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Epistemology 
 
Richard Feldman 
 
Ed. Prentice Hall, 2002 
Tradução de Júlio C. Burdzinski (não citar) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO UM 
 
QUESTÕES EPISTEMOLÓGICAS 
 
 A teoria do conhecimento, ou epistemologia, é o ramo da filosofia que trata das 
questões filosóficas sobre o conhecimento e a racionalidade. Os epistemólogos estão 
primariamente interessados nas questões sobre a natureza do conhecimento e nos prin-
cípios que governam a crença racional. Eles estão menos focados em decidir se há co-
nhecimento ou crença racional em casos reais, específicos. Assim, por exemplo, não é 
tarefa do epistemólogo determinar se é agora razoável crer que exista vida em outros pla-
netas. Este é primariamente o trabalho de astrônomos e cosmólogos. A tarefa dos epis-
temólgos é tentar desenvolver uma teoria geral estabelecendo as condições sob as quais 
as pessoas têm conhecimento e crenças racionais. Pode-se então aplicar essa teoria 
mais geral ao caso específico da crença em vida em outros planetas, mas fazê-lo é ir 
além das questões epistemológicas centrais. Embora no curso do exame das questões 
filosóficas seja costumeiro pensar sobre muitos exemplos específicos, isso serve princi-
palmente para ilustrar as questões gerais. O objetivo deste capítulo é identificar algumas 
das questões teóricas centrais de que trata a epistemologia. 
Uma boa maneira de começar é olhar para as coisas que ordinariamente dizemos 
e pensamos acerca do conhecimento e da racionalidade. Sistematizando-as e refletindo 
sobre elas chegaremos a um conjunto de questões e enigmas. Assim, começaremos ex-
pondo de uma maneira sistemática algumas ideias comumente (mas não universalmente) 
sustentadas acerca do que nós conhecemos e de como nós conhecemos essas coisas. 
Chamaremos a essa coleção de ideias de Perspectiva Standard. Neste capítulo identifica-
remos algumas das alegações centrais da Perspectiva Standard. Dos capítulos 2 até 5 
tentaremos descrever em detalhe as implicações da Perspectiva Standard e expor suas 
respostas a algumas das questões centrais. Então, dos capítulos 6 até 9 nos voltaremos 
para diversos desafios e objeções à Perspectiva Standard. Assim, o objetivo geral deste 
livro é proporcionar um melhor entendimento das perspectivas do senso comum acerca 
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do conhecimento e da racionalidade e ver em que extensão aquelas perspectivas podem 
suportar a crítica. 
 
I. A PERSPECTIVA STANDARD 
 
No curso comum dos eventos, as pessoas alegam conhecer muitas coisas, e elas 
atribuem aos outros numa variedade de casos. Daremos exemplos abaixo. As alegações 
de conhecimento com as quais nós estamos preocupados não são irrefletidas ou esquisi-
tas. Antes, elas são juízos sensatos e ponderados. Assim, a lista que segue reflete um 
conjunto de pensamentos acerca do conhecimento e da racionalidade ao qual muitas 
pessoas provavelmente chegariam se elas refletissem honesta e cuidadosamente acerca 
do tópico. Você pode não concordar com cada detalhe da perspectiva a ser descrita, mas 
é justo dizer que ela captura acuradamente o senso comum reflexivo. 
 
A. O Que Nós Conhecemos 
A maioria de nós pensa que conhecemos muitas coisas. A lista seguinte identifica 
algumas categorias gerais dessas coisas e dá exemplos de cada uma. As categorias po-
dem se sobrepor e elas estão longe de serem precisas. Ainda assim, elas nos dão uma 
boa ideia dos tipos de coisas que nós podemos conhecer. 
 
a. Nosso meio-ambiente imediato: 
 “Há uma cadeira aqui.” 
 “O rádio está ligado.” 
 
b. Nossos próprios pensamentos e sentimentos: 
 “Estou animado com o novo semestre.” 
 “Eu não estou ansioso para preencher meus formulários de impos-
to.” 
 
c. Fatos do senso comum acerca do mundo: 
 “A França é um país da Europa.” 
 “Muitas árvores deixam cair suas folhas no outono.” 
 
d. Fatos científicos: 
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 “Fumar cigarros causa câncer de pulmão.” 
 “A terra gira em torno do sol.” 
 
e. Estados mentais dos outros: 
 “Meu vizinho quer que sua casa seja pintada.” 
 “Aquela pessoa ali que está rindo muito achou a piada que ela recém 
ouviu engraçada.” 
 
f. O passado: 
 “George Washington foi o primeiro presidente dos Estados Unidos.” 
 “O presidente Kennedy foi assassinado.” 
 
g. Matemática: 
 “2 + 2 = 4” 
 “5 . 3 = 15” 
 
h. Verdades conceituais: 
 “Todos os solteiros são não-casados.” 
 “Vermelho é uma cor.” 
 
i. Moralidade: 
 “A tortura gratuita de crianças é errada.” 
 “Não há nada de errado em tirar uma folga do trabalho de vez em 
quando.” 
 
j. O futuro: 
 “O sol nascerá amanhã.” 
 “Os Chicago Cubs não ganharão a World Series no próximo ano.”1 
 
k. Religião: 
 “Deus existe.” 
 “Deus me ama.” 
 
1 Os fãs dos Cubs podem não gostar deste exemplo. Mas aqueles que acompanham beisebol sabem 
que, não importa o que aconteça, os Cubs nunca vencem. Nem o Boston Red Sox. 
 
 
 
Existem, naturalmente, muitas coisas destas categorias que nós não conhecemos. 
Alguns fatos acerca do passado distante estão irrecuperavelmente perdidos. Alguns fatos 
acerca do futuro estão, ao menos por enquanto, além de nós. Algumas das áreas de co-
nhecimento da lista são controversas. Você pode ter dúvidas acerca de nosso conheci-
mento nas áreas da moralidade e da religião. Ainda assim, a lista proporciona uma exem-
plificação adequada dos tipos de coisas que nós tipicamente alegamos conhecer. 
Assim, a primeira tese da Perspectiva Standard é 
 
PS1. Nós conhecemos uma grande variedade de coisas das categorias (a) – (k). 
 
B. Fontes de Conhecimento 
 
Se (PS1) está correta, então existem algumas maneira pelas quais nós chegamos 
a conhecer as coisas que ela diz que conhecemos; existem algumas fontes para o nosso 
conhecimento. Por exemplo, se nós conhecemos alguma coisa acerca do nosso meio-
ambiente imediato, então a percepção e a sensação jogam um papel central na aquisição 
desse conhecimento. A memória obviamente é crucial para o nosso conhecimento do 
passado e também para certos aspectos do nosso conhecimento de fatos correntes. Por 
exemplo, meu conhecimento de que a árvore que vejo através de minha janela é um bor-
do depende de minha percepção da árvore e de minha lembrança de como os bordos se 
parecem. Outra fonte de boa parte de nosso conhecimento é o testemunho das outras 
pessoas. O testemunho não se restringe aqui às declarações feitas por testemunhas sob 
juramento. Ele é muito mais amplo do que isso. Ele inclui o que as outras pessoas dizem 
a você, incluindo o que eles dizem a você na televisão ou em livros e jornais. 
Três outras fontes de conhecimento merecem também uma breve menção aqui. 
Se a percepção é a nossa consciência das coisas externas através da visão, da audição e 
dos outros sentido, então a percepção não dá conta do nosso conhecimento de nossos 
próprios estados internos. Você pode agora saber que se sente sonolento, ou que está 
agora pensando acerca do que irá fazer no final de semana. Mas isso não ocorre por 
meio da percepção no sentido recém estabelecido. Ocorre, antes, por meio da introspec-
ção. Assim, esta é outra potencial fonte de conhecimento. 
Além disso, algumas vezes nós conhecemos coisas por raciocínio ou inferência. 
Quando nós conhecemos alguns fatos e vemos que aqueles fatos sustentam algum outro 
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fato, nós chegamos a conhecer esse outro fato. O conhecimento científico, por exemplo, 
parecesurgir de inferências a partir de dados observacionais. 
Finalmente, parece que conhecemos algumas coisas simplesmente porque nós 
podemos “ver” que elas são verdadeiras. Isto é, nós temos a habilidade de pensar acerca 
das coisas e de discernir algumas verdades simples. Embora isso seja matéria de alguma 
controvérsia, nosso conhecimento de aritmética elementar, de lógica simples e de verda-
des conceituais parece cair nessa categoria. Por falta de um termo melhor, nós iremos 
dizer que conhecemos essas coisas por meio de insight racional. 
Nossa lista das fontes de conhecimento, então, se parece com isto: 
 
a. Percepção 
b. Memória 
c. Testemunho 
d. Introspecção 
e. Raciocínio 
f. Insight racional 
 
Sem dúvida, em muitos casos nosso conhecimento depende de alguma combina-
ção dessas fontes. 
A Perspectiva Standard sustenta que nós podemos ganhar conhecimento dessas 
fontes. Ela não diz que essas fontes são perfeitas. Sem dúvida, elas não são. Algumas 
vezes nossas lembranças estão equivocadas. Algumas vezes nossos sentidos nos enga-
nam. Algumas vezes nós raciocinamos mal. Ainda assim, de acordo com a Perspectiva 
Standard, nós podemos obter conhecimento usando essas fontes. 
Se a lista de fontes de conhecimento deveria ser expandida é matéria de alguma 
controvérsia. Talvez algumas pessoas acrescentassem insight religioso ou místico à lista. 
Talvez outras pensassem que existissem formas de percepção extra-sensorial que de-
vêssemos acrescentar. Entretanto, estas são questões sobre as quais há maior desacor-
do. Acrescentá-las à lista, assim, pode fazer a lista parecer menos com alguma coisa que 
mereça o nome de “Perspectiva Standard”. Assim, nós não as acrescentaremos aqui. Ou-
tros podem querer acrescentar a ciência à lista das fontes de conhecimento. Embora pos-
sa não ser objetável fazê-lo, a ciência é provavelmente melhor vista como uma combina-
ção de percepção, memória, testemunho e raciocínio. Assim, pode não ser necessário 
acrescentá-la à lista. 
 
 
Assim, a segunda tese da Perspectiva Standard é 
 
 
PS2. Nosso fontes de conhecimento primárias são (a) – (f). 
 
 
A Perspectiva Standard, então, é a conjunção de (PS1) e de (PS2). 
 
 
II. DESENVOLVENDO A PERSPECTIVA STANDARD 
 
Numerosas questões surgem quando refletimos acerca da Perspectiva Standard. 
Essas questões constituem o objeto primeiro da epistemologia. Esta seção identifica al-
gumas dessas questões. 
Se alguns casos caem na categoria de conhecimento e outros são dela excluída, 
então deve haver alguma coisa que diferencie esses dois grupos de coisas. O que é que 
distingue o conhecimento da falta de conhecimento? O que é preciso para conhecer al-
guma coisa? Isto leva à primeira questão: 
 
Q1. Sob que condições uma pessoa sabe que alguma coisa é verdadeira? 
 
Pode-se pensar que é uma questão de quão segura uma pessoa se sente sobre 
alguma coisa ou de se existe um acordo geral sobre o assunto. Como veremos, estas não 
são boas respostas para (Q1). Alguma coisa mais distingue o conhecimento de seu opos-
to. (Q1), afinal de contas, é surpreendentemente difícil, controversa e interessante. Pro-
duzir uma resposta para ela envolve pensar em algumas questões difíceis. Esse será o 
foco dos capítulos 2 e 3. 
De acordo com muitos filósofos, uma condição importante para o conhecimento é 
a crença racional ou justificada. Conhecer alguma coisa requer algo como ter uma boa 
razão para crer nela, ou chegar a crer nela da maneira correta, ou alguma coisa do tipo. 
Você não conhece uma coisa se está apenas adivinhando, por exemplo. Isto nos leva a 
uma segunda questão, uma que tem sido central para a epistemologia por muitos anos: 
 
 
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Q2. Sob que condições uma crença é justificada 
(ou razoável ou racional)? 
 
 
E isto nos levará a questões adicionais acerca das fontes de conhecimento alega-
das. Como essas faculdades nos tornam aptos a satisfazer as condições para o conheci-
mento? Como elas podem produzir a justificação epistêmica? Esse será o foco dos capí-
tulos 4 e 5, bem como de partes dos capítulos 7-9. 
Nossas crenças obviamente jogam um papel central na determinação de nosso 
comportamento. Você irá se comportar de maneira muito diferente em relação ao seu vi-
zinho se acreditar que ele seja um amigo confiável ao invés de um inimigo desonesto. 
Dada a habilidades das crenças de afetar o nosso comportamento, parece claro que as 
suas crenças podem afetar a sua vida e a vida dos demais. Dependendo da sua carreira e 
da extensão na qual os outros dependem de você, você pode ter a obrigação de conhecer 
certas coisas. Por exemplo, um médico deve conhecer os últimos desenvolvimentos em 
sua especialidade. Algumas vezes, entretanto, o conhecimento pode ser uma coisa ruim, 
como quando alguém fica sabendo da deslealdade de um aparente amigo. Estas conside-
rações sugerem que questões práticas e morais interagem com questões epistemológicas 
de maneiras que merecem exame. Assim, 
 
Q3. De que maneiras, se alguma há, as questões epistemológicas, práticas e morais afe-
tam umas às outras? 
 
 
Trataremos dessa questão no capítulo 4. 
 
 
III. DESAFIOS À PERSPECTIVA STANDARD 
 
A cuidadosa reflexão filosófica sobre as questões até agora listadas, a ser desen-
volvida nos capítulos 2-5, resultará na exposição detalhada daquilo a que conduz a Pers-
pectiva Standard. Entretanto, como se evidenciará ao prosseguirmos, há razões para per-
guntarmos se essa perspectiva do senso comum é realmente correta. Nós daremos a es-
sas razões e às visões alternativas sobre o conhecimento e a racionalidade associadas 
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com elas a devida atenção nos capítulos 6-9. As ideias centrais por detrás dessas dúvidas 
são as bases para as questões restantes acerca da Perspectiva Standard. 
 
A. A Perspectiva Cética 
Os advogados da Perspectiva Standard sustentam que nós conhecemos muito 
menos do que a Perspectiva Standard diz que nós conhecemos. O ceticismo constitui um 
tradicional e poderoso desafio filosófico à Perspectiva Standard. Os céticos pensam que a 
Perspectiva Standard é demasiado caridosa e auto-indulgente. Eles pensam que a nossa 
asserção confiante de que conhecemos muitas coisas resulta de uma autoconfiança pre-
sunçosa que é inteiramente injustificada. Como nós veremos, alguns argumentos céticos 
repousam sobre possibilidades aparentemente bizarras: talvez você esteja apenas so-
nhando que vê e ouve as coisas que você está vendo e ouvindo; talvez a sua vida seja 
algum tipo de realidade artificial gerada por computador. Outros argumentos céticos não 
repousam sobre hipóteses estranhas como essas. Mas todas elas desafiam as nossas 
confortáveis visões do senso comum. Estas considerações conduzem a um novo conjunto 
de questões epistemológicas: 
 
 
Q4. Nós realmente temos algum conhecimento? Há alguma boa resposta aos argumentos 
dos céticos? 
 
 
(Q4) questiona se, com efeito, as condições formuladas em resposta a (Q1) são 
de fato satisfeitas. Os advogados da Perspectiva Cética sustentam que a resposta para 
cada uma das questões de (Q4) é “Não.” Eles estão inclinados a negar tanto (PS1) quan-
to (PS2). 
 
B. A Perspectiva Naturalista 
 
A metodologia tradicionalmente utilizada pelos epistemólogos é primariamente a 
análise conceitual ou filosófica: pensar rigorosamente acerca de como são o conhecimen-
to e a racionalidade, frequentemente utilizando exemplos hipotéticos para ilustrar as ques-
tões. Entretanto, pode-se perguntar se não faríamos melhor estudando alguma dessas 
questões cientificamente. Muitosfilósofos recentes têm dito que faríamos. Chamaremos a 
 
 
essa perspectiva de Perspectiva Naturalista porque ela enfatiza o papel da ciência natural 
(ou empírica ou experimental). Assim, uma maneira pela qual a Perspectiva Naturalista 
desafia a Perspectiva Standard tem a ver com a metodologia utilizada para sustentar as 
teses (PS1) e (PS2) da Perspectiva Standard. 
A Perspectiva Naturalista conduz a um segundo tipo de desafio à Perspectiva 
Standard. Há um corpo de pesquisa acerca das maneiras pelas quais as pessoas pensam 
e raciocinam que é perturbador. Ele mostra, ou ao menos parece mostrar, erros e confu-
sões sistemáticos e generalizados na maneira como nós pensamos e raciocinamos. 
Quando confrontadas com os resultados dessas pesquisas, algumas pessoas se pergun-
tam se algo como a Perspectiva Standard pode estar correta. 
Estas considerações conduzem ao nosso próximo conjunto de questões: 
 
 
Q5. De que maneiras, se alguma há, os resultados em ciência natural, especialmente na 
psicologia cognitiva, influenciam nas questões epistemológicas? Os recentes resulta-
dos empíricos solapam a Perspectiva Standard? 
 
 
C. A Perspectiva Relativista 
 
Outro desafio à Perspectiva Standard emerge de considerações de relativismo e 
diversidade cognitiva. Para ver as questões envolvidas aqui, note que as crenças das 
pessoas e suas políticas de formação de crenças diferem amplamente. Por exemplo, al-
gumas pessoas estão dispostas a crer na base de pouca evidência. Algumas parecem 
demandar muita evidência. As pessoas diferem também em suas atitudes em relação à 
ciência. Algumas pessoas creem fortemente no poder da ciência. Elas pensam que os 
métodos da ciência proporcionam a única maneira razoável de aprender acerca do mundo 
que nos cerca. Elas ás vezes consideram aos demais como irracionais por crer em coisas 
tais como astrologia, reencarnação, PES, e outros fenômenos ocultos. Defensores destas 
crenças ás vezes acusam seus críticos de fé cega e irracional na ciência. As pessoas 
também diferem amplamente sobre questões políticas, morais e religiosas. Pessoas apa-
rentemente inteligentes podem se encontrar em sério desacordo umas com as outras so-
bre essas questões. Não há dúvida, então, de que as pessoas discordam, com frequência 
veementemente, acerca de um grande número de coisas. 
 
 
O fato de que haja todo esse desacordo leva algumas pessoas a perguntar se em 
cada caso (ao menos) uma das partes da disputa deva estar sendo desarrazoada. Um 
pensamento confortador para muitos é o de que há lugar para um desacordo razoável, ao 
menos sobre certos tópicos. Isto é, duas pessoas podem ter diferentes pontos de vista e 
ainda assim serem razoáveis ao manter suas próprias perspectivas. Defensores da Pers-
pectiva Relativista estão inclinados a conceder espaço para muito desacordo razoável, 
enquanto que os defensores da Perspectiva Standard parecem estar mais inclinados a 
pensar que uma das partes (ao menos) deve estar errada em toda disputa. 
Estas considerações sobre a diversidade cognitiva e a possibilidade de desacor-
dos razoáveis provocam as seguintes questões que têm a ver com o relativismo episte-
mológico: 
 
 
Q6. Quais são as implicações epistemológicas da diversidade cognitiva? Existem stan-
dards universais de racionalidade, aplicáveis a todas as pessoas (ou a todos os pen-
sadores) todas as vezes? Sob que circunstâncias as pessoas racionais podem discor-
dar entre si? 
 
 
As questões levantadas de (Q1) até (Q6) estão entre os problemas centrais da 
epistemologia. Os capítulos que seguem tratam delas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO DOIS 
 
 
A ANÁLISE TRADICIONAL DO CONHECIMENTO 
 
O objetivo dos capítulos imediatamente seguintes é tentar esclarecer o que exa-
tamente diz e quais as implicações da Visão Standard. Ao fazer isso não colocaremos em 
questão a verdade da Visão Standard. Assumiremos que ela está basicamente correta, 
reservando a discussão dos desafios à nossa visão do senso comum para mais tarde. 
 
 
I. TIPOS DE CONHECIMENTO 
 
A Visão Standard diz que nós temos uma boa quantidade de conhecimento e diz 
alguma coisa sobre as fontes desse conhecimento. Um aspecto central de esclarecer exa-
tamente aonde leva a Visão Standard é esclarecer exatamente o que ela toma como co-
 
 
nhecimento. A Visão Standard diz que nós temos conhecimento, mas o que é conheci-
mento? 
 
A. Alguns dos Principais Tipos de Conhecimento 
 
Nós usamos as palavras “conhece”/”sabe” e “conhecia”/”sabia” em uma variedade 
de tipos de sentenças diferentes de maneiras importantes. Eis aqui alguns exemplos:2 
 
a. Conhecer um indivíduo: S conhece x. 
 “O professor conhece J. D. Salinger.” 
 
b. Saber quem: S sabe quem é x. 
 “O estudante sabe quem é J. D. Salinger.” 
 
c. Saber se: S sabe se p. 
 “O bibliotecário sabe ser há um livro de J. D. Salinger na biblioteca.” 
 
d. Saber quando: S sabe quando A irá acontecer (ou aconteceu). 
 “O editor sabe quando o livro de J. D. Salinger será publicado.” 
 
e. Saber como: S sabe como A. 
 “J. D. Salinger sabe como escrever.” 
 
f. Saber fatos: S sabe p. 
 “O estudante sabe que J. D. Salinger escreveu O Apanhador no Campo de 
Centeio.” 
 
Esta lista está longe de ser completa. Nós poderíamos acrescentar sentenças 
usando expressões tais como “sabe qual”, “sabe porque”, e assim por diante. Mas a lista 
que temos já será suficiente para destacar as principais questões a serem feitas aqui. 
 
2 Os exemplos seguintes mostram padrões gerais de vários tipos de enunciados, com um 
exemplo mostrando como cada padrão poderia ser preenchido. Os padrões fazem uso de variáveis 
que podem ser substituídas por termos específicos. Seguindo as práticas standard, “S” é usada 
como uma variável a ser substituída por um nome ou a descrição de uma pessoa, “x” é usada co-
 
 
 
B. Todo Conhecimento é Conhecimento Proposicional? 
 
Sentenças “sabe que” descrevem que uma pessoa conhece um certo fato ou pro-
posição. Essas sentenças são ditas expressar conhecimento proposicional.3 Uma ideia 
inicialmente plausível sobre a conexão entre essas várias maneiras em que a palavra 
“sabe” é usada é que “sabe que” é fundamental e que as outras podem ser definidas em 
termos dela. Para ver porque o conhecimento proposicional é mais fundamental do que os 
outros, considere como alguns dos outros tipos poderiam ser explicados em termos dele. 
Considere (c), “saber se.” Suponha que seja verdadeiro que 
 
1. O bibliotecário sabe se há um livro de J. D. Salinger na biblioteca. 
 
Se (1) é verdadeiro, então, se há um livro de J. D. Salinger na biblioteca, o biblio-
tecário sabe que há. Se, por outro lado, não há um livro dele na biblioteca, então o biblio-
tecário sabe que não há. Qualquer que seja a proposição efetivamente verdadeira – a 
proposição de que há um livro ou a proposição de que não há – o bibliotecário a conhece. 
Assim, dizer (1) é uma maneira resumida de dizer 
 
2. Ou o bibliotecário sabe que há um livro de J. D. Salinger na biblioteca ou o biblio-
tecário sabe que não há um livro de J. D. Salinger na biblioteca.4 
 
Nesse aspecto, o bibliotecário difere de um cliente que não sabe se há um livro de 
Salinger ali. O cliente não sabe que há um livro ali e ele não sabe que não há um livro ali. 
A questão recém destacada sobre (1) pode ser generalizada. Para qualquer pes-
soa e para qualquer proposição, a pessoa sabe se a proposição é verdadeira apenas nomo a variável a ser substituída por uma sentença completa que expresse um fato ou o significado 
de um fato (uma proposição), e “A” por uma descrição de uma ação. 
3 Para uma discussão de qual é exatamente o significado da palavra “proposição,” veja a 
seção III, parte A1 deste capítulo. 
4 É importante entender a diferença entre (2) e 
 
 2a. O bibliotecário sabe que ou há um livro de Salinger na biblioteca ou não há um livro de 
Salinger na biblioteca. 
 
 (2a) é verdadeira; (2a) descreve o conhecimento de uma disjunção (um enunciado “ou”) e 
qualquer um pode ter este conhecimento. Mas o bibliotecário precisa possuir um conhecimento 
 
 
caso da pessoa saber que ela é verdadeira ou da pessoa saber que ela não é verdadeira. 
Uma pessoa que não sabe se ela é verdadeira não sabe nem que ela é verdadeira nem 
que ela não o é. 
Nós podemos expressar a questão sobre a conexão entre (1) e (2) em termos de 
uma definição geral, usando a letra “S” para representar um sujeito epistêmico em poten-
cial e “p” para representar uma proposição: 
 
D1. S sabe se p = df. Ou S sabe p ou S sabe ~p.5 
 
A definição (D1) ilustra uma importante ferramenta metodológica: definições. Uma 
definição é correta apenas se os dois lados são equivalentes. Para verificar se os dois la-
dos são equivalentes, você considera os resultados de preencher com instâncias especí-
ficas as variáveis ou guardadores de lugar. No caso de (D1), você preenche S com o no-
me de uma pessoa e substitui p por uma sentença expressando alguma proposição. Se a 
definição é correta, em todos os casos assim os dois lados concordarão: se o lado es-
querdo é verdadeiro – se a pessoa sabe se a proposição é verdadeira – então o lado di-
reito também será verdadeiro – ou a pessoa sabe que ela é verdadeira ou a pessoa sabe 
que ela não é verdadeira; se, por outro lado, o lado esquerdo não é verdadeiro – se a 
pessoa não sabe se a proposição é verdadeira – então o lado direito também não será 
verdadeiro. (D1) parece passar por esse teste: os dois lados da definição coincidem. As-
sim, nós podemos explicar “saber se” em termos de “saber que.” 
Também é possível definir alguns dos outros tipos de conhecimento em termos de 
conhecimento proposicional. As definições são mais complicadas, mas as ideias são ain-
da bastante claras. Considere “saber quando.” Se você sabe quando algo aconteceu (ou 
irá acontecer), então há alguma proposição expressando o momento em que aquilo acon-
teceu (ou irá acontecer) tal que você sabe que essa proposição é verdadeira. Assim, dizer 
 
3. O editor sabia quando o livro de J. D. Salinger seria publicado. 
 
é dizer que o editor sabia, com respeito a um momento do tempo em particular, 
que o livro de J. D. Salinger seria publicado nesse momento, e.g., ele sabia que seria pu-
 
especial se (2) é verdadeira. Ele deve saber qual dos disjuntos (as partes do enunciado “ou”) é 
verdadeiro. 
5 “~p” significa “não-p”, ou a negação de p. A negação de “Há um livro de Salinger na biblio-
teca” é “Não é o caso de que haja um livro de Salinger na biblioteca.” 
 
 
blicado em 1950 ou que seria publicado em 1951, etc. Aqueles que sabiam menos que o 
editor não estavam nessa posição. Para eles, não havia um momento tal que eles conhe-
cessem a proposição de que o livro seria publicado naquele momento. 
Novamente, nós podemos generalizar a ideia e expressá-la como uma definição: 
 
 
D2. S sabe quando x acontece = df. Há alguma proposição dizendo que x acontece em al-
gum momento em particular e S conhece essa proposição. (Há alguma proposição, p, 
onde p é da forma “x acontece em t” e S conhece p.) 
 
 
Mais uma vez, nós temos uma maneira de explicar um tipo de conhecimento – sa-
ber quando – em termos de conhecimento proposicional. É provável que abordagens simi-
lares irão funcionar para saber qual, saber porque, e numerosas outras sentenças sobre o 
conhecimento. O caso em favor do conhecimento proposicional ser fundamental parece 
muito forte. 
Entretanto, é improvável que todas as coisas que nós digamos usando a palavra 
“sabe”/”conhece” possam ser expressas em termos de conhecimento proposicional. Con-
sidere o primeiro item de nossa lista: “S conhece x.” Você pode pensar que conhecer a l-
guém ou alguma coisa é ter conhecimento proposicional de alguns fatos sobre essa pes-
soa ou coisa. Assim, nós podemos propor 
 
D3. S conhece x = df. S tem conhecimento proposicional de alguns fatos sobre x (i.e., para 
alguma proposição p, p é sobre x, e S conhece p). 
 
É provável que alguém que você conheça seja alguém sobre quem você conheça 
alguns fatos. Mas conhecer alguns fatos sobre uma pessoa não é suficiente para conhe-
cer a pessoa. J. D. Salinger é um autor recluso, mas bem conhecido. Muitas pessoas sa-
bem alguns fatos sobre ele: elas sabem que ele escreveu O Apanhador no Campo de 
Centeio. Elas podem saber que ele não interage com uma grande quantidade de pessoas. 
Desse modo elas conhecem fatos sobre ele, mas elas não o conhecem. Assim, conhecer 
uma pessoa não é o mesmo que conhecer alguns fatos sobre a pessoa. 
Isso mostra que a definição (D3) não é correta. Isso também ilustra outra questão 
metodológica importante. O exemplo mostra que (D3) não é correta porque ela é um con-
tra-exemplo para (D3): um exemplo mostrando que os lados da definição nem sempre 
 
 
concordam – um lado pode ser verdadeiro enquanto o outro é falso. Um contra-exemplo 
bastante claro refuta a definição proposta. Ao revisar uma definição em resposta aos con-
tra-exemplos, é possível obter um melhor entendimento dos conceitos sob discussão.6 
O contra-exemplo a (D3) mostra, não apenas que (D3) é falsa, mas também que 
não está sequer no caminho correto. Nós não podemos fazer algumas pequenas mudan-
ças a fim de consertar as coisas. Não irá ajudar que S conhecesse muitos fatos sobre x, 
ou que S conhecesse fatos importantes sobre x. Você pode ter esse tipo de conhecimento 
proposicional e ainda assim não conhecer a pessoas. Conhecer x não é uma questão de 
conhecer fatos sobre x. Ao invés, é uma questão de estar familiarizado com x – ter encon-
trado x e talvez recordar esse encontro. Não importa quantos fatos você conheça sobre 
uma pessoa, não se segue daí que você conheça essa pessoa. Conhecer uma pessoa ou 
uma coisa é estar familiarizado com essa pessoa ou coisa, ao invés de ter conhecimento 
proposicional sobre a pessoa ou coisa. Desse modo, nem todo saber é saber proposicio-
nal. 
Considere a seguir “saber como.” Suponha que exista um hábil esquiador que, 
após um sério acidente que o deixa inapto para esquiar, se torna um treinador de esqui de 
sucesso. Seu sucesso como esquiador é em larga medida o resultado do fato de que ele 
é anormalmente bom em explicar as técnicas de esqui aos estudantes. O treinador sabe 
como esquiar? A resposta parece ser “Sim.” Uma explicação plausível disso apela para a 
seguinte definição: 
 
D4a. S sabe como A = df. Se a é um passo importante para fazer A, então S sabe que a é 
um passo importante para fazer A.7 
 
Isso parece mostrar que “saber como” pode ser definido em termos de conheci-
mento proposicional. 
Entretanto, outros exemplos sugerem uma ideia diferente. Considere uma criança 
jovem que começa a esquiar e o faz com sucesso, sem qualquer treinamento ou entendi-
mento intelectual do que ela está fazendo. Ela também sabe como esquiar, mas ela pare-
ce carecer do conhecimento proposicional relevante. Ela não tem qualquer entendimento 
consciente explícito dos vários passos. Ela simplesmente é apta para fazê-lo. Este exem-6 A metodologia usada aqui será importante na seqüência. Um teste importante de uma de-
finição proposta é que não hajam contra-exemplos para ela. 
7 Esta definição pode necessitar de algum refinamento 
 
 
plo sugere que há um segundo significado da expressão “sabe como.” A seguinte defin i-
ção captura esse segundo significado: 
 
 
D4b. S sabe como A = df. S está apto para A 
 
 
O ex-esquiador sabe como esquiar no sentido (D4a), mas não no sentido (D4b). 
Exatamente o inverso é verdadeiro do jovem prodígio. Desse modo um tipo de conheci-
mento prático [knowhow] é conhecimento proposicional, mas não o outro tipo. 
 
 
 
C. Conclusão 
 
A tentativa de explicar todos os diferentes tipos de conhecimento em termos de 
conhecimento proposicional fracassa. A conclusão mais razoável parece ser a de que há 
(ao menos) três tipos básicos de conhecimento: (1) conhecimento proposicional, (2) co-
nhecimento por intimidade [acquaintance] ou familiaridade, e (3) conhecimento de habili-
dade (ou conhecimento de procedimento). 
Ainda que não possamos explicar todo conhecimento em termos de conhecimento 
proposicional, o conhecimento proposicional tem um status especial. Nós podemos expli-
car vários outros tipos de conhecimento nos seus termos. Além do mais, muitas de nos-
sas mais intrigantes questões sobre o conhecimento se revelam questões sobre o conhe-
cimento proposicional. Será ele o foco deste livro. E o objetivo desta seção é principal-
mente esclarecer qual é o tipo de conhecimento que é o tópico de nosso estudo. É o co-
nhecimento proposicional ou conhecimento de fatos. 
 
 
II. CONHECIMENTO E CRENÇA VERDADEIRA 
 
O que é necessário para conhecer um fato? O que é conhecimento proposicional? 
Estas são as questões levantadas por (Q1) no Capítulo 1. Começaremos nosso exame 
 
 
dessas questões com uma resposta simples e inadequada. Tentaremos então desenvol-
ver essa resposta. 
 
A. Duas Condições para o Conhecimento 
 
É fácil aparecer com duas condições para o conhecimento: a verdade e a crença. 
É claro que o conhecimento requer a verdade. Isto é, você não pode conhecer alguma 
coisa a menos que ela seja verdadeira. Jamais pode estar correto dizer “Ele sabe isso, 
mas isso é falso.” Você não pode saber que Thomas Jefferson foi o primeiro presidente 
dos Estados Unidos. A razão pela qual você não pode saber isto é que ele não foi o pri-
meiro presidente norte-americano. 
As pessoas podem estar seguras sobre coisas que não são verdadeiras. Você po-
de estar seguro de que Jefferson foi o primeiro presidente norte-americano. Você pode 
até mesmo pensar que se lembra de ter aprendido isso no colégio. Mas você está enga-
nado a esse respeito. (Ou o seu professor cometeu um grande engano.) Você pode até 
mesmo alegar saber que Jefferson foi o primeiro presidente norte-americano. Mas ele não 
foi, e você não sabe que ele foi. Isto é assim porque o conhecimento requer a verdade. 
Você conhece uma proposição apenas se ela é verdadeira. 
Há uma objeção possível à alegação de que o conhecimento requer a verdade. 
Ela é ilustrada pelo seguinte exemplo: 
 
 
Exemplo 2.1: A História de Suspense 
 
Você estava lendo uma história de suspense. Todas as pistas apresentadas até o 
último capítulo indicavam que o mordomo era o culpado. Você estava seguro de que o 
mordomo cometera o crime é ficou surpreso quando foi revelado na cena final que o con-
tador era o culpado. Após terminar o livro você diz: 
 
4. Eu sabia o tempo todo que o mordomo havia cometido o crime, mas resultou que ele 
não o havia cometido. 
 
Se você está certo quando diz (4), então é possível conhecer coisas que não são 
verdadeiras. Você pode saber que o mordomo cometeu o crime, mas não é verdade que 
 
 
o mordomo o cometeu. Entretanto, ainda que as pessoas algumas vezes digam coisas 
tais como (4), é claro que tais coisas não são literalmente verdadeiras. Você não pode 
saber o tempo todo que o mordomo cometeu o crime. O que era verdade o tempo todo 
era que você estava seguro que o mordomo o havia cometido, ou algo assim. Ao dizer (4) 
você expressa, de uma maneira levemente enfeitada, que foi surpreendido pelo final. Mas 
(4) não é verdadeira, e não mostra que pode haver conhecimento sem verdade. 
Uma segunda condição para o conhecimento é a crença. Se você conhece alguma 
coisa, então você deve acreditar nela ou aceitá-la. Se você nem mesmo pensa que algu-
ma coisa é verdadeira, então você não a conhece. Nós estamos usando “crença” em um 
sentido amplo aqui: toda vez que você assume alguma coisa como verdadeira, você 
acredita nela. Assim, acreditar inclui tanto a aceitação hesitante quanto a aceitação intei-
ramente confiante. Uma boa maneira de pensar nisto é notar que quando você considera 
um enunciado, você pode adotar quaisquer de três atitudes diante dele: crer, descrer ou 
suspender o juízo. Como uma analogia, imagine-se forçado a dizer uma de três coisas 
sobre um enunciado: “sim”, “não” ou “sem opinião.” Você dirá “sim” em uma variedade de 
casos, incluindo aqueles nos quais você está inteiramente confiante em um enunciado e 
aqueles nos quais você simplesmente pensar que o enuncia é provavelmente verdadeiro. 
Você dirá “não” quando pensar que o enunciado é definitiva ou provavelmente falso. E 
usará “sem opinião” nos casos restantes. Da mesma forma, tal como nós estamos usando 
o termo aqui, “crença” se aplica a uma variedade de atitudes. Ela é contrastada com a 
descrença, a qual envolve uma variedade semelhante, e com a suspensão de juízo. 
É claro, então, que o conhecimento requer a crença. Se você nem mesmo pensa 
que um enunciado é verdadeiro, então você não sabe que ele é verdadeiro. Há, entretan-
to, uma objeção a esta alegação que merece consideração. Nós falamos algumas vezes 
de maneiras que contrastam conhecimento e crença, sugerindo que quando você conhe-
ce alguma coisa você não acredita nela. Para ver isto, considere o seguinte exemplo: 
 
 
Exemplo 2.2: Saber o seu nome 
 
Você tem um amigo chamado “John” e pergunta a ele: “Você acredita que seu 
nome seja ‘John’?” Ele responde: 
 
5. Eu não acredito que meu nome seja “John”; eu sei que ele é. 
 
 
 
Ao dizer (5), John parece estar dizendo que esse é um caso de conhecimento e 
não um caso de crença. A sugestão é que se ela é uma crença, então não é conhecimen-
to. Se ele está certo, então a crença não é uma condição para o conhecimento. 
Entretanto, mais uma vez, essa aparência é enganadora. John seguramente acei-
ta o enunciado de que o nome dele é “John.” Ele não rejeita o enunciado ou não tem op i-
nião sobre ele. Quando ele diz (5), a questão é que ele não acredita simplesmente que o 
nome dele é “John”; ele pode dizer alguma coisa mais forte – que ele sabe disto. E uma 
das maneiras pelas quais nós tipicamente procedemos em conversações é evitando dizer 
uma coisa mais fraca ou modesta quando a mais forte é também verdadeira. Se seu ami-
go dissesse a você, “Eu acredito que meu nome seja ‘John,’” isto sugeriria, mas não diria 
literalmente, que ele não sabe disto. Há muitos outros exemplos do mesmo fenômeno. 
Suponha que você esteja extremamente cansado, tendo trabalhado duro por muito tempo. 
Alguém pergunta se você está cansado. Você pode responder dizendo alguma coisa co-
mo: 
 
 
6. Eu não estou cansado; estou exausto. 
 
 
Tomado literalmente, o que você diz é falso. Você está cansado. A questão do seu 
proferimento é enfatizar que você não está meramente cansado; você está exausto. A 
mesma coisa ocorre em (5). Ao dizer (5), John não está realmente dizendo que ele não 
acredita no enunciado. Assim esse exemplo não é um contra-exemplo à tese de queo 
conhecimento requer a crença. 
Nós encontramos agora duas condições para o conhecimento. Para conhecer al-
guma coisa, você precisa acreditar nela e ela precisa ser verdadeira. 
 
B. Conhecimento como Crença Verdadeira 
 
As ideias recém apresentadas podem sugerir que o conhecimento seja crença 
verdadeira; isto é, 
 
Tb. S sabe p = df. (i) S crê p, e (ii) p é verdadeira. 
 
 
 
Uma breve reflexão deveria tornar claro que (TB) é um equívoco. São muitas as 
vezes em que uma pessoa tem uma crença verdadeira mas não tem conhecimento. Eis 
aqui um contra-exemplo simples para (TB): 
 
Exemplo 2.3: Predições corretas 
 
Nova York está jogando contra Denver em um próximo Superbowl. Os especialis-
tas estão divididos sobre quem irá vencer, e os times estão igualmente ranqueados. Você 
tem um palpite de que Denver irá vencer. Quando o jogo é finalmente realizado, seu palpi-
te se revela correto. Assim, você acreditou que Denver venceria e sua crença era verda-
deira. 
 
No exemplo 2.3 você acredita que Denver vencerá e isto é verdadeiro. Mas você 
não sabia que Denver iria vencer. Você simplesmente teve um palpite que se revelou cor-
reto. 
Alguns irão dizer que o fato da crença do exemplo 2.3 ser sobre o futuro arruína o 
exemplo. Mas nós podemos facilmente eliminar esta característica sem eliminar a ques-
tão. Suponha que você não assista ao jogo mas, ao invés, vá assistir a um filme longo. 
Quando você sai do cinema, você sabe que o jogo acabou. Você tem agora uma crença 
sobre o passado, a saber, que Denver venceu. E você está certo. Mas agora não há com-
plicações que tenham a ver com crenças sobre o futuro. 
As objeções a (TB) não estão limitadas aos casos de palpites felizes. Outro tipo de 
exemplo ilustrará o coração do problema com (TB). 
 
Exemplo 2.4: O Planejador de Piqueniques Pessimista 
 
Você tem um piquenique marcado para sábado e ouve uma previsão do tempo 
que diz que as chances de chova no sábado são de pouco mais de 50%. Você é um pes-
simista, e com base nesse boletim você acredita confiantemente que irá chover. E então 
chove. Assim, você teve uma crença verdadeira de que choveria. 
 
Você teve uma crença verdadeira de que choveria, mas carecia de conhecimento. 
(Quando a chuva começa, você pode dizer “Eu sabia que ia chover,” mas você não sabia 
 
 
disto realmente.) A razão pela qual você não sabia nesse caso não é que você estava 
adivinhando. Sua crença está baseada em alguma evidência – o boletim do tempo – e 
assim não é simplesmente um palpite. Mas esta base não é boa o suficiente para o co-
nhecimento. O que você precisa para o conhecimento é alguma coisa como razões muito 
boas ou uma base mais confiável, não apenas um boletim do tempo potencialmente ine-
xato. 
Os filósofos frequentemente dizem que o que é necessário para o conhecimento, 
além da crença verdadeira, é a justificação para a crença. Exatamente o que vem a ser 
justificação é uma questão de considerável controvérsia. Nós passaremos um bom tempo 
mais tarde neste livro examinado essa ideia. Mas, por enquanto, será suficiente notar que 
nos exemplos de conhecimento que nós apresentamos no Capítulo 1 os crentes tinham 
razões extremamente boas para suas crenças. Em contraste, nos contraexemplos para 
(TB) você não tinha razões muito boas e poderia facilmente ter estado errado. O que está 
faltando, então, nos contraexemplos para (TB) e está presente nos exemplos de conhe-
cimento que nós descrevemos é a justificação. Isto nos leva à Análise Tradicional do Co-
nhecimento. 
 
 
III.A ANÁLISE TRADICIONAL DO CONHECIMENTO 
 
A Análise Tradicional do Conhecimento (a ATC) é formulada na seguinte definição: 
 
ATC. S sabe p = df. (i) S crê p, (ii) p é verdadeira, (iii) S está justificado em crer p. 
 
Algo nessa linha pode ser encontrado em várias fontes, talvez tão antigas quanto 
Sócrates. No diálogo Mênon de Platão, Sócrates diz: 
 
Pois estas (as opiniões certas), da mesma forma, enquanto permanecem, valem um te-
souro e só produzem o que é bom; mas não consentem em permanecer muito tempo na 
alma do homem, e não demoram muito a escapar, a fugir, o que faz com que não tenham 
muito valor até o instante em que o homem as amarra, as encadeia por um raciocínio de 
causalidade.(...) E assim, quando as opiniões certas são amarradas, transformam-se em 
conhecimento, em ciência, e, como ciência, permanecem estáveis..8 
 
8 Em Mênon-Banquete-Fedro, tradução de Jorge Paleikat (Rio de Janeiro: Ediouro), p. 72. 
 
 
 
De acordo com uma interpretação possível dessa passagem, estar apto a dar 
“uma explicação” de uma opinião é ter uma razão ou justificação para essa opinião. E 
uma ideia na passagem é que isto é necessário a fim de haver conhecimento.9 Nós ire-
mos ignorar a alegação adicional de que o conhecimento é menos propenso a “escapar” 
da mente de alguém do que outras crenças. 
Ideias semelhantes podem ser encontradas na obra de muitos outros filósofos 
contemporâneos. Por exemplo, Roderick Chisholm propôs uma vez que uma pessoa co-
nhece uma proposição apenas no caso de acreditar nesta, de ser esta verdadeira, e de 
ser a proposição “evidente” para a pessoa. E esta última condição é entendia em termo 
de quão razoável é para a pessoa crer na proposição.10 
Nos voltamos agora para um exame mais completo dos três elementos da ATC. 
 
A. Crença 
 
Crer em alguma coisa é aceitá-la como verdadeira. Quando você considera qual-
quer enunciado, você se enfrenta com um conjunto de alternativas: você pode acreditar 
nele, pode descrer dele, ou pode suspender o juízo sobre ele. Recorde que nós estamos 
tomando a crença como incluindo uma variedade de atitudes mais específicas, incluindo a 
aceitação hesitante e a convicção total. A descrença inclui uma variedade correspondente 
de atitudes negativas em relação a uma proposição. A qualquer momento, se você consi-
derar uma proposição, irá terminar adotando uma dessas três atitudes.11 
Para os presentes propósitos, pense em descrer de uma proposição como sendo 
a mesma coisa que crer na negação (ou recusa) dessa proposição. Assim, descrer que 
George Washington foi o primeiro presidente norte-americano é o mesmo que crer que 
 
9 Uma ideia semelhante é apresentada em outro diálogo, o Teeteto, em Teeteto-Crátilo, 
tradução de Carlos Alberto Nunes (Belém: Universidade Federal do Pará, 1988). 
10 Roderick Chisholm, Theory of Knowledge (Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1966), p. 
23. 
11 Há uma maneira alternativa de pensar nestas questões. Ao invés de dizer que há três op-
ções, você pode dizer que pode crer numa proposição num grau maior ou menor. Você pode pen-
sar nesses três graus de crença como arranjados ao longo de uma escala. Quando você aceita 
uma proposição com absoluta convicção, você crê nela no mais alto grau. Quando você rejeita to-
tal e completamente uma proposição, você tem o menor grau possível de crença nela. E, nos ca-
sos usuais, o seu grau de crença fica em algum lugar intermediário. A suspensão de juízo fica exa-
tamente no meio. 
 
 
não é o caso que George Washington foi o primeiro presidente norte-americano. Suspen-
der o juízo sobre a proposição é nem crer nem descrer dela.12 
Uma questão adicional sobre a crença merece menção aqui. Suponha que a uma 
criança francesa seja ensinado que George Washington foi o primeiro presidente dos Es-
tados Unidos. Então, se torna verdadeiro que 
 
7. Pierre acredita que George Washington foi o primeiro presidente dos Estados 
Unidos. 
 
A coisa notável aqui é que (7) pode ser verdadeira mesmo que Pierre não fale 
uma palavra de português.Ele não tem de entender a sentença portuguesa “George Wa-
shington foi o primeiro presidente dos Estados Unidos.” Presumivelmente, ele expressaria 
sua crença usando o equivalente francês dessa sentença. A contraparte brasileira de Pi-
erre, Pedro, pode acreditar no que Pierre acredita. Então, 
 
8. Pedro acredita que George Washington foi o primeiro presidente dos Estados 
Unidos. 
 
Pedro, podemos supor, não fala uma palavra de francês. Assim Pedro e Pierre 
acreditam na mesma coisa, ainda que não haja uma sentença que ambos aceitem. Como 
pode ser isto? 
Uma maneira de entender essas questões é como segue. Sentenças são usadas 
para expressar certos pensamentos ou ideias. Os filósofos usam a palavra proposição 
para se referir a esses itens. A sentença portuguesa que Pedro usa e a sentença france-
sa que Pierre usa expressam a mesma proposição. A crença é fundamentalmente uma 
relação com uma proposição. Assim, (7) pode ser verdadeira porque Pierre acredita na 
proposição relevante sobre George Washington; (8) é verdadeira porque Pedro acredita 
na mesma proposição. Mas eles usariam diferentes sentenças para expressar essa pro-
posição. 
Existem, então, duas questões importantes a extrair disto: as sentenças diferem 
das proposições que são usadas para expressá-las e a crença é fundamentalmente uma 
atitude que se toma em relação a proposições.13 
 
12 Se você nunca sequer considerou uma proposição, então você nem crê nem descrê dela, 
mas tampouco suspende o juízo. Talvez a suspensão do juízo seja mais bem caracterizada como 
 
 
 
 
 
 
B. Verdade 
 
O segundo elemento da ATC é a verdade. As pessoas dizem coisas muito compli-
cadas e obscuras sobre a verdade, mas a ideia fundamental é muito simples. A questão 
aqui não é sobre que coisas são de fato verdadeiras. Antes, a questão agora é sobre o 
que é para alguma coisa ser verdadeira. Uma resposta simples e amplamente aceita está 
contida na teoria da correspondência da verdade. 
A questão central da teoria da correspondência é expressa no seguinte princípio: 
 
TC. Uma proposição é verdadeira se e somente se ela corresponde aos fatos (sse o mun-
do é da maneira que a proposição diz que ele é). Uma proposição é falsa sse ela fra-
cassa em corresponder aos fatos.14 
 
A ideia aqui é extraordinariamente simples. Ela se aplica ao nosso exemplo sobre 
George Washington da seguinte maneira. A proposição de que George Washington foi o 
primeiro presidente norte-americano é verdadeira apenas no caso dela corresponder aos 
fatos tais como eles efetivamente são. Em outras palavras, ela é verdadeira apenas se 
George Washington foi o primeiro presidente norte-americano. A proposição é falsa se ele 
não foi o primeiro presidente norte-americano. O princípio se aplica de maneira análoga 
às outras proposições. 
Será útil descrever algumas consequências da TC e mencionar algumas coisas 
que não são consequências da TC. 
 
1) Se uma proposição é verdadeira ou falsa não depende de maneira alguma do 
que alguém crê sobre ela. Por exemplo, nossas crenças sobre George Washington não 
têm relação com o valor de verdade (i.e., a verdade ou a falsidade) da proposição de que 
 
considerar uma proposição sem nem crer nem descrer dela. 
13 Há questões difíceis sobre exatamente que tipos de objetos são as proposições. Nós po-
demos ignorar com segurança tais questões aqui. 
14 O termo “sse” abrevia “se e somente se.” Sentenças da forma “p sse q” são verdadeiras 
apenas no caso dos valores de verdade de p e de q concordarem, isto é, apenas se ambos forem 
verdadeiros ou se ambos forem falsos. 
 
 
George Washington foi o primeiro presidente norte-americano. Os fatos reais do caso de-
terminam seu valor de verdade. 
 
2) A verdade não é “relativa.” Nem uma única proposição pode ser “verdadeira pa-
ra mim mas não verdadeira para você.” Eu posso crer numa proposição na qual você 
descrê. De fato, isto é quase certamente o caso. Quaisquer duas pessoas irão quase cer-
tamente discordar sobre alguma coisa. Entretanto, se há uma proposição sobre a qual 
elas discordam, então o valor de verdade dessa proposição é determinado pelos fatos. 
 
3) A (TC) não legitima qualquer tipo de dogmatismo ou atitude intolerante em rela-
ção às pessoas que discordam de você. Algumas pessoas dispensam sem consideração 
qualquer um que discorde delas. Esta é uma maneira vil e desarrazoada detratar os ou-
tros. Entretanto, se você discorda sobre alguma coisa, então, trivialmente, penso que eu 
estou certo e você errado. Se, por exemplo, você pensa que Thomas Jefferson foi o pri-
meiro presidente e eu penso que foi, ao invés, George Washington, então penso que você 
está errado sobre isto e você pensa que eu estou errado sobre isto. Seria precipitado de 
minha parte generalizar deste caso e tirar quaisquer conclusões sobre suas outras cren-
ças. Mas quando você discorda de mim, eu penso que você está errado. Se você não é 
dogmático, reconhece sua própria falibilidade. Você está aberto a mudar de ideia se nova 
informação vem à tona. Existem circunstâncias nas quais pode ser rude dizer aos outros 
que você pensa que eles estão errados. E possivelmente o mero fato de os outros discor-
darem proporciona alguma razão para que você reconsidere seus pontos de vista.15 
 
4) A (TC) não implica que as coisas não possam mudar. Considere a proposição 
de que George Washington é o presidente dos Estados Unidos. Esta proposição é falsa. 
Mas, parece, ela costumava ser verdadeira. O que a (TC) diz sobre isto? 
Há algumas coisas para pensar sobre isso, e um exame completo delas entraria 
em tecnicidades que não são importantes para os nossos presentes propósitos. Uma boa 
abordagem diz que uma sentença tal como “George Washington é o presidente dos Esta-
dos Unidos” expressa uma proposição diferente em momentos diferentes. A proposição 
expressa lá em 1789 é verdadeira. A proposição que ela expressa em 2005 – a proposi-
ção de que George Washington é o presidente dos Estados Unidos em 2005 – é falsa. 
Nós podemos dizer que a sentença pode ser usada para expressar uma série de proposi-
 
 
ções acerca de momentos específicos. Nós podemos pensar numa proposição que diz 
que uma certa coisa tem uma certa propriedade em um momento como uma predecesso-
ra de uma proposição que diz que essa mesma coisa tem essa mesma propriedade num 
momento ligeiramente posterior. Assim, quando as coisas mudam, por exemplo, quando 
nós temos um novo presidente, uma proposição datada é verdadeira e sua proposição 
sucessora é falsa. Não há problema para a (TC), desde que sejamos cuidadosos acerca 
das proposições em questão. 
 
5) Algo semelhante se aplica à considerações sobre localização. Suponha que al-
guém no Maine esteja falando ao telefone com alguém na Flórida. A pessoa no Maine diz: 
 
9. Está nevando. 
 
A pessoa na Flórida diz: 
 
10. Não está nevando. 
 
Esses falantes não discordam sobre nada. Mas o que deveríamos dizer, então, 
sobre o valor de verdade da proposição de que está nevando? Ela é verdadeira ou falsa? 
Mais uma vez, há uma variedade de maneiras de pensar sobre isso. Para os pre-
sentes propósitos, uma boa abordagem será dizer que com uma sentença como (9) a 
pessoa expressa uma proposição que pode ser mais claramente mostrada pela sentença 
 
9a. Está nevando aqui (no Maine). 
 
Da mesma forma, a pessoa na Flórida que diz (10) diz alguma coisa que é mais 
claramente mostrada em 
 
10a. Não está nevando aqui (na Flórida). 
 
Nós podemosassumir que ambas as proposições são verdadeiras. Sua verdade é 
objetiva, pois ela depende das condições climáticas dos dois lugares. 
 
 
15 Este tópico será discutido em detalhe no capítulo 9. 
 
 
6) Existem enigmas sobre as sentenças tais como 
 
11. O iogurte tem bom sabor. 
 
Exatamente o que a (TC) diz sobre elas depende em larga medida do que essas 
sentenças significam. Uma possibilidade é a de que cada falante usa (11) para dizer “Eu 
gosto do sabor do iogurte.” Se este é o caso, então pessoas diferentes usam (11) para 
expressar proposições diferentes, cada proposição sendo sobre aquilo de que o falante 
gosta. Se uma pessoa que gosta do sabor do iogurte diz (11), então a proposição que a 
pessoa expressa é verdadeira. Se a pessoa não gosta de iogurte, então a pessoa expres-
sa uma proposição que não é verdadeira. 
Não é óbvio que (11) diga alguma coisa sobre as preferências individuais. Pode 
ser que ela diga alguma coisa como “A maioria das pessoas gosta do sabor do iogurte.” 
Se isto é o que ela diz, então ela não expressa diferentes proposições quando dita por 
diferentes pessoas. Ela expressa uma proposição sobre o gosto da maioria, e essa pro-
posição é verdadeira se a maioria das pessoas gosta de iogurte e não verdadeira se ela 
não gosta. 
De acordo com outra interpretação, (11) diz que o iogurte satisfaz algum standard 
de sabor que é independente do que as pessoas gostam ou não gostam. Isto supõe al-
gum tipo de “objetividade” sobre o sabor. Nesta perspectiva, (11) poderia ser verdadeira 
mesmo que dificilmente alguém de fato goste do sabor do iogurte. Você pode achar essa 
perspectiva estranha; é difícil entender aonde leva o bom sabor objetivo. 
O que é crucial para os presentes propósitos é notar que, qualquer que seja a in-
terpretação correta de (11), não há problema para a (TC). A proposição expressa por (11) 
irá variar de um falante para outro se a primeira opção é correta, mas não nos outros ca-
sos. Em todo os casos, entretanto, o valor de verdade que a(s) proposição(ões) expres-
sa(m) depende dos fatos relevantes. Neste caso, os fatos relevantes são ou aquilo de que 
o falante ou a maioria das pessoas gosta ou não gosta, ou os fatos objetivos sobre o bom 
sabor. 
Não há necessidade para nós de resolver as disputas sobre a interpretação corre-
ta das sentenças tais como (11). Essa questão complicada pode ser deixada para aqueles 
que estudam estética. A questão crucial para os presentes propósitos é que, qualquer que 
seja a interpretação correta, não há aqui uma boa objeção para a (TC). 
 
 
 
7) A (TC) não implica que nós não possamos saber o que é “realmente” verdadei-
ro. Algumas pessoas reagem à (TC) dizendo alguma coisa como isto: 
 
De acordo com a (TC), a verdade é “absoluta” e o que é verdadeiro depende de como as 
coisas são no mundo objetivo. Uma vez que este mundo é externo a nós, nunca podemos 
realmente saber o que é verdadeiro. No máximo, nós podemos saber o que é “subjetiva-
mente” verdadeiro. Esta verdade subjetiva depende de nossas próprias perspectivas sobre 
o mundo. A verdade absoluta deve estar sempre além de nossa compreensão. 
 
Nós discutiremos amplamente o ceticismo nos Capítulos 6 e 7. Boa parte da epis-
temologia é um esforço para responder a ele. Por enquanto é suficiente notar duas ques-
tões. Primeiro, do mero fato de que o que é verdadeiro é dependente de um mundo obje-
tivo que existe independentemente de nós, não se segue que nós não possamos saber 
como é esse mundo. Logo, se há aí algum argumento forte para o ceticismo, ele repousa 
numa premissa situada além de qualquer coisa dita no parágrafo precedente. Mais tarde 
nós iremos considerar como um tal argumento poderia ser formulado. 
Segundo, através de vários dos próximos capítulos nós assumiremos, assim como 
a Perspectiva Standard o faz, que nós conhecemos coisas. Esta não é uma questão de 
prejulgar as questões associadas ao ceticismo. Ao invés, nós estamos examinando quais 
são a natureza e as consequências da Perspectiva Standard. A Perspectiva Cética rece-
berá uma consideração justa nos Capítulos 6 e 7. 
 
8) Há uma questão muito enigmática associada com a teoria da correspondência 
da verdade. Considere uma sentença tal como 
 
12. Michael é alto. 
 
Suponha que alguém afirme (12) em um contexto conversacional normal tal como 
o seguinte: você está a ponto de pegar Michael no aeroporto. Você sabe que ele é um 
homem adulto, mas não sabe como ele se parece. Foi dada a você uma descrição da 
qual (12) é uma parte. Nestas circunstâncias, se Michael tem de fato 6’4”, então (12) ex-
pressa uma verdade. Se Michael tem 4’10”, então (12) diz alguma coisa falsa. Se Michael 
tem cerca de 5’10”, então será difícil dizer ser (12) expressa uma verdade ou uma falsida-
de. Essa altura parece ser um caso caso-limite de ser alto (para um homem adulto). 
 
 
De acordo com uma perspectiva amplamente aceita sobre estas questões, a pala-
vra “alto” simplesmente não tem um significado preciso. O problema que nós temos na 
situação final, quando Michael tem 5’10”, não é que não sabemos o suficiente sobre a si-
tuação. Nós podemos saber tudo que há para saber sobre a altura de Michael, a altura 
média de homens adultos, e tudo mais o que seja relevante. Nesta perspectiva, (12) sim-
plesmente é um caso-limite. Simplesmente não há limites exatos para a altura à qual a 
palavra “alto” se aplica. Em outras palavras, “alto” é uma palavra vaga. 
Muitas outras palavras são vagas, incluindo “saudável”, “rico”, e “sábio”. A vagui-
dade causa numerosos problemas para a compreensão de como exatamente funciona a 
linguagem. Afortunadamente, nós podemos ignorar em larga medida aquelas questões 
enquanto seguimos as questões epistemológicas que são o nosso foco. Entretanto, ques-
tões concernentes à vaguidade surgirão de tempos em tempos, e assim é importante ter 
alguma compreensão da ideia. 
Além do mais, a existência de sentenças vagas pode ter alguma implicação na 
adequação da (TC). Recorde a distinção entre as sentenças e as proposições que elas 
expressam. Como foi recém notado, a vaguidade é uma característica das sentenças. A 
sentença (12), parece, é vaga. Mas considere agora a proposição que (12) expressa nu-
ma ocasião em particular, tal como a recém descrita. Se essa proposição é vaga, ou inde-
finida em seu valor de verdade, então a (TC) precisa de revisão. A (TC) diz que toda pro-
posição é ou verdadeira ou falsa, dependendo de se ela corresponde à maneira como é o 
mundo. Porém, se há proposições vagas, então há proposições que correspondem parci-
almente à maneira como é mundo. Poder-se-ia dizer que há um terceiro valor de verdade 
– o indeterminado – em adição aos dois originais – o verdadeiro e o falso. Poder-se-ia 
mesmo dizer que há uma ampla variedade de valores de verdade, que a verdade vem em 
graus. Estas são questões complexas que não podem ser resolvidas facilmente. Não ten-
taremos resolvê-las aqui. É suficiente compreender que a (TC) requer modificação a fim 
de lidar com a vaguidade. 
 
C. Justificação 
 
O terceiro e último elemento da ATC é a justificação. A justificação (ou racionali-
dade ou razoabilidade) será o foco de uma grade parte deste livro. Esta seção introduzirá 
algumas ideias preliminares. 
 
 
A justificação é algo que vem em graus – você pode ter mais ou menos dela. Con-
sidere de novo o exemplo 2.4, no qual você de maneira pessimista acreditava que ia cho-
ver no dia de seu piquenique com base em uma previsão que dizia que as chances de 
chover eram levemente maioresdo que a metade. Aqui você tem alguma justificação para 
pensar que irá chover. Não é como se você simplesmente tivesse inventado sem nenhu-
ma razão. Mas as suas razões estão longe de serem boas o suficiente para dar conheci-
mento a você. Assim, o que a cláusula (iii) da ATC requer é uma justificação muito forte. 
Nas circunstâncias descritas, você não a tem para a crença de que irá chover. Se chega o 
dia do piquenique e você olha pela janela e vê chuva, então você tem uma justificação 
forte o suficiente para a crença de que choverá. Sob aquelas circunstâncias você satisfará 
a cláusula (iii) da ATC. Assim a cláusula (iii) deveria ser lida como requerendo justificação 
forte ou justificação adequada. Isto pode ser um pouco impreciso, mas servirá por en-
quanto. 
Você pode estar justificado em crer nalguma coisa sem de fato acreditar nela. A 
cláusula (iii) da ATC não implica (i). Para ver como isto funciona, considere o seguinte 
exemplo: 
 
Exemplo 2.5: O Exame do Sr. Inseguro 
 
O Sr. Inseguro acabou de fazer um exame. O professor olha rapidamente para su-
as respostas e diz que elas parecem boas e que as notas estarão disponíveis no dia se-
guinte. O Sr. Inseguro estudou muito, fez e se deu bem nos exercícios, achou as ques-
tões do exame semelhantes aos exercícios que ele havia estudado, e assim por diante. 
Ele tem excelentes razões para pensar que ele passou no exame. Mas o Sr. Inseguro é 
inseguro. Ele nunca acredita que se deu bem e não acredita que se deu bem neste exa-
me. 
 
Ainda que o Sr. Inseguro não acredite ter passado no exame, ele está justificado 
em crer que passou no exame. Assim a condição (iii) da ATC está satisfeita, mas não a 
condição (i). Estar justificado em crer numa proposição é, grosso modo, ter o que é reque-
rido para ser altamente razoável acreditar nela, quer de fato se acredite nela ou não. 
O que está justificado para uma pessoa pode não estar justificado para outra. Vo-
cê tem muitas crenças justificadas sobre a sua vida privada. Seus amigos e conhecidos 
podem ter pouca ou nenhuma justificação para crenças sobre tais questões. E o que está 
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justificado para um indivíduo muda ao longo do tempo. Uma modificação do exemplo 2.4 
ilustrará isto. Uma semana antes do piquenique você pode não ter justificação para crer 
na proposição de que irá chover no sábado. Mas na manhã de sábado você pode adquirir 
ampla justificação para essa proposição. 
É importante não confundir estar justificado em crer nalguma coisa com estar apto 
a mostrar que se está justificado em crer nessa proposição. Em muitos casos nós pode-
mos explicar porque uma crença está justificada; nós podemos formular nossas razões. 
Entretanto, há exceções para isto. Por exemplo, uma criança pode ter muitas crenças jus-
tificadas mas ser inapta para articular uma justificação para elas. 
 
 
IV. CONHECIMENTO VERDADEIRO E CONHECIMENTO APARENTE 
 
Uma questão adicional sobre a Perspectiva Standard merece especial atenção. As 
coisas que as pessoas consideram como conhecimento diferem numa variedade de ma-
neiras. Para tomar alguns exemplos simples, talvez as pessoas de tempos antigos dis-
sessem que, entre as coisas que elas sabiam, estivesse o fato de que a Terra fosse pla-
na. Talvez eles tivessem dito saber que a terra era o centro do universo (com todas as 
coisas em órbita em torno dela). Pode ter havido uma ampla concordância em tempos an-
tigos de que eles tinham conhecimento nestes casos. 
Nós podemos conceder, para o bem do argumento, que os antigos pensavam que 
eles sabiam que a terra fosse o centro do universo. (Se você não gosta deste exemplo em 
particular, substitua-o por outro que ilustre a mesma ideia.) Nós podemos mesmo conce-
der que eles estavam muito bem justificados em crer que eles tivessem conhecimento 
deste fato. Nós podemos dizer que eles tinham conhecimento aparente. Não obstante, 
eles careciam de conhecimento verdadeiro. Ainda que as proposições em questão pudes-
sem muito razoavelmente ter aparecido na lista das coisas conhecidas no primeiro capítu-
lo de um distante ancestral deste livro, as proposições seriam falsas. A Terra não é e 
nunca foi plana. Ela não é e nunca foi o centro do universo. Eles pensaram, talvez com 
justificação, que eles tinham conhecimento, mas eles estavam enganados.16 
Outra questão merece atenção aqui. Pode ser que as alegações daqueles que 
fossem mais falantes, mais carismáticos, ou mais poderosos fossem mais frequente e 
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amplamente consideradas como itens de conhecimento. Isto pode ser aflitivo para aque-
les que estão longe do poder, especialmente quando eles têm uma justificação para pers-
pectivas competidoras. Entretanto, questões sobre o que determina o que será contado 
como conhecimento, e como os poderosos fazem para impor suas perspectivas sobre os 
outros não estão no foco deste livro. Nosso tópico é o conhecimento verdadeiro, não o 
conhecimento aparente.17 
 
 
V. CONCLUSÃO 
 
A (Q1) do capítulo 1 perguntou o que é preciso para se ter conhecimento. Este ca-
pítulo introduziu uma resposta a essa questão baseada na Análise Tradicional do Conhe-
cimento de acordo com a qual o conhecimento é crença verdadeira justificada. Esta análi-
se tem uma longa história. Ela parece se encaixar bem na Perspectiva Standard. Os 
exemplos de conhecimento endossados pela Perspectiva Standard parecem ser casos de 
crença verdadeira justificada. E casos nos quais nós carecemos de conhecimento pare-
cem ser caso nos quais nós carecemos de um destes três fatores. 
Há, entretanto, uma objeção significativa a ATC. Nos voltaremos em seguida a ela. 
 
 
CAPÍTULO TRÊS 
 
MODIFICANDO A ANÁLISE TRADICIONAL DO CONHECIMENTO 
 
 
I. UMA OBJEÇÃO À ANÁLISE TRADICIONAL 
 
Recorde que a Análise Tradicional do Conhecimento, a ATC, diz que o conheci-
mento é crença verdadeira justificada. 
 
16 Neste ponto você pode observar que nós podemos estar numa situação com a dos anti-
gos, na qual nossas alegações estão equivocadas. Nós iremos tratar desta questão quando consi-
derarmos a Perspectiva Cética. 
17 É possível que algo da atratividade da Perspectiva Relativista, mencionada no capítulo 1, 
resulte da confusão entre o conhecimento aparente e o conhecimento verdadeiro. 
 
 
Esta análise é correta apenas no caso de que em todos os exemplos possíveis, se 
uma pessoa conhece alguma proposição, então a pessoa tem uma crença verdadeira jus-
tificada nessa proposição, e, se a pessoa tem uma crença verdadeira justificada, então a 
pessoa tem conhecimento. Desafortunadamente para a ATC, há contraexemplos provo-
cantes dos segundo tipo – casos de crença justificada verdadeira que claramente não são 
casos de conhecimento. 
O primeiro filósofo a argumentar explicitamente contra a ATC da maneira a ser 
discutida aqui foi Edmund Gettier. Seu breve ensaio “Is Justified True Belief Knowledge?” 
talvez seja o mais amplamente discutido e frequentemente citado texto de epistemologia 
em muitos anos.18 Gettier apresentou dois exemplos, cada um deles mostrando que al-
guém poderia ter uma crença justificada verdadeira que não é conhecimento. Outros filó-
sofos têm descrito casos adicionais estabelecendo o mesmo ponto. 
 
A. Os Contraexemplos 
 
Nesta seção examinaremos três exemplos, todos desenhados para ilustrar um 
problema na ATC. O ponto por trás de todas as objeções é o mesmo, mas os diferentes 
exemplos ajudam a tornar a questão mais clara. O primeiroexemplo é uma versão modif i-
cada de um dos exemplos originalmente apresentados por Gettier. 
 
Exemplo 3.1: O Caso das Dez Moedas 
 
Smith está justificado em crer: 
 
1. Jones é o homem que ficará com o emprego e Jones tem dez moedas em seu 
bolso. 
 
A razão para Smith estar justificado em crer em (1) é que ele acabou de ver Jones 
esvaziar seus bolsos, contar cuidadosamente suas moedas, e então colocá-las novamen-
te no bolso. Smith também sabe que Jones é extremamente bem qualificado para o em-
prego e ouviu o chefe dizer à secretária que Jones havia sido selecionado. Com base em 
(1), Smith deduz corretamente e crê noutra proposição: 
 
 
 
2. O homem que ficará com o emprego tem dez moedas em seu bolso. 
 
Smith está justificado em crer em (2) ainda que (1) seja falsa. A despeito da evi-
dência de Smith, (1) não é verdadeira no final das contas. O chefe falou errado quando 
disse que Jones ficaria com o emprego. De fato, o emprego está indo para o sobrinho do 
vice-presidente da companhia, Robinson. Coincidentemente, Robinson acontece de Ro-
binson também ter dez moedas em seu bolso. 
 
Neste exemplo (2) é verdadeira ainda que (1) seja falsa. Smith estava justificado 
em crer em (1), deduziu corretamente (2) a partir de (1) e, como resultado, acreditou nela. 
Assim, Smith também estava justificado em crer em (2). E (2) é verdadeira. Assim, a 
crença de Smith em (2) está justificada e é verdadeira. Mas claramente Smith não sabe 
(2). É apenas uma coincidência que ele esteja correto sobre (2). 
Exemplo 3.2: O Caso Nogot/Havit19 
 
Smith sabe que Nogot, que trabalha em seu escritório, estava dirigindo um Ford, 
tem documentos de propriedade de um Ford, é geralmente honesto, etc. Nesta base ele 
crê: 
 
3. Nogot, que trabalha no escritório de Smith, possui um Ford. 
 
Smith ouve no rádio que um concessionário Ford local está promovendo um con-
curso. Qualquer um que trabalhe no mesmo escritório que o dono de um Ford é elegível 
para entrar numa loteria cujo ganhador receberá um Ford. Smith decide se inscrever, 
pensando ser elegível. Afinal de contas, ele pensa que (3) é verdadeira, e assim ele con-
clui que: 
 
4. Há alguém que trabalha no (meu) escritório de Smith que possui um Ford. (Há 
ao menos um dono de Ford no escritório de Smith.) 
 
 
18 Analysis 23 (1963): 121-3. 
19 Este exemplo está baseado em um apresentado por Keith Lehrer em “A Quarta Condição 
para o Conhecimento: Uma Defesa,” The Review of Methaphysics 24 (1970): 122-8. Veja p. 125. 
 
 
Resulta que Nogot finge ter um Ford e (3) é falsa. Entretanto, (4) é verdadeira por-
que uma outra pessoa ignorada por Smith, Havit, trabalha em seu escritório e possui um 
Ford. 
 
Assim, Smith tem uma crença justificada verdadeira em (4), mas não sabe (4). É 
apenas uma feliz coincidência, resultante de Havit tê-lo, que o torna correto sobre (4). 
 
 
Exemplo 3.3: A Ovelha no Campo20 
 
Tendo ganhado um Ford em um concurso, Smith sai para um passeio no interior. 
Ele olha para um campo próximo e vê o que se parece exatamente como uma ovelha. 
Assim, ele crê justificadamente: 
 
5. Esse animal no campo é uma ovelha. 
 
O filho de Smith está no banco traseiro lendo um livro e não está olhando a paisa-
gem. O filho pergunta se há alguma ovelha no campo em que estão passando. Smith diz 
“Sim,” acrescentando: 
 
6. Há uma ovelha no campo. 
 
Smith está justificado pelo que ele vê em pensar que (5) é verdadeira. (6) se se-
gue de (5), assim ele também está justificado em crer em (6). 
Resulta que (5) é falsa. O que Smith vê é um cão sheep dog (ou a estátua de uma 
ovelha, ou qualquer outra coisa que se pareça perfeitamente com uma ovelha). Mas ocor-
re que (6) é verdadeira de qualquer maneira. Adiante no campo, mas fora de vista, há 
uma ovelha. 
 
Assim, Smith tem uma crença justificada em (6), e ela é verdadeira. Mas ele não a 
sabe. É apenas por sorte que ele está correto sobre (6) 
 
20 Um exemplo como este foi apresentado por Roderck Chisholm em Theory of Knowledge, 
2ª. Ed. (Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1977), p. 105. 
 
 
Deveria ser observado que os detalhes dos exemplos podem ser modificados para 
fortalecer a sustentação da crença de Smith na proposição falsa em cada caso. Por 
exemplo, você pode acrescentar o que queira para sustentar a crença dele de que Nogot 
possui um Ford. Nogot pode mostrar a ele suas chaves com a insígnia de um Ford e ves-
tir uma camiseta da Ford, etc. Não importa o quanto você acrescente ao caso, permanece 
possível que Nogot esteja fingindo ser o proprietário de um Ford. E uma vez que isto é 
possível, permanece possível construir um caso no qual seja coincidentemente verdadeiro 
que alguém no escritório possua um Ford. Observações semelhantes se aplicam aos ou-
tros exemplos. Meramente requerer razões mais fortes para uma crença estar justificada 
não evitará as objeções. 
 
B. A Estrutura dos Contraexemplos 
 
Os exemplos 3.1-3.3 partilham de uma estrutura comum. Em cada caso, Smith 
tem alguma evidência básica que sustenta fortemente alguma proposição. É o tipo de evi-
dência que a Perspectiva Standard conta como boa o suficiente para o conhecimento. Ele 
crê nessa proposição e então tira uma outra conclusão dela. Em cada exemplo, a senten-
ça numerada em ímpar descreve a proposição na qual Smith acredita: 
 
1. Jones é o homem que ficará com o emprego e Jones tem dez moedas em seu 
bolso. 
3. Nogot, que trabalha no escritório de Smith, possui um Ford. 
5. Esse animal no campo é uma ovelha. 
 
As sentenças numeradas em par descrevem as conclusões que Smith tira do pri-
meiro passo: 
 
2. O homem que ficará com o emprego tem dez moedas em seu bolso. 
4. Há alguém que trabalha no (meu) escritório de Smith que possui um Ford. (Há 
ao menos um dono de Ford no escritório de Smith.) 
6. Há uma ovelha no campo. 
 
A proposição numerada em ímpar é falsa em cada caso. Ainda assim, dada a evi-
dência, é extremamente razoável para Smith acreditar nela. Ela é uma crença justificada. 
 
 
E a conclusão final se segue logicamente do passo anterior. A conclusão final é, em cada 
caso, verdadeira. Com efeito, a conclusão final é verdadeira “por coincidência.” Simples-
mente acontece que a pessoa que ficará com o emprego tem dez moedas, que há um 
dono de Ford no escritório, e que há uma ovelha no campo. Assim Smith tem razões mui-
to boas para crer no primeiro passo e segue princípios lógicos perfeitamente bons ao de-
rivar o segundo passo. Logo, ele tem uma crença justificada verdadeira em cada uma das 
conclusões finais. Mas em cada caso a verdade dessa conclusão está desconectada da 
evidência original. Smith não tem conhecimento, ainda que ele tenha crenças verdadeiras 
justificadas. 
Estabelecer a estrutura dos exemplos ajuda a destacar dois princípios importantes 
sobre os quais eles repousam. Um princípio permite que a pessoa possa estar justificada 
em crer nas proposições numeradas em ímpar ainda que elas sejam falsas. Nós podemos 
formular este como o Princípio da Falsidade Justificada, ou (FJ): 
 
 
FJ. É possível para uma pessoa estar justificada em crer numa proposição falsa. 
 
 
O segundo princípio importante é o que diz que a segunda proposição está justif i-
cada porque ela é deduzida da primeira. Este é o Princípio da Dedução Justificada, ou 
(DJ): 
 
 
DJ. Se S está justificado em crer em p, e p acarreta q, e S deduz q de p e aceita q como 
um resultado desta dedução,então S está justificado em crer em q. 
 
 
Se os três exemplos recém descritos são possíveis e estes dois princípios são 
verdadeiros, então a ATC está errada. Os exemplos podem ser estranhos, mas eles são 
claramente possíveis. Coisas como esta podem acontecer e acontecem. Os dois princí-
pios parecem corretos. Logo, parece que nós temos um caso forte contra a ATC. Como 
nós veremos, entretanto, algumas pessoas têm tentado defender a ATC rejeitando os 
princípios. 
 
 
Para formular um exemplo no estilo-Gettier, então, primeiro se tem de encontrar 
um caso de crença falsa justificada. Se a (FJ) é correta, existem tais casos. Identifica-se 
então alguma verdade que se segue logicamente dessa falsidade. Sempre haverá tais 
verdades. O exemplo prossegue com o crente tendo deduzido esta verdade da crença 
falsa justificada. Se a (DJ) é correta, a crença resultante será uma crença verdadeira justi-
ficada que não é conhecimento. 
Parece, portanto, que os exemplos de estilo-Gettier mostram que a ATC é incorre-
ta. 
 
 
II. DEFENDENDO A ANÁLISE TRADICIONAL 
 
Você pode ter algumas apreensões sobre os exemplos de estilo-Gettier. Usual-
mente, as dúvidas estão baseadas na ideia de que a pessoa do exemplo não está justifi-
cada em crer na proposição final e, logo, não tem realmente uma crença verdadeira justi-
ficada.21 E esta ideia repousa na rejeição de um ou outro dos dois princípios recém formu-
lados.22 Nesta seção examinaremos a plausibilidade destas respostas aos exemplos. 
 
A. Rejeitando a (FJ) 
 
Uma maneira de defender a ATC é rejeitar a (FJ). Você pode pensar que, se uma 
proposição é falsa, então uma pessoa que creia nela não deve ter razões boas o suficien-
te para essa crença. Se esta ideia está correta, ela proporciona uma defesa da ATC da 
seguinte maneira. Ela implica que, em cada um de nossos exemplos, Smith não está justi-
ficado em crer na proposição falsa. Se Smith não está justificado em crer na proposição 
falsa (a numera em ímpar), então ele não está justificado em crer no que ele deduz dela. 
Logo, sua crença na proposição numerada em par também não está justificada. Como um 
resultado, os exemplos de estilo-Gettier não são casos de crenças verdadeiras justifica-
das (porque eles não são casos de crenças justificadas) e, logo, eles não refutam a ATC. 
 
21 É possível argumentar que Smith tem conhecimento das proposições numeradas em par 
de cada um dos exemplos. Mas esta é uma abordagem que quase nenhum filósofo tomou. A refle-
xão cuidadosa acerca destes casos produz um veredicto quase unânime sobre deles. Você não 
pode ter conhecimento quando a sua crença é verdadeira coincidentemente, como é o caso em 
todos estes exemplos. 
 
 
Considere como esta resposta se aplica no caso Nogot/Havit. O crítico argumenta 
que, a despeito da evidência, Smith não está justificado em crer na proposição (3), de que 
Nogot possui um Ford. A razão para isto é que (3) é falsa e, logo, a evidência de Smith 
não deve ser boa o suficiente. De forma mais geral, o crítico diz, uma pessoa nunca pode 
estar justificada em crer numa proposição falsa. A (FJ) está errada. 
Uma vez que as razões de Smith para crer em (3) podem ser extremamente for-
tes, esta é uma resposta implausível. Além do mais, dada uma suposição muito sensata, 
rejeitar a (FJ) implica que dificilmente alguém alguma vez esteja justificado em crer em 
alguma coisa! Para ver porque é assim, considere qualquer exemplo no qual uma pessoa 
tenha o que a Perspectiva Standard considera como sendo uma crença justificada. Supo-
nha que não haja nada de estranho sobre o caso, e que as coisas sejam exatamente co-
mo as pessoas acreditam que elas sejam. Chame isto de “O Caso Típico.” Agora, é sem-
pre possível construir um exemplo que é uma variação do Caso Típico. Nesta variante, a 
pessoa tem exatamente a mesma evidência mas a proposição em questão é, não obstan-
te, falsa. Chame esta variante de “O Caso Incomum.” Para preencher os detalhes do Ca-
so Incomum, será necessário acrescentar com esforço incomum ilusões e coisas pareci-
das. Embora tais coisas sejam incomuns, elas são possíveis. O ponto chave a observar é 
que tanto no Caso Típico quanto no Caso Incomum o crente tem exatamente as mesmas 
razões para crer exatamente na mesma coisa. Assim, ou o crente está justificado em am-
bos os casos ou não está justificado em ambos os casos. Se a (FJ) é falsa, então a cren-
ça não está justificada no Caso Incomum (porque ela é falsa). Mas então ela também não 
está justificada no Caso Típico, já que as razões são as mesmas. Isto pode ser feito para 
virtualmente qualquer crença alegadamente justificada e, assim, se a (FJ) é falsa, virtual-
mente nenhuma crença esta justificada. 
O raciocínio recém exposto depende do Princípio da Mesma Evidência, ou (ME): 
 
ME. Se em dois exemplos possíveis não há diferença alguma na evidência que uma pes-
soa tem para alguma proposição, então, ou a pessoa esta justificada em crer na 
proposição em ambos os casos, ou a pessoa não está justificada em crer na propo-
sição em ambos os casos. 
 
 
22 É possível argumentar que em nossos exemplos as razões de Smith simplesmente não 
são razões muito boas. Mas, como foi notado ao final da seção IA, podem-se tornar as razões de 
Smith tão fortes quanto se queira. Nenhuma resposta nessa linha parece promissora. 
 
 
A (ME) é um princípio extremamente plausível. Se a (ME) é verdadeira e a (FJ) é 
falsa, então virtualmente nada está justificado. E isso viola a nossa suposição básica (por 
enquanto, ao menos) de que nós conhecemos coisas. Assim, a primeira defesa da ATC 
não é boa.23 
Alguns leitores podem ainda pensar que rejeitar a (FJ) é correta. Recorde, entre-
tanto, que a questão do atual capítulo é ver quais são as consequências da Perspectiva 
Standard. A Perspectiva Standard sustenta que nós conhecemos muitas coisas, e rejeitar 
a (FJ) implica em que dificilmente alguma coisa está justificada e, logo, que dificilmente 
alguma coisa é conhecida. Assim, rejeitar a (FJ) requer a rejeição da Perspectiva Stan-
dard. Em outras palavras, a (FJ) é uma consequência da Perspectiva Standard. Logo, re-
jeitá-la está fora de questão neste estágio de nossa investigação. Retornaremos a este 
tópico quando examinarmos a Perspectiva Cética. 
 
B. Rejeitando a (DJ) 
 
Recorde que os exemplos Gettier dependem tanto da (DJ) quanto da (FJ). A (DJ) 
diz que a justificação pode ser transferida através da dedução. Uma segunda base possí-
vel para defender a análise tradicional desses contraexemplos é rejeitar a (DJ). A ideia é 
que quando você raciocina apropriadamente desde verdades justificadas, o resultado está 
justificado, mas quando você raciocina apropriadamente desde falsidades justificadas, o 
resultado não está justificado. Em outras palavras, se você começa com uma crença ver-
dadeira justificada e tira apropriadamente uma conclusão dela, então a crença resultante 
está justificada. Entretanto, se você começa com uma crença falsa justificada – lembre, 
você está aceitando a (FJ) – e tira corretamente uma conclusão dela, então a crença re-
sultante não está justificada. Logo, nesta perspectiva, em cada um dos casos Gettier a 
pessoa está justificada em crer no primeiro passo – a proposição numerada em ímpar – 
mas não está justificada em crer na consequência tirada dela. Portanto, os advogados 
desta perspectiva rejeitam a (DJ). 
Esta perspectiva também requer a rejeição da (ME). Imagine um exemplo como 
qualquer um dos casos no estilo-Gettier mas no qual não estejaacontecendo nenhum en-
gano e o primeiro passo seja de fato verdadeiro. Tirar a conclusão final, sob aquelas cir-
cunstâncias, está justificado. Mas, de acordo com a atual proposta, ela não está justifica-
 
23 No capítulo 5 examinaremos algumas teorias que rejeitam a (ME). Entretanto, de acordo 
com essas teorias, a (FJ) é verdadeira e a ATC é refutada pelos exemplos de estilo-Gettier. 
 
 
da nos casos Gettier. Ainda assim, a pessoa tem exatamente as mesmas razões em cada 
caso. Isto é implausível. 
Considere cuidadosamente o que alguém que rejeita a (DJ) estaria dizendo sobre 
Smith em cada um dos casos Gettier. O crítico diria de Smith, “Sim, Smith está justificado 
em crer que Nogot, que trabalha em seu escritório, possui um Ford. E é verdade que ele 
pode deduzir disto que alguém que trabalha em seu escritório possui um Ford. Mas, não 
obstante, ele não está justificado em crer nessa conclusão.” Isto parece absurdo. Nós po-
demos sensatamente perguntar que atitude Smith estaria justificado em tomar em relação 
à proposição de que alguém em seu escritório possui um Ford. Seria razoável para ele 
crer que Nogot possui um Ford mas negar ou suspender o juízo sobre se alguém possui 
um Ford? É claro que não. Mas isso é o que a rejeição da (DJ) parece recomendar. Rejei-
tar a (DJ) simplesmente não é uma boa maneira de defender a ATC dos exemplos de Ge-
ttier. 
Estas tentativas de defender a ATC dos exemplos de estilo-Gettier fracassam. Nos 
voltamos em seguidas às respostas de acordo com as quais o conhecimento requer al-
guma coisa além da crença verdadeira justificada. 
 
 
III. MODIFICANDO A ANÁLISE TRADICIONAL 
 
Uma ideia plausível é a de que você não pode ter conhecimento se a sua crença 
depende de uma proposição falsa. Nesta seção consideraremos alguns esforços para 
formular mais claramente esta ideia. 
 
A. A Teoria Sem Bases Falsas 
 
Uma maneira pela qual a justificação de uma crença pode depender de uma falsi-
dade é se há uma proposição falsa entre as bases ou razões para a crença. Michael Clark 
propôs uma solução ao problema de Gettier fazendo uso desta ideia.24 Clark sugere a se-
guinte descrição Sem Bases Falsas do conhecimento. Ele acrescenta uma quarta condi-
ção as três da ATC: 
 
 
24 “Knowledge and Grounds: A Comment on Mr. Gettier’s Paper,” Analysis XXIV (1963): 46-
48. 
 
 
 
SBF. S sabe p = df. (i) S crê p, (ii) p é verdadeira, (iii) S está justificado em crer p; (iv) To-
das as bases de S para crer p são verdadeiras. 
 
A ideia aqui é diferente – e melhor – da proposta discutida na seção II, de acordo 
com a qual as crenças que têm bases falsas não são sequer justificadas. Aqui a ideia é 
que ter todas as bases verdadeiras é uma condição adicional para o conhecimento, mas 
não para a justificação. Logo, os defensores de (SBF) concordam que as vítimas dos 
exemplos Gettier estão justificadas em suas crenças. Isto é o que os críticos anteriormen-
te discutidos negavam. Ao invés, esta resposta diz que o conhecimento não pode depen-
der de quaisquer bases falsas. Em cada um dos exemplos precedentes Smith tem uma 
base falsa para a sua crença final. Assim, (SBF) parece evitar os contraexemplos de esti-
lo-Gettier. 
A (SBF) funcionara desde que (a) em todos os casos Gettier o crente tenha uma 
base falsa, e (b) não existam casos de conhecimento nos quais o crente tenha uma base 
falas. Existem razões para duvidar de cada um destes pontos. 
Considere primeiro (a). Existem casos de estilo-Gettier nos quais a pessoa não dá 
explicitamente um passo falso em seu raciocínio. Como veremos, estes podem ser casos 
Gettier nos quais o crente não tem uma base falsa. Nós podemos usar uma versão revi-
sada do caso Nogot/Havit para ilustrar o ponto: 
 
Exemplo 3.4: O Caminho Alternativo25 
 
Smith observa que Nogot está dirigindo um Ford, tem os documentos de proprie-
dade, e assim por diante. Mas, ao invés de tirar a conclusão sobre Nogot, Smith tira a se-
guinte conclusão: 
 
7. Há alguém que trabalha no escritório de Smith que dirige um Ford, tem docu-
mentos de propriedade de um Ford, etc. 
 
Com base em (7), Smith tira a mesma conclusão final de antes: 
 
 
25 Um exemplo tal como este foi apresentado em Richard Feldman, “Na Alleged Defect in Gettier 
Counterexamples,” Australasian Journal of Philosophy 52 (1974): 68-69. 
 
 
4. Há alguém que trabalha no escritório de Smith que possui um Ford. 
 
A diferença entre os dois exemplos é que na versão original Smith explicitamente 
raciocinava dando um passo falso para chegar à sua conclusão verdadeira, e na nova 
versão ele toma um caminho alternativo para chegar à mesma conclusão. 
Na versão original do exemplo, o pensamento de Smith era: 
 
N. Nogot, que trabalha no escritório de Smith, dirige um Ford, tem os documentos 
de propriedade de um Ford, etc. 
3. Nogot, que trabalha no escritório de Smith, possui um Ford. 
4. Há alguém que trabalha no escritório de Smith que possui um Ford. 
 
(N) é verdadeira, (3) é falsa, e (4) é verdadeira. Assim, este caminho para (4) pas-
sa por uma falsidade. Mas no segundo caso Smith substitui (3) por (7). O pensamento de 
Smith vai agora: 
 
N. Nogot, que trabalha no escritório de Smith, dirige um Ford, tem os documentos 
de propriedade de um Ford, etc. 
7. Há alguém que trabalha no escritório de Smith que dirige um Ford, tem os do-
cumentos de propriedade de um Ford, etc. 
4. Há alguém que trabalha no escritório de Smith que possui um Ford. 
 
(N) e (4) ainda são verdadeiras, mas agora o passo intermediário, (7), também é 
verdadeiro. Assim, nesta versão do exemplo, Smith não raciocina através de uma falsa 
proposição. Ainda assim, Smith não sabe (4). É ainda um caso Gettier. Logo, nem todos 
os exemplos dependem de que uma pessoa derive uma verdade de uma falsidade. 
É verdade que no exemplo 3.4 ainda há uma falsidade “nas vizinhanças.” A propo-
sição (3), Nogot possui um Ford, é falsa, e isto parece importar. Você poderia até mesmo 
pensar que (3) é parte das bases de Smith, ainda que ele não pensa explicitamente sobre 
ela. Logo, nós estamos em face de uma questão. No exemplo 3.4, (3) é ou não é parte 
das bases de Smith? 
Nós podemos pensar naquilo que é incluído nas bases de uma crença numa ma-
neira mais ampla ou mais estrita. A formulação estrita é assim: 
 
 
 
B1. As bases de uma crença incluem apenas aquelas outras crenças que são 
passos explícitos na cadeia de inferências que levam à crença. 
 
Se a cláusula (iv) de (SBF) faz uso desta formulação das bases, então é exemplo 
3.4 refuta a teoria. Ele é um caso Gettier no qual passos explícitos do raciocínio não in-
cluem falsidades. Isto sugere que Clark estaria melhor apelando para uma formulação 
mais ampla das bases de uma crença, uma formulação de acordo com a qual as bases 
incluem mais do que os passos explícitos do raciocínio. Por exemplo, ele pode propor: 
 
B2. As bases de uma crença incluem todas as crenças que jogam qualquer papel 
na formação da crença, incluindo as “suposições de base” [background assumptions] e 
pressuposições. 
 
Se Clark usa (B2) para explicar a cláusula (iv) de sua descrição do conhecimento, 
então o exemplo 3.4 não a refuta. Isto porque há uma suposição de base falsa no exem-
plo, a saber, (3). Assim, apelando para (B2),Clark poderia argumentar plausivelmente que 
a condição (iv) de (SBF) não está satisfeita no exemplo 3.4 e, logo, sua teoria produz aqui 
o resultado correto: ela diz que Smith não sabe que alguém em seu escritório possui um 
Ford. 
O problema com estaresposta é que a teoria enfrenta agora uma objeção diferen-
te. Como foi notado ante nesta seção, (SBF) funciona apenas se não houver casos de 
conhecimento nos quais haja falsidades entre as bases que a pessoa usa. Entretanto, é 
claro que pode haver conhecimento mesmo quando algumas das bases usadas por al-
guém sejam falsas. Isto é verdadeiro tanto na formulação mais-inclusiva quanto na formu-
lação menos-inclusiva das bases, mas ela é especialmente óbvia quando a bases incluem 
crenças de base [background beliefs] e pressuposições. Os exemplos seguintes ilustram 
o ponto: 
 
 
 
Exemplo 3.5: O Caso das Razões Extras 
 
Smith tem dois conjuntos de razões independentes para pensar que alguém em 
seu escritório possui um Ford. Um conjunto tem a ver com Nogot. Nogot diz que ele pos-
 
 
sui um Ford e assim por diante. Como sempre, Nogot está simplesmente fingindo. Mas 
Smith também tem razões igualmente fortes que tem a ver com Havit. E Havit não está 
fingindo. Havit possui um Ford, e Smith sabe que ele possui um Ford. 
 
Neste exemplo, Smith sabe que alguém em seu escritório possui um Ford. Isto 
porque suas razões que têm a ver com Havit são boas o suficiente para dar a ele conhe-
cimento. Ainda assim, uma de suas razões, aquela que tem a ver com Nogot, é falsa. Isto 
mostra que você pode ter conhecimento mesmo que haja alguma falsidade em algum lu-
gar do cenário. Esta objeção é decisiva. Ela mostra que a condição de Clark é muito for-
te.26 
Logo, a maneira de Clark de remendar a ATC não funciona. Se ele usa (B1), então 
o exemplo 3.4 a refuta. Se ela usa (B2), então o exemplo 3.5 a refuta. O simples fato de 
que haja uma falsidade entre as razões para a crença de alguém não mostra que ele ca-
rece de conhecimento. 
 
B. A Teoria Sem Anuladores 
 
Existe outra maneira pela qual os filósofos têm tentado explicar o que é para a jus-
tificação de uma crença depender de uma proposição falsa. Uma característica notável 
dos casos Gettier é que pode haver uma proposição verdadeira tal que, se o crente sou-
ber sobre ela, ele não acreditará (ou não estará justificado em acreditar) na proposição 
em questão. Com efeito, então, a justificação do crente depende da negação desta ver-
dade.27 
Nós podemos aplicar este pensamento aos nossos exemplos. No exemplo 3.1, se 
Smith compreendesse que Jones não ficaria com o emprego (o que é verdade), então ele 
não acreditaria que o homem que ficaria com o emprego tem dez moedas em seu bolso 
(ou ele não mais teria qualquer boa razão para crer nisto). Nos exemplos 3.2 e 3.4, se 
Smith compreendesse que Nogot não possui um Ford, então, dado o restante do exem-
plo, ele não mais teria qualquer boa razão para crer que alguém no escritório possui um 
Ford. NO exemplo 3.3, se Smith compreendesse que a coisa para a qual ele estava 
olhando não era uma ovelha , então ele não mais estaria justificado em crer que uma ove-
 
26 Observe que esta objeção funciona quer você use (B1) ou (B2). 
27 Para uma defesa de uma perspectiva nestas linhas, veja Peter Klein, “Knowledge, Causality, and 
Defeseability,” Journal of Philosophy 73 (1976): 792-812. 
 
 
lha estivesse no campo. (Em contraste, no exemplo 3.5 ele continuaria a crer que alguém 
no escritório possui um Ford , ainda que ele ficasse sabendo que Nogot não possui um.) 
Logo, em cada exemplo Gettier (exemplos 3.1-3.4), há uma proposição falsa na 
qual Smith efetivamente acredita. Se ele não acreditasse nela, e ao invés acreditasse jus-
tificadamente na sua negação (que é verdadeira), então ele deixaria de acreditar, ou dei-
xaria de ter justificação para acreditar, na proposição Gettier. Essa proposição verdadeira 
é dita anular [defeat] a justificação de Smith. E a ideia é que alguém tem conhecimento 
quando não há verdades que anulem e a sua justificação. Logo, a proposta é acrescentar 
a ATC o requerimento de que não exista anulador: 
 
 
SA. S sabe p = df. (i) S crê p, (ii) p é verdadeira, (iii) S está justificado em crer p; (iv) Não 
há uma proposição verdadeira t tal que, se S estivesse justificado em crer t, então S 
não estaria justificado em crer p. (nenhuma verdade anula a justificação de S para p.) 
 
 
(SA) parece lidar corretamente com todos os exemplos considerados até aqui. 
Desafortunadamente, há problemas para a teoria sem anuladores. Eis aqui dois. 
 
 
Exemplo 3.6- O Caso do Rádio 
 
Smith está sentado em seu estúdio com o rádio desligado e Smith sabe que ele 
está desligado. Na ocasião, a Rádio Classic Hits 101 está tocando a grande música do 
grande Neil Diamond, “Girl, You’ll Be a Woman Soon.” Se Smith estivesse com o rádio 
ligado e sintonizado nessa estação, Smith teria ouvido a canção e saberia que ela está 
tocando. 
 
Pode não ser imediatamente óbvio porque isto coloca um problema, mas ele colo-
ca. No exemplo 3.6 Smith sabe: 
 
8. O rádio está desligado. 
 
 
 
As condições (i)-(iii) da ATC estão satisfeitas. Mas (iv) está satisfeita. Isto é, há al-
guma proposição verdadeira tal que, se Smith estivesse justificado em crer nela, então ele 
não estaria justificado em crer (8)? Uma proposição verdadeira nesta história é 
 
9. A Rádio Classic Hits 101 está tocando “Girl, You’ll be a Woman Soon.” 
 
Suponha que Smith estivesse justificado em crer (9). Em qualquer caso típico há 
muitas maneiras pelas quais ele poderia estar justificado em crer (9). A maneira mais pro-
vável seria que o rádio estivesse ligado. Naturalmente, ele poderia ter ficado sabendo so-
bre (9) por ter alguém ligado e dito a ele, ou por ter recebido um e-mail alertando-o sobre 
as novidades. Mas suponha que em nosso exemplo estas outras maneiras não estejam 
disponíveis. Em nosso exemplo, se Smith estivesse justificado em crer (9), então ele seu 
rádio estaria ligado e ele teria ouvido a música. Mas, se esse fosse o caso, então Smith 
não estaria justificado em crer que o rádio está desligado. Assim, a condição (iv) não está 
satisfeita. Há uma proposição verdadeira, (9), tal que se Smith estivesse justificado em 
crer nela, então Smith não estaria justificado em crer (8). Em certo sentido (ou talvez em 
vários sentidos), Smith tem sorte de não saber (9). De um lado, isso o habilita a saber (8). 
De outro, Smith não tem de ouvir a música. 
Este exemplo pode confundir. Isso ocorre em larga medida porque sentenças que 
dizem que se uma coisa fosse ocorrer, então uma outra coisa seria verdadeira causam 
confusão. Estas sentenças são chamadas de condicionais subjuntivos. Aplicado a este 
caso, o condicional se refere ao que seria o caso se Smith estivesse justificado em crer 
(9). A melhor maneira de determinar isto é considerar como Smith iria chegar a estar justi-
ficado em crer (9). Nas circunstâncias descritas, a maneira é que Smith teria o rádio liga-
do, sintonizado na Rádio Classic Hits 101, e teria ouvido a música no rádio. Assim, se es-
se fosse o caso, Smith não estaria justificado em crer que o rádio está desligado. E isto é 
o que causa problemas para (SA). Esta diz que Smith não sabe (8) se existir alguma outra 
verdade tal que se ele estivesse justificado em acreditar nela ele não estaria justificado 
em crer (8). Mas (9) é exatamente uma tal verdade. 
Uma vez que você veja como o exemplo 3.6 funciona, é fácil gerar exemplos adi-
cionais que sigam as mesmas linhas. A questão subjacente é muito simples, embora sur-
preendente. É que alguém pode conhecer alguns fatos e pode haver outros fatos tais que, 
se ele conhecesse estes outros fato, então ele não conheceria os fatos originais. Isto por-
que, se alguém estivesse em posição de conhecer os últimos fatos, então ele não estaria 
 
 
em posiçãode conhecer os fatos anteriores. E, em alguns casos, se alguém conhecesse 
os últimos fatos, então os fatos anteriores sequer seriam verdadeiros. A versão atual da 
teoria sem anuladores diz que quando existem tais fatos, carece-se de conhecimento. 
Uma vez que tipicamente existirão tais fatos, a teoria implica que conhecemos muito pou-
co. 
Há outra maneira pela qual a ignorância de algumas verdades pode nos ajudar a 
conhecer coisas. (SA) também tem um problema como estes casos. Eis aqui um de tais 
exemplos. 
 
Exemplo 3.7: O Caso Grabit28 
 
Black vê o seu estudante Tom Grabit enfiar uma fita no bolso de seu casaco e se 
esgueirar para fora da biblioteca. Ela sabe que Tom pegou a fita. Agora, imagine que o 
crime de Tom é relatado à mãe de Tom em seu quarto no hospital psiquiátrico. E ela re-
truca que Tom não o fez, que foi Tim, o irmão gêmeo dele.E imagine ainda que ele não 
tem irmão gêmeo, que esta é apenas outra das ilusões dela. Black ignora tudo isto. 
 
Por que isto é um problema? Considere esta verdade: 
 
10. A mãe de Tom disse que o irmão gêmeo de Tom, Tim, pegou a fita. 
 
Note que a própria (10) é verdadeira, ainda que aquilo que a Mãe de Tom diga se-
ja falso. Se Black estivesse justificada em crer apenas nesta verdade – mas não no res-
tante da história sobre ela – essa iria anular a justificação de Black. Ela é um anulador 
enganoso. 
Mais uma vez, isto pode parecer confuso. Mas a ideia é relativamente simples. Se 
nós podemos conhecer coisas comuns, então pode haver outras verdades tais que se nós 
tivéssemos sabido delas, elas solapariam nossa justificação para a coisa que conhece-
mos. Mas alguns destes anuladores são enganosos. Isto é, nós de fato conhecemos coi-
sas, mas não as conheceríamos se tivéssemos sabido sobre estes anuladores. Nós te-
mos sorte de não sabermos sobre os anuladores. O testemunho da Senhora Grabit é as-
sim. Observe que no caso de Tom Grabit, diferentemente dos verdadeiros casos Gettier, 
 
28 Uma versão levemente modificada deste exemplo apareceu primeiro em Keith Lehrer, “Knowledge, 
Truth and Evidence,” Analysis XXV (1965): 168-175. 
 
 
as coisas são exatamente como Black pensa que elas são. Black é afortunada por ser ig-
norante das divagações da mãe demente. Black teria perdido a sua justificação para a 
sua crença sobre Tom se ela soubesse sobre elas. 
Assim, esta versão da teoria sem anuladores não funcionará. Há muitas outras 
possíveis variações de (SA), e talvez algumas versões evitem os exemplos considerados 
aqui. As outras variações acrescentam mais complexidade à análise, e existem ainda 
mais estranhos contra-exemplos propostos contra elas, mas não as acompanharemos 
aqui.29 
 
D. Uma Proposta Modesta 
 
É seguro dizer que não existe uma solução amplamente aceita para o problema de 
Gettier levantado a ATC. As defesas da ATC discutidas na seção II são inadequadas e as 
modificações consideradas nesta seção enfrentam sérios problemas. O problema Gettier 
permanece irresolvido. 
Resta verdadeiro, entretanto, que em todos os casos Gettier há uma proposição 
falsa envolvida que os torna casos nos quais as pessoas careçam de conhecimento. De 
alguma forma, a justificação depende dessa falsidade. Nós podemos destacar este ponto 
dando ao menos um modesto passo em direção à solução do problema. 
O elemento chave em todos os casos de estilo-Gettier é que, em algum sentido, a 
crença central “depende essencialmente de uma falsidade.” A ideia de dependência es-
sencial é razoavelmente clara. Por exemplo, no Caso da Ovelha no Campo, a crença de 
Smith de que há uma ovelha no campo depende essencialmente da proposição de que o 
que ele vê é uma ovelha. No Caso das Razões Extras, Smith tem duas linhas de pensa-
mento independentes que levam à mesma conclusão. Uma linha de pensamento, que se 
refere a Nogot, depende de uma proposição falsa. A outra linha de pensamento, a que 
envolve havit, não depende de nada falso. Neste caso, a crença de Smith de que alguém 
possui um Ford não depende essencialmente da falsidade. Isto porque há uma linha justi-
ficatória que ignora a falsidade. É por isso que pode haver conhecimento numa tal situa-
ção, ainda que o raciocínio envolva uma proposição falsa. Ele não depende essencial-
mente dessa falsidade. 
 
29 Para uma discussão destas alternativas, veja Robert Shope, The Analysis of Knowing (Princeton, 
N.J.: Princeton University Press, 1983), capítulo 2. 
 
 
O Caso do Caminho Alternativo e outros casos nos quais a crença não depende 
diretamente da falsidade também ajudam a destacar a ideia da dependência essencial 
sobre uma falsidade. Nestes casos, Smith não raciocina explicitamente por meio de uma 
proposição falsa. Entretanto, há uma dependência implícita sobre uma proposição falsa. 
Tipicamente, as coisas das quais alguém depende incluirão coisas que, se pressionado, 
ele iria dizer que são relevantes. 
A ideia da dependência essencial admitidamente não é completamente clara. En-
tretanto, ela nos dá uma definição de conhecimento que funciona, com a qual nós pode-
mos ir adiante. A definição, então, é 
 
DEF. S sabe p = df. 
 (i) p é verdadeira. 
 (ii) S crê p. 
 (iii) S está justificado em crer p. 
 (iv) A justificação de S para p não depende 
 essencialmente de qualquer falsidade. 
 
Ao acrescentar a cláusula (iv), (DEF) faz uma modificação importante na ATC. 
Não obstante, ele retém o coração da perspectiva tradicional, pois ela retém a ideia de 
que o conhecimento requer a crença verdadeira justificada. Ela simplesmente acrescenta 
uma condição extra. Uma questão chave referente à (DEF), assim como à perspectiva 
tradicional na qual ela está baseada, tem a ver com o conceito de justificação. Nos volta-
remos a isso em detalhe no capítulo 4. Na seqüência examinaremos as perspectivas de 
alguns filósofos que pensam que nenhuma modificação relativamente pequena da ATC 
irá produzir uma análise correta do conhecimento. Eles pensam que uma formulação intei-
ramente diferente é preferível. Nós examinaremos suas perspectivas no capítulo 5. 
 
 
 
IV. CONCLUSÃO 
 
A resposta tradicional para (Q1), que perguntava quais são as condições para o 
conhecimento, foi que o conhecimento é crença verdadeira justificada. A ATC é uma aná-
lise do conhecimento elegante e atraente, mas os exemplos Gettier mostram que ela não 
é completamente satisfatória. A moral disto é que o conhecimento requer a crença verda-
Jociéli
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deira justificada e mais alguma coisa – há uma quarta condição para o conhecimento. Di-
zer exatamente qual é essa quarta condição se revela notavelmente difícil. A teoria sem 
bases falsas e a teoria sem anuladores não têm sucesso. O que parece ser crucial é que 
a justificação não dependa essencialmente de alguma coisa falsa. Embora esta ideia não 
tenha sido formulada em todos os detalhes, ela nos dá uma formulação útil do conheci-
mento. Logo, nossa resposta para (Q1) é que o conhecimento requer crença verdadeira 
justificada que não dependa essencialmente de uma falsidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO QUATRO 
 
TEORIAS EVIDENCIALISTAS DO CONHECIMENTO E DA JUSTIFICAÇÃO 
 
 
 
Se alguma coisa como a versão modificada de Análise Tradicional do Conheci-
mento proposta no capítulo 3 é correta, então a justificação é uma condição necessária 
crucial para o conhecimento. Além do mais, a justificação é um conceito interessante e 
enigmático por si mesma. Ela será o foco deste capítulo e daquele que segue. O presentecapítulo cobre uma formulação da justificação tradicional e amplamente aceita. O próximo 
capítulo introduzirá formulações da justificação (e do conhecimento) mais recentes e bas-
tante diferentes. 
Para ajudar a enfocar claramente as questões centrais, será melhor usar um 
exemplo no qual duas pessoas acreditam na mesma coisa, mas uma está justificada nes-
sa crença e a outra não. 
 
 
Exemplo 4.1: O Roubo 
 
Alguém invadiu a casa de Art e roubou uma valiosa pintura. O policial Careful in-
vestiga o caso e termina com a evidência conclusiva de que Filcher cometeu o crime. Ca-
reful encontra a pintura na posse de Filcher, encontra as impressões digitais de Filcher na 
cena do crime, e assim por diante. Careful acaba acreditando: 
 
1. Filcher roubou a pintura. 
 
Enquanto isso, Hasty também ouviu sobre o roubo. Acontece que Hasty mora ao 
lado de Filcher e tem tido alguns problemas com ele. Hasty detesta Filcher e o culpa por 
muitas das coisas ruins que acontecem. Hasty tem uma vaga ideia de que Filcher trabalha 
com comércio de arte mas não tem qualquer conhecimento específico sobre o que ele 
faz. Sem mais nada em que se basear, Hasty também crê (1). 
A Perspectiva Standard sustenta que no exemplo 4.1 Careful está inteiramente 
justificado em crer (1) mas Hasty não está. Se você precisa acrescentar algo mais à histó-
ria para se convencer daquelas avaliações, pode fazer os acréscimos. Entretanto, o 
exemplo deveria ser bastante persuasivo tal como está. 
O objetivo do presente capítulo é descrever de uma maneira sistemática e útil o 
que distingue a crença de Careful da crença de Hasty e, mais geralmente, identificar as 
características gerais que distinguem as crenças justificadas das crenças injustificadas. 
Há muitas diferenças entre a crença de Careful e a crença de Hasty que são irrelevantes 
 
 
para este projeto. Por exemplo, a crença de Hasty é sobre seu vizinho, mas a crença de 
Careful não é sobre seu (de Careful) vizinho. Isto é verdade, mas não é o que faz com 
que uma esteja justificada e a outra não esteja. Crenças sobre a vizinhança podem estar 
justificadas, e não é sequer remotamente plausível que isto tenha alguma importância em 
termos de justificação. Em geral, nada sobre aquilo de que trata uma crença provavel-
mente será, por si só, de algum valor para responder a questão, pois as pessoas podem 
ter tanto crenças justificadas quanto crenças injustificadas sobre praticamente qualquer 
tópico. Qual é, então, a diferença?30 
Ao pensar sobre esta questão será útil ter em mente a seguinte ideia. Se uma 
crença está justificada ou injustificada, seu status epistêmico é um fato avaliativo sobre a 
crença. A reflexão sobre isto sugere que o status epistêmico deve depender de outros fa-
tos não epistêmicos. Pode ser mais fácil entender a ideia considerando primeiro uma ana-
logia. Suponha que uma professora devolva um conjunto de trabalhos avaliados para os 
estudantes de sua turma. Ela diz que um trabalho está excelente e dá a ele uma nota mui-
to alta. Ela diz que outro trabalho está ruim e dá a ele uma nota baixa. A professora então 
atribui então certas propriedades avaliativas a estes trabalhos. Estas são propriedades 
que se referem à qualidade dos trabalhos. (Embora não seja crucial para a discussão que 
se segue, suponha que haja uma verdade objetiva sobre a qualidade de cada trabalho.) A 
qualidade do trabalho é depende de outras características do trabalho. Por exemplo, pa-
lavras mal escritas diminuem a qualidade do trabalho, assim como também o fazem sen-
tenças gramaticalmente erradas. Talvez estar escrito claramente aumente sua qualidade. 
Há vários outros fatores que entram na avaliação. Estes fatores envolvem as proprieda-
des descritivas dos trabalhos. A ideia chave a entender é que, se existe uma diferença 
avaliativa nos trabalhos, então deve haver uma diferença descritiva. Em outras palavras, 
se não há diferença descritiva, então também não há diferença avaliativa. O princípio se-
guinte captura a ideia: 
 
Necessariamente, se dois trabalhos têm as mesmas propriedades descritivas, en-
tão eles têm as mesmas propriedades avaliativas. 
 
Isto é às vezes descrito como sendo a tese da superveniência – as propriedades 
avaliativas dos trabalhos sobrevêm às suas propriedades descritivas, ou dependem delas. 
 
30 
 
 
A plausibilidade da tese da superveniência sobre os dois trabalhos pode ser apre-
ciada considerando a situação de um estudante que tira uma nota baixa. Suponha que um 
tal estudante pergunte à professora sobre o que tornou seu trabalho inferior ao trabalho 
de um colega que ficou com uma nota mais alta. Seguramente haveria algo de errado 
com um professor que respondesse ao seu estudante, “Não há diferença descritiva entre 
os dois trabalhos. Eles são exatamente iguais de todas as maneiras descritivas. Ocorre 
simplesmente que, infelizmente, o seu trabalho não é tão bom quanto aquele.” Este estu-
dante pode reclamar apropriadamente que, se o seu trabalho não é tão bom quanto o ou-
tro, deve haver alguma coisa sobre os dois trabalhos que revele esta diferença avaliativa. 
Uma coisa semelhante é verdadeira em epistemologia. Estar justificada ou injusti-
ficada é uma propriedade epistêmica avaliativa de uma crença. Fatos sobre as causas de 
uma crença, sobre se ela é verdadeira, sobre se outras pessoas também acreditam na 
mesma coisa, são fatos não avaliativos sobre a crença. Além disso, fatos sobre que expe-
riências uma pessoa está tendo, sobre que outras coisas a pessoa acredita, e assim por 
diante, são todos fatos não epistêmicos. Os fatos epistêmicos avaliativos dependem des-
tes outros fatos. Logo, se uma crença está justificada e outra não está, deve haver algu-
ma diferença não avaliativa entre as duas crenças que de conta dessa diferença avaliati-
va. Esta ideia pode ser sumariada no seguinte princípio da superveniência epistêmica: 
 
Necessariamente, se duas crenças têm as mesmas propriedades não epistêmicas, 
então elas têm as mesmas propriedades epistêmicas. (Se duas crenças são exatamente 
iguais não epistemicamente, então, ou ambas estão justificadas ou ambas não estão justi-
ficadas, ou elas estão justificadas no mesmo grau.) 
 
Os defensores de todas as teorias da justificação que serão considerados neste e 
no próximos capítulos concordam com esta tese. A diferença entre as várias teorias se 
refere a que propriedades determinam o status epistêmico, ou quais fatos descritivos fa-
zem diferença epistêmica. 
 
 
I. EVIDENCIALISMO 
 
A nossa questão acerca do exemplo 4.1 se referia ao que tornou Careful justifica-
do em crer (1), mas Hasty injustificado em crer nessa proposição. Pode parecer que a 
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resposta à nossa questão seja bastante simples: Careful tem boas razões, ou evidências, 
para crer (1) enquanto Hasty não as tem. É a posse de evidência que é a marca de uma 
crença justificada. Nós chamamos a isto teoria evidencialista da justificação, ou evidencia-
lismo. 
Ainda que o evidencialismo esteja correto, tal como formulado até aqui ele não é 
uma teoria bem-desenvolvida. Os filósofos que concordam que a justificação seja uma 
questão de se ter boas razões diferem acentuadamente acerca do que está implicado em 
se ter boas razões. Há, então, mais a ser feito para desenvolver uma descrição satisfató-
ria da justificação. As questões se tornarão mais claras na medida em que examinarmos a 
ideia mais cuidadosamente. 
 
A. Avaliações Epistêmicas 
 
Em um famoso ensaio, “The Ethics of Belief,” publicado em 1877, William K. Clif-
ford descreve o seguinte exemplo: 
 
 
Exemplo 4.2 O Donode Barco Negligente 
 
Um dono de barco negligente decide, sem fazer quaisquer checagens cuidadosas, 
que seu barco tem condições de navegabilidade. O barco lança velas, e então afunda. 
Muitas vidas são perdidas, em larga medida porque o dono do barco acreditou que seu 
barco tinha condições de navegabilidade sem se importar em checar isto.31 
Clifford tira uma conclusão dura sobre este dono de barco. E elaborando este 
exemplo e alguns outros, ele formula uma conclusão geral que merece um exame. Essa 
conclusão é a tese de Clifford, (C): 
 
C. É errado sempre, em qualquer lugar, e para qualquer um, crer em qualquer coi-
sa a partir de evidência insuficiente.32 
 
Há questões óbvias para fazermos a respeito, mais notadamente, “O que conta 
como uma evidência insuficiente?” Nós podemos contornar esta questão por enquanto, 
 
31 
32 
 
 
assumindo apenas o seguinte: se uma pessoa tem mais e melhor evidência para a con-
clusão de que a proposição p é falsa do que para a conclusão de que a proposição p é 
verdadeira, então essa pessoa tem evidência insuficiente para crer que p seja verdadeira. 
Talvez Clifford pense que ter evidência suficiente requeira ainda mais, alguma coisa como 
uma evidência muito forte. Mas nós podemos colocar uma questão referente a (C) usando 
essa condição mais fraca. Ao discutir e defender (C), Clifford escreve: 
 
Não é apenas o líder de homens, o estadista, o filósofo, ou o poeta, que têm esse de-
ver imperioso para com a humanidade. Qualquer camponês que apresente suas len-
tas e raras sentenças no bar de sua vila, pode ajudar a matar ou a manter vivas as 
superstições fatais que amarram sua raça. Qualquer esposa diligente de um artesão 
pode transmitir às suas crianças crenças que podem manter a sociedade unida ou fa-
zê-la em pedaços. Nenhuma simplicidade de espírito, nenhuma obscuridade de classe 
[obscurity of station], pode escapar ao dever universal de questionarmos tudo aquilo 
em que acreditamos.33 
 
Sua ideia é que, ao crer a partir de evidência insuficiente, ajuda-se a manter vivas 
as “superstições fatais” e que, ao fracassar em seguir as evidências que se tem, a socie-
dade é dividida (“feita em pedaços”). Embora as alegações de Clifford possam parecer um 
tanto extremas, talvez haja algum mérito em sua tese. 
Alguns críticos podem objetar a tese de Clifford com base em que uma pequena 
quantidade de evidência, especialmente nos casos em que uma decisão deve ser tomada 
rapidamente, pode tornar a crença aceitável. Eis aqui um exemplo projetado para ilustrar 
o ponto. 
 
Exemplo 4.3: Dores no Peito 
 
Você está pronto para sair de férias. Pouco antes da hora da partida, você sente 
algumas leves dores no peito. Você sabe que tais dores estão tipicamente associadas 
com indigestão, mas elas podem ser sinais de problemas cardíacos. Preocupado com que 
possa ser um problema sério, você chama seu médico. 
 
Esta é uma ação sensata. Ainda assim, a evidência que você tem é bastante fra-
ca. Você não tem evidência para acreditar que possa ter um problema médico sério. Por 
 
 
isso, pode-se concluir que a tese de Clifford está errada. Algumas vezes uma pequena 
evidência é boa o suficiente. 
Clifford tem uma boa resposta para esta objeção. (C) não é uma tese sobre quanto 
é errado agir. Ela é uma tese sobre quanto é errado ter uma crença. Assim, se este 
exemplo causa algum problema para (C), o exemplo deve ser um no qual ter uma crença 
não é errado, ainda que não se tenha evidência suficiente para ela. Se a situação é como 
aquela recém descrita, seria errado concluir que você tem problemas cardíacos (se os 
sintomas descritos são as únicas razões que você tem para pensar isto). Você está ab-
surdamente indo muito além da sua evidência se você acredita nisso. Mas você tem evi-
dência suficiente para acreditar numa proposição diferente, a saber, que existe uma pos-
sibilidade de que você tenha problemas cardíacos. Além do mais, esta crença proporciona 
uma boa razão para tomar uma ação preventiva. Não há nada de errado com esta crença 
ou com a ação baseada nela. Assim, distinguir uma crença da ação relacionada com ela, 
e distinguir a proposição de que existe uma chance de que você tenha problemas cardía-
cos da proposição de que você tem problemas cardíacos, proporciona tudo o que é ne-
cessário para escapar desta objeção. 
No entanto, existem algumas outras objeções à tese de Clifford que são mais efe-
tivas. 
 
Exemplo 4.4: O Rebatedor Otimista 
 
Um jogador de beisebol da primeira divisão vai rebater numa situação crucial. Este 
jogador é um bom rebatedor: ele acerta em cerca de um terço das vezes em que tenta 
rebater. Ainda assim, ele erra mais frequentemente do que acerta. Como muitos outros 
jogadores da primeira divisão, ele é extremamente confiante: a cada vez que ele vai reba-
ter ele acredita que vai acertar. Este tipo de confiança, podemos supor, é de auxílio. Os 
jogadores se dão melhor quanto estão confiantes (acreditam que terão sucesso) e se dão 
mal quando perdem sua confiança. 
 
Os detalhes do exemplo 4.4 sugerem que não é errado para o rebatedor acreditar 
que ele acertará. De fato, parece muito melhor para ele acreditar nisto. Ainda assim, ele 
não tem “evidência suficiente” para a proposição de que ele acertará. 
 
 
33 
 
 
Exemplo 4.5: A Recuperação 
 
Uma pessoa tem uma doença séria, da qual poucas pessoas se recuperam. Mas 
esta pessoa não está disposta a se entregar à sua doença. Ela está segura de que ela 
será um dos afortunados. E a confiança ajuda: Aqueles que são otimistas tendem a se dar 
um pouco melhor, ainda que, desafortunadamente, a maioria deles tampouco se recupe-
re. 
 
A tese de Clifford diz que é errado para o paciente acreditar que ele irá se recupe-
rar. E este juízo parece ser muito cruel. Imagine criticar o esperançoso paciente, alegando 
que ele está errado em ser otimista. Se o otimismo ajuda, é difícil achar que é errado para 
ele ser otimista. 
Estes exemplos parecem mostrar que há casos nos quais não é errado acreditar 
em alguma coisa, ainda que não se tenha boa evidência para ela. Ainda assim, Clifford 
pode estar certo em pensar que todo caso de crença a partir de evidência insuficiente tem 
uma característica ruim: ela corre o risco de encorajar maus hábitos de pensamento. En-
tretanto, (C) depende da ideia de que este fato sempre supera outras considerações. Os 
exemplos recém considerados mostram outra coisa. Algumas vezes o benefício de se 
acreditar a partir de evidência insuficiente supera os danos potenciais. 
Você pode pensar que está divido sobre estes casos. Por um lado, a performance 
passada sugere que o rebatedor do exemplo 4.4 não irá acertar. Isto parece indicar que 
há alguma coisa de errada com a crença de que ele irá acertar desta vez. Por outro lado, 
o fato de que acreditar que ele irá acertar tende a melhorar sua performance sugere que 
não é errado para ele pensar que irá acertar. Afinal de contas, esta crença ajuda sua per-
formance, da mesma forma como o faz a concentração, o manejo correto do taco, e, tal-
vez, coçar-se e cuspir. Considerações semelhantes se aplicam ao exemplo 4.5. As esta-
tísticas sobre a recuperação da doença sugerem que há alguma coisa errada com a cren-
ça de que o paciente se recuperará. A crença “ignora os fatos” [“flies in the face of the 
facts”]. Ainda assim, esta é a sua melhor chance de se recuperar. Como nós podemos 
condenar uma pessoa por tentar? 
Uma boa maneira de resolver estes aparentes conflitosé dizer que há duas (ou 
mais) noções diferentes de incorreção sob consideração aqui. Uma noção se refere à mo-
ralidade (ou à prudência, ou ao auto-interesse). A outra é mais intelectual ou epistemoló-
gica. Uma coisa plausível de se dizer é que nestes exemplos as crenças estão moralmen-
 
 
te corretas mas epistemicamente incorretas. Nós não precisamos entrar em qualquer dis-
cussão detalhada a respeito da moralidade aqui. Será suficiente dizer que, tipicamente, o 
comportamento é imoral quando ele tem efeitos ruins sobre os outros (ou sobre si mes-
mo) e não há benefício compensatório. Acreditar a partir de evidência insuficiente pode ter 
os efeitos ruins que Clifford observa. No entanto, nos exemplos 4.4 e 4.5 há evidentes 
ganhos compensatórios. A tese de Clifford é completamente geral. Ele diz “Em todo lugar 
e sempre” é errado crer a partir de evidência insuficiente. Se a tese de Clifford é sobre 
moralidade, como ela parece ser, então ela é incorreta. Simplesmente não é imoral ter 
crenças otimistas e benéficas nestas circunstâncias. Logo, é provável que Clifford tenha 
ido longe demais ao afirmar (C) de modo geral. Algumas vezes não é moralmente errado 
crer a partir de evidência insuficiente. 
No entanto, pensar sobre estes exemplos e a tese de Clifford pode nos ajudar a 
enfocar as questões epistemológicas mais centrais. Suponha que uma pessoa interessa-
da unicamente em alcançar a verdade esteja na posição das pessoas de nossos exem-
plos eu esteja formando uma crença sobre aquelas pessoas baseada exatamente na evi-
dência que elas têm. Uma tal pessoa iria colocar de lado preocupações de auto-interesse 
tais como ganhar o jogo ou se recuperar de uma doença. (Você pode pensar numa pes-
soa que está fazendo apostas nos resultados e está interessada apenas em ganhar as 
apostas.) Essa pessoa iria estar interessada apenas no que de fato é verdadeiro. O que 
essa pessoa iria acreditar nessa situação? É claro que um tal crente desinteressado não 
acreditaria que o rebatedor acertará ou que o paciente se recuperará. Você pode destacar 
este ponto dizendo que, nestas situações, com a evidência tal como foi descrita, haveria 
algo errado em crer nestas coisas. Mas este não é um problema moral. É um problema de 
racionalidade ou de razoabilidade. Em outras palavras, é epistemicamente errado acredi-
tar nestas coisas nas situações descritas. 
A ideia chave a se tirar disto é que nós podemos avaliar as crenças de duas ma-
neiras. Nós podemos avaliá-las moralmente34 – elas são benéficas? Elas causam algum 
dano significativo? Nos dois exemplos, as crenças são benéficas (quando sustentadas 
pelo rebatedor ou pelo paciente). Elas ganham, portanto, uma avaliação moral favorável. 
Nós podemos também avaliar as crenças epistemicamente. Neste ponto de vista sobre 
epistemologia em discussão aqui, isto é determinado por se elas vão contra a evidência. 
Se Clifford tivesse dito que é epistemicamente errado crer a partir de evidência insuficien-
 
34 
 
 
te, ele teria afirmado um ponto de vista que muitos filósofos tomam como correta. Mas 
sua alegação sobre a moralidade está equivocada. 
A discussão de Clifford nos ajuda e enfocar a noção de alguma coisa ser epistemi-
camente errada. É sobre esta avaliação que trata a condição de justificação da ATC. Uma 
crença epistemicamente justificada é uma crença que é avaliada favoravelmente de um 
ponto de vista epistemológico, não importa qual seja o seu status moral ou prudencial. 
 
B. Formulando o Evidencialismo 
 
A ideia central do evidencialismo pode ser estabelecida desde o seguinte princípio 
evidencialista da justificação 
 
EJ. Crer p está justificado para S sse a evidência de S em t sustenta p. 
 
Uma versão de (EJ) que cobre outras atitudes também é possível. Ela diz que a 
atitude justificada – a crença, a descrença ou a suspensão do juízo – é aquela que se en-
caixa na evidência. Uma teoria evidencialista completamente desenvolvida diria alguma 
coisa sobre aquilo em que consiste a evidência de uma pessoa e sobre o que é para essa 
evidência sustentar uma crença em particular. 
Em geral, os evidencialistas dirão que a evidência que a pessoa tem num dado 
momento consiste em toda a informação de que a pessoa dispõe naquele momento. Isto 
incluirá as lembranças que a pessoa tem e as outras crenças justificadas que ela tem. 
Quando os evidencialistas falam de uma pessoa “tendo evidência,” eles não querem dizer 
a mesma coisa que uma pessoa discutindo questões legais pode querer dizer com a 
mesma expressão. Suponha que um certo documento seja um item crucial num caso. Vo-
cê tem essa coisa entre suas posses, mas você não sabe sobre ela. No sentido legal de 
“ter evidência,” você pode ter a evidência relevante. Mas no sentido pretendido aqui, ela, 
e os fatos sobre ela, não são parte da sua evidência. A evidência que você tem consiste 
na informação que está disponível, em um sentido difícil-de-especificar, para o seu uso. A 
ideia chave, então, é que a evidência que uma pessoa tem consiste nos dados que a pes-
soa dispõe para formar crenças, não no itens que a pessoa possui fisicamente. 
Para ser verdade que a evidência de uma pessoa sustenta uma proposição, deve 
ocorrer que a evidência total da pessoa, ao ser avaliada, sustente essa proposição. É 
possível ter alguma evidência que sustente uma proposição e alguma evidência que sus-
 
 
tente a negação dessa proposição. Se estes dois corpos de evidência têm o mesmo peso, 
e a pessoa não tem outra evidência relevante, então a evidência total da pessoa é neutra 
e a suspensão de juízo sobre a proposição é a atitude justificada. Se uma porção da evi-
dência é mais forte do que a outra, então a atitude correspondente é aquela justificada. 
Em todos os casos, é a evidência total que determina qual a atitude é a justificada. Cha-
me a isto de condição de evidência total. 
Há uma distinção, até agora não mencionada, que é importante para o evidencia-
lismo. Uma analogia com a ética tornará clara a distinção. Uma pessoa pode fazer a coisa 
eticamente correta pelas razões erradas. Por exemplo, suponha que uma pessoa rica seja 
solicitada a dar algum dinheiro para a caridade e concorda em transferir os fundos eletro-
nicamente. A instituição de caridade dá a ela o número da conta de modo a que ela possa 
transferir o dinheiro. Armado com esta informação, a pessoa decide pegar dinheiro da ins-
tituição de caridade ao invés de dar dinheiro a ela. Entretanto, por engano ela aperta o 
botão errado e transfere dinheiro para a instituição de caridade. Ela faz a coisa certa, mas 
a faz por engano. Sua ação é correta, mas não é “bem intencionada” ou “bem motivada.” 
Ela é condenável por seu caráter e suas motivações, ainda que ela tenha feito a coisa 
certa. 
Há um análogo epistemológico deste exemplo. Suponha que você tenha boas ra-
zões para crer em alguma coisa e você crê nela. No entanto, você acredita nela, não com 
base naquelas boas razões, mas por causa de uma predição astrológica ou como resulta-
do de erro lógico. Você acredita na coisa certa pelas razões erradas. Em tais casos, acre-
ditar nessa proposição de fato está de acordo com a sua evidência e, assim, de acordo 
com (EJ), crer é a atitude justificada. Mas ela é uma crença epistemicamente “má.” Você 
não está agindo corretamente, falando epistemicamente, ao manter essa crença. 
Estes exemplos mostram que existem duas ideias relacionadas de justificação que 
nós precisamos distinguir. Uma está apropriadamente formulada em (EJ). É o análogo 
epistêmico da ação que de fato é boa, i.e., a melhor coisa a fazer, dada a situação. Há 
muitas maneiras diferentes de expressar esta ideia:S está justificado em crer p. 
Crer p é justificado para S. 
S tem uma justificação para crer p. 
 
 
 
Nenhuma desta implica que S de fato creia p. Elas implicam apenas que S tem o 
que é necessário para tornar a crença em p epistemicamente apropriada. 
O segundo tipo de justificação é o análogo epistemológico da ideia de fazer a coi-
sa certa pelas razões certas. Esta é a ideia de uma crença “bem-formada” ou “bem-
fundada.” Nós expressamos tipicamente esta ideia dizendo coisas tais como 
 
A crença de S em p está justificada. 
A crença de S em p está bem fundada. 
S crê justificadamente p. 
 
As sentenças destas formas implicam que S creia p e que S o faz pelas razões 
certas. Eis aqui uma formulação mais precisa deste conceito: 
 
 
CJ. A crença de S de que p no momento t está justificada (bem fundada) sse (i) crer p é 
justificado para S em t; (ii) S crê p na base de evidência que sustenta p.35 
 
 
A cláusula (ii) de (CJ) pretende capturar a ideia de crer com base em razões cer-
tas. Chame a isto de condição embasadora. Uma versão generalizada de (CJ) aplicada à 
descrença e à suspensão de juízo também poderia ser desenvolvida. 
O evidencialismo afirma tanto (EJ) quanto (CJ). Ele sustenta que a atitude justifi-
cada em relação a uma proposição para uma pessoa em qualquer momento é a atitude 
que corresponde à evidência total da pessoa naquele momento. E uma crença (ou uma 
outra atitude) está de fato justificada (bem-fundada) dado que ela corresponda à evidên-
cia da pessoa e que a crença seja mantida com base em evidência que realmente a sus-
tente. 
 
C. Duas Objeções ao Evidencialismo 
 
C1. Objeção 1: Irresponsabilidade Epistêmica 
 
Exemplo 4.6: A hora do filme 
 
35 
 
 
 
Um professor e a sua esposa estão indo ao cinema ver Star Wars, Episódio 68. O 
professor tem em suas mãos o jornal do dia, o qual contém a lista dos filmes em cartaz e 
seus horários. Ele lembra que o jornal de ontem dizia que Star Wars, Episódio 68 estava 
passando às 8:00 horas. Sabendo que os filmes usualmente são exibidos no mesmo ho-
rário todos os dias, ele crê que o filme será exibido hoje também às 8:00 horas. Ele não 
olha no jornal de hoje. Quando eles chegam ao cinema, descobrem que o filme começou 
às 7:30 horas. Quando eles reclamam na bilheteria sobre a mudança, é dito a eles que a 
hora certa estava indicada no jornal de hoje. A esposa do professor diz que ele deveria ter 
olhado no jornal de hoje e que ele não estava justificado em pensar que o filme começaria 
às 8:00 horas. 
 
Este exemplo é projetado para ser um contraexemplo tanto para (EJ) quanto para 
(CJ). Restringiremos a nossa discussão a (CJ), mas as questões destacadas poderiam 
facilmente ser revisadas para ser aplicadas a (EJ). Uma vez que o professor foi desleixa-
do ao não olhar o jornal de hoje, ele perdeu alguma evidência sobre quando o filme co-
meçaria. Como resultado, é verdade que 
 
2. Acreditar que o filme começaria às 8:00 horas corresponde à evidência que o 
professor efetivamente tinha (quando ele estava dirigindo para o cinema), e ele baseou 
sua crença nesta evidência. 
 
Dado (2), (CJ) tem o resultado de que sua crença estava justificada (bem funda-
da). No entanto, os críticos do evidencialismo (e a esposa do professor) dizem que 
 
3. A crença do professor de que o filme começaria às 8:00 horas não estava justi-
ficada (porque ele deveria ter olhado o jornal e, desse modo, arranjado mais evidência, a 
qual não teria sustentado essa crença.) 
 
Assim, (CJ) está errada, uma vez que ela implica que esta crença está justificada. 
Este exemplo depende de um princípio de acordo com o qual a justificação de-
pende em parte de evidência que se deveria ter tido. Chame a isto de Principio Consiga a 
Evidência (PCE): 
 
 
 
PCE: Se a evidência corrente de S sustenta p, mas S deveria ter tido evidência adicional, e 
esta evidência adicional não sustentaria p, então a crença de S em p não está justifi-
cada. 
 
 
O (PCE) pode parecer sensato, e é fácil ver porque os críticos do evidencialismo 
poderiam ser persuadidos pelos exemplos, tais como o exemplo 4.6, que apelam para ele. 
Aplicado a este exemplo o (PCE) implica que a crença do professor não estava justificada 
uma vez que ele tinha evidência prontamente disponível, e ele deveria ter olhado para 
esta evidência, e esta evidência adicional não sustentaria sua crença sobre a hora do fil-
me.36 
No entanto, os evidencialistas têm uma boa resposta para esta objeção. Nós deve-
ríamos distinguir a justificação epistêmica de outras questões. A questão relevante para o 
evidencialismo, e para as teorias da justificação epistêmica de um modo geral, é “O que S 
deveria crer agora, dada a situação na qual ele de fato está?” Aplique esta questão ao 
exemplo 4.6. Enquanto o professor está dirigindo para o cinema, seria inteiramente irraci-
onal para ele fazer qualquer coisa além de crer que o filme começa às 8:00 horas. Afinal 
de contas, ele sabe que o filme começou às 8:00 horas ontem e que os cinemas usual-
mente exibem os filmes no mesmo horário todas as noites. Ele não tem razão alguma pa-
ra pensar que o filme começa em qualquer outro horário que nas às 8:00 horas. Seria in-
teiramente irracional para ele crer que o filme começa às 7:30 horas. Assim, dada a situa-
ção na qual ele efetivamente está, esta é a atitude justificada. O evidencialismo produz 
exatamente o resultado correto neste caso. 
É importante distinguir algumas questões relacionadas. Essa recém discutida tem 
a ver com o que é razoável crer dada a situação na qual efetivamente se está. Outras 
questões têm a ver com se se deveria conseguir mais evidência (ou se colocar numa situ-
ação diferente). Suponha que seja verdade que o professor deveria ter olhado o jornal de 
hoje. Ele se confundiu e não fez isso. Ainda assim, a questão se mantém, a saber, dado 
que ele foi negligente e não fez o que deveria ter feito, o que é mais razoável para ele 
acreditar? A resposta é que é mais razoável para ele acreditar que o filme começa às 8:00 
horas. De maneira geral, é mais razoável crer no que é sustentado pela evidência que se 
dispõe. Uma vez que não se sabe o que a evidência que não se tem iria sustentar, seria 
irracional ser guiado por essa evidência. Assim, o (PCE) está equivocado. Mesmo que se 
 
36 
 
 
devesse conseguir mais evidência, a coisa a fazer em qualquer dado momento é ser gui-
ado pela evidência que se tem. 
No exemplo, talvez tivesse sido uma boa ideia olhar o jornal do dia. No entanto, 
antes de tirar essa conclusão vale a pena observar que é quase sempre possível ser mais 
cuidadoso e procurar por mais evidência. O professor tinha uma boa razão para pensar 
que o filme começaria às 8:00 horas e para acreditar que o jornal diria isto. Vendo retros-
pectivamente, é fácil criticá-lo. Mas se ele deveria ter checado o jornal de hoje, então tal-
vez ele devesse ter checado também os horários dos filmes on-line, ou devesse ter ligado 
para o cinema para confirmar o que o jornal dissera. Talvez ele devesse ter ligado uma 
segunda vez para que alguém confirmasse o que lhe fora dito na gravação ouvida durante 
a primeira chamada. Checagens adicionais são sempre possíveis. Dependendo da serie-
dade da situação, a probabilidade de que novas informações sejam úteis, e outros fatores, 
é às vezes de seu interesse fazer alguma checagem adicional. No entanto, seguramente 
não é sempre sensato ficar checando. Mas tudo isto é independente da razoabilidade de 
crer no que ele crê dada a situação na qual ele efetivamente se encontrava.C2. Objeção: Lealdade 
 
Exemplo 4.7: A Acusação 
 
Um bom amigo é acusado de um crime, e você está ciente de alguma evidência 
incriminadora. Você também conhece bem o seu amigo e tem evidência de que seu cará-
ter não permitiria que ele cometesse um tal crime. Seu amigo está terrivelmente perturba-
do pelas acusações levantadas contra ele, e ele pede auxílio a você. Por lealdade a seu 
amigo, e dada a qualidade mista da sua evidência, você crê que seu amigo não é culpa-
do. 
 
Esta é uma reação louvável. Ela mostra lealdade em relação a um amigo em dif i-
culdades. Pode-se ser tentado a dizer que crer que seu amigo não é culpado está justif i-
cado, ainda que sua evidência não sustente essa crença. É plausível, talvez, dizer que as 
questões de lealdade e amizade têm precedência aqui, e que é melhor para você ir contra 
a evidência neste caso. Isto pode parecer ser um problema para o evidencialismo, uma 
vez que o evidencialismo diz que a evidência sozinha determina o que está justificado. Ele 
 
 
desconsidera inteiramente as considerações de lealdade, de amizade, e outras do mesmo 
tipo. Isto, você pode pensar, é um equívoco. 
A resposta evidencialista aponta para um ponto discutido antes neste capítulo. A 
epistemologia de modo geral, e o evidencialismo em particular, tratam da natureza da 
crença racional. Elas não levantam questões sobre a moralidade. A atitude racional neste 
caso é, como o evidencialismo afirma, suspender o juízo, ou talvez crer que seu amigo 
seja culpado. Este pode ser um caso no qual uma pessoa moralmente boa irá colocar a 
racionalidade de lado. Mas essa é uma outra questão. Os fatos não colocam em dúvida o 
veredicto do evidencialismo sobre qual seja a atitude epistemicamente racional neste 
exemplo.37 
Logo, o evidencialismo é capaz de resistir estas objeções iniciais. Questões dif í-
ceis permanecem. Lembre da lista de coisas que a Perspectiva Standard diz que nós co-
nhecemos. Existem questões difíceis sobre qual seja exatamente a nossa evidência para 
estas coisas e como essa evidência chega a proporcionar sustentação para as nossas 
crenças. Nos voltaremos em seguida para essas perspectivas sobre como estas coisas 
funcionam. Estas não são alternativas ao evidencialismo. Elas são, ao invés, algumas 
maneiras pelas quais os detalhes do evidencialismo poderiam ser formulados. Nós usa-
remos um dos mais famosos argumentos da história da filosofia como um caminho para 
começar a discussão destas questões: o Argumento do Regresso Infinito. 
 
 
II. O ARGUMENTO DO REGRESSO INFINITO 
 
Enunciados do Argumento do Regresso Infinito são muito antigos – alguns o atri-
buem a Sexto Empírico (século III), outros a Aristóteles (quarto século A.C.). O argumento 
começa com a observação de que o que torna uma crença justificada, ao menos num ca-
so típico, são outras crenças ou razões. Isto parece ser simplesmente um enunciado do 
próprio evidencialismo. Mas se você pensar sobre isto por um momento, você notará que 
um problema aparece. Se uma crença está baseada em algumas razões, mas aquelas 
razões não têm uma base elas próprias, então parece como se o que depende daquelas 
razões não esteja mais bem justificado do que uma crença para a qual não se têm razões 
algumas. Por exemplo, se, como no exemplo 4.1, Hasty inventasse do nada uma história 
completa sobre como Filcher roubou a pintura, ele poderia ser capaz de citar esta história 
 
 
como sua “razão” para crer (1). Mas se ele não tiver nenhuma boa razão para crer na his-
tória que sustenta, então, ao final, ele não tem nenhuma boa razão para crer (1). Em re-
sumo, parece que você precisa de razões para as suas razões se a sua crença for justif i-
cada. E isto parece ser um problema. Há um regresso ameaçando: você precisa de ra-
zões para suas razões, e precisa de razões para aquelas razões, e assim por diante. Mas 
não parece que qualquer um de nós disponha alguma vez desse suprimento infinito de 
razões. 
O problema recém colocado tem tido um papel central na epistemologia, tanto 
porque ele tem sido influente historicamente quanto porque ele é útil para organizar as 
teorias na base de como elas respondem a ele. Alguma terminologia será de ajuda na 
discussão que segue. Parece que, por uma questão de lógica, existem duas possibilida-
des a propósito das crenças justificadas: ou toda crença justificada está justificada porque 
ela é sustentada por algumas outras crenças, ou então existem algumas crenças justifica-
das que não dependem de outras crenças. Crenças do último tipo são ditas serem cren-
ças justificadas básicas. Outros termos para a mesma categoria são crenças imediata-
mente justificadas e crenças não-inferencialmente justificadas. Nós podemos formular isto 
como uma definição formal: 
 
 
JB. B é uma crença básica justificada = df. B é justificada, mas não é justificada com base 
em qualquer outra crença. 
 
 
Crenças justificadas Não-básicas (crenças mediatamente justificadas, crenças in-
ferencialmente justificadas) então, são crenças justificadas com base em outras crenças. 
Outra ideia útil é a de uma cadeia de razões ou de uma cadeia de evidências. Esta 
é uma sequência estruturada de crenças, cada uma das quais é justificada por suas pre-
decessoras. É importante observar que uma cadeia de evidências não precisa ter apenas 
uma única proposição em cada ligação ou nível. Por exemplo, ao traçar a cadeia de evi-
dências associada com a crença de Careful em (1), nós podemos ter os fatos sobre as 
impressões digitais e a posse das pinturas como razões para (1). Haverá razões adicio-
nais para cada uma destas, talvez envolvendo os resultados dos testes das impressões 
digitais e coisas do gênero. 
 
37 
 
 
Parece haver um número limitado de maneiras pelas quais as cadeias de evidên-
cias podem ser estruturadas. Uma possibilidade é que elas sejam infinitamente longas – 
para cada passo existe uma razão anterior. Outra possibilidade é que elas deem voltas ou 
façam círculos – se você rastrear as razões de uma crença, eventualmente encontrará de 
novo essa mesma crença. Outra possibilidade é que as cadeias de evidências tenham de 
fato um começo. No começo de qualquer cadeia de evidências estão as crenças justifica-
das básicas. Uma possibilidade final é que as cadeias de evidências sejam rastreadas até 
crenças que simplesmente não estejam justificadas. 
Este é um conjunto intrigante de opções. Nenhuma delas parece inteiramente sa-
tisfatória. Como poderia haver uma série infinita de crenças justificadas? Como poderia 
uma crença ser justificada se ela remonta a si mesma? Esse parece um raciocínio circular 
flagrantemente objetável. Como poderia uma crença ser justificada sem a sustentação de 
outras crenças – como poderia haver crenças justificadas básicas? Como as crenças po-
deriam ser justificadas se elas remontam a crenças que não são elas próprias justifica-
das? Qualquer descrição das cadeias de evidências parece pouco prometedora. 
Nós podemos formular estas considerações em um argumento preciso. O principal 
valor de formular este argumento é que ele torna explícita uma variedade de ideias e de 
suposições envolvidas nas considerações recém avançadas. Além do mais, as teorias 
sobre a justificação podem ser adequadamente agrupadas de acordo com a maneira co-
mo elas respondem a este argumento. 
 
 
Argumento 4.1: O Argumento do Regresso Infinito 
 
1-1. Ou existem crenças justificadas básicas ou toda crença justificada em uma cadeia de evidên-
cias que ou 
(a) termina com uma crença injustificada 
(b) éum regresso infinito de crenças 
(c) é circular 
1-2. Porém, as crenças baseadas em crenças injustificadas não são elas próprias justificadas, e 
assim nenhuma crença justificada poderia ter uma cadeia de evidência que terminasse em 
uma crença injustificada (isto é, não (a)). 
1-3. Nenhuma pessoa poderia ter uma série infinita de crenças, e assim nenhuma crença justifica-
da poderia ter uma cadeia de evidências que fosse um regresso infinito de crenças (isto é, não 
(b)). 
 
 
1-4. Nenhuma crença poderia ser justificada por ela mesma, e assim nenhuma crença justificada 
poderia ter uma cadeia de evidências que fosse circular (isto é, não (c)). 
1-5. Existem crenças justificadas básicas (1-1) – (1-5). 
 
Este argumento é válido. Isto é, se as premissas do argumento estão corretas, en-
tão a conclusão também deve estar correta. Se o argumento está de algum modo errado, 
então ele deve ter uma premissa falsa. Logo, ou nós precisamos aceitar a conclusão de 
que existem crenças justificadas básicas, ou então não devemos rejeitar uma das premis-
sas. As teorias em epistemologia podem ser classificadas em parte pelo que elas dizem 
sobre este argumento: 
 
Fundacionismo: O argumento é sólido. Existem crenças justificadas básicas, e 
elas são os fundamentos sobre o qual todas as outras crenças justificadas repousam. 
 
Coerentismo: O argumento erra na premissa (1-4). A justificação para uma propo-
sição pode ser uma outra, que é ela mesma justificada por ainda outras. De forma geral, a 
crença de uma pessoa está justificada quando ela se encaixa com as outras crenças da 
pessoa de uma maneira coerente. Logo, uma crença é justificada pelo sistema inteiro do 
qual ela é uma parte. Por isso, uma crença é parcialmente justificada por ela mesma, e (1-
4) é falsa. 
 
Ceticismo: Uma vez que nem o fundacionismo e nem o coerentismo são plausí-
veis, e não há nada de errado com o argumento, ele deve estar errado desde o início ao 
assumir que existam crenças justificadas. Não podem haver quaisquer crenças justifica-
das. 
 
Outras respostas ao argumento são possíveis. Alguns filósofos têm dito que as 
cadeias de evidências terminam em crenças que não são justificadas, e assim eles rejei-
tam (1-2). Outros têm dito que cadeias infinitas de razões são possíveis. E assim, eles 
rejeitam (1-3). Nós não consideraremos tais perspectivas aqui. 
Por muito tempo, o fundacionismo foi a perspectiva predominante e a questão cen-
tral foi se os fundacionistas dispunham de alguma maneira plausível de defender o seu 
ponto de vista contra o ceticismo. Boa parte deste trabalho envolveu esclarecer quais 
eram exatamente as implicações do fundacionismo – explicar exatamente que tipo de coi-
 
 
sa é uma crença básica. Em anos mas recentes, muitos filósofos rejeitaram o fundacio-
nismo e alguns aceitaram o coerentismo. O fundacionismo e o coerentismo são o foco do 
restante deste capítulo. 
 
 
III. O FUNDACIONISMO CARTESIANO 
 
O Fundacionismo envolve duas alegações fundamentais: 
 
 
F1. Existem crenças justificadas básicas 
F2. Todas as crenças justificadas não-básicas são justificadas em virtude de sua relação 
com as crenças justificadas básicas. 
 
 
Estas afirmações colocam as seguintes questões aos fundacionistas: 
 
QF1. Sobre que tipo de coisas tratam as nossas crenças justificadas básicas? Quais cren-
ças são justificadas e básicas? 
 
QF2. Como são justificadas essas crenças básicas? Se elas não são justificadas por outras 
crenças, como elas se tornam justificadas? 
 
QF3. Que tipo de conexão uma crença não-básicas deve ter com uma crença básica a fim 
de estar justificada? 
 
Diferentes versões do fundacionismo podem ser identificadas por suas respostas a 
estes questões. 
 
A. A Ideia Principal do Fundacionismo Cartesiano 
 
René Descartes foi um filósofo do século XVII extremamente influente. Ele é bas-
tante conhecido como um defensor de uma versão em particular do fundacionismo. No 
entanto, é difícil extrair de seus escritos a versão do fundacionismo frequentemente atri-
 
 
buída a ele.38 Chamaremos o ponto de vista a ser discutida de fundacionismo cartesiano, 
e em alguns lugares introduziremos aspectos deste ponto de vista dizendo “O ponto de 
vista cartesiano é ...”, ainda que seja improvável que Descartes de fato concordasse com 
todos os aspectos do ponto de vista a ser descrito. 
Os fundacionistas cartesianos respondem à (QF1) escolhendo como crenças bási-
cas as nossas crenças sobre os nossos próprios estados mentais. As proposições que 
descrevem o que alguém parece ver, o que alguém pensa, o que alguém sente, etc. são 
básicas. Descartes parece ter pensado que as crenças básicas fossem crenças, em al-
gum sentido, indubitáveis ou livres de toda possibilidade de erro. Ele observou que a sua 
própria crença de que você existe não pode estar errada, e isto pareceu colocá-la na 
classe das crenças básicas. O restante do que nós sabemos, de acordo com o fundacio-
nismo cartesiano, é o que nós podemos deduzir das nossas crenças básicas. Assim, se 
nós temos conhecimento do mundo ao nosso redor, é porque nós podemos deduzir as 
coisas que nós conhecemos a partir destas crenças básicas. 
 
B. Uma Formulação Detalhada do Fundacionismo Cartesiano 
 
É importante entender apropriadamente as crenças que Descartes conta como 
básicas. Considere uma sentença tal como: 
 
4. René parece ver uma árvore. 
 
Podem não haver de fato coisas do tipo que René parece ver. (4) descreve sim-
plesmente como as coisas parecem para ele. As coisas podem parecer dessa maneira 
quando ele realmente vê uma árvore. Mas elas também podem parecer dessa maneira 
em outras circunstâncias, tais como quando ele está sonhando ou tendo uma ilusão. (4) 
simplesmente descreve seu estado mental interno. Descartes pensa na sensação de dor 
de uma maneira análoga. Pode-se “sentir dor” mesmo quando nada esteja acontecendo 
com a parte do corpo que parece estar sendo machucada. 
Em geral, então, a resposta de Descartes para (QF1) diz que as crenças básicas 
incluem as crenças sobre os estados mentais – crenças sobre como as coisas se pare-
cem ou soam para você, do que você parece se lembrar, etc. Estas crenças são crenças 
de aparência e os estados internos que elas descrevem são as aparências. É importante 
 
38 
 
 
compreender que as crenças de aparência não estão limitadas às crenças sobre como as 
coisas se parecem. Elas incluem crenças sobre como elas soam, que gosto elas têm, co-
mo elas são sentidas e como elas cheiram. Além disso, crenças sobre o que você parece 
se lembrar e talvez crenças sobre o que você mesmo acredita estão incluídas. Em geral, 
crenças de aparência são crenças sobre os atuais conteúdos de sua própria mente. 
As crenças de aparência por si mesmas não implicam nada sobre o que está no 
mundo fora da própria mente de uma pessoa. Em outras palavras, por si mesmas elas 
não implicam nada sobre o mundo externo. Em princípio, você poderia ter o mesmo esta-
do interno em um sonho, numa alucinação, ou com a percepção normal. Tal como os filó-
sofos usam a expressão mundo externo, então, ela se refere a tudo o que está fora da 
própria mente de uma pessoa. Assim, as suas próprias experiências e as suas crenças 
sobre elas estão dentro de sua mente. Tudo o mais, desde sua perspectiva, é parte do 
mundo externo. Logo, as coisas nas mentes de seus amigos e vizinhos são, desde sua 
perspectiva, parte do mundo externo. 
Há uma distinção que vale observar aqui. Você poderia tomar “Me parece que p” 
significando “Eu creio que p.” De forma semelhante, você poderia tomar (4) significandoque René acredita que ele vê uma árvore. Não é isto o que nós queremos dizer. Em vez 
disso, nós queremos dizer que seu estado mental é o de parecer ver uma árvore. A ima-
gem diante de sua mente é do “tipo-árvore.” Tal como nós entendemos (4), Descartes 
acreditaria (4), e ela seria verdadeira, se ele tivesse uma imagem tipo-árvore diante de 
sua mente que ele soubesse ter sido artificialmente induzida em algum tipo de experimen-
to psicológico. Num tal caso ele poderia dizer, “Me parece ver uma árvore, mas eu não 
creio que realmente veja uma árvore.” 
Uma interpretação da resposta do fundacionismo cartesiano à (QF2) se baseia na 
ideia de que as crenças básicas são crenças em proposições das quais não se pode du-
vidar. Elas são ditas serem indubitáveis. Em outras palavras, as crenças básicas são 
crenças de aparência das quais não se pode duvidar, ou descrer. Talvez quando uma 
imagem tipo-árvore esteja diante de sua mente, você não possa evitar crer que lhe pareça 
ver uma árvore. Se esta é a ideia por detrás da resposta à (QF2), então a resposta geral 
parece ser que as crenças básicas estão justificadas porque elas são crenças em propo-
sições que, dadas as circunstâncias, somos incapazes de duvidar. Mas esta não é uma 
boa resposta à (QF2). A inabilidade em duvidar de uma proposição não torna epistemi-
camente justificada a crença nela. Isto pode, ao invés, ser o resultado de uma limitação 
psicológica. Suponha que uma pessoa seja tão dependente psicologicamente do amor de 
 
 
sua mãe que ela não possa duvidar que sua a ame. Isto não torna a crença epistemica-
mente justificada. A pessoa pode ter muitas boas razões para crer diferentemente, mas 
carecer da capacidade de acreditar no que suas razões sustentam. Assim, a inabilidade 
de duvidar não torna alguma coisa justificada e, logo, não podem explicar porque ela é 
uma crença justificada básica. 
Há um outro tema nos escritos de Descartes. Ele sugere que crenças sobre os 
nossos próprios estados internos são crenças que não poderiam estar erradas. A ideia é 
que se ele acredita numa coisa tal como (4), então ele não poderia estar errado sobre is-
so. Ele poderia estar errado sobre se há realmente uma árvore ali, mas não sobre se pa-
rece como se houvesse uma árvore ali. De maneira geral, a ideia é que as crenças bási-
cas estão justificadas porque elas são crenças em proposições sobre as quais nós não 
podemos estar errados. Em outras palavras, nós somos infalíveis a esse respeito. Assim, 
nós iríamos tomar a resposta do fundacionismo cartesiano à (QF2) como sendo que as 
crenças básicas estão justificadas porque nós não podemos estar errados. 
Considere a seguir o que é comumente tomado como sendo a resposta de Des-
cartes à (QF3). Ele aparentemente pensou que tudo o mais que está justificado deve ser 
deduzido das crenças justificadas básicas. Logo, ele sustentou que para tornar justifica-
das as crenças sobre o mundo externo você deve combinar as crenças básicas de manei-
ra que garantam a verdade daquelas crenças sobre o mundo. Uma vez que enunciados 
sobre como as coisas se parecem não têm uma tal garantia, esta é uma tarefa difícil. A 
abordagem do próprio Descartes se deu da seguinte maneira.39 Ele alegou que certas 
crenças elementares sobre questões lógicas e conceituais também fossem básicas. Tal-
vez sua ideia fosse que proposições elementares sobre estas questões fossem aquelas 
que nós simplesmente podemos ver que são verdadeiras ao refletir sobre elas. Os exem-
plos podem ser a proposição de que qualquer coisa é idêntica a si mesma ou a proposi-
ção de que se a conjunção P e Q é verdadeira, então P é verdadeira. Sem examinar esta 
questão em detalhe aqui, será suficiente identificar esta classe de crenças básicas com as 
verdades elementares da lógica e atribuir a Descartes o ponto de vista de que as nossas 
crenças nestas proposições também são crenças justificadas básicas. 
A maneira de Descartes argumentar que algumas crenças sobre o mundo externo 
estão justificadas, dadas suas respostas para (QF1), (QF2) e (QF3), foi argumentar que 
as verdades elementares da lógica incluíam proposições na base das quais ele estava 
apto a provar conclusivamente que Deus existe e que Deus não iria ou não poderia ser 
 
 
um enganador. Porém, se nossas crenças de aparências estivessem erradas, então Deus 
seria um enganador. Usando esta conclusão combinada com suas crenças de aparência, 
ele derivou um grande número de crenças sobre o mundo externo. Desta maneira, ele 
concluiu que nós temos conhecimento de muitos fatos do mundo. 
O fundacionismo cartesiano, então, é o ponto de vista caracterizado pelas três 
alegações seguintes, as quais compreendem respostas às três questões para os fundaci-
onistas: 
 
AF1. Crenças sobre os estados mentais próprios de uma pessoa (crenças de aparência) e 
crenças sobre verdades elementares da lógica são crenças justificadas básicas. 
AF2. Crenças justificadas básicas estão justificadas porque nós não podemos estar erra-
dos sobre elas. Nós somos “infalíveis” em tais questões. 
AF3. O restante de nossas crenças justificadas (e.g., nossas crenças sobre o mundo ex-
terno) está justificado porque elas podem ser deduzidas de nossas crenças básicas. 
 
C. Três Objeções ao Fundacionismo Cartesiano 
 
C1. Nós Não Somos Infalíveis Quanto Aos Nossos Próprios Estados Mentais 
A combinação de (AF1) e (AF2) pode ser refutada se puder ser mostrado que nós 
não somos infalíveis quanto aos nossos próprios estados mentais. O exemplo seguinte 
mostra que há uma boa razão para pensar que nós podemos estar errados mesmo sobre 
estas questões. 
 
Exemplo 4.8: A Frigideira 
 
Você está caminhando em direção a um balcão que tem uma frigideira sobre ele. 
Foi dito a você para ser cuidadoso uma vez que a frigideira está muito quente. À medida 
que você se aproxima do balcão, tropeça e estica sua mão para deter a queda. Desafor-
tunadamente, sua mão vai direto para a frigideira. Você imediatamente a retira, pensando: 
 
5. Eu estou tendo agora uma sensação de extremo calor. 
 
 
39 
 
 
De fato, como você logo nota, a frigideira não está realmente quente. Você não 
sentiu calor algum.40 
 
É alegado que neste tipo de exemplo você acredita (5), que (5) é uma proposição 
sobre o seu próprio estado mental corrente, e que (5) é falsa. Se tudo isto está correto, 
então você não é infalível acerca de seus próprios estados mentais. 
Para avaliar este exemplo, é importante ser cuidadoso sobre o que (5) diz exata-
mente. A palavra sensação é ambígua. Ela pode ser usada de maneira que implique que 
exista realmente uma coisa externa que esteja sendo sentida. Ela também pode ser usa-
da para se referir a um estado puramente interno. De acordo com o primeiro uso, (5) é 
verdadeira apenas se há de fato um contato com uma coisa muito quente. Assim entendi-
da, (5) não expressa o tipo de crença que os fundacionistas cartesianos alegam ser bási-
ca. Ela não é sobre o estado mental próprio de uma pessoa. Ao invés, ela é sobre as cau-
sas externas à mente da experiência corrente. Nesta interpretação, (5) diz que uma coisa 
extremamente quente está causando a atual sensação de calor. 
A segunda interpretação de (5) a toma como sendo somente sobre o seu estado 
interno. Ela diz apenas que você está tendo uma sensação ardente, que você sente calor. 
Ela nada diz sobre qualquer fonte externa desta sensação. Este é o tipo de crença que os 
cartesianos têm em mente como básica. Desafortunadamente para o fundacionismo car-
tesiano, a objeção parece funcionar quando (5) é interpretadadesta segunda maneira. 
Poder-se-ia argumentar plausivelmente que não apenas você tem a crença incorreta 
grosso modo equivalente a “Eu toquei uma coisa muito quente.” Você equivocadamente 
pensa que está tendo a sensação ardente. Se o exemplo é possível quando entendido 
desta segunda maneira, então nós realmente podemos estar equivocados sobre as nos-
sas experiências. Isto é um problema para o fundacionismo cartesiano. E o exemplo pa-
rece possível. O que impede as pessoas de cometerem equívocos sobre suas experiên-
cias? 
Há coisas que os defensores do fundacionismo cartesiano poderiam dizer em res-
posta a este exemplo.41 Por exemplo, a objeção requer que seja possível que as expecta-
tivas afetem as nossas crenças sobre as nossas sensações. Isso de fato parece possível. 
No entanto, pode ocorrer que as expectativas também afetem as próprias sensações. Isto 
é, se este tipo de coisa fosse ocorrer, talvez a pessoa efetivamente sentisse uma sensa-
 
40 
41 
 
 
ção de calor por um momento. Se isto é o que acontece, então a crença não seria absolu-
tamente falsa. Logo, aquilo em que os proponentes do exemplo confiam é que a expecta-
tiva e a antecipação afetam o que você crê sobre uma sensação, mas não afeta a sensa-
ção ela mesma. Se ela altera a sensação, então afinal de contas você não se engana 
acerca de seu estado interno. 
Ainda assim, para defender o fundacionismo cartesiano deve-se argumentar que 
as expectativas devem afetar sempre, ou tanto a sensação quanto a crença, ou nenhum 
deles. É difícil ver porque isso seja verdadeiro. Além do mais, um fundacionista cartesiano 
que usasse esta réplica teria uma descrição bastante enigmática do que acontece no 
exemplo. Há um momento de compreensão no exemplo, o ponto no qual você compreen-
de que a frigideira não está quente. Mas se você realmente está tendo uma sensação de 
calor quando você pensa que está, o que é exatamente que faz a sua sensação (e a sua 
crença) mudar? Por que você decide que ela está errada? Afinal de contas, a réplica diz 
que as coisas de fato parecem como você pensa que elas são. O crítico do cartesianismo, 
em contraste, tem uma descrição plausível do momento de compreensão. Após um mo-
mento, você compreende que não se sente da maneira que pensava se sentir. Suas cren-
ças mudam, mas não a sua sensação. Você se equivocou sobre sua sensação. 
Outro exemplo aponta para a mesma conclusão. Em um de tais exemplos, é dito a 
uma pessoa que a coceira é um caso moderado de dor.42 A pessoa sente uma coceira, 
acredita que ela está sentindo uma coceira, e infere que ela está portanto sentindo uma 
dor. No entanto, esta conclusão é equivocada. Coceiras não são dores, e ela não está 
tendo uma sensação de dor. Mais uma vez, nós não somos infalíveis a esse respeito. 
Estes exemplos refutam qualquer versão do fundacionismo que implique que to-
das as crenças sobre as próprias sensações de uma pessoa sejam verdadeiras; Talvez o 
fundacionismo cartesiano implique isto. Mas uma forma modificada da teoria, a ser discu-
tida mais tarde neste capítulo, evita este resultado. 
Há uma razão adicional para não aceitar (AF2). É muito difícil ver porque o fato (se 
ele é um fato) de que você não possa estar enganado sobre alguma coisa seja um fato 
justificador. Suponha que uma proposição não pudesse ser falsa. Ela é uma lei da lógica, 
ou talvez uma lei da natureza, que é verdadeira. Se você acredita nessa proposição, en-
tão a sua crença não pode estar errada. Mas a sua crença poderia ser um mero palpite 
feliz ou o resultado de uma série que erros que aconteceu de conduzir a uma crença ver-
dadeira. Se você soubesse que não poderia estar errado, isso proporcionaria a você uma 
 
 
razão. Mas se você não sabe disso, não é claro porque esse fato torne a sua crença justi-
ficada. Assim, (AF2) implica que, se uma crença não pode estar errada, então ela está 
justificada. E isto parece, sob reflexão, estar errado. 
A nossa falibilidade acerca de nossos próprios estados mentais não é o único pro-
blema para o fundacionismo cartesiano. Nos voltamos agora para um segundo problema. 
 
C2. Crença Sobre Estados Internos São Incomuns 
O fundacionismo cartesiano diz que toda a justificação parte das crenças básicas 
justificadas, crenças que são sobre os nossos próprios estados internos. Mas em circuns-
tâncias ordinárias nós não formamos crenças sobre os nossos estados internos. Quando 
olha ao redor da sala, via de regra você não crê em coisas tais como “Eu pareço estar 
vendo alguma coisa com o formato de uma cadeira ali” e então infere “Há uma cadeira 
ali.” Você simplesmente crê “Há uma cadeira logo ali.” Considere também o exemplo com 
o qual nós começamos o capítulo. Nesse exemplo Careful acreditava que Filcher roubara 
uma pintura. O fundacionismo consideraria estar esta crença bem fundada somente se 
Careful tivesse baseado sua crença, em última instância, sobre seus próprios estados 
mentais atuais. Quase não é possível imaginar Careful fazendo isto. Ele poderia formar 
crenças sobre os sons e imagens diante de sua mente, inferir deles algumas coisas sobre 
a existência e a natureza de um crime e, então, em última instância, inferir que Filcher 
roubou a pintura. Mas esta seria uma cadeira de raciocínio complexa e tediosa. Dificil-
mente alguém alguma vez fez algo assim. 
Logo, o fundacionismo cartesiano parece estar sujeito à seguinte objeção: 
 
Argumento 4.2: O Argumento de que As Crenças Sobre Estados Internos são Raras 
 
2-1. As pessoas raramente baseiam suas crenças sobre o mundo externo em crenças sobre seus 
próprios estados internos. 
2-2. Se o fundacionismo cartesiano é verdadeiro, então as crenças sobre o mundo externo estão 
bem fundadas somente se elas estão baseadas em crenças sobre os próprios estados inter-
nos de uma pessoa. 
2-3. Se o fundacionismo cartesiano é verdadeiro, então as pessoas raramente têm crenças bem-
fundadas sobre o mundo externo. (2-1), (2-2) 
2-4. Não é verdade que as pessoas apenas raramente têm crenças bem-fundadas sobre o mundo 
externo. (A Perspectiva Standard) 
 
42 
 
 
2-5. O fundacionismo cartesiano não é verdadeiro. (2-3), (2-4) 
 
Este é um argumento perturbador para os fundacionistas cartesianos. A premissa 
(2-1) parece ser uma descrição acurada da maneira pela qual nós formamos crenças. A 
premissa (2-2) é uma consequência clara do fundacionismo cartesiano. A premissa (2-4) 
é uma consequência clara da Perspectiva Standard, que por enquanto nós estamos as-
sumindo como verdadeira. A conclusão se segue destas premissas. Os fundacionistas 
cartesianos podem defender seu ponto de vista somente se ele puderem encontrar uma 
maneira de rejeitar uma destas premissas, e (2-1) parece ser o melhor candidato. Outras 
versões do fundacionismo podem evitar a objeção propondo uma nova resposta para 
(QF1). Antes de nos voltarmos para aquelas teorias, será útil considerarmos se há qual-
quer razão plausível para rejeitar a premissa (2-1) deste argumento. 
O que é claramente verdadeiro, e o que é oferecido para sustentar a premissa (2-
1), é a observação de que ao longo do dia nós não consideramos conscientemente pro-
posição sobre os conteúdos de nossas mentes. Nós não formamos conscientemente pen-
samentos tais como “Eu estou agora parecendo ver alguma coisa com o formato de uma 
cadeira” ou “Eu estou agora parecendo ouvir alguma coisa como o som de um sino.” No 
entanto, há razões para pensar que em qualquer momento nós temos muito mais crenças 
do que aquelas que nós conscientemente consideramosnesse momento. Ao menos três 
categorias de tais crenças se apresentam. A primeira categoria consiste em crença que 
estão armazenadas na memória. Presumivelmente, você tinha um momento atrás crenças 
sobre o seu próprio nome, quem é o presidente, e assim por diante. Você não estava 
pensando sobre aquelas questões naquele momento. Assim, crenças armazenadas for-
mam uma classe de crenças que existem sem serem consideradas conscientemente. 
Uma segunda possível categoria de crenças não-conscientes é a de crenças que 
ajudam a explicar o comportamento. Suponha que você caminhe por uma sala e perceba 
que a luz não está ligada. Você quer ler, e assim caminha até o interruptor mais próximo e 
o aciona. Se perguntado sobre o seu comportamento, você pode dizer que queria ligar a 
luz e acreditava que o interruptor controlava a luz. Esta explicação parece boa, mesmo 
que você não tenha dito para si mesmo algo como “Este interruptor aciona esta luz.” Esta 
crença não precisa ter sido conscientemente formulada. Não obstante, você teve essa 
crença e ela jogou um papel em seu comportamento. 
Uma última possível categoria de crenças não-conscientes consiste em crenças 
que são inteiramente óbvias uma vez consideradas, mesmo que você não tenha pensado 
 
 
sobre elas anteriormente. Suponha que alguém diga a você que George Washington nun-
ca visitou a Disneylândia. Você pode nunca ter pensado sobre isso antes. Mas dificilmen-
te isso soa como novidade para você. Dado tudo o mais que você sabe, isso é óbvio. Tal-
vez isto sugeria que você já acreditava nisso, embora não de uma maneira consciente. 
Todos estes exemplos são difíceis, e eles levantam questões difíceis sobre o que 
é crer em alguma coisa. Resta ser visto é se eles podem ajudar os defensores do fun-
dacionismo cartesiano. Um defensor deste aspecto do fundacionismo cartesiano, Timothy 
McGrew, propôs que essas crenças sobre os nossos próprios estados conscientes consti-
tuem outra categoria de crenças não-conscientes. McGrew diz que “a consciência [awwa-
reness] de estímulos visuais, táteis e auditivos é frequentemente subconsciente, mas não 
como consequência irrelevante para a justificação de crenças empíricas.”43 A ideia dele 
parece ser que nós temos o como uma consciência subconsciente das características de 
nossas experiências, que portanto temos crenças subconscientes sobre estas caracterís-
ticas, e que estas são as crenças básicas que justificam as nossas crenças sobre o mun-
do externo. Se ele está certo sobre a existência destas crenças, então a premissa (2-1) do 
Argumento de que As Crenças Sobre Estados Internos são Raras é falsa. 
A posição de McGrew tem algum mérito. Existem, entretanto, razões para questio-
ná-la. Para citar uma, haver a “consciência do estímulo” é diferente de se ter crenças so-
bre o estímulo. Dizer que nós estamos conscientes de certos estímulos é dizer que nós 
temos uma experiência consciente daqueles estímulos. Logo, se você caminha por uma 
sala e vê uma cadeira, então você tem uma experiência perceptiva com certas caracterís-
ticas. Você está consciente de certos estímulos. Mas não se segue daí que você forma 
uma crença de que você está experimentando aqueles estímulos. Uma tal crença parece-
ria envolver um tipo de monitoramento das experiências de uma pessoa que nós não fa-
zemos ordinariamente. 
Além do mais, nos exemplos de crenças não-conscientes antes mencionadas é ao 
menos tipicamente o caso que o crente reconhecerá as crenças se perguntado sobre 
elas. Mas as crenças de aparência não são absolutamente assim. É frequentemente difícil 
fazer as pessoas pensarem em tais questões. Muitos estariam inclinados a dizer que não 
têm tais crenças senão em circunstâncias extraordinárias nas quais devem consideram a 
possibilidade de alucinações, de ilusões perceptivas e coisas do gênero. Isto lança algu-
mas dúvidas sobre a ideia de que as pessoas estejam, não obstante, rotineiramente for-
mando crenças sobre estas questões. 
 
 
Por fim, a descrição de McGrew torna a justificação dependente de detalhes de 
nossos sistemas psicológicos de uma maneira peculiar. Um exemplo ilustrará isto. Supo-
nha que duas pessoas caminhem numa sala em que há uma cadeira claramente visível. 
Ambas olham em direção à cadeira e formam a crença de que a cadeira está presente. 
Por fim, suponha que uma delas forma a crença subconsciente de que ele parece ver 
uma cadeira, enquanto que a outra pula esse passo e vai diretamente da experiência para 
a crença de que há uma cadeira ali. A proposta de McGrew aparentemente tem o resulta-
do de que o primeiro está justificado em crer que há uma cadeira ali, mas não o último. É 
difícil crer que esta diferença psicológica subconsciente possa fazer diferença para a justi-
ficação. 
Estas considerações não refutam definitivamente a sugestão de McGrew. As 
questões dependem em parte das difíceis questões sobre a natureza de crença e da ma-
neira como nós processamos informação. Ainda assim, elas são significantes o suficiente 
para tornar razoável procurar por uma versão melhor do fundacionismo. 
 
C3. A Dedução É Muito Restritiva 
A objeção final ao fundacionismo cartesiano é a mais decisiva. Ela concerne à 
(AF3), ao requisito de que crenças justificadas não-básicas sejam dedutíveis das crenças 
básicas. Suponha, para fins argumentativos, que hajam respostas satisfatórias para as 
objeções consideradas até aqui e que (AF1) e (AF2) estejam corretas. Logo, nós estamos 
assumindo para fins argumentativos que, por exemplo, quando você caminha por uma 
sala você tem um bom número de crenças justificadas sobre como as coisas parecem pa-
ra você. Nós podemos acrescentar que você tem um bom estoque de crenças justificadas 
sobre as suas memórias de aparência e sobre outros aspectos de seus estados mentais 
correntes. Se as suas crenças sobre o mundo externo estão justificadas, dada (AF3), vo-
cê deve estar apto a deduzir desta coleção de crenças básicas coisas tais como que há 
uma cadeira na sala, que as luzes estão ligadas, e assim por diante. Aplicando as mes-
mas considerações ao exemplo 4.1, se Careful está justificado em crer que Filcher roubou 
a pintura, então esta conclusão deve ser dedutível da combinação das crenças de apa-
rência de Careful. No entanto, este requisito simplesmente não está satisfeito. 
Dizer que as proposições sobre o mundo externo podem ser deduzidas das pro-
posições de aparência é dizer que não é sequer possível para as proposições de aparên-
cia serem verdadeiras se as proposições sobre o mundo externo forem falsas. Desafortu-
 
43 
 
 
nadamente, é possível. É possível ter um sonho ou uma alucinação na qual você tem ex-
periências exatamente como aquelas que você tem quando entra no quarto. Careful pode-
ria ter tido as experiências que ele teve como resultado de algum elaborado esquema pe-
lo qual Filcher seria incriminado pelo crime. Em geral, nenhum conjunto de proposições 
garante logicamente quaisquer proposições sobre o mundo externo em particular. A con-
dição da dedução de (AF3) é muito restritiva. 
 
D. Conclusões Sobre o Fundacionismo Cartesiano 
 
É claro que o fundacionismo cartesiano não é uma teoria satisfatória, dada a ver-
dade da Perspectiva Standard. Existem os seguintes problemas: 
 
1. Crenças sobre os estados mentais próprios de uma pessoa não são imunes ao 
erro. Assim, se as crenças sobre eles são básicas, o que quer que as torne justificadas 
tem a ver com alguma outra coisa que não esta propriedade. Nós precisamos de uma ex-
plicação diferente daquilo que torna as crenças básicas justificadas.Assim, (AF2) precisa 
ser revisada. 
2. Nem todas as crenças sobre os estados mentais próprios de uma pessoa são 
crenças básicas justificadas. Crenças sobre os estados mentais próprios de uma pessoa 
podem ser derivadas de outras crenças e, logo, não-básicas. Crenças sobre eles podem 
ser injustificadas. 
3. As coisas que o fundacionismo cartesiano conta como básicas são as coisas 
nas quais nós absolutamente não acreditamos em circunstâncias ordinárias. Parece que o 
ponto de partida das nossas crenças são as observações ordinárias do mundo e não a 
introspecção. Assim, (AF1) precisa ser revisada. (Naturalmente, este ponto é controver-
so.) 
4. Muito do que nós conhecemos (de acordo com a Perspectiva Standard) não po-
de ser deduzido do que é básico. Isto é claramente verdadeiro se as nossas crenças bá-
sicas forem crenças sobre os nossos próprios estados internos. Mas mesmo que nós to-
memos juízos espontâneos sobre o mundo como sendo básicos, muito do que nós co-
nhecemos vai além do que pode ser deduzido disso. 
 
 
 
Antes de examinarmos uma versão do fundacionismo que tenta fazer as mudan-
ças que estes pontos sugerem, será útil considerar a outra abordagem à justificação que 
tem sido influente na história da filosofia, o coerentismo. 
 
 
IV. O COERENTISMO 
 
A. A Ideia Central do Coerentismo 
A ideia central das teorias coerentistas da justificação é que toda crença justificada 
é justificada em virtude de suas relações com outras crenças. Em outras palavras, não 
existem crenças fundacionais ou básicas. Assim, os coerentistas rejeitam a premissa (1-4) 
do Argumento do Regresso Infinito, o passo do argumento do regresso que rejeita cadei-
as circulares de evidências. Isto não porque eles pensem que você pode justificar uma 
crença com outra, essa segunda por uma terceira, e então justificar a terceira pela primei-
ra. Em vez disso, a ideia deles é que a justificação é uma questão mais sistemática e ho-
lística, que cada crença é justificada pela maneira como ela se encaixa no sistema inteiro 
de crenças. 
Logo, os coerentistas endossam as duas seguintes ideias centrais: 
 
C1. Apenas crenças podem justificar outras crenças. Nada além de uma crença pode con-
tribuir para a justificação. 
C2. Cada crença justificada depende em parte de outras crenças para a sua justificação. 
(Não há crenças justificadas básicas.)44 
 
Os coerentistas pensam que uma crença está justificada quando ela coere com, 
ou se encaixa bem com, as outras crenças de uma pessoa. Esta ideia tem uma conside-
rável força intuitiva, como é destacado pelos seguintes exemplos. 
 
Exemplo 4.9: O Cabelo Que Cresce 
 
Harry tem geralmente uma atitude muito prática no que concerne à efetividade de 
medicamentos. Ele sempre quer ver a evidência antes de acreditar que eles funcionam. 
Ele rejeita alegações despropositadas baseadas em testemunhos individuais. Ele sensa-
 
44 
 
 
tamente duvida das alegadas curas milagrosas alardeadas nos anúncios. Mas Harry está 
começando a perder seu cabelo e está muito chateado com isto. Certo dia ele ouve al-
guém dizer que Miraclegro cura a calvície, e acredita nisso. 
 
Deve parecer a você que a crença de Harry de que 
 
6. Miraclegro cura a calvície 
 
não está justificada. E o que é particularmente notável é que a crença é muito in-
congruente para Harry. Você poderia dizer que ele deveria pensar melhor [know better] ao 
invés de crer numa tal coisa. E, de fato, ele pensa melhor, pois seus próprios princípios 
dizem a ele para não crer (6) nestas circunstâncias. Os coerentistas concordariam. Eles 
diriam que esta crença é incoerente para ele – ela não se encaixa com as outras crenças 
dele. Harry aceita algo como 
 
P. Um tratamento médico é efetivo somente se existe boa evidência clínica mostrando que 
ele é efetivo, e não há boa evidência clínica de que Miraclegro seja efetivo. 
 
Ainda assim, Harry crê (6) na ausência da evidência necessária. Podemos ver um 
tipo de incoerência em seu sistema. A crença sobre Miraclegro se destaca como a crença 
“ruim” de seu sistema. 
O exemplo 4.9 ilustra uma maneira pela qual uma crença pode fracassar em coerir 
com as outras crenças de uma pessoa. Ela é uma crença individual que viola os próprios 
princípios gerais do crente. Outro exemplo ilustra outra maneira pela qual uma crença po-
de fracassar em coerir. 
 
Exemplo 4.10: Os Galhos Que Caem da Árvore 
 
A família de Storm possui dois carros – um mais novo e uma lata velha. Todas as 
noites os carros ficam estacionados na rua. Uma noite ocorre uma forte tempestade de 
neve e uma grande quantidade de neve se forma sobre os galhos das árvores, fazendo 
com que os ramos se quebrem e caiam. Há uma árvore que se estende sobre a rua. 
Storm ouve o som de um ramo batendo num carro na rua. Storm acredita que o ramo de-
ve ter atingido a lata velha. 
 
 
 
O exemplo 4.10 é semelhante ao exemplo 4.9 já que algum tipo de pensamento 
positivo está envolvido. No entanto, no exemplo 4.10 Storm pode não estar violando qual-
quer princípio geral que ele aceite. A menos que ele tenha outras crenças sobre a locali-
zação específica do cardo e o som do ramo, sua crença sobre o carro é simplesmente 
jogada dentro do sistema sem qualquer coisa para sustentá-la. Nós podemos dizer que no 
exemplo 4.10 a crença de Storm carece de coerência positiva. Não há um apoio positivo 
para ela no sistema. Em contraste, no exemplo 4.9 a crença de Harry tinha uma coerência 
negativa: ela estava em conflito com o restante do sistema. Para uma crença ser justifica-
da, de acordo com o coerentismo, ela não deve ser como nenhum destes casos. No en-
tanto, estas considerações não conduzem a uma descrição precisa do que seja a coerên-
cia. Nada dito até aqui se constitui numa explicação clara de que tipo de conflito com ou-
tras crenças exclui a coerência nem de que tipo de sustentação interna é necessário para 
a coerência. Além do mais, como ficará claro na próxima seção, há uma questão impor-
tante sobre exatamente com o que é que uma crença deve coerir a fim de estar justificada 
de acordo com os standards coerentistas. 
Uma formulação inicial do coerentismo, então, é a seguinte: 
 
 
TC. S está justificado em crer p sse p coere com o sistema de crenças de S. 
 
 
Para desenvolver uma teoria coerentista razoavelmente precisa, os coerentistas 
devem tratar de duas questões 
 
QC1. O que conta como o sistema de crenças de S? 
 
QC2. O que é para uma crença coerir com o sistema de crenças? 
 
Para ver a força destas questões, suponha que os coerentistas façam duas supo-
sições: 
 
S1. O sistema de crenças de S = tudo que S crê. 
S2. Uma proposição coere com um sistema de crenças desde que ela se siga logicamente 
da conjunção de tudo que está no sistema. 
 
 
 
A aplicação de (S1) e (S2) à (TC) produz a seguinte teoria coerentista: 
 
 
TC1. S está justificada em crer p sse p se segue logicamente da conjunção de tudo que S 
crê. 
 
 
Um momento de reflexão revela que (TC1) tem a consequência absurda de que 
qualquer coisa em que qualquer um acredita está justificado. O argumento para isto é 
simples. Suponha que S creia p. A conjunção de tudo o que S acredita era então ser uma 
longa conjunção, um conjunto que tem o próprio p como um de seus elementos. Uma lei 
da lógica simples é que uma conjunção implica cada um dos elementos da conjunção. 
Logo, se S crê p, q, r, s, e assim por diante, então a conjunção de tudo em que S acredita 
será a longa proposição “p e q e r e s ...” Trivialmente, esta conjunção implica p. De acor-
do com (TC1), se segue que a crençade S de que p está justif icada, não importando o 
que seja p e não importando o quão bem ela se encaixe com o restante das crenças de S. 
De acordo com esta teoria, então, as crenças de Harry no exemplo 4.9 e de Storm no 
exemplo 4.10 estão justificadas. Isto é exatamente o que o coerentismo supostamente iria 
evitar. Os coerentistas precisam de alguma coisa melhor do que (CT1). 
Ao tentar desenvolver uma versão melhor do coerentismo, é importante manter em 
mente o seguinte ponto. Suponha, para fins argumentativos, que nós tenhamos um en-
tendimento razoavelmente claro da ideia de um sistema coerente de crenças. Usando es-
ta ideia, nós podemos formular a seguinte proposta: 
 
 
TC2. S está justificado em crer p sse o sistema de crenças de S é coerente e inclui uma 
crença em p. 
 
 
A ideia por trás da (TC2) é que crenças justificadas são crenças que compõem sis-
temas coerentes e crenças injustificadas são componentes de sistemas que não são coe-
rentes. Dada uma ideia razoavelmente clara do que é a coerência, (TC2) seria uma pro-
posta razoavelmente clara. 
 
 
No entanto, (TC2) não é nem um pouco plausível. Pode haver alguma coisa dese-
jável em se ter sistemas coerentes de crenças. No entanto, pouco de nós alcançam isto. 
Todos nós cometemos alguns enganos, sucumbimos ao pensamento positivo, fracassa-
mos em compreender as consequências de nossas crenças. Existem, em todos os casos 
realistas, algumas crenças que tornam nossos sistemas incoerentes ao menos em algum 
grau. De acordo com (TC2), se esse é o caso, então nenhum de nós jamais está justifica-
do em coisa alguma. Considere a sua crença de que você existe. Mesmo que você esteja 
cometendo alguns grandes enganos em outras questões, isto é algo em que você está 
justificado em crer. De acordo com (TC2), essa crença está justificada somente se você 
acredita que você existe e o seu sistema de crenças é coerente. Como notado, se você se 
parece com um ser humano normal no que diz respeito às suas crenças, então o seu sis-
tema de crenças não é coerente. Por isso, de acordo com (TC2) a sua crença de que vo-
cê existe não está justificada. 
O problema com (TC2) pode ser colocado de uma maneira mais geral. Ela diz que 
todas as crenças de um sistema coerente estão justificadas e todas as crenças de um sis-
tema não-coerente não estão justificadas. Qualquer sistema de crenças individual ou é 
coerente ou não é coerente. Assim a teoria implica que, para cada indivíduo, ou todas as 
suas crenças estão justificadas ou nenhuma delas está justificada. Uma vez que, de fato, 
qualquer pessoa real fica aquém de um sistema coerente, a teoria implica em que ne-
nhuma pessoa real tenha qualquer crença justificada. No entanto, a verdade sobre cada 
um de nós não é tão extrema. Cada um de nós tem algumas crenças justificadas e algu-
mas crenças injustificadas. (TC2) não pode dar conta deste simples fato. Uma versão do 
coerentismo precisa ser mais seletiva do que o é (TC2) a fim de ter sucesso. 
Dizer que o grau em que uma crença está justificada depende do nível de coerên-
cia do sistema inteiro do crente não irá resolver o problema. Suponha que o seu sistema 
de crença seja, como um todo, moderadamente coerente. A presente proposta produziria 
o resultado de todas as suas crenças também estão moderadamente justificadas. Isto fra-
cassa em distinguir apropriadamente entre a suas crenças bem-justificadas e as suas es-
peculações desenfreadas. 
É claro, então, que os coerentistas precisam de novas e melhores respostas para 
(QC1) e (QC2). De alguma forma, o coerentismo tem de ser formulado de uma maneira 
que o habilite a identificar algumas crenças como justificadas e algumas como injustifica-
das. 
 
 
 
B. Uma Versão do Coerentismo 
 
A coerência, o que quer que seja ela exatamente, é uma propriedade que um sis-
tema de crenças pode ter num maior ou menor grau. Um sistema de crenças pode ser 
mais coerente do que outro. Os filósofos têm proposto várias coisas que aumentam ou 
diminuem a coerência.45 É mais fácil compreender estas ideias considerando sistemas de 
crenças que são muito semelhantes, com apenas algumas diferenças introduzidas para 
realçar os fatores que afetam a coerência. Por exemplo, suponha duas pessoas, cada 
uma das quais creia num grande número de proposições – p, q, r, e assim por diante. 
Vamos supor que não existam conflitos lógicos entre as proposições em que estas pes-
soas acreditam. Isto é, é ao menos possível que todas as suas crenças sejam verdadei-
ras. E então suponha que uma das pessoas forma a crença de que p é falsa, e a pessoa 
simplesmente acrescente essa crença em seu sistema. Agora há uma contradição no sis-
tema de crenças. Ela inclui tanto a crença em p qua
ser ambas verdadeiras. Agora o sistema contém uma inconsistência. E isto o torna menos 
coerente. As inconsistências não precisam se tão óbvias quanto a recém descrita. Uma 
pessoa poderia crer em várias proposições e fracassar em compreender que elas impli-
cam a negação de uma outra proposição em que ela acredita. Este sistema também é in-
consistente, embora a inconsistência não seja tão ostensiva. Em qualquer caso, a incon-
sistência diminui a coerência. 
Uma coisa que aumenta a coerência de um sistema é o fato de que ele contenha 
crenças que se constituam em explicações de outras crenças do sistema. Suponha que o 
jardineiro #1 creia que todas as plantas de seu jardim estejam murchas e que não chove 
há muito tempo. Suponha que o jardineiro #2 creia nestas coisas e também creia que as 
plantas murcham quando não recebem água por muito tempo. (Talvez o jardineiro #2 
também creia que a chuva proporciona água para as plantas.) O jardineiro #2 tem um sis-
tema de crenças mais rico e desenvolvido. A riqueza vem em parte da forma como ele 
articula em conjunto crenças que estão isoladas uma da outra no sistema de crenças do 
jardineiro #1. Haver este tipo de conexões é frequentemente pensado aumentar a coerên-
cia de um sistema de crenças. 
Talvez ter crenças individuais que conflitem com os princípios gerais de uma pes-
soa também diminua o valor da coerência do sistema de crenças da pessoa. 
 
45 
 
 
Nós diremos que fatores tais como estes determinam o valor da coerência de um 
sistema de crenças. Isto não constitui uma descrição completa dos valores da coerência, 
mas proporciona alguma explicação da ideia. Os coerentistas podem fazer uso dos valo-
res da coerência de um sistema de crenças para formular uma versão do coerentismo que 
contorne as dificuldades iniciais cobertas na seção anterior.46 Nós podemos formular a 
teoria desta maneira: 
 
TC3. S está justificado em crer p sse o valor da coerência do sistema de crenças de S se-
ria maior se ele incluísse a crença em p do que se não incluísse essa crença. 
 
As implicações pretendidas de (TC3) podem ser mais bem vistas considerando 
duas situações, uma na qual a pessoa já acredita na proposição e uma na qual a pessoa 
não acredita nela. Se a pessoa crê na proposição, então o valor de coerência do sistema 
tal como ele é atualmente pode ser comparado o seu valor da coerência obtido com a re-
moção da crença do sistema. Se a remoção da crença diminui o valor de coerência do 
sistema, então a crença nessa proposição está justificada. Se a pessoa ainda não crê na 
proposição, então o valor da coerência do sistema atual pode ser comparado com o valor 
do sistema que seria formado se a crença fosse acrescentada. (TC3) diz que quando a 
versão do sistema coma crença tem um valor mais alto do que a versão sem ela, então a 
crença está justificada. De acordo com (TC3), nós diremos que uma crença coere com um 
sistema decrenças quando ela aumenta o valor da coerência desse sistema. Logo, (TC3) 
preserva a ideia de que uma crença está justificada quando ela coere com o sistema de 
crenças de uma pessoa. 
(TC3) pode lidar razoavelmente bem com os exemplo 4.9 e 4.10. No exemplo 4.9, 
Harry tinha uma crença geral sobre os tratamentos efetivos e uma crença específica so-
bre Miraclegro que não se encaixavam bem. Intuitivamente, a crença sobre Miraclegro era 
o bandido. É plausível sustentar que o sistema de crenças de Harry seria mais coerente 
se essa crença fosse descartada. Assim, (TC3) dá o resultado correto de que ela não está 
justificada. NO exemplo 4.10, Storm tem uma crença que está desconectada de suas ou-
tras crenças. Assim, talvez seu sistema ganhasse em coerência ao descartá-la. Mais uma 
vez, (TC3) parece ter os resultados corretos neste caso. 
Existem, entretanto, detalhes incômodos que necessitam ser desenvolvidos por 
(TC3). Considere mais uma vez Harry no exemplo 4.9. Harry tem uma crença injustifica-
 
46 
 
 
da em (6), a proposição de que Miraclegro cura a calvície. Intuitivamente, nós julgamos 
que seu sistema de crenças seria mais coerente se ele descartasse esta crença. (TC3) 
avalia a justificação olhando para o que aconteceria com o valor da coerência do sistema 
se só esta crença fosse descartada. O problema com isto é que Harry pode muito bem 
crer em numerosas outras proposições que estão conectadas com (6) de maneiras cruci-
ais. Por exemplo, se ele tivesse acabado de comprar um pouco de Miraclegro, então ele 
poderia crer. 
 
7. Eu acabo de comprar alguma coisa que cura a calvície. 
 
Se nós avaliarmos a justificação de (6) olhando para ver o que acontece com o 
sistema se apenas ela for descartada, então nós avaliaremos o valor da coerência do sis-
tema de Harry no caso dele parar de crer (6) mas continuar a crer (7). Ele pode também 
acreditar em muitas outras proposições estreitamente relacionadas com (6). Por exemplo, 
ele pode acreditar 
 
8. Miraclegro cura a calvície mas a tinta spray não a cura. 
 
Seu sistema pode perder coerência se ele continuar a acreditar coisas como (7) e 
(8) mas descartar (6). Devido às suas conexões com outras crenças, então, descartar 
apenas (6) pode diminuir a coerência, ainda que crer (6) não seja justificado. Por isso, não 
é claro que (TC3) de fato lide apropriadamente com este exemplo. O fato de que qualquer 
crença, mesmo que ela não seja justificada, possa ainda assim ter conexões lógicas com 
muitas outras crenças, coloca um difícil problema para os coerentistas. Não é claro como 
revisar o coerentismo para evitar este problema. 
Há um outro problema que os advogados da (TC3) devem enfrentar. Considere a 
crença justificada de Harry em (P), a proposição que diz que tratamentos não funcionam 
sem evidência clínica de sua efetividade e que não há evidência efetividade de Miraclegro 
(para a calvície). Os coerentistas dizem que o sistema de Harry seria mais coerente se ele 
descartasse (6) de seu sistema. Ignore o problema recém discutido e suponha que isto 
seja verdade. No entanto, também é verdade que ele poderia ganhar alguma coerência 
descartando (P) de seu sistema. Isto porque (P) também contribui para a incoerência re-
velada por seu sistema. Por isso, (TC3) implica que sua crença no princípio também não 
está justificada. De modo geral, quando o sistema corrente de uma pessoa é incoerente 
 
 
porque duas crenças estão em conflito, há um aumento na coerência pelo descarte de 
qualquer uma delas. A teoria parece implicar que nenhuma delas está justificada. Ainda 
assim, isso não precisa ser o caso, como o exemplo 4.9 ilustra. Uma melhor versão do 
coerentismo abrirá de alguma forma a possibilidade de que uma das crenças conflitantes, 
ou um grupo de grupos conflitantes de crenças, esteja justificado. Talvez os coerentistas 
possam apresentar alguma maneira de lidar com este problema. 
Os dois problemas recém discutidos seguramente não mostram que o coerentismo 
está errado. Eles apenas mostram que existem problemas difíceis para os coerentistas 
resolverem. Talvez eles possam resolvê-los especificando de uma maneira melhor o sis-
tema de crenças com o qual uma crença deve ser coerente a fim de estar justificada. Por 
exemplo, em alguns dos exemplos uma característica chave é que uma crença é susten-
tada mais como um tipo de pensamento positivo do que como um esforço para alcançar a 
verdade. Os coerentistas poderiam definir a justificação em termos de coerência com este 
subsistema direcionado-para-a-verdade.47 Possivelmente alguma de tais descrições evita-
rá os problemas considerados até aqui. 
Existem algumas outras objeções ao coerentismo que pretendem ir ao coração da 
teoria. Alguns críticos argumentam que a ideia coerentista central está errada. Eles argu-
mentam que a justificação não é inteiramente uma questão de como as nossas crenças 
se articulam conjuntamente. Nos voltamos a seguir para duas objeções que tentam capi-
talizar este ponto. 
 
C. Objeções ao Coerentismo 
 
C1. A Objeção dos Sistemas Alternativos 
Eis aqui o enunciado de uma objeção ao coerentismo comumente expressa: 
 
De acordo com a teoria da coerência da justificação empírica (...) o sistema de crenças que 
constitui o conhecimento empírico está epistemicamente justificado somente em virtude de 
sua coerência interna. Mas um tal apelo à coerência não irá jamais sequer começar a sele-
cionar um único sistema de crenças justificadas já que, em qualquer concepção plausível 
da coerência, haverão inúmeros, provavelmente infinitos, sistemas de crenças diferentes e 
incompatíveis que são igualmente coerentes.48 
 
 
47 
 
 
Eis aqui uma maneira de descrever esta objeção.49 Considere a objeção de que 
Abraham Lincoln foi assassinado. Se, como os críticos argumentam, existem muitos sis-
temas de crenças diferentes e incompatíveis, haverá alguns sistemas que incluem esta 
crença e outros que incluem e a sua negação. Se essa crença é parte de seu atual siste-
ma, você pode imaginar um sistema que substitua tudo o que a sustenta ou o que se se-
gue dela por proposições diferentes. Ao construir cuidadosamente o novo sistema, você 
poderia chegar a um sistema tão coerente quanto o é o seu sistema corrente. Logo, se 
existem todos estes diferentes sistemas coerentes, então você pode fazer qualquer cren-
ça que você queira estar justificada simplesmente por selecionar apropriadamente o res-
tante de suas crenças. Isso não pode estar certo. Eis aqui um enunciado mais formal do 
argumento: 
 
Argumento 4.3: O Argumento dos Sistemas Alternativos 
 
3-1. Se a (TC) é verdadeira, então uma crença está justificada sse ela coere com o sistema de 
crenças do crente. 
3-2. Uma pessoa pode fazer qualquer crença selecionada coerir com seu sistema de crenças ao 
ajustar apropriadamente o restante do sistema para fazê-la se encaixar nele. 
3-3. Se a (TC) é verdadeira, então uma pessoa pode tornar justificada qualquer crença selecionada 
ao ajustar apropriadamente o restante de suas crenças. (3-1), (3-2) 
3-4. Mas não é o caso que se pode tornar justificada qualquer crença selecionada ao ajustar-se ao 
restante das crenças. 
3-5. A (TC) não é verdadeira. (3-3), (3-4) 
 
Há boas razões para duvidar que esta seja uma boa objeção ao coerentismo.50 
Um problema com este argumento é que (3-2) é falsa. As pessoas simplesmente não têm 
tanto controle sobre suas crenças. Mas este não é o maior problema com o argumento. 
Considere mais uma vez a crença sobre Lincoln com a qual começou esta subse-
ção. Os coerentistas não estão comprometidos com aabsurda conclusão de que você já 
está justificado em crer tanto que Lincoln foi assassinado quanto que ele não o foi. Nem 
estão comprometidos com a ideia de que você tem o poder de ajustar as suas crenças 
para construir um sistema coerente em torno de cada uma destas opções. Os coerentis-
 
48 
49 
50 
 
 
tas não estão empacados com a alegação implausível de que nós podemos formar nos-
sas crenças à vontade. Eles estão comprometidos com a ideia de que alguém poderia ter 
a crença de que Lincoln foi assassinado, e de que esta crença poderia ser coerente com 
seu sistema de crenças, e de que, portanto, esta crença poderia estar justificada. Eles 
também estão comprometidos com a conclusão de que uma pessoa poderia ter a crença 
de que Lincoln não foi assassinado, de que esta crença poderia também ser coerente 
com um sistema diferente que ele tivesse, e de que, portanto, sua crença também poderia 
estar justificada. Longe de se falsa, entretanto, esta conclusão parece perfeitamente cor-
reta. Crenças conflitantes, em sistemas alternativos, podem estar justif icadas. As pessoas 
que têm diferentes experiências e que aprenderam coisas diferentes poderiam crer justif i-
cadamente em coisas muito diferentes. Pode haver algumas pessoas que tenham apren-
dido coisas incomuns e que, como resultado, têm uma crença justificada de que Lincoln 
não foi assassinado. Não há uma boa objeção ao coerentismo aqui. 
O Argumento dos Sistemas Alternativos é suposta estar trabalhando sobre a ideia 
de que o coerentismo de alguma forma está empacado com o resultado de que sistemas 
alternativos de crenças podem estar justificados, sem bases coerentistas para escolher 
entre eles. Pode acontecer, entretanto, que este compromisso não seja implausível. Se-
guramente pessoas em circunstâncias diferentes podem ter sistemas de crenças inteira-
mente diferentes e completamente justificados que diferem grandemente um do outro. Por 
exemplo, uma pessoa vivendo na Idade Média poderia ter um conjunto de crenças coe-
rente e completamente justificado radicalmente diferente de sua contrapartida moderna. A 
ideia por detrás desta objeção ao coerentismo está equivocada.51 
 
C2. A Objeção do Isolamento 
 
Como nós temos visto, a ideia chave do coerentismo é a de que se uma crença 
está justificada, isto depende somente das outras crenças do crente. Se somente as cren-
ças justificam, então a experiência não tem importância. E isso não está certo. Reconside-
re o exemplo 4.1, no qual Hasty acredita que Filcher seja culpado simplesmente por não 
gostar dele. Se somente as outras crenças de Hasty tivessem importância, então, de 
acordo com o coerentismo, esta crença estaria justificada se ele, ao invés de apenas crer 
que Filcher seja o culpado, também acreditasse numa história mais longa sobre ele. De 
forma semelhante, no exemplo 4.10 Storm ouve galhos de árvore caindo sobre o carro. 
 
 
Suponha que o pensamento positivo dele o fizesse acrescentar crenças no sentido de que 
o som de coisas quebradas fosse do tipo que apenas um carro velho iria produzir, de que 
o carro velho estava bem embaixo de um galho, etc. A menos que haja algum input no 
sistema que justifique estas outras crenças, ele não está justificado em sua crença. Me-
ramente inventar uma história mais longa não irá conduzir à justificação. Ele precisa de 
alguma forma dar conta dos “dados da experiência.” O coerentismo parece omitir isto. 
Outros exemplos tornam o ponto mais agudo, embora haja um ar de irrealidade 
em torno deles. Há casos nos quais as crenças de uma pessoa estão desligadas da reali-
dade, em que elas não estão conectadas com a sua experiência do mundo. Considere o 
seguinte exemplo: 
 
Exemplo 4.11: O Estranho Caso de Magic Feldman 
 
O professor Feldman é um professor de filosofia baixinho entusiasmado por bas-
quete. Magic Johnson (MJ) foi um fantástico jogador profissional de basquete. Nós pode-
mos supor que, enquanto jogava um jogo, MJ tinha um sistema de crenças coerente 
completo. Magic Feldman (MF) é um personagem possível, embora inusual, que é uma 
combinação do professor e do jogador de basquete. MF tem uma imaginação notável, tão 
notável que, enquanto ele dá aulas de filosofia, pensa estar jogando basquete. De fato, 
ele tem exatamente as crenças que MJ tem. Uma vez que o sistema de crenças de MJ 
era coerente, o sistema de crença de Mf também é coerente. 
 
De acordo com o coerentismo, as crenças de MF estão justificadas porque elas 
formam um sistema coerente. No entanto, suas crenças estão radicalmente desligadas da 
realidade. Não é que elas simplesmente sejam falsas. Ainda pior, elas não levam em con-
sideração nem mesmo a natureza de suas próprias experiências. Suas experiências – o 
que ele vê e sente – são as experiências de um professor. Suas crenças são as de uma 
pessoa numa situação inteiramente diferente. Longe de estarem justificadas, elas são 
uma fantasia absurda. 
Este argumento pode ser formulado como segue: 
 
Argumento 4.4: O Argumento do Isolamento 
 
 
51 
 
 
4-1. Se a (TC) é verdadeira, então em todos os casos possíveis uma crença está justificada sse ele 
coere com o sistema de crenças do crente. [Definição de coerentismo] 
4-2. Sistema de crenças de MF = sistema de crenças de MJ. [Suposição do exemplo] 
4-3. A crença de MJ de que ele está jogando basquete coere com o seu sistema de crenças. [Su-
posição do exemplo] 
4-4. A crença de MF de que ele está jogando basquete coere com o seu sistema de crenças. (4-2), 
(4-3) 
4-5. Se a (TC) é verdadeira, então a crença de MF de que ele está jogando basquete está justifica-
da. 94-1), (4-4) 
4-6. Mas a crença de MF não está justificada. [Suposição do exemplo] 
4-7. A (TC) não é verdadeira. (4-5), (4-6) 
 
Há uma outra maneira de destacar o mesmo ponto. Se somente outras crenças 
podem justificar uma crença, então, já que MF e MJ têm as mesmas crenças, MJ não tem 
coisa alguma para justificar suas crenças que MF também não tenha. Assim, MJ não po-
de estar mais bem justificado do que MF. Mas ele está. A razão para isto é que parte do 
que determina o que está justificado é o caráter da experiência de uma pessoa. 
Os coerentistas podem responder que MF não é possível. Dever ser concedido 
que o exemplo é muito inusual. Ainda assim, é suficiente para destacar um ponto impor-
tante acerca do coerentismo: ele omite de sua descrição da justificação uma coisa que 
parece absolutamente central: a experiência de uma pessoa. Além do mais, os críticos 
não precisam recorrer a exemplos bizarros como o de MF a fim de destacar o ponto. 
 
Exemplo 4.12: O Experimento Psicológico 
 
Lefty e Righty estão num experimento psicológico. Eles são pessoas extremamen-
te semelhantes, com todas as mesmas crenças relevantes. O experimento é um no qual 
eles olham uma imagem num monitor e formam crenças sobre o que eles veem. É-lhes 
dito que eles irão ver duas linhas no monitor e formarão uma crença sobre qual é a mais 
comprida. Ambos são levados a crer que a linha da direita é a mais comprida. As linhas 
aparecem então nos monitores e ambos creem que a linha da direita é a mais comprida. 
No entanto, as expectativas estão jogando um papel. De fato, para um dele, Lefty, a linha 
da esquerda é que é a mais comprida, e ela parece assim. Lefty simplesmente ignora o 
caráter da sua experiência e forma sua crença inteiramente com base no que ele foi leva-
do a crer.Os críticos argumentam que como a linha se parece faz alguma diferença para o 
que está justificado para Lefty. Lefty pensa que a linha da direita é a mais comprida, mas 
ele não presta atenção para como a linha de fato se parece, ainda que a informação este-
ja bem ali diante de sua mente. O coerentismo implica em que ele esteja justif icado em 
crer que a linha da direita é a mais comprida uma vez que essa crença está sustentada 
por suas crenças anterior e ele não tem outras crenças que a anulem. Ainda assim, Lefty 
tem a evidencia experimental – a maneira como a linha se parece – que conta contra esta 
crença. O coerentismo deixa isto inapropriadamente fora do cenário. Ele diz que somente 
importa aquilo em que Lefty acredita. Ele dá uma descrição incorreta deste exemplo mais 
realista. 
Alguns defensores do coerentismo podem responder que as crenças de uma pes-
soa devem se conformar às suas experiências. Se for assim, então os exemplos 4.11 e 
4.12 não são nem mesmo possíveis. No entanto, se esse é o caso, então ocorre que um 
elemento fundamental do fundacionismo está afinal de contas correto – estas crenças so-
bre a experiência parecem ser em algum sentido “infalíveis” ou “incorrigíveis.” Nós temos 
de estar certos sobre elas. Assim, se você rejeita este argumento contra o coerentismo 
nestas bases, você parece estar apelando para uma ideia fundacionista. 
Isto sugere que seria uma boa ideia reconsiderar o fundacionismo num esforço pa-
ra chegar a uma versão que evite as dificuldades do fundacionismo cartesiano. 
 
D. Conclusões Sobre o Coerentismo 
 
1. A ideia central do coerentismo pode ser dada em duas alegações caracteristi-
camente coerentistas: 
 
A1. Somente crenças podem justificar outras crenças. Nada além de uma crença pode 
contribuir para a justificação. 
A2. Toda crença justificada depende em parte de outras crenças para a sua justificação. 
(Não existem crenças justificadas básicas.) 
 
2. Nós ainda não encontramos uma maneira adequada de formular a teoria coe-
rentista. Entre os problemas para os coerentistas estão estes: (a) distinguir sensatamente 
 
 
entre as crenças efetivas para caracterizar algumas como justificadas e algumas como 
injustificadas; (b) dizer o que é efetivamente a coerência. 
3. Muitos críticos pensam que (A1) tenha sido refutada pelo Argumento do 
Isolamento. Esse argumento mostra que a experiência tem importância para a justifica-
ção. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo V 
 
 
TEORIAS NÃO-EVIDENCIALISTAS DO 
CONHECIMENTO E DA JUSTIFICAÇÃO 
 
As teorias discutidas no Capítulo 4 dão conta da justificação considerando a ideia 
evidencialista de que a justificação é um problema de adequar uma crença com 
uma evidência. Embora nenhuma objeção decisiva ao evidencialismo tenha surgi-
 
 
do em nossa discussão, muitos epistemologistas contemporâneos rejeitam essa 
visão. Ninguém nega que, frequentemente, a evidência é importante à justifica-
ção e nenhum epistemólogo sensível instaria as pessoas a desconsiderar suas 
evidências quando forem formar crenças. Ao contrário, eles pensam que fazer a 
crença se adequar à evidência é somente parte da história. A história toda [lar-
ger], pensam eles, inclui considerações sobre o processo que inicia e sustenta as 
crenças. Quatro teorias desse gênero serão examinadas neste capítulo. 
 
I. A TEORIA CAUSAL 
 
A. Ideia Principal 
O primeiro substituto proposto para o TAK é a teoria causal do conhecimento. Al-
vin Goldman foi um dos primeiros proponentes dessa visão. A fim de examinar a 
ideia, pense primeiramente em qualquer dispositivo [device] que receba e pro-
cesse informações sobre o seu entorno [environment]. Dispositivos familiares tais 
como termômetros e barômetros servem de exemplo. A temperatura envolvendo 
o termômetro e a pressão do ar em torno do barômetro deixam os dispositivos de 
medição em estados ou condições particulares. Às vezes, dizemos metaforica-
mente que o termômetro “sabe” que temperatura está fazendo. De certa forma, 
nós agimos como termômetros [we are like elaborate thermometers]. Quando 
estamos na presença de um objeto vermelho com nossos olhos abertos e luz su-
ficientemente disponível, vemos um objeto vermelho e cremos que há algo ver-
melho diante de nós. Há um processo causal iniciando com a luz refletindo do ob-
jeto vermelho até os nossos olhos, passando por nosso sistema perceptivo [per-
ceptual] e culminando na crença de que há um objeto vermelho em nossa pre-
sença. A ideia principal da teoria causal constitui-se em que quando um fato no 
mundo conduz a crença nesse fato, trata-se de um caso de conhecimento. Quan-
do uma pessoa possui uma crença que não está causalmente conectada com o 
fato associado, não há conhecimento. 
 Esta ideia central necessita elaboração e clarificação, mas ela verdadeira-
mente parece ter alguma plausibilidade inicial. Podemos primeiramente formular a 
 
 
ideia do seguinte modo: 
 C. S sabe que p se a crença de S em p é causada pelo fato de p. 
 
 A teoria causal preserva a implicação de TAK de que o conhecimento re-
quer crença verdadeira. Suponha que você crê que p, mas essa crença é falsa. 
Se p não é verdadeiro, então não há o fato p e logo não poderia ser que o fato p 
tenha causado sua crença em p. E se você não crê que p, então, obviamente, 
não é o caso que o fato p causa sua crença em p. Dessa forma, as condições de 
verdade e crença são mantidas por essa teoria. Mas a condição de justificação é 
substituída pela necessidade de conexão causal. 
 Goldman conclui o ensaio em que ele defende esta teoria dizendo que ela 
“voa no rosto de uma bem estabelecida tradição na epistemologia, a visão de que 
questões epistemológicas são questões de lógica ou justificação, e não questões 
causais ou genéticas”. Sua ideia, portanto, é a de que se você possui conhecimen-
to isso não depende no que sejam as suas razões, mas sim em qual é a causa de 
sua crença. Assim, um aspecto chave da teoria constitui no fato que ela elimina a 
condição de justificação de TAK e a quarta condição designada em lidar com os 
exemplos de Gettier e as substitui pela condição da conexão causal. Conforme 
examinamos essa teoria, procuraremos verificar se esta substituição é uma boa 
ideia. 
 Para constatar os méritos da teoria causal, observemos o quão bem ela lida 
com exemplos comuns. Consideremos, primeiramente, alguns casos em que uma 
pessoa possui uma crença verdadeira que não é conhecimento. Suponha que vo-
cê tenha que sair da cidade no dia em que foi marcado um piquenique. Na hora do 
piquenique, sem ter escutado qualquer notícia sobre o tempo em sua cidade, você 
forma a crença de que está chovendo. Você tem essa crença somente como o re-
sultado de sua disposição mesquinha: não quer que outros tenham um bom mo-
mento que você deverá faltar. E suponha que aconteça de você estar certo. Nesse 
caso, você possui uma crença verdadeira de que está chovendo em sua cidade, 
mas falta-lhe o conhecimento. E, exatamente como a teoria causal teria sustenta-
do, não há conexão causal entre o fato de que está chovendo e sua crença. Logo, 
 
 
a teoria causal responde a esse caso de forma perfeitamente correta. Por outro 
lado, se você acreditou que estava chovendo porque seus amigos ligaram para 
você e lhe disseram que estava chovendo, e eles viram a chuva, então haveria 
uma conexão causal partindo da chuva, passando por seus amigos, e chegando 
até você. Assim sendo, você teria conhecimento. Ainda, a teoria responderia de 
forma igualmente correta ao caso. E, claro, se você mesmo vira a chuva, haveria 
uma conexão causal e você teria conhecimento. Essessimples casos parecem 
funcionar muito bem. 
 Mesmo alguns casos mais complicados funcionam bem com a teoria cau-
sal. Considere os casos de Gettier, tais como o Exemplo 3.3, no qual Smith crê 
que há uma ovelha no campo. A crença de Smith é verdadeira, mas a presença da 
ovelha não contribui causalmente a essa crença. A crença remonta ao cachorro 
(no exemplo, Smith poderia confundir a ovelha com algo que lembra uma ovelha, 
tal como um cachorro ou uma estátua...). Assim, parece que a teoria causal consi-
dera apropriadamente isso também. 
 
B. Desenvolvendo a Teoria Causal: Teoria de Goldman 
Para analisar os méritos e os problemas da teoria causal, é melhor examinar uma 
versão específica dela. Abaixo está o que Goldman propôs: 
C*. S sabe que p se e somente se o fato p está causalmente conectado 
de forma apropriada com a crença em p de S. 
 
Há exemplos ingênuos, mas convincentes, que deixam claro por que Gold-
man inclui a necessidade da crença e do fato estarem conectados “de forma apro-
priada”. Isto pode ser mais bem visto considerando o seguinte exemplo envolven-
do uma conexão inapropriada. 
Exemplo 5.1: A batida na cabeça 
Gerald caiu da escada [has fallen down the steps] e bateu a cabeça. A ba-
tida na sua cabeça abalou seu cérebro de tal maneira que ele passou a 
formar uma variedade de crenças estranhas. Entre outras coisas, ele crê 
que comer alface causa obesidade, que o Chicago Cubs ganhará o campe-
 
 
onato mundial e que ele recém caiu da escada. De fato, ele não possui 
lembrança da sensação de ter caído. Esta crença, como cada uma das ou-
tras duas mencionadas, constitui simplesmente um resultado direto da bati-
da na cabeça. 
 
Neste exemplo, Gerald crê 
1. Eu, Gerald, recém caí da escada. 
 
Gerald crê que (1), e há uma conexão causal entre o fato que (1) e a crença 
de Gerald que (1). Ainda, claramente, Gerald não sabe que (1) se ele chega a es-
sa crença dessa forma. De algum jeito, como acontece nos casos de Gettier, ele 
acabou, afortunadamente (em um certo sentido), chegando a uma crença verda-
deira. Goldman diz que embora haja uma conexão causal entre o fato e a crença 
nesse exemplo, a conexão nesse tipo de caso não é uma conexão apropriada. Es-
te exemplo ilustra por que (C*) é melhor que (C). 
 Goldman dá os seguintes exemplos de conexões causais apropriadas entre 
fatos e crenças: percepção, memória e reconstrução apropriada de cadeias cau-
sais. Os primeiros dois são relativamente fáceis de entender: se ver uma árvore 
faz você crer que há uma árvore em frente a você, há aí uma conexão apropriada 
e você possui conhecimento. Se a memória faz você reter essa crença, você ainda 
possui conhecimento. Alguns casos são mais complexos e envolvem reconstru-
ções mentais da cadeia causal [causal chains, creio que o plural refere-se ao sen-
tido de “elos” para a palavra chains]. 
 Exemplo 5.2: A árvore que está faltando 
Smith retorna para casa e vê uma pilha de serragem e pedaços de madeira 
no local onde normalmente havia uma grande árvore. Ele recorda que a ár-
vore estava doente e que ele recebera uma notícia informando que o servi-
ço municipal do meio-ambiente iria derrubá-la. Logo, ele infere, e portanto 
passa a saber, que a árvore fora derrubada. 
 
Nesse caso, Smith não percebeu a árvore sendo cortada e ele não lembra 
 
 
que ela fora cortada. Mas ele sabe que ela foi cortada. A teoria de Goldman trata 
esse fato permitindo conexões apropriadas entre o fato e a crença quando a cren-
ça resulta da reconstrução apropriada [ou correta?] da cadeia causal principal 
[“principal” não aparece no txt, mas leading, “conduzir, levar”] do fato para a cren-
ça. Smith é capaz de reconstruir, de uma forma sensível, a cadeia causal envolvi-
da e, portanto, tem conhecimento. Nesse caso, existe uma cadeia causal princi-
pal [idem anterior] da derrubada da árvore para a presença de pedacinhos de ma-
deira e serragem e para a crença de que a árvore foi derrubada. Porque ele pode 
reconstruir a cadeia causal a partir da árvore sendo derrubada até a sua crença, 
Goldman conta com que essa seja uma reconstrução apropriada de uma cadeia 
causal e então ela é, de fato, uma conexão causal apropriada. Sua teoria implica, 
corretamente, que há conhecimento nesse caso. 
Outras reconstruções de cadeias causais apropriadas diferem ligeiramente 
dessa em questão. Suponha que a Sra. Black vê fogo na lareira e acredita que há 
fumaça saindo pela chaminé. A fumaça saindo da chaminé não causa sua crença 
de que há fumaça saindo da chaminé. O fogo causa tanto a fumaça que sai pela 
chaminé quanto sua crença nisso. Nesse caso, então, existe algo, a saber, o fogo, 
que conduz ambos a um outro fato [embora claro, esse trecho parece ambíguo 
em português ou redundante em português] - a fumaça saindo da chaminé – e a 
sua crença nesse fato. Em outras palavras, existe uma causa comum do fato e 
sua crença no fato. Goldman diz que quando uma pessoa reconstrói uma cadeia 
causal como essa corretamente, o fato e a crença são casualmente conectados de 
uma forma apropriada e, em sua análise, a condição causal é satisfeita. Logo, a 
teoria implica, corretamente mais uma vez, que ela sabe que existe fumaça saindo 
da chaminé. 
A ideia de Goldman é inteligente e inovadora. Ela trata com vários proble-
mas comuns de maneira efetiva. Ela também trata com muitos exemplos do tipo 
Gettier de uma boa forma. Tipicamente, nesses exemplos, não há conexão causal, 
ou ainda, não há conexão causal apropriada, entre fato que p e crença em p. 
Entretanto a teoria causal não está livre de sérios problemas. Nós tratare-
mos disso mais tarde. 
 
 
 
C. Quebra-cabeças e Problemas para a Teoria Causal 
C1. Conhecendo generalizações [generalizações conhecidas?]. A teoria causal 
funciona melhor quando restringimos nossa atenção ao conhecimento de fatos 
específicos observáveis [specific observable facts] no mundo. Mas a Visão Pa-
drão (Standart View) implica que nós saibamos [sabemos ou saibamos?] mais do 
que isso. Por exemplo, ela permite que nós possamos ter conhecimento de gene-
ralizações tais como 
1. Todos os homens são mortais. 
 
O problema é que generalizações não parecem ser causas. (2) não causa a 
crença em (2), assim não existe conexão causal, e portanto não há uma conexão 
causal apropriada entre esse fato e sua crença nele. É a crença em instâncias 
específicas da mortalidade (e outras informações) que causa a crença [it is belief 
in specific instances of mortality (and other information) that causes the belief]. Lo-
go, como você pode saber (2), de acordo com a teoria causal de Goldman? 
 
C2. Casos de Super-determinação 
Exemplo 5.3: Veneno e ataque do coração 
Edgar sabe que Allan tomou uma dose fatal de veneno que não possui 
qualquer antídoto. Um tempo suficiente passou, a ponto de Edgar saber 
que Allan faleceu. Mas Allan não morreu por causa do veneno; ao invés, 
bastante triste pelo que tinha feito [faltou essa frase], Allan teve um ata-
que do coração. Obviamente [essa expressão ñ tem no txt] a reconstrução 
da cadeia causal de Edgar não está correta. 
 
Esse caso é um problema para a teoria de Goldman porque Edgar real-
mente sabia que Allan havia morrido, mas não havia reconstruído o fato com a 
cadeia causal apropriada. Nesse caso, Edgar sabia algo – que Allan tomara uma 
dose fatal – que era causa suficiente para Allan estar morto. Nessas bases, Edgar 
pode saber que Allan está morto. Não é requerido que essa seja, verdadeiramen-
 
 
te [actual], a causa da morte de Allan. Você pode saber que algo aconteceu mes-
mo se você está errado sobre de que maneira esse algo aconteceu. Você não 
precisa reconstruira cadeia causal apropriada. 
Esse é um sério problema para a teoria causal. Para reparar a teoria, seria 
necessário dizer que existe uma cadeia causal apropriada entre um evento e uma 
crença nos casos em que a pessoa acredita que o evento realizou-se porque 
ela, justificadamente, crê que alguma coisa causalmente suficiente para o evento 
ocorrera. Mas isso traz a ideia de justificação (e evidência) de volta à teoria de 
Goldman na forma exata que ele buscava evitar. A verdade é que conhecimen-
to não requer apenas que exista uma conexão causal entre um evento e a crença 
da sua ocorrência. Conhecimento requer crença justificada. 
 
C3. Percepção e Evidência 
Exemplo 5.4: O caso de Trudy e Judy 
Trudy e Judy são irmãs gêmeas idênticas. Smith vê uma e, sem uma boa 
razão [for no good reason], forma a crença de que vê Judy. Isso é verdade 
e esse é um caso de percepção. Ele reconstrói de uma maneira apropri-
ada a cadeia causal entre a presença de Judy e a crença. Ele sabe sobre 
Trudy, mas imprudentemente descarta a possibilidade que ela seja a pes-
soa que ele está olhando. 
 
Esse é também um sério problema para a teoria causal. Aqui, existe uma 
conexão causal entre o fato e a crença nesse caso. Todavia, não existe conheci-
mento. E a razão é que as razões para crer que a cadeia causal é do jeito que 
está [is the way it is; “é assim mesmo?”] não são boas. A mera existência de co-
nexão causal não é boa o suficiente. 
Um teórico causal poderia [could] desenvolver a teoria de maneira que ela 
concorde apropriadamente com esse caso. A ideia consistiria [would be] em re-
querir àquele que acredita [believer] que ele esteja seguro [warranted; “autoriza-
do”?] ou justificado na reconstrução de forma apropriada da cadeia causal. 
Smith não está justificado nesse caso, uma vez que ele não tem boas razões para 
 
 
pensar que ele vê Judy ao invés de Trudy. Mas a crença nesse caso é apenas a 
crença perceptual – Smith apenas vê uma pessoa e forma a crença de que é Ju-
dy. É exatamente como no caso em que ele vê uma mesa e forma a crença de 
que aquilo que ele vê é uma mesa. Se nós dizemos que ele precisa de crenças 
garantidas [warranted] sobre a história causal no caso de Judy e Trudy, então o 
mesmo deveria ser [should be] requerido no caso em que ele forma a crença 
verdadeira de que existe uma mesa a sua frente. O resultado dessas considera-
ções é que nenhuma boa versão da teoria causal será diferente da TAK da manei-
ra como Goldman a propõe (a TAK). 
Existe um dilema para os teóricos causais: requerer ou não requerer "evi-
dência explícita" nos casos de percepções. Se não requererem, então o caso de 
Trudy e Judy é um contraexemplo porque existe uma conexão causal que aquele 
que crê reconstruiu corretamente (embora [though] injustificavelmente). Mas se, 
de outro lado, os teóricos requererem "evidência explícita" dos [“nos?”] casos de 
percepção, o que acontece é que a teoria causal se torna algo não muito diferente 
da TAK. A diferença central é que ela adiciona a condição de conexão causal 
[the causal connection condition], a qual [which] o Exemplo 5.3 mostra ser um er-
ro. 
 
D. Conclusões sobre [on= ”sobre” neste caso] a Teoria Causal 
A ideia que conhecimento pode ser analisado em termos de conexões cau-
sais mais do que [rather] uma justificação é uma ideia interessante, mas isso pa-
rece que não funciona muito bem quando é considerado em detalhes. É verdade 
que, frequentemente, existe uma conexão causal entre fatos que conhecemos e 
nossas crenças nesses fatos. Mas nós podemos ter conhecimento sem que haja 
tal conexão causal, como nos mostram os Exemplos 5.2 e 5.3, e nós ainda temos 
falta de conhecimento mesmo quando existe uma conexão causal, como mostra o 
Exemplo 5.4. 
 
II. RASTREANDO A VERDADE 
A. A Ideia Geral 
 
 
Evoquemos de novo a ideia utilizada [used; neste caso] para introduzir a teoria 
causal: termômetros "sabem" o que é [“ou ‘sabem’ qual é a”?] temperatura desde 
que eles respondam à temperatura de uma forma regular. A teoria causal não faz 
uso pleno dessa ideia. O que é verdadeiro sobre o termômetro não é apenas que 
estando 50° causa ao termômetro que o mesmo indique “50°”. Quando faz essa 
temperatura, o termômetro diz que é essa temperatura, e quando não faz tal tem-
peratura ele nos diz que não é essa temperatura. Algo análogo é verdadeiro nas 
pessoas que sabem sobre o mundo em volta delas. Considere, por exemplo, uma 
dona de um cachorro e seu cachorro, Rex. Quando Rex está no quarto com ela, 
ela acredita que ele está lá. Rex faz sua presença ser sentida, e ela é receptiva a 
essa maneira com que o cachorro age para ser sentido. Quando ele não está no 
quarto, ela acredita que ele não está no quarto. Sua crença sobre esse tópico 
“rastreia a verdade”, em alguns aspectos é como a maneira que o termômetro 
rastreia a temperatura. 
Uma ideia, então, é que aqueles que conhecem são “rastreadores da ver-
dade”. Robert Nozick foi um precursor dessa [was a leading proponent] teoria. A 
ideia de rastrear a verdade como uma base [an account] de conhecimento é a se-
guinte: uma pessoa que sabe [“conhece”?] uma proposição, o conhecedor, é uma 
pessoa que rastreia a sua verdade [“validade”?]. Assim como o leitor do termôme-
tro rastreia a temperatura, as atitudes do conhecedor ao encontro de uma proposi-
ção refletem o valor de verdade da proposição. Essa ideia é expressa na seguinte 
definição: 
TT. S sabe que p se e somente se (i) p é verdadeiro, (ii) S acredita em p, 
(iii) a atitude de S ao encontro de a p rastreia o valor de verdade de 
p: Quando p não é verdadeiro; S não acredita em p; e quando p é 
verdadeiro, S acredita em p. 
 
Assim como a teoria causal, a teoria do rastreamento da verdade retém da 
TAK a ideia de que conhecimento requer crença verdadeira. Mas ela substitui a 
condição de justificação e a condição de Gettier pela requisição de rastreamento. 
A teoria de rastreamento funciona bem para alguns casos simples. Alguém 
 
 
que trabalha no escritório sabe que seu computador está ligado agora, mas se ele 
estivesse desligado a pessoa acreditaria que ele está desligado. Suas crenças so-
bre a condição do computador rastreiam a sua condição atual. Ele não sabe se 
sua vizinha está ou não em casa, mesmo assim ele pensa que ela está. Mas esse 
pensamento é baseado na vaga junção de tendências gerais. Mesmo se ela esti-
vesse fora, ele ainda pensaria [would still think] que ela está em casa. Sua crença 
não rastreia a localização dela. 
O Princípio (TT) tem resultados corretos [right; “os mesmos resultados”?, 
acho que corretos fica melhor] para vários outros casos. Ele parece ter resultados 
certos nos casos que causaram problemas para a teoria causal. A teoria pode ain-
da lidar com alguns casos do tipo Gettier de uma maneira bastante efetiva. Por 
exemplo, em um dos casos Smith não sabia que alguém no seu trabalho possuía 
um Ford. Ele baseou sua crença na evidência Nogot, mas sua crença era verda-
deira por causa de Havit. Entretanto, se sua crença fosse falsa, talvez porque Ha-
vit vendera seu Ford, Smith ainda teria tido [would still have had] a evidência de 
Nogot e ainda teria acreditado que alguém no trabalho tivesse um Ford. Então, 
se a proposição que alguém no trabalho possui um Ford fosse falsa, ele poderia 
acreditar nela de qualquer forma. Ele não foi um rastreador da verdade para essa 
proposição, e logo, acordando com (TT), não possui conhecimento. 
 
B. Desenvolvendo a Teoria do Rastreamento: Teoria de Nozick 
Nozick argumentou que uma teoria ao longo das linhas de (TT) não é muito corre-
ta e que ela precisa de alguns “refinamentos e epiciclos”. Ele está absolutamente 
corretosobre isso. Ele apresenta exemplos, tais como o que se segue, para mos-
trar a razão dessas necessidades: 
Exemplo 5.5: Conhecimento com Sorte [“sortudo”?, acho que com sorte fi-
ca melhor] 
Black está trabalhando duro [is hard at work] em seu escritório. De tempos 
em tempos, ela levanta a cabeça [she looks up from her desk and compu-
ter] para esticar o pescoço. Em uma dessas ocasiões ela dá uma olhada 
pela janela em direção a rua. Justo nesse momento ela vê um assalto na 
 
 
rua. Ela tem uma clara visão do evento. Ela é uma testemunha. 
 
Nesse caso, Black sabe que um assalto aconteceu. A condição de rastrea-
mento ainda não é satisfeita. Poderia facilmente acontecer que Black não tivesse 
dado uma olhada pela janela no momento crítico. Nesse caso, o assalto ainda te-
ria acontecido, embora ela não acreditasse nisso. Ela não é uma rastreadora da 
verdade para a proposição de que o assalto está acontecendo. Assim, o exemplo 
5.5 é um contraexemplo para (TT). Black tem conhecimento embora não seja uma 
rastreadora da verdade. 
Outro exemplo ilustra um ponto similar. 
Exemplo 5.6: O caso da avó 
Uma velha e fraca avó vê seu neto Johnny brincando alegremente diante 
[before] dela. Ela sabe que ele está bem e que está brincando alegremente. 
Mas supondo que Johnny estivesse doente. A família poderia dizer para a 
avó que Johnny está bem e que está brincando alegremente, mas que ele o 
faz na casa de um amigo. Eles não querem deixar a avó preocupada. Logo, 
se Johnny estivesse doente, ela ainda assim poderia ter a crença de que 
ele está bem. 
 
A avó não rastreou a verdade. No entanto [yet], ela tem conhecimento, 
uma vez que [since] ela de fato [actually] o vê. 
Nozick tem uma proposta de como pôr em ordem a situação [to fix things 
up]. Ele sugere que o que está errado nesses casos é que existe uma troca nos 
métodos em função da qual [by which] a pessoa passa a acreditar. Simplificando 
um pouco, nós podemos atribuir a seguinte visão para ele: 
 
TT*. S sabe que p se e somente se (i) p é verdadeiro, (ii) S acredita em p, 
(iii) S utiliza um método M para formar a crença em p, e (iv) quando S 
utiliza o método M para formar crenças sobre p, as crenças de S so-
bre p rastreiam a verdade de p. 
 
 
 
 A ideia é que para conhecer uma proposição, você deve ser um rastreador 
da verdade da proposição quando você adere ao mesmo método para formar a 
crença sobre ela. No “caso da avó”, ela de fato utiliza o “olhar-ele” como o seu mé-
todo. Como está dito no exemplo, se o neto não estivesse bem e lhe dissessem 
que ele está bem, ela estaria então utilizando um método diferente. O fato de que 
esse método diferente conduzir-lhe-ia a uma falsa crença não é importante quan-
do (TT*) é aplicado ao caso. Para aplicar (TT*), precisamos considerar o que 
aconteceria se o neto não estivesse bem e a avó fosse utilizar o método de olhar-
ele para chegar a sua crença. Presumivelmente, sob essas circunstâncias, ela ve-
ria que o neto está doente e não acreditaria que ele está bem. Assim, se ela adere 
a esse método, ela obtém dados certos. Logo, isso se relaciona com o Exemplo 
5.6. 
 
C. Problemas à Teoria do Rastreamento 
C1. Rastrear não é necessário ao conhecimento. Considere novamente o 
Exemplo 5.5, o caso do “Conhecimento com Sorte” [Lucky knowledge]. Esse é 
um exemplo em que Black realmente tem um conhecimento, mas ela poderia fa-
cilmente ter deixado de ter conhecimento, pois Black poderia facilmente ter olhado 
pela janela em um momento ligeiramente diferente. Nesse caso, a condição (iii) de 
(TT) não é satisfeita. Defensores da teoria podem pensar que (iv) da análise revi-
sada. (TT*), é satisfeita. Contudo, isso não parece estar correto. Se o método em 
questão é “olhar pela janela”, então a análise revisada não é melhor que a original. 
A questão-chave é se a condição (iv) é satisfeita nesse caso. Essa condição, apli-
cada ao exemplo, implica: 
Quando Black utiliza o método de olhar pela janela para formar crenças so-
bre se há um assalto acontecendo, suas crenças rastreiam a verdade (isto 
é, se houvesse um assalto, tipicamente ela acreditaria que estaria aconte-
cendo um; e se não houvesse um assalto, tipicamente ela não acreditaria 
que estivesse ocorrendo um). 
 
 Se nós apenas adicionássemos um detalhe menor à história, seria fácil ver 
 
 
que essa condição não necessita ser verdade mesmo se Black de fato sabe que o 
assalto ocorrera. Suponha que Black tenha uma visão de somente parte da rua 
em sua janela. Há uma grande parte que ela não pode ver. Em nosso exemplo, o 
método de Black, olhar a rua, permitiu a ela saber que um assalto acontecera. 
Mas ele poderia facilmente ter falhado, isto é, ele poderia tê-la levado a crer que 
não há nenhum assalto mesmo se tivesse havido um. Teria acontecido isso se o 
assalto tivesse ocorrido em um lugar ligeiramente diferente, fora de sua visão. Lo-
go, o método que ela usou – olhar a rua – não é assim tão adequado para formar 
a crença correta sobre se há ou não um assalto na rua. Ela não rastreia a verdade 
mesmo quando ela utiliza esse método. Assim a teoria induz que ela não sabe que 
há um assalto acontecendo mesmo quando ela o vê claramente. Este é um resul-
tado equivocado. 
 Essa é uma poderosa objeção à teoria do rastreamento do conhecimento. 
Ela mostra que uma pessoa pode ter conhecimento sem ser um rastreador da 
verdade, mesmo se ela adere ao mesmo método para formar uma crença sobre 
essa proposição. Talvez o exemplo não seja inteiramente decisivo dado que não 
está tão claro o quanto vale usar o mesmo método. Talvez um defensor da teoria 
dissesse que quando Black olha para a rua e não vê um assalto, o método de for-
mar crenças difere do método utilizado quando ela vê o assalto. Deixando de ha-
ver qualquer ideia clara sobre no que exatamente conta utilizar o mesmo método, 
torna-se difícil estar certo sobre isso. Ao menos, assim, essa objeção mostra que 
a teoria não é clara nesse ponto crucial. 
 
C2. Distinções Absurdas. Outra objeção é devida a Saul Kripke: 
 
Exemplo 5.7: O celeiro falso 
 
Smith está dirigindo em uma estrada de terra. Ele vê muitos celeiros de vá-
rias cores, olha para um e acredita 
 
 3. Eu vejo um celeiro 
 
 
 
 Ele também acredita, baseado no que vê, que: 
 
 4. Eu vejo um celeiro vermelho 
 
As duas crenças são verdadeiras, assim como ele acredita. Entretanto, era 
desconhecido para Smith que recentemente alguns celeiros foram inteira-
mente tomados por fogo e os moradores locais ergueram fachadas de celei-
ros para recepcionar os turistas. Portanto, muitas coisas que ele tomou co-
mo sendo celeiros, de fato, não eram. Um detalhe final: nenhum dos celei-
ros falsos é vermelho por causa do material de que os celeiros falsos são 
feitos, que reagem de forma não favorável a tinta vermelha. 
 
 Os filósofos estão divididos sobre se Smith sabe ou não que está vendo um 
celeiro nessa situação. Alguns pensam que a presença dessas fachadas na vizi-
nhança faz que ele tenha uma falta de conhecimento. Outros negam isso. Mas vir-
tualmente qualquer um concordaria que ele ou sabe ambas, (3) e (4), ou não sabe 
nenhuma delas. É completamente não plausível sustentar que ele sabe uma e não 
a outra. Isso é exatamente a consequência que (TT*) parece ter. 
 Aqui está o porquê da teoria do rastreamento ter tais implicações peculia-
res. Para testar se Smith sabe ou não essas proposições, a teoria nos obriga a 
considerar se o método de Smith para formar crenças sobre os celeiros rastreia a 
verdade das proposições, isto é, se de forma confiável consegue a resposta corre-
ta. Seu método de identificar celeiros parece não serconfiável. Isso se dá porque 
ele poderia acreditar que existe um celeiro mesmo se o que ele viu lá foi um celei-
ro falso. A presença de celeiros falsos na vizinhança faz dessa possibilidade algo 
realista e, logo, faz dele alguém incapaz de ser um rastreador da verdade para (3). 
Em contraste, seu método para decidir sobre (4) é extremamente confiável. Por-
que não existem falsos celeiros da cor vermelha, e ele pode distinguir o vermelho 
das outras cores, quando ele está vendo um celeiro vermelho ele pensa que ele 
de fato está vendo, e quando ele não está vendo um celeiro vermelho, ele pensa 
 
 
que não está vendo. Então Smith rastreia a verdade para (4) de uma maneira mui-
to melhor do que ele rastreia para (3). 
 Assim, a teoria implica que ele sabe que ele vê um celeiro vermelho lá, mas 
não sabe que vê um celeiro. Esse é um resultado inaceitável. Se você pensa que 
a presença de celeiros falsos na vizinhança arruína seu conhecimento, então você 
pensa que Smith não conhece nem (3) nem (4). Se você pensa que a presença de 
celeiros falsos não arruína seu conhecimento, então você pensa que ele conhece 
(3) e (4). De qualquer forma, esse é um erro para a teoria do rastreamento. 
 
D. Conclusões sobre a Teoria do Rastreamento 
Apesar do seu apelo inicial, a teoria do rastreamento não funciona. Conhecer não 
equivale a rastrear a verdade. Uma grande parte da razão para isso é que a ver-
dade é independente da qualidade das razões daquele que rastreia [whether 
you track the truth is independent of the quality of your reasons, ok]. Na objeção 
final, recém considerada, uma circunstância não corriqueira faz com que você seja 
apto para rastrear uma proposição, mas não outra. Entretanto, suas razões para 
as duas proposições são igualmente boas. Mais uma vez, parece que o conheci-
mento depende de razões de uma forma que a teoria do rastreamento falha em 
reconhecer. 
 
III. CONFIABILISMO 
A. A Ideia Principal 
O confiabilismo é de certa forma similar a teoria do rastreamento, embora existam 
diferenças importantes. O confiabilismo é frequentemente formulado como uma 
teoria de justificação, e não como uma teoria do conhecimento. Assim, confiabilis-
tas podem concordar que conhecimento é crença verdadeira justificada (mais, al-
go para concordar com os casos do tipo Gettier). Nesses pontos, eles concordam 
com os defensores das teorias evidencialistas discutidas anteriormente. Contudo, 
os confiabilistas interpretam a condição de justificação de um modo bastante dife-
rente destes teóricos. Os confiabilistas negam que a justificação seja basicamente 
um problema de ter boas evidências. Mais precisamente, dizem eles, a justificação 
 
 
depende da acurácia (ou confiabilidade) vigente nos processos ou métodos utili-
zados para formar crenças. Nós examinaremos essa ideia nessa seção. 
O mais influente proponente do confiabilismo é Alvin Goldman. Como parte 
da sua explicação e defesa dessa teoria, ele escreve: 
... quais tipos de causas conferem justificabilidade? Podemos ganhar dis-
cernimento [gain insight] nesse problema revendo alguns processos erra-
dos da formação de crenças, i.e., processos nos quais as crenças resultan-
tes seriam classificadas como não justificadas. Aqui temos alguns exem-
plos: razão confusa, desejo [wishful thinknig], confiança em afeição emoci-
onal, mero pressentimento ou adivinhação, e generalização precipitada. O 
que esses processos incorretos têm em comum? Elas dividem a caracterís-
tica da não-confiabilidade: eles tendem a produzir erro na maior parte do 
tempo. Contrastando, quais espécies de processos formadores de crenças 
são de justificação intuitivamente conferidora [intuitively justification con-
ferring]? Eles incluem processos perceptuais padrão, lembrar, boas razões 
e introspecção. O que esses processos parecem ter em comum é a confia-
bilidade: as crenças que eles produzem frequentemente são verdadeiras. 
Minha proposta positiva, então, é essa. O status “justificacional” (de justifi-
cação) da crença é uma função do confiabilismo dos processos que a cau-
sam, onde (como primeira aproximação) confiabilismo consiste na tendên-
cia de um processo em produzir mais crenças verdadeiras do que falsas. 
 
O que Goldman diz aqui é persuasivo. Raciocínio confuso, desejo [wishful 
thinking] e adivinhação realmente resultam em crenças não justificadas. E eles re-
almente parecem dividir a propriedade de serem não confiáveis, dessa forma, eles 
nos levam frequentemente a crenças falsas. Em contraste, percepção, memória e 
boas razões resultam, de fato, em crenças justificadas. E esses processos pare-
cem dividir a propriedade de serem confiáveis, no que eles tipicamente levam a 
crenças verdadeiras. A ideia de que o confiabilismo é que se constitui como cen-
tral à justificação nos parece, assim, de útil consideração. 
 
 
 
B. Desenvolvendo o Confiabilismo: Teoria de Goldman 
B1. Definições recursivas. Antes de começar com a teoria de Goldman, será 
proveitoso comentar rapidamente de que maneira algumas teorias são formula-
das. As pessoas frequentemente se preocupam com definições sendo circulares. 
Considere a seguinte proposição: 
J. S está justificado em crer que p se e somente se S está justificado 
em crer que a fonte de S para p é confiável. 
 
Isso não é aceitável. Explicitamente utiliza-se a ideia de justificação na ten-
tativa de explicar ou definir justificação. Algumas propostas que podem parecer 
similarmente objetáveis são, de fato, significativamente diferentes. Essas são defi-
nições recursivas. Suponha que nós afirmemos que existam duas maneiras de ser 
um cidadão: passar no teste de cidadania ou ser filho de um cidadão. Nós poderí-
amos redigir [spell out] essas duas maneiras como se fossem uma definição ou 
uma declaração das condições para a cidadania: 
 
Z. S é cidadão se e somente se (1) S passou no teste de cidadania, ou 
(2) S é um filho de um cidadão. 
 
Em (Z) o conceito de cidadão parece ser utilizado para escrever o que é ser 
um cidadão. Entretanto, (Z) não é questionavelmente circular. Uma razão para is-
so é que é possível reformular (Z) de forma que ele não tenha essa característica. 
A maneira para fazer isso é substituir (2) por “S é um descendente de alguém que 
passou no teste de cidadania”. Outra forma de pensar sobre isso é que a cláusula 
(1) especifica uma maneira de adentrar a classe dos cidadãos. Esse é o “caso ba-
se”. A cláusula (2) especifica uma relação para alguém que já faz parte da classe 
de cidadãos incluir outra pessoa nessa classe também. 
A teoria de Goldman, que será apresentada a seguir, providenciará uma 
explicação recursiva da justificação. Ela nos dará uma cláusula base e uma rela-
ção para crenças que satisfazem essa condição que igualmente produz a crença 
justificada. A proposta não é circular. 
 
 
 
B2. Detalhes da Teoria de Goldman. É fácil apresentar uma formulação inicial do 
confiabilismo e é igualmente fácil constatar que essa formulação inicial deve ser 
modificada no sentido de apreender corretamente a ideia central. Considere: 
 
R. S justificadamente acredita que p se e somente se a crença de S em p é 
causada por um processo confiável. 
 
 Geralmente, um processo é confiável quando ele conduz a crenças verda-
deiras. Há certa indefinição sobre o quão exatamente confiável um processo deve 
ser para que a condição em (R) seja satisfeita, mas isso não é base para criticis-
mo. De fato, confiabilistas podem plausivelmente afirmar que uma crença é justifi-
cada enquanto o processo causal que leva até ela é confiável: quanto mais confiá-
vel o processo, mais justificada é a crença. Para que uma crença esteja suficien-
tementejustificada para satisfazer a condição de justificação de conhecimento, o 
processo que a causa deve ser bastante confiável. Isso se compara aos eviden-
cialistas quando reclamam a necessidade de uma evidência bastante forte. Em 
ambos os casos, não há uma delimitação exata especificada. 
 Infelizmente, as coisas são mais complicadas do que (R) sugere. Uma 
complicação surge do fato que algumas crenças resultam de inferências de outras 
crenças. É possível que uma inferência perfeitamente boa conduza a uma crença 
falsa. Isso pode acontecer quando as premissas da inferência são falsas. Conside-
re, assim, o processo de fazer certo tipo de inferência, por exemplo, inferir Q das 
premissas P e se P, então Q. Esse é um bom raciocínio. Provavelmente, as cren-
ças formadas a partir desse processo podem ser justificadas. Contudo, raciocinar 
dessa maneira pode acabar por levar a muitas crenças falsas. Pode ser esse o 
caso se uma pessoa utiliza frequentemente esse modelo de inferência, começan-
do com premissas que são falsas. 
 Raciocinar da forma descrita acima nem sempre conduz à verdade. Com 
efeito, isso pode nem mesmo normalmente conduzir a verdades se acontece des-
sa forma ser aplicada mais frequentemente a crenças falsas. Mas sempre que as 
 
 
premissas das quais o processo inicia forem verdadeiras supõe-se chegar a ver-
dades. Goldman diz que um processo assim é condicionalmente confiável: ele 
normalmente (ou sempre) dá origem a [yield] crenças verdadeiras quando as 
crenças que iniciam o processo são verdadeiras. Ele chama os processos que 
começam com algumas crenças e dão origem a novas crenças processos de-
pendentes de crença na formação de crenças [belief-dependent belief-forming 
processes] e processos que não iniciam com crenças processos independentes 
de crença na formação de crenças [belief-independent belief-forming proces-
ses]. Certos processos perceptuais básicos podem ser independentes de crenças. 
Nesses casos, uma experiência particular causa uma crença, sem outras crenças 
cumprirem qualquer função. Todas essas ideias participam na formulação da teo-
ria confiabilista de Goldman: 
 
 R*. 
i. Se S crê em p em t resulta de um processo independente de crença 
que é confiável, então a crença de S em p em t é justificada. 
ii. a crença de S em p em t resulta de um processo dependente de 
crença que é condicionalmente confiável e as crenças sobre as quais 
o processo opera são elas mesmas confiáveis, então a crença de S 
em p em t é justificada. 
iii. O único modo em que as crenças podem ser justificadas é satisfa-
zendo as condições em (i) e (ii). 
 
 O confiabilismo, como está formulado em (R*), parece contrastar com as 
teorias evidencialistas em alguns pontos significantes. Embora confiabilistas e evi-
dencialistas possam concordar em muitos casos, eles diferem mais nitidamente 
quando tratam das crenças que satisfazem a cláusula (i) de (R*). Essas diferenças 
aparecerão mais claramente ao considerarmos as objeções ao confiabilismo. O 
que deve ser notado por hora é que o confiabilismo parece ter algo razoavelmente 
claro e compreensível a dizer sobre por que crenças perceptuais [perceptual be-
liefs] são justificadas. Fundacionistas despretensiosos foram duramente pressio-
 
 
nados a explicar por que a crença de uma pessoa de que ela esteja vendo algo 
vermelho é justificada quando ela forma essa crença como o resultado de ver algo 
vermelho. Talvez a resposta definitiva alcançada – envolvendo fundamentar corre-
tamente a crença na experiência – seja satisfatória, mas vale a pena comparar is-
so ao que os confiabilistas podem dizer. A visão confiabilista é de que o processo 
de formação de crenças envolvido em formar essa crença é bastante confiável. 
Isso parece estar certo. As pessoas não comentem erros frequentes sobre a cor 
de objetos de tamanho médio em plena vista. O processo perceptual em funcio-
namento surge assim de forma altamente confiável. 
 O confiabilismo também parece possuir os resultados corretos nos casos 
em que a teoria do rastreamento errou. Essa teoria requer que o método que se 
usa para formar uma crença permita rastrear a verdade dessa mesma proposição. 
Em contraste, o confiabilismo requer geralmente que o método seja uma forma 
confiável de formar crenças. De forma argumentada, os métodos utilizados nos 
exemplos que causaram dificuldades à teoria do rastreamento são geralmente 
confiáveis e assim eles não parecem abalar o confiabilismo. 
 
C. Objeções ao Confiabilismo 
C1. A Objeção do Cérebro dentro de um Tonel. Um exemplo que cumpre um 
papel mais importante nas discussões do ceticismo impõe um problema para o 
confiabilismo. Uma versão antiga do exemplo consiste em um gênio maligno que 
controla as experiências das pessoas. Uma versão contemporânea do exemplo 
consiste em um cérebro dentro de um tonel. O cérebro no tonel é um cérebro hu-
mano perfeitamente normal, exceto que todos os estímulos que chegam ao cére-
bro são resultados de impulsos gerados por computador. O cérebro pensa que es-
tá vivendo uma vida normal. Ele pensa que faz parte de um corpo, que o está na-
vegando ao redor do mundo etc. Tudo isso é errado. Contudo, o cérebro raciocina 
de uma forma perfeitamente aceitável a partir das experiências que ele tem. De 
fato, podemos assumir que o cérebro tem experiências exatamente como aquelas 
que uma pessoa normal (possuidora de corpo, que navega o cérebro ao redor do 
mundo) tem. 
 
 
 
 Exemplo 5.8: O Cérebro dentro de um Tonel 
Brian é uma pessoa normal com crenças acuradas e bem justificadas sobre 
o mundo a sua volta. Brain é uma duplicata mental de Brian. Brain tem ex-
periências assim como as de Brian. E as crenças de Brain são análogas as 
de Brian. Quando Brian acredita que ele, Brian, está comendo um sundae 
quente, Brain acredita que ele, Brain, está comendo um sundae quente. 
Quando Brian acredita que ele, Brian, está passeando no parque, Brain 
acredita que ele, Brain, está passeando no parque. Quando Brian acredita 
que ele, Brian, está vendo um objeto brilhante vermelho, Brain acredita que 
ele, Brain, está vendo um objeto brilhante vermelho. Brian está certo sobre 
cada uma dessas coisas, como ele geralmente está. Pobre Brain, está 
sempre errado. 
 
 Vale a pena notar as potenciais implicações céticas desse exemplo. Alguns 
filósofos argumentam que você não pode definir [tell] se você é como Brian ou 
como Brain e por isso você não pode conhecer coisas tais como as proposições 
mencionadas no exemplo. Nós nos remeteremos a este argumento quando vol-
tarmos ao ceticismo, no capítulo 6. Contudo, dada a Visão Padrão, Brian pode 
saber aquelas coisas. Crenças como aquelas são, portanto, justificadas. Assim, o 
confiabilismo parece ter exatamente o mesmo resultado correto com respeito a 
Brian. Os processos formadores de crença de Brian são extremamente confiáveis. 
(R*) implica, corretamente, que suas crenças são justificadas. 
 O problema está em Brain. Brain é tão razoável quanto Brian. De fato, ele 
acredita em coisas comparáveis por razões comparáveis (a Brian). As crenças de 
Brain parecem ser igualmente bem justificadas. Contudo, os processos que Brain 
utiliza para formar suas crenças rotineiramente levam a crenças falsas. Parece 
seguir que os processos de Brain não são confiáveis. Se assim for, (R*) tem um 
resultado errado aqui. Isso implica que as crenças de Brain são injustificadas, 
quando, de fato, elas são justificadas. Isso parece ser ruim para o confiabilismo. 
 Note que a afirmação sobre Brain não é de que ele tem conhecimento. Ele 
 
 
não tem. Quase todas suas crenças são falsas, então elas não são casos de co-
nhecimento. Masele está justificado nas suas crenças, tal como Brian o está. O 
mesmo tipo de coisas pode acontecer em casos menos extremos. Suponha que o 
processo de visão das cores de alguém está danificado, então ela não é confiável 
ao formar crenças sobre certas cores. Mas o assunto não é discutido na presença 
dessa pessoa, ninguém a corrige, e ela tem toda a razão para pensar que esse 
processo funciona bem. Então ela é justificada em suas crenças, ainda que o pro-
cesso não seja confiável. 
 Esses casos sugerem que confiabilidade não é necessária para justificação. 
Não ajudará aos [it will not help] confiabilistas dizer que se alguém, justificada-
mente, acredita que o processo que utiliza é confiável, então sua crença é justifi-
cada. Isso introduziria um tipo de circularidade objetável dentro da teoria. 
 
C2. Confiabilidade Acidental ou Desconhecida. Em alguns casos, alguém utili-
za um processo confiável, mas não tem nenhuma razão para pensar que ele é 
confiável. A crença deveria parecer para esse alguém como um mero palpite. O 
próprio Goldman menciona duas variedades desse tipo de caso. Em um tipo, a 
pessoa não tem nenhuma razão para crer que certo processo é confiável, ainda 
que, de fato, ele seja. No segundo tipo, a pessoa tem razão para crer que o 
processo não é confiável [the person has reason to belief that the process in un-
reliable], ainda que ele seja confiável. Goldman diz que o segundo tipo de caso é 
"pior" que o primeiro, e ele propõe uma modificação da sua análise para lidar com 
isso. A modificação envolve uma mudança na cláusula (i) na sua análise. Ele pro-
põe: 
i*. Se a crença de S em p em um tempo t resulta de um processo cogni-
tivo confiável e não existe nenhum processo confiável ou condicio-
nalmente confiável disponível para S o qual, se fosse ele utilizado 
[had it been used] por S como adição ao processo utilizado de fato, 
teria como resultado [would it have resulted] que S não acreditaria 
em p em um tempo t, então a crença de S em p em um tempo t é jus-
tificada. 
 
 
 
 A ideia por trás de (i*) é adicionar a condição de “não anulabilidade” [no 
defeater] à justificação. Suponha que alguém forma uma crença como resultado 
de um processo o qual a pessoa tem razão para pensar que não é confiável. A 
pessoa então tem disponível um processo racional alternativo, um processo fa-
zendo uso desse fato. Se a pessoa fizesse uso desse processo, poderia terminar 
por não manter a crença original. Grosseiramente, ela pensaria: Eu acabei crendo 
em p como resultado de um processo não-confiável. Ela pararia então de crer em 
p. Aparentemente, esse é um processo confiável. Portanto, existe um processo 
derrotador confiável para a crença original e isso permite mostrar que ela não é 
justificada. Logo, é assim como Goldman trataria com exemplos nos quais alguém 
utiliza um processo que realmente é confiável, mas esse alguém tem razões para 
pensar que não é confiável. Embora o ponto seja altamente controverso, vamos 
supor que ele funciona satisfatoriamente. 
 Considere de novo casos nos quais alguém não tem ideia, em quaisquer 
dos modos [one way or the other], se o processo é ou não confiável. Nesse tipo 
de caso, esse alguém não parece ter um processo derrotador para a crença. Ele 
não tem uma linha confiável de raciocínio que o levaria a rejeitar a crença. Uma 
instância largamente discutida desse tipo de exemplo foi proposta por Laurence 
BonJour. 
 Exemplo 5.9: Clarividência 
Norman, sob certas condições que normalmente preenche, é um clarividen-
te absolutamente confiável com respeito a certos tipos de problemas [sub-
ject matter]. Ele não possui qualquer evidência ou razão de qualquer ordem 
a favor ou contra o uso generalizado [the general possibility] de tal poder 
cognitivo, ou a favor ou contra a tese que ele possui essa capacidade. Um 
dia, ele forma a crença de que o presidente do país está em Nova York, 
apesar dele não ter evidências seja a favor ou contra essa crença. Com 
efeito, a crença é verdadeira e resulta de seu poder clarividente, sob cir-
cunstâncias as quais são completamente confiáveis. 
 
 
 
 BonJour crê que a crença de Norman não está justificada mesmo que tenha 
resultado de um processo confiável e Norman não tenha disponível um processo 
anulador (derrotador) para ela. Alguns filósofos vêm nisso uma séria objeção ao 
confiabilismo. Talvez, seja. Contudo, há algumas linhas de resposta abertas aos 
confiabilistas. Considere como isso ocorre [what it is like] para a pessoa no 
exemplo de BonJour. Aparentemente, o pensamento de que o presidente do país 
está em Nova York surgiu de repente para ela. Dada a descrição do caso, ela não 
tem razão para pensar que tais pensamentos são geralmente verdadeiros. Supo-
nha que ela pense sobre por que ela tem esse pensamento aparentemente rotati-
vo sobre a localização do presidente. Ela pode pensar: “isso é muito peculiar. Eu 
não tenho razão para crer nisso. Essa ideia simplesmente apareceu na minha ca-
beça, parecendo vir do nada”. Isso poderia levá-la a parar de ter a crença. E talvez 
essa sorte de raciocínio conte como o tipo de processo derrotador introduzido por 
(i*). 
 Não está claro, assim, se o exemplo de BonJour constitui um sério proble-
ma para o confiabilismo. Em parte, isso se dá pela falta de clareza na ideia de um 
processo cognitivo disponível. Porém, há outra lacuna que se apresenta potenci-
almente mais perturbante. 
 
C3. Generalidade. A discussão das primeiras duas objeções a (R*) fez uso nos 
exemplos de asserções não declaradas sobre os processos envolvidos na forma-
ção de crenças. Por exemplo, na objeção ao cérebro em um tonel, assumiu-se 
que o processo que Brian usou era confiável e que o de Brain não era. E há algo 
acerca dessa aceitação. Mas é verdade também que cada um deles está pensan-
do do mesmo modo; cada um forma uma crença análoga na base de uma experi-
ência análoga. Talvez, então, eles estejam utilizando o mesmo processo. Se es-
tão, e se esse processo é genericamente confiável, então (R*) implica que ambos 
estão justificados em suas crenças, e se o processo não é confiável, então que 
eles não estão. Por que haveríamos de pensar que os processos que eles utiliza-
ram diferem em confiabilidade? 
 Na discussão do exemplo de BonJour, assumimos que o processo relevan-
 
 
te fora a “clarividência” e que fora dito que ele era confiável. Mas poderíamos tam-
bém ter descrito o processo como “formador de uma crença de um jeito que não 
se tenha razão para crê-la” e que isso parece ser não confiável. Por que havería-
mos de pensar que ele utilizara antes o processo confiável do que esse não confi-
ável? 
 Isso poderia parecer agir em favor de (R*), pois sugere que os confiabilistas 
possam encontrar modos de descrever os processos que os habilitam evitar os 
contraexemplos propostos. Contudo, a resposta esconde um problema. O proble-
ma que há muitas formas diferentes de caracterizar o processo que se utiliza em 
qualquer caso. Naquilo que foi apresentado aqui, não há um modo sistemático de 
determinar qual padrão geral a considerar na avaliação de cada exemplo. Como 
resultado, a teoria simplesmente não é detalhada [spelled out] bem o suficiente 
para avaliar. Não sabemos que implicações isso tem para cada exemplo. Além 
disso, quando pensamos mais cuidadosamente sobre os vários tipos de proces-
sos, problemas aparecem. 
 Na passagem citada no começo desta seção, Goldman menciona como 
processos não confiáveis coisas como: 
 P1. Exame breve e apressado em contraste com: 
 P2. Observação lenta e detalhada e ele diz que: 
 P3. Ver objetos distantes é menos confiável que 
 P4. Ver objetos próximos. 
 
 Mas isso nãofuncionará [will not do]. Se esses são os processos a consi-
derar na avaliação de crenças sob os padrões confiabilistas, então a teoria possui 
resultados totalmente insatisfatórios. Ela implicará que todas as crenças resultan-
tes de um daqueles processos são igualmente confiáveis. Isto é, se (P1) não é 
confiável, então todas as crenças resultantes dele não são justificadas. Se (P2) é 
confiável, então todas as crenças resultantes dele são justificadas. Se (P3) é me-
nos confiável que (P4), então todas as crenças formadas por (P3) são menos justi-
ficadas que qualquer crença formada por (P4). Mas nenhum desses resultados 
está correto. Pelo processo (P1), uma pessoa poderia vir a saber que há uma ca-
 
 
deira no quarto, uma árvore na quadra etc. Essas são todas crenças bem justifica-
das. Alguém poderia usar (P2) para chegar à conclusão que uma pessoa em par-
ticular é um calouro, mas sem estar justificada em formular essa conclusão. Ou-
tras vezes, observação lenta e detalhada produz crenças justificadas. A partir de 
(P3), uma pessoa fica sabendo que há uma estrela em certo lugar do céu, e em 
algumas vezes, ver coisas próximas não produz justificação, como quando nova-
tos identificam árvores. Assim, o que resulta de (P4) é mais bem justificado do que 
aquilo que resulta de (P3). Essas classificações não funcionam. O ponto chave é 
que cada tipo de processo produz crenças de todos os diferentes níveis de justifi-
cação. 
 Aqui está uma proposição mais sistemática do problema. Confiabilidade, 
como os confiabilistas entendem isso, constitui uma propriedade de processos que 
acontecem repetidamente. O processo específico que causa uma crença particular 
acontece somente uma vez, mas é um modo de processo ou uma instância de um 
tipo de processo. O processo específico é considerado um “processo token” e as 
categorias gerais, “processos types”. Cada token constitui-se numa instância de 
vários types. Suponha que você olhe pela janela uma noite e veja um poste de 
rua. O processo que ocorre é um caso de formar uma crença sobre o que você 
sobre as bases da (i) percepção, (ii) visão, (iii) visão à noite, (iv) visão de um obje-
to brilhante à noite, e assim por diante. Esses types podem variar em confiabilida-
de. Por exemplo, (iii) é menos confiável que (iv). A teoria confiabilista diz que uma 
crença em particular é justificada no mesmo grau [to the degree (ficou muito boa 
a tradução)] em que seu processo é confiável. Porém, há todos esses diferentes 
processos types associados com a crença de que você vê um poste de rua. Qual 
é aquele cuja confiabilidade determina o quão bem justificada está a crença? Será 
que a crença de que você vê um poste de rua não está bem justificada porque é 
uma instância de (iii) ou ela estaria mais bem justificada porque é uma instância 
de (iv)? Se o confiabilismo é para ser uma boa teoria, deveria haver um modo sis-
temático de responder questões como essa. É fácil para um confiabilista olhar pa-
ra um caso específico, tal como esse último, decidir primeiro que a crença é justifi-
cada, e então responder que o processo é o (iv) e assim que a teoria chega ao re-
 
 
sultado correto. Mas alguma teoria mais geral é necessária. 
 Assim, cada crença é causada por um processo único que recai em muitas 
categorias ou types. Se o confiabilismo é para ser uma boa teoria, para cada cren-
ça ele precisa identificar de uma forma sistemática um desses types como aquele 
cuja confiabilidade conta para determinar se a crença é justificada. Vamos deno-
minar o type para cada token cuja confiabilidade determina quão bem justificado 
ele é de “type relevante” para aquela crença. Nós ainda não levamos em conta o 
que sejam esses types. Usando a ideia da type relevante, podemos definir a cláu-
sula base da teoria confiabilista de Goldman mais claramente. Qual seja: 
 i**. Se a crença de S em p em um tempo t resulta de um processo 
token independente de crença cuja type relevante é confiável, então a crença de S 
em p em um tempo t é justificada. 
 
 (Poderíamos aplicar isso às análises revistas que Goldman faz, mas ignora-
remos essa complicação). E agora, o problema para os confiabilistas é o de dar 
conta das types relevantes de modo que isso faça a teoria obter resultados plausí-
veis. 
 Na tentativa de lidar com essa questão, os confiabilistas enfrentam um pro-
blema sério. A teoria possui a implicação de que todas as crenças que resultam do 
mesmo processo type são igualmente bem justificadas. Elas são todas tão bem 
justificadas quanto o processo é confiável. Mas qualquer processo que você possa 
pensar, ao menos qualquer processo comum que você possa pensar, produzirá 
algumas crenças justificadas e algumas crenças não justificadas. 
 Para sustentar essa objeção, considere outro exemplo. Suponha que um 
juiz de baseball (baseball umpire) esteja marcando rebatidas e strikes (jogada do 
baseball quando o batedor não consegue rebater a bola)'. Existem chamadas bem 
definidas e sólidas. Se o juiz utiliza o mesmo processo em todos os casos, então 
todas suas crenças sobre arremessos (depois de que a bola é rebatida) são 
igualmente justificadas. Existem marcações bem definidas e marcações difíceis. 
(There are clear-cut calls and tough calls.) Se o juiz utiliza o mesmo processo 
em todos os casos, então todas suas crenças sobre arremessos estão igualmente 
 
 
justificadas. (If the umpire uses the same process in all cases, then all his be-
liefs about the pitches are equally justified) [exemplo do juiz de baseball]. Isso 
parece um mal resultado, pois algumas vezes está claro que um arremesso (de-
pois de que a bola é rebatida) (pitch) é um strike (quando o batedor não conse-
gue rebater a bola) e algumas vezes, não. Para que o confiabilismo funcione, é 
preciso haver algum jeito de distinguir o processo utilizado nos casos claros do 
processo utilizado nos casos não claros. 
 Outro exemplo pode tornar o problema mais claro. Suponha que uma pes-
soa olha para as folhas de uma árvore e, com base no formato das folhas, corre-
tamente crê que a árvore é um bordo [maple {O bordo é uma árvore (ou arbusto) 
do género Acer}]. Poderíamos dizer que o processo type que ocorre aí é um pro-
cesso “folha de formato de bordo para uma árvore de bordo”, isto é, o processo 
pelo qual o formato característico da folha de bordo conduz à crença na árvore de 
bordo. Esse processo é bastante confiável – toda vez que uma pessoa julgue que 
uma árvore seja um bordo com base naquele formato, ela está certa. Nenhuma 
outra folha parece com aquela. Assim, o confiabilismo parece afirmar que a pes-
soa está justificada em crer que a árvore é um bordo. Mas o processo que a pes-
soa utilizou para formar a crença na árvore de bordo é o mesmo que se utiliza pa-
ra formar crenças em carvalhos e pinos, isto é, um processo identificador de árvo-
res? Obviamente, a identificação de árvores é somente um caso especial de iden-
tificação de plantas, assim o processo em questão é realmente o processo mais 
geral de identificação de plantas. Há, assim, muitos outros processos e é total-
mente indefinível quais utilizaríamos na determinação de uma crença para confia-
bilidade e justificação. 
 Conforme você reflete sobre esses exemplos, você começa a perceber que 
críticos e defensores do confiabilismo estão apenas elaborando, para cada caso, 
uma descrição do processo que os conduz aos resultados que eles desejam. Não 
há nenhuma teoria geral aqui. 
 O problema da generalidade [the generality problem] é, correntemente, um 
problema insolúvel para os confiabilistas. Alguns filósofos pensam que há boas 
respostas e, de qualquer maneira, certamente não é possível provar o contrário.Mas faltando uma boa solução, tem-se razão em duvidar dos méritos dessa teoria. 
 
D. Conclusão sobre o Confiabilismo 
Quaisquer conclusões formuladas sobre o confiabilismo serão prontamente con-
troversas. Alguns filósofos acreditam que objeções, tais como aquela do cérebro 
num tonel, expõem uma falha fundamental no confiabilismo. Simplesmente não é 
o caso, argumentam esses filósofos, que a confiabilidade seja necessária para a 
justificação. Contudo, confiabilistas não ficam sem possíveis respostas a isso. Ob-
serve que a objeção repousa na assunção de que Brain utiliza um processo não 
confiável para formar suas crenças porque suas crenças são nitidamente falsas. 
Entretanto, não é necessário que se avalie a confiabilidade de um processo dessa 
forma. Talvez o processo que Brain use conte como confiável porque é o mesmo 
processo que nós utilizamos, e nosso processo é confiável. Além do mais, qual-
quer apreciação das implicações do confiabilismo em casos específicos passa por 
alguma solução para o problema da generalidade, e isso também é uma questão 
de contínua controvérsia. É seguro dizer, ao menos, que os confiabilistas têm 
problemas difíceis a resolver. 
 Um ponto final merece menção. No Capítulo 3, discutimos O Mesmo Prin-
cípio de Evidência. O confiabilismo parece ser inconsistente com esse princípio, 
apesar dos quebra-cabeças sobre como os processos são identificados e a confi-
abilidade é medida deixarem isso não tão óbvio. Parece claro que um processo 
que é confiável em uma situação pode ser não confiável em outra. Se de fato isso 
é possível, então o confiabilismo implicará que dois crentes que se encontram no 
mesmo estado interno, isto é, duas pessoas que creem na mesma coisa pelas 
mesmas razões, possam ter crenças que diferem na justificação. É essa implica-
ção do confiabilismo que o exemplo do cérebro num tonel explora. Alguns filósofos 
creem que qualquer teoria de justificação que viole O Mesmo Princípio de Evidên-
cia deve estar errada. Mas os confiabilistas estão aptos a pensar que a confiança 
nesse princípio é um engano. 
 Alguns confiabilistas julgam que uma vantagem de sua teoria manifesta-se 
em conexão com o ceticismo. Voltar-nos-emos, em breve, a esse tópico no Capí-
 
 
tulo 7. 
 
IV. Função Adequada (Apropriada) 
A. A Ideia Geral 
 Nos voltamos agora para uma teoria não-evidencialista final. A ideia geral 
dessa teoria é a de que crença é justificada quando ela resulta de um funciona-
mento adequado do sistema cognitivo daquele que acredita. Para entender o sig-
nificado dessa ideia, será proveitoso primeiro considerar alguma coisa não relaci-
onada à cognição e à formação de crença. Por exemplo, considere o coração. É 
razoável dizer que existe uma forma de que o coração de um ser humano é 'su-
posto' a funcionar. Ele deveria bater em uma taxa e em um intervalo, ele deveria 
bombear sangue para todo o corpo de maneira que vá de encontro com as neces-
sidades do corpo. Não há necessidade de supor que a função adequada do cora-
ção é o resultado de alguém que decide o que o coração supostamente faz. É, ao 
contrário, um fato biológico sobre seu papel para o mantenimento da vida. Com 
certeza, alguns teístas dirão que a função adequada do coração é, verdadeira-
mente, o resultado de um projeto intencional, mas não precisamos fazer essa su-
posição aqui. Se a função própria do coração é determinada por Deus ou pela 
'Mãe Natureza' não é crucial por agora. O que é crucial é que existe algo tal como 
o coração que funciona adequadamente. 
 A mesma ideia da função adequada (carries over to cognition as well). Exis-
te uma forma a qual os sistemas cognitivos humanos são 'supostos' a funcionar. 
Isso não é dizer que nós estamos supostos a acreditar em proposições específi-
cas. Isso é apenas dizer que nós estamos supostos a ir, sobre formar crenças, em 
certas direções. Nós somos projetados para utilizar a percepção e a memória. Nós 
somos projetados para fazer certos tipos de inferências. As coisas específicas as 
quais nós acreditamos contarão com as coisas específicas das nossas próprias 
circunstâncias (não entendi essa frase direito). Claro, as vezes nossos sistemas 
não funcionarão muito bem, assim como o coração de alguém que pode não fun-
cionar sempre de maneira adequada. A teoria da função adequada sustenta que 
quando o sistema cognitivo de alguém produz uma crença, essa crença é justifi-
 
 
cada se e somente se o sistema esteve funcionando adequadamente ao produzi-
la. 
 A função adequada é plausivelmente pensada a ser uma propriedade des-
critiva complexa do sistema. Portanto, se a justificação pode ser explicada em 
termos dela, então nós poderemos ter um relato das condições descritivas sob as 
quais uma crença tem a propriedade avaliativa de ser justificada. Enquanto o con-
fiabilismo sustentou que a justificação conta com a confiabilidade do processo que 
produziu a crença, a teoria da função adequada sustenta que ela conta com o fun-
cionamento adequado do sistema. 
B. Formulando a Teoria da Função Adequada: Teoria de Plantinga 
 O maior defensor da teoria da função adequada é Alvin Plantinga. Ele es-
creveu extensivamente sobre o tópico e a discussão seguinte apenas tocará su-
perficialmente nessa visão. Plantinga formula sua teoria claramente e concisamen-
te nessa seguinte passagem: 
 ... uma crença tem garantia (warrant) para mim se (1) ela foi produzida em 
mim por faculdades cognitivas que estão trabalhando adequadamente (funcionan-
do como deveriam, sem estarem sujeitas a disfunções cognitivas) em um ambien-
te cognitivo que é apropriado para os meus tipos de faculdades cognitivas, (2) o 
segmento desse plano projeto governando a produção dessa crença é aspirado na 
produção de crenças verdadeiras, e (3) existe uma probabilidade estatística alta 
de que uma crença sobre essas condições seja verdadeira. 
 Diversos comentários preliminares estão em ordem. 
 1) Plantinga fala sobre garantia (warrant) no lugar de 'justificação' na pas-
sagem citada. Nós tomaremos esses termos para ser equivalente, embora Plan-
tinga possa ter interesse em analisar um conceito um tanto diferente de justifica-
ção. Talvez seria melhor dizer que nós estamos adaptando as ideias de Plantinga 
na teoria da justificação. 
 2) Na passagem citada aqui, Plantinga diz que uma crença possui garantia 
'apenas se' as condições que ele menciona são satisfeitas. Ele não está dizendo 
que as condições são suficientes para a garantia. Mas em outro lugar ele diz que 
elas são suficientes. 
 
 
 3) Plantinga inclui na cláusula (1) dessa descrição a ideia de que o sistema 
precisa estar em um ambiente que é 'apropriado' ou conveniente para tal sistema. 
Um exemplo ilustrará por que. Suponha um coração humano que foi removido de 
uma pessoa e posto em uma águia. Muito provavelmente, as coisas não farão seu 
papel muito bem. Mas é difícil dizer como um coração humano é suposto a traba-
lhar nessas condições. Não foi projetado para estar lá. Isso poderia ser um tanto 
peculiar dizer que ele funciona mal. Similarmente, de acordo com a teoria de Plan-
tinga, o sistema cognitivo humano é projetado para funcionar em certos tipos de 
ambientes. Ele (o sistema cognitivo) produz crenças justificadas quando ele funci-
ona adequadamente naqueles ambientes (satisfeitas também as outras condi-
ções). Ele não produz crenças justificadas em outro lugar. Em particular, talvez, 
ele não é projetado para funcionar em cérebros em tonéis ou em outro ambiente 
radicalmente manipulado. 
 4) Plantinga adiciona na sua cláusula (2) o requerimento de que 'o segmen-
to desse plano projeto governando a produção dessa crença é aspirado na produ-
ção de crenças verdadeiras'.Isso põe em discussão questões difíceis, algumas 
das quais surgirão brevemente em uma discussão crítica da teoria. A ideia por trás 
desses requerimentos é como segue: podemos assumir que nosso sistema cogni-
tivo é suposto a funcionar de uma forma que nos torna mais aptos a sobreviver, ou 
talvez, aumente as chances de passarmos adiante nossos genes. Por mais exato 
que entendamos isso, parece claro que não fomos projetados para formar apenas 
crenças epistemologicamente razoáveis. Para mencionar um exemplo, parece ser 
completamente natural - parte do nosso plano projeto - ter crenças favoráveis so-
bre nossos filhos. Um tipo de preconceito precisa ser incorporado. Mas crenças 
que resultam desse tipo de características não são sempre epistemologicamente 
justificadas. Outro exemplo envolve otimismo. Nós precisaríamos ser projetados 
para ser extremamente otimistas em algumas circunstâncias. Tais crenças não 
são resultado de um mal funcionamento mas eles não são epistemologicamente 
justificados. A ideia de Plantinga é separar as partes diferentes do nosso sistema 
dentro daquelas que são aspiradas a adquirir crenças verdadeiras sobre o mundo 
a nossa volta e as partes que aspiram algo diferente. Justificação resulta apenas 
 
 
de partes que aspiram à verdade. 
 5) Muito aproximadamente, a condição final da descrição de Plantinga é um 
tipo de condição de confiabilidade geral. Suponha alguém que esteja, de fato, em 
uma situação de projetar um agente cognitivo. Se você quiser, imagine alguém 
projetando um robô e assuma que o robô tenha crenças sobre o mundo o qual ele 
está. Suponha, além disso, que o projetista é totalmente inapto e constrói um robô 
com um sistema que uniformemente obtenha coisas erradas. O robô então forma-
ria crenças a partir da maneira como foi projetado - ele funciona adequadamente - 
mas ele não obtém nada corretamente. Intuitivamente, como um robô mal dese-
nhado não tem crenças justificadas, ainda que as cláusulas (1) e (2) da descrição 
de Plantinga sejam satisfeitas. A cláusula (3) é suposta para tratar com esse tipo 
de caso. 
 Podemos resumir a teoria da função adequada na seguinte formulação bre-
ve: 
 PF. A crença de S em p é justificada se e somente se (i) a crença de S em 
p resulta de um funcionamento adequado do sistema cognitivo de S em um ambi-
ente conveniente, (ii) o segmento do sistema que produz a crença aspira a verda-
de, e (3) o sistema global geralmente produz crenças verdadeiras quando em um 
ambiente conveniente. 
 Como o confiabilismo, a teoria da função adequada pode, plausivelmente, 
discursar um dos assuntos que causaram problemas para o fundacionismo mo-
desto. Fundacionistas modestos foram severamente pressionados a explicar exa-
tamente porque crenças perceptuais eram justificadas. A teoria parou, em nossa 
discussão, fazendo uso da ideia de que algumas crenças são 'baseadas adequa-
damente' na experiência. A teoria da função adequada pode dizer em vez disso 
que nós somos projetados para formar estas crenças com base nas nossas expe-
riências. É isso, quando vemos algo vermelho, somos projetados para acreditar 
que existe algo vermelho antes de nós. Similarmente para outras crenças. 
 Diferente do coerentismo, a teoria da função própria proporciona às experi-
ências um papel conveniente na descrição de justificação. Como já notado, algu-
mas crenças são repostas as experiências, e quando as respostas são como elas 
 
 
são projetadas para ser, a crença é justificada. 
 A teoria de Plantinga é original e interessante, mas também tem pro-
blemas. A próxima sessão examina alguns deles. 
Ceticismo (I) 
 
1 
 
FELDMAN, Richard. Epistemology. Upper Saddle River, New Jersey: Prentice-Hall, 2003. 
197 p. 
Traduzido por: Eduardo Alcides Peter 
Capítulo 6: Ceticismo (I) 
 
Direcionamo-nos agora para a primeira das alternativas à Perspectiva Standard (The Standard 
View) descritas no Capítulo 1: A Perspectiva Cética (The Skeptical View). Voltando 
cronologicamente, até pelo menos o tempo dos antigos gregos, os filósofos têm dedicado uma 
grande parte do pensamento aos argumentos sobre o ceticismo, a perspectiva que diz que não 
temos, ou que não podemos, ter conhecimento. Enquanto isso não é desejável que a maioria 
dos filósofos aceite os argumentos do ceticismo geral, muitos acham os argumentos 
fascinantes. Alguns não-céticos acham os argumentos, no mínimo, preocupantes, duvidando 
seriamente da afirmação para o conhecimento encontrada na Perspectiva Standard (The 
Standard View). Outros não-céticos têm confiança que podemos conhecer, de fato, sobre 
muitas das coisas que a Perspectiva Standard nos diz que podemos conhecer, mas ainda assim 
acham os argumentos do ceticismo desafiadores. Para esse segundo grupo, é claro que você 
conhece tais coisas assim como que você está lendo um livro, que você jantou recentemente, 
que você viu um filme noite passada, e que existe uma árvore bordo (maple tree) fora da sua 
janela. Entretanto, quando eles examinam alguns dos argumentos do ceticismo, eles acham 
que não é tarefa fácil responder o que há de errado com eles. Para eles, o desafio cético é 
identificar as falhas nos argumentos. Examinando esses argumentos, estaremos tentando 
responder (Q4) do Capítulo I, a qual perguntou se existiram boas respostas para os 
argumentos dos céticos. 
 O problema levantado pelos céticos é, amplamente, sobre se as razões que temos para 
nossas crenças ordinárias são boas o suficiente para produzir conhecimento. Essa questão 
pode ser mais convincente para filósofos que aceitam teorias evidencialistas da justificação do 
que para aqueles que aceitam teorias não-evidencialistas. Se conhecimento e justificação 
exigem (require) conexões causais (causal connections), ou rastreamento da verdade (truth 
tracking), ou confiabilismo (realibility), função própria (proper function) em preferência a 
evidências ou boas razões, então podemos ter conhecimento e justificação ainda se nossas 
razões para nossas crenças não sejam tão boas. Os argumentos dos céticos considerados aqui 
serão, largamente (apesar de, talvez, não inteiramente), rejeitados pelos defensores dessas 
teorias não-evidencialistas com base na sua dependência de (o que eles consideram como) 
concepções erradas sobre o que é exigido para o conhecimento. Alguns defensores das teorias 
não-evidencialistas podem pensar que essa é uma virtude da sua teoria, que ela, desta forma, 
evita o problema do ceticismo. Por outro lado, críticos dessas teorias são capazes de pensar 
que elas são defeituosas (defective) porque elas fogem, mais do que resolvem, o problema do 
ceticismo.1 
 Em qualquer caso, ainda aqueles que aceitam as teorias não-evidencialistas podem, 
todavia, ter razão para pensar sobre os méritos dos argumentos céticos. Apesar de tudo, os 
argumentos levantam questões difíceis sobre a qualidade das nossas razões para nossas 
crenças ordinárias. Isso é em si mesmo interessante, sem levar em conta as implicações que a 
 
1
 Para a discussão dessa crítica do confiabilismo, veja Richard Fumerton, Metaepistemology and Skepticism 
(Lanham, MD: Rowman and Littlefield, 1995), Capítulo 6. 
 Ceticismo (I) 
2 
 
resposta tem com respeito ao conhecimento. Seria perturbante descobrir que nossas razões 
não são tão boas, ainda se boas razões não fossem necessárias para o conhecimento. 
 
I. VARIEDADES DO CETICISMO 
A. Ceticismo Global vs. Ceticismo Limitado 
Versões do ceticismo diferem no escopo ou abrangência das coisas sobre as quais elas negam 
o conhecimento. O Ceticismo global (global skepticism) sustenta que ninguém sabe nada de 
forma alguma. É universal em escopo. Em contraste, o Ceticismo limitado (limited 
skepticism) nega o conhecimentoem certas áreas ou tópicos. Deste modo, alguém que é um 
cético com respeito ao conhecimento do futuro acredita que ninguém jamais saberá nada 
sobre o futuro. Alguém que é um cético com respeito à religião acredita que ninguém jamais 
saberá nada sobre qualquer matéria religiosa. 
 Virtualmente todas as pessoas fazem parte de algum tipo de ceticismo limitado. Isso é, 
cada um de nós acha que existe alguma classe de proposições tal que ninguém sabe a verdade 
sobre as proposições nessa classe. Considere, por exemplo, proposições descrevendo, para 
cada grande deserto na Terra, o número exato de grãos de areia nele. Uma dessas proposições 
tem a forma ‘o Saara tem exatamente n grãos de areia,’ outra tem a forma ‘o deserto de 
Mojave2 tem exatamente x grãos de areia,’ e assim por diante. Quase todas as pessoas 
concordariam que ninguém sabe se alguma dessas proposições é verdadeira. Assim, quase 
todas as pessoas são ‘céticas do deserto’ (‘desert skeptic’). Existem numerosas outras classes 
de proposições em que podemos concordar na não existência de membros passíveis de se 
conhecer a sua verdade. Portanto, todos nós concordamos que algumas formas do ceticismo 
limitado são verdadeiras. 
 Outras versões do ceticismo limitado levantam problemas mais difíceis. Alguns 
filósofos argumentaram que nós não sabemos sobre a verdade de nenhuma proposição 
perceptual ou que não conhecemos nada com base na memória. Esses tipos de ceticismo 
limitado desafiam a Perspectiva Standard (The Standard View) de uma maneira significante. 
Voltaremos a elas em seguida. 
 
B. A Força das Afirmações Céticas 
Versões do ceticismo diferem na força das afirmações que elas fazem. Nós nos 
aproveitaremos do ceticismo sobre o futuro para ilustrar esse ponto. O ceticismo sobre o 
futuro nega o conhecimento do futuro. Em sua forma mais forte, o ceticismo sobre o futuro é 
a tese que conhecimento do futuro é impossível: 
 SF1. É impossível para qualquer pessoa conhecer qualquer coisa sobre o 
futuro. 
(SF1) é análoga a afirmações tais como 
 1. É impossível para qualquer pessoa construir uma caixa cúbica com nove 
lados. 
 
2
 *Parte mais elevada do Deserto da Califórnia, nos Estados Unidos da América* 
Ceticismo (I) 
 
3 
 
 2. É impossível para qualquer pessoa ser um solteirão casado. 
A razão (1) é verdadeira porque é impossível haver uma caixa cúbica e com nove lados, 
simultaneamente. Não é como se um carpinteiro mais inteligente e possuidor de mais recursos 
(resourceful) do que qualquer pessoa atual pudesse fazer tal caixa. Tais caixas não estão, por 
elas mesmas, entre as coisas que se possam fazer. Por conseguinte, ninguém pode construí-la. 
Similarmente, a razão (2) é verdadeira porque é impossível existir alguém casado e solteirão. 
Não é como se uma pessoa pudesse ser um solteirão casado simplesmente tentando mais 
firmemente ou possuindo mais recursos. Um solteiro é, por definição, não casado. Não existe 
nada que alguém possa fazer sobre isso. A afirmação análoga sobre o conhecimento é que o 
conhecimento sobre o futuro é de certo modo um conceito contraditório e então, não pode 
haver tal conhecimento. Mas, nessa alternativa, não existe nenhuma fraqueza das pessoas. 
Não é como se algum tipo mais inteligente de ser pudesse ter conhecimento sobre o futuro.3 
 Uma segunda forma de ceticismo sobre o futuro é a visão sobre as capacidades das 
pessoas nos dias de hoje: 
 SF2. Ninguém é apto para saber algo sobre o futuro. 
(SF2) é comparável a afirmações tais como 
 3. Ninguém é apto para correr uma milha4 em 2 minutos. 
(3) é verdadeira, mas não porque existe uma contradição envolvida no conceito de pessoas 
correndo uma milha tão rapidamente. É apenas que como uma matéria de fato (matter of fact), 
as pessoas não têm essa capacidade e nenhuma quantia de treinos irá fazer com que alguém 
faça isso. Isso é além da capacidade das pessoas. Similarmente (SF2) diz que conhecimento 
sobre o futuro é além das nossas capacidades. 
 A última forma extrema de ceticismo diz meramente que nós carecemos de 
conhecimento, deixando de abrir a possibilidade de que podemos ter conhecimento. Aplicada 
ao conhecimento do futuro, é a tese de que 
 SF3. Ninguém conhece nada sobre o futuro. 
 A maioria dos argumentos sobre o ceticismo é mais bem interpretada como 
argumentos sobre nossas capacidades, e deste modo sobre versões do ceticismo como (SF2). 
As questões mais difíceis se preocupam com argumentos sobre alguns tipos de ceticismos 
locais relacionados com nossas capacidades. Assim como veremos em breve, não é tão difícil 
encontrar razões para pensar que as pessoas não são capazes de saber coisas, ou, ao menos, 
não aptas para conhecer muito sobre o mundo ao redor delas. 
 
II. O QUE OS CÉTICOS AFIRMAM 
 Essa seção irá rever duas possíveis más compreensões da Perspectiva Cética (The 
Skeptical View). 
 
3
 Se ‘alguém’ em (SF1) é restringido aos meros humanos, então alguém pode defender (SF1) com base em que é 
impossível para um mero humano ter conhecimento ainda que seja possível para um ser superior, e.g., um deus 
infinito, em ter conhecimento. A idéia é a que conhecimento, ele mesmo, não é impossível, mas ele é 
incompatível com algumas coisas essenciais aos seres humanos 
4
 *Uma milha corresponde a, aproximadamente, 1.6 quilômetro* 
 Ceticismo (I) 
4 
 
 
A. Verdades que Não Conhecemos 
As pessoas dizem ser, algumas vezes, céticas sobre a existência de vida em outros planetas, 
mas o ceticismo desse tipo tem pouco a fazer com o ceticismo epistemológico discutido aqui. 
As pessoas que são céticas sobre a existência de vida em outros planetas duvidam que exista 
vida em outros planetas. Então, com certeza, elas duvidam que alguém saiba que exista vida 
em outro planeta. A sua afirmação fundamental, no entanto, não é sobre nossa falta de 
conhecimento. Sua afirmação fundamental é sobre o que existe no universo. Eles podem ainda 
pensar que se existiu vida em outros planetas, nós poderíamos saber ou saberíamos disso. O 
mesmo tipo de ponto pode aparecer em um caso mais surpreendente. 
 Suponha que você pense que nós não podemos ter conhecimento sobre assuntos éticos 
(ethical matters): Nós não podemos saber o que é certo e errado. Isso seria um tipo de 
ceticismo ético. Existem duas versões muito distintas de ceticismo ético. 
 ES1. Existem verdades éticas, mas nós não podemos conhecer quais são. 
De acordo com (ES1), existem fatos sobre o que certo e o que é errado, mas eles estão além 
dos limites dos nossos modestos poderes cognitivos. Você pode pensar que conhecer o que é 
certo ou errado exige conhecer a mente de Deus e as pessoas não podem conhecê-la. Ou você 
pode pensar que para realmente saber o que é certo e errado você teria que saber as 
conseqüências das ações em um futuro indefinido, alguma coisa também além das nossas 
capacidades limitadas. 
 Um segundo tipo de ceticismo ético sustenta que 
 ES2. Não existem verdades éticas, então não podemos conhecer nenhum fato sobre a 
ética. 
Você pode acreditar em (ES2) porque você pensa que assuntos éticos (ethical matters) são 
assuntos de gosto ou preferência. Quando falamos que alguma coisa é certa ou boa, não 
estamos asserindo que algo tem alguma qualidade particular. Em vez disso, estamos 
expressando nossa aprovação daquela coisa. Dizer, ‘foi bom que ela doou seus móveis velhos 
para a caridade’, é dizer algo como ‘Hurra para ela. Ela doou seus móveis velhos para a 
caridade’. E dizer, ‘foi errado, por parte dele, roubar os móveis da caridade’, é outro modo de 
dizer ‘Bu (expressão de desprezo) para ele. Ele roubou os móveis da caridade’. Nessa 
perspectiva, uma conversa ética é simplesmente uma expressão de atitudes. Compare os 
aplausos e as vaias em um jogo debaseball. Existem fatos sobre o jogo que alguém pode 
conhecer ou não. Mas quando seu time vence e você aplaude, aplaudir (cheering itself) não se 
reporta a algum fato. O fato apenas expressa sua atitude sobre o que aconteceu. 
 (ES2) pode ser descrita como ceticismo (ou dúvida) sobre a existência de verdades 
éticas. É análoga ao ‘ceticismo’ sobre a existência de vida em outros planetas. Não é uma 
perspectiva sobre qualquer problema epistemológico. Se não existirem fatos de um certo tipo, 
então, obviamente, não podemos conhecer fatos desse tipo. O debate sobre isso não é 
fundamentalmente um debate sobre um assunto epistemológico (epistemological matter). 
 Em contraste, (ES1) realmente é uma tese epistemológica. Ela sustenta que nossos 
meios de formar crenças sobre assuntos éticos (ethical matters) não podem produzir 
conhecimento. Podemos argumentar, parcialmente com base epistemológica, que esses 
céticos estão errados sobre aquilo que tomam por conhecimento ou sobre os méritos da nossa 
Ceticismo (I) 
 
5 
 
razão para julgamentos éticos. O ponto chave para entender é que os defensores de (ES1) 
pensam que existem fatos os quais somos ignorantes. Esse é o tipo de ceticismo em discussão 
aqui. 
 Estamos principalmente interessados em perspectivas céticas análogas a (ES1). Essas 
são perspectivas (views) que acreditam que existem verdades em algum domínio, mas não 
podemos conhecer ou não conhecemos quais são elas. Estamos interessados em céticos que 
afirmam que existem fatos sobre o passado, ou o futuro, ou o mundo ao nosso redor, mas, por 
uma razão ou outra, não podemos conhecer quais são esses fatos. Se você deseja, você pode 
dizer que céticos são céticos sobre a existência do conhecimento. Mas eles não são céticos 
sobre a existência de fatos sobre o mundo. Eles afirmam que nós não sabemos ou não 
podemos conhecer quais são esses fatos. Então, A Perspectiva Cética (The Skeptical View) é 
que existem verdades, mas nós não somos aptos para saber quais são elas. 
 
B. Ceticismo, Verdade e Justificação 
Céticos pensam que não podemos ter conhecimento (sobre algum tópico ou outro). Se eles 
estão certos, então deve haver alguma condição para o conhecimento que não é satisfeita nos 
casos relevantes. É fácil se tornar confuso sobre quais condições são essas. Nessa seção, 
iremos tornar claro esse problema examinando um argumento simples para o ceticismo. Ainda 
que esse argumento para o ceticismo falhe, a discussão sobre ele tornará claro o que há, 
precisamente, com o conhecimento que os céticos estão falando (ou deveriam estar falando). 
 As pessoas, às vezes, falam coisas como: 
Se você fala que os antigos não sabem que a Terra era plana porque elas 
estavam erradas sobre isso, então você precisa também dizer que não sabemos 
que a Terra é (aproximadamente) redonda, porque podemos estar errados sobre 
isso. 
Esse é um argumento sobre argumentos. A idéia é que se um argumento – sobre os antigos – é 
um bom argumento, então um outro é também um bom argumento – sobre nós. O argumento 
sobre os antigos é como a seguir: 
 Argumento 6.1: Os Antigos e o Formato da Terra 
 1-1. A crença dos antigos de que a Terra era plana era falsa. 
 
 1-2. Então, os antigos não sabiam que a Terra era plana (1-1). 
O argumento supostamente análogo sobre nós é: 
 Argumento 6.2: Os Modernos e a Forma da Terra 
 2-1. Nossa crença que a Terra é redonda pode ser falsa. 
 
 2-2. Então, não sabemos que a Terra é redonda. (2-1) 
O argumento sobre esses dois argumentos pode ser descrito dessa forma: 
 Ceticismo (I) 
6 
 
 Argumento 6.3: Os antigos e Nós 
 3-1. Se o Argumento 6.1 é forte, então o argumento 6.2 é forte. 
 3-2. O Argumento 6.1 é forte. 
 
 3-3. Então, o Argumento 6.2 é forte. (3-1), (3-2) 
A idéia por trás de (3-1) é, precisamente, que os dois argumentos estão nas mesmas 
condições: Se um é um bom argumento, então o outro será também. E (3-2) parece claramente 
correto – os antigos estavam errados, logo, certamente não possuíam conhecimento. Mas o 
Argumento 6-3 não é forte. (3-1) é falso. Os dois argumentos não estão nas mesmas 
condições. Para ver o porquê, repare que a hipótese negada no Argumento 6.1 é: 
 1-1¹/2. Se a crença de S em p é falsa, então S não sabe que p. 
Essa premissa depende do fato de que uma das condições é a verdade. Se conhecimento não 
exigisse verdade, como certamente exige, então (1-1¹/2) seria verdadeira. Dado isso, e o fato 
que os antigos estavam errados sobre a forma da Terra, o Argumento 6.1 é um bom 
argumento. 
 Agora considere o Argumento 6.2. Repare que (2-1) não diz que nós estamos errados 
sobre a forma da Terra. Particularmente, ele diz que nós podemos estar errados. Para ter de 
(2-1) a conclusão do Argumento 6.2, precisamos de uma diferente suposição, ou seja: 
 2-1¹/2. Se a crença de S em p pode ser falsa, então S não sabe que p. 
Repare a diferença entre as duas premissas 
 1-1¹/2. Se a crença de S em p é falsa, então S não sabe que p. 
 2-1¹/2. Se a crença de S em p pode ser falsa, então S não sabe que p. 
Essas suposições diferem significativamente. A premissa (2-1¹/2) não diz que não existe 
conhecimento quando a condição de verdade não é satisfeita. Ela diz que não existe 
conhecimento quando a condição de verdade pode não ser satisfeita. Isso é suficiente para 
nos permitir ver que o Argumento 6.2 não está nas mesmas condições do Argumento 6.1. 
Podemos rejeitar (3-1) do argumento principal. 
 Você pode pensar que o Argumento 6.2 é ainda um bom argumento. Você pode pensar 
que ainda que (2-1¹/2) seja diferente de (1-1¹/2), ela é ainda uma premissa razoável. A idéia de 
que você não possui conhecimento se você pode estar errado tem certa plausibilidade. Mas ela 
precisaria fazer você ver que o ceticismo não é sobre quando as condições de verdade para o 
conhecimento são satisfeitas. Os céticos não estão dizendo que nossas crenças ordinárias são 
falsas. Se os céticos queriam dizer que falhamos em satisfazer a condição de verdade, eles 
teriam de fazer afirmações sobre o que é a verdade, de fato. Por exemplo, se quiséssemos 
argumentar que não temos conhecimento que a Terra é aproximadamente redonda com base 
em uma crença nossa que é falsa, teríamos de dizer que a Terra não é aproximadamente 
redonda. Mas os céticos tipicamente querem escapar de fazer afirmações como essa. Eles 
gostariam de falar que eles apenas não sabem qual é o seu formato. 
 Isso nos leva a muito importante conclusão: Céticos não estão dizendo que não temos 
conhecimento porque nossas crenças são uniformemente falsas. Em vez disso, o que eles 
Ceticismo (I) 
 
7 
 
estão dizendo é que nossas crenças podem ser falsas, e isso mostra que não somos bem 
justificados o suficiente em nossas crenças para termos conhecimento. Na próxima seção 
examinaremos em detalhes vários argumentos intencionados a apoiar o ceticismo.5 
 
III. QUATRO ARGUMENTOS PARA O CETICISMO 
Quase todos os argumentos para o ceticismo fazem referência a possibilidades aparentemente 
ridículas – estamos sendo ludibriados por um demônio maligno, a vida é apenas um sonho, 
somos cérebros dentro de tonéis. Você pode propor análises psíquicas, mais do que uma 
reflexão filosófica, para qualquer um que se preocupa com tais possibilidades. Entretanto, 
advogados da Perspectiva Cética (The Skeptical View) não sofrem com ilusões paranóicas. 
Eles pensam que essas possibilidades nos ajudam a ver algo sobre a natureza das nossas 
evidências e fornecem bases para razões fortes para pensar que a Perspectiva Standard (The 
Standard View) é errônea. Formularemos quatro desses argumentos nessa seção. 
 
A. O Argumento da Possibilidade do Erro 
 Considere a seguinte passagem das Meditações de Descartes. 
Ao mesmo tempo em que eu preciso me lembrar que sou um ser humano, e que 
conseqüentemente eu tenho ohábito de dormir, e nos meus sonhos que representam para eu 
mesmo as mesmas coisas ou algumas vezes ainda coisas menos prováveis, do que para aquelas 
pessoas que são insanas em seus momentos acordadas... Nesse momento realmente parece para 
mim que é isso com meus olhos acordados e que estou olhando para esse papel; que essa 
cabeça a qual eu mexo não está adormecida, que isso é de forma deliberada e ainda suponha 
que eu estenda minha mão e perceba isso; o que acontece no sonho não parece nem tão claro 
nem tão distinto do que parece tudo isso. Mas pensando sobre isso eu lembro que em várias 
ocasiões eu fui enganado no sonho por ilusões similares, e insistindo cuidadosamente nessa 
reflexão eu vejo então, notoriamente, que não existem indicações certeiras sobre como 
podemos claramente distinguir vivacidade6 de sonho que eu estou perdido em espanto.7 
Nessa passagem, Descartes levanta a possibilidade que ele está sonhando. Em outro lugar ele 
menciona a possibilidade de ser iludido por um gênio maligno que faz com que ele tenha as 
experiências sensórias que ele tem. O análogo contemporâneo disso é a possibilidade de ser 
um mero cérebro dentro de um tonel com líquido – um tanque cético – conectado a um 
computador que envia pulsos elétricos que causam impressões assim como se existisse um 
mundo em volta de você. O mundo que você pensa viver pode ser inteiramente artificial. Para 
quase tudo sobre o mundo que você acredita, é possível que você esteja errado porque você é 
vitima de alguma ilusão ou engano. Isso fornece base para o Argumento da Possibilidade do 
Erro. 
 Argumento 6.4: O Argumento da Possibilidade do Erro 
 4-1. Para (quase) qualquer crença que qualquer pessoa possui sobre o mundo 
 externo, essa crença poderia ser errada. 
 
5
 Argumentos adicionais para o ceticismo serão considerados nos capítulos 7 e 8 
6
 *Vigilância, não estar com sono e em sonho* 
7
 The Philosophical Works of Descartes, traduzido para o inglês por Elizabeth S. Haldane e G. R. T. Ross 
(Cambridge, U.K.: Cambridge University Press, 1973), pp. 145-6. 
 Ceticismo (I) 
8 
 
 4-2. Se uma crença pode ser errada, então não é um caso de conhecimento. 
 
 4-3. Então, (quase) qualquer crença que qualquer pessoa possui sobre o mundo 
 externo não é conhecimento (i.e, ninguém sabe nada, ou quase nada, sobre 
 o mundo externo). (4-1), (4-2) 
Esse argumento é sobre ‘quase’ qualquer crença, não exatamente sobre todas as crenças. A 
razão para isso é que algumas crenças são isentas da possibilidade de ilusão ou engano. ‘Eu 
existo’ é o mais famoso exemplo, e ele aparece na famosa citação de Descartes, ‘Cogito ergo 
sum’ (‘Penso, logo existo’). A idéia é que se Descartes, ou você, estão envoltos por coisas 
pensadas de forma errada – sonhar, ser enganado por um gênio ou computador – então 
Descartes, ou você, devem, pelo menos, existir. Coisas não existentes não podem sonhar ou 
cometer erros. Então sua crença que você existe não poderia ser um erro. 
 Algumas pessoas pensam que ainda mais coisas são isentas da possibilidade de erro. 
Talvez crenças sobre matemática simples sejam isentas desse tipo de erro. Fundacionistas 
cartesianos pensam que crenças sobre afirmações da própria mente de alguém sejam isentas 
de preocupações céticas sobre esse argumento. Seja o que for exatamente é omitido por 
‘quase’ em (4-1), muitas são incluídas. A falta de ‘indicações certas’ para distinguir sonhos da 
realidade, ou enganações de um gênio maligno da realidade, mostram que podemos estar 
errados sobre muitas, incluindo bastante do que a Perspectiva Standard (The Standard View) 
diz que conhecemos. Parece, então, que (4-1) é claramente verdadeira, ainda que existam 
algumas questões sobre o que exatamente recai sobre isso. Todas as crenças sobre o mundo 
externo são incluídas nesse ‘quase’. Então, esse argumento é planejado para apoiar o 
ceticismo do mundo externo. E que é ceticismo suficiente para se preocupar. 
 A premissa chave do argumento é (4-2). A idéia por trás parece ser que se pudéssemos 
estar errados sobre alguma coisa, então você não estaria justificado em crer nesse algo e, 
portanto, não teria conhecimento. Discutiremos essa premissa após expressar os outros 
argumentos. 
 
B. O Argumento da Indistinguibilidade 
Os cenários céticos envolvendo sonhos, gênios malignos, cérebros em tonéis, e do parecido, 
revelam a possibilidade de que as coisas possam parecer justamente como elas de fato são 
enquanto coisas externas variam de forma gigantesca. Em outras palavras, o mundo pareceria 
com um cérebro em um tonel apenas como parece para uma pessoa ordinária no mundo 
ordinário (um cérebro em uma cabeça). Alguns exemplos mais mundanos e realísticos 
revelam possibilidades similares. 
 Exemplo 6.1: A Investigação8 
A detetive Jones está investigando um crime. Ela tem evidências perfeitamente 
similares que duas pessoas, Black e White, são inocentes do crime. São muito 
convincentes as evidências, do tipo de evidências que a Perspectiva Standard 
(The Standard View) diz que são adequadas para o conhecimento. Mas não 
 
8
 John Tienson discute um exemplo similar a esse em ‘On Analyzing Knowledge’, Philosophical Studies 25 
(1974): 289-293 
Ceticismo (I) 
 
9 
 
são evidências absolutamente conclusivas – existe a possibilidade do erro. 
Apesar dessas evidências, White é, de fato, culpado. White pagou uma 
testemunha para mentir em seu favor e fabricou com isso uma evidência 
adicional para indicar sua inocência. 
Considere: 
 a. Black é inocente. 
 b. White é inocente. 
Na perspectiva de Jones, (a) e (b) estão perfeitamente equiparadas. Cada uma parece muito 
claramente verdade, e não por causa de uma inclinação ou erro da sua parte. Ela tem 
excelentes razões para pensar que elas são verdadeiras. (Se isso ajuda, suponha que ela tem 
boas razões para pensar que alguma terceira pessoa é culpada.) De acordo com um princípio 
de indistinguibilidade, seria absurdo dizer que ela tem conhecimento de um caso e não do 
outro. A idéia é que esses casos de conhecimento necessitam parecer diferentes de casos de 
falta de conhecimento. Em outras palavras, um caso no qual você sabe alguma coisa não pode 
ser ‘introspectivamente indistinguível’ de um caso no qual você não sabe alguma coisa. Esse 
princípio implica que ou Jones conhece (a) e (b) ou ela não sabe nem (a) nem (b). Mas desde 
que (b) não seja verdadeira, ela definitivamente não conhece (b), então ela não pode conhecer 
(a). 
 Duas idéias principais são usadas nesse argumento. Uma é a idéia de evidência falível 
(fallible evidence). Evidência falível para p é uma evidência que é logicamente compatível 
com a falsidade de p. No exemplo, porque é possível para White ser o culpado apesar da 
evidência de Jones, segue que sua evidência é uma evidência falível para (b). Porque sua 
evidência para (a) é equiparável a sua evidência para (b), ela também é uma evidência falível. 
 A segunda idéia usada no argumento dessa seção é a idéia dos casos 
introspectivamente indistinguíveis (introspectively indistinguishable). Esses são casos que 
parecem ser exatamente parecidos do ponto de vista do sujeito. Existem duas variações dessa 
idéia. Podemos imaginar dois casos possíveis nos quais Jones acredita que (a) com 
exatamente a mesma base, mas em um caso (a) é verdadeira e em outro é falsa. Esses são 
casos introspectivamente indistinguíveis nos quais sua crença tem diferentes valores de 
verdade. Outra aplicação da idéia refere-se a suas crenças sobre White e Black como no 
exemplo originalmente descrito. Ainda que exista uma diferença entre essas crenças – elas são 
sobre pessoas diferentes – assumimos que não existe nenhum motivo interno para favorecer 
umacrença sobre a outra. Da sua perspectiva, elas estão perfeitamente equiparadas. Tais 
casos são também introspectivamente indistinguíveis. 
 Assim como vimos nos capítulos anteriores, nossa evidência para quase todas as 
coisas é falível. Os cenários céticos (skeptical scenarios) mostram como podemos estar 
errados sobre quase todas as coisas, apesar de nossas razões. E isso também mostra que 
existem possíveis casos nos quais existem crenças falsas que são introspectivamente 
indistinguíveis de casos normais nos quais nossas crenças são verdadeiras. O caso normal no 
qual temos coisas certas serão introspectivamente indistinguíveis para um caso possível no 
qual somos enganados de uma forma ou outra. 
 Esses são as ferramentas (materials) para o próximo argumento cético: 
 Argumento 6.5: O Argumento da Indistinguibilidade Introspectiva 
 Ceticismo (I) 
10 
 
 5-1. Se uma pessoa pode ter conhecimento com base em uma evidência falível, 
 então pode haver casos de conhecimento que são ‘introspectivamente 
 indistinguíveis’ de casos de falta de conhecimento. 
 5-2. Mas não pode haver casos de conhecimento que são introspectivamente 
 indistinguíveis de casos de falta de conhecimento. 
 5-3. Uma pessoa não pode ter conhecimento com base em evidências falíveis. 
 (5-1), (5-2) 
 5-4. Mas todas as evidências que temos para alguma proposição sobre o mundo 
 externo são falíveis. 
 
 5-5. Não podemos ter qualquer conhecimento sobre o mundo externo. (5-3), 
 (5-4) 
É importante ver que (5-1) é certamente verdadeira. (5-2) é o princípio de indistinguibilidade. 
(5-3) segue de (5-1) e (5-2). (5-4) é certamente verdadeira. E a conclusão segue de (5-3) e 
(5-4). (5-2), então, é a premissa chave desse argumento. 
 
C. O Argumento da Certeza 
 Talvez o mais simples de todos os argumentos do ceticismo é o argumento da certeza. 
 Argumento 6.6: O Argumento da Certeza 
 6-1. Se S sabe que p, então S é absolutamente certo de que p. 
 6-2. Ninguém jamais está absolutamente certo sobre nenhuma coisa sobre o 
 mundo externo. 
 
 6-3. Ninguém sabe nenhuma coisa sobre o mundo externo. (6-1), (6-2) 
Pensando sobre esse argumento é de grande ajuda distinguir certeza psicológica de certeza 
epistemológica (psychological and epistemic certainty). Certeza psicológica relaciona-se com 
como alguém se sente, a força da convicção de alguém. Certeza psicológica absoluta é se 
sentir o mais seguro possível de que algo é verdade. Certeza epistemológica relaciona-se com 
a força da razão de alguém. Certeza epistemológica absoluta é ter razões maximamente fortes. 
O argumento é sobre a última. Se o argumento fosse sobre certeza psicológica, a primeira 
premissa diria que se uma pessoa sabe algo, então a pessoa se sente absolutamente certa disso. 
E a segunda premissa diria que ninguém se sente absolutamente certo de coisa alguma sobre o 
mundo externo. Mas talvez alguma pessoa se sinta certa sobre algumas coisas. Esse fato 
dificilmente questiona o argumento cético planejado. O ponto do argumento é que esse 
sentimento de certeza não é assegurado (warranted) ou justificado. Ninguém é absolutamente 
certo epistemologicamente de coisa alguma sobre o mundo externo.9 
 
9
 Uma variante do Argumento da Certeza é desenvolvida por Peter Unger em Ignorance: A Case For Skepticism 
(Oxford: Oxford University Press, 1975), Chapter 3 
Ceticismo (I) 
 
11 
 
 Como estamos entendendo esse argumento, então, (6-2) diz que ninguém é 
absolutamente certo epistemologicamente de coisa alguma sobre o mundo externo. Os 
cenários céticos parecem mostrar que isso é verdade. Eles introduzem algumas bases para 
dúvida sobre proposições sobre o mundo externo. Isso é suficiente para mostrar que (6-2) é 
verdadeira. 
 Isso deixa (6-1) como a premissa chave desse argumento. Conhecimento exige certeza 
epistemológica absoluta? 
 
D. O Argumento da Transmissibilidade 
Ainda outro argumento do ceticismo atraiu recentemente atenção considerável dos filósofos.10 
Esse argumento conta com a premissa inteiramente plausível que se você sabe uma coisa, e 
você sabe que alguma coisa secundária definitivamente se segue da primeira, então você pode 
saber essa segunda coisa. Esse princípio junto com os cenários céticos proporciona bases para 
um quarto argumento do ceticismo. O ponto principal do argumento é esse: As coisas que 
ordinariamente acreditamos implicam que os cenários céticos são falsos. Então, dado o 
princípio recém mencionado, se percebemos isso, e temos conhecimento nos casos ordinários, 
então podemos, portanto, deduzir, e dessa forma saber, que os cenários céticos são falsos. 
Mas, de acordo com o argumento, não sabemos que os cenários céticos são falsos. Você sabe 
que você não é um cérebro em um tonel, etc.? Como você poderia saber qualquer coisa como 
essa? Se não, então você não sabe as coisas ordinárias que você julga conhecer. 
 Aqui é como essa linha de pensamento refere-se a um exemplo específico. Recorde de 
Brian do Exemplo 5.8, O Cérebro em um Tonel. Suponha que Brian é (ou pelo menos parece, 
a ele mesmo, ser) uma pessoa ordinária no mundo. Considere algumas hipóteses céticas: 
 BIV. Brian é um mero cérebro em um tonel conectado por uma máquina de 
vida artificial. 
A palavra ‘mera’ em (BIV) é intencionada a significar que Brian é apenas um cérebro, não um 
corpo completo. Se Brian é um mero cérebro, então ele não possui braços. Agora, considere 
uma proposição ordinária, tal como 
 BA. Brian possui braços. 
Se Brian sabe (BA), ele sabe com base nos casos ordinários da experiência que todos nós 
temos. Suponha que ele sabia (BA). Suponha que Brian conhece o suficiente de lógica para 
perceber que (BA) implica que ele não um mero cérebro no tonel. Em outras palavras, isso 
implica que (BIV) é falsa. Brian pode então usar seu conhecimento sobre seus braços, mais 
seu conhecimento de lógica, para deduzir que (BIV) é falsa. Mas, um cético dirá que ele não 
pode saber que (BIV) é falsa, pelo menos não dessa forma. Precisa ser, logo, que ele não sabe 
(BA) depois de tudo. 
 A linha de pensamento recém apresentada pode ser generalizada. Deixe (O) ser uma 
proposição ordinária sobre o mundo externo que a Perspectiva Standard diz que conhecemos. 
Deixe (SK) ser uma hipótese cética inconsistente com (O). (O) então, implicará que (SK) é 
falsa. Deixe S ser uma pessoa qualquer que sabe que (O) implica que (SK) seja falsa. 
 
10
 Uma fonte principal para esse argumento é Fred Dretske, ‘Epistemic Operators’, Journal of Philosophy 67 
(1970): 1007-23. 
 Ceticismo (I) 
12 
 
 Argumento 6.7: O Argumento da Transmissibilidade 
7-1. S não pode saber que (SK) é falsa. 
7-2. (O) implica que (SK) é falsa, e S sabe disso. 
 7-3. Se S sabe que (O) é verdadeira, e que (O) implica que (SK) seja falsa,
 então S pode saber que (SK) é falsa. 
 
 7-4. S não sabe (O). (7-1)-(7-3) 
A premissa (7-2) é claramente verdadeira, dada a maneira como montamos o exemplo. É 
importante entender que mesmo que se S é um mero cérebro em um tonel, ele pode ainda 
saber sobre as conexões lógicas entre as proposições. Então o conhecimento lógico atribuído a 
S em (7-2) não é ameaçado pela possibilidade dele ser um cérebro em um tonel. A premissa 
(7-3) é um princípio de transmissibilidade.11 Ele diz que conhecimento pode ser transmitido 
através de implicações lógicas conhecidas. Embora existam detalhes sobre esse princípio que 
podem ser um tanto questionáveis, a idéia básica parece certa. Se você sabe alguma coisa, e 
você sabe que ela implica em alguma outra coisa, então você pode saber essa última coisa 
inferindo ela da formadora. A premissa(7-1) parece correta, ao menos para muitos 
epistemológos. Discutiremos isso mais cuidadosamente depois. 
 
IV. RESPONDENDO AO CETICISMO 
Cada um dos quatro argumentos do ceticismo tem a conclusão que radicalmente mina a 
Perspectiva Standard. Se algum deles é forte, então a Perspectiva Standard é errada e sabemos 
muito menos do que estávamos inclinados a pensar que sabíamos. Voltar-nos-emos agora para 
as respostas a esses argumentos. 
 
A. A Perspectiva Cética é Auto-Refutante 
Uma tentativa de linha de resposta para a Perspectiva Cética começa em tomando nota de uma 
vantagem não usual da posição completa do cético. A vantagem pode ser mais bem trazida ao 
construir um diálogo entre um cético e um anticético. 
 Anticético: 
Você sabe que as premissas do seu argumento cético são verdadeiras? Você sabe, 
por exemplo, que quase todas as suas crenças podem ser erradas? Você sabe que 
suas evidências para quase todas as suas crenças são falíveis? 
Cético: 
Sim, eu sei que minhas premissas são verdadeiras. 
 
11
 É algumas vezes chamado de princípio de ‘fechamento’ (closure principle). A idéia é que o conjunto de coisas 
que você sabe é ‘fechado’ sujeito à implicação. Isso significa que se o conjunto inclui uma proposição, ele 
também inclui aquelas que são implicadas pela proposição. Embora alguns filósofos tenham questionado (7-3), 
não faremos isso aqui. 
Ceticismo (I) 
 
13 
 
Anticético: 
Você diz que você sabe desses fatos sobre suas crenças. Mas esses são fatos sobre o 
mundo. Você afirma que nos falta conhecimento sobre todos os fatos desse tipo. 
Portanto, ao defender seu argumento você mostra que você não acredita 
consistentemente nas conseqüências da sua própria conclusão. Sua asserção de 
ceticismo é uma enganação. 
Cético: 
Eu acho que você está certo. Meus próprios argumentos mostram que eu não sei se 
minhas premissas são verdadeiras. Eu garanto que você não as conhece. 
Anticético: 
Você não pode estabelecer a verdade de algo com base em premissas que você não 
sabe se são verdadeiras. Assim, se você não sabe se suas premissas são verdadeiras, 
então você não sabe nada com base nas suas premissas. Em particular, você não 
sabe que sua conclusão cética é verdadeira. Assim você não provou que o ceticismo 
é correto. 
 Esse diálogo levanta várias questões, mas nos focaremos em apenas uma delas aqui. 
Suponha que nós garantimos ao anticético as afirmações feitas nessa discussão. É 
seguramente verdadeiro que céticos não podem afirmar consistentemente que sabem que 
ninguém conhece nada sobre o mundo externo. Compare: 
 4. Eu sei que ninguém sabe de coisa alguma. 
 Não existe maneira de (4) ser verdadeira. Para que isso fosse verdade, portanto, dado o 
que (4) diz, eu sei de alguma coisa, ou seja, que ninguém sabe de coisa alguma. Mas se eu 
soubesse que, então a proposição (4) que diz que eu conheço seria falsa, porque eu saberia de 
algo. Céticos que defendem argumentos como aqueles apresentados na seção III podem 
mostrar-se estarem em similar situação desagradável. Eles afirmam que ninguém sabe nada 
sobre o mundo externo, apesar disso eles parecer fazer isso com base em afirmações sobre o 
mundo externo. 
 Essas considerações mostram que existe alguma coisa ímpar sobre o ceticismo. Ao 
asserir seus argumentos, os céticos parecem implicitamente afirmar saber que suas premissas 
são verdadeiras. Mas isso é inconsistente com sua conclusão. Além do mais, ao viver suas 
vidas, eles estão provavelmente fazendo todos os tipos de coisas que sugerem que eles devam 
pensar que sabem de coisas. Por exemplo, eles conversarão com outras pessoas. Ao fazer isso 
parece pressupor que eles pensam que sabem que existem outras pessoas presentes e que eles 
sabem que aquelas outras pessoas estão falando. Outro exemplo, eles sairão do caminho de 
caminhões em aproximação, sugerindo que eles sabem que caminhar em frente a um 
caminhão em movimento é perigoso. 
 Existem razões para duvidar que os céticos, realmente, precisam pensar que sabem de 
coisas. Relembre que os céticos não estão afirmando que suas crenças ordinárias são falsas. 
Eles estão afirmando que não sabemos se elas são verdadeiras. Deste modo, eles podem 
acreditar que caminhões em movimento são perigosos, mas negar o conhecimento de coisas 
tais como essa. Assim, talvez se eles são muito cuidadosos, os céticos poderiam sobreviver 
sem jamais afirmar que conhecem alguma coisa ou fazer algo que implique que eles pensem 
que sabem de algo. 
 Ceticismo (I) 
14 
 
 Mas suponha que os críticos do ceticismo estejam corretos em declarar que os céticos 
sempre se contradizem, implicitamente ou explicitamente. Suponha que seja verdade que eles 
asserem que ninguém conhece nada, mas em outros momentos, eles dizem, pense, ou 
pressuponha que eles mesmos conhecem coisas. Isso nos diz algo sobre a estabilidade ou 
consistência geral do ceticismo, dos céticos. Pode-ser que ninguém possa, realmente, 
consistentemente defender a Perspectiva Cética. Mas isso deixa uma questão embaraçosa não 
respondida: O que está errado com os argumentos céticos? Eles são argumentos válidos. Isso 
significa que se suas premissas são verdadeiras, então sua conclusão é verdadeira. E suas 
premissas parece ser todas certas. Mostrando que os céticos se contradizem de alguma forma 
não ajuda a compreender onde esses argumentos desafiantes erram, ou ainda se eles são 
errados de alguma forma. E isso, ao menos concordando com muitos, é o problema filosófico 
central posto pelo ceticismo. 
 Uma maneira de clarificar o ponto recém comentado é distinguir dois objetivos (goals) 
que alguém pode ter ao pensar sobre o ceticismo. Um dos objetivos é mais retórico ou 
dialético. Ele tenta convencer os céticos que eles estão errados ou mostrar que eles não 
acreditam realmente naquilo que eles dizem ou mostrando que eles se contradizem. O outro 
objetivo não é tanto sobre os céticos e mais sobre seus argumentos. Ele tenta descrever o que, 
se algo, está errado com as premissas dos argumentos do ceticismo. Nosso foco aqui é o 
segundo objetivo. Isso não é dizer que existe algo errado com o primeiro objetivo. No entanto, 
completando esse objetivo – mostrando que os céticos se contradizem – se falharia em 
resolver uma questão central: A conclusão dos argumentos céticos é verdadeira? 
 Evitar o desafio dialético de refutar ou convencer os céticos tem outra vantagem. 
Suponha alguém que estava enfrentando, com o objetivo de tentar convencer, um cético 
intransigente que conhecemos coisas. Não importa o que você faça, um cético inteligente 
resistirá. Sua prova-tentativa (attempted proof) sempre fará uso de uma premissa ou outra. 
Um cético inteligente negará conhecer que a premissa é verdadeira. Se você tentar voltar 
atrás, você apenas apelará para uma premissa adicional. Como uma criança que pergunta 
indefinidamente ‘por quê?’, um cético inteligente nunca concederá a você uma premissa que 
estabelecerá sua conclusão anticética. É uma boa idéia para fugir desse tipo de batalhar com o 
cético em primeiro lugar (como vencedor). 
 Todos esses problemas dialéticos deixam em aberto questões com as quais nós 
começamos: O que deveríamos dizer sobre os argumentos céticos? Suas premissas são 
razoáveis? 
 
B. A Resposta de Moore 
G. E. Moore foi um filósofo influente na primeira metade do século XX. Seus escritos 
filosóficos freqüentemente incluíam defesas do senso comum para complicadas objeções 
filosóficas. Sua resposta para o ceticismo foi característica. Após um enunciado (statement) 
detalhado de um argumento similar a um dos argumentos recém enunciados, Moore escreveu: 
É, de fato, como certo que todas essas quatro suposições (assumptions) [as premissas do 
argumento em consideração] são verdadeiras, assim como que eu sei que isso é um lápise que 
você é consciente? Eu não posso ajudar respondendo: Parece para mim mais certo que eu saiba 
Ceticismo (I) 
 
15 
 
que isso é um lápis e que você é consciente, do que, que qualquer uma (apenas) dessas quatro 
suposições seja verdadeira, para não citar todas as quatro.12 
Aplicado aos quatro argumentos céticos, a resposta de Moore é que é mais certo – mais 
razoável para crer – que temos conhecimento do mundo externo do que a força de qualquer 
desses argumentos céticos. Porque o argumento é válido, cada um precisa ter uma premissa 
falsa. Assim o razoável é concluir que cada um deles tem uma ou mais premissas falsas. 
 Mesmo que se você concorda que Moore esteja certo sobre isso, é claro que suas 
respostas falha em explicar o que há de errado com os argumentos. Não nos ajuda ver onde os 
argumentos estão errados ou o que o erro no fundamento deles pode ser. A resposta de Moore 
ao ceticismo, pelo menos como apresentada aqui, simplesmente diz que é mais razoável 
pensar que uma ou outra coisa está errada com os argumentos céticos. Não nos falando o que. 
 Em outra palestra mais discutida, Moore tentou provar que existia um mundo externo. 
Ele estendeu uma de suas mãos e disse, ‘Isso é uma mão’ e, estendendo a outra mão, ele disse, 
‘Essa é outra mão’. E dessas premissas ele concluiu que existe um mundo externo.13 Existe 
alguma coisa atraente sobre a prova de Moore. Suas premissas parecem claramente 
verdadeiras. Sua conclusão segue de suas premissas. É difícil identificar um defeito em seu 
argumento. Apesar disso, muitos leitores se desapontaram com a resposta de Moore. Alguns 
pensam que, de uma maneira ou outra, a reposta falha ao empregar o argumento ao ceticismo. 
Talvez a melhor forma de colocar a reclamação sobre a resposta de Moore é dizer que ele não 
explica o que há de errado com os argumentos céticos. 14 Sua perspectiva implica, de forma 
absolutamente plausível, que existe algo errado com eles. É desejável ter uma explicação do 
que justamente há de errado com eles. 
 
C. Falibilismo 
Uma resposta proeminente aos argumentos céticos é que eles todos pressupõem altos padrões 
(Standards) não razoáveis para o conhecimento. A acusação é a de que os argumentos 
contam, seja implicitamente ou explicitamente, com a suposição (assumption) que 
conhecimento exige certeza absoluta, enquanto que, em fato, conhecimento requer meramente 
razões muito boas (mais crença verdadeira, e alguma outra condição é necessária para lidar 
com os exemplos de Gettier). Essa perspectiva é o falibilismo (falibilism). Os detalhes do 
falibilismo emergirão da consideração das respostas falibilistas para cada um dos argumentos 
céticos. 
C1. Conhecimento e Certeza Absoluta A resposta falibilista ao ceticismo é mais facilmente 
apreciada em conexão com o Argumento da Certeza. Falibilistas negam o que foi 
anteriormente identificado como a premissa chave desse argumento: 
 6-1. Se S sabe que p, então S está absolutamente certo de que p. 
 
12
 G. E. Moore, ‘Four Forms of Skepticism’ (‘Quatro Formas de Ceticismo’), Philosophical Papers (New York: 
Collier Books, 1959), pp. 193-222. A citação é da p. 222. 
13
 Veja G. E. Moore, ‘Proof of an External World’ (‘A Prova de um Mundo Externo’), Philosophical Papers, pp. 
126-149. A ‘prova’ aparece na p. 145. 
14
 É também possível que exista uma diferença entre dar um argumento forte para uma conclusão, como Moore 
pode ter feito, e dar uma ‘prova’ (proof) dessa conclusão. Talvez uma prova, no contexto do debate sobre o 
ceticismo, precise ter premissas que contenham uma condição especial, tal como ser aceitas por todas as partes 
no debate. As premissas de Moore não contêm essa condição especial. 
 Ceticismo (I) 
16 
 
Estamos absolutamente certos de muito poucas proposições. Mas, de acordo com os 
falibilistas, esse não é um problema porque conhecimento não exige certeza absoluta. Por 
exemplo, quando existe uma mesa em frente a você, a iluminação é boa, seu sistema visual 
está funcionando apropriadamente, e você acredita como resultado da sua impressão visual e 
sua informação de fundo (background information) que existe uma mesa em frente a você, 
então você pode ter conhecimento de que há uma mesa lá. Enquanto existe, da sua 
perspectiva, alguma chance remota de erro, não existe razão para pensar que você está 
cometendo um erro, e sim excelente razão para pensar que você não está cometendo um erro. 
Se sua crença é verdadeira, então você tem conhecimento. 
 Perceba que falibilistas não estão dizendo que você pode conhecer algo que é falso. Se 
não existisse mesa em frente a você, então você não saberia que existe uma mesa lá. Mas se 
existe uma mesa lá, e você acredita por excelentes, mas não perfeitas logicamente, razões que 
existe uma mesa lá, então você possui conhecimento. 
 Falibilistas pensam que céticos conseguem nos fazer ficar preocupados sobre o 
ceticismo aplicando altos padrões ao conhecimento. Existem algumas evidências lingüísticas 
que apóiam a perspectiva dos falibilistas de que existe diferença entre conhecimento e certeza 
absoluta. Considere um exemplo no qual duas pessoas estão dirigindo para longe de sua casa. 
Um deles pergunta ao outro se ele sabe se trancou a porta quando saíram. Ele responde que 
sim, que a trancou. O primeiro então pergunta se ele está ‘absolutamente certo’ que a trancou, 
tão certo que nada poderia ser mais certo. Ele poderia inteligentemente responder que ele não 
está. Ele não estaria, através disso, voltando para sua primeira resposta. Se isso é certo, é 
porque a segunda questão – aquela sobre a certeza absoluta – foi uma nova questão, 
levantando um problema não levantado pela questão original sobre o conhecimento. Se for 
assim, então o conhecimento não exige certeza absoluta. Similarmente, nos parece dizer algo 
diferente, e mais forte, quando afirmamos ‘saber com completa certeza’ do que quando 
afirmamos meramente ‘conhecer’ algo. 
 Existem também algumas considerações práticas que fornecem apoio modesto para a 
percepção (outlook) falibilista. Suponha que concordamos que conhecimento exige certeza 
absoluta. Nesse caso, teríamos que conceder que não sabemos muito e que a Perspectiva 
Padrão é radicalmente errada. Mas agora considere a lista de coisas que a Perspectiva Padrão 
diz que sabemos. Ter concordado com os céticos que conhecimento exige certeza absoluta e 
que não estamos absolutamente certos para muitas das coisas da nossa lista original, nos 
obriga a admitir que não sabemos se aquelas coisas são verdadeiras. Mas não deveríamos 
através disso conceder que nossa posição com respeito àqueles itens seja como nossa posição 
com respeito às coisas as quais apenas temos razões modestamente boas. Poderíamos dizer 
que ‘quase conhecemos’ as coisas nessa lista, enquanto que ‘não quase’ conhecemos o 
resultado do World Series15 do próximo ano ou ainda as eleições do próximo mês. 
Deveríamos também dizer que não ‘quase conhecemos’ em exemplos tais como aqueles que 
Gettier tornou famosos. Poderíamos então perguntar qual a diferença entre os casos de Gettier 
e os casos que são casos de ‘quase’ conhecimento. Poderíamos ainda desenvolver uma 
disciplina – ‘quase epistemologia’ – na qual estudaríamos exatamente as coisas estudadas 
aqui. Em outras palavras, se concordamos com os céticos que ‘saber’ se aplica somente em 
casos de certeza absoluta, poderíamos introduzir a expressão (phrase) ‘quase conhecer’ que se 
aplicaria no limite dos casos que não chegam até a certeza absoluta, mas que são regularmente 
classificados como conhecimento. Falibilistas pensam que ‘conhecer’ é apenas usado nessa 
 
15
 *Provavelmente Feldman está falando do campeonato norte-americano de basebol. O termo ‘World Series’ é 
designado para várias outras competiçõesesportivas no mundo inteiro.* 
Ceticismo (I) 
 
17 
 
forma em primeiro lugar, então que não existe necessidade de conceder essa palavra aos 
céticos e introduzir a expressão ‘quase conhecer’ para fazer o trabalho (da expressão 
‘conhecer’). Fazer isso é apenas causar confusão sem necessidade. 
 Existem, assim, persuasivas, mas talvez não conclusivas razões para aceitar o 
falibilismo. Será útil ver o que os falibilistas dizem sobre os outros argumentos céticos. 
C2. Conhecimento e a Possibilidade do Erro O Argumento da Possibilidade do Erro tem 
como premissa chave: 
 5-2. Se uma crença poderia estar errada, então não é um caso de conhecimento. 
Falibilistas rejeitam isso. Eles pensam que conhecimento é compatível com a possibilidade do 
erro. É importante que seja claro sobre o que eles estão falando. Falibilistas não estão dizendo 
que conhecimento é compatível com erro, de fato. Eles não estão dizendo que você pode 
conhecer algo que não é verdadeiro. Nem estão dizendo que você pode ter conhecimento 
quando você tem uma razão positiva para pensar que você está cometendo um erro. Eles estão 
dizendo que conhecimento exige justificação forte e verdade. Assim, se você acredita em algo 
com base em excelentes razões, e é verdade, e se não existe nada suspeito como nos casos do 
tipo Gettier, então você tem conhecimento. Se você acredita em algo com base naquelas 
excelentes razões, e esse algo vem a ser falso porque você foi vítima de algum tipo de trote ou 
alucinação, então você não possui conhecimento. 
 Rejeitar (5-2) é quase conectado a rejeitar a perspectiva de que conhecimento exige 
certeza absoluta. A hipótese que conhecimento exige certeza é equivalente a hipótese que se 
você não está certo de algo, então você não sabe desse algo. E essa hipótese é central para a 
melhor razão para pensar que (5-2) é verdadeira. A defesa de (5-2) é próxima a isso: se você 
pode estar errado sobre a certeza de algo, então você não está absolutamente certo sobre ele. 
Se você não está absolutamente certo sobre algo, então você não conhece esse algo. Assim, se 
você pode estar errado sobre algo, então você não o conheceria. Uma vez que a hipótese que 
conhecimento exige certeza é rejeitada, como os falibilistas dizem que deve ser, essa defesa 
de (5-2) falha. 
 Uma coisa que pode causar confusão aqui é que (5-2) é difícil de interpretar. 
Sentenças do tipo ‘se-então’ são geralmente problemáticas, e quanto elas têm palavras como 
poderia nelas, elas são ainda mais problemáticas. Uma fonte potencial da confusão pode ser 
exposta ao considerar algumas sentenças do tipo. Primeiro, perceba que (5-2) é equivalente a 
 5-2a. Se S sabe que p, então S não poderia estar errado sobre p. 
Agora considere uma sentença do tipo ‘se-então’ similar em estrutura à (5-2a.): 
 5. Se S é um solteirão, então S não poderia estar casado. 
(5) pode parecer correta para você, mas existe algo intrigante sobre ela. Isso pode ser trazido à 
tona através das seguintes considerações. Suponha que você esteja dividindo pessoas em dois 
grupos: aqueles que poderia estar casados e aqueles que não poderiam estar casados. Você 
poderia dizer a um bebê de três semanas que ele não poderia estar casado. Nessa idade, ele 
não poderia legalmente participar de uma cerimônia de casamento e ele não poderia fazer ou 
dizer as coisas necessárias para se casar. Em contraste, um homem comum de trinta anos que 
escolheu não casar está nesse grupo de pessoas que poderiam estar casadas, ainda que ele não 
esteja casado. Isso deve fazer você ver que existe diferença entre 
 Ceticismo (I) 
18 
 
 5. Se S é um solteirão, então S não poderia estar casado. 
 5a. Se S é um solteirão, então S não é casado. 
(5a) é verdadeira. Sem dúvida, ela é necessariamente verdadeira. Não é alguma verdade 
contingente ou reversível. É verdadeira de certa forma como resultado do que a palavra 
‘solteirão’ significa. Mas (5) não é verdadeira. Não é o caso que se uma pessoa é solteira, 
então a pessoa está no grupo de pessoas que não poderiam estar casadas. Muitos dos solteiros 
são pessoas que poderiam estar casadas; eles apenas não estão casados. 
 Analogamente, compare: 
 5-2a. Se S sabe que p, então S não poderia estar errado sobre p. 
 5-2b. Se S sabe que p, então S não está errado sobre p. 
(5-2b) é verdadeira. Além disso, é uma verdade necessária, porque se segue em parte do 
significado de ‘conhecer’. Mas seria um erro pensar que isso sustenta (5-2a). Assim, 
falibilistas aceitam (5-2b). Eles ainda concordam que não existem circunstâncias possíveis nas 
quais (5-2b) seja falsa. Mas eles rejeitam (5-2a), e com isso (5-2) do Argumento da 
Possibilidade do Erro. Aceitar (5-2a) é dizer que conhecer algo exige que esse algo esteja 
entre o tipo de coisas que você não poderia estar errado sobre. (Comparável a dizer, como em 
(5a), que ser um solteiro é estar no tipo de coisas que não poderiam estar casadas). Poucas 
proposições recebem esse alto padrão. As poucas que recebem não são usuais. Por exemplo, 
ninguém pode acreditar erradamente que existem crenças. Ninguém pode acreditar 
erradamente o que ele ou ela expressariam com sentenças como ‘Eu existo’ ou ‘Eu tenho uma 
crença.’16 
C3. O Argumento da Indistinguibilidade Introspectiva A premissa chave desse argumento 
era 
 6-2. Não pode haver casos de conhecimento que são introspectivamente 
 indistinguíveis de casos de falta de conhecimento. 
Falibilistas rejeitam isso. Eles afirmam que conhecimento não é um puro ‘estado mental’ 
(mental state). Se uma pessoa sabe ou não depende de como é sua mente – o que ela acredita 
e porque – e de como o mundo é. Se conhecimento exige meramente razões extremamente 
boas, e não razões perfeitas, então (6-2) é falsa. Pegue um caso no qual alguém tem razões 
extremamente boas, e um o qual alguém possui crença verdadeira e não possui conhecimento. 
Porque as razões são extremamente boas, mas não perfeitas, se segue que existirá outros 
possíveis casos nos quais alguém possui aquelas mesmas razões, apesar disso a crença de 
alguém é falsa e esse alguém não possui conhecimento. 
 Uma maneira de pensar coisas é como a seguir: Na perspectiva falibilista, 
conhecimento resulta de um tipo de cooperação entre o mundo e o sujeito que crê (believer). 
Quando o sujeito que crê faz sua parte acreditando de uma forma apropriada, ele fez tudo o 
que pôde para ter conhecimento. Quando o mundo coopera, fazendo com que esse não seja 
 
16
 O Argumento aqui assume que uma pessoa não poderia estar errada sobre uma proposição fornecida, a pessoa 
não pode acreditar nela e estar errada. As proposições listas recebem aquela condição. É consistente com isso, no 
entanto, que uma pessoa possa desacreditar erradamente em uma daquelas proposições. Alguém poderia reagir 
de forma exagerada aos argumentos céticos e passar a crer, erradamente, que ele não existe. De certa forma, 
então, é possível que uma pessoa esteja errada sobre se ela existe. 
Ceticismo (I) 
 
19 
 
um caso de crença falsa justificada ou um caso do tipo Gettier (Gettier-like case), então é 
conhecimento. Quando o mundo não coopera, não é conhecimento. Porque conhecimento 
depende do tipo de cooperação, pode haver casos nos quais a pessoa faça sua parte e o mundo 
não coopera. Tais casos são introspectivamente indistinguíveis de casos nos quais o mundo 
coopera. Portanto, (6-2) é falsa. 
 Se conhecimento exige certeza absoluta, deveria haver um bom caso para a premissa 
(6-2). Certeza absoluta é um tipo de estado mental interno que garante verdade. Crenças as 
quais estamos certos são introspectivamente distinguíveis de crenças que não são certas. 
Assim, se conhecimento exigisse certeza, seguiria que conhecimento exige um estado mental 
que assegura a verdade, esse é umtipo de estado mental introspectivamente distinguível de 
crença falsa. Porque, de acordo com o falibilismo, conhecimento não exige certeza absoluta, 
essa linha de apoio para (6-2) falha. 
 Perceba que seja o que for que dizemos sobre o conhecimento, pode haver casos de 
‘crença verdadeira’ (believing truly) e ‘crença falsa’ (believing falsely) que são 
introspectivamente indistinguíveis. Crenças verdadeiras não têm um ‘brilho’ mais luminoso 
do que crenças falsas. Não existe um piscar de olho especial (blinking ‘T’) na presença do 
olho da sua mente quando você tem uma crença verdadeira. Não existe uma função interna 
(internal feature) que se associa a todas e apenas crenças verdadeiras. Assim, pode haver um 
caso no qual você acredita em algo e sua crença é verdadeira, e existem outros possíveis casos 
que parecem exatamente iguais, mas a crença é falsa. Crenças verdadeiras não são 
introspectivamente distinguíveis de crenças falsas. 
 Isso não é dizer que você não pode dizer quando você tem boas razões para crer em 
algo e quando você não tem. Você usualmente pode dizer isso. Talvez você sempre possa. 
Assim talvez crenças justificadas sejam introspectivamente distinguíveis de crenças não 
justificadas. Isto é, nenhuma crença justificada é introspectivamente indistinguível de uma 
crença não justificada.17 
 Alguém poderia pensar que essa discussão falha em fazer justiça ao pensamento por 
trás do Argumento de Indistinguibilidade. Para ver esse ponto, considere uma analogia. 
Suponha que você não possa perceber a diferença entre dois tipos de árvores, cipreste e cedro. 
Ver um e o outro é, ao menos tão longe quanto você possa perceber, introspectivamente 
indistinguível. Você poderia concluir disso que você não pode jamais saber que você está 
olhando para um cedro e não para um cipreste. Analogamente, poderia ser afirmado que você 
jamais pode saber que você está vendo uma árvore real e não uma mera imagem de árvore, 
porque esses últimos estados são introspectivamente indistinguíveis de ver uma árvore real. 
Deste modo, você não pode saber que está vendo uma árvore real. 
 Mas, ao menos de acordo com os falibilistas, esse pensamento é errado. Ainda se ver 
um cedro ou um cipreste são introspectivamente indistinguíveis para você, você pode saber 
que você está vendo um em lugar do outro. Você poderia saber porque um perito em árvores 
lhe falou. Ou você poderia saber porque você tem evidências independentes convincentes que 
nenhum cedro cresce na sua região. Existe algum número de boas razões que você poderia ter 
para crer que você vê uma e não a outra. Se conhecimento exige certeza absoluta, então 
nenhuma dessas razões é boa o suficiente para o conhecimento. No entanto, como vimos, os 
falibilistas têm algumas boas razões para rejeitar essa hipótese. Similarmente, portanto, você 
pode ter boa razão para pensar que você está vendo uma árvore e não está sendo enganado por 
 
17
 Claro, defensores de teorias não-evidencialistas da justificação discutidos no capítulo 5 rejeitariam isso. 
 Ceticismo (I) 
20 
 
um gênio maligno, ainda se as duas experiências fossem introspectivamente indistinguíveis. 
(Mais adiante a discussão desse ponto aparecerá na subseção C4 do capítulo 7). 
 As pessoas às vezes dizem que se o falibilismo é correto, então você nunca poderá 
dizer se você conhece alguma coisa.18 Isso é, elas argumentam que: 
 Argumento 6.8: O Argumento do Saber que Você Sabe 
 8-1. Se o falibilismo é verdade, então uma pessoa nunca pode perceber se ela 
 possui ou não conhecimento (i.e., ela nunca sabe que ela tem 
 conhecimento). 
 8-2. O falibilismo é verdade. 
 
 8-3. Então uma pessoa nunca sabe que ela possui conhecimento. (8-1), (8-2) 
Falibilistas aceitam (8-2). Enquanto (8-3) não é impossível ou auto-contraditória, seria uma 
coisa muito estranha para os falibilistas aceitarem: Por que você seria capaz de saber todos os 
tipos de coisa, mas não que você sabe de alguma coisa? Entre as idéias falibilistas se dirá que 
se alguém pode saber é porque alguma pessoa mais sabe algo. Como poderia ser que você 
pudesse saber que outros têm conhecimento, mas não que você mesmo possui? Deste modo, 
os falibilistas gostarão de encontrar uma boa base para rejeitar (8-1). 
 Felizmente, os falibilistas podem inteligentemente (com lógica) rejeitar (8-1). 
Entendendo porque tornaremos o falibilismo mais claro e mais atraente. A perspectiva 
falibilista é que o conhecimento sobre conhecimento é relevantemente como o conhecimento 
sobre outras coisas. Uma pessoa pode saber que as luzes estão ligadas através da posse de 
uma crença verdadeira justificada que as luzes estão ligadas e em não sendo um caso do tipo 
Gettier. Similarmente, uma pessoa pode ter conhecimento de que ela sabe desse fato tendo 
uma crença verdadeira justificada que ela sabe que as luzes estão ligadas. E ela tem excelentes 
razões para pensar que ela sabe disso: Ela acredita nisso com base na sua observação da luz e 
não em uma loucura (whim), ela está geralmente certa sobre esse tipo de coisa, e mais. O 
ponto chave é que seu conhecimento que ela sabe de coisas é, como todo conhecimento, 
falível. Ela não está absolutamente certa de que tem conhecimento. Suas razões para pensar 
que possui conhecimento não são logicamente perfeitas. Elas são meramente extremamente 
boas. E isso é tudo que se pode saber. A idéia chave é que se você é um falibilista sobre o 
conhecimento de proposições ordinárias, então você deveria também ser um falibilista sobre 
conhecimento de conhecimento.19 
C4. O Argumento da Transmissibilidade Um enunciado mais geral da premissa chave do 
Argumento da Transmissibilidade é 
 7-1. As pessoas não sabem que as hipóteses céticas são falsas. 
Aqui falibilistas dizem que sabemos que as hipóteses céticas são falsas. Suas razões para 
pensar em coisas ordinárias tais como, que você possui braços, também lhe fornecem 
excelentes razões para rejeitar as hipóteses céticas tais como, que você é um cérebro em um 
 
18
 Algumas das idéias presentes nos próximos parágrafos apareceram primeiramente em ‘Fallibilism and 
Knowing That One Knows’ (Falibilismo e Conhecimento que Alguém Sabe), Philosophical Review 90 (1981): 
77-93 
19
 Sou agradecido a Bruce Russell pelos comentários úteis nessa seção. 
Ceticismo (I) 
 
21 
 
tonel. Não existe razão para pensar que existem cérebros em tonéis, nem que você é um deles. 
Essa é uma hipótese que você tem excelentes razões para rejeitar. Verdade, aquelas razões 
não são logicamente perfeitas, mas você não mais precisa de razões perfeitas nesse caso do 
que você precisa em qualquer outro caso. O mesmo serve para as outras hipóteses céticas. 
 Se conhecimento exigisse certeza absoluta, então talvez houvessem melhores razões 
para aceitar o Argumento da Transmissibilidade. Não podemos estar absolutamente certos de 
que não somos cérebros em tonéis ou de que as outras hipóteses céticas são falsas. Mas, de 
acordo com o falibilismo, conhecimento não exige certeza, e essa defesa da premissa chave 
do Argumento da Transmissibilidade falha. 
 Céticos, com certeza, podem negar o que falibilistas dizem aqui. (Consideraremos no 
capítulo 7 uma razão que os céticos poderiam dar para negar). Mas, diferentemente dos outros 
argumentos do ceticismo considerados nesse capítulo, o Argumento da Transmissibilidade se 
utiliza da sua falta de conhecimento como uma premissa. O argumento, por si, não fornece 
razões para pensar que não saibamos que as hipóteses céticas são falsas. Em contraste, os 
outros argumentos considerados nessa seção fornecem razões para pensar que não temos 
conhecimento, razões que não tem nada a ver com a possibilidade de erro ou parecido. Então, 
enquantocéticos podem não gostar disso, é difícil de ver porque os falibilistas não estão em 
boa posição para rejeitar o Argumento da Transmissibilidade. 
 
V. CONCLUSÃO TEMPORÁRIA 
Um tipo de ceticismo é ‘o ceticismo dos altos padrões’ (high standards skepticism) – 
ceticismo que conta com a premissa que conhecimento exige certeza, ou a impossibilidade de 
erro. Os argumentos céticos considerados aqui fazem essa suposição. A suposição é explícita 
no caso do Argumento da Possibilidade do Erro e do Argumento da Certeza, e é implícita no 
Argumento da Indistinguibilidade Introspectiva e no Argumento da Transmissibilidade. 
 A resposta de Moore ao ceticismo afirma que é mais razoável pensar que temos 
conhecimento do que pensar que algum desses argumentos é forte. Essa resposta é 
consideravelmente atrativa, mas falha ao explicar apenas onde é que os argumentos estão 
errados. 
 O falibilismo fornece uma resposta mais completa aos argumentos céticos. De acordo 
com o falibilismo, conhecimento exige razões muito boas (mais crença verdadeira e que não 
seja um caso do tipo Gettier). Mas conhecimento não exige certeza. Somos capazes de 
satisfazer as condições falibilistas para o conhecimento. 
 Considerações em favor do falibilismo são significantes e poderosas, mas não 
decisivas. Eles incluem considerações lingüísticas, simplicidade, o fato que algumas das 
afirmações dos argumentos do ceticismo se tornam erradas (por exemplo, a confusão sobre o 
‘se-então’ e ‘dever’ [must]), e o fato que o falibilismo não tem a conclusão errada com 
respeito ao conhecimento de que você conhece que foi recém discutido. O falibilismo então 
parece ser uma perspectiva inteligente. E se o falibilismo é correto, então cada um dos 
argumentos do ceticismo contém (pelo menos) uma premissa errada. 
 Uma forma de resumir o falibilismo é a seguinte: 
Nossas experiências nos fornecem muito boa evidência, mas não absolutamente 
conclusiva evidência, para proposições tais como a proposição que realmente 
 Ceticismo (I) 
22 
 
vemos um livro (e destemo modo não estamos sonhando, ou alucinados, ou que 
somos meros cérebros em tonéis, etc.). Essa evidência é boa o suficiente para 
justificar nossas crenças ordinárias e assim satisfazer as condições de justificação 
para o conhecimento. Todos os argumentos do ceticismo contam com suposições 
erradas que justificação, e assim conhecimento, exigem evidências conclusivas. 
Logo, todos esses argumentos falham. 
Essa é uma perspectiva amplamente aceita e aparentemente inteligente. Ela se ajusta bem com 
a perspectiva fundacionista modesta descrita no capítulo 4. Infelizmente, os problemas céticos 
permanecem. Voltaremos a eles no capítulo 7.