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PERSPECTIVAS PARA ALÉM DA RACIONALIDADE TÉCNICA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DAS CIÊNCIAS PERSPECTIVES BEYOND TECHNICAL RATIONALITY IN SCIENCE TEACHERS’ EDUCATION Márcia Sampaio Duarte1 Luziane Beyruth Schwartz2, Alcina M. T. Braz da Silva3, Flavia Rezende4 1Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, sampaioduarte@oi.com.br 2Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, luschwartz@hotmail.com 3Universidade Salgado de Oliveira, alcinamaria@terra.com.br 4Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, flaviarezende@uol.com.br Resumo Neste trabalho apresentamos uma revisão preliminar da literatura recente sobre a formação de professores das ciências, enfatizando a discussão sobre a racionalidade técnica, procurando discutir em que medida os artigos revistos avançam no sentido de proporem alternativas a esta concepção. A revisão dos artigos mostrou que a crítica à racionalidade técnica parece ter sido assimilada pelos pesquisadores da área de educação em ciências. No âmbito da formação de professores, essa crítica tem dado margem a novas formulações, apoiadas em diferentes concepções de racionalidade que se apresentam como alternativas mais adequadas, ao compreenderem a prática educacional como um fenômeno sociocultural que envolve relações humanas singulares e momentos de incerteza que escapam à racionalidade técnica. No contexto da prática docente, alguns estudos mostram as dificuldades encontradas no processo de superação dessa concepção, embora representem tentativas potencialmente relevantes em termos das perspectivas que apresentam. Palavras-chave: formação docente, ensino de ciências, racionalidade técnica. Abstract In this article we present a preliminary review of recent literature on science teachers’ education, emphasizing the discussion on technical rationality, attempting to discuss in what extent the articles reviewed propose alternatives to this conception. The review showed that the critic to technical rationality seems to have been appropriated by science education researchers. In the context of teachers’ education this critic works as a background to new formulations, sustained by different conceptions of rationality that seem more adequate to educational practice understanding it as a sociocultural phenomena which involve peculiar human relationships and moments of uncertainty that can not be grasped by technical rationality. Some studies indicate the difficulties found in the process of modification of this conception, although they represent important proposals in terms of the perspectives they present. Keywords: teachers’ education; science teaching; technical rationality. INTRODUÇÃO A racionalidade técnica se constitui na base do sistema produtivo capitalista e, assim, uma das principais ferramentas culturais que moldam as instituições e práticas sociais neste sistema. A educação é, portanto, uma das instituições banhadas por essa forma de pensar e agir. O Ensino de Ciências talvez seja o ramo da Educação como um todo que tem sofrido esta influência mais diretamente, dada a sua proximidade às ciências naturais que legitimaram esta visão, no início da modernidade. Presente na formação e na prática docente, a racionalidade técnica se reflete diretamente nos processos internos da escolarização que, segundo Libâneo (2006), correspondem à seleção dos objetivos, conteúdos, metodologias, ações organizativas, curriculares e na avaliação, e que acabam por determinar a qualidade desse ensino. Autores que se dedicaram a investigar os objetivos e conteúdos do Ensino de Ciências recentemente têm alertado para o fato de que a ênfase excessiva na aquisição de princípios gerais e abstratos, voltada para a formação da força de trabalho técnica e cientificamente preparada vem contribuindo para o isolamento da educação científica das preocupações cotidianas dos estudantes e favorecendo o distanciamento de questões relativas à realidade social (FURIÓ et al. 2001; LEMKE, 2006; BANET, 2007). Supondo continuidade (epistemológica e ideológica) entre os processos formativos, aos quais o professor é submetido, e a sua prática docente, nossa hipótese de trabalho é que o não rompimento com a racionalidade técnica tanto na formação quanto na prática docente se apresenta como uma questão preocupante na medida em que esta ferramenta favorece a continuidade ou até mesmo o aperfeiçoamento de algo cuja finalidade já está definida, mas não permite o questionamento dos objetivos perseguidos, os quais tenderão, assim, a permanecer. Assumimos, assim, a posição de que o distanciamento da racionalidade técnica nos processos de formação e prática do professor das ciências indica a possibilidade de questionamento do ensino tradicional e a abertura para se tentar alternativas. No presente trabalho, iniciamos a investigação desta questão tomando como objeto a formação dos professores. Nosso objetivo consiste, assim, em analisar como a concepção de racionalidade técnica tem sido tratada pela produção acadêmica referente à formação inicial e continuada de professores das ciências no sentido de identificar possíveis avanços. Inicialmente, buscamos os conceitos de racionalidade que consistirão em balizadores temáticos para a análise. RACIONALIDADE TÉCNICA E FORMAÇÃO DOCENTE Na tentativa de resgatar a origem da razão e da racionalidade deparamo-nos com a crença da necessidade de que no pensamento moderno ocidental a razão e a racionalidade adquirem valor universal e que se desenvolvem a partir das ciências, desde as cosmologias pré-socráticas e da lógica aristotélica (SOUZA, 2004). Este autor argumenta que a racionalidade do mundo moderno foi impulsionada pelas práticas sociais do comércio por volta de 3000 a.C. como um fenômeno ligado à própria organização dos indivíduos para viver em sociedade. Assim, a racionalidade se impôs como um instrumento para regularizar e normatizar a vida dos indivíduos. Alguns conceitos como classificação, ordenação, operação, procedimento eficaz, previsão, e outros próprios das práticas comerciais e das relações sociais e materiais de existência dos homens, desde as antigas civilizações, são utilizados até hoje pela ciência e pela Filosofia. Assim, a razão e a racionalidade se desenvolvem historicamente com o comércio por meio dos fatores como a escrita, a contabilidade, a divisão de trabalho, a especialização, formas racionais de transporte e mão de obra. A contribuição trazida pelo racionalismo de Descartes implica avanço do conhecimento científico para além da premissa defendida até então de que o conhecimento teria origem apenas na observação dos fenômenos. A primazia da razão passa a se fazer presente, sugerindo que algum fundamento de verdade deva estar contido em todas as idéias ou noções (DESCARTES, 2007). O autor considerava a razão como o poder, ao alcance de todos, de julgar de forma correta e discernir entre o verdadeiro e o falso. Deste modo, o cartesianismo também impôs a lógica do “ou isso, ou aquilo” na forma de entender o mundo. O racionalismo de Descartes, associado à racionalidade instrumental disseminada no sistema produtivo e na sociedade ocidental de um modo geral, moldou o pensamento dos indivíduos. Neste sentido, as dicotomias entre indivíduo e social, corpo e mente, discurso e representação, atitude e comportamento são exemplos das inúmeras possibilidades de cindir o pensamento (JOVCHELOVITCH, 2004). A revolução industrial, na segunda metade do século XVIII, foi um processo histórico fundamental no sentido de marcar o que viria a ser a razão na modernidade. Nesse período, o sistema econômico passou por profundas transformações com a introdução das máquinas industriais nas fábricas, a divisão do trabalho e o processo de produção em série, visando o aumento da produtividade. A lógica da racionalização otimiza os meios com minimização dos custos para gerar aumento de produção e, consequentemente, o lucro,base do capitalismo. Desta forma, concretiza-se o nascimento do pensamento moderno, regido por uma racionalidade - instrumental ou técnica - que enfatiza os fins práticos a partir da conveniência dos meios (WEBER, 1982). Para conceituar racionalidade, Wertsch (1993) se apóia em Weber (op. cit.), que a vê como uma noção que surge nas modernas sociedades tecnológicas em diversas esferas de ação social e que serve como ferramenta para analisar a atividade econômica capitalista, a lei privada burguesa e a autoridade burocrática. A reflexão já produzida por vários autores sobre a formação de professores (MARANDINO, 2003; SCHNETZLER, 2000; PÉREZ GÓMES, 2002) tem apontado e criticado o predomínio do modelo de formação no qual o professor é concebido como técnico, e sua atividade profissional como aplicação de teorias e técnicas na solução de problemas, ou seja, dirigida por uma racionalidade instrumental ou técnica. Neste sentido, Delizoicov et al. (2007) criticam o caráter tecnicista das Diretrizes Curriculares para o curso de formação de professores nas quais o docente é concebido como um reprodutor de conhecimentos, cuja prática sustenta-se numa didática instrumental. Reconhecendo que os atuais cursos de formação de professores impõem saberes em um movimento de reforma de ensino moldados pela racionalidade técnica, Villani e Freitas (2002) culpabilizam essa concepção de formação pela dificuldade de mudar o ensino, por não levar em conta os saberes dos professores, sua experiência e o contexto no qual eles ensinam. Inversamente do que poderia ser esperado, esta imposição provoca resistência à mudança, o que impede, na maioria das vezes, que os professores busquem soluções para os problemas do ensino. Na direção oposta á racionalidade técnica, Tardif (2000) aponta a epistemologia da prática profissional, cuja finalidade seria revelar os saberes que englobam “os conhecimentos, as competências, as habilidades e as atitudes, aquilo que muitas vezes foi chamado de saber, saber-fazer e saber-ser” (p. 11), visando compreender a natureza desses saberes, assim como o papel que desempenham tanto no processo do trabalho docente quanto na identidade profissional dos professores. Na linha da razão prática, a valorização da reflexão no processo de formação profissional é alvo do pensamento de Schön (2000), que entende o conhecimento profissional enquanto um processo no qual um resultado inesperado pode levar à reflexão (reflexão-na-ação), que tem uma função crítica, questionando a estrutura de pressupostos do ato de conhecer-na-ação. O que diferencia este tipo de reflexão de outras é a sua imediata significação para a ação. É peculiar o fato de que no processo de reflexão-na-ação as “apreciações e crenças estão enraizadas em mundos construídos por nós mesmos, que viemos a aceitar como realidade” (SCHÖN, 2000, p. 39) e não a idéia de simples aplicação de teorias e técnicas derivadas de pesquisa científica à solução de problemas da prática. A partir desta concepção, o processo de formação se dá por meio de uma conversação reflexiva que ao contrário do modelo da racionalidade técnica, não se baseia nas dicotomias entre meios e fins, pesquisa e prática, fazer e conhecer, já que a prática assemelha-se à pesquisa, os meios e fins são concebidos de forma interdependente nos problemas, assim como o conhecer e fazer são inseparáveis. No entanto, a troca de experiências e reflexões no grupo social de professores pode ser mais rica e eficiente que a reflexão na ação realizada individualmente. Essa crítica tem por base pensar o espaço social em que essa ação se legitima a partir da razão comunicativa (HABERMAS, 1988), enquanto presença dialógica e argumentativa nos contextos interativos, em contraposição a razão instrumental. Deste modo, por meio da ação comunicativa, que envolve a linguagem, assim como a ação de tipo não- discursivo, é possível analisar as manifestações nas práticas cotidianas, nas instituições sociais e nas estruturas informais do mundo vivido, conceito este, definido por Habermas (op.cit.), como uma das esferas da sociedade que corresponde ao mundo da reprodução simbólica e da interação. No mesmo tom de contraposição à racionalidade técnica, surge o conceito de racionalidade crítica, proposto por Contreras (2002), que vem para ampliar a questão da reflexão sobre a ação educativa. Acrescentando um viés crítico ao contexto em que tal ação ocorre, conduz os professores a questionarem sua concepção de sociedade, de escola e de ensino. Nessa perspectiva, os professores participam tanto da construção do conhecimento teórico quanto da transformação do pensamento e da prática social. Dessa forma, o professor deve “desenvolver um conhecimento sobre o ensino que reconheça e questione sua natureza socialmente construída e o modo pelo qual se relaciona com a ordem social, bem como analisar as possibilidades transformadoras implícitas no contexto social das aulas e do ensino” (CONTRERAS, op. cit. p.157-158). Na seção seguinte apresentamos uma revisão preliminar da literatura recente sobre formação de professores das ciências na qual será possível identificar como os autores têm construído propostas formativas, tentando assim avançar para além da racionalidade técnica e, neste processo, se apropriando de concepções diferenciadas de racionalidade. PERSPECTIVAS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES DAS CIÊNCIAS Nesta seção apresentamos resumidamente propostas de formação inicial e continuada de professores, mapeadas em periódicos nacionais representativos da área de Educação em Ciências à luz da discussão anterior. Gatti et al. (2004) apresentam o planejamento de um curso sobre atração gravitacional, voltado principalmente para docentes de Física que atuam no ensino médio, com o objetivo de “estudar como a evolução histórica dos modelos de atração entre corpos, tendo como pano de fundo a evolução dos modelos de mundo, pode auxiliar na formação inicial do docente de Física” (p. 493). A questão da racionalidade na formação não é abordada de forma explícita no trabalho. Entretanto, é possível observar, a partir da metodologia apresentada pelos autores, uma preocupação com a relação comunicacional que precisa ser estabelecida para que as atividades propostas realmente se constituam em algo inovador, no sentido de um avanço em relação às propostas tradicionais. Deste modo, embora os autores não se refiram diretamente à razão comunicativa de Habermas (op.cit.), é possível inferirmos que a proposta prioriza a relação comunicacional, procurando olhar a contribuição da discussão histórica proposta para o processo de ensino-aprendizagem escolar. Lôbo (2007) explicita a discussão sobre racionalidade ao apresentar alguns conceitos da epistemologia bachelardiana e se propõe a discutir a contribuição desses conceitos “para o ensino e a formação do professor, com destaque para a noção de perfil conceitual de Mortimer e sua utilização como recurso didático no ensino de ciências” (p.89). Nesta perspectiva, o artigo faz uma discussão de caráter histórico sobre a ciência Química, no que diz respeito ao rompimento com o racionalismo formal e abstrato e com o materialismo arraigado ao fenômeno, o que para Bachelard (1977; 1991; 1996 apud LÔBO, 2007) corresponde ao materialismo ingênuo e apresenta o que seria a Química contemporânea, na qual se tem a superação na direção de um racionalismo aplicado e um materialismo instruído. Estabelecendo uma relação com a formação docente, a autora apresenta as idéias de Bachelard (1977; 1991; 1996 apud LÔBO, 2007) em consonância com a proposta de Schön (2000) sobre formação reflexiva, trazendo ao diálogo autores como Zeichner, Nóvoa, Maldaner (1993; 2002; 2000 apud LÔBO 2007). Fica clara a posição da autora em defender a ação e reflexão como contraposição à racionalidade técnica, trazendo a contribuição da epistemologia bachelardiana tanto para os processos de ensino quanto para os de formação.Visando ao desenvolvimento de um ambiente virtual construtivista para a formação continuada de professores de Física e de Matemática do nível médio, Rezende et al. (2004) apresentam um levantamento de problemas da prática pedagógica de professores da escola pública Esses problemas são propostos para reflexão do professor objetivando o desenvolvido do conhecimento profissional. As autoras criticam a questão da racionalidade técnica na formação docente com base em Schnetzler (2000) e em Schön (2000), e apontam a necessidade da integração das contribuições teóricas da pesquisa acadêmica aos problemas envolvidos na prática, de modo que se possa refletir sobre essa prática e agir de forma a produzir reformulações teórico-práticas. Longhini e Hartwig (2007) relacionam a formação e prática na perspectiva de “um processo de parceria entre um professor com experiência profissional docente e um professor aspirante, tendo o pesquisador como mediador” (p.435). A discussão sobre os saberes docentes, com base em Borges e Tardif (2001, apud LONGHINI E HARTWIG, 2007) e Shulman (1987, apud LONGHINI E HARTWIG, 2007), fornece argumentos para analisar os processos de formação e profissionalização do professor. O referencial teórico utilizado pelos autores remete à epistemologia da prática e, portanto, a um olhar crítico à racionalidade técnica. Chaves e Farias (2005) reportam a análise de como os professores compreendem situações de aprendizagem em Educação ambiental. A crítica à racionalidade técnica permeia o artigo em vários momentos, porém se apresenta mais claramente na conclusão dos autores de que embora o professor possua uma compreensão crítica da Educação Ambiental, “as situações de aprendizagem relacionadas com a temática ambiental acabam, ainda, muitas vezes, mantendo suas bases fixadas no modelo tradicional de educação” (p.70), ressaltando, ainda, que os professores não se sentem preparados para atuarem interdisciplinarmente considerando a atual formação que possuem. Procurando articular a formação continuada e inicial a partir do estabelecimento de relações entre universidade e escola, as quais refletem os saberes profissionais que são incorporados à prática (TARDIF, 2000), Barcelos e Villani (2006) apresentam uma experiência de formação continuada com professores do ensino fundamental, que envolveu também licenciandos de um curso de Ciências Biológicas. Ao trazer a dimensão da subjetividade (KAËS, 1997 apud BARCELOS E VILLANI, 2006) para compor a discussão, norteando as intervenções psico-pedagógicas e sociais na escola, esse tipo de proposta rejeita a racionalidade técnica em seu alicerce de construção. A proposta de Mion e Angotti (2005) consiste em estruturar um programa de investigação-ação educacional na formação inicial de professores de Física, com base na reconstrução racional da história da ciência, a partir das idéias de Lakatos (1979; 1989, apud MION E ANGOTTI, 2005). O objetivo desse tipo de estudo é a reflexão dos investigadores ativos, ou seja, os professores enquanto pesquisadores, sobre a relação teoria-prática de modo a orientar a reconstrução racional da própria prática educativa. Os autores se apóiam na concepção da teoria social crítica de Habermas para abordar a prática dos professores enquanto práxis crítica, na qual a ilustração dos agentes tenha como conseqüência uma ação social transformadora. Nesta perspectiva, a prática pode transformar a teoria e vice-versa. Os autores propõem um processo de investigação-ação na licenciatura em Física constituído por ciclos de espiral auto-reflexiva que incluem os momentos de planejamento, ação, observação e reflexão, no sentido de que nas interações esteja envolvida a racionalidade comunicativa como superação à racionalidade técnica. Linhares e Reis (2008) apresentam a descrição de uma proposta curricular para formação inicial em Física com base no construtivismo, enfatizando a necessidade de transformar o pensamento espontâneo do professor a partir da reflexão sobre problemas da prática docente. Apoiando-se em Menezes (1996, apud LINHARES E REIS, 2008) e Nóvoa (1992, apud LINHARES E REIS, 2008), os autores defendem uma formação docente mais crítica, reflexiva, ética e investigativa que possa “elevar o patamar da qualidade na formação de professores” (p. 556). São trazidos ao diálogo, os argumentos relativos aos saberes necessários à prática docente (FREIRE, 2000 apud LINHARES E REIS, 2008), as necessidades formativas do professor de Ciências (CARVALHO E GIL-PÉREZ, 2001 apud LINHARES E REIS, 2008), o conhecimento profissional do professor (PÓRLAN E RIVERO, 1998 apud LINHARES E REIS, 2008) e o perfil do profissional prático-reflexivo (SCHÖN, 1992 apud LINHARES E REIS, 2008), justificando uma aproximação entre prática docente e pesquisa. É possível afirmar que esse estudo, ao visar à implementação de inovações curriculares com tais características na formação inicial, tem como referência a racionalidade prática. Oliveira e Passos (2008) têm como objeto de investigação a formação docente e sua relação com os materiais de ensino. Os autores analisam a contribuição da construção de livros com conteúdo matemático pelos professores em serviço visando ao desenvolvimento profissional. A construção de materiais de ensino por grupos colaborativos de modo a desenvolver a autonomia, o espírito crítico e a solidariedade é entendida como uma atividade relevante para superar uma concepção alicerçada no tecnicismo pedagógico. Essa proposta se apóia em Tardif (2002, apud OLIVEIRA E PASSOS, 2008), ao incluir o saber docente na interface entre o individual e o social, por meio da análise de categorias como o saber e o trabalho, a diversidade do saber, a temporalidade do saber e a experiência e em Gatti (2003), ao tratar o caráter social do conhecimento. A visão dos alunos sobre o processo de aprendizagem na disciplina Biologia Educacional de um curso de Pedagogia foi levantada por Chudo e Sonzogno (2007), para investigar de que modo as estratégias metodológicas facilitaram e/ou dificultaram esse processo. A partir dos resultados os autores pretenderam desenvolver e avaliar uma intervenção pedagógica que contemple a participação do aluno, a aproximação da realidade pessoal, familiar e profissional, maior interação aluno-aluno e professor– aluno, participação em atividades lúdicas e significativas e que exijam reflexão e crítica. Os autores se apóiam em Freire (1996, apud CHUDO E SONZOGNO, 2007) para justificar a predominância do discurso dialógico e da necessidade da contextualização do tema, buscando a proximidade com o cotidiano dos alunos, desenvolvendo o senso crítico através da reflexão sobre as questões abordadas. Apesar de não o declararem explicitamente, a proposta dos autores se aproxima da racionalidade crítica (CONTRERAS, 2002), uma vez que visa à formação de docentes capacitando-os para pensar e agir criticamente, enfatizando o diálogo e a reflexão. Nascimento et al. (2008) traz como questão central para discussão, o trabalho do formador de teorizar idéias intuitivas dos licenciandos em Física, promovendo a construção de uma racionalidade científica necessária para a prática docente. Para tal, os autores sugerem integrar conhecimentos de ordem procedimental, destacando o papel do formador de “auscultador” através dos procedimentos de “enunciação e justificação de pontos de vista contraditórios” e o de “sumarização de idéias discutidas anteriormente” com “conhecimentos próprios da validação in loco dos argumentos produzidos em sala de aula” (p.182). Dada a ênfase que a proposta atribui ao discurso, julgamos que a mesma se aproxima de uma racionalidade comunicativa. Mendes e Munford (2005) discutem a relação entre pesquisa e prática docente, propondo a prática de ensino como um espaço de pesquisa para romper com a dissociação entre teoria e prática encontrada nos currículos de formação inicial. As autoras apontam a noção deprofessor enquanto transmissor como uma das representações bastante freqüentes em relação ao trabalho do professor do ensino básico. Ao proporem discutir a relação entre a pesquisa em educação e a prática de ensino, as autoras entendem que os problemas investigados pela academia resultam em respostas consideradas boas para a academia e não para a escola real (LUDKE, 2001 apud MENDES E MUNFORD, 2005). O trabalho defende a pesquisa como princípio educativo e formativo, por conceber os professores como “produtores de conhecimento que encontram no espaço escolar o lugar de direito para a vivência, discussão, reflexão e aplicação dos seus saberes, sejam estes disciplinares, pedagógicos, experienciais ou de outra natureza” (p.14), visão essa que se aproxima do modelo de racionalidade prática defendida por Schön (2000). Com o objetivo de analisar como é trabalhada a relação teoria-prática na dinâmica do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas e as conseqüências da abordagem essencialmente prática na formação dos professores nele graduados, Teixeira e Oliveira (2005) cruzaram as ementas de algumas disciplinas desse curso com os dados obtidos por meio de questionários submetidos a professores, alunos e ex- alunos, a fim de contribuir para a construção de um currículo mais coerente com a realidade da sala de aula. Ao questionar a eficiência da aprendizagem a partir de abordagens essencialmente práticas e refletir sobre as disciplinas do referido curso que dão ênfase a atividades instrumentais, sem articulação com os conteúdos das disciplinas teóricas desse curso, as autoras acreditam, respaldadas pela literatura da área de Educação, que “os cursos de formação de professores deveriam fornecer uma fundamentação teórica associada a uma instrumentalização técnica” (p.2). As autoras discordam de abordagens essencialmente práticas (SCHÖN, 1992 apud Teixeira e Oliveira, 2005) que, segundo elas, impõem uma visão dissociativa entre teoria e prática e concordam com a visão de unidade (CANDAU e LELIS, 1999 apud TEIXEIRA E OLIVEIRA, 2005). Nessa concepção, teoria e prática são dois componentes indissolúveis da “práxis” definida como atividade teórico-prática. Com este estudo, elas constataram como uma das causas dessa dicotomia a falta de diálogo entre o Instituto de Ciências Biológicas e a Faculdade de Educação, que acarreta um currículo fragmentado e pouco coerente com a realidade de sala de aula. O estudo de Chapani (2008) também teve como objeto o curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, tendo como propósito entender as relações estabelecidas entre a prática docente e os conhecimentos constituídos em um processo de formação acadêmica em serviço. O autor assume como referencial teórico os atuais modelos relacionados à formação docente que se fundamentam nas racionalidades técnica, prática e crítica. Com base nesse referencial, os resultados obtidos mostraram que o objetivo de formar professores reflexivos, autônomos, não foi plenamente alcançado porque os docentes continuaram dependentes de uma fonte externa capaz de lhes suprir de conhecimento pronto. O estudo conclui que “embora o curso tenha se embasado em um modelo formativo da racionalidade prática, continuou presente, entre os participantes, uma concepção de formação docente amparada na racionalidade técnica” (p. 15). Pechliye e Trivelato (2005) investigaram a prática de professores de ecologia. O artigo apresenta a preocupação de alguns autores Zeichner, Contreras, Pimenta (2000; 1997; 1999, apud PECHLIYE E TRIVELATO, 2005) com o uso e o significado do termo reflexão para não ser usado apenas como uma tendência forte na pesquisa sobre formação de professores. Apoiando-se em autores como Dewey (apud PECHLIYE E TRIVELATO, 2005), Schön (2000), Pereira (1999, apud PECHLIYE E TRIVELATO, 2005), as autoras defendem “a epistemologia da prática, que é a base para reflexão, como a união entre a teoria e a prática de maneira que elas se retroalimentam” (p.4). Concluem afirmando que a sala de aula por ser um espaço não rotineiro e imprevisível, oferece oportunidades e ferramentas para que as reflexões sobre a prática e sobre o processo de ensino-aprendizagem seja um grande investimento na formação tanto inicial quanto continuada dos professores. O trabalho de Diniz e Campos (2004) avalia uma proposta de formação inicial centrada em um modelo investigativo-reflexivo para professores de Ciências e de Biologia. Os autores se propuseram a analisar os saberes profissionais dos licenciandos, as relações que são estabelecidas entre esses saberes e a ação pedagógica, os limites e possibilidades do modelo proposto. O estudo indicou que os alunos atingiram níveis de reflexão diferenciados e detectou um predomínio da racionalidade técnica na formação inicial, o que torna complexo e limitado o processo de apropriação e desenvolvimento de uma postura reflexiva sobre a profissão docente. CONSIDERAÇÕES FINAIS A revisão dos artigos mostrou que a crítica à racionalidade técnica parece ter sido assimilada pelos pesquisadores da área de Educação em Ciências. No âmbito da formação de professores, essa crítica tem dado margem a novas formulações, apoiadas em diferentes concepções de racionalidade que se apresentam como alternativas mais adequadas, ao compreenderem a prática educacional como um fenômeno sociocultural que envolve relações humanas singulares e momentos de incerteza que escapam à racionalidade técnica. No contexto da prática docente, alguns estudos mostram as dificuldades encontradas no processo de superação dessa concepção que podem indicar um círculo vicioso, pois estão ligadas ao “modelo” de racionalidade técnica da formação inicial ou continuada (neste caso, merecem especial atenção os cursos de mestrado profissional em ensino, que estão em crescimento acelerado na área de ciências) que leva futuros professores ou professores em serviço a perceberem a prática docente como domínio de conteúdo específico e quando muito, de teorias pedagógicas que devem ser corretamente aplicados. Como esperar do professor uma prática calcada na racionalidade prática, na reflexão-na-ação, na racionalidade comunicativa ou crítica se constatamos nas salas de aula dos cursos de formação discursos de autoridade como extensão do poder conferido à própria Ciência? Como esperar uma presença dialógica e argumentativa do professor das ciências quando ele não experimenta essa prática durante a formação? Como esperar a reflexão, posicionamento e preparo para enfrentar problemas ligados a realidades educacionais específicas ou a uma realidade educacional e social mais ampla que escapam à lógica de simples aplicação de teorias e técnicas se este tipo de reflexão está ausente da formação? Mas, se alguns trabalhos apontam propostas alternativas práticas, isso significa que o processo de mudança é possível e que já está ocorrendo em algumas instituições. Apesar das dificuldades apontadas, são inegáveis as contribuições dos estudos revistos enquanto representem tentativas potencialmente relevantes em termos de superação do reducionismo técnico. Da mesma forma, acreditamos que a identificação de avanços teóricos e práticos no contexto do presente estado da arte também represente uma contribuição no sentido de levar ao rompimento da racionalidade técnica enquanto ferramenta cultural tanto na formação quanto na prática docente dos professores das ciências naturais. REFERÊNCIAS BANET, E. 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