, só o torna mais 
atual e mais necessário.
De todos os animais visitados por Adams e Carwardine, 
nenhuma história é mais pungente que a do golfinho do Yang- 
-Tsé, ou baiji (Lipotes vexillifer). Essa é a espécie que já não existe 
mais. O baiji, equivalente ecológico do nosso boto-cor-de-rosa do 
Amazonas, foi declarado extinto em 2006. Para ele, foi realmente 
a última chance para ver.
Quando Adams e Carwardine tentaram (sem sucesso) 
encontrá-lo em 1988, a situação do baiji já era tão crítica que a 
gente fica se perguntando como era possível que o bicho ainda não 
estivesse extinto. Sem poder ver nas águas sujas e turvas, sem poder 
se orientar com seu sonar na cacofonia subaquática causada pelos 
motores de milhares de barcos, comendo peixes contaminados por 
poluição, sendo ora feridos por anzóis afiados, ora afogados em 
redes de pesca, ora atropelados por uma embarcação, os pobres 
baijis viviam num mundo de pesadelo. Pela primeira vez na vida me 
surpreendi pensando que uma extinção podia ser misericordiosa.
Logo, porém, afastei esse pensamento. Como disse o pai da 
Biologia da Conservação, Michael Soulé, a extinção é muito 
pior que a morte: a extinção é o fim dos nascimentos. Nenhum 
baiji mais vai nascer. O fim daquelas últimas vidas pode ter lhes 
poupado mais sofrimento, mas impediu todas as outras vidas 
de baijis que poderiam ter existido no futuro, quando, com um 
pouco de esperança, o mundo não irá mais aceitar grandes rios nas 
condições atuais do Yang-Tsé.
Vera
Realce
[itálico]
84 85
Um estranho mundo desaparecido
É comum falarmos em espécies em extinção, mas é raro que 
alguém consiga captar tão bem a dramaticidade e a emoção de 
uma situação dessas sem perder o senso de humor, como faz 
Douglas Adams. Pegue o exemplo do kakapo (Strigops habroptilus), 
personagem principal daquele que, para mim, é o capítulo mais 
brilhante do livro, Heartbeats in the night (“Batidas do coração na 
noite”). Para mim o kakapo era apenas mais uma entre tantas aves 
endêmicas e ameaçadas da Nova Zelândia, mas só agora percebi o 
que ele é e o que representa. É um animal ilhado não só no espaço, 
mas também no tempo. É um escasso sobrevivente de um mundo 
estranho, muito mais fantástico que qualquer ficção, que já não 
existe mais.
O kakapo é um papagaio noturno e não voador – é, você leu 
certo –, imenso, meio pesadão, com umas penas meio desgrenhadas 
e uma cara simpática. Hoje em dia, suas colegas aves não voadoras 
contam-se nos dedos no mundo. No entanto, não muito tempo 
atrás, contavam-se aos milhares, distribuídas por centenas de ilhas 
ao redor do globo. Por que em ilhas? Porque em ilhas, devido à 
falta de alguns atores que existem nos continentes, a peça que o 
grande ecólogo George Evelyn Hutchinson chamou de “o drama 
evolutivo” teve um enredo diferente. Mamíferos terrestres nunca 
chegaram a muitas das ilhas mais isoladas. Na sua ausência, outros 
animais – sobretudo aves – evoluíram para ocupar os papéis 
ecológicos que os mamíferos terrestres exerciam nos continentes. 
Para isso se adaptaram à vida no solo, perderam a capacidade de 
voo e, na ausência de predadores, muitas passaram a colocar ovos 
em ninhos expostos no chão. Como resultado desse processo, 
até poucos milhares ou mesmo centenas de anos atrás, as ilhas 
do mundo eram o reduto de uma espantosa coleção de aves 
não voadoras, que mais parecem saídas de um livro de fantasia. 
Estas incluíam, entre muitas outras, gansos não voadores, patos 
não voadores, pombos não voadores como o famoso dodô das 
ilhas Maurício, passeriformes não voadores, mais os gigantescos 
moas da Nova Zelândia e a ainda mais gigantesca ave-elefante de 
Madagascar. E até – por que não? – um papagaio não voador.
A paz dessas estranhas criaturas em seus estranhos mundos foi 
bruscamente quebrada pela chegada humana. No Pacífico, por 
exemplo, ilha após ilha foi colonizada, de oeste para leste, a partir 
de uns três mil e quinhentos anos atrás, e as aves não voadoras 
certamente foram uma fonte de alimento fácil e importante para 
os colonizadores polinésios. Além disso, para outros animais 
trazidos pelos humanos, como gatos e ratos, ovos em ninhos 
abertos no chão foram uma festa – mas uma festa de curta 
duração. À medida que cada ilha ia sendo colonizada, as aves não 
voadoras iam desaparecendo. Nas últimas décadas, estudos de 
pesquisadores como o paleontólogo David Steadman mostraram 
que algo entre mil e duas mil espécies de aves foram extintas nesse 
processo – grande parte delas não voadoras. Umas poucas espécies 
sobreviveram até mais recentemente nas últimas ilhas a serem 
atingidas pelos colonizadores. Esse foi o caso do dodô nas ilhas 
Maurício e do kakapo(assim como do kiwi) na Nova Zelândia, 
alcançada pela primeira vez por humanos – os maori – há apenas 
cerca de novecentos anos.
Encontro numa noite chuvosa
Na época em que Last chance to see foi escrito, o kakapo só 
era encontrado, que se soubesse, em duas pequenas ilhas da Nova 
Zelândia, Codfish e Little Barrier Island, somando a espécie uma 
população total de quarenta e três indivíduos – um a mais que o 
grande segredo da vida, do Universo e de tudo, segundo o Guia do 
mochileiro das galáxias. A essas ilhas, gatos e ratos nunca chegaram, 
e há uma verdadeira operação militar permanente para impedir 
Vera
Realce
[Tirar vírgula depois de livro]
Vera
Realce
(Batidas do coração na noite)

[sem aspas e em itálico]
86 87
que cheguem, inclusive com revistas rigorosas de cada barco que 
aporta lá.
Um grande momento do livro é a noite chuvosa na qual Adams 
e Carwardine finalmente conseguem encontrar um kakapo, com a 
ajuda de Arab, cuja profissão – rastreador de kakapos – está quase 
se extinguindo também, por falta de objeto de trabalho. 
=Boss, o cachorro treinado para encontrar kakapos, segue à 
frente com um sininho no pescoço para poder ser seguido pelas 
pessoas. A procura se estende por horas, e Adams e Carwardine já 
estão cansados, molhados, quase apáticos. Num certo momento, 
mal percebem que o sininho parou de tocar. Então, subitamente, 
olham um para a cara do outro e percebem ao mesmo tempo o que 
isso quer dizer.
Ambos se atiram correndo na mata e, em poucos minutos, 
lá está. Nas mãos de Arab, lá está um kakapo molhado, perdido, 
congelado de medo. Seu poderoso bico segura o dedo de Arab com 
força, mas sem quebrá-lo, como poderia facilmente fazer. Arab 
sangra e não se importa; Adams e Carwardine estão encharcados e 
exaustos, mas não se importam. Lá está, naquela ave assustada, um 
raro vislumbre de um mundo que não existe mais.
Batidas do coração na noite
Uma das coisas mais impressionantes do kakapo, porém, 
é o canto de acasalamento do macho. É um som muito grave e 
poderosíssimo, como uma imensa batida de coração ecoando pela 
noite. Tem uma frequência quase baixa demais para nossa audição; 
é algo meio ouvido, meio sentido, que não se pode saber de onde 
vem. É um som de um mundo do passado, que quase não se pode 
mais ouvir, ou sentir, ou o que seja.
Para sua finalidade, de atrair a fêmea para acasalamento, o canto 
do kakapo é também lamentavelmente ineficiente, por causa de sua 
não direcionalidade. Um canto assim pode ter sido bom o bastante 
para as baixas taxas reprodutivas que o bicho deve ter evoluído em 
ilhas sem predadores, mas não ajuda nada na situação atual, na qual 
a espécie depende muito da reprodução para sobreviver. É como se 
o macho estivesse dizendo para a fêmea, com um som ritmado, 
intenso e repetitivo, “venha para mim!”. Para Douglas Adams (em 
tradução livre), é como se houvesse um diálogo entre o macho e 
a fêmea, mais ou menos assim: “Venha para mim!”, “Onde você 
está?”, “Venha para mim! ”, “Onde, diabos, você está?”, “Venha 
para mim!”, “Escuta, você tá querendo que eu vá ou não?”, “Venha 
para mim!”, “Ah, que saco!”, “Venha para mim!”, “Vai se…”.
Pobres kakapos! Vai ser difícil conseguirem as taxas reprodutivas 
que os biólogos da conservação esperam deles.
Conservação e encantamento
Last chance to see, antes de tudo, nos ajuda a relembrar de como 
a conservação depende do encantamento. Qualquer pessoa que se 
importa com animais e plantas fica com um aperto no coração 
ao ler sobre a situação atual de um grande número de espécies. 
No entanto, nem por isso textos sobre essas coisas precisam ser 
maçantes ou pesados de ler. Como Adams bem percebeu, muitos 
desses casos são também excelentes histórias: com drama, com 
mistério, com emoção e – por que não? – até com humor. Isso 
tudo nos ajuda a desenvolver empatia pelos bichos, que é e sempre 
foi uma das razões que nos levam a tentar fazer algo por eles. Se 
hoje eu trabalho com conservação, é em grande parte por causa 
daqueles dias de criança quando eu ficava longas horas lendo livros 
e álbuns de figurinhas de bichos maravilhosos que sonhava um dia 
conhecer. Muita gente que hoje luta pela natureza tem histórias 
parecidas para contar. A gente só cuida do que ama, e só ama o 
que conhece.
Vera
Riscado
[Tirar esse sinal = antes de Boss.]
88 89
Desenvolvermos empatia pelas espécies ameaçadas tem pressa. 
No mundo de hoje a situação de um grande número delas, como 
as visitadas por Adams e Carwardine, está cada vez mais crítica. 
Mas será muito triste se só soubermos delas depois que tiverem 
acompanhado o baiji na extinção. Quem sabe agora pode ser a 
nossa última chance para ler, enquanto elas ainda estão conosco.
O SUS QUE DEU CERTO
Espécies exóticas invasoras estão entre os maiores vilões da 
conservação, e há razões de sobra para isso. Uma invasora é uma 
espécie introduzida pelos humanos em uma área fora de sua 
distribuição original, e que consegue se instalar e se reproduzir 
com sucesso na nova área. Em um ambiente novo, livres de seus 
inimigos naturais, algumas delas se tornam muito abundantes e 
têm impactos devastadores sobre as biotas locais. Esse processo tem 
sido apontado como uma das três maiores causas de extinção de 
espécies, ao lado de perda de hábitats, e de caça e superexploração. 
O problema é particularmente grave em ilhas, onde invasoras 
causaram várias centenas de extinções globais de espécies. Em 
muitas ilhas ao redor do mundo, mesmo nas maiores como a 
Nova Zelândia ou a ilha metida a continente chamada Austrália, 
o trabalho de conservação quase se confunde com o controle de 
exóticas. Aqui no Brasil, as ameaças à biodiversidade são múltiplas 
e aumentam a cada dia, mas ainda assim o caramujo africano, o 
pinheiro Pinus elliottii e o bagre-africano, entre tantos outros casos, 
têm causado justificada preocupação.
Talvez você se surpreenda ao saber que uma das mais destrutivas 
espécies invasoras é o porco doméstico, Sus scrofa. Não se deixe 
enganar por aquela carinha simpática com nariz de tomada. O porco 
está na lista da IUCN (União Internacional para a Conservação da 
Natureza) como uma das cem piores espécies invasoras do mundo. 
Em todo o mundo, porcos domésticos “ferais” (isto é, retornados 
à vida selvagem) causam sérios prejuízos à vegetação e ao solo. 
Predam de tudo: ovos de aves marinhas e de tartarugas, anfíbios, 
invertebrados. Transmitem doenças para várias espécies, inclusive 
90 91
a nossa. Além disso, estudos como os do paleontólogo norte- 
-americano David Steadman mostram que porcos trazidos pelos 
polinésios estiveram entre os principais responsáveis pela extinção 
de mais de oitocentas espécies de aves nas ilhas do Pacífico – na 
maioria, espécies que nidificavam no chão e não tinham defesa 
alguma contra mamíferos predadores introduzidos. Como se sabe, 
então, o Sus é um desastre.
O porco monteiro e seu papel no Pantanal
Dados esses antecedentes, foi uma agradável surpresa para 
mim que Arnaud Desbiez, um biólogo francês radicado no Brasil, 
e três colaboradores (Alexine Keuroghlian, Ubiratan Piovezan 
e Richard Bodmer) publicassem, em 2011, na revista Oryx, um 
artigo com a ideia de que o porco doméstico introduzido é um 
dos principais responsáveis pela conservação de várias espécies de 
grandes mamíferos no Pantanal. O ponto que Arnaud e seus colegas 
defendem é simples, interessante e importante. No Pantanal, o 
“porco monteiro” – como lá é conhecido o porco doméstico feral 
– existe há mais de 150 anos, desde que fazendas foram devastadas 
durante a Guerra do Paraguai e os bichos escaparam. Sua carne 
é altamente apreciada pelos pantaneiros: 93% dos entrevistados 
a apontaram como sua carne silvestre favorita, enquanto 7% 
preferiam o queixada (Tayassu pecari) e ninguém falou do cateto 
(Pecari tajacu), as duas espécies de porcos-do-mato nativos do 
Pantanal. Há um costume local de capturar machos de porco 
monteiro, castrá-los, marcá-los (para identificar a fazenda à qual 
“pertencem”) e soltá-los paracaptura posterior. Esses machos, 
chamados “capados”, tornam-se imensos e fornecem a mais 
apreciada das carnes. Além disso, os caçadores geralmente evitam 
matar fêmeas, especialmente fêmeas grávidas, o que permite a 
manutenção da população.
Segundo Arnaud e colegas, o fato de o porco monteiro ser a 
espécie preferida protege da caça os grandes mamíferos nativos que 
coexistem com ele, como o queixada e o cateto, que em outros 
lugares sofrem intensa pressão e já se tornaram regionalmente 
extintos em grande parte do Brasil e raros no restante. Se essa 
interpretação está correta, o porco monteiro introduzido seria um 
importante fator para o Pantanal ser a única região do Brasil onde 
grandes mamíferos ainda são abundantes mesmo fora de Unidades 
de Conservação de proteção integral.
Como em quase tudo no Pantanal, o equilíbrio é frágil. Arnaud 
e seus colegas lembram, claro, que os porcos monteiros também 
têm outros efeitos sobre a biota pantaneira. Afinal, todos os velhos 
truques que colocaram Sus scrofa na lista dos cem piores invasores 
ainda estão lá: os bichos destroem a vegetação e o solo, predam 
pequenos vertebrados, transmitem doenças… Mas é possível que 
esses efeitos negativos sejam menores que os positivos e, se esse 
for o caso, isso parece se dever a um único fator: justamente que a 
caça controla a população dos porcos, impedindo que ela chegue a 
níveis nos quais os impactos negativos seriam preocupantes. Não se 
consegue evitar a impressão de que funciona bem quase que por um 
acidente histórico – como não aconteceu em vários outros lugares 
onde hoje não há porcos ferais, nem queixadas, nem catetos. Mas 
funciona. Parece haver um Sus, pelo menos, que funciona.
Certamente há outro caso importante de introdução de Sus no 
Brasil, que é o javali, da mesma espécie que o porco doméstico, Sus scrofa. 
Na verdade, o javali é a forma selvagem a partir da qual o atual porco 
doméstico foi derivado, através de milhares de anos de domesticação e 
de seleção artificial para acentuar as características valorizadas por nós. 
Mas a invasão do javali no Sul do Brasil, por exemplo, onde já não há 
mais queixadas e catetos na maioria das áreas, representa uma situação 
muito diferente daquela do porco monteiro no Pantanal. Sobretudo, 
não necessariamente representa um questionamento da malignidade 
das exóticas. Não é meu objetivo, portanto, discutir o javali aqui.
heloisavasconcellos
Sticky Note
[retirar]
heloisavasconcellos
Highlight
92 93
Reavaliando o papel das invasoras
Será que o porco monteiro no Pantanal é apenas um caso 
isolado, uma exceção dentro de um padrão praticamente inflexível 
de que espécies invasoras provoquem estragos? Já não estou mais 
tão certo disso. Há alguns anos, uma carta intitulada “não julgue 
espécies por suas origens” foi publicada na revista Nature por 
um grupo de ecólogos encabeçado por Mark Davis e incluindo 
monstros sagrados dessa ciência como Michael Rosenzweig (aquele 
mesmo das relações espécies-área) e James Brown (não o do soul; 
o outro, da University of New Mexico, para mim um dos maiores 
ecólogos do século XX). Essa carta ameaça colocar o caso do porco 
monteiro como apenas mais um exemplo dentro de um cenário 
muito maior de reavaliação do papel das espécies invasoras pela 
Biologia da Conservação.
Davis e colaboradores traçam o histórico dos conceitos de 
espécies “nativas” (native) e exóticas (alien), que foram criados 
pelo botânico inglês John Henslow em 1835, para ajudar a 
distinguir a “verdadeira” flora britânica das plantas introduzidas. 
Porém os ecólogos só despertaram para a escala e a importância 
do assunto em 1958, com a publicação do clássico A ecologia das 
invasões por animais e plantas, de Elton (não Elton John; o outro, 
ainda mais antigo, Charles Elton, um dos grandes pioneiros da 
ecologia). Nas décadas seguintes, com o aumento das informações 
sobre os impactos de exóticas, foi se firmando entre cientistas, 
conservacionistas e muito do público em geral uma visão de que 
espécies invasoras são ruins e devem ser evitadas e erradicadas a 
qualquer custo.
Segundo Davis e colaboradores, porém, há muitos casos em 
que não se pode demonstrar que uma exótica esteja causando 
estragos para a biodiversidade, e outros em que elas podem, na 
verdade, estar tendo um efeito positivo. Um exemplo citado na 
carta é o do “tamarisk”, uma planta africana e eurasiana que foi 
introduzida em regiões áridas dos Estados Unidos, onde hoje é 
um componente importante do hábitat, sendo inclusive a planta 
preferida para a reprodução de um pássaro nativo e ameaçado, 
o willow flycatcher (Empidonax traillii). Assim sendo, os imensos 
esforços dos americanos para erradicar o “tamarisk” poderiam estar 
sendo contraproducentes para a conservação.
Outro ponto interessante apontado por eles é que o mundo 
biológico vem sofrendo rápidas e intensas transformações, inclusive 
por causa das mudanças climáticas globais, e por isso o papel das 
espécies nos ecossistemas muda ao longo do tempo. Por um lado, 
isso quer dizer que uma invasora que hoje é inofensiva pode vir a 
fazer estragos no futuro; mas, por outro lado, isso também vale para 
qualquer nativa. Por exemplo, hoje o inseto que mais mata árvores 
na América do Norte é o besouro nativo Dendroctonus ponderosae, 
cuja dinâmica populacional foi alterada pelas mudanças climáticas, 
com efeitos desastrosos para a mesma floresta que sempre foi seu 
hábitat natural. A distinção entre nativas e exóticas, então, fica 
cada dia menos nítida.
Podemos então baixar a guarda com as invasoras?
Então as espécies invasoras deixaram de ser consideradas um 
problema sério? Não, não me entenda mal. Não estou de modo 
algum dizendo isso. A nova visão delas proposta por Davis e 
colaboradores tem sido vigorosamente contestada, inclusive por 
alguns outros ecólogos de primeiro time. Um dos mais destacados 
deles é, sem dúvida, Daniel Simberloff, que já disse, numa palestra 
no Rio de Janeiro em 2014, que em qualquer exemplo citado 
por Davis podem ser encontrados mais impactos negativos que 
positivos das invasoras. A nova perspectiva não apaga a história, 
nem a experiência cotidiana, de que as invasoras têm efeitos 
negativos em muitíssimos casos. Cabe notar que os efeitos de 
Vera
Riscado
"Não

[N em cx.alta]
94 95
espécies introduzidas são muito difíceis de predizer. É fácil elas 
criarem novas interações ecológicas imprevistas e indesejadas, com 
efeitos desastrosos para a diversidade.
Não estou dizendo, então, que devemos jogar fora cuidados que 
continuam fazendo todo o sentido do mundo. Mas talvez precisemos 
de estratégias de manejo mais flexíveis para lidar com o problema. 
Uma política do tipo “se é exótica, tire” pode ser prática para o 
manejo cotidiano de áreas naturais, porque fornece uma diretriz 
simples e direta e porque requer relativamente pouca informação 
além da identificação das espécies. Mas ao mesmo tempo uma 
política assim pode ser desperdiçadora de valiosos recursos, ou até 
contraproducente. Em minha opinião, uma política mais adequada 
seria mais ou menos assim. Evite a introdução de novas exóticas, 
porque seus efeitos são imprevisíveis. Se a espécie introduzida já 
está lá como invasora, estude a situação e entenda que efeitos ela 
tem no ecossistema. Se ela tiver efeitos nulos ou positivos, deixe-a 
lá e use seus recursos para coisa melhor. Se ela estiver fazendo 
estrago, aí, sim, erradique se for possível, ou controle se não for. 
Mesmo uma política assim pode ser contestada, como tem sido, 
por exemplo, por Simberloff, que argumenta que os efeitos de uma 
invasora podem não ser perceptíveis de imediato, mas se não a 
removermos imediatamente e deixarmos sua população crescer, 
poderá ser impossível removê-la mais tarde quando o efeito se 
tornar aparente.
De qualquer forma, meu ponto principal é que qualquer política 
de manejo de exóticas precisa ser orientada o tempo todo por 
um bom entendimento dos processos naturais – ou seja, por boa 
ciência. Mas quase qualqueroutra coisa em conservação também 
precisa. É a ciência que tem nos permitido entender que o papel das 
espécies exóticas invasoras pode ser, pelo menos em alguns casos, 
mais complexo e nuanceado do que pensávamos algumas décadas 
atrás. Esse alargamento da nossa perspectiva não deixa de ser uma 
boa notícia. Depois de tantos anos vendo o estrago que a maioria 
delas causa, é animador pensar que algumas espécies invasoras 
possam também estar contribuindo para a conservação – nem que 
seja só um porquinho.
96 97
A TAL DA SUSTENTABILIDADE
“Nem sempre assim é, mesmo se lhe parece.”
Parafraseando William Shakespeare, em As you like it
Não, não adianta: você não pode escapar de ler ou ouvir a 
palavra sustentabilidade ainda hoje, em algum lugar.
Poucas palavras, estão tão na moda quanto sustentabilidade. Ela 
é repetida à exaustão – seja nos jornais, na TV ou na internet; 
seja nos discursos dos políticos ou nos anúncios das mais variadas 
empresas. Pode-se dizer que é quase um mantra dos nossos tempos 
pós-modernos.
Podemos ligar a origem dessa popularidade da palavra 
sustentabilidade ao conceito de “desenvolvimento sustentável”, 
definido formalmente pela primeira vez no Relatório Brundtland 
em 1987 como “desenvolvimento que atende às necessidades 
do presente sem comprometer a habilidade de as gerações 
futuras atenderem às suas próprias”. Esse conceito tornou-se 
imensamente popular nas últimas décadas, como a panaceia que 
permitiria conciliar o desenvolvimento com a necessidade cada 
vez mais óbvia de não destruir a própria base de recursos da qual 
o desenvolvimento dependia. A palavra sustentabilidade era mais 
antiga, tendo sido usada desde a década de 1970, com um sentido 
próximo do atual, pelo grande ecólogo Paul Ehrlich. No entanto, 
foi embutida no conceito de desenvolvimento sustentável que a 
palavra tomou conta da mídia. Toda hora fala-se que esse ou aquele 
recurso natural está sendo explorado de forma sustentável.
À primeira vista podemos pensar que isso é ótimo. Devemos, 
então, estar cercados de práticas de exploração sustentável de 
recursos naturais, permitindo manter tais recursos para as gerações 
futuras. Ah, sim, claro, conservando a natureza também.
Será?
Testando sustentabilidade
Nos últimos anos, vários pesquisadores têm estudado a questão 
de se algumas explorações de recursos naturais apresentadas como 
sustentáveis de fato o são. Um deles foi o agrônomo-tornado-
-ecólogo paraense Carlos Peres, que com vários colaboradores 
estudou se era ou não sustentável a exploração da castanha-do-
-pará. Na natureza, os frutos da castanheira (Bertholletia excelsa) 
são abertos por cutias. As cutias muitas vezes enterram as sementes 
para consumi-las depois, mas são uns roedores desmemoriados 
que com frequência esquecem onde enterraram as sementes, que 
então germinam. Hoje o florescente mercado internacional para 
as chamadas Brazil nuts tem deixado pouca coisa para as cutias. A 
exploração da castanha-do-pará por populações locais na Amazônia 
tem sido aclamada como um dos melhores exemplos de exploração 
sustentável de um recurso natural no Brasil.
O estudo de Peres e seus colegas, publicado na Science, foi um 
estudo muito amplo. Em nada menos que vinte e duas localidades 
espalhadas pela Amazônia – a maioria delas no Brasil, mais algumas 
no Peru e na Bolívia – os autores mediram todas as castanheiras 
maiores que 10 centímetros DAP (Diâmetro à Altura do Peito). 
As árvores jovens, ou seja, as que ainda não produzem frutos, são 
aquelas com DAP menor que 60 centímetros. É, castanheiras são 
Vera
Riscado
[Tirar a vírgula.]
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
[descer]
98 99
árvores bem grandes. O estudo comparou a frequência de árvores 
jovens em localidades com diferentes antiguidades e intensidades 
de exploração.
Os resultados foram claros e perturbadores. A proporção de 
árvores jovens variava de 31 a 76% nas cinco localidades onde não 
havia exploração de castanhas-do-pará. Caía para 10,6 a 47% nas dez 
localidades pouco exploradas e para 3,8 a 25% nas cinco localidades 
moderadamente exploradas. Já nas três localidades persistentemente 
exploradas, a proporção de castanheiras jovens caía para ínfimos 0,7 
a 1,6% – dezenas de vezes mais baixa que a proporção normal. Pior: 
em uma dessas três localidades, as poucas castanheiras jovens eram 
rebrotamentos de árvores quebradas por ventos, as quais não se 
reproduziam mais. Ou seja, as populações exploradas tendem a ser 
populações velhas, com poucas árvores jovens.
A conclusão de Peres e seus colaboradores resume tudo com 
perfeição: “a mensagem clara é que as práticas de coleta de castanha- 
-do-pará não são sustentáveis em longo prazo”. Por algumas décadas, 
a produção pode até ser mantida porque as castanheiras vivem e 
frutificam por muito tempo, mas depois que as árvores adultas de 
hoje morrerem nas áreas exploradas, não há quase árvores jovens 
vindo para substituí-las. Ou seja, a segunda e tranquilizadora parte 
da definição de sustentabilidade, “sem comprometer a habilidade 
das gerações futuras atenderem às suas próprias [necessidades]” 
acabava de ir para o espaço.
Em um estudo mais recente, também na Amazônia, Plinio Sist 
e Fabrício Nascimento, dois pesquisadores da Embrapa, analisaram 
a sustentabilidade da chamada “exploração madeireira de baixo 
impacto” (reduced impact logging ou RIL). RIL é uma técnica 
pela qual apenas as árvores acima de certo diâmetro, das espécies 
comerciais, são retiradas, com técnicas cuidadosas, deixando-se as 
demais árvores no lugar. A área estudada, na Fazenda Rio Capim, 
em Paragominas (Pará), era explorada pelo grupo CIKEL – Brasil 
Verde. Um detalhe muitíssimo importante, a “sustentabilidade” 
da exploração na Fazenda Rio Capim é certificada pelo Forest 
Stewardship Council (FSC), a mais tradicional e exigente entidade 
internacional que fornece selos verdes para companhias de 
exploração madeireira no mundo.
Sist e Nascimento fizeram um planejamento experimental 
cuidadoso e coletaram uma imensa quantidade de dados. Antes do 
corte das árvores, utilizaram duas linhas de amostragem, cada uma 
incluindo nove áreas amostrais de 100 × 100 metros cada. Em cada 
área, identificaram e mediram nada menos que todas as árvores com 
DAP igual ou maior que 20 centímetros – um trabalho hercúleo. 
Depois da extração das árvores comerciais, verificaram quantas das 
restantes árvores da floresta haviam sido mortas ou danificadas por 
esse processo. Além disso, usando dados sobre o crescimento das 
árvores, calcularam quanto tempo as árvores comerciais levariam 
para repor o estoque que havia sido retirado. Um ciclo de 30 anos 
– ou seja, 30 anos entre extrações sucessivas de madeira da mesma 
área – é o mínimo permitido por lei na Amazônia brasileira.
Novamente os resultados foram perturbadores. Sist e 
Nascimento estimaram que apenas metade do estoque das madeiras 
comerciais poderia ser reposta após o ciclo “legal” de 30 anos – ou 
seja, novamente a exploração dita “sustentável” na verdade não é 
sustentável, pela própria definição. Pior que isso, é preciso olhar 
também a questão da conservação ou não da floresta como um todo. 
Mesmo com técnicas cuidadosas, os pesquisadores encontraram 
que, em média, nada menos que 13,9% das árvores restantes de cada 
área haviam sido mortas e mais 6,7% danificadas com diferentes 
graus de severidade, durante a extração das árvores comerciais. A 
abertura do dossel – ou seja, as “falhas” na continuidade do topo 
da floresta – tinha duplicado a triplicado. Em resumo, trata-se 
de uma exploração de recursos que não permite manter os níveis 
desses recursos para as gerações futuras e, além disso, causa um 
dano considerável à floresta. Olhe bem que a CIKEL tem sido 
considerada um dos melhores exemplos de bom manejo florestal – 
Vera
Realce
",
[Inserir vírgula após as aspas.]
Vera
Realce
[Tirar vírgula após "severidade";]
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
consideradalá há tanto para perder) e afeta 
um ecossistema particularmente frágil, para nos lembrar de como 
toda vida, inclusive a nossa, é frágil também.
Nunca o conhecido lema dos movimentos ambientais foi tão 
verdadeiro como hoje: pense globalmente, aja localmente. Muito 
tem sido feito, inclusive no próprio Pantanal, para combater a 
ação dos processos planetários que ameaçam a biodiversidade. Mas 
muito ainda precisa ser feito.
Nesse contexto, fiquei feliz, alguns meses atrás, com uma boa 
notícia: a ressurreição dos mastodontes no Pantanal. Oi? Não, 
não estou falando da suposta ressurreição genética de uma espécie 
extinta a partir de uns poucos fragmentos remanescentes de seu 
DNA – isso, até onde sabemos, ainda pertence ao domínio da 
ficção científica. Estou falando de outra coisa, mais modesta, mas 
acredito que útil.
Dentro do movimento ambiental, muito do meu “agir 
localmente” tem sido fazer divulgação científica de temas relacionados 
à conservação da biodiversidade, por meio de palestras e livros. Meu 
segundo livro, Os mastodontes de barriga cheia e outras histórias, foi 
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
[descer]
12 13
lançado em 2016, pela editora carioca Technical Books. Foi bastante 
bem-sucedido, e a primeira edição desapareceu das livrarias em 
pouco mais de um ano. Era a segunda extinção dos mastodontes.
Recentemente, porém, tive uma notícia que me deixou muito 
feliz: o Documenta Pantanal – braço editorial de um grupo que 
tem realizado importantes ações pela conservação, e para o qual eu 
tinha acabado de traduzir Rewilding na Argentina – me convidava 
para relançar Os mastodontes de barriga cheia. Os mastodontes 
estavam sendo trazidos de volta da extinção no Pantanal! Nada 
mais adequado.
Agradeço a Josué Nunes, por sua generosidade em me liberar 
do contrato com a Technical Books. Também agradeço de 
coraçãoa Mônica Guimarães, pelo convite para lançar a segunda 
edição pela Documenta Pantanal e por seu entusiástico e bem- 
-humorado apoio e incentivo; a Teresa Bracher, por seu admirável 
compromisso com a conservação da biodiversidade e por seu apoio 
a este livro; a Heloísa Vasconcellos, por seu competente, paciente 
e compreensivo trabalho na produção da segunda edição; e a Vera 
Maselli, pela cuidadosa e construtiva revisão do texto. Foi um 
grande prazer trabalhar com essa equipe do Documenta Pantanal. 
Agradeço também a todos os meus amigos que nunca me deixaram 
desistir de ressuscitar Os mastodontes. 
APRESENTAÇÃO
Costumo detestar continuações. Uma exceção, claro, é O Império 
contra-ataca, de Guerra nas Estrelas – que, como qualquer fã da saga 
sabe, é a parte cinco, e não a dois. Quando escrevi meu primeiro 
livro, O Poema Imperfeito – crônicas de biologia, conservação da 
natureza e seus heróis, o sucesso que ele alcançou me surpreendeu. 
Foi lançado por uma editora universitária, não teve distribuição nas 
livrarias comerciais nem divulgação na mídia, mas mesmo assim 
nunca parou de vender. Tornou-se um livro cult, se posso dizer assim. 
Durante todos esses anos, muita gente me perguntou “quando vem 
o segundo Poema?”. Eu ficava feliz com essas perguntas, mas ao 
mesmo tempo essa expectativa toda me inibia. Não queria escrever 
uma “parte 2”. Acabei deixando as coisas assim, e por vários anos 
nem pensei mais em um segundo livro.
Mas aconteceu, como você pode imaginar, que o gosto de 
escrever ainda estava (e está) bem vivo dentro de mim. Anos 
depois, um amigo, o jornalista Marcos Sá Corrêa, me convidou 
para escrever para o site de conservação O Eco, que ele havia 
criado. Topei e, aos poucos – rapidez nunca foi o meu forte –, 
foram surgindo várias crônicas para O Eco, assim como para 
alguns outros veículos, e outros textos que eu fui escrevendo por 
puro prazer e guardando numa gaveta. Os textos que surgiram 
refletiam coisas que eu estava aprendendo ao longo dos anos e 
ideias novas; eram bem diferentes do que eu havia feito antes, 
embora sobre os mesmos assuntos de ecologia, conservação, 
história da ciência e temas correlatos. Assim, o fantasma de uma 
continuação foi se esvanecendo. Um belo dia, percebi que gostava 
muito de vários desses novos textos, que havia bastante unidade 
entre eles, e os imaginei sob a forma de um livro. Despercebida, 
a criatura irreprimível que é este novo livro tinha tomado forma 
sozinha. Então, quando Josué Nunes, da Technical Books, me 
Vera
Riscado
pelo
Vera
Realce
Heloisa

[sem acento]
Vera
Realce
coração a

[separar]
14 15
perguntou se eu tinha algum livro novo para publicar, surpreendi-
-me ao responder, feliz, que sim.
Este livro é formado por crônicas selecionadas entre as 
publicadas originalmente em O Eco, assim como uma publicada 
em outro lugar, e várias inéditas. Porém revisei cuidadosamente 
todo o material. Corrigi pequenos problemas, inclusive em resposta 
a algumas críticas de leitores de O Eco. Editei e melhorei vários dos 
textos, e os atualizei sempre que necessário. Finalmente, eliminei 
ou pelo menos reduzi muito as redundâncias, para fazer do livro 
um todo fluido, sem repetições desnecessárias.
A ideia que permeia todo o livro, que aprendi com Stephen 
Jay Gould, é que a divulgação científica pode perfeitamente ser 
gostosa de ler, e isso não faz mal algum para passar as ideias da 
ciência para um público amplo – pelo contrário. Pelo menos essa é 
a tentativa. Gould, a pessoa que mais me influenciou para que eu 
me interessasse por escrever coisas assim, defendia que a divulgação 
científica pode e deve se referir a contextos amplos da cultura e 
da vida cotidiana. A ciência não só é maravilhosa e fascinante; 
é também bem mais próxima do nosso dia a dia e da natureza 
humana do que costumamos perceber.
No total, são trinta crônicas que agrupei em seis seções: 
Históricas, Conservacionistas, Gouldianas, Filosóficas, Biofílicas e 
Utópicas.
A primeira seção, “Históricas”, é sobre um tema bastante caro 
a mim, embora triste: a extinção. Trata-se, portanto, de uma seção 
sobre história ecológica e paleontologia, e o que elas têm a nos 
ensinar para a conservação. Começa com a crônica-título, uma 
história de detetive sobre quem matou os grandes animais – como 
mamutes, preguiças-gigantes ou, no caso, mastodontes – no final 
do Quaternário, poucos milhares de anos atrás. Outros textos 
falam de extinções históricas mais recentes – incluindo maravilhas 
como a gigantesca ave-elefante de Madagascar e a ainda mais 
gigantesca vaca-marinha de Steller. Já a última crônica dessa parte 
fala de extinções locais, de grande impacto mas ainda subestimadas 
na conservação.
A segunda seção, “Conservacionistas”, é talvez a mais central do 
livro, e por isso a maior. Ali estão agrupados dez textos, falando entre 
outras coisas da maravilhosa história de um homem lutando para 
salvar sozinho uma espécie praticamente extinta (“Estudo de um 
caso perdido: o falcão de Maurício e a Biologia da Conservação”), 
sobre a agonia das últimas populações de grandes feras (“Um 
tigre, dois tigres, 1,3 tigres”) e sobre a viagem quase poética de 
dois homens para conhecer as espécies mais raras do planeta antes 
de se extinguirem (“Última chance para ler”). Seguem-se alguns 
textos sobre um assunto muito em moda hoje em dia, mas muito 
mal compreendido pela maioria das pessoas: a sustentabilidade. 
Essa parte termina em uma nota mais otimista, falando sobre 
reintrodução de populações e reconstrução de faunas, mostrando 
como nós podemos, sim, fazer alguma coisa.
Os escritos da terceira seção, “Gouldianas”, são, de todos, os 
mais livres, os mais experimentais, ou talvez os mais especulativos 
– o leitor vai julgar. Prefiro pensar que isso é parte da minha 
homenagem a Stephen Jay Gould, de quem falei acima. Gould 
escrevia desse jeito, chegando a falar de beisebol por quase a metade 
de um de seus livros, Full Hand ! Começamos revivendo a viagem 
de Darwin no Beagle e a descoberta da seleção natural com outros 
olhos. O texto seguinte parte explicitamente da ideia de Gould 
da[em 2016]
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
[descer]
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imagine as outras empresas. Sist e Nascimento foram ainda além e 
apontaram que a falta de sustentabilidade que eles verificaram não 
era em absoluto um resultado isolado, mas, sim, similar à de outros 
estudos desenvolvidos no sudeste da Ásia.
Os estudos que discuti são apenas dois, e pode-se perguntar se 
são apenas exceções a uma suposta regra geral de explorações de 
fato sustentáveis. Poderia até ser – mas veja o próximo capítulo. De 
qualquer forma, esses estudos mostram, para começo de discussão, 
que alguns dos casos apontados como sendo de exploração 
sustentável na verdade não o são.
O que faz uma exploração ser sustentável ou não?
Desculpe, caro leitor, se bombardeei você com tantos resultados 
de demografia. Você tem razão, a demografia – o estudo das 
populações – pode ser um pouco árida às vezes. Tentei colocar 
tão poucos tediosos números quantos consegui. Mas, acredite, os 
que coloquei foram por uma boa causa. Foram para mostrar que 
aquilo que um tecnocrata chama de “recurso natural” eu chamo de 
“população biológica”. Qualquer uso de uma população de animais 
ou de plantas só pode ser sustentável se as entradas de indivíduos 
para a população (isto é, nascimentos e imigração) continuarem 
compensando, em longo prazo, as saídas (isto é, mortes e emigração). 
Como saber isso? Estudando a população em questão. Simples 
assim. Se uma dada exploração é sustentável ou não, isso é uma 
questão técnico-científica, fundamentalmente demográfica, que 
precisa ser respondida com a aplicação de boa ciência. Tudo isso 
deveria ser o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Mas 
no mundo de hoje, onde esse assunto tem sido tão abusado pela 
ideologia e pela propaganda, às vezes é necessário dizer o óbvio.
Você pode ter notado que tanto o estudo de Peres e colaboradores 
como o de Sist e Nascimento foram a posteriori, ou seja, visaram 
analisar a sustentabilidade ou não de uma exploração que já existia, 
e que, em ambos os casos, era dita sustentável. É claro que seria 
desejável ter estudos a priori, ou seja, testar se a exploração de 
um dado recurso natural é de fato sustentável antes de autorizá-
-la. Onde estão os estudos a priori ? Pode até haver alguns, mas 
são raríssimos. Noventa e seis por cento das reservas extrativistas 
brasileiras não têm sequer plano de manejo, quanto mais avaliação 
de sustentabilidade. Ora, a pergunta que não quer calar é: se quase 
não há estudos a priori, por que a gente ouve falar que tantas 
atividades são sustentáveis?
Por uma razão muito simples: porque na maioria das vezes 
a palavra sustentabilidade não tem sido usada em seu sentido 
real. Quando um empresário diz que sua empresa é sustentável, 
na maioria das vezes o que ele realmente está dizendo é “estou 
tendo cuidado com as questões ambientais”. Quando alguém de 
uma associação extrativista diz que uma exploração é sustentável, 
de modo geral o que realmente está dizendo é “nossa atividade é 
menos destrutiva que outros usos da terra que poderiam ser feitos 
aqui”. Tanto uma afirmação como a outra podem muito bem estar 
corretas – ou não, dependendo do caso. Mas nem uma coisa nem 
outra quer dizer, necessariamente, que as atividades em questão 
sejam sustentáveis. Isso vale para ambos os sentidos que mencionei 
aqui – tanto o sentido de fornecer recursos para as gerações futuras, 
como o sentido da demografia da própria espécie explorada.
Tomando por exemplo a própria castanha-do-pará, pode ser 
verdade que explorar castanheiras tenha menos impacto do que 
derrubar tudo e criar bois, mas isso por si só não quer dizer que 
a exploração da castanha seja sustentável. Caso não seja, essa 
exploração trará a ruína não só da população biológica explorada, 
mas também das populações humanas estimuladas a depender de 
um recurso que não está conseguindo se renovar. Sustentabilidade 
ilusória não é bom para ninguém, muito menos para quem depende 
dela. Já ouvi o argumento “Ah, sim, mas até lá eles já vão estar 
Vera
Realce
[itálico]
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usando outro recurso”. Isso, claro, depois de a população biológica 
explorada originalmente ter sido dizimada. Ei, peraí, que diabo de 
sustentabilidade é essa?
Uma palavra perigosa
A demografia, ou seja, o estudo das populações naturais, é um dos 
temas centrais dessa ciência fascinante, mas tão mal compreendida, 
que é a ecologia. A ecologia é a ciência que estuda as relações dos 
seres vivos entre si e com seu ambiente. Tem sido confundida com 
uma de suas aplicações, ou seja, os problemas ambientais. Mas há 
hoje uma forte ecologia acadêmica no Brasil, uma das melhores do 
mundo, com centenas de excelentes profissionais. Por que raramente 
se chama algum deles para avaliar a verdadeira sustentabilidade de 
alguma coisa, antes de se sair dizendo por aí que é sustentável? De 
um ponto de vista otimista, talvez seja por desconhecimento de 
que há por aí gente capacitada a avaliar essas coisas. De um ponto 
de vista mais pessimista, também pode ser porque quem diz, no 
fundo, muitas vezes não está interessado na resposta.
Isso pode parecer um detalhe de pouca importância para 
a conservação. Mas não é. Muito da popularidade da palavra 
sustentabilidade vem do fato de que ela soa tão bem. Antes de tudo, 
claro, diz o que todos nós queremos ouvir. Depois, parece tão técnica 
que quem ouve geralmente supõe que, para alguém estar dizendo 
isso, certamente deve haver profundo conhecimento técnico por 
trás para embasar. Por isso mesmo sustentabilidade, se mal-usada, 
é uma palavra muito perigosa. É a chave mágica que abre todas 
as portas para a exploração de populações biológicas em áreas que 
de outra forma seriam protegidas. É a base filosófica de todo um 
gigantesco paradigma no qual se assenta a atual política “ambiental” 
brasileira. Nas últimas décadas foram demarcadas numerosas 
reservas extrativistas ou “reservas de desenvolvimento sustentável”, 
em muitos casos sem se fazer a mínima ideia de se a exploração 
estimulada com o nosso dinheiro é de fato sustentável. Se tudo isso 
for um gigante de pés de barro, estamos em maus lençóis.
Sustentabilidade, palavra perigosa: use com cuidado. Usar 
levianamente um conceito de tal importância seria desastroso 
para as gerações futuras da própria definição, assim como para 
a conservação da biodiversidade. Como qualquer outra pessoa 
preocupada com o bem-estar social da humanidade, eu adoraria 
ser convencido de que qualquer utilização de recursos naturais 
seja de fato sustentável. Mas para isso é preciso ter argumentos 
convincentes que o demonstrem; não basta presumir que algo é 
sustentável só porque gostaríamos que assim fosse.
Vera
Riscado
mal usada,
104 105
A TAL DA SUSTENTABILIDADE 2: 
UM TESTE DEMOGRÁFICO
Cientistas são uns bichos estranhos, que não conseguem resistir 
a uma curiosidade. Quando li os artigos de Peres e colaboradores 
e de Sist e Nascimento, que citei no capítulo anterior, fiquei com 
uma pergunta na cabeça: será que esses dois casos, que mostravam 
usos não sustentáveis de recursos naturais, eram exceções, apenas 
ilhas num mar de explorações sustentáveis, ou será que muitas das 
explorações que são ditas sustentáveis no Brasil na verdade não o 
são? Bem, não havia como ter certeza sem ser estudando a questão. 
A ideia acabou levando a um projeto de pesquisa, com o objetivo 
de responder à seguinte pergunta: até que ponto utilizações de 
recursos naturais no Brasil, nas quais se presume sustentabilidade, 
são de fato sustentáveis? Consegui patrocínio para o projeto, três 
estudantes meus de pós-graduação, os biólogos Pâmela Antunes, 
Leandro Macedo e Carlos André Zucco, se interessaram pela 
pergunta, e com isso tínhamos também uma equipe. Só faltava 
colocar mãos à obra, ou melhor, às obras (publicadas).
Pâmela, Leandro, Zucco e eu adotamos como ponto de partida 
a própria definição de desenvolvimento sustentável, do Relatório 
Brundtland de 1987, que introduziu a palavra sustentabilidadeno 
discurso cotidiano. A definição é: “desenvolvimento que atende às 
necessidades do presente sem comprometer a habilidade das gerações 
futuras de atender às suas próprias”. Como argumentei no capítulo 
anterior, sempre que o recurso explorado é um animal ou planta, a 
questão de se a exploração é sustentável ou não é necessariamente 
uma questão demográfica. “Uso sustentável” é aquele que permite 
que uma população continue existindo, implicando que as perdas 
(por mortalidade, devido à exploração ou não, e por emigração) 
sejam compensadas em longo prazo pelos ganhos (por natalidade 
e imigração). Partindo diretamente de Brundtland, nós adotamos 
como critério de sustentabilidade que o regime de exploração 
permitisse ao recurso continuar a existir para as futuras gerações, 
de modo a atender às suas necessidades.
Com nosso critério em mãos, fizemos um amplo levantamento 
bibliográfico de todos os estudos que pudemos encontrar que 
analisavam se explorações de recursos naturais no Brasil eram 
sustentáveis ou não. Os estudos cobriam o que eu consideraria as três 
principais categorias de recursos biológicos terrestres explorados no 
Brasil: madeira, caça e produtos florestais não madeireiros, ou non-
-timber forest products (NTFP). Se você ainda não foi apresentado 
a esses últimos, tratam-se de frutos, castanhas e similares. Com 
uma procura exaustiva, levantamos não só artigos científicos, mas 
também teses e dissertações acadêmicas sobre o assunto produzidas 
desde 1987 (o ano do relatório Brundtland) até junho de 2010.
Pergunte ao bicho
Como é possível saber se a população de um bicho qualquer 
está sendo explorada sustentavelmente ou não? A resposta, claro, 
é: pergunte ao bicho! Ou melhor: estude a população do bicho. 
Portanto, selecionamos os estudos que tinham uma abordagem 
demográfica, necessária para que a questão pudesse ser respondida. 
Definimos abordagem demográfica da forma mais ampla possível, 
incluindo estudos que traziam informações como estimativas de 
densidade populacional, abundância relativa, estrutura etária, e 
assim por diante. Para responder se cada exploração era sustentável 
ou não, nós usamos as conclusões dos autores de cada estudo sobre a 
manutenção ou não dos níveis populacionais do recurso. Em alguns 
Vera
Realce
[Tirar vírgula após "sustentável".]
Vera
Realce
[itálico]
Vera
Realce
[Verificar se será mesmo chamado "capítulo".]
Vera
Realce
[Verificar.]
106 107
casos, quando essa conclusão não era apresentada explicitamente, 
usamos a conclusão implícita nos resultados.
Não é minha intenção dar aqui todos os detalhes da metodologia, 
mas se o leitor estiver interessado nos detalhes deste ou de qualquer 
outro aspecto do estudo, sugiro consultar o artigo, que saiu em 
2012 na revista científica Natureza & Conservação (ver Bibliografia).
E o que nós encontramos? Bem, sigamos o princípio de Jack, o 
estripador: vamos por partes.
Encurtando um pouco a história, nós encontramos um total 
de 64 estudos que se propuseram a analisar a sustentabilidade da 
exploração de recursos naturais no Brasil, entre artigos científicos, 
teses e dissertações. Já retirando os estudos que não tinham uma 
abordagem demográfica e os que só analisaram efeitos laterais 
da exploração (“efeitos em cascata”), os restantes analisaram 126 
diferentes casos de explorações de recursos. Cada caso, para a nossa 
análise, se referia a uma espécie analisada em um estudo. Muitos 
estudos analisaram explorações de diversas espécies; um estudo 
assim, em nossa análise, fornecia informações sobre vários casos, um 
para cada espécie. Os estudos sobre caça se referiram quase sempre 
a mamíferos ou a aves. As explorações madeireiras estudadas eram 
todas por RIL ou por extração seletiva. A maioria dos estudos foi 
realizada na Amazônia; o restante, na Mata Atlântica, no Cerrado, 
na Caatinga e no Pantanal.
Nos 126 casos em que a sustentabilidade do uso do recurso 
foi de fato estudada, a exploração foi considerada sustentável em 
51,6%.Porém, em 61 dos casos (48,4% do total), as explorações se 
mostraram não sustentáveis. Explorações não sustentáveis foram 
mais comuns na exploração madeireira (61,5% dos casos). Nos 
estudos sobre caça, em 44,9% dos casos a exploração foi considerada 
não sustentável. Já nos estudos sobre produtos florestais não 
madeireiros, isso aconteceu em apenas 22,2% dos casos.
O principal resultado que Pâmela, Leandro, Zucco e eu 
encontramos – quase metade de casos com explorações não 
sustentáveis – é importante por si só, porque mostra a necessidade 
de aperfeiçoar muito o manejo de recursos naturais no Brasil se 
quisermos seguir o louvável objetivo de Brundtland de manter 
esses recursos para as gerações futuras. Mas os nossos resultados 
têm bem mais que isso a dizer.
Os resultados por tipo de recurso
Sem entrar demais nos detalhes técnicos, o melhor método 
que existe para avaliar sustentabilidade é o que chamamos de 
análise demográfica. A maioria dos estudos que analisamos 
simplesmente comparava a abundância das populações antes ou 
depois de exploração, ou entre áreas exploradas ou não, o que é 
sujeito a alguns problemas de interpretação (que discutimos no 
artigo). Já na análise demográfica, a população é estudada quanto 
a sua estrutura etária e suas taxas de natalidade e mortalidade. 
Obviamente um estudo assim é bem mais fácil de fazer com 
uma população de árvores que com uma de animais. As árvores 
estão sempre lá, paradinhas. É bem mais fácil contá-las, medir 
seus tamanhos (e, daí, estimar as idades), e assim por diante. 
Engenheiros florestais fazem isso rotineiramente para predizer a 
produção futura, daí a grande disponibilidade desse tipo de estudo 
para a exploração madeireira.
Pois bem, dos 21 casos (todos na Amazônia) nos quais a 
exploração madeireira foi estudada por análise demográfica, em 
nada menos de 20 ela foi considerada não sustentável. O resultado 
é esmagador. Nosso estudo mostrou claramente que o tempo de 
rotação (o tempo que você precisa deixar as árvores crescerem 
em um determinado lugar antes de voltar a cortá-las ali), que na 
Amazônia, por lei, é de no mínimo 30 anos, é curto demais para a 
maioria das espécies de árvores. Isso também nos leva a perguntar 
se a proporção de casos insustentáveis estaria subestimada para os 
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
[verificar espaço]
108 109
outros recursos, para os quais métodos tão sensíveis como a análise 
demográfica são mais difíceis de aplicar.
Quanto à caça, a situação que encontramos é preocupante 
porque as espécies preferidas são mamíferos e aves com baixas 
taxas reprodutivas, que têm dificuldade para suportar exploração 
intensa. Alguns dos estudos, de fato, detectaram reduções muito 
severas de abundância dos animais caçados, da ordem de 60 a 90% 
ou mesmo mais. Isso aconteceu, na maioria dos casos, com espécies 
como antas, queixadas e grandes macacos amazônicos, que são 
particularmente vulneráveis.
No que diz respeito aos produtos florestais não madeireiros, dos 
nove casos estudados, só em dois a exploração não foi considerada 
sustentável. Isso pode parecer mais tranquilizador, mas um dos 
dois foi a exploração da castanha-do-pará (estudo de Peres e 
colaboradores mencionado no capítulo anterior), que tem uma 
imensa importância econômica e social na Amazônia.
Sustentabilidade pode e precisa ser testada
Até aí, o que encontramos já seria preocupante, mas há mais – 
na verdade o ponto crucial, eu diria. Para colocar nossos resultados 
em uma perspectiva correta, é preciso ter em mente que os 
casos analisados não representam um subconjunto aleatório das 
muitas centenas de explorações de recursos naturais no Brasil. 
Longe disso: eles representam exatamente situações nas quais se 
presume sustentabilidade. Todos os casos de exploração madeireira 
analisados se referiam a RIL ou extração seletiva, as técnicas mais 
cuidadosas, e que são frequentemente consideradas sustentáveis. 
Os estudos de caça geralmente sereferiam à caça de subsistência 
na Amazônia por populações locais, como ribeirinhos, indígenas 
e seringueiros, que muitos supõem, a priori, que seja sustentável. 
Várias explorações não sustentáveis da castanha-do-pará eram em 
reservas extrativistas, onde se supõe que o manejo de recursos seja 
sustentável pela própria definição dessa categoria de reservas. As 
implicações disso são imensas. Primeiro, algumas expressões como 
“uso sustentável” e “exploração sustentável” na legislação ambiental 
brasileira não têm base na realidade ou são enganosas em muitos 
casos, e precisam ser revistas. Segundo, seria muito desejável que 
qualquer exploração supostamente sustentável de madeira, caça 
ou NTFP fosse estudada usando-se uma abordagem demográfica. 
Novas concessões para exploração em terras públicas ou reservas, 
assim como renovações de concessões existentes, deveriam ser 
condicionadas à exploração ser, de fato, sustentável.
Antes era só uma intuição, mas agora é uma constatação: muitas 
utilizações de recursos consideradas sustentáveis no Brasil na 
verdade não o são. Isso não quer dizer que o manejo sustentável de 
recursos naturais seja impossível; nosso próprio estudo encontrou 
vários casos nos quais o nível dos recursos estava sendo mantido. 
O problema é que o conceito de “sustentabilidade” vem sendo 
usado de forma errônea, confundido com meramente estar 
tomando cuidado com as questões ambientais. Essa banalização 
e esse esvaziamento da palavra, transformando-a tantas vezes em 
um discurso vazio, tira dela a imensa importância que poderia ter. 
Sustentabilidade, como a ideia foi formulada, é uma condição bem 
definida, que pode e precisa ser testada com base em boa ciência. 
Para voltar com mais força a um ponto que mencionei no capítulo 
anterior, falsa sustentabilidade não é bom para ninguém – nem 
para as espécies biológicas, que nós chamamos de “recursos”, nem 
para as pessoas estimuladas a depender delas.
Vera
Realce
[Verificar se será mesmo "capítulo".]
Vera
Realce
[Tirar vírgula depois de "cuidadosas".]
Vera
Realce
110 111
NUNCA É POR CAUSA 
DA DEMOGRAFIA
Coitada da demografia, não acerta nunca.
Décadas atrás, quando a população do mundo crescia rápido 
demais, foram atribuídos à demografia vários problemas sociais e 
ambientais – mas pouca gente acreditou. Agora, que o crescimento 
populacional se desacelerou, muitos dos efeitos econômicos e 
sociais dessa desaceleração, preditos há décadas, aconteceram – 
mas novamente, ninguém fala que é por causa da demografia. Pode 
ser por causa de qualquer coisa, menos dela. A demografia é tabu.
Vamos rever rapidamente alguns dos acontecimentos das 
últimas décadas. No pós-guerra, especialmente nas décadas de 
1960 e 1970, a população mundial crescia de forma exponencial, 
num ritmo muito rápido, de mais de 2% ao ano. Como discutido, 
por exemplo, por meu amigo Carlos Gabaglia Penna em O Estado 
do Planeta, essas taxas de crescimento eram centenas de vezes 
mais altas que as experimentadas pela humanidade durante a 
maior parte de sua história. Naquelas décadas, a miséria, a fome 
e as desigualdades sociais aumentaram brutalmente em grande 
parte do mundo. Isso aconteceu de forma especialmente trágica 
nos países onde o crescimento populacional era mais rápido, os 
quais correspondiam quase com exatidão ao que chamávamos de 
“Terceiro Mundo”. A China, por exemplo, tinha uma população 
em explosivo crescimento e um padrão de vida baixíssimo, quase 
miserável. De acordo com o geógrafo francês Yves Lacoste, em 
Geografia do Subdesenvolvimento, escrito em 1965, a renda per 
capita da China no início da década de 1960 estava abaixo da 
das Filipinas, do Vietnã, do Egito, do Paraguai e do Sudão, e era 
similar à do Haiti, Paquistão e Etiópia. Naquela época ninguém 
sequer pensaria em falar da China como uma potência mundial – 
era, pelo contrário, citada como exemplo de país subdesenvolvido.
Naquele período, diversas vozes começaram a alertar que o 
crescimento populacional explosivo era a maior causa daqueles 
problemas – embora, obviamente, não a única. O ecólogo Paul Ehrlich 
falou da “bomba populacional” em 1968. Lacoste definiu o próprio 
fenômeno do subdesenvolvimento como “uma situação caracterizada 
por uma distorção durável (ou uma tendência à distorção) entre 
um crescimento demográfico relativamente intenso e um aumento 
relativamente fraco dos recursos de que dispõe a população”. O Clube 
de Roma – um grupo de cientistas e intelectuais reunidos na capital 
italiana em 1970 – alertou que o crescimento populacional nas taxas 
da época era insustentável (não foi usada essa palavra, mas a ideia 
é bem mais antiga que a palavra). A desaceleração do crescimento 
populacional seria uma condição imprescindível para que os países 
de Terceiro Mundo pudessem sair do subdesenvolvimento e resolver 
seus imensos e crescentes problemas sociais.
Os alertas tiveram muito impacto na época, mas foram 
rapidamente esquecidos. A questão demográfica voltou a ser 
quase ignorada, varrida para baixo do tapete. Muito disso se 
deveu à demonização da ideia por uma parte das ciências sociais, 
que associaram o alerta sobre a explosão demográfica às ideias de 
Thomas Malthus, do final do século XVIII. Se alguém alguma vez 
chamar você de “neomalthusiano”, é hora de partir para a briga – 
esse é um dos piores xingamentos disponíveis no arsenal de alguns 
cientistas sociais.
É bem verdade que a obra de Malthus apresentava argumentos 
matemáticos simplistas. O crescimento populacional tende de fato, 
por default, a ser em progressão geométrica – pois uma exponencial 
nada mais é que o resultado de uma taxa de crescimento “per capita” 
constante. Os recursos, porém, não necessariamente crescem em 
Vera
Riscado
mas, novamente,
112 113
progressão aritmética; o papel da tecnologia faz que esta questão 
seja bem mais complexa que isso. No entanto, seria ingênuo pensar 
que as ideias dele foram tão enfaticamente rejeitadas por causa de 
seu conteúdo científico. Na verdade, foram rejeitadas por causa do 
incômodo com as possíveis soluções. Ninguém conseguia conceber 
uma solução adequada para estabilizar rapidamente o crescimento 
populacional numa sociedade democrática sem ferir alguns dos 
nossos valores mais caros a respeito de direitos humanos. Diante 
do violento impasse – percepção do problema populacional, mas 
repulsão aos meios disponíveis para resolvê-los – muita gente 
preferiu adotar a solução mais simples: ignorar o problema, fingir 
que ele não existia. Nascia o tabu.
O crescimento populacional se desacelerou quase sozinho
Então, aos poucos, uma coisa inesperada foi acontecendo. 
O crescimento populacional foi se desacelerando, devagar, 
paulatinamente. Hoje, a população mundial cresce por volta de 1% 
ao ano, ou seja, menos de metade das taxas do início da década de 
1960. Na maioria dos casos, o crescimento se desacelerou “sozinho”, 
isto é, sem que houvesse qualquer esforço significativo dos governos 
nacionais para isso. Uma série de mudanças nas sociedades humanas, 
incluindo urbanização, mais participação feminina no mercado de 
trabalho, a pílula anticoncepcional e a revolução sexual, foi reduzindo 
lentamente as taxas de crescimento. Houve também campanhas 
de algumas organizações internacionais e ONGs para reduzir a 
natalidade em vários países, mas tais ações tiveram uma contribuição 
relativamente pequena para a desaceleração. Na maioria dos casos, as 
sociedades reduziram sozinhas seu crescimento populacional como 
consequência de mudanças nelas mesmas.
A exceção, quanto a como se deu o processo, foi a China. Lá, 
o crescimento populacional foi desacelerado graças a uma rigorosa 
política de filho único, implantada de forma autoritária por um 
governo autoritário. Não concordo com os métodos empregados 
pela China, nem acho que eles devam servir de modelo para qualquer 
país. Mas esqueçamos por um momento como a China alcançou 
a desaceleração e olhemos por um instante para os resultados. O 
crescimento desaceleroumuito mais rápido na China do que na 
maior parte dos outros países. Em algumas décadas a população 
chinesa deixou de aumentar em centenas de milhões de pessoas 
– alguns Brasis – que teriam sido acrescentados à sua população 
se as taxas de 1960 tivessem sido mantidas. De repente a China – 
surpresa, surpresa – não só conseguiu reduzir muito os gravíssimos 
problemas sociais que tinha cinquenta anos antes, como também 
se tornou uma das maiores potências mundiais!
Surpresa chongas de pitibiriba. O Clube de Roma tinha cantado 
a pedra quarenta anos antes!
O bônus demográfico nas versões chinesa e brasileira
O que está acontecendo, em grande parte, é que a China 
passou por uma fase conhecida como bônus demográfico. Essa fase 
é típica de países que desaceleraram seu crescimento populacional 
recentemente. A população já não tem uma proporção de jovens 
tão grande quanto tinha décadas antes, e como a desaceleração 
ainda é recente, a proporção de idosos também não é tão alta. 
Com relativamente poucas crianças e poucos idosos, a sociedade 
pela primeira vez em muito tempo consegue lidar melhor com as 
demandas da educação, saúde, e por aí vai. Além disso, a maior 
parte da população está em plena idade produtiva. Numa população 
assim, é difícil que a renda per capita não suba.
A população chinesa foi quase estabilizada, como se dizia, 
décadas atrás, que era o passo crucial para a China conseguir se 
desenvolver. 
heloisavasconcellos
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[verificar espaço duplo]
heloisavasconcellos
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[descer]
114 115
Pouco tempo depois, os problemas sociais foram resolvidos 
e o país tornou-se potência mundial. Coincidência? Pode ter 
certeza que nem um pouquinho. Mas mesmo agora ninguém fala 
da demografia! Fala-se de economia, circunstâncias de mercado, 
esquecendo-se do bônus demográfico, que certamente não é a única 
causa, mas é pelo menos uma das causas principais do “milagre 
chinês”. Pobre demografia! Nem quando ela faz coisas boas alguém 
lembra dela.
E o Brasil? O Brasil, como vários dos países chamados 
“emergentes”, entre eles Rússia, Índia, Chile e Coreia do Sul, também 
reduziu drasticamente as suas taxas de crescimento demográfico. 
Em comparação com a China, nesses países o processo foi mais 
recente e mais “natural” – isto é, não autoritário, mostrando que a 
estabilização é possível sem autoritarismo. De repente – surpresa, 
surpresa – esses países chegam a uma fase de relativa prosperidade 
econômica e mostram avanços em seus problemas sociais. É óbvio 
que o Brasil, assim como os demais emergentes, passou ou está 
passando pelo bônus demográfico, e grande parte do bom momento 
econômico pelo qual passamos foi devida a isso. Mas se você duvida 
do papel da demografia, vá ver as taxas de crescimento populacional 
dos países que claramente não saíram do subdesenvolvimento e 
continuam assolados por problemas sociais cada vez mais insolúveis. 
Boa parte dos países da África subsaariana, o Haiti e o Afeganistão, 
entre outros, têm hoje as maiores taxas de crescimento populacional 
do mundo. Coincidência? Não abuse da minha capacidade de 
acreditar em coincidências.
No entanto, no Brasil também quase não se fala em bônus 
demográfico. Nossos governantes dizem que, com suas políticas 
sociais, tiraram milhões de famílias da pobreza. Porém a pobreza 
é definida como renda familiar per capita abaixo de certo valor. 
Como os filhos de modo geral não geram renda para a família, 
é óbvio que a mera diminuição do número médio de filhos por 
família puxa a renda familiar per capita de milhões de famílias 
para acima da linha da pobreza. Numa sociedade com a fertilidade 
caindo rapidamente, isso dificilmente teria como não ocorrer, 
mesmo na ausência de qualquer política social. Mas que político já 
explicou isso? Eles preferem faturar à custa do bônus demográfico 
como se esses avanços fossem resultados de suas próprias atuações.
Neste ponto poderíamos pensar que, com a desaceleração 
da população mundial e vários países em situação de bônus 
demográfico, a questão populacional esteja perdendo sua 
importância. Mas esse seria um imenso e trágico erro. A situação 
atual não nos dá, de forma alguma, razão para complacência.
Hoje o problema do crescimento rápido da população 
mundial está sendo substituído por outro, talvez até mais grave: 
o da superpopulação em si. Gostemos ou não de perceber isso, já 
vivemos em um mundo superpovoado. Somos oito bilhões, e a 
desaceleração em curso não é rápida o suficiente para estabilizar a 
população global antes de chegarmos a mais de nove bilhões. Agora 
imagine esses bilhões de pessoas multiplicados por uma cultura 
consumista e desperdiçadora, e o efeito disso é que o planeta está 
sendo submetido a uma pressão tão gigantesca, que não pode 
aguentar por muito mais tempo. As consequências da dobradinha 
desastrosa de superpopulação e superconsumo se tornam mais 
óbvias a cada dia na perda de biodiversidade, nas mudanças 
climáticas e no colapso de serviços ambientais dos quais precisamos 
para ter uma qualidade de vida mínima para as pessoas.
É o ambiente que está dando o alarme, mas não se iluda que 
a prosperidade econômica possa estar dissociada dele. Há uma 
série de razões pelas quais a prosperidade econômica depende do 
ambiente, mas só para não sairmos da própria demografia, há 
a conta a ser paga pelo bônus demográfico: o envelhecimento 
da população nas próximas gerações. Uma baixa fertilidade hoje 
significa uma população com alta proporção de idosos amanhã, e 
isso é um gigantesco problema para as economias. Não é à toa que a 
economia de países com populações envelhecidas – especialmente 
Vera
Riscado
de que
Vera
Realce
[Tirar vírgula depois de "gigantesca".]
116 117
os países europeus e o Japão – perdeu todo seu vigor e hoje eles 
têm imensa dificuldade para se manterem competitivos diante 
dos emergentes.
Hora de rever os conceitos
Neste ponto, é importante lembrar que as mudanças 
demográficas pelas quais as populações têm passado certamente 
nunca serão as únicas explicações para fenômenos tão complexos 
como miséria, surtos de prosperidade ou perda de competitividade 
internacional. Mas a demografia tem fornecido explicações 
poderosas que nos ajudam muitíssimo a entender como o mundo 
se tornou o que é, as transformações pelas quais ele está passando e 
como podemos lidar com problemas previsíveis no futuro.
Não é sábio que continuemos a ter barreiras contra uma visão tão 
útil do mundo. Se você acha que nunca é por causa da demografia, 
então é hora de rever seus conceitos. Livrarmo-nos desse tabu nos 
abre para percepções lúcidas do mundo das quais neste momento, 
mais que nunca, precisamos.
PREENCHENDO COM VIDA 
A FLORESTA VAZIA 
Poucas limitações humanas são tão incontornáveis quanto a 
impossibilidade de voltar ao passado. A seta do tempo aponta em 
uma só direção. Por mais que o desejemos, não podemos trazer 
de volta os Beatles, ou a vida mais tranquila de uns anos atrás, ou 
os mamutes.
Ou será que podemos? Os Beatles e a vida tranquila eu não sei, 
mas pelo menos no caso dos mamutes há quem tenha esperança.
Já se falou, por exemplo, em reconstruir mamutes e outras 
espécies extintas a partir de pequenos fragmentos de DNA 
extraídos de exemplares mortos há poucos milhares de anos, que 
continuam sendo encontrados na Sibéria. Seria maravilhoso, sem 
dúvida, mas infelizmente isso parece pertencer apenas ao reino da 
ficção científica – pelo menos por enquanto. A razão principal é 
que o DNA se degrada rapidamente em condições naturais e o que 
chega a nós de espécies extintas são apenas pequenos fragmentos, 
que representam uma ínfima porcentagem do genótipo dessas 
espécies. Inserir uma sequência de 200 nucleotídeos (unidades 
básicas) de DNA de tilacino ou lobo-da-tasmânia – um marsupial 
extinto em 1936 – no DNA de um camundongo, como foi 
feito em 2008 pelo geneticista Andrew Pask e colaboradores, 
pode parecer uma notícia científicaespetacular. Mas a maioria 
dos nucleotídeos na sequência que foi inserida era igual entre 
o camundongo e o tilacino, pois era um trecho de gene pouco 
alterado durante a evolução, e o DNA de um camundongo tem 
bilhões de nucleotídeos! Na verdade, tudo o que você tem é… um 
118 119
camundongo com um punhado de nucleotídeos de tilacino em 
seu DNA. Nada contra os camundongos, muito pelo contrário; 
mas daí a reconstruir um tilacino – ou, pior ainda, um mamute, 
extinto há muito mais tempo – vai uma distância infinita. De 
todos os lugares-comuns da ecologia, um dos poucos verdadeiros 
é “extinção é para sempre”.
A ideia do reasselvajamento do Pleistoceno
Há, porém, outras ideias. Em 2005, num artigo na prestigiada 
revista científica Nature, Josh Donlan e colaboradores lançaram 
uma proposta a qual, num certo sentido, é muito mais grandiosa 
do que “simplesmente” ressuscitar os mamutes. Trata-se do 
Pleistocene rewilding, ou resselvajamento do Pleistoceno (por 
simplicidade, e porque a tradução em português ainda não é 
consagrada, vou me referir a isso simplesmente como rewilding). 
A ideia consiste em nada menos que reconstruir a fauna de grandes 
vertebrados que a América do Norte tinha até o final do período 
Pleistoceno, há pouco mais de dez mil anos. Essa fauna incluía 
mamutes, camelídeos, cavalos selvagens, leões, guepardos e 
várias outras espécies. Para reconstruí-la, Donlan e seus colegas 
propuseram a maciça introdução, na América do Norte, de uma 
fauna inteira, composta por parentes próximos das espécies 
extintas, os quais sobreviveram em outros lugares do planeta. 
Isso incluiria elefantes (para substituir os mamutes), leões (para 
substituir a subespécie norte-americana extinta Panthera leo 
atrox), e camelos, cavalos selvagens e guepardos, entre outros, 
vindos da África e da Ásia. Esses animais seriam introduzidos 
nas grandes planícies centrais dos Estados Unidos, onde há vastas 
áreas de vegetação aberta que poderiam fornecer pasto para os 
grandes herbívoros. Essa é uma região onde populações humanas 
têm declinado nas últimas décadas.
Não, você não leu errado, nem está sonhando. A ideia é 
esta: trazer de volta um ecossistema inteiro perdido. Perto disso, 
reconstruir mamutes vivos é café-pequeno. O Pleistocene rewilding 
já está muito perto de acontecer. Já existe até o Rewilding Institute, 
criado para isso. E antes que me esqueça,isso já foi proposto 
(inclusive antes de Donlan) para o Pantanal e o Cerrado brasileiros, 
por Mauro Galetti, ecólogo e professor da Unesp de Rio Claro.
Acho que posso entender bem a motivação dos advogados do 
Pleistocene rewilding. O primeiro deles, e um dos coautores de 
Donlan, foi Paul Martin. Foi o mesmo Martin quem propôs, a 
partir de 1967, que a última grande onda de extinção, que começou 
há uns 50 mil anos na Austrália e foi até uns meros quinhentos 
anos atrás na Nova Zelândia, foi causada pelos humanos modernos 
ao se espalharem pelo mundo. Nesse período, o planeta perdeu 
uma espetacular coleção de grandes animais, como vimos nos 
primeiros capítulos. Atualmente, a maioria dos pesquisadores dessa 
área concorda que caça excessiva pelos humanos foi a principal 
causa, senão a única, dessa maciça onda de extinção. O ponto 
que quero argumentar aqui é que essa percepção é, sem dúvida, 
uma das motivações fundamentais da ideia de rewilding. Acho que 
posso entender a dor do Paul Martin ao perceber que os bichos 
maravilhosos que ele estudou e certamente amava tinham sido 
extintos por nós – porque anos depois senti essa mesma violenta 
dor ao aprender isso nos trabalhos dele. Que sensação de frustração, 
de perda, de como tudo poderia ter sido tão diferente! Será que é 
difícil entender que alguém sinta, numa hora assim, uma imensa 
vontade de trazer o passado de volta?
Rewilding pode funcionar?
A bem da justiça, é preciso dizer que o planejamento do Pleistocene 
rewilding está sendo feito de forma cuidadosa, e baseando-se, 
Vera
Realce
[Faltou espaço depois da vírgula.]
Vera
Realce
heloisavasconcellos
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heloisavasconcellos
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reasselvajamento
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dentro do possível, em princípios científicos. As espécies a serem 
introduzidas são aquelas, entre as viventes, que seriam substitutas 
tão próximas quanto possível das espécies extintas do Pleistoceno 
da América do Norte – com ecologias similares, participando 
de processos ecológicos similares. A ideia é que as introduções 
comecem por experimentos em pequena escala, cuidadosamente 
monitorados, em áreas cercadas onde as populações de cada espécie 
estejam, pelo menos em princípio, sob controle.
No entanto, pode-se argumentar que os problemas com o 
Pleistocene rewilding são muito maiores e mais fundamentais que 
isso. Há alguns anos, meu colega Luiz Gustavo Oliveira-Santos 
e eu enviamos uma carta para a revista Conservation Biology 
criticando a ideia por não levar em conta adequadamente o aspecto 
da história evolutiva das espécies envolvidas. A ecologia é, em sua 
própria essência, uma ciência histórica. Um ecossistema não é um 
mero conjunto de espécies jogadas juntas num mesmo meio físico. 
As espécies de cada ecossistema estão ligadas por uma série de 
interações ecológicas que evoluíram durante milhões de anos, entre 
predadores e presas, entre herbívoros e plantas, entre parasitas e 
seus hospedeiros, entre sementes e os animais frugívoros que as 
dispersam, e por aí vai.
Donlan, Martin e companhia alegam justamente que o 
Pleistocene rewilding poderia restaurar os processos ecológicos 
que foram perdidos nos ecossistemas da América do Norte com 
as extinções de dez mil anos atrás. Mas o resselvajamento do 
Pleistoceno no fundo nada mais é que uma proposta de introdução 
de espécies exóticas numa escala gigantesca. Um elefante atual 
tem uma ecologia bem diferente da de um mamute, e os leões, 
guepardos e camelos atuais são diferentes dos que se extinguiram na 
América do Norte há dez mil anos. Por mais cuidadoso que seja, o 
Pleistocene rewilding envolve um conjunto de espécies que não têm 
uma história de coevolução umas com as outras. A trágica crônica 
das espécies introduzidas – uma das maiores causas de extinções 
ao longo da história – nos mostra que é provável que as interações 
não funcionem exatamente como desejado. Pior ainda: mostra 
também que é ainda mais provável que interações não previstas 
e não desejadas apareçam, com consequências potencialmente 
desastrosas.
Por exemplo, Donlan e companhia alegaram que a introdução 
do guepardo, o animal terrestre mais rápido do mundo, poderia 
reconstruir uma relação predador-presa que envolvia um guepardo 
norte-americano extinto e a antilocapra (Antilocapra americana), 
um mamífero norte-americano rapidíssimo, que teria sido sua 
presa. Mas é preciso combinar bem com os guepardos! O guepardo 
atual (Acinonyx jubatus) é de uma espécie bem diferente da do 
guepardo norte-americano do Pleistoceno (Miracinonyx trumani), 
e o seu ambiente daquela época também não existe mais. E se os 
guepardos atuais, na situação ecológica atual da América, preferirem 
outras presas mais fáceis que as antilocapras?
Trazer o Pleistoceno de volta? Ninguém gostaria mais disso do 
que eu, que cresci lendo fascinado sobre mamutes e tantos outros 
bichos espetaculares do passado. Mas colocar uma coleção de 
mamíferos africanos e asiáticos na América do século XXI não é 
exatamente trazer o Pleistoceno de volta. Além disso, pode trazer 
problemas de conservação ainda maiores, na forma de desbalanços 
ecológicos, doenças e pragas. Os riscos são imensos.
Uma alternativa: a refaunação
De um modo ou de outro, a discussão sobre o rewilding 
pode ter um papel utilíssimo: jogar o foco da conservação sobre 
a possibilidade de reconstruirmos, sim, comunidades animais e 
processos ecológicos. 
Gustavo e eu propusemos uma alternativa mais modesta, mas 
igualmente motivadora, ao Pleistocene rewilding, que chamamos 
heloisavasconcellos
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reasselvajamento
122 123
de refaunação.Nós definimos essa ideia da seguinte forma: “por 
refaunação queremos dizer a restauração de faunas inteiras, não por 
meio da reintrodução de espécies isoladas, mas pela reintrodução 
de conjuntos de espécies nativas para ecossistemas dos quais 
elas tenham sido extirpadas”. Extirpação, em conservação, é um 
sinônimo de extinção local.
Qual a importância da refaunação? Ora, em 1992 Kent 
Redford chocou o mundo da conservação ao falar das florestas 
vazias, ou seja, florestas sem bichos dentro. Em vastas áreas de 
florestas tropicais, muitas espécies de grandes animais já foram 
exterminadas pela caça (comercial ou de subsistência). Você pode 
ver uma bela floresta numa imagem de satélite e imaginar que 
ali deve haver muitos bichos, mas essa é uma expectativa cada 
vez mais ingênua. Sem os bichos, também não há os processos 
ecológicos que dependem deles. Pilhas de sementes apodrecem 
no solo, porque seus dispersores – mamíferos e aves de médio e 
grande porte – já foram exterminados localmente. Sem a dispersão 
das sementes, a própria floresta não tem futuro, pois não há mais 
reprodução das grandes árvores.
O mundo está cheio de florestas vazias, especialmente nas regiões 
tropicais ricas em biodiversidade, nas quais interações ecológicas 
estão esperando para serem restauradas pelas mesmas espécies 
para as quais essas interações um dia evoluíram. A refaunação, 
em contraste com o Pleistocene rewilding, teria o objetivo de repor 
extinções locais e recentes (em vez de globais e antigas), utilizando 
espécies nativas em vez de exóticas, e permitindo restaurar as 
interações ecológicas perdidas. Nosso argumento é que uma maciça 
refaunação iria produzir imensos benefícios para a biodiversidade 
sem o risco de produzir interações indesejadas.
Aqui cabe notar que nos últimos anos o termo rewilding tem 
sido usado para uma ampla variedade de coisas além do Pleistocene 
rewilding. Muitas dessas ações, cada vez mais comuns ao redor do 
mundo (ver, por exemplo, Rewilding na Argentina, na Bibliografia), 
não empregam espécies exóticas; mas muitas outras o fazem. 
Dentro deste espectro, a refaunação tem sido reconhecida como 
um tipo particular de rewilding, muitas vezes sinonimizada com o 
que foi depois chamado trophic rewilding pelo dinamarquês Jens 
Christian Svenning e colaboradores.
Propomos, então, a refaunação como uma importante agenda 
para a conservação no século XXI: preencher as florestas vazias, 
trazendo de volta, até onde possível, suas faunas nativas. Ou, como 
dizia meu orientado Bruno Cid, “repovoar o mundo com rodentias”. 
“Rodentias” se refere aos roedores como cutias, pacas e pacaranas, 
excelentes dispersores de sementes. Além deles, claro, queixadas, 
catetos, onças, antas, grandes macacos, mutuns, jacutingas e outras 
espécies são candidatos naturais para a refaunação.
Não estou subestimando as dificuldades envolvidas na 
reintrodução de espécies nativas. Trata-se de um processo 
extremamente trabalhoso e difícil. Em primeiro lugar, para cada 
espécie a ser reintroduzida, é preciso que a causa que extinguiu 
localmente a espécie tenha parado de atuar. Mesmo se isso for 
verdade, ainda é preciso se assegurar de que os animais estão de 
fato sendo reintroduzidos em sua própria área de distribuição 
(a procedência de bichos apreendidos do tráfico de animais, por 
exemplo, frequentemente é incerta). Depois, é preciso se assegurar 
de que os bichos tenham um mínimo de variabilidade genética, 
estejam saudáveis, não estejam acostumados demais a humanos 
pelo cativeiro, sejam acostumados aos poucos ao novo ambiente 
e sejam monitorados pós-soltura para se garantir que estejam 
sobrevivendo bem.
Dito isso, mesmo com todos esses problemas, cada vez mais 
reintroduções bem-feitas de espécies nativas estão acontecendo 
por aí. E uma vez que a floresta deixe de estar vazia, não só seus 
processos ecológicos voltam a funcionar, mas também ficam mais 
fortes os argumentos para protegê-la das fortes pressões, óbvias ou 
disfarçadas, que as florestas cada vez mais vêm sofrendo.
124
Uma agenda positiva
A meta da refaunação me entusiasma muito. Afinal, se há uma 
coisa triste na luta da conservação é essa nossa sensação de que 
estamos sempre travando uma batalha de retirada. Estamos sempre 
lutando desesperadamente apenas para impedir que percamos 
mais alguma coisa. Está mais do que na hora de a conservação 
adotar uma postura mais agressiva, no bom sentido. A refaunação 
é uma perspectiva maravilhosa, um objetivo de vida maravilhoso, 
justamente porque oferece uma agenda positiva – fazer o mundo 
melhor, não apenas impedir que ele se torne pior.
Nos últimos anos, o Refauna – uma iniciativa que de início 
envolveu meu laboratório na Universidade Federal do Rio de 
Janeiro e vários outros pesquisadores e laboratórios, e depois 
se tornou também uma ONG com esse nome – está fazendo a 
refaunação do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, uma 
típica floresta vazia. Já reintroduzimos cutias – ótimos dispersores 
de sementes –, bugios e jabutis, e outras espécies estão a caminho. 
Foi um momento emocionante ver o primeiro filhote de cutia 
nascido na Tijuca. Da mesma forma, foi maravilhoso ver os bugios 
lá de novo, sua voz impressionante subindo e descendo como em 
ondas, um século após terem desaparecido daquela floresta. Não 
sei se tudo isso foi tão emocionante quanto teria sido ver um 
mamute, vivinho, na minha frente. Mas, ao contrário do mamute, 
a refaunação é um sonho possível, que vale a pena sonhar.
GOULDIANAS
127
VIAGEM AO CORAÇÃO 
DO MISTÉRIO DOS MISTÉRIOS
Em junho de 1836, já no caminho de volta para a Inglaterra 
depois de quatro anos e meio a bordo do Beagle, Charles Darwin 
passou na Cidade do Cabo, na África do Sul, e não descansou 
enquanto não conseguiu visitar o astrônomo sir John Herschel. 
Para o leitor atual, para quem o nome de Herschel é quase 
desconhecido, enquanto o de Darwin é tão familiar, essa idolatria 
pode parecer surpreendente. Mas ela tinha razão de ser: naquela 
época Herschel já era um astrônomo consagrado e Darwin era 
apenas um jovem e desconhecido naturalista. Segundo o próprio 
Darwin, o livro de Herschel, Discurso preliminar sobre o estudo da 
filosofia natural, tinha sido um dos dois livros mais importantes, 
de todos os que ele tinha lido antes de embarcar, para despertar 
nele “uma imensa vontade de dar uma modesta contribuição ao 
edifício da ciência da natureza” (o outro livro tinha sido a narrativa 
de viagens do naturalista alemão Alexander von Humboldt). No 
dia 3 de junho, Darwin e o capitão Fitzroy finalmente foram 
visitar Herschel, que havia se mudado para a África do Sul anos 
antes. Deve ter sido um dia bastante ocupado, pois Darwin 
sequer escreveu em seu diário naquele dia. Na entrada do dia 15 
de junho, ao fazer um balanço de sua estada na África do Sul, 
Darwin escreveu que seu encontro com Herschel havia sido “o 
mais memorável evento do qual, por um longo período, eu tive a 
boa sorte de desfrutar”. Nem aí, no entanto, ele nos contou por 
que a conversa havia sido tão memorável. Só temos uma resposta 
para isso na sua autobiografia, publicada muitos anos depois, 
128 129
e é surpreendente: o que mais o impressionou foi a crítica de 
Herschel a um dos maiores mentores, inspiradores e ídolos do 
próprio Darwin, o geólogo Charles Lyell.
Darwin e Herschel conversaram longamente sobre geologia. 
Darwin logo descobriu que Herschel era tão interessado no 
assunto quanto ele mesmo e que ambos haviam sido imensamente 
impressionados pelo clássico de Lyell, Princípios de Geologia, que 
ele havia lido a bordo do Beagle. Mas Herschel então criticou Lyell 
por ter se limitado a aplicar suas ideias de mudança lenta e gradual 
à geologia, sem ter tido a firmeza necessária para lidar com aquele 
“mistério dos mistérios, a sucessiva aparição de novas espécies sobre 
a Terra”. A trajetória posterior de Darwin nos ajuda a entender 
por que aquela tarde havia sido tão marcante: ele fez de resolver o 
“mistério dos mistérios”a sua razão maior de viver.
Uma visão de mundo em mudança
A longa viagem de Darwin no Beagle, para várias regiões 
selvagens e pouco conhecidas à volta do mundo, foi uma grande 
aventura no sentido usual desta palavra, mas foi também muito 
mais que isso. Foi uma maravilhosa aventura intelectual. É difícil 
para nós, cidadãos do século XXI, entender quão mais pobre era a 
visão de mundo mesmo de um europeu muito culto do início de 
século XIX. O cidadão das ruas de qualquer capital europeia da 
época não tinha a menor ideia da biodiversidade do planeta. Ele 
podia conhecer bem os animais e plantas da própria Europa – mas 
uma vez que a Europa era um continente intensamente povoado 
e explorado por milhares de anos, sua fauna e flora eram pobres e 
monótonas. Para um europeu da época, coisas como rinocerontes, 
onças ou cangurus eram tão desconhecidas como marcianos – ou 
pareceriam quase tão lendárias quanto eles. Hoje todos sabemos 
como um gorila se parece, mas o gorila só foi descrito como espécie 
pela ciência em 1852, portanto era apenas um animal lendário para 
Darwin quando ele embarcou no Beagle.
Outro aspecto em que a visão de mundo no século XIX era 
muito mais pobre era a falta de percepção do que hoje chamamos 
de tempo geológico, ou tempo profundo. Achava-se que o planeta 
era muito recente, não tendo mais do que poucos milhares de anos, 
e que tudo era fixo: as montanhas, os rios, os mares, os continentes, 
tudo estava do mesmo jeito como sempre estivera desde a criação. 
A mesma visão de imutabilidade do planeta, naturalmente, 
se aplicava à imutabilidade das espécies. A percepção da época, 
transformada em dogma pela religião vigente, era de que todas as 
espécies de animais e plantas haviam sido criadas exatamente da 
forma com eram. Cada besouro (os prediletos do jovem naturalista 
Darwin), cada pardal, cada pinheiro era membro de uma espécie 
criada exatamente daquele jeito no nem tão longínquo assim 
tempo bíblico.
As mudanças que essas maneiras pobres de ver o mundo viriam 
a sofrer foram muito favorecidas pelo ambiente filosófico da época. 
Ainda estavam bem vivas na memória as grandes revoluções da 
política – a americana e a francesa. A Revolução Industrial, por sua 
vez, tinha tido sua origem nos campos, pela mudança dos sistemas 
de produção liderada por Jethro Tull (cujo nome seria adotado 
séculos depois pela banda de rock de inspiração medieval e mágica 
flauta). A partir do final do século XVIII, a revolução industrial 
tinha chegado às fábricas e vinha mudando radicalmente a 
economia de sucessivas nações europeias. Com tudo isso, a própria 
ideia de mudança estava no ar: o ambiente cultural favorecia que 
olhos mais atentos fossem voltados para evidências de mudança na 
própria natureza.
Na primeira metade do século XIX, então, os horizontes dos 
europeus a respeito do mundo natural estavam começando a se 
alargar muito. No que se refere ao conhecimento da biodiversidade 
do planeta, aqueles eram os tempos do início da época de ouro 
Vera
Riscado
do
Vera
Riscado
como
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dos naturalistas viajantes. Um dos maiores de todos eles havia sido 
aquele mesmo Alexander von Humboldt, autor do segundo livro 
que inspirara Darwin. Nas décadas seguintes, Humboldt seria 
sucedido por gente como Bates, Huxley, Wallace, Fritz Muller e, 
claro, o próprio Darwin. O trabalho desses dedicados exploradores 
foi aos poucos trazendo para os europeus o conhecimento sobre 
animais e plantas fabulosos que viviam nas florestas, savanas e 
pradarias das Américas, da África, do sudeste da Ásia e da Oceania. 
Esse melhor conhecimento da biodiversidade do planeta, entre 
outras coisas, mostrou muitas espécies bastante parecidas com 
algumas antes conhecidas, convidando à pergunta: por que espécies 
tão similares (sem serem idênticas) eram encontradas em lugares 
diferentes? Seria possível imaginar que elas tivessem se originado 
umas das outras, ou que tivessem como ancestral uma espécie que 
já não existia mais?
Quanto ao aspecto temporal, o próprio Charles Lyell, que um 
dia seria o alvo da crítica de Herschel, argumentava solidamente 
em Princípios de Geologia que planícies, montanhas ou o curso 
dos rios podiam ser explicados pela ação de processos lentos e 
graduais que agiam cotidianamente à volta de nós, como erosão e 
sedimentação. Os fósseis encontrados pelo “pai da paleontologia”, 
o francês Georges Cuvier, mostravam que seres vivos muito 
diferentes de qualquer coisa viva hoje em dia haviam existido no 
passado longínquo, incluindo seres fabulosos como mamutes, 
rinocerontes lanudos e outros ainda mais diferentes, como os 
gigantescos répteis batizados de dinossauros pelo anatomista inglês 
Richard Owen. Era a descoberta do tempo profundo; pela primeira 
vez a humanidade percebia que antes dela havia decorrido uma 
história longuíssima e cheia de vastas e espetaculares mudanças. 
Com isso, passava a ser concebível que tivessem existido os 
longuíssimos intervalos de tempo necessários para a ocorrência 
das mudanças lentas e graduais nas espécies, pelo mecanismo que 
viria a ser proposto por Darwin.
Um mal-entendido muito comum é pensar que Darwin tenha 
criado a ideia de que as espécies evoluem. Quando se fala em 
“teoria da evolução”, essas palavras são imediatamente associadas 
a Darwin e muitos ainda pensam, equivocadamente, que essa 
é uma teoria propondo que exista evolução. Na verdade, o que 
Darwin fez foi muito mais: ele explicou como ocorria a evolução. 
Que ocorra evolução é um hoje um fato científico comprovado 
além de qualquer dúvida razoável; sobre isso veja, por exemplo, O 
Bico do Tentilhão, de Jonathan Weiner, ou O Maior Espetáculo da 
Terra, de Richard Dawkins. O que se discute hoje em dia são os 
mecanismos pelos quais ocorre a evolução e a importância relativa 
de cada um para o processo evolutivo. A contribuição fundamental 
de Darwin foi propor, pela primeira vez, um mecanismo plausível 
pelo qual a evolução ocorre. Tal mecanismo, a seleção natural, é 
ainda hoje considerado o mecanismo central – embora não o único 
– da evolução.
Quanto à própria ideia de que havia evolução – ou a 
“transmutação das espécies”, como era conhecida na época –, 
esta era amplamente reconhecida como uma questão científica 
importante no início do século XIX. Naturalistas como o francês 
Lamarck e o escocês Robert Chambers, entre outros, tinham 
escrito sobre o assunto e proposto teorias a respeito. O próprio avô 
de Darwin, Erasmus Darwin, havia defendido essa ideia no livro 
Zoonomia, que Darwin lera ainda muito jovem. No seu breve e 
frustrante período como estudante de medicina em Edimburgo, em 
1827, Darwin tinha ouvido em “silenciosa perplexidade” o médico 
e zoólogo escocês Robert Grant defender as ideias de Lamarck. 
No entanto, a própria existência da evolução permanecia polêmica 
porque, apesar de várias tentativas, ninguém ainda conseguira 
formular uma explicação convincente sobre como ela podia ocorrer. 
Era muito fácil perceber que essa explicação permitiria nada menos 
do que entender como se originava cada ser vivo. Podemos apenas 
imaginar a imensa curiosidade e excitação que um naturalista 
Vera
Riscado
à nossa volta,

[ou "em volta de nós"]
Vera
Riscado
[Tirar "um".]
Vera
Realce
[Pôr esse O na linha de baixo.]
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daquela época deve ter sentido diante de uma questão tão imensa 
– o mistério dos mistérios ao qual mais tarde se referiria Herschel.
Uma viagem por um mundo que não existe mais
Tão logo seus marinheiros se recuperaram da ressaca no Natal 
de 1831, o Beagle partiu em sua longa viagem à volta do mundo. 
Justamente porque sua tarefa era de exploração e mapeamento 
de regiões mal conhecidas, o percurso o levou a várias das regiões 
mais remotas do planeta. Incidentalmente, raramente se dá por 
aqui destaque ao fato de que a América do Sul foi, de longe, o 
continente que mais contribuiu para as observações que deram 
origem às ideias e teorias de Darwin. Dos quatro anos e nove meses 
nos quais o naturalista esteve a bordo doBeagle, ele passou em 
nosso continente mais de três anos e meio. Esse tempo incluiu 
longas estadas na Bahia e no Rio de Janeiro na ida, e passagens mais 
breves em Salvador e em Recife na volta.
Uma viagem como a que Darwin fez certamente seria impossível 
hoje em dia. Muitas das coisas que ele nos conta no diário de sua 
viagem no Beagle já não existem mais. Em suas explorações no norte 
do estado do Rio de Janeiro, ele visitou florestas que simplesmente 
não estão mais lá. Ao passar pela Terra do Fogo, ele se admirou 
com o primitivismo do modo de vida dos fueguinos. Hoje em 
dia, encontraria os remanescentes deles com um modo de vida 
muito diferente, com costumes bem mais “civilizados”. Quando 
visitou as ilhas Falklands (Malvinas), em 1833, ele observou a 
incrível mansidão de uma espécie de raposa que havia lá, Dusicyon 
australis. A raposa das Falklands foi extinta em 1876, pouco mais de 
quarenta anos após Darwin tê-la visto. Sua docilidade contribuiu 
muito para esse rápido fim, e hoje é muito difícil encontrar em 
qualquer lugar do mundo animais com essa mansidão que havia 
em espécies que não tinham tido contato prévio com o homem. 
De volta ao continente americano, Darwin encontrou, espalhados 
pelas planícies da Patagônia, abundantes fósseis de gigantescos 
mamíferos extintos – entre eles, preguiças-gigantes, gliptodontes 
(animais parecidos com imensos tatus) e um toxodonte, similar 
a um hipopótamo, porém pertencente a um grupo nativo da 
América do Sul, os notungulados. Atualmente ele não veria esses 
inquietantes sinais de mudanças, pois os fósseis expostos já foram 
levados para museus ou destruídos por estancieiros há muito tempo. 
Hoje jamais seria possível encontrar fósseis tão significativos sem 
escavações longas e laboriosas, que Darwin não fez.
O mundo que Darwin viu, então, não existe mais. É claro que 
a evolução certamente teria sido entendida depois por alguma 
outra pessoa (como foi por Wallace independentemente dele), 
mas nunca da forma maravilhosa como foi por Darwin, coletando 
laboriosamente as peças do seu quebra-cabeça, uma a uma, em 
detalhadas observações de uma natureza riquíssima em muitos 
lugares ao longo do trajeto. Mesmo em lugares com uma natureza 
não assim tão rica (como as desoladas planícies patagônicas), o fato 
de os ambientes naquela época terem sido menos alterados pelo 
homem do que são hoje permitiu que ele encontrasse ricas evidências 
fósseis de mudanças das espécies ao longo do tempo. A viagem de 
Darwin ocorreu numa época em que já havia conhecimento prévio 
e ambiente intelectual que possibilitassem entender a evolução, e 
ao mesmo tempo ainda havia uma natureza conservada o suficiente 
para permitir a um excelente observador encontrar as respostas 
com relativa facilidade. Era uma viagem ao coração do mistério 
dos mistérios: a lugares onde podiam ser encontradas pistas para 
entender a transmutação das espécies. Darwin não tinha como 
saber, mas embarcou no Beagle no momento histórico exato.
É fascinante pensar sobre como essa oportunidade surgiu 
para ele. Poucas perguntas poderiam parecer mais óbvias, 
especialmente para quem esteja lendo este livro, do que esta: 
quem era o naturalista de bordo do Beagle? A resposta correta é: 
134 135
Robert McCormick! Ele era o cirurgião de bordo, e os ocupantes 
desse posto tradicionalmente acumulavam a responsabilidade de 
naturalista nos navios de exploração da marinha britânica. De 
fato, McCormick fez suas próprias coleções de espécimes e tentou 
exercer sua função de naturalista na etapa inicial da viagem. 
Darwin, porém, também fazia suas coletas paralelas, que logo 
começaram a superar amplamente as de McCormick. Em parte, 
isso acontecia pela maior curiosidade e diligência do primeiro, 
mas em parte também porque o segundo, cujas responsabilidades 
médicas o forçavam a ficar perto do navio, não tinha a mesma 
liberdade de que Darwin gozava para explorar o interior a cada 
escala. McCormick também logo começou a ser antipatizado por 
Fitzroy e a se incomodar com os privilégios dados a Darwin devido 
à sua classe social mais alta. Em 1832, Darwin escreveu à sua irmã 
que McCormick tinha sido declarado inválido, isto é, desagradável 
ao capitão no Rio de Janeiro e fora embora para a Inglaterra. Nem 
Fitzroy, nem Darwin (que agora passava a ser indisputadamente 
o naturalista de bordo) lamentaram muito sua partida. Tudo 
isso pode parecer a mais insignificante nota de pé de página da 
história, mas Stephen Jay Gould (em Darwin e os Grandes Enigmas 
da Vida) alegou brilhantemente que, ao contrário, a função de 
Darwin no Beagle pode ter sido extremamente importante para 
que ele chegasse a entender a transmutação das espécies.
A esta altura, o leitor deve estar se perguntando: afinal, que 
diabo Darwin estava fazendo a bordo daquele navio?
Como argumentado por Richard Keynes em 2004, Fitzroy 
desejava ter a bordo alguém para fazer estudos de geologia, pois 
ele sentira que uma pessoa assim fizera falta em sua viagem 
anterior com o Beagle. Darwin foi chamado oficialmente para 
ser essa pessoa. Isso, porém, parece bastante estranho. Por um 
lado, o Beagle já tinha um naturalista de bordo (McCormick), 
cujas obrigações incluíam estudos geológicos; por outro, Darwin 
não era um geólogo famoso, mas apenas um jovem inexperiente. 
Gould alega que a função de Darwin, na verdade, era apenas ser 
um gentleman para fazer companhia a Fitzroy. Com o rígido código 
de conduta da marinha britânica, era inconcebível que um capitão 
se misturasse aos seus subordinados ou mesmo fizesse as refeições 
com eles. As viagens marítimas da época eram longas e solitárias, e 
o capitão anterior do próprio Beagle tinha se suicidado no inverno 
antártico. Pior, a família de Fitzroy tinha uma tendência hereditária 
à loucura, e o almirantado estava preocupado com os efeitos que a 
solidão poderia ter sobre ele (anos depois, de fato, ele também se 
suicidaria). Darwin, como um cavalheiro, era o único que podia 
fazer as refeições com o capitão, e foi seu principal interlocutor 
naqueles cinco anos.
Logo, porém, Darwin descobriu que Fitzroy era um 
conservador autoritário, temperamental e agressivo. Na primeira 
vez que o contradisse, quando Fitzroy defendeu a escravidão 
que viram no Brasil, brigaram seriamente e por muito pouco 
Darwin não teve o mesmo destino do pobre McCormick. Com 
isso, ele aprendeu a guardar suas opiniões para si, mas era um 
relacionamento no mínimo extremamente tenso. Agora o ponto 
crucial: Fitzroy era basicamente um criacionista, e Darwin, por 
cinco anos, teve que ouvir interpretações de seus próprios achados 
que não o convenciam, sem poder responder. Para Gould, isso 
deve ter contribuído muito para empurrar Darwin para o outro 
lado – o do evolucionismo. É interessante lembrar que, embora 
muito interessado em história natural quando jovem, Darwin 
havia mostrado certo desinteresse pelas ideias evolucionistas que 
lera de seu avô e que ouvira de Robert Grant. Durante os quase 
cinco anos da viagem do Beagle, isso mudou completamente. 
Será que os argumentos com os quais Darwin gostaria de ter 
contradito Fitzroy, mas não pudera dizer, foram a base de suas 
ideias posteriores? Se esse foi o caso, ironicamente Fitzroy foi, 
como propôs Gould, um catalisador mais importante do que os 
tentilhões para a origem da teoria da evolução.
136 137
A evolução de uma ideia
Uma lenda bastante popular diz que as Galápagos foram a 
escala decisiva da viagem do Beagle. Darwin, ao observar aquelas 
ilhas tão próximas, habitadas cada qual por sua própria variedade 
de tartarugas ou de tentilhões, cada qual finamente adaptada 
a um ambiente hostil e diferente que havia em cada ilha, teria 
compreendido ali o segredo da origem das espécies. Essa é uma visão 
simplista, e a realidade é bem diferente disso. Em todo o período 
que Darwin passou nas Galápagos, há apenas uma anotação no 
diário do Beagle que menciona os famosos “tentilhões de Darwin” 
(no dia 1º de outubro de 1835), e mesmo assimsó um comentário 
muito de passagem de que os havia visto. Apenas depois do fim 
da viagem, em 1837, quando o ornitólogo John Gould classificou 
os espécimes que Darwin tinha trazido, ficaram evidentes as sutis 
variações entre tentilhões coletados em ilhas diferentes. Darwin 
jamais tinha sequer se preocupado em anotar de que ilha tinha 
vindo cada ave (assim como cada tartaruga). Mas é mais fácil ser 
sábio depois do fato: na segunda edição do diário do Beagle, em 
1845, ele acrescentou seus famosos comentários de que “…a partir 
de uma pobreza original de aves neste arquipélago, uma espécie 
teria sido tomada e modificada para diferentes fins”.
É interessante perguntar até que ponto aquela conversa com 
Herschel foi importante para o rumo que os acontecimentos 
tomaram a seguir. Darwin havia saído das Galápagos em outubro 
de 1935, uns sete meses antes de seu encontro com Herschel. Pela 
escassez de comentários na edição original de 1839 do diário sobre 
os tentilhões e as tartarugas – cujos exemplos o próprio Darwin 
usaria depois – pode-se supor que, na época da sua visita às ilhas, 
a evolução não era, pelo menos, um foco definido de sua pesquisa. 
Durante os sete meses seguintes, o Beagle passou por lugares 
com natureza rica e interessante, como várias ilhas da Polinésia, 
a Austrália, a Nova Zelândia e as ilhas Maurício, no Oceano 
Índico. No entanto, não há um comentário sequer particularmente 
significativo sobre evolução nesse período. Pode-se apenas 
especular: será que a conversa com Herschel foi tão memorável 
exatamente porque ajudou a colocar o foco de Darwin na questão 
da transmutação das espécies? A questão devia estar engasgada em 
sua garganta desde as conversas com Fitzroy. Além disso, quando 
jovem, Darwin tivera Lyell como um ídolo, desejara ser um grande 
cientista como ele. Será que ir adiante de onde o “pai da geologia” 
fora – estendendo a ideia de mudança gradual para o mundo vivo, 
como propusera Herschel – não era exatamente o tipo de realização 
que Darwin estava procurando para se firmar como um grande 
naturalista, ombreando o próprio Lyell? Será que depois disso ele 
começou a olhar seus dados biológicos de outra forma?
Provavelmente nunca saberemos, mas é interessante notar que 
na sua última anotação significativa no diário, longas e filosóficas 
páginas escritas em 25 de setembro de 1836, pouco antes de chegar 
de volta à Inglaterra, ele escreveu: “Em conclusão, me parece que 
nada pode ser mais enriquecedor para um jovem naturalista que 
uma viagem em países distantes. Ela tanto aguça como também 
parcialmente alivia aquela vontade e falta que, como sir J. Herschel 
comenta, um homem sente, mesmo que todo sentido corporal 
esteja plenamente satisfeito”. Seria apenas coincidência que John 
Herschel fosse o único autor citado no que foram praticamente 
seus comentários conclusivos sobre a viagem?
O que se sabe com certeza é que as ideias de Darwin começaram a 
tomar forma nos cadernos de notas que ele escreveu já na Inglaterra 
– especialmente os famosos cadernos sobre a transmutação das 
espécies, escritos entre julho de 1837 e julho de 1839. Nos anos 
seguintes, em um casarão isolado no vilarejo de Downe, para onde 
se mudou em 1842, ele começou a aperfeiçoar seu argumento de 
forma calma e meticulosa, a juntar laboriosamente os argumentos 
a seu favor e a escrever os primeiros esboços de sua teoria. Foi só 
em 1859, vinte e três anos depois de o Beagle ter aportado em 
Vera
Riscado
1835
138 139
Woolwich, que foi publicado A Origem das Espécies. Provavelmente 
o famoso livro teria demorado muito mais ainda para sair se Darwin 
não tivesse sido apressado por uma carta vinda do outro lado do 
mundo – do Arquipélago Malaio, hoje Indonésia – mostrando 
que outro naturalista mais jovem, Alfred Russell Wallace, tinha 
chegado independentemente às mesmas ideias.
O ponto central do argumento de Darwin era a seleção natural. 
A sua ideia era simples e se baseava em três constatações. Primeira, 
havia variação entre os organismos de qualquer espécie biológica. 
Segunda, essa variação era pelo menos em parte hereditária, ou 
seja, características passavam dos pais para os filhos. Terceira, 
algumas características eram passadas para os descendentes com 
mais frequência que outras – porque eram mais bem-adaptadas 
ao ambiente em que a espécie vivia, portanto permitiam que 
seu portador sobrevivesse melhor e sobretudo reproduzisse mais, 
passando-as para as gerações seguintes. Dessa forma, o ambiente 
selecionava aquelas características mais favoráveis, por um processo 
análogo ao da seleção artificial pela qual os criadores de pombos 
que Darwin estudara detalhadamente em seu regresso à Inglaterra 
selecionavam os pombos com as características que desejavam.
Dadas essas três constatações, é fácil ver que inevitavelmente 
algumas características vão estar cada vez mais representadas 
nas gerações futuras, enquanto outras estarão cada vez menos 
representadas. Isso, apenas isso, é o que chamamos de seleção 
natural. Nada de místico, nada de aleatório (apesar de a mutação ser 
aleatória, ver adiante), nenhuma necessidade de invocar qualquer 
planejamento inteligente. A resposta para a grande questão de 
como ocorria a evolução foi ainda mais gratificante, e ainda mais 
poderosa, por sua própria simplicidade.
Pode-se dizer que Darwin, na verdade, não conseguiu responder 
inteiramente à sua pergunta. Afinal, Herschel falara da “sucessiva 
aparição de novas espécies sobre a Terra”. Conforme apontado por 
diversos autores, é bastante claro que Darwin não respondeu à 
questão da origem das espécies, que foi o título de seu livro clássico. 
Ele explicou, sim, como ocorria a mudança evolutiva dentro de 
uma população ou uma espécie. Para explicar como uma espécie 
podia dar origem a uma ou mais espécies novas foi preciso esperar 
o século XX, quando emergiram as teorias sobre a especiação – 
nome que se dá a esse processo. Essa não foi, nem de longe, a única 
questão de evolução que ele não resolveu. Darwin não conhecia, 
por exemplo, o mecanismo da transmissão das aracterísticas entre 
gerações – para isso foi preciso esperar as leis de hereditariedade 
de Mendel (redescobertas no início do século XX), o clássico The 
Genetical Theory of Natural Selection, de Ronald Fisher, que juntou 
as ideias de ambos em 1930, e finalmente a descoberta da estrutura 
do DNA por James Watson e Francis Crick em 1953. Além disso, a 
seleção natural não é o único processo que pode alterar as frequências 
de diferentes genes em uma população (e consequentemente as 
características dos organismos de tal população). Em populações 
muito pequenas, por exemplo, a deriva gênica (mudanças ao acaso 
nas frequências gênicas) pode também ter um papel. No entanto, 
a seleção natural é “apenas” o mais importante processo evolutivo.
Por outro lado, pode-se argumentar também que Darwin fez 
ainda mais que entender o principal mecanismo da evolução: ele 
percebeu um princípio geral da natureza, de como ela funciona. 
Seleção natural é apenas um processo natural e imensamente 
geral, que se aplica não só à vida como a conhecemos aqui, como 
também a qualquer coleção de objetos que compartilhem as três 
propriedades descritas acima. 
Por isso, um dos mais influentes evolucionistas contemporâneos, 
Richard Dawkins, disse recentemente em uma entrevista: “um 
visitante extraterrestre certamente teria mais interesse em discutir 
as ideias de Darwin do que as de pensadores como Freud ou Marx 
– a quem ele já foi comparado –, cujo trabalho é de interesse 
mais limitado, paroquial, ‘terreno’”. Ou seja, Freud ou Marx 
só interessam a membros da nossa espécie ou nossa sociedade, 
Vera
Riscado
características
140 141
respectivamente, aos quais suas teorias se aplicam. Já a seleção 
natural, até onde podemos ver, é um processo que necessariamente 
se aplica a qualquer lugar do Universo onde as três condições 
citadas sejam válidas – e é muito difícil imaginar qualquer tipo de 
vida sem que sejam.
A nossaviagem de descoberta
Por que, então, dar tanto valor, tantos anos depois, à viagem de 
um naturalista de bordo que não o era, à volta de um mundo que 
não existe mais? Antes de tudo, porque provavelmente não existe 
outra ideia tão importante para a humanidade que seja tão mal 
conhecida quanto a evolução. Pouquíssimas pessoas, mesmo entre 
aquelas de elevado nível social e educacional, entendem como 
funciona a seleção natural. Alguns chegam a pensar que seleção 
natural é um processo aleatório, ao acaso – quando, como bem 
lembrou Dawkins, “[o Darwinismo] é na verdade a teoria que nos 
permite escapar ao acaso na biologia”. Parte da confusão vem do 
fato de a mutação ser um processo aleatório. Porém ela é apenas a 
primeira etapa de um processo (seleção natural) do qual a segunda 
etapa (a seleção em si pelo ambiente) é basicamente determinística, 
não tem nada a ver com o acaso. É fácil demonstrar (como fez 
Dawkins em O Relojoeiro Cego) que o resultado de um processo 
com duas etapas, a primeira ao acaso e a segunda determinística, é 
infinitamente mais próximo do determinismo que do acaso. Outras 
pessoas associam seleção natural a uma legitimação de um mundo 
de luta feroz entre as pessoas. No entanto, seleção natural é a mera 
perpetuação diferencial de genes. Não tem nada a ver, pelo menos 
na maioria dos casos, com organismos lutando uns com os outros. 
Ainda que tivesse, não haveria nenhuma razão lógica para que o 
que acontecesse na natureza devesse ser necessariamente um guia 
moral para nós. A questão da falta de compreensão da evolução, 
por parte do público em geral, é muito mais que uma mera filigrana 
cultural. As recompensas por entender como funciona a evolução 
são imensas: trata-se. Nada mais nada menos. De entender como e 
por que todo o mundo vivo é como é. Entender como cada animal, 
cada planta é como é. Além disso, é claro, entender o que somos 
e de onde viemos, com reflexos imensos na maneira como nos 
relacionamos com a natureza.
Nossa cultura tem sido muito bem-sucedida em sua obstinada 
recusa em engolir a revolução Darwiniana, porque a compreensão 
do que somos incomoda as arrogâncias de alguns, as ilusões 
cômodas de outros e os interesses de outros ainda. Nos últimos 
anos, temos até presenciado uma vigorosa atuação reacionária 
de vozes que querem tirar Darwin das salas de aula e ensinar, em 
vez dele (ou fingindo que tenha o mesmo status científico que 
ele), uma coleção de dogmas religiosos muito maldisfarçados de 
ciência. Isso representaria um retorno do obscurantismo medieval 
e um retrocesso na separação entre a religião e um estado laico, 
essencial para o desenvolvimento científico, cultural e até político 
de qualquer nação. Nesse contexto, lembrar da viagem de Darwin 
paradoxalmente é cada vez mais atual e parte importante da nossa 
busca por um mundo melhor.
Hoje podemos ler o diário da viagem do Beagle, e acredite-me, 
essa é uma aventura intelectual fascinante. Não é um livro para se 
ler rápido, mas é para se saborear, dia após dia, colocando-nos no 
lugar do autor do diário. Não é para quem gosta de coisas óbvias. É 
mais para se ler como uma história de detetive, para quem aprecia 
acompanhar as pequenas descobertas, as pequenas pistas. Essas 
pistas nos dizem como um jovem cavalheiro entediado e perdido 
(mas curioso pela natureza e excelente observador), ao longo de uma 
extraordinária viagem de descoberta, foi aos poucos desmantelando 
uma visão de mundo que herdara, mas que não correspondia à 
realidade, e construindo uma nova visão infinitamente mais rica 
e maravilhosa (se estou certo, com um pequeno empurrãozinho 
Vera
Riscado
trata-se, nada mais nada menos, de entender
Vera
Realce
darwiniana 

[cx.baixa]
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
[descer]
142 143
de sir John Herschel). No processo, descobriu a si mesmo: ele que 
podia ter gasto suas melhores energias caçando raposas, voltou-as 
todas para responder à mais imensa das perguntas, o mistério dos 
mistérios. Poder hoje reconstruir seus passos nos dá a oportunidade 
de reviver aquela maravilhosa viagem de descoberta, do mundo e 
de nós mesmos.
A DANÇA CÓSMICA DE SHIVA: 
CONTIGÊNCIAS E RITMO 
NA EVOLUÇÃO DA VIDA
Um dos maiores escritores de divulgação científica de todos os 
tempos, Stephen Jay Gould, assim dedicou seu primeiro livro, o 
brilhante Ever since Darwin: “Para meu pai, que me levou para ver 
o tiranossauro quando eu tinha cinco anos”. Não é de surpreender 
que um dinossauro tenha sido tão importante para despertar 
o interesse do pequeno Gould pela biologia. Os dinossauros 
têm despertado um imenso fascínio, geração após geração, 
resultando em longas filas nas exposições, best-sellers nas livrarias 
e megabilheterias nos cinemas. O fascínio pelos dinossauros não 
vem apenas de suas aparências tão estranhas, ou de seu imenso 
tamanho. Os dinossauros também nos fascinam com o mistério de 
seu desaparecimento repentino. Por que esses formidáveis gigantes 
que dominaram este planeta por toda uma imensidão de tempo – 
mais de 100 milhões de anos – desapareceram subitamente ao final 
do período Cretáceo, há cerca de 65 milhões de anos?
Essa questão tem despertado a curiosidade da humanidade 
por quase dois séculos, desde que a palavra dinossauro foi cunhada 
pelo grande anatomista inglês Richard Owen no século XIX. Uma 
imensa variedade de hipóteses foi proposta para explicar a extinção 
dos dinossauros. Segundo o paleontólogo Glenn Jepsen, essas 
hipóteses incluem alterações climáticas (para todos os gostos, ou 
seja, o planeta ter se tornado subitamente ou lentamente quente ou 
frio ou seco ou úmido demais); alterações de dieta (comida demais 
ou de menos ou pobre em substâncias como óleos de samambaia ou 
Vera
Riscado
CONTINGÊNCIAS
144 145
cálcio, ou algum envenenamento na água ou nas plantas); doenças, 
parasitas, desordens metabólicas ou anatômicas (hérnias, defeitos 
ou desequilíbrios do sistema hormonal ou endócrino, degeneração 
dos cérebros e consequente estupidez, esterilização por calor, efeitos 
indesejados da endotermia); velhice racial (racial old age, seja lá o 
que isso seja), senescência evolutiva da linhagem (idem), mudanças 
na pressão ou composição da atmosfera, gases venenosos, poeira 
vulcânica, meteoritos, cometas, mamíferos comendo seus ovos, 
extinguirem suas presas, flutuação de constantes gravitacionais da 
Terra, desenvolvimento de tendências suicidas psicóticas, entropia, 
raios cósmicos, mudanças dos polos (magnéticos) terrestres, 
inundações, deriva continental, a Lua saindo da bacia do Pacífico, 
secagem de ambientes lacustres e pantanosos, vontade de Deus, 
orogenia, incursões de pequenos caçadores verdes em discos 
voadores, falta de espaço da arca de Noé e paleoweltschmerz. Essa 
última palavra, cunhada pelo próprio Jepsen, quer dizer mais ou 
menos “alguma coisa que aconteceu há 65 milhões de anos e que 
eu não faço a menor ideia do que foi”.
Algumas dessas hipóteses foram propostas em textos populares e 
obviamente nem todas elas são sérias. Mas mesmo várias das que foram 
propostas como hipóteses científicas não são nada convincentes. Por 
exemplo, muitas vezes os dinossauros são tratados como se fossem 
uma única espécie (de que outra forma alguém poderia argumentar 
que uma desordem anatômica específica, ou uma doença, ou um 
problema fisiológico qualquer os tivesse extinguido?). No entanto, 
os dinossauros – somados aos répteis marinhos gigantes, que não 
eram dinossauros, mas se extinguiram junto com eles – eram um 
grupo taxonômico imensamente diverso, com milhares de espécies. 
Essas espécies incluíam desde algumas do tamanho de uma galinha 
até saurópodos maiores que uma baleia. Incluíam espécies terrestres, 
voadoras e aquáticas, carnívoras, herbívoras e omnívoras, ocupando 
todos os continentes e oceanos que havia no planeta na época. A 
diversidade de formas de vida que tinham os dinossauros e seus 
parentes que se extinguiram com eles era comparável, por exemplo, 
à diversidade atual“dança cósmica de Shiva”, discutindo as grandes extinções no 
passado geológico e suas implicações em como vemos a nós mesmos 
em relação ao resto da natureza. Esse capítulo tem também belas 
histórias humanas da ciência em ação. No último texto desta parte, 
discuto uma ideia lançada por Gould no próprio Full Hand sobre 
as diferenças entre os processos evolutivos que ocorrem em sistemas 
jovens e maduros, e quão gerais podem ser essas diferenças.
A seção seguinte, “Filosóficas”, reúne crônicas que discutem a 
questão que pode parecer óbvia, mas não é, de por que devemos 
Vera
Realce
[Não há um texto com esse nome.]
Vera
Riscado
anteriormente.
Vera
Realce
[Verificar a nomenclatura de acordo com as demais referências a seção/texto/capítulo.]
16 17
conservar a natureza, utilizando que argumentos e quem se 
beneficia com sua conservação. No primeiro texto desta parte, 
“Nós e eles: Darwin e a conservação”, proponho que o fato de 
nós não nos percebermos como um animal, parte dos processos 
evolutivos e portanto da natureza, é uma das maiores causas dos 
nossos problemas. O texto seguinte critica o uso de argumentos 
meramente utilitários para justificar a conservação da natureza, 
propondo que se quisermos ter sucesso nisso precisamos ir mais 
fundo em nosso envolvimento. A seguir apresento a ideia que 
chamei de outrismo – a nossa arraigada percepção de que a culpa 
dos problemas ambientais é sempre do outro – no contexto bem 
atual das mudanças climáticas. O texto final desta parte (“Por 
quem dobram os sinos da conservação”) argumenta que haver 
ou não uma oposição entre a conservação e as questões sociais, 
como muitos acham que há, é uma questão que depende da escala 
espacial e temporal que se está considerando.
Na penúltima seção, “Biofílicas”, estão vários dos textos mais 
literários, se você me permite dizer assim. Biofilia é a ideia de que 
gostar de outros seres vivos não é algo que precise ser aprendido, 
mas um dos instintos mais fundamentais do ser humano. Então, 
aqui estou falando menos de argumentos científicos e mais de amor. 
Entre outros, “Os ursos de Răcădău e a esperança” é um pequeno 
drama sobre a peculiar relação entre humanos e ursos-pardos em 
uma cidade na Romênia; “Andy” talvez seja o texto mais pessoal 
do livro todo, e em “Um caminho para a empatia” há minha única 
incursão na ficção, que espero que o leitor considere justificada. 
A última parte, “Utópicas”, naturalmente, é para propor 
soluções, ou pelo menos para sugerir caminhos. Os temas ali 
discutidos incluem os direitos animais e uma esperançosa proposta 
de aproximação daquelas irmãs que não se entendem: a economia 
e a ecologia. No penúltimo capítulo, “Eu também tenho um 
sonho”, tento um esboço do que poderia ser um futuro no qual um 
baixo impacto sobre o planeta fosse uma consequência natural das 
características da economia, e não algo a ser alcançado por ajustes 
cada vez mais difíceis em economias não pensadas originalmente 
com essas preocupações. O último capítulo termina o livro 
numa nota esperançosa, argumentando sobre o poder das ideias 
publicadas em mudar os rumos da história, agora que nós mais que 
nunca precisamos disso.
Este livro não teria sido possível sem a contribuição de 
numerosas pessoas que me ajudaram das mais variadas formas. 
Marcos Sá Corrêa, ao me convidar para escrever para O Eco, 
forneceu a centelha inicial para o livro, e foi sempre uma grande 
inspiração para mim. Eduardo Pegurier talvez tenha sido meu 
maior incentivador ao longo de todos estes anos. Ele sabe ouvir e 
argumentar como poucos, e nossos papos contribuíram muitíssimo 
não só para vários destes textos, como para ampliar minha visão de 
mundo. Outras discussões maravilhosas vieram de nosso pequeno 
grupo de biólogos sensu lato que gostam de escrever, os Literratos, 
em especial Adrian, Bernardo, Bruno, Caio, Everton e o próprio 
Eduardo. Adrian Monjeau, aliás, me trouxe também generoso 
apoio e incentivo, além do benefício de conviver com sua grande 
riqueza cultural ao longo dos últimos anos. Benoit de Thoisy me 
ajudou a encontrar as menções ao lêmure gigante e à ave-elefante 
no livro de Flacourt. Já Bernardo Araujo – um dos mais talentosos 
escritores jovens que já conheci – me deu o privilégio de uma das 
mais ricas e prazerosas interações científicas que já tive na vida, 
que tornou possível realizar meu sonho de infância de estudar as 
extinções do Quaternário. A ele agradeço também pelo texto de 
apresentação do autor para a orelha deste livro e pela capa.
Agradeço também aos meus companheiros do Laboratório de 
Ecologia e Conservação de Populações da UFRJ, assim como a 
outros colegas cientistas numerosos demais para nomear aqui, por 
discussões quase cotidianas sobre a maior parte desses tópicos. Meus 
colegas professores do Departamento de Ecologia da UFRJ, assim 
como os alunos do meu curso de Biologia da Conservação ao longo 
Vera
Riscado
seção

[Até agora o autor chamou as 5 partes de "seção". Isso requer uma padronização.]
Vera
Riscado
texto

[Para manter como os demais citados, seguindo a estrutura do livro. Esse é um dos textos/crônicas da última seção, "Utópicas". ]
Vera
Riscado
texto

[Para seguir o que vem citando, de acordo com a estrutura do livro. Refere-se a um dos textos/crônicas na secção "Utópicas".]
18
desses anos, também forneceram sugestões e discussões valiosas. 
Rui Cerqueira tem uma importância especial para mim, por ter me 
iniciado nesta coisa chamada ciência. Uma inspiração importante, 
é claro, foi daqueles grandes conservacionistas que tanto admiro e 
que tive o prazer de conhecer, cuja luta tem permitido que muitas 
das coisas das quais falo ainda existam: Carlos Gabaglia Penna, 
Clóvis Borges, Germano Wohel, Ibsen de Gusmão Câmara, José 
Truda, Malu Nunes, Marc Dourojeanni, Marcos Sá Corrêa, Maria 
Tereza Pádua e Miguel Milano, entre outros. Ibsen não mais poderá 
ler isto, o que é uma pena, porque este livro e quem eu sou devem 
muito a ele. A Luísa Pinho Sartori, uma jovem com grande talento 
para a conservação que infelizmente se foi cedo demais, eu agradeço 
pela inspiração para a frase que fecha o antepenúltimo capítulo.
Entre meus parentes mais próximos dentro da minha própria 
espécie, agradeço a Marcos e Nathércia Fernandez, e a Luís Roberto 
e Luciana Zamith, pelo entusiasmo e estímulo. Com meus pais, Iza 
e Jorge Fernandez, tenho uma dívida que nunca poderá ser paga, 
por tudo, inclusive por terem me estimulado a seguir o caminho 
do conhecimento, permitindo-me o privilégio de ter contato com 
tantas coisas maravilhosas, que fizeram minha vida melhor.
Alexandra Pires merece o mais especial dos agradecimentos, 
por seu apoio, seu incentivo, sua paciência e sua ajuda em todas 
as horas, inclusive revendo cuidadosamente os textos e fazendo 
sugestões valiosas. 
Finalmente, agradeço a Bernardo e Vicente pelos bons momentos 
juntos, pelo carinho, e por cada vez que perguntaram, “Papai, por 
que isso é assim?”.
Agradeço ainda à Associação O Eco, através de Eduardo 
Pegurier, por me permitir usar as colunas originalmente publicadas 
no seu site, e à Editora da Universidade Federal do Paraná, por 
ter me permitido incluir aqui o capítulo “Viagem ao coração do 
mistério dos mistérios”, originalmente publicado na edição de 
O Diário do Beagle.
Finalmente, agradeço de forma muito especial a Josué Nunes, 
por ter me convidado para publicar a primeira edição deste livro 
e por todo seu entusiasmo, incentivo e apoio, que foram decisivos 
para que a ideia se tornasse realidade.
Vera
Riscado
destes
Vera
Realce
[seria a antepenúltima seção ?]

[Confirmar após verificar meus comentários anteriores sobre seção/texto/capítulo.]
Vera
Realce
[Tirar essa vírgula.]
Vera
Riscado
texto

[Está dentro da seção "Gouldianas".]
CRÔNICAS DE BIOLOGIA E CONSERVAÇÃO DA NATUREZA
E OUTRAS HISTÓRIAS
OS MASTODONTES 
DE BARRIGA CHEIA
HISTÓRICAS
25
O CASO DOS MASTODONTES 
DE BARRIGA CHEIA
“Elementar, meu caro Watson.”
(Frase atribuída a Sherlock Holmes, emborados mamíferos. Será que alguém seriamente 
acreditaria que hérnias, ou uma doença, ou problemas hormonais 
pudessem extinguir não uma espécie de mamíferos, mas todos os 
mamíferos do planeta de uma só vez? No entanto é exatamente isso 
o que muitos têm proposto a respeito da extinção dos dinossauros. 
Qualquer hipótese para explicar essa extinção, para ser plausível, 
precisaria antes de tudo ser capaz de explicar a extinção de um grupo 
tão diverso em quase tudo, como os dinossauros.
O maior problema de toda a fascinante discussão, porém, 
não parecia ser a plausibilidade, mas sim como obter evidências 
que apoiassem qualquer hipótese sobre algo que aconteceu 
tanto tempo atrás. No entanto, para surpresa de muitos, isso foi 
possível, e a explicação começou a surgir pelo mais inesperado 
dos caminhos: uma observação casual de um jovem geólogo 
norte-americano na Itália.
“Uma surpresa como um terremoto”
No final da década de 1970, Walter Alvarez fazia pesquisa geológica 
perto da bela cidade medieval italiana de Gubbio, ao pé dos montes 
Apeninos. Embora sua pergunta ali fosse outra, sua curiosidade 
foi atraída por uma magnífica seção estratigráfica que mostrava 
muito bem a fronteira K-T, que é como os geólogos conhecem a 
transição entre o período Cretáceo e o Terciário. A fronteira K-T 
é datada de 65 milhões de anos atrás e, como as fronteiras entre 
períodos geológicos em geral, é definida exatamente pela abrupta 
mudança faunística – no caso, o desaparecimento dos dinossauros. 
Em Gubbio, a seção diante de Walter consistia em uma camada 
de um centímetro de espessura de saibro vermelho, sem fósseis, 
depositado sobre calcário branco, riquíssimo em foraminíferos 
(pequenos invertebrados marinhos) e abaixo de calcário vermelho, 
heloisavasconcellos
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heloisavasconcellos
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[acertar espaçamento]
heloisavasconcellos
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[descer]
146 147
sem nenhum foraminífero. O saibro, mais conhecido entre nós 
como o piso das quadras prediletas de Gustavo Kuerten, é um tipo 
de sedimento de granulometria finíssima, depositado pelos ventos 
e/ou pela água. Pela pouca espessura da camada de saibro, Walter 
calculou que ela deveria ter se depositado num período muito curto, 
talvez de menos de cinco mil anos (isso pode parecer longuíssimo 
para você e para mim, mas para um geólogo é um piscar de olhos). 
Walter achou aquilo tudo muito interessante e falou sobre o achado 
com seu pai, Luiz, que como cientista, mesmo sendo de outra área, 
bem poderia achar aquilo interessante também.
Luiz Alvarez, na verdade, não era um cientista qualquer. 
Norte-americano de origem hispânica, era um brilhante físico 
experimental da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Prêmio 
Nobel de física em 1968. A intuição de Walter estava correta: 
Luiz ficou entusiasmado com o achado do filho e propôs nada 
mais nada menos que eles dois usassem o saibro para saber se a 
extinção do final do Cretáceo tinha mesmo sido tão súbita quanto 
se dizia. Dessa conversa nasceu uma rica interação intelectual em 
família, pai e filho devotados a duas ciências diferentes unindo suas 
vigorosas mentes na tentativa de resolver um imenso mistério de 
uma terceira, a paleontologia. Mas nem eles mesmos, nos seus mais 
audaciosos sonhos, poderiam ter imaginado quão frutífera essa 
interação viria a ser.
Pensando em como responder à pergunta dos dois, Luiz veio 
com uma ideia fantástica: usar a concentração de irídio na lâmina de 
saibro para calcular o seu tempo de deposição.
O irídio, um elemento químico muito pesado, teria se deslocado 
para o núcleo da Terra quando nosso planeta foi formado, o que 
explica por que é raríssimo em amostras terráqueas. Por outro lado, 
frequentemente é encontrado em alta concentração em corpos 
celestes que se chocam com a Terra, como asteroides e meteoritos. 
Luiz então raciocinou que se a deposição do saibro tivesse sido 
muito rápida (no tempo geológico), não haveria tempo para 
muitos impactos de corpos celestes e portanto haveria pouco ou 
nenhum irídio no saibro.Porém, se a deposição da lâmina de saibro 
tivesse levado um tempo muito longo para acontecer, haveria uma 
concentração detectável de irídio, e usando essa concentração e as 
taxas conhecidas de impactos de meteoritos na Terra, seria possível 
calcular quão longo fora esse período.
Ao analisar quimicamente as amostras de Gubbio, os Alvarez 
tiveram o que eles chamariam depois de “uma surpresa como um 
terremoto”: naquele saibro havia 9.000 ppt (partes por trilhão) de 
irídio, uma concentração nada menos que trinta vezes maior do 
que em cada uma das duas camadas de calcário depositadas no 
mesmo lugar, a milímetros de distância!
Com base nisso, eles formularam sua ousada hipótese: a origem 
extraterrestre do irídio encontrado em K-T.
Pai e filho calcularam que o impacto com a Terra de um asteroide 
de 10 quilômetros de diâmetro poderia produzir as concentrações 
observadas de irídio. Esse mineral teria se depositado, assim como o 
saibro, à medida que fosse baixando a imensa nuvem de escombros 
e poeira produzida pelo impacto. Um impacto de um corpo celeste 
dessa magnitude poderia explicar, argumentaram eles, a grande 
extinção do final do Cretáceo. Em junho de 1980, explodiu a 
grande bomba científica: os Alvarez e dois colaboradores que 
ajudaram nas análises, Frank Asaro e Helen Michel, publicaram na 
Science um artigo com o singelo título “Causa extraterrestre para as 
extinções do Cretáceo-Terciário”.
Era difícil imaginar que um artigo com esse título, na Science, 
não fosse causar uma violenta polêmica, e ela de fato veio. Por uma 
pequena ironia da história, os Alvarez não foram os primeiros a 
publicar sua revolucionária ideia. No mês anterior, o holandês Jan 
Smit tinha publicado na Nature um artigo onde se lia a seguinte 
frase: “o impacto de um grande meteorito pode ter fornecido o 
irídio e causado a extinção em massa de K-T”. Era só uma frase 
solta num artigo sobre outro tema, e não um trabalho específico 
Vera
Realce
[FALTA ESPAÇO DEPOIS DO PONTO FINAL.]
148 149
sobre o assunto, como o dos Alvarez. Mesmo assim, quando 
o título devastador do artigo desses últimos atraiu a atenção do 
mundo para o assunto, houve quem apontasse a frase do holandês 
e atribuísse a ele a paternidade da ideia. Mas Smit ouvira a ideia de 
Walter Alvarez num congresso, e escrupulosamente veio a público 
esclarecer que a prioridade da hipótese era dos Alvarez, e não dele. 
Numa época em que tanto se discute o comportamento ético 
dos cientistas, não deixa de ser reconfortante saber que aqui uma 
situação de potencial conflito, que poderia ter se transformado 
numa desagradável fogueira de vaidades, foi resolvida com tanta 
decência e simplicidade.
Reconhecidos os pais da ideia, todos começavam a se perguntar 
se ela estava correta ou não. Boa ciência faz predições, e os 
próprios Alvarez tinham indicado o caminho ao predizerem que, 
se a hipótese estivesse correta, seriam encontradas três coisas. A 
primeira, concentrações anormalmente altas de irídio em todas 
as seções estratigráficas correspondentes à transição K-T ao redor 
do mundo, e não só em Gubbio. A segunda, estruturas geológicas 
que evidenciam choque ou altíssimas pressões, chamadas pelos 
geólogos de planos de multifraturas, shatter cones, esférulas e 
tectitos, associadas à transição K-T. A terceira, uma cratera, datada 
de 65 milhões de anos atrás, com uns 150 quilômetros de diâmetro.
Perdeu-se uma cratera de 150 quilômetros
A essa altura, começou o violento ataque à hipótese dos Alvarez, 
liderado pelo geólogo Charles Officer e seus colaboradores. Era, 
diziam eles, uma hipótese maluca sem qualquer evidência sólida. 
Pior ainda, fugia à tradição da geologia, que vinha desde o virtual 
fundador dessa ciência, Charles Lyell, de explicar os fenômenos 
do passado por processos graduais e cotidianos que ocorrem em 
nosso planeta (como erosão, sedimentação e outros). Os Alvarez, 
em vez disso, recorriam a uma explicaçãocatastrofista – o que, para 
os geólogos modernos, parecia tão obsoleto quanto os próprios 
dinossauros. E ainda pior: uma explicação extraterrestre! Além 
disso, onde estava a tal cratera? Como pode alguém perder uma 
cratera de 150 quilômetros?
Pode ser mesmo difícil aceitar que pudesse haver uma cratera de 
150 quilômetros de diâmetro, em algum lugar de nosso planeta, sem 
que fosse conhecida. No entanto, isso era perfeitamente possível. 
Para entender por que, é instrutivo comparar nosso planeta com a 
Lua. O leitor alguma vez já se perguntou por que a Lua tem uma 
imensa quantidade de crateras e a Terra não? A resposta óbvia 
seria que a Lua receberia muito mais impactos de meteoritos e 
asteroides do que a Terra. No entanto, essa explicação é falsa, e a 
realidade é muito mais sutil e interessante que isso. A Terra recebe 
uma quantidade de impactos comparável à da Lua, pelo menos no 
que se refere a corpos celestes de médio a grande porte (os de porte 
muito pequeno podem ser destruídos pela atmosfera terrestre antes 
do impacto, o que não aconteceria na Lua). A diferença principal, 
na verdade, é que a Lua não tem os principais agentes de erosão 
e sedimentação (água, ventos e gelo) que existem na Terra. Assim 
sendo, enquanto qualquer cratera dura quase que para sempre na 
Lua, na Terra as crateras tendem a sofrer erosão e sedimentação. Por 
isso, embora a Terra tenha algumas grandes crateras bem visíveis (por 
exemplo, a Meteor Crater, de 1,6 quilômetro de diâmetro, no deserto 
do Arizona), essas correspondem apenas a uns poucos impactos 
geologicamente muito recentes. Em nosso planeta, as crateras mais 
antigas já foram erodidas e/ou soterradas por sedimentação há muito 
tempo. Portanto, uma cratera de 150 quilômetros desconhecida 
não seria algo tão estranho assim, se ela fosse, como é o caso, muito 
antiga. Crateras muito antigas podem ser encontradas por meio de 
evidências indiretas, como estruturas detectadas sob o solo mediante 
análise da distribuição espacial de certos minerais depositados no 
passado e de padrões magnéticos associados a eles.
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[descer]
150 151
O ataque de Officer e seus colegas fez que vários pesquisadores, 
em toda a década de 1980, testassem as predições feitas 
audaciosamente pelos Alvarez. Ao longo dos anos, os resultados 
foram aparecendo. Para surpresa de muitos, as predições foram se 
confirmando uma a uma.
Primeiro, picos de irídio foram encontrados associados à 
fronteira K-T em todos os lugares do globo onde essa transição 
foi estudada. Apenas um ano após o trabalho dos Alvarez, 
concentrações anormalmente altas de irídio associadas à K-T já 
haviam sido encontradas em 36 lugares diferentes do planeta; 
hoje são mais de cem lugares. Em alguns locais, os picos de irídio 
chegaram a atingir uma concentração de 28.000 ppt, o triplo 
daquela registrada em Gubbio.
Segundo, estruturas geológicas associadas a impacto foram 
encontradas na transição K-T em vários lugares ao redor do mundo. 
As estruturas eram mais abundantes na América do Norte e mais 
ainda em Cuba. Esse padrão geográfico parecia agora indicar onde 
havia sido o impacto: provavelmente em algum lugar no que hoje 
é a América Central.
Terceiro e mais espetacular, a cratera foi encontrada. Os geólogos 
Alan Hildebrand e William Boynton publicaram, em 1991, na 
revista Natural History, mais um artigo com um título sensacional 
(“Cretaceous ground zero”) anunciando a descoberta da cratera. 
Tratava-se de uma imensa estrutura, detectada a partir de anomalias 
magnéticas e gravitacionais circulares, 800 metros abaixo do solo, 
na costa da península de Yucatán, no México. Essa estrutura já 
era conhecida havia décadas pela Pemex, companhia mexicana de 
petróleo, a partir de prospecções geofísicas na região à procura do 
cobiçado ouro negro. De fato, outro geólogo, Glen Penfield, que 
conhecia os estudos da Pemex, já havia escrito para Walter Alvarez 
em 1980, logo após ler o artigo original desse último com seu pai e 
colaboradores, chamando a atenção para o Yucatán como possível 
local do impacto. Penfield, porém, jamais recebeu resposta e o 
assunto foi esquecido até que Hildebrand e Boynton mostraram 
que o impacto de fato havia sido lá.
Hildebrand e Boynton batizaram a cratera de Chicxulub, que 
é o nome da pequena vila que fica quase em seu centro. A cratera 
fica metade no continente e metade no mar (ou melhor, onde 
hoje é continente e onde hoje é mar, uma vez que a posição dos 
continentes no Cretáceo era diferente). As anomalias geológicas 
têm uns 170 quilômetros de diâmetro, ou seja, indicam uma cratera 
um pouco maior que a prevista pelos Alvarez, o que corresponderia 
a um asteroide com cerca de 11 quilômetros de diâmetro, também 
um pouco maior que o previsto. Diferentes datações, obtidas 
a partir de amostras de rochas ígneas de Chicxulub, obtiveram 
(idades estimadas + erro da estimativa) 64,98 + 0,05 e 65,2 + 0,4 
milhões de anos atrás. Ou seja, a datação de Chicxulub coincidia, 
com admirável perfeição, com o final do Cretáceo e, portanto, com a 
extinção dos dinossauros.
A terceira e última predição dos Alvarez então se confirmava 
de forma espetacular. Após a falta de crédito inicial, pai e filho 
finalmente viam sua teoria ganhar aceitação cada vez mais geral, até 
atingir quase que um consenso (eu mesmo fui um dos descrentes 
iniciais que acabaram sendo convencidos pelas evidências). Com a 
ajuda das reconstruções feitas por físicos, paleontólogos e geólogos, 
muito bem sumarizadas por Marcelo Gleiser em O Fim da Terra e 
do Céu, a humanidade finalmente entendeu o que aconteceu com 
nosso planeta num dia que começou como qualquer outro, há 
sessenta e cinco milhões de anos.
O dia do oitavo impacto
Um belo dia, um asteroide de uns 11 quilômetros de diâmetro, 
movendo-se a cerca de 20 quilômetros por segundo (72.000 
quilômetros por hora!), penetra a atmosfera da Terra.
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[melhorar espaçamento]
152 153
Um asteroide de 11 quilômetros de diâmetro pode à primeira 
vista não parecer muito, considerando que o nosso planeta tem 
um diâmetro de quase 13.000 quilômetros. No entanto, como 
o leitor talvez lembre de seus cursos de física, impacto é igual a 
massa vezes velocidade ao quadrado. Ou seja, o efeito do choque de 
um corpo celeste como esse, pesando bilhões de toneladas, com o 
nosso planeta, a uma velocidade de 20 quilômetros por segundo, é 
algo quase que inimaginavelmente imenso.
O impacto causa uma explosão estimada em 100 milhões de 
megatons – ou seja, equivalente a 7 bilhões de bombas de Hiroshima, 
ou 10 mil vezes o poder de todo o atual arsenal nuclear do mundo. 
O choque espantoso abre uma cratera de 40 quilômetros de 
profundidade, vaporizando instantaneamente as próprias rochas e 
tudo o mais à volta, causando temperaturas de vários milhares de 
graus. Uma coluna de água, rochas e detritos diversos eleva-se à 
inacreditável altura de 200 mil quilômetros – metade da distância 
Terra–Lua. Acontecem terremotos monstruosos, como nunca 
vistos pelo homem: violentíssimas ondas se propagam pelo solo. 
Mas algo ainda mais terrível estava por vir. Uma colossal onda 
sísmica (tsunami) com uns 100 metros de altura varre o planeta 
à espantosa velocidade de cerca de 1.800 quilômetros por hora, 
dando várias voltas na Terra. Quem tivesse sobrevivido à onda 
monstruosa, porém, ainda não estava a salvo da terrível noite que 
viria a seguir. Com a Terra cercada por uma espessa nuvem de 
poeira e sedimentos vários, na atmosfera e mesmo acima dela, uma 
completa escuridão se faz no planeta inteiro, por meses no mínimo, 
anos talvez. Como consequência disso, toda a fotossíntese na Terra 
para, ou seja, interrompe-se o processo que é a base de toda vida. 
Logo vem o mais terrível dos invernos: com os raios solares não 
mais atingindo o solo, as temperaturas baixam várias dezenas de 
graus no planeta inteiro.
Quando ouvi falar pela primeira vezda hipótese dos Alvarez, 
lembro-me que achei surpreendente que o impacto de um asteroide 
pudesse ter extinguido a maior parte das espécies que viviam na 
Terra naquela época. Mas depois de ler a reconstrução do que deve 
ter sido esse impacto, a surpresa não é que ele tenha eliminado 
tantas espécies – é que alguma tenha sobrevivido. No entanto, 
algumas espécies tiveram essa sorte, provavelmente beneficiadas 
por fatores fortuitos que as favoreceram. Alguns animais e plantas 
habitavam áreas altas que não foram varridas pelo tsunami. Várias 
plantas certamente sobreviveram à longa noite que se seguiu, como 
sementes enterradas no solo, que voltaram a germinar quando a 
luz solar timidamente voltou a aparecer. Mesmo sem fotossíntese, 
alguns animais também lograram sobreviver a esse período, 
possivelmente espécies que ou já eram naturalmente necrófagas 
(comedoras de animais mortos) ou foram capazes de se adaptar a 
esse novo tipo de alimentação. Afinal, cadáveres enregelados devem 
ter sido o único recurso alimentar abundante no planeta por vários 
meses pelo menos.
Aos poucos, a luz foi voltando, as temperaturas começaram 
lentamente a subir e os sobreviventes do imenso cataclismo 
começaram a repovoar a Terra. As poucas linhagens evolutivas 
que tinham sobrevivido foram aos poucos se diversificando 
evolutivamente e dando origem às novas faunas e floras que 
dominariam o planeta nas eras geológicas seguintes. Várias 
linhagens, porém, haviam desaparecido completamente – entre 
elas, os dinossauros. Hoje, então, temos uma resposta convincente 
para o que aconteceu com esses animais admiráveis. Pobres 
dinossauros, levaram uma pedrada enorme na cabeça.
A morte dos dinossauros foi, então, um evento ainda mais 
espetacular do que a nossa mais audaciosa fantasia poderia ter 
imaginado. Mas o que ninguém poderia supor é que o sucesso 
da hipótese dos Alvarez fosse abrir as portas para algo ainda mais 
espetacular: uma revolução, por incrível que pareça, muito maior 
ainda em nossa maneira de ver a história da vida. E mais uma vez 
tudo começou da maneira mais prosaica e inesperada possível, com 
154 155
um homem tentando alcançar um dos maiores sonhos de todos 
nós hoje em dia: um emprego estável.
“Você está vendo isso?”
John Sepkoski era um jovem paleontólogo que, por volta do final 
da década de 1970, conseguira um emprego temporário em uma 
ótima instituição, a Universidade de Chicago. Certo dia ele soube 
que seus superiores estavam resolvendo se iriam ou não lhe oferecer 
tenure, ou seja, estabilidade no cargo. Como escreveu James Powell, 
“uma notícia dessas, assim como a descoberta de que se vai ser 
enforcado em quinze dias, concentra a mente maravilhosamente”. 
Sepkoski voltou-se então com todas as suas energias para um 
projeto quase alucinadamente ambicioso: a compilação da duração 
de famílias de organismos no registro fóssil. Ele queria saber quanto 
tempo cada família durava antes de desaparecer, e não para famílias 
de algum grupo específico de organismos, mas famílias de tudo: 
vertebrados, invertebrados, protozoários. Por meio de uma busca 
exaustiva na literatura científica, a base de dados de Sepkoski logo 
atingiu o espantoso total de 3.500 famílias, cuja duração havia 
sido compilada a partir dos registros fósseis de nada menos do 
que trinta mil gêneros extintos… O que a gente não faz por um 
emprego estável!
O colega mais velho David Raup teve a ideia de aproveitar a 
imensa massa de dados de Sepkoski para testar se algum padrão 
quantitativo aparecia no registro fóssil. Um dos gráficos que 
Raup fez plotava simplesmente o número de gêneros que havia 
se extinguido em cada período geológico, desde cerca de 250 
milhões de anos atrás até o presente. Raup esperava naturalmente 
encontrar alguns picos nesse gráfico, correspondendo a épocas 
de extinções em massa no passado, como por exemplo a própria 
extinção do K-T.
De fato, o pico que correspondia ao fim dos dinossauros estava 
lá, bem nítido, e… era o oitavo. Quando Raup olhou o gráfico 
saindo da impressora, ele mal pôde acreditar no que via. Diante de 
seus olhos estarrecidos, surgia um padrão antes desconhecido na 
história da vida, numa escala de tempo tão grande que desafiava 
a compreensão da mente humana. Raup invadiu excitadamente 
a sala de Sepkoski e, mostrando a ele o gráfico, perguntou: “Você 
está vendo isso? Elas estão regularmente espaçadas no tempo!”.
“Elas” eram as grandes ondas de extinção no passado geológico. 
No gráfico, elas apareciam com uma periodicidade regular de 26 
milhões de anos. Havia dez picos bastante nítidos; o da fronteira 
K-T era o oitavo, e o segundo maior. O maior de todos, como 
esperado, era o primeiro, correspondente à fronteira Permiano-
-Triássico, há uns 250 milhões de anos, quando houve a “mãe 
de todas as extinções”, a qual se estima que eliminou 96% das 
espécies do planeta na época, estabelecendo por convenção o fim 
da era Paleozoica e o início da era Mesozoica (que por sua vez 
foi encerrada pela extinção de K-T, que teria extinguido 70% das 
espécies viventes). Além dos dez picos periódicos, havia mais um, 
pequeno, no meio do período Jurássico, que não se encaixava 
na periodicidade. Mas a existência do pico menor do Jurássico, 
que demandava uma explicação à parte, não contradizia a clara 
periodicidade dos dez restantes.
A existência de um padrão com periodicidade tão grande era 
tão difícil de acreditar que Raup e Sepkoski tiveram bastante 
cautela ao publicar seus resultados. Nas palavras de Raup, eles 
“tentaram matar a periodicidade”, testando por vários métodos 
estatísticos de séries temporais se era provável que aquele aparente 
padrão pudesse ser simplesmente casual. Mas o padrão resistia: a 
periodicidade encontrada nas extinções no passado geológico era 
regular demais para que pudesse ser ao acaso. Ainda assim, eles 
estavam tão apreensivos com a recepção do seu trabalho que 
escolheram enviá-lo não para a Science ou a Nature, que seriam as 
156 157
escolhas mais naturais para uma descoberta científica desse porte, 
mas para a Proceedings of the National Academy of Sciences USA, 
uma revista da Academia Norte-Americana de Ciências, onde eles 
estariam em terreno mais familiar.
Perdeu-se a estrela irmã do Sol
Em 1984, então, quatro anos após o trabalho dos Alvarez, 
explodiu a nova bomba científica: Raup e Sepkoski publicaram 
finalmente seu trabalho, intitulado “Periodicidade de extinções no 
passado geológico”. Além de descrever o desconcertante padrão 
encontrado, eles não fugiram da imensa e óbvia pergunta: o que 
diabos pode ter uma periodicidade de 26 milhões de anos? Raup e 
Sepkoski reconheceram que era muito difícil imaginar qualquer 
fenômeno terrestre que tivesse uma periodicidade assim, e 
explicitamente propuseram uma causa extraterrestre para as 
extinções – não só para a extinção do K-T, mas para todas as dez 
grandes ondas de extinção.
O artigo de Raup e Sepkoski imediatamente se tornou um 
hit científico: eles publicaram em fevereiro de 1984 e já em abril 
a Nature trazia nada menos que cinco artigos comentando a 
periodicidade das extinções no passado. A recepção às suas ideias 
foi muito melhor do que os dois paleontólogos chegaram a temer. 
Nem todos os comentários eram críticos; muito pelo contrário, 
eles sugeriam novas linhas de investigação e hipóteses para 
explicar a periodicidade. Antes de tudo, se as causas de todas as 
extinções de fato fossem astronômicas, então se esperaria encontrar 
crateras associadas não só a K-T, mas também a outros picos de 
extinção. Será que essa predição, assim como a de Chicxulub, 
também se confirmaria? Surpreendentemente, a resposta é “sim”. 
De 1991 para cá já foram encontradas evidências geológicas e 
paleomagnéticas de crateras soterradas cujas datações se encaixam 
bem com outras quatro grandes ondas de extinção, além de K-T. 
A cratera correspondente à maior de todas as extinções, a do 
Permiano-Triássico, foi encontrada em Araguainha, no Brasil. Em 
três das quatro crateras,além das estruturas geológicas associadas a 
impacto, foram encontrados também picos de irídio, como os que 
haviam despertado originalmente a atenção dos Alvarez.
Se então começava a parecer cada vez mais plausível que de 
fato todas as maiores ondas de extinção no passado foram causadas 
por impactos de corpos celestes com o nosso planeta, ainda faltava 
achar uma explicação para sua desconcertante periodicidade. Nos 
comentários ao artigo de Raup e Sepkoski, foram apresentadas várias 
possibilidades. As explicações mais plausíveis eram relacionadas 
à nuvem de Oort, que é constituída por milhões de cometas em 
uma órbita à volta do Sistema Solar, além da órbita de Plutão. A 
ideia é que alterações gravitacionais nessa nuvem poderiam fazer 
que alguns cometas saíssem de suas órbitas normais, entrassem no 
Sistema Solar e se chocassem contra planetas. Mas o que poderia 
causar alterações gravitacionais na nuvem de Oort?
Outra hipótese ainda mais espetacular foi então proposta. Para 
Davis e colaboradores, a órbita dos cometas da nuvem de Oort 
seria perturbada por uma estrela irmã do Sol até agora desconhecida, 
que orbitaria o sol a dois anos-luz de distância (metade da distância 
até a estrela mais próxima conhecida, Alfa Centauri). A órbita dessa 
estrela seria muito excêntrica e apenas nas suas maiores (e raras) 
oscilações ela tocaria a nuvem de Oort, e por atração gravitacional 
traria alguns cometas de lá para dentro do Sistema Solar, resultando 
então em impactos de alguns cometas com os planetas, inclusive 
o nosso.
A existência em si da “estrela irmã” não é uma proposta 
original; astrônomos já a tinham postulado com base em anomalias 
gravitacionais detectadas no Sistema Solar e que só poderiam 
ser explicadas por um corpo celeste de grande massa, ainda 
desconhecido, percorrendo o espaço perto (nesta escala!) de nós. 
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[descer]
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Você pode estar se perguntando como seria possível que houvesse 
uma estrela irmã do Sol ainda desconhecida, mas nem toda estrela é 
grande e brilhante como estamos acostumados a pensar. A estrela em 
questão seria muito densa, mas pequena, com brilho fraco demais 
para já ter sido detectada. Muller e colaboradores propuseram para 
essa suposta estrela irmã o nome Nêmesis, que é o deus grego da ira 
justa. Num belo exemplo de interação entre ciências tão distintas 
como a paleontologia e a astronomia, a hipótese de Raup e Sepkoski 
reacendeu o interesse pela velha questão da “irmã escura” do Sol e 
levou vários astrônomos a retomar sua busca por ela.
A ciência mais fantástica que a imaginação
E agora, filosoficamente, onde ficamos?
Essa questão foi discutida por Stephen Jay Gould em Vida 
Maravilhosa, onde ele conta, com seu característico brilhantismo, 
as implicações da maior descoberta da história da paleontologia, 
a do folhelho Burgess (Burgess shale). Nesse local, na Colúmbia 
Britânica, no Canadá, Charles Walcott descobriu, em 1909, um 
fantástico mundo novo.
O que havia em Burgess era uma fauna inteira, magnificamente 
preservada, de invertebrados marinhos de águas rasas do Cambriano 
médio, ou seja, de cerca de 530 milhões de anos atrás. Naquele 
local, tinham se reunido todas as condições de preservação que 
são o sonho de qualquer paleontólogo: soterramento muito rápido 
(provavelmente por uma avalanche submarina), em condições 
anóxicas (sem oxigênio), com um pH ácido. Com tudo isso, a 
preservação dos espécimes beirava o inacreditável, permitindo ver 
até partes moles de organismos que tinham vivido mais de meio 
bilhão de anos atrás!
As reconstruções dos organismos em si, descritas 
minuciosamente por Gould, são um espetáculo à parte – quem 
mais poderia fazer um livro de paleontologia ser palpitante? Há 
coisas que parecem ter saído da delirante imaginação de algum 
escritor de ficção científica, em vez de serem organismos reais 
que um dia viveram neste mesmo planeta onde você e eu vivemos 
agora. Um deles é Opabinia, com dezenas de “velas” laterais para 
locomoção, um único apêndice apreensor frontal terminando 
numa pinça e cinco olhos de três tamanhos diferentes! Outro é 
Marrella, com uma carapaça estranha de forma trapezoidal, dezenas 
de apêndices locomotores articulados e estranhas barbas correndo 
ao longo do corpo. Depois há Wywaxia, um escudo coberto de 
escamas córneas, de cuja face convexa (certamente dorsal) saíam 
várias longas “espadas”! Mas nada supera Halucigenia. Se você acha 
que adivinhou de onde vem o nome, você está certo: os cientistas 
que descreveram o bicho justificaram a escolha do nome, numa 
respeitável revista científica, com a singela frase “ao ver o animal 
parece que estamos tendo alucinações”. Halucigenia era um tubo 
longo, com um ânus e três pares de pequenos tentáculos dorsais 
numa ponta e uma estranha estrutura globular, sem apêndices (um 
“cérebro”?) na outra, mais sete tentáculos maiores com “bocas” 
projetando-se para cima a partir do dorso, tudo isso equilibrado 
sobre sete pares de espículas rígidas de calcário, como se o animal 
andasse sobre quatorze pernas de pau!2
Já foi muito discutido se essa impressionante diversidade de 
formas implicaria vários filos novos para a ciência, o que faria 
dessa a descoberta de maior impacto taxonômico na história, 
ou se praticamente todos os animais podem ser classificados 
em filos atuais. Filos distintos ou não, o que é certo é que uma 
espantosa coleção de animais bizarros desapareceu ao longo do 
próprio Cambriano ou dos períodos posteriores, pelo menos uma 
2 Essa foi a reconstrução adotada por Gould, mas outros fósseis de Halucigenia encontrados 
depois na Groenlândia e na China mostraram que o animal estava invertido: os “tentáculos” 
na verdade eram pernas e as espículas ficavam para cima. Ah, bom, agora ficou um bicho 
bem trivial!
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parte deles em grandes ondas de extinção, como a do Permo- 
-Triássico, já mencionada. Além disso, para o nosso argumento 
é igualmente importante notar que a fauna de Burgess também 
incluía vários animais que se encaixam com facilidade em 
outros grupos de invertebrados que existem até hoje, dentro 
dos filos dos artrópodos, anelídeos, moluscos, equinodermos e 
onicóforos. Ainda mais importante, do nosso próprio ponto de 
vista provinciano: também está lá um pequeno animal chamado 
Pykaia, que é considerado nada mais nada menos que um ancestral 
dos cordados – portanto, por inclusão, de todos os mamíferos, 
inclusive você e este que lhe escreve.
O tambor e a chama de Shiva
O garoto Stephen Jay Gould, olhando fascinado o tiranossauro 
dos seus cinco anos, provavelmente nem imaginava que a 
paleontologia avançaria tanto, durante sua vida, no entendimento 
não só da grande questão da extinção dos dinossauros como da 
questão ainda maior das grandes ondas de extinção em geral. O 
próprio Gould, em uma crônica em seu livro O sorriso do flamingo, 
fez uma brilhante reinterpretação das implicações da fabulosa 
descoberta de Raup e Sepkoski. Para Gould, Nêmesis não era a 
metáfora ideal para a estrela que teria causado, segundo Davis e 
colaboradores, as grandes ondas de extinção. Nêmesis aparece na 
mitologia grega como uma personificação da ira justa. Mas se as 
extinções foram causadas por impactos de corpos celestes, como 
dizer que teria havido “justiça” nelas? A evolução funciona pela 
adaptação das espécies, por meio da seleção natural agindo sobre 
seus indivíduos, às circunstâncias do seu ambiente em cada local 
e tempo específico. Como poderia a seleção natural ter feito que 
uma espécie fosse adaptada a sobreviver a quedas de asteroides 
gigantescos, as quais só aconteceriam a cada 26 milhões de anos? 
Se Raup e Sepkoski estiverem certos, as grandes ondas de extinção 
foram como gigantescas loterias. Quais espécies se extinguiram 
nelas, e quais não, teria sido algo fundamentalmente aleatório, que 
não teria tido nada a ver com quaisespécies eram mais ou menos 
bem-adaptadas, ou mais ou menos “evoluídas” em qualquer sentido. 
Isso seria um exemplo de um tema que Gould repetidamente 
discutiu em seus ensaios: o papel da contingência na evolução. 
Por contingência se entende a importância de eventos históricos, 
como momentos nos quais várias coisas diferentes poderiam ter 
acontecido, mas o que quer que de fato tenha acontecido condiciona 
todo o futuro dali para a frente.
Agora vamos supor que as linhagens extintas pela queda de 
grandes corpos celestes após o Cambriano incluíssem não as de 
Opabinia, Marrella, Wywaxia e Halucigenia, mas, em vez disso, as 
que levaram aos grupos atuais de artrópodos, anelídeos, moluscos 
e cordados. Isso poderia muito bem ter acontecido: não há nada, 
a princípio, que torne o segundo conjunto menos vulnerável que 
o primeiro. E, se tivesse acontecido, como seria hoje a vida neste 
planeta? É impossível saber, mas uma coisa é certa: seria muito 
diferente do que é, e você e eu não estaríamos aqui! Perceber 
isso, sentir isso, é o melhor antídoto que conheço para a nossa 
arrogância antropocentrista, para qualquer pessoa que ainda ache 
que o mundo foi feito para nós.
Gould propôs então substituir Nêmesis por Shiva – deus hindu 
da destruição e da criação. Em um tipo de representação de Shiva, 
como Nataraja, a dança cósmica, ele é retratado com uma face serena, 
regendo placidamente com um tambor o ritmo da destruição, 
enquanto segura em outra mão a chama da criação (se o leitor ao 
contemplar essa figura de Shiva achar difícil localizar o tambor e 
a chama, não se preocupe, é que os quatro braços atrapalham um 
pouco mesmo). As ondas de extinção não teriam nada a ver com 
justiça, mas seriam apenas parte de um processo natural aleatório 
e que age de modo intermitente a longos intervalos. A destruição 
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e a criação seriam duas faces de uma mesma moeda, e a vida se 
renova como resultado de eventos cósmicos. A cada grande evento 
de destruição, as linhagens sobreviventes repovoam lentamente o 
planeta, adaptando-se a cada um dos novos hábitats e com isso 
voltando a se diversificar. Esse processo é conhecido por radiação 
adaptativa e deu origem, após milhões de anos, às novas faunas e 
floras que caracterizam cada período geológico. Você e eu, como 
todos os restantes animais e as plantas, somos descendentes das 
linhagens evolutivas que sobreviveram ao tambor de Shiva e que se 
diversificaram em sua chama.
A SELEÇÃO HÚNGARA DE 1954 
E A ORIGEM DOS FILOS
O garoto inglês David Barr tinha uma grande expectativa 
quando se juntou a mais de cem mil pessoas que lotavam o estádio 
de Wembley para assistir ao jogo entre a poderosa Seleção da 
Inglaterra e uma seleção do leste europeu da qual se falava muito 
bem, a da Hungria. Era um ótimo dia para uma boa diversão e 
assistir a mais uma vitória do English Team. Mal imaginava ele o 
imenso choque que iria sentir, e que estava prestes a testemunhar a 
um dos mais incríveis espetáculos da história do futebol.
Para colocar em contexto para um leitor de hoje, é preciso 
lembrar algumas coisas. Os ingleses haviam sido os inventores do 
futebol e se consideravam, sem discussão, os melhores do mundo. 
Não tinham ganhado nenhuma Copa, mas até ali só tinham 
disputado uma – a última, de 1950, no Brasil. Agora, aquele 
amistoso em novembro de 1953 era no sagrado templo de Wembley, 
onde a Inglaterra nunca tinha perdido nenhum jogo para um 
time estrangeiro. Naquela época, jogos do mundo todo não eram 
transmitidos a toda hora pela televisão como hoje. A multidão no 
estádio nunca tinha visto a Hungria jogar e via o time húngaro, 
com aquela arrogância tipicamente britânica, como apenas mais 
um bom time a ser batido. Como disse depois o próprio Barr: 
“Eu não sabia nada sobre a Hungria, mas sabia que venceríamos 
facilmente aquela gente pobre”.
O juiz deu início à partida e em poucos minutos a ilusão do garoto 
foi feita em pedaços por uma furiosa exibição de futebol. David 
observava surpreso, desconcertado, como os húngaros trocavam 
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passes, driblavam, movimentavam-se de forma maravilhosamente 
coordenada e num ritmo alucinante. A defesa inglesa estava perdida 
tentando acompanhar os fantasmas de camisa cor de cereja que se 
infiltravam habilidosamente pelos espaços vazios. Aos cinquenta 
segundos a Hungria já estava na frente, com um gol fulminante de 
Hidegkuti. Minutos depois, uma tabela em espantosa velocidade 
entre Czibor, Puskas e Hidegkuti terminou num gol maravilhoso 
que o árbitro anulou injustamente.
Juntando todo o seu brio, os ingleses lutaram contra o furacão 
e aos quinze minutos conseguiram o empate. Mas o massacre 
continuava. O zagueiro inglês Johnson era levado para passear 
fora da área na marcação do fugidio falso centroavante húngaro, 
Hidegkuti, e na lacuna assim deixada dois outros brilhantes 
atacantes, Puskas e Kocsis, entravam sempre na cara do gol. 
A fluência e a rapidez das trocas de passes dos húngaros eram 
simplesmente impossíveis de se acompanhar. Uma combinação 
fabulosa entre quatro atacantes – Puskas, Czibor, Kocsis e Hidegkuti 
– terminou no segundo gol. Mais alguns minutos se passaram e 
David e os restantes espectadores ingleses foram presenteados com 
um gol antológico. A jogada mostrou não só a habilidade dos 
húngaros, mas também sua desconcertante movimentação. Kocsis, 
centroavante, está no meio de campo, de onde lança a bola para 
o ponta-esquerda Czibor, entrando em velocidade pela… ponta-
-direita! Czibor cruza para o meia-esquerda, Puskas, que está no 
bico direito da pequena área, gira de forma desconcertante sobre o 
zagueiro e manda um balaço no ângulo do goleiro.
Os húngaros continuavam dominando completamente a 
partida e pouco depois faziam 4 × 1. No segundo tempo, com a 
vitória assegurada, eles diminuíram um pouco o ritmo, mas era 
tarde demais. Pela primeira vez a Inglaterra saía derrotada por um 
time estrangeiro em Wembley – e por uma sonora goleada, 6 × 3.
O choque foi imenso; os ingleses estavam aplaudindo os 
húngaros já durante o jogo, percebendo que estavam assistindo a 
alguma coisa fora do comum. Parecia algo quase sobrenatural, como 
refletido no tom dos comentários da imprensa. O normalmente 
comedido jornal The Times escreveu: “Eles [os jogadores ingleses] 
se achavam estranhos em um mundo estranho, um mundo de 
esvoaçantes espíritos rubros, pois era assim que pareciam os 
húngaros à medida que se movimentavam num ritmo devastador”. 
Anos depois, David Barr diria sobre suas lembranças daquele dia 
em Wembley: “Vimos a demonstração futebolística mais magnífica 
de todos os tempos. Foi extraordinário. Depois que eles marcaram 
o quarto gol, já não nos importávamos mais se a Inglaterra ia fazer 
mais gols, os húngaros eram bons demais. É algo que vou lembrar 
por toda a vida”.
O orgulho inglês havia sido ferido; teria, claro, que haver uma 
vingança. No dia seguinte, pediram aos húngaros uma revanche, 
que seria realizada em maio de 1954.
Pobres ingleses! Teria sido melhor se eles tivessem deixado as 
coisas como estavam. O jogo em Budapeste foi ainda pior que a 
tragédia de Wembley. Em quatro minutos, os húngaros já venciam 
por 3 × 0. O goleiro Merrick espelhou bem a impotência e o 
desespero dos ingleses: “Quando os húngaros chegaram aos 6 × 
0 no meio do segundo tempo, eu me perguntei quão gigantesca 
seria a catástrofe que se abateria sobre nós”. Os ingleses ficaram 
até aliviados quando o jogo terminou com o placar marcando 
uma humilhante goleada de 7 × 1. Podia ter sido muito pior. O 
jogador inglês Finney escreveu: “A Inglaterra foi enfeitiçada, sim, 
confundida e desnorteada por um time de bruxos futebolistas que 
às vezes pareciam ler o pensamento uns dos outros. Foi uma coisa 
parecida com telepatia em um campo de futebol e duvido que algo 
assim aconteça de novo enquanto eu viver”. Mas ninguém exprimiu 
tão bem o pasmo dos ingleses com o futebol dos húngaros quanto 
SydOwen. Meses depois do jogo, o jogador Malcolm Allison 
(que não esteve lá) encontrou com Owen, que havia jogado em 
Budapeste, e lhe perguntou: “Syd, como foi jogar por lá contra 
Vera
Realce
[Não separar: 6 x 0 ]
Vera
Riscado
se encontrou
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os húngaros?” Owen respondeu: “Malcolm, foi como jogar com 
gente de outro planeta”.
A qualidade do time húngaro podia ser uma surpresa para 
torcedores como David Barr, vivendo numa época pré-televisão, 
ou mesmo para os jogadores ingleses, mas havia anos que os 
avisos estavam sendo dados por uma série de resultados fora 
do comum daquele time na Europa. As vitórias eram quase 
sempre goleadas, verdadeiros festivais de gols. Os adversários 
tradicionais dos húngaros no Leste Europeu haviam sido batidos 
com surpreendente facilidade: a Áustria por 6 × 1, a Polônia 
por 8 × 2 e 5 × 1, a Tchecoslováquia por 5 × 0 e 5 × 1, e por 
aí vai. Além disso, nos Jogos Olímpicos de 1952, em Helsinki, 
aquele mesmo time havia sido campeão com facilidade, vencendo 
todos os seus jogos. Entre os adversários estava o forte time da 
Suécia, com alguns jogadores que depois jogariam na seleção 
vice-campeã da Copa de 1958, mas foi batido na semifinal por 
incríveis 6 × 0. Meses depois, os húngaros enfrentaram a seleção 
principal da Itália, em pleno Estádio Olímpico de Roma. Ao final 
do jogo, com os húngaros procurando insistentemente o ataque 
mesmo vencendo por 3 × 0, a fanática torcida italiana aplaudia 
os visitantes, contra sua própria seleção. Depois disso, vieram os 
dois amistosos contra a Inglaterra.
Faltava para a já chamada “Seleção de Ouro” apenas a 
consagração da Copa do Mundo, que se disputava na montanhosa 
Suíça, no verão de 1954. Os húngaros estrearam aplicando uma 
sonora goleada de 9 × 0 na Coreia do Sul. Depois, massacraram 
com muita facilidade a poderosa Alemanha, por 8 × 3. Porém, nesse 
jogo a Hungria sofreu uma baixa importante: seu maior craque, 
Puskas, foi caçado em campo até sair contundido, sendo forçado 
a perder os dois jogos seguintes. Na rodada seguinte, as quartas- 
-de-final, a Hungria enfrentou um grande teste: o vice-campeão da 
Copa anterior, o Brasil, com um time que incluía grandes craques 
como Nílton Santos e Didi, entre outros. Foi um jogo tenso e 
violento, conhecido como “a Batalha de Berna”, mas a Hungria 
superou nitidamente o poderoso time brasileiro, estando sempre à 
frente no placar e vencendo por 4 × 2.
Depois de pegar o vice-campeão, a Hungria, ainda sem Puskas, 
enfrentava nas semifinais nada menos do que o campeão do mundo 
reinante, o Uruguai. A tradicional garra uruguaia não foi suficiente, 
e a Hungria se impôs novamente por 4 × 2. Era a primeira derrota 
do Uruguai na história das Copas. Para a consagração definitiva dos 
húngaros só faltava a vitória na final da Copa do Mundo, quando 
eles enfrentariam de novo a mesma Alemanha que haviam goleado 
por facílimos 8 × 3 na primeira fase.
É bem verdade que a Alemanha vinha com um time 
completamente modificado. Do outro lado, Puskas iria jogar, mas 
ainda longe das condições físicas ideais. Choveu muito na noite 
anterior e no dia da grande final o campo estava encharcado, 
mais favorável ao jogo pesado dos alemães do que ao futebol mais 
habilidoso dos húngaros. Os húngaros começam arrasadores. O 
próprio Puskas e Czibor fazem dois a zero em apenas oito minutos, 
dando a falsa impressão que seria mais um jogo fácil. A Alemanha 
empata ainda no primeiro tempo. O primeiro gol nasce de uma 
falha do zagueiro húngaro Zakarias, e o segundo de uma jogada 
ilegal, com falta no goleiro Grocsis. Com 2 × 2 no placar, os 
húngaros pressionam: chutam uma bola na trave, depois outra, e 
Kocsis manda um tiro no travessão. O alemão Kohlmeyer salva 
uma bola em cima da linha do gol. Caprichosamente, porém, o 
terceiro gol húngaro se recusa a sair. A apenas seis minutos do fim, 
a Alemanha desempata, num chute despretensioso de longe em 
que a bola quica na grama molhada e trai Grocsis. Tudo parecia 
terminado, mas ainda não… A dois minutos do fim, Puskas 
empata! O gol, no entanto, é anulado, para muitos erradamente. 
Os húngaros protestam, se desesperam, lutam até o fim, mas o 
jogo termina. A Seleção de Ouro não foi campeã do mundo – a 
maior injustiça da história do futebol. Numa entrevista na década 
Vera
Riscado
2 x 0
Vera
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de que
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de noventa, o goleiro Grocsis exprimiu assim sua decepção: “Já 
faz mais de quarenta anos, mas até hoje choro quando me lembro 
desse jogo”.
Dois anos depois, o exército soviético invadiu a Hungria para 
esmagar brutalmente uma insurreição popular contra o regime 
comunista. A maioria dos jogadores da “Seleção de Ouro” estava 
fora do país, excursionando com seu time, o Honved, e se recusou 
a voltar para lá. Aquele maravilhoso time jamais voltaria a jogar 
junto. Com isso, o mundo foi privado de assistir, na Copa de 
1958, àquele que teria sido sem dúvida o maior jogo da história do 
futebol: a Hungria de Puskas, Kocsis, Czibor, Hidegkuti e Bozsik 
contra o Brasil de Pelé, Garrincha, Didi e Nílton Santos.
O leitor brasileiro pode achar essa última afirmação exagerada, 
mas não é o caso. A expressão “seleção húngara de 54” se tornaria, 
nas décadas seguintes, adjetivo para bom futebol. O grande Nelson 
Rodrigues, quando queria dizer que um time não jogava tanto 
assim, dizia “…bem, não é nenhum escrete húngaro de 54!”. Eu 
não era nascido quando aquela Hungria jogava, mas cresci ouvindo 
falar dela como um time quase lendário. De fato, os números 
mostram o quão extraordinário ele era. Entre 1950 e a fatídica final 
da Copa de 1954, a Hungria ficou invicta por 36 jogos – apenas 
quatro empates, e 32 vitórias! Nenhuma outra seleção, de nenhum 
país, jamais teve retrospecto similar jogando no palco internacional 
e batendo todos os melhores times do planeta.
Os números mais significativos, porém, são os das goleadas – 
e são eles que nos trazem para nossa questão central (calma, já 
estamos quase chegando na biologia). Aquele time saiu do nada 
e enfiou espetaculares goleadas em todas as maiores potências da 
época. A Hungria não só ganhava os jogos, mas ganhava com 
uma nítida e imensa superioridade mesmo contra seus rivais mais 
poderosos. Essa, a meu ver, é a nossa primeira pergunta a ser 
respondida. Como foi possível à Hungria ter uma superioridade 
tão grande sobre as outras seleções suas contemporâneas?
Para responder a essa pergunta vamos dar uma olhada mais de 
perto nos segredos do sucesso daquele time húngaro. O primeiro, 
claro, era a qualidade de seus jogadores. A Hungria tinha cinco 
craques extraordinários: Ferenc Puskas, Sandor Kocsis, Nandor 
Hidegkuti, Jozsef Bozsik e Zoltan Czibor. Se os nomes lhe parecem 
familiares, é possível que seja do livro Budapeste, de Chico Buarque, 
grande apreciador do futebol, que usou nomes de personagens e 
lugares de seu romance para homenagear os jogadores da “Seleção 
de Ouro”. Mas todos eles frequentam as listas dos cem melhores 
jogadores da história que às vezes são organizadas por revistas 
esportivas. Ora, não é necessário muito esforço matemático para 
perceber que pouquíssimos times da história – o Brasil de 1970 é 
o único outro em que eu consigo pensar – puderam ter o privilégio 
de ter em campo cinco jogadores de uma lista dessas. Antes da Copa 
de 1958, se você perguntasse a qualquer fã de futebol quem tinha 
sido o maior jogador de todos os tempos, a resposta viria na ponta 
da língua: Puskas (naquela Copa, claro, um adolescente brasileiro de 
dezessete anos assumiu de vez esse título). Puskas era um baixinho 
atarracado que parecia tudo menos o maior jogador do mundo, mas 
era um meia-atacante pela esquerda, canhoto, com dribles curtos, 
fantástica visão de jogo, passes precisos e uma bomba mortal na 
perna esquerda. A seu lado jogava Kocsis, rápido, habilidoso e um 
exímio cabeceador, que teve a marca impressionantede 75 gols em 68 
jogos pela Hungria. O ponta-esquerda, o temperamental Czibor, era 
rapidíssimo, grande driblador, deslocava-se o tempo todo e também 
marcava grande quantidade de gols. Já Hidegkuti era teoricamente o 
centroavante, mas só teoricamente. Na prática ele jogava mais como 
um inteligente meia-atacante, que se deslocava, armava jogadas e 
concluía com a mesma eficiência. Quanto a Bozsik, ele era o maestro 
do time, jogando mais atrás no meio de campo; todas as jogadas 
começavam em seus pés. Some-se a isso um punhado de outros bons 
jogadores e se tem, sem dúvida, um elenco de qualidade notável. Será 
que isso por si só explica o extraordinário sucesso daquela Seleção?
Vera
Riscado
1990,
Vera
Realce
[Tirar vírgula depois de "empates".]
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Arrisco-me a dizer que não. É importante notar que o 
entrosamento daquele time húngaro era tão fora do comum quanto 
seu elenco. Vejamos. Puskas e Bozsik eram vizinhos, no mesmo 
edifício em Budapeste; um era o melhor amigo do outro e jogavam 
juntos desde as peladas de rua de infância. Czibor, Kocsis e o ponta-
-direita Budai eram amigos desde a adolescência e treinaram juntos 
por anos antes de explodirem para o sucesso internacional. Além 
disso, nove dos onze titulares da “Seleção de Ouro” jogavam juntos 
num mesmo time, o Honved. Finalmente, aquela seleção jogou 
quatro anos praticamente com a mesma escalação e comandada 
pelo mesmo técnico – Gustav Sebes. O resultado disso tudo pode 
ser visto nos comentários reproduzidos acima, que invariavelmente 
se referiam à Hungria com uma grande equipe, que trocava passes 
sem errar, mesmo se deslocando em alta velocidade, e com cada 
jogador parecendo sempre saber onde os outros estavam – daí, 
certamente, as referências à telepatia.
Vou argumentar, no entanto, que a explicação para o sucesso 
da Hungria ainda não está completa. Atrevo-me a dizer que há 
uma terceira razão, tão importante quanto as anteriores, e que é 
uma razão histórica. A meu ver, uma das razões da superioridade 
fabulosa da “Seleção de Ouro” foi o seu ineditismo. Os elementos 
que formavam seu estilo foram se desenvolvendo aos poucos, 
e em um dado momento ela havia atingido, de forma quase 
despercebida, um novo patamar de evolução do futebol. Numa 
época em que a mídia era muito menos efetiva que hoje, as demais 
seleções demoraram um longo tempo até conseguirem elevar seu 
jogo em resposta à revolução que os húngaros haviam lançado.
Senão vejamos. Quais foram as grandes novidades táticas 
introduzidas pelos húngaros? Pode-se mencionar a intensa 
movimentação do time todo; jogadores de ataque em contínuo 
deslocamento, com frequente rodízio de posições; um meio-campo 
(Bozsik) que tanto roubava bem a bola como armava o ataque com 
rapidez; um lateral (Lantos) que ia ao ataque com frequência; um 
zagueiro (Lorant) que reforçava o ataque como elemento surpresa. 
Parece algo muito diferente? Não, não parece. Hoje, todas essas 
coisas nos parecem bem familiares. Só que os húngaros faziam 
tudo isso nos anos 1950. E naquela época, sim, tudo isso era muito 
diferente do que se via nos campos de futebol. Mas aquela era 
uma época pré-internet e quando mesmo a transmissão de eventos 
esportivos pela televisão apenas engatinhava. Os jogadores ingleses 
foram unânimes em afirmar que os deslocamentos dos húngaros os 
pegaram completamente de surpresa. Hoje isso seria inconcebível. 
Antes dos jogos, o técnico de qualquer seleção de ponta teria 
assistido aos jogos da Hungria e os jogadores estariam fartamente 
instruídos sobre a movimentação que Hidegkuti, Kocsis, Puskas 
e Czibor faziam. Mas do jeito que as coisas eram na década de 
1950, os húngaros conseguiram montar todos os elementos de 
sua fabulosa receita sem chamar muito a atenção, jogando atrás da 
“cortina de ferro” na Europa Oriental, longe dos maiores centros 
futebolísticos. Quando o mundo percebeu, ali estava, pronto, um 
novo e maravilhoso futebol, o qual – como bem exprimiu Syd 
Owen – parecia mesmo vir de outro planeta, de tão superior que 
era a tudo que se conhecia até então.
A esta altura seria interessante nos perguntarmos: será que isso 
poderia acontecer de novo? O meu palpite é que não, por três razões3. 
Primeiro, como vimos, quase todas as novidades táticas da Seleção 
Húngara de 1954 são hoje lugares-comuns; qualquer bom time faz 
essas coisas, ou pelo menos parte delas. Segundo, ao contrário do 
que ocorria na década de 1950, no mundo hiperconectado de hoje é 
difícil imaginar que qualquer revolução tática pudesse pegar técnicos 
e jogadores adversários despreparados por vários anos. Terceiro, 
3 Alguns podem alegar que já aconteceu depois, com a Holanda de Cruyff, em 1974. No en-
tanto, por um lado a Holanda nunca gozou da mesma margem de superioridade que a Hun-
gria tivera nos anos 1950, nem pelo mesmo tempo; por outro lado pode-se argumentar que 
as mudanças táticas trazidas pelo “carrossel holandês”, com intensa movimentação, trocas de 
posições e jogadores exercendo várias funções, já haviam em grande parte sido antecipadas 
pela própria Seleção Húngara.
Vera
Riscado
anteriormente,
Vera
Riscado
como
172 173
graças aos avanços da tática e da preparação física, a movimentação 
dos times atuais é muito mais intensa, com mais marcação e ocupação 
de espaços, de modo que a evolução dos sistemas táticos certamente 
daria menos oportunidades para o jogo ofensivo dos húngaros. 
Todas as seleções de bom nível jogam atualmente um futebol sólido, 
mesmo que sem brilho, que é difícil de derrotar por largas margens 
de gols. Por isso acredito que a superioridade esmagadora de uma 
seleção sobre todas as outras, nos moldes do que os húngaros tiveram 
entre 1950 e 1954, é um padrão que jamais se repetirá. Ou será que 
o leitor acredita que daqui a alguns anos vá surgir do nada um time 
que vá enfiar oito gols na Alemanha, seis e depois sete na Inglaterra, 
seis na Suécia e quatro no Brasil?
A explosão cambriana
A esta altura você pode estar inquieto e achando que eu estou 
há tempo demais falando sobre futebol. Não sei se isso serve de 
consolo, mas podia ser pior: podia ser de beisebol. E já chegamos na 
biologia, mais precisamente num evento extraordinário acontecido 
há 500 milhões de anos e, se isso é possível, ainda mais espetacular 
que a Seleção Húngara de 1954: a explosão cambriana.
A diversidade biológica, assim como a extinção, parece não 
ter surgido gradativamente, mas sim em “pulsos”, com grande 
quantidade de novas formas aparecendo em eventos relativamente 
rápidos. O maior desses eventos, e talvez o mais espetacular 
evento da história da vida, foi a explosão cambriana. Toda a 
vida conhecida antes do período Cambriano era constituída 
por organismos unicelulares simples, como as bactérias atuais e 
seus aparentados. No Cambriano, então, que começou há 570 
milhões de anos, ocorreu uma imensa revolução: o aparecimento 
dos organismos multicelulares, não timidamente, mas já em 
espetacular diversidade. Esses animais estão representados pela 
fauna do folhelho Burgess, da qual falamos no capítulo anterior. 
Assim como a Seleção Húngara, a fauna de Burgess era tão 
diferente de tudo o que havia antes que parecia ter vindo de outro 
planeta. Como vimos, o desaparecimento lotérico de alguns de 
seus membros, e não de outros, contingenciou todos os caminhos 
futuros da evolução. Aqui, porém, não estou mais preocupado em 
discutir seu desaparecimento, mas sim o “repentino” aparecimento 
desta espetacular diversidade de formas.
Todos os filos modernos de animais, ou pelo menos todos os mais 
bem representados no registro fóssil, já foram detectados dentro da 
duração do Cambriano, em Burgess ou em outras faunas do período. 
Em certo sentido pode-se dizer que surgiram repentinamente, 
embora talvez seja conveniente esclarecer que “repentinamente”, 
aqui, se refere à escala de tempo geológica, ou seja, seu aparecimento 
parece ter se dado ao longo de um período de alguns milhões de anos 
– um tempo pequeno se comparado às centenas de milhõesde anos 
desde então, mas gigantesco em termos absolutos.
Nas centenas de milhões de anos seguintes, os filos sobreviventes 
passaram por uma imensa diversificação: novas espécies deram 
origem a novas linhagens evolutivas que foram reconhecidas como 
novas famílias, novas ordens, até novas classes. No entanto, nenhum 
novo grande padrão estrutural, nenhuma forma radicalmente nova 
de organização, considerada merecedora do status de filo novo, 
surgiu no reino animal nos 500 milhões de anos que separam o 
Cambriano do momento atual.
Chegamos, então, à grande questão: por que nenhum filo novo 
se originou desde o Cambriano até agora?
Inovação e sistemas jovens
Pode-se argumentar, e esse é o nosso ponto central, que isso 
pode ser consequência de algumas propriedades bastante gerais da 
Vera
Realce
[Confirmar se será mesmo capítulo.]
174 175
evolução de sistemas, discutidas por Stephen Jay Gould em Full 
Hand 4. Vamos supor que o sistema do qual estamos falando tenha 
as seguintes características: variação entre elementos, competição 
entre tais elementos e o sistema mudando ao longo do tempo em 
consequência dos resultados desta competição. Não é necessário que 
a competição seja o único processo de interação entre os elementos 
do sistema em questão; basta que seja um processo importante.
É bastante claro que a evolução filética da vida (ou seja, a 
origem, florescimento e eventual extinção das grandes categorias 
taxonômicas) pode ser vista como um sistema assim. O ponto 
crucial que quero argumentar é que uma característica de sistemas 
jovens é a sua extrema diversidade de formas e soluções, quando 
comparados com sistemas mais maduros. Enquanto a melhor opção 
para solucionar cada problema não é alcançada, várias soluções 
muito distintas coexistem. Com o tempo, as melhores soluções vão 
se universalizando e a diversidade de grandes padrões estruturais 
tende a diminuir. Naturalmente, a evolução continua ocorrendo 
em sistemas maduros, mas ela aos poucos vai assumindo a forma 
não de aparecimento de novos temas, mas de desenvolvimento de 
variações sobre os temas mais bem-sucedidos, que já se tornaram 
a norma. Por exemplo, há mais de um milhão de espécies de 
artrópodos, muitas apenas sutilmente distintas umas das outras, 
mas nenhuma inovação tão grande quanto o eficiente tipo de 
organização estrutural que conhecemos como filo Arthropoda 
surgiu desde o Cambriano.
A eficiência das soluções alcançadas pela vida para os mais 
diversos problemas é lindamente ilustrada pelos casos em que 
uma mesma boa solução é alcançada de forma independente 
em linhagens evolutivamente muito distintas – o fenômeno que 
chamamos de convergência evolutiva. Por exemplo, asas foram 
desenvolvidas pelas aves, pelos morcegos, pelos peixes-voadores 
4 Lançado no Brasil com um título esdrúxulo, Jogo de Dados, que passa uma ideia de aleato-
riedade do processo evolutivo, representando de forma muito errônea o conteúdo do livro.
e provavelmente mais de dez vezes independentemente apenas 
dentro dos insetos. Línguas longas e pegajosas para capturar 
insetos sociais foram desenvolvidas independentemente pelo 
menos três vezes dentro dos mamíferos: pelos tamanduás das 
Américas (ordem Xenarthra), pelos aardvarks da África (ordem 
Tubulidentata) e pelos pangolins da Ásia (ordem Pholidota). Num 
dos exemplos preferidos de Gould, o panda-gigante, os polegares 
opositores que haviam sido perdidos pelos seus ancestrais (do 
panda, não de Gould) reaparecem sob a forma de um sexto 
dedo muscular na pata dianteira. Parece razoável concluir que 
essas soluções aparecem tão repetidamente porque são soluções 
muito eficazes para um mesmo problema enfrentado pelas várias 
linhagens nas quais cada uma dessas adaptações é selecionada. 
Esses exemplos – mais os pulmões, a hemoglobina, os esqueletos, 
a endotermia, os olhos complexos, e assim por diante – mostram 
o quanto a vida está agora mais próxima de soluções ótimas para 
os mais variados problemas, em relação à vida estranha, ainda que 
maravilhosa, do Cambriano.
Um esclarecimento é importante neste ponto. Estar mais 
próximo de soluções ótimas não quer dizer que todas essas coisas 
não possam ser ainda melhoradas. É claro que podem, e se nossa 
espécie der tempo e oportunidade à evolução, provavelmente serão. 
No entanto, alvéolos pulmonares para aumentar a área disponível 
para trocas gasosas e asas para aumentar a superfície de sustentação 
funcionam bem por causa de princípios físicos e geométricos 
que tornam adequadas tais soluções. É difícil conceber soluções 
radicalmente diferentes que sejam melhores dentro das leis físicas 
– as quais, ao contrário das leis humanas, nunca são desobedecidas. 
É mais fácil imaginar que a vida do futuro terá asas melhores como 
solução para o voo – além de balões mais eficientes para as aranhas, 
pólen mais leve e com maior superfície relativa para plantas, e por 
aí vai, ou seja, um aperfeiçoamento maior de outras soluções que 
também já existem.
Vera
Riscado
dessa
176 177
O importante a notar é que, num sistema jovem, uma novidade 
que apareça vai competir com outros elementos que também 
estão ainda muito longe do ótimo. Mesmo que uma novidade 
dessas ainda estivesse muito longe de uma eficiência ideal no 
que diz respeito às leis físicas, em um mundo não saturado de 
soluções otimizadas seria possível que vários elementos, cada 
um com suas próprias inovações de alguma forma funcionais, 
tenham podido se estabelecer. No caso dos sistemas biológicos, 
cada um desses elementos iniciais daria origem a uma linhagem 
com características distintas o suficiente para eventualmente ser 
reconhecida como um filo.
Compare agora isso com a situação de um sistema maduro. 
Os organismos que vivem agora são como as pontas de longos 
galhos da árvore da vida: representam, cada um, o momento 
atual de uma longuíssima história de acumulação de adaptações 
bem-sucedidas em sua linhagem. Todos eles têm designs que já são 
eficientes, com partes que funcionam em harmonia umas com as 
outras – senão eles simplesmente não existiriam mais, em função 
das demandas impostas pelo meio – inclusive o biótico – no qual 
estão inseridos. A eficiência, portanto, tende a ser nivelada por 
cima. Uma novidade tão grande que merecesse o status de um filo 
implicaria um “mergulho no vazio”, uma reorganização drástica 
para algo novo que teria a necessidade de já começar muito eficaz 
para poder sobreviver num mundo povoado por outros seres já 
eficazes. Não acredito que Halucigenia fosse durar muito no 
mundo de hoje, num mar povoado por caranguejos, polvos e peixes 
modernos. Além disso, a nova forma eficaz teria que ser alcançada 
sem comprometer a harmonia entre as partes alcançada ao longo 
de centenas de milhões de anos de evolução. É claro que isso não 
é impossível, em absoluto, mas é bastante improvável. É mais 
provável o sucesso de pequenas variações das soluções consagradas. 
Isso poderia explicar por que as origens de filos foram menos 
frequentes, se é que existiram, depois do Cambriano.
Indo mais adiante, é fácil imaginar que a grande variação entre os 
elementos existentes em um sistema jovem possa gerar uma grande 
variação entre seus sucessos. Dependendo de suas características, 
a novidade pode vir a ter uma imensa vantagem sobre os demais 
elementos. Suspeito que isso aconteceu algum dia com os artrópodos, 
com suas patas articuladas e exoesqueletos, em relação aos planos 
corporais bizarros de Burgess que desapareceram. Um raciocínio 
análogo, então, poderia responder à questão formulada acima – o 
porquê da imensa superioridade da Seleção Húngara sobre as demais no 
início dos anos 1950. Nesse caso, pelo menos, as derrotas esmagadoras 
em Wembley e em Budapeste não trouxeram risco algum de extinguir 
a Seleção Inglesa de futebol (não sei se acho isso bom ou ruim).
Num sistema maduro, por outro lado, as eficiências tendem, 
então, a ser maiores e mais similares, ou seja, a ser niveladas 
pelo alto. Num sistema assim, é muito maisdifícil que possam 
surgir novidades verdadeiramente radicais: nem novos filos, nem 
reinvenções do futebol.
Até que ponto esse é um princípio geral?
Chegamos assim a uma surpreendente constatação. O porquê 
da ausência do surgimento de novos filos desde o Cambriano e o 
porquê da ausência de um time que se destaque da forma que a 
Hungria se destacava podem ser perguntas completamente díspares 
mas com a mesma resposta. Ambos os padrões seriam decorrentes 
de propriedades gerais de sistemas maduros, como seriam a vida 
moderna por um lado e o futebol atual por outro. Isso se aplicaria, 
como vimos, à evolução de sistemas que tenham variação entre 
seus elementos e competição entre tais elementos afetando as suas 
características futuras.
É possível que ao se mencionar um sistema como esse a evolução 
biológica salte imediatamente à imaginação, mas acredito que 
Vera
Riscado
outras, senão

[trocar o traço por vírgula]
Vera
Riscado
anteriormente formulada
178
sistemas que compartilhem tais atributos são uma situação muito 
mais geral que isso. Por exemplo, tecnologias humanas também 
parecem ter, pelo menos em muitos casos, uma diversidade maior 
quando jovens, seguida por uma convergência para umas poucas 
soluções bem-sucedidas em sistemas mais maduros. Pense na 
aviação: os primeiros aviões apresentavam uma espantosa variação 
de soluções, incluindo uma, duas, três ou mais asas, motores virados 
para frente ou para trás, controle por ailerons ou por envergamento 
de asas, e por aí vai. Hoje em dia os aviões comerciais, assim como 
os aviões de caça, são todos muito parecidos uns com os outros, 
dentro da mesma receita de sucesso. Pense nos carros: os de um 
século atrás eram uma coleção heterogênea de máquinas bizarras, 
mas hoje quase todos os carros de rua parecem seguir a mesma 
fórmula de sucesso, e os carros de corrida – uma arena ainda 
mais competitiva – são tão parecidos uns com os outros que só 
conseguimos distingui-los pela pintura.
Até que ponto esse é um princípio geral de evolução de sistemas 
é, sem dúvida, uma avenida para fascinante especulação, mas 
que não será seguida aqui. De qualquer forma, pelo menos para 
sistemas com as características mencionadas, a inovação absoluta, 
o inesperado, o surpreendente parecem ser características de 
sistemas jovens, que tendem a escassear em sistemas mais maduros. 
É muito improvável que durante nossas breves passagens por este 
planeta vejamos algum time que pareça ter criado um novo futebol 
como a Hungria de 1954, ou o surgimento de uma espécie tão 
fantasticamente diferente de tudo o que conhecemos a ponto de 
merecer ser colocada num novo filo. É uma pena: qualquer uma 
das duas coisas seria algo maravilhoso de se ver.
FILOSÓFICAS
181
NÓS E ELES: DARWIN E 
A CONSERVAÇÃO
Cento e cinquenta e sete anos sem Darwin 
já são mais que o bastante.
Deixe-me começar confessando um erro. No meu primeiro livro, 
O Poema Imperfeito, mencionei uma das frases mais desconcertantes 
que já li em toda minha vida, escrita em 1959, quando se 
comemoravam no mundo inteiro os cem anos de publicação de A 
Origem das Espécies: “a hundred years without Darwin are enough” 
(“cem anos sem Darwin já são o bastante”). Eu atribuí erradamente 
essa frase a G. G. Simpson, mas depois descobri que na verdade 
ela foi dita pelo geneticista Herman Muller. Desculpe meu erro, 
mas é claro que ele não diminui nem um pouco minha admiração 
pela frase em si. Hoje, várias décadas depois, podemos constatar, 
com tristeza, que ainda é preciso atualizar a frase de Muller – que 
continua tão válida quanto era quando foi escrita.
Pobre Darwin. Suas ideias são imensamente preciosas para 
entender o mundo em que vivemos, para entender o que nós 
mesmos somos, e para a conservação. Mas pouca gente entende 
o que ele disse, e ele é criticado até hoje pelo que não disse. O 
mundo natural que ele tanto amava vem sendo destruído numa 
escala inédita, em grande parte devido à nossa recusa a engolir a 
revolucionária visão de mundo que ele nos mostrou.
Vera
Realce
[passar esse A para a linha de baixo.]
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
[descer]
182 183
Não se pode negar que nos últimos anos muito se tem 
feito para divulgar melhor a evolução para o público em geral. 
Por exemplo, em 2009 – o ano dos 150 anos da publicação 
de A Origem… e coincidentemente também dos 200 anos do 
nascimento de Darwin – aqui no Brasil, entre outros eventos, 
foi lançado o ótimo livro Charles Darwin – em um futuro não 
tão distante, escrito por pesquisadores brasileiros e organizado 
por Maria Isabel Landim e Cristiano Moreira, que é uma 
excelente exposição das consequências, para vários campos de 
conhecimento, da revolução darwiniana. No entanto, o poder da 
desinformação ainda é muito grande.
Nas águas do mal-entendido
Só como um exemplo, o jornal O Globo publicou há algum 
tempo, em um de seus espaços mais nobres, uma coluna do 
jornalista Luiz Paulo Horta, intitulada “Nas águas de Darwin”. O 
autor, para seu crédito, reconhece que “existem processos evolutivos 
na natureza, está comprovado, e mudou a nossa compreensão 
do mundo físico”. No entanto, logo depois ele segue dizendo 
que duvida da evolução como explicação para as maravilhas da 
natureza, porque, para ele, a explicação evolutiva é que elas seriam 
produtos do acaso!!!
Como argumenta o autor: “na minha modesta cachola, se fosse 
tudo produto do acaso, não teríamos diante dos olhos a sinfonia 
magnífica que aparece no ‘Planet Earth’, onde tudo é beleza e 
equilíbrio. Teríamos linhas de evolução que deram certo e outras 
que não deram. À nossa frente, desfilariam espécies bem-acabadas 
(difícil) e outras que trariam a marca dos azares da evolução – coisas 
meio informes, desproporcionadas.
Não é o que acontece: o que se vê, na linha de produção da 
natureza, é uma perfeição de dar vertigem. Pense no milagre que é 
uma orquídea, uma garça, uma águia. Basta sair da cidade, entrar um 
pouco no campo, e a ordem da natureza nos submerge – se você tiver 
olhos para ver. Observe as formigas, na sua fantástica organização 
social. (…) Pense em cada pequena parte do corpo humano – no 
olho, no coração, no jogo do sexo, que é físico, químico, afetivo. 
Tudo fruto do acaso? Acho que quem pensa assim é mais crédulo do 
que a mais enrugada beata de São João da Boa morte”.
Também acho! Mas a questão é: nenhum evolucionista, nem 
ninguém que entenda um mínimo do que Darwin disse, pensa 
assim. Nenhum evolucionista, muito menos Darwin, disse que a 
evolução é ao acaso.
Seleção natural
Muito resumidamente, o mecanismo proposto por Darwin para 
a evolução é um processo em duas etapas, do qual apenas a primeira 
– a produção da variabilidade genética, que hoje se sabe que ocorre 
por recombinação e por mutação – é fundamentalmente ao acaso. 
A segunda etapa é a seleção natural propriamente dita, ou seja, os 
indivíduos portadores dos genes que codificam as características 
mais bem-adaptadas ao ambiente deixam mais descendentes nas 
gerações futuras, e assim os genes com essas tais características 
vão se tornando cada vez mais comuns na população. A seleção, 
claro, não é ao acaso. Os genes mais representados nas gerações 
seguintes não são sorteados: são exatamente os mais adaptados 
às características do ambiente naquele tempo e lugar. Apenas 
a produção da “matéria-prima” (a variabilidade) para a seleção 
natural é ao acaso, mas o processo em si obviamente não é.
A seleção natural é análoga à seleção artificial, que o homem 
faz há milhares de anos, promovendo ativamente a reprodução 
de linhagens de animais e plantas que têm as características que 
lhe interessam. Todas as plantas cultivadas e todos os animais 
Vera
Riscado
Morte 

[cx.alta e baixa]
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
[descer]
184 185
domésticos foram imensamente modificados dessa forma. Darwin 
percebeu isso e gastou anos estudando cuidadosamente como 
os criadores de pombos da Inglaterra produziam,aos poucos, 
linhagens muito diferentes dos tipos originais.
Darwin não era nada bobo. A seleção natural é exatamente a 
mesma coisa que a seleção artificial, só que no lugar do criador 
humano está o ambiente. Isso sim, acumulado ao longo de milhares 
de gerações, produz a admirável adaptação – perfeição não, é fácil 
demonstrar que os seres vivos não são perfeitos – que o jornalista 
não conseguiu explicar na natureza. Achando que era ao acaso ele 
não iria mesmo conseguir explicar nunca. Por outro lado, a origem 
de padrões complexos da natureza, como o comportamento das 
formigas, o olho e o coração, é perfeitamente explicada pela ação 
não aleatória da seleção natural, conservando as variações bem- 
-sucedidas ao longo de grandes intervalos de tempo. Uma boa 
exposição sobre a origem das estruturas complexas por seleção 
natural pode ser lida no brilhante capítulo de Mário de Pinna, no 
livro Charles Darwin – em um futuro não tão distante, já citado.
Quanto à estranha ideia de que a evolução prediria que coexistiam 
espécies “bem-acabadas” e “informes, desproporcionadas”, o Luiz 
Paulo Horta obviamente não entendeu que a seleção natural ocorre 
entre indivíduos de uma mesma espécie, e não entre espécies.
Por que a evolução é tão mal entendida?
Infelizmente, o jornalista está longe de estar sozinho. O Herman 
Muller ficaria desapontado; ainda hoje, infelizmente, pouca gente 
entende essa que é, sem dúvida, uma das ideias mais importantes 
da ciência. Nesse ponto, então, é interessante nos perguntarmos 
por que a seleção natural, e a evolução como um todo, são tão mal 
entendidas. Em comparação com outras grandes ideias científicas, 
como a mecânica newtoniana, a estrutura atômica e a relatividade, 
pode-se argumentar que a seleção natural, embora não seja óbvia, 
é talvez a mais simples de todas elas.
Uma grande parte do problema é que há poderosas barreiras 
culturais contra a ideia da evolução. Um exemplo são os que acham 
que a seleção natural diz que os mais fortes sobrevivem, que é uma 
“luta pela vida”, e que por isso seria uma ideia daninha que justificaria 
uma competição feroz na sociedade humana. Aqui são três mal- 
-entendidos numa frase só. Primeiro, os genes que são selecionados 
são aqueles que passam mais cópias de si para as gerações seguintes, 
e isso depende fundamentalmente da reprodução, não apenas da 
sobrevivência. Você pode ser mais forte que uma mistura do Rambo 
com o Schwarzenegger, mas se não se reproduzir sua adaptação 
evolutiva será zero. Segundo, imagine a seleção natural agindo sobre 
os organismos participantes de relações mutualísticas – ou seja, de 
benefício mútuo – que são muitíssimo comuns na natureza, tanto 
ou mais quanto a competição. As características selecionadas são 
aquelas que fazem o maior bem possível à outra parte envolvida na 
associação. Cadê a tal “luta pela vida”? Terceiro, ainda que a seleção 
natural necessariamente significasse uma guerra feroz na natureza 
– o que não é o caso – nem por isso seria uma justificativa para 
uma sociedade humana cruel. A natureza é amoral, e a sociedade e 
a cultura não têm absolutamente nenhuma obrigação de copiar a 
natureza em seus valores éticos.
Mas por que erigimos essas tais barreiras, se elas se baseiam em 
argumentos tão errôneos? Simples. Porque o que a evolução diz nos 
desagrada. A evolução nos diz que somos apenas mais uma espécie 
de animal. Um animal com um punhado de coisas peculiares – 
como qualquer outra espécie também tem as suas. Mas um animal 
com milhares de coisas em comum com os demais animais, no 
seu DNA, nas suas células, na sua fisiologia, nos seus ossos, no seu 
cérebro e nos seus instintos. A evolução nos mostrou que temos 
essas coisas porque compartilhamos um ancestral comum com os 
demais animais. Ou seja, porque somos parentes dos demais seres vivos.
186 187
Nós e eles
A evolução, então, nos revelou nossa similaridade com o 
restante da natureza. Mas, ao longo de toda a história, tem sido 
mais conveniente para a nossa espécie negar essa similaridade. 
A civilização humana sempre se expandiu à custa da destruição 
da natureza. Fizemos desertos, caçamos incontáveis animais, 
extinguimos alguns milhares de espécies. E se triunfamos – 
no sentido de nos tornarmos extravagantemente numerosos 
e de expandirmos nossa civilização – não foi só graças à nossa 
inteligência, mas também graças à nossa coesão de grupo. Em 
relação à maioria dos outros animais, indivíduos de nossa espécie 
são capazes de trabalhar bem em equipe e coordenar esforços, o que 
nos deu uma vantagem evolutiva imensa. Mas a coesão de grupo 
sempre foi mantida por meio de instintos que nos dizem quem faz 
parte do grupo e quem não faz. Essa, inclusive, é a maneira que 
encontramos de lidar com os sentimentos de compaixão e culpa 
(que alguns outros animais também têm): esses sentimentos estão 
reservados a outros membros do nosso grupo, mas não aos de fora 
do grupo.
Ao longo da jornada da humanidade, aplicamos esses 
mecanismos de reconhecimento – ou de distanciamento, como 
preferir – às nossas relações com outras espécies e também 
com outros grupos dentro da nossa própria espécie. Isso, como 
brilhantemente apontado pelo Pink Floyd na maravilhosa letra 
de Us and Them (“Nós e eles”), está na raiz de todos os conflitos 
humanos: Us and them / And after all we are only ordinary men 
(“Nós e eles / E afinal de contas nós somos todos apenas homens 
comuns”). A partir do momento em que distinguimos nós e eles, 
“os outros”, o caminho está aberto para negar direitos aos “outros”, 
para maltratar os “outros” de todas as formas “necessárias”. Esse é 
o mecanismo mental pelo qual desligamos nossa compaixão pelos 
outros – sejam eles de outra raça, religião, país ou grupo social 
– e nos permitimos fazer mal àqueles que identificamos como 
diferentes de “nós”.
Essa é, sem dúvida, uma das razões pelas quais a evolução 
incomoda. Ela evidencia nosso parentesco com o restante da 
natureza, enfatiza nossa similaridade. Por milhares de anos a 
nossa cultura tem criado mecanismos, especialmente alguns 
convenientes dogmas religiosos, para fazer exatamente o contrário: 
reforçar nossa coesão de grupo e enfatizar nossa diferença para o 
restante da natureza. Homem e bichos. Ser com alma e seres sem 
alma. Nós e eles, o tempo todo nós e eles. Essa visão de mundo 
obsoleta usou nossos mecanismos psicológicos de pertencimento 
grupal e tribalismo para nos insensibilizar de todo o sofrimento 
que causamos aos outros seres vivos.
Hoje, graças a Darwin e aos que vieram depois dele, sabemos 
que somos animais também, animais peculiares, fascinantes, 
arrogantes e perdidos. Agora nos vemos diante de uma imensa 
crise ambiental, de proporções planetárias, que ameaça nosso 
próprio modo de vida. Dependemos dos processos ecológicos 
que envolvem os demais seres vivos. Precisamos dos “outros”, que 
são, e sempre foram, nossos próprios parentes. Está mais que na 
hora de nos livrarmos de nossos tolos e obsoletos preconceitos em 
relação à evolução e ouvir o que ela tem a nos dizer. Está mais 
que na hora de aprendermos a enfatizar nossas similaridades, e não 
nossas diferenças, em relação aos demais seres vivos. Mais de cento 
e cinquenta anos sem Darwin já foram mesmo tempo demais.
Vera
Realce
them

[cx.baixa]
188 189
POR QUE CONSERVAR 
A NATUREZA, AFINAL?
Até hoje, a meu ver, o cinema só produziu uma obra-prima 
sobre conservação da natureza. Acho que o único filme que vi que 
merece esse título é um dos mais despretensiosos, mas ao mesmo 
tempo um dos mais puros e sinceros: Dersu Uzala.
Dersu Uzala é um dos filmes menos conhecidos do grande 
cineasta japonês Akira Kurosawa, falecido em 1998. Baseado 
em um livro do mesmo nome, do explorador russo Vladimir 
Arseniev, publicado originalmente em 1923, o filme foi lançado 
nos cinemas em 1975, fez bastante sucesso e ganhou o Oscar de 
melhor filme estrangeiro no ano seguinte. Mas depois disso pouca 
gente ouviu falar dele. Trata-se da história da amizade entrenunca tenha sido 
dita por ele em nenhum de seus sessenta livros)
Ciência muitas vezes se parece com uma boa história de 
detetive. Assim como Sherlock Holmes ou Hercule Poirot tentavam 
esclarecer crimes com aguda observação e o uso inteligente de 
pequenas pistas, o cientista faz a mesma coisa para tentar responder 
a perguntas. Em poucas ciências os mistérios podem ser tão difíceis 
de resolver, e as pistas tão sutis, como na paleontologia. Os eventos 
aconteceram há muito tempo; nenhum dos personagens está 
mais entre nós; das “vítimas” só restam uns poucos ossos e dentes 
encontrados às vezes nas rochas. Até o próprio Sherlock Holmes 
olharia com incredulidade se lhe dissessem que isso era tudo o que 
ele tinha para resolver um caso. No entanto, paleontólogos têm 
respondido a perguntas com uma imaginação e uma argúcia dignas 
dos melhores livros de Conan Doyle ou de Agatha Christie.
Veja, por exemplo, um caso recente. O “detetive” chama-se 
Dan Fisher. A vítima foi uma espécie conhecida como mastodonte 
norte-americano (Mammut americanum), um elefante extinto que 
era um comedor de folhas (browser) e tinha tamanho similar ao de 
26 27
um elefante africano atual. Segundo a “perícia técnica”, a morte 
aconteceu há não mais que uns 9.900 anos, ou seja, o fóssil mais 
recente conhecido dessa espécie na região dos Grandes Lagos tem 
essa datação, por um método conhecido por carbono 14. Mas o 
que extinguiu os mastodontes?
Uma das primeiras coisas que qualquer detetive decente 
observaria é que a morte da vítima não foi um acontecimento 
isolado. Pelo contrário, a extinção dos mastodontes faz parte de 
um fenômeno muito maior, e de uma questão científica também 
muito maior, que é a das chamadas extinções do Quaternário.
Você pode até não ter ouvido falar de “extinções do Quaternário”, 
mas com certeza já ouviu falar de muitas das espécies que nelas 
desapareceram. Algumas delas, claro, foram aqueles bichos de A era 
do gelo: mamutes, tigres-dentes-de-sabre, preguiças-gigantes. Além 
disso, desapareceram também (entre muitos outros) várias outras 
espécies de elefantes (incluindo, claro, a vítima da nossa história); 
os rinocerontes lanudos na Europa; os gliptodontes (similares a 
tatus, mas com uma carapaça rígida) na América do Sul; marsupiais 
gigantes de mais de duas toneladas e “leões” marsupiais (Thylacoleo 
carnifex) na Austrália; os gigantescos moas de três metros de altura 
na Nova Zelândia; e a ainda mais gigantesca ave-elefante de meia 
tonelada em Madagascar.
Todas essas maravilhas, em seu conjunto, formavam uma 
diversidade biológica infinitamente mais rica que os remanescentes 
que conhecemos hoje. Nessas extinções, que começaram no final 
da penúltima época geológica (o Pleistoceno) e vão até bem dentro 
da época atual (o Holoceno, que começou há uns dez mil anos – 
os dois juntos formam o Quaternário), o planeta perdeu por volta 
de uns dois terços da sua megafauna, ou seja, dos animais de peso 
corporal maior que 50 quilos. Esses animais se extinguiram em 
épocas diferentes, entre uns cinquenta mil e uns quinhentos anos 
atrás, em lugares diferentes do mundo, logo depois que o homem, 
em sua expansão pelo planeta, chegou a cada lugar.
Dois suspeitos principais
Se olharmos o padrão do mundo como um todo, as mudanças 
climáticas falham miseravelmente como explicação do que 
aconteceu. Em vários lugares as extinções ocorreram muitos 
milhares de anos antes (Austrália) ou depois (Caribe, Madagascar, 
Nova Zelândia) da última glaciação (que aconteceu entre uns 23 
mil e uns 11.500 anos atrás). Além disso, houve pelo menos 31 
outras glaciações anteriores durante o Pleistoceno, muitas delas tão 
ou mais fortes quanto a última, sem que tivesse havido extinções 
associadas a elas. As extinções nas ilhas, muito mais recentes, não 
têm nenhuma relação com as glaciações, mas se seguem à chegada 
do homem a cada uma delas. Várias outras linhas de evidência 
nos mostram, a meu ver com muita clareza, que foram nossos 
antepassados, principalmente por meio de caça, que nos privaram 
de conhecer essa imensa coleção de maravilhas.
Não é meu objetivo aqui discutir em detalhe as extinções do 
Quaternário, que são descritas no meu livro anterior, O Poema 
Imperfeito. De qualquer forma, nos últimos anos cada vez mais 
estudos, de autores como Richard Gillespie, Paul Koch, Anthony 
Barnosky, Chris Johnson, Tim Flannery, Todd Surovell, Chis 
Sandom, meu estudante Bernardo Araujo e eu mesmo (ver 
bibliografia), têm apontado que a hipótese de que o homem foi 
o principal ou o único causador dessas extinções é a que melhor 
explica o que aconteceu. Apesar disso, ainda há quem defenda 
que essas extinções foram causadas por mudanças climáticas – e 
portanto, claro, não tiveram nada a ver conosco.
A ideia engenhosa de Dan Fisher
Nessa altura aparece na nossa história Daniel Fisher, um 
paleontólogo barbudo, meio careca, de óculos redondos e um 
Vera
Riscado
Chris
28 29
ar bem-humorado, da Universidade de Michigan. Dan Fisher é 
considerado o maior especialista do mundo em presas de elefantes 
fósseis (bem… não deve haver muitos por aí). Volta e meia, quando 
acham um novo filhote de mamute congelado na Sibéria, é ele que 
aparece no Discovery Channel examinando as presas do bicho e 
vendo o que pode ser aprendido por meio delas. 
Em um trabalho publicado em 2009, num livro editado 
pelo paleontólogo Gary Haynes, Fisher pensou numa maneira 
brilhantemente engenhosa de responder se os mastodontes da 
região dos Grandes Lagos tinham sido extintos por mudança 
climática ou por caça.
Se a hipótese de mudança climática estivesse correta, a sua 
predição seria de que os mastodontes tivessem morrido de barriga 
vazia. Ou seja, eles deveriam ter vivido em situações de extremo 
estresse ambiental, sem conseguir achar alimento no novo ambiente 
coberto de gelo, e morrido, de modo geral, debilitados, em condições 
corporais precárias. Por outro lado, se a hipótese de caça estivesse 
correta, a sua predição seria de que os mastodontes tivessem morrido 
de barriga cheia. Afinal, neste caso não haveria nenhuma razão a 
priori para supor que estivessem submetidos a estresse ambiental 
ou que estivessem debilitados. Em outras palavras, as condições 
corporais dos mastodontes do final do Pleistoceno poderiam 
fornecer uma evidência sobre a causa do seu desaparecimento.
Mas como seria possível saber isso? Dan Fisher percebeu nas 
presas uma fascinante possibilidade. Conforme ele escreveu, 
referindo-se a elefantes em geral, “nenhum outro animal fornece 
uma estrutura parecida com uma presa, capaz de registrar 
virtualmente sua vida inteira”.
Uma presa nada mais é que um dente incisivo superior 
modificado evolutivamente para outras funções. Presas têm 
crescimento contínuo, ou seja, são formadas por camadas de 
dentina que se depositam umas sobre as outras ao longo da vida. 
A relação entre o comprimento e o diâmetro da presa permite 
dizer, com pouca chance de erro, o sexo do animal. Os padrões de 
deposição das camadas sucessivas de dentina permitem estimar sua 
idade, assim como o intervalo de tempo entre diferentes eventos 
na sua vida. Além disso – um ponto crucial –, como a gestação de 
um filhote exige da mãe um imenso investimento energético e de 
nutrientes, a gravidez das fêmeas é revelada por períodos nos quais 
o comprimento da presa cresce mais devagar e o espessamento da 
dentina é mais lento.
Em elefantes atuais, é bem conhecido que, sob condições 
de estresse ambiental, as fêmeas, mal alimentadas, maturam 
sexualmente mais tarde e têm filhotes com menos frequência. 
Fisher então analisou os intervalos entre gestações nos mastodontes, 
conforme revelados pelas presas, e os comparou com os de elefantes 
africanos atuais, que são similares em tamanho e duração da vida.
O resultado? No finalzinho do Pleistoceno, bem na época da 
sua extinção, os mastodontes estavam tendo filhotes a cada três 
ou quatro anos, em média. Esses intervalos eram “equivalentes 
àqueles dos elefantes africanosduas 
pessoas muito diferentes: um cartógrafo russo, urbanoide, que no 
filme se chama Arseniev (porque o livro é narrado em primeira 
pessoa), e um caçador siberiano, que é o tal Dersu. Arseniev lidera 
uma expedição cartográfica à Sibéria, no início do século XX, e 
contrata Dersu como seu guia pelas vastidões geladas. Dersu Uzala 
é um filme lento, com pouca ação, que pode parecer impalatável 
para alguns cinéfilos acostumados ao ritmo vertiginoso das 
produções hollywoodianas. Mas vale a pena garimpar as sutilezas 
com carinho, porque sua paciência será bem recompensada: 
essa obra-prima tem várias cenas antológicas. Um dos pequenos 
tesouros é a cena da fogueira.
Arseniev, Dersu e os soldados da expedição do primeiro estão 
em volta do fogo, à noite, comendo um animal recém-abatido. 
De repente, um soldado pega um grande naco de carne e o joga 
no fogo. Para surpresa geral, o idoso Dersu pula, coloca a mão nas 
chamas e tira a carne do fogo. O soldado fica perplexo e segue-se 
um diálogo mais ou menos assim: “‘Por que você fez isso? Você 
podia se queimar!’, ao que Dersu responde: ‘Por que você quer 
jogar essa carne no fogo? Outra gente vai chegar depois de nós e vai 
querer comer’. O soldado retruca: ‘Você está maluco? Nós estamos 
no meio da Sibéria! Não tem gente nenhuma aqui!’”. A história é 
passada em 1907, não se esqueça. Mas Dersu então diz, irritado: 
“A floresta tem muitas gentes”. Para Arseniev, assistindo à discussão 
à distância, enfim a ficha cai: sua sutil expressão desconcertada é 
inesquecível. Ele nem precisaria esperar Dersu completar: “Pode 
vir um rato, um texugo ou uma gralha… Por que você vai jogar a 
carne no fogo?”. O soldado ainda olha sem entender.
A cena da fogueira de Dersu Uzala é inesquecível, entre outras 
coisas, pelo claro foco de Dersu em conservação, muito além do 
ambientalismo: pode ser que nenhuma gente de nossa espécie 
venha, mas nem por isso as outras espécies não merecem a sua 
consideração.
Argumentos utilitários são suficientes?
Por que conservar os animais e as plantas afinal? Pode ser 
apresentada uma série de razões para isso. Uma das mais ouvidas 
é que as espécies são fontes de produtos úteis para a humanidade. 
Em alguma espécie de planta pode estar a cura do câncer, outra 
poderá fornecer o princípio ativo de algum cosmético fabuloso, 
ou genes que podem – quem sabe? – ser transplantados para outra 
espécie com efeitos favoráveis. À primeira vista, esse argumento 
parece fazer bastante sentido. Porém, como bem apontado pelo 
grande ecólogo inglês John Lawton, ele é enganoso e pode até ser 
perigoso para a conservação. Nem todas as espécies são úteis. Para 
começo de conversa, a maioria das espécies animais é de besouros. 
Vera
Riscado
plantas,

[vírgula]
190 191
Há imensa redundância em qualquer grande grupo animal 
ou vegetal, na bioquímica como em qualquer outra coisa. Muitas 
espécies são distinguíveis de suas parentes mais próximas por 
ínfimas sutilezas em suas colorações, suas genitálias ou mesmo seu 
comportamento, sutilezas essas que só um especialista com anos 
de treino é capaz de perceber. A maioria delas, se desaparecessem, 
não estariam nos privando de qualquer substância valiosa que 
não possa também ser encontrada em tantas outras espécies 
similares. Provavelmente, embora muitas espécies sejam ou 
possam ser diretamente úteis ao homem, a maior parte não é. Isso 
também pode ser dito das utilidades mais óbvias das espécies, na 
agricultura e na pecuária: as espécies adequadas para exploração 
agropecuária são uma ínfima proporção das espécies existentes. O 
maior problema com esse padrão é que os inimigos da conservação 
podem facilmente apontar isso e contra-argumentar que, se for só 
pela utilidade, a maioria das espécies não precisa ser protegida. Não 
podemos, portanto, depender desse tipo de argumento.
É verdade que o argumento da utilidade das espécies tem uma 
versão aperfeiçoada que diz que algumas espécies são úteis afinal – 
não sabemos quais são e, na dúvida, é melhor conservarmos todas 
elas, ou pelo menos quantas pudermos. Colocado dessa forma, é um 
argumento bem mais respeitável, mais difícil de rebater e, portanto, 
mais efetivo. Mesmo assim, não me parece que seja suficiente. 
Afinal de contas, redundâncias continuam existindo na natureza, 
e as ciências biológicas têm deixado cada vez mais claro onde elas 
estão. Sendo assim, depender do argumento de que temos que 
conservar todas as espécies porque não sabemos quais são úteis no 
fundo é apostar contra o progresso da ciência e do conhecimento. 
Longe de mim fazer essa aposta! Há, porém, algo que me desagrada 
mais fundo nas abordagens utilitaristas, mesmo nessa forma mais 
aperfeiçoada. Esse algo foi expresso com brilhantismo pelo próprio 
Lawton: “O argumento de que precisamos conservar espécies 
porque elas podem ser úteis é um argumento ao qual falta alma. 
É sensato, é verdadeiro, mas não tem espírito, não tem dimensão 
humana. É o argumento dos tecnocratas…”. Cortei pelo meio a 
citação, desculpe, mas vou me redimir mais adiante.
Então, pode ser até que argumentos estreitamente utilitários 
sejam úteis, em determinados fóruns, para convencer os tecnocratas. 
Mas não me considero um tecnocrata, e, se você também não, 
precisamos continuar nossa procura, indo bem mais fundo, ou – 
quem sabe? – mais atrás no tempo.
Um argumento mais efetivo, e um mais sincero
Lembro-me bem de quando aprendi história. Era uma de minhas 
matérias favoritas na escola e não tenho vergonha de confessar que 
esperava ansiosamente pelas aulas – que eram muito boas. Mas não 
me lembro de ter ouvido falar, naquelas aulas, nem uma só vez, do 
efeito da degradação ambiental sobre a trajetória das civilizações 
humanas. A história, como era pesquisada e ensinada, era 
completamente cega a isso. Essa situação tem mudado nas últimas 
décadas, e talvez o maior marco dessa mudança até agora seja o 
maravilhoso e perturbador Colapso, de Jared Diamond, lançado 
em 2005. Se Diamond está certo – e seus argumentos são muito 
convincentes –, várias das grandes civilizações do passado entraram 
em decadência e eventualmente colapsaram por causa de sua 
incapacidade de manejar adequadamente seus recursos naturais, ou 
mais precisamente de manter os processos ecológicos que geravam 
tais recursos. Ou seja, a manutenção de processos naturais como 
qualidade da água, fertilidade do solo, proteção contra erosão, 
regulação climática, e por aí vai, são serviços cruciais que os sistemas 
ecológicos nos prestam. Todas as sociedades humanas dependem 
disso, e cuidar bem ou mal dos processos ecológicos tem sido um 
dos grandes determinantes de quais civilizações deram certo e quais 
não. Só isso, e tudo isso. Conservar a natureza por essa razão não 
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
[descer]
192 193
deixa de ser até certo ponto uma visão utilitária, mas a meu ver essa 
necessidade de conservar os processos ecológicos é um argumento 
infinitamente mais poderoso para a conservação da biodiversidade 
do que a mera utilidade de cada espécie como fonte de produtos.
Nos últimos anos, com os efeitos cada vez mais óbvios das 
mudanças climáticas globais, destruindo os delicados mecanismos 
regulatórios dos processos ecológicos vitais para a biosfera, a 
sombra do passado se torna cada vez mais inquietante. No entanto, 
sejamos sinceros: esse argumento não explica por que muitos de 
nós fazemos conservação.
Se você perguntar a um conservacionista porque ele defende 
os animais, é provável que a resposta seja algo como “porque eu 
gosto de bichos” (ou de plantas, conforme o caso). Eu me lembro 
de um debate no qual vi José Truda, do Projeto Baleia Franca, 
depois de tentar argumentar longamente por que era importante 
preservar as baleias, explodir dizendo “Quer saber duma coisa? 
Eu não tenho que justificar por que eu quero conservar baleias, 
eu quero conservar baleias por que eu gosto de baleias”. Esse é o 
argumento sincero, verdadeiro, que vem da alma. Pode,claro, ser 
um argumento bastante fraco se o virmos como uma idiossincrasia, 
como um capricho meramente individual. Mas não creio que seja o 
caso. Quero, em vez disso, argumentar que nós gostamos de animais 
porque somos um, e que pode estar aí a resposta que procuramos.
Uma ideia profundamente revolucionária, proposta por Edward 
Wilson em 1994, é a da biofilia. A ideia central da biofilia é que 
gostar da natureza é um dos instintos fundamentais do ser humano. 
Em uma imensa variedade de outros animais, é comum o processo 
que os ecólogos chamam de “seleção de hábitat”. Os animais são 
encontrados nos hábitats favoráveis a eles porque têm instintos, 
evoluídos por seleção natural, para reconhecer tais hábitats, nos quais 
evoluíram. O homem é uma espécie biológica, cujo comportamento 
é influenciado pela cultura adquirida nos últimos poucos milhares de 
anos, mas também, estejamos habituados a pensar nisso ou não, por 
instintos evoluídos ao longo de milhões de anos. Por isso o homem 
tende a se sentir bem quando está em hábitats similares àqueles em que 
evoluiu – o que explica por que, independentemente da cultura, 
gostamos de ir para áreas naturais para nossa recreação. Um dos 
exemplos mais maravilhosos de Wilson é quando ele se pergunta 
que tipo de hábitat os paisagistas quase invariavelmente planejam, 
quando se dá a eles absoluta liberdade de criação. O resultado – 
frequentemente visto em parques urbanos, campi universitários, 
condomínios e resorts de luxo – é uma paisagem com vastos 
espaços abertos, com o solo coberto de gramíneas, intercalados 
com pequenos bosques aqui e ali. Segundo Wilson alega, o que 
os paisagistas estão inconscientemente fazendo é reconstruir uma 
savana – o hábitat onde nossa espécie evoluiu. Similarmente, nós 
tendemos a gostar de animais, e de modo geral mais intensamente 
de animais mais parecidos conosco. Isso aconteceria porque 
instintivamente reconhecemos – com toda razão, de um ponto de 
vista evolutivo – que são próximos de nós.
Recuperando contato com nossa própria natureza
Se Wilson está certo com a ideia da biofilia, ninguém precisa 
aprender a gostar de bichos: todos nós já nascemos gostando deles. 
Gostar dos bichos pelos bichos é muito mais que uma “estratégia” 
para a conservação da natureza: é uma parte de nós mesmos, que 
pode ser perdida ou não. Podemos, ao longo da educação, perder 
contato com a natureza – isso é cada vez mais fácil hoje em dia – e 
desaprender a gostar de bichos. Mas se conseguirmos evitar isso, 
então aceitar nossa própria natureza animal, inclusive a biofilia, 
que é parte importante dela, é um maravilhoso caminho tanto para 
o crescimento pessoal como para a mudança global.
Não, Truda, você não tem que se justificar por gostar de baleias. 
Isso é parte da sua natureza, da minha e da de todos nós. As pessoas 
Vera
Riscado
por que

[separados]
Vera
Riscado
porque

[sem espaço]
Vera
Realce
[itálico]
194 195
têm vidas mais felizes quando respeitam suas próprias naturezas. Não 
deveríamos precisar de mais nenhum argumento. Completando a 
citação do Lawton, “…nós não conservamos concertos de Mozart, 
pinturas de Monet e catedrais medievais porque são úteis. Nós os 
conservamos porque são bonitos e enriquecem nossas vidas”.
Assim é também para os animais e as plantas, com a vantagem 
de que quanto à natureza temos também outros argumentos, para 
os difíceis de sensibilizar. É que, com todo respeito (e admiração) 
que tenho por Mozart e Monet, nosso futuro depende mais dos 
processos ecológicos da biosfera do que deles.
Não tenho ilusão alguma de que estejamos próximos de onde 
deveríamos estar. No nosso complexo mundo cultural, muitas 
outras fortíssimas influências, a começar por doutrinas religiosas 
que nos dizem que a natureza foi feita para nós, competem com a 
biofilia e nos levam a perder contato com nossas próprias naturezas. 
Hoje, a maioria das pessoas ainda está mais perto daquele soldado 
olhando pasmo para o Dersu do que do próprio Dersu.
No mundo de hoje, enfrentar e resolver os problemas sociais, 
que causam tanto sofrimento humano à nossa volta, é, sem 
dúvida, fundamental. Acho que todo mundo concordaria com a 
proposição de que isso só vai dar certo se o fizermos a partir de 
uma genuína preocupação com as pessoas, com o direito de todos 
nós a uma vida digna e gratificante. Dito isso, como argumentei 
anteriormente, e como Diamond e as mudanças climáticas têm 
mostrado, conservar a natureza é essencial para o bem-estar e para 
a própria prosperidade das sociedades humanas. No entanto, o 
leitor pode já ter reparado que eu raramente uso a expressão “meio 
ambiente”. Não gosto muito dela. A razão pela qual não gosto é 
que, quando se fala em “meio ambiente”, está implícito que nos 
referimos ao ambiente (“meio ambiente” é pleonasmo) para a 
nossa própria espécie. Ou seja, o discurso de “meio ambiente” nos 
deixa presos ao argumento utilitário. Não gosto de depender disso. 
Para mim é claro que a mesma proposição que fiz antes para os 
problemas sociais também se aplica à conservação: num mundo 
de tantos interesses econômicos e sociais conflitantes, acredito que 
só seremos bem-sucedidos em conservar os animais e as plantas se 
o fizermos por eles mesmos, pelo direito que eles têm à vida. Não 
tenhamos uma visão estreita. Conservar a natureza é bom para a 
gente. Mas como Dersu já sabia, a floresta tem muitas gentes.
196 197
AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E 
O OUTRISMO
De onde nem tempo nem espaço 
Que a força nos mande coragem 
Pra gente te dar carinho 
Durante toda a viagem
Que realizas no nada 
Através do qual carregas 
O nome da tua carne
Caetano Veloso, “Terra”
Aqueles com quem contávamos nos falharam miseravelmente. 
Agora, mais que nunca, precisamos de toda a coragem que houver – 
coragem para vencer autoilusões cômodas e fazer, por nós mesmos, 
mudanças concretas.
Estou falando da atuação dos políticos em Copenhague, na 
recente conferência mundial sobre o clima. Os líderes mundiais 
não perceberam a grandeza do momento histórico que se abria 
diante deles. A maioria só sabia negociar dentro de uma visão de 
mundo economicista, estreita e obsoleta. Protagonizaram, então, 
um frustrante jogo de empurra.
Cada um queria que os outros países – sempre os outros – 
reduzissem ao máximo suas emissões de CO2, enquanto seus 
próprios países mantivessem o direito de poluir mais um pouco – 
ou mais um muito. Barack Obama, de quem muito se esperava, foi 
uma grande decepção. Os emergentes defenderam ferrenhamente o 
direito de continuar com um modelo de desenvolvimento excelente 
para o mundo do século XIX. Enquanto isso, os submergentes do 
Pacífico queriam apenas continuar acima do nível do mar.
Não vamos ficar com meias palavras. Copenhague foi uma 
baita derrota. Uma imensa oportunidade perdida, e por isso uma 
derrota, não só para os ambientalistas, como também para toda a 
humanidade. Mas será que podemos pelo menos aprender alguma 
coisa com isso? O fiasco de Copenhague e a mudança climática 
global nos colocam diante de uma situação que não é nova, mas 
nunca foi tão óbvia como agora. Nunca antes na história da 
humanidade esteve tão evidente a questão dos prejuízos difusos 
para todos, que são gerados pela soma de bilhões de pequenas ações 
inconscientes e/ou egoístas de cada um de nós.
Os prejuízos difusos estão aí, nos jornais, todos os dias. Os 
países insulares que desaparecerão sob as águas, como Tuvalu, que 
fez tanto barulho em Copenhague, são apenas a ponta do iceberg 
(o trocadilho foi acidental, eu juro). Vastas áreas se tornarão secas, 
haverá fome maciça, novas epidemias, milhões de desabrigados 
ambientais e por aí vai. Além disso, boa parte da biodiversidade 
do planeta deverá desaparecer. Assim como a própria mudança 
climática já está acontecendo, todas essas coisas também já estão. 
Assistimos todo dia a uma imensa série de catástrofes ambientais 
no mundo. Uma das conclusões de todos os modelos climáticos 
é que não só a temperatura média está subindo, comotambém 
a frequência de extremos climáticos – de calor, de frio, de chuva, de 
neve e de seca – também está aumentando. Catástrofes naturais 
sempre existiram, claro, mas nós as estamos tornando muito mais 
frequentes e intensas. Segundo um estudo de 2009 do Fórum 
Vera
Riscado
[Tirar "nos".]
Vera
Riscado
em 2009, na
Vera
Riscado
meias-palavras 

[com hífen]
Vera
Riscado
ambientais,

[vírgula]
198 199
Humanitário Global, entidade liderada pelo ex-secretário geral da 
ONU Kofi Annan, os efeitos das mudanças climáticas já matavam 
no mundo, por fome, doenças ou desastres “naturais”, cerca de 
trezentas e quinze mil pessoas por ano. Mas cada vez que morre mais 
alguém numa imensa enxurrada no Sudeste, ou até num furacão 
em Santa Catarina, nós preferimos pensar que não temos nada a 
ver com isso – é mais cômodo pensar assim. Mas temos. A cada 
vez que desperdiçamos combustível ou energia, ou consumimos 
irresponsavelmente, estamos fazendo a desordem climática global 
um pouco pior e, portanto, o mundo um pouco pior.
O outrismo
É sempre difícil lidar com prejuízos difusos – uma questão central 
para os problemas ambientais ou, mais ainda, a própria essência dos 
problemas ambientais. É difícil assumirmos responsabilidades por 
algo de que sejamos um bilionésimo da causa, mesmo (o que nem 
sempre é o caso) se reconhecermos que somos um bilionésimo 
da causa.
Aí entra a questão do outrismo. O outrismo é o nome que eu 
dou a um modo de pensar bastante popular na questão ambiental, 
que pode ser resumido da seguinte forma: cada um acha que a 
culpa dos problemas ambientais é sempre dos outros, nunca de 
si mesmo.
Copenhague nos deu vários ótimos exemplos de outrismo. 
De um lado, os Estados Unidos disseram que só limitarão a sério 
suas emissões se os grandes emergentes, como a China, também o 
fizerem – esquecendo que eles mesmos, os EUA, são historicamente 
os maiores de todos os poluidores. Do outro lado, alguns países 
ditos “em desenvolvimento” usam o passivo histórico dos países 
desenvolvidos, poluidores desde o século XIX, como argumento 
para não limitar suas próprias emissões – já também imensas, e 
no caso do desmatamento no Brasil, geradoras de pouco bem- 
-estar. Com isso querem se reservar o direito de continuar poluindo 
bastante no futuro. Será que os EUA ou a China têm um planeta 
de reserva guardado na manga? Espero que sim, mas não acredito 
muito nisso.
O outrismo, porém, não acontece só no nível das decisões 
políticas. Ele ocorre também em nossas vidas cotidianas. Cabe 
refletir um pouquinho: qual a causa da mudança climática? A 
resposta pode não ser muito agradável, mas é bem óbvia: nós.
A mudança climática existe para manter nosso padrão de 
consumo. Podemos dividir a população humana do planeta em 
duas parcelas. A primeira é uma expressiva parte da população que 
tem um consumo acima do tolerável, ou seja, gera emissões de 
CO2 e outros gases estufa acima das taxas naturais de ciclagem 
desses gases na atmosfera. A segunda tem um padrão de consumo 
baixo, baixas emissões e não contribui tanto para o aquecimento 
global, mas a maior parte das pessoas que estão nesse grupo têm 
como maior aspiração alcançar os padrões de consumo do primeiro 
grupo. Essa aspiração parece bastante legítima, mas é fácil ver que 
essa história não acaba bem.
Aí aparece com toda força o outrismo. O argumento às vezes é 
expresso mais ou menos assim: “a primeira parcela, o pessoal que causa 
o problema, está nos países desenvolvidos; eu vivo num país pobre, 
então não tenho nada a ver com isso”. Outra versão, um pouquinho 
mais sofisticada, diz “mas a primeira parcela é muito pequena, só os 
milionários, eu não estou nesse grupo”. Desculpe se estrago a ilusão, 
mas as pessoas de classe média na maioria dos países, inclusive o 
Brasil, têm padrões de consumo que resultam em emissões acima do 
tolerável, portanto também são causa do problema.
O outrismo é uma espécie bastante abundante hoje em dia, 
infelizmente. Por exemplo, nas perguntas da plateia depois de uma 
palestra, deparei com um belo espécime. Eu tinha acabado de criticar 
o consumismo desnecessário e de grande impacto ambiental e de 
Vera
Riscado
Outrismo
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Sticky Note
[descer]
200 201
falar sobre o que nós, como consumidores conscientes, poderíamos 
fazer a respeito. Recebi então o seguinte comentário de um ouvinte: 
“Eu acho que a gente tem que colocar o foco sobre os empresários, 
os ruralistas, é essa gente que destrói”. Beleza, certamente destrói, 
mas os empresários e os ruralistas vendem para quem?
Mas o outrismo é renitente e inventou outra versão, na qual o 
outrista não nega que faça parte do grupo que causa o problema, 
mas argumenta que há gente que tem uma contribuição muito 
maior que a dele para a desordem climática e que então quem tem 
que mudar seu comportamento são esses caras, não ele. Há alguns 
anos eu chamava esse argumento de “o sofisma do Maggi e do 
Bush”; hoje os personagens podem ser atualizados, mas a lógica 
permanece a mesma. De acordo com o argumento, o Blairo Maggi, 
na época um dos maiores desmatadores do Brasil, poderia dizer “mas 
o Bush [então presidente dos Estados Unidos], com suas políticas 
pró-combustíveis fósseis, promove muito mais emissões de CO2 
que eu, então eu não tenho que mudar meu comportamento, ele é 
que tem que mudar o dele”. O problema é que, se aceitássemos esse 
sofisma, quase todas as pessoas do mundo não precisariam mudar 
seu comportamento. Isso, claro, seria uma receita líquida e certa 
para o desastre.
Prós e contras da autoilusão
Os pessimistas dizem que as pessoas nunca vão mudar seus 
hábitos de consumo para fazer a sua parte para combater problemas 
tão distantes como catástrofes climáticas que podem nunca os 
vitimar, ou os refugiados ambientais da África e do Pacífico, ou 
a extinção de espécies. Argumentos probabilísticos (do tipo as 
catástrofes podem também vitimá-los) adiantariam pouco, eu 
receio. No entanto, esse argumento pessimista parece se basear 
em que todo o consumo (ou grande parte dele) seja necessário, 
ou que nossa cultura não consiga mexer com os poderosos 
mecanismos psicológicos que levam as pessoas a consumir de 
forma desperdiçadora.
Não estou nem um pouco convencido desse ponto de vista. 
Muito do consumo existente, claro, atende a necessidades, cria 
confortos e melhora a vida das pessoas. Mas uma imensa parte 
dele, por outro lado, é absolutamente inútil sob esses aspectos. 
Como foi dito pelo conselheiro financeiro norte-americano Dave 
Ramsey, “nós compramos coisas que não precisamos, com dinheiro 
que não temos, para impressionar pessoas das quais não gostamos”. 
Esse tipo de comportamento é cuidadosamente alimentado pela 
publicidade e pelo marketing, que puxam pelo que há de pior em 
nós: as tendências complementares de comprar coisas caras para 
impressionar outras pessoas e de selecionar pessoas pelo “nível 
social” assim exibido. Não devemos ser tão ingênuos a ponto 
de achar que foi a sociedade moderna que inventou tudo isso: 
infelizmente esse não é o caso. Consumo ostentativo é tão antigo 
quanto a humanidade – que o digam os faraós ou Luís XIV. O 
antropólogo Marvin Harris, no brilhante Vacas, Porcos, Guerras 
e Bruxas: Os Enigmas da Cultura, fala dos potlatchs, festivais de 
extravagante ostentação realizados por tribos indígenas da costa 
pacífica da América do Norte para impressionar outras tribos e 
competir por poder. Tudo isso faz parte da natureza humana 
e sempre esteve entre nós. O que a cultura consumista de hoje 
faz é puxar por esses nossos lados ruins de forma muito mais 
sofisticada (e no caso do marketing, deliberada) do que era possível 
antes. O resultado, tão característico da vida atual, é um modo 
de vida insaciável (cada nova aquisição produz a necessidade de 
outras maiores), compulsivo e que é, sem dúvida nenhuma, uma 
das maiores indústrias de produção em massa de frustração e 
infelicidade humana.
Pode ser difícil fazer mudanças radicaisno nosso modo de vida, 
mas se cada um puder melhorar um pouco, poderemos, sim, obter 
Vera
Realce
[itálico]
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Sticky Note
[descer]
202 203
imensos resultados. O racionamento de energia pós-apagão alguns 
anos atrás mostrou quão fácil foi, para a maioria das pessoas, reduzir 
o consumo de energia em 20%. Na maioria dos casos, bastou 
cortar desperdícios óbvios. Infelizmente, essa redução não se deveu 
à consciência das pessoas, mas às multas, pois assim que passou 
o racionamento, o consumo voltou a subir. De qualquer forma, 
o episódio mostrou que reduzir um quinto de todo o consumo 
residencial de energia do país é relativamente fácil. Por que não 
tentar fazer isso de novo, agora por perceber que é importante, e 
não só pelo medo da multa?
Precisamos, sim, eleger líderes melhores – mas não podemos 
depender só deles. Nesse ponto cabe notar que a autoilusão existe 
porque tem, sim, um papel importante e útil em nossas vidas. Ao 
nos eximir de olhar para as consequências ruins de nossos próprios 
atos, a autoilusão nos ajuda a lidar com tais lados desagradáveis 
da realidade. Nesse sentido, então, nos protege, como uma boa 
maneira de ficar mais tranquilos diante dos problemas. Mas, por 
isso mesmo, é também uma excelente maneira de não os resolver.
O que a gente quer afinal: nos anestesiar dos problemas ou 
resolvê-los? Neste momento da história, trata-se de uma escolha 
crucial; mas não é uma escolha fácil. Caetano estava certo na 
inspirada “Terra”: para que possamos dar o carinho que o nosso 
combalido planeta e todos os seus habitantes precisam, é preciso 
mesmo coragem.
POR QUEM DOBRAM 
OS SINOS DA CONSERVAÇÃO
A cena final da obra-prima Por quem os sinos dobram, de Ernest 
Hemingway, é um daqueles momentos da literatura que são 
inesquecíveis, porque mexem fundo com a nossa emoção. Como 
muitas vezes acontece nos grandes livros, há tramas distintas que 
se desenvolvem isoladamente ao longo do texto todo e que só 
ali, na cena final, se encontram e revelam toda a sua riqueza de 
sentido. Em Por quem os sinos dobram, o personagem principal 
é Jordan, um americano que luta como voluntário do lado 
dos republicanos combatendo os nacionalistas na Guerra Civil 
Espanhola e que é a personificação do idealismo e da coragem. 
Mas Hemingway escrevia bem demais para cair na armadilha 
maniqueísta de pintar um conflito humano dividido em dois 
lados estanques, dos bons e dos maus. No lado republicano há 
o rancoroso Pablo sabotando os esforços de Jordan. Do lado 
nacionalista, acompanhamos ao longo do livro inteiro – sem que 
saibamos bem por quê – os passos de um certo tenente Berredo, 
um personagem tão humano e idealista quanto Jordan, mas que 
as circunstâncias colocaram lutando pelo outro lado. Na tal cena 
final, Jordan, com a perna quebrada e sem poder escapar, aguarda 
escondido atrás de umas árvores, com a arma engatilhada, 
para pelo menos levar com ele o primeiro soldado nacionalista 
que aparecer. Mas o primeiro nacionalista que se aproxima, 
despreocupadamente, sem desconfiar da emboscada, é o tenente 
Berredo. Vem um nó na garganta, do qual não conseguimos nos 
livrar. Poucas vezes a falta de sentido do conflito humano foi tão 
Vera
Realce
[Tirar a vírgula depois de "racionamento".]
204 205
bem demonstrada pela literatura: há gente bem-intencionada em 
toda parte, mas as nossas ideologias podem nos jogar uns contra 
os outros.
Hoje se fala muito do conflito entre “o social” e “o ambiental”. 
Cada vez que ouço falar desse conflito me vem à cabeça aquele 
final de Por quem os sinos dobram. Sempre me perturbou muito o 
fato de existir tanto idealismo, tantas boas intenções dos dois lados, 
tanto daqueles que querem um mundo socialmente melhor como 
daqueles que querem conservar a natureza, mas que no entanto 
haja tanto conflito entre os dois grupos.
Paradoxalmente, muitos dos conflitos atuais vêm das “soluções 
mágicas” para negar que haja conflito e das críticas a tais “soluções”. 
É o caso do chamado socioambientalismo, que tem defendido que 
se pode resolver problemas sociais com a utilização supostamente 
sustentável de recursos dentro de Unidades de Conservação. 
Adoraria poder me convencer disso, mas não consigo. O calcanhar 
de Aquiles do socioambientalismo, claro, é se as utilizações de 
recursos propostas são de fato sustentáveis, ou se isso é apenas 
pensamento desejoso.
Na maioria dos casos, a resposta verdadeira para essa questão 
seria “não se faz a mínima ideia”. Sustentabilidade, por definição, 
implica que os usos atuais de recursos não podem comprometer 
a disponibilidade dos mesmos recursos para as gerações futuras. 
No entanto, como já argumenteianteriormente, sustentabilidade 
geralmente é apenas assumida, mas quase nunca é testada. Pior: 
quando é testada, a sustentabilidade assumida muitas vezes não é 
verdadeira.
No caso do socioambientalismo, a sustentabilidade via de 
regra é assumida com base em uma série de pressupostos – que 
populações humanas viviam em harmonia com a natureza no 
passado pré-tecnológico, que as condições com as quais elas se 
relacionam com a natureza hoje são similares às do passado, que se 
trata de economias “tradicionais” e não de economias de mercado, 
e por aí vai. Esses pressupostos infelizmente têm pouca base na 
realidade. Em muitos casos são demonstravelmente falsos.
Se a tão falada sustentabilidade é um gigante de pés de barro, o 
efeito disso sobre a biodiversidade que fornece os tais “recursos” é 
óbvio, mas os efeitos sociais sobre os que dependem deles não são 
menos trágicos. Empurrar gente para dentro de reservas, para uma 
apropriação por poucos do que na verdade é de todos, só disfarça 
a incapacidade de nossos governantes de oferecer verdadeiras 
oportunidades para as pessoas. Na ausência de sustentabilidade, isso 
só representa o que Tim Flannery chamou de “comer o futuro”, com 
paliativos imediatistas e populistas que só empurram o problema 
para frente e o tornam cada vez maior. “Ah, sim, o Brasil é grande, 
sempre vai haver mais uma área natural para explorar”. A velha e 
boa mentalidade de fronteira. Mas que visão curta depender desse 
tipo de solução para resolver nossos problemas sociais em pleno 
século XXI!
O socioambientalismo, no fundo, tenta revogar o velho provérbio 
“Você não pode ter o bolo e comê-lo”. Para muita gente, essa é uma 
tentativa bem-intencionada e sincera de resolver os problemas sociais. 
Resolver esses problemas tem que ser um objetivo central e crucial 
para todos nós, sempre, mas discordo de que essa seja uma forma 
verdadeira de resolvê-los. Concordo que, no fundo, não precisa 
mesmo haver conflito entre a conservação e o social – mas para isso 
temos que pensar numa escala maior, no espaço e no tempo.
Conflito ou não, uma questão de escala
Se pensarmos bem, se há ou não conflito entre a conservação 
e o social é uma questão de escala. Em pequena escala de espaço 
ou de tempo, é óbvio que tende a haver conflito, sim. Toda a 
história humana é repleta de devastações ambientais feitas por 
povos tentando elevar seus níveis de vida mediante a exploração 
Vera
Realce
argumentei anteriormente,

[separar]
206 207
local e imediatista de recursos naturais. Como foi expresso com 
perfeição pelo ecólogo-filósofo argentino Adrian Monjeau, trata-
-se do predomínio do “eu(ou nós)-aqui-agora” sobre o “todos-em 
todos os lugares-amanhã”.
No entanto, se olharmos numa escala maior, o conflito 
desaparece. Ao usar de forma imediatista e irresponsável seus 
recursos naturais, cada civilização só tende a destruir os serviços 
ambientais que a biodiversidade nos dá, de uma maneira 
nem sempre óbvia – fertilidade dos solos, qualidade da água, 
florestas, e até o próprio clima. Com isso, destrói as bases de sua 
prosperidade e de seu bem-estar social, que dependem, em grande 
escala espacial e em médio e longo prazos, desses serviços. Esse 
ponto foi demonstrado com brilhantismo em Colapso, de Jared 
Diamond. Colapso provocou uma imensarevolução na nossa 
visão da história, ao mostrar que o desaparecimento de várias das 
grandes civilizações do passado foi devido à sua incapacidade de 
lidar com os problemas ambientais que elas mesmas causaram. 
No entanto, entre os exemplos de Colapso mostrando que o 
bem-estar ambiental e o social caminham juntos, um dos mais 
perturbadores é bem atual: o da ilha de Hispaniola.
Hispaniola: uma ilha e dois destinos
Hispaniola é uma grande ilha do Caribe dividida entre dois 
países: Haiti e República Dominicana. Hispaniola havia sido 
notada pelos primeiros europeus que a viram no século XVI 
como uma ilha coberta por florestas exuberantes. Os destinos 
dos dois países que a dividem, que de início pareciam similares, 
começaram a divergir mais marcadamente a partir do início do 
século XX, quando a República Dominicana começou a tomar 
uma série de ações reais de conservação, como uma legislação 
proibindo contaminação dos rios em 1901 e a criação de várias 
reservas naturais a partir de 1927. Tais ações ganharam maior 
impulso a partir da década de 1960, quando, entre outras coisas, 
foi reprimida a exploração madeireira ilegal, foram criadas leis 
protegendo as matas de galeria e foi banida a caça. O sistema de 
Unidades de Conservação nacional foi maciçamente ampliado e 
hoje compreende 74 reservas, cobrindo cerca de um terço de toda 
a área do país.
Enquanto isso, do lado do Haiti, nada. O Haiti prosseguiu com 
uma receita econômica velha conhecida nossa, que inclui rápido 
desmatamento e plantação de algumas commodities agrícolas, 
principalmente café e açúcar. Além disso, no Haiti a fonte de 
energia mais utilizada é o carvão, o que aumenta ainda mais a 
pressão sobre a pouca mata remanescente. O sistema de Unidades 
de Conservação do Haiti é ínfimo, contando com apenas quatro 
pequenas reservas, que garantem ao país apenas 1% de cobertura 
florestal. O resultado de tudo isso tem sido erosão, perda de solos 
férteis e uma imensa e geral degradação ambiental.
Se uma imagem vale mil palavras, uma imagem de satélite 
de Hispaniola no Google Images vale um milhão de palavras. 
Dê uma olhada, porque essa é uma imagem impressionante: 
uma ilha com uma metade marrom (Haiti, a oeste) e uma verde 
(República Dominicana, a leste). O resultado social de tudo isso, 
depois de um século, é claro. A República Dominicana é um país 
relativamente próspero para os padrões latino-americanos, com 
um nível de vida muito similar ao do Brasil. O Haiti é o país 
mais pobre do hemisfério, com uma miséria que parece não ter 
solução, fome, doenças devastadoras e uma violência urbana fora 
de controle.
Que receita nós queremos para a nossa sociedade? Que futuro 
nós queremos? Em pequena escala, a conservação e o social 
podem parecer estar em conflito. Em grande escala, no espaço e 
no tempo, não estão. Será que vamos continuar não aprendendo 
as lições da história?
208
O mundo melhor será um só
Não se engane achando que a luta pela conservação não seja 
também por um mundo socialmente melhor. Conservar a natureza 
implica querer um mundo melhor para todos, e não sempre para 
alguns tentando resolver seus problemas à custa do que é de todos. 
Precisamos de toda a boa vontade que exista na humanidade, 
porque um mundo ambientalmente melhor será também um 
mundo socialmente melhor. Nossos destinos estão todos ligados, 
como na brilhante passagem do poeta inglês John Donne que deu 
o título ao livro de Hemingway: “Nenhum homem é uma ilha; 
cada homem é um pedaço do continente, uma parte do todo. 
Se um torrão de terra é arrastado para o mar, toda a Europa fica 
diminuída (…). A morte de cada homem me diminui, porque eu 
sou parte da humanidade. Por isso não pergunte por quem os sinos 
dobram; eles dobram por você”.
Hoje estamos num mundo diferente daquele do século XVII 
de Donne, ou daquele da primeira metade do século XX de 
Hemingway. Nem todos já perceberam isso, mas nesta época de 
mudanças climáticas globais os “problemas ambientais” deixaram 
de ser uma preocupação lateral para ser o problema central da 
humanidade, aquilo do qual todo o resto, inclusive obviamente 
a resolução dos problemas sociais, vai depender. A morte de cada 
animal ou planta, de cada espécie ou ecossistema, também nos 
diminui. Esses sinos também dobram por nós.
BIOFÍLICAS
211
OS URSOS DE RĂCĂDĂU E 
A ESPERANÇA
Há alguns anos foi lançado no Brasil, sem muito alarde, 
Monstro de Deus – Feras Predadoras: História, Ciência e Mito, de 
David Quammen. Para quem não liga o nome à obra, Quammen é 
um raro exemplar de jornalista dedicado exclusivamente (ou quase 
exclusivamente) à conservação da natureza. Em sua obra-prima, 
A Canção do Dodô, quase todas as principais ideias da Biologia 
da Conservação são apresentadas ao leitor de forma precisa e 
agradável, contando pequenas histórias, sempre com sensibilidade 
e talento. Monstro de Deus, por sua vez, fala dos grandes predadores 
– leões, tigres, ursos, crocodilos – e suas relações com os humanos 
ao longo da história.
Monstro de Deus pode parecer um Quammen “menor”, não tão 
inspirado quanto o brilhante A Canção do Dodô. Mas quem foi rei 
nunca perde a majestade. Quammen nunca deixou de se preocupar 
em escrever bem, em contar histórias bem, e a sensibilidade ainda 
está lá, com toda força, em várias passagens do livro. Entre todas 
as numerosas historinhas que se desenrolam e se misturam em 
Monstro de Deus, uma me tocou de forma muito especial. Alguns 
leitores certamente discordarão da minha escolha, preferindo um 
dos numerosos trechos sobre feras selvagens em seus ambientes 
naturais. Mas minha passagem preferida é um pequeno e agridoce 
drama semiurbano: a história dos ursos de Răcădău.
Răcădău é na Romênia, mas poderia ser em quase qualquer 
país. Procure Răcădău no Google Images. Eu também não sei 
como colocar na linha de comando do Google esses acentos 
212 213
malucos do romeno, mas não faz mal, funciona mesmo sem eles. 
As imagens que você vai encontrar sugerem à primeira vista um 
lugar bonito e agradável de se viver. É como se fosse um grande 
condomínio, com numerosos grandes prédios beges, cercados 
por muito verde. Răcădău parece um grande triângulo de prédios 
cercado por encostas de morros cobertas pelo que parece ser uma 
extensa floresta temperada que se perde no fundo das imagens. 
Mas olhe mais de perto. Os tais prédios beges são pobres, com 
paredes sujas, com reboco caindo em vários lugares. O que 
parecia à primeira vista uma grande piscina na verdade nada 
mais é que um lago artificial bastante árido. Entre os prédios, 
algumas pracinhas também áridas e ruas estreitas, sem árvores, 
opressivamente cercadas de concreto. Răcădău é um condomínio 
de classe média baixa na periferia da cidade romena de Brasov, 
resultado dos programas de habitações populares em massa do 
ditador Nicolae Ceauşescu na década de 1980.
O que faz Răcădău tão especial? Bem, não há tantos 
condomínios de classe média baixa por aí onde você possa 
ver ursos! Aqueles morros que você vê atrás dos prédios, em 
Răcădău, abrigam uma população de ursos-pardos (Ursus 
arctos). Apenas uma rua de asfalto, que contorna o condomínio, 
separa os prédios da subida dos morros e da floresta. Essa rua 
tem várias grandes caçambas de lixo, onde é depositado todo o 
lixo de milhares de pessoas que vivem ali. Em meio a toneladas 
de lixo inorgânico há também restos de refeições várias, bagaços 
de frutas, cascas de ovos, e por aí vai. Aconteceu que os ursos 
naturalmente acabaram por descobrir esse imenso filão de 
comida. Toda noite alguns ursos descem da floresta e vêm abrir 
as lixeiras atrás de restos de alimento. Nunca se sabe quantos 
vêm, ou quais vêm, em cada noite em particular. Fêmeas com 
filhotes são bastante comuns.
Toda noite, uma pequena multidão se reúne para ver os 
ursos. Há todo tipo de gente. Gente que trabalhou o dia inteiro 
num escritório. Funcionários públicos. Aposentados. Casais 
de namorados que estacionam os carros e ficam vendo os 
ursos (bem, pelo menoseles dizem que ficam vendo os ursos). 
Adolescentes ouvindo música alta. Há até crianças, quem sabe 
matando o tempo depois da escola para esperar a noite cair e 
os ursos aparecerem. Finalmente, os ursos surgem, saindo da 
floresta, e cada movimento deles é seguido pelos olhos curiosos 
de uma plateia heterogênea, por vezes barulhenta, mas quase 
sempre atenta e respeitosa para com as grandes estrelas do lugar. 
Os ursos estão habituados com a presença de pessoas, mas não 
interagem com elas. Remexem demoradamente nas lixeiras, 
passeiam, encontram um petisco aqui e outro ali e depois, aos 
pouquinhos, vão indo embora.
Os habitantes de Răcădău têm orgulho de seus ursos. Quammen 
descreve como a camareira do hotel onde ele pernoitava, ao saber 
que ele tinha vindo à Romênia para ver ursos-pardos (dos quais 
a Romênia abriga uma das maiores populações remanescentes na 
Europa), abriu o rosto num sorriso ao dizer que no seu bairro havia 
ursos. Ela morava em Răcădău, e pelo menos naquele momento 
tinha muito orgulho disso.
A prefeitura de Brasov, porém, vive muito preocupada – 
compreensivelmente – com a possibilidade de que os ursos 
machuquem alguém. Por isso instalou lixeiras com tampas especiais 
projetadas para impedir que os ursos as abrissem. Tentaram três 
diferentes modelos, um após o outro. Não deu certo. As lixeiras 
continuam aparecendo abertas. Por quê? Os ursos descobriram 
maneiras de abri-las? Não, não é isso. Quem sabe as pessoas as 
esquecem abertas? Não, também não é isso. A resposta é muito 
mais interessante que essas, e o ponto central do meu argumento. 
As lixeiras ficam abertas porque os moradores propositalmente as 
abrem, de forma a permitir que os ursos tenham acesso a elas. A 
cada noite, portanto, os ursos podem voltar, sabendo que há boa 
probabilidade de obterem algum petisco.
Vera
Riscado
ido
heloisavasconcellos
Highlight
heloisavasconcellos
Sticky Note
[descer]
214 215
Uma reserva de mistério
Não me entenda mal. Não estou, nem por um momento, 
dizendo que acho ótimo que ursos-pardos vivam revirando lixo e 
sendo uma atração turística local. Para mim, só poderemos dizer 
que conservamos a espécie urso-pardo enquanto houver ursos 
desses vivendo na natureza, caçando, pescando e se acasalando, 
como ursos-pardos sempre fizeram. O que estou dizendo é que essa 
população particular de ursos de Răcădău, vivendo nessa condição 
semiurbana, simboliza algo muito importante não só para os ursos-
-pardos como um todo, mas também para nós mesmos.
Para os habitantes de Răcădău, ver os ursos é um dos poucos 
momentos de excitação, de fascínio, de suas vidas tão cinzas (ou, 
vá lá, beges). Representam algo diferente, interessante, talvez 
aventuresco. Mas há muito mais do que isso. Os ursos de Răcădău 
representam uma janela para um mundo diferente e misterioso.
Muito além das preocupações cotidianas, das relações com 
os vizinhos do próximo prédio bege, das contas a pagar, os ursos 
de Răcădău representam o único vislumbre de um mundo onde 
nenhuma dessas coisas tem a menor importância. Um mundo 
de ursos, de gralhas, de trutas, de texugos, cada um com suas 
próprias vidas, suas próprias preocupações, de seu almoço, de seu 
acasalamento, que desconhecem completamente o PIB, o saldo 
bancário e a política do governo. Um mundo livre de tudo isso, 
com seus próprios problemas, seus próprios dramas, um mundo 
cheio da naturalidade e da simplicidade que tanto nos fazem falta, 
um mundo que mal entendemos. Os ursos de Răcădău são, para 
essas pessoas, sua reserva de mistério.
Nossa mente foi imensamente superdimensionada pela 
evolução. Nosso cérebro nos trouxe até aqui pela sua espetacular 
capacidade evoluída de compreender as coisas, de juntar e analisar 
informações. Esse poder de processamento que obtivemos é 
tão grande que pensamos o tempo todo, tentamos entender o 
tempo todo, e o mundo tornar-se-ia um lugar muito sem graça 
se achássemos que já tivéssemos entendido tudo, que não haveria 
mais nada radicalmente novo para entender. O real não nos basta, 
não satisfaz nossa curiosidade. Ficamos procurando mundos 
imaginários ou mistérios. Nada pode ser mais satisfatório como 
resposta perpétua à nossa curiosidade que um mistério – que afinal 
nada mais é do que uma curiosidade que nunca pode ser satisfeita.
A natureza sempre nos fornece muitos dos mais interessantes 
mistérios – não em mundos imaginários, mas em mundos que 
mal conseguimos imaginar. A perda da natureza, que se acelera 
nos últimos séculos, representa também a morte do mistério. Não 
há mais grandes matas virgens, inexploradas, que não façamos 
a menor ideia do que contenham. Não há mais grandes feras 
maravilhosas e desconhecidas que mal imaginamos como sejam. As 
madeireiras, as “frentes de desenvolvimento”, em última análise a 
expansão populacional humana, esmagam e fracionam as florestas 
antes impenetráveis do sudeste da Ásia, abrem à destruição os 
mais recônditos refúgios na Floresta Amazônica, transformam os 
antes misteriosos gorilas das montanhas em meros sobreviventes 
precariamente ilhados num mar de miséria e interesses. Com isso, 
todo o nosso mundo fica mais pobre – inclusive dentro de nossas 
mentes. Como será pobre o mundo no dia, que eu espero nunca 
chegue, quando soubermos que não há mais vastidões na Sibéria 
onde o majestoso tigre de Amur vaga à procura de suas presas, ou 
savanas africanas onde leoas e zebras desempenham seus papéis em 
tragédias de força e movimento, ou florestas onde onças machos e 
fêmeas encenam seus ritos ancestrais.
Uma razão para esperança
O grande ecólogo e conservacionista Edward Wilson escreveu 
sobre o que ele chamou de biofilia, como já vimos. Gostar de 
Vera
Riscado
tigre-de-amur
216 217
bichos e plantas não seria apenas algo aprendido, mas uma parte 
essencial da própria natureza humana. Se Wilson está certo – e eu 
acredito que esteja –, é bem provável que o sentimento de biofilia 
dentro de nós tenha múltiplas raízes. Não ficaria nada surpreendido 
se descobrisse que a manutenção de um sentido de mistério no 
mundo é um dos componentes da biofilia.
Espero, claro, que ursos-pardos de vida independente continuem 
sempre existindo. Mas tente fechar as lixeiras de Răcădău. Aposto 
que não será fácil. Os escriturários, as camareiras, os velhinhos, 
os namorados, os adolescentes “sem causa”, as crianças não vão 
deixar. A pequena janela que eles têm para um mundo selvagem 
e misterioso, mesmo essa janela assim tão estreita, é importante 
demais para eles.
Isso é uma razão para esperança. Conservar a natureza é uma 
luta muito difícil e que está fadada a não dar certo enquanto 
depender apenas de razões utilitárias, as quais sempre poderão 
ser contestadas por outros grupos de interesse. Mas a natureza é 
importante para nós também por outras razões, muito mais sutis, 
dentro da nossa mente e do nosso inconsciente. Essas coisas são 
universais, parte essencial de nossa própria natureza. A esperança 
de um mundo melhor está justamente em que tantas pessoas tão 
diferentes percebem isso, espontaneamente, sem que seja preciso 
aprender: pois está dentro delas.
ANDY
A conservação da natureza é uma luta muito difícil e crucial, 
pois dela depende o nosso futuro e o dos nossos companheiros de 
planeta. Para que a luta pela conservação dê resultados concretos, 
o papel da opinião pública é fundamental. É indispensável que 
muita gente esteja do nosso lado, que sinta a importância de 
conservar os animais e as plantas, e não só por razões utilitárias, 
mas por eles mesmos. Sempre me perguntei sobre o que leva 
alguém a se tornar conservacionista. Sempre me questionei se a 
educação ambiental, como geralmente é feita hoje, de fato desperta 
nas pessoas a intensidade de envolvimento com conservação de 
que precisamos. E toda vez que me questiono sobre essas coisas, 
penso em Andy.
Fiz meu PhD na Inglaterra, e minha tese foi sobre a ecologia 
de populações de duas espécies de pequenos roedores em uma 
floresta de pinheiros e abetos chamada Hamsterley.As duas 
espécies estudadas foram o woodmouse, Apodemus sylvaticus, e 
o bank vole, Clethrionomys glareolus (hoje Myodes glareolus – os 
taxonomistas vivem mudando esses nomes). Desculpe-me se não 
dou um nome vulgar em português desses bichos, mas é que teria 
que inventar um: não existem nomes vulgares em nosso idioma 
(pelo menos no Brasil) para bichos de outros países que não sejam 
“notáveis” como os elefantes, os leões ou os ursos. Mas acredite- 
-me, o woodmouse é um ratinho pequeno, do mesmo tamanho que 
um camundongo doméstico (20 a 30 gramas), e bastante parecido 
com ele, exceto pela cor, que é marrom e não cinza. Já os voles 
são pequenos roedores que lembram superficialmente porquinhos-
-da-índia (embora não sejam parentes próximos deles), com um 
Vera
Riscado
Mas,

[vírgula]
Vera
Realce
[Ver com o AUTOR: 
Fala de tamanho e cita o peso...
Sugiro:
 (e pesam de 20 a 30 gramas) ]
218 219
focinho muito curto, olhos muito pequenos e cauda curta. No caso 
específico do bank vole, ele também tem o mesmo tamanho que um 
camundongo, mas com uma cor marrom-avermelhada forte, bem 
característica. Uma visita ao Google Images vai lhe mostrar que 
esses bichos aparentemente insignificantes são mamíferos bonitos, 
interessantes. Para mim, claro, que trabalho com eles, roedor 
bonito é pleonasmo. É verdade que minha visão dos roedores está 
longe de ser regra, mas experimente olhar para um bank vole, por 
exemplo, e me diga se não é um bicho que desperta empatia, como 
tantos outros mamíferos.
Meu estudo era por captura-marcação-recaptura. Eu deixava 
armadas durante a noite armadilhas de captura viva Longworth, 
umas caixinhas de metal, iscadas com grãos de aveia, com portas 
que se fechavam quando o bicho entrava. A cada manhã eu 
conferia as armadilhas, marcava cada animal com um brinco que 
tinha um código de letras (ou só via qual era o código, se fosse uma 
recaptura), e fazia algumas medições e verificações (se o animal 
estava reprodutivo ou não, por exemplo). Depois cada animal era 
solto no mesmo lugar onde havia sido capturado. Ser capturado 
e manuseado não devia ser muito traumático para os animais, 
porque a maioria deles era recapturada várias vezes – alguns 
deles, dezenas de vezes. Eu já era capaz de reconhecer vários dos 
indivíduos antes mesmo de ver seu código. Meu recordista era 
um woodmouse que foi capturado nada menos que quarenta vezes 
e que gostava de sair de sua área original e invadir outros hábitats. 
Eu ficava me perguntando se isso tinha a ver com o código dele, 
que era US.
Dentro da floresta de Hamsterley funcionava um centro 
de treinamento de desempregados, que visava recolocá-los 
no mercado de trabalho, chamado Community Task Force. 
Era um lugar soturno, triste, onde estavam alguns dos muitos 
derrotados de uma sociedade inglesa cada vez mais impiedosa 
depois da influência, na época ainda relativamente recente, da 
Dama de Ferro, Margaret Thatcher. Eram prédios malcuidados, 
frequentados por pessoas rudes, desmotivadas, que olhavam o 
futuro com pouca esperança.
Um dia, ao parar por alguma razão na Community Task Force, 
um garoto magro, de cabelo preto curto, vestido com um suéter 
bastante surrado, veio falar comigo. Chamava-se Andy. Disse-me 
que tinha quinze anos, era filho de um motorista de caminhão, e 
que seu pai estava desempregado e estava fazendo um curso ali. 
Andy tinha ouvido falar vagamente do que eu fazia e me perguntou, 
com os olhos esperançosos, se podia ir comigo um dia ver meu 
trabalho. “Claro, nenhum problema”, eu respondi, “você quer ir 
amanhã?”. Andy topou. No dia seguinte, cheguei a Hamsterley de 
manhã cedo, sob um frio atroz, passei na Community Task Force 
e lá estava Andy.
Um dia especial
Andy e eu fomos para minha área de estudo e começamos a 
conferir as armadilhas. Logo, a primeira porta fechada, sinal de 
que devia haver um roedor lá dentro. Segui a rotina à qual eu já 
estava habituado: abrir a armadilha com a porta virada para baixo, 
deixar cair o roedor mais o material de ninho (que eu colocava 
para que eles não morressem de frio durante a noite) num saco 
plástico transparente, tirar o material de ninho, segurar o ratinho 
pelo cangote, logo atrás das orelhas. Medir, anotar, soltar o roedor, 
que escapava correndo ligeiro pelo chão da floresta. Andy só olhava 
o que eu fazia, atento, seguindo cada bicho com os olhos, mas 
sem ousar tocar ou participar. Eu sentia que faltava alguma coisa. 
Perguntei: “Andy, você quer pegar um?”. Ele disse que não, mas 
seus olhos disseram que sim. Insisti.
Andy pegou o ratinho pelo cangote, mas um tanto desajeitado, 
talvez com medo de machucá-lo. O roedor se desvencilhou, pulou 
Vera
Realce
[Sugestão para o autor:
trocar "armadas" por "montadas", para evitar "armadas armadilhas".]
Vera
Realce
220 221
agilmente para o chão, deu alguns dribles homéricos em dois 
primatas atrapalhados e desapareceu para dentro de uma canaleta.
Andy ficou mortificado. Começou a se desmanchar em 
desculpas: ele era tão desastrado, eu tinha perdido os dados, ele 
tinha estragado tudo. Subitamente tinha ficado triste. Não!
“Pegue outro”, eu disse. “Não”, ele disse, “vou estragar tudo de 
novo”. “Não se preocupe”, respondi, “eu pego muitos, um dado só 
não vai me fazer falta, e além disso amanhã ou depois com certeza 
vou pegar os mesmos bichos de novo”.
Andy relutou um pouco, mas acabou concordando em tentar 
de novo. Dessa vez segurou o ratinho com firmeza. Logo nós dois 
tínhamos formado uma equipe, tirando os woodmice e os voles 
das armadilhas, marcando os bichos, pesando, sexando, medindo. 
Comecei a deixar mais para Andy o trabalho de manusear os bichos, 
enquanto eu anotava os dados. Logo ele foi se sentindo cada vez 
mais à vontade, segurando os bank voles pelo cangote e colocando 
os brincos na orelha deles com imenso cuidado. “I’d love to have 
your job” (“Eu iria amar ter o seu trabalho”), ele me disse então, 
com brilho nos olhos. Era visível o prazer com que Andy olhava 
aqueles animaizinhos, sentindo seu calor, a batida acelerada de 
seus pequenos corações, os olhinhos olhando suplicantes para nós 
enquanto os segurávamos pelo cangote. “Não se preocupe, eu não 
quero te fazer nenhum mal”, eu muitas vezes tinha vontade de dizer 
para o ratinho, se ele ao menos pudesse entender. Olhando para 
Andy segurando mais um bank vole pelo cangote, pareceu-me que 
ele tinha vontade de dizer a mesma coisa para o bicho. De repente, 
Andy estendeu a mão livre e fez um tímido carinho na testa do 
bank vole. Então recolheu rápido o braço e olhou para mim, talvez 
esperando um olhar de desaprovação. Não o encontrou.
Alguns roedores depois terminamos o trabalho. Deixei então 
Andy na Community Task Force antes de pegar o caminho de 
casa. Ele me agradeceu efusivamente, e não foi uma mera resposta 
convencional dizer a ele que para mim tinha sido um prazer. Então, 
com seu entusiasmo lutando valentemente contra a sua reserva 
britânica, ele me disse, “It was the best day of my life” (“Foi o melhor 
dia da minha vida”).
Educação ambiental
Nunca mais vi Andy. Não sei o que aconteceu com ele. Mas 
tenho certeza de que onde quer que esteja, ele, assim como eu, 
nunca esqueceu aquele dia. E também tenho certeza de que o que 
quer que ele esteja fazendo como profissional, depois daquele dia a 
relação dele com a natureza, ao longo de sua vida, nunca mais foi 
a mesma.
Lembrar da história de Andy me faz pensar sobre a educação 
ambiental. Muito da educação ambiental ainda se faz conscientizando 
as crianças, bastante racionalmente, das consequências negativas, 
para a natureza, de algumas coisas que fazemos ou deixamos de 
fazer. É claro que muito desse trabalho de conscientização pode 
ser brilhante e produtivo, mas muito dele acaba sendo como um 
tipo de inculcação de deveres, que corre o risco de parecer uma 
versão moderna da “educação moral e cívica”, de triste memória. 
Mesmo quando é “em campo”, isso é, no meio da natureza, muito 
da educação ambiental se concentra em falar sobre processosecológicos que podem parecer abstratos demais para as crianças, ou 
em mostrar os problemas. Geralmente há poucas oportunidades 
de ter contato direto, nas próprias mãos, com algum animal que 
permita às crianças desenvolver o imenso potencial para empatia 
com os bichos que há dentro delas.
É neste ponto que volta à minha mente a última frase que ouvi 
de Andy. Aquele dia para ele não foi só um grande aprendizado. Foi 
um aprendizado extremamente prazeroso. Olhando para aquele 
pequeno bank vole que pulsava em suas mãos, Andy tinha nos olhos 
suplicantes do bicho a porta de entrada para um novo mundo que 
heloisavasconcellos
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[melhorar espaçamento]
222 223
ele mal sonhava que existia, um mundo fascinante e maravilhoso, 
tão perto e tão distante de seu tedioso cotidiano. Então, se alguém 
me pedir uma opinião sobre como fazer educação ambiental, aqui 
vai: segure um bicho desses nas suas mãos – um ratinho silvestre, 
um sapinho, um gambá, qualquer um – sinta-o nas suas mãos. É 
que naquele dia distante em Hamsterley, segurando aquele bank 
vole, Andy me ensinou que uma criança que descubra o prazer de 
segurar um bicho assim na mão e apreciá-lo nunca mais vai ver os 
tais “animais selvagens” da mesma forma.
A MORTE DA MINHA RAINHA 
DAS ÁRVORES
He was the king of trees Keeper of the leaves
A deep green god of young love stained memories 
We used to meet by him
Far from the hustling town
I loved you
Now they’ve come to cut you down
…Down
(Ele era o rei das árvores Guardião das folhas
Um deus verde profundo
de jovens memórias tingidas de amor 
Nós nos encontrávamos perto dele Longe da cidade agitada
Eu amei você
Agora eles vieram derrubar você
…Derrubar)
Cat Stevens, “The King of Trees”
Uma das letras de música mais marcantes da minha adolescência 
foi, sem dúvida, a de “The King of Trees”, do cantor grego-britânico 
Cat Stevens. Tenho essa letra até hoje, escrita à mão num pedaço 
Vera
Realce
–,

[colocar vírgula depois do traço]
Vera
Realce
He was the king of trees
Keeper of the leaves

[em duas linhas]
Vera
Realce
(Ele era o rei das árvores 
Guardião das folhas

[em duas linhas]
Vera
Realce
Nós nos encontrávamos perto dele
Longe da cidade agitada

[em duas linhas]
Vera
Realce
Um deus verde profundo de jovens memórias tingidas de amor

[Seria bom se coubesse o verso todo numa linha só.]
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[descer]
224 225
de papel, numa gaveta na minha casa. Lembro-me bem do quanto 
me emocionei com o sentimento de um homem por uma árvore 
que era parte dos melhores momentos de sua juventude, e com sua 
dor pela sua perda.
Acho que até algum tempo atrás eu nunca tinha percebido 
conscientemente que, anos depois, também acabei tendo a minha 
própria rainha das árvores. Rainha, e não rei, porque era uma 
figueira. Rainha, sim, porque era uma árvore majestosa. Ela ficava 
logo em frente à entrada do prédio da Fundação Bio-Rio, na ilha 
do Fundão, onde há um comida-a-quilo no qual vou almoçar 
quase todos os dias.
Era um verdadeiro colosso. Seu tronco, na verdade o complexo 
emaranhado de raízes se abraçando, tinha mais de três metros de 
diâmetro, talvez quatro. A copa espalhava seus galhos longuíssimos 
e sinuosos sobre o telhado do prédio, num diâmetro de mais 
de trinta metros. Era, disparado, a árvore mais bonita e mais 
impressionante de toda a ilha do Fundão, onde fica o campus da 
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nela nidificava pelo menos 
um casal de sabiás. Muitas vezes vi socós pousados nos galhos mais 
altos. Mais raramente, micos também apareciam. Não há muitas 
árvores naquele trecho bastante inóspito da ilha do Fundão, e era 
natural que aquela figueira gigantesca fosse um refúgio importante. 
As folhas propiciavam uma densa sombra, que tantas vezes foi um 
gostoso alívio ao chegar ao restaurante depois de uma caminhada 
sob o sol de verão.
Não me lembro se alguma vez já tinha feito alguma ligação 
consciente entre a letra de “The King of Trees” e aquela figueira – 
talvez apenas uma vez. Mas me lembro de ter conversado algumas 
vezes com outras pessoas sobre aquela árvore – o quanto ela 
era especial, e, sim, o quanto ela fazia o nosso dia a dia melhor, 
simplesmente por vê-la e admirá-la na hora do almoço.
Aquela terça-feira veio de repente. Nos dias anteriores, eu 
havia notado que os longos galhos sobre o telhado haviam 
sido cortados, mas achei que era apenas uma poda e não me 
preocupei. Mal sabia que eram só os primeiros golpes. Naquele 
dia, porém, fui almoçar na Bio-Rio, pensando em um monte 
de problemas, e tive um baque ao olhar de longe: a árvore não 
estava mais lá.
O vazio, no lugar onde a imensa figueira sempre tinha estado, 
era mais chocante do que qualquer coisa que pudesse estar ali. 
Continuei andando para lá, com o coração batendo forte, e então 
vi. Da figueira só restava o tronco central, cortado na altura de 
uns três metros, com uns pedaços de árvore ainda precariamente 
pendurados. Grandes pedaços de tronco e raízes jaziam pelo chão 
em toda sua volta, numa mortalha de serragem. Uma motosserra 
vermelha tinha a lâmina ainda enfiada em um dos pedaços. Fitas 
amarelas de plástico mantinham os transeuntes à distância. O 
que era lindo tinha se convertido numa visão horrorosa. Em um 
minuto eu tinha esquecido todos os problemas que tanto me 
ocupavam. Uma imensa tristeza me invadiu, e eu não conseguia 
tirar os olhos daquela cena.
Uma rainha não só para mim
Fui almoçar sozinho, em silêncio e com o dia completamente 
estragado. Confesso que meu pensamento naquela hora foi fatalista, 
do tipo, “que droga, vou ter que me acostumar a isso aqui sem ela”. 
Mas quando fui ao caixa pagar, uma mulher na minha frente na 
fila perguntou a uma atendente do restaurante: “Por que cortaram 
essa árvore aí em frente? Ela era tão linda”. A atendente respondeu: 
“Não sei. Nós não tivemos nada a ver com isso. Eu adorava aquela 
árvore”. A caixa então comentou: “Eu também! Como é que alguém 
corta uma árvore dessas?”. Naturalmente entrei na conversa e fiquei 
impressionado ao perceber o quanto aquela árvore era importante 
não só para mim, mas para tantas outras pessoas também. Eu mal 
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[descer]
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suspeitava disso, depois de vários anos almoçando ali, mas ela não 
era uma rainha das árvores só para mim.
Saindo do restaurante, encontrei meu colega Gílson e outros 
dois funcionários do Instituto de Biologia, parados, olhando 
para a cena com tristeza. Gílson me disse: “Está todo mundo 
revoltado”. Várias pessoas já tinham fotografado a cena, segundo 
ele, para enviar para blogs ou coisas assim. Estava um dia muito 
quente e só aí reparei o calor que fazia ali, na entrada do prédio. 
O lugar era coberto com telhas de amianto, mas antes se estendia 
sobre elas a densa folhagem, e o microclima era sombreado, 
fresco e úmido. Agora o sol aquecia diretamente as telhas e tudo 
estava quente, árido, abafado, como se estivéssemos num forno. 
De algum modo me pareceu uma versão em miniatura do que 
está acontecendo com um mundo que não sabe preservar suas 
árvores.
Não sei por que mataram aquela figueira. Pode ter havido boas 
razões. Ela podia estar doente, embora eu não tenha encontrado 
sinal algum disso. Há outras possibilidades. Figueiras são árvores 
que podem causar muitos problemas, com suas raízes abalando 
a estrutura dos prédios, ou seus pesados galhos caindo sobre os 
telhados ou forçando-os para baixo. Não vi sinal de que as raízes 
estivessem levantando as calçadas, embora – quem sabe? – elas 
pudessem estar tendo algum efeito mais para dentro do prédio. 
Quanto aos galhos, recuso-me a acreditar que não teria sido 
possível lidar com esse problema com medidas de manejo, como 
poda ou escoramento dos mais perigosos. Não sei. Prefiro acreditar 
que ela foi morta por uma boa razão. Só não sei se vou conseguir 
me convencer disso.
Você pode, a esta altura, estar se perguntando: mas por que 
tanta preocupaçãocom uma árvore, se a cada dia só na Amazônia 
milhares de árvores estão sendo derrubadas e mortas? Não é esse 
um problema minúsculo, insignificante?
Razão e emoção
Isso me lembra um velho lema do movimento ambiental, um 
guia simples, mas sábio: pense globalmente, aja localmente. Nossas 
ações podem parecer pequenas, mas só as pequenas ações de 
milhões de pessoas, somadas, podem virar o jogo. Árvores servem 
de hábitat para bichos como os sabiás, os socós e os micos que 
usavam aquela figueira. Árvores produzem uma imensa variedade 
de produtos. Árvores fixam CO2 e com isso ajudam a combater as 
mudanças climáticas, que terão efeitos devastadores não só sobre 
a conservação como também sobre a própria economia. Árvores 
regulam o clima e garantem a qualidade da água das nascentes. 
Árvores seguram encostas e, se tivessem mantido mais delas, não 
teríamos tido nos últimos anos tantas mortes em desabamentos no 
Rio de Janeiro, em Santa Catarina e em outros lugares (mas culpar 
as “intempéries” da “natureza” é tão mais fácil…). Árvores fazem 
os lugares mais bonitos e agradáveis, por conta da nossa biofilia, e 
assim melhoram a qualidade de vida das pessoas. Árvores merecem 
viver por serem árvores. Há muitas razões para preservá-las e bem 
poucas justificativas para matá-las com tanta facilidade como 
sempre fizemos ao longo da triste história ambiental brasileira. E aí 
cabe virar de cabeça para baixo o velho provérbio: devemos, sim, 
ver a floresta pelas suas árvores, se não como forma de entendê-la, 
pelo menos como forma de preservá-la. Cuidar das árvores de que 
a gente gosta é colocar um pequeno tijolinho para construir um 
mundo melhor.
“As árvores de que a gente gosta?” Sim, por que não? Sempre 
defendi que conhecimento científico sobre os organismos e os 
processos ecológicos é imprescindível para que se consiga conservar 
a natureza. Continuo, claro, pensando assim. Mas se quisermos 
mesmo ser bem-sucedidos em conservação, a razão apenas não é 
o suficiente. Sentimento não é para se explicar, é para se sentir. A 
emoção é fundamental. Naquela fila do caixa do comida-a-quilo, 
heloisavasconcellos
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causando
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[descer]
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aprendi que para muita gente aquela também era a “sua” árvore. 
Quase sempre é do sentimento de pessoas assim que nascem as 
ações para a conservação. A razão é uma ferramenta necessária, mas 
o sentimento é a origem de tudo.
Eu não pude fazer nada pela “minha” árvore, porque não sabia 
que ela seria morta. Mas quem sabe minha tristeza ajude alguém a 
fazer alguma coisa por alguma outra árvore, ou por algum bicho. 
Aí, pelo menos, a morte dela não terá sido em vão.
OUTROS OLHOS SOBRE 
AS CIDADES
Um dos momentos mais inebriantes que já vivi num cinema foi 
assistindo a uma cena de Birdy (Asas da Liberdade), de Alan Parker. 
Trata-se de um belíssimo filme, sobre a liberdade, a loucura, e a 
amizade. O personagem-título, um rapaz reprimido e perturbado 
(vivido por Matthew Modine), desenvolve uma obsessiva ligação 
emocional com as aves, que simbolizam a liberdade que ele mesmo 
não tem. Suas esquisitices ornitológicas e suas desastradas tentativas 
de voar são toleradas e cada vez mais compreendidas por seu melhor 
amigo, Al (Nicholas Cage). Após Birdy ter sofrido um violento 
trauma de guerra, Al faz de tudo para evitar que ele perca o tênue 
contato que ainda tem com a realidade. De repente, lembro-me 
bem, perdi o fôlego. Meus olhos grudaram na tela e torci para o 
tempo passar mais devagar.
Birdy, deitado no chão do seu quarto, olha para a pequena 
janela, muito alta acima dele. Imagina-se uma ave, saindo por 
aquela janela, para o mundo lá fora. De repente, a câmera sai pela 
janela, como os olhos da ave da imaginação dele. Começamos a 
ver o mundo à volta pelos olhos de uma ave, a voar livremente 
sobre a paisagem à volta. Não é uma paisagem extraordinária – 
o que só faz a experiência cinematográfica desse voo ainda mais 
fascinante. São subúrbios comuns de uma pequena cidade norte- 
-americana – o voo da câmera passa sobre carros num ferro-velho, 
depois sobre uma mulher lavando roupa no quintal, segue pelas 
passagens estreitas entre as casas, escapa do ataque de um cachorro, 
voa baixo sobre uma rua, passando perto das pessoas atarefadas em 
Vera
Realce
[tirar essa vírgula]
230 231
seus afazeres cotidianos. É o nosso mundo que está ali, visto pelos 
olhos de uma ave, como pelos olhos de um estranho.
Vendo “nosso” mundo com outros olhos
Diga você: que canto de ave você ouviu hoje? Nenhum? Você é 
que pensa. A maioria de nós, mesmo nas grandes cidades, coexiste 
a cada dia com numerosas aves, escuta seus cantos sem ouvir, olha-
-as sem ver. É espantoso como somos indiferentes a essas vidas 
que estão acontecendo à nossa volta todo o tempo. Canso de ver 
pessoas imersas nas suas preocupações ou no seu celular que andam 
apressadas pela cidade como se ela fosse um deserto só de concreto, 
asfalto e vidro. Mas não é.
É admirável a garra da vida, a imensa capacidade das plantas 
e animais de teimar em viver, mesmo nas condições mais hostis. 
Num pequenino torrão de terra entre duas telhas num telhado, ou 
numa estreita fresta num chão de concreto, você pode encontrar 
uma pequena planta que se instalou ali. Numa escala maior, nossas 
cidades são lar de uma quantidade surpreendente de animais 
– pássaros, cigarras, micos, morcegos – que admiravelmente 
conseguiram sobreviver e arrumar um novo meio de viver no 
ambiente tão diferente e hostil que fizemos. Uma cidade não é 
só o nosso mundo. Representa também vários outros mundos 
paralelos, de outros seres vivos, vivendo suas vidas e seus dramas 
cotidianos à nossa volta, vendo o “nosso” mundo com outros 
olhos. Que tal tentarmos, pelo menos por um momento, ver o 
mundo pelos olhos deles?
Vejamos, por exemplo, as aves, objetos da paixão de Birdy. O 
que você e eu chamamos de “arborização urbana” uma ave chamaria 
de hábitat. Se você vir no Google Earth uma cidade “em negativo”, 
prestando atenção não nas construções, mas sim no espaço entre 
elas, vai ver que uma cidade é um mosaico de pequenas “ilhas” de 
vegetação, geralmente (infelizmente nem sempre) ligadas por uma 
malha de “corredores” estreitos de vegetação seguindo o caminho 
das ruas. Cada rua bem arborizada é como uma floresta linear com 
estrutura simplificada, arcadas de vegetação se encontrando lá no 
alto, jardins suspensos para várias espécies de aves. Essas “ilhas” e 
“corredores” são a cidade para outros habitantes que não nós.
As aves compartilham os mesmos canais sensoriais conosco 
– sua percepção é predominantemente visual e secundariamente 
auditiva, como a nossa. Por isso estão entre os animais mais fáceis 
de se ver, e entre os que melhor podem ver, lá de cima, em cores 
e com visão acurada, o curioso mundo desses estranhos primatas 
apressados daqui de baixo. As vidas em paralelo às nossas em muitas 
cidades brasileiras incluem a pequena cambacica (Coereba flaveola), 
que vem beber nos vidros para beija-flores; os próprios beija-flores 
de várias espécies; os siriris (Tyrannus melancholicus) pegando insetos 
no ar em acrobacias que avião algum jamais igualará; os versáteis 
bem-te-vis (Pitangus sulphuratus) com seus cantos inconfundíveis; 
a bela saíra-amarela (Tangara cayana) e muitos outros. Mais difícil 
de ver numa cidade, mas ainda possível de encontrar, é o pássaro 
de mais bom gosto de todos, o tiê-sangue (Ramphocelus bresilius), 
com sua exuberante plumagem rubro-negra.
Nem só de pequenos passarinhos vive a avifauna urbana. Há 
nas cidades mais surpresas que a nossa vã imaginação poderia 
supor. Numa reentrância da parede de um andar alto do Hospital 
Universitário Clementino Fraga Filho, na inóspita ilha do Fundão, 
no Rio, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro 
capturaram nada menos que um falcão-peregrino (Falco peregrinus). 
Você leu certo, uma das mais espetaculares aves de rapina do 
planeta, o animal mais veloz domundo (até 300 quilômetros por 
hora em mergulho). Tive a sorte de ver o bicho, azul-acinzentado, 
98 centímetros de envergadura, um migrante provavelmente 
vindo da América do Norte. Foi anilhado e solto, para angústia 
dos pombos das redondezas. Voltou por vários anos. A cada dia, 
Vera
Riscado
e dos
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[descer]
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centenas de pessoas entravam e saíam do Hospital Universitário 
sem nem imaginar que a trinta metros sobre a cabeça delas estava 
um falcão-peregrino.
Espetáculos noturnos
À noite o movimento nas ruas muda, e não só para nós. Em 
grandes árvores que estejam frutificando, você pode assistir a um 
verdadeiro espetáculo noturno de morcegos. Conheço uma árvore 
assim, umafigueira na rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, no 
Rio de Janeiro. Grandes morcegos frugívoros, de meio metro de 
envergadura, fazem repetidas passagens na árvore, pegando frutos 
a cada vez. O chão fica coalhado de frutos e basta você ficar parado 
perto da árvore para ver um verdadeiro balé aéreo dos grandes 
morcegos voando agilmente, às vezes apenas a centímetros acima 
do chão, e desviando de você com grande habilidade. Nunca soube 
ao certo que espécie era. Sei pouco de morcegos, e digo isso sem 
nenhum orgulho. Mas Marco Aurélio Mello, um ex-estudante 
meu que hoje é professor da Universidade de São Paulo, sabe 
muitíssimo. Para Marco Aurélio, é claro que só seria possível dizer 
ao certo com o bicho nas mãos, mas o porte e o comportamento 
que descrevi sugerem Artibeus lituratus.
O mais espantoso, porém, é que essa figueira fica em frente a um 
McDonald’s, a menos de dez metros de distância, mas a indiferença 
das pessoas com os bichos é tão grande que não me lembro de já ter 
visto uma pessoa sequer reparando naquele espetáculo. Nem mesmo 
para sentir medo, esse desinformado medo que vem de achar que 
todos os morcegos chupam sangue – o que só uma ínfima minoria 
das espécies faz, e certamente não esses morcegões frugívoros.
Como esses morcegões veem o mundo das pessoas apressadas 
na calçada da Visconde de Pirajá? Bem, como eles ouvem o 
mundo talvez seja uma pergunta mais adequada! No seu mundo 
de escuridão, não poderiam depender muito da visão para achar 
as coisas, e não dependem mesmo. Cada um daqueles Artibeus 
(ou presumíveis Artibeus) desvia de nós orientado por um 
sofisticadíssimo sonar. Eles emitem vozes muito poderosas e se 
orientam pelos ecos da sua voz ao bater nos diferentes objetos. 
Morcegos emitem pulsos sonoros numa frequência altíssima – no 
caso de um insetívoro, até 200 pulsos por segundo. Assim sendo, 
também recebem ecos com muita frequência. Isso permite à sua 
mente, processando essa informação, perceber o ambiente à volta 
do bicho – tamanho e forma dos objetos, velocidade em relação 
a eles, etc. – com um imenso grau de detalhe. É difícil imaginar 
como um morcego percebe o mundo dessa forma, mas é possível 
fazer uma boa – e fascinante – especulação. O ponto de partida é 
perceber que uma imagem que vemos não é uma mera coleção de 
objetos no mundo lá fora: é como a nossa mente percebe e processa 
a luz que vem desses objetos. É bem possível que uma mente que 
recebe tanta informação do sonar processe essa informação como 
imagens – tridimensionais e tudo. Assim, um morcego formaria o 
que chamamos de imagem – uma riquíssima representação mental 
do mundo – com a audição, e não com a visão. É claro que não 
dá para nos colocarmos dentro da cabeça de um morcego e ver 
como ele percebe o mundo; mas é uma pena, porque seria uma 
experiência maravilhosa.
Você já pensou no mundo de uma prosaica lagartixa de 
casa? Aquelas lagartixas que há na parede da sua casa são uma 
espécie exótica, Hemidactylus mabouia, que é um bicho africano 
que chegou aqui de navio durante a colonização portuguesa. As 
lagartixas vivem num fantástico mundo bidimensional e que não 
respeita gravidade. Andam sempre coladas a superfícies, mas não 
importa se a superfície em questão é um assoalho, uma parede ou 
mesmo um teto. Lagartixas ficam completamente à vontade não 
só em superfícies verticais como até mesmo de cabeça para baixo, 
quando as forças de Van der Waals estabelecidas entre as cerdas de 
Vera
Riscado
uma figueira

[espaço]
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suas patas e o teto as mantêm firmemente aderidas. Quando acaba 
sua jornada e você vai dormir, começa a jornada delas, em longas 
e pacientes emboscadas a insetos cujas populações elas ajudam a 
controlar. Mas quem de nós pode sequer imaginar um mundo como 
o delas, andando pelas superfícies verticais com tanta tranquilidade 
como pelas horizontais, e mais, sendo capaz de ignorar a lei da 
gravidade, que tão completamente rege nossas vidas?
As nossas janelas
Há muitas vantagens em manter e incentivar a vida nas cidades. 
Por exemplo, por que cidades não são muito mais utilizadas na 
fixação de CO2 para mitigação das mudanças climáticas globais? 
Não estou falando de plantar uma árvore aqui ou ali, mas do plantio 
de milhões de árvores. Aglomerações urbanas cobrem uma área 
nada desprezível e que só tende a aumentar. Há péssima arborização 
em muitas cidades ou em partes da maioria das grandes cidades. 
Por que os governos e as ONGs, que frequentemente investem 
em projetos de reflorestamento em áreas rurais, não investem mais 
em maciços projetos de revegetação urbana com árvores nativas? 
Isso é feito, sim, mas ainda longe da escala desejável. São ações 
relativamente baratas e que empregam muita gente. A revegetação 
urbana traria múltiplos benefícios: fixar CO2, amenizar o clima das 
cidades e, claro, fornecer hábitat para milhões de outras vidas.
Há ainda outras razões, menos óbvias mas igualmente 
importantes, para se preservar a natureza urbana, e em particular a 
fauna urbana. Quando se diz que uma cidade (ou uma parte dela) 
foi bem-sucedida em melhorar suas condições “ambientais”, o que 
dizemos? O “ambiente” a que nos referimos é para nós, é claro. 
Mas o que dizemos? Os peixes voltaram ao Tâmisa, várias espécies 
de aves voltaram à lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro, 
peixes e aves voltaram ao restaurado rio Cheonggyecheon em Seul, 
na Coreia do Sul. A fauna urbana nos indica quando recuperamos 
um lugar para nós. A presença de outros seres vivos é indicadora de 
quando temos um mundo saudável para nossas próprias psiques.
É bem conhecido que faunas urbanas são pobres em número 
de espécies se comparadas com a maioria dos ecossistemas naturais. 
No entanto, como dizem, a gente só protege o que ama, e só ama o 
que conhece. Esta é a natureza com a qual a gente está em contato 
durante a maior parte das nossas vidas, portanto nossa maior chance 
de aprender a amar a natureza em geral. Para muitos de nós, é a 
maior chance de despertar a nossa biofilia – a nossa tendência inata 
de gostar de outros seres vivos. Uma das recordações mais vivas da 
minha infância é a das cigarras cantando nas ruas de Ipanema, no 
Rio de Janeiro. Na época do ano quando elas apareciam, era um 
som fortíssimo, insistente, que dominava tudo. Minha admiração 
ao descobrir que tudo aquilo era produzido por aquele animalzinho 
discreto foi um dos primeiros momentos de que me lembro dessa 
sensação de maravilhamento que me fez gostar de bichos e natureza.
Precisamos de cidades, claro. A crescente urbanização é uma 
das maiores tendências da humanidade, e isso não vai mudar 
nas próximas décadas. Mas num mundo do futuro pelo qual 
vale a pena sonhar, as cidades não seriam mais monumentos à 
separação homem-natureza. Seriam, ao contrário, uma celebração 
da recuperação dos nossos laços com o restante da natureza e do 
entendimento de que nosso destino depende disso.
Assim como para Birdy, as aves não apenas estão nas nossas 
janelas: elas são as nossas janelas, para um mundo que estamos 
ignorando perigosamente demais.
236 237
UM CAMINHO PARA A EMPATIA
Úrsula parou e esticou os olhos procurando por Babyl. Ela tinha 
ficado um pouco para trás outra vez. Era ela atrás daquelas acácias? 
O brilhosob as mais benignas condições 
ambientais”, nas palavras de Fisher. Isso claramente indicava que 
os mastodontes estavam em condições corporais muito boas na 
época da sua extinção. Ou seja, os mastodontes tinham morrido 
de barriga cheia.
Dan Fisher assim expressa a conclusão óbvia: “dados de história 
de vida derivados da análise de presas dos mastodontes da região 
dos Grandes Lagos vão contra as expectativas baseadas em modelos 
de mudança climática, mas seguem de perto os padrões esperados 
por caça”.
Antes de tudo, isso é belíssima ciência, criativa, utilizando com 
habilidade as predições das hipóteses e a evidência disponível para 
responder a uma pergunta difícil. Claro que é só mais uma pincelada 
na construção de uma pintura muito mais geral, mas é um trabalho 
extremamente elefante – perdão, extremamente elegante. Só me 
pergunto se Dan Fisher não deveria ser mais ambicioso em relação 
30 31
às publicações para onde manda seus trabalhos. Para mim, se uma 
coisa dessas não é para sair na Science (a mais prestigiosa revista 
científica do mundo), então eu não sei o que é.
Por que relutamos em aceitar nosso papel nas extinções?
Quem prender, então, pela morte dos mastodontes?
Ninguém. 
Seria muito cômodo olharmos de nossa posição atual, de 
uma sociedade extremamente destrutiva para a biodiversidade e 
para o planeta, e condenarmos os nossos antepassados por terem 
extinguido os mastodontes e tantos outros. Mas tentemos nos 
colocar, apenas por um instante, no lugar deles. Eles não tinham 
agricultura ou bichos domesticados para fornecer alimento – a 
agricultura e a domesticação, certamente não por coincidência, 
foram inventadas logo depois da extinção da megafauna. Também 
– o que talvez seja ainda mais importante –, ao colonizarem mais 
e mais novos campos de caça, não tinham como saber sequer que 
o mundo tinha fim. Como, então, poderíamos esperar deles que 
fossem previdentes no uso de seus recursos?
O importante, a respeito das extinções do Quaternário, não é 
encontrar culpados, mas aprender suas lições. Não consigo deixar 
de pensar que muita gente ainda tem dificuldade em aceitar que 
essas extinções foram causadas pelos humanos, apesar de todas as 
evidências, porque isso ajuda a manter a ilusão de que nós, afinal, 
ainda não causamos tanto estrago assim à natureza. Isso também 
explica por que a nossa cultura dá tão pouco destaque às numerosas 
extinções históricas mais recentes, nas quais o papel do homem é 
indiscutível (ver capítulos seguintes). O problema é que minimizar 
a gravidade do que temos feito tende a levar à cômoda posição de 
que, para lidar com a crise ambiental, não é preciso mudar tanto 
assim nossas economias e nossos modos de vida.
O trabalho de detetive de gente como Dan Fisher ajuda a 
mostrar o quanto é errônea e prejudicial essa percepção. Aceitar 
que o homem já extinguiu, sim, milhares de espécies, é um ponto 
fundamental para mudar nossa visão da história e, a partir disso, 
melhorar nossas atitudes com relação à natureza. Reconhecer a 
existência de um problema, afinal, é o primeiro passo para poder 
resolvê-lo.
Vera
Realce
[Verificar. Não seriam os textos/crônicas sequintes? Serão chamados de capítulos?]
32 33
A MÁQUINA DO TEMPO: 
FLACOURT E A FAUNA PERDIDA DE 
MADAGASCAR
Quem nunca sonhou viajar no tempo?
Esse velho sonho da humanidade tem sido um tema frequente 
da ficção, pelo menos desde que H. G. Wells popularizou a ideia no 
clássico A Máquina do Tempo, em 1895. Mas sempre foi também 
um sonho impossível. A física nos diz que, em teoria, você pode 
viajar contra o tempo se conseguir se mover numa velocidade 
próxima à da luz e continuar inteiro(a). No entanto, até onde se 
sabe, isso é uma virtual impossibilidade tecnológica. Não podemos 
matar a nossa curiosidade sobre o futuro distante, e os passados 
gloriosos também não voltam mais. O mundo dos mamutes, o do 
antigo Egito e o do Império Romano são mundos maravilhosos 
que desapareceram há muito tempo e que nenhum homem ou 
mulher da era moderna teve o privilégio de conhecer.
Ou não?
O Egito e o Império Romano não tiveram mesmo jeito. Mas 
um homem moderno teve a fantástica chance de ter, diante dos 
seus olhos, um vislumbre do mundo desaparecido dos mamutes.
Os últimos redutos da megafauna extinta
Por “mundo dos mamutes” na verdade eu me refiro à megafauna 
extinta nos últimos cinquenta mil anos. Já vimos isso no capítulo 
anterior, mas meu ponto aqui é que, em todos os continentes, essas 
extinções estavam basicamente completas há uns dez mil anos, 
com exceção de um alce irlandês aqui ou uma preguiça-gigante 
acolá. Em todos os continentes, eu disse, mas não nas ilhas, onde as 
extinções só ocorreram vários milhares de anos depois – pela óbvia 
razão de que nelas o homem só chegou mais tarde. A megafauna 
só desapareceu há uns cinco mil anos no Caribe, há uns quatro mil 
no mediterrâneo, o mamute também há uns quatro mil anos em 
Wrangel (uma ilha ao norte da Sibéria) e os moas há menos de mil 
anos na Nova Zelândia. Mas uma das histórias mais espetaculares e 
menos conhecidas é a de Madagascar.
Madagascar é a quarta maior ilha do mundo, com 587 mil 
quilômetros quadrados (maior que a Espanha). Embora fique 
logo ao lado da África, no Oceano Índico, nunca foi conectada 
geologicamente com o continente africano, porque era uma 
parte diferente de Gondwana, o supercontinente sul, de onde se 
separou há uns 90 milhões de anos. Madagascar é famosa por sua 
riquíssima biodiversidade, grande parte da qual é endêmica, ou 
seja, são espécies encontradas apenas lá. A fauna é bem conhecida, 
inclusive por causa do recente empurrão hollywoodiano. Entre os 
mamíferos, por exemplo, há uma grande variedade de primatas 
(lêmures e aye-ayes, entre outros) e os temíveis predadores, que são 
as fossas. Mas não há muitos animais realmente grandes; nenhum 
lêmure, nem as fossas, tem mais de dez quilos.
O que menos gente sabe é que a biodiversidade atual de 
Madagascar é apenas um pálido remanescente de uma maravilhosa 
riqueza perdida. Até pouco mais de mil anos atrás, Madagascar 
tinha uma megafauna diferente de tudo – como quase qualquer 
coisa naquela ilha – e espetacular como poucas. Para começar, havia 
umas sete espécies de gigantescas aves não voadoras, conhecidas 
como aves-elefantes. As menorzinhas, como Mullerornis agilis, 
tinham só 150 quilos. Já a Aepyornis maximus chegava a três 
metros de altura e quase meia tonelada – as maiores de todas as 
aves conhecidas. Aepyornis foi provavelmente a origem da lenda do 
Vera
Realce
[Confirmar se será mesmo "capítulo".]
[Está se referindo ao texto anterior?]
Vera
Riscado
Mediterrâneo
34 35
Roc, a ave gigante mencionada por Marco Polo em 1298. Entre 
os lêmures havia nada menos que umas dezessete espécies hoje 
extintas, incluindo vários espantosos lêmures gigantes. O maior 
deles, Archeoindris, chegava a uns duzentos quilos – o tamanho 
de um gorila. Megaladapis edwardsi, o koala lemur, era um pouco 
menor, talvez uns setenta quilos. Além disso, havia outros bichos 
estranhos, todos eles nos tamanhos errados – fossas gigantes 
(Cryptoprocta spelea) com o dobro do peso das atuais, três espécies 
diferentes de hipopótamos-pigmeus dos gêneros Hippopotamus e 
Hexaprotodon e tartarugas terrestres de 150 quilos (Aldabrachelys 
abrupta).
O isolamento salvador desses bichos demorou a acabar: 
Madagascar foi uma das últimas grandes massas de terra alcançadas 
pelos humanos. Os primeiros colonizadores, ao contrário do que 
se esperaria, vieram da Indonésia, há uns 2.300 anos; os vindos da 
África só chegaram uns mil anos depois disso. Não há dúvida de 
que após a chegada humana a megafauna foi intensamente caçada; 
já foram encontrados, por exemplo, vários ossos dos hipopótamos-
-pigmeus e lêmures gigantes com vestígios claros de consumo 
humano. Correspondentemente, toda a megafauna de Madagascar 
desapareceu entre a primeira chegada humana e uns mil anos atrás. 
Ou melhor… quase toda.
Flacourt e seu livro
No século XVII, osdo sol baixo atrapalhava a visão. Mas então Úrsula viu 
a pequenina.
Lá vinha Babyl, penosamente, em seus passinhos curtos, se 
juntar aos outros. Pilar estava com ela, incentivando-a, como 
sempre. Úrsula olhou para elas com carinho. Perto das duas irmãs, 
Vasily parecia andar meio a esmo, divertindo-se, explorando o 
novo lugar com aquela sua curiosidade infantil.
Um pouco mais tranquila, Úrsula prosseguiu, liderando os 
outros. Concentrada, ela avançava devagar, parando de vez em 
quando. Babyl não podia ir mais rápido. Ely, com seus joelhos 
fracos, também não aguentaria. Desde criança os joelhos dele 
nunca tinham sido bons, imagine agora que já era quase um velho. 
O calor daquele dia bonito na savana também não tinha ajudado 
em nada. Úrsula estava com sede, os outros também deveriam 
estar. De repente ela sentiu uma inquietação, e por um momento 
se esqueceu até da sede. Ela havia estado naquele lugar anos atrás, 
lembrava ainda do rio, promessa de uma vida melhor para todos 
eles. Mas agora era preciso chegar à água, rápido, e ela refazia em sua 
mente o caminho até lá, costurando memórias antigas. Enquanto 
procurava o caminho, ela sentia uma vaga sensação de perigo, que 
não conseguia entender bem.
Enquanto Úrsula estava imersa em suas meditações, Vladimir 
passou a seu lado andando rápido na direção contrária, gritando, 
fazendo uma barulheira, com aquela exuberância típica da juventude. 
Ele foi lá para o fim da fila, atrás de Tania e da bela Remedios, 
que pareciam muito distraídas andando juntas. Úrsula prosseguiu, 
caminhando devagar ao lado de Ely. Procurando o caminho, eles se 
viraram em direção ao sol já baixo no horizonte, sentindo o vento 
bater em suas costas. Ely parecia querer lhe dizer algo…
Foi então que vieram os tiros.
Úrsula nem soube de onde vieram. O matraquear seco de um 
fuzil automático quebrou abruptamente o silêncio da savana, 
ecoou nas árvores em volta, pareceu vir de todos os lados. Ela não 
sentiu nada, mas a seu lado o impacto devastador da rajada de 
balas acertou Ely em cheio. Os joelhos das patas dianteiras de Ely 
se dobraram; sua tromba tocou o chão. Aqueles joelhos que sempre 
tinham sido seu ponto fraco, agora rígidos demais num elefante 
idoso, não lhe tinham dado rapidez suficiente para fugir, naquela 
fração de segundo entre perceber os caçadores e ouvir os tiros.
Ely tentou penosamente se erguer, gritando de dor e de medo, 
sem conseguir esticar as patas dianteiras, sem conseguir nada mais 
do que dar o flanco para os caçadores. Outra rajada o retalhou; por 
um segundo um brilho branco fez um arco pelo ar, e então tudo 
se perdeu numa confusão de cinza e vermelho. O imenso elefante 
tombou para o lado, ainda se debatendo, até que seus movimentos 
foram parando aos poucos. O maior do grupo, com as maiores 
presas, Ely tinha sido o primeiro alvo.
Úrsula gritava descontrolada, em pânico, sem entender a 
tragédia que se desenrolava rapidamente à sua volta. Ouvindo os 
gritos lancinantes da matriarca do grupo, Vladimir veio correndo 
lá de trás. Ele tinha jogado fora sua única chance. Escondido atrás 
das fêmeas adultas Remedios e Tania, Vladimir tinha passado 
despercebido para os caçadores. Mas agora, correndo loucamente 
na direção dos fuzis automáticos, com seus hormônios adolescentes 
em fúria, era um alvo perfeito. Os tiros o pegaram em cheio na 
cabeça. Vladimir parou, titubeou, desequilibrou-se e rolou para 
frente. Caiu sobre as costas; e as patas ainda ficaram se movendo no 
ar por alguns instantes em movimentos espasmódicos. Vladimir era 
238 239
só um macho jovem, mas suas presas já eram grandes o suficiente, 
os contratantes iriam pagar bem por elas.
Vendo sua vida ser destruída em segundos à sua volta, Úrsula 
rodopiava em confusão total, sem saber se enfrentava os caçadores 
ou se ia lá para trás para proteger suas filhas e os outros. Em sua 
oscilação desordenada, avançou alguns metros na direção dos 
caçadores, e foi então que eles atiraram. Não precisavam. Ela não 
tinha marfim. Mas naquela confusão geral, naquela embriaguez de 
sangue e de morte, tinha bastado que alguém apertasse um gatilho 
por dois ou três segundos.
Ferida de morte, vendo o manto vermelho que lhe subia aos 
olhos, a velha matriarca olhou pela última vez lá para trás, viu suas 
filhas fugindo como podiam, ou como Babyl podia. Então suspirou 
e se deixou tombar.
Instantes depois, lá atrás, Babyl parou exausta numa clareira, 
Pilar sempre a seu lado. Vasily tinha vindo, aterrorizado também, 
para se encontrar com elas. Os três não entendiam o que tinha 
acontecido, não entenderiam nunca, mas com o tempo viria a 
percepção de que tinham se tornado órfãos.
Meses mais tarde, Vasily voltaria ali e contemplaria longamente 
os ossos de Úrsula. Para ele, a infância tranquila se fora para 
sempre. Anos depois, Vasily também teria uma morte violenta, 
abatido por participar de um daqueles grupos de machos solitários, 
desajustados e violentos que atacavam as plantações à volta.
Uma história possível
Você achou no início que eu estava falando de pessoas? Se 
achou, teve ótimas razões. A nossa literatura costuma falar sobre 
nós, humanos – sobre nossos sentimentos, nosso sofrimento, nossas 
emoções. Como poderia ser de outra forma? Nós somos animais 
sociais, importamo-nos uns com os outros, e é o nosso próprio 
universo emocional que compartilhamos. Shakespeare, Machado 
de Assis ou Gabriel García Márquez são verdadeiros tratados sobre 
a natureza humana. A literatura faz nossas vidas melhores e tem 
feito o mundo melhor. Mas minha pergunta é: será que precisamos 
falar sempre apenas de nós? Hoje, esse nosso foco absoluto em nós 
mesmos faz cada dia menos sentido, à medida que a ciência vem 
nos mostrando a riqueza das vidas emocionais de outras espécies 
que compartilham o planeta conosco.
Veja, por exemplo, os elefantes. A narrativa acima é fictícia, 
mas poderia ser real – bem, pelo menos fiz o melhor que pude. 
Usei apenas comportamentos já observados em estudos reais com 
elefantes africanos. Esses animais inteligentíssimos formam grupos 
sociais nos quais os mesmos indivíduos vivem juntos por anos. 
Têm aparências e personalidades muito diferentes, facilmente 
reconhecíveis por um estudioso, assim como uns pelos outros. Sua 
sociedade é matriarcal; os grupos são liderados por fêmeas adultas 
como Úrsula. Solidariedade do grupo com um filhote que tenha 
nascido com um defeito físico, como Babyl, já foi observada várias 
vezes. Elefantes órfãos se tornarem desordeiros e revoltados, como 
Vasily, também é comum. Já o comportamento de contemplar 
longamente os ossos de outros elefantes – mas não de outros 
animais – levanta a fascinante possibilidade de que esses animais 
têm alguma concepção da morte, assim como vínculos afetivos que 
sobrevivem a ela.
Os nomes que usei também são de bichos reais. São nomes 
dados pela pesquisadora Cynthia Moss a alguns elefantes da 
população de Amboseli, no Quênia, que ela estudou por mais de 
quarenta anos. Por falar nisso, ela deve gostar de García Márquez, 
porque os nomes de várias das fêmeas (como Úrsula, Pilar e 
Remedios) são de personagens femininas de Cem anos de solidão. 
Mais que isso, Babyl e Ely são baseados em elefantes reais, com 
as características físicas e o relacionamento com o grupo que eles 
tinham nos estudos de Moss.
240 241
Universos ao nosso redor
Enquanto você está lendo isso, um grupo de elefantes como o 
de Úrsula vagueia em algum lugar do nosso planeta – hoje sabemos 
que com suas próprias personalidades, suas próprias emoções, suas 
próprias histórias, suas próprias vidas. Mas quanta atenção nós 
prestamos a isso? Enquanto nossa espécie já parece estar esgotando 
a sua imensa capacidade de olhar apenas para seu próprio umbigo, 
sequer olhamos para a maravilhosa descoberta que seria a de outros 
universos emocionais inteiros, inéditos, à nossa volta.
Há alguns anos deparei com uma entrevista de Robert Ballard 
– um explorador subaquático, famoso pela descoberta dos restos 
do Titanic,franceses fundaram entrepostos de 
comércio na costa leste de Madagascar, e Étienne de Flacourt foi 
nomeado governador da nova colônia. Flacourt, um francês de 
Orléans, chegou à ilha aos 41 anos, em 1648. Ele passou os sete 
anos seguintes de sua vida lá – anos bem difíceis naqueles distantes 
confins. Flacourt voltou à França em 1655 e acabou morrendo 
afogado num naufrágio em 1660. Dois anos antes, porém, ele 
havia publicado um livro notável. O título era Histoire de la grande 
isle Madagascar, mas, visto da nossa perspectiva atual, bem poderia 
se chamar A máquina do tempo.
Teria Flacourt ainda visto uma parte da megafauna perdida de 
Madagascar? Procurei Histoire de la grande isle Madagascar com imensa 
curiosidade. Google salva: lá estava o livro, disponível gratuitamente. 
Mas assim que abri o arquivo minha alegria desapareceu. Quinhentas 
e oito páginas numa impressão difícil de ler e… em francês arcaico. 
Ninguém merece! Qualquer possível menção à megafauna também 
estava perdida em algum lugar lá dentro.
Felizmente, consegui ajuda de um colega da Guiana Francesa, 
Benoit de Thoisy. Agradeço aqui, de coração, a Benoit, cuja ajuda 
foi fundamental. Ele conseguiu encontrar e traduzir o que eu estava 
procurando – algumas passagens que mostram que Flacourt viu, 
sim, um pouco de um mundo perdido no tempo.
Na página 154, Flacourt escreve que viu, perto do lago 
Lipomani, o “tretretretre”, “um grande animal, do tamanho de um 
bezerro de dois anos de idade, com cabeça redonda e uma face de 
homem, pelo um pouco crespo, rabo curto e orelhas de homem, e 
mãos e pés parecidos com os de macacos”. Essa espantosa descrição 
aparece entre várias outras, inclusive de espécies que ainda vivem 
em Madagascar – o que sugere que o autor está de fato falando de 
observações, e não de fantasias. A descrição do “tretretretre” parece 
se encaixar bastante bem com Megaladapis edwardsi – o grande 
lêmure terrestre de setenta quilos. Também parece se encaixar bem 
o fato de que essa espécie é, entre todos os lêmures extintos, aquela 
com ocorrência mais recente no registro fóssil – última datação 
conhecida de apenas 630 anos atrás (com incerteza de 50 anos 
para mais ou para menos). Tudo indica, portanto, que Flacourt 
ainda viu o último dos fantásticos lêmures gigantes vivo em pleno 
século XVII.
Mas Flacourt também teve contato com algo talvez ainda mais 
espetacular. Em outro trecho ele fala da “vouropatra”, que era “…
Vera
Realce
[Isso ficou redundante: "confins" já determina um local bem distante.]
Vera
Realce
[Não separar do texto que vem em seguida.]
36 37
uma grande ave que assombra os Ampatres [uma região no sul da 
ilha] e põe ovos como os dos avestruzes; para que as pessoas desses 
lugares não os peguem, eles procuram os lugares mais solitários”. 
A referência aos grandes ovos é a pista mais clara: Flacourt teve 
contato com as aves-elefantes, provavelmente Aepyornis maximus. 
Essa espécie é a ave-elefante com datações mais recentes no registro 
fóssil, a última das quais estimada em meros 840 anos atrás. 
Quando os europeus chegaram a Madagascar, gigantescos ovos 
de aves-elefantes – do tamanho de bolas de futebol – ainda eram 
muito comuns de se encontrar, e até pelo menos a década de 1980 
algumas das praias das costas sul e sudoeste ainda eram quase que 
pavimentadas com suas cascas quebradas. Isso tudo sugeria uma 
extinção muito recente das aves-elefantes. Tudo indica que Flacourt 
teve contato com as últimas dessas espetaculares aves gigantes, 
ainda vivas no século XVII. Incidentalmente, o comportamento 
que Flacourt descreve para as aves, procurando os lugares mais 
isolados, pode refletir uma resposta à pressão de caça. Mas isso deve 
ter sido pouco demais, tarde demais, para salvar a ave-elefante.
A última máquina do tempo?
Quando Flacourt chegou a Madagascar, em 1648, nem 
imaginava que havia encontrado uma máquina do tempo. Lá, ele 
foi provavelmente o único homem moderno que teve a chance 
de ver e escrever sobre os últimos remanescentes de um mundo 
maravilhoso que perdemos para sempre. Não há mais máquinas 
do tempo assim – nós já acabamos com todas elas. Mas o futuro 
está em nossas mãos e podemos agir diferente. Como seria triste 
se nossos filhos e netos um dia viessem a sentir falta de ter uma 
máquina do tempo, eles também, para que pudessem conhecer os 
tigres, os orangotangos ou as onças-pintadas.
POR QUE NÃO EXISTEM PINGUINS 
NO HEMISFÉRIO NORTE?
“O que os olhos não leem, o coração não sente.”
Provérbio popular (versão)
Você já pensou por que não existem pinguins no hemisfério norte?
Todos nós aprendemos que pinguins são encontrados apenas 
no hemisfério sul, na Antártida e adjacências. Implicitamente, 
isso nos é passado como sendo um fato da natureza – como se 
sempre tivesse sido assim. Mas não é o caso. A resposta para a nossa 
questão é muito mais interessante que isso e, ao mesmo tempo, 
desconcertante e perturbadora.
Não existem pinguins no hemisfério norte porque os humanos 
os extinguiram em 1844.
A ave que foi originalmente chamada de pinguim é hoje 
conhecida – menos do que deveria ser – pelo nome de grande 
alca (great auk). Seu nome científico – Pinguinus impennis – 
foi baseado em seu primeiro nome vulgar: eram chamados de 
pinguins pelos marinheiros do Atlântico norte. Os pinguins que 
hoje conhecemos, do hemisfério sul, foram descobertos depois 
e receberam o seu nome exatamente porque se assemelhavam 
às grandes alcas – e não o contrário. Portanto, embora as alcas e 
os pinguins do hemisfério sul pertençam a famílias diferentes de 
38 39
aves, faz todo sentido dizermos que as alcas eram os pinguins do 
hemisfério norte. Elas eram aves de grande porte, não voadoras, 
mas excelentes nadadoras, muito comuns no Atlântico norte em 
tempos históricos. Deram azar, portanto, de viverem perto de uma 
das principais rotas comerciais do mundo. Eram caçadas em imensa 
quantidade entre os séculos XVI e XIX – enchiam os porões dos 
navios para servir de alimento, forneciam plumas muito apreciadas, 
eram usadas como combustível e também como isca para a pesca 
de bacalhau e lagostas. Sob essa intensa pressão, as alcas declinaram 
inexoravelmente até uma situação desesperadora. Então, no dia 3 
de junho de 1844, três marinheiros islandeses avistaram o último 
casal de grandes alcas, denunciadas por sua grande estatura em 
meio às aves marinhas menores, na pequena ilha de Eldey, ao largo 
da Islândia.
Os marinheiros correram para as grandes alcas com porretes. As 
alcas tentaram desesperadamente alcançar a segurança da água, mas 
uma foi encurralada contra as rochas, e a outra alcançada já à beira 
d’água. Ambas foram mortas a porretadas. Em seu ninho havia um 
ovo, que se acredita ter sido esmagado sob a bota de um marinheiro.
É por isso que não existem (mais) pinguins no hemisfério 
norte. Não, não é um fato da natureza, infelizmente. Nós fizemos 
isso ser assim.
Uma imensa coleção de maravilhas desaparecidas
As grandes alcas não estão sozinhas – longe disso. Há uma 
imensa coleção de espécies de animais que nós extinguimos nos 
últimos séculos. Na maioria dos casos, são extinções muito bem 
documentadas e conhecidas pela ciência, de espécies que todos 
nós deixamos de conhecer por muito pouco. Muitas delas eram 
animais maravilhosos, espetaculares, que fariam o mundo vivo 
parecer muito mais rico e maravilhoso do que já é.
Eu estou exagerando? Bem, que tal um peixe-boi de oito metros?
Havia, sim, um peixe-boi de oito metros. Um animal dócil, 
inteligente, com uma elaborada vida social. Nós acabamos com 
ele em 1768. A vaca-marinha de Steller, Hydrodamalis gigas, que 
podia alcançar talvez umas dez toneladas, era o maior mamífero 
vivente nesse planeta em tempos históricos, fora as grandes baleias. 
Esse gigante habitava as águas costeiras das desabitadas ilhas 
Commander, no extremo leste da Sibéria, onde foi descoberto, em 
1741, por um naturalista alemão a serviço da Rússia, Georg Steller. 
As vacas-marinhas eram pacíficas comedoras de algasmarinhas, que 
raspavam das rochas. Steller escreveu que havia fortes laços sociais 
entre elas, incluindo uma espantosa solidariedade. Quando uma era 
arpoada, as outras tentavam impedir que ela fosse arrastada para 
a margem, fazendo um círculo à sua volta; várias colocavam a si 
mesmas nas cordas ou tentavam tirar o arpão do corpo daquela que 
havia sido ferida. Steller também observou que um macho voltou 
dois dias seguidos para junto de sua fêmea morta na costa. Nada 
disso impressionou muito os pescadores russos, que fizeram uma 
verdadeira corrida para caçar aquele animal tão rico em carne e óleo, 
e com uma pele valiosa. Em 1768 – apenas vinte e sete anos depois 
de ter sido descoberta! – a vaca-marinha de Steller já estava extinta.
E que tal a ave mais abundante do mundo? No século XIX, 
o naturalista John Audubon, um dos fundadores da ornitologia, 
ficou chocado com a abundância da pomba migratória (Ectopistes 
migratorius), na América do Norte. Os bandos eram tão numerosos, 
que há relatos confiáveis de que obscureciam a luz do sol ao 
passar; dizia-se que passavam por vários dias seguidos. Colônias 
de nidificação chegavam a ter 160 quilômetros de comprimento. 
Audubon estimou que devia haver entre cinco e dez bilhões de 
pombas migratórias na América do Norte – o que as fazia, de 
longe, as aves mais abundantes do planeta. Mas aquele foi o século 
da desenfreada expansão americana rumo ao oeste, que causou o 
colossal massacre da pomba migratória. Elas foram caçadas aos 
Vera
Riscado
neste
40 41
milhões para comida – forneciam uma carne abundante e barata 
para a população crescente – e por simples xporte. Caçar pombas 
migratórias e coletar seus ovos era um xporte de fim de semana 
para a família inteira, muito popular entre os americanos do 
século XIX. Havia matanças mais sérias: em uma competição de 
caça da época, o troféu seria do virtuoso caçador que primeiro 
matasse trinta mil pombas migratórias. Você leu certo: trinta mil, 
só pelo vencedor.
Com esse tipo de pressão, as populações da pomba migratória 
começaram a diminuir, e houve quem dissesse que era preciso limitar 
a caça, ou a espécie acabaria desaparecendo. Foram chamados de 
alarmistas; riu-se deles. Houve quem dissesse da pomba migratória 
que era óbvio que havia tantas que nunca iriam acabar – mais ou 
menos como alguns hoje dizem da Amazônia. Mas as populações 
continuaram diminuindo e o inacreditável aconteceu. Em 1900, 
a espécie se extinguiu na natureza. No dia 1º de setembro de 
1914, Martha, a última pomba migratória, morreu no Zoológico 
de Cincinnati. Estava extinta a espécie de ave mais abundante do 
planeta no século XIX.
E por que não um lobo marsupial? Quando falamos em 
marsupiais, a maioria das pessoas imediatamente pensa em 
cangurus, ou nos gambás, tão comuns em nosso país. Mas até 
há poucas décadas havia um lobo marsupial, ou tilacino, um dos 
mais espantosos seres que já se viu. Poucos reparam no significado 
de um nome científico, mas raramente um nome científico é tão 
revelador quanto Thylacinus cynocephalus. Thyla quer dizer “bolsa”, 
cinus ou cynos quer dizer “cachorro” e cephalus quer dizer “cabeça”. 
Thylacinus cynocephalus, portanto, quer dizer “cachorro com bolsa 
com cabeça de cachorro”. Perdoe o pleonasmo do cientista que 
batizou o bicho, caro leitor. Experimente procurar por thylacine 
no Google images. O tilacino é tão parecido com um cachorro 
que qualquer leigo poderia facilmente confundi-los. A semelhança 
da cabeça é de fato tão extraordinária que apenas os dentes, uns 
dentes triangulares característicos de marsupiais, denunciam que 
se trata de um parente dos cangurus. Os quartos traseiros caídos e 
a cauda afinando gradualmente, como a de um canguru, também 
traem sua ancestralidade marsupial. Mas não se trata simplesmente 
de um canguru com crise de identidade, que acha que é cachorro. 
Isso é o mais interessante de tudo: o tilacino é um espetacular 
exemplo do fenômeno que os biólogos chamam de convergência 
evolutiva, ou seja, animais de linhagens muito diferentes – no caso, 
os mamíferos placentários (como nós) e os marsupiais – evoluindo 
formas similares em lugares diferentes, como adaptação a papéis 
ecológicos similares.
O tilacino, comum na Austrália inteira até poucos milhares 
de anos atrás, sobreviveu na grande ilha da Tasmânia, ao sul do 
continente australiano, até bem dentro do século XX. Porém foi 
impiedosamente perseguido pelos colonizadores australianos, 
em represália à predação de suas ovelhas. A extinção do tilacino 
na natureza não teve nada de acidental; ao contrário, foi 
meticulosamente planejada e levada a cabo como política oficial 
do governo da Tasmânia. Com o objetivo de erradicar a “praga”, 
recompensas foram pagas para cada pele de tilacino entregue. 
À medida que os animais começaram a escassear, o valor da 
recompensa foi aumentado cada vez mais. Em fevereiro de 1937, o 
governo da Tasmânia, enfim, mudou de política e decretou uma lei 
protegendo a espécie. Tarde demais. O último tilacino conhecido, 
uma fêmea, tinha morrido no Zoológico de Hobart, capital da 
Tasmânia, cinco meses antes. Por negligência de seus tratadores, 
o animal foi deixado na parte exposta de sua gaiola, sem acesso a 
seu ninho protegido, e morreu de hipotermia numa noite fria de 
setembro. Há alguns registros não confirmados de tilacinos vistos 
na natureza nos anos seguintes. Um dos mais confiáveis é o de uma 
fêmea que teria sido morta por um fazendeiro com seus cachorros 
por volta de 1940. Dentro da bolsa da fêmea havia três filhotes. 
Não houve mais registros depois disso.
Vera
Riscado
esporte.
Vera
Riscado
esporte
Vera
Riscado
Images
42 43
Deixei para o fim o meu favorito, se é que pode haver um 
favorito numa lista destas: o menor, o mais sutil, mas nem por 
isso o menos espetacular. Um animal tão fantástico que parece ter 
saído da mais imaginativa ficção, e que você e eu fomos privados 
de conhecer por poucas décadas. Morcegos voam, todos eles, certo? 
Claro. Sempre foi assim? Não. Em algumas ilhas do Pacífico, onde 
eram ausentes tanto grandes predadores como também roedores 
nativos, evoluíram várias espécies de morcegos terrestres. Eram 
animais bizarros, capazes de voar só uns poucos metros, mas que 
se moviam agilmente pelo chão da floresta nas patas de trás e nos 
cotocos das asas, exercendo o papel ecológico dos roedores. Eram 
tão bem-adaptados à vida terrestre que alguns tinham bolsas ao 
lado do corpo, onde recolhiam as asas. À medida que a colonização 
das ilhas do Pacífico avançava, animais introduzidos pelos 
humanos, como ratos e gatos, foram extinguindo os morcegos 
terrestres em ilha após ilha. As ilhas Salomão e Big South Cape, que 
permaneceram livres de ratos domésticos até muito recentemente, 
foram seu último refúgio. Mas mesmo ali os ratos chegaram em 
1962 ou 1963, e em 1965 Mystacina robusta, a última espécie de 
morcegos terrestres, deixou de existir. É possível que ainda houvesse 
Mystacina quando você nasceu, ou pelo menos quando seus pais 
nasceram. Mas seus filhos não poderão mais vê-lo.1
Aprendendo com as lições da história
É hora de desfazer uma ilusão bastante arraigada. Fala-se muito 
em espécies em extinção, mas muita gente acha que os humanos 
1 Depois que escrevi este texto, descobri que uma espécie sobrevivente de Mystacina tinha 
sido redescoberta, num lugar isolado na ilha sul da Nova Zelândia, pelo pesquisador Colin 
O’Donnell e vários colaboradores – um achado fantástico. Há também um vídeo (disponível 
em: ; acesso em: 15 abr. 2024). Não, 
não são duas aranhas andando pelo chão no início do vídeo – já são eles, os morcegos.
extinguiram até agora relativamente poucas espécies, logo nossa 
capacidade de extinguir espécies poderia estar superestimada. 
Não é o caso. Apenas de 1600 para cá foram comprovadamente 
extintas por nós pelo menos umas 120 espécies de aves, umas 60 
de mamíferos e pelo menos 25 de répteis, entre muitas outras. 
Muitos desses casos,inclusive os aqui citados, são descritos em 
um livro maravilhoso, A Gap in Nature, de Tim Flannery e Peter 
Schouten. Além disso, já extinguimos mais de 600 espécies de 
plantas e provavelmente vários milhares de invertebrados, que são 
maisdesconhecidos. A lista continua crescendo: em 2006 foi a vez 
do baiji, o golfinho do Yang-Tsé. Isso tudo não inclui centenas 
de outras extinções de animais de grande porte causadas pelos 
humanos muito antes da Idade Moderna, que vimos antes.
Por que essas coisas ainda são tão pouco divulgadas e discutidas? 
Eram animais espetaculares, fascinantes, são histórias que mexem 
com nossos sentimentos, mas nossa cultura não parece ter olhos 
para elas. Houve uma expressiva melhora nos últimos anos, 
mas ainda é raro encontrar algo sobre as extinções históricas em 
programas de televisão, livros e revistas, e por isso elas não atingem 
nossos corações e mentes. Acho que a melhor explicação para isso é 
mesmo a imensa capacidade que a nossa cultura tem de não olhar 
para aquilo que não lhe interessa – o que é ótimo para quem quiser 
manter o status quo, mas péssimo para quem queira virar o jogo.
Quando eu era criança, história me parecia fascinante, mas 
ao mesmo tempo o menos aplicado ou menos útil de todos os 
assuntos. Minhas professoras sempre tinham o mesmo argumento 
sobre a importância do estudo da história: é preciso estudar história 
para aprender com ela e não repetir os mesmos erros. Hoje percebo 
como elas estavam certas. Como disse Paulinho da Viola na letra de 
“Dança da Solidão”, “meu pai sempre me dizia / meu filho tome 
cuidado / quando eu penso no futuro / não me esqueço do passado”.
Vera
Realce
mais desconhecidos
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O CÉU ONDE VOAVA 
O CONDOR
“A praça é do povo como o céu é do condor”, escreveu certa 
vez Castro Alves. Será que a praça, que hoje é gradeada e precisa 
ser fechada à noite, ainda é tão do povo como costumava ser? Não 
estou tão certo. Mas pelo menos o céu, lá na imensidão dos Andes, 
ainda é do condor.
Será?
O que pode ser mais típico e representativo dos Andes do que 
Machu Picchu? Desfiladeiros vertiginosos, florestas tropicais e 
rios caudalosos lá embaixo, índios peruanos em roupas coloridas, 
ruínas incas nos interrogando após um sono de quinhentos anos. A 
nenhum céu mais do que a esse pertence um condor. Machu Picchu 
representa a essência dos Andes, do que a humanidade percebe 
como sendo os Andes. Essa essência, claro, inclui os condores.
No entanto, eles não estão mais lá. Se você for a Machu Picchu 
e, como eu, vasculhar o céu, esperançosamente, à procura de um 
condor, você vai se decepcionar. Pergunte pelos condores e vão 
lhe dizer que eles desapareceram dali por volta do ano 2000. A 
causa da extinção aparentemente foi que os místicos que visitavam 
a famosa cidade perdida dos incas criaram um mercado para trajes 
cerimoniais que incluíam plumas de condor. Isso motivou uma 
intensa perseguição às aves, apesar de elas serem protegidas por lei.
Há poucos anos, você ainda poderia ver a cena majestosa do voo 
do condor sobre as antigas ruínas e os imensos desfiladeiros. Hoje 
essa visão está perdida no tempo. Caminha para ser companheira, 
no esquecimento, daqueles que viveram suas alegrias e suas dores 
naquelas casas. Minha sensação de perda, de algo incompleto e 
mais pobre, foi imensa, quase violenta. Uma sensação impossível de 
descrever, mas possível – e essa é minha esperança – de compartilhar.
Uma forma subestimada de extinção
A esta altura cabe lembrar que os condores andinos, como um 
todo, não estão extintos. Mesmo no Peru não estão. No entanto, o 
que eu não sabia é que hoje só há um lugar, em todo o Peru, onde 
ainda é possível vê-los: um cânion isolado, com pouca interferência 
humana, perto de Arequipa, a segunda maior cidade do país. 
Os condores podem ser vistos em excursões meticulosamente 
organizadas. Os turistas acordam de madrugada para poder estar 
no lugar certo, empoleirados nas rochas certas, antes do nascer do 
sol. Um punhado de condores ainda resta por lá, e eles devidamente 
levantam voo e pairam sobre os desfiladeiros ao alvorecer, sendo 
recebidos com suspiros de admiração e espocar de flashes.
Então, eles ainda existem. Mas ver um condor, espontaneamente, 
sem que seja preciso fazer uma operação de busca para abitats-lo, 
isso não existe mais. A minha ilusão, que também poderia ser sua, 
de que o condor ainda seria um elemento mais ou menos comum, 
trivial, da paisagem andina, está irremediavelmente perdida. O 
maior clássico da música tradicional peruana, popularizado por 
Simon e Garfunkel, está desatualizado. No céu sobre quase todos 
os Andes, el condor no abit más.
O condor de Machu Picchu, como de tantos outros lugares, é 
um representante de um fenômeno que é característico do mundo 
moderno, mas cuja importância subestimamos: a extinção local.
O zoólogo mexicano Gerardo Ceballos e o ecólogo norte- 
-americano Paul Ehrlich publicaram, em 2002, na Science, um 
elegante artigo intitulado “Mammal population losses and the 
extinction crisis” (“Perdas de populações de mamíferos e a crise de 
Vera
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encontrá-lo,
Vera
Riscado
pasa más.

[De onde veio esse abit ?]
[O más tb é em itálico]
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extinção”). Eles mapearam os locais, no mundo, onde 173 espécies 
de mamíferos eram encontradas no século XIX e onde as mesmas 
espécies são encontradas hoje. Essas são em sua maioria espécies de 
grande porte, para as quais se têm bons dados sobre sua distribuição 
geográfica nos dois momentos.
Ceballos e Ehrlich dividiram o mundo em quadrados de 
dois graus de latitude por dois graus de longitude. Depois 
eles simplesmente verificaram, para cada espécie, em quantos 
quadradinhos ela era encontrada há duzentos anos e em quantos ela 
ainda é encontrada hoje. Como geralmente acontece em ciência, a 
elegância vem da simplicidade.
As conclusões foram perturbadoras. Quase três quartos das 
espécies (72%) já se extinguiram em mais de metade da sua área de 
ocorrência original. Em média, cada uma delas perdeu 68% de sua 
área de distribuição. Essa porcentagem alcança, em média, 83% 
para os mamíferos asiáticos, 78% para os australianos ou 72% 
para os europeus. O condor (que, claro, não é um mamífero) está 
longe de ser uma exceção. O sumiço da maior parte de sua antiga 
distribuição geográfica é uma característica de muitas espécies em 
nosso mundo moderno.
Isso tudo se refere a quanto cada espécie perdeu, mas ainda mais 
preocupante é o outro lado da moeda: quanto cada ecossistema 
já perdeu. Se uma espécie existe em cada vez menos lugares, é 
tristemente óbvio que em cada lugar deve haver cada vez menos 
espécies. Assim é. No sudeste da Ásia, por exemplo, 57% dos 
quadrados de dois por dois graus tinham perdido entre 75 e 100% 
de suas espécies. Isso quer dizer que em muitos lugares já temos 
faunas extremamente depauperadas.
Se esses números já lhe parecem preocupantes, caro leitor, o 
pior ainda está por vir. É que a análise de Ceballos e Ehrlich é 
claramente muito conservadora. Afinal, dois por dois graus são 
quadrados gigantescos. Por causa da curvatura do planeta, seus 
tamanhos são variáveis, de acordo com a latitude do lugar em 
questão. Mas podemos dizer que, em média, cada quadrado desses 
cobre uma área de cerca de 30 mil quilômetros quadrados. Ora, 
uma espécie é registrada como sobrevivente em um quadrado se 
ela ocorre em uma única localidade que seja dentro de uma área 
tão imensa. No entanto, é muito provável que em várias outras 
localidades dentro do mesmo quadrado ela já tenha desaparecido. 
Ou seja, se Ceballos e Ehrlich tivessem usado quadrados menores, 
os números, sem dúvida, seriam muito piores.
Nossos bosques não têm mais vida
Trocando em miúdos, o que isso tudo quer dizer para um leitor 
não especialista, mas preocupadocom a conservação da natureza?
Um dos argumentos prediletos dos que dizem que as 
preocupações dos conservacionistas são exageradas é que há cada 
vez mais espécies consideradas ameaçadas de extinção, mas até 
agora relativamente poucas espécies parecem ter sido extintas por 
nós. Claro que isso é uma visão errônea, que não leva em conta 
as espécies extintas pelos humanos na pré-história e na história, 
que vimos nos capítulos anteriores e que tendem a ser ignoradas 
em nossa cultura. Também não leva em conta espécies pouco 
conhecidas e pouco conspícuas, como as de insetos, por exemplo, 
que certamente já extinguimos por destruição de seus abitats antes 
mesmo de serem descritas pela ciência.
Mas vamos considerar por um momento, apenas para efeito de 
discussão, que nós tivéssemos de fato extinguido poucas espécies até 
agora. Bem, isso tudo se refere a extinções globais. Uma extinção 
global ocorre quando uma espécie desaparece de todo o planeta. No 
entanto, os números de espécies já extintas não dizem nada sobre a 
quantidade de extinções locais (ou “perda de populações”, no título de 
Ceballos e Ehrlich). Extinções locais são eventos em que uma espécie 
é perdida num determinado lugar. Ceballos e Ehrlich mostraram que 
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extinções locais são extremamente comuns, acontecem aos montes 
no mundo de hoje. Muitas espécies ainda não estão extintas, mas já 
sumiram da grande maioria dos lugares onde antes viviam.
Vamos agora mudar o foco das espécies para os ecossistemas. 
O que isso quer dizer? Bem, onça, anta, queixada e muriqui são 
espécies típicas da mata Atlântica, certo? Errado! Não mais. A 
esmagadora maioria das – poucas – localidades onde ainda há mata 
Atlântica significativa não tem mais essas espécies. Por exemplo, um 
perturbador estudo sobre isso foi publicado por Gustavo Canale, 
Carlos Peres, Maria Cecília Kierulff e colaboradores, em 2012, na 
revista científica PLOS One. Com um esforço de campo brutal, eles 
foram a nada menos que 196 fragmentos de mata Atlântica na parte 
sul da região nordeste do Brasil, correspondendo mais ou menos 
aos estados de Bahia, Alagoas e Sergipe. Os fragmentos amostrados 
incluem praticamente todos os remanescentes significativos de 
Mata Atlântica nesse pedaço do Brasil. Os resultados falam por si 
mesmos: eles encontraram onça-pintada em apenas cinco desses 
fragmentos, e anta e muriqui em apenas um fragmento cada! Para 
o queixada foi pior ainda: não estava mais presente em nenhum 
fragmento, o que indica que já está extinto nessa vasta região do 
Brasil. A relação entre o número de espécies e a área dos fragmentos 
era fraca, mostrando que os animais tinham se extinguido mais 
por caça que por perda de abitats. Você pode conhecer uma bela 
área de Mata Atlântica e achar que esses bichos todos estão lá, mas 
é mais provável que não estejam. Eles são vítimas da caça, uma 
tragédia cotidiana e silenciosa. Ao contrário do que diz nosso Hino 
Nacional, nossos bosques não têm mais vida.
A perda do futuro
Uma Mata Atlântica sem esses bichos não fica apenas mais 
pobre. Ela deixa de funcionar como mata Atlântica. Cutias, por 
exemplo, alvos cobiçados dos caçadores, são excelentes dispersores 
de sementes. Carregam sementes das grandes árvores, enterram- 
-nas, e por vezes as esquecem. As sementes germinam e originam as 
novas árvores. Sem cutias e outros dispersores, muitas espécies de 
grandes árvores podem estar condenadas. As onças são predadores 
de topo, que têm um importante efeito de regular as populações 
de várias outras espécies, impedindo que algumas delas cresçam 
demais e se tornem monopolistas, portanto ajudando a manter a 
biodiversidade.
Um ecossistema, hoje se sabe, é muito mais que uma coleção 
de árvores. Nele funciona cotidianamente uma série de interações 
ecológicas, que fazem, tanto ou mais do que as espécies que estão lá, 
a identidade daquele ecossistema. Com a quebra desses processos, 
um ecossistema está condenado a seguir um caminho trágico de 
lenta degradação. Como disse o grande ecólogo Daniel Janzen, “o 
que escapa aos olhos é uma forma muito mais danosa de extinção: 
a extinção das interações ecológicas”.
Podemos pensar que a ausência do condor no céu andino 
seja apenas mais um elo que se perdeu em nossa ligação com um 
passado, cada vez mais distante, de um mundo ambientalmente 
mais saudável. Mas ela é muito mais que isso: simboliza, mais que 
tudo, quanto futuro está sendo perdido.
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CONSERVACIONISTAS
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ESTUDO DE UM CASO PERDIDO: 
O FALCÃO DE MAURÍCIO E 
A BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO
A história do falcão de Maurício, que durante vários anos 
sobreviveu como a ave mais rara do planeta até ser dado como 
caso perdido, é uma das mais pungentes da conservação, uma das 
mais ricas em simbolismo e – por que não dizer? – uma das mais 
inspiradoras.
O falcão de Maurício, Falco punctatus, era uma espécie 
endêmica da ilha principal – também chamada Maurício – desse 
país insular no Oceano Índico, pouco a leste de Madagascar. 
As Ilhas Mascarenhas, das quais faz parte Maurício, foram 
descobertas pelos portugueses em 1507. Embora conhecido pelos 
árabes desde a Idade Média, esse foi um dos poucos arquipélagos 
do mundo a não ter tido colonização pré-europeia, portanto um 
dos poucos a conservar uma fauna intacta até a Idade Moderna – 
incluindo o célebre dodô, Raphus cucullatus, uma grande ave não 
voadora extinta em 1681. Já seu colega menos famoso, o falcão 
de Maurício, era um excelente voador, como qualquer falcão que 
se preza. Alimentava-se de aves menores, lagartos arborícolas, 
roedores e insetos. Habitava as florestas da ilha Maurício e 
nidificava às vezes em árvores, às vezes em cavidades rochosas nos 
vertiginosos penhascos que dominavam as matas, onde as fêmeas 
colocavam apenas três ou quatro ovos por ninhada.
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Uma coleção de pressões
Com o avanço da colonização de Maurício, a expansão 
populacional foi gerando um aumento da pressão sobre o hábitat 
do falcão. Os colonizadores franceses foram responsáveis pela 
destruição da maior parte das florestas da ilha, para o plantio de 
cana-de-açúcar. No início do século XX, o falcão estava restrito às 
três únicas grandes áreas de floresta que restavam, nas regiões de 
topografia mais acidentada da ilha, os maciços de Moka, Bambous 
e Black River Gorge. O comportamento do falcão de Maurício de 
quase não voar sobre áreas abertas contribuiu para que logo essas 
três pequenas populações remanescentes estivessem completamente 
isoladas umas das outras. Pior: partes das florestas nativas das quais 
ele dependia lhe eram roubadas por várias espécies de plantas 
exóticas invasoras. Uma delas, ironicamente, era a goiabeira do 
Brasil, Psidium cattleianum – tão comportada por aqui, mas uma 
verdadeira praga por lá. O falcão não se adaptou bem aos novos 
hábitats dominados pelas plantas exóticas e sua área de distribuição 
encolheu ainda mais.
Os problemas, no entanto, estavam só começando. Outro 
problema foi a introdução de predadores exóticos, principalmente 
um macaco asiático, Macaca fascicularis, introduzido no século 
XVI, e o mangusto Herpestes auropunctatus, que foi trazido para 
controlar populações de ratos domésticos uns duzentos anos depois. 
Pode ser que o nome mangusto não lhe diga muito, mas você se 
lembra daquele bicho que enfrenta a naja nas praças da Índia, que 
é só agilidade, ferocidade e dentes? Pois é… É esse. Como quase 
sempre acontece nesses casos, tanto o macaco quanto o mangusto 
tiveram efeitos devastadores sobre a fauna nativa. Ambos – para 
os quais escalar árvores ou penhascos não era um obstáculo – se 
tornaram vorazes predadores do falcão de Maurício.
Para complicar ainda mais a situação, pesticidas organoclorados 
foram utilizados em massa em Maurício de 1948 a 1973 – 
especialmente o DDT, de infame história. O DDT quase tinha 
levado à extinçãodo sol baixo atrapalhava a visão. Mas então Úrsula viu 
a pequenina.
Lá vinha Babyl, penosamente, em seus passinhos curtos, se 
juntar aos outros. Pilar estava com ela, incentivando-a, como 
sempre. Úrsula olhou para elas com carinho. Perto das duas irmãs, 
Vasily parecia andar meio a esmo, divertindo-se, explorando o 
novo lugar com aquela sua curiosidade infantil.
Um pouco mais tranquila, Úrsula prosseguiu, liderando os 
outros. Concentrada, ela avançava devagar, parando de vez em 
quando. Babyl não podia ir mais rápido. Ely, com seus joelhos 
fracos, também não aguentaria. Desde criança os joelhos dele 
nunca tinham sido bons, imagine agora que já era quase um velho. 
O calor daquele dia bonito na savana também não tinha ajudado 
em nada. Úrsula estava com sede, os outros também deveriam 
estar. De repente ela sentiu uma inquietação, e por um momento 
se esqueceu até da sede. Ela havia estado naquele lugar anos atrás, 
lembrava ainda do rio, promessa de uma vida melhor para todos 
eles. Mas agora era preciso chegar à água, rápido, e ela refazia em sua 
mente o caminho até lá, costurando memórias antigas. Enquanto 
procurava o caminho, ela sentia uma vaga sensação de perigo, que 
não conseguia entender bem.
Enquanto Úrsula estava imersa em suas meditações, Vladimir 
passou a seu lado andando rápido na direção contrária, gritando, 
fazendo uma barulheira, com aquela exuberância típica da juventude. 
Ele foi lá para o fim da fila, atrás de Tania e da bela Remedios, 
que pareciam muito distraídas andando juntas. Úrsula prosseguiu, 
caminhando devagar ao lado de Ely. Procurando o caminho, eles se 
viraram em direção ao sol já baixo no horizonte, sentindo o vento 
bater em suas costas. Ely parecia querer lhe dizer algo…
Foi então que vieram os tiros.
Úrsula nem soube de onde vieram. O matraquear seco de um 
fuzil automático quebrou abruptamente o silêncio da savana, 
ecoou nas árvores em volta, pareceu vir de todos os lados. Ela não 
sentiu nada, mas a seu lado o impacto devastador da rajada de 
balas acertou Ely em cheio. Os joelhos das patas dianteiras de Ely 
se dobraram; sua tromba tocou o chão. Aqueles joelhos que sempre 
tinham sido seu ponto fraco, agora rígidos demais num elefante 
idoso, não lhe tinham dado rapidez suficiente para fugir, naquela 
fração de segundo entre perceber os caçadores e ouvir os tiros.
Ely tentou penosamente se erguer, gritando de dor e de medo, 
sem conseguir esticar as patas dianteiras, sem conseguir nada mais 
do que dar o flanco para os caçadores. Outra rajada o retalhou; por 
um segundo um brilho branco fez um arco pelo ar, e então tudo 
se perdeu numa confusão de cinza e vermelho. O imenso elefante 
tombou para o lado, ainda se debatendo, até que seus movimentos 
foram parando aos poucos. O maior do grupo, com as maiores 
presas, Ely tinha sido o primeiro alvo.
Úrsula gritava descontrolada, em pânico, sem entender a 
tragédia que se desenrolava rapidamente à sua volta. Ouvindo os 
gritos lancinantes da matriarca do grupo, Vladimir veio correndo 
lá de trás. Ele tinha jogado fora sua única chance. Escondido atrás 
das fêmeas adultas Remedios e Tania, Vladimir tinha passado 
despercebido para os caçadores. Mas agora, correndo loucamente 
na direção dos fuzis automáticos, com seus hormônios adolescentes 
em fúria, era um alvo perfeito. Os tiros o pegaram em cheio na 
cabeça. Vladimir parou, titubeou, desequilibrou-se e rolou para 
frente. Caiu sobre as costas; e as patas ainda ficaram se movendo no 
ar por alguns instantes em movimentos espasmódicos. Vladimir era 
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só um macho jovem, mas suas presas já eram grandes o suficiente, 
os contratantes iriam pagar bem por elas.
Vendo sua vida ser destruída em segundos à sua volta, Úrsula 
rodopiava em confusão total, sem saber se enfrentava os caçadores 
ou se ia lá para trás para proteger suas filhas e os outros. Em sua 
oscilação desordenada, avançou alguns metros na direção dos 
caçadores, e foi então que eles atiraram. Não precisavam. Ela não 
tinha marfim. Mas naquela confusão geral, naquela embriaguez de 
sangue e de morte, tinha bastado que alguém apertasse um gatilho 
por dois ou três segundos.
Ferida de morte, vendo o manto vermelho que lhe subia aos 
olhos, a velha matriarca olhou pela última vez lá para trás, viu suas 
filhas fugindo como podiam, ou como Babyl podia. Então suspirou 
e se deixou tombar.
Instantes depois, lá atrás, Babyl parou exausta numa clareira, 
Pilar sempre a seu lado. Vasily tinha vindo, aterrorizado também, 
para se encontrar com elas. Os três não entendiam o que tinha 
acontecido, não entenderiam nunca, mas com o tempo viria a 
percepção de que tinham se tornado órfãos.
Meses mais tarde, Vasily voltaria ali e contemplaria longamente 
os ossos de Úrsula. Para ele, a infância tranquila se fora para 
sempre. Anos depois, Vasily também teria uma morte violenta, 
abatido por participar de um daqueles grupos de machos solitários, 
desajustados e violentos que atacavam as plantações à volta.
Uma história possível
Você achou no início que eu estava falando de pessoas? Se 
achou, teve ótimas razões. A nossa literatura costuma falar sobre 
nós, humanos – sobre nossos sentimentos, nosso sofrimento, nossas 
emoções. Como poderia ser de outra forma? Nós somos animais 
sociais, importamo-nos uns com os outros, e é o nosso próprio 
universo emocional que compartilhamos. Shakespeare, Machado 
de Assis ou Gabriel García Márquez são verdadeiros tratados sobre 
a natureza humana. A literatura faz nossas vidas melhores e tem 
feito o mundo melhor. Mas minha pergunta é: será que precisamos 
falar sempre apenas de nós? Hoje, esse nosso foco absoluto em nós 
mesmos faz cada dia menos sentido, à medida que a ciência vem 
nos mostrando a riqueza das vidas emocionais de outras espécies 
que compartilham o planeta conosco.
Veja, por exemplo, os elefantes. A narrativa acima é fictícia, 
mas poderia ser real – bem, pelo menos fiz o melhor que pude. 
Usei apenas comportamentos já observados em estudos reais com 
elefantes africanos. Esses animais inteligentíssimos formam grupos 
sociais nos quais os mesmos indivíduos vivem juntos por anos. 
Têm aparências e personalidades muito diferentes, facilmente 
reconhecíveis por um estudioso, assim como uns pelos outros. Sua 
sociedade é matriarcal; os grupos são liderados por fêmeas adultas 
como Úrsula. Solidariedade do grupo com um filhote que tenha 
nascido com um defeito físico, como Babyl, já foi observada várias 
vezes. Elefantes órfãos se tornarem desordeiros e revoltados, como 
Vasily, também é comum. Já o comportamento de contemplar 
longamente os ossos de outros elefantes – mas não de outros 
animais – levanta a fascinante possibilidade de que esses animais 
têm alguma concepção da morte, assim como vínculos afetivos que 
sobrevivem a ela.
Os nomes que usei também são de bichos reais. São nomes 
dados pela pesquisadora Cynthia Moss a alguns elefantes da 
população de Amboseli, no Quênia, que ela estudou por mais de 
quarenta anos. Por falar nisso, ela deve gostar de García Márquez, 
porque os nomes de várias das fêmeas (como Úrsula, Pilar e 
Remedios) são de personagens femininas de Cem anos de solidão. 
Mais que isso, Babyl e Ely são baseados em elefantes reais, com 
as características físicas e o relacionamento com o grupo que eles 
tinham nos estudos de Moss.
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Universos ao nosso redor
Enquanto você está lendo isso, um grupo de elefantes como o 
de Úrsula vagueia em algum lugar do nosso planeta – hoje sabemos 
que com suas próprias personalidades, suas próprias emoções, suas 
próprias histórias, suas próprias vidas. Mas quanta atenção nós 
prestamos a isso? Enquanto nossa espécie já parece estar esgotando 
a sua imensa capacidade de olhar apenas para seu próprio umbigo, 
sequer olhamos para a maravilhosa descoberta que seria a de outros 
universos emocionais inteiros, inéditos, à nossa volta.
Há alguns anos deparei com uma entrevista de Robert Ballard 
– um explorador subaquático, famoso pela descoberta dos restos 
do Titanic,

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