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medieval Prof. Anderson Pinho FILOSOFIA MEDIEVAL A Idade Média abarca um período tão extenso que é difícil caracterizá-la sem incorrer no risco da simplificação. Afinal, são mil anos (de 416 a 1455), entre a queda do Império Romano do Ocidente e a tomada de Constantinopla pelos turcos. A Alta Idade Média, período que se sucedeu à queda do Império, é caracterizada por um estado de desagregação da antiga ordem e pela divisão do Império em diversos reinos bárbaros. Mas, antes da queda, numa tentativa desesperada de salvar o Império Romano, em 380 o imperador Teodósio torna o cristianismo, que já era a seita religiosa com o maior número de seguidores, a religião oficial. Desse modo, estabelece-se a ligação entre Estado e Igreja, pois esta legitima o poder do Estado, atribuindo-lhe uma origem divina. Não deu muito certo! O Império caiu, mas a Igreja Católica (do grego καθολικος /katholikos = universal) Apostólica, e agora, Romana, emergiu e se tornou a maior instituição do mundo (até hoje). O desejo de unidade de poder, de restauração da antiga unidade perdida, se expressa na difusão do cristianismo que representa, na Idade Média, o ideal de Estado universal. Nesse cenário de fragmentação, a Igreja surgia como um elemento de união, crescendo no vácuo que foi deixado pelo desaparecimento do império. Assim, a religião surge lentamente como elemento agregador dos inúmeros reinos bárbaros formados após sucessivas invasões; seus chefes são pouco a pouco convertidos ao cristianismo, e a Igreja se transforma em soberana absoluta da vida espiritual do mundo ocidental. Ponte entre o homem e Deus, ela teria a última palavra (a única) sobre como deveria ser a vida de seu rebanho e sobre o que era o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto. Seria, portanto, a dona da mente e, por conseguinte, dos corpos das pessoas. Poderosa não apenas do ponto de vista espiritual, mas também político, ninguém melhor do que ela para dizer como Deus queria que a sociedade (agora baseada nas relações de suserania e vassalagem estabelecida entre o senhor feudal e os seus servos) fosse organizada, legitimando assim, uma sociedade hierarquizada, desigual e sem mobilidade social. Definida pelo critério de sangue, quem nascia nobre morria nobre, quem nascia servo, morria servo. Nesse contexto, a Igreja exerce enorme influência, na medida em que mantém o monopólio do saber, pois são os monges os únicos letrados em um mundo onde nem os servos nem os nobres sabem ler. Desde a invasão dos bárbaros, a cultura greco- latina permanecera por muito tempo confinada aos mosteiros, ressurgindo lentamente após o século VIII, no período conhecido como renascimento carolíngio, ocasião em que Carlos Magno mandou fundar inúmeras escolas junto às igrejas e mosteiros. Dessa forma, os intelectuais pertencem às ordens religiosas e, consequentemente, as principais questões filosóficas referem-se às relações entre fé e razão, sendo que esta se encontra sempre subordinada àquela. Se a fé é o conhecimento mais elevado e o critério mais adequado da verdade, a filosofia não é a busca da verdade, pois esta já foi encontrada, mas a ela cabe apenas o trabalho de demonstração racional dessa verdade. No entanto, não devemos considerar todo o período medieval (sécs. V a XV, portanto mil anos) como sendo de obscuridade. Em vários momentos, há expressões diversas de produção cultural às vezes tão heterogênea que se torna difícil reduzir o período àquilo que se poderia chamar pensamento medieval. Uma constante se faz notar no pano de fundo desse pensamento: a tentativa de conciliar a razão e a fé. A temática religiosa predomina a preocupação apologética, isto é, na defesa da fé cristã e no trabalho de conversão dos não-cristãos. A máxima predominante é "Crer para compreender, e compreender para crer". A filosofia, embora se distinguindo da teologia, é instrumento desta, é serva da teologia. De início os religiosos têm receios quanto à produção dos gregos, por serem eles pagãos, mas com as devidas interpretações e adaptações segundo a fé cristã, o pensamento medieval é fertilizado inicialmente pelo pensamento de Platão (nas obras da patrística, sobretudo de Santo Agostinho) e depois pelo de Aristóteles (no pensamento de Santo Tomás). Apesar do risco de simplificação, divide-se a Idade Média em duas tendências fundamentais: a filosofia patrística e a escolástica. 1. A PATRÍSTICA (Séc. II ao VII) Na decadência do Império Romano, surge a partir do século II a filosofia dos Padres da Igreja, conhecida também como patrística, isto é, dos primeiros dirigentes espirituais e políticos do cristianismo, após a morte dos apóstolos. A patrística resultou do esforço para conciliar a nova religião com o pensamento filosófico dos gregos e romanos, pois somente assim seria possível combater as heresias e justificar a fé para convencer os pagãos da nova verdade e convertê-los a ela. A filosofia patrística liga-se, portanto, à evangelização e à defesa da religião cristã contra os ataques teóricos e morais que recebia dos antigos. A patrística introduziu ideias desconhecidas para os filósofos greco-romanos: a ideia de criação do mundo a partir do nada, de pecado original do homem, de Deus como trindade una, de encarnação e morte de Deus, de juízo final ou de fim dos tempos e ressurreição dos mortos, etc. Precisou também explicar como o mal pode existir no mundo, uma vez que tudo foi criado por Deus, que é pura perfeição e bondade. Introduziu, sobretudo com Santo Agostinho, a ideia de “homem interior”, isto é, da consciência moral e do livre-arbítrio da vontade, pelo qual o homem, por ser dotado de liberdade para escolher entre o bem e o mal, é o responsável pela existência do mal no mundo. Para impor as ideias cristãs, os padres da Igreja católica as transformaram em verdades reveladas por Deus (por meio da Bíblia e dos santos) que, por serem decretos divinos, seriam dogmas, isto é, verdades irrefutáveis e inquestionáveis. Com isso, criou-se uma distinção entre verdades reveladas ou da fé e verdades da razão ou humanas, ou seja, entre verdades sobrenaturais e verdades naturais, as primeiras introduzindo a noção de conhecimento recebido por uma graça divina, superior ao simples conhecimento racional. Dessa forma, o grande tema da filosofia patrística é o da possibilidade ou impossibilidade de conciliar a razão com a fé. A esse respeito, havia três posições principais: 1. os que julgavam fé e razão irreconciliáveis e a fé superior à razão (diziam eles: “Creio porque absurdo”); 2. os que julgavam fé e razão conciliáveis, mas subordinavam a razão à fé (diziam: “Creio para compreender”); 3. os que julgavam razão e fé irreconciliáveis, mas afirmavam que cada uma delas tem seu campo próprio de conhecimento e não devem se misturar (a razão se refere a tudo o que concerne à vida temporal dos homens no mundo; a fé, a tudo o que se refere à salvação da alma e à vida eterna futura). 1.1 SANTO AGOSTINHO Aurélio Agostinho (354 – 430), o primeiro grande doutor da igreja foi um cidadão romano da cidade de Tagaste, uma província romana no norte da África. Conhecido popularmente como Santo Agostinho de Hipona, fez parte da vertente filosófica conhecida como “Patrística”. Durante parte da sua vida foi tido como pagão. Construindo sua espiritualidade e seu pensamento com base em suas próprias vivências, teve influência de sua mãe Mônica (mulher de forte fé), mas não somente dela, também o bispo Ambrósio, Cícero (convertendo-o à filosofia), Plotino e Porfírio (o pensamento neoplatônico), o Maniqueísmo e a Bíblia (particularmente as Cartas de Paulo) são exemplos de modelos culturais que influenciaram Agostinho. Agostinho apropriou-se de muitos elementos da filosofia platônica para fundamentar sua explicação da doutrina cristã. Muitos autores afirmam que Santo Agostinhoinduziu Ockham a conceber o mundo como conjunto de elementos individuais, sem laço verdadeiro entre si e não ordenáveis em se tratando de essência. Ockham chega a negar a distinção interna entre matéria e forma no indivíduo pois, caso fosse real, haveria um comprometimento da unidade e da existência do indivíduo. Assim, há um primado do indivíduo, que tem como consequência o entendimento de que o objeto próprio da ciência é formado pelo objeto individual, e também que há um universo fragmentado em indivíduos isolados e contingentes, pois dependem da livre escolha divina. Conhecimento intuitivo e conhecimento abstrato O conhecimento está baseado no primado da experiência (que foi originado com o primado do indivíduo) e se distingue em: complexo (que se refere às proposições resultantes e compostas de termos) e não-complexo (que se refere aos termos singulares e aos objetos que eles designam). O conhecimento não- complexo pode ainda ser dividido em: intuitivo (capta a existência ou não dos objetos, dividindo-se em sensível, que pode ser exemplificado como “conhecer esta mesa”, e intelectual, pois o intelecto conhece seus próprios atos e movimentos da alma) e abstrativo (baseado no intuitivo, pode ser conhecimento do que é abstrato ou conhecimento que abstrai algo de muitos singulares). Há também o conhecimento intuitivo perfeito (que se refere à realidade presente) e o imperfeito (se refere à realidade do passado). Podemos notar que o empirismo de Ockham é radical. O universal Ockham afirmou diversas vezes que o universal não é real – essa realidade é contraditória, é essencialmente individual. Suas ideias fazem parte do nominalismo. Os universais são nomes, não são uma realidade nem algo com fundamento na realidade. Desse modo, compreendemos que os universais são termos (formas verbais) por meio das quais a mente humana estabelece relações de dimensão lógica, ou seja, o alcance é apenas lógico. Os universais são “sinais abreviativos”, que indicam a repetição de múltiplos conhecimentos semelhantes, produzidos por objetos semelhantes. Um exemplo: o nome “Sócrates” se refere a determinada pessoa, e o nome “homem” é mais genérico e abstrato, uma vez que se refere a todos os indivíduos que podem ser indicados por esse conceito (por isso, é chamado de universal). No que se refere ao conhecimento (ao saber, à ciência), para ele bastava um conhecimento provável que, através de repetidas experiências, permitisse presumir que aquilo que aconteceu no passado teria grandes chances de acontecer também no futuro. A Navalha de Ockham Com esta metáfora, Ockham pretendia criticar o platonismo das essências, os pilares da metafísica e a gnosiologia tradicional. Com a “lâmina da navalha”, vários princípios caem por terra, como o de substância, de causa eficiente, de intelecto possível. Para ele, por exemplo, o conceito de substância representa apenas uma realidade desconhecida. Nós só conhecemos das coisas as qualidades ou os acidentes que a experiência revela. Ockham desejava elaborar um princípio segundo o qual não fosse necessário multiplicar os entes e construir um mundo ideal de essências. A navalha de Ockham permite excluir conceitos e entes supérfluos (como os metafísicos), bem como acredita que não é necessário admitir nada fora dos indivíduos, e que o conhecimento fundamental é o conhecimento empírico. Com esse pensamento crítico sobre a metafísica tradicional, a lógica assume outro lugar, que é mais autônomo e rigoroso, e é constituída por puros símbolos. Aqui, há uma separação entre plano conceitual e plano real. Ockham elabora uma nova lógica, separada da realidade, com clareza na definição dos termos, na linguagem, em relação à realidade designada, e que exige um realismo no saber. O problema da existência de Deus Sobre o conhecimento de Deus, Ockham afirma que não é possível que o homem conheça a Deus intuitivamente, de forma natural. Segundo ele, seria preciso se basear em causas conservantes: causas que mantém as coisas em seu ser, as quais possibilitam inferir, da existência em ato do mundo, a existência de Deus, como primeira e suprema causa conservante. Ockham deixa claro que a razão humana está em um campo restrito acerca de Deus e possui um “papel irrelevante”, enquanto que a fé está num âmbito mais amplo, que é o das verdades conhecidas por meio da Revelação. A função do teólogo seria, da altura daquelas verdades, demonstrar a insuficiência da razão, não de demonstrar pela razão as verdades aceitas por fé. Ockham pensa em um conceito de razão mais rigoroso, estabelecendo seus limites, ao mesmo tempo em que preserva a especificidade e a alteridade das verdades de fé. A síntese do pensamento de Ockham será credo et intelligo. Ockham e os ockhamistas Ockham e os ockhamistas (seus discípulos) propuseram uma nova forma de pesquisa científica, que tinha por base o conhecimento experimental. Para eles, nós podemos conhecer cientificamente apenas o que se dá por meio da experiência – fato que motiva também a lógica, que nos permite relacionar as afirmações com a efetiva realidade dos indivíduos (Ockham rejeita a ideia de que entidades metafísicas sejam tidas como concretas, como o movimento, o espaço, o tempo, etc.). Além disso, o método de Ockham avalia que a preocupação deveria estar voltada em como as coisas (os fenômenos) se verificam, não que coisa são, ou seja, não sua natureza, mas sua função. Um outro método consiste na multiplicidade das hipóteses explicativas. Ele não considerava possível promover a pesquisa científica com princípios definidos ou com estruturas necessárias. Se estamos em um contexto de um mundo criado pela liberdade de Deus, seria então possível examinar todas as hipóteses explicativas, mas controlando essas hipóteses com os dados experimentais oferecidos pelo conhecimento intuitivo sensível. Em outras palavras, isso consistiria em tomar em exame outras hipóteses além das que a evidência solicita. Ockham pensava em uma concepção do universo como homogêneo em seus elementos estruturais. A aceitação da pluralidade de hipóteses possibilitou a refutação por parte dos ockhamistas a necessidade da não-existência do vazio, ou os princípios da física aristotélica relacionados à teoria dos projéteis (corpos atirados no espaço), ou fez formular hipóteses sobre a rotação da terra (por conta de João Buridan e Nicolau de Oresme). O universo aristotélico era um sistema de causas necessárias e ordenadas que compunham a estrutura do universo, mas Ockham fez jus à metáfora da sua navalha e “eliminou” isso, superando também a hipostatização de entidades como tempo, espaço, movimento, lugar natural etc., que fundava parte significativa da reflexão medieval. Com Ockham, se fecha um período e se abre outro, ou uma nova física. Os ockhamistas pensaram em um novo paradigma científico que ultrapassasse o aristotelismo. Em se tratando do método, os discípulos de Ockham opõem a concepção aristotélica do conhecimento científico, caracterizada pela universalidade e pela necessidade (podemos notar isso com o termo episteme utilizado por Aristóteles), o conhecimento científico do particular e o probabilismo. Assim, vimos que a concepção ockhamista da ciência demonstra um aspecto empírico, operacional e eficaz à pesquisa que, de certo modo, antevê características que serão fortemente desenroladas com a Revolução Científica.cristianizou Platão. Assim como Platão julgava o intelecto superior à matéria, Santo Agostinho pregava a superioridade da alma ante o corpo, e sendo a alma um presente de Deus, devíamos nos voltar inteiramente à Ele. Já no fim de sua vida, o filósofo lutou contra as heresias. Dentre suas principais obras, podemos citar: Os Solilóquios, A Trindade, A Cidade de Deus e Confissões. O modo como Agostinho pensava o equilíbrio entre fé e razão permitiu compreender que elas são complementares: a fé não substitui tampouco elimina a inteligência, mas a estimula; do mesmo modo também ocorre com a relação entre a inteligência e a fé, onde a primeira fortalece a segunda. Assim, não via como antagônicas fé e razão, mas afirmava que para se compreender era necessário crer, subordinando, portanto, a razão à fé. “Alma” e “Deus” são as bases da filosofia agostiniana. Na relação alma-Deus, o ponto central é o conceito de “verdade”, que pode ser ilustrado pela seguinte passagem: “não busques fora de ti (...); entra em ti mesmo. A verdade está no homem interior”. Santo Agostinho acreditava que a Verdade plena não poderia ser encontrada utilizando apenas a razão, mas o pensamento humano deveria estar “iluminado” – ele acreditava que “a fé precede a razão”. A doutrina da Iluminação A teoria (doutrina) de Santo Agostinho possui determinada inspiração platônica, no entanto, ele substitui a teoria da reminiscência (ou anamnese) de Platão – que diz que as ideias já estariam em nossa alma e, portanto, caberia aos indivíduos trazê-las à mente – para elaborar a sua Teoria da Iluminação. Para Agostinho, as ideias são a verdadeira realidade, são “pensamentos eternos de Deus”, são imutáveis, e estão na mente do Deus criador, na inteligência divina. Ele as entende como formas fundamentais, como se fossem os modelos dos quais são feitas todas as coisas. Assim, toda coisa foi criada conforme uma razão ou ideia própria. Mas, como o homem conhece as ideias? A alma humana conhece as ideias através da inteligência, da alma racional, que é a coisa mais próxima de Deus, e é iluminada pela luz inteligível. Agostinho utiliza o sol para exemplificar e nos diz que, assim como o sol existe, resplandece e ilumina, também Deus existe, é inteligível e torna inteligíveis todas as outras coisas. Portanto, notamos que Deus, enquanto Suma verdade, ilumina, e que a mente de Deus possui os modelos (ou seja, as ideias) de todas as coisas. Deus, no momento da criação, “participa às coisas a capacidade de manifestar-se pela verdade, e às mentes a capacidade de colhê-las”. Sendo assim, na doutrina agostiniana, é Deus quem ilumina o intelecto do homem, e que permite que o espírito humano seja capaz de conhecer. Deus O filósofo tinha Deus como a fonte da verdade, ou seja, entendia que a verdade se encontrava em Deus. Ao afirmar que “Deus é Verdade”, Santo Agostinho demonstra que a existência da Verdade condiz com a demonstração da existência de Deus. Sendo assim, podemos considerar que, ao procurar a verdade, o homem está procurando Deus. Agostinho forneceu algumas provas da existência de Deus, dentre elas entender que a perfeição do mundo estava ligada ao seu criador e que os seres humanos admitem que Deus é o criador do mundo. Se o criador do universo é Deus, então, se pode conhecê- lo. O entendimento de Agostinho a respeito de Deus não possuía um sentido aristotélico, ou seja, o sentido de motor imóvel para explicar o cosmo, com intenções intelectuais. O sentido é de “desfrutar” Deus, de amá- lo, de ocupar o vazio interior (do espírito), de ser feliz e acabar com as inquietudes. Santo Agostinho pensou em atributos essenciais de Deus, são eles: Ser, Verdade, Bem e Amor – no entanto, esses atributos não devem ser pensados como “propriedade”, mas possuem o sentido de coincidir com a essência dele. Um Deus que, conforme a Bíblia, é “Aquele que é”. Trindade Deus é essencialmente Trindade: é Pai, Filho e Espírito Santo. Essas três Pessoas são inseparáveis, são “o único verdadeiro Deus”. Agostinho distingue cada uma delas segundo a relação. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são, cada um, Deus, e os três são um só Deus. Isso pode ser entendido da seguinte forma: cada um deles é substância e, os três juntos são uma só substância. A relação entre as Pessoas é mútua, onde o Pai “tem” o Filho, mas não é o Filho; do mesmo modo, o Filho tem o Pai, mas não o é – e assim acontece com o Espírito Santo. A doutrina trinitária de Agostinho apresenta a Trindade segundo o qual tudo aquilo que cada Pessoa é, é em relação a um ou a ambos. O filósofo tentou compreender a Trindade, no entanto, considerava que nossa mente é limitada e, por isso, não seria possível compreendê-la. Sobre isso, há uma lenda que diz que Agostinho passeava na praia pensando no mistério da Trindade e encontrou um menino, que era anjo, e havia cavado um buraco na areia. O menino jogava água várias vezes nesse buraco, a fim de colocar toda a água do mar ali. Agostinho então lhe disse que aquilo era impossível, e ele lhe respondeu que “seria mais fácil transferir toda a água do mar para aquele buraco do que compreender o mistério da Trindade”. A criação das coisas, dizia o bispo de Hipona, se dá “do nada” (ex nihilo), mas uma realidade pode derivar de outra de três modos, a saber: por geração, onde se origina da própria substância do gerador (por exemplo, o pai que “gera” o filho), criando algo de idêntico ao gerador; por fabricação, onde a coisa que é fabricada deriva de algo, uma matéria, preexistente fora do fabricante (por exemplo, as coisas/artefatos que o homem produz); por criação a partir do nada. Em outras palavras, o homem sabe gerar e produzir, mas não sabe criar, pois é um ser finito – ao passo que Deus “cria” o cosmo do nada e, ao fazer isso, cria o próprio tempo juntamente com o mundo. Tempo Sobre o tempo, Agostinho se perguntava: “o que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?”. Com essa indagação, ele começou a analisar o tempo, e pôde afirmar que, antes de Deus criar o céu e a terra, não havia tempo. O tempo é criação de Deus, e existe no espírito humano, porque é nele que se encontram o passado, o presente e o futuro. Os tempos são três: o presente do passado (memória); o presente do presente (intuição); o presente do futuro (espera). O tempo presente pode dirigir-se ao passado por meio da memória/lembrança, e ao futuro através da espera. Portanto, a ideia de antes e depois, assim como a ideia de medir os tempos se originaram com a consciência humana. O tempo pertence ao homem, que é a criatura, e não ao Criador. Tempo e eternidade são dimensões distintas. O tempo presente é um contínuo “deixar de ser”, enquanto que a eternidade “existe sempre”. Sendo assim, Deus é eterno, e não depende do tempo para existir. Já dissemos aqui que Deus criou o mundo do nada. A fim de explicar a criação, Agostinho utilizou a teoria das Ideias de Platão, que se transformam em “verbos de Deus”: Deus criou o mundo segundo a razão, elaborando um modelo como seu pensamento (as Ideias são estes pensamentos, são eternas e imutáveis). Ou seja, Deus criou todas as coisas através do Verbo, que é o princípio de tudo. As razões seminais (entendidas como germes, sementes, cópias das ideias) também são utilizadas por Agostinho para explicar a criação. As sementes, ao longo do tempo, vão se desenvolvendo de diversos modos em diversas circunstâncias. Deus criou a matéria, assim como todas as possibilidades de concretização dela, incluindo suas razões seminais. O problema do mal Se Santo Agostinho entende que Deus é Bem, e se tudo provém de Deus, então de onde provém o mal? Se todo bem, por mínimo que seja, vem de Deus, então quem é o autor do mal? O filósofo buscou analisar a problemática em três âmbitos: o do mal metafísico- ontológico, que está ligado à nossa finitude, contingência, desordem em tudo que existe, e àimperfeição; o do mal moral, que se refere ao pecado – que, por sua vez, depende da má vontade (aqui, devemos saber que é da natureza da Vontade tender ao Bem supremo, ocorre que, às vezes, a vontade pode preferir bens inferiores, consistindo em uma escolha incorreta. O homem recebeu de Deus a vontade livre, e o mal consiste no mau uso dela, ou seja, é fruto das ações humanas); por último, temos o mal físico, que se refere às doenças, ao sofrimento, à morte e é consequência do pecado original (portanto, do mal moral). Cabe ressaltar que, para Agostinho, o pecado original foi o primeiro desvio da vontade e que, após isso, o homem passou a necessitar da graça divina. O mal, assim sendo, é de responsabilidade do homem, que é livre e pode responder pelas escolhas que faz e pelas consequências delas. Agostinho não pretendia deixar ser atribuído a Deus a responsabilidade pelo mal e pelo pecado. Por isso, o pecado que o homem comete é culpa totalmente dele. O bispo de Hipona reafirma sempre a bondade de Deus. Cidade de Deus Contemporâneo do declínio do Império Romano, Agostinho respondeu à acusação de que fora o cristianismo o culpado pela queda, e pôs a culpa no paganismo. Sua resposta veio na obra Cidade de Deus, onde, segundo ele, há a cidade espiritual de Deus e a cidade material dos homens. Elas não coexistem separadamente, mas no plano de nossa existência a depender de nossa vontade de viver uma vida de pecado na cidade terrena dos homens, ou se voltar para deus e viver em sua graça como um de seus servos. Na obra “Cidade de Deus”, Santo Agostinho discursou contra os pagãos a favor da religião cristã, utilizando uma representação da sociedade humana dividida em polos opostos: um bom (cidade celestial) e outro mau (cidade terrena). A cidade celestial é o oposto da terrena, e ambas são movidas por amores também opostos. Agostinho descreve o mundo dividido da seguinte forma: o dos homens (ou seja, o mundo terreno) e o dos céus (ou seja, o mundo espiritual). Para ele, o amor a si mesmo é o mal, pois gera um desprezo por Deus; já o amor a Deus constitui o bem. Santo Agostinho considerava que a essência do homem era o amor, e pensou em duas cidades: a “Cidade terrena”, que pertence àqueles que vivem segundo o homem, e a “Cidade celeste/divina”, que pertence àqueles que vivem segundo Deus, destinados à salvação. O homem bom não tem os bens finitos como fins e objetos de fruição, ele é aquele que ama do modo justo, que ama conforme o juízo de Deus. O amor do homem é o que determina seu destino terreno e ultraterreno. Percebam que a boa vida não é mais aquela voltada para o desenvolvimento da racionalidade humana dentro de uma comunidade política, cujo Bem era encontrado por meio da razão e ensinado por meio de um processo educacional virtuoso, como teorizaram os gregos. Agora, o conhecimento do bem não dependia mais de uma instrução racional, mas apenas da vontade individual de cada um, por meio do livre-arbítrio, de viver uma vida voltada para Deus. E a compreensão de como vivê-la é obra da graça divina que ilumina o coração de quem estiver aberto para isso. 2. A ESCOLÁSTICA No século VIII, o imperador franco Carlos Magno começou a estimular e difundir o ensino ao construir escolas que seriam dirigidas pela Igreja, retirando dos mosteiros o monopólio do ensino. A cultura greco-romana passa a ser divulgada nos moldes romanos, ou seja, passa a ser ensinado gramática, retórica, e dialética (trivium), além de geometria, aritmética, astronomia e música (quadrivium), todas elas, é claro, sob um viés teológico. Essa nova fase do pensamento da Igreja é chamado de escolástica e tem como principal expoente Tomás de Aquino. 21. SEVERINO BOÉCIO Boécio (480 – 524) nasceu em Roma e foi considerado pelos estudiosos como “o último dos romanos e o primeiro dos escolásticos”, sendo seu pensamento fundamental durante o surgimento da Idade Média. Ele tinha a pretensão de que os latinos conhecessem a cultura grega, e para isso, fez traduções e comentários às obras de lógica de Aristóteles (como as Categorias, De interpretatione, Organon), assim como das obras de Platão, comentou também os Tópicos de Cícero. Sua obra mais famosa é o De consolatione philosophiae. Boécio também compôs tratados teológicos como: De Trinitate; Utrum Pater et Filius et Spiritus Sanctus de divinitate substantialiter preadicentur; Quomodo substantiae in eo quod sint, bonae sint; Liber contra Eutychen et Nestorium. Os universais Ao comentar o Isagoge de Porfírio, Boécio encontrou questões acerca dos universais, tais como: se eles existem ou não, se eles são ou não corpóreos, e caso sejam incorpóreos, se estão ou não unidos às coisas sensíveis. Não foram encontradas soluções de Porfírio sobre essas questões, mas Boécio propôs algumas que tiveram um viés de realismo moderado. De acordo com ele, o universal (homem, animal, etc.) só existe enquanto universal no intelecto, sendo, portanto, incorpóreos. Se abstrai dos homens singulares suas características comuns para se obter os universais – pois não existe o “homem universal” na realidade, apenas homens singulares. De consolatione philosophiae Nessa obra, Boécio considerou que a filosofia pode mostrar ao homem a verdadeira felicidade (que é Deus ou o sumo Bem), bem como pode afastá-lo de bens fictícios, que são os bens materiais. Ele afirmava que não é nas coisas terrenas que se deve buscar a felicidade, pois o bem não se encontra nas riquezas, nos prazeres, no poder, nem nas honras ou glórias. Em outro sentido, não se pode negar que a bem- aventurança exista, pois os bens “imperfeitos” participam, de certo modo, do perfeito. Seria preciso reconhecer que a felicidade é Deus, e ambos são o sumo Bem. Portanto, a filosofia nos ensina a crer na providência divina, mesmo com a presença do mal, pois mostra o caminho da realidade para o bem. O problema do mal e a liberdade Se o mundo é governado por Deus, como existe o mal e por que os maus ficam impunes? Boécio enfrenta esse problema nos dizendo que a Filosofia observa que todos aqueles que se afastam da honestidade são pessoas infelizes, mas ele também se atenta para o fato de que as coisas andam ao contrário, por exemplo, os bons sofrem enquanto os maus se apropriam da recompensa que cabe à virtude – uma confusão de valores. A Filosofia permite que Boécio compreenda os princípios que regulam tais acontecimentos. Tal princípio é a Providência, que se trata da razão divina, que se encontra no supremo ser, que governa a todos e é senhor de todas as coisas. Já a realização dos acontecimentos no tempo e no espaço diz respeito ao que foi chamado destino pelos antigos, uma disposição própria das coisas mutáveis, onde a providência mantém cada coisa associada à sua ordem. Os homens, no entanto, acham que tudo está confuso, mas não dão conta dessa ordem, que se dispõe conforme uma norma apropriada, orientando-as para o bem. Nada é feito visando o mal, mas este ocorre devido a um desvio, um “erro de avaliação” ao se procurar o bem. Então, se a providência governa o mundo, como isso se concilia com a liberdade humana? Boécio responde que o conhecimento divino implica no conhecimento simultâneo de todos os acontecimentos, dos passados e dos futuros. Em outras palavras, em Deus se encontram presentes os acontecimentos futuros no modo como acontecem (pois dependem do livre- arbítrio presentes em sua contingência). Deus conhece as coisas futuras de acordo com a natureza que cada uma delas terá: necessárias ou livres. 2.2 ANSELMO DE AOSTA Anselmo nasceu em Aosta (1033 – 1109). Era de família nobre, entrou no mosteiro beneditino de Santa Maria de Bec, na Normandia, onde se tornou prior e abade. Suas obras mais famosas eram o Monologion (“Solilóquio”) e o Proslogion (“Colóquio”), além dessas, temos De veritate (“A verdade”), o De libertatearbitrii (“O livre-arbítrio”), dentre outras. Todo o pensamento de santo Anselmo se refere e se baseia na ideia de Deus. Para ele, uma coisa é falar da existência de Deus e outra é falar de sua natureza – essa distinção fica clara no Monologion, em que ele formula as provas a posteriori da existência de Deus, e depois elabora o argumento ontológico, no Proslogion. Santo Anselmo demonstra a existência de Deus tanto a posteriori como a priori. As provas a posteriori da existência de Deus Tais provas demonstram como, a partir do mundo, se chega a Deus. A primeira se refere à bondade, em que se afirma que a existência de coisas boas remonta à Bondade absoluta; a segunda diz respeito à variedade de grandezas, que exige uma suma grandeza, da qual as outras participam; a terceira está alicerçada no conceito de causa: tudo o que é existe por causa de alguma coisa, assim, todas as coisas existem em virtude de um Ser supremo; a quarta considera os graus de perfeição, que devem remeter a uma perfeição primeira, suma, absoluta. Santo Anselmo pretendia difundir a verdade de Deus, necessitando de um argumento mais simples para os leitores, algo que gerasse uma certeira convicção da existência de Deus. Vejamos agora qual foi esse argumento. A prova a priori da existência de Deus ou “argumento ontológico” Como sabemos, uma prova a priori significa dizer que ela não depende da natureza das coisas; tem início, então, o argumento ontológico. Resumindo, Deus é “aquilo do qual nada de maior se pode pensar”. Essa prova pressupõe que a existência real é uma perfeição, e se Deus possui todas as perfeições, também, necessariamente, possui a existência. Desse modo, não seria possível pensar Deus como existente no pensamento, mas não na realidade, pois ele não seria o maior. Esse argumento engloba até os ateus, que afirmam que Deus não existe (ao afirmar isso, o ateu quer dizer que Deus não existe fora do seu intelecto, isto é, na realidade). Anselmo sustenta que, se o ateu pensa Deus, então Deus está em seu intelecto – do contrário, não poderia negar nem pensar sua existência. Portanto, o argumento ontológico é assim chamado em função da análise da ideia de Deus, que está presente na mente, e que, por isso, se deduz sua existência também fora da mente. Ou seja, a ideia de Deus se inclui, simultaneamente, a existência. Os argumentos de Anselmo sofreram críticas e também consensos. Uma das críticas foi feita pelo monge Gaunilon, que refutou a ideia da passagem do mundo ideal para o mundo real, e um dos consensos foi feito por Leibniz, que refez o argumento afirmando que “o ser necessário, se é possível, existe; mas é possível, logo existe”. Deus e o homem As reflexões de santo Anselmo giram em torno de Deus e o homem, e um dos temas abordados nesse contexto é a relação entre conhecimento e palavra. A palavra (ou conceito) é mais ou menos verdadeira, dependendo do grau de semelhança com a coisa. O conhecimento humano é medido pelas coisas, se baseia sobre o conceito. Já a palavra divina é medida das coisas, porque é o seu modelo. O pensamento reto exprime a realidade como ela é. Além disso, há uma retidão da vontade e da liberdade, onde a liberdade é a capacidade de agir retamente identificando-se com a vontade do bem e com a boa vontade. A liberdade humana possui o objetivo de conservar a retidão que, por sua vez, deve ser amada e buscada por si mesma. Retidão da vontade e retidão do intelecto (em outros termos, justiça e verdade) se encontram e se fundem. Mesmo nos casos em que a vontade pode se corromper, perdendo a retidão e se tornando serva de vícios, ela ainda conserva sua liberdade, que é a capacidade de agir de acordo com o bem e de não pecar. Anselmo pensava em como conciliar a liberdade humana com a onisciência divina. Responde ele que Deus prevê as coisas no modo como acontecerão, porque essa previsão se encontra na eternidade (onde não há mutação) e a realização (ou acontecimento livre) possui lugar no tempo. Sendo assim, a liberdade humana não está em divergência com a presciência divina. Anselmo entende que Deus pensa na eternidade os eventos que se acontecerão no tempo e no modo em que se desenvolverão: se forem necessários e se forem livres. Diz Anselmo que “se um acontecimento se cumprirá sem necessidade, Deus, que prevê todo acontecimento futuro, deve prever também isso. Mas o que Deus prevê será necessariamente assim como Deus prevê. Portanto, é necessário que algo seja sem necessidade”. O filósofo relembra que a liberdade se identifica com a vontade e, dessa maneira, com a retidão. Razão e fé No prólogo do Proslogion, Anselmo recorre a Deus com as seguintes palavras, que se tornaram emblemáticas: “Eu não tento, Senhor, mergulhar em teus mistérios, porque minha inteligência não é adequada; desejo, porém, entender um pouco da tua verdade, que o meu coração já crê e ama. Não procuro compreender-te para crer, mas creio para poder te compreender”. Isso quer dizer que santo Anselmo desejava esclarecer com a razão o que já se possui com a fé. Havia uma pretensão de que as coisas que fossem reveladas não fossem meramente impostas por meio da autoridade da Escritura, mas também transparecesse com a utilização do raciocínio. Anselmo confiava muito na razão humana, que ele acreditava que era capaz de explicar os mistérios da fé cristã, demonstrando coerência, conveniência e necessidade: se esclarece com a razão o que se possui com a fé. Sendo assim, a expressão do pensamento de santo Anselmo é credo ut intelligam, em que a fé é entendida como a garantia da verdade da razão. Anselmo fez duas afirmações que ficaram bem conhecidas, a saber: fides quaerens intellectum (em que se demonstra a necessidade de que a fé busque suas confirmações no âmbito da razão) e credo ut intelligam (em que se afirma a prioridade da fé em relação à razão). Dito isso, é possível compreender a ideia de que a fé se ilumina com a inteligência. A razão serve para iluminar as verdades da fé através de argumentações dialéticas, ou seja, por meio de normas e métodos coerentes. Concepção realista dos universais Em Anselmo há uma defesa da concepção realista dos universais. O problema dos medievais consiste em estabelecer qual seja o estatuto ontológico dos universais: se eles são algo como ideias transcendentes, ou pensamentos de Deus etc., ou se eles são apenas conceitos mentais, se são palavras insignificantes, ou se existe uma solução que se interpõe entre as várias posições. Explica Anselmo que as coisas boas, existentes, grandes etc., não seriam possíveis se não existissem as ideias correspondentes a tais coisas na mente divina, como modelos da criação. Portanto, as coisas boas, existentes etc., não seriam possíveis se não houvesse o pressuposto da bondade, do ser etc., que significam ideias universais e arquetípicas, situadas na mente divina e sobre as quais se formou aquilo que foi criado. O realismo teológico faz uma investigação racional sobre os mistérios da fé cristã. Isso implica dizer que a posse das verdades reveladas através da fé torna possível que a razão seja frequentemente vinculada ao seu conteúdo, e que sua investigação percorra o movimento lógico que parte da fé para evidenciar seu conteúdo e iluminar suas relações. A fé auxilia o movimento lógico da razão e de seus conceitos. Monge Gaunilon (assim como santo Tomás) observava que, quando falamos o nome “Deus”, não costumamos ir para além do som físico das palavras, em especial no caso dos ateus. Por isso, não é possível sustentar que se pode deduzir a existência de Deus a partir do conceito de Deus. No fundo, sucintamente, Gaunilon lançava a concepção realista dos conceitos de Anselmo e o deixava em posição de assumir que tinha a fé como fundamento. 2.3 ABELARDO Pedro Abelardo (1079 – 1142) nasceu em Le Pallet, na França, e foi considerado a figura mais célebre do século XII. Tinhabastante crítica em relação aos seus mestres, principalmente acerca da natureza dos universais e ao uso da dialética. Ministrou aulas na escola de Notre- Dame (primeiro núcleo de uma universidade livre na França). Abelardo teve teses condenadas e rejeitadas, sendo consideradas como “desvios”, o que fez com que ele recorresse ao papa para uma avaliação mais justa. Seus escritos tinham caráter ético (podemos citar Ethica seu Scito te ipsum), lógico (destacando-se Dialectica e Glosas literais), teológico (Theologia christiana; Sic et non) e autobiográfico (por exemplo, Historia calamitatum; Epistolarium; Poesias). A dúvida Abelardo elabora um princípio no qual afirma que é sob o estímulo da dúvida que se empreende a pesquisa, e que por meio da pesquisa podemos chegar ao conhecimento da verdade. A dúvida constitui-se como ponto de partida (trata-se da dúvida metódica), é uma “fase inicial” e, para superá-la, seria preciso impor regras, tais como: analisar o texto linguisticamente, verificando as implicações histórico-linguísticas dos termos; verificar a autenticidade daquilo que foi escrito, tanto no que se refere ao autor como a possíveis alterações; fazer exame crítico de textos duvidosos, baseando-se em textos autênticos e em possíveis correções; não confundir opinião citada no texto com opiniões pessoais do autor, nem interpretar como solução aquilo que o autor demonstra como problema. Com essas regras, Abelardo pretendia fornecer caráter científico à investigação, mas também sabia que nem sempre essas regras seriam suficientes para entender o significado dos textos bíblicos. “Intelligere” e “comprehendere” Depois de conhecermos essas regras, poderemos agora entender o papel que a ratio critica (uma espécie de razão como pesquisa) tinha nas questões que se referem a Deus. Com o conceito da inatingibilidade da natureza divina, Abelardo propôs que o objetivo fosse a verossimilhança, quer dizer, algo que fosse acessível à razão humana e não contrária à Sagrada Escritura. Isso significa que Abelardo tinha consciência dos limites da razão, mas também desejava que o discurso filosófico facilitasse e tornasse acessível o discurso teológico. Portanto, a ideia era a de que a razão corrobora a fé. Nesse contexto, ele faz a distinção entre intelligere e comprehendere. Intelligere, afirma ele, é obra conjunta da ratio e da fides (fé), enquanto que o comprehendere é dom de Deus. A razão impede que a fé seja reduzida a palavras vazias e mecânicas e a graça divina possibilita que nós nos deixemos invadir pelas verdades. Ética Sobre a vida moral, Abelardo elaborou um tratado denominado Ethica seu Scito te ipsum (algo como o “conhece-te a ti mesmo” socrático) e pensou na consciência como centro de irradiação da vida moral, ou “consensus animi” como fundamento da moral. Abelardo diferencia o plano da instintividade, que é pré- moral e se refere às inclinações, impulsos e desejos naturais, do plano consciente e racional, que é moral e se refere às intenções, propósitos e iniciativa do sujeito. Assim, existem impulsos que são involuntários e instintivos (pré-morais) e a moralidade se origina quando a consciência dá seu consenso. Os atos morais são qualificados de acordo com a intenção de quem opera. O destaque para o elemento intencional, que determina a vida moral, é feito em função de três objetivos, a saber: 1) a necessidade de interiorizar a vida moral, que reside na alma – Abelardo entendia que no interior se cumpre o bem ou o mal antes mesmo de se concretizarem em atos específicos; 2) há uma convicção de que nosso corpo não é mau nem fonte do mal; 3) contestar a prática de julgar fácil e de forma categórica a vida do próximo sem conhecer seus fins e objetivos – somente Deus pode avaliar, com base na verdade, nossas intenções e examinar a culpa com juízo perfeito. “Intelligo ut credam” Intelligo ut credam é a expressão que resume o pensamento de Abelardo e surge do entendimento de que a ratio (dialética, lógica), que possui autonomia própria e regras específicas, pode levar à fé. Por ser autônoma, a dialética é uma filosofia racional, mas “o fim do itinerário filosófico é Deus”. Abelardo considera ainda que a razão não dá explicações conclusivas. O problema dos universais A relação entre linguagem e realidade é o elemento essencial da questão dos universais. O problema dos universais se refere à determinação do fundamento e do valor dos conceitos e termos universais que se aplicam a uma pluralidade de indivíduos, em outras palavras, é o problema da relação entre as palavras e as coisas, entre linguagem e realidade. Os universais podem ser: ante rem (antes das coisas sensíveis, pois existem em si e por si), post rem (na mente como conceitos abstratos), in re (nas coisas sensíveis, como conotações ontológicas), como puros nomes (sem relação estrutural com as coisas). As soluções oferecidas para o problema foram: 1) a solução do realismo exagerado (de Escoto Eriúgena e Guilherme Champeaux), segundo o qual os termos universais são res, ou seja, os universais existem em si, são ante rem (antes das coisas), possuem função de modelo em relação aos indivíduos concretos, o que implica dizer que o conhecimento das ideias é o conhecimento da realidade, de forma indireta; 2) a solução nominalista (de Roscelino de Compiègne), em que o universal se trataria de um nome, apenas, para designar uma multiplicidade de indivíduos. Aqui, temos uma posição cética, pois anula qualquer valor aos universais, afirmando que não existe nenhuma ligação substancial entras as palavras e as coisas; 3) a solução moderada de Abelardo, que é o conceitualismo. Ele considera que os universais existem em nossa mente (post rem) como conceitos, obtidos por abstração. O intelecto separa dos entes semelhantes um modo de ser comum, que será o conceito universal para este grupo de indivíduos. A essência das coisas não é captada, só seu status communis e, além disso, Abelardo entende que não podemos conhecer a realidade em si (uma vez que só é conhecida por Deus), mas nossos próprios conceitos, que demonstram apenas parte da realidade. O status communis indica um modo de ser, ou condição de natureza comum aos indivíduos da mesma espécie. 4) o realismo moderado de santo Tomás é uma posição mediana entre o platonismo e o aristotelismo, em que os universais possuem tríplice valor. A ideia era a de que o universal existe ante rem na mente de Deus (como modelo/arquétipo, tal como queria Platão), in re como forma das coisas (presentes nos corpos individuais, que configuram as formas aristotélicas) e post rem como conceito mental (abstratos e posteriores às coisas, como presumia Aristóteles). Veremos que toda essa problemática acerca dos universais influenciou os diversos estudos sobre a linguagem e a lógica nos séculos seguintes. 2.4 A FILOSOFIA ÁRABE O pensamento de Aristóteles foi difundido no Ocidente pelos árabes, em particular Avicena e Averróis. A seguir, veremos o aristotelismo presente no pensamento de cada um deles. AVICENA Avicena (980 – 1037) nasceu na Pérsia e escreveu obras que iam da medicina à lógica, bem como tratavam sobre religião, física, música. Dentre elas, sua principal obra foi O livro da cura, que se tornou referência para a cultura ocidental. O neoplatonismo, os elementos da religião islâmica e os traços aristotélicos integravam sua filosofia, fazendo com que ela fosse inserida facilmente no ambiente medieval. O filósofo fez a distinção entre ente e essência, afirmando que os entes existem de fato, podendo ser entendidos como a realidade concreta, e a essência é abstrata e universal, é o “o que é” de um ente. Para exemplificar, podemos utilizar o “homem”, que corresponderia ao ente, e a “humanidade”, que corresponderia à essência. Enquanto é fato que o homem existe, a ideia de humanidade não implica a manifestação da existência.Assim, Avicena ainda diferencia o ente em possível e necessário. Possível é o que existe, mas poderia não existir, pois não tem em si sua razão de ser, apenas uma causa que o fez ser; necessário é o que não pode deixar de ser, porque tem em si sua razão de ser. Essa diferença é fundamental para compreender a separação entre mundo e Deus: o mundo é possível e provém de Deus, mas Deus é necessário, e ser necessário também significa ter a capacidade de gerar a primeira Inteligência (que produz a segunda, e assim em diante, até a décima). Sobre a relação entre mundo e Deus, Avicena considera que o mundo é contingente e necessário, ao mesmo tempo. O mundo não tem a sua possibilidade de forma absoluta, pois essa possibilidade está acompanhada de certa necessidade. Por derivar de Deus, o mundo não possui em si a existência, logo, é possível, mas também é necessário na medida em que Deus (que lhe dá existência) age conforme sua natureza (ou seja, Deus não pode deixar de criar o mundo). Deus também produz necessariamente a primeira Inteligência (motriz do primeiro céu), e cada Inteligência vai produzindo as outras, criando também os céus dos quais são forças motrizes. A décima inteligência realiza a passagem da potência ao ato do intelecto possível; ela não gera outra realidade, atua de forma direta sobre o mundo terreno. No âmbito gnosiológico, ela atualiza o intelecto possível (humano e individual), e isso se dá através da irradiação dos princípios primeiros (assim, temos o intelecto habitual) e dos conceitos universais que aprendemos por abstração (temos, então, o intelecto em ato) e também pela elevação do intelecto individual ao supremo intelecto agente (intelecto santo). AVERRÓIS Averróis (1126 – 1198) nasceu em Córdoba (Espanha). Foi médico, jurista, comentador de Aristóteles e metafísico, e dentre seus escritos, teve grande destaque o Tratado decisivo sobre a concordância entre filosofia e religião, o Grande comentário, A conjunção entre intelecto material e intelecto separado e A eternidade do mundo. Seus comentários sobre Aristóteles foram feitos segundo os dogmas do Islã – Averróis chegou a afirmar que a doutrina aristotélica coincidia com a suprema verdade, e que a verdadeira filosofia era a de Aristóteles. As divergências entre teólogos e filósofos eram compreendidas por ele mais como diferenças de interpretação do que como oposição, como se alguns princípios fossem negados por uns e defendidos por outros. Ele também entendia que, se ambas ensinam a verdade, não tem como haver incompatibilidade substancial entre elas e, caso haja algum desacordo, deve-se interpretar o texto religioso com base na razão. Averróis também destaca que os “motores dos céus” e o “motor supremo”, enquanto inteligências, movem como causas finais (como bem ou perfeição) cada céu. Contrariando Avicena, a relação entre o motor supremo e os motores intermediários não era de eficiência, mas de finalidade. Ele defendia que a eternidade do mundo se originava da eternidade do Motor Imóvel como causa final do mundo, e isso condiz com a concepção aristotélica de Deus como atividade necessária e eterna. O intelecto humano A tese da unicidade do intelecto possível desenvolvida por Averróis pressupõe que o intelecto é único para toda a humanidade, e não é misturado com a matéria. Por conhecer os universais, o intelecto possível não pode ser individual (não pode ser forma do corpo, individualizado pela matéria), mas uno (universal) para toda a humanidade. Se diz que a inteligência humana é potencial porque necessita da inteligência divina (que é denominada agente) para passar da potência ao ato (portanto, para conhecer). A inteligência agente é a de Deus. O saber não tem fim com o indivíduo, ele faz parte de toda a humanidade. O intelecto possível é independente, podendo ser considerado como uma “bagagem” de conhecimentos, de ideias, que estão para além do indivíduo e que vão crescendo, até se concretizarem completamente – quando acontecer isso, ou seja, quando o intelecto possível for atualizado pelo intelecto divino, os dois se fundirão e esse processo se tratará da união mística das religiões. Essa tese agitou bastante os medievais em face do contraste com a fé na imortalidade pessoal. Ora, se o intelecto possível não faz parte da alma humana, mas se liga temporariamente a ela, então Averróis nega a imortalidade pessoal. Esse pensamento foi tido como difícil de conciliar com a religião cristã. 2.5 A FILOSOFIA HEBRAICA DE MAIMÔNIDES Moisés Maimônides (1135 – 1204) nasceu em Córdoba, mas se estabeleceu no Cairo, onde fez parte do comércio de pedras preciosas e ministrou aulas públicas, o que lhe proporcionou a fama de filósofo, teólogo e médico. Ao se tornar médico da corte, deixou a prática do comércio e se dedicou aos estudos. Maimônides também foi influenciado pelas doutrinas de Aristóteles, e sua obra mais conhecida foi Guia dos perplexos – nesta obra, ele tinha a pretensão de demonstrar que a Bíblia (fé) e a filosofia (razão) são conciliáveis. Maimônides entendia que era possível tanto demonstrar a existência de Deus como compreender que Deus é uno e incorpóreo. Para ele, o mundo não é eterno, pois, caso fosse, também seria necessário, e Deus não teria a liberdade para criá-lo. Então, se o mundo não é eterno, é contingente (isso se explica porque as coisas existentes não possuem, em si mesmas, as razões de sua própria existência). Deus era entendido como a causa final e eficiente de todo o universo. Ao falar sobre o intelecto agente, Maimônides aproxima-se de Averróis, pois afirma que esse intelecto é único e separado para todos os homens, que possuem singularmente o intelecto passivo, e conhecem pela ação do intelecto ativo. Isso resultaria no entendimento de que a imortalidade não cabe ao homem em particular, uma vez que a diferença dos indivíduos desaparece com a “corrupção do corpo”, restando somente o puro intelecto. Assim, Maimônides nega a imortalidade do homem como indivíduo, mas afirma que ele seria imortal enquanto parte do intelecto ativo. 2.6 ALBERTO MAGNO Não se sabe exatamente se Alberto nasceu em 1193 ou 1206, mas sua morte ocorreu no ano de 1280. Exerceu a docência em Paris, demonstrou interesse tanto pelas ciências naturais quanto pela teologia, e pertenceu à ordem dominicana. O termo “Magno” foi concedido a ele devido seu pensamento científico, filosófico e teológico obter grande destaque enquanto vivia. Ao estudar o pensamento de Aristóteles, Alberto Magno procurou se distanciar dos árabes, que incorporaram ideias próprias no pensamento de Aristóteles. Dentre seus escritos, destacam-se: Sobre os Vegetais e as Plantas, Sobre os Minerais e Sobre os Animais (os científicos); a Metafísica, e as paráfrases da Ética, da Física e da Política de Aristóteles (os filosóficos); Comentários às Sentenças, de Pedro Lombardo, a Summa de creaturis e o De Unitate intellectus (contra os averroistas). Nota-se que Alberto era um admirador da filosofia e da ciência aristotélica, o que fez com que ele incluísse o aristotelismo no pensamento cristão, e que se tornasse contra quem, na opinião dele, “blasfemava” o pensamento de Aristóteles. Não só Aristóteles, mas também Agostinho era considerado por ele outro grande mestre. Ambos foram fundamentais para que Alberto elaborasse a distinção entre filosofia e teologia, visto que são diferentes os princípios, o sujeito, o objeto e o fim de que elas tratam. Assim, ao analisar a existência de Deus, as perspectivas, os resultados e as finalidades serão diferentes. Distinção entre filosofia e teologia De acordo com Alberto, existem, pelo menos, cinco diferenças entre o conhecimento filosófico e o conhecimento teológico, a saber: 1) enquanto que na filosofia se utiliza somente a razão, na teologia (com a fé) se vai além da razão; 2) na filosofia, as premissas devem ser evidentes,na teologia há uma “inspiração divina” que permite a existência de perspectivas que, antes, seriam impensáveis; 3) a filosofia parte dos dados, da experiência do que foi criado, e a teologia/fé parte da revelação, do Deus que revela; 4) a razão não nos diz o que é Deus, enquanto que a fé, dentro de alguns limites, pode nos dizer; e 5) a filosofia é puramente teorética, e a fé acarreta certo envolvimento afetivo, uma vez que a existência do homem estaria relacionada ao amor de Deus. Tais diferenças se devem ao fato de que o teólogo se serve da ratio superior (da qual Agostinho é o mestre), capaz de alcançar as causas eternas das coisas, e o filósofo se serve da ratio inferior (da qual Aristóteles é o mestre), que se detém das coisas. Em outras palavras, a teologia está alicerçada na Revelação (que “desperta” problemas desconhecidos), na sabedoria, enquanto que a filosofia tem suas bases no raciocínio, na razão, na ciência. Alberto considera possível desenvolver tanto uma como outra, a sapientia, fundamentada na ratio superior iluminada pela fé, e a scientia, que considera as coisas delimitadas em si, de acordo com suas causas imediatas. 2.7 SANTO TOMÁS DE AQUINO Nascido em Roccasecca, Tomás de Aquino (1225 – 1274), também conhecido como “doutor angélico” ou “doutor universal” pela Igreja Católica, fez parte da ordem dos dominicanos, estudou na universidade de sua cidade natal, na de Bolonha e foi discípulo de Alberto Magno que o indicou para ensinar em Paris, maior universidade europeia daquela época. Se Santo Agostinho cristianizou Platão, Tomaz de Aquino cristianizou Aristóteles ao usar sua teoria filosófica para explicar a fé e até mesmo a existência de Deus, que era o principal objeto de suas reflexões. Ele acreditava que a teologia não extinguia o saber filosófico, nem que a fé substituía a razão. A influência de seu pensamento penetrou toda a Europa a ponto dele ser considerado o conselheiro dos conselheiros dos reis. Ou seja, o mestre dos mestres. Suas principais obras são a Suma contra os Gentios, Comentários sobre Aristóteles e a Suma Teológica (com várias indagações teológicas e artigos, bem como rigor filosófico, a Suma Teológica tornou-se a obra mais influente de São Tomás de Aquino). Se em Santo Agostinho o lema era “crer para entender”, aqui é “entender para crer”. Mas apesar de dar uma valorizada na razão, ele também a entendia como a serviço da fé. “Filosofar na fé” Há, em Tomás de Aquino, duas teses aceitas por fé, são elas: Deus é o ser verdadeiro, é supremo e perfeito; todo o resto é resultado da sua criação, livre e consciente. Para ele, Deus é a fonte de todo o ser, ele é o criador das formas do ser e do “ser dos seres” (logo, nada foge à sua ação). Assim, as provas da existência de Deus, que já descrevemos anteriormente, são físico- metafísicas, em função da relação com o ato criador. As criaturas não são o ser, mas têm o ser por meio do ato causal. Deus é o ser por essência, enquanto que as criaturas são por participação. Deus expõe seu ser fora de si através do amor, da liberdade e da consciência (ele criou as criaturas por amor, é o Deus do amor). Havendo questionamentos sobre a origem do mal (físico e moral), Tomás de Aquino se diferencia da filosofia antiga, que afirmava que o mal é o não-ser. Para ele, o mal está mais para uma desobediência a Deus, do não reconhecimento de que se depende de Deus, em virtude da liberdade da criatura racional. A metafísica O filósofo distinguiu ente e essência. O ente é qualquer coisa que exista, e pode ser lógico (isso significa que nem tudo o que é pensado existe no modo como é pensado – quer dizer, os conceitos não devem ser considerados como “concretos” na realidade) e real (tudo o que existe é ente, mas de modo analógico, por exemplo: Deus é o ser, mas o mundo tem o ser). Tomás de Aquino faz uma distinção entre essência e existência: toda a realidade (ou seja, Deus e o mundo) é ente (pois tanto Deus como o mundo existem). Afirmar que Deus é o ser, mas o mundo tem o ser implica dizer que em Deus o ser se identifica com sua essência, enquanto que na criatura se distingue. A essência indica “o que é” uma coisa, ou seja, os dados que tornam os entes (Deus, os animais, os homens, etc.) distintos entre si. Diferente de Deus, que se identifica com o ser, as coisas possuem aptidão para ser (potência de ser), o que permite compreender que o mundo (e seus componentes) é contingente. O mundo não existe por sua própria virtude, mas em virtude de outro, que é Deus. A metafísica de Tomás de Aquino apresenta a problemática do que é o ser, ou por que existe o ser e não o nada, e considera que essa questão se encontra no âmbito do mistério. Uno, verdadeiro e bom são as conotações do ser, são chamados também de “transcendentais” (isto é, propriedades que competem a todo ser), sendo assim, o ser é uno, verdadeiro e bom. É uno porque é indivisível, não contraditório e é participável; é bom porque a bondade de Deus permite que ele crie amando (já o homem ama as coisas porque são boas), e indica também o grau de perfeição do ser – Tomás de Aquino diferencia ainda o bem honesto (desejado por si mesmo), o bem útil (no sentido de ser um meio para conseguir algo) e o bem deleitável (desejado pelo prazer que oferece); é verdadeiro porque todo ente é inteligível, racional, e é expressão de Deus, que o pensou para criá-lo. Diferente de Aristóteles, que aponta para uma horizontalidade dos seres entre si e para uma analogia em relação à substância e aos acidentes, Tomás de Aquino possuía interesse pela relação entre Deus e o mundo. Para o filósofo, não há identidade entre Deus e as criaturas, mas também não há uma diferença absoluta. Pois bem, ele entendia que existia uma relação de analogia, onde aquilo que se atribui das criaturas pode-se predicar de Deus (o que sugere uma semelhança), mas a diferença se dá no modo e na intensidade. Ocorre que, para alguns, essa analogia se aproxima mais da diferença do que da identidade, quer dizer, afirmam que há mais diferenças entre Deus e as criaturas do que algo que possa os aproximar na identidade. As cinco vias para provar a existência de Deus Tomás de Aquino pensou em cinco provas (ou vias) para demonstrar a existência de Deus. Antes de falarmos quais são elas, é preciso ressaltar que, para ele, Deus é o fundamento de tudo, e é alcançado a partir do mundo. Deus é o primeiro na ordem ontológica, mas não na ordem gnosiológica – o que significa dizer que ele vem depois das criaturas, sendo alcançado através do mundo, que se reporta ao seu autor. Dito isso, saberemos agora quais são as cinco vias de Tomás de Aquino. A primeira via é a via do movimento. Essa via parte da ideia de que tudo o que se move deve ser movido por outro (como uma passagem da potência ao ato), pois algo não se move por si mesmo. Para não cair em um regresso ao infinito que não explicaria nada, apenas deslocaria o problema, sem encontrar uma razão última do movimento, seria preciso admitir um primeiro Motor, um imutável, que é Deus. A segunda via é a via da causa eficiente. Aqui, a relação de causa e efeito possibilita a compreensão de que não há efeito sem causa, ou seja, se reconhece que nenhuma coisa pode ser causa de si mesma. e que deveria existir uma causa eficiente primeira, a causa de todas as causas, que não é causada, que é Deus. A terceira via é a via da contingência. Se as coisas são contingentes (no sentido de que as coisas podem não ser), em algum momento não existia nada na realidade. Existem coisas que podem ser e não ser, pois se geram e se corrompem. Nascer, crescer e morrer tornam as criaturas contingentes (possíveis). No entanto, se tudo fosse possível, em dado momento no tempo nada teria existido e, portanto, agora nada existiria. Tomás de Aquino afirmava que era preciso que existisse na realidade algo necessário, uma causa quenão é contingente, pois está sempre em ato. Para ele, essa causa era Deus. A quarta via é a via dos graus de perfeição. Segundo essa prova, existem vários graus de perfeição, do menor ao maior, por exemplo: o fogo é máximo no calor, e é causa de todas as coisas quentes. Desse modo também deveria haver algo que fosse a causa de ser de todos os entes, que fosse verdadeiro, nobre e bom em grau máximo. Tomás de Aquino entendia que era Deus. A quinta via é a via do finalismo. Entende-se aqui que algumas coisas atuam como se tendessem para um fim, com regularidade e ordem. A causa disso não poderia ser os próprios entes, os corpos físicos, que carecem de conhecimento, e seria necessário o conhecimento do fim. Estas coisas são ordenadas para um fim porque estão dirigidas por um ser inteligente. Aquele que é dotado de conhecimento (inteligente) e que também é causa finalizante é Deus. Ética O primeiro motor de Aristóteles, que era a causa de tudo, o puro ato, São Tomás o transforma em Deus, que tudo criou (a causa de tudo). Assim como Aristóteles entendia que a felicidade poderia ser alcançada e vivida na pólis, São Tomás também entende que ela pode ser vivida ainda nesse mundo, mas a felicidade que ele defende é uma felicidade mais alta, o conhecimento de como Deus é em si mesmo. Política Na época dele os reinos já estavam fortalecidos, pois as cruzadas haviam deixados os nobres senhores feudais empobrecidos e dependentes de um poder mais centralizado. Com isso, ele pôde desenvolver teorias sobres as leis internacionais, aquelas que regulam as relações entre os reinos, e sobre a melhor forma de governo. Não preciso nem dizer que era a monarquia, não é mesmo?!!! Ele entendia que os reinos, orientados pela Igreja, guiavam seus súditos até certo pondo, quando então a Igreja os orientavam para a felicidade eterna. O pensamento de São Tomás de Aquino, por ser o que de melhor a Igreja produziu na idade média, influenciou suas ações durante séculos. Foi o que os jesuítas, responsáveis pela educação dos jovens, ensinaram nos mosteiros, escolas e universidades. E foi sobre o seu aporte teórico que caíram as críticas de cientistas renascentistas como Galileu, e filósofos como Descartes e Thomas Hobbes. A Teoria do Direito Inicialmente, Tomás de Aquino afirma que o homem é natureza racional, entendido como um ser capaz de conhecer, que conhece o fim das coisas, mas não o fim último de todas as coisas: Deus. Além de ser dotado de razão, também possui livre-arbítrio, e uma disposição natural que permite compreender os princípios das boas ações, assim como ele pode também rejeitá-los, resultando no pecado. O homem peca quando viola as leis universais e a lei de Deus. Agora saberemos de quais leis Tomás de Aquino estava falando. O filósofo apresenta quatro tipos de leis que governam o mundo: lei eterna, lei natural, lei humana e lei divina (essa está acima das demais). A lei eterna representa o plano racional de Deus, a ordem de todo o universo, e é por meio dela que a inteligência divina rege todas as coisas para seu fim. O homem participa dessa lei eterna apenas em parte, como natureza racional – e essa participação é denominada por Tomás de Aquino como lei natural. Por serem racionais, os homens conhecem a ideia principal da lei natural, que é a de que se deve fazer o bem e evitar o mal. O bem implica em seguir os ensinamentos universais da natureza (por exemplo, a união de homens e mulheres), assim como implica viver em sociedade. Ligada à lei natural, temos a lei humana: esta lei se refere ao direito positivo; é a lei feita pelo próprio homem (a lei jurídica). As leis jurídicas são feitas para afastarem os homens do mal, são decretadas pela coletividade ou por quem for responsável pela comunidade, a fim de manter a sociedade em ordem. A lei humana deriva da lei natural em dois sentidos: por dedução e por especificação das normas gerais. Para exemplificar, temos o caso da proibição do homicídio (dedução) e a aplicação de determinada pena aos homicidas (especificação). Esse tipo de situação ocorre porque existem pessoas propensas aos vícios e que são difíceis de serem convencidas de algo. Assim, se faz necessário obrigá-las (coagir), através da força e do temor, a evitar o mal para que, então, exista uma convivência pacífica entre os homens. Isso faria com que elas desenvolvessem o hábito de evitar o mal por vontade própria. Para São Tomás, caso a lei positiva esteja em desacordo com a lei natural, não se trataria mais de uma lei, mas da corrupção da lei, pois “não parece que possa haver lei se ela não for justa”. Na opinião do filósofo e teólogo Tomás de Aquino, a melhor forma de governo é a monarquia, pois garante a ordem e a unidade do Estado, e a pior forma de governo é a tirania, pois atua para o mal, sendo mais danosa. Por fim, ele considera que a lei natural e as leis positivas servem aos fins terrenos do homem. No entanto, o homem possui um “fim sobrenatural”, que é a bem-aventurança eterna. Para atingir esse fim, tem-se a necessidade de uma lei também sobrenatural: a lei divina. Essa lei se encontra no Evangelho, uma espécie de guia para alcançar a bem-aventurança que todo homem deseja, e que complementa os espaços e imperfeições das leis humanas. 2.8 JOÃO DUNS ESCOTO João Duns Escoto (1266 – 1308) nasceu no povoado de Duns, na Escócia. Ficou popularmente conhecido como “Doutor Sutil”, devido a fineza e profundidade do seu pensamento. Se formou e trabalhou em Oxford e Paris, foi aluno do convento franciscano de Haddington, e também estudou teologia em Northampton, na Inglaterra. Seus escritos são divididos em obra da juventude (Comentários feitos a obras da filosofia antiga) e obras da maturidade (Comentários às Sentenças de Pedro Lombardo). Além dos comentários, temos a Reportatio que é um escrito redigido por discípulos com a aprovação de Escoto, que reportavam o que ele ensinava; a Ordinatio recebeu esse nome porque foi ditada pessoalmente por Escoto (sendo considerada sua maior obra); a Lectura que se refere às anotações do mestre; e De primo principio, um opúsculo de Duns Escoto. Filosofia e teologia Escoto distingue as duas áreas afirmando que as duas possuem metodologias e objetos que não se assimilam. Ele pensava que deveria ser feita uma delimitação rigorosa dos âmbitos de pesquisa, estabelecendo orientações específicas da filosofia e da teologia. A filosofia se ocupa do ente enquanto tal e de tudo o que a ele é redutível ou dele dedutível. Já a teologia trata dos objetos de fé. A filosofia tem um procedimento demonstrativo, o da teologia é persuasivo. A filosofia dedica-se à “lógica do natural”, e a teologia à “lógica do sobrenatural”. A filosofia se ocupa do geral ou universal, enquanto a teologia ocupa- se de tudo o que Deus nos revelou sobre sua natureza pessoal e nosso destino. A filosofia é especulativa, pois pretende conhecer por conhecer, já a teologia é prática, pois nos diz certas verdades com o objetivo de nos induzir a agir corretamente. A metafísica Para evitar confusões entre elementos filosóficos e elementos teológicos, Escoto considera analisar criticamente conceitos complexos, reduzindo-os a conceitos simples e, para isso, ele pensa em uma doutrina da distinção. Existem três tipos de distinção: real (por exemplo, Sócrates é diferente de Platão), formal (distinção entre inteligência e vontade) e modal (de acordo com os graus de intensidade). Além destas, há a distinção da razão, que se dá quando compreendemos melhor o conteúdo de um conceito, sem se referir ao âmbito da realidade. A univocidade diz respeito à essa simplicidade em que os conceitos complexos devem ser reconduzidos: o conceito mais simples, logo, é unívoco, é o ente enquanto pode ser predicável de tudo que existe de algum modo, por exemplo, Deus e o homem (que existem, mas se diferem porque Deus existe no modoinfinito e o homem de modo finito). Excluindo-se os modos de ser, o conceito de ente se aplica a ambos da mesma forma. Assim, notamos que o ente unívoco possui universalidade, mas também mínima especificidade. O objeto primeiro do intelecto é o ente unívoco. Escoto se questiona para quê o intelecto foi feito, e responde que o intelecto foi feito para conhecer tudo o que existe, seja material como espiritual, seja particular ou universal; o homem é capaz de compreender o universo com o seu pensamento. O intelecto humano segue o processo de abstração, para alcançar o inteligível. O conhecimento filosófico necessita do complemento das ciências singulares e, sobretudo, da teologia. Deus Os modos essenciais do ente unívoco são os do finito e do infinito. Mas, enquanto o ente finito é evidente, o ser infinito necessita de uma demonstração convincente, pois ele não possui evidência imediata. Duns Escoto lança o questionamento para saber se, entre os entes existentes, há algum verdadeiramente infinito, e se propõe a produzir uma demonstração da existência do ente infinito que seja a mais correta possível, com premissas certas e necessárias. Inicialmente, ele rejeita as demonstrações que derivam da experiência pois, embora sejam certas, não são necessárias. Assim, ele parte da possibilidade das coisas e entende que enquanto a existência das coisas é contingente, a possibilidade é necessária: se as coisas existem ou existiram são necessariamente possíveis. Escoto demonstra, então, a necessidade da possibilidade e se pergunta qual o fundamento disso. A razão da possibilidade não se encontra no ser produzido, mas que existe e age por si mesmo, e que produz: Deus, o ente que explica a possibilidade ou a produtividade do mundo sem que sua existência necessite de alguma explicação. Temos a noção de um ente primeiro, que existe em ato e é infinito (supremo e ilimitado). O conceito de ente infinito, ao qual o intelecto humano pode chegar, é insuficiente em si mesmo, pois a essência divina não é algo que se possa ser compreendido de forma natural pelo homem, e é por meio disso que Escoto afirma que a filosofia apreende esse assunto de modo genérico e formal (com limites), e defende a necessidade da teologia. Haecceitas e o conceito de pessoa Escoto elabora uma teoria da individuação, que considera a individualidade (haecceitas) como uma perfeição do ente. Diz ele que “essa entidade (a individualidade) não é nem matéria, nem forma, nem composto, no sentido que cada um deles é natureza, mas é a realidade última do ente que é matéria, que é forma, que é composto”. O termo haecceitas indica a formalidade ou perfeição pela qual cada ente é o que é e se distingue de todo outro ente. Escoto reafirma o primado do indivíduo, e considera que é a realidade última que explica a individualidade. Essa teoria valoriza o conceito de pessoa humana, em que a individualidade é personificada ou subjetivada (sua unicidade não é parte de um todo, mas um “todo no tudo”; o ente pessoal é universal e concreto). A pessoa pode comunicar, condicionar e ser condicionada, mas não pode perder sua identidade. No conceito de “pessoa”, particular e universal coincidem. Cada homem não é determinação do universal, pois, enquanto realidade singular no tempo e que não se repete na história, ele é original, porque, graças à mediação de Cristo, dialoga com o Deus uno e trino da Escritura. O direito Segundo Duns Escoto, o bem é aquilo que Deus quer e impõe. Na esfera da moralidade, a ideia de bem como um guia operativo é dedutível do Deus infinito – a noção de bem é reconduzida a Deus. O direito natural reflete âmbitos mais pagãos do que propriamente cristãos. Ao contrário do que pensavam os filósofos gregos, o mal não é erro, mas pecado, deriva da vontade do homem e se difere do intelecto. Escoto nos diz, na Ordinatio, que “muitas coisas que são proibidas como ilícitas poderiam se tornar lícitas se o legislador as ordenasse ou, pelo menos, as permitisse, como, por exemplo, o furto, o homicídio, o adultério e outras coisas do gênero, que não implicam maldade inconciliável com o fim último, do mesmo modo que seus opostos não incluem uma bondade que necessariamente conduza ao fim último”. Os preceitos necessários são a unicidade de Deus e a obrigação de adorar somente a ele. Aquilo que vale para Deus vale, proporcionalmente, também para o homem. Duns Escoto destaca o “papel-guia da vontade”, que orienta o intelecto para certa direção e afasta-o de outra. Se o intelecto atua com necessidade natural, tendo como ponto de partida a natureza do objeto, a vontade é a única expressão verdadeira da transcendência do homem sobre o mundo das coisas. Escoto compreende que a luz do intelecto é necessária, mas não determinante, e justifica dizendo que existem duas atividades diferentes (intelectiva e volitiva) na direção de um único objetivo. Isso quer dizer que o ato da vontade (perfeito em si mesmo), mesmo que seja iluminado pelo intelecto, resulta sempre da vontade (causa principal), assim como o ato do intelecto, mesmo sendo guiado pela vontade, procede sempre do intelecto. Essa argumentação de Escoto leva à distinção entre intelecto e vontade, que se reflete também na natureza humana: a liberdade humana (entendida pelo filósofo como a perfeição do homem) não depende do intelecto, mas da vontade. “Conhecer para amar em liberdade”: tal é a mensagem de Duns Escoto. 2.9 GUILHERME DE OCKHAM Guilherme de Ockham nasceu na vila de Ockham, nos arredores de Londres, na Inglaterra, em 1285, e morreu em 9 de abril de 1347. Tido como “o príncipe dos nominalistas”, ele enveredou pelas correntes do saber lógico, cientifico, filosófico e teológico. Contribuiu com a lógica e com teorias físicas defendendo a concepção do conhecimento físico de natureza especificamente empírica. Além disso, defendeu a ruptura entre a filosofia e a teologia. Na esfera político-religiosa, defendeu a autonomia do aspecto temporal em relação ao espiritual. Ockham introduz o espirito “laico”, uma vez que ele defendeu os ideais de dignidade, da criatividade e da cultura em expansão, livre de censuras, ideias que serão desenvolvidas no Renascimento. Envolvido no conflito entre o papado e o império, Ockham elaborou um projeto que atingiu os fundamentos da cultura medieval, pois pretendia redimensionar o poder do pontífice e demitizar o que era sagrado no império (Ockham chegou a ter sua leitura proibida em 25 de setembro de 1339, em Paris); sua ideia defendia a noção de "indivíduo" como única realidade concreta, assim como possuía uma tendência de basear o valor do conhecimento na experiência, além disso, há a separação entre a experiência religiosa e o saber racional (fé e razão), que conduziam a defesa da autonomia do poder civil em relação ao poder espiritual. Esse pensamento exigia uma grande transformação da estrutura e do espírito da Igreja. Fé e razão Sobre a autonomia de fé e razão, Ockham considerava que o plano do saber racional (com clareza e lógica) e o plano da teologia (guiado pela moral e a certeza da fé) são assimétricos, ou seja, são planos separados. Ockham demonstra que as verdades de fé não são evidentes por si mesmas, nem demonstráveis e nem prováveis, isto implica dizer que as “verdades reveladas” se situam num âmbito estranho ao dos conhecimentos racionais. A filosofia vincula-se à teologia não por coerência racional, mas pela força de coesão da fé. Diante disso, Ockham transforma o princípio da suprema onipotência de Deus (que é uma verdade cristã) e o coloca no lugar dos vínculos impostos pela metafísica. Se a onipotência de Deus é ilimitada e o mundo é sua obra contingente, não há vinculação entre Deus onipotente e os indivíduos finitos. A ligação entre os entes individuais singulares surge da vontade divina, sem necessitar de quaisquer forças metafísicas. Esse pensamento